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P-524 - Os Conquistadores Amarelos - Clark Darlton

P-524 - Os Conquistadores Amarelos - Clark Darlton

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(P-524

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OS CONQUISTADORES AMARELOS
Autor

CLARK DARLTON
Tradução

RICHARD PAUL NETO

Revisão

ARLINDO_SAN
(De acordo, dentro do possível, com o Acordo Ortográfico válido desde 01/01/2009)

Os calendários do planeta Terra e dos outros mundos da humanidade registram os meados do mês de fevereiro do ano 3.442. Faz mais de um ano que a catástrofe desabou sobre quase todos os seres inteligentes da Galáxia. Mas ainda não existe uma boa chance de impedir que o misterioso “Enxame” prossiga em seu vôo através da Galáxia ou reverter a manipulação da constante 5D por ele realizada, que provoca um retardamento mental na maior parte dos seres. Mas Perry Rhodan e seus companheiros imunes fazem tudo que está ao seu alcance para desvendar o mistério do “Enxame”. Com exceção de umas poucas excursões, a Good Hope II com o Administrador-Geral a bordo permanece quase sempre perto do “Enxame”, para colher informações e fazer pesquisas. Com essa atividade os terranos já conseguiram alguns resultados bastante promissores. Mas seus conhecimentos sobre os objetivos e o destino do “Enxame” e sobre os verdadeiros donos da galáxia-mirim ainda são bastante incompletos. Gucky, o rato-castor, toma uma decisão. Vai ampliar os conhecimentos a respeito do “Enxame”. Seus companheiros o previnem contra isso, mas ele se envolve numa perigosa experiência parapsíquica, entrando em contato com um velho amigo há muito desaparecido. Depois disso Gucky sai num voo, e sua expedição se encontra com Os Conquistadores Amarelos...

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Personagens Principais: = = = = = = =

Perry Rhodan — O Administrador-Geral que espera por Gucky. Gucky — O rato-castor que quer libertar um amigo. Ras Tschubai, Alaska Saedelare e Toronar Kasom — Companheiros e colaboradores de Gucky. Harno — O prisioneiro do planeta de Cristal. O Y’Xanthomrier — Uma estátua que desperta para a vida.

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A última transição levara o “Enxame” bem para dentro da Via-Láctea. Depois ele passou a desenvolver cinqüenta por cento da velocidade da luz e mudou de direção várias vezes, mas seguia para Quinto-Center ou para o centro da Via-Láctea. Não houvera mais nenhuma transição. Em compensação o “Enxame” começou a roubar sistemas solares. Do ponto de vista ótico o “Enxame” podia ser considerado uma galáxia artificial independente, que penetrava em outra galáxia, mais precisamente, na Via-Láctea, numa velocidade equivalente a cinqüenta por cento da da luz. Era formado por sóis capturados, seus planetas e um número ainda desconhecido de espaçonaves estranhas, parte das quais estava envolta em campos energéticos impenetráveis. Um campo energético muitíssimo maior, cuja produção exigia quantidades incríveis de energia, cercava todo o “Enxame”. Em sua ponta, que tinha oitocentos e vinte anos-luz de largura, ele só se abria para capturar novos sistemas solares. Estes eram acelerados aos poucos por meio de campos energéticos especiais até alcançar a velocidade do “Enxame”. O “Enxame” propriamente dito tinha onze mil anos-luz de comprimento e seu diâmetro no centro chegava a dois mil anos-luz aproximadamente. Era uma pequena galáxia artificial, criada e dirigida em seu conjunto por inteligências desconhecidas, uma gigantesca espaçonave que muito provavelmente corria de galáxia a galáxia, roubando planetas que lhe convinham para abastecer-se de matériasprimas — e dirigia-se a um destino ainda menos conhecido. Em resumo, um fenômeno nunca antes observado nestas proporções. Mas não era só. O “Enxame” era precedido por uma onda de deterioração mental provocada por uma modificação da constante gravitacional da quinta dimensão. Segundo as primeiras hipóteses, a onda de deterioração mental servia para evitar que seres inteligentes examinassem a natureza do “Enxame” ou até chegassem a atacá-lo. A hipótese parecia só ter fundamento em parte, pois certos acontecimentos levavam à conclusão de que a modificação da constante 5D só tinha uma finalidade: pôr fora de ação o imortal do planeta Peregrino! Desta forma o ser chamado Aquilo se transformou na figura-chave dos acontecimentos cósmicos. Por mais tremendos e incríveis que pudessem ser estes acontecimentos, o fato é que os resultados do aparecimento da galáxia artificial eram uma terrível realidade. Civilizações desmoronaram, impérios estelares ameaçaram esfacelar-se, alianças deixaram de ser válidas, uma galáxia inteira corria o perigo de desaparecer. E tudo isso somente para destruir um único ser vivo — isto se realmente era um ser vivo no sentido próprio da palavra... Perry Rhodan, o Administrador-Geral do Império Solar, não desistiu. Salvou Aquilo de uma situação desesperadora e resolveu não perder mais tempo. Só havia um meio de descobrir as verdadeiras intenções do “Enxame” e de seus donos: O ataque!

Não um ataque militar, porque este estaria condenado ao fracasso desde o começo. Não existia poder capaz de derrotar o “Enxame”. Só restava a astúcia. Além disso havia os mutantes. Só por isso Rhodan concordou com o plano do rato-castor Gucky, depois que este, numa experiência arriscada, estabeleceu contato com o ser energético chamado Harno. Naquele tempo as duas naves, a Good Hope II e a Intersolar, encontravam-se perto do “Enxame”. Quando Gucky acordou da rigidez cadavérica contou as experiências pelas quais passara durante o tempo em que sua mente consciente ficara separada do corpo. E Gucky fez uma sugestão importante, que acabou sendo aceita por Rhodan. Eis o relato de Gucky: — Sei que me arrisquei muito, mas meu plano era procurar Harno. Por quê? A resposta é evidente, Perry. O “Enxame” encerra um perigo do qual nem mesmo o imortal do planeta Peregrino está a salvo. Logo, havia razão para supor que Harno também era atingido por este perigo. E havia outra dedução lógica: se ainda há alguém que possa ajudar, este alguém é Harno. Falei com Ribald Corello, que mais tarde me ajudou a separar corpo e espírito no espaço e no tempo. A desmaterialização no tempo foi difícil, mas consegui realizá-la. Meu consciente desprendeu-se do corpo e flutuei livremente no espaço, entre os universos. Chamei Harno, mas só depois de bastante tempo consegui estabelecer contato com ele. Tornou-se prisioneiro do “Enxame”. A informação deixou Rhodan, Atlan e Bell apavorados, mas o rato-castor não deu tempo para que refletissem sobre isto. Prosseguiu em seu relato: — Isto mesmo, Harno é prisioneiro do “Enxame”, mas consegui fundir meu consciente com o seu. Transformei-me em Harno. E vi o Y’Xanthomrier, um ídolo vivo ao qual o “Enxame” obedece e que chora lágrimas de sangue. O ídolo resolveu roubar um sistema solar e Harno revelou-me sua posição. Com isto já dera uma indicação sobre seu plano. Gucky conhecia a posição astronáutica de um sistema solar que ia ser roubado. A posição de um sol vermelho com dois planetas ricos em matérias-primas. — Qual é seu plano? — perguntara Rhodan. E Gucky explicara. — Ras Tschubai, Alaska Saedelaere e Toronar Kasom me acompanharão. Pegaremos um jato espacial, pousaremos no segundo planeta do sistema ao qual me referi — e deixamos que o “Enxame” nos recolha juntamente com este planeta. É simples! Podia parecer simples. Mas não era. Depois de hesitar bastante Rhodan concordou com o plano arriscado. O jato espacial partiu. Pousou no planeta de gelo e foi alcançado e recolhido pelo “Enxame”, que se aproximava a uma velocidade equivalente a cinquenta por cento da da luz. O contato pelo rádio com Perry Rhodan foi interrompido. A partir desse instante Gucky e seus três companheiros destemidos eram considerados desaparecidos. Ninguém sabia o que era feito deles. Ninguém sabia se ainda estavam vivos. *** Depois de esperar em vão um novo contato de Gucky, a Good Hope entrou no espaço linear para percorrer a primeira etapa. Pouco antes disso Rhodan se despedira de Atlan e Julian Tifflor, que mantinham a Intersolar em sua posição dez anos-luz à frente

do “Enxame”. Rhodan pretendia dirigir-se com a Good Hope para o fim do “Enxame”, porque ninguém podia saber onde o jato espacial dado como desaparecido sairia dele — se é que isso ia acontecer. Bell, que se encarregara da navegação, calculara a rota de maneira a retornarem ao espaço normal depois de cinco mil anos-luz, ao lado do “Enxame”, a uns cinco anos-luz deste. Depois da manobra de reentrada, a tela de imagens da Good Hope mostrou um estranho e grandioso espetáculo ótico. Toda a área de projeção ficou repleta de milhares de estrelas deslocando-se em velocidade alucinante, verticalmente, ao sentido do deslocamento da nave. As estrelas mais próximas apareciam como faixas luminosas. Afinal, ainda desenvolviam uma velocidade absoluta de cinquenta por cento luz. As mais distantes continuavam sendo estrelas, mas seu movimento podia ser visto a olho nu. O “Enxame”! O campo energético global envolvia o “Enxame”. Simbolizava a unidade de cerca de oitocentos mil sóis de planetas capturados por ele, na Via Láctea e em outras galáxias às quais fizera sua visita calamitosa. Ninguém sabia de onde vinha e ninguém era capaz de imaginar para onde queria ir. Ao que parecia, seu caminho o levaria através de toda a Via Láctea, e ele deixou um rastro que ainda poderia ser visto dali a milhões de anos. Joak Cascal, chefe da sala de rádio, entrou na sala de comando. Ficou fascinado com o panorama projetado na tela e absorveu o espetáculo sem igual de verdadeira grandeza cósmica. Em seguida foi para perto de Rhodan. — Estou permanentemente na recepção, mas por enquanto não recebi nada. Nem um pio. Bell adiantou-se na resposta. — Nem era de esperar que fosse diferente, Joak. Mas não desanime. Quando houver uma possibilidade, por menor que seja, Gucky dará um sinal de vida. Fellmer Lloyd também está a postos, para que os sinais telepáticos não deixem de ser captados. — O arcônida apontou para a tela panorâmica. — Então. Que acha? — Nunca vi nada igual. — Ninguém de nós viu. Mas o fato é que está lá. — Infelizmente — respondeu Cascal e voltou à sala de rádio sem fazer comentários. Rhodan virou a cabeça. — Como vai a segunda etapa linear, Bell? — Será iniciada dentro de trinta minutos. — Muito bem. Peço que fique aqui. Vou deitar algumas horas. Quando estiver cansado, acorde-me. — Talvez o acorde antes, caso aconteça alguma coisa que você possa achar interessante. — Naturalmente, meu chapa. — Rhodan acenou com a cabeça e foi até a porta. — Mas faço votos de que não tenha necessidade de acordar-me. Bell seguiu-o com os olhos. Os últimos dias tinham sido cansativos, embora não tivessem realizado operações propriamente ditas. Mas justamente a espera desgastara os nervos. Era mais cansativa que uma aventura excitante. — Quer dizer que será daqui a trinta minutos — disse a Kosum, que estava sentado à frente dos controles. — Até lá podemos fazer uma pausa. O emocionauta apontou para a tela de imagens.

— Uma pausa não é nada má, Mr. Bell. Há tanta coisa para ver que mal tenho tempo para piscar os olhos. Cascal tem razão. Nunca vimos nada igual. E numa hora destas Rhodan vai dormir. — Levou apenas cinco minutos para absorver todas as impressões. Mas acho que o senhor tem razão. Eu seria capaz de contemplar durante horas o espetáculo do “Enxame” passando perto de nós. Pense bem. Se ficássemos parados no lugar em que estamos, demoraria mais de dez mil anos até que o “Enxame” tivesse passado — isso naturalmente se não realizasse uma transição. — Pois eu estou mais preocupado com o destino de Gucky — disse Kosum. Bell deu-lhe razão. — Eu também. Mas até agora ele sempre teve sorte, mesmo nas situações mais difíceis. Está em companhia de Ras Tschubai, que é outro cara de sorte. Além de Alaska e Toronar. Juntos vão dar um jeito. Bell sentou numa poltrona e olhou para a tela panorâmica. O tempo custou a passar. *** Na outra nave, a Intersolar, as coisas não eram muito diferentes, embora a imagem projetada na tela panorâmica não tivesse nenhuma semelhança com a da Good Hope. Depois que a outra nave que tinha Rhodan a bordo desapareceu, Atlan e Julian Tifflor ficaram sentados mais algum tempo. Olharam para a tela, onde o “Enxame” só podia ser visto de frente, uma massa compacta de sóis, a dez anos-luz de distância. Que nem uma concentração de estrelas, que naturalmente só podia ser visto desse lugar porque os reflexos de rastreamento ultraluz lançavam sua imagem na tela como que num passe de magia. Se não fossem esses recursos técnicos, a luz levaria dez anos para chegar do “Enxame” à Intersolar. Atlan, que já tinha mais de onze mil anos de vida e estava mais familiarizado com os acontecimentos cósmicos que qualquer terrano, sacudiu a cabeça. — Não me lembro de já ter ouvido falar no “Enxame”. Se já esteve aqui, isso deve ter sido há muito, muito tempo. Mas que esteve esteve, pois deixou seus rastros. Isto eu já sei. Julian Tifflor fitou-o com uma expressão indagadora, mas ficou calado. Sabia que Atlan falaria sem que ninguém pedisse, desde que julgasse o problema importante. — Os sacos de carvão, Julian. Todas as outras regiões em que há relativamente poucas ou nenhuma estrela numa extensão de centenas de anos-luz...! Antigamente havia estrelas nessas regiões, mas quando o “Enxame” atravessou a galáxia em outros tempos, ele as levou. Pode ter sido a cem ou duzentos mil anos. Talvez volte toda vez que a galáxia completa um movimento de rotação. É bem verdade que com os recursos técnicos que ele usa, esse tipo de dependência não seria necessário, mas nossos conhecimentos a respeito dele ainda são muito escassos. — Talvez não demoremos a saber mais alguma coisa — disse Tifflor, numa alusão à tarefa de Gucky e seus companheiros. — Se tudo correr segundo o plano. Havia uma expressão de dúvida no rosto de Atlan. — Se! Nem podemos ter certeza de que voltaremos a ver um deles. Eu não deveria ter concordado. — Isso não teria adiantado nada — opinou Tifflor. — Se o rato-castor mete uma coisa na cabeça, ninguém consegue tirar. Além disso os preparativos já representaram um

grande risco, como fui informado por Ribald Corello. Acha que tudo isso deveria ter sido em vão? Desta vez Atlan não respondeu. Contemplou em silêncio a cabeça do “Enxame” que corria atrás da nave à velocidade de cinquenta por cento luz, sem que se notasse qualquer movimento. Em algum lugar, atrás do campo energético cristalino que mal encobria o brilho das estrelas, havia dois terranos, um ertrusiano e um rato-castor. O jato espacial acelerou devagar e com cuidado. O disco achatado, com trinta e cinco metros de diâmetro, até parecia um bacilo no corpo de um dinossauro. Toronar Kasom, o ertrusiano enorme, estava sentado à frente dos controles. Ras Tschubai, o teleportador, ajudava-o no trabalho difícil cuidando dos aparelhos de rádio e rastreamento. Gucky e Alaska Saedelaere estavam descansando em um dos camarotes. Era possível que nos próximos dias não tivessem mais tempo para dormir. O “Enxame” continuava sendo mais rápido que eles. Naturalmente Kasom não teria nenhuma dificuldade em compensar a diferença de velocidade numa manobra rápida, mas temia que dessa maneira pudessem ser descobertos, o que queriam evitar de qualquer maneira. Da maneira que iam a nave podia ser confundida com um meteorito capturado pelo “Enxame”, que estava sendo acelerado aos poucos pelos campos energéticos especiais que também agiam sobre os sóis e planetas roubados. Algumas faixas luminosas brancas alongadas tinham ficado mais curtas depois que o jato espacial aumentou a velocidade. Os instrumentos mostravam que estavam correndo a dez mil quilômetros por segundo na direção do “Enxame”, que ainda continuava sendo quinze vezes mais rápido. — Rastreamento negativo — disse Ras, que continuava nos controles. — Todos os objetos detectados comportam-se normalmente e permanecem na rota. Qualquer mudança seria notada imediatamente. — Isso me deixa muito mais tranquilo — disse Kasom em tom sarcástico. — O que dizem os telerrastreadores? — Sóis, planetas e espaçonaves — muitas e muitas espaçonaves! Encontramo-nos numa galáxia independente. Quanto a isso não pode haver nenhuma dúvida. Entrar nós entramos. Resta saber se conseguiremos sair. — No momento não deveríamos preocupar-nos muito com isso, Ras. Por enquanto o importante é que não descubram nossa presença e que o “Enxame” não tome medidas contra nós. Se formos caçados, será nosso fim. Um grupo de espaçonaves de formas estranhas voando em formação apareceu em uma das pequenas telas acopladas com os rastreadores. As naves eram parecidas com triângulos voando com a base para a frente. Deviam ser mais de trezentas. — Que pássaros esquisitos são esses? — perguntou Ras, chamando a atenção de Kasom para o estranho fenômeno. — Os instrumentos registram valores muito reduzidos. Talvez sejam naves de reconhecimento. O ertrusiano estudou as naves desconhecidas. — É possível. Mas mesmo que sejam, não temos motivo para ficar preocupados. Se seus rastreadores tivessem acusado alguma coisa, já estariam atrás de nós. Somos muito pequenos. Ras armazenou todos os dados que estavam sendo colhidos. Aos poucos foi obtendo um quadro geral das regiões mais próximas no interior do “Enxame”. As medições ainda

eram difíceis e em parte chegavam a ser incompletas e pouco precisas, mas já havia coisas que se delineavam claramente. No “Enxame” reinava a ordem. Era uma ordem que Ras e Kasom não compreenderam logo, mas sem dúvida ela existia. O telerrastreamento acusou, além do grupo de trezentas naves de reconhecimento, algumas unidades maiores, que também viajavam em grupos, dando a impressão de que cada um tinha um lugar bem determinado na pequena unidade galáctica. O “Enxame” estava organizado, muito bem organizado até. Cada nave tinha seu lugar, da mesma forma que cada sol capturado e cada planeta, tanto os que desenvolviam cinquenta por cento da velocidade da luz como aqueles que ficavam rapidamente para trás e eram acelerados aos poucos. Parecia que nada fora deixado ao acaso. A distância média entre os sóis era de três anos-luz, ao menos na cabeça do “Enxame”. Certos sóis estavam a apenas um ou dois dias-luz uns dos outros, enquanto outros estavam praticamente isolados no espaço. Seus vizinhos brilhavam a meio ou até a um ano-luz de distância. Isso não chegava a ser perigoso para o voo normal, mas sim para uma rápida manobra linear, para a qual não pudesse ser feita uma programação detalhada. Mas ainda havia coisas de que nem Kasom nem Ras desconfiavam. Gucky e Alaska, que estavam descansando naquele momento, não tinham a menor ideia do perigo grave que se aproximava. *** O “Enxame” realmente era muito bem organizado. Em virtude dessa organização cósmica, da qual dependia a existência do “Enxame”, era inevitável que até mesmo um objeto voador de tamanho insignificante como um jato espacial acabasse sendo descoberto. Antes de mais nada os donos do “Enxame” possuíam uma frota de vigilância que entrava em ação toda vez que novos planetas eram capturados para serem incorporados ao gigantesco “Enxame”. Essa frota de vigilância era formada por cerca de cinquenta mil unidades de todos os tipos e tamanhos. Algumas esquadrilhas eram incumbidas de, depois da captura de um sistema, reduzir a velocidade elevada que desenvolviam e adaptá-la à dos respectivos planetas e sóis. Essas naves permaneciam em posição de espera e observação numa grande distância, que oferecia a necessária segurança. Tratava-se de uma medida de precaução. Os donos do “Enxame” sempre tinham de contar com a possibilidade de que os habitantes inteligentes de algum mundo por eles assumido já conhecessem a astronáutica. Apesar do processo de deterioração mental a que tinham sido submetidos, esses habitantes ainda poderiam pôr em perigo a ordem dentro do “Enxame”. Se resolvessem atacar com as frotas de guerra que possuíam, podiam causar grandes danos. A frota de vigilância devia evitar isso mantendo sob observação os mundos capturados e, principalmente, ficando atenta em eventuais indícios da prática da astronáutica. Qualquer objeto, por menor que fosse, devia ser detectado e identificado. Havia outra frota, muito mais perigosa. Era a chamada frota de caça, cujos comandantes trabalhavam em estreita colaboração com a frota de vigilância. Era postada nos lugares em que, segundo os cálculos, poderiam aparecer os habitantes de algum planeta com suas espaçonaves. Cada nave que quisesse abandonar seu mundo e atravessar o “Enxame” sem correr perigo devia realizar uma manobra de adaptação

rigorosamente fixada. Com base na aceleração provável podia-se calcular em que lugar um veículo destes devia aparecer depois de completada a adaptação da velocidade. Naturalmente as duas frotas controlavam um gigantesco setor no espaço, mas os rastreadores de grande alcance permitiam que com o tempo fossem detectadas e identificadas todas as aglomerações de matéria, por menores que fossem. O “Enxame” era organizado. Nada ficara entregue ao acaso. *** Gucky dormira profundamente cerca de uma hora. Sentia-se descansado. Mas em vez de levantar e dirigir-se à sala de comando do jato espacial que ficava perto do lugar em que estava, ele chegou à conclusão de que Alaska ainda dormia e não podia incomodá-lo. Resolveu fechar os olhos e concentrou-se no conhecido modelo intelectual do ser energético chamado Harno, que era mantido prisioneiro em algum lugar dentro do “Enxame”. O rato-castor recebeu uma torrente de pensamentos estranhos, mais ou menos intenso. Assustado, reduziu o nível de concentração. Voltou a avançar tateando cuidadosamente. Desta vez usou o filtro telepático, que eliminava automaticamente os modelos não desejados. Esta eliminação era feita segundo a intensidade. Desta forma os impulsos não cessavam de repente. — Harno! Se estiver me ouvindo, responda! Harno! Gucky repetia constantemente sua mensagem telepática, depois de desistir da intenção de captar Harno sem chamá-lo. Desta vez tinha de dar um jeito de entrar em contato com Harno sem o auxílio de Corello, uma vez que se encontrava no interior do “Enxame”. Já não havia nenhum campo energético opaco, capaz de isolar até mesmo os impulsos mentais. — Harno! Aqui fala Gucky, seu amigo. Responda, Harno! Alaska, que estava deitado do outro lado do camarote, mexeu-se e abriu os olhos. Olhou para o rato-castor. — Desde quando deu para falar sozinho? — perguntou em tom de compaixão. Gucky abriu os olhos e respondeu indignado: — Dê o fora, mente fútil! Você acabou com minha concentração. Tento entrar em contato com Harno. Você me faria um grande favor se pudesse sair daqui. Diga aos outros que me dêem meia hora de paz. Alaska Saedelaere, o semimutante mascarado, levantou preguiçosamente e ajeitou o traje de combate. — Não se irrite, baixinho! Como podia saber que você estava falando com Harno? Está bem, vou dar o fora e avisarei aos outros. Da outra vez trate de ser mais gentil, senão lhe dou uma surra. Gucky ainda estava refletindo para escolher que copo devia atirar atrás de Alaska, quando este fechou a porta que dava para o corredor. O rato-castor ficou só. Voltou a fechar os olhos e concentrou-se. — Harno! Está recebendo minha mensagem? É Gucky. Responda! O rato-castor abriu com muito cuidado o setor de recepção de seu cérebro que sofrerá uma mutação, sem permitir que os inúmeros impulsos estranhos atingissem seu consciente. Sabia que o modelo de Harno era forte e intenso. Dificilmente deixaria de ouvi-lo se o recebesse.

Por um instante sua atenção foi distraída por Kasom e Alaska, que discutiram na sala de comando por causa de alguns ecos projetados nas telas dos rastreadores. Mas de repente, muito forte e nítido, surgiu o contato com Harno. Era como se tivesse sido feita uma ligação direta pelo rádio. — Gucky! Você está nítido e intenso. Onde está? — Corremos o perigo de uma vigilância telepática? — Não. — Estou dentro do “Enxame”, com dois companheiros. Deixamo-nos capturar juntamente com um planeta. Estávamos avançando com nosso jato espacial em direção à cabeça do “Enxame”. Onde está você? Podemos ajudar? — No momento ninguém me pode ajudar. Se alguém precisa de ajuda são vocês. A frota de caça os detectará e perseguirá. Não deverá demorar. Vocês devem... Gucky interrompeu o fluxo mental. — Frota de caça? Que é isso? — São naves especiais que receberam a tarefa de destruir todas as naves estranhas que aparecerem no “Enxame”. Se forem detectados, vocês estão perdidos. Por isso lhe peço que não perca mais um segundo. Não voem no mesmo sentido do “Enxame”, mas em sentido contrário. A parte dianteira fica a cerca de três mil anos-luz. Vocês deverão entrar no “Enxame” até um terço de seu comprimento. Lá encontrarão dois sóis gigantes azuis, que giram um em torno do outro como se fossem gêmeos. Ficam a dezoito anosluz um do outro, e bem no meio deles fica o planeta de Cristal... — O planeta de Cristal...? Os impulsos mentais de Harno eram mais fracos, menos constantes. Parecia que alguma coisa perturbava sua concentração, mas ele se esforçava para não ser distraído. — É um planeta artificial, um mundo de cristal com milhões de superfícies lapidadas de maneiras diferentes, que parecem espelhos. O planeta parece com um gigantesco diamante, um cristal planetário, um espelho com milhões de facetas, que reflete a luz dos dois sóis em todas as cores e deixa ofuscado qualquer um que se aproxima sem o devido cuidado. Você não poderá errar, pois o planeta brilha a vários anos-luz de distância mais que qualquer outra estrela. — O que encontraremos no planeta de Cristal? Por que devemos ir para lá, Harno? Os impulsos mentais de Harno tinham ficado tão fracos que o rato-castor mal conseguia percebê-los. Receava que o contato pudesse ser interrompido antes que ele obtivesse as informações mais importantes. — Harno? Ainda está por aí? O planeta de Cristal... o que há nele? Mais uma vez chegou uma resposta, fraca e quase imperceptível. — É importante, muito importante. Tratem de encontrá-lo depressa! Voltarei a fazer contato assim que for possível. A três mil anos-luz do limite do “Enxame”, dentro dele, numa posição central. — vocês não podem perdê-lo... Os impulsos acabaram de repente. Gucky ficou deitado mais algum tempo, mas abriu os olhos. Olhou pára o teto baixo e refletiu se valia a pena tentar estabelecer contato de novo. Harno pelo menos conseguiria transmitir a posição exata. Três mil anos-luz — era uma informação muito vaga. Mas de outro lado o lendário planeta de Cristal podia ser visto de longe. Devia tentar. Gucky estava saindo da cama quando recebeu os pensamentos de Kasom, que não eram nada tranquilizadores. O rato-castor correu para a sala de comando o mais depressa que pôde.

Os três homens estavam sentados nas grandes poltronas anatômicas, tensos e prontos para entrar em ação. — Por que não foram buscar-me? — perguntou Gucky e sentou na quarta poltrona. — Numa situação destas... — Você pediu que ninguém o perturbasse — interrompeu Kasom laconicamente. — Podemos enfrentar os problemas sozinhos. Fomos detectados. — Isso eu já sei. A propósito: Fiz contato com Harno. Kasom, devemos mudar de rota. Será uma mudança de cento e oitenta graus. Kasom nem sequer levantou os olhos. — Vamos voar em sentido contrário ao “Enxame”? Por quê? — Harno não chegou a indicar a posição exata, mas disse que devemos procurar dois sóis gigantes azuis que giram em tomo de um planeta artificial — um planeta de Cristal. Harno afirma que seu brilho não pode deixar de ser visto. — Voltar? — Kasom apontou para as telas dos rastreadores. — Eles nos detectaram e estão atrás de nós. Se fizermos uma curva de cento e oitenta graus, voaremos contra a corrente. Seria perigoso, Gucky. — Podemos ser atacados aqui da mesma forma que no centro do “Enxame”. Vamos programar um salto linear de três mil anos-luz. Depois veremos o resto. Talvez ele nos percam. — Sabem que estamos aqui e acabarão nos encontrando de novo. Gucky fitou Kasom. Parecia furioso. — Quer fazer-me um favor? Não fale tanto! Estamos perdendo um tempo precioso. Cada segundo vale ouro. Como comandante da missão... — Está bem, está bem. Alaska, programe a nova rota e a etapa linear. Não temos nada a perder... Ras Tschubai, que ainda não se envolvera na discussão, fez uma pergunta. — Harno não deu nenhuma indicação? Pelo menos poderia ter dito o que vamos encontrar no misterioso planeta de Cristal. — Só disse que é importante, muito importante. E Harno deve saber. É prisioneiro do “Enxame” há muito tempo. Ras não fez mais nenhuma pergunta. As pequenas espaçonaves que se aproximavam em alta velocidade apareciam nitidamente nas telas. Sem dúvida tratava-se de unidades de combate ou caças incumbidos da vigilância no interior do “Enxame”. Pareciam ser rápidas, ágeis e bem armadas, mas nenhum dos ocupantes do jato espacial teve vontade de fazer a experiência. Pelos cálculos de Ras os perseguidores deviam ser em número de duzentos. Finalmente Alaska concluiu a programação. A folha foi introduzida no computador, o processamento teve início. Só então Kasom resolveu fazer o jato espacial mudar de direção durante o voo normal. Já tinham alcançado a velocidade de cinquenta mil quilômetros por segundo — um sexto da velocidade da luz. Por isso Kasom teve de fazer uma curva ampla. Mas apesar disso pegou os perseguidores de surpresa. Certamente não acreditavam que a presa, que já acreditavam segura, tentaria penetrar mais profundamente no “Enxame”. Kasom fez o jato passar perto de um sol e acelerou ao máximo. A pressão foi neutralizada pelo campo antigravitacional. Dali a pouco entrariam no espaço linear. Neste instante os perseguidores abriram fogo. Os primeiros feixes energéticos que avançavam à velocidade da luz passaram à frente do jato. Por enquanto não houve nenhum impacto direto.

Alaska correu para junto dos controles de fogo. Gucky apressou-se em gritar: — Só um tiro de alerta, Alaska! Use o canhão conversor. Dali a instantes um sol artificial surgiu entre eles e as naves de caça. Por pouco não entraram nele. As manobras de desvio puderam ser vistas perfeitamente. Custaram alguns preciosos segundos aos perseguidores. O jato aproveitou estes segundos para afastar-se muitos milhões de quilômetros. — Quanto tempo falta? — perguntou Kasom a Alaska, que saltara para perto do setor de navegação. — Estão voltando... — Vinte segundos exatamente. Vinte segundos podiam transformar-se numa eternidade, se a vida dependia deles. A cada segundo os perseguidores chegavam mais perto. Felizmente se mostraram cuidadosos, por causa da proximidade de um sol e talvez porque temessem mais uma bomba conversora. Quando os primeiros raios avançaram à velocidade da luz, Alaska ficou sentado. — Faltam três segundos — disse. O sol próximo, todos os outros sóis, os perseguidores — o “Enxame” inteiro desapareceu quando o jato espacial mergulhou no espaço linear. — Agora nos deixarão em paz por algum tempo — disse Kasom e respirou aliviado enquanto se recostava na poltrona. Fitou Gucky com um sorriso amável nos lábios. — Não fique zangado comigo pelo que fiz há pouco, baixinho. Estava um pouco nervoso. O que encontraremos mesmo no planeta de Cristal? Não faz nenhuma ideia? — Não faço a mínima — confessou Gucky, que já esquecera o incidente. Podia fazer tudo, menos guardar ressentimentos, ao menos em situações como esta. — Acho que Harno também não teve tempo para explicações minuciosas. Prometeu que voltaria a chamar. Kasom sacudiu a cabeça. — Um planeta artificial acompanhado por dois gigantes azuis! Será que se trata de um gigantesco centro de controle do “Enxame”? Não deve ser tão simples! Mas Harno deve ter tido um motivo para dar-nos esta informação. Certamente teve alguma coisa em mente. — Fiquem quietos um instante! — gritou Gucky em tom áspero, o que era um sinal de que estava extremamente nervoso. — Tenho contato com Harno. Todos ficaram calados. Observavam atentamente o rato-castor, que estava deitado de olhos fechados numa poltrona muito grande para ele, concentrando-se. De vez em quando mexia os lábios, dando a impressão de que dizia alguma coisa a si mesmo, mas depois ficava imóvel, dando a impressão de que estava escutando. Finalmente, depois de quase cinco minutos de silêncio absoluto, Gucky ergueu-se e encarou os amigos. Havia em seu rosto uma expressão de satisfação completa. — Então? Que houve? — perguntou Kasom em tom impaciente. — Harno enviará um raio vetor parapsíquico — respondeu Gucky. — Que vem a ser isso? — perguntou Kasom estupefato. — Nunca ouvi falar. Tomara que consigamos captar o raio com nossos aparelhos. — Dificilmente — respondeu o rato-castor com um sorriso de deboche. — Nem que você procure e regule os aparelhos sem parar. Um raio vetor parapsíquico só pode ser captado por um excelente telepata como eu. Este raio tem uma vantagem. Não depende de nenhum recurso técnico e além disso funciona no espaço linear tão bem quanto no universo normal. Resta saber se Harno não será perturbado e poderá transmitir livremente. Mas se eu receber alguns fragmentos, isso basta. Já sei que Harno está em

cima do planeta de Cristal ou dentro dele. A única coisa que temos de fazer é seguir o raio vetor. — Já o está recebendo? — Naturalmente. E como! Não será necessária nenhuma correção de rota. Estamos na direção certa. Alaska acompanhou o ligeiro tremor dos ponteiros dos instrumentos. — O voo linear corre de acordo com o plano. Não tenho como verificar se fomos detectados por raios de rastreamento da quinta dimensão. Os instrumentos reagem normalmente. Talvez tenhamos sorte. — Se o planeta artificial é tão importante, ele deve ser muito bem vigiado — disse Ras. — Dentro de pouco tempo seremos detectados de novo. Quando voltarmos ao universo normal teremos de agir depressa. — Depressa, muito bem! — Kasom refletiu. — Resta saber como devemos agir. — Isso nós resolveremos na hora — respondeu Gucky, que não parecia impressionado. — O importante é encontrarmos as pérolas de vidro. Aproveitaram o resto do tempo passado no espaço normal para descansar um pouco e preparar-se para as tarefas difíceis que tinham pela frente. Até que chegou o momento em que iam retornar ao universo normal. Desta vez Ras Tschubai sentou junto aos controles de tiro. Alaska Saedelaere encarregou-se dos goniômetros e dos rastreadores. Kasom ficou sentado à frente dos controles de voo enquanto Gucky desempenhava as funções de goniômetro, mantendo contato unilateral ininterrupto com Harno. — Faltam dez segundos...! — disse Ras com a voz calma, mas tensa. Tinham percorrido três mil anos-luz num tempo relativamente curto. Se os perseguidores não possuíam sensores do semi-espaço, tinham perdido a presa que já acreditavam segura. Mas nem por isso o perigo tinha desaparecido. Devia haver naves de caça em todos os lugares no interior do “Enxame”, principalmente em torno do planeta de Cristal, que devia desempenhar um papel muito importante. Cinco segundos! Todos concentraram-se no primeiro instante, que podia trazer a decisão. Ou os perseguidores já estavam à sua espera, ou então teriam de procurar de novo, o que representaria uma pausa. Além disso, não sabia se não precisariam realizar uma busca mais demorada para encontrar o planeta de Cristal. Agora...! Os sóis puderam ser vistos de novo. Depois de alguns instantes Alaska informou que não descobrira nenhum veículo espacial nas imediações. Por enquanto Ras não teria trabalho. — Tenho contato com Harno — anunciou Gucky. — Está transmitindo uma informação. Os outros não fizeram perguntas. Ficaram quietos, para não perturbar o contato. Sabiam que as informações de Harno podiam ser muito importantes. Desta vez Gucky recebeu os impulsos mentais de uma forma bem nítida e compreensível. Até sobrepuseram-se ao raio-vetor que ficara mais forte. — Gucky! Está vendo o cristal? É o cristal das almas aprisionadas. Dentro dele estão aqueles que reinam, riem e sofrem. Você também me encontrará no cristal — e o Y’Xanthomrier com o olho sábio. — Ainda não vemos o cristal, Harno. — Continuem voando em sentido oposto ao do “Enxame”. Logo o verão.

Os impulsos de comunicação voltaram a desaparecer. Só ficou o raio-vetor. A única coisa que tinham de fazer era segui-lo. À sua frente estava um sol normal amarelo, que segundo as informações de Alaska era acompanhado por três planetas. O segundo, ressaltou Alaska, era um mundo de selva tropical com mares e montanhas, sem sinais de uma civilização, mas que devia servir muito bem como esconderijo... — Queremos encontrar o planeta de Cristal! — disse Kasom em meio às suas observações. — Não temos tempo para expedições privadas. Alaska respondeu com uma calma surpreendente. — O senhor tem razão, Kasom. Como sempre. Acontece que acabo de descobrir novos perseguidores nos aparelhos de rastreamento. Vêm de várias direções. Se desaparecermos por algum tempo no planeta, eles perderão nossa pista. Não adianta entrarmos em luta com eles. — E o planeta de Cristal? — Eu não disse que devemos passar alguns anos no planeta selvagem. Acho que algumas horas ou talvez um dia serão suficientes. Qual é sua opinião, Gucky? Gucky parecia muito aliviado por terem pedido sua opinião. Afinal, era o comandante da missão. Por isso só poderia apoiar a sugestão de Alaska. — Algumas horas não fazem diferença. Enquanto esses caçadores que tanto nos incomodam estiverem atrás de nós, não convém irmos diretamente ao planeta de Cristal. Além disso ainda não os encontramos. Até acho possível que quando tivermos mais calma consigamos informações mais detalhadas. Em resumo: apoio o plano de Alaska. Ras acenou com a cabeça. Bastara um olhar ligeiro para as telas dos rastreadores para convencê-los. Kasom suspirou e acabou cedendo. — Está bem, Alaska, faça o favor de fornecer os dados do sistema... *** Os dados colhidos pelo telerrastreamento eram corretos, mas não confirmaram que o planeta sem nome era habitado por seres vivos que possuíam alguma inteligência. A manobra de aterrissagem foi precedida por uma caçada excitante e uma hábil manobra diversionista. Três grupos diferentes aproximaram-se do jato espacial e abriram fogo a grande distância. Kasom teve muito trabalho para escapar ao ataque. Seguia uma rota que o levaria para perto do sol amarelo. Alguns minutos se passaram sem que nada acontecesse. Os caças do “Enxame” corriam atrás do jato espacial e atiravam nele. Alguns raios energéticos foram refletidos pelo campo energético. Os perseguidores não tiveram tempo para concentrar seu fogo em um único ponto do campo defensivo, uma vez que Kasom, numa manobra arrojada, fez de conta que estava levando o pequeno veículo bem para dentro dos sóis. Os sistemas de refrigeração trabalharam a toda. Kasom até se arriscou a desligar os campos energéticos, para conduzir todas as energias disponíveis ao sistema de arrefecimento. Os perseguidores desistiram. Mudaram de rota antes que fosse tarde. Entraram em posição num ponto mais distante do espaço e tentaram descobrir por meio dos rastreadores quais eram os planos do piloto da nave desconhecida, que em sua opinião devia ter enlouquecido. Será que queria mesmo conduzir o veículo à morte certa? — Fora de alcance — informou Alaska de junto dos controles. — Os campos de interferência do sol impedem qualquer contato pelos rastreadores.

Kasom acenou com a cabeça. Fez uma pequena mudança de rota, que faria o veículo sair do sistema depois de passar a apenas alguns milhões de quilômetros da atmosfera solar, levando-o para perto do segundo planeta, que ficava praticamente atrás do sol relativamente ao primeiro ponto de observação. Alaska acionou de novo o telerrastreamento. Começaram a chegar dados mais precisos, inclusive a confirmação de que Yellow II, nome que tinham dado ao planeta por causa da cor de seu sol, era habitado. Não havia indícios de uma civilização técnica, mas não havia dúvida de que no mundo selvagem existiam animais e seres semi-inteligentes, que já tinham construído núcleos primitivos junto aos rios e mares e ao pé das montanhas. Ras Tschubai teve oportunidade de formular algumas hipóteses. — Já estamos a três mil anos-luz do começo do “Enxame”. Quer dizer que o planeta Yellow II foi capturado há pelo menos seis mil anos, a não ser que tenha sido feita uma transição para colocá-lo em sua posição atual. Ainda não sabemos como isso funciona — e se funciona. Mas de uma coisa temos certeza. A vida que existia no planeta capturado por enquanto não foi perturbada. Parece que os donos do “Enxame” têm tempo, muito tempo. Alaska contentou-se com os dados já colhidos a respeito do planeta e voltou a ligar o telerrastreamento, enquanto Kasom fazia os preparativos para o pouso. Nem deu voltas em torno do planeta como se costumava fazer. Fez o jato correr em alta velocidade sobre um mar, em voo baixo. Devia ser um mar muito raso, pois em toda parte viam-se bancos de areia, recifes e cadeias de montanhas subaquáticas que quase chegavam à superfície. A água era cristalina. Kasom dirigiu-se a Alaska. — Então? Eles nos perderam? — Parece que sim. Ainda há três grupos de naves, mas estão fora do sistema. Talvez não saibam o que aconteceu. Não me surpreenderei se bloquearem o sistema. — Nesse caso aproveitaremos a noite para sair daqui — disse Gucky em tom muito sério, na esperança de que alguém achasse graça. Mas teve uma decepção. Ninguém tomou conhecimento de suas palavras. Kasom tinha muito trabalho com o pouso, que pretendia realizar na costa do oceano que acabavam de atravessar, desde que o terreno lhe parecesse apropriado. Reduziu a velocidade ao ver a faixa escura no horizonte. Alaska forneceu os últimos dados. — Atmosfera de oxigênio, gravidade igual a da Terra, tempo de rotação trinta horas. Deve haver estações do ano — mas não ficaremos para descobrir. Não vejo problemas para o pouso. A costa era baixa. Depois de uma larga faixa de areia começava a mata virgem. Bem à frente do jato havia uma povoação na margem da baía, que formava um porto natural. Kasom mudou de direção e seguiu para a parte da costa em que havia construções, a uns três quilômetros da aldeia portuária. Tinha certeza de que a chegada da nave fora notada e que logo apareceria alguém. Era o que ele queria. Já que aceitara a sugestão de Alaska, pretendia aproveitar o tempo. Havia uma coisa que ele esperava descobrir. O disco pousou suavemente na areia, perto da mata virgem. As copas largas das árvores gigantescas representavam uma excelente proteção contra a visão de cima. De

outro lado seria possível realizar sem maiores perigos uma decolagem-relâmpago se houvesse alguma surpresa. O propulsor silenciou. Kasom recostou-se. — Podemos ficar aqui algumas horas. Pode detectar os grupos de caças com os telerastreadores, Alaska? — Não muito bem, mas é possível. — Ótimo. Vamos esperar que desistam das buscas. Só podem pensar que caímos no sol. Gucky, está captando o raio-vetor de Harno? — O raio ainda está lá, mas não por muito tempo. Com o movimento de rotação do planeta ficará abaixo da linha do horizonte. Aí teremos uma pausa de quinze horas na transmissão. Se quiser que eu continue a receber, teremos de ir para o outro lado. — Isso pode ficar para depois. Está recebendo impulsos mentais dos nativos? — Estou recebendo em grande quantidade. Eles nos viram e estão enviando uma delegação. Não somos os primeiros astronautas que descem no planeta. — interessante. Estou curioso para saber o que vão contar. Quero descobrir há quanto tempo este mundo se encontra dentro do “Enxame” e o que aconteceu neste tempo. — Dali se poderiam tirar certas conclusões sobre os acontecimentos em conjunto — concordou Ras. — Deve haver algum sistema atrás disso. — Sem dúvida — disse Ras e voltou a observar a praia, que podia ser vista muito bem da cúpula da sala de comando. — Estou curioso para ver como são os nativos. — Descendem de insetos — disse Gucky laconicamente. — Foi a única coisa que descobri. — São pacatos? — Completamente! Apesar do movimento de rotação relativamente lento de Yellow II, o sol foi baixando para o horizonte. Dentro de pouco tempo começaria o crepúsculo. De repente Ras apontou para o norte. — Lá vêm eles. São pelo menos doze. Estão a pé. Parece que não têm automóveis. — Só têm canoas primitivas — explicou Gucky, que fazia o controle telepático dos desconhecidos. — Saem com elas para pescar no mar. — Estão armados? — De forma alguma. São tão pacatos como borboletas. Estão um pouco curiosos para descobrir o que viemos fazer aqui desta vez. — Desta vez? — perguntou Kasom esticando as palavras. — Isso mesmo. Acham que fazemos parte daqueles que já os visitaram. — Provavelmente foram exploradores do “Enxame” — opinou Ras. Voltou a olhar para os nativos que se aproximavam devagar. — Parecem formigas supergrandes, mas sem o corpo apertado na cintura. Além disso só possuem quatro pernas. Kasom levantou. — Sou o mais impressionante, pelo menos quanto à figura. Vou ao encontro deles. Vocês ficarão aqui. Estejam atentos e entrem em ação caso a situação se torne crítica. — Kasom fez um sinal para Gucky e sorriu. — Concorda, senhor comandante? O rato-castor retribuiu o sorriso. — Ficarão impressionados com sua pança — disse. Kasom não levou arma. Só pegou a pequena tradutora que prendeu num cinto sobre o peito largo. Saiu pela eclusa de ar e foi em direção aos nativos, que tinham parado a cem metros de distância e esperavam pacientemente. Quando o viram, juntaram as

cabeças alongadas com as antenas finas, dando a impressão de que discutiam sua presença e faziam comentários. Kasom não deixou que isso o impressionasse. Seguiu calmamente até chegar perto do pequeno grupo. Ras vira bem. Realmente pareciam formigas de cerca de um metro e meio. Mas havia grandes diferenças. Os grandes olhos multifacetados fitaram Kasom com uma expressão de curiosidade. Não deram sinais de medo ou de se terem assustado. Se um dia os encarregados do “Enxame” tinham aparecido nesse planeta, sobre o que, de acordo com as informações de Gucky, não podia haver a menor dúvida, eles certamente se tinham mostrado bastante discretos e cautelosos. Isso correspondia às intenções de Kasom. Ele parou. — Viemos como amigos e logo sairemos daqui — disse e a tradutora fez a tradução de sua fala de cumprimento por meio de estranhos chiados, que foram entendidos imediatamente pelos nativos. — Não ficaram espantados? Costumam receber muitas vezes visitas do céu? Os nativos voltaram a confabular, mas Kasom compreendia o que diziam. — Não é igual aos outros... — Não faz parte deles. — Talvez seja mau e... — Precisamos falar com ele. Seria uma grosseria... Kasom esperou pacientemente. Não adiantaria pedir que se apressassem. Além disso ele tinha tempo. O sol estava desaparecendo. Continuaria claro pelo menos por mais uma hora. Finalmente um dos nativos dirigiu-lhe a palavra. — Faz muitos sóis que recebemos a primeira visita. São tantos sóis que nem podemos contá-los mais. Mas eles eram diferentes. Fizeram perguntas e nos deixaram. Nossa vida não mudou por isso, mas ficamos sabendo que não estamos sós entre as estrelas. — Vocês mesmos viram? Kasom sabia que esta era a pergunta decisiva, da qual dependia tudo. Aguardou ansiosamente. O mesmo porta-voz respondeu: — Não. Já faz muito tempo. Mas nossos pais contaram, e eles souberam de seus pais e estes por sua vez... Fazia várias gerações! Kasom não sabia qual era o tempo de vida de uma geração de insetos. Fez a pergunta e ficou sabendo que os nativos conheciam os anos. É bem verdade que lhes davam o nome de períodos de chuva. Uma vez por ano chovia muito tempo, por causa de um movimento pequeno do eixo planetário e da posição em relação ao sol por ele causado. As formigas viviam de trinta a quarenta períodos de chuva em média. Quer dizer que fazia mais de cem anos que forasteiros tinham descido em Yellow II. O correspondente a cento e cinquenta anos do planeta Terra. O sistema se encontrava dentro do “Enxame” há mais de cento e cinquenta anos, e nada tinha acontecido! Era o que Kasom queria saber. Tratava-se de uma informação muito importante, da qual se podiam tirar muitas conclusões. Kasom agradeceu e respondeu a algumas perguntas a respeito dele e de seu povo. Naturalmente só podia falar em parábolas, mas com isto acabou descobrindo algumas

coisas muito interessantes. Foi informado por exemplo do fato impressionante de que as formigas não tinham a menor ideia de que seu universo mudara. Não sabiam que seu mundo fora capturado por uma galáxia artificial, que era o “Enxame”. Nem desconfiavam de que Yellow e seus dois planetas corriam pelo cosmo à velocidade de cinquenta por cento luz. Por isso não podiam saber que as matérias-primas de seu mundo primitivo tinham sido escolhidas há séculos para um dia servirem de fonte de energia aos donos do “Enxame”. Quando isso acontecesse, eles teriam de morrer. Kasom já ouvira bastante. Apesar das perspectivas sombrias que se abriam para as formigas ele experimentou um certo alívio. Parecia que para o “Enxame” o tempo não tinha nenhuma importância. Os donos do conjunto gigantesco planejavam milhares de anos para a frente. Talvez sua expectativa de vida fosse muito grande, ou então sua organização social e seu sistema político previam que cada geração cuidasse da seguinte e da que se seguisse a esta e vivesse daquilo que fora deixado pelas gerações passadas. Só assim, pensou Kasom, é possível manter em funcionamento um sistema político como o “Enxame”. O “Enxame” era mesmo um sistema político. Sobre isto já não podia haver a menor dúvida. Um estado gigantesco, de dimensões incríveis, diante do qual comunidades como o Império Solar ou outros impérios siderais da Galáxia eram verdadeiros anões. Quem havia atrás disso? — Como eram os forasteiros vindos do céu? — perguntou Kasom. — As tradições revelam isso? Os nativos conferenciavam de novo antes de responder. — Não existe uma descrição uniforme, amigo. Alguns eram como nós, mas outros se pareciam com os habitantes do mar ou os caçadores de plantas voadores que vivem nas copas das árvores. Também havia bípedes entre eles, mas eram menores que você, amigo. Talvez nem todas as histórias sejam verdadeiras. Já faz muito tempo. Havia outra coisa que Kasom achava estranha. — Vocês não têm medo de nós? — perguntou. — Se já faz tanto tempo que não aparecem visitantes das estrelas, nossa presença pode ser considerada um acontecimento fora do comum. Não vejo ninguém que tenha vindo cumprimentar-nos, a não ser vocês. Estão desarmados. Existe uma explicação lógica para isso? — A explicação é simples, amigo. É possível que as tradições sejam pouco precisas no que diz respeito ao aspecto dos visitantes, mas em um ponto elas são muito exatas. Recebemos instruções minuciosas sobre a maneira de receber futuros visitantes. — Instruções? — Sim, instruções. E nós as seguimos. Espero que tenham ficado satisfeitos. — Que dizem essas instruções? Desta vez as formigas conferenciaram por muito tempo. Parecia que não estavam completamente de acordo sobre a resposta. Kasom entendia alguma coisa do que diziam, mas não conseguiu estabelecer a ligação entre as palavras. Esperou pacientemente, apesar de já estar escurecendo. Finalmente o porta-voz voltou a usar a palavra. — Vocês devem conhecer as instruções, pois elas vieram de vocês. Kasom não esperava isso. — Também somos mortais, e o tempo apaga muitas coisas — disse em tom indiferente. — Quando nossos antepassados visitaram vocês, nossa geração ainda não

tinha nascido. Existem tradições, mas elas não revelam como devem comportar-se os mundos que já foram visitados por nós. De forma pacata, acredito. Os nativos voltaram a conferenciar. Finalmente veio a resposta. — Devemos ser pacatos, sem dúvida. Não sabem mais nada? — Não. O que eu disse não basta? O porta-voz fez um sinal para os companheiros. O grupo preparou-se para voltar à aldeia. Já estava bem escuro. — É bom que entre vocês as tradições também se tenham perdido. Antes assim. Não refrescaremos a memória de ninguém, pois nosso povo é pacato e sabe o que quer. Construímos um belo mundo e queremos que continue assim. Vocês podem visitar-nos quantas vezes quiserem. Sempre serão recebidos como amigos. Passem bem. Ficarão muito tempo? — Não. Logo os deixaremos. Não querem mesmo dizer o que diziam as instruções reveladas pelas lendas? — Não! O tom em que foi proferida esta palavra revelava uma firme decisão — e uma dose de alívio. Kasom não teve a menor dúvida de que as instruções deixadas pelos donos do “Enxame” deviam ser desagradáveis. Por isso só aparecera uma delegação, em vez de todos os habitantes da aldeia. Mas que instruções seriam estas? E por que os nativos não queriam revelá-las? A despedida foi amável, mas fria, mas também havia nela um tom de alívio e esperança. As sombras do passado foram apagadas. Mas Kasom sabia que o futuro continuava incerto. Voltou ao jato espacial e contou o que tinha acontecido. Ao concluir acrescentou em tom pensativo: — Na verdade descobri muita coisa, apesar de não achar muito clara essa história das instruções e não gostar dela. Sabem o que eu acho? Os outros olharam para ele com uma expressão indagadora. Gucky fez uma careta. — Então? — disse Ras em tom insistente. — Os nativos receberam ordens de suicidar-se se aparecesse outra visita do espaço. Os outros fitaram-no com uma expressão de incredulidade. — Isso é um absurdo! Por que fariam isso? — Alaska sacudiu a cabeça de espanto. — O senhor tem uma fantasia desvairada, Kasom. — Não é tão desvairada assim, meu caro. Pense um pouco. Basta ver o alívio que sentiram quando perceberam que eu não conhecia as instruções, quando os insetos deviam supor que eu tinha uma ligação com os visitantes de outros tempos. O que poderia combinar melhor com os desejos dos donos do “Enxame” que o suicídio dos habitantes de um planeta que eles querem saquear? Ras dirigiu-se a Gucky. — Não descobriu nada? Devem ter pensado nas instruções que receberam. — Não prestei atenção — confessou o rato-castor. — Além disso acho a hipótese de Kasom exagerada. A população de um mundo preferiria ser destruída a matar-se voluntariamente. Receio que você esteja enganado, Kasom. — Sua fantasia realmente se descontrolou — opinou Ras Tschubai, que olhava para os nativos enquanto se afastavam na escuridão, depois de terem parado um instante e olhado para trás.

— Acha que alguém seria capaz de levar a população de um mundo a morrer voluntariamente? Kasom preferiu não apresentar outros argumentos em defesa de sua tese. Sentou-se à frente dos controles e perguntou. — E o raio-vetor de Harno, Gucky? — Faz tempo que desapareceu abaixo do horizonte. Não recebo mais nada. — Muito bem. Nesse caso vamos decolar e pousamos do outro lado do planeta, no lugar em que é meio-dia. Precisamos tentar descobrir a posição do planeta de Cristal, custe o que custar. Pelo menos a posição aproximada. — Só com o raio-vetor? — Gucky sacudiu energicamente a cabeça. — Impossível! Tenho a direção, mas não posso saber qual é a distância. Kasom sorriu. — Pense um pouco, baixinho. Se usarmos um pouco de lógica, conseguiremos. Você mesmo constatou que depois que o sol se põe, o raio-vetor é absorvido ou ao menos bloqueado pela massa do planeta. — Há poucos minutos ainda o recebi. O sol já se tinha posto. Você teve azar, meu chapa. — Azar por quê? Isso até facilita a determinação do lugar exato. — Kasom pegou uma folha de escrita e pôs-se a desenhar alguma coisa. — Este é o sol e aqui fica Yellow II. Viemos daqui, e o planeta estava atrás do sol, do lado direito. Descreve um movimento de rotação para a direita, visto de cima. Se você ainda captou os sinais de Harno depois do pôr-do-sol, o planeta de Cristal deve ficar mais ou menos aqui. — Kasom marcou um ponto no mapa feito por ele. — Este ponto corresponde mais ou menos ao centro do “Enxame”, e a direção está certa, conforme você mesmo afirmou. — Kasom fez cálculos por um instante. — Fica a uns trinta anos-luz daqui, cinquenta no máximo. — Acha que isso está certo? — perguntou Gucky em tom desconfiado. —Até podemos apostar — disse Kasom. Alaska entrou na conversa. — Nossos rastreadores e os outros aparelhos e instrumentos são bem precisos. Acho que para uma distância máxima de cinquenta anos-luz, considerando essa distância por duas vezes como os lados iguais de um triângulo isósceles, a dimensão do planeta pode ser adotada como sendo a base conhecida. Desta forma podemos fazer o cálculo exato da distância. A ideia deixou-o tão entusiasmado que ele alimentou o computador com os dados conhecidos enquanto Kasom decolava e voava sobre o mar, para o leste, ao encontro do sol que já desaparecera ao oeste. Depois de percorrer vinte mil quilômetros o jato espacial pousou de novo, desta vez num platô de rocha coberto por uma vegetação rala, bem acima da mata virgem que se estendia de horizonte a horizonte. Ali dificilmente se poderia esperar uma visita dos nativos. Alaska desligou o computador. Entregou o resultado a Kasom. —Trinta e seis anos-luz — disse em tom calmo. Kasom acenou com a cabeça. Parecia satisfeito. — Quer dizer que o que eu pensei estava certo. Acho que devemos programar uma etapa linear de trinta e seis anos-luz. Devemos voltar ao espaço normal bem perto do planeta de Cristal.

— Cuidarei dos caçadores do “Enxame” — disse Alaska. — Talvez tenham desistido. Alaska teve uma decepção. O telerrastreamento detectou quatro grupos grandes circulando em tomo do sistema a um dia-luz de distância. — Excelente! — Kasom não parecia preocupado ou nervoso. — Vamos programar o voo linear de maneira a sairmos do espaço normal a uma hora-luz de Yellow II. Parece que eles não possuem mesmo sensores do semi-espaço, porque estes grupos não são os mesmos que nos perseguiram. — Voltei a receber nitidamente o raio-vetor — anunciou Gucky. — Harno faz o que pode. Se continuar assim, pode alugar-se como estação goniométrica intergaláctica. Alaska voltou a fixar a direção exata e repetiu os cálculos que realizara sem os dados do raio-vetor deslocado em vinte mil quilômetros. O resultado foi o mesmo. Trinta e seis anos-luz. Ras levantou, espreguiçou-se e voltou a sentar-se. — Sugiro que Kasom e eu durmamos algumas horas antes de decolar. Temos dias cansativos pela frente. Kasom olhou para fora. Os raios do sol do amanhecer de um dia num mundo primitivo cobriam a paisagem solitária e vazia. Yellow II era um mundo lindo. Talvez fosse também um mundo rico em matérias-primas. E um mundo com habitantes pacatos. Um mundo que não devia cair nas mãos dos senhores do “Enxame”. — Partiremos ao pôr-do-sol — disse e levantou-se. — Ras, concordo plenamente com sua sugestão, isto se o comandante não tiver nenhuma objeção. Gucky estremeceu. As brincadeiras já começavam a enervá-lo. Mas ele demonstrou uma calma surpreendente. — Concedido — disse laconicamente. — Tratem de tirar um ronco. Alaska esperou que a porta se fechasse e perguntou: — Até parece que você quer ver-se livre de nós. — Quero mesmo, Alaska. Imagine só! Lá fora há um mundo esperando que eu o explore... — Gucky bateu em seus ombros num gesto bonachão. — Você certamente terá a gentileza de montar guarda na nave enquanto eu fizer isto, não é? Não me diga que vai recusar... —Eu queria... — principiou Alaska, mas calou-se. Gucky desmaterializara-se. Apareceu do lado de fora, a cem metros do jato espacial, no platô. Caminhou meio desajeitado em torno de algumas pedras grandes, fazendo de conta que queria tomar posse deste mundo em seu próprio nome. Alaska gostou que ele tivesse esse prazer e pôs-se a calcular a etapa linear que tinham combinado. *** O relógio-calendário marcava o dia 15 de fevereiro de 3.442, tempo terrano. Em Yellow II era o fim da tarde. Gucky terminara sua excursão e voltara ao jato espacial. — Então? — perguntou a Alaska, que estava preguiçosamente deitado na poltrona, cochilando. — Tudo pronto? Os outros ainda estão dormindo? Alaska piscou os olhos.

— Nem se mexem. A primeira etapa linear — tomara que também seja a última — foi programada. A única coisa que Kasom tem que fazer é decolar. O resto será automático. Gucky sentou-se. — Andei teleportando por aí. É uma região maravilhosa. Gostaria de passar algumas semanas de férias aqui. — O rato-castor tirou lentamente o traje de combate que usara durante sua expedição particular. Quando notou o olhar espantado de Alaska, sorriu ironicamente. — Está admirado, não está? Ainda estou com a pele molhada — tomei banho. Descobri um lago de águas límpidas a uns cem quilômetros daqui. Não resisti. — E se houvesse peixes perigosos ou coisa parecida? — Nem uma minhoca! — afirmou o rato-castor. — Foi uma coisa maravilhosa. A propósito: Vou acordar os cavalheiros. Está na hora de nós cochilarmos um pouco. Kasom não precisa de nós para fazer subir esta lata velha. — O voo foi programado — concordou Alaska. — Kasom não terá muito trabalho. Kasom e Ras estavam muito bem-humorados ao entrar na sala de comando. Gucky, que os acordara, seguiu-os e deixou a porta aberta. Ainda estava falando no banho que tomara, deixando água na boca dos outros. — Não se encontrou com nenhum nativo? — perguntou Kasom. — Parece que aqui em cima não mora nenhum. Também vi poucos animais. — E os grupos de caças? — perguntou Kasom a Alaska. — Dão voltas em torno do sistema a grande distância. Se acelerarmos bem entraremos no espaço linear antes que nos detectem de verdade. — Muito bem. Neste caso eu sugeriria que Ras e eu nos encarreguemos da decolagem e da ruptura das linhas inimigas. Enquanto isso vocês comerão alguma coisa e dormirão. Quando chegarmos ao destino teremos de reunir nossas forças. — Você lê pensamentos? — perguntou Gucky, fingindo-se de espantado. — É que também íamos apresentar essa proposta inteligente. Kasom sentou-se à frente dos controles. — Pois tratem de dar o fora e não nos incomodem mais! — Kasom acenou com a cabeça para Ras. — Cuide do centro de controle de tiro, Ras. Não acredito que precisemos, mas ninguém pode ter certeza... Alaska e Gucky retiraram-se sem mais comentários. Se alguma coisa não corresse de acordo com o plano, eles perceberiam em tempo. Não deixariam de ouvir o alarme. Dali a dez minutos Kasom decolou. O jato espacial acelerou ao máximo de sua capacidade, entrou na rota previamente calculada e precipitou-se espaço a fora. A programação do voo linear entrou em funcionamento automaticamente quando a nave alcançou a velocidade necessária. Kasom ficou de olho nos rastreadores. Parecia que ainda não tinham sido detectados. Mas os quatro grupos de caças apareciam nitidamente nas telas. Antes que pudesse acontecer qualquer coisa, o jato entrou no espaço linear sem incidentes. Kasom recostou-se na poltrona e respirou aliviado. — Pronto — disse a Ras. — Resta saber o que encontraremos pela frente quando voltarmos ao espaço normal. Ras apontou para os controles de artilharia. — Ficarei a postos para qualquer emergência. O tempo custou a passar. A pequena nave percorreu a distância imensa percorrendo bilhões de vezes a velocidade da luz, em sentido relativista. Permaneceu num universo

diferente, um universo superdimensional, que praticamente ficava encravado entre a quarta e a quinta dimensão. Não houve nenhuma colisão com aquilo que costuma ser chamado de matéria. A fase crítica seria a da reentrada no espaço normal, na qual a velocidade ficaria pouco abaixo da da luz. A matéria voltaria a ser matéria. Kasom examinou os instrumentos. Ainda teriam dez minutos de descanso. Lembrou-se dos nativos de Yellow II. O problema não lhe saia da cabeça. Quais eram mesmo as estranhas instruções que tinham recebido? Deviam suicidar-se? Aos poucos ele mesmo foi achando isso pouco provável. Talvez tivessem recebido ordem de ajudar a saquear o planeta, de servir de mão-de-obra aos conquistadores. Seria bastante desagradável, mas melhor que o suicídio. Kasom recordou que os nativos tinham ressaltado que os astronautas que tinham descido no planeta em outros tempos eram diferentes uns dos outros. Dali se podia concluir que se tratava de representantes de vários povos. De povos cujos planetas tinham sido capturados pelo “Enxame”? Kasom foi obrigado a reconhecer que isso parecia ter lógica. Também se poderia concluir que os conquistadores precisariam de novos contingentes de seres vivos, porque sua galáxia ambulante crescia a cada ano. Talvez só destruíssem a população dos planetas capturados quando ela não concordasse com suas condições. Mais cinco minutos. De qualquer maneira, uma conquista sempre é uma conquista. Quer agisse com brutalidade, quer se mostrasse humanitário, o “Enxame” roubava aos povos independentes a liberdade de evoluir segundo permitia a natureza. Impunha-lhes sua vontade e escravizava-lhes. O “Enxame” passava a ser uma causa justa no sentido da liberdade pessoal. Manobra de entrada! Os anteparos fecharam-se automaticamente quando o fogo branco incandescente atingiu o jato.

2
Demorou alguns longos segundos até que Kasom e Ras pudessem abrir cuidadosamente os olhos. Apesar dos anteparos o fogo continuava ofuscante e o branco transformara-se numa mistura fantástica de todas as cores que se possam imaginar. Um gigantesco diamante parecia estar suspenso no espaço bem à sua frente. O planeta de Cristal — devia ser ele! Kasom respirou profundamente. Era bem verdade que Gucky havia dado uma descrição, mas a realidade era mais formidável. Os rastreadores automáticos que começaram a funcionar automaticamente no mesmo instante forneceram os primeiros dados. Confirmaram que o planeta de Cristal era mais ou menos do tamanho da lua terrana e estava exatamente a dezessete horas-luz. Como o jato espacial voava em velocidade pouco inferior à da luz em sentido contrário ao “Enxame”, que desenvolvia metade dessa velocidade, dali resultava matematicamente uma vez e meia a velocidade da luz. Desta forma poderiam chegar ao planeta de Cristal dentro de dez ou doze horas. Os rastreadores não indicaram nenhum objeto entre a nave e o planeta. — Céus — como é bonito! — disse Ras profundamente impressionado. — Bonito e, sem dúvida, perigoso. O planeta parecia ser uma peça de vidro lapidado refletindo milhões de vezes a luz dos dois sóis que ficavam em posição lateral e derramando o brilho sobre si mesma. Os reflexos quase não podiam ser vistos a olho nu, por causa dos anteparos. Kasom recuperou-se da surpresa. — Os rastreadores, Ras! Precisamos de todos os dados disponíveis a respeito do planeta — se realmente é um planeta. É artificial. E possui dois sóis, sem dúvida. Mas um planeta...? Os telerrastreadores entraram em funcionamento. Enquanto isso Ras examinava o espaço à procura de objetos que talvez pudessem ser unidades espaciais. Kasom apertou o botão do intercomunicador para acordar Gucky e Alaska. Dali a alguns minutos os dois apareceram na sala de comando. Pareciam descansados, mas quando viram o planeta de Cristal sua calma desapareceu. Até Gucky ficou mudo de espanto diante do cenário sem igual. — Então? Não dizem mais nada? — perguntou Kasom num tom que até podia dar a impressão de que o planeta de Cristal fora construído por ele. — Ninguém de nós nunca viu coisa igual. A propósito: Harno continua a transmitir? — Sem alteração — observou Gucky em tom distraído e contemplou ininterruptamente a maravilha cósmica. — O raio-vetor vem diretamente daquilo. Aliás, ele poderia parar com isso. Está se cansando à toa. Fiquem quietos por alguns minutos. Quero ver se consigo comunicar-lhe isto... O rato-castor mergulhou num estado de concentração total. Seus lábios mexeram sem que deles saísse um som. Kasom e os outros compreenderam que ele voltara a estabelecer contato telepático com o ser feito de energia. Depois de cinco minutos o rato-castor informou: — Harno voltou a dizer que o diamante é o cristal das almas aprisionadas, mas não forneceu dados mais precisos. Os que governam, riem e sofrem... Não faço ideia do que quer dizer com isso. De qualquer maneira Harno já sabe que logo chegaremos ao destino.

Acho que voltará a comunicar-se conosco se isso for necessário. Quer que pousemos e tentemos entrar no planeta. Está sendo fortemente vigiado, mas Harno é de opinião que os rastreadores não são capazes de detectar objetos pequenos. Talvez nosso jato espacial seja um objeto pequeno. — Talvez — disse Kasom em tom de dúvida. — Se não for... — Um grupo grande aproxima-se do lado esquerdo do “Enxame” — interrompeu Ras em tom apressado. — Parece que são caças, de novo. Cuidarei dos controles de tiro. Alaska, poderia ter a gentileza de encarregar-se dos rastreadores? Todos foram aos seus lugares. Kasom usou a direção manual para poder realizar manobras instantâneas. No caso de um ataque cuidaria da defesa. Alaska incumbiu-se dos rastreadores e goniômetros. Gucky foi o único a refestelar-se sorrindo numa poltrona à frente da qual não havia instrumentos. — Afinal, sou o chefe — argumentou ao ver os olhares de desaprovação dos amigos e ler seus pensamentos ofensivos. — Além disso vocês não deixaram nenhum trabalho para mim. — Quem decide aqui é você — respondeu Kasom com uma evidente malícia. Um sol vermelho passou à direita do jato. Estava tão distante que não chegou a formar um traço colorido, mas continuava a ser uma bola de fogo vermelha que se movia a olhos vistos. Nessas distâncias incríveis um movimento destes não representava nenhum perigo, mesmo com a nave se deslocando à velocidade de cento e cinquenta por cento luz. Mesmo a uma distância de uma hora-luz ainda teriam quarenta minutos para desviar-se. — Fomos detectados pelo grupo — informou Alaska. — Segue em nossa direção, um pouco para a frente. Pretende interceptar-nos. O planeta de Cristal aumentava e era cada vez mais luminoso. Não havia dúvida sobre as intenções dos caças. Queriam interpor-se entre o objeto detectado e o planeta de Cristal. — Devem saber que somos a nave que fugiu — disse Ras, que continuava junto aos rastreadores. — Provavelmente foram informados pelos outros grupos, que estão a três mil anos-luz daqui. — Deixemos que se aproximem — disse Kasom calmamente. — E depois mostre-lhes uma coisa, Ras! — acrescentou Gucky. Era um pedido surpreendente para o pacato rato-castor. A única explicação era o amor que sentia pelo planeta das formigas. Além disso talvez ainda fosse muito fresca a lembrança de SV-I, onde tinham encontrado os vosgos, aqueles ursos inofensivos e brincalhões de que Gucky tanto gostara. O planeta SV-i servira-lhes de esconderijo ao serem captados pelo “Enxame”. Mas também se tinham transformado em presa dos conquistadores. Os caças erraram nos cálculos ou não puderam voar mais depressa. De qualquer maneira não conseguiram colocar-se entre o planeta de Cristal e o jato. Abriram fogo do lado esquerdo. Como já se disse mais de uma vez, o jato espacial deslocava-se à velocidade de cento e cinquenta por cento luz relativamente ao “Enxame”. Na verdade desenvolvia velocidade pouco inferior à da luz relativamente ao resto do Universo que envolvia o “Enxame”. Mas os feixes energéticos disparados pelos caças também avançavam à velocidade da luz. Mas apesar disso erraram o alvo.

Aproximavam-se do alvo à velocidade da luz e em linha reta relativamente ao “Enxame”, mas com um deslocamento lateral equivalente à metade da velocidade da luz em direção ao centro do “Enxame”. Não podiam atingir o alvo. — Tiveram azar! — disse Gucky em tom maldoso. — Só são um pouco mais bobos que nós. Viu-se que Gucky era mais inteligente do que Kasom acreditara. — Uma bomba de conversão chega instantaneamente ao alvo; será teleportada, por assim dizer. Desta forma o deslocamento relativo dos objetos já não fará nenhuma diferença. — O rato-castor fitou Kasom com uma expressão de triunfo. — Tenho razão, Ras? O teleportador acenou com a cabeça sem virar o rosto. Os cálculos mantinham-no completamente ocupado. — Desta vez você tem. Colocarei uma bomba bem à frente da proa deles. Eles voam para cima dela, pois com a velocidade que desenvolvem não terão tempo para mudar de direção. — O que acontecerá com eles? — Nada, porque aí também serão rápidos demais. Atravessarão a bola de fogo. É só. Talvez suas antenas externas se derretam, talvez mais alguma coisa. De qualquer maneira isto lhes servirá de alerta. Kasom manteve o jato espacial na rota que o levaria ao planeta de Cristal e aos dois sóis gigantes azuis, que em comparação com o diamante pareciam pálidas imitações. — Há outros grupos aproximando-se de várias direções — anunciou Alaska preocupado. — Preparem os trajes de combate — ordenou Gucky. — Se necessário teremos de teleportar para fora da nave. Tive meus motivos para trazer Ras. Levará Alaska, enquanto eu me encarregarei de Kasom? — Quer que abandonemos a nave? Kasom olhou para Gucky com uma expressão assustada. — Quem lhe deu essa ideia? — Só se não tivermos outra saída. Não se esqueça do que Harno disse. Informou que objetos pequenos não podem ser detectados nem mesmo pelos melhores aparelhos, por causa da energia irradiada pelos sóis próximos. Comparado conosco o jato ainda é muito grande. — Mas abandonar o jato...! — Kasom sacudiu a cabeça num gesto de perplexidade. — Como poderemos um dia sair do “Enxame” sem uma nave espacial? Gucky fez um gesto de pouco-caso. — Aqui existem mais naves do que gostaríamos, Toronar. Não deve ser difícil organizar uma delas. Kasom desistiu. Voltou a cuidar da navegação. Ras, que acabara de concluir seus cálculos, disparou o primeiro tiro com o canhão conversor. A bomba desmaterializou e foi levada ao alvo através da quinta dimensão. No mesmo instante em que Ras apertou o botão ela detonou a uns cinco milhões de quilômetros de distância. A tela do rastreador mostrou, apesar de a bola de fogo só poder ser vista a olho nu dali a mais ou menos dezoito segundos. O grupo de caças correu bem para dentro do inferno e separou-se em todas as direções. Alguns aparelhos balançaram sem reduzir a velocidade, dando a impressão de que tinham sofrido avarias graves.

— Deste jeito não conseguiremos — disse Alaska de repente. — Devem ter mobilizado toda a frota de defesa. Há grupos se aproximando de todos os lados, inclusive algumas unidades maiores. Acho que o melhor seria entrarmos de novo no espaço linear, para não cairmos nos sóis azuis à velocidade da luz se tivermos de abandonar o jato. — Alaska — disse Gucky. — Programe a brincadeira! Estava mesmo na hora. A etapa começou dentro de cinco minutos. — O planeta de Cristal ainda está a dezesseis horas-luz — explicou Alaska. — Programei a etapa para quatorze horas-luz e meia. Espero que seja o suficiente. Era o que todos esperavam. No último instante, quando já tinham sido cercados, entraram no espaço linear e dali a pouco rematerializaram no fogo espectral do planeta de Cristal, que superava todos os outros astros. Kasom ligou os jatopropulsores de frenagem. *** Parecia mesmo que os conquistadores tinham enviado ao encontro do jato todas as unidades estacionadas nas proximidades do sistema azul, pois Kasom conseguiu aproximar o veículo a menos de quinhentos milhões de anos-luz do planeta de Cristal antes que aparecessem os primeiros caças. Alaska detectou campos energéticos muito intensos, que deviam ter origem no planeta de Cristal. Os instrumentos não revelaram nada sobre a natureza e a finalidade destes campos. Ras mandou a primeira bomba conversora ao encontro dos grupos de caças. Enquanto isso Gucky continuava a contemplar fascinado o Cristal das almas prisioneiras, conforme Harno chamara o objeto artificial. Tentou estabelecer contato com o ser feito de energia. Conseguiu. — Estamos aqui, Harno! Que devemos fazer? — Pousar! Se alguém os impedir ou se forem atacados, abandonem a nave. Os campos energéticos do Cristal sem dúvida os levarão à superfície. Depressa... O contato foi interrompido. Gucky já sabia o que queria. Sua teoria fora confirmada. — Voltarei a chamar assim que tivermos pousado — prometeu. Mais uma vez feixes energéticos foram repelidos pelo campo energético do jato espacial. Logo o fogo ficaria mais concentrado, e então nenhum campo energético por melhor que fosse os protegeria. — Chegou a hora — gritou Gucky. — Temos de abandonar a nave. Com que velocidade nos aproximamos do Cristal? — Ainda são duzentos por segundo. Distância trezentos mil. — Muito bem. Fechar trajes. Deixem os equipamentos desligados por enquanto. O rato-castor segurou a mão de Kasom e esperou que Ras fizesse o mesmo com Alaska. Lançou mais um olhar triste para a cabine do jato espacial, fez um sinal para Ras — e teleportou. Os anteparos dos capacetes eram fechados e quase opacos, mas o planeta de Cristal brilhava como mil sóis. Mas só irradiava uma luz fria, senão o jato espacial se teria derretido há horas. O jato espacial...! Gucky captou os pensamentos de Ras. O teleportador também abandonara a nave e estava suspenso a alguma distância dali, ao lado de Ras. Gucky deu dois saltos

cuidadosos e conseguiu encontrá-lo. Ligaram os quatro trajes espaciais com grampos magnéticos para não se perderem, pois era difícil enxergar os objetos através dos anteparos. — Lá está ele! — disse Ras, referindo-se ao jato espacial. — Ainda bem que estamos bem longe, pois vão dar cabo dele. Cinco ou seis naves torpedeiras abriram fogo concentrado contra o pequeno disco, cujo campo defensivo fora desligado há algum tempo. Por isso nem seria necessário concentrar o fogo num ponto, mas isso aumentaria o efeito desejado. O jato espacial desmanchou-se numa explosão atômica. Não restou nem um pedaço de matéria e nem mesmo os melhores especialistas seriam capazes de descobrir sua origem. Os quatro amigos mantinham os rádios desligados para não serem descobertos. Comunicavam-se encostando os capacetes. As ondas acústicas propagavam-se em seu interior e eram conduzidas através das vibrações dos próprios capacetes. — Temos de reduzir a velocidade — disse Kasom em tom preocupado. — Do jeito que vamos acabamos nos espatifando. Estamos caindo em direção ao planeta de Cristal. — É aonde queremos chegar — lembrou Gucky. — Vamos frear por meio de alguns saltos de teleportação. Mas há outro detalhe. Harno referiu-se a campos energéticos que nos recolheriam. Não se preocupe. Nada acontecerá conosco. O diamante parecia maior e tomara-se mais nítido. Já se viam certos detalhes que antes não tinham sido percebidos. O objeto do tamanho da lua realmente era formado por milhões de superfícies lapidadas de formas diferentes, como triângulos, hexágonos, quadrados, até elevações parecidas com pirâmides e semi-esferas, que refletiam cada raio de luz milhares de vezes. O planeta brilhava em todas as cores imagináveis, com uma intensidade que frustrava todas as tentativas de distinguir outros detalhes em sua superfície. Alaska mantinha-se ocupado com o microrrastreador instalado em seu traje de combate. Tratava-se de um aparelho com um desempenho extraordinário, que trabalhava com a mesma precisão do instalado no jato espacial. Alaska fez um sinal para Kasom, que encostou o capacete ao seu. — Desistiram da busca de eventuais sobreviventes. É um sinal de que não podem detectar-nos. Gucky entendeu o que Harno quis transmitir. Somos muito pequenos para eles. Os campos energéticos dos dois sóis sobrepõem-se aos impulsos de seus rastreadores, mas não aos dos nossos. — Ainda estão por perto? — Estão. Ainda não podemos usar o rádio, se bem que não acredito que poderiam captar sinais tão fracos. Vamos ficar quietos, que nada nos acontecerá, ao menos por enquanto. Os quatro continuavam a cair em direção ao planeta de Cristal Mesmo sem o efeito de frenagem de seu equipamento de voo, a velocidade diminuía. A superfície do astro artificial tornara-se maior, enchendo completamente o campo de visão. Só faltavam algumas centenas de quilômetros... — Já fomos alcançados pelos campos energéticos anunciados por Harno — afirmou Ras. — Não me sinto muito à vontade. Se podem segurar Harno, nós nunca mais nos livraremos deles. — Você é um derrotista! — repreendeu-o Gucky. — De qualquer maneira não temos alternativa. Você deveria ter pensado nisso mais cedo. — Quem entra numa com você nem deve tentar usar o cérebro — respondeu Ras.

— Os caças mudaram de direção — comunicou Alaska. — Afastam-se de nós e do sistema. Acho que não está sendo vigiado ou bloqueado constantemente. Já era uma boa notícia, que além disso teve o mérito de interromper e pôr fim à discussão entre Gucky e Ras. Talvez seu pouso mais ou menos voluntário no planeta de Cristal nem fosse notado — a não ser por aqueles que viviam dentro dele. Se fossem prisioneiros, talvez poderiam transformar-se em aliados. Ainda estavam caindo e a superfície ficava apenas cem quilômetros abaixo deles. Parecia ser um mundo de vidro, de espelhos. Devia ter sido construído por uma tecnologia incrível, que não tinha igual no cosmo. Qual era sua finalidade? Se conseguissem descobri-la, talvez chegariam um pouco mais perto do mistério do “Enxame”. De repente Gucky ficou muito nervoso. Fazia gestos dentro do traje de combate que ninguém entendia. Só compreenderam o que ele dizia depois de encostar os capacetes ao do rato-castor. — Impulsos telepáticos! O planeta deve estar cheio de telepatas. isso não existe! Kasom acenou violentamente com a cabeça. Levou algum tempo para encostar seu capacete de novo ao de Gucky, embora isso nem fosse necessário, porque o rato-castor não precisava disso para compreendê-lo. — Também estou recebendo os impulsos, apesar de não ser telepata. — Deixei bem claro que são impulsos telepáticos — quase chegam a ser hipnoimpulsos, que também podem ser captados por quem não é telepata. Não tenho nenhuma explicação. Logo, não me pergunte. A única coisa que podemos fazer é esperar, e ter cuidado. Com Ras e Alaska está acontecendo a mesma coisa. Realmente era assim. Ras e Alaska sentiram os pensamentos estranhos entrarem à força em sua mente, ainda com certo cuidado, mas de forma insistente e segura. Dominavam os próprios pensamentos e os reprimiam. Eram pensamentos alegres, quase de júbilo. Parecia que as almas prisioneiras queriam cumprimentar os recém-chegados. Gucky tinha certeza de que era absurdo pensar que tantos telepatas podiam ser prisioneiros no planeta de Cristal. Devia haver outra explicação para o fenômeno surpreendente. De fato havia! Gucky teve muito trabalho para comunicar sua teoria aos outros. Os pensamentos alegres quase chegavam a ser mais fortes que sua linguagem acústica. — O planeta...! É um ampliador, um ampliador gigantesco de impulsos mentais. Acho que é capaz de converter em impulsos telepáticos e transmitir até mesmo os pensamentos de seres completamente normais, fazendo com que qualquer pessoa possa recebê-los. É a única explicação que encontro para a grande quantidade de pensamentos que nos atinge. Mas para que serve isto? Um transmissor de telepatia dentro do “Enxame”, e ainda, segundo afirma Harno, os prisioneiros...? Um superamplificador de impulsos parapsíquicos? Será que este transmissor, este amplificador, era tão potente que com ele se podia dominar outros povos a anos-luz de distância? — Um amplificador de impulsos telepáticos? — certificou-se Kasom. Gucky acenou com a cabeça e informou: — Isso mesmo! Faculdades telepáticas que já existem são reforçadas de uma forma que nem conseguimos imaginar, impulsos mentais normais são convertidos em emissões telepáticas. Acho que isto nos fez avançar bastante. — O rato-castor olhou para a superfície. — Acho que ainda faltam cinquenta quilômetros...

— Quarenta e oito — corrigiu Alaska. Enquanto desciam, Gucky esforçou-se ao máximo para voltar a fazer contato com Harno. O ser feito de energia lhe parecia um ponto de referência fixo na situação mais que enigmática em que se encontravam, mesmo que eles mesmos quisessem considerarse prisioneiros. Os impulsos de Harno chegaram muito fracos, mas depois de algum tempo foi possível ampliá-los. Gucky fez algumas perguntas, que foram prontamente respondidas. — Você tem razão, é um amplificador. Os mutantes e semimutantes com suas faculdades parapsíquicas servem de fonte de energia. É perfeitamente possível usar este planeta, que pode ser transformado numa lente direcional, para influenciar outros sistemas, dominar povos inteiros. Compreende o perigo que isto representa, Gucky? A partir de agora seus impulsos são mais fortes, muito mais concentrados. Devem estar próximos, muito próximos. — Daqui a pouco pousaremos. — Não se preocupem. Terão uma recepção amável. Os servos os cumprimentarão. Trata-se de seres inocentes que há tempos violaram as leis do “Enxame” e agora têm de pagar por isso. Mas existem outros seres contra os quais vocês terão de cuidar-se, apesar de não constituírem um perigo direto. Trata-se dos modificadores de detalhes. — De quem? — Dos modificadores de detalhes! São, sem exceção, mutantes ou ao menos semimutantes. São capazes de comunicar-se telepaticamente mesmo sem os efeitos do cristal, bem como teleportar ou usar a telecinésia para pôr um inimigo fora de combate. Você terá de enfrentar alguns problemas... — Terei horas agradáveis pela frente — afirmou Gucky e voltou a olhar para baixo. — Faltam vinte quilômetros... — Quando chegar a hora, o portão se abrirá — comunicou Harno. Seus impulsos voltaram a ficar mais fracos. — Quase não o compreendo, Harno! — O portão... voltarei a chamar assim que tiver recuperado as forças. Não se preocupem, vocês não correm um perigo iminente... Harno calou-se. Gucky tentou digerir o que ouvira — ou melhor, o que recebera telepaticamente — e encontrar um sentido em tudo isso. Só conseguiu em parte. Servos e modificadores de detalhes...! Que era isso? O que modificavam os seres que se deixavam servir pelos presos? Por que tinham de ser mutantes para fazer isso? Durante os últimos quilômetros voltou a absorver pensamentos que continuavam a chegar em grande quantidade a ele e a seus companheiros. Além de alegria, esses pensamentos exprimiam expectativa e esperança. Esperança de quê? Será que os servos estavam mesmo tão ansiosos para expiar sua culpa servindo e mostrando-se submissos? De que forma serviam? De repente Gucky percebeu que alguma coisa mudava na superfície reflexiva, bem embaixo deles. Apareceu uma mancha escura redonda, que aumentou lentamente. Mais ou menos como um portão pelo qual se podia entrar no planeta de Cristal... — Olhe a abertura — disse Kasom preocupado. — Vamos cair nela. Precisamos teleportar.

— Fomos alcançados pelos campos energéticos, e Harno referiu-se ao portão. Não podemos fazer nada para evitar que isso aconteça. — Gucky não se sentia muito bem dentro da própria pele, mas sabia que no momento estavam praticamente indefesos. — Temos de confiar em Harno. Os impulsos mostravam que já tinham sido examinados e classificados parapsiquicamente. Dois mutantes, um semimutante, um ser normal. Era isso mesmo. Ras e Gucky eram mutantes, Alaska podia ser considerado um semimutante, Kasom era completamente normal. O diâmetro da abertura redonda era relativamente pequeno. Pelos cálculos de Kasom devia ser de cinquenta metros. Embaixo dela via-se uma superfície fosca, que prometia apoio firme para os pés. À esquerda e à direita, ou melhor, em toda parte, ficavam as superfícies de cristal, que não eram planas, mas lapidadas. Subiram, enquanto os quatro amigos desciam nas profundezas. Enquanto isso o “portão” voltou a fechar-se em cima deles. Tinham sido recolhidos pelo planeta de Cristal.

NAVE-DISCO DOS INSTALADORESDO “ENXAME”
Dados Técnicos:
Nave de pequeno porte em forma de disco. Corpo principal da nave: 100 m de diâmetro, 40 m de espessura. Feita de um metal azul-claro parecido com terconite. Propulsão: propulsores de partículas de antigravitacionais para voo infraluz. Propulsor de transição para hipervoo. Sistema de propulsão linear.

1. Sistema positrônico robotizado de direção. 2. Hiperrádio com antena emissora e receptor circular. 3. Sala de comando secundária com sistema positrônico de navegação e equipamentos de interpretação dos resultados fornecidos pelos rastreadores. 4. Sala de comando principal com direção manual, telas de rastreamento, console de controle dos canhões, instalações de comando de hiper-rádio, assentos em forma de concha para a tripulação, controles dos robôspilotos e instalações destinadas a manter a tripulação em sono profundo. 5. Canhão térmico energético (8 unidades), com suprimento de energia independente.

6. Dormitórios (20-70 cm de altura) com nichos em forma de favo e salas com recipientes esféricos cheios de alimentos concentrados. 7. Sala circular com aparelhos de controle do sistema de hibernação e regulagem de clima. 8. Eclusa queda para as instalações de hibernação, com porta para instaladores do “Enxame”, de tamanho reduzido e abertura vedável, para equipes de manutenção compostas de seres de tamanho normal. 9. Centro de aparelhos de rastreamento e medição (8 ao todo), com capas protetoras fechadas, que podem ser abertas em caso de necessidade. 10. Sala de máquinas com geradores de campos defensivos, regeneradores de ar e água, instalações de climatização e

abastecimento de energia de emergência. 11. Sala intermediária isolada entre o setor superior e inferior da nave, com projetores especiais que levam os instaladores do “Enxame” a reduzir ou aumentar de tamanho. 12. Subida em caracol para o setor superior da nave, sem degraus (4 ao todo). 13. Propulsores antigravitacionais com projetores antigravitacionais e neutralizadores de pressão. 14. Sala circular com escada de emergência que leva ao setor superior da nave e conjuntos de abastecimento de energia dos projetores especiais que se encontram em semi-espaço. 15. Anel de apoio. 16. Centro de observação com console e 30 telas de imagens dispostas em rede, para controle ótico das salas internas da nave-cogumelo e seus arredores. 17. Depósitos, divisões cientificas, enfermaria e instalações sanitárias. 18. Sala de máquinas principal do setor superior com conversores de energia, bancos de energia e rampa inclinada que leva à escotilha de cima e escada para a sala de máquinas inferior. 19. Oficina com máquinas e aparelhos para manutenção, além de armários com trajes espaciais. 20. Depósito de matérias-primas e peças sobressalentes.

21. Divisão de controle de máquinas. 22. Sala de máquinas principal do setor inferior, com 8 reatores de fusão nuclear, hiperpropulsor e escotilha que dá para o lado de fora, para fins de manutenção. 23. Jatopropulsores com bancos de energia (8 ao todo). 24. Centro de rastreamento pronto para entrar em funcionamento, com anteparos protetores abertos, antenas levantadas, câmeras e equipamento de controle de tiro do canhão térmico, além de holofotes externos de iluminação global (24 ao todo). 25. Ante-sala da eclusa com armários de trajes espaciais e armas de fogo portáteis, bem como condutor de energia para as salas de máquinas do setor superior. 26. Depósito com sala de eclusa em baixo (4 ao todo). 27. Propulsor de hipertransição com conversores de energia e bateria de reserva. 28. Jato de propulsão (8 ao todo) com armadura de reforço externa. 29. Poço central do elevador de ligação da nave-cogumelo com placa de vedação e condutos de ligação com a nave-mãe (só usado com a navecogumelo ancorada). 30. Oito blocos de ancoragem, acoplados com a estrutura de decolagem da nave-cogumelo. Os blocos também podem servir como apoio no pouso em base firme.

Dados Gerais:
Esta nave de pequeno porte é usada pelos instaladores do “Enxame” para sair de uma navecogumelo pousada em determinado planeta e voltar ao “Enxame” a que pertencem. A nave decola sobre uma armação que sai do ponto mais alto da nave-cogumelo. Antes da decolagem toda a tripulação de 50.000 pessoas do “cogumelo” entra na pequena nave. Ao passarem de uma nave a outra, os seres de 2,50 metros de altura diminuem de tamanho vinte vezes. Desta forma os instaladores do “Enxame”, que só têm doze centímetros e meio, cabem nas salas de hibernação da parte superior da nave-disco. Depois que todos os seres estão hibernando, a nave é dirigida por um robô-piloto. Se necessário, pequena parte da tripulação que está hibernando pode ser acordada antes da hora, para fazer a direção manual da nave depois de voltar ao tamanho normal. Além disso um grupo de controle acorda a certos intervalos, para verificar a aparelhagem da nave e realizar pequenos reparos. Depois que a navecogumelo deixada para trás termina suas tarefas, a tripulação volta na nave-disco para levá-la de volta ao “Enxame”.

3
Kasom verificou seus instrumentos. Ligou o rádio e fez sinal para que os outros fizessem o mesmo. — Oxigênio! — foi a primeira coisa que comunicou. — Pode-se respirar. Vamos tirar os capacetes? A pergunta fora dirigida a Gucky, que afinal comandava a missão. — É claro que vamos. Não corremos perigo imediato. Foi o que Harno garantiu. Mas acho que devemos ficar com as armas em condições de atirar. Não quero ser atirado pelo ar por um telecineta que tenha enlouquecido. Abriram os capacetes. O ar era fresco, puro — e obviamente artificial. Estavam numa sala redonda, cujo teto os separava da superfície do planeta de Cristal. Não havia nem móveis, nem portas, nem corredores — nada. Somente a sala vazia. Gucky fez o que já poderia ter feito antes. Contou detalhadamente o diálogo mudo que tivera com Harno e deu as informações que recebera dele. Ficou aliviado ao ver que os amigos se acalmaram, mostrando-se confiantes, embora sua situação pudesse ser tudo, menos clara. O chão, as paredes e o teto — só então se deram conta disso — eram amarelos. Amarelo-ocre! Os trajes das criaturas que apareceram de repente quase não se destacaram contra este amarelo. Também eram amarelos-ocre. Todos usavam trajes amarelo-ocre, mas eram quase sempre diferentes uns dos outros. Viam-se formas humanóides em estranhas variações, descendentes de insetos com seis, oito ou mais pernas. Até havia répteis voadores, mas também pareciam desajeitados nos trajes amarelos, que pareciam representar uma espécie de legitimação. Mas por mais diferentes que fossem, tinham uma coisa em comum além da cor amarela: era o pensamento de alegria submissa, da felicidade de servir — e uma esperança indefinida. — Não são perigosos — disse Gucky aos companheiros. — Não nos atacarão, pois foram programados para servir. Seus donos são os modificadores de detalhes a que Harno se referiu. Não me admiraria se também andassem todos de amarelo. Uma cor desagradável! — Que querem de nós? — Vieram para cumprimentar-nos, Kasom. Trate-os bem, que não são culpados de nada. Durante os cumprimentos, realizados em meio a inúmeras mesuras, Gucky recebeu pela primeira vez depois da chegada ao planeta de Cristal, os impulsos mentais nítidos de Harno. Eram apenas ligeiras informações do ser feito de energia. — Cuidado! O Y’Xanthomrier com o olho sapiente...! Gucky mal acabara de confirmar precariamente a recepção quando os impulsos de Harno desapareceram. Provavelmente tivera de mobilizar suas reservas de energia para irradiar esta mensagem telepática. Logo, devia ser muito importante.

Gucky conhecia o Y’Xanthomrier, mas nunca ouvira falar do olho sapiente. Era a primeira vez que ouvia a expressão. O que mais teriam pela frente...? Como os cumprimentos não queriam terminar, Kasom perguntou em tom impaciente: — Para que serve isso, Gucky? — Vejo que a paciência não é seu lado forte. Acha que eu estou gostando? Mas os servos devem ser a vanguarda; o grosso ainda vai chegar. Receio que os cumprimentos dos mutantes não sejam tão encantadores como isto. — Gucky apontou para uma massa de carne com sete pernas, que caminhava desajeitadamente de um lado para outro, balançando a cabeça monstruosa, dando a impressão de que o pescoço fino podia quebrar a qualquer momento. — Estão à nossa espera e querem medir forças conosco. — Medir forças? — Kasom parecia perplexo. — Poderia explicar melhor? Seria bom que dissesse o que sabe. Fale logo! — Eles vivem aqui. Também devem ser prisioneiros que gozam de certos privilégios. São usados pelos verdadeiros chefes, isto é, pelos comandantes do “Enxame”. Ainda não sei para quê, mas as indicações de Harno permitem certas especulações. — Quando tiver oportunidade, você vai explicar melhor — disse Kasom laconicamente e retribuiu às pressas a mesura de um dos servos. — Não estou com vontade de correr em linhas cruzadas. — Olhem — disse Ras de repente. — Ali está surgindo uma abertura. Todos olharam na direção indicada. Uma estranha mudança de cor se verificava na parede amarela. Só depois de olhar melhor viu-se que se tratava de uma abertura, pois o fundo também era amarelo-ocre. Parecia que a sala que ficava atrás da abertura era mais bem iluminada. Uma porta...? Antes que pudessem formular hipóteses sobre a finalidade daquela porta apareceu uma figura humana de estatura alta. O rosto parecia enérgico e de traços finos. Os olhos em forma de amêndoa demonstravam autoridade, uma vontade firme, mas também sensibilidade e até fraqueza — uma contradição inexplicável. O homem que se aproximou a passos tranquilos usava um traje folgado que caía sobre o corpo em dobras, feito de tecido amarelo-ocre. Os servos fizeram uma mesura e afastaram-se às pressas. O amarelo olhou por muito tempo para os quatro companheiros antes de começar a falar. Suas palavras não faziam sentido, mas os quatro as compreenderam sem tradutora, pois seus pensamentos penetraram sem dificuldade em suas mentes. — Sejam bem-vindos no cristal das almas prisioneiras, amigos. Logo chegará o tempo em que teremos de medir forças. Faço votos de que se mostrem fortes e corajosos. Somente aquele que sobreviver poderá servir os senhores. Quem é forte torna-se útil à comunidade. — Que comunidade? — perguntou Gucky, sem responder às palavras do amarelo. — Quem é a comunidade? O homem de amarelo sorriu de forma quase imperceptível. — Vocês ainda vão descobrir. De qualquer maneira as forças de sua mente devem ser acima do normal e parapsiquicamente treinadas, senão não poderão ficar aqui. Além de nossos servos o cristal é habilitado somente por mutantes. Somos prisioneiros, mas também somos livres. Servimos somente com nosso espírito, enquanto os outros servem

com o corpo e suas forças. Repito: sejam bem-vindos, amigos, e façam o favor de acompanhar-me. Mostrarei onde podem morar. Gucky captou um pensamento de alerta de Kasom e preferiu não fazer outras perguntas. Seguiu o homem de traje amarelo juntamente com os companheiros. O traje, que encobria completamente a pessoa que o usava, parecia flutuar à sua frente. *** Mais tarde Harno lhes comunicou que teriam cerca de vinte e quatro horas de descanso. Explicou que era o tempo de adaptação dos prisioneiros. O contato foi interrompido antes que Gucky pudesse fazer uma pergunta. Olharam para os lados. Considerando que o planeta do tamanho da lua era oco até o centro, podia-se calcular quanto lugar devia haver nele. Por isso não era de admirar que os alojamentos podiam ser considerados generosos quanto ao espaço disponível. Cada um dispunha de um apartamento, adaptado às suas necessidades. O de Gucky era menor que o ocupado pelo enorme ertrusiano Kasom. Até o banheiro tinha sido adaptado ao seu tamanho. Até se podia ter a impressão de que as residências tinham sido construídas especialmente para eles. A luz indireta saía das paredes; era amarela. Parecia que a única cor que havia era o amarelo, embora em centenas de variações e tonalidades. Mas o amarelo-ocre predominava. Os móveis estofados brilhavam num ocre, as roupas de cama eram ocres, e ocres eram os tetos e as paredes. Gucky apertou o botão de descarga da toalete. — Se sair água amarelo-ocre, eu vou...! Felizmente saiu água de verdade, cristalina. Desta forma ninguém ficou sabendo o que ele faria se tivesse sido diferente. Os quatro encontraram-se na sala do apartamento de Kasom. — E agora? Vamos passar o dia sem fazer nada? — Alaska mexeu nos aparelhos de rastreamento. — Talvez isto sirva para alguma coisa... — Não custa tentar, se bem que não acho que vai adiantar muito, pelo menos aqui. De qualquer maneira já sabemos mais alguma coisa, pois aproveitei a hora que já passamos aqui. Deitei na cama. Kasom acenou com a cabeça. — Quer dizer que você foi para a cama e encontrou a solução? — perguntou em tom irônico. — Mais ou menos. — Gucky não parecia nem um pouco ressentido. — Quando se fica na cama, completamente relaxado, de olhos fechados e concentrando-se exclusivamente nos pensamentos que andam por aí, a gente recebe muita coisa que juntada num mosaico forma um quadro que faz certo sentido. Foi o que fiz. — Qual foi o resultado? — quis saber Alaska. — Já ia contar. É claro que as ideias que tive talvez não sejam todas corretas, mas posso contar mais ou menos o que vem a ser isto aqui. Já disse em outra ocasião que o planeta de Cristal talvez seja um amplificador de impulsos mentais. De fato é. Mutantes são mantidos presos neste mundo artificial, onde gozam certa liberdade. Cerca de dez mil mutantes vivem concentrados neste mundo. Dez mil impulsos mentais são captados por uma maquinaria — e armazenados. A um comando estes impulsos podem ser ampliados milhões de vezes e irradiados a qualquer momento em certa direção. Produzem o efeito de hipnoimpulsos que têm de ser cumpridos. Em outras palavras, com o planeta de

Cristal e os dez mil mutantes que se encontram em seu interior pode-se controlar o “Enxame”. Por algum tempo ninguém disse uma palavra. Uma suspeita terrível se confirmara. Os donos do “Enxame” eram capazes de dirigir os habitantes de todos os planetas num raio de mais de cinco mil anos segundo sua vontade, como se fossem marionetes. O resultado era este. Mas as instalações que produziam esta maravilha técnica eram ainda mais fantásticas que a ideia das possibilidades que elas representavam. Impulsos mentais sendo captados e armazenados, para serem reforçados e transmitidos em certa direção toda vez que isto fosse necessário! Seria o resultado de uma civilização técnica incrível? Produto de uma inteligência genial? Ou se trataria da obra de um pensamento diabólico? — Estamos em situação difícil — resumiu Ras calmamente. Gucky acenou com a cabeça num gesto bonachão. — Adivinhou, meu chapa! Se estamos em dificuldades! O planeta de Cristal deve ser o objeto mais valioso num raio de milhares de anos-luz. Só me admiro de que não seja mais bem vigiado. Não foi difícil entrar aqui; só derrubaram nosso jato espacial. Quase me sinto inclinado a admitir a hipótese louca de que nos deixaram descer no planeta de propósito. — A hipótese não é tão louca como você pensa — disse Kasom em tom pensativo. — Também penso assim. A propósito: o que significam as palavras do mutante amarelo, de que logo teremos oportunidade de medir forças com ele? Gucky fez um gesto vago. — A este respeito também descobri alguma coisa, mas não posso garantir que seja certo. Parece haver uma lei segundo a qual os comandantes do “Enxame” — vamos chamá-lo de conquistadores... — Gucky sobressaltou-se, olhou para a parede amarela e corrigiu-se: — Aqui tudo é amarelo. Que tal se finalmente déssemos um nome aos amarelos? Não acham que poderíamos chamá-los de conquistadores amarelos? Talvez nem sejam amarelos, mas não há dúvidas de que preferem esta cor. Assim temos um nome para eles. Os conquistadores amarelos reúnem aqui todos os mutantes em que conseguem pôr as mãos. Concedem-lhes toda a liberdade possível, mesmo àqueles que se matarem uns aos outros. Naturalmente trata-se de um processo de seleção imposto pelas circunstâncias. Só os fortes sobrevivem, e somente eles podem ser úteis à comunidade, isto é, aos conquistadores amarelos. E um sistema sofisticado. No planeta de Cristal todos são inimigos de todos, mas só se luta em determinados momentos e lugares e, o que é mais importante, só se podem usar as forças do espírito para lutar e assassinar. — Assassinar? — Ras fitou Gucky com uma expressão de perplexidade. — Quer dizer que eles também assassinam? — Que nome você dá a isso, se eles se matam uns aos outros numa arena? — Numa arena? — Parecia que Ras não compreendia mais nada. — Quer dizer que eles possuem arenas nas quais se luta? — Isso mesmo. Mas não se apresentam com machadinhas, fundas ou armas energéticas. Lutam com as mãos e os cérebros mutados. Enfrentam-se encarando uns aos outros. Cada um só conta com as forças do espírito e com elas deve tentar derrotar o adversário. Um hipno tentará incutir no adversário, que talvez seja telecineta, pensamentos pacíficos ou suicidas, e o telecineta tentará atirar o adversário para o alto e deixá-lo cair. — Gucky sacudiu a cabeça. — Garanto que isso ainda pode ficar divertido. Mas estou curioso para ver que forças do espírito Kasom usará para defender-se.

— Poderia fazer o favor de explicar melhor? — pediu o ertrusiano com um tom de ameaça. Gucky fez um gesto de pouco-caso. — Não quero dizer o que você pensa. Você não é mutante, apesar de possuir uma capacidade limitada de ler pensamentos, e de captar e interpretar os dos mutantes. Mas como poderá defender-se de um teleportador que agarra você para largá-lo embaixo do teto alto? Você baterá nos ladrilhos que nem um saco cheio de pedras. Não é mesmo? A não ser que entre os espectadores haja um pequeno telecineta muito competente, que segura você e o faz descer devagar. Não tenho razão? Kasom acenou com a cabeça. Parecia envergonhado. Alaska sorriu. —Tirarei a máscara e mostrarei meu rosto. Gucky também sorriu. —Todo mundo sofrerá um colapso — afirmou em tom confiante. *** Dormiram algumas horas. Depois disso Gucky resolveu fazer um reconhecimento. Como mutante triplo levava vantagem sobre qualquer mutante simples. Mas apesar disso Kasom teve suas dúvidas. — Não seria melhor esperarmos até que alguém cuide de nós? — Será que já cuidaram alguma vez? Cederam-nos um apartamento formidável, mas alguém já recebeu uma coisa para comer? Se não fossem nossas reservas de alimentos concentrados já teríamos morrido de fome. Já que sabem tudo, também deveriam saber isto. Vocês nem imaginam quanta vontade tive de comer umas cenouras, pontas de aspargos e biscoitos. Não recebi nada! Só alimentos concentrados e água. — Gucky suspirou. — Em outras palavras: vou dar uma olhada por aí. Se aparecer o velho de camisola amarela, digam-lhe que estou à procura de uma boa sopa de massa. — Desde quando você deu para gostar de massas? — perguntou Alaska em tom de incredulidade. — Faz dez segundos — informou Gucky. — Não acha que uma porção de macarrão pode servir de pretexto para uma porção de coisas? Pois é! Vocês foram avisados. Voltarei dentro de uma hora. — Tomara — disse Kasom. Gucky olhou para ele com um ar de reprovação, fitou a parede amarela e desmaterializou. Viu-se num corredor, a cem metros dos apartamentos. Certificou-se rapidamente de que não havia ninguém por perto. Não podia guiar-se pelos impulsos telepáticos, que eram muito numerosos. Usava apenas o traje de combate. Deixara o capacete no apartamento. Quase chegou a ficar triste porque seu traje não era amarelo, pois assim não chamaria tanto a atenção num ambiente ocre. Saiu andando despreocupado, seguindo a direção de impulsos mentais bastante nervosos, cuja distância não pôde calcular. Só se encontrou com alguns servos de amarelo, que o cumprimentavam de forma muito respeitosa e perguntavam quais eram seus desejos. A intuição levou Gucky a fazer perguntas a respeito da próxima luta na arena e do lugar em que seria realizada. — Neste momento está começando uma prova de força entre dois senhores amarelos — responderam. — Na arena número sete.

— Ah, é? Na arena número sete? — repetiu Gucky, na esperança de que alguém pensaria no lugar em que ficava essa arena. Alguém fez isso, e assim Gucky descobriu que ela ficava algumas centenas de metros na direção que estava seguindo. — Vou assistir. Obrigado. Os servos deixaram-no passar. Uma luta entre dois mutantes! Talvez seria conveniente presenciar o duelo. Eventualmente poderia tirar certas conclusões sobre como agir dali em diante. E seria muito conveniente que não o vissem durante a luta. O rato-castor ligou o campo defletor. Teve uma surpresa. O campo funcionou, apesar dos campos energéticos e da interferência dos impulsos. Gucky tornou-se invisível. Seguiu despreocupado. Preferiu não realizar uma teleportação, pois queria ver os lugares por onde passava. Não descobriu nada de importante. Dois servos passaram por ele sem dar-lhe a menor atenção. Não o viram. Finalmente Gucky alcançou a entrada da arena. Os impulsos mentais concentrados de trezentos mutantes apontaram-lhe o caminho. A luta estava para começar. Mais de metade dos lugares estavam desocupados. Gucky parou na entrada e absorveu o espetáculo fantástico que se ofereceu aos seus olhos espantados. De fato tratava-se de uma espécie de arena, embora parecesse antes o palco de um teatro gigantesco. Era uma sala oval na qual só havia assentos em anfiteatro na parte dos fundos. A parte da frente era ocupada pelo palco, que também ficava numa posição elevada, mas de tal forma que os espectadores olhavam para baixo. Nos fundos do palco havia estranhas máquinas e aparelhos cuja finalidade Gucky não conseguiu adivinhar, meio escondidos atrás dos bastidores. Talvez fossem utensílios que os lutadores usavam durante os diversos duelos, cuja execução por sua vez dependia das características dos “gladiadores” alcançadas pelas mutações. Duas figuras com trajes amarelo-ocre entraram no palco, um de cada lado e encontraram-se no centro. Gucky aproveitou a pausa causada pela apresentação para procurar um lugar. Não estava com vontade de passar uma ou duas horas de pé. O rato-castor acompanhou atentamente os preparativos do duelo. Como podia ler os pensamentos dos presentes, não teve dificuldade em compreender o que estava acontecendo. Segundo o programa, a luta seria entre um telecineta simples e um rastreador de reações — era a melhor maneira de exprimir o significado. Gucky não descobriu muita coisa a seu respeito, porque os impulsos mentais que entravam em sua mente ao mesmo tempo eram muito numerosos, não permitindo a necessária concentração para classificálos e separar o que era importante. Um rastreador de reações era capaz de enxergar um segundo no futuro; saberia exatamente o que o adversário faria neste segundo. Não era uma grande vantagem diante de um telecineta. Na opinião de Gucky, o rastreador de reações estava claramente em desvantagem. Os lutadores cumprimentaram-se solenemente e ouviram as recomendações dos árbitros que estavam sentados num camarote ao lado do palco. Podiam escolher as armas que queriam usar. O telecineta dispensou generosamente as armas, mas o rastreador de reações dirigiu-se aos fundos do palco e pegou alguns objetos que Gucky não pôde ver muito bem. Os árbitros deram seu consentimento. O telecineta era um bloco de carne disforme, cheio de músculos, com um rosto não-humano. Gucky achou-o parecido com um sapo

gigante que rastejava desajeitadamente sobre as pernas traseiras. Em comparação com ele o rastreador de reações parecia débil e franzino. Tinha aspecto humanóide, embora houvesse grandes diferenças. Gucky simpatizou imediatamente com ele ao saber que fora obrigado a lutar. Os dois ficaram frente a frente. O telecineta robusto provavelmente acreditava que seria fácil denotar o adversário, como já fizera com muitos outros. Que poderia fazer contra ele um rastreador de reações que só podia contar com as próprias mãos? Gucky recostou-se no assento para concentrar-se melhor. Espantado, percebeu que um campo energético que saía do palco impedia qualquer contato telepático entre os lutadores. Era uma vantagem para o rastreador de reações, que não dependia da telepatia. Além disso o telecineta não podia saber o que pretendia fazer seu adversário. Finalmente Gucky viu as armas escolhidas pelo rastreador de reações. Três facas de metal comuns! Não fora muito inteligente de sua parte. O telecineta podia interceptar as facas durante o voo e imprimir-lhes outra direção, até mesmo uma direção que as fariam voltar ao atirador. Gucky tentou em vão descobrir as intenções do rastreador de reações que parecia ter sido leviano. Desistiu. Os lutadores continuavam a olhar-se. Esperavam. Parecia que cada um queria que o outro adivinhasse sua tática. Ficaram parados sem mexer-se, um de cada lado do palco, a quase trinta metros de distância. O telecineta de mãos vazias, o rastreador de reações com uma faca em posição de arremessos na mão direita e as outras duas na esquerda. Gucky sentiu a tensão que se apoderara do público, formado por membros de todas as formas de vida que se possam imaginar. Podiam assistir um espetáculo destes quase todos os dias, mas ele nunca perdia o encanto, porque os adversários que se enfrentavam sempre eram completamente diferentes e sempre havia variações na condução da luta, cujo resultado nunca podia ser previsto. Num movimento rapidíssimo o rastreador de reações levantou a mão direita, dobrou o braço para trás e arremessou a faca. Esta voou na direção em que estava o telecineta, mantida na horizontal por campos magnéticos embutidos — para deter-se de repente entre os contendores e parar no ar. O telecineta reagira. A faca girou no ar até que a ponta ficou voltada para o rastreador de reações, que estava parado, esperando, e usou sua faculdade. Antes que a faca voltasse para junto dele, abaixou-se. A arma mortífera passou chiando em cima de sua cabeça e foi parar num campo energético. O rastreador de reações só possuía duas facas. O desempenho dos dois lutadores rendeu aplausos, mas eles não se deixaram distrair. Continuavam na mesma posição. Faziam uma avaliação. O telecineta provavelmente refletia sobre o que seu adversário faria com as duas facas que lhe restavam. Se as perdesse, poderia ser considerado morto. Gucky, que também era telecineta, já tinha uma ideia sobre o que pretendia fazer o rastreador de reações. Os acontecimentos que se seguiram lhe dariam razão... O rastreador de reações voltou a levantar a mão direita, com a qual segurava a segunda faca. Não havia dúvida sobre suas intenções. Queria atirar a faca mais uma vez contra o telecineta, que estava parado, esperando. E arremessou...!

A faca mal saíra de sua mão, quando ele segurou a terceira faca na direita, que ele atirou quase no mesmo instante. Exatamente como Gucky esperara. Foi um sucesso. O telecineta viu o primeiro arremesso e sua reação foi rápida e segura como da primeira vez. Deteve a faca no meio da trajetória, inverteu sua direção e mandou-a de volta ao atirador. Enquanto fazia isso, a terceira faca atingiu-o no peito. Fora arremessada com tanta força que penetrou quase até o cabo na carne esponjosa. Enquanto a segunda faca passava acima da cabeça do rastreador de reações, o telecineta tombou morto. Para aquele dia a luta chegara ao fim. Gucky ouviu os aplausos, mas não participou deles, embora suas simpatias estivessem do lado do vencedor. O rastreador de reações fora mais inteligente que o telecineta, que confiara somente em sua capacidade, sem preocupar-se com a do adversário. Além disso o telecineta não esperara que o adversário fosse jogar a terceira faca logo após a segunda. Os espectadores levantaram e saíram da arena. O vencedor estava de pé à frente do colégio de árbitros e recebeu uma recompensa que consistia principalmente em dispensá-lo das lutas por um tempo considerável. Gucky teleportou de volta à sala do apartamento de Kasom.

4
Gucky apresentou seu relato sem que ninguém o interrompesse. Enfeitou-o com numerosos detalhes, e não esqueceu de mencionar que não temia um duelo destes. — O tempo que nos foi concedido quase passou — disse Kasom depois que Gucky não se lembrou de mais nada para contar. — Logo virão buscar-nos e nos mandarão à arena, a não ser que estejam preocupados com outras coisas. Pois nós temos outras preocupações! Onde está Harno, que temos de encontrar de qualquer maneira? Como faremos para sair deste planeta maluco, depois que tivermos encontrado ou talvez até libertado Harno? — Ainda teremos tempo para quebrar a cabeça com isto. No momento temos os mutantes amarelos em cima de nós. Mostram-se tão preocupados com nosso bem-estar. — Gucky fez um gesto de desprezo. — Fazem isso porque querem tirar vantagem. Sobre isto não existe a menor dúvida. Estão curiosos para conhecer nosso desempenho na arena. — Isso pode ficar divertido — disse Alaska, que só era considerado semimutante por causa do fragmento de cappin chamejante que trazia no rosto, pois não possuía nenhuma capacidade parapsíquica especial. — Como farei para defender-me, Gucky? Será que basta eu tirar a máscara? — Garanto que sim, Alaska. Ninguém pode ver seu rosto sem ficar louco. Quando isso acontecer, você terá ganho. — Será uma palavra sua no ouvido dos árbitros. Ras olhou para a parede atrás da qual, segundo sabia, ficava o corredor que levava ao seu apartamento. Teve a impressão de que o amarelo-ocre mudara bastante nos últimos segundos. Tinha certeza, embora os outros ainda não tivessem notado. O amarelo ficou mais pálido, quase transparente, mas ainda não se via o corredor. Era uma transparência que não permitia que se vissem os objetos que ficavam logo atrás da parede, só liberando a visão para uma distância que parecia infinita. Um dos mutantes amarelos saiu do nada e entrou diretamente na sala. Os outros também o viram. A conversa foi interrompida. — Esperamos que tenham descansado e estejam adaptados — disse o mutante com uma voz estranhamente aguda, usando uma língua que ninguém teria compreendido se não fossem os impulsos telepáticos. — Estão dispostos a medir forças conosco? Gucky estava sentado na cama de Kasom, com as pernas afastadas. Sacudiu energicamente a cabeça. — Não estamos, meu chapa! Estamos é com fome. Aqui não se come? — Vocês trouxeram suas provisões. Depois que as tiverem gasto, elas serão renovadas. — São as reservas de emergência. Tragam uma coisa que preste, senão poderão esperar muito até que nós os teleportemos para o inferno. — Ah, são os teleportadores! — Sim. Vocês terão uma surpresa! — Gucky estava com a corda toda e talvez tivesse dito mais se não notasse a expressão de advertência no olhar de Kasom. Por isso só repetiu o pedido que já fizera. — Queremos quatro refeições decentes, senão não falamos com mais ninguém. O amarelo disse que ia providenciar comida e acrescentou:

— A primeira luta será realizada daqui a cinco horas. A sorte decidirá quem de vocês terá o privilégio de ser o primeiro. — O privilégio! — repetiu Ras em tom de desaprovação. — Quanta gentileza, teremos o privilégio. O amarelo confirmou, todo compenetrado: — Terão, sim. É uma honra concedida a poucos. Nem todos podem medir forças na arena. O amarelo desapareceu da mesma forma que viera — através da parede. — Esse cara deve possuir dons tremendos — opinou Kasom. — Atravessa a parede. Será que pode penetrar na matéria? — Funde-se com ela, numa espécie de adaptação atômica. — Naturalmente Gucky sabia melhor que os outros. — Dizem que isso existe. Se vocês se encontrarem com ele na arena, ele afundará no chão e vocês ficarão na pior se aparecer de repente atrás de vocês. A situação começa a ficar crítica, minha gente, mas não tenham medo. Ajudarei vocês. Ficarei invisível na área reservada aos espectadores e cuidarei para que nada lhes aconteça. — Pois então cuide para que você não seja o primeiro a entrar em luta — recomendou Alaska em tom seco. — Como poderíamos ajudar se você é o maior? Gucky acenou com a cabeça num gesto condescendente, — Isso mesmo. Não há dúvida de que neste ponto sou o maior. Por isso dificilmente precisarei da ajuda que com tanta boa vontade querem prestar. Olhem! Lá vem a comida. Gucky detectara os servos no corredor. Ras abriu a porta e fez sinal para que as numerosas travessas, panelas e pratos fossem colocados na mesa grande da sala de Kasom. Os servos retiraram-se em meio a respeitosas mesuras. Enquanto isso Gucky examinou o conteúdo das panelas e travessas. — Parece bem apetitoso, mas isso não quer dizer que seja gostoso. Quer dizer que os amarelos que lutam com o espírito também experimentam necessidades fisiológicas. — Gucky tirou com o dedo uma fruta esverdeada de uma das travessas, cheirou desconfiado, e enfiou-a na boca. — Hum... — disse finalmente. — Nada mau. Dá para a gente se acostumar. Sentem, cavalheiros! Sirvam-se... A refeição era composta principalmente de alimentos parecidos com frutas, de sabor bastante agradável, que pareciam bem nutritivos. Não havia talheres, mas ninguém sentiu falta. Em uma jarra transparente havia vinho. Kasom tomou um grande gole. — Esta bebida também não é de se desprezar — afirmou satisfeito. — Um caldo químico! — recusou Gucky prontamente. Comeram até ficar satisfeitos. Os servos vieram tirar as louças. Depois disso os amigos voltaram a ficar a sós. Alaska ficou estendido na poltrona. — Se me mandarem à arena empanturrado como estou, vocês podem logo enterrarme. Vou dormir uma hora. — Trate de dormir um pouco mais depressa — recomendou Gucky em tom bonachão. — Não temos muito tempo. *** Acharam que Kasom serviria melhor que os outros para representar os recémchegados na arena. Logo Kasom, o único que não possuía dons parapsíquicos. Enquanto se dirigiam à arena número sete, Gucky tentou acalmá-lo.

— Não se preocupe, Toronar. Estarei perto de você. — Quem visse o gigantesco ertrusiano ao lado de Gucky, que mal tinha um metro de altura, só poderia achar as palavras do rato-castor bastante esquisitas. — Vamos mostrar-lhes com quantos paus se faz uma canoa. Apresento-me apenas como teleportador. Ninguém deve saber que além disso sou telecineta e telepata. Assim poderei ajudar você. Resta saber quem será o adversário que você terá de enfrentar. O amarelo disse que desta vez a luta será muito interessante, porque as faculdades individuais dos adversários não serão anunciadas. Estes caras sempre têm de inventar uma novidade. — Não demoraremos a descobrir o que o outro sabe fazer — afirmou Ras em tom otimista, mas Gucky chamou-o à realidade. — Dificilmente, Ras. Já falei sobre o campo de bloqueio que cobre o palco. Este campo neutraliza todos os impulsos mentais emitidos pelos dois combatentes. Dessa forma ninguém saberá o que Kasom pode fazer, mas infelizmente também não descobriremos as faculdades de seu adversário. Vamos esperar. É a única coisa que podemos fazer. Uma esteira rolante aproximou-os depressa do destino. Cada vez mais mutantes amarelos juntavam-se a eles, mas quase não lhes davam atenção. Seus pensamentos não mostravam nervosismo nem curiosidade. Parecia que o espetáculo quase diário das lutas na arena já começava a deixar seus espíritos embotados. De qualquer maneira Gucky achava que os conquistadores amarelos não podiam fazer muita coisa com seus impulsos mentais. Era este o motivo das lutas? Talvez. Mas também era possível que os impulsos mentais dos dois combatentes, em vez de serem neutralizados pelo campo energético que envolvia o palco, eram captados e irradiados para o banco de dados. Os pensamentos dos combatentes significavam força, vontade de submeter-se e a ânsia de matar. Eram os impulsos necessários ao hipnodomínio de outros povos. A sala dos espectadores estava quase cheia quando chegaram. Sem qualquer explicação Kasom foi separado deles e levado. Gucky ainda enviou alguns impulsos mentais tranquilizadores atrás dele. Só depois puderam procurar três lugares para sentar. Encontraram-nos bem na frente e juntos. A visão do palco era boa e total. O colégio de árbitros já estava presente. Parecia estar à espera dos lutadores. Os impulsos mentais que atravessavam a sala eram tão numerosos que Gucky tinha certeza de que ninguém poderia fazer sua escuta mental. A separação desses impulsos era extremamente difícil e só seria possível para um mutante que fosse um excelente telepata. — Vocês só interferirão se houver uma emergência — cochichou Gucky para que Ras e Alaska não precisassem esforçar-se para entendê-lo. — Deixem por minha conta. Quando fizer um sinal, ajudem. Nesse caso Alaska terá de tirar a máscara, ou Ras teleportará Kasom para um lugar seguro. Sei que isto é contra as regras que vigoram aqui, mas não importa. Encontrar-nos-emos no apartamento. — Entendido — respondeu Alaska em tom decidido. Kasom foi o primeiro a entrar no palco. Parecia hesitante e um pouco inseguro. Parecia que ainda não sabia quem era seu adversário. Nisto e no resto dependia de Gucky, que ele descobriu imediatamente na sala reservada ao público. Notou seu olhar confiante e logo ficou um pouco mais tranquilo. Dali a pouco apareceu um adversário na entrada que ficava do outro lado do palco e aproximou-se para o cumprimento que seria realizado no centro da arena. Kasom assustou-se.

Não foi tanto o aspecto totalmente não-humano que fez Kasom perder um pouco de sua tranquilidade, mas o tamanho. Maciço como um pedaço de tronco, o ser se movimentava sobre quatro pernas curtas em forma de coluna. Sobre um corpo quase quadrado e um pescoço muito grosso assentava uma cabeça relativamente pequena com três olhos, que fitavam Kasom com uma expressão de desconfiança e hostilidade. Alguma coisa dizia ao ertrusiano que estes olhos representavam um perigo e que devia cuidar-se contra eles. Os cumprimentos foram puramente formais. Praticamente só consistiram em os dois se encararem por algum tempo em silêncio. Em seguida o colégio de árbitros deu ordem para o início da luta. Cada um retirou-se para seu lado do palco. Como todos os impulsos mentais eram interceptados, nenhum dos lutadores podia saber que faculdades possuía o outro — o que de certa forma favorecia Kasom, que parecia mais perigoso do que era. Os dois tinham dispensado o uso de armas. Kasom sabia que naquele momento Gucky ainda não podia ajudá-lo. O mutante ainda não revelara suas faculdades de mutante. Parecia que esperava a iniciativa de Kasom, que naturalmente se encontrava numa situação muito difícil. Tentava compensála mostrando-se orgulhoso e dando-se ares de superioridade. Finalmente o colosso resolveu dar pelo menos uma amostra de sua capacidade, mais para satisfazer o público ávido de sensações que para alertar o adversário. Kasom percebeu de repente que as pupilas dos três olhos pareciam caminhar. Não se fixavam mais nele, mas num ponto situado à frente de seus pés. Em seguida os olhos ficaram chamejantes e dali a um instante o chão do palco ficou incandescente no lugar em que eles se fixavam. Kasom deu um passo rápido para o lado para não morrer queimado. Os três olhos voltaram a fitá-lo normalmente, com a expressão de quem espera alguma coisa. Gucky cochichou para Ras e Alaska. — Que nem nosso amigo Ivã Goratchim, que para nossa tristeza faleceu prematuramente — ou pelo menos é parecido. Ele é capaz de provocar reações nucleares controladas com as forças do espírito guiadas pelos olhos. Seus três olhos fixam-se em determinado ponto e assim que ele usa sua força mutada, neste ponto é liberada energia. Quer dizer que se quiser pode queimar Kasom. Mas parece ter consciência de seu poder, sente-se infinitamente superior — e é imprudente. Bem, já estamos informados... Era claro que Kasom também estava informado e além disso sabia que não tinham como defender-se desse adversário. Se Gucky não entrasse em ação logo, estaria perdido. Kasom olhou para os amigos e experimentou uma sensação de enorme alívio ao ver o rato-castor, que não tirava os olhos do colosso, acenar com a cabeça de forma quase imperceptível. O que poderia fazer Gucky para ajudar Kasom? Podia teleportar e sequestrar o adversário, mas isto não resolveria o problema. Que diria Kasom para explicar aos árbitros o que tinha feito para derrotar o adversário — um adversário que simplesmente desaparecera? Não adiantaria falar em telepatia. E a telecinésia? Gucky era um excelente telecineta, mas ainda não se tinha certeza absoluta se o campo energético que envolvia o palco neutralizava somente os impulsos telepáticos, ou todas as influências parapsíquicas. Nada disso! A luta entre o rastreador de reação e o telecineta provara o contrário.

Kasom já não tinha a menor dúvida sobre o que o rato-castor pretendia fazer. Olhou para o colosso com uma expressão de desafio. Devia provocá-lo para a luta. Só assim Gucky teria motivo para entrar em ação de uma forma que parecesse uma reação de Kasom. O conversor atômico aceitou o desafio, apesar de não ter a menor ideia de que espécie de mutante era seu adversário. As três pupilas começaram a caminhar de novo. Kasom apavorou-se ao notar que se concentravam em seu pé direito. Deu instintivamente um passo para o lado e olhou para Gucky, que compreendeu imediatamente que a coisa começava a ficar séria. — Prestem atenção! — cochichou Gucky para os amigos e olhou fixamente para o palco. — O gorducho vai ter uma surpresa. Kasom ficou perplexo ao ver seu adversário fazer meia-volta, num ângulo de exatamente cento e oitenta graus, ficando de costas para ele. Depois foi subindo devagar, sem virar o rosto para Kasom. Depois que o colosso tinha subido dez metros, Gucky soltou-o. O gigante desajeitado caiu. A arena foi sacudida quando o corpo enorme e pesado bateu no palco. O colosso ficou deitado. As pupilas dos três olhos mexiam-se desordenadamente, sem poder concentrar-se. Kasom sentiu-se aliviado ao notar isso. Seu adversário estava vivo, mas fora posto fora de combate. E todos deviam acreditar que fora derrotado para ele. Kasom foi para perto do adversário levantado e tentou ajudá-lo a levantar. Mas logo apareceram alguns servos amarelos que se encarregaram disso. Os árbitros pediram que Kasom se aproximasse, enquanto o campo energético se apagava. O resultado foi proclamado. Não havia dúvida de que Kasom saíra vencedor do duelo, apesar de não ter matado o adversário. *** Estavam reunidos outra vez no apartamento de Kasom. — Muito bem — disse Ras. — A primeira luta terminou. Amanhã será a segunda. Mas não podemos ficar sentados aqui toda vida, enfrentando lutas. Temos de libertar Harno ou ao menos estabelecer contato com ele. — Ras fitou Gucky. — Que há com ele? Conseguiu fazer contato de novo? O rato-castor sacudiu a cabeça: — Não. Voltarei a tentar durante o período de descanso. Mas amanhã será a última vez que entraremos na arena. Sobre isto não existe nenhuma dúvida. Se ficarmos, será para descobrirmos mais alguma coisa a respeito dos mutantes amarelos. Sem dúvida o planeta de Cristal ocupa uma posição-chave. Precisamos descobrir seu ponto fraco. Os servos voltaram a trazer bebidas e alimentos. Retiraram-se sem comentários. Não apareceu mais nenhum dos mutantes. Deixaram-nos em paz. Mais tarde Gucky recolheu-se ao seu apartamento e tentou entrar em contato com Harno, cujos impulsos mentais quase tinham desaparecido. Parecia que tinha muita dificuldade em chegar a ele. Talvez estivesse envolto num campo de bloqueio energético. Durante o descanso as luzes ficaram mais fracas. O brilho do teto amarelo era menos intenso. Só espalhava uma penumbra amarela que fazia bem aos olhos e dava sono. A “noite” passou sem incidentes, mas no dia seguinte, no café da manhã, um dos mutantes levou-os à arena. O mutante ficou parado na sala do apartamento de Kasom e

esperou que Alaska, Ras e Gucky chegassem. Em seguida anunciou as condições da luta daquele dia. — Quem lutará será o homem que usa o nome de Alaska. Terá um adversário muito competente, que já saiu vitorioso em três lutas e se apresentou como voluntário para servir aos senhores. Será vitorioso mais uma vez, a não ser que Alaska possua dons muito especiais. Seu adversário ainda não permitiu que nenhum derrotado continuasse vivo. — Será formidável — disse Alaska. — Posso saber de que tipo é meu adversário? O que sabe fazer? — É um telecineta. Além disso possui o dom da teleportação a pequena distância. Pode mudar instantaneamente sua posição em alguns minutos, tomando difícil ao adversário derrotá-lo. — O mutante olhou atentamente para Alaska. — Por que esconde o rosto? Ou não tem rosto? — Mostrarei a meu adversário, se ele insistir. — Sem dúvida ele insistirá antes de matá-lo. — Quando será realizada a luta? — perguntou Kasom. — Dentro de duas horas. O senhor sabe como chegar à arena. Esperamos que seja pontual. O mutante amarelo voltou a atravessar a parede e desapareceu. Gucky olhou para Saedelaere. — Estava admirado porque nunca fizeram perguntas a respeito de sua máscara. Agora fizeram. Pretende mesmo tirá-la? — Se meu adversário insistir, tirarei. Mas dependerei de sua ajuda. Sei do que é capaz. Não terá dificuldade em enfrentar um telecineta e teleportador de potência reduzida. — Quanto a isso não há problema, Alaska. Você será vitorioso, da mesma forma que Kasom. — Gucky apontou para a mesa. — Vamos acabar de comer, antes que apareça outro esbirro amarelo para interromper-nos... — Já tomamos café — lembrou Ras. Gucky fitou-o com uma expressão de perplexidade. — Será? — O rato-castor sacudiu a cabeça e pegou uma das frutas saborosas que havia sobre a mesa. — Tinha esquecido mesmo. Veja o que a imaginação faz com a gente. Estou com tanta fome que até parece que passei por um tratamento de perda de peso. — Esse tratamento não lhe faria mal — afirmou Kasom em tom malicioso. Desta vez teleportaram para a arena sem que tivessem de revelar seu segredo. Alaska dirigiu-se imediatamente ao palco, onde foi recebido por um árbitro. O adversário já estava à sua espera. Era de aspecto humanóide, com algumas diferenças insignificantes que pareciam ser sinal de uma evolução independente. Sem dúvida era natural de um planeta capturado e foi levado ao planeta de Cristal por um comando especial dos conquistadores amarelos, para que sua mente fosse explorada. Fitou Alaska com uma expressão de superioridade e crueldade. Parecia ter plena consciência de suas faculdades superiores e parecia que para ele a forma pela qual daria cabo de seu adversário não fazia nenhuma diferença. A máscara de Alaska parecia inofensiva. Talvez todo mundo acreditasse que queria esconder uma cicatriz que desfigurava seu rosto. Na verdade havia um fragmento de cappin chamejante atrás da máscara. O cappin se perdera durante uma pedotransferência, indo parar no corpo de Alaska, de onde nunca mais conseguiu sair. Quem visse o rosto de

Alaska sem máscara e contemplasse o fogo-fátuo chamejante entraria em estado de confusão mental. Não escaparia à loucura. — Desta vez não há nenhum campo defensivo em torno do palco — cochichou Gucky ao ouvido do vizinho. — Cada adversário pode ler os pensamentos do outro. Não sei por que resolveram fazer isto hoje, mas o fato é que a tarefa de Alaska se torna mais fácil, e a minha também. O principal é que ele pense o menos possível, para não revelar suas intenções. — Gucky não pôde abster-se de uma observação irônica. — Bem, o coitado não costuma mesmo pensar muito... Acontece que naquele momento Alaska pensava em muita coisa. Felizmente não pensava nas qualidades de mutante que não possuía, e principalmente em sua tarefa e na missão de que participava. Só pensava na melhor maneira de pôr fora de ação o adversário, mas não lhe ocorreu nada. O rosto do telecineta abriu-se num largo sorriso. Os impulsos mentais que captava o fizeram sentir-se seguro e o levaram a descuidar-se. Ficou de pé, com as pernas afastadas, a vinte metros de Alaska, bem à sua frente, com os punhos cerrados, concentrado e esperando. Alaska também estava esperando. Não tinha alternativa. De repente teve uma sensação desagradável no ventre. Parecia que seu estômago se revoltara. Será que eram as frutas que comera no café? Sabia que consumira grande quantidade delas. Logo naquele momento, em que tinha de concentrar-se ao máximo para sobreviver, se manifestavam as consequências. Quando olhou nos olhos do adversário, viu uma expressão de astúcia e satisfação. No mesmo instante a dor no ventre desapareceu. Fora uma provocação do telecineta, que realizara uma intervenção parapsíquica. Da próxima vez talvez atacasse seu coração... Alaska olhou para a sala reservada ao público. Viu Gucky piscar os olhos e compreendeu que o rato-castor estava atento. Lera seus pensamentos e descobrira o ataque. Da próxima vez reagiria conforme as circunstâncias. O telecineta ainda estava sorrindo. — Tire a máscara! — disse. — Gosto de ver o rosto de meu adversário antes de matá-lo. Alaska compreendeu cada palavra pronunciada na língua estranha, mas recusou. — Não tirarei a máscara. É possível que você se assuste com meu rosto. É melhor esquecer seu desejo. — Eu insisto — disse o telecineta em tom arrogante. — Se não quiser tirar a máscara voluntariamente... O telecineta entrou em ação antes que Gucky pudesse reagir. Alcançou a máscara, que estava a vinte metros de distância e arrancou-a. A máscara caiu ruidosamente no palco. O telecineta contemplou apavorado o rosto chamejante, mas antes que compreendesse tudo e pudesse olhar para outro lado o fragmento de cappin produziu seus efeitos devastadores. O telecineta estendeu as mãos como que para defender-se, correu gritando para os fundos do palco, pegou uma pequena arma energética, destravou-a e correu para o camarote dos árbitros. Mas os árbitros e a maior parte dos espectadores também tinham visto o rosto de Alaska, apesar da rapidez com que ele se abaixou e pegou a máscara. Mas quando a colocou já era tarde. A multidão parecia ter enlouquecido.

O telecineta passou a atirar ao acaso nos árbitros e espectadores. Um dos servos, que trabalhava como segurança na arena, tirou-lhe a arma. Mas o telecineta não desistiu. Saltou do palco dando gritos furiosos e atacou seus colegas mutantes, que ainda não estavam compreendendo o que tinha acontecido. O homem chamado de Alaska devia possuir dons terríveis. Podia deixar todos loucos... Gucky teleportou para o palco e levou Alaska. — Vamos, Ras, pegue Kasom e vamos dar o fora! Voltaremos ao apartamento. Depois veremos o resto... Desmaterializaram e escaparam do inferno. Não chegaram a ver o telecineta enlouquecido ser linchado pela multidão —- isso de uma maneira toda especial. Choques elétricos vindos do nada atingiram-no, alguém lhe apertou telecineticamente a garganta, um teleportador levou-o até o teto alto e deixou-o cair. Como se isso não bastasse, um conversor de moléculas entrou em ação, fazendo com que os restos mortais do lutador desaparecessem completamente. Mas a impressão do rosto chamejante de Alaska não se apagou tão depressa, embora o tempo de exposição tivesse sido muito curto para produzir um efeito permanente. A lembrança ficou. Alaska, que desaparecera do palco, teve de ser trazido de volta. Prometia outras lutas interessantes que renderiam impulsos mentais positivos para os bancos mentais dos conquistadores amarelos. A caçada começou...

5
Colocaram os trajes de combate, mas não fecharam os capacetes. Verificaram suas provisões e chegaram à conclusão de que poderiam passar bastante tempo sem ser abastecidos pelos mutantes. Logo, não dependiam de uma hospitalidade duvidosa. Dali a pouco Gucky trouxe uma notícia agradável. — Tive contato com Harno! Estava preso num campo de absorção que não deixava passar seus impulsos, conforme eu acreditava. Parece que o campo foi desligado por algum tempo. Harno só enviou um raio-vetor para não se trair. — Onde está ele? — No centro do planeta artificial. Precisamos teleportar. — É um risco danado! — O rosto de Ras assumiu uma expressão séria. — Ou será que um raio vetor basta? — Basta, mas não acho conveniente saltar diretamente para a cova do leão. Temos de avançar por etapas. Acontece que não temos muito tempo. Já vêm para cá. — Os mutantes? — Sim, os mutantes. Querem Alaska, um mutante que enlouquece milhares somente porque o vêem. Nunca viram nada igual. Alaska examinou a máscara. — Tão depressa não deixo que eles a tirem de novo, se bem que poderia ter sido pior. O cara poderia ter espremido meus pulmões antes que desconfiássemos de suas intenções. — Levarei Kasom como da outra vez — disse Gucky. — Ras ficará ocupado com Alaska. — O rato-castor olhou em volta. — É uma pena abandonarmos um lugar tão lindo. Bem que gostei. Se bem que ainda estou aborrecido porque os amarelos não me julgaram digno de entrar na arena. Se eles soubessem o quanto me subestimaram...! — Eles já fizeram isso com outros — consolou-o Kasom. — O importante é que nós sabemos quanto você vale. — Você me deixa muito feliz — assegurou Gucky e levantou o braço num gesto de alerta. — Está chegando alguém! Se atravessarem as paredes de novo, está na hora de darmos o fora... Os quatro seguraram-se pelas mãos para não se perderem. Gucky fixou a posição de impulsos mentais muito fortes que vinham de baixo, concentrou-se no salto — e teleportou. Os mutantes que entraram no apartamento dali a pouco não encontraram nenhum sinal dos hóspedes involuntários. *** O Y’Xanthomrier olhou com uma expressão clemente para os servos. Somente uma vez por dia — no período de luz — os servos tinham permissão de entrar no pavilhão do Y’Xanthomrier e demonstrar sua devoção ao ídolo, bem como manter a ordem. Os mutantes amarelos que tinham sido eleitos tinham acesso permanente ao pavilhão, mas não usavam o privilégio com muita frequência. O Y’Xanthomrier era uma estátua de sessenta metros de altura e vinte e cinco de largura, com as feições de um ídolo gigantesco. Era amarelo-ocre e de aspecto

perfeitamente humano. No rosto balofo parecido com o de um sapo só se via um olho. Era uma esfera multicor brilhante de quase dez metros de diâmetro. O olho dominava todo o rosto. Era o olho sapiente...? Medrosos, os servos executavam seu trabalho de todos os dias. Só de vez em quando um deles se atrevia a olhar para o ídolo por alguns segundos. Tinham medo dele, pois o Y’Xanthomrier dominava tudo com seu espírito malvado, até os mutantes amarelos que eram obrigados a obedecer-lhe. De certa forma o ídolo era simplesmente o transmissor de ordens dos conquistadores amarelos... *** O planeta de Cristal tinha cerca de três mil e quinhentos quilômetros de diâmetro. Logo, Gucky e seus companheiros tinham de deslocar-se mais ou menos mil setecentos e cinquenta quilômetros embaixo da superfície para chegar aonde queriam. Harno afirmava que se encontrava bem no centro do planeta artificial, sendo um prisioneiro direto do Y’Xanthomrier. Quando rematerializaram quase nada parecia ter mudado em torno deles, mas Ras e Gucky sabiam que tinham percorrido mais de mil quilômetros, na vertical e para baixo. Viram-se num pavilhão amarelo-ocre, sem nenhuma instalação. Os impulsos mentais que chegavam aos não-telepatas eram muito fracos. Somente Gucky foi capaz de recebê-los de forma mais nítida. O rato-castor encontrou uma explicação para isso. — O material de construção usado no planeta isola quase completamente os impulsos quando eles têm de atravessar camadas de certa espessura. Dali se conclui que nesta altura não existem habitantes. Recebemos os impulsos de mutantes que estão apenas três ou quatro pavimentos acima ou abaixo de nós. Não vamos perder tempo, amigos. Harno está à nossa espera. Teleportaram de novo, desta vez pelo menos quinhentos quilômetros. O impulso direcional de Harno superava os outros impulsos mentais. Encontravamse a menos de duzentos quilômetros do ser feito de energia. Além dos sinais enviados por Harno e de alguns impulsos mentais dos mutantes amarelos havia outros impulsos que Gucky não conseguia identificar logo. Recebia-os de forma bem nítida, mas não faziam sentido. Não se tratava de pensamentos palpáveis, mas de impulsos emocionais parecidos com comandos. Era como se alguém quisesse sugestionar alguma coisa a outro ser. Gucky lembrou-se vagamente de já ter recebido esses modelos intelectuais abstratos... Quando e onde fora isso...? O Y’Xanthomrier...? O ídolo que chorava lágrimas vermelhas...? Mas era claro! Quando se encontrava na quinta dimensão, em estado imaterial, para entrar em contato com Harno, ele vira o ídolo, de uma forma vaga como que através de milhares de véus. Mas também recebera esses modelos intelectuais abstratos, que não transmitiam ideias reais, mas apenas emoções — e as impunham. — A direção é a mesma — comunicou aos outros. — Harno e a estátua encontramse no mesmo lugar. E a estátua emite impulsos de comando! — Gucky abanou a cabeça num gesto de dúvida. — Como uma coisa que não tem vida pode fazer uma coisa dessas? Ou será que é orgânica? — O planeta de Cristal também é artificial — lembrou Kasom.

— Aí a coisa é diferente, Toronar. O planeta não emite impulsos próprios, mas o ídolo o faz. Resta saber se faz isso por iniciativa própria ou se desempenha as funções de estação retransmissora. Bem, não demoraremos a saber. Vamos dar mais um salto. Desta vez os dois teleportadores não tiveram dúvida em seguir diretamente o impulso direcional de Harno e concentrar-se em seu ponto de saída. Só tiveram o cuidado de incluir um jato de segurança de cem metros, para não rematerializar diretamente no destino desconhecido. A primeira coisa que sentiram foram impulsos mentais muito intensos, que absorveram completamente as emissões de Harno. Mas não precisavam mais do sinal do ser de energia para orientar-se. Estavam no pavilhão de Y’Xanthomrier. O ídolo superava as figuras minúsculas de alguns mutantes amarelos que se aproximavam de uma das numerosas saídas para abandonar o pavilhão. Para Kasom, Ras e Alaska seu aspecto era, apesar das descrições feitas por Gucky, tão apavorante que ficaram parados contemplando a estátua, da qual partia um fluxo de impulsos muito fortes, orientado contra eles. O ídolo notara sua presença e queria impor-lhes sua vontade. Já não era uma luta dissimulada, um cuidadoso tatear das forças e capacidades, nada de retirada e fuga. Só podia haver uma decisão. — Tão depressa ele não toma conta de nós — cochichou Alaska, que parecia completamente imune contra os impulsos. — Temos um meio de pô-lo fora de combate, Gucky? A propósito: Onde está Harno? O rato-castor não respondeu logo. Olhou fascinado para a estátua, concentrando a atenção no olho gigantesco do ídolo. Suas suposições vagas começaram a confirmar-se quando captou os impulsos de Harno por uma fração de segundo. O olho...! — O olho — disse em tom de ênfase — é Harno! É mantido na posição por campos energéticos parapsíquicos. É a prisão de que nos falou, uma prisão na qual não pode escapar sozinho. Uma prisão sem possibilidade de fuga, a não ser que se destrua o cárcere — e é o que vamos fazer. Só receio que será difícil. Um robô...? Ou será que o Y’Xanthomrier era um ser orgânico a serviço dos conquistadores amarelos? Mas será que em alguns mundos já tinham existido seres gigantescos como estes, gigantes deste tamanho feitos de matéria orgânica...? Kasom mantinha-se surpreendentemente calado. Não dizia nada, não fazia perguntas, não apresentava sugestões, o que era muito estranho. Ficou parado, imóvel, contemplando a estátua, com a mão direita pousada sobre a arma energética. Os impulsos do ídolo engoliam seus pensamentos — se é que naquele momento trazia algum pensamento na cabeça. Alaska não ficou nem um pouco impressionado. O fluxo de impulsos do ídolo o atingia, mas não fazia efeito. Mas Ras tinha de esforçar-se para repelir os comandos mentais. Mas conseguiu e não foi submetido à influência do ídolo. Gucky concentrou-se na estátua, mais precisamente em sua base maciça, onde devia haver um ponto fraco onde podia iniciar sua ação. Ficou um pouco admirado porque segundo parecia não havia campos energéticos para proteger o gigante. Os únicos campos energéticos que detectou foram aqueles que mantinham Harno preso. O rato-castor ainda tentava apalpar telecineticamente o interior da estátua quando foi inundado por um fluxo de impulsos muito mais intenso que os outros. Este fluxo

parecia ser dirigido especialmente contra ele. O Y’Xanthomrier o identificara como o inimigo mais perigoso e tentava impor-lhe sua vontade. Gucky usou todas as forças para defender-se, mas logo percebeu que a estranha figura era mais forte que ele. Se não concentrasse todas as energias parapsíquicas na defesa estaria perdido e se transformaria em prisioneiro dos conquistadores amarelos, tal qual Harno e os mutantes amarelos. Naquele momento Gucky compreendeu que qualquer tentativa dos mutantes de rebelar-se contra seu senhor seria inútil. O Y’Xanthomrier era imune a qualquer ataque parapsíquico e por isso era o meio ideal de dominar os mutantes. Gucky convenceu-se cada vez mais de que estava enfrentando uma estrutura artificial, não uma criatura orgânica. Talvez fosse uma mistura das duas coisas... Depois de algum tempo Kasom perdeu a paciência e os nervos, dando um rumo decisivo aos acontecimentos. Sem dúvida sua intenção não fora esta, mas o fato é que ajudou Gucky a sair da situação difícil em que se encontrava. Há horas Kasom era maltratado pelas forças desconhecidas, sem que se desse conta disso. Via-se indefeso diante de poderes contra os quais não podia defender-se. Não era mutante e não possuía nenhum dom parapsíquico que pudesse usar contra este inimigo. Em compensação possuía outra coisa. A arma energética pesada! Antes que alguém pudesse impedi-lo, Kasom levantou a arma e despejou um feixe de energia quente contra o Y’Xanthomrier. Os raios energéticos atingiram o alvo, porque nenhum campo defensivo protegia o gigante. Trilhas de fogo entraram em linha reta no corpo enorme, devoraram o material desconhecido e destruíram-no. Explosões arrancaram pedaços do corpo maciço, deixando à vista uma confusão de componentes eletrônicos, mas também de peças orgânicas. Era mesmo um semi-robô! Kasom viu o resultado do ataque de surpresa e experimentou uma sensação de alívio. O fluxo de impulsos era menos intenso, até dava a impressão de que ia desaparecer. O ídolo, construído somente para a defesa no plano espiritual, não tinha como defender-se de um ataque material. Quando o calor começou a ficar insuportável, Kasom fechou o capacete com um movimento rápido. Ras e Alaska seguiram seu exemplo, enquanto Gucky parecia atarantado, tentando compreender o que estava acontecendo. Travara uma luta desesperada com o monstro e não conseguira absolutamente nada, ao contrário de Kasom... O rato-castor também fechou o capacete e ligou o rádio. — O olho, Kasom! Trate de não atingir o olho — é Harno! Kasom acenou com a cabeça. Parecia zangado. Levantou a arma energética e voltou a atirar. Uma fresta abriu-se do lado direito do pavilhão, um portão formou-se e por ele passou mais de uma dúzia de mutantes amarelos que pararam estupefatos, contemplando seu ídolo ferido. Não fizeram nada para ajudá-lo. Fizeram meia-volta e desapareceram tão de repente como tinham vindo. O Y’Xanthomrier não lhes dava mais ordens. As explosões no corpo do gigante eram cada vez mais violentas. Ras também abrira fogo contra ele e fazia pontaria principalmente nas robustas pernas em forma de coluna. O calor foi absorvido pelos equipamentos de refrigeração dos trajes de combate, mas

apesar disso os quatro amigos ligaram os campos paratron, que os protegeriam também de um possível ataque. Gucky ainda não estava usando a arma. Permanecia imóvel, um pouco afastado dos outros, assistindo ao espetáculo. Tentava desesperadamente entrar em contato com Harno, que estava preso em forma de olho gigantesco na cabeça desajeitada do ídolo e começou a encolher aos poucos. Dali a pouco o olho não tinha mais de cinco metros de diâmetro — e continuava a diminuir. — Harno! — gritou Gucky. — Harno! Que devemos fazer? Harno só tinha dois metros de diâmetro. Dali a pouco era apenas um metro... De repente os impulsos mentais de Harno tornaram-se bem nítidos. Kasom, Alaska e Ras também puderam captá-los. Era como se o ser feito de energia lhes dirigisse a palavra. — Logo estarei livre... As amarras energéticas estão desaparecendo, vocês conseguiram! Continuem... irei para onde estão vocês... Enquanto Kasom e Ras continuavam atirando para destruir o semi-robô e quebrar seu poder mental para sempre, Gucky observava fascinado o que estava acontecendo com Harno, que se tornara menor que uma maçã. Só podia ser visto a uma distância tão grande por causa do brilho intenso que emitia. Parecia uma estrela. Harno libertou-se definitivamente da prisão na cabeça do ídolo e voou através do pavilhão. Durante o voo sua luminosidade diminuiu bastante, até desaparecer de vez. Harno ficou de uma cor preto-fosca, conforme se estava acostumado a vê-lo. Era do tamanho de uma castanha. Gucky estendeu a mão aberta para que a minúscula esfera pousasse nela. Harno não perdeu tempo. Desceu nela e ficou deitado. — Seria conveniente colocar-me em um dos seus bolsos — informou. — Não demora e este lugar se transformará num inferno. — Você acha que dentro de meu bolso não correrá perigo? — perguntou Gucky espantado. — Não é só por isso. Se acontecer alguma coisa que nos separe, poderá ser difícil estabelecermos contato de novo. Além disso não devemos perder muito tempo em abandonar este planeta e o “Enxame”. Gucky viu o Y’Xanthomrier fazer um movimento. — Vamos, Harno! Entre no bolso de minha jaqueta. Trate de pensar num meio de sairmos deste planeta. Não podemos teleportar para fora do “Enxame”. — Ajude-nos! — gritou Kasom para Alaska. — Esta coisa começa a andar. Temos de destruí-la. Ras e eu não podemos fazer isto sozinhos. O colosso avançou desajeitadamente. Suas faculdades mentais tinham falhado diante dos intrusos. Logo, só lhe restava usar a violência para pô-los fora de ação. Alaska também abriu fogo contra o gigante, que continuava a aproximar-se. Atirou nas partes orgânicas expostas. Kasom esforçava-se para paralisar o setor mecânico do ídolo. Gucky percebeu que os fluxos de comando tinham desaparecido de vez. O retransmissor não funcionava mais. Isto também significava que os mutantes amarelos não eram controlados mais pelos desconhecidos que governavam o “Enxame”. Se houvesse uma revolta no planeta de Cristal, as consequências seriam imprevisíveis. Fora o fato de que se encontravam numa situação extremamente difícil, a missão por enquanto podia ser considerada um grande sucesso. Harno estava livre e uma parte

importante do sistema de comando do “Enxame” fora paralisada. Só faltava saírem dali sãos e salvos. Gucky também pegou a arma, uma vez que não foi possível deter o gigante por meio da telecinésia. Harno voltou a fazer contato telepático. — No planeta de Cristal só existem três espaçonaves. Tentem chegar à superfície. Eu lhes mostro o caminho. — Mais tarde, Harno. Primeiro vamos liquidar este toco, para que os mutantes amarelos possam refletir sobre os motivos pelos quais estão neste mundo. Valem muito como aliados. — Isso é um pensamento inspirado no desejo — disse Harno. — Se os mutantes deixam de emitir impulsos combativos, é possível que os planetas que dependiam destes impulsos também se revoltem. Não demoraremos a saber. O Y’Xanthomrier já percorrera quase metade da distância que o separava dos intrusos. Seus movimentos eram cada vez mais inseguros, e em certo momento até chegou a cair. Kasom deu um salto e atirou no gigante bem de perto. Toda a raiva armazenada dentro dele se descarregou nesse ato, que não foi um sucesso total. O ídolo voltou a levantar e saiu andando de novo. Kasom recuou apavorado. Tivera certeza quase absoluta de que desta vez conseguiria. Alaska veio em seu auxílio. Com o movimento apressado que fez para puxar Kasom ainda mais para trás, sua máscara se soltou e caiu na parte inferior do capacete. Com o calor que fazia era impossível prendê-la de novo. — Temos de sair daqui! — gritou Ras, que não percebera o que tinha acontecido. — Nunca daremos cabo desta fera...! Mas neste instante houve uma mudança estranha com a fera. O Y’Xanthomrier parou. Não possuía mais nenhum olho que se pudesse ver, mas devia haver órgãos de visão naturais ou artificiais em cima ou dentro de seu corpo que ficara parcialmente exposto. Estes órgãos reagiram ao rosto chamejante de Alaska, transmitiram a impressão às células orgânicas do cérebro e estas também reagiram. O gigante balançou e tombou que nem uma árvore derrubada. Algumas peças de revestimento artificiais quebraram-se, deixando à mostra o interior, que em sua maior parte era formada por sistemas eletrônicos e positrônicos e os respectivos condutores. Um pequeno reator atômico caiu do suporte danificado e rolou para o lado. Felizmente não houve uma explosão, que naquele lugar teria efeitos devastadores. O Y’Xanthomrier permaneceu imóvel. Parecia que há muito tempo deixara de emitir impulsos. Talvez estivesse morto. — Para cá, Toronar! — gritou Gucky quando Kasom quis avançar para satisfazer a curiosidade. — Liquidamos isso aí. Está na hora de cuidarmos da própria segurança. Quando os mutantes compreenderem o que aconteceu, a situação poderá tornar-se crítica. — Por quê? Nós não os libertamos? — Tente explicar isso a eles tão depressa. Venha logo! Kasom reconheceu que realmente não havia mais nada a fazer para ele e os outros no pavilhão do Y’Xanthomrier. O gigante estava deitado no chão, imóvel. Alaska, que ficara bastante perplexo com os efeitos do rosto chamejante de cappin, voltou a colocar a máscara, depois de certificar-se de que podia colocar o capacete sem perigo. — Até parece um milagre — disse. — O milagre é você — afirmou Gucky em tom seco. — Vamos logo! Harno está insistindo. — Onde está ele? — perguntou Ras.

— No meu bolso. Ele acha que devemos ir à superfície. Lá ele nos mostrará o caminho para o único hangar do planeta, onde há três naves à nossa espera. — Ah, é? Estão à nossa espera? Desta vez Gucky cansou-se de responder a perguntas inúteis. Segurou o braço de Kasom. — Vou dar o fora com Kasom. Se quiserem acompanhar-nos, façam o favor de apressar-se... Foi o suficiente. Ras segurou a mão de Alaska Gucky cuidou para que Kasom e Alaska ficassem em contato. Em seguida fez um sinal para Ras. — Vamos lá... Os quatro desmaterializaram no momento em que centenas de mutantes amarelos entraram correndo no pavilhão.

6
A teleportação levou-os diretamente à superfície e só então Harno, que continuava alojado no bolso de Gucky como uma esfera do tamanho de uma castanha, voltou a fazer contato. Seus impulsos mentais eram tão fortes que podiam ser captados até mesmo pelos não-telepatas. — O hangar fica a trinta quilômetros daqui. Exatamente na direção em que Kasom está olhando agora. Saltem trinta quilômetros. É um platô, uma gigantesca lente lapidada... Teleportaram de novo. Não havia sinal de que eram perseguidos. Os mutantes deviam estar ocupados com seus próprios problemas. Viram-se numa superfície ligeiramente côncava, cercada por cristais de formas bizarras e torres de vidro. Harno informou que o hangar ficava bem embaixo deles. Acrescentou que a eclusa só podia ser aberta do lado de dentro. —As naves são vigiadas? — Não. As tripulações encontram-se nos alojamentos e ainda não foram postas de prontidão. Peguem uma das chaves. Eu lhes direi como devem usar os controles. As naves estão equipadas apenas com propulsores de transição. Nada de voo linear, portanto. Saltem logo! Os quatro voltaram a teleportar, desta vez somente cinquenta metros para baixo, conforme ordenara Harno. Foram parar no hangar. As naves eram pequenas e quadradas. Os propulsores tinham sido instalados nos quatro cantos, sobre aletas móveis. As naves não tinham mais de trinta metros de diâmetro. A do meio estava estacionada sobre um trilho que subia obliquamente, terminando junto ao teto cristalino que deixava passar a luz do sol azul. Os quatro ainda estavam com os capacetes fechados. Comunicavam-se pelo rádio. — Vamos pegar a nave do centro, que está pronta para decolar — decidiu Gucky. — Levarei Kasom e teleportarei primeiro para dentro da nave. Ras, você seguirá com Alaska quando eu disser. Gucky não esperou a resposta. Saltou. Os controles do centro de comando, que ficava numa cúpula chata sobre a parte superior do quadrado, pareciam estranhos e complicados, mas não havia dúvida de que podiam ser manipulados pelos órgãos de apreensão humanóides. Além disso Harno já estava dando suas instruções, que Gucky transmitia imediatamente a Kasom. A nave podia ser inserida num processo de decolagem automático a partir da sala de comando. Este processo a faria sair do hangar. — Tudo entendido? — perguntou Gucky depois que Harno terminou. Kasom acenou com a cabeça. — Naturalmente. Não é tão complicado como parece à primeira vista. O cálculo das transições não terá a precisão a que estamos acostumados no voo linear, mas isto pode ser corrigido depois. Quanto a mim podemos partir.

Gucky chamou Ras pelo rádio e dali a instantes o teleportador e Alaska apareceram na sala de comando. Via-se perfeitamente o hangar através das pequenas aberturas que cercavam a sala de comando. Por enquanto não se viam perseguidores. As poltronas eram pequenas e estreitas. Só Gucky cabia nelas. Os outros acomodaram-se da melhor maneira possível no chão. — Esta nave deve ser usada por anões — resmungou Kasom, queixando-se da falta de conforto. — Gostaria de saber como são. — Provavelmente também devem ser prisioneiros do “Enxame”, que em virtude de uma influência parapsiquica foram obrigados a servir. — Ras apontou para os controles. — E agora, Kasom? Você pode fazer isso de pé? — Vou dar um jeito — respondeu o ertrusiano e tentou recordar exatamente as instruções de Harno. — Vou iniciar a decolagem. A nave acelerará automaticamente até alcançar a velocidade de transição. Até lá tenho de programar o primeiro salto. Enquanto Kasom estava ocupado, Harno comunicou: — No fim do “Enxame” está começando um fenômeno que se repete constantemente a intervalos irregulares. Um planeta explorado que se tomou inútil é expelido, porque seu transporte representaria uma carga inútil. Para isso ele é freado e o campo energético de envolvimento é aberto. O planeta fica para trás. É nossa única chance de sair do “Enxame”. — Foi mais ou menos como entramos — disse Gucky. — Aliás, como você sabe tudo isso? — Fui durante bastante tempo o olho sapiente do Y’Xanthomrier — explicou o ser energético. — Praticamente eu mesmo controlei estes processos a partir do planeta de Cristal. — E agora que o superídolo foi destruído? — A única coisa que ele faz é transmitir as ordens expedidas pelos conquistadores amarelos a um centro de execução automático. A ordem de expelir o planeta ao qual me referi foi dada quando vocês ainda estavam presentes. O processo foi iniciado antes da destruição do Y’Xanthomrier e não pode ser mais revertido. — Atenção! — disse Kasom. — Está na hora. Vou apertar este botão — e então acontecerá o que esperamos. Tomara! Kasom estava de pé entre duas poltronas nas quais podia segurar-se caso isso se tornasse necessário. Ras e Alaska estavam sentados no chão. Gucky era o único que permanecia confortavelmente instalado em uma das pequenas poltronas anatômicas. Kasom apertou o botão. Os propulsores começaram a trabalhar no interior da nave antes que ela começasse a movimentar-se e subisse devagar pelo trilho inclinado. A eclusa interna abriu-se no teto transparente e voltou a fechar-se quando a nave parou à frente da eclusa externa. A atmosfera artificial foi retirada até que o vácuo reinou na câmara da eclusa. Depois disso abriu-se a gigantesca comporta externa, enquanto a nave se desprendia dos grampos que a mantinham presa ao trilho e passou a flutuar no espaço. Os propulsores começaram a trabalhar a toda e a figura quadrada precipitou-se espaço a fora acelerando fortemente. Não havia anteparos de proteção contra a luz. Kasom assustou-se e teve de fechar os olhos, ao ser surpreendido pelo brilho do planeta de Cristal. Mas ele logo ficou atrás da nave e foi-se afastando rapidamente. O setor do espaço cósmico que ficava no interior do “Enxame” estendia-se à sua frente...

*** O fim do “Enxame” ficava a pouco menos de sete mil anos-luz do planeta de Cristal. Kasom percorreu esta distância em duas transições, antes de tentar calcular com o auxílio de Harno a posição exata da nave. Havia poucas estrelas no setor do espaço em que se encontravam, o que tornava mais difícil a orientação. Os rastreadores que Alaska acionou de acordo com as instruções de Harno só mostrou alguns asteróides que se deslocavam devagar, aproximando-se inexoravelmente do fim do “Enxame” que continuava a desenvolver metade da velocidade da luz. Logo, os asteróides também seriam expelidos. — São muito pequenos para servirem de esconderijo — avisou Harno. — Temos de encontrar o planeta. Será nossa única proteção quando aparecer a frota de caças, que certamente não nos fará esperar muito. Alaska continuou procurando, enquanto Kasom realizava pequenas transições perpendicularmente ao deslocamento do “Enxame”. Ninguém sabia qual era o alcance dos rastreadores, nem mesmo Harno. Mas ele conhecia a posição aproximada do planeta que se tornara inútil. Finalmente os esforços de Alaska pareciam ter resultado. — Há um objeto grande três anos-luz à nossa frente. Permanece praticamente imóvel relativamente ao “Enxame”. Deve ser ele. — É, sim! — confirmou Harno. — Kasom, a transição! Antes de entrarem em transição Alaska detectou cinquenta naves pequenas vindas do “Enxame”, que avançavam em grupos separados. Sem dúvida dispunham de sensores com os quais podiam registrar as ondas de choque de uma transição. Mas era duvidoso que também pudessem verificar a direção e o alcance da transição. De qualquer maneira os caças tinham iniciado a perseguição. Os acontecimentos do planeta de Cristal tinham-se tornado conhecidos e provocado o alarme. Naturalmente haveriam de desconfiar que alguém tentaria abandonar o “Enxame” aproveitando a manobra de expulsão já indicada e ficariam atentos. Ainda bem que o processo não podia ser mais revertido. E ainda melhor era que também seria expelido certo número de planetas menores e asteróides. Desta forma a busca se tornaria muito mais difícil para os caças e as chances dos fugitivos aumentavam. Quando a nave saiu da transição, o planeta deserto ainda estava a duas horas-luz. Não podia ser visto a olho nu porque não havia nenhum sol por perto cuja luz pudesse refletir. Mas o planeta aparecia perfeitamente nos rastreadores operados por Alaska. — Não há nenhum caça num raio de três anos-luz — disse Alaska, satisfeito. — Mas não custarão a chegar. — Prossigam à velocidade da luz — aconselhou Harno. — Desta forma os perseguidores terão mais dificuldade em localizar-nos. Pousem no planeta deserto. Ele foi explorado e escavado em grande parte. Oferece esconderijos de sobra. — Há habitantes? — perguntou Kasom. — Os habitantes foram evacuados em tempo e colocados em outros planetas, onde serão usados como força de trabalho. — Malditos tiranos! — exclamou Gucky indignado. — Onde já se viu brincar com sóis, planetas e seres vivos? Quem são mesmo estes conquistadores amarelos? Os senhores do Universo? — Eles se julgam como tais — informou Harno.

O ser energético saíra do bolso de Gucky e estava suspenso na sala. Era de cor negra, dando a impressão de que absorvia todos os raios de luz. — O que você sabe a respeito dele? — quis saber Gucky. — Terei de informar Perry Rhodan e os outros quando voltarmos. — Pouca coisa — confessou Harno. — Mas de qualquer maneira vocês resolveram mais um dos enigmas com que quebravam a cabeça nos últimos séculos. As naves da frota exploradora solar não encontravam constantemente sóis queimados e planetas completamente desertos no espaço intergaláctico? Vocês não viviam se perguntando por que esses sóis não tinham tido uma morte natural, mas davam a impressão de que alguém tinha roubado sua energia? E os planetas! Os cientistas de vocês não formularam uma teoria segundo a qual esses planetas tinham sido explorados por alguma supercivilização? Não havia muitos especialistas que faziam pouco desses cientistas porque não eram capazes de imaginar que essa supercivilização pudesse existir? — Harno fez uma pausa e acrescentou: — Pois elas existem! Estamos tentando desesperadamente fugir de uma delas. Kasom ligou um aparelho indicado por Harno que funcionava em base infravermelha. Desta forma a imagem do planeta deserto pôde ser projetada na tela. Não foi um quadro agradável. Um mundo nu, sem vegetação na superfície e cheio de crateras artificiais. As antigas montanhas tinham sido aplainadas e o interior do planeta fora escavado. Só restava uma massa de poeira e rocha nua. — A Terra ficaria assim se fosse aproveitada pelo “Enxame” — disse Ras consternado. — Temos de evitar de qualquer maneira que isso aconteça! Qual seria o destino da humanidade...? — Isso não acontecerá! — disse Kasom e fez uma retificação de rota. — Vejamos qual é o melhor lugar para pousar. Ainda temos pouco mais de uma hora; depois teremos de frear. Tomara que Harno saiba como se faz isto... — Harno sabe — informou o ser feito de energia. Os caças que vinham em sua perseguição demoraram a chegar. Ainda bem. Uma transição de uma hora-luz seria difícil e, mais que isso, inútil. Tinham de pousar antes que os caças chegassem. O tempo custou a passar e dentro de pouco tempo Kasom começou a reduzir a velocidade. O planeta estava bem à sua frente e aumentava de tamanho quase a olhos vistos. Ninguém poderia afirmar que com isso se tornava mais bonito e atraente. Mas Kasom já distinguia melhor as crateras. Viu que se tratava de gigantescos orifícios de perfuração que penetravam no interior do planeta. — O que você está pensando é certo — interveio Harno. — Leve a nave para uma das crateras e faça-a descer na vertical. Tome cuidado para que não sofra avarias. Pelos meus cálculos o processo de expulsão deve começar dentro de uma hora. Ras e Gucky ficaram calados, para não perturbar Kasom durante a manobra difícil. Alaska também preferiu ficar quieto. Olhava fixamente para a paisagem hostil em direção à qual estavam caindo. A nave encontrava-se bem em cima de um dos gigantescos orifícios de perfuração e começou a descer devagar. Dentro de pouco tempo alcançou a borda da cratera — e continuou descendo. Escureceu depressa, mas Kasom preferiu não ligar os faróis externos. Operou no infravermelho. Depois que tinham descido mil metros, Kasom fez uma sondagem com raios de rastreamento. O fundo da cratera ficava oitenta quilômetros abaixo deles.

— Não precisamos descer tanto — disse Harno, que controlava ininterruptamente os pensamentos do ertrusiano. — Daqui a pouco chegaremos às primeiras galerias laterais, que estão ligadas com os outros orifícios de perfuração. Vamos entrar em uma destas galerias, a três quilômetros de profundidade, e esperar. Sairei da nave e exercerei as funções de observador. Desta forma nunca seremos localizados. Foi o que fizeram. A galeria horizontal tinha quase cem metros de largura e até vinte metros de altura. A nave coube perfeitamente nela e fez um pouso suave no chão liso de pedra derretida. Os propulsores silenciaram. Kasom espreguiçou-se e suspirou: — Ainda bem que posso sentar. Quase não sinto mais os ossos. — E eu estou com fome! — acrescentou Gucky e pôs-se a remexer as provisões guardadas em seu traje de combate. *** Harno saiu da sala de comando e da nave sem que fosse necessário abrir qualquer eclusa. Atravessou o casco metálico. Manteve contato telepático com os que ficaram e de vez em quando transmitia informações. — Há alguns caças por perto. Estão vasculhando a superfície do planeta à nossa procura. Naturalmente sabem que podemos estar escondidos no labirinto de cavernas, mas felizmente parecem não ter tido a ideia de destruir o planeta. Por algum tempo não aconteceu nada. Finalmente Harno continuou seu relato telepático: — O processo de passagem pela eclusa está sendo iniciado. A parte traseira do campo energético começa a abrir-se. Alguns asteróides pequenos já atravessaram a fresta, que se toma cada vez mais larga. Ainda demorará dez minutos até que nós abandonemos o “Enxame”. Foram dez minutos de angústia, mas o que eles mais temiam não aconteceu. Talvez os conquistadores amarelos não conhecessem nenhuma arma parecida com a bomba de Árcon, se bem que numa supercivilização isso não era muito provável. De qualquer maneira não fizeram nada. Os caças só deram voltas em tomo do planeta, mas retiraramse às pressas quando este se aproximou rapidamente do campo energético aberto. Finalmente Harno anunciou que tinham passado. O “Enxame” continuou voando a cinquenta por cento luz, enquanto o campo energético voltava a fechar-se. Harno voltou no mesmo instante. — Conseguimos! Podemos ir à superfície sem correr perigo e fazer contato com Rhodan. A Good Hope está a quatro anos-luz daqui. Gucky segurou Harno na mão estendida. — Como sabe disso? — Por que não haveria de saber? — disse o ser energético. Gucky sacudiu a cabeça. Parecia indignado. — Mal a gente o tira do aperto, e ele volta a ficar atrevido. Da próxima vez você vai esperar! — Alguns milhões de anos não fazem nenhuma diferença — retrucou Harno. — Vamos, Kasom. Há trabalho a fazer. Na Good Hope Rhodan já fica pisando o chão nervosamente... — E Bell? — quis saber Gucky. — Bell acha que vocês estão mortos. É um pessimista.

— Pois vai ficar com cara de bobo quando apareceremos perto dele. Kasom manobrou a nave cuidadosamente para a superfície e em seguida acelerou ao máximo, enquanto Alaska ativava o rádio seguindo as instruções de Harno. Gucky recolheu-se a um canto tranquilo e tentou estabelecer contato telepático com Fellmer Lloyd, para chegar antes dos amigos. O planeta deserto ficou mergulhado na noite eterna. *** Quase uma semana se passara na Good Hope, e a espera começava a transformar-se num verdadeiro martírio. Ainda não havia nenhum sinal de que a missão de Gucky tivesse sido bem-sucedida — e de que ele e seus companheiros ainda estivessem vivos. No dia 20 de fevereiro de 3.442, tempo terrano, Bell entrou na sala de comando, rabugento, depois de uma noite mal dormida. Rhodan já estava à sua espera. Fellmer Lloyd estava sentado numa poltrona, um pouco mais afastado, no que não havia nada de extraordinário. O telepata ficava constantemente na recepção, à espera de um sinal de vida de Gucky. — Vamos ficar pretos de tanto ficar parados! — afirmou Bell. — Ou você acredita em milagres, Perry? Rhodan acenou calmamente com a cabeça. — Acredito. O milagre já aconteceu. Bell encarou-o com uma expressão de perplexidade. — Aconteceu...? O que aconteceu? — O milagre de que você falou. Tivemos contato com eles. — Com Gucky? A palavra Gucky foi pronunciada num tom de alívio de que só mesmo Bell, que já se tomara muito menos obeso, seria capaz. Afinal, todos sabiam da amizade que o ligava ao rato-castor. — Os outros também — confirmou Rhodan. — Devem chegar daqui a pouco. Neste momento o rastreamento anunciou uma nave desconhecida. — São eles! — disse Fellmer Lloyd, que mantinha contato com Gucky. — Mas há um problema com a nave — acrescentou em tom apressado. — Está entrando num processo de autodestruição. Teleportarão para fora dela... Viram a cena na tela panorâmica da Good Hope... De repente o casco do objeto quadrado ficou incandescente, como se tivesse entrado em velocidade muito elevada na atmosfera de um planeta. Uma torrente chamejante de metal derretido ficou na esteira da nave. De repente o veículo desmanchou-se numa explosão atômica. Bell ia soltar um grito de pavor, quando alguém pisou violentamente em seus pés. No mesmo instante Ras e Alaska materializaram na sala de comando. Kasom apressou-se em sair de cima dos pés de Bell. — Perdão, senhor, mas eu não podia... Gucky já o soltara. Kasom informou em palavras ligeiras que tinham sido obrigados a abandonar a nave quadrada no último instante, porque um mecanismo secreto acionara um sistema de autodestruição quando se aproximavam da Good Hope. Finalmente Rhodan pôde dar as boas-vindas aos recém-chegados. Pediu que Gucky fizesse um ligeiro relato. O rato-castor deixou-se convencer, principalmente porque não

queria que alguém se antecipasse. Em seguida tirou Harno do bolso e largou-o no ar, onde o ser energético ficou suspenso. — Este é Harno — disse com um gesto dramático. — Ele pode contar uma porção de coisas a respeito dos conquistadores amarelos. — A respeito de quem? — perguntou Rhodan surpreso. — Foi o nome que lhes demos — os conquistadores amarelos. Aposto que são amarelos como limões. — Pensativo, Gucky olhou para o teto. — Pelo menos suas roupas são amarelas — amarelas-ocre! Parece que usam esta cor para proteger-se. A tripulação da Good Hope foi informada pelo intercomunicador sobre o sucesso da expedição. Mais uma vez Gucky era o herói, mas em sua modéstia não aceitava as felicitações que lhe eram oferecidas. — Ora, amigos, que seria de mim se não fosse Kasom, ou meu amigo Ras, ou principalmente Alaska? Não faria nada, absolutamente nada! Isto sem falar de Harno. Ele nos ajudou a fugir. Se não fosse ele, não estaríamos mais vivos. Kasom fitou-o com uma expressão de perplexidade. — Sente-se bem? — perguntou com muito cuidado. — Será que vai acabar ficando doente...? Gucky sorriu ironicamente e prosseguiu: — É claro que no fundo também se poderia dizer: O que seria de Harno, Kasom, Alaska e Ras se não fosse eu...? Bell deu uma estrondosa gargalhada. — Graças a Deus! Ele está bem, com uma saúde de ferro! Kasom, o senhor me deu um susto tremendo com sua suspeita. Rhodan deu ordem para que o comando tivesse um descanso prolongado e pediu a Harno que o acompanhasse à sua cabine. Acenou com a cabeça para Bell. — Atlan ainda será informado. Você me acompanha? Queremos conversar com Harno. Os dois saíram e Harno acompanhou-os voando perto de sua cabeça, uma pequena esfera, muito preta, em cuja superfície brilhante podia refletir-se todo o universo. Kasom segurou a mão de Gucky. — Leve-me para a cama — pediu cansado. — Não dou mais um passo... Naquele dia 20 de fevereiro a humanidade e todos os povos da Via-Láctea tinham feito um grande progresso. Eram ameaçados pelo “Enxame”, e parecia não haver nenhum meio de deter os conquistadores amarelos ou impedir-los de realizar seu projeto. Mas desde aquele dia sabia-se que os donos do “Enxame” eram vulneráveis. Já era um começo, uma nova esperança. Até justificava a esperança louca de um dia poder negociar com os conquistadores amarelos...

*** ** *

Gucky e os membros de sua expedição saíram do “Enxame” sãos e salvos, em companhia de Harno, e chegaram à nave de Perry Rhodan, que logo partirá para outra missão. Mas antes de acompanharmos Perry Rhodan, iremos à uma colônia terrana. Lá tem início um terrível fenômeno... Leia a história no próximo volume da série Perry Rhodan, sob o título A Grande Matança.

Visite o Site Oficial Perry Rhodan: www.perry-rhodan.com.br
O Projeto Tradução Perry Rhodan está aberto a novos colaboradores. Não perca a chance de conhecê-lo e/ou se associar:
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