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Vampiro A Máscara - Revelações da Mãe Sombria

Vampiro A Máscara - Revelações da Mãe Sombria

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Sementes do Jardim do Crepúsculo

Compilado por Rachel Dolium

A primeira vez que provei o fruto das Árvores
senti as sementes da Vida e Conhecimento
queimar dentro de mim
Jurei nesse dia que não voltaria atrás.
- Do Juramento de Lilith

© 1998 White Wolf, Inc. Todos os direitos reservados. Todos os personagens,
nomes, lugares e textos mencionados neste livro são propriedade intelectual da
White Wolf, Inc. A reprodução sem permissão escrita do editor é expressamente
proibida, exceto para o propósito de resenhas, e das planilhas de personagens, que
podem ser reproduzidas para uso pessoal apenas. White Wolf, Vampiro: A
Mascara, Vampire: Dark Ages, Mago A Ascensão e o Mundo das Trevas são
marcas registradas da White Wolf Publishing, Inc. Todos os direitos reservados.
Trinity, Lobisomem o Apocalipse, Wraith the Oblivion, Changeling o Sonhar, Werewolf the Wild West,
Hierarchy, Livro do Clã Lasombra, Livro do Clã Capadócio, Livro do Clã Baali, Black Dog Game Factory, Dark
Ages Companion, Dark Ages Storyteller Secrets e Constantinopla by Night são marcas registradas da White
Wolf Publishing, Inc. A menção de qualquer referencia a qualquer companhia ou produto nessas paginas não são
uma afronta à marca registrada ou direitos autorais dos mesmos.
Este livro usa o sobrenatural como mecânica, personagens e temas. Todos os elementos místicos são fictícios e
direcionados apenas para diversão. Recomenda-se cautela ao leitor.
Dê uma olhada na White Wolf on-line:

www.white-wolf.com; alt.games.whitewolf e rec.frp.storyteller

IMPRESSO EM SUA CASA ;P

Créditos Originais

Título Original: Revelations of the Dark Mother
Autores: Phil brucato, Rachelle Udell
Desenvolvimento: Robert Hatch
Editora: Janice Sellers
Diretor de Arte: Aileen E. Miles
Layout e Tipagem: Aileen E. Miles
Arte Interior: Rebecca Guay, Eric Hotz, Vince Locke
Design de Capa e Contracapa: Aileen E. Miles

Créditos da Tradução

Tradutores:

Tarsila, Renata Marques e Ideos
Revisores: Tarsila, (Ark)Mahasian, Folha
do Outono e Ideos
Diagramação: Ideos

Gothmate, (Ark)Mahasian,

Mensagem aos Leitores

Este livro foi feito por diagramadores, tradutores, revisores, divulgadores
(vocês são indispensáveis!) e críticos (que nos fazem melhorar!) que mesmo
não sendo especialistas nas atividades que exercem dentro do projeto,
doaram um pouco do seu tempo para tornar seu cenário favorito de RPG
mais rico.

Provavelmente você tem um computador para estar lendo isso,
talvez com internet para te baixado e quem sabe até uma impressora para te-
lo impresso, porem lembre-se que há pessoas no NOSSO Mundo Real que nada tem e apenas precisa do mais
simples. No capitalismo, trabalho é dinheiro, mas nós não queremos a grana de vocês, então o que custa ajudar a
quem realmente precisa? Ajude sempre que puder, pois esse será o nosso maior pagamento e, ver que podemos
mudar o mundo a nossa volta, será a nossa maior recompensa.
Somos a favor do direito autoral, por isso SEMPRE PUBLICAMOS OS CRÉDITOS ORIGINAIS

nas nossas traduções.

Somos contra o papo besta de "se tivesse um preço justo todos poderiam ter", o autor não tem culpa da
nossa extorsiva carga tributária e de nossa má remuneração pelo nosso suor. Então, NÃO VENDA este
documento, seja virtual ou impresso. TRADUÇÃO GRATUITA SIM, PIRATARIA NÃO!
Mudaremos o mundo pouco a pouco. Então por que não se une a nós para fazermos à diferença?

Equipe Movimento Anarquista

www.movanarquista.multiply.com

Agradecimentos

(Música cívica, tocada em uma vitrola, tipo A Voz do Brasil)
Senhoras, Senhores e... bem... e........(gesto abragente)

Aqui vos apresento o fruto do trabalho árduo de muitas pessoas.
Mais uma tradução se finda e temos aqui, em nossa língua, mais um livro que nos auxiliará no

caminho do jogador de RPG...

(Disco arranha. Barulho de vitrola quebrada).

Bem, pessoal. Deixa pra lá o discurso de movimento das massas de 1950. O Ideos pediu que
escrevesse qualquer coisa pra colocar nos agradecimentos do livro, já que eu estava coordenando e
talz...

Meu primeiro impulso foi mandar uma folha do Word escrita "QUALQUER COISA" em
letra 72. Mas sabendo que o Ideos era muito capaz de colocar isso no livro, e como deu muito trabalho
o bichim, resolvi tentar fazer algo decente.

Eu e esse livro meio que nos encontramos. Estava eu querendo entrar nesse negócio de
tradução, tinha achado a página no multiply. Mandei um recado e todo mundo me esnobou legal. Na
segunda tentativa (não, eu não tenho vergonha na cara XD), o Folha disse: "Vá pra comu do orkut, vá
ver que tem coisa pra fazer lá". Lá, achei um tópico legal: "Revelation of the Dark Mother", posto e o
que aconteceu? Nada. Aí fiquei maluca: "Puta merda, quando acho um projeto, ninguém responde".
Postei perguntando como é que era, se já era ou se já tinha ido... e descobri que o projeto tava
moribundo. Foi quando o Ideos perguntou se eu não queria coordenar. Eu disse "Claro!" Mas por
dentro tava: "Maluuuuucaaaa!!! olha onde tu vai amarrar teu bode!". Estava certa. Meu bode ficou
amarrado no sol, o coitado.

No entanto, contudo, todavia, não obstante, depois de muita pestana queimada ele está aqui.
Traduzido. Mas preciso dizer que nunca teria saído sem o pessoal da comu: desde o primo Ideos (que é
malkav - eu sou filha da cacofonia, e considero mentor) que diagramou e traduziu um ciclo e revisou
outro... até o Adrian que não deixou o tópico cair... toda vida postava alguma coisa periodicamente,
algum comentário, ou outra coisa engraçada que fazia que eu não me sentisse tão na merda (já que
todo mundo sumia quando ia cobrar). Muito obrigada também (Ark)Mahasian que era um poço de
paciência e presteza quando eu chegava e pedia "ei, revisa meio livro pra mim até o fim da semana?",
mesmo estando ocupado com o livro Tremere. Valeu Gothmate por guardar seus arquivos (a intro foi
a única parte recuperada da primeira tentativa de tradução). Valeu Renata pelo terceiro ciclo.

Valeu também o pessoal que não conseguiu/pôde ajudar pelo motivo que seja...

Então... tá bom de discurso de miss universo! Vão ler o livro que tá muito massa!

Paz e Vida Próspera.

Conteúdo

Prefácio: Retirado das Raízes - 06

Notas sobre este Livro - 16
Os Três Ciclos de Lilith - 17
Os Bahari 19

Primeiro Ciclo: O Livro da Serpente - 34

O Juramento de Lilith - 35
O Fragmento do Gênesis - 39
Notas - 64

Segundo Ciclo: O Livro da Coruja - 70

O Jardim da Meia Noite - 71
A Cerimônia de Caim - 95
O Lamento por Lúcifer - 102
Notas - 104

Terceiro Ciclo: O Livro do Dragão - 108

Maldição: Rainha dos Infernos - 109
Lamias: Notas da Inquisição - 114
Coruja, Gato e Serpente - 117
As Marés Crescentes - 122
Notas - 125

Prefácio:
Retirado
Das Raízes

Por Rachel Dolium

06 Revelações da Mãe Sombria

De novo e de novo, ouço dois sons. Quase sussurros, silenciosos e
sibilantes, como o silvo da língua de uma serpente. Lilith. Uma voz grasnada
como de uma coruja tremendo à luz da aurora, esmagada no limite da
sanidade, roubando o ar de crianças e surrupiando a semente dos que
sonham. O toque de toda vergonha, os dentes brilhantes de um amante
nada admitirá além de desejo. A Rainha Sombria se levantará para anunciar
o fim do mundo.

Eu a vi. Você a viu. Um culto de devotos celebram seu exemplo, e um
sem número de livros, panfletos, canções, escrituras e tratados foram criados
para amaldiçoar, divinizar ou defini-la. Até mesmo os mortais gostam da
Justiça de Lilith, na qual as mulheres supostamente deixam de servir e
definem sua feminilidade em canções. (Um conceito interessante, quando
você presta atenção: um playground cheio de hippies cantando canções em
nome de Lilith).

De acordo com a lenda dos rabinos e o testamento esquecido de Ur e
Babilônia, Lilith foi a primeira mulher, à esquerda de Adão, que cresceu
como ele, carne de sua carne. A seu lado, Eva, a “mãe de todos”, torna-se um
pálido espectro. Como parte da Criação original, Lilith possuía magia por
direito e aprendeu grandes Artes. Obviamente, ela se considerava igual a
Adão; que como a maioria dos homens, via de maneira diferente. Quando
ele a estuprou, Lilith apelou Àquele nas alturas, que a retirou do Éden e a
lançou em um mundo ainda em formação. Nesse ponto, é dito, ela se tornou
um demônio vingativo, matando crianças, roubando sementes e
emboscando homens virtuosos.
Sua história não é, digamos, uma história desconhecida.
Na cultura de Caim, nosso tão amado senhor, Lilith tornou-se a mãe
que o ensinou as artes da noite.

Impiedosa, ela o abrigou
quando Deus e o homem o
baniu. Sua recompensa foi ser
demonizada como “Mãe
Sombria”; por 13 gerações, as
crias de Caim conspiraram
contra ela, da mesma forma que
os mortais.

Encantos foram criados,
caçadas de sangue iniciadas e
linhagens inteiras foram
destruídas em nome de uma
campanha genocida.
Algumas pessoas, que
reverenciam as habilidades
lendárias dessa mulher, sentem-
se compelidas a saber, “será que
ela é real?” como se esse
conhecimento os garantisse uma
súbita visita.

Outros querem saber, “O que
ela é? Uma vampira? Uma
Magus? Alguma deusa ou
criatura abençoada pela lua?” só
posso afirmar que
Lilith
É
Lilith
... e ela não será forçada a
nenhuma classificação
arbitrária.

Lilith é real? Alguns
perguntariam a mesma coisa
sobre Jesus de Nazaré, ou Moisés,
ou Gautama Buddha ou milhares
de outras figuras históricas as
quais suas imagens causam tanta
devoção e terror.

Retirado das Raízes 07

Se você está perguntando “Você pode provar que Lilith caminhou sobre
a Terra?” minha resposta é não. Não posso lhe mostrar um esqueleto ou
pegadas ou uma lista de estatísticas dizendo, “Isto é Lilith”. Devo notar,
contudo, que tudo é possível nesse mundo estranho ao qual pertencemos, e
essa mitologia tem um meio esquisito de te enganar quando você menos
espera e enterrar seus dentes no seu pescoço.
Nas palavras de nossos anciões, Lilith representa um grande perigo.
Seus cultos, quando foram encontrados entre nossa espécie, foram extintos
com a sensibilidade que atribuímos à nossa raça fratricida. Nossas
“escrituras sagradas” (tão ardorosamente codificadas pelo estimado
Aristotle de Laurent) a veste com dois mantos diferentes: a mentora
caridosa do nosso senhor, e a “rainha sombria” que ele enfrentará no fim dos
tempos. Quão apropriado uma mãe que sustenta e uma prostituta
demoníaca.

Crédito demais para os poderes transformadores do Abraço.
A lenda de Lilith é a lenda de todos nós; falo não somente de minhas
irmãs da escuridão, mas de todos os Membros. Como ela, nós recebemos
uma herança proibida, a consumimos e nos tornamos como deuses,
superiores a tudo aquilo que um dia fomos. Como ela, sofremos com a
transformação, tornando-nos párias mesmo entre nossas crias. Como ela,
estabelecemos domínios apenas para vê-los tomados por aqueles que
ensinamos. E como ela, tivemos que nos esconder na escuridão, nos unindo
e gritando desafios contra os olhos noturnos antes de podermos provar da
fruta que comemos.

Irônico, então, que ela seja tão odiada.
Isso tem haver, eu suspeito, com o legado do aprendiz de Lilith: Caim,
senhor de toda a nossa espécie. Ele que Abraçou a Noite, ainda assim nos
passou uma litania de proibições que cada um de nós enfrenta todas as noites
de nossa existência uma coleção de regras antiquadas baseadas na
superioridade dos anciões e na santidade de sua eterna sabedoria. Essas leis,
assim nos foi contado, são essenciais para nossa sobrevivência; ao nos
defrontar com uma variedade de inimigos mortais ou outra coisa, nós
necessitamos de um código de conduta para nos sustentar. E quem melhor
para falar dessas coisas do que nosso Grande Pai Sombrio?
Que melhor inimigo que sua contraparte, a sedutora, mãe incestuosa
que incontáveis gerações aprenderam a temer? Quão boas são as proibições
sem uma punição? Melhor ainda, como nossa espécie continua
reverenciando as leis de Caim se esse senhor existe na sombra Daquela Que
o Tirou da Poeira?

08 Revelações da Mãe Sombria

O que teria acontecido, eu me pergunto, se tivéssemos jogado as leis
de Caim no mar e seguido nossos instintos, como nossa Mãe nos ordenou?
Haveria caos, dizem nossos anciões, e eles devem estar certos. Mas há
sabedoria no caos. O Sabá sabe muito bem disso, e sucumbem aos prazeres
da desordem ao invés de aprender com ela. Os magi também o conhecem;
pelo que vi ao longo dos anos, suas constantes brigas internas por
discordância sobre o nível de caos necessário para se conseguir iluminação.
Nós Membros somos seres emocionalmente caóticos. Apesar de
admitir minha falta de experiência no estado dos mortos-vivos, tenho de
confessar que parecemos estáticos e intelectualmente obtusos, opacos
como um ankh prateado e sem cor, que já foi usado por vários donos, onde
cada um acha que sabe o que é melhor para nossa espécie. Sobrecarregados
com o peso dos clãs e Caim, nós perambulamos sob a sombra de alguma
Gehenna mítica. Numa noite próxima, assim nos foi dito, fantasmas
ancestrais virão, chutarão alguns traseiros e se alimentarão com um longo
banquete de almas.

Essa é nossa lei. E nos consideramos senhores da noite? Melhor usar
aquele tratamento absurdo muito usado, crianças da noite. Deus sabe como
de vez em quando agimos dessa forma. Enquanto nos curvamos ao trono de
algum ancestral egocêntrico (que pode ou não ser pura mitologia) e seu
falso principado permanece, a Mãe Sombria nos invoca a renunciar as
regras que nossos pais criaram. Caim criou leis que nem mesmo ele toleraria;
ele próprio reconhece, sua anciã Lilith lhe disse para tomar a Fruta-de-
Tântalo que possuía poder sem igual. Ele não o fez, e conseguiu grandes
coisas. Não deveríamos fazer o mesmo? Claro!
Estou falando heresias? Bom! A verdade sempre soa herege, e os que
mentem sempre tentam manter a mentira enterrada. Perdida. Proibida.
Punida com a morte. Mas sem a brilhante verdade herege, sem a
marretada nos pilares da ordem, estamos acorrentados como pit-bulls ou
poodles nos pés de nossas mesas.
Sim, mesmo nós “senhores da escuridão”: Nós, talvez mais que todos,
estamos aprisionados pela nossa própria imortalidade. Somente um imortal
pode ser escravo por tantas vidas mortais.
Lilith é a antítese da escravidão. Seja livre, ela diz, e sofra. Oh, sim. A
Mãe Sombria está relacionada ao sofrimento. Ela sofreu, suas crianças
sofreram, seus devotos sofreram, e eu sem dúvida sofrerei por me atrever a
expressar isso em palavras.

Retirado das Raízes 09

Posso ver os pergaminhos com meu nome escrito com vitae, jogado
nas chamas para representar uma dezena merda, milhares de caçadas de
sangue. Já desisti da esperança de ser imortal. Alguma manhã, não muito
distante, o sol me levará para sempre. Meus algozes, se vangloriando por um
serviço bem feito, voltarão às mesas de seus senhores, se gabando com
algumas notas e continuarão seus caminhos, convencidos de que aquela
noite durará para sempre ou ao menos até a Gehenna. E estarei rindo de
vocês por todo o caminho para o Inferno. Pois no meu sofrimento, terei
chegado à compreensão que meus assassinos jamais conhecerão. E essa
compreensão me libertará.
Somente através da dor podemos abrir nossos olhos.
Entrei no jardim de Lilith numa busca pelo meu senhor. Determinada
a expor os seguidores de Lilith (hoje conhecidos como Bahari) frente ao
altar de nossa estimada Camarilla, eu mergulhei em um oceano de
conhecimentos perdidos. Meu prêmio: o cobiçado “Ciclo de Lilith” descrito
por M. de Laurent e, claro, uma gorda recompensa do meu criador.

10 Revelações da Mãe Sombria

Entenda, eu vi o que muitos dos nossos anciões não viram: essa é a
maneira de Lilith se esconder em plena vista. Em canções, em livros, nas
caçadas políticas e em arruinadas catedrais da sociedade humana. Nossos
anciões são muito estáticos, muito antigos, para verem os sinais. Não
compreendem a imensidão da cultura moderna, e assim as canções de Lilith
esvaem-se por entre suas mãos inaptas. Esta inabilidade permite que as
canções cresçam a volumes cada vez mais altos, até que estas árias, então
imensas, afoguem o empoeirado coro da tradição.
Um ancião não pode ouvir as canções que eu ouço. Não pode ter as

visões que eu tive.

Lilith está entre nós. Seus devotos são uma legião; a maioria não
entende ao que servem, eles a adoram em seus altares de dor por puro
abandono este é o ponto!!! não por algumas escrituras arcaicas. Os
verdadeiros cultos a Lilith, chamados coletivamente de Bahari, são
minúsculos, sociedades infinitesimais entre os Amaldiçoados e os vivos;
mas os verdadeiros seguidores de Lilith estão por toda parte; sempre que
alguém abandona todos os medos e cruza uma selva de foras da lei, Lilith
sorri das sombras. Nessas selvas, ela sabe, eles aprenderão ou perecerão.
Normalmente ambos.
Esse conhecimento se tornou meu quando observava a festa de
horrores noturnos na TV. Seduzida, me despi das roupas civilizadas e
mergulhei no Oceano sem Fim. Na canção dos segredos das musas Bahari
(como a poetisa punk Patrícia de la Forge, a qual seu trabalho eu re-imprimi
aqui com suas bênçãos), senti a enxurrada de fé aumentando como um
ferimento em pele maltratada. Em suas unhas pontudas de loucuras
adolescentes, no vômito bulímico de uma pretensa bonequinha, nas
agulhas de heroína daqueles dos quais orações são o esquecimento, comecei
a ouvir sua suave privação. Viva. Aprenda. Sofra. E Transcenda. Como eu. E
assim obedeci.

Fui às pedras erguidas no limiar da lua cheia; dancei ao lado das bruxas
e bebi suas amargas poções; urinei nas raízes das árvores ao redor dos nossos
inimigos Lupinos e bebi o sangue de antiquários humanos. Quando
possível, verifiquei o abismo do excesso humano tortura na Bósnia, rituais
Satânicos em Berkeley, orgias de crianças na Tailândia e drogados furiosos
em Berlin tudo mentalmente anotado nas canções que nasciam em minha
cabeça sempre que eu excedia meus limites admitidamente inumanos.

Retirado das Raízes 11

Cada experiência deixava as palavras mais claras, até que pude ouvi-
las em todo lugar. Ahi hay Lilitu “Todos Saúdem Lilith”. Agora que
reconheço a privação, a vejo por todo canto nos grafites, em canções
populares, em mensagens subliminares em comerciais e encobertas nos
graciosos corpos de lindas “top-models”. Através da dor, eu me iniciei numa
sociedade surreal que pode ou não saber a devoção que professa.
Desde que descobri, não consigo ter sensações suficientes. Fui
chicoteada com tiras flamejantes, marcada com ferro (uma dor estranha
para um Membro, devo dizer!), arrastada nua por cacos de vidro e submersa
em pedras de gelo. As sensações apenas aumentaram o coro na minha
cabeça um coro tão alto que invadia meu sono diurno. Aquele coro
espantava o medo que antes havia sido minha herança Cainita; o inferno
não tinha mais horrores a me oferecer. Apesar de morta, aprendi a viver
mais livremente do que jamais vivi. Através de amigos conhecidos, peões
comandados e sacrifícios de carne e espírito, abriram meus ouvidos às
canções religiosas de Lilith. Como desejei transformar um documento dos
nossos inimigos em uma marca de ferro quente, me queimando de dentro
pra fora mesmo quando procurei transformar essas canções-de-fogo em
palavras.

Lilith quer que nós queimemos nas chamas. Para enegrecer a pele de
nossos espíritos como a dela foi queimada no deserto entre-mundos. Cair e
marcar nossos joelhos e nos confortar no nosso próprio sangue, chorando
nossas chagas. Afogando-nos nas lágrimas da danação. Pois na dor
aprendemos. No sofrimento nos tornamos mais fortes. No desafio
prosperamos, como uma planta podada pelas mãos de um jardineiro. Lilith é
a jardineira, a mãe cruel, o espinho na rosa da nossa sobrevivência. Sem a
dor, ela nos ensina, nada mais importa. Sem um grito na noite, nossas vozes
se chocam contra a tranqüilidade da eternidade.
Minha busca pela Mãe Sombria arrancou as sombras dos meus olhos e
me forçou a enfrentar aquela verdade que deixa incontáveis anciões loucos:
Nossas leis são uma mentira. Nossa existência uma piada. Nosso senhor era
um peão num jogo perdido com Deus, e o próprio Deus é um pálido reflexo
entre um breve momento de existência e um nada interminável. Lilith
compreende isso. Seus devotos (que levam o nome Bahari como tributo à
Ba'hara, o terceiro jardim construído pela Mãe Negra) compreenderam,
também. Seus descendentes, amaldiçoados como demônios e mortos há
milhares de anos, viram isso dos botões plantados em sua honra no terceiro
jardim da Rainha Negra.

12 Revelações da Mãe Sombria

Sem dor, sem mudança, a existência nada significa. Conforto é
apodrecimento. Poder é uma gota de chuva secando no calor do deserto.
Agonia é a porta de saída para o êxtase.
Lilith é nossa mãe no sentido real da palavra. Através do desafio, ela
se tornou uma deusa. Através do amor, devastou o Éden. Ela é a grande
serpente enroscada nas raízes da árvore da Vida e do Conhecimento, e seu
veneno é a amaldiçoada sabedoria através da palavra e da oratória colocada
na fruta. Apesar de sua esfera ser a lua, o toque do seu beijo é o fogo de um
napalm.

Eu confesso que esse fogo me queimou, e sou agradecida por isso. Eu
desperdicei uma pequena mas razoável quantia que consegui na minha pós-
vida, gastei-a por vaidade imprimindo 20.000 cópias desse diariozinho
tribal, e os enviando para livrarias através do mundo. Fodam-se, foda-se sua
“Máscara” patética, e foda-se a política depreciativa que guia sua existência.
Sou livre de tudo isso. Minhas noites finais serão gastas nas névoas mais
claras que já conheci. Talvez alguns sigam minha liderança.
Sei que minha existência desse ponto em diante será medida em dias
ou semanas, então escolho gastar meus pertences num presente à Mãe
Sombria. Chamem isso de lição de esclarecimento uma labareda de chamas
de um navio afundando ao alcance de seus conquistadores. É a maneira de
Lilith, que aprendi, a ensinar com dor. Deixar de lado as conseqüências
decididamente mortais de liberdade em razão de abraçar as lições que
aprendeu a caminho do esquecimento. A própria Lilith sobreviveu
assumindo-se, claro, que ela tenha sobrevivido! apenas por obra do destino,
a imortalidade de suas artes, e o abrasivo exemplo que ela deixou para
aqueles com a coragem de segui-lo. Não posso esperar fazer o mesmo, então
dou boas-vindas ao sol de coração, espírito e braços abertos.
Transforme-me em cinzas se quiser. Posso agüentar.
Ahi hay lilitu

Retirado das Raízes 13

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