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A atualidade do Estatuto da Terra

A Lei nº 4.504, de 30 de novembro de 1964, promulgada pelo então presidente da República


Humberto de Alencar Castello Branco, surgiu como resposta às lutas e reivindicações dos
movimentos sociais pré-64, que exigiam profundas mudanças estruturais na propriedade e no uso da
terra no Brasil.

O Artigo 16 do Estatuto da Terra afirma que “a reforma agrária visa estabelecer um sistema de
relações entre o homem, a propriedade rural e o uso da terra, capaz de promover a justiça social, o
progresso e o bem-estar do trabalhador rural e o desenvolvimento econômico do País, com a
gradual extinção do minifúndio e do latifúndio”. Já a Constituição de 1988, no seu Art. 5º, incisos
22 e 23, garante o direito de propriedade condicionado ao atendimento da sua função social.
Adicione-se a Lei Agrária (nº 8.629/93) e a Lei Complementar que trata da ação de desapropriação
(nº 76/93) e temos a essência do arcabouço legal para a implementação da reforma agrária no
Brasil.

Importante afirmar que reforma agrária é o conjunto de medidas que visa promover – mediante a
redistribuição da propriedade e do uso da terra acompanhada de políticas públicas (federais,
estaduais e municipais) de apoio à produção, comercialização, educação, saúde e habitação – a
integração do assentado no mundo dos direitos e também no processo produtivo nacional. Portanto,
reforma agrária não significa somente a redistribuição da posse e uso da terra. A reforma agrária
serve para desconcentrar e democratizar a estrutura fundiária, gerar ocupação e renda, diversificar o
comércio e os serviços no meio rural, reduzir a migração campo-cidade, interiorizar os serviços
públicos básicos, democratizar as estruturas de poder e promover a cidadania e a justiça social.

Surpreendentemente, alguns setores da sociedade brasileira afirmam que não existe mais a questão
agrária no Brasil, portanto não haveria mais a necessidade de realizar a reforma agrária. Gostaria de
relembrar os alertas do saudoso professor Florestan Fernandes para o fato de que até hoje não se
realizou nenhuma reforma estrutural neste País. As elites e as oligarquias sempre conseguiram
abortar a concretização de reformas estruturais, como a agrária – condição indispensável para o
desenvolvimento econômico e social de qualquer país.

A origem e a razão fundamental para a realização da reforma agrária reside, ainda, na grande
concentração da propriedade da terra, pois o Brasil é sabidamente um dos países com a pior
distribuição fundiária do mundo, cujo Índice de Gini se situa, desde 1940, em torno de 0,80.

O Brasil possui uma área total de 850 milhões de hectares. Desses, 418 milhões estão cadastrados
no Incra. A distribuição dos imóveis rurais cadastrados, por tamanho de área (dados de 2003),
revela que aqueles com até 100 hectares representam 86,3% do número de imóveis e 19,7% da área.
No outro extremo, os imóveis acima de mil hectares representam 1,6% do número e 46,8% da área.
E mais: recente apuração especial realizada pelo cadastro do Incra, em novembro de 2003, indicou a
existência de 58.329 grandes propriedades classificadas como improdutivas que ocupam 133,8
milhões de hectares.

Aí reside a origem dos conflitos pela terra, da injustiça social no meio rural e, principalmente, da
grilagem, do trabalho escravo, da violência e da destruição do meio ambiente. São milhões de
famílias sem terra ou com terra insuficiente que exigem a democratização da propriedade, do poder
e da riqueza. Razões que fundamentaram a elaboração do Estatuto da Terra e que reforçam a idéia
da sua atualidade.

Por reconhecer a gravidade da situação do campo e por seus compromissos com a população rural
sem terra, o governo Lula está implementando o II Plano Nacional de Reforma Agrária (PNRA).
Nesses dois primeiros anos, decretamos mais de 1,5 milhão de hectares para a reforma agrária,
assentamos mais de 100 mil famílias, estamos recuperando o passivo ambiental dos assentamentos,
atendendo mais de 110 mil alunos pelo Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária
(Pronera), implantando um novo sistema de Assessoria Técnica, Social e Ambiental (Ates) visando
a cobertura de 100% dos assentamentos, mais do que duplicamos o valor dos primeiros créditos aos
assentados, estamos viabilizando a energia nos assentamentos, dentre outras ações.

Essas 100 mil famílias representam a criação de 300 mil a 350 mil empregos diretos nos
assentamentos e, aproximadamente, 100 mil indiretos. Esse é um dos principais fatores da
atualidade da questão agrária e que demonstra o quanto a implementação do II PNRA contribui para
cumprir o compromisso do presidente Lula de gerar milhões de empregos em nosso País.

A produção agropecuária do setor empresarial, da agricultura familiar e dos assentamentos é


fundamental para a economia brasileira, assim como a efetivação da reforma agrária para a
promoção da justiça social, a paz no campo e o desenvolvimento econômico, com recuperação e
preservação ambiental, que são os parâmetros do cumprimento da função social da propriedade da
terra.

Os quarenta anos do Estatuto da Terra nos reafirmam o imperativo de construir políticas públicas
consistentes e de longo prazo para o meio rural brasileiro.

Rolf Hackbart, presidente do Incra