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Natureza, Cultura e Capitalismo - Arthur de Medeiros

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UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS, E CIÊNCIAS HUMANAS - DEPARTAMENTO DE GEOGRAFIA -

TRABALHO DE GRADUAÇÃO INDIVIDUAL

NATUREZA, CULTURA E CAPITALISMO

SÃO PAULO 2008

ARTHUR VIEIRA DE MEDEIROS

TRABALHO DE GRADUAÇÃO INDIVIDUAL

Conclusão do Bacharelado em Geografia

UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

Orientador PROF. DR. MANOEL FERNANDES DE SOUSA NETO

SÃO PAULO 2008

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Resumo: Observando a complexidade da cultura, que se expressa nas inúmeras formas de o homem estar no mundo, perceber, falar, produzir, agir, pensar, esta pesquisa busca investigar os pressupostos do senso-comum e do bom-senso que constituem o mundo tal como é, na tentativa de desmistificar o que é concebido como “natural”, abrindo a possibilidade para o surgimento de novas perspectivas para uma verdadeira ética que brote da imanência da produção efetiva do real. Passando por diferentes temas como o conceito de natureza, de espaço e de tempo, de percepção e ambiente, atravessando os caminhos da linguagem até chegarmos às formações sociais, temos por fim uma análise da sociedade capitalista contemporânea, que fornece os elementos para uma compreensão profunda do modo de agir deste sistema e de como o desejo do homem é capturado, fazendo com que invista na reprodução desta sociedade, como força que dá vida à cultura.

Palavras-chave: Koyaanisqatsi, Natureza, Espaço, Tempo, percepção, ambiente, socialização, linguagem, Homem, Cultura, Capitalismo, Estado, Poder, micropolítica.

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Abstract: Noting the complexity of culture, which is expressed in the innumerous forms of man being in the world, understanding, speaking, producing, acting, thinking, this research investigates the assumptions of common-sense and good-sense which constitute the world as it is, in an attempt of demystifying what is conceived as "natural", opening the possibility for the emergence of new prospects for genuine ethics that outbreak out of the immanence of the effective production of the real. Passing through different themes such as the concept of nature, space and time, perception and environment, crossing the paths of language until we get to social formations, we finally have an analysis of contemporary capitalist society, which provides the elements for a deep understanding of the mode of action of this system and how the desire of man is captured, so that he invests in the reproduction of this society, as a force that gives life to culture.

Keywords: Koyaanisqatsi, Nature, Space, Time, perception, environment, socialization, language, Man, Culture, Capitalism, State, Power, micropolitics.

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Fico contente em poder agora dizer, com humildes palavras, quanto foram fundamentais para esta pesquisa aqueles que, à sua maneira, estiveram comigo e participaram de sua realização: minha família, que me poupou das preocupações ordinárias, para que pudesse ir mais longe; Luciano, que tornou este projeto possível; a Escola Nômade, que abriu tantas portas; os queridos amigos e amigas que souberam respeitar o meu silêncio e amplificaram minhas idéias. Tenho-vos com muito carinho.

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Sumário

Introdução...........................................................................................................................8

Primeira Parte – Da Natureza e da Percepção, ou como o homem vem a ser............12

A Natureza e os Seus Atributos.....................................................................................................13 O olhar da ciência.........................................................................................................................14 ESTRUTURAS DISSIPATIVAS...................................................................................................15 MECÂNICA QUÂNTICA.............................................................................................................16 TEORIA GAIA..........................................................................................................................17 Ciência Clássica.............................................................................................................................19 Por que a ciência?..........................................................................................................................23 A Natureza.....................................................................................................................................24

Tempo e Espaço..................................................................................................................27
AUTO-ORGANIZAÇÃO E AUTOPOIESE..................................................................................33

Percepção e a Constituição da Realidade...............................................................................37
Evolução.........................................................................................................................................41

O Homem em Formação............................................................................................................45
Mente ativa....................................................................................................................................49 O homem em ação.........................................................................................................................50

A Dimensão da Linguagem.......................................................................................................54 A Socialização..............................................................................................................................62 5

Segunda Parte – O Homem em ação ou de como o mundo é produzido.......................72 A Produção do Mundo................................................................................................................73 A Sociedade Capitalista..............................................................................................................78 As bases do capitalismo.............................................................................................................81 A lógica das contradições..........................................................................................................82 O setor financeiro e o capital fictício.....................................................................................89 Trabalho imaterial e queda tendencial da taxa de lucro..................................................94 O Estado e a Política.................................................................................................................100 A micropolítica..........................................................................................................................107 A Lógica da Absorção...............................................................................................................110 Conclusão...................................................................................................................................115 Bibliografia................................................................................................................................123

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“Tratem meus livros como óculos dirigidos para fora e se eles não lhes servem, consigam outros, encontrem vocês mesmos seu instrumento, que é forçosamente um instrumento de combate.”

Marcel Proust

“Não fique com os fanáticos à espera das coisas que não acontecem antes que nos acabemos. Vem comigo! A vida está acima das horas que vivemos. A vida é uma aventura!”

Paulo Martins,
personagem do filme Terra em Transe de Glauber Rocha.

“O imperador marchava na procissão sob seu lindo abrigo, e todos que o viam na rua e pela janela exclamavam: ‘Realmente, a nova roupa do imperador é incomparável! Que longa cauda ele possui! Como ela lhe cai bem!’ Ninguém queria dar a perceber que não via nada, pois assim seria um incapaz ou tolo demais. Nunca as roupas do imperador foram tão admiradas. ‘Mas ele não está vestindo nada,’ disse por fim uma pequena criança.”

A Nova Roupa do Imperador
Hans Christian Andersen

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INTRODUÇÃO

Esta pesquisa é um labirinto que tenta construir caminhos possíveis para a criação de mais caminhos, por aqueles que abençoam a dolorosa empreitada de desconstruir até os cantos mais profundos de nossos estares e da realidade que supomos natural. Não por acaso, a terra sobre a qual se rasgam os caminhos é o conceito de “Natureza”, não como uma investigação enciclopédica, mas como a superfície mais profunda em que se enraíza a árvore do conhecimento e seus brotamentos sociais. De fato pode-se argumentar que este não é um trabalho geográfico; e teríamos de concordar até certo ponto. Seria assim, se supuséssemos, como é de costume, que existe uma diferença entre a prática e a teoria, sendo a escolha desta última uma mera questão de método e não já em si um posicionamento político no sentido mais nobre deste conceito, ainda enquanto percepção de mundo. E é contra esse lugar que este escrito se coloca: contra, em última instância, a distância que existe entre a matéria e a idéia. Por que seria geografia? Não há como se desviar da organização funcionalista, sem mergulhar nas investigações teóricas, que fazem ver as relações entre as coisas e até coisas que jamais veríamos sem o uso deste outro sentido que é o pensamento. Isso porque nossa própria gênese como homens determina a priori o que iremos ver e fazer – e até quem iremos ser. “Para conhecer-se a si mesmo é preciso também conhecer as influências exteriores que o hão modelado, estudar a história...”
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Acrescentaria ainda a

Reclus, que é preciso estudar também a simultaneidade. Simultaneidade característica da geografia, que apreende processos acontecendo diferentemente ao mesmo tempo, criando um visível plano de consistência. Processo unívoco que se expressa por formas diferentes e aparentemente desiguais, historicamente lógicas, geograficamente irracionais. Criar a
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RECLUS, Eliseé. O Homem e a Terra, Livro I

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distância para o entendimento é uma arte. Reconstituir nossa maneira de perceber é vital. E o pensamento, como órgão dos sentidos, tem um papel crucial no rearranjo de nosso corpo, na desorganização do organismo para que sejam construídas novas formas de se colocar em meio à Natureza. Aventura de aumentar a indeterminação. Criação de novos encontros. Assim, afirmamos que fazer geografia não é apenas pesquisar as espacialidades do presente como objeto empírico, mas criar condições para geografias do futuro. E que tarefa poderia ser mais prenhe de amor? Novas formas de habitar, de viver o ambiente e de participar da natureza. Porém, não podemos esquecer que é um movimento que não tem um lugar a se chegar. Justamente, não é de maneira alguma um horizonte idílico, ou mesmo surrealista. Não podemos dizer o que é – estaríamos traindo a própria força da Natureza. Trata-se de uma limagem ferrenha de todos os nossos pressupostos, até mesmo daqueles imperceptíveis, como a linguagem. Abrimos assim, um campo de batalha que não possui regras a priori. Inimigos: todos os determinismos – de discursos e de práticas, no mundo, sem esquecer que neste se inclui também nós mesmos. Para tanto, constituir grupos, em nosso organismo, forças que nos habitam, e também no exterior de nossa pele. Trata-se da elaboração de novos sistemas, arranjos, máquinas, moléculas em variação que se ligam e evocam funcionamentos particulares, interações que promovem ações que só podem existir através dessas conexões. Encontros. Singularidades. Não é simples perceber estes agenciamentos que nos constituem e que nós constituímos em diferentes níveis. E não há outro caminho senão apreendê-los. Nasceu desta necessidade a aliança com o filme KOYAANISQATSI, de Godfrey Reggio. Paul Virilio, em seu livro O Espaço Crítico, faz uma análise fundamental sobre o cinema, entendendo a tela de projeção como uma janela. Uma janela que introduz outras

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dimensões espaciais. Talvez o filme de Reggio seja uma obra em que podemos perceber explicitamente o que isso significa. A riqueza do voyeurismo é a que consegue estabelecer uma distância com respeito ao cotidiano, distância esta que só é interessante para o voyeur, porque sabe ele que faz parte de tudo aquilo que vê. O estranhamento que surge desta experiência é o que abre a possibilidade para a criação de uma imaginação desabituada, pulsão da vida de estabelecer novas conexões, de fluir pelos poros das barreiras do normal. É neste sentido que KOYAANISQATSI é a base para as reflexões que serão apresentadas no decorrer deste ensaio. Uma janela que nos apresenta o mundo em que vivemos de uma maneira impossível de ser vista apenas com nossos olhos.

Questão de método

Primeiramente, é importante ressaltar que não há um padrão seguido para as investigações que se seguirão. Não contamos com a utilização de um método, tampouco com uma metodologia. Inclusive, foi um desafio ter construído uma análise sem possuir um objeto definido. Há uma exigência grande quando se fala em pesquisa científica, de um objeto, ainda mais em uma sociedade que é ultra-especializada, sendo a pesquisa em sua força quase que um empecilho à pesquisa institucionalizada. E exatamente, trata-se de uma questão de método. Deveria ser claro que mais do que um lugar a se chegar, o método consiste num lugar do qual se parte. Pesquisar segundo um método é selecionar a realidade não só debulhando o objeto de estudo definido, mas também preparando a percepção que levará em conta apenas determinados fenômenos (relevantes ao método e condizentes com a

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metodologia escolhida), o que muitas vezes não permite que certas coisas venham à tona, inclusive nem sendo então percebidas. A recusa por um método, neste caso, funciona por dois motivos: primeiro por que não temos ao certo aonde queremos chegar com a pesquisa. Em fato, cada tema abordado constitui um objeto – podendo-se afirmar que o escrito em mãos possui vários objetos. Cada problema abre caminho para outros, para novos e antigos que são importantes para a resolução de um panorama amplo, processos e fluxos que não possuem um limite específico; segundo, porque aqui tentamos elaborar uma teia, um plano que dá consistência a seus diferentes pontos. É, assim, a compreensão de que a realidade se constitui de encontros e funcionamentos, em que não há coisas, mas relações e é nas relações que as coisas se constituem como tais, ganhando uma identidade dependendo do referencial. Entre os diferentes temas (ou objetos) abordados, ressaltamos as relações que os estabelecem. Da mesma forma, esta pesquisa não é uma coisa antes de se relacionar com o leitor, que poderá criar ou não conexões com o que aqui é apresentado, amplificando as potências e as possibilidades de novos encontros para além do papel e da erudição. É por isso também, que não começaremos esta apresentação com uma análise ou uma descrição daquilo que vemos em KOYAANISQATSI. Não por isso as refutamos. Convidamos o leitor a perceber. “Coisas de respeito, como homens de respeito, não trazem assim na mão os seus motivos. (...). É de pouco valor aquilo que primeiramente tem de se provar.” 2. KOYAANISQATSI fala por si, e não nos é conveniente fazer uma leitura de algo que é antes para ser visto e sentido – que poderíamos dizer perante uma obra que não possui palavras (com rara exceção)? Tentaremos ampliar as percepções.

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NIETZSCHE, F. Crepúsculo dos Ídolos. Cia. Das Letras. 2007. p.19

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Primeira Parte
da Natureza e da Percepção, ou como o homem vem a ser.

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A Natureza e Seus Atributos

“Tudo muda, tudo é móvel no Universo, porque o movimento é a condição mesma da vida. Outrora, os homens, que o isolamento, o ódio e o medo deixavam na sua ignorância nativa, enchendo-os do sentimento de sua própria fraqueza, só o imutável e o eterno viam em redor. Para eles, o céu era uma abóboda sólida, um firmamento no qual estavam pregadas as estrelas. A Terra era o firme alicerce dos céus e só um milagre podia fazer oscilar sua superfície. Mas, desde que a civilização prendeu os povos aos povos, numa mesma Humanidade; desde que a História atou os séculos aos séculos; desde que a Astronomia, a Geologia fizeram mergulhar o olhar em bilhões de anos para trás — o homem deixou de ser isolado e, por assim dizer, de ser mortal. Tornou-se a consciência do imperecível Universo. Não relacionando já a vida dos astros nem a da Terra com sua própria existência tão fugitiva, mas comparando-a com a duração da raça inteira, e com a de todos os seres que antes dele viveram, viu a abóboda celeste revolver-se num espaço infinito e a Terra transformar-se num globozinho girando no meio da Via Láctea. A terra firme, que ele pisa aos pés e que julgava imutável, anima -se e agita-se. As montanhas levantam-se e abaixam-se. Não são somente os ventos e as correntes oceânicas que circulam em roda do planeta, os próprios continentes deslocam-se com os seus cumes e vales, põem-se a caminhar sobre a redondeza do globo. Para explicar todos esses fenômenos geológicos, já não há necessidade de imaginar súbitas mudanças do eixo terrestre, abaixamentos gigantescos. De ordinário, não é dessa forma que procede a Natureza; é mais calma nas suas obras, modera a sua força, e as mais grandiosas transformações fazem-se sem o conhecimento dos seres, que ela sustenta. Eleva as montanhas e enxuga os mares sem perturbar o vôo de um mosquito. Certa revolução que parece a queda dum raio levou milhares de séculos a completar-se. É que o tempo pertence à Terra: renova todos os anos, sem se apressar, o seu adorno de folhas e flores; do mesmo modo, remoça, no decorrer das idades, os seus continentes pela sua superfície.” ELISEU RECLUS
Trecho encontrado no livro "Anarquismo roteiro da libertação social" de Leuenroth

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Não poderia ser mais preciso o pensamento do geógrafo Eliseu Reclus ao falar sobre a Natureza. E é desta mesma posição que partiremos para compreendê-la. Donde a constatação fundamental: Na Natureza tudo é mudança perpétua e eterna. Assim, dizemos que tudo, em suas infinitas escalas, é sempre único e ainda assim, nunca é o mesmo, está sempre se alterando e sendo alterado pelas mais variadas relações, em suas mais variadas escalas. Disso extraímos nossa segunda constatação: Tudo é relação. Por mais que consigamos identificar unidades, todos os organismos, todas as coisas na Natureza estão em relação e só existem mantendo relações. Se apreendemos coisas, estamos antes falando de estados relacionais e não de objetos destacados. É isso que a ciência contemporânea afirma cada vez com maior veemência.

O olhar da ciência

Sua grande reviravolta é uma mudança de foco, que ao invés de identificar objetos e colocá-los em movimento e em relações, busca compreender as próprias relações, aprofunda-se na concepção de sistemas. Diluindo a rigidez da matéria, da substância, passa-se para uma visão mais etérea, preocupada com o padrão. A visão do mundo como uma máquina perfeita vai perdendo espaço para uma compreensão dinâmica, de uma ordem flutuante, móvel, histórica, contextual, relacional, em escalas variadas, qualitativa, estabelecida em redes. Enfim, percebe-se que a realidade só pode ser entendida enquanto complexa – as propriedades estão no todo e essas propriedades são destruídas quando um sistema é dissecado em elementos isolados. “Aquilo que denominamos parte é apenas um

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padrão numa teia inseparável de relações. (...) Na visão sistêmica, compreendemos que os próprios objetos são redes de relações, embutidas em redes maiores.” 3

ESTRUTURAS DISSIPATIVAS A termodinâmica, como um campo da física, tem um papel crucial nesta mudança de compreensão, pois desde então se entende que, no caso, uma máquina funciona a partir de uma complexa relação entre partículas que corresponde a um estado energético interno, permitindo a realização de trabalho (por exemplo um motor que precisa da queima de combustível para funcionar, cuja tendência é sempre parar de funcionar, conforme a energia é dissipada). Percebeu-se que sempre há perda de energia, o que leva o sistema a atingir um equilíbrio estático, quer dizer, a se encaminhar para uma desordem sempre crescente. Pensava-se então, em sistemas fechados. Porém, o que se notava na experiência mais habitual era que no mundo, os sistemas estão sempre em relação, portanto, são sempre sistemas abertos, o que os mantêm longe do estado de equilíbrio, sempre mantendo fluxos e mudanças contínuos. Isso quer dizer que estes sistemas importavam energia do exterior e com isso, aumentavam sua ordem interna. Disso surge o que Prigogine chamou de “estruturas dissipativas”, que se referem a sistemas abertos, auto-organizáveis4, não-lineares5 e longe do equilíbrio. Um exemplo fantástico de auto-organização é o que o próprio Prigogine utilizou para desenvolver sua pesquisa. Trata-se de um fenômeno convectivo (“instabilidade de Bérnard”) em que um líquido é uniformemente aquecido a partir de baixo, estabelecendo3 4

CAPRA, Fritjof. A Teia da Vida. Ed. Cultrix, 2006. p. 47

Os sistemas auto-organizáveis referem-se aos resultados de diversos experimentos realizados na metade do século XX, que mostravam que a partir de um estado inicial qualquer, depois de um certo tempo, emergiriam espontaneamente padrões ordenados de funcionamento, estabelecidas propriedades de relação das partículas envolvidas. 5 A não-linearidade compreende a evolução dos sistemas que avançam para a indeterminação já que pequenas variações iniciais podem levar a uma amplificação exponencial do “erro”, contando com diversas soluções para equações diferenciais que envolvem sucessivas modificações temporais. A solução de equações não-lineares é normalmente realizada por tentativa e erro, através de potentes computadores que expressam os resultados graficamente.

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se um fluxo térmico constante movendo-se do fundo para a superfície apenas por condução. Em certo momento estabelece-se um valor crítico da diferença de temperatura entre a superfície e o fundo em que o fluxo térmico é substituído por convecção, sendo o calor transferido pelo movimento coerente de um grande número de moléculas. Nesse momento, emerge um extraordinário padrão ordenado de células hexagonais (“favo de mel”). Esse experimento mostra como à medida que um sistema se afasta do equilíbrio, aumentando sua energia interna, atinge um ponto crítico de instabilidade, em que emerge um padrão organizado.

MECÂNICA QUÂNTICA Outro campo da ciência que vai na mesma direção é a Mecânica Quântica. Ao aprofundarem-se os estudos que se embrenham no mundo microscópico da matéria, descobre-se um universo absolutamente espantoso. Um mundo onde a desordem é a norma, onde nada é, mas tudo está em transformação6, em que, nas palavras de Capra “(...) os componentes dos átomos, as partículas subatômicas, são padrões dinâmicos que não existem como entidades isoladas, mas como partes integrantes de uma rede inseparável de interações. Essas interações envolvem um fluxo incessante de energia que se manifesta como troca de partículas, ou seja, uma interação dinâmica na qual as partículas são criadas e destruídas interminavelmente numa variação contínua de padrões de energia. As interações de partículas dão origem às estruturas estáveis que edificam o mundo material, as quais não permanecem estáticas mas oscilam em movimentos rítmicos.” 7. Assim também Merleau-Ponty nos auxilia dizendo que “o

A noção mesmo de próton que temos como uma partícula sólida é questionada. Pensa-se já em partículas virtuais, em que o próton estatisticamente provável está se transformando em nêutron mais um píon positivo e este nêutron logo reabsorverá o píon tornando-se próton que emitirá um píon neutro e assim aleatoriamente. Mais ainda a noção de elétron que se imagina como uma partícula orbitante, mas que, na realidade, desaparece e aparece em outra posição. Pensa-se em estados energéticos. 7 CAPRA, Fritjof, O Tao da Física, Ed. Cultrix, 1983. p 170

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objeto quântico é um objeto que não tem existência atual. O papel do observador será o de cortar a cadeia das probabilidades estatísticas, de fazer surgir uma existência individual em ato.” 8. Os objetos materiais sólidos se dissolvem em probabilidades semelhantes a ondas; e ainda, não probabilidades de se encontrar coisas, mas sim probabilidades de interconexões. Aqui, é o todo que determina o comportamento de suas partes.

TEORIA GAIA Ainda devemos encontrar a Teoria Gaia, que de uma forma mais explícita encontra o próprio planeta Terra como um sistema absolutamente integrado9. “A teoria Gaia mostra que há um estreito entrosamento entre as partes vivas do planeta – plantas, microorganismos e animais – e suas partes não-vivas – rochas, oceanos e a atmosfera. O ciclo do dióxido de carbono é uma boa ilustração desse ponto. Os vulcões da Terra têm vomitado enormes quantidades de dióxido de carbono (CO2) durante milhões de anos. Uma vez que o CO2 é um dos principais gases do efeito estufa, Gaia precisa bombeá-lo para fora da atmosfera; caso contrário, ficaria quente demais para a vida.
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MERLEAU-PONTY, Maurice, A Natureza, Ed. Martins Fontes, 2006. p.152 Na verdade, segundo esta teoria, o planeta é considerado um sistema vivo, porém, o termo vivo, vítima do senso-comum, causa grande estranhamento e não colabora para a visão profunda do estudo. Vivo, é antes um sistema determinado por certas características que são encontradas também na organização planetária: “Gaia é, em definitivo, autolimitada, pelo menos até onde sua fronteira externa, a atmosfera, estiver presente. De acordo com a teoria de Gaia, a atmosfera da Terra é criada, transformada e mantida pelos processos metabólicos da biosfera. As bactérias desempenham um papel fundamental nesses processos, influindo na velocidade das relações químicas e, desse modo, atuando como o equivalente biológico das enzimas numa célula. A atmosfera é semipermeável, como uma membrana celular, e constitui parte integral da rede planetária. Por exemplo, ela criou a estufa protetora na qual a vida em seus primórdios foi capaz de se desdobrar há três bilhões de anos, mesmo que o Sol fosse então 25 por cento menos luminoso do que é nos dias de hoje. O sistema Gaia é também claramente autogerador. O metabolismo planetário converte substâncias inorgânicas em matéria orgânica viva, e novamente em solos, oceanos e ar. Todos os componentes da rede de Gaia, incluindo aqueles de sua fronteira atmosférica, são produzidos por processos internos à rede. Uma característica fundamental de Gaia é o complexo entrelaçamento de sistemas vivos e não-vivos dentro de uma única teia. Isso resulta em laços de realimentação que operam ao longo de escalas imensamente diferentes. Os ciclos das rochas, por exemplo, estende-se por centenas de milhões de anos, ao passo que os organismos a elas associados têm durações de vida muito curtas. (...) Finalmente, o sistema de Gaia é, evidentemente autoperpetuante. Os componentes dos oceanos, do solo e do ar, bem como todos os organismos da biosfera, são continuamente repostos pelos processos planetários de produção e de transformação.” (CAPRA, Fritjof. A Teia da Vida, Ed. Cultrix, 2006. pp. 173 e 174)
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Plantas e animais reciclam grandes quantidades de CO2 e de oxigênio nos processos da fotossíntese, da respiração e da decomposição. No entanto, essas trocas estão sempre em equilíbrio e não afetam o nível de CO2 da atmosfera. De acordo com a teoria Gaia, o excesso de dióxido de carbono na atmosfera é removido e reciclado por um enorme laço de realimentação, que envolve a erosão das rochas como um componente-chave. No processo da erosão das rochas, estas combinam-se com a água da chuva e com o dióxido de carbono para formar várias substâncias químicas denominadas carbonatos. O CO2 é então retirado da atmosfera e retido em soluções líquidas. Esses processos são puramente químicos, não exigindo a participação da vida. No entanto, Lovelock e outros descobriram que a presença de bactérias no solo aumenta enormemente a taxa de erosão das rochas. (...) Os carbonatos são então arrastados para o oceano, onde minúsculas algas, invisíveis a olho nu, os absorvem e os utilizam para fabricar primorosas conchas calcárias (de carbonato de cálcio). Desse modo, o CO2 que estava na atmosfera vai parar nas conchas dessas algas diminutas. Além disso, as algas oceânicas também absorvem o dióxido de carbono diretamente do ar. Quando as algas morrem, suas conchas se precipitam para o fundo do mar, onde formam compactos sedimentos de pedra calcária (outra forma do carbonato de cálcio). Devido ao seu enorme peso, os sedimentos de pedra calcária gradualmente afundam no manto da Terra e se fundem, podendo até mesmo desencadear os movimentos das placas tectônicas. Por fim, parte do CO2 contido nas rochas fundidas é novamente vomitado para fora por vulcões, e enviado para uma outra rodada do grande ciclo de Gaia. O ciclo todo – ligando vulcões à erosão das rochas, a bactérias do solo, a algas oceânicas, a sedimentos de pedra calcária e novamente a vulcões – atua como um gigantesco laço de realimentação, que contribui para a regulação da temperatura da

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Terra. À medida que (...) fica mais quente, a ação bacteriana no solo é estimulada, o que aumenta a taxa de erosão das rochas. Isso, por sua vez, bombeia mais CO2 para fora da atmosfera e, desse modo, esfria o planeta.” 10

Ciência Clássica

Mas como sabemos as concepções da ciência e suas categorias nem sempre foram essas; ou pelo menos predominou uma maneira de se compreender a realidade, um método, bastante distinto da compreensão da realidade como movimento. A Ciência, em suas origens, é parte de um amplo processo de transformação cultural, envolvida por um espírito questionador que impreterivelmente acaba por ir de encontro aos dogmas da Igreja, sem por isso, ainda, atingir a própria doutrina cristã. Petrarca, ao escalar o Mont Ventoux para admirar a vista, chegando ao cume lê uma passagem aleatória, porém absolutamente expressiva de Santo Agostinho11, levantando a contradição mais evidente da época que se seguiria: de um lado a experiência própria; do outro, aquilo que é ou não permitido e ensinado pela Igreja, estando esses dois lados em conflito. A revolução que se prepara diz respeito ao desbravamento do mundo através da percepção própria, da experiência própria, sem possuir a priori, as certezas ou interdições, enfim, os pré-julgamentos impostos tanto pela religião, quanto pelos filósofos (Aristóteles principalmente), fonte da verdade. Por conseqüência, romper com as explicações anteriores, estáticas, era necessário para se investigar como as coisas de fato existem e se relacionam. A subversão pela consciência individual. O mundo sacro,

CAPRA, Fritjof. A Teia da Vida. Ed. Cultrix, 2006. pp. 93 e 94 Petrarca se depara com o seguinte trecho: “Os homens vão admirar os píncaros das montanhas, as ondas alterosas do mar, as largas correntes dos rios, a amplidão do oceano, as órbitas dos astros: e nem pensam em si mesmos” [Confissões. X, 8, 13]. Quer dizer, se colocam em pecado.
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dourado, cedia lugar à perspectiva e às cores que davam cada vez maior ênfase ao mundo terreno e natural. Podemos ver claramente tais diferenças ao observarmos duas pinturas

(Fig. 1) Maestà: Nossa Senhora no Trono. Duccio – 1311 12

(fig. 2) A Festa da Virgem do Rosário. Albrecht Dürer – 1506 13

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http://www.accd.edu/sac/vat/arthistory/arts1304/DuccioMad.jpg (acessado em novembro de 2008) http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/7/70/Albrecht_Dürer_099.jpg

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sobre mesmo tema, uma do século XIV, em que a doutrina cristã era soberana (fig. 1) e outra do século XVI (fig. 2), quando nascia e se fortalecia a posição “científica”. Abria-se a época dos estudos, da observação, da ousadia, uma efervescência que seria logo resfriada: a busca pelo método e a Reforma Protestante. Sobre esta última, Nietzsche é incisivo: “Cesar Borgia, papa... Vocês entendem? Esta seria a vitória à qual, hoje, eu aspiro. Daquele modo, o cristianismo teria sido liquidado! Mas o que ocorreu, no entanto? Um monge alemão, Lutero, visitou Roma. Este monge, com o peito cheio de todos os instintos de vingança de padre fracassado, indignou-se, em Roma, contra o Renascimento... Ao contrário de compreender com extrema gratidão a coisa imensa que ocorrera, a superação do cristianismo na sua própria sede, o seu ódio soube extrair deste espetáculo apenas o próprio alimento. Um homem religioso pensa apenas em si mesmo. Lutero viu a corrupção do papado, enquanto seria possível tocar com as mãos exatamente o contrário: no trono papal não mais estava a corrupção antiga, o peccatum originale, o cristianismo! Mas a vida! Mas o triunfo da vida! Mas o grande ‘sim’ para tudo o que é elevado, belo, temerário!... e Lutero restaurou a Igreja novamente: atacoua... A Renascença – um acontecimento sem sentido, uma grande inutilidade! (...)” 14 . O método, de forma semelhante, porém talvez mais sutil, é uma reforma dogmática da produção do conhecimento. Como já foi dito, a ruptura que houve com os dogmas da Igreja não se deu, entretanto, com a própria doutrina Cristã. “Aqui compartilhamos a crítica de Nietzsche, dizendo que se Deus morreu, ficaram ainda fortes suas características, ou seja, os valores morais. ‘Que ingenuidade! Como se subsistisse a moral quando falta um Deus que a sancione! Um além é absolutamente necessário, quando se quer conservar sinceramente a fé na moral’.” 15 E na certeza de que através da experiência e da investigação da Natureza chegar-se-ia à verdade, buscavam, alguns
NIETZSCHE, Friedrich, apud ROMANO, Roberto – Introdução de Da Liberdade do Cristão, autoria de Martinho Lutero. Ed. UNESP, 1997. pp. 16/17 15 MOURA, Carlos A. R.. Nietzsche: civilização e cultura. Ed. Martins Fontes. 2005. p. 26.
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como Bacon, Descartes, a maneira correta de se portar perante seu oráculo, as maneiras certas de elaborar as perguntas, mas principalmente a maneira correta de lidar com as respostas, de produzir respostas, de concebê-las. “Procuramos cercar nossas reflexões dos maiores cuidados, não apenas para que fossem verdadeiras, mas também para que não se apresentem de forma incômoda e árida ao espírito dos homens (...)”.16 Penetrar “nos estratos mais profundos e distantes da natureza” para encontrar “as verdadeiras marcas e impressões gravadas por Deus nas criaturas, tais como de fato se encontram”.17 Ou, como no próprio subtítulo do “Discurso do Método” de Descartes, um método “para bem conduzir a própria razão e procurar a verdade nas ciências”. Tendo o relógio como metáfora para a Natureza, acredita-se que o mundo é a soma de inúmeras partes que a seu passo, se constituem por algumas relações que explicam seu funcionamento. Assim, parte-se da investigação das partes para a compreensão do todo. Daí a máxima de Laplace: “Uma inteligência que, num instante dado, conhecesse todas as forças de que a Natureza está animada e a situação respectiva dos seres que a compõe, se por outro lado ela fosse suficientemente vasta para submeter todos esses dados à análise, englobaria na mesma fórmula os movimentos dos maiores corpos do universo e aqueles do mais leve átomo: nada seria incerto para tal inteligência, e o futuro, tanto quanto o passado, estaria presente a seus olhos.” 18 Em suma, os preceitos que permeiam a ciência clássica são: a busca por leis imutáveis e, portanto, universais, escondidas nos fenômenos da natureza; a purificação do observador que deve expurgar tanto da experiência quanto do intelecto as possíveis ilusões; o experimento como prova de veracidade; a ordenação sem ambigüidade dos resultados. A investigação da Natureza teria assim o pressuposto de que essencialmente,

BACON, Francis. Prefácio do Novo Organum. Ed. Nova Cultural, 1999. p.30 BACON, Francis. Novo Organum. Ed. Nova Cultural, 1999. pp.36 e 37. Trechos extraídos dos “Aforismos Sobre a Interpretação da Natureza e o Reino do Homem – livro I” números XVIII e XXIII 18 PASCAL apud MERLEAU-PONTY, A Natureza, p.142
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o mundo é rigorosamente ordenado, permanente e estático. Do firmamento ou do mundo supralunar, a perfeição e o divino estão escondidos fora do mundo material – o modelo heliocêntrico de Copérnico amplia os domínios naturais e o mundo sublunar expande suas fronteiras. Todo o empenho durante séculos (como nos mostra Foucault em As Palavras e as Coisas) é o de organizar o conhecimento e a realidade de maneira que estivessem evidentes e sem ambigüidades suas características particulares, os detalhes de cada parte que compõe o todo. E tendo a dúvida como princípio de investigação, a intenção era eliminar o misticismo e os dogmas impregnados nas imagens, nas crenças, nas palavras, etc. O que definitivamente nos chama a atenção é a compreensão dualista de mundo, em que através do estudo ou da contemplação, o homem poderia encontrar a pureza, a perfeição, o eterno, a verdade, que estão escondidos na matéria, no impuro, no mutável, no imperfeito, na ilusão. Ou seja, permanece uma visão de que existe uma separação entre o mundo físico e o metafísico, e que este último contém as chaves para se compreender a verdadeira realidade deste mundo decaído. A contraposição essencial é entre o mutável e o imutável – e podemos imaginar quem é que ao longo da história ocidental esteve por cima deste entrave. Permanece o império de Sócrates e suas essências, de Platão e o mundo das Idéias, de Aristóteles e as substâncias.

Por que a ciência?

Mas antes de prosseguir, é preciso esclarecer um ponto importante desta exposição um tanto quanto superficial. Ao nos enveredarmos pela história, numa evolução de pensamentos, idéias, estamos antes buscando as evidências, para além dos documentos, de configurações de forças, dos olhares miraculosos e de realidades que

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podem ser reencontradas em diferentes cenas, desempenhando papéis distintos. Não se trata de um interrogatório criminal, em que apontamos os culpados de atentados contra a vida, mas de salientar algumas posturas que, sem dúvida alguma, apresentam-se como respostas desafortunadas, porém, mais profundamente, problemas desvirtuados sobre as angústias provocadas pela novidade de um mundo desconhecido. E justamente, essas novidades não se estendem somente a períodos históricos específicos, mas a múltiplos pontos que não respeitam a cronologia, pontos estes que surgem quando se colocam aqueles que se sentem ultrajados pelo senso comum e pelo bom senso. Da mesma maneira, ao falar sobre a ciência contemporânea, não podemos nos iludir e acreditar que se trata de um processo global, de alguma maneira até teleológico de evolução, mas de alguns apontamentos, que enquanto não estiverem cristalizados, nos ajudam a realmente expandir nossos horizontes, ao invés de torná-los apenas toscas pinturas interpretativas e parâmetros míticos de julgamento. Assim, é também ao longo de toda a história que encontraremos diversas direções que resistem em meio aos dogmáticos, buscando seus espaços de aprendizagem e expressão. Epicuro, Lucrécio, Spinoza, Nietzsche, entre outros que conseguiam, à época própria de cada um, elaborar problemas e solucioná-los de maneiras mais honestas com a vida. Entretanto, como nos mostra Guattari em As Três Ecologias, existe um ambiente que é mais ou menos fértil para certos tipos de posturas e pensamentos.

A Natureza

Devemos ainda esclarecer o que é que aqui chamamos de Natureza: Natureza é a potência criativa que existe por si e em si mesma e que só existe em ato.

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Quer dizer, que a Natureza é eterna e perpétua criação, mas que só existe na própria produção de si mesma, ou seja, na realização efetiva de uma criação. É um processo produtor-produto simultâneo, produção que só existe no produto e produto que só existe na produção. Não devemos nos deixar levar pela tendência de imaginar uma entidade metafísica exterior à Natureza que lhe formaliza, um criador, enquanto a Natureza é a criatura; um mundo de entidades espirituais (no sentido de mental, de essência imaterial) que se encarna sobre a matéria inerte. É preciso um esforço para entender essa consistência que se autoproduz, sem finalidade, sem legislação, mas que apenas cria por sua necessidade intrínseca de existir, pois só existe criando-criada, em movimento, como os dois lados de uma fita (de Moebius) sem dimensão, que não possuem existência em si, mas apenas na coesão que gera a fita (ou o uni-verso). O virtual de um lado, o atual do outro e a coisa, em sua multiplicidade, o ser da criação. Virtual como potência infinita de criação infinita. Atual como potência receptiva de criação. A relação entre ambas é criativa, pois o virtual não se encarna, mas se atualiza, quer dizer, renova sua potência de criar, criando, inventando uma passagem, enquanto o atual é a condição sine qua non para haver existência efetiva, pois é o meio em que são produzidas as atualizações. O virtual se atualiza; o atual se virtualiza – um movimento perpétuo que cria incessantemente existência efetiva, dando uma coesão àquilo que não possui existência própria, que não possui existência separada como coisa, mas só enquanto processo relacional. “O virtual tem a realidade de uma tarefa a ser cumprida, assim como a realidade de um problema a ser resolvido.” 19 Resumindo, podemos concluir que: Tudo integra a Natureza. O que tenta-se deixar claro é que a este duplo, ainda acrescenta-se um terceiro, fundamental, que é o movimento. Portanto, os dois elementos

19

DELEUZE, Gilles. Diferença e Repetição. Ed. Graal. 2006. p. 299.

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(atual e virtual, ambos reais), que possuem, de alguma forma, um caráter mais substancial, são cortes em fluxos, sendo esta sua verdadeira natureza. A Natureza não é algo, mas um processo – processo este que é autoperpetuante, duma conjugação de forças tensionadas que tem como essência continuar existindo. Assim, existe como tal na conjunção entre potência e matéria, entre virtual e atual (ambos reais), duração e extensão, natureza naturante e naturada. E como infinitas possibilidades infinitas neste campo virtual, cunha materialmente, cria inúmeras formas e estruturas que, cada qual a sua maneira e com sua potência de perpetuar a existência, se ramificam, se transformam, se desdobram, surgindo assim, cada vez mais diferenças em relação a uma origem comum: amplificação e reverberação em direção à distensão máxima (que nunca chega efetivamente). Nessa tendência intrínseca de produzir produtos produtores, abrem-se os mais diversos caminhos. Mas os caminhos só podem ser entendidos como rastros. A própria direção, o próprio caminho é constituído na sua própria efetuação, num processo indeterminado, imprevisível: ponto de tensão máxima em que ocorre uma dobra de realidade, atualização instantânea, algo como o rizoma vegetal. “Ponto de indeterminação” em que não sabemos para onde um sistema irá se encaminhar. Perplexidade de Prigogine. Sempre a criação de novos encontros, de novas relações.

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Tempo e Espaço

“Consideremos os graus de distensão e de contração, todos eles coexistentes: no limite da distensão, temos a matéria. (nota: Neste sentido, a matéria e o sonho têm uma afinidade natural, ambos representando um estado de distensão em nós e fora de nós) Sem dúvida, a matéria ainda não é espaço, mas ela já é extensão. Uma duração infinitamente relaxada, descontraída, deixa exteriores uns aos outro os seus momentos; um deve ter desaparecido quando o outro aparece. O que esses momentos perdem em penetração recíproca, ganham em desdobramento respectivo. O que eles perdem em tensão, ganham em extensão. Assim, a cada momento, tudo tende a desenrolar-se em um continuum instantâneo, indefinidamente divisível, que não se prolongará em outro instante, mas que morrerá para renascer no instante seguinte, em um piscar de olhos ou frêmito sempre recomeçado. Bastaria impulsionar até o fim esse movimento de distensão para obter o espaço. (Mais precisamente, no final da linha de diferenciação, o espaço seria então encontrado como sendo esse termo extremo que não mais se combina com a duração.) Com efeito, o espaço não é a matéria ou a extensão, mas o “esquema” da matéria, isto é, a representação do termo em que o movimento de distensão desembocaria, como o envoltório exterior de todas as extensões possíveis. Nesse sentido, não é a matéria, não é a extensão que está no espaço, mas bem o contrário. E, se considerarmos que a matéria tem mil e uma maneiras de se distender ou de se estender, devemos dizer que há toda sorte de extensos distintos, todos aparentados, mas ainda qualificados, e que acabarão por se confundir, mas só em nosso esquema de espaço.”

GILLES DELEUZE
Excerto de Bergsonismo, Ed. 34. pp.69/70

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A noção de tempo para a ciência da complexidade é diferente da noção clássica, de um tempo linear e homogêneo. Desde a termodinâmica que se enxerga o tempo como uma flecha, cuja história é própria da sua constituição. Assim, a idéia de irreversibilidade, já que cada acontecimento é importante para a composição de um determinado estado, muitas vezes culminando em diversos pontos de indeterminação absoluta, em que o desenvolvimento de um sistema “escolhe” um caminho. Porém, a ciência não se aprofunda na questão do tempo assim como o faz a filosofia e neste quesito, Bergson é um pensador fundamental. “Se, todavia, observamos que a ciência opera exclusivamente com medidas, percebemos que no que concerne ao tempo a ciência conta instantes, anota simultaneidades, mas continua sem domínio sobre o que se passa nos intervalos.” 20 Aqui se estabelece uma diferença que raramente é colocada quando se pensa sobre o tempo. Para a ciência, que possui como meta última a ação, essa questão talvez não possua tanta relevância, mas não podemos afirmar o mesmo quando investigamos a produção da Natureza. Trata-se do que Bergson chama de “duração”: movimento puro, o próprio devir, imaterial, o fazer-se, o tornar-se – o que está entre qualquer instante, o próprio processo de passagem dos instantes, a continuação do que precede no que se segue, a transição ininterrupta, multiplicidade sem divisibilidade, sucessão sem separação. Duração que é inapreensível pela medida, que não é quantificável. A analogia com uma melodia musical é diversas vezes estabelecida. Ao escutarmo-la, o movimento melódico é apreendido para além da soma das notas e das tonalidades, enfim, para além do próprio som; é qualitativamente percebido. “O tempo real não tem instantes” 21. Mas o que é então que medimos? É antes o rastro deixado pela duração no espaço, uma qualidade intensiva que se extende e que se torna aos nossos olhos seu equivalente.
20 21

BERGSON, Henri. Duração e Simultaneidade, Ed. Martins Fontes, 2006 – p.68 BERGSON, Henri. Duração e Simultaneidade, Ed. Martins Fontes, 2006 – p.62

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Medimos apenas o desenrolamento e não o próprio desenrolar, o registro do efeito do movimento e que também será seu símbolo. Enxergamos apenas o espaço e este sim, pode ser transformado em linha, em ponto, dividido. Determinamos pontos determinados (como a sobreposição de um polígono em uma circunferência), cuja aproximação nunca será igual à totalidade absoluta da linha, pois antes de ser linha, é movimento, sendo a linha apenas sua apresentação espacial. É uma diferença que envolve um estado perceptivo de um lado e um produtivo de outro. Como na resposta de Morus a Descartes: “Se estou sentado tranqüilo e um outro, afastando-se mil passos, está rubro de fadiga, é efetivamente ele que se move e sou eu que repouso”, podemos perceber que, para além da discussão sobre a relatividade do observador, coloca-se uma questão sobre a percepção interna e produtiva de movimento. É nesta direção que aponta a duração, que é expressa por algo espacialmente. Assim sendo, há uma condição imprescindível para que a duração exista e ela é a memória. “A coisa e o estado, não são mais que instantâneos da transição artificialmente captados; e essa transição, a única que é naturalmente experimentada, é a própria duração. Ela é memória, mas não memória pessoal, exterior àquilo que ela retém, distinta de um passado cuja conservação ela garantiria; é uma memória interior à própria mudança, memória que prolonga o antes no depois e os impede de serem puros instantâneos que aparecem e desaparecem num presente que renasceria incessantemente.”
22

Podemos aqui perceber que o sentido de memória é primeiramente

o de garantir aos movimentos e acontecimentos espaciais a sua passagem em conexão, formando uma sucessão de instantes, e não uma mera modificação e interação sempre

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BERGSON, Henri. Duração e Simultaneidade, Ed. Martins Fontes, 2006 – p.51

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nova, que não manteria qualquer relação com os instantes anteriores e posteriores, em que esta colocação temporal mesma já não faria qualquer sentido.23 É a própria duração, ou este estado de multiplicidades intensivas e não divisíveis que integra a ação de cada ser ou coisa que abrirá as portas para a potência criativa da Natureza. É só assim que podemos compreender, ainda que de forma confusa e imprecisa o que poderia ser esta criação, pois se percebemos as diferenças no espaço, é porque são mais profundamente qualitativas, imanentes e de maneira alguma podem ser apreendidas apenas pela medida e pela percepção. Temos ainda, com relação à passagem do tempo, já num movimento de encadeamento, uma relação entre passado e presente fundamental que é anterior à concepção de tempo como seqüência de passado-presente-futuro. “O passado e o presente não designam dois momentos sucessivos, mas dois elementos que coexistem: um, que é o presente e que não pára de passar; o outro, que é o passado e que não pára de ser, mas pelo qual todos os presentes passam. É nesse sentido que há um passado puro, uma espécie de ‘passado em geral’: o passado não segue o presente, mas, ao contrário, é suposto por este como a condição pura sem a qual este não passaria. Em outros termos, cada presente remete a si mesmo como passado.”
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O passado, uma

memória imemorial, duração de multiplicidades, virtual de coexistências que se atualiza no presente ao estabelecer uma configuração, um diagrama de composição destes elementos imateriais e sem dimensão, sem densidade, sem aquilo que chamamos mesmo de existência com o presente denso, material, atual, que só existe enquanto potência máxima de ação, de acontecimento real, produtivo, produtor. O presente é, então, o ponto mais contraído do passado. Fica evidente que a relação entre passado e presente é também a relação entre contraído e distendido, entre tensionado e lasseado, entre duração
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A questão será ainda abordada quando tratarmos da consciência, pois a memória é inconcebível onde não há consciência, o que nos faria também entrar na questão do ritmo dos seres. 24 DELEUZE, Gilles. Bergsonismo. Ed. 34, 1999. pp.45/46

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e extensão; é justamente a transição entre as categorias abstratas de tempo e espaço, apontando aqui um paradoxo em que o passado “é”, pois de fato o que passa se cristaliza, e o presente é aquilo que “devém” incessantemente, mas que só se estende pelo passado, que faz o presente passar – o Tempo é a concatenação, o Espaço é os instantes, e a transição entre os dois é o movimento da existência, já que estes elementos puros existem de direito, mas não encontraremos nunca seu estado de pureza efetivamente. O que aqui se busca expor é que existe uma diferença de natureza entre espaço e tempo, especialmente entre passado e presente, entre duração e extensão, entre matéria e memória, entre virtual e atual, mas cuja própria relação entre termos é o que produz o real. A duração acumula, o passado sempre cresce e o presente só passa, só se esvazia, só se adianta, só renasce. Em cada presente, é todo o passado que coexiste e lhe faz pressão, só sendo atualizado o que é relevante, o que pode ser produzido na situação atual. É importante colocar que a memória não existe como uma entidade, um substituto para o mundo platônico das idéias, mas é abrangida por cada existente material, como duração própria, não havendo assim um mundo universal da memória, mas um cone virtual que possui sua extremidade no presente, ou seja, no corpo que pode atualizar este emaranhado de memória numa realização, num presente atual que já se tornará passado ao se adiantar. Ainda voltaremos a este assunto ao tratar da existência dos seres. O Espaço, pelo que pudemos avançar até aqui, é um esquema representativo e não existe efetivamente, algo como um palco em que as coisas estivessem, os eventos acontecessem, enfim, um suporte para o que existe, base para o “aqui” e o “lá” concebido como um a priori, seja pela natureza essencial do mundo, seja por ser uma categoria metafísica humana fundamental. O Espaço é a apreensão do mundo como um campo estático, pronto, amplo, que se relaciona muito mais com as possibilidades de ação, do que com a realidade de fato. Seria conceber a matéria indo até seu fim e perdendo sua

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relação com a duração, isolando-se. Isso “(...) implica uma metafísica em que a totalidade do real é dada em bloco, na eternidade, e em que a duração aparente das coisas exprime simplesmente as deficiências dum espírito incapaz de tudo conhecer ao mesmo tempo.”
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Dessa forma, para estudarmos o espaço, devemos enveredar pelos caminhos da extensão; de uma materialização, mas que ainda possui movimento, que ainda está viva e que por isso mesmo, mantém uma relação com a realidade efetiva. Estamos assim no meio do caminho entre o que os realistas e os idealistas chamam de matéria, antes desta dissociação. A matéria é um presente que não pára de recomeçar; um conjunto de relações, de interações, de combinações, de afetos, de separações, de uniões, de movimentos, ações, padecimentos, qualidades, tensões, misturas entre corpos, ligações; indiviso e contínuo. E apesar de estabelecer esta diferença, é inconcebível um tal universo, pois nos colocamos de pronto num traçado de efeitos, de ritmos, de particularidades que são características da duração. Como poderíamos pensar em qualidades se não como expressão? Como existiriam propriedades ou qualquer tipo de relação não fossem já diferenças de potencial, fluxos e forças, intensidades? E estamos tão acostumados a separar que é terrivelmente confuso conceber um universo em que as combinações formam corpos e corpos formam combinações, sem existir algum que venha antes do outro, pois o movimento é o que dá consistência a este universo. O paradoxo: “ser é mudar”. E a ordem das mudanças é inerente a cada ordem, diferente de outra ordem, específica de cada arranjo, e cada arranjo se constitui constituindo certa ordem que lhe ordenará, sempre mudando, mais ou menos lentamente. Por isso, não podemos falar nem apenas de partes que compõem um organismo ou um sistema, nem de um todo que define suas partes, mas da simultaneidade da interação das partes e da

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BERGSON, Henri. A Evolução Criadora, Ed. Delta, 1964. p.72

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organização do todo, ambas produzindo e sendo produzidas por uma relação complexa de combinação. A materialidade, relativa aos corpos, à extensão e o imaterial, relativo aos processos, à duração; a estrutura e o padrão.

AUTO-ORGANIZAÇÃO E AUTOPOIESE Experimentos realizados na cibernética na década de 1940 simulavam uma rede neural em que cada elemento da rede possuía certas qualidades e a relação entre os elementos era estabelecida a partir de alguma regra de comutabilidade. Partindo de um estado aleatório inicial, passado algum tempo, surgiam espontaneamente padrões ordenados, como ondas ou ciclos repetidos. Estabelecendo sistemas abertos que importam ordem e elementos energéticos do exterior, constataram ainda a criação de novas estruturas e de novos comportamentos no processo auto-organizador. Na década de 70, são criadas redes à maneira das auto-organizáveis, que consistiam “(...) numa grade na qual um ‘catalisador’ e dois tipos de elementos se movem aleatoriamente e interagem uns com os outros de maneira tal que novos elementos de ambos os tipos podem ser produzidos; outros podem desaparecer, e certos elementos podem se ligar uns com os outros formando cadeias. (...) Há três tipos diferentes de interações e de transformações. Dois elementos de substrato podem coalescer em presença de um catalisador e produzir um elo; vários elos podem se ‘ligar’ – isto é, podem prender-se uns aos outros – para formar uma cadeia; e qualquer elo, esteja ele livre ou ligado numa cadeia, pode desintegrar-se novamente em dois elementos de substrato. Eventualmente, uma cadeia também pode se fechar sobre si mesma.”
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Em

vários destes modelos obtiveram-se redes autopoiéticas.27 “Com o passar do tempo, a

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CAPRA, Fritjof. A Teia da Vida. Ed. Cultrix, 2006. pp. 160/161

Um sistema autopoiético se define por três características: ser autodelimitado (possuir uma fronteira); ser autogerador (em que todos os elementos do sistema são produzidos por processos internos); ser

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cadeia continuava a formar um envoltório para o catalisador, enquanto seus elos continuavam se desintegrando e sendo substituídos. Dessa maneira, a cadeia, semelhante a uma membrana, tornava-se a fronteira de uma rede de transformações, enquanto que, ao mesmo tempo, participava dessa rede de processos.” 28 Com o exemplo, fica mais claro o que tentamos descrever mais acima, a respeito da inter-relação entre as instâncias de organização e de propriedades, ainda que os modelos elaborados pelos pesquisadores sejam controlados e já partam de propriedades específicas. De qualquer maneira, não tomamos a ciência como veredicto, por tudo o que já foi dito, pois não é demasiado repetir que não estamos atrás de uma verdade, de leis ou das falsas seguranças que possam surgir com comprovações científicas, como se existisse um mundo imutável de respostas a serem encontradas, pois cada qual obtém a resposta que merece por sua pergunta. É sem dúvida uma maneira de experimentarmos, de percebermos o mundo que é refutada conseqüentemente pela própria experiência (cada vez mais diante do cotidiano). Mas mais do que isso, é preciso relembrar que a ciência se debruça sobre uma realidade parcial e selecionada, sobre condições específicas que produzirão resultados apropriados à questão que é colocada. Não por isso, tais resultados não são surpreendentemente válidos para uma compreensão mais ampla e específica do funcionamento do mundo e para uma classificação detalhada de propriedades que definem o ser e o não ser. Podemos ver como algumas definições tornaram-se medida da verdade, como a razão sobrepõe violentamente a experiência mais íntima.

autoperturbador (há um continuidade em que todos os componentes são continuamente repostos pelos processos de transformação do sistema). Os sistemas vivos são autopoiéticos.
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CAPRA, Fritjof. A Teia da Vida. Ed. Cultrix, 2006. p.162

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Espacialização do Tempo

Na equivocada jornada em busca do conhecimento, o pragmatismo do homem, ou suas constatações mundanas são decalcadas e coladas num firmamento, fazendo aparecer um mundo metafísico, de categorias a priori que possibilitariam o próprio acesso ao conhecimento. Não podemos evitar dizer que esta concepção que ainda é muito presente entre nós, estabelece uma verdadeira ruptura na Natureza donde emerge o homem. Diferente de tudo o que o cerca, a não ser por seu corpo, o homem possui um dom que lhe eleva ou lhe aprofunda (que o separa), imaginando um universo estático e eterno, onde pode mergulhar e descobrir a pureza e a certeza escondidas em toda a efemeridade e irregularidade que vê diante de si. Invertendo a ordem dos acontecimentos, supõe que antes dele mesmo existir, as categorias que lhe são próprias são, antes, do mundo, que se não em si, pelo menos são do mundo que podemos perceber – de qualquer forma, categorias essenciais, metafísicas, anteriores à percepção, ao homem no mundo. Está embasados pelas categorias primordiais de espaço e de tempo (tudo o que é existente está no espaço e no tempo). Fica aqui claro que a razão e o entendimento, possuem por fim um interesse especulativo e é nesse sentido que se estabelecem as bases do conhecimento verdadeiro. Deixemos, por hora, de lado esta questão. Das categorias, parte-se para a experiência. E nela, só há espaço, no sentido de que as coisas e os acontecimentos passam então a ser medidos e só interessa à percepção o caráter quantitativo. Esse é o valor que confere à experiência sua validade. Deveríamos nos perguntar, então, como a duração pode ser medida. E a resposta não é difícil – o Tempo é espacializado. Quer dizer que os movimentos dos corpos desenvolvem agora trajetórias, que podem a todo instante como que ser fotografados, dando as coordenadas da posição em um dado instante (supõe-se que o movimento é a soma das posições). A

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duração própria ao movimento singular é substituída por uma linha imaginária que mantém com a trajetória uma relação íntima. Mais especificamente, trata-se do registro de simultaneidades: assumir algum movimento como padrão e a partir dele, registrar os pontos coincidentes (por exemplo a posição de um móvel e o ponteiro do relógio, ou o tamanho de uma árvore e a posição do sol no céu). Lembremos ainda que não é a materialidade que é dividida, mas antes a espacialidade. “Eis o que diz a análise psicológica. E a física o confirma. Resolve o corpo num número quase ilimitado de corpúsculos elementares; e ao mesmo tempo, mostra-nos esse corpo ligado aos outros corpos por milhares de ações e reações recíprocas. Introduz desse modo tanta descontinuidade nele e, por outro lado, estabelece entre ele e o resto das coisas tanta continuidade, que é possível adivinhar o quanto deve haver de artificial e de convencional em nossa repartição da matéria em corpos.”
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Na espacialização, “tenho

aí algo da ordem do desenrolado, que é o registro do efeito do movimento e que também será seu símbolo. Ora, essa linha é divisível, ela é mensurável. Ao dividi-la e medi-la, poderei portanto dizer, se me convier, que divido e meço a duração do movimento que a traça.” 30 Somos levados então a investigarmos a duração por um viés mais concreto, pois ela não é a mesma, e é ao mesmo tempo única, para cada ser.

29 30

BERGSON, Henri. Duração e Simultaneidade, Ed. Martins Fontes, 2006. p.44 BERGSON, Henri. Duração e Simultaneidade, Ed. Martins Fontes, 2006. pp.58/59

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Percepção e a Constituição da Realidade

“O Merkzeit [tempo característico de cada Umwelt ], para Uexküll, não é um fato de consciência, é um componente da estrutura física, o qual é manifesto ao comportamento do animal. Deve-se compreender a vida como a abertura de um campo de ação. O animal é produzido pela produção de um meio, ou seja, pelo aparecimento, no mundo físico, de um campo radicalmente diverso do mundo físico, com sua temporalidade e sua espacialidade específicas. Daí a análise da vida geral do animal, das relações que ele mantém com seu corpo, das relações do seu corpo com o seu meio espacial (seu território), da interanimalidade, quer no seio da própria espécie, quer no seio de duas espécies diferentes (...)”

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MAURICE MERLEAU-PONTY
Excerto de A Natureza, Ed. Martins Fontes, 2006.p.281

31

Umwelt é traduzido por “meio ambiente” – específico de cada organismo.

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Qual o poder de ser afetado de cada organismo? A que estímulos responde? Da mesma forma, qual o seu campo de ação? Enfim, qual a realidade própria de cada ser? Por princípio, temos uma relação comunicativa no universo – ações e respostas que possuem gradações e diferenças infinitas. Com certeza o universo de uma bactéria é diferente do de uma planta, que também é diferente do universo de um peixe e de um gato. Mas o que todos têm em comum? Possuem um sistema sensível que lhes é próprio e é a partir dele que interagem com o mundo, com seu meio ambiente específico. A percepção é parte integrante do comportamento. É a ação do ser vivo que lhe fornecerá um mundo. “Há um mundo material, mas ele não tem nenhuma característica predeterminada. (...) Não há estruturas que existam objetivamente; não há um território pré-dado do qual podemos fazer um mapa – a própria construção do mapa cria as características do território.” 32 E a constituição deste mundo se dá por duas maneiras simultâneas: uma sendo a própria constituição biológica do organismo que funciona como um seletor de estímulos (os morcegos que praticamente não têm visão, porém contam com um aguçado sistema de percepção sonora; os cães com um sistema de percepção olfativo altamente apurado e sua visão e audição que captam vibrações distintas das dos sentidos humanos; a sensibilidade de uma bactéria à acidez e até mesmo ao eletromagnetismo, etc.); a outra sendo a seleção de um campo de ação, em que são apenas alguns sinais (estímulos que se tornam comunicadores) que são conjugados e impulsionam o ser para uma ação 33. Existe

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O exemplo mais famoso de Uexküll é o do carrapato. “Ao nascer, não tem patas nem órgãos sexuais. Fixa-se num animal de sangue frio, como o lagarto, adquire sua maturidade sexual. É fecundado, mas a semente é guardada de reserva, encapsulada no estômago. O carrapato instala-se numa árvore e pode chegar a 18 anos de idade. Não tem olhos, nem ouvidos, nem paladar, dispõe apenas de um sentido luminoso, de um sentido térmico e de olfato. O que o faz sair de sua letargia é o cheiro das glândulas sudoríparas dos mamíferos (ácido butírico). Ele deixa-se cair sobre o mamífero, busca uma parte desprovida de pêlo, aí se enterra e se nutre de sangue quente. A presença desse sangue quente faz a semente sair de sua cápsula; o óvulo do animal é fecundado, e o animal morre após ter procriado.” (MERLEAU-PONTY, Maurice, A Natureza, Ed. Martins Fontes, 2006. pp.282/283)

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CAPRA, Fritjof. A Teia da Vida. Ed. Cultrix, 2006. p. 213

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assim, um “fator natural” na constituição dos organismos, na constituição de sua percepção do mundo. “Os animais inferiores só deixam penetrar neles o que tem interesse para a sua vida, constituem com seu mundo uma espécie de coesão, de unidade fechada. (...) não trava uma luta brutal pela existência, vivem num Umwelt que representa coisas freqüentemente perigosas mas às quais está tão bem adaptado que vive, na verdade, como se existissem apenas um mundo e um [ser] (...). Daí a idéia antidarwiniana de uma tolerância das formas animais e a recusa em classificar os animais como se o seu comportamento e o seu organismo representassem soluções cada vez mais perfeitas para um mesmo problema. Em certo sentido, todas as espécies estão igualmente adaptadas.” 34 Merleau-Ponty sintetiza a compreensão de uma realidade específica para cada animal da seguinte forma: “O Merkwelt [mundo da percepção] depende da maneira como são feitos os órgãos sensoriais. Estes realizam uma classificação dos estímulos segundo uma disposição própria do animal. O Merkwelt é uma grade interposta entre o animal e o mundo. Para determinar o mundo do animal é ainda necessário fazer intervir o Wirkwelt [mundo da ação], ou seja, as reações do animal no meio ambiente, as melodias de impulsões. Para apreender o mundo de um animal é preciso não só fazer intervir percepções mas também condutas, pois estas depositam, na superfície dos objetos, um acréscimo de significação.” 35 O ser vivo possui assim uma extensão que é o próprio mundo e a ponte que definitivamente o compõe é a ação. O corpo amplia seus limites, dilui suas fronteiras e estabelece com certos acontecimentos uma continuidade, uma integração, resgatando novamente a idéia de um organismo que produz um mundo e um mundo que produz um organismo. E por mais que possamos falar em um mundo material, não podemos dizê-lo
34 35

MERLEAU-PONTY, Maurice, A Natureza, Ed. Martins Fontes, 2006. p.277 MERLEAU-PONTY, Maurice, A Natureza, Ed. Martins Fontes, 2006. pp.279/280

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o mesmo para cada ser, pois não é apenas a estrutura física de sensibilidade e o campo de ação que podem ser diferentes, relativos ao espaço, mas também a duração. O tempo varia de acordo com o vivente. Assim, no princípio do que constitui o tempo propriamente dito, temos uma síntese passiva, que contrai os instantes tornando-os um presente vivo, vivido, em que o tempo se desenrola. Mas é ainda a estrutura, as interrelações que constituem o organismo, que já possui um ritmo – movimento de interação que dura diferentemente36. A síntese passiva do tempo é a contração rítmica que forma um presente, um passado (retido nas contrações) e um futuro como expectativa, antecipação da contração. É mais propriamente uma síntese orgânica, do hábito. Assim, as diferentes durações dos seres no mundo são apreendidas e colocadas em uma única duração: a do perceptor que possui uma duração que lhe é inerente e que lhe parece universal. Podemos resumir a questão da integração entre ser vivo e meio ambiente em duas qualidades: a constituição de problemas e a criação de soluções. Este parece ser o mecanismo pelo qual opera a Natureza, incluindo aí a própria gênese dos seres. Não devemos tomar tal afirmação como um campo metafísico de pensamento criativo, como uma mente que imagina, que cria problemas e respostas. É uma operação de configuração, tensionamento de uma rede que inclui o presente, mas também um campo virtual de multiplicidades, de qualidades, singularidades pré-individuais, e ainda uma enigmática fonte de novidade, de infinitas possibilidades infinitas. Nesta conjunção emergem os seres, também numa situação que se expressa em uma repetição-compasso, em que as mutações ocorrem intercalados certos períodos de tempo e não aleatoriamente. Assim Capra menciona para onde se dirigem alguns olhares da biologia: “Em vez de ver a evolução como o resultado de mutações aleatórias e de seleção natural, estamos
Assim, o tempo do açúcar dissolver-se na água é um ritmo criado entre o açúcar e a água, numa mistura de corpos, mas antes um ritmo de intensidades. Poderíamos ir além, pensando no ritmo de moléculas em interação. O ritmo não é apenas temporal, mas as variações de comunicação entre os estado envolvidos.
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começando a reconhecer o desdobramento criativo da vida em formas de diversidade e de complexidade sempre crescentes como uma característica inerente de todos os sistemas vivos. Embora a mutação e a seleção natural ainda sejam reconhecidas como aspectos importantes da evolução biológica, o foco central é na criatividade, no constante avanço da vida em direção à novidade.”
37

Mais do que isso, a relação entre organismo e

substrato é intrínseca e representa a possibilidade de indivisão entre o meio circundante e o animal. Cai por terra a máxima de que a vida se adapta para sobreviver: a floração de formas, cores, hábitos exuberantes não possuem utilidade para esse fim, sendo muitas vezes até um perigo para o animal. Portman percebe na evolução um caráter expressivo sempre latente, que ora se expressa no exterior, dando a impressão de uma obra de arte, com cores e formas, ora fazendo do corpo por completo, em animais de aparência mais sóbria, maneiras de exprimir e de comunicar. “A forma do animal não é a manifestação de uma finalidade mas, antes, de um valor existencial de manifestação, de apresentação.”
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Significa também, que não se deve considerar o Ser fora do ser percebido, fora de suas

relações múltiplas. Mais uma vez apelamos para a relação inseparável entre existênciacorpo-percepção-mundo, como extensão e movimento.

Evolução

A vida é um impulso criativo comum a todos os seres, que se bifurca inúmeras vezes, apresentando respostas diferentes de acordo com os caminhos tomados, sem uma finalidade, com o único objetivo de continuar existindo, não enquanto coisa, mas enquanto movimento de vir a ser. É esse movimento que necessariamente cria os seres, que só vive por eles (o verdejar da árvore), que os atravessa. Desses caminhos, surge uma
37 38

CAPRA, Fritjof. A Teia da Vida. Ed. Cultrix, 2006. p.179 MERLEAU-PONTY, Maurice, A Natureza, Ed. Martins Fontes, 2006. p.305

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bifurcação de primeira importância: os seres móveis e não-móveis, no que diz respeito à obtenção de alimento, que poderíamos vulgarmente chamar de animais e vegetais. A diferença? O mecanismo que utilizam para que seu funcionamento biológico persista. Todo ser vivo tem como potência se desenvolver, mas para tanto, precisa importar do meio certos elementos energéticos. O acúmulo de energia permite ao ser vivo uma autonomia para desenvolver atividades próprias. Assim, através da fotossíntese, a planta sintetiza glicose, uma molécula energética utilizando a energia solar, o gás carbônico e a água. Essa molécula pode ser quebrada, liberando energia e oxigênio. De tal forma que se enraízam ao solo, absorvendo nutrientes, água e ainda gases da atmosfera, mantendo-se fixas, desenvolvendo-se, em tamanho, em formas, em cores, reproduzindo-se – interagindo sempre com seu meio ambiente próprio, seja com o inseto que a poliniza, com os microorganismos do solo ou mesmo com a composição físico-química de seu entorno. Os animais, diferentemente, dependem desta síntese energética efetuada pelas plantas para poder desenvolver suas atividades. Possibilitando essa relação está sua mobilidade e sua sensibilidade mais apurada, de ação imediata. A sua interação com o meio é tão complexa quanto a dos vegetais ou de qualquer outro organismo, porém, seu campo de ação, sua própria realidade é completamente diferente. Esse maior poder adquirido, de carregar energia armazenada e liberá-la quando for preciso, em diferentes situações, promove uma amplitude de movimentos muito maior. Deslocando-se, contraindo-se, expandindo-se, dobrando-se, interage com seu meio de maneira mais ativa
39

. Na escala fisiológica dos seres, observamos o sistema nervoso tornando-se cada

vez mais complexo. Não que esse seja o destino de todos, mas de fato temos desde seres
“Em resumo, o vegetal fabrica diretamente substâncias orgânicas com substâncias minerais: esta aptidão dispensa-o em geral, de mover-se e, conseqüentemente, de sentir. Os animais, obrigados a irem em busca da alimentação, evoluíram no sentido da atividade locomotora e, por conseqüência, duma consciência cada vez mais ampla, cada vez mais clara.”(BERGSON, Henri, A Evolução Criadora, Ed. Delta, 1964. p.133)
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que não possuem esse sistema, seres que possuem um sistema nervoso medular e até primatas superiores que o possuem bastante diferenciado, um sistema nervoso cerebral, trazendo implicações diretas sobre o comportamento. Quer dizer que quanto menos desenvolvido o sistema nervoso, mais imediata é uma reação motora do organismo a partir de um estímulo percebido. A resposta do organismo é mais determinada. A rede nervosa é composta por axônios, como se fossem condutores de impulsos, fios elétricos ligando uma extremidade sensorial a um órgão motor. Ao ser estimulado, o organismo envia um impulso elétrico (que necessita de energia para ser produzido) através dos axônios. O órgão receptor do impulso elétrico é estimulado e assim é movimentado, produzindo uma ação imediata ao estímulo. Conforme o sistema nervoso se diferencia, as ramificações nervosas aumentam e as respostas a certos estímulos podem então ser diferentes. A inteligência se expressa como a maneira pela qual um ser vivo lida com situações diferentes. O aparecimento de um sistema nervoso central, com um núcleo receptor de impulsos exerce então uma função diferente. Como uma central telefônica, recebe estímulos e então os conecta com determinados órgãos que podem ser diferentes tendo recebido um mesmo estímulo. Mas ainda pode receber o impulso e ramificá-lo ao infinito, não respondendo com um movimento (uma hesitação inteligente). Eis então que chegamos ao homem. “(...) estas células interpostas entre as arborizações terminais das fibras centrípetas e as células motoras do sulco de Rolando, permitem ao estímulo recebido atingir à vontade este ou aquele mecanismo motor da medula espinhal e escolher assim seu efeito. Quanto mais se multiplicarem estas células interpostas, mais elas emitirão prolongamentos amebóides capazes de se aproximarem diversamente, mais numerosas e variadas serão também as vias capazes de se abrirem ante um mesmo estímulo vindo da periferia, e, conseqüentemente, haverá mais sistemas de movimentos que uma mesma excitação deixará à escolha. (...) Por outro lado, como uma quantidade

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enorme de vias motoras podem abrir-se nessa substância, todas juntas, a um mesmo estímulo vindo da periferia, esse estímulo tem a faculdade de dividir-se ao infinito e, conseqüentemente, de perder-se em reações motoras inumeráveis, apenas nascentes. Assim, o papel do cérebro é ora de conduzir o movimento recolhido a um órgão de reação escolhido, ora de abrir a esse movimento a totalidade das vias motoras para que aí desenhe todas as reações que ele pode gerar e para que analise a si mesmo ao se dispersar. (...) Quanto mais ele [sistema nervoso] se desenvolve, mais numerosos e distantes tornam-se os pontos do espaço que ele põe em relação com mecanismos motores cada vez mais complexos: deste modo aumenta a latitude que ele deixa à nossa ação, e nisso justamente consiste sua perfeição crescente.”
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Conforme o sistema

nervoso se torna mais complexo, aumenta a indeterminação e capacidade criativa do próprio ser vivo.

40

BERGSON, Henri, Matéria e Memória, Ed. Martins Fontes, 2006. pp. 26 e 27

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O Homem em Formação

“(...) o corpo, sempre orientado para a ação, tem por função essencial limitar, em vista da ação, a vida do espírito. Com relação às representações, ele é um instrumento de seleção, e de seleção apenas. Não poderia nem engendrar nem ocasionar um estado intelectual. No que diz respeito à percepção, nosso corpo, pelo lugar que ocupa a todo instante no universo, marca as partes e os aspectos da matéria sobre os quais teríamos ação: a percepção, que mede justamente nossa ação virtual sobre as coisas, limita-se assim aos objetos que influenciam atualmente nossos órgãos e preparam nossos movimentos. No que diz respeito à memória, o papel do corpo não é armazenar as lembranças, mas simplesmente escolher, para trazê-las à consciência distinta graças à eficácia real que lhe confere a lembrança útil, aquela que complementará e esclarecerá a situação presente em vista da ação final.” HENRI BERGSON
Excerto de Matéria e Memória, Ed. Martins Fontes, 2006. p. 209

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O corpo é a abertura para o mundo, o único presente possível, efetivo; um centro de ação. Toda percepção possui já um mínimo de passado. É o corpo que participa do movimento geral do mundo, que interage diretamente, sem intermediários, que dança os ritmos das misturas, dos encontros. É também o que age e o que seleciona. Mas é principalmente nele que se encontram memória e percepção. Como dissemos, o sistema sensitivo, o sistema nervoso, transmite impulsos provenientes de estímulos numa extremidade, em última instância, aos órgãos motores. Com a existência de um cérebro, um centro deste sistema nervoso, já que os impulsos são enviados a ele antes de chegarem aos músculos, as ações do corpo, seus movimentos, ganham em indeterminação, pois neste processo, os estímulos podem ser direcionados ou ainda ramificados ao infinito, gerando apenas movimentos latentes sem haver qualquer movimento motor de fato. É com esta simbiose que nasce a ação inteligente: obtém sua forma da matéria, mas encontra seu sentido na duração, o que permite a utilização e o domínio da matéria. É, portanto, um movimento simultâneo de contração da inteligência na matéria e a distensão da matéria na duração. Estamos falando da criação de um “meio ambiente” totalmente diferente, não apenas prescrito, recebido, mas de um ser vivo que se move e define ele próprio sua ação, sendo aberto e transformável, ainda com auxílio de instrumentos de percepção e de ação. Seu sistema sensitivo mesmo, mais complexo e integrado, faz a realidade se tornar muito mais composta de signos do que de estímulos, pois coordena a percepção, afinando as ações possíveis e estruturando coisas e não apenas “ondas de excitações”, como acontece em animais cujo sistema neurossensitivo é menos desenvolvido – nos animais superiores, seu meio ambiente é interiorizado e composto por dois sistemas, um mundo da percepção e um mundo da ação, que se fazem na existência mesma do ser no mundo. E isso só é possível pelo desenvolvimento do sistema nervoso central.

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À percepção (que podemos chamar de medida do poder refletor do corpo), que já é uma seleção do que pode ser sentido, é acrescentada a afecção (medida do poder absorvente da ação pelo corpo), que seria a coincidência entre sensação e percepção, ou seja, a percepção do próprio corpo. Assim, “minha percepção em estado puro e isolado de minha memória, não vai de meu corpo aos outros corpos: ela está no conjunto dos corpos em primeiro lugar, depois aos poucos se limita, e adota meu corpo por centro. E é levada a isso, justamente pela experiência da dupla faculdade que esse corpo possui de efetuar ações e experimentar afecções, em uma palavra, pela experiência da capacidade sensório motora de uma certa imagem, privilegiada entre as demais. (...) percebo o interior dessa imagem, o íntimo, através de sensações que chamo afetivas, em vez de conhecer apenas, como nas outras imagens, sua película superficial.”
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A percepção é

um processo que se estende por todo o caminho que a realiza, que faz participar todas as partes envolvidas na sua formação (por exemplo, um objeto, o meio, os olhos, os nervos e o cérebro)42 não sendo apenas o resultado desta combinação, mas a qualidade que integra o corpo em seu meio, contando ainda com seu poder de ação como seletor perceptivo. A ação possível (e não intencionada) dá a ilusão de que a percepção nos pertence, não fosse ela parte no mundo, assim como nós, colocados em relação. Assim, além da diferença sensorial e perceptiva, ainda devemos esclarecer o que concerne à ação. Para isso, é preciso entrar no campo da memória e ainda falar de uma

BERGSON, Henri, Matéria e Memória, Ed. Martins Fontes, 2006. pp. 63 e 64. “Quando percebemos, contraímos em uma qualidade sentida, milhões de vibrações ou de tremores elementares; mas o que nós assim contraímos, o que nós ‘tensionamos’ assim é matéria, é extensão. Nesse sentido, não há por que perguntar se há sensações espaciais, quais são e quais não são: todas as nossas sensações são extensivas, todas são ‘voluminosas’ e extensas, embora em graus diversos e em estilos diferentes, de acordo com o gênero de contração que elas operam. E as qualidades pertencem à matéria tanto quanto a nós mesmos: pertencem à matéria, estão na matéria em virtude de vibrações e de números que as decompõem interiormente. Os extensos, portanto, são ainda qualificados, sendo inseparáveis de contrações que se distendem nas qualidades; e a matéria nunca está suficientemente distendida para ser puro espaço, para deixar de ter esse mínimo de contração pelo qual ela participa da duração, pela qual ela é duração.” (DELEUZE, Gilles. Bergsonismo, Ed. 34, 1999. p.70)
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segunda síntese do tempo. 43 O que caracteriza a memória é a contração, e o acúmulo dos instantes que já foram presente, uma multiplicidade que a tudo conserva. A condição do tempo é a passagem. Sem esse passado ontológico, o tempo não passaria, apenas haveria sucessão e renascimento. A segunda síntese do tempo, ativa, constitui os presentes como encaixe, notação de variações, a própria constituição da memória, tornando o passado qualitativo. É uma síntese propriamente perceptiva e não mais habitual. O passado nos acompanha impreterivelmente em cada presente; a memória conserva o passado, tornando-o útil, completando a experiência presente, enriquecendo-a. A repetição de um mesmo esforço cria um hábito, característica da própria ação, do movimento do próprio corpo e de como responde aos estímulos. A primeira síntese do tempo, passiva, está relacionada com este processo, pois é assim que contrai no presente os instantes, os encontros no mundo, dos corpos nos corpos. A segunda síntese do tempo está relacionada com a memória, pois abre a possibilidade de ações diferentes, de diferenciação das respostas, tornando a memória útil ao presente, pois o expande com a experiência adquirida. “Chamo de matéria o conjunto das imagens, e de percepção da matéria essas mesmas imagens relacionadas à ação possível de uma certa imagem determinada, meu corpo.” 44 Seria, entretanto, uma ingenuidade permanecer nestas categorias distantes, sem integrá-las, como de fato estão no mundo. “Na verdade, não há percepção que não esteja impregnada de lembranças. Aos dados imediatos e presentes de nossos sentidos misturamos milhares de detalhes de nossa experiência passada.”
45

As lembranças já são

expressos da memória que se conectam com o presente. E observamos que a sua evocação insistentemente passa pelo crivo da ação. É por causa desta posição do corpo

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Já falamos sobre a primeira síntese do tempo, esta passiva, que contrai os instantes sob a condição do presente, uma síntese orgânica (p. 26) 44 BERGSON, Henri, Matéria e Memória, Ed. Martins Fontes, 2006. p. 17 45 BERGSON, Henri, Matéria e Memória, Ed. Martins Fontes, 2006. p. 30

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no mundo como algo que age por princípio que devemos nos pautar para compreender a própria produção de qualquer realidade humana
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. Bergson continua assim o trecho

acima citado: “Na maioria das vezes, estas lembranças deslocam nossas percepções reais, das quais não retemos então mais que algumas indicações, simples ‘signos’ destinados a nos trazerem à memória antigas imagens. A comodidade e a rapidez da percepção têm esse preço; mas daí nascem também ilusões de toda espécie.”47

Mente ativa

A mente é um processo e não uma coisa. A interação de um organismo vivo com seu meio ambiente é um processo cognitivo, algo que se inicia muito antes do desenvolvimento de um cérebro ou de um sistema nervoso superior. Um processo que envolve muito mais do que o pensar – antes, percepção, emoção e ação. Vemos a integração dos sistemas nervoso, imunológico e endócrino, constituindo um mesmo e único processo cognitivo: criar maneiras de interagir com seu meio ambiente que está sempre em mutação, assim como com os organismos que o compõem. É um processo que faz do organismo um ser vivo, que se desenvolve, amplia suas capacidades de ação, de percepção, sua existência (perpetuação do organismo em movimentação constante), incorporando e criando novidade na Natureza. Na relação ser vivo-ambiente, os arranjos estruturais (internos, externos e mútuos) são modificados, aparecendo as características
Esta posição se explica pela gênese do corpo, antes animal do que humano, cujo comportamento, que possui uma relação direta com a estrutura perceptiva do organismo, assim como com seu meio ambiente (Umwelt), se constitui pela ação. A ação é o que lhe permite existir; é o que lhe confere existência efetiva como ser vivo. É o corpo, desenvolvido, que sendo um centro de ação no mundo, permite a expansão de seu campo de ação na mesma medida em que se amplia sua percepção (“a amplitude da percepção mede exatamente a indeterminação da ação consecutiva (...): a percepção dispõe do espaço na exata proporção em que a ação dispõe do tempo” (BERGSON, Henri, Matéria e Memória, Ed. Martins Fontes, 2006. p. 29)). Definimos aqui a existência como corporeidade, como presença efetiva. Os processos pelos quais o corpo existe, devem necessariamente ser decorrência de sua existência – sendo assim indissociável deste, tanto quanto ele é indissociável de seus processos, que lhe conferem um modo de vida, um comportamento específico (o que não significa determinado). 47 BERGSON, Henri, Matéria e Memória, Ed. Martins Fontes, 2006. p.30.
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mentais de aprendizagem, memória, tomada de decisões, etc., sendo registradas as mudanças estruturais anteriores, influenciando as ações futuras dos organismos, pela alteração do seu arranjo estrutural. A consciência é parte deste processo.48 Esta possui suas bases na percepção e na cognição – refere-se à autopercepção e a um desdobramento de nosso mundo interior (estabelecido na relação com o meio ambiente), mas também a um sistema neurossensitivo altamente desenvolvido, pois a consciência parece nascer da sincronia de diversos estímulos que se integram produzindo um estado mental coerente. A consciência deve ser entendida como imanente à experiência, não como um lugar, uma entidade metafísica, enfim, ela só surge num processo perceptivo. É uma marca que é registrada dos encontros em que o corpo está envolvido. As experiências, tornando-se memória, adquirem um caráter qualitativo49, e se dispõem na memória como uma multiplicidade qualitativa indiferenciada. Os caminhos percorridos pela experiência são qualidades inerentes da memória e as lembranças surgem à medida que, de alguma forma, se vinculam com o processo da experiência, seja passada, seja presente. O que caracteriza uma experiência completa é, portanto a percepção, seu horizonte de ação e as lembranças, configurando uma rede virtual de pontos notáveis – uma composição que se articula, que faz a pressão para se produzir no atual e que só pode acontecer por uma criação do corpo.

O homem em ação

“O mecanismo cerebral é feito precisamente para o recalcar na sua quase totalidade no inconsciente, e só deixar introduzir-se na consciência aquilo que pela sua natureza pode esclarecer a situação atual, ajudar a ação em preparo, em suma, produzir
48 49

Esta idéia é desenvolvida na Teoria de Santiago, criada por Maturana e Varela. Da mesma forma que a realidade, antes de ser recortada, ainda enquanto contínuo, é uma topografia qualitativa.

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um trabalho útil.”

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Da mesma forma, “os contornos nítidos que atribuímos a um

objeto, e que lhe conferem individualidade, são apenas o desenho dum certo gênero de influência que poderíamos exercer em certo ponto do espaço (...) Suprima-se esta ação e, por conseqüência, as grandes estradas que ela abre antecipadamente, por meio da percepção, no emaranhado do real, e a individualidade do corpo será reabsorvida na universal interação, que é sem dúvida a própria realidade.”
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É o que é próprio de

nossa constituição, de nosso corpo, de nosso Umwelt, que se relacionam pela ação, ou seja, pela existência efetiva do corpo no mundo, ambos em transformação e intervindo na produção do outro, como uma continuidade não-linear. Este corpo no mundo, equipado com sua inteligência, utiliza-se desta de modo que ilumina o nosso comportamento, prepara a ação sobre as coisas, prevê os acontecimentos que se seguirão, avaliando se é assim favorável ou desfavorável tal ação, ou buscando melhores maneiras para ser bem sucedida. A inteligência foi moldada pela ação, e por assim ser, funciona a princípio por intenção e por cálculo, coordenando meios para atingir um objetivo, sendo daqui que nasce sua potência matemática (tanto aritmética quanto geométrica). Desta maneira, a extensão é congelada como um espaço já feito, pronto, estático, e se existem objetos que se movem neste espaço, possuem antes uma trajetória que pode ser prevista e delineada; a duração de nosso corpo é o referencial em que todas as outras durações são apreendidas e tornam-se equivalentes à nossa própria ao mesmo tempo em que é espacializada – identificando simultaneidade entre acontecimentos, entre posições de objetos, relacionaos espacialmente e supõe o tempo como uma sucessão de posições, em que o movimento, pode a qualquer momento ser brecado, resultando numa posição instantânea (donde todo movimento nada mais é do que uma sucessão de pontos no espaço). É destes padrões que a consciência se utiliza, já de maneira desenvolvida e clara nos homens e animais que
50 51

BERGSON, Henri. A Evolução Criadora, Ed. Delta, 1964. p. 44 BERGSON, Henri. A Evolução Criadora, Ed. Delta, 1964. p. 50

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possuem um sistema neurossensitivo bem desenvolvido, mas também em outros organismos que ainda nem possuem um cérebro, gerando reações indecisas, quer dizer, não reflexas e pré-determinadas. Podemos dizer que a consciência surge com a possibilidade de escolha, de hesitação 52. Não podemos prosseguir sem falarmos sobre o reconhecimento e a representação. Esta última surge como uma inversão útil: associamos certa qualidade do efeito à idéia de certa quantidade da causa, colocando então a idéia na sensação – a intensidade transforma-se numa grandeza. A representação aparece como uma projeção do que nos é relevante sobre a percepção já devidamente codificada pela inteligência, que a impregna de um conjunto de valores concernentes à ação possível. “A consciência, atormentada por um desejo insaciável de distinguir, substitui o símbolo pela realidade, ou não percepciona a realidade senão através do símbolo.”
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Símbolo este que emerge de uma

representação. Ela é a soma dos estados inertes perceptivos, tanto da matéria, quanto das sensações, que integra o processo de síntese realizado pela inteligência: primeiro fragmenta a realidade contínua e qualitativa percebida, para ao final encadear suas características quantitativas (decorrentes da transformação do que foi qualitativamente apreendido) em um estado único consciente, que será mais eficiente numa ação posterior, ativando de uma só vez todo o processo que estaria envolvido na ação; algo bastante semelhante a atos reflexos. “Os nossos estados psíquicos, separando-se então uns dos outros, solidificar-se-ão; entre as nossas idéias assim cristalizadas e os nossos movimentos exteriores formar-se-ão associações estáveis; e pouco a pouco, porque nossa consciência imita o processo pelo qual a matéria nervosa obtém ações reflexas, o

“Na realidade, a consciência não jorra do cérebro; mas cérebro e consciência correspondem-se, porque medem igualmente, um pela complexidade de sua estrutura, e outra pela intensidade do seu despertar, a quantidade de escolha de que o ser vivo dispõe.” (BERGSON, Henri. A Evolução Criadora, Ed. Delta, 1964. p. 260) 53 BERGSON, Henri. Ensaio Sobre os Dados Imediatos da Consciência, Edições 70, 1988. p. 90

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automatismo sobrepor-se-á à liberdade.”

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O reconhecimento não envolve de antemão

uma lembrança que envolve a memória, mas é por princípio corporal. O hábito organiza movimentos e percepções e a consciência desses movimentos nascentes, o mesmo que serviria para um ato reflexo, está na base do reconhecimento e na evocação de uma lembrança, como um circuito que é ativado. “(...) As tendências motoras já seriam suficientes, portanto, para nos dar o sentimento do reconhecimento.”
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Apesar de serem

processos bastante próximos, existe uma diferença entre reconhecimento, representação e memória. “Se a percepção exterior, com efeito, provoca de nossa parte movimentos que a desenham em linhas gerais, nossa memória dirige à percepção recebida as antigas imagens que se assemelham a ela e cujo esboço já foi traçado por nossos movimentos. Ela cria assim pela segunda vez a percepção presente, ou melhor, duplica essa percepção ao lhe devolver, seja sua própria imagem, seja uma imagem-lembrança do mesmo tipo.”
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As lembranças só ganham cor e vida quando tornam-se sensações

musculares reais e experimentadas e não apenas imaginadas, nascentes como um esboço. O que é então que isso significa? Qual a direção que estamos tomando? Até agora fica evidente que a configuração de nosso corpo, sua relação material e memorial, faz com que surjam símbolos desenvolvidos pela consciência e que a percepção, todo o processo sensório-motor pode ser ativado quer por um objeto no mundo, quer por, assim dizer, um objeto virtual, um estado qualitativo de configurações de intensidades, que fazem o corpo trabalhar da mesma forma que faria diante de uma situação atual. O processo mental humano é extremamente complexo em seu funcionamento e envolve um instrumento delicado e extremamente potente: a linguagem.

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BERGSON, Henri. Ensaio Sobre os Dados Imediatos da Consciência, Edições 70, 1988. p. 163 BERGSON, Henri, Matéria e Memória, Ed. Martins Fontes, 2006. p. 106 56 BERGSON, Henri, Matéria e Memória, Ed. Martins Fontes, 2006. pp. 114/115
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A Dimensão da Linguagem

“Um signo, segundo Spinoza, pode ter vários sentidos. Mas é sempre um efeito. Um efeito é, primeiramente, o vestígio de um corpo sobre um outro, o estado de um corpo que tenha sofrido a ação de um outro corpo: é uma affectio — por exemplo, o efeito do sol em nosso corpo, que ‘indica’ a natureza do corpo afetado e ‘envolve’ apenas a natureza do corpo afetante. Conhecemos nossas afecções pelas idéias que temos, sensações ou percepções, sensações de calor, de cor, percepção de forma e de distância (o sol está no alto, é um disco de ouro, está a duzentos pés...). Poderíamos chamá-los, por comodidade, de signos escalares, já que exprimem nosso estado num momento do tempo e se distinguem assim de um outro tipo de signos: é que o estado atual sempre é um corte de nossa duração e determina, a esse título, um aumento ou uma diminuição, uma expansão ou uma restrição de nossa existência na duração em relação ao estado precedente, por mais próximo que este esteja. Não é que comparamos os dois estados numa operação reflexiva, mas cada estado de afecção determina uma passagem para um ‘mais’ ou para um ‘menos’: o calor do sol me preenche, ou então, ao contrário, sua ardência me repele. A afecção, pois, não só é o efeito instantâneo de um corpo sobre o meu mas tem também um efeito sobre minha própria duração, prazer ou dor, alegria ou tristeza. São passagens, devires, ascensões e quedas, variações contínuas de potência que vão de um estado a outro: serão chamados afectos, para falar com propriedade, e não mais afecções. São signos de crescimento e de decréscimo, signos vetoriais (do tipo alegria-tristeza), e não mais escalares, como as afecções, sensações ou percepções. De fato, há um grande número de tipos de signos. Os signos escalares dividem-se em quatro tipos principais: os primeiros, efeitos físicos sensoriais ou perceptivos, envolvem tão-somente a natureza de sua causa, são essencialmente indicativos e indicam nossa própria natureza mais do que outra coisa. Em segundo lugar, nossa natureza, sendo finita, retém daquilo que a afeta somente tal ou qual característica selecionada (o homem animal vertical, ou racional, ou que ri). Esses signos são abstrativos. Em terceiro lugar, sendo o signo sempre efeito, tomamos o efeito por um fim, ou a idéia do efeito pela causa (visto que o sol esquenta, acreditamos que ele é feito ‘para’ nos esquentar; já que o fruto tem um gosto amargo, Adão acredita que ele não ‘deveria’ ser comido). Neste caso, trata-se de efeitos morais, ou de signos imperativos: Não comas deste fruto! Põe-te ao sol! Os últimos signos escalares, por fim, são efeitos imaginários: nossas sensações e percepções nos fazem pensar em seres supra-sensíveis que seriam sua causa última, e, inversamente, nós nos figuramos esses seres à imagem desmesuradamente aumentada

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daquilo que nos afeta (Deus como sol infinito, ou então como Príncipe ou Legislador). São signos hermenêuticos ou interpretativos. Os profetas, que são os maiores especialistas em signos, combinam de modo primoroso os abstrativos, os imperativos e os interpretativos.” GILLES DELEUZE
Excerto de “Spinoza e as Três Éticas” em Crítica e Clínica. Ed. 34, 1997.

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Antes de tudo, a linguagem se estabelece como coordenação de uma ação em conjunto. Mas ainda possui uma especificidade feroz nos humanos, que é a capacidade de retransmitir uma palavra, de transmitir comunicação. As abelhas sem dúvida possuem uma comunicação. “A abelha que percebeu um alimento pode comunicar a mensagem àquelas que não o perceberam; mas a que não o percebeu não pode transmiti-lo às outras que igualmente não o perceberam.”
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Este início nos faz pontuar a dimensão da

comunicação na natureza, como algo que se soma ao mundo percebido e dirige a atenção para algo específico, codificado pelo emissor. É ainda uma parte de um afeto que se expressa como uma comunicação, ou seja, já é uma resposta do organismo àquilo que percebe. Porém, é uma resposta que diz respeito à coordenação de uma ação coletiva, envolvendo outros seres, uma requisição, a encarnação de um plano comum entre os envolvidos na ação, uma ampliação da própria capacidade de agir que envolve mais do que aquele que diretamente percebe. Não podemos, entretanto, nos esquecer que a ação se relaciona diretamente com o meio ambiente criado pelo ser vivo; quer dizer, todo ser vivo, ao perceber, não extrai do mundo em si aquilo que pode perceber, mas cria diretamente um mundo que lhe é próprio. E a linguagem possui uma força neste processo, pois dirige a atenção e faz perceber. O que primeiro se afirma então é que a informação e a comunicação são criadas na relação entre ação possível, meio ambiente criado, não podendo se pensar a linguagem como uma entidade abstrata que possui vida própria, sem ter com a própria experiência sua vitalidade inerente. Não é baseado em representações que falamos, mas falamos imbuídos num mundo real, efetivo, de onde nossas representações nascem, não por uma benção encarnada em nossas mentes, mas por uma extensão de nossa capacidade mental que permite a abstração. A fala é objetiva e não possui qualidades próprias. (Assim, o vermelho não possui em si mesmo um valor

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DELEUZE, Gilles e GUATARRI, Félix. Mil Platôs vol. 2, Ed. 34, 2008. pp. 13/14.

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informativo, senão quando encaixado numa rede cultural de convenções e de sentidos, de conceito e idéias que advém da relação com o mundo efetivo). Ao falarmos, não nos remetemos a imagens mentais. A linguagem não envolve uma transferência de informações nem representações de um mundo exterior. É o arredor que dá liga à linguagem. Ela é parte integrante da composição entre organismo e meio ambiente, em ato. É o que ainda insistimos: o ser vivo cria seu mundo, mantém com este uma relação simbiótica de mútua produção e estabelece com ele uma rede de interação, cria seu mundo perceptivo e para além da membrana que limita seu corpo, estende-se pelo mundo na ação, através do processo variável que se encarna ao longo da percepção-ação, que se expressa como cognição, como capacidade do organismo em aumentar sua potência de existir. E é a linguagem que também cria o mundo. Ao falar, intervimos no mundo, não representando, nem referindo, mas produzindo o mundo com um ato de linguagem. Sem os corpos ou a situação, a palavra é morta. Fazemos existir ao dizer. O que se vê na imagem?

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Quando se diz que é uma vaca que olha para você, a imagem ganha limites e dirige nossa atenção. É, entretanto, parte do processo perceptivo, que não se restringe a uma pura captação de estímulos, mas da interação mental em direção à ação do corpo, que projeta contornos, que a linguagem reforça e estabiliza – fruto, antes, da percepção, porém, dirigida. É a conexão estabelecida mentalmente pela percepção que dá um sentido ao que seria uma experiência puramente sensorial. (Surge a vaca das manchas pretas e brancas, sem que seja alterado o que afeta nossa retina). Porém, a doação de sentido que nos parece tão certa, que se estabelece com a língua através de substantivos e adjetivos rígidos, que designam identidades, deslizam e derretem com o devir próprio da existência. Antes de ser as coisas estão em perpétuo tornar-se e se de alguma forma são, isto só acontece devido à direção de nossa percepção, à nossa potência de agir que cria espaço, seleciona e estabelece o horizonte que seria mais eficiente para nossas ações possíveis.
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Daí também a relação que a palavra tem com a verdade, como se o falado

fosse – uma árvore é uma árvore, o que isso significa? As palavras não designam o mundo, mas são fruto de uma relação com o mundo. “O que é o dogmatismo, enquanto pretensão às verdades universalmente válidas? Ele é apenas o comentário filosófico do esquecimento da origem demasiado humana das significações de nossa linguagem: graças a esse esquecimento, o dogmático acreditará poder referir-se ‘a normas que valem para todos, a conceitos que têm o mesmo sentido para todos, ele acreditará que na raiz de nosso discurso existe alguma coisa – razão pura, sujeito universal – capaz de diluir todas as mentiras, de denunciar todas as ilusões, proferir a última palavra. Em suma, ele acreditará que o homem é capaz de
“De um lado, os nomes próprios singulares, os substantivos e adjetivos gerais que marcam as medidas, as paradas e repousos, as presenças; de outro, os verbos que carregam consigo o devir e seu cortejo de acontecimentos reversíveis e cujo presente se divide ao infinito em passado e futuro.” (DELEUZE, Gilles. Lógica do Sentido, Ed. Perspectiva, 2006. p. 26) É uma alusão feita à idéia dos Estóicos a respeito dos acontecimentos incorporais, que possuem existência efetiva, mas que, a bem da verdade, mais insistem do que existem, ser sem dimensão, colado aos corpos, superfície de passagem, puro acontecimento. Temos a faca e a carne, um encontro de corpos, e na superfície temos o cortar, designado como verbo.
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conhecer o Ser e de dizê-lo em nome de todos’. Mas essa razão não passa de uma ‘metafísica da linguagem’ que, por amnésia, pensa ter acesso ao ‘em si’.”
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Para

Nietzsche, verdade é um “batalhão móvel de metáforas, metonímias, antropomorfismos, enfim, uma soma de relações humanas, que foram enfatizadas poética e retoricamente, transpostas, enfeitadas, e que, após longo uso, parecem a um povo sólidas, canônicas, obrigatórias: as verdades são ilusões das quais se esqueceu que o são, metáforas que se tornaram gastas e sem força sensível (...)”
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“As falácias da linguagem começam

quando, esquecendo-se que ela é essencialmente retórica, pensa-se que a língua nos apresenta a denominação própria ou a expressão adequada da realidade. Agora, as oposições presentes na língua são dadas como oposições presentes nas coisas, as diferenças inscritas na linguagem são espontaneamente vistas como diferenças inscritas no mundo. A linguagem nos convida a confundir, fraudulentamente, a gramática com a própria estrutura da realidade, é espontaneamente que projetamos no real as articulações gramaticais da língua – e agora a linguagem se torna legisladora.” 61 Se a linguagem humana fala de si, transmite algo comunicado e não só percebido, é preciso pensar quais vozes falam em nós. “Em um mesmo dia, um indivíduo passa constantemente de uma língua a outra. Sucessivamente, falará como ‘um pai deve fazêlo’, depois como um patrão; com a amada, falará uma língua infantilizada; dormindo, mergulha em um discurso onírico e bruscamente volta a uma língua profissional quando o telefone toca.”
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Assim, o que define estes discursos e mesmo seus atores é uma

configuração social. Desta forma, a linguagem deve ser compreendida na relação com um outro, como se o processo cognitivo se tornasse coletivo, e fosse então, conhecer coletivamente, sempre retomando a visão do conhecer como processo de potencialização
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MOURA, Carlos Alberto R. Nietzsche: Civilização e Cultura. Ed. Martins Fontes. 2005. p.50. NIETZSCHE apud MOURA, Carlos Alberto R. Nietzsche: Civilização e Cultura. Ed. Martins Fontes. 2005. p.49. 61 MOURA, Carlos Alberto R. Nietzsche: Civilização e Cultura. Ed. Martins Fontes. 2005. p.127. 62 DELEUZE, Gilles e GUATARRI, Félix. Mil Platôs vol. 2, Ed. 34, 2008. p. 35.

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da vida em relação com o meio ambiente. Temos assim uma duplicidade que por um lado cria novos horizontes, mas que por outro, constrói uma configuração social que produz a linguagem como criação coletiva de mundo, arranjo de uma teia que fornece a realidade e os instrumentos para dela se falar. Criação do senso comum, que identifica e reconhece, e do bom senso, que prevê. Produz-se um sentido único, subentendido pelas proposições, quer dizer, sua cadeia de significados, um padrão de relação entre os enunciados, entre os termos, entre as palavras (uma gramática) e a explicação infinita, porque circular, do significado do que se diz (uma semântica e uma sintática). Da circularidade dos signos, dos afetos, passa-se para o regime de interpretação. Assim, não é possível se compreender a linguagem sem apreender nela uma relação política, uma instância da configuração social que tanto a ordena como faz aparecer o mundo que lhe é necessário.63 Mas a linguagem é um instrumento crucial. Além de funcionar como ícone e conjugar ações, possui uma potência extraordinária de criação – extravasa em muito a realidade social, a repudia em muitos sentidos, e ainda mais, produz realidade e faz com que se multiplique de uma forma até espantosa o poder criativo humano, como um acúmulo de estratos que permite uma ampliação maior daquilo que a Natureza (através de uma forma humana) pode produzir. A linguagem tem a força de explodir com suas regras e assim, com a própria realidade instituída – descaracterizar, desconstruir, inventar, experimentar, desmanchando assim, aquilo que nos parece tão sólido. A linguagem tem essa potência de remeter-se a si mesma e de criar puros abstratos, imagens em si, que não dependem do exterior para ser, como uma referência – blocos de palavras que podem dançar e desconfiguram a percepção e a razão comuns, arremessam as suas partes e brincam na sua pura imanência, habitam o próprio devir, o constituir-se,

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Inclusive a própria identidade do Eu e do indivíduo.

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o jogo de forças pré-individual, impessoal. E assim produzindo, como linguagem, chegamos ao puro movimento, do entre as palavras, do entretempo, do entrevisto. Virtual real que liga as coisas em processo e que pode, e só pode, ser dito – linguagem que habita o inconsciente, que faz ver o movimento, que faz com que o invisível seja percebido: pura ligação.

Jackson Pollock

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A socialização

“Os códigos fundamentais de uma cultura – aqueles que regem sua linguagem, seus esquemas perceptivos, suas trocas, suas técnicas, seus valores, a hierarquia de suas práticas – fixam, logo de entrada para cada homem, as ordens empíricas com as quais terá de lidar e nas quais se há de encontrar. Na outra extremidade do pensamento, teorias científicas ou interpretações de filósofos explicam por que há em geral uma ordem, a que lei geral obedece, que princípio pode justificá-la, por que razão é esta a ordem estabelecida e não outra.”

MICHEL FOUCAULT
Excerto de As Palavras e as Coisas. Ed. Martins Fontes, 2002. p XVI do prefácio.

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De pronto somos levados a indagar como o homem é integrado em uma sociedade. Se apesar de sua gênese como organismo que lhe confere uma determinada autonomia perante o resto do mundo, que lhe dá um corpo próprio; se contando com as possibilidades cognitivas que envolvem uma capacidade reflexiva e abstrativa, assim como a possibilidade de linguagem, de retransmitir uma comunicação, de um campo de ação tão amplo, inclusive tendo a liberdade de transformar seu Umwelt, isto é, definir ele próprio sua ação, constituir dinamicamente seu mundo; se ainda assim vemos o homem sempre em conjunto, membro de um grupo, como é que isso se dá, ou melhor, como se processa esta coletivização específica, de um ser vivo tão aberto quanto o homem? Sabemos, evidentemente, que a maioria dos seres encontra-se em grupos e que isto não é nenhum diferencial do homem. Da mesma forma, a ação coletiva é inerente aos grupos, possuindo eles um sistema comunicativo que lhes é próprio, contando com as mais variadas nuances que poderíamos até chamar de dialetos. Mas, no homem, há a diferença de seu processo cognitivo ser mais dinâmico, principalmente porque conta com uma impressionante amplitude de ação, relacionada tanto com sua fisiologia orgânica, que lhe permite movimentos bastante finos e sutis, como com seu processo perceptivo apurado, e ainda quanto à possibilidade iminente de transformar seu campo de ação, de estabelecer um novo Umwelt. Porém, de nada nos valeria entender o homem ainda enquanto um ser destacado daquilo que cria, separado de outros homens, que agem coletivamente e que, através da linguagem como um índice e como um ato, garantem um mundo semelhante. Iremos ver então como é que se instala este mundo em comum. O homem, enquanto corpo libidinal plasmático, disforme, como intimidade profunda do que podemos chamar de alma humana, é puro desejo, multiplicidade que conecta, impulso rítmico de associação, potência máxima da vida em devir, em criar relações, em constituir ligações, em ligar problemas e soluções virtuais, em colocar-se

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sempre em aumento ou diferença de potencial, ímpeto de perpetuar-se em alguma existência qualquer, ou seja, em produzir ligações quaisquer que sejam, em vir a ser em ato, em acontecer e continuar acontecendo. Um inconsciente criativo, produtor – força de criar encontros. É essa potência de vida que produz-se no corpo e do corpo no mundo. Mas “(...) o ser humano em desenvolvimento não somente se correlaciona com um ambiente natural particular, mas também com uma ordem cultural e social específica, que é mediatizada para ele pelos outros significativos64 que o têm a seu cargo. Não apenas a sobrevivência da criança humana depende de certos dispositivos sociais, mas a direção de seu desenvolvimento orgânico é socialmente determinada. Desde o momento do nascimento [e mesmos bem antes], o desenvolvimento orgânico do homem, e na verdade grande parte de seu ser biológico enquanto tal, está submetido a uma contínua interferência socialmente determinada. (...) A humanização é variável em sentido sócio-cultural. (...) Em outras palavras, não existe natureza humana no sentido de um substrato biologicamente fixo, que determine a variabilidade das formações sócio-culturais.”
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Assim, todos nós somos constituídos já dentro de uma organização social bem específica que se torna definitivamente efetiva com a transmissão através das gerações. “Nas fases iniciais da socialização a criança é completamente incapaz de distinguir entre a objetividade dos fenômenos naturais e a objetividade das formações sociais. (...) a linguagem aparece à criança como inerente à natureza das coisas, não podendo perceber a noção do caráter convencional dela. (...) Todas as instituições66 aparecem da

Quer dizer, aqueles outros que são responsáveis pelo processo íntimo de socialização, os que cuidam do recém nascido ou da criança, constituindo as pessoas mais próximas em sua criação. 65 BERGER, Peter L. Construção Social da Realidade. Ed. Vozes, 1974. p. 72. 66 “A institucionalização ocorre sempre que há uma tipificação [ou seja, uma caracterização, quando é tornado típico] recíproca de ações habituais por tipos de atores.” (p.79) Envolvem a constituição de um padrão e de um controle. A linguagem seria, por isso, uma instituição.

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mesma maneira como dadas, inalteráveis e evidentes” 67. Poderíamos dizer que um dos elementos fundamentais na socialização é a reificação, quer dizer, a apreensão do mundo e de suas instituições com um caráter ontológico (sempre foi assim) independente da atividade e da significação humanas. O que é criado é visto como uma coisa que possui autonomia, e desta forma, é compreendida como algo sobre o qual não temos (e nunca tivemos) controle. A relação de produção é perdida e o produto ganha um status ontológico, independente da atividade que o criou.68 Para tanto, há um processo variável, porém necessário, que garante a coesão de grupos humanos que realizam praticamente uma sociedade. Devemos, antes de tudo, deixar claro que há um equívoco em se pensar que a Natureza e que, portanto, os seres lutam pela sobrevivência. É uma idéia que vai de encontro aos fatos e ainda deturpa uma análise coerente que poderia ser feita a respeito da relação com o ambiente. Antes qualquer coisa, vivem. E viver é um ato muito mais potente do que suprir necessidades orgânicas de nutrição e reprodução. Pensar assim é ridicularizar a própria natureza das coisas. “A sexualidade e a nutrição estão canalizadas em direções específicas mais socialmente do que biologicamente, canalização que não somente impõe limites a estas atividades mas afeta diretamente as funções orgânicas. (...) Pode dizer-se então que a realidade social determina não somente a atividade e a consciência mas, em grau considerável, o funcionamento orgânico. Assim, funções biológicas tão intrínsecas quanto o orgasmo e a digestão são socialmente estruturadas. A sociedade também determina a maneira pela qual o organismo é usado na atividade. A expressividade, o
BERGER, Peter L. Construção Social da Realidade. Ed. Vozes, 1974. p. 85. Seria um equívoco chamarmos algo reificado de um produto que ganha o status de natural. Natural, para nós, é antes a potência naturante, a força dinâmica e intensiva de constituição que se expressa como algo naturado, ou seja, como um arranjo particular de matéria. Assim, a questão da reificação é sobre o desaparecimento do processo na compreensão de um objeto, sobre a aniquilação de seu movimento constitutivo, que cede lugar à estaticidade e à autonomia que ganha o objeto quando é tomado por coisa, quando ganha uma identidade. No limite, poderia ser entendido como um modo de consciência que se aplica também aos objetos chamados de naturais pelo senso comum (como algo que sempre foi como é, ou que no mínimo, deveria ser como é).
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modo de andar e os gestos são socialmente estruturados.”

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Significa dizer que a

potência de criação da vida refere-se à apresentação de problemas e as maneiras diferentes que cria para solucioná-los. As organizações humanas não agem de maneira diferente. Estabelecendo uma realidade, criam-se também as diferentes maneiras de vivêla. Em outras palavras, a constituição de uma rede virtual de pontos notáveis expressos na realidade atual, este agenciamento específico de cada ser, de cada grupo, de cada sociedade, se expressará em criações efetivas no mundo; a potência criativa de existência da natureza, o desejo, é nos seres humanos diagramada, fazendo com que se desenvolva efetivamente um mundo que é de acordo com o agenciamento no plano virtual, na imanência do desejo, configurado pelo socius, ou força de sociedade. “(...) a produção social é simplesmente a produção desejante em determinadas condições.”
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Podemos

compreender o processo de socialização como a formação de um Umwelt específico que tem por princípio a codificação do desejo, colocá-lo a serviço da sociedade e de um mundo específico, de uma estrutura, de tipos de relações e percepções determinados que culminam em certo comportamento humano. Se o comportamento não pode ser distinguido da estrutura do organismo, de sua percepção – de seu “meio ambiente”, o comportamento humano, sua ação, seu modo de vida e o mundo que produz não pode, da mesma forma, ser separado de sua percepção, de sua realidade, que se configura através de um agenciamento do desejo e é reafirmada constantemente pela sociedade, seja por suas instituições, seja pela própria materialidade do espaço que o homem produz. Temos então, um duplo aspecto da ordem social: um que diz respeito ao socius, codificador do desejo que faz o homem compartilhar seu corpo numa estrutura social; outro que trata da legitimação das instituições através da linguagem e do discurso. O primeiro que agencia o homem a produzir efetivamente uma realidade, a construí-la, a
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BERGER, Peter L. Construção Social da Realidade. Ed. Vozes, 1974. pp. 238/239 DELEUZE, Gilles & GUATARRI, Félix. O Anti-Édipo. Ed. Assírio e Alvim, 2004. p. 31

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criá-la, a participar de sua instituição; o outro que explica, esclarece, que formaliza, direciona e de alguma maneira resolve as questões que emergem durante este processo histórico. É até difícil falar dos dois aspectos separadamente. São antes uma integridade que cria respostas para problemas que surgem tanto materialmente quanto psicologicamente. E por isso mesmo é que a própria produção material da sociedade é um fator extremamente forte na construção social da realidade. Se todos nós nascemos em um mundo que nos é dado, não é por acaso que continuamos a reproduzi-lo (estamos sempre nos tornando membros da sociedade). A socialização da criança que se vincula totalmente à própria constituição orgânica prolongada do bebê para além do parto, seu sistema nervoso ainda se constituindo, assim como seu sistema imunológico, seus movimentos sendo aprendidos, seus sentidos se diferenciando e começando a funcionar até a possibilidade de articulação da fala e os primeiros processos de reconhecimento e identificação, tudo isso já se produz dentro de uma realidade. Significa que sua formação mais fundamental já toma como ponto de partida um mundo pré-estabelecido. Desenvolver a linguagem toma de empréstimo a codificação subjacente dos fluxos. E é sem dúvida a linguagem o principal instrumento desenvolvido que permite uma socialização eficaz. “Apreendo a realidade da vida diária como uma realidade ordenada. Seus fenômenos acham-se previamente dispostos em padrões que parecem ser independentes da apreensão que deles tenho e que se impõem à minha apreensão. A realidade da vida cotidiana aparece já objetivada, isto é, constituída por uma ordem de objetos que foram designados como objetos antes de minha entrada na cena. A linguagem usada na vida cotidiana fornece-me continuamente as necessárias objetivações e determina a ordem em que estas adquirem sentido e na qual a vida cotidiana ganha significado para mim. Vivo num lugar que é geograficamente determinado; uso instrumentos, desde os abridores de latas até os automóveis de esporte,

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que têm sua designação no vocabulário técnico da minha sociedade; vivo dentro de uma teia de relações humana, de meu clube de xadrez (...), que são também ordenados por meio do vocabulário. Desta maneira a linguagem marca as coordenadas de minha vida na sociedade e enche esta vida de objetos dotados de significação.”
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Assim, da mesma

forma que a realidade social nos fornece identidades, conceitos, categorias, palavras, sistemas, padrões, etc., fornece-nos também objetos que além de dotados de sentido por serem designados, têm o sentido garantido por serem produzidos dentro da realidade social (de suas instituições e de seu agenciamento do desejo que se liga à produção do objeto). Mas a objetividade não se restringe àquilo que tem um peso ou uma medida. “Sendo um sistema de sinais, a linguagem tem a qualidade da objetividade. Encontro a linguagem como uma facticidade externa a mim, exercendo efeitos coercitivos sobre mim. A linguagem força-me a entrar em seus padrões. (...) A linguagem também tipifica as experiências (...). Ao mesmo tempo em que tipifica, também torna anônimas as experiências, pois (...) podem em princípio ser repetidas por qualquer pessoa (...)”
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Faz

parte do processo de reificação, que transforma em coisas autônomas aquilo que é produto de um processo. Faz parte também da primeira síntese do tempo que se estabelece como hábito. O próprio organismo se acostuma com a repetição e a partir da automatização do que um dia foi um esforço para ser incorporado, tem o que foi aprendido como ontológico. Entretanto, não se deve esquecer que isso se dá através de um processo histórico de produção e se perpetua através de uma produção da produção, ou seja, de uma codificação do desejo e conseqüentemente, da potência atual de ação do homem, de seu presente enquanto corpo. O processo de socialização faz com que o homem interiorize suas instituições e que, como membro da sociedade, as defenda.

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BERGER, Peter L. Construção Social da Realidade. Ed. Vozes, 1974. pp. 38/39 BERGER, Peter L. Construção Social da Realidade. Ed. Vozes, 1974. pp. 58 e 59.

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Não é difícil de imaginar por que um tal mundo possui tanta coerência. A realidade construída o é por homens que investem nesta produção e vêem surtir efeito suas ações. Constantemente é reforçada esta realidade como única possível, pelos produtos, pela linguagem, pela tradição, pelos hábitos, pelos mitos, ditados populares, explicações teóricas, punições e interditos. Só existe aquilo que é codificado pela sociedade, tratado como universalmente válido – “qualquer desvio pode ser designado como depravação moral, doença mental ou simplesmente ignorância crassa.”
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É o pavor extremo de

qualquer sociedade pelos fluxos desterritorializados, pelo verdadeiramente selvagem. “É importante (...) compreender que a ordem institucional, tal como a ordem da biografia individual, está continuamente ameaçada pela presença de realidades destituídas de sentido em termos dessa ordem. A legitimação da ordem institucional enfrenta também a contínua necessidade de manter encurralado o caos.”
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É onde se trava a batalha da

sociedade em buscar transformar esta ordenação que nos é absolutamente estranha e que chamamos de caos, em uma ordenação que para ser, necessita da estaticidade – exige a fixação ou a padronização (repetição do mesmo) dos fluxos e misturas desvairados. “Não sabemos ainda o que pode um corpo” nos diz Spinoza. Eis uma posição ética, de potência. A sociedade tal qual se estabelece não consegue aceitar a realidade dos encontros que faz a potência de agir e de existir variar, em que cada situação é única e implacável; pura afirmação da vida, onde não existe certo ou errado, Bem ou Mal, mas apenas bons ou maus encontros e ainda sob o ponto de vista dos afetos (o que se produz em quem). Elabora-se na sociedade um campo de conhecimento como limite do possível. E é esta mesma formulação que serve como parâmetro de julgamento, assim como o Mundo das Idéias platônico servia para que se estabelecesse a diferença e se pudesse escolher entre uma cópia e um simulacro, entre aquilo que se ligava à essência
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BERGER, Peter L. Construção Social da Realidade. Ed. Vozes, 1974. p. 93. BERGER, Peter L. Construção Social da Realidade. Ed. Vozes, 1974. p. 141.

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verdadeira e aquilo que não passava de falsa aparência, de tentativa de iludir. Tais termos só existem segundo a instauração de um referencial legislador, despotismo da moral. Violência, propaganda, medo, gratificações, hábito, conceitos, universos simbólicos, enfim, não faltam mecanismos para que o investimento numa realidade comum se perpetue. "As maneiras pelas quais se sustenta a maioria dos homens, isto é, sua vida, nada mais são do que expedientes circunstanciais, uma fuga do verdadeiro sentido da vida; isso ocorre principalmente porque os homens não conhecem nada melhor, mas em parte porque também não querem75 nada melhor." 76 Podemos dizer que os objetos são cortes nos fluxos, assim como o eu corpo ou o eu sinto. O nome que se dá, que se chama, que se crê identitário, é antes a identificação com zonas de intensidade. O inconsciente produtivo, potência criativa natural, que efetua ligações, arranja fluxos fazendo com que emirjam intensidades, variações de potência ainda no campo do desejo, no virtual, que passam a existir somente em ato, atualizadas no mundo, o que gera as próprias sensações do corpo – algo resultante que identificamos, já de longe, como um sujeito, uma rebarba do processo e que se diz a partir de seus afetos, deste processo de encontros, que fazem necessariamente a potência de existência e de ação do corpo variar – a alegria no aumento, a tristeza, na diminuição. O sujeito aparece como ponta do movimento entre estes produtores/produtos (corpos), que, sendo parte da natureza, sendo a própria Natureza, têm por essência produzir (quer dizer, viver atualizando sempre novas configurações, um processo que sempre avança sobre si mesmo, produção que produz produto que produz produção que produz produto...). O sujeito mais deixa-se referenciar; sem identidade fixa, aparecendo como especificidade
Porém, se parece haver uma semelhança entre a vontade e o desejo, não podemos confundi-los. O desejo diz respeito a uma força primária, um fluxo, verdadeiramente selvagem, que efetua ligações, a vida que vive em nós. O querer refere-se a um ato mais ligado à atenção, a um mínimo de previsão que se afirma diante de outras possibilidades. O desejo é imanente, o querer delibera no corpo. Assim, ao dizermos que “não se quer”, subentende-se que existe alguma vantagem em se realizar tal ação, há uma intenção, algo que não faz parte do universo do desejo. 76 THOREAU, Henri David. Desobedecendo, Ed. Rocco, 1984. p. 62.
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do corpo num encontro, nos encontros. “Se o desejo produz, produz real. Se o desejo é produtor, só o pode ser a realidade e da realidade. O desejo é esse conjunto de sínteses passivas que maquinam os objetos parciais, os fluxos e os corpos, e que funcionam como unidades de produção. O real resulta disso, é o resultado das sínteses passivas do desejo como autoprodução do inconsciente. Ao desejar não falta nada, não lhe falta o seu objeto. É antes o sujeito que falta ao desejo, ou o desejo que não tem sujeito fixo; é sempre a repressão que cria o sujeito fixo. (...) Não é o desejo que se apóia nas necessidades mas, pelo contrário, são as necessidades que derivam do desejo: são contraprodutos no real que o desejo produz.”
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Eis também a configuração do socius,

que aparece ora despótico, ora socialista, ora capitalista, mas cuja identidade refere-se à produção emergente daquilo que se arranja no plano das intensidades, próprio socius, imanente, virtual, algoz do desejo que o codifica e faz com que o corpo que dele emerge invista numa realidade determinada, criando materialmente, crendo, percebendo, sentido, sabendo, querendo, amando... amando a própria sociedade. E do desejo produtor, soluçam não apenas produtos, donde escorregam sujeitos disformados, mas quantidades de prazer, de sabor corporal, sensualidades premiadas, recompensas que permeiam os regimes do desejo. Talvez seja aqui que se coloque a questão de La Boétie: servidão voluntária – Por que a maioria de um povo obedece?que não somente obedece, mas serve?e que não somente serve, mas queira servir?

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DELEUZE, Gilles & GUATARRI, Félix. O Anti-Édipo. Ed. Assírio e Alvim, 2004. p. 31

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Segunda Parte
O Homem em ação ou de como o mundo é produzido

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A Produção do Mundo

“E este domínio [da matéria] que se torna proveitoso para a humanidade, [é] muito mais ainda do que o resultado material da própria invenção. Se tiramos uma vantagem imediata do objeto fabricado, tal como poderia fazê-lo um animal inteligente, e mesmo se esta vantagem é tudo quanto o invento desejava, pouca coisa é, comparado às idéias novas, aos sentimentos novos que a invenção pode suscitar por toda parte, como se tivesse por efeito essencial elevar-nos acima de nós próprios e, assim, alargar os nossos horizontes.”

HENRI BERGSON
Excerto de Matéria e Memória. Ed Martins Fontes. 2007. p. 192

.

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Torna-se então necessário desenvolver uma questão de caráter explicitamente geográfico que trata da produção material do mundo, constituindo uma realidade que existe efetivamente, enquanto corpo. Marx é sensato ao afirmar que a relação fundamental entre o homem e a natureza se dá pelo trabalho. “Assim, portanto, como o trabalho é um criador de valor-de-uso, é trabalho útil, ele é uma condição necessária, independente de todas as formas de sociedade, pela existência da raça humana; ele é uma necessidade eterna imposta pela Natureza sem a qual não poderia haver trocas materiais entre homem e Natureza, e portanto, vida.”78 Porém, em nossa concepção, há uma inversão de termos significante. O trabalho não é a relação que liga o homem à Natureza, mas é antes um modo socializado que advém, antes, do homem enquanto natureza, que cria constantemente novas relações e novos encontros entre as coisas, a partir de sua existência no mundo – enquanto age, quando se coloca em movimento. A ação humana, assim como a de qualquer outro organismo produz um mundo ao seu redor, ao se fazer presente. Dessa forma, se queremos diferenciar o homem enquanto estabelece uma relação com o ambiente o qual integra, é necessário recorrer ao processo de constituição deste organismo que se constitui socialmente, desenvolvendo seu aparato cognitivo coletivamente a partir da linguagem que amplia em muito as potências ativas humanas. A plasticidade biológica tanto do sistema nervoso central humano, como de seu sistema endócrino e imunológico, é cada vez mais levada em conta, fazendo com que cada vez fique mais claro a constituição do indivíduo dentro de uma coletividade como processo amplo de conhecimento, ou seja, da criação de mecanismos adaptativos novos que se relacionam intimamente com o ambiente; da mesma forma, a constituição da consciência, ou melhor, da autoconsciência envolvendo o desenvolvimento da

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MARX, Karl. Capital vol.1, Encyclopædia Britannica Inc. 1996. p.17 – A tradução é minha.

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linguagem: linguagem que fala sobre si. Concordamos ainda com Marx quando nos diz que “O trabalho é, em primeiro lugar, um processo em que ambos homem e Natureza participam, e no qual o homem por sua própria conta inicia, regula e controla as reações materiais entre ele e a Natureza. Ele se opõe à natureza como uma de suas forças, pondo em movimento braços e pernas, cabeça e mãos, as forças naturais de seu corpo, para se apropriar da produção da Natureza numa forma adaptada a suas próprias vontades. Por agir no mundo externo e mudá-lo, ele, ao mesmo tempo, muda sua própria natureza.”79 Na Ideologia Alemã, ele coloca uma importante prerrogativa para se compreender essa relação do homem que produz-se a si mesmo através do mundo que produz. “O modo como os homens produzem os seus meios de vida depende, em primeiro lugar, da natureza dos próprios meios de vida encontrados e a reproduzir. Este modo da produção não deve ser considerado no seu mero aspecto de reprodução da existência física dos indivíduos. Trata-se já, isso sim, de uma forma determinada de exprimirem a sua vida, de um determinado modo de vida dos mesmos. Como exprimem a sua vida, assim os indivíduos são. Aquilo que eles são, coincide, portanto, com a sua produção, com o que produzem e também com o como produzem. Aquilo que os indivíduos são depende, portanto, das condições materiais de sua produção.”80 Assim, a espacialidade do ambiente, a organização social da produção, o produto da ação humana objetivado, etc., devem ser considerados com a mesma importância que as instituições – todas expressões múltiplas de uma cultura que possui o duplo aspecto de introduzir as gerações futuras numa coletividade que desenvolve aspectos do organismo humano (coordenação motora, órgãos de percepção, linguagem, consciência) e assim perpetuar a sua existência virtual e atualmente.

79 80

MARX, Karl. Capital vol.1, Encyclopædia Britannica Inc. 1996. p.85 – A tradução é minha. MARX, Karl & ENGELS, F.. A Ideologia Alemã – capítulo 1. Ed. Moraes. 1984. p.15.

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Foucault ressalta a importância deste impacto que em seus estudos recebe o nome de “poder”. “... a noção de repressão é totalmente inadequada para dar conta do que existe justamente de produtor no poder (...). O que faz com que o poder se mantenha e seja aceito é simplesmente que ele não pesa só como uma força que diz não, mas que de fato permeia, produz coisas, induz ao prazer, forma saber, produz discurso. Deve-se considerá-lo como uma rede produtiva que atravessa todo o corpo social muito mais do que uma instância negativa que tem por função reprimir.”
81

Exige-se assim um

pensamento holístico que de maneira mais geológica do que histórica pensa a consistência de cada segmento (indivíduo, verdade, ciência, mercado, espacialidade, nação, instituição, ideologia etc.) numa teia que lhe garante existência e valor. Significa dizer que há um plano de consistência maleável, porém, que confere coesão à existência efetiva das coisas e que, no caso humano, se constitui culturalmente – um manto magmático que faz e permite existir o que se torna cristalizado. Retornando à questão do trabalho, tentamos esclarecer que tratá-lo como uma condição de natureza humana é manter uma concepção catastrófica que separa homem e Natureza e assim, perde as forças constitutivas de nossa realidade. É no nível do desejo bruto, natural movimento que cria relações e que liga as singularidades (conjunção de fluxos), que opera-se o primeiro corte, a saber, a socialização, constituída por um arranjo específico, da potência criativa, no caso, do organismo humano, que pode assim transformá-la em trabalho – o que significa: trabalhar é produzir um mundo reproduzindo a configuração que lhe constitui. Podemos agora entender o caráter reivindicativo do trabalho que constantemente apela às necessidades de subsistência. Centrado na concretude dita natural do indivíduo e na sua imanência social determinada, o trabalho é poder de consumir, formando-se assim
Foucault apud MELLO, Gustavo Moura de C.. Algumas respostas para as vicissitudes do capitalismo contemporâneo: crítica ou fetichismo? Dissertação de Mestrado – FFLCH – USP. 2007. p. 211.
81

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um círculo fechado e centrado cuja potência criativa humana é adestrada à eficiência funcional que garante ao seu produtor os meios de continuar existindo numa vida que, por mais luxuosa, é ainda miserável do ponto de vista ético. Nós-natureza, movimento de produzir diferença, indeterminação e cada vez mais potência de existir é traído pelo processo de poder no qual investimos incessantemente, sob o argumento da segurança, da manutenção da ordem, da igualdade de oportunidades, enfim, da delegação ao Grande Outro (lugar vazio ocupado pelas mais variadas ilusões de sucesso – chefe, governante, Deus...) daquilo que mais intimamente nos constitui: potência de existir da Natureza se expandindo, que nos atravessa.

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A Sociedade Capitalista

“daí a exploração da natureza inteira, para descobrir novas propriedades úteis das coisas; intercâmbio universal dos produtos de todos os climas e países estrangeiros; novas elaborações (artificiais) dos objetos naturais para dar-lhes valores de uso novos. A exploração da Terra em todas as direções, para descobrir novos objetos utilizáveis e novas propriedades de uso dos antigos, como novas propriedades dos mesmos enquanto matérias-primas, etc.; por conseguinte o desenvolvimento das ciências naturais ao ponto mais elevado; igualmente o descobrimento, criação e satisfação de novas necessidades procedentes da sociedade mesma; o cultivo de todas as propriedades do homem social e a produção do mesmo como um indivíduo cujas necessidades se tenham desenvolvido ao máximo possível, por ter numerosas qualidades e relações; sua produção como produto social o mais pleno e universal possível (...) constitui dessa forma uma condição de produção fundada no capital (...). Pela primeira vez a natureza se converte puramente em objeto para o homem, em coisa puramente útil, cessa-se de reconhecê-la como poder para si; inclusive o reconhecimento teórico de suas leis autônomas aparece somente como artimanha para submetê-la às necessidades humanas, seja como objeto de consumo, seja como meio de produção. O capital, conforme esta sua tendência, passa também por cima das barreiras e preconceitos nacionais, assim como sobre a divinização da natureza; liquida toda a satisfação tradicional, complacente e encerrada dentro de limites estreitos, das necessidades existentes, e a reprodução dos velhos modos de vida. Opera destrutivamente contra tudo isto, é constantemente revolucionário.”

KARL MARX
Elementos Fundamentales para La Crítica de La Economia Política (borrador). Siglo Veintiuno, 1973, vol. I. pp. 361-362

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É provável que o conceito de fetiche seja o que dê à obra de Marx e a seus estudos sobre o capitalismo seu grande sentido e faça-nos perceber sua vital importância. Sem entendermos o que é o fetiche, talvez o estudo sobre o capital se torne mero formalismo e apareça como um campo restrito a certos grupos e pensamentos, já que é comum confundir-se, quer entre marxistas ou não, a análise do capital com um recurso ideológico socialista, ainda assumindo-o como ultrapassado. Não devemos incorrer neste mesmo equívoco, assim como devemos escapar dos comentadores que tentam revelar o que alguém quis dizer. As leituras e os estudos necessitam de uma outra abordagem que não esteja pautada na avaliação das obras por parâmetros de bom ou ruim, certo ou errado, mas que se sustente pela sede de encontros que levem ao limite do que podem certos argumentos. Conhecer é uma aventura de misturas e para tanto é preciso se dispor aos afetos. Sair do plano da informação para criar consistências rigorosas, num movimento em que o leitor se torna ativo e lança cada vez mais longe as criações que lhe compõem. É urgente que se abandone o personalismo! “É preciso se livrar do sujeito constituinte, livrar-se do próprio sujeito, isto é, chegar a uma análise que possa dar conta da constituição do sujeito na trama histórica.” 82 A noção de fetiche se liga intimamente à de crítica. “... a existência de coisas como mercadorias, e a relação de valor entre os produtos do trabalho que os marcam como mercadorias, não possuem absolutamente qualquer conexão com suas propriedades físicas e com a relação material que surge daí. Aí está uma relação social definida entre os homens que assume, a seus olhos, a fantástica forma de uma relação entre coisas. Para encontrarmos uma analogia, precisamos recorrer às regiões nebulosas do mundo religioso. Neste mundo, as produções do cérebro humano aparecem como seres independentes dotados de vida, entrando em relação tanto entre si como com a raça

82

FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder, Ed. Graal. 2008. P.7

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humana.”

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Esse trecho nos aponta de maneira ainda obscura o que significa o

fetichismo. Poupando volteios, trata-se da naturalidade mágica de certos acontecimentos, mas que possuem mais profundamente, uma lógica bastante consistente de operação. Assim, a mercadoria que parece ter vida própria, escondendo a extensão de sua cadeia produtiva; a regulação do sistema (mão invisível) que parece natural, mas que acontece pela troca de valor, de tempo de trabalho socialmente necessário, estendendo-se assim até o processo de produção; o milagre da multiplicação do dinheiro emprestado que retorna com juros, porém, que se apropria da mais-valia produzida pela produção que foi financiada; etc. É a lógica de funcionamento que aparece para cada indivíduo como mágica, mas também é a maneira obscura de sobrevivência do sistema. Em suma, o fetiche é a vivência das coisas como se fossem ontológicas, enquanto sob as aparências de normalidade, existe algo que se passa e faz com que as coisas aconteçam necessariamente da forma como acontecem: a mágica é um truque. A crítica é justamente a intenção de esvaecer o fetiche. A crítica se estabelece como apresentação do funcionamento efetivo de algo, no caso, o sistema capitalista, e com esta, o que de fato se produz sob os diversos discursos, juntando ainda os elementos de sua insustentabilidade. Assim, a crítica pode ser ampliada e então começamos a perceber com maior nitidez qual o sentido oculto do que nos é dado pelo senso comum como “natural” ou como esperança de melhora, compreendendo a amplitude das relações capitalistas e a inserção das mais variadas esferas (se não todas) sob suas necessidades de reprodução e perpetuação.

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MARX, Karl. Capital vol.1, Encyclopædia Britannica Inc. 1996. p.31 – A tradução é minha.

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As bases do capitalismo

Estabelece-se então algo que jamais antes foi visto – terror de qualquer sociedade: os fluxos livres são a matéria de formação do sistema. É o encontro do fluxo de trabalho, através da expropriação do trabalhador dos meios de produção, que passa então a vender a sua força de trabalho de maneira livre (o que quer dizer que torna-se assim anônimo), e do fluxo de valor que se expressa como equivalente universal e abstrato: o dinheiro. É o que Deleuze chama de trabalho desterritorializado (pois não tem características determinadas nem uma personalidade) e valor descodificado (pois não está submetido a um signo, sendo justamente o equivalente geral entre todo produto social). Com este encontro nasce o capitalismo – sem limites internos, cujo objetivo é a acumulação ilimitada, em que a acumulação é o fim em si mesmo. Mais preciso é dizer que seu funcionamento próprio é o da criação de barreiras e da superação destas, gerando novas formas de funcionamento, mas que em nada alteram sua lógica de acumulação, dinheiro que se transforma em mais dinheiro (dinheiro investido segundo esta lógica de acumulação = capital). Grosso modo, podemos dizer que tudo começa com capitalistas que possuem uma certa quantidade de dinheiro, que vão para o mercado e compram dois tipos de mercadoria: 1 – força de trabalho; 2 – meios de produção (incluindo matériaprima, produtos intermediários, energia, máquinas, etc.). Escolhendo um tipo de tecnologia, colocam os trabalhadores junto com os meios de produção para produzirem uma nova mercadoria. Essa mercadoria é vendida no mercado por um preço que inclui o dinheiro original gasto, um lucro de mercado e uma mais-valia (porção de trabalho não pago ao trabalhador pela produção). Este excedente pode ser gasto de qualquer forma. Porém, devido às leis coercitivas da competição, é preciso que uma parte seja reinvestida na produção – a produção precisa ser expandida, o que significa que será necessário mais

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trabalho do que anteriormente, mais tecnologias (ou melhores), mais meios de produção, para que sejam produzidas mais mercadorias, para que o capitalista se mantenha no mercado. Mas isso significa também que o próprio mercado precisa ser mais amplo, ou absorvente, para que os produtos sejam vendidos e para que o valor, criado pelo trabalho84, seja realizado. Os capitalistas são forçados a investir nesta lógica, são inseridos num modo de funcionamento que não permite que seus participantes ajam de outra forma, afinal, a lógica capitalista é a do movimento perpétuo e da valorização do capital – o dinheiro investido deve sempre resultar ao final do ciclo em mais dinheiro.

A lógica das contradições

Sem sombra de dúvida, a vasta obra de Marx, quando não servindo de dogma, constitui uma fundação essencial para compreendermos como o sistema capitalista
O trabalho é a única forma de geração de valor no capitalismo. Ao constatarmos um sistema econômico que tem por tendência a mundialização que se constitui pela compra e venda de mercadorias e que em meio a este processo tem por objetivo o lucro, podemos entender a precisão da análise do capitalismo baseado no valor-trabalho. Ao ser vendido como uma mercadoria, o valor próprio do trabalho é o de sua reprodução, quer dizer, equivale à soma das mercadorias necessárias para que o trabalho se perpetue, ou seja para que o trabalhador reproduza sua força de trabalho. Porém, a execução do trabalho pode superar o trabalho necessário para sua reprodução, o que gera um excedente, que na forma mercadoria se converterá em dinheiro excedente, ou seja, lucro. Para tanto, o produto precisa ter um valor de uso, alguém precisa querêlo e comprá-lo, só assim sendo possível a realização do valor (caso o produto não tenha valor de uso, o trabalho não criou valor – ele só se realiza quando fecha o ciclo passando pelo mercado). Valor é o tempo de trabalho socialmente necessário (média social para o tempo de produção de algo), que se refere ao poder de transformação que o homem possui perante o meio, que transformado, passa a ter um valor para a sociedade, torna-se um produto humano, uma mercadoria. O valor-trabalho é então uma quantidade que tem por medida o tempo e que se torna abstrato (não depende de qual tipo de trabalho específico), estabelecendo assim a base para as trocas no mercado, mas que tem por efeito principal o sucesso ou não de certo empreendimento, levando-se em conta se ele gera ou não um excedente de trabalho. Lembra-se, entretanto, que esta concepção de valor é específica às sociedades capitalistas que possuem por princípio sua reprodução e acumulação, através da lógica do dinheiro transformado em mercadoria que se transforma em dinheiro + excedente. Sob esta ótica, valor é trabalho humano. Por isso, esta análise que utiliza como valor o tempo de trabalho socialmente necessário e refere-se ao modo de produção capitalista, não deve ser universalizada para qualquer sociedade, afinal, como o próprio termo diz, o valor é determinado pelo “socialmente necessário”. Quer dizer que esse conceito de valor-trabalho faz sentindo apenas segundo a lógica da mercadoria, da produção fragmentada e do emprego de força de trabalho. É onde se estabelece a base de um sistema que tem por objetivo acumular dinheiro e o faz a partir da produção de sobre-valor. Isso unicamente porque a força de trabalho é agora uma mercadoria – a saber, a única mercadoria que consegue produzir mais valor do que possui (o que não acontecia, por exemplo com escravos, que não eram contratados, mas produziam como um dom da natureza). Assim a sociedade capitalista é a sociedade do trabalho.
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efetivamente funciona. E uma das coisas que mais fica evidente é a lógica de operação desse sistema, que é prenhe de contradições. Neste momento teremos em mente apresentar as principais contradições do capitalismo e pensá-las como pontos nodais que são, ao mesmo tempo, direções de crise e de desenvolvimento, caso sejam superadas. Um sistema que só existe enquanto flui e que se caracteriza pela constante expansão de seus limites – tendo o horizonte de crise como limite, superá-lo é ampliar o capitalismo. Apontaremos os principais pontos de crise do capitalismo, o que significa dizer que existem áreas que expressam as contradições internas ao próprio sistema capitalista. Na sua lógica irracional de produzir mais dinheiro a partir de dinheiro, de sempre aumentar o lucro, ele nega a si próprio, já que ao promover tal ampliação, destrói as condições que o criam, chegando mais próximo de seu estancamento, ou seja, da perda de seu movimento e de seu conseqüente colapso, já que o capitalismo só existe em movimento, em circulação. Existem locais de entraves que podem gerar uma barreira, barreira a ser superada pelo sistema capitalista. A primeira diz respeito à força de trabalho. O capital deve ter controle tanto da demanda quanto do fornecimento de trabalho, da quantidade e da qualidade apropriada para a produção, para poder otimizar a produção de mais-valia. É essa sua principal base: a regulação do trabalho para manter a sua exploração, de onde resulta a sua reprodução como sistema produtor de lucro. Mas tal otimização pode gerar uma redução excessiva do lucro, “profit squeeze crisis”, se houver uma classe trabalhadora suficientemente forte, organizada, e se o trabalho estiver suficientemente escasso, a tal ponto que comece a exercer muita pressão sobre as condições de trabalho e principalmente sobre a distribuição da mais-valia, chegando ao limite de não ser mais rentável, para o capitalista, produzir, pois não receberá mais lucro suficiente.

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A segunda contradição se põe na relação da sociedade com as bases que reproduzem o capital (meio ambiente e trabalhador). A tendência do capitalismo em seu funcionamento livre e incondicionado é a de destruir o ambiente e o trabalhador, sugando ao máximo suas capacidades produtivas. Esta contradição leva a uma crise de recursos que barraria o fluxo do capitalismo. A terceira contradição que pode resultar em crise é a falta de demanda efetiva (crise do subconsumo), pois é sempre necessário que haja dinheiro no sistema para que a produção seja consumida e a reprodução do capital seja realizada. A quarta se refere aos meios tecnológicos empregados na produção (tanto materiais, como as máquinas, quanto organizacionais, como a divisão do trabalho). A otimização da produção leva à redução de trabalhadores, retirando-se assim a fonte de mais-valia em nome do lucro. Aqui se coloca a queda tendencial da taxa de lucro. Enfim, estas quatro contradições são todas pontos de bloqueio vitais para o capitalismo. Para que funcione, é preciso que esteja em movimento, é preciso que o capital circule. O que acontece se um destes bloqueios se concretizar? O capital pára e toma início então, um processo de desvalorização do capital, letal para o sistema. O capital estagnado não é mais capital, pois capital é apenas dinheiro investido que tem como objetivo retornar como mais dinheiro. (Vide figura 4). Dessa forma, são diversos os agentes que se preocupam com a superação destas barreiras que estão sempre em jogo, mais ou menos presentes e preocupantes, como o poder intelectual, o poder de organizações que produzem e disseminam conhecimento, o poder do Estado, o poder capitalista de maneira geral (como as corporações, etc.).

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Neste sentido, é fundamental que nos aprofundemos numa prática do sistema capitalista, que gera a possibilidade inicial para a acumulação capitalista. Ao se atentar à história, vemos que existe um processo de acumulação primitiva (ou original), que se baseia em estratégias de expropriação, pilhagem, roubo, fraude, violência, que ao mesmo tempo em que gera esta concentração de dinheiro, introduz as categorias capitalistas de força de trabalho livre e do dinheiro. Entretanto, esta acumulação original muda de caráter quando a burguesia se apropria do aparelho de Estado, tornando então tais práticas legalmente efetuáveis. David Harvey chama isso de ‘accumulation by dispossession’ (algo como acumulação por “despossessão”). “Por isso [accumulation by dispossession] eu quero dizer a continuação e a proliferação de práticas de acumulação que Marx havia tratado como ‘primitiva’ ou ‘original’ durante o surgimento do capitalismo.” 85 “A acumulação por despossessão compreende quatro elementos principais: 1Privatização e mercantilização. (...) abrir novos campos para a acumulação de capital em domínios até então entendidos como fora dos limites do cálculo de lucro. Utilidades públicas de todos os tipos (água, telecomunicações, transporte), provisão do bem-estar social (habitação pública, educação, assistência de saúde, pensão), instituições públicas (universidades, laboratórios de pesquisa, prisões) e até mesmo a beligerância (...) foram todos privatizados em certo grau no mundo capitalista e além (...). O direito à propriedade intelectual estabelecido (...) define materiais genéticos, plasmas de sementes e toda forma de outros produtos como propriedade particular. (...) O esgotamento crescente de bens ambientais globais comuns (terra, ar, água) e a degradação proliferante do habitat que contraria tudo exceto o capital – os modos intensivos de produção agrícola resultaram, da mesma forma, da completa
HARVEY, David. A Brief History of Neoliberalism. Oxford University Press. 2005. p.159 – As traduções são minhas.
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mercantilização da natureza em todas as suas formas. A mercantilização (através do turismo) de formas culturais, histórias, e da criatividade intelectual acarreta na completa despossessão (a indústria musical é notória pela apropriação e exploração da cultura e da criatividade nativa). Assim como no passado, o poder do estado é freqüentemente usado para forçar tal processo mesmo contra a vontade popular. A diminuição de suportes regulatórios desenhados para proteger o trabalho e o ambiente da degradação acarretou na perda de direitos. A reversão do direito à propriedade comum, conquistados ao longo de anos de dura luta de classes (direito à pensão, bemestar, assistência à saúde nacional), em domínios privados tornou-se uma das mais admiráveis políticas de despossessão, comumente emergentes contra a ampla vontade política da população. Todos esses processos somam-se à transferência de bens de domínio público e popular para os domínios privados e das classes privilegiadas. 2- Financialização. (...) Desregulação permitiu ao sistema financeiro tornar-se um dos principais centros de atividades redistributivas através da especulação, depredação, fraude e ladroagem. Promoções na venda de ações, esquemas ‘Ponzi’, destruição de bens estruturados através da inflação, ‘asset-stripping’ [venda dos bens de uma empresa que foi comprada desvalorizada, obtendo-se daí lucro] através de fusões e aquisições, promoção nos níveis de incumbência de dívida que reduziram populações inteiras, mesmo nos países capitalistas avançados, a peões de dívida [paga-se a dívida com trabalho direto ao invés de dinheiro], sem falarmos de fraude corporativa, despossessão de bens (a incursão nos fundos de pensão e a sua dizimação pelos colapsos de ações e corporativos) pela manipulação do crédito e de ações – todos esses se tornaram elementos centrais do sistema financeiro capitalista. (...) Além disso, nós também temos que ver a incursão especulativa levada a cabo por ‘hedge funds’ [fundos de derivativos] e outras grandes instituições de financiamento de capital, por isso

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formando a verdadeira vanguarda da acumulação por despossessão no estágio global, mesmo que eles supostamente tenham conferido o benefício positivo de diminuir riscos. 3- O gerenciamento e a manipulação das crises. (...) Criação de crises, gerenciamento e manipulação no estágio global evoluiu à fina arte da redistribuição deliberada de riqueza de países pobres para os ricos. [a armadilha da dívida]. (...) A analogia com a criação deliberada de desemprego para produzir excedente de trabalho conveniente para acumulação subseqüente é exata. Bens valiosos são colocados fora de uso e perdem seu valor. Eles permanecem em pousio até que capitalistas possuidores de liquidez escolham soprar neles nova vida. O perigo, no entanto, é que as crises possam sair de controle e tornarem-se generalizadas, ou que surjam revoltas contra o sistema que as cria. Uma das principais funções da intervenção do estado e de instituições internacionais é controlar as crises e as desvalorizações de forma que permitam que a acumulação por despossessão continue a ocorrer sem que se inicie um colapso generalizado ou uma revolta popular (...). 4- Redistribuições pelo Estado. O estado, uma vez neoliberalizado, torna-se o principal agente de políticas de redistribuição, revertendo o fluxo de classes superiores para classes inferiores que ocorrera durante a era de liberalismo embutido. Ele faz isso primeiramente perseguindo esquemas de privatização e cortando aquelas despesas que sustentam o salário social. Mesmo quando a privatização parece ser benéfica para as classes mais baixas, o efeito de longo prazo pode ser negativo [já que uma vez privatizado, a especulação e as variações de mercado assumem a regulação] (...). O estado neoliberal também redistribui riqueza e renda através de revisões no código de impostos para beneficiar retornos em investimento ao invés de rendas e salários, promoção de elementos regressivos no código de impostos (como as taxas de

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venda), a imposição de taxas de usuários (...), e a provisão de vasta disposição de subsídios e isenção de impostos para corporações.” 86 Assim, a acumulação primitiva não deve ser confundida com algo do passado, ancestral. Trata-se de uma prática atual que permite o surgimento deste dinheiro original para o início de um negócio, para se ultrapassar as “barreiras de entrada”, o que é necessário para se começar, para se entrar no negócio, com força suficiente para que a empresa seja rentável. Segundo o próprio Harvey, a acumulação por despossessão é a fonte de ampliação do sistema que vem introduzindo riqueza no capitalismo global desde a década de 1970.

O setor financeiro e o capital fictício

“Em outros aspectos, o dinheiro-crédito tem certas peculiaridades. Por longe que possa circular uma carta de crédito contraída privadamente, sempre deve regressar a seu lugar de origem para seu reembolso. As outras formas de dinheiro não circulam nesta forma. Uma moeda de ouro pode passar de mão em mão e seguir sempre em circulação sem regressar em nenhum momento a seu lugar de origem. Essas formas de dinheiro são formas sociais desde o princípio ainda que lhes tenham dado um uso privado. Em contraste, o dinheiro-crédito é dinheiro criado privadamente que pode desempenhar um propósito social quando colocado em circulação. Ainda assim, quando se liquida a dívida original o dinheiro-crédito desaparece da circulação. As atividades dos indivíduos privados estão criando e destruindo perpetuamente o dinheiro-crédito. Este é um conceito de importância vital. Por um lado, explica a capacidade dos indivíduos e instituições privadas (como os bancos) para ajustar a quantidade de
HARVEY, David. A Brief History of Neoliberalism. Oxford University Press. 2005. pp.161-165. – a tradução é minha.
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dinheiro instantaneamente ao volume das transições de mercadorias; o dinheiro-crédito, à diferença do ouro, se pode ampliar e contrair à vontade. Por outro lado, os que outorgam o crédito devem sujeitar-se a alguma disciplina, e a qualidade do dinheirocrédito deve estar garantida para que este possa circular com segurança. [Em última instância, esse é o papel do banco central].”
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Vemos então a criação do sistema

financeiro, que nada mais é do que a circulação de crédito, ou seja, de papéis que equivalem a dinheiro no futuro – um equivalente fictício de dinheiro. Porém, o crédito, com esta distância entre dinheiro a ser recebido e dinheiro real, quer dizer, este buraco espaço-temporal entre o dinheiro que existe efetivamente e o vale-dinheiro a ser descontado em um banco, abre a possibilidade para que sejam lançados ainda mais para o futuro, já como dinheiro ampliado, ou lucro que existirá a partir do investimento. Nasce o mundo da especulação e do risco: o investimento se torna uma aposta no futuro. “O que acontece realmente é que o direito ao trabalho futuro que define o capital fixo é convertido através do sistema de crédito em um direito exercido pelo capital-dinheiro sobre uma porção da mais-valia que se produza no futuro. O capital-dinheiro é investido na apropriação futura. Portanto, desde o princípio o capital-dinheiro adiantado deve ser considerado como capital fictício porque não está respaldado por nenhuma garantia firme.” 88 “A classificação de ‘capital fictício’ está implicada cada vez que se amplia um crédito, em previsão de um trabalhador futuro como um contra-valor. Esta forma de capital permite que o capital circulante que tenha se acumulado em excesso passe sem tropeços à formação de capital fixo, processo que pode disfarçar totalmente a aparição

HARVEY, David. Los Límites Del Capitalismo y La Teoría Marxista. Fondo de cultura econômica. 1990. pp. 250-251. – As traduções são minhas. 88 HARVEY, David. Los Límites Del Capitalismo y La Teoría Marxista. Fondo de cultura econômica. 1990. p.271.

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da crise a curto prazo. Entretanto, a criação de valores fictícios antes da produção e realização real das mercadorias sempre tem sido um negócio arriscado.” 89 Dessa forma, o setor financeiro pode derivar em bolsas de valores e de mercadorias futuras, gerando um sistema acionário em que a flexibilidade de investimento é surpreendente. A partir de então, o dinheiro é explicitamente um valor totalmente abstrato, pois migra facilmente, correndo atrás de onde se poderá obter mais lucros. “A compra e venda de ações e valores permite que os donos do dinheiro preservem sua flexibilidade e liquidez, ao mesmo tempo que os preços das ações se podem ajustar às variações [futuras] na produção de mais-valia. (...) ¶ Mesmo assim, o título de propriedade não ‘dão a quem os possui nenhum poder de disposição sobre o capital’, e o próprio capital não se pode retirar porque o título é só um direito sobre uma porção das utilidades futuras. Os títulos são ‘duplicatas em papel’ do capital real; a duplicata em papel pode circular ao passo que o capital real não. (...) Entretanto, como duplicatas em papel os títulos são puramente ‘formas ilusórias e fictícias de capital’. Os preços destes títulos podem então flutuar de acordo com suas próprias leis ‘independentemente do valor do capital que representam’.”
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“Agora temos que

considerar a circunstância adicional em que os capitais fictícios devem ser criados necessariamente antes da acumulação real, o que significa que ‘a acumulação de capital-dinheiro tem que refletir sempre necessariamente uma acumulação maior de capital do que realmente existe’”.
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“Isto não é problemático sempre e quando a

expansão real dos valores das mercadorias se mantém no mesmo ritmo que a criação prévia de capital fictício. Entretanto, tão imediato quanto se torna evidente o excesso de acumulação, a realização dos valores fictícios e dos valores em forma de mercadorias se
HARVEY, David. Los Límites Del Capitalismo y La Teoría Marxista. Fondo de cultura econômica. 1990. p.270. – a tradução é minha. 90 HARVEY, David. Los Límites Del Capitalismo y La Teoría Marxista. Fondo de cultura econômica. 1990. p.272. 91 MARX, Karl. O Capital – vol.3, apud HARVEY, David. 1990.
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vê ameaçada. A demanda por dinheiro nesse momento é estritamente uma demanda por liquidez. Nesse momento, um regresso à base monetária certamente destruiria os capitais fictícios e desvalorizaria as mercadorias. A única defesa factível de um banco central contra essa situação é imprimir dinheiro respaldado pelo Estado e comprar os excedentes a fim de realizar os valores dos capitais fictícios. (...) ¶ Entretanto, se o dinheiro nacional não é convertível em ouro, então um banco central pode realmente imprimir dinheiro a fim de se defender contra o excesso de acumulação e de desvalorização, mas ao fazê-lo, desvaloriza seu próprio dinheiro. A tendência ao excesso de acumulação se converte, em poucas palavras, em uma tendência à inflação descontrolada. (...) ¶ Sob condições de excesso de acumulação, a classe capitalista parece ter uma opção entre desvalorizar o dinheiro ou as mercadorias, entre a inflação ou a depressão.” 92 E esta formação completamente surreal, gera ainda uma concretude que é capaz de fazer com que novos campos de atividades econômicas surjam, atividades para além da imaginação. “Esse ‘espantoso’ mundo das altas finanças envolve uma variedade igualmente espantosa de atividades entrelaçadas, em que os bancos tomam macios empréstimos de curto prazo uns dos outros, as companhias de seguro e fundos de pensão reúnem tal quantidade de fundos de investimento que terminam por funcionar como ‘formadores de mercado’ dominantes, enquanto o capital industrial, mercantil e imobiliário se integra de tal maneira às estruturas e operações financeiras que se torna cada vez mais difícil dizer onde começam os interesses comerciais e industriais e terminam os interesses estritamente financeiros. Essa confusão tem sido particularmente associada ao crescimento do que hoje é denominado ‘empreendimento com papéis’. Vem sendo dada uma tremenda ênfase, nos
HARVEY, David. Los Límites Del Capitalismo y La Teoría Marxista. Fondo de cultura econômica. 1990. pp.298-299.
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últimos anos, à descoberta de maneiras alternativas de obter lucros que não se restrinjam à produção pura e simples de bens e serviços. As técnicas variam da sofisticada ‘contabilidade criativa’ à cuidadosa monitoração de mercados

internacionais e condições políticas por multinacionais, de modo que possam tirar proveito das variações relativas dos valores das moedas ou das taxas de juros, chegando até à vigilância corporativa direta, seguida da apropriação dos ativos de corporações rivais ou mesmo sem nenhuma relação. (...) a motivação mais comum era obter lucros estritamente financeiros sem dar importância à produção real.”
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“A acumulação

flexível evidentemente procura o capital financeiro como poder coordenador (...). Isso significa que a potencialidade de formação de crises financeiras e monetárias autônomas e independentes é muito maior do que antes, apesar de o sistema financeiro ter mais condições de minimizar os riscos através da diversificação e da rápida transferência de fundos de empresas, regiões e setores em decadência para empresas, regiões e setores lucrativas.”
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O sistema financeiro cria a complicada e contraditória

possibilidade de tornar cada vez mais distante o capital produtivo e o capital fictício, chegando próximo à autonomização total das duas esferas. Porém, é claro que essa operação é absurdamente irracional (no sentido da perpetuação do próprio sistema), pois se o lucro só existe a partir da geração de mais-valia, o que envolve necessariamente a produção, sendo o lucro real do sistema financeiro apenas a circulação da mais-valia produzida no setor produtivo, existe uma inconsistência profunda entre o capital fictício, o crédito que circula e o capital real produtivo – os números simplesmente não batem. Incrivelmente, o sistema se segura e inventa novas formas de postergar o seu colapso. E aqui devemos relembrar a acumulação por despossessão, assim como os gastos de antiprodução, como os investimento em obras de infra-estrutura e construção civil, ou ainda
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HARVEY, David. Condição Pós-Moderna. Ed. Loyola. 2005. p.154. HARVEY, David. Condição Pós-Moderna. Ed. Loyola. 2005. p.155.

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na indústria bélica, mas também em quaisquer obras que produzam a fixação do capital, que podem ser destruídas e reconstruídas, absorvendo o capital excedente e promovendo mais rotatividade no sistema. É exatamente por isso que não podemos resumir as contradições a si mesmas, mas perceber, como as mais diferentes esferas de ação se compõem, fazendo com que as barreiras que surjam sejam superadas, e dentro de um equilíbrio absolutamente dinâmico, solução de crises a partir da geração de novas crises: solucionam-se problemas de acumulação financeira, com novas tecnologias que gerarão uma nova crise (por exemplo ambiental ou de trabalho), que abrirá campo para novas atividades e novos investimentos financeiros, assim como para novas ações, agora legitimadas, de expropriação (acumulação por despossessão) e de fixação de capital, que por sua vez são revertidas e destruídas, gerando novas práticas de consumo, que ampliarão novamente o mercado até que outra barreira para a acumulação comece a ganhar consistência. Para tanto, o Estado cumpre um papel crucial.

Trabalho imaterial e queda tendencial da taxa de lucro

Porém, antes de seguirmos adiante com nossa investigação sobre o Estado e a política, é necessário que passemos ainda por pontos bastante controversos dentro da teoria sobre o capitalismo. O primeiro deles é o trabalho imaterial. Tal discussão é importante, porque se percebe uma transformação no capitalismo, que leva diferentes autores a variadas conclusões sobre o futuro do sistema. Tendo por fundamento que o capitalismo só se perpetua acumulando, ou seja, aumentando o lucro, que é a derivação final do processo de produção de mais-valia através da exploração do trabalho, coloca-se a questão num mundo em que o trabalho como produtor de mercadorias reais vai perdendo espaço para o setor de serviços e de produtos que não são palpáveis. Assim,

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como poderia se reproduzir um sistema que depende da exploração do trabalho, se o trabalho cada vez mais se reduz, sendo que por trabalho pressupõe-se a produção de mais-valia? Marx apesar de abrir alguns caminhos, se aprofundou pouco no tema do trabalho imaterial. Em uma passagem do Capítulo Sexto Inédito de O Capital, ele nos dá um exemplo bastante expressivo do que seria este tipo de trabalho: “uma cantora que entoa como um pássaro é um trabalhador improdutivo. Na medida em que vende seu canto, é assalariada ou comerciante. Mas, a mesma cantora, contratada por um empresário, que a faz cantar para ganhar dinheiro, é um trabalhador produtivo, já que produz diretamente capital.” 95 Da mesma forma continua: “... como com o desenvolvimento da subsunção real do trabalho ao capital ou do modo de produção especificamente capitalista, não é o operário individual, mas uma crescente capacidade de trabalho socialmente combinada que se converte no agente real do processo de trabalho total, e como as diversas capacidades de trabalho cooperam e formam a máquina produtiva total participam de maneira muito diferente no processo imediato da formação de mercadorias, ou melhor, de produtos – este trabalho mais com as mãos, aquele trabalho mais com a cabeça, um como diretor (manager), engenheiro (engineer), técnico, etc., outro, como capataz (overlooker), um outro como operário manual direto, ou inclusive como simples ajudante - , temos que mais e mais funções de capacidade de trabalho se incluem no conceito imediato de trabalho produtivo, e seus agentes no conceito de trabalhadores produtivos, diretamente explorados pelo capital e subordinados em geral a seu processo de valorização e de produção. Se se considera o trabalhador coletivo, de que a oficina consiste, sua atividade combinada se realiza materialmente e de maneira direta num produto final que, ao mesmo tempo, é um volume total de mercadorias; é
MARX, Karl Capítulo Sexto Inédito de O Capital: resultados do processo de produção imediata. Publicações Escorpião 1978. apud MELLO, Gustavo. Algumas respostas teóricas para as vicissitudes do capitalismo contemporâneo: crítica ou fetichismo? p.65
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absolutamente indiferente que a função de tal ou qual trabalhador (...) esteja mais próxima ou mais distante do trabalho manual direto.” Mais adiante, “a maneira de definir o trabalho produtivo e o improdutivo por seu conteúdo material origina-se... da concepção fetichista, peculiar ao modo de produção capitalista, e derivada de sua essência, que considera as determinações formais econômicas, tais como ser mercadoria, ser trabalho produtivo, etc., como qualidade inerente em si mesma aos depositários materiais dessas determinações formais ou categoriais.”
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Assim, para

Marx, o trabalho produtivo é todo aquele que está vinculado à produção de uma mercadoria, algo que causa grande perturbação num sistema de produção altamente fragmentado, setorizado e especializado. Dessa forma, é preciso abrir os horizontes do trabalho produtivo, que nas palavras do próprio Marx: “... produtivo é todo trabalho que entra na produção de mercadorias (produção aí abrange todas as operações por que passa a mercadoria, do primeiro produtor até o consumidor), seja qual for a espécie, trabalho manual ou não (científico); e improdutivo é o trabalho que nela não entra e que não tem por propósito e objetivo produzir mercadoria. Essa distinção tem de ser mantida e o fato de todas as espécies de atividade repercutirem na produção material e viceversa, em nada muda a necessidade dela.”
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É por isso que muitas das áreas que se

referem ao setor de serviços devem ser compreendidas ainda como trabalho produtivo, pois fazem parte da mercadoria enquanto efetuação de seu consumo, sendo ainda explorado por um empresário que tem como objetivo o lucro (a diferença é que encontramos cada etapa do processo fragmentada em um espaço próprio – laboratório científico, fábrica de cada peça, setor do design e até mesmo o transporte e o armazém de vendas). “Serviço não é, em geral, senão uma expressão para o valor de uso particular
MARX, Karl Capítulo Sexto... apud MELLO, Gustavo. Algumas respostas teóricas para as vicissitudes do capitalismo contemporâneo: crítica ou fetichismo? p.68 97 MARX, Karl. Teorias da Mais-Valia: História Crítica do pensamento econômico. Ed. Civ. Brasileira. 1980. P. 1473 apud MELLO, Gustavo Algumas respostas teóricas para as vicissitudes do capitalismo contemporâneo: crítica ou fetichismo? p.68 (nota 304).
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do trabalho, na medida em que este não é útil como coisa, mas como atividade.(...) serviço é toda atividade laboral cujo efeito útil não pode ser desvinculado da própria atividade, de modo que o seu resultado não se materializa como coisa independente da atividade.” 98 Da mesma forma, a produção científica é apropriada pelo capitalismo: “O acesso ao conhecimento científico e técnico sempre teve importância na luta competitiva; mas, também aqui, podemos ver uma renovação de interesse e de ênfase, já que, num mundo de rápidas mudanças de gostos e necessidades e de sistemas de produção flexíveis (em oposição ao mundo relativamente estável do fordismo padronizado), o conhecimento da última técnica, do mais novo produto, da mais recente descoberta científica, implica a possibilidade de alcançar uma importante vantagem competitiva. O próprio saber se torna uma mercadoria-chave, a ser produzida e vendida a quem pagar mais, sob condições que são elas mesmas cada vez mais organizadas em bases competitivas.”
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Gustavo Mello complementa dizendo “Assim, além de subordinar a ciência transformando-a num negócio, produz-se sua escassez – necessária para sua exploração em termos capitalistas – mediante patentes e práticas de sigilo industrial, o que tende a refrear o desenvolvimento científico. Não obstante, não se deve ignorar também os custos efetivos da produção do conhecimento científico, nada desprezíveis, e que geralmente envolvem a utilização de capital constante – máquinas, computadores, etc. – extremamente custosos, que faz diferença na determinação do preço dos produtos científicos.” 100 Queremos aqui desconstruir muitas das idéias contemporâneas, como as de Antônio Negri, André Gorz e até mesmo de adeptos da concepção da “pós-grande
MARX, Karl O Capital – vol.1 e Capítulo Sexto... apud MELLO, Gustavo Algumas respostas teóricas para as vicissitudes do capitalismo contemporâneo: crítica ou fetichismo? p.69. 99 HARVEY, David. Condição Pós-Moderna. Ed. Loyola. 2005. p.151. 100 MELLO, Gustavo Algumas respostas teóricas para as vicissitudes do capitalismo contemporâneo: crítica ou fetichismo? p.132.
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indústria”, ou das idéias que pregam a sociedade contemporânea como sociedade do nãotrabalho. O capitalismo possui essa potência de estar constantemente superando os limites colocados por ele próprio – “é sempre revolucionário”. A submissão ao sistema capitalista se dá por esferas muito mais obscuras do que apenas as do macrofuncionamento da lógica do capital. Outro tema de grande controvérsia, mas que vai no mesmo sentido de se supor um colapso inerente à própria produção do sistema capitalista, que as concepções de crise do trabalho complementam, é a tese de Marx sobre a “queda tendencial da taxa de lucro”. Não são poucos os que a questionam e dão base para sua crítica como constituinte de uma lei. Morishima demonstra matematicamente casos em que tal tendência não se dá. Balibar aponta para uma tendência sem fim, que se reproduz reproduzindo os fatores que a contrariam. Se de fato Marx nos mostra a queda tendencial da taxa de lucro não como um limite externo, mas interno – contradição inerente ao capitalismo, isso nos leva a caminhos muito mais coerentes do que a eterna espera da queda do gigante que tropeçaria em suas próprias pernas. Pois se podemos estar certos de algo, levando em consideração tudo o que foi dito, é que as contradições internas do capitalismo servem de motor para o seu desenvolvimento. São sempre obstáculos a serem superados, levando o capitalismo a configurar novas formas de reprodução e se apropriar de novos mecanismos para se reproduzir. “O único limite da tendência é interno e ela está sempre a superá-lo, mas deslocando-o, isto é, reconstituindo-o, reencontrando-o como limite interno que tem de voltar a superar por meio de um deslocamento. (...) as coisas só funcionam bem funcionando mal, sendo a crise ‘um meio imanente ao modo de produção capitalista.’ Se o capitalismo é o limite exterior de todas as sociedades, é porque não

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tem limite exterior mas apenas um limite interior que é o capital em si, limite que ele não consegue encontrar mas que reproduz, deslocando-o incessantemente.” 101 A queda tendencial da taxa de lucro expressa a contradição fundamental do capitalismo: quanto mais lucro investido na produção, mais reduzida é sua capacidade de extrair mais-valia da produção; ou seja, quanto mais o capitalismo criar condições para aumentar o lucro através de investimentos, menos será capaz de aumentá-lo devido à redução da exploração efetiva do trabalho. De pronto isto nos remete ao argumento incisivo mais potente da crítica ao capitalismo: a sociedade elaborada dentro do capitalismo não possui capacidade de solucionar os problemas que lhe são postos, porque estes são fruto da própria maneira de reprodução do sistema capitalista, que por si é contraditória. A queda tendencial da taxa de lucro, antes de ser uma profecia, é um alerta que mostra ser irrefutável o argumento de que não há solução dentro do sistema capitalista. Desta forma, não podemos postergar as linhas de fuga através de políticas paliativas que tem como perspectiva melhorar as condições de vida, se não apenas ter como base a superação do sistema capitalista produtor de mercadorias, sistema capitalista produtor de loucura (esquizofrenia), produtor de pobreza, produtor de desigualdade, produtor de violência, produtor de crise.

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DELUZE, Gilles. O Anti-Édipo. Ed. Assírio e Alvim. 2004. pp.239 e 240.

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O Estado e a Política

“Os mercados de fixação de preços, para tratar do primeiro problema, fornecem tipicamente inúmeros sinais com alto grau de descentralização que permitem que os produtores coordenem as decisões de produção com as necessidades, vontades e desejos dos consumidores (respeitando, com efeito, as restrições de orçamento e custos que afetam as partes envolvidas em toda transação de mercado). Mas a celebrada “mão invisível” do mercado, de Adam Smith, nunca bastou por si mesmo para garantir um crescimento estável ao capitalismo, mesmo quando as instituições de apoio (propriedade privada, contratos válidos, administração apropriada do dinheiro) funcionam adequadamente. Algum grau de ação coletiva – de modo geral, a regulamentação e a intervenção do Estado – é necessário para compensar as falhas de mercado (tais como os danos inestimáveis ao ambiente natural e social), evitar excessivas concentrações de poder de mercado ou combater o abuso do privilégio do monopólio quando este não pode ser evitado (em campos como transportes e comunicações), fornecer bens coletivos (defesa, educação, infra-estruturas sociais e físicas) que não podem ser produzidos e vendidos pelo mercado aberrante e o intercâmbio potencialmente negativo entre expectativas dos empreendedores e sinais de mercado (o problema das profecias auto-realizadas no desempenho do mercado). Na prática, as pressões coletivas exercidas pelo Estado ou por outras instituições (religiosas, políticas, sindicais, patronais e culturais), aliadas ao exercício do poder de domínio do mercado pelas grandes corporações e outras instituições poderosas, afetam de modo vital a dinâmica do capitalismo. Essas pressões podem ser diretas (como a imposição de controles de salários e preços) ou indiretas (como a propaganda subliminar que nos persuade a incorporar novos conceitos sobre nossas necessidades e desejos básicos na vida), mas o efeito líquido é moldar a trajetória e a forma do desenvolvimento capitalista de modos cuja compreensão vai além da análise das transações de mercado. Além disso, as propensões sociais e psicológicas, como o individualismo e o impulso de realização pessoal por meio da auto-expressão, a busca de segurança e identidade coletiva, a necessidade de adquirir respeito próprio, posição ou alguma outra marca de identidade individual, têm um papel na plasmação de modos de consumo e estilos de vida. Basta considerar todo o complexo de forças implicadas na proliferação da produção, da propriedade e do uso em massa do automóvel para reconhecer a vasta gama de significados sociais, psicológicos, políticos, bem como mais propriamente econômicos, que estão associados a um dos principais setores de crescimento do capitalismo no século XX. (...)

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A segunda arena de dificuldade geral nas sociedades capitalistas concerne à conversão da capacidade de homens e mulheres de realizarem um trabalho ativo num processo produtivo cujos frutos possam ser apropriados pelos capitalistas. Todo tipo de trabalho exige concentração, autodisciplina, familiarização com diferentes instrumentos de produção e o conhecimento das potencialidades de várias matérias-primas em termos de transformação em produtos úteis. Contudo, a produção de mercadorias em condições de trabalho assalariado põe boa parte do conhecimento, das decisões técnicas, bem como do aparelho disciplinar, fora do controle da pessoa que de fato faz o trabalho. A familiarização dos assalariados foi um processo histórico bem prolongado (e não particularmente feliz) que tem de ser renovado com a incorporação de cada nova geração de trabalhadores à força de trabalho. A disciplinação da força de trabalho para propósitos de acumulação do capital – um processo a que vou me referir, de modo geral, como ‘controle do trabalho’ – é uma questão muito complicada. Ela envolve, em primeiro lugar, alguma mistura de repressão, familiarização, cooptação e cooperação, elementos que têm de ser organizados não somente no local de trabalho como na sociedade como um todo. A socialização do trabalhador nas condições de produção capitalista envolve o controle social bem amplo das capacidades físicas e mentais. A educação, o treinamento, a persuasão, a mobilização de certos sentimentos sociais (a ética do trabalho, a lealdade aos companheiros, o orgulho local ou nacional) e propensões psicológicas (a busca da identidade através do trabalho, a iniciativa individual ou a solidariedade social) desempenham um papel e estão claramente presentes na formação de ideologias dominantes cultivadas pelos meios de comunicação de massa, pelas instituições religiosas e educacionais, pelos vários setores do aparelho do Estado, e afirmadas pela simples articulação de sua experiência por parte dos que fazem o trabalho.”

DAVID HARVEY
Condição Pós-Moderna, Edições Loyola, 2005. pp. 118 e 119

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O Estado foi brevemente mencionado anteriormente, mas sua importância no mundo moderno é tão forte, que talvez seja este o tema que mais evidentemente esteja vinculado com a formação do mundo moderno efetivamente. A questão da soberania e do território e a partir disso suas derivações como a regulação da propriedade privada, do sistema econômico, das atividades dos indivíduos, dos impostos e da racionalidade de ação que se expressa no planejamento, por exemplo, é abordada em maior ou menor grau, desde o século XV. Mas a compreensão do Estado nos dias atuais, apesar de permanecer rodeando os mesmo temas, tem para nós uma importância diferente, digamos crítica, de entender o Estado como parte de uma cultura que poderíamos chamar de sociedade capitalista. “Hoje, o Estado está numa posição muito mais problemática. É chamado a regular as atividades do capital corporativo no interesse da nação e é forçado, ao mesmo tempo, também no interesse nacional, a criar um ‘bom clima de negócios’, para atrair o capital financeiro transnacional e global e conter (por meios distintos dos controles de câmbio) a fuga de capital para pastagens mais verdes e mais lucrativas.” 102 “E o Estado capitalista desempenha este papel há muito tempo – diga-se o que se disser –, desde o princípio, desde a sua gestação sob formas semi-feudais ou semi-monárquicas: ele controla, do ponto de vista dos fluxos dos trabalhadores ‘livres’, a mão-de-obra e os salários; outorga, do ponto de vista do fluxo de produção industrial e mercantil, monopólios, condições favoráveis à acumulação, luta contra a sobreprodução. Não houve nunca um capitalismo liberal (...). Em regra geral, os controles e regulações estatais só tendem a desaparecer ou a esbater-se em caso de abundância de mão-de-obra e de súbita expansão dos mercados. Isto é, quando o capitalismo funciona com um reduzido número de axiomas dentro de limites relativos suficientemente largos. Esta situação desapareceu há muito tempo (...). O Estado é assim determinado a ter esse

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HARVEY, David. A Brief History of Neoliberalism. Oxford University Press. 2005. p.160.

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papel cada vez mais importante na regulação dos fluxos axiomatizados, quer em relação à produção e à planificação, quer em relação à economia e à sua ‘monetarização’, à mais-valia e à sua absorção (pelo próprio aparelho de Estado).” 103 “[O Estado] em todas as partes tem estado presente como a entidade que garante os contratos e as liberdades dos indivíduos civis, e como o poder repressivo que forja e mantém a força de trabalho como uma mercadoria. O Estado serve de sustentáculo à competição entre os capitalistas e regula as condições de emprego. Pode facilitar a centralização do capital, mas também pode contribuir para o equilíbrio entre a centralização e a descentralização, que preserva a estabilidade da composição do valor do capital. Se encarrega da produção de mercadorias (principalmente no ambiente construído) que os capitalistas individuais não podem ou não querem prover, por vitais que possam ser para a acumulação ulterior. Usa suas faculdades de planejamento para dar forma à economia espacial do capitalismo diretamente, e assim pode inclusive regular a freqüente tensão entre a concentração e a dispersão geográficas. Através do banco central, desempenha um papel hegemônico no abastecimento de dinheiro de certa qualidade. Ao considerar as funções fiscais e monetárias do Estado podemos ver a ampla latitude de sua intervenção potencial na dinâmica temporal e espacial da acumulação dentro do território sob sua jurisdição. O sistema estatal se converte assim em uma parte vital dessa bateria de organizações ordenadas hierarquicamente que enlaçam os trabalhos individuais dentro da totalidade expressada como trabalho abstrato. Por ocupar uma posição tão estratégica, e por contar com as armas fundamentais do poder político e militar, o Estado chega a ser a instituição central ao redor da qual se formam as alianças de classe, e os poderes fiscais e monetários podem se pressionar para que sirva a uma aliança deste tipo. Os ajustes distribucionais podem
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DELEUZE, Gilles e GUATARRI, Félix. O Anti-Édipo. Assírio & Alvim. 2004. pp.263-264.

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se modificar, a inversão em apropriação pode ser controlada, os capitais fictícios criados e as tendências à desvalorização podem se converter assim em inflação. O Estado se converte na instituição central através da qual cada aliança regional busca seu ‘ajuste espacial’. Em poucas palavras, o Estado desempenha um papel vital em quase cada aspecto da reprodução do capital. Ademais, quando o governo intervém para estabilizar a acumulação em vista de suas múltiplas contradições, só o consegue ao preço de absorver em seu interior estas contradições. Adquire a duvidosa tarefa de administrar a dose necessária de desvalorização, entretanto com alguma opção sobre como e quando fazê-lo. Pode situar os custos dentro de seu território por meio de uma dura legislação trabalhista ou por restrições fiscais e monetárias, ou pode buscar alívio externo por meio de guerras comerciais, políticas fiscais e monetárias combativas no cenário mundial, respaldadas, em última instância, pela força militar. A forma final de desvalorização é a confrontação militar e a guerra global.” 104 Dessas práticas do Estado e mantendo uma compreensão que investiga na história a sua formação, como se processa a sua existência, percebemos que sua estrutura é mantida, ainda que agora dentro de uma outra perspectiva, a serviço do econômico. “O Estado capitalista é o regulador dos fluxos descodificados como tais, enquanto apanhados pela axiomática do capital.”
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“O Estado era inicialmente esta unidade abstrata que

integrava subconjuntos que funcionavam separadamente; agora está subordinado a um campo de forças cujos fluxos coordena e cujas relações autônomas de dominação e subordinação exprime. Agora já não se contenta em sobrecodificar territorialidades conservadas e ladrilhadas, mas tem que constituir, inventar códigos para os fluxos desterritorializados do dinheiro, da mercadoria e da propriedade privada. Já não forma
HARVEY, David. Los Límites Del Capitalismo y La Teoría Marxista. Fondo de cultura econômica. 1990. pp.450-451. 105 DELEUZE, Gilles e GUATARRI, Félix. O Anti-Édipo. Assírio & Alvim. 2004. p.262.
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por si mesmo uma ou várias classes dominantes, mas é formado por essas classes que se tornam independentes e que fazem dele um delegado ao serviço do seu poder e das suas contradições, das lutas e dos compromissos com as classes dominadas. Já não é a lei transcendente que rege fragmentos, mas tem que desenhar melhor ou pior um todo a que dá a sua lei imanente. Já não é o puro significante que ordena os seus significados, mas aparece atrás deles e depende do que significa. Já não produz uma unidade sobrecodificante, mas até ele é produzido no campo de fluxos descodificados. Já não determina enquanto máquina, um sistema social, mas é determinado pelo sistema social onde se incorpora no jogo das suas funções.” 106 O Estado, enquanto produtor da soberania, é o territorializador e sobrecodificador por natureza, quer dizer, só o que faz é colocar em seu interior determinações, especificações, regulações, legislações, funções: mantém um limite externo que é aquilo que lhe escapa, que lhe representa uma afronta, que lhe é perigoso e que teme mais do que tudo – os fluxos. Sob a soberania do Estado, a captura significa introduzir sob um novo ordenamento e submeter através da obediência e do respeito à sua presença como soberana. Ele se coloca como centro de onde emana o poder – autoridade máxima de legislação e de execução. Mas com o capitalismo a coisa muda de figura. “No Capital, Marx mostra o encontro de dois elementos ‘principais’: dum lado, o trabalhador desterritorializado, transformado em trabalhador livre e nu, tendo para vender a sua força de trabalho; do outro, o dinheiro descodificado, transformado em capital e capaz de a comprar. (...) Um dos elementos depende duma transformação das estruturas agrárias constitutivas do antigo corpo social e o outro depende duma outra série, a qual passa pelo mercador e pelo usurário (...). E mais: cada um destes elementos implica vários processos de descodificação e de desterritorialização com origens muito

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DELEUZE, Gilles e GUATARRI, Félix. O Anti-Édipo. Assírio & Alvim. 2004. p.229.

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diferentes. Para o trabalhador livre: desterritorialização do solo por privatização; descodificação dos instrumentos de produção por apropriação; privação dos meios de consumo por dissolução da família e da corporação; por fim, descodificação do trabalhador em proveito do próprio trabalho ou da máquina. Para o capital: desterritorialização da riqueza por abstração monetária. Descodificação dos fluxos de produção pelo capital mercantil; descodificação dos Estados pelo capital financeiro e pelas dívidas públicas; descodificação dos meios de produção pela formação do capital industrial, etc.” 107 E a lógica do capitalismo é apenas esta: o que descodifica com uma mão, axiomatiza com a outra. A abrangência, a ampliação e a flexibilidade só se dão com a absorção que se resume à produção do lucro. “É assim que se ligam os três segmentos da reprodução capitalista sempre alargada, que definem também os três aspectos da sua imanência: 1.º) o que extrai a mais-valia humana a partir da relação diferencial entre fluxos descodificados de trabalho e de produção, e que se desloca do centro para a periferia, mantendo todavia no centro grandes zonas residuais; 2.º) o que extrai a maisvalia maquínica a partir de uma axiomática dos fluxos de código científico e técnico, nos setores de ‘ponta’ do centro; 3.º) o que absorve ou realiza estas duas formas de maisvalia de fluxo, assegurando a emissão dos dois e injetando perpetuamente anti-produção no aparelho produtor.”
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Quer dizer que temos a instância da produção da mais-valia

através da diferença entre a jornada de trabalho total e o tempo de trabalho necessário para a reposição da força de trabalho (do valor do trabalhador enquanto mercadoria) – trabalho não-pago; temos a produção de tecnologia a partir da lógica capitalista de aumento do lucro a partir da diminuição de custos na produção (paradigma do financiamento); e as formas de realização do valor a partir do consumo (ou fechamento
107 108

DELEUZE, Gilles e GUATARRI, Félix. O Anti-Édipo. Assírio & Alvim. 2004. pp.233-234. DELEUZE, Gilles e GUATARRI, Félix. O Anti-Édipo. Assírio & Alvim. 2004. p.246.

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da cadeia D-M-D’) que muitas vezes é uma estratégia de eliminação da produção, como gastos militares, construções civis ou mesmo compra de produções pelo Estado. Ele reterritorializa aquilo que é desterritorializado pelo capital; ele sobrecodifica aquilo que é descodificado pelo capital: e como um pai que já não controla mais sua filha adolescente e rebelde, tenta consertar e resolver todos os problemas que ela cria, sendo sustentado pela mesma, utilizando-se de sua velha moral para legitimar o que faz.

A micropolítica

Michel Foucault irá revolucionar o pensamento político num sentido específico, que já era apontado pelo próprio Marx no primeiro volume de O Capital, quando trata da disciplinarização do trabalhador. Foucault abre o campo da política ao construir o conceito de poder que não se restringe à teoria da soberania do Estado, mas que evidencia as práticas políticas (relações de poder) nos níveis mais íntimos da sociedade, que fazem os sujeitos continuarem a investir na lógica de produção capitalista. “Mais rigorosamente: a partir do momento em que as coações disciplinares tinham que funcionar como mecanismos de dominação e, ao mesmo tempo, se camuflar enquanto exercício efetivo de poder, era preciso que a teoria da soberania estivesse presente no aparelho jurídico e fosse reativada pelos códigos. Temos, portanto, nas sociedades modernas, a partir do século XIX até hoje, por um lado, uma legislação, um discurso e uma organização do direito público articulados em torno do princípio do corpo social e da delegação de poder; e por outro, um sistema minucioso de coerções disciplinares que garante efetivamente a coesão deste mesmo corpo social. Ora, este sistema disciplinar não pode absolutamente ser transcrito no interior do direito que é, no entanto, o seu

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complemento necessário.” 109 Para tanto, apesar de Foucault em suas obras não dar tanta atenção ao processo de produção capitalista, não se pode desvincular o político do econômico, mesmo quando se tem em mente esses micro-processos de produção do poder que fazem com que a sociedade permaneça dócil. Sem dúvida o poder garante a consistência da perpetuação do econômico, fazendo com que os indivíduos, geradores da realidade, sejam cooptados a agir num sentido específico. Por isso, a subordinação do político ao econômico, apesar de ser logicamente coerente, não pode ser analisada nesses termos, devido a sua força e importância. “O problema que se coloca nas pesquisas de que falo pode ser analisado da seguinte forma: em primeiro lugar, o poder está sempre em posição secundária em relação à economia, ele é sempre ‘finalizado’ e ‘funcionalizado’ pela economia? Tem essencialmente como razão de ser e fim servir a economia, está destinado a fazê-la funcionar, a solidificar, manter e reproduzir as relações que são características desta economia e essenciais ao seu funcionamento? Em segundo lugar, o poder é modelado pela mercadoria, por algo que possui, se adquire, se cede por contrato ou por força, que se aliena ou se recupera, que circula, que herda esta ou aquela região? Ou, ao contrário, os instrumentos necessários para analisá-lo são diversos, mesmo se efetivamente as relações de poder estão profundamente intricadas nas e com as relações econômicas e sempre constituem com elas um feixe? Neste caso, a indissociabilidade da economia e do político não seria da ordem da subordinação funcional nem do isomorfismo formal, mas de uma outra ordem, que se deveria explicitar.” 110 “Não [se deve] tomar o poder como um fenômeno de dominação maciço e homogêneo de um indivíduo sobre os outros, de um grupo sobre outros, de uma classe sobre outras; mas ter bem presente que o poder – desde que não seja considerado de muito longe – não é algo que se possa dividir entre aqueles que o possuem e o detêm
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FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder. Ed. Graal. 2008. p. 189. FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder. Ed. Graal. 2008. p. 175.

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exclusivamente e aqueles que não o possuem e lhe são submetidos. O poder deve ser analisado como algo que circula, ou melhor, como algo que só funciona em cadeia. Nunca está localizado aqui ou ali, nunca está nas mãos de alguns, nunca é apropriado como uma riqueza ou um bem. O poder funciona e se exerce em rede. Nas suas malhas os indivíduos não só circulam mas estão sempre em posição de exercer este poder e de sofrer sua ação; nunca são o alvo inerte ou consentido do poder, são sempre centros de transmissão. Em outros termos, o poder não se aplica aos indivíduos, passa por eles. Não se trata de conceber o indivíduo como uma espécie de núcleo elementar, átomo primitivo, matéria múltipla e inerte que o poder golpearia e sobre o qual se aplicaria, submetendo os indivíduos ou estraçalhando-os. Efetivamente, aquilo que faz com que um corpo, gestos, discursos e desejos sejam identificados e constituídos enquanto indivíduos é um dos primeiros efeitos de poder. Ou seja, o indivíduo não é o outro do poder: é um de seus primeiros efeitos. O indivíduo é um efeito do poder simultaneamente, ou pelo próprio fato de ser um efeito, é seu centro de transmissão. O poder passa através do indivíduo que ele constituiu.” Prossegue, “Creio que deva ser analisada a maneira como os fenômenos, as técnicas e os procedimentos de poder atuam nos níveis mais baixos; como estes procedimentos se deslocam, se expandem, se modificam; mas sobretudo como são investidos e anexados por fenômenos mais globais; como poderes mais gerais ou lucros econômicos podem inserir-se no jogo destas tecnologias de poder que são, ao mesmo tempo, relativamente autônomas e infinitesimais.” 111

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FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder. Ed. Graal. 2008. p. 184.

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A Lógica da Absorção

“Eu vi as nuas simplicidades da complicada civilização na qual vivia. A vida era uma questão de abrigo e comida. Para conseguir abrigo e comida os homens vendem coisas. O comerciante vende seus sapatos, o político vende seu humanismo e o representante do povo, com exceções, é claro, vende sua credibilidade; enquanto quase todos vendem sua honra. As mulheres também, nas ruas ou na sagrada relação do casamento, estão prontas a vender seus corpos. Todas as coisas são mercadorias, todas as pessoas compradas ou vendidas. A primeira coisa que o trabalhador tinha para vender era a força física. A honra do operariado não tinha preço no mercado. O operariado tinha músculos e somente músculos para vender.”

JACK LONDON
O que a vida significa para mim

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Apesar das categorias do capitalismo, de sua empiria, das relações de poder ligadas à soberania do Estado ou mesmo às micro-políticas de disciplinarização do corpo que também são evidentes materialmente, é preciso que fique claro que, como mostramos anteriormente, com respeito ao animal-homem, enquanto constituição no mundo, não se pode separar as questões intelectuais das materiais. O homem percebe o mundo como pensa o mundo – o pensamento organiza a percepção. Por isso mesmo que não podemos agora falar em ideologia, em enganação, pois a realidade é produzida e reproduzida no mundo e nas consciências, enquanto consciência que gera sentido para um mundo sem sentido, para um mundo de encontros e produções. Há um investimento do desejo em sua própria repressão. Não pelo querer, que já supõe uma formatação do desejo, mas por esta própria formatação que produz o querer, que reduz, por exemplo, a vida à mera sobrevivência, apenas a uma “questão de abrigo e comida”, ou seja, à reprodução do status quo ou de qualquer existência alienada que apenas aceita e se entrega a um sistema que funciona (seja como for), sem nunca assumir a produção da realidade como uma ação, sem quebrar com a “naturalidade” das coisas. Mas tal posição na Natureza, como já dissemos, não é uma postura do querer e sim uma revolução no desejo: nas maneiras como se efetuam as ligações, com o que se liga, o que se produz. É por isso que a guinada niilista não pode ser evitada. É preciso desconstruir qualquer positividade que nos habite para que se faça variar as potências naturais, selvagens, descodificadas, desterritorializadas e não-axiomatizadas. Não se pode querer mudar. A mudança é o cume de um processo muito mais complexo que quer se desamarrar de toda a rigidez que uma sociedade consegue nos impor – livrar-se da modernidade que somos, nos mais íntimos cantos, livrar-se do capitalismo que somos e que captura constantemente axiomatizando os fluxos, como fluxos pertencentes à lógica do lucro, da produção, do trabalho. “No fundo, temos que produzir a verdade como temos que produzir riquezas,

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ou melhor, temos que produzir a verdade para poder produzir riquezas. Por outro lado, estamos submetidos à verdade também no sentido em que ela é lei e produz o discurso verdadeiro que decide, transmite e reproduz, ao menos em parte, efeitos de poder. Afinal, somo julgados, condenados, classificados, obrigados a desempenhar tarefas e destinados a um certo modo de viver ou morrer em função dos discursos verdadeiros que trazem consigo efeitos específicos de poder.” 112 Dentro da lógica capitalista, “Já não são as pessoas que são marcadas, mas estas quantidades: ou o teu capital ou a tua força de trabalho – o resto não tem importância nenhuma porque havemos de te apanhar nos limites alargados do sistema, ainda que seja preciso fazer um axioma especial para ti.” 113 As atitudes revolucionárias do querer acabam voltando-se contra si mesmas, seguindo o imperativo da Natureza “do que não mata, fortalece”. “Esse sistema requer constante perturbação, distúrbio, agitação; precisa ser permanentemente empurrado e pressionado para manter a própria elasticidade e capacidade de recuperação, para assenhorar-se de novas energias e assimilá-las, para locomover-se na direção de novas alturas de atividade e crescimento. Isto que dizer, porém, que todos os homens e movimentos que se proclamem inimigos do capitalismo talvez sejam exatamente a espécie de estimulantes de que o capitalismo necessita. A sociedade burguesa, através de seu insaciável impulso de destruição e desenvolvimento e de sua necessidade de satisfazer às insaciáveis necessidades por ela criadas, produz inevitavelmente idéias e movimentos radicais que almejam destruí-la. Mas sua própria necessidade de desenvolvimento habilita-a a negar suas negações internas: ela se nutre e se revigora daquilo que se lhe opõe, torna-se mais forte em meio a pressões e crises do que em tempos de paz, transforma inimizade em intimidade e detratores em aliados

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FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder. Ed. Graal. 2008. p. 180. DELEUZE, Gilles e GUATARRI, Félix. O Anti-Édipo. Assírio & Alvim. 2004. p.262.

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involuntários. (...) Sabemos que até mesmo as idéias mais subversivas precisam manifestar-se através dos meios disponíveis no mercado.” 114 David Harvey lança mão de um esquema que compreende a sustentação da sociedade como um todo, cujos elementos todos têm importância crucial, o que serve de alerta para posições específicas que tomam por sustentáculo apenas um de seus aspectos.

Esse esquema serve para mostrar como está associada a produção da sociedade, ou como esta está conectada, maquinando para a produção das relações que dela dependem e sendo composta por inúmeras relações que podem ser percebidas como constituintes de certo grupo. Assim, as tecnologias que mantêm uma relação direta e objetiva com o

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BERMAN, Marshall. Tudo que é sólido desmancha no ar. Cia. das Letras. 2006. p.135

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ambiente, utilizando-se dele para sua própria constituição (materialidade da tecnologia), assim como para o suprimento das necessidades criadas pela sociedade e o conseqüente impacto que produzem. Tais tecnologias são utilizadas dentro de certos processos de trabalho, inclusive coordenando-os, numa relação de mistura que já não se sabe onde começa um e termina o outro. Os processos de trabalho geram e criam as formas para se sustentar a reprodução da vida cotidiana, com seus hábitos, a ordenação do tempo, formas de consumo e meios de se produzir efetivamente aquilo que os indivíduos da sociedade almejam. Configurada a vida cotidiana, se estabelecem também as relações sociais, a divisão social e espacial dos indivíduos, organizam-se as instituições, os deveres e direitos dos cidadãos, o que não poderia ser constituído sem o apoio de concepções mentais, da mesma forma que as influenciam, para que dêem conta de uma realidade que se faz presente. As concepções mentais, variando em objetos, e em soluções para aquilo que vislumbra, fazendo parte de uma composição social, geram novas tecnologias que renovam e perpetuam os arranjos que perpetuam a sociedade, colocando-a num movimento histórico. Ainda assim, não devemos pensar ciclicamente, mas num sistema em tensão, que modifica-se e produz modificações indeterminadas, ainda mais quando se trata de uma sociedade que possui por princípio o surgimento de novidades que estão sempre ampliando a capacidade de repor as categorias do sistema.

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CONCLUSÃO

Por fim, retornamos ao começo. E encontramos apenas máquinas. Na empreitada de “Destruir crenças e representações (...). [Onde] há apenas resistências e depois máquinas, máquinas desejantes.”
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Máquinas no sentido de moléculas que interagem,

que criam conexões de forma indeterminada, determinando-se e gerando novas potências, fazendo o real variar ainda mais, ampliando o alcance e o horizonte da ação. Máquinas biológicas, orgânicas, moleculares, desejantes: ansiedade de estabelecer conexões que então funcionarão por conta própria. Máquinas porque não representam nada além do que são, do que se produzem como ser, Natureza como produção e nada mais. As organizações criam o nível molar, dos movimentos de massa, de uma multidão de moléculas, produção de novas máquinas, como máquinas já constituídas e determinadas. Fazer o desejo variar, produzir no nível molecular: eis o desafio! Máquinas que cortam fluxos e interações de forças, passam a existir notavelmente, estabelecem singularidades = encontros. Natureza maquínica, vida bruta, transvaginação,

deformidade, limite da velocidade que distorce o que se aproxima do limiar da desintegração, torção dos corpos, beira, bêbado-equilibrista, no fio da produção, linha sem dimensão entre aqui e agora, entre espaço e tempo, entre virtual e atual, viragem, dobra, soluço do real. Corda bamba da esquizofrenia, porque descobre que sob a terra, encontram-se apenas partes, apenas pedaços – pedaços que se combinam e que já geram resultantes. Grande dança do universo, enquanto as super-cordas vibram e criam os pequenos ritmos de uma sinfonia universal, de uma ópera que conta a história de si mesma. Energia freqüencial, ligaduras, ligaleves, à distância, que no entre cantam, figuram tons, harmonias, dissonâncias e a Natureza a tudo ama, ama a si mesma, não há

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DELEUZE, Gilles e GUATARRI, Félix. O Anti-Édipo.

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certo nem errado, apenas vida e morte, aniquilação e surgimento; por isso um jogo torto, desconcertante, do caos que não existe em si (apenas encontros que não fazemos idéias, que não compreendemos, os quais não cabem, não servem e alucinadamente se produzem, até com uma rapidez absoluta de uma rocha milenar que espera pela maré no cume da montanha). Nada é, por isso esqueça a dialética! Tudo se afirma e se encontra, tudo soa... e se nega, é porque afirma antes de ser, afirma antes de conceber, produz no impessoal e no pré-individual. Gênese dinâmica do devir, verbo, ser neutro do tornar-se e não do negar-se: quem vê o não, lambe a rebarba de um movimento absoluto. Sim! O que é Natureza?! O silêncio inaudito da vida maquinando sua própria produção. Aqui e agora, abençoando todo o passado no entretempo dos momentos. A meta não é mais exterior à ação, não existe um sujeito que quer algo, mas a vontade é sempre um querer algo, em que não se deve separar a meta do próprio ato de querer. Mas torna-se essa máquina que somos, transformar-se nessas máquinas que constituímos é abafado pelo próprio ímpeto de manutenção do corpo. Nietzsche falava de forças ativas e reativas. Não há melhor nem pior, apenas encontros que fazem as máquinas funcionar, ou não, potencializando, gerando a grande alegria, da criação, ou enferrujando, perdendo sua capacidade de existir, infeliz tristeza spinozista. As forças reativas que compõem os corpos se colocam em reverência às nobres forças ativas de geração. Porém, implacável produtora, os investimentos são generalizados e tudo quer se potencializar, eis o grande jogo. As forças reativas, se não são adequadamente alimentadas e suplantadas pelas forças ativas, naturalmente tomam conta. O corpo, perdendo sua capacidade de criar e de autoperpetuar sua existência enquanto produtor, quer apenas “comer e habitar”, sobreviver e gozar – constrói para si um corpo passional, dependente da produção ativa que vem de fora e se regozija com os pequenos prazeres, transforma-se num moribundo que suga a vida do que é vivo. Vira o vampiro, ídolo do capitalismo, sugador de vida para se manter

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vivo. Temos uma ontologia milenar produtora de corpos podres e formatados – corpos que relegam ao mundo de lá, ou seja, ao nada, suas potências de agir, abstendo-se da vida em nome da segurança, do bem-estar, dos aplausos de companheiros que possuem todos os caminhos predeterminados e felicitam-se uns aos outros quando vêem um dos seus seguir a mesma trilha para a morte... “pois as pessoas da sala de jantar só pensam em nascer e morrer”. Em nada lhes toca a vida, apenas como dor remediável. “(...) o elogio e a promoção da atividade maquinal. Essa atividade diminui o sofrimento e é por isso que se fala em ‘bênção do trabalho’. O princípio dessa anestesia é afastar a atenção do sofredor de seu próprio sofrimento, ocupar sua consciência com uma atividade constante, de modo tal que sobre pouco espaço para o sofrimento. É a nossa sociedade ‘disciplinar’ que promove o trabalho maquinal, com tudo aquilo que lhe é próprio: regularidade, obediência pontual e incondicional, um modo de vida inteiramente fixado, um tempo totalmente ocupado. Como conseqüência, tem-se a impessoalidade, o esquecimento de si imposto pela disciplina. (...) existe ainda a prescrição da ‘pequena alegria’, como um remédio muito apreciado contra a depressão. Essa ‘pequena alegria’ é a alegria de causar alegria ao próximo, fazendo algum benefício, presenteando, aliviando, socorrendo ou consolando. (...) Essa felicidade de uma ‘pequena superioridade’, sempre embutida em todo ato de ajuda ao próximo, é um bom meio de consolo dos fracos”
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E essa mistura de querer e não sofrer, amplia e contamina,

tornando a presença do outro o incômodo despertar para o pesadelo do ressentimento, da reconsciência, que toma conta, apoiado na tendência a se manter em grupo. “‘Nós queremos, um dia, não ter mais nada a temer’ (...) A vontade e o caminho que conduzem a este ponto se chamam hoje em dia (...), o ‘progresso’. (...) Se a moral do rebanho aspira como sua ‘felicidade’ à segurança, à falta de perigos, ao bem-estar, à facilidade

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NIETZSCHE apud MOURA, A. C. R. (2005, pp.153-154)

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da vida, no final, se tudo der certo, ela ‘espera subtrair-se também a todo gênero de pastores e de guias’. Em outras palavras, o “nada a temer na convivência” desenha agora o estado futuro de um rebanho tão bem domesticado que pode dispensar-se até mesmo de qualquer chefia.” 117 A captura do desejo, da potência da natureza de criar ligações é realizada por diferentes atores. Porém não devemos interpretar os fatos como indivíduos mal intencionados. “o ideal ascético nasce do instinto de cura e proteção de uma vida que degenera, a qual busca manter-se por todos os meios e luta por sua existência. (...) Assim, esse aparente inimigo da vida é, na verdade, uma potência conservadora e afirmativa da vida. Mas da vida adoecida...” 118 E só pode haver força criativa da grande saúde, quando o próprio indivíduo desaparecer, quando as identidades, o Eu ou o Eu (da enunciação), o livre-arbítrio, forem abandonados por um ato de lucidez súbita. “A sociedade educa primeiro os indivíduos, os reforma como indivíduo médio ou total, ela não se forma de indivíduos isolados, nem por contratos entre eles. Somente como ponto nuclear é necessário, no topo, um indivíduo. Por conseguinte, o Estado originalmente não oprime o indivíduo, porque este não existe (...) É o libertário individualista que parte da idéia ingênua de pessoa privada, como uma unidade pré-constituída e atômica, tal como esta foi sedimentada em nosso imaginário pelo contratualismo, e desde então sente-se à vontade para forjar, através dela, uma oposição de princípio entre o indivíduo e os poderes sociais, sem se dar conta de que esse indivíduo foi produzido e construído pela própria sociedade, e por isso mesmo não pode ser, de forma alguma, seu oposto ou rival”
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“As pessoas são os simulacros de um conjunto social cujo código é

inconscientemente investido por si mesmo. E é por isso que o amor e o desejo apresentam índices ou reacionários ou revolucionários; estes últimos aparecem, pelo
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NIETZSCHE apud MOURA, A. C. R. (2005, pp.95-96) NIETZSCHE apud MOURA, A. C. R. (2005, pp.152-153) 119 NIETZSCHE apud MOURA, A. C. R. (2005, pp.176-177)

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contrário, como índices não figurativos, em que as pessoas são substituídas por fluxos descodificados de desejo, por linhas de vibração, e em que os cortes de imagens são substituídos por esquizes que constituem pontos singulares, pontos-signos com várias dimensões e que fazem passar os fluxos em vez de os anular.”
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É toda uma batalha

para abandonar a moral e conseguir enxergar o mundo com olhos límpidos, novos, que não tenham pressupostos, que inegavelmente são “o império dos mortos sobre os vivos”. “(...) o valor do mundo se encontra em nossa interpretação (que talvez, em qualquer outro lugar, são possíveis outras interpretações, distintas das simplesmente humanas); que as interpretações até agora admitidas são avaliações perspectivas, em virtude das quais nos conservamos na vida, ou seja, na vontade de potência, no aumento da potência; que toda elevação do homem traz consigo a superação de interpretações mais restritas; que cada consecução de nova força e de extensão da potência abre novas perspectivas e significa crer em novos horizontes. O mundo que nos interessa é falso, isto é, não é um fato mas uma fantasia e um ajuntamento de uma escassa soma de observações; ele é fluido, como coisa que devém, como uma falsidade que continuamente se desvia, que não se aproxima nunca da verdade, porque não há ‘verdade’ alguma.” 121 Assim como cada organismo terá o seu mundo próprio, o homem também constitui um mundo próprio que se compõe por sua percepção, por sua ação e pelo ambiente. “A pele é o mais profundo”. O pensamento constrói um arranjo, uma grade, faz a intermediação entre estes, organiza uma máquina. Dessa forma conseguimos vislumbrar o que é essa potência da Natureza em ato, o virtual e o atual, ambos reais, que constituem o real. O arranjo imaterial (porém real) que o pensamento é capaz de produzir, não diretamente, positivamente, mas remodelando seus caminhos, criando novas pontes, novas conexões neuronais, fazendo com que o corpo perceba de uma certa maneira, se
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DELEUZE, Gilles e GUATARRI, Félix. O Anti-Édipo. Assírio & Alvim. 2004. p.384. NIETZSCHE apud MOURA, A. C. R. (2005, p.202)

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abra para certas possibilidades de ação, que constitua assim o seu meio ambiente, já que fará surgir aquilo que está diretamente relacionado à sua possibilidade de ação (formas, cores, distâncias, simultaneidades, sinais, etc.). O ambiente geográfico compõe-se pela continuidade do corpo/ambiente através da percepção, do comportamento e da ação (cristalizada em direção ao espaço, registrada na matéria e prenhe de sentido cultural). A teoria se inscreve aqui, não como uma orientação para a ação, um fim calculado pela especulação, uma certeza moral até mesmo irrefletida, mas como configurações do que se percebe, da abertura do corpo ao apreender e ao agir. Da primeira síntese do tempo, a do hábito, que gera uma lembrança orgânica ao constituir caminhos repetidos e fixos, passamos para a segunda síntese do tempo, da memória, seletiva, que lida com o diferente e que se apropria das lembranças imateriais para dar sentido à situação presente e agir diferentemente de como o corpo agiria por reflexo. Até que encontramos a terceira síntese do tempo, do tempo desvairado, aiônico, que atravessa o passado, o presente e se reencontra com o futuro, já num abandono do Eu e do Eu, regresso inédito ao –se, à produção criativa que elabora em ato novas formas de experiência, novos modos de vida, novas linguagens, imanência da existência, potência máxima da vida em criar-se a si mesma, homem-natureza sem qualquer fronteira. São também os três gêneros de conhecimento de Spinoza: a consciência, como o surgimento das marcas produzidas pelos encontros dos corpos, um registro como efeito de misturas; a razão, em que os encontros começam a ser entendidos, seus funcionamentos, de se explorar o que está fora como algo que se refere ao que já existe; a ciência intuitiva, como poder de invenção e de rigor, produção efetiva da diferença para além da Moral e da Verdade (que seriam encontradas pela razão), para além do Bem e do Mal. Mas nesse horizonte que aparece quase idílico, é preciso arremessar uma pedra e perfura este quadro romântico que começa a ser pintado. A força do rebanho sem pastor,

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da auto-perpetuação da sociedade, através de suas instituições e dos valores morais mais enraizados, do altruísmo, amor ao próximo, negação de si, justiça, etc. é fortíssima. As tecnologias de controle, o marketing, a psicologia e a educação, a família, formam uma teia que torna o sujeito dócil para a vida em sociedade e para a aceitação das mais terríveis atrocidades. Como pano de fundo o fetiche de uma sociedade que foi produzida por homens, que é sustentada por homens, porém, que conta com mecanismos assustadoramente complexos, que nem os deuses poderiam sonhar. O sagrado trabalho, o consumo e a circulação de dinheiro como equivalente universal de troca. As novas formas de perpetuar a dívida infinita (pecado original), através do crédito, da lógica empresarial de recompensa por mérito, a indissociabilidade entre as esferas do cotidiano, um continuum regulador que permeia a família, a escola, o trabalho, o indivíduo até em seus mais íntimos sonhos – uma sociedade que elabora suas formas de socialização, adestrando os corpos para que, em última instância, reproduzam o sistema capitalista revolucionário, fornecendo-lhe exatamente o que precisa: sangue fresco de trabalho vivo e sangue novo roubado pela acumulação por despossessão. O capitalismo possui suas fraquezas, seus pontos de crise que podem resultar em seu colapso. Mas de nada adianta o colapso da economia, conquanto ainda permaneçam impregnadas nos sujeitos as categorias que lhes sustentam. É necessário um movimento simultâneo. Entender o capitalismo até o ponto em que seu funcionamento se torne intuitivo, que a ação não dependa de um objetivo moral, mas que se constitua como limagem, como criação das condições do colapso irreversível. Ação de fungos, que só aparecem quando todo o substrato já está contaminado. O maior instrumento para o combate que temos é a cartografia. Mas é preciso que se produza uma cartografia mais complexa, cartografia do desejo, das micropolíticas, das macropolíticas, das tecnologias, das crises, das distribuições. No entanto, uma cartografia

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nômade, que não territorializa, mas que, pelo contrário, desterritorializa, antes mesmo do capitalismo. Fica uma vaga intuição. A certeza de que é apenas através da criação das máquinas-moleculares-revolucionárias, grupos constituídos pela destruição de si próprios, pela sua aniquilação enquanto desejos socializados, capturados, massa, potencializando as forças e os devires-bárbaros que permeiam os entre das ações.

“Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas que já têm a forma de nossos corpos e esquecer os nossos caminhos que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia. E se não ousarmos fazê-la teremos ficado para sempre à margem de nós mesmos.”

Fernando Pessoa adaptado por Antônio Abujamra

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