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APORIA LÍRICA

Autor: Djalma Silveira


Categoria: Poesia

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Nirvana

“Felicidade
foi-se embora
e a saudade no meu peito
‘inda mora
e é por isso que eu gosto
lá de fora
por que sei que a falsidade
não vigora”

Voei distante a bordo do meu pensamento


Por um momento pensei mesmo viajava
Não planejava, só planava em meio ao vento

Não apressava e então fluía, mesmo lento


A tudo atento, enquanto a brisa me soprava
Acompanhado de fragrâncias de óleo bento

Dos mil perfumes, um por um saboreava


Não me importava quanto tempo duraria
Nem onde estava nem ao menos onde iria

Só sei que estava no lugar que mais queria


E onde iria - sei - ninguém me aguardava
Desafiava, mas ninguém me perseguia

...

Fiz do meu sonho a tocha acesa em pleno dia


Que me queimava, mas sua luz não atingia
Os olhos parvos de quem nunca me enxergava

Como entedia o pensamento à mente escrava


Não compreendia o que vãmente aguardava
Tão conformada co’a esperança d’outro dia

Se, como escrava, facilmente se iludia


O que diria de sonhar então liberta
Estando alerta ao que este mundo oferecia

Quem sabe um dia! - a esperança ainda resta


A maior festa seja a busca da harmonia
E da alegria plena que ela nos empresta

...

Me emocionava esse brincar em pleno dia


Mesmo vadio, já não mais me preocupava
Com que faria ou por que não trabalhava

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Não me iludia, pois em sonho sei que estava
Onde a verdade virou pó num pensamento
E num momento - percebi - me libertava

A luz intensa que, então, se apresentava


Uma janela aberta para o firmamento
Um novo plano que p’ra mim se anunciava

Não lamentava aquela mesa assim vazia


Nem o silêncio, onde ninguém me incomodava
Nem a palavra inacabada que escrevia

...

A poesia derradeira s’estendia


Por amplos campos, verdejantes, perfumados
Com bandos d’aves revoando ao meu lado

Como eu, rumavam tendo a luz como seu guia


Cujo cortejo, em euforia acompanhava
Enquanto ria das lembranças que guardava
E quanto mais daquela luz me aproximava
Daquela luz que tudo como qu’apagava
Não enxergava, mas incrível o que sentia

Senti qu’as dores mais agudas se curavam


Enquanto as mágoas oriundas do passado
Se dissipavam quando, enfim, as compreendia

...

Senti que tudo estava a mim conectado


E ter chorado, enquanto aos poucos descobria
Que renascia ao ser de que fui apartado

Então me vi convulsionando debruçado


De mãos abertas sobre a mesa que as prendia
Entre as paredes que têm sempre m’amparado

Mas não me via com os olhos do passado


Que marejados já de tudo desistiam
Pois não sabiam que hei de ser sacrificado

E nesta via, hei de ser também testado


E, com espinhos, ser vilmente coroado
E, humilhado, sofrerei com alegria

Só neste dia, sendo enfim crucificado


Tendo ao meu lado dois ladrões em agonia
Recordaria que já fui ressuscitado

(D.S.)

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Brasil

Brasil
Pêra verde sangue
Coração de mangues
Vastos litorais

Brasil
O coração do mundo
Os pulmões da Terra
De Santos Dumont

Brasil
Lar da Boa Gente
Cujos governantes
São todos boçais

Brasil
Lágrimas nos olhos
Coração pulsante
Cais dos europeus

Brasil
Todos teus nativos
Brutalmente mortos
Restam imortais

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No sangue perdido
Ou gerando o filho
Do inimigo atroz

Brasil, Brasil
Das verdes matas
Da pele trigueira
Do Cristo Redentor

Brasil
Do carnaval alegre
Onde a força cede
Ao poder do amor

Brasil
Gente diamante
Gente diademas
Amo seu ardor

Brasil
Coração ardente
Sol Incandescente
Céu azul anil

Brasil
Noites estreladas
E as peles suadas
De fazer amor

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Brasil, Brasil
Dos lindos campos
E dos vastos bosques
Puro esplendor

Brasil
Por toda parte é lindo
Pura cor e cheiro
E também sabor

Brasil
Terra de puro sangue
Sangue de toda raça
Raça em toda a gente

Brasil
Terra colossal
Mesmo os meninos
Herdam tua grandeza

Brasil
Te honra o sertanejo
Te honra o carioca
Te honra o gaúcho
Te honra o caipira
Te honra o mineiro
Mas é longa a lista
Desde o índio bravo
Ao bravo paulista

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Brasil
Teu sangue é teu povo
Não te enganes nunca!
Que essa gente mansa
Quase nunca cansa
A dizer sim senhor

Mas se levantar
Fazendo do peito
Bandeira hasteada
Com sangue nos olhos
E nas mãos navalhas

O verde das matas


Verterá em sangue!

Ouça, ó pátria amada


Essa gente doce
Que humildemente
Diz estar cansada

(D.S.)

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Carmina gitana

Deusa gitana
Envolta em vermelho
Cabelos revoltos
E flor entre os seios

Que bailas qual louca


Qual as castanholas
Olhando nos homens
Com olhos de cobra
Que mordes e matas
Enquanto os afastas

De pele morena
De coxas miragens
Teus peitos oásis
Me trazem o deserto
Quando me rejeitas

Oh dentes tão brancos


Quando me sorris
Aponta-me olhares
Cheios de ardis

Balanças os braços
E bates os pés
Pisando nos olhos
Que em vão se atiram

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Enquanto a guitarra
Vibra ardentemente
Queimando o ar
Que arde inclemente

Plantando desejo
No chão do meu peito
Vermelho igual brasa
Furando o espeto
Rompendo-me a carne
Tragando-me a alma

Oh, Carmen, tão linda


Pintura de abismo
Não há quem não dance
Buscando teu ritmo

A boca mais rubra


O sorriso inocente
A tua virilha
É um pasto indecente

Teu passo e compasso


Se marcam em meu peito
Me pisa, me morde
Se queres, aceito

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Não pisco ou engulo
Nem penso encantado
Com a fúria que gritas
Sobre o tablado

Que espancas c’os pés


Feliz miserável!
Abrigando tua dança
Furor incansável!

A turba de machos
Se agita também
Batendo as canecas
Iguais as idéias
Que pairam além

Milhares de rosas
Jogadas ao chão
Que pisas e chutas
Nos olhos que não
Enxergam mais nada
Além da emoção

Que riam e dançam


E choram até!
No peito que explode
Gritando: Olé!

(D.S.)

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À Mulher de vinte e um anos

(singela homenagem a todas as mulheres, que

vivem ou viveram essa belíssima fase da vida)

A mulher de vinte e um anos


É tão doce, tão madura
Delicada e segura

Amainada já a loucura
Dos anteriores anos
Tão rebeldes, levianos

A mulher, aos vinte e um anos


Tem um quê de compostura
E completa envergadura

É menina, sem frescura


Torna os olhos sãos insanos
De rapazes e de “ansianos”!

A mulher com vinte e um anos


Tem sorriso de criança
Mas, no corpo, exuberância

Na memória, há só infância
No futuro, muitos planos

Eu, que tenho muitos anos


Nunca amei tanto em nenhum!

Desse amor que rasga os panos


À mulher de vinte e um

(D.S.)

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Pudera

Pudera simular a flor


Composta de pura letra e palavra
Impregnada da cor e do cheiro
E do sentimento e da dor
De quem a empunha

Pudera conter a matéria


Na pura essência do signo
Revelada luz aos olhos de quem lê
Consubstanciada aos sentidos

Pudera liberar o tesão e o sorriso


Curar a dor, parar o tempo e o medo
E instigar a alma e a nobreza
Que contém o âmago de todo homem

Pudera eu, pudera a poesia


E o néctar que dela se destila
Estalar na boca e melar nos dedos
Sem quimeras, ou segredos

Pudera eu fazê-lo, pudera eu fingi-lo


Pudera fingir a dor que me causa
O privar-me do prazer extremo!
Inimigo atroz que infantilmente temo

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Pudera me fingir capaz desta alquimia
E lograr, assim, dela abster-me
Pudera eu fingi-lo, pudera eu fazê-lo
Pudera eu... sequer um dia.

(D.S.)

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O espelho quebrado

Lavei as lágrimas na mais fria água.


Ao secar meu rosto, de olhos fechados,
Senti teus cabelos, seu cheiro de novo.

Teu perfume tão pronunciado


Me preveniu de abrir os olhos novamente.

Abracei-me a mim mesmo comprimindo os braços


Sufocando a dor candente no meu peito,
Colorindo o breu com teu retrato.
A sentir de novo o teu contato.

Arranhando a pele, vi que o sangue não brotava


Como que cimentou-se após sua partida.

Girando em torno do meu eixo,


Todas as lembranças reapareceram,
Como um carrossel à minha volta.
E você narrava tudo, como fosse um filme.

A dor da tua ausência


Só reflete a intensidade da tua pretérita companhia.
E a morosidade dos dias presentes só o parece
Em contraste com a lepidez do tempo que compartilhamos.

Mas, que fazer com os caminhos que abriste na alma?


As sendas tão iguais sem ti para me apontar o dedo!
Tudo demasiado leve, pois não há mais teu peso.

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Veio-me uma sucessão de luares e auroras
E crepúsculos e outros belos lugares,
Dos quais descobri ter gravado cada minuto.

Foi quando me vesti com tuas cores,


Me perfumei com o teu inigualável cheiro.
Senti vibrarem nos lábios as canções que mais gostavas
Quando a lembrança dos teus beijos me arrancou os pés do chão.
Ou teria sido o chão que, então, desaparecera?

Nunca antes percebera como a brisa


Combina tão perfeitamente com o breu.

Senti teu espírito tocando o meu rosto, me acariciando


E tal frescor se apossou de minha alma...
Como quando repousavas
Junto a mim nas noites frias de inverno.

Até que percebi que tuas carícias já não vinham de fora,


Mas se expandiam desde dentro!
Senti tua presença me dominando como um surto,
O amor como reordenando os órgãos
E, finalmente, tua voz, que, ao abrir os olhos
Reconheci, pois confundia-se à minha.

(D.S)

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Cinzas de carnaval

Recolhi a noite presa entre os lençóis


Tentando, em vão, estancar
a incontinência das lágrimas.

Beijei teu lábio, preso ao copo,


onde a água preservou teu gosto.

Nunca senti tamanho frio


como o que me trouxe a brisa
naquela manhã de quarta-feira.

Todo o quarto rescindia a cinzas...

A alegria, de tão grande,


se consumira inteiramente?!

Nada. Nada restara da noite passada.

Somente teu rastro até a porta


e o vestido branco que rasgaste.

Fechei os olhos a buscar-te em sonho,


mas tua existência, de tão breve,
não deixou sequer lembrança.

Somente cinzas, que carrega a brisa,


quando se incinera o tempo.

Somente cinzas, sem nenhum pedaço.


Sem um traço de morte, ou de vida.

Cinzas de quando tudo para


por motivo tão banal.

Daquilo que não dá notícia:


Cinzas de jornal.

Cinzas do lixo dos dias.

Cinzas de carnaval

(D.S.)

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De braços dados com a solidão
(sobre a razão na insanidade)

Cansado de chorar por sua causa


Não somente por vocês que me leem
Mas também por toda e qualquer mulher amada

Decidi seguir nova jornada


Eu e a tantas vezes rejeitada
Mas a mim predestinada: a solidão

Tanto há de perseguir meu coração!


Por que hei de prosseguir co´a vista turva
Se, a cada curva, a vida muda a direção?

Se dissiparam minhas lágrimas na chuva


Toda tristeza que sofri sumiu também
Se acostumar, a solidão me cai tão bem!

Se ajusta a mim como uma mão se ajusta à luva!


Eterna noiva, a solidão é o que convém
Àquele que já não se ajusta a mais ninguém

Peço que digam aos leitores que me veem


A rir sozinho e declamando em altos brados

Que somos eu e a solidão, de braços dados


A rir dos que, desesperados, nunca a têm

(D.S.)

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Um poema orgulhoso de ser samba

Tão quentes quanto o fogo quando dança sobre a brasa


Os músculos vibrantes da mulata, quando dança
Refletem nossa alma que, pacata, não descansa
Nos flashes dos olhares que se lançam sobre ela

Que linda esta menina, quase deusa de tão bela!


O negro dos cabelos reluzindo na avenida
Que triste ficaria a terça-feira na favela
Se não houvesse o samba p´ra alegrar a nossa vida

Que triste aquela branca que, ao chamá-la de perdida


Não vê que a própria filha, tão querida, faz calada
As coisas que imagina que esta deusa então faria
Buscando a alegria, sempre em vão, numa balada

Que coisa deu na gente ao ver o quanto ela sorria


Sentindo a energia que, a vibrar entre os quadris
Fletia nas ondulações viris das suas coxas
Qual ninfa aquela moça de feições quase infantis!

As lentes que tornavam os seus olhos tão azuis


O reluzir de ouro dos seus trajes tão escassos
A purpurina prata que brilhava sobre a pele
A elegância régia e feminina dos seus passos

Olhando para o mar, reflito como esta rainha


Trazida como escrava, sem mais nada que seus genes
Guardava no seu ventre este tesouro que, hoje em dia
Herdaram brasileiros tão briosos e solenes

(D.S.)

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Só tu me completas tão bem

Como a manhã e a noite se revezam


Comungando as auroras e os crepúsculos
Nossos corpos se completam quando juntos
Nosso sangue, nossa alma, ossos, músculos

Separados, nos tornamos tão minúsculos


Sem amor, amordaçados
Como dois pedaços d´um ser único
Só por nossos corpos separados

Sinto, quando estamos abraçados


Abrir-se a infinitude num momento
Experimentando a paz de um fim eterno
Que devora o tempo... e o movimento

Sei que o amor é avesso ao argumento


Cedendo ao sentimento a sua lógica
Mas a nossa intimidade é monolítica
E, na sua invisibilidade, cósmica

Vejo que, muito além do domínio da ótica -


Tanto há que os meus olhos não veem ! -
Tal como a palavra completa um silêncio
Só tu me completas tão bem

(D.S.)

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O teu prazer é minha arte

No afã de te tocar, moldei as águas com meus dedos


De todos meus segredos, nada há mais p´ra te contar
A fim de te agradar, já superei todos os meus medos
Cedi aos teus desejos, teus brinquedos quis brincar

Procuro nos teus olhos essa sombra: o meu reflexo


Que tiro do teu sexo, como um óleo a porejar
De tanto desejar o meu pensar perdeu seu nexo
Seguindo o teu complexo e tão voraz jeito de amar

Senti se desmancharem os meus lábios nos teus beijos


E mesmo a minha pele na tua língua se desfez
Senti na tua tez o doce d´um longo desejo
E o mel de uns lugarejos que sorvi com avidez

Bebi d´embriaguez que brota farta da tua boca


Na sempre muito pouca emanação que inconsciente
Consome os vãos da mente que se torna nula, oca
Que linda és assanhada, nua, louca e indecente!

De que me serve o pente, se esta mão o acaricia


O rio que, em cascata, me sufoca: o teu cabelo
Que teço com desvelo num perfume que vicia
A pele delicia-se em sentir roçar teu pêlo

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Aguardo o teu momento, pois é nele que m´afogo
Mas que não venha logo, pois me perco em desfrutar-te
Amar-te mais, enquanto os vis desejos catalogo
O mais, pois, ab-rogo. O teu prazer é minha arte

(D.S.)

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Contentamento
(sem resposta, nem revolta)

Na pele, amarelo
Há um pus

Já não doem
As feridas
Que fizeste

Dói-me mais
Tua ausência

Não te digo
O que sinto
Sei que voltas

Vivo a vida
Sem mistério
Nem revolta

Sangre o sangue
Doa a dor

Que é a vida?
Que é o amor?

(D.S.)

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Como somos sós

Rompeu-se, então,
O véu de seda
Azul do céu
Que antes como
Nos guarnecia

Nos vimos, pois


Nus na terra
De modo que
Nos descobrimos
Comuns e primos

Depois de orarmos
Nos santuários
Nos entregamos
Sem mais sabermos
Quê, então, seríamos

Assim, morremos
Ao percebermos
Que não podíamos
Sem mais delongas
Sem velas santas
Nem outras tantas
Abstrações
Sobreviver

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Saltando abismos
Caminhos íngremes
Vivendo os vermes
Dos intestinos
Não desistimos
Pois de existirmos
Sem compreender

Sem, pois, mais “ismos”


Sem mitos íntimos
Seguindo os ritmos
Nos divertíamos
E, simples, ríamos
De nós mesmos
Sem ter por quê

(D.S.)

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Samba nostálgico

O samba que pipoca junto ao ronco da cuíca


Na rua perfumada onde todo o mundo fica
O samba me chacoalha qual a onda o mar agita
O coração dispára, a pressão mais que triplica

O samba bem marcado, na batida do pandeiro


O samba do passado que ganhou o mundo inteiro
Do bamba comportado, num terno de linho branco
De panamá colado a parafina no cabelo

Do carnaval antigo, foi o grito derradeiro


O ritmo do samba foi parando lentamente
Do povo, a alegria se despiu na rua nua
Nas filas, passeatas, num vermelho indecente

Da beca do malandro ao país tão decadente


Na festa da orgia que ao povo se insinua
Mas resta a alegria do povo a ecoar na rua:
O som de uma marchinha que vem lá de antigamente

(D.S.)

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Adverso

Teus olhos contêm a candura


Da chama que dança na vela
Na noite silente e escura

A hipnose que acalma a serpente


A gnose inerente à loucura
Que cura a esclerose da mente

Teus olhos, detrás da brancura


Contêm essa chama indecente
Que cessa a incessante procura

Da essência da vida da gente


Que urge e que arde candente
Debaixo da crosta já dura

Dobrada como uma brochura


Cobrindo a premente leitura
Que perde o sentido p´ra mim

Desfolham-se e queimam por fim


As folhas que, sem cobertura
Espalham-se em festa e motim

Teus olhos, perfeito jardim


Abrigam-me as flores: a palma
O lótus, o lírio e o jasmim

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E com seu colírio que acalma
Depura o perfume da alma
Que exala p´ra além das narinas

Só há fim se enfim determinas


No infindável motim que confinas
No abrigo infinito em teu peito

(O que tens não entendo direito


No estreito sentido que afirmas)

Só sei que me inspiras pretexto


Malgrado o adverso contexto
P´ro verso, com métrica e rimas

(D.S.)

Página | 27
O relógio

O relógio é ilógico
Um peso preso ao pulso
Uma algema, uma arma
Um dilema, um impulso

O relógio é uma ilusão


Um cansaço no braço
Um curto proto-espaço
Perto de outra dimensão

O relógio é um refúgio
Uma sombra de tempo
Um umbral, um templo
Um fiel testemunho

O relógio é um demente
Andando em círculos
Seus ponteiros minúsculos
Já não podem ir à frente

(D.S.)

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Vivo, em ti primeiro

As curvas do teu corpo lembram mansos rios,


de cujo denso sangue bebem meus delírios
umedecendo, assim, um par de lábios secos.

Pois o prazer que sentem, sinto nos meus dedos.


As curvas do teu corpo são meus negros becos,
onde me perco, à noite, a tatuar no escuro.

É nelas que se eriça a flora dos teus pêlos


arrepiando a pele em redobrados zelos
até que, então, me dás o que afinal procuro.

Então, as tuas coxas são como um braseiro.


E nelas queimo as minhas, me fazendo inteiro
na comunhão que, sei, encerra meu destino.

Pois essa pele encerra a alma a que me afino.


Meu coração só bate ouvindo o teu primeiro.

(D.S.)

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Carinho

Os dedos que correm nos cachos dourados


O beijo na face que cora carmim
Um rosto no rosto, tão simples assim
Um olho no olho c’os lábios selados

Dormindo de lado, acolhendo qual ninho


Sorrindo, brincando qual fosse menino
Feliz, com desvelo, te faço carinho
Com manhas, me esfrego qual fosse felino

Sem pêlos ou patas, arranho-te um pouco


E mordo de leve nas partes mais cheias
Lambendo nuns vãos, nos quais incendeias
Chupando a carne das tuas orelhas

E resto-me calmo, atento a tudo


No aguardo dos pêlos, que sempre se eriçam
Nas coxas maciças, que sempre me excitam
Do leve suspiro ao momento mais mudo

A unha pintada, o discreto perfume


O cheiro que exalas da língua molhada
Meu óleo que cura e imagem sagrada
Na tela pintada à luz do teu lume

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E beijo teus pés, depois subo beijando
Pegando na parte que mais te agita
Mostrando, em meu corpo, o desejo clamando
O abrigo de carne que a língua perscruta

Pois nas minhas costas, tuas unhas se cravam


Sentindo os músculos que explodem convulsos
Na face, teus olhos em febre me assustam
Sorvendo minha boca, quebrando meus pulsos

Mas, quando te acalmas, me perco tocando


As partes do corpo que nele inda pulsam
Valsando c’os dedos na pele que auscultam
Com os olhos fechados, silente..., orando

(D.S.)

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Duplo renascimento

Sem jeito o seguro na palma da mão


Teu peito palpita vertendo emoção
Teus olhos clamantes dizendo que sim
Mas a consciência me dita que NÃO!

Teu corpo suave que cheiro em deleite


Rogando a Deus que, enfim, nos aceite
Deixando de lado o que sinto pecado

Pois tudo na vida resume-se agora


A teu corpo e meu corpo e o calor desta hora
Que o passado não entre nos vãos dessa porta
Nem queira ensinar-me fazendo-se alarme

Não queira a mente interpor-se enfim


No campo da alma que comanda a mim
Gritando no tom a que sou tão afim
Que a ti, então ceda, e depois me arrependa!

Teus cabelos são seda nos vãos dos meus dedos


E espantam ou acalmam meu bando de medos
Que em vão me ameaçam assustando desejos
Que ficam, se fincam e, assim, multiplicam!!!

Página | 32
E te trato com os olhos, pois sei que és criança!
Num corpo rebelde que pede vingança
Na vulva convulsa clamando a matança
E sem que o exija, a matriz se faz rija!

Pretendo conter a tensão do cutelo!


E enquanto te envolvo com a minha língua
Me deixo pensar se é certo o que sinto
Se é certo que minto meu medo de errar
Mas se erro e, então, choro querendo voltar
No tempo, pressinto o dever de esperar!

Mas sinto teu doce na minha boca


E a carne tão jovem que treme já louca
E as mãos que me puxam punindo, arranhando
Clamando por mim que vá logo entrando
Sem medo ou segredo, enfim, me entregando
Nos braços da Sorte p’ra que me conforte

E chupo teus peitos tão sôfrego, então


Sentindo teu corpo tremer na minha mão
E a pele tão firme e segura que não
Aceita mais nada que não Servidão!

E vejo teus pêlos nos vãos dos meus olhos


Enquanto te chupo extraindo teu óleo
No qual me lambuzo vertendo prazer
Rasgando teu véu, p’ra te ver renascer!

Página | 33
Eis a poesia a escrever com meu corpo
Cedendo ao desejo que, sei, é absurdo!
Mas ai da vontade que em ti vale pouco
Num vale de pernas que torna-se um mundo!

Pois sinto explodires me levando junto


Lambendo-me a face cravando bem fundo
No fundo da alma de um moribundo
Que ri tããão feliz!... pois não era um defunto?!!

(D.S.)

Página | 34
A rua é de graça

A rua é de graça
É o reino do povo

O povo na rua
Sem preto ou vermelho
Batendo no peito
Sou verde e amarelo!
Batendo no peito
Sou pobre e honesto!
Batendo no peito
Ressoando o protesto
Do povo que sofre
Pois rico detesto!

O povo na rua
Sem faixa ou bandeira
O povo na rua
Na rua inteira
O povo de novo
Versão verdadeira
No peito, o Brasil
Sem estrela vermelha!

O povo de novo
De gênio, de raças
De riso e lágrima
De calos na alma
Abraçando-se às praças

Página | 35
O povo na rua
Que é sua, é de todos
Pois é desse jeito
Que seremos soltos
Nos campos, nos pastos
Melhor sermos mortos

O povo é lindo!
É lindo pra mim
O povo é um monstro
Pra quem o consome

O povo insone
Na Rua Sem Nome
Com febre, com fome
Fazendo sua arte

O povo gritando:
Já basta! Não quero!
O povo gritando:
Sou verde e amarelo!
O povo gritando:
Cansei desta bosta
De voto e bolero!

Página | 36
O povo gritando:
Não vou parar, não!
O povo gritando,
Explodindo o pulmão
O povo cantando
A sua canção
Os passos batendo
Em marcha, então!

Ah, povo bonito


Que lindo teu grito
Que choro, que sinto
Sem medo, estou limpo

Que lindo o povo


Gritando nas praças
Que medo do povo
Vibrando nas taças
Nas mesas mais fartas
Das nossas desgraças!

Que lindo o povo


Eu sou brasileiro!
Divino, de novo
Me sinto inteiro
Na rua gritando
Sou, sim, baderneiro!
Sou povo, sou bando
Malandro, eu bebo

Página | 37
Eu fumo e minto
Urino e defeco
Sou gente, sou carne
Com cheiro e defeito
Do rico ladrão
Exijo respeito!

É o povo que paga


O imposto sem falta
E o povo que sofre
As agruras na alma
É o povo que leva
O país nas suas costas
E o rico de bosta
Rapina e faz festa!

Sou povo, sou rua!


Infinita alegria
Sem patrão ou governo
Quem dera, ou diria?!
Já somos milhões
Pura filosofia
Ensinada na rua
Na noite mais fria

Que ninguém fique em casa


Calça a bota, cambada
Pois a hora é chegada
Da ressaca do pobre

Página | 38
O mais nobre entre a gente
O reduto da alma
É a força que existe
A riqueza real
É a roda do mundo
É o ser ideal

Pois Jesus nos falou


Que essa hora chegaria
Que o pobre é a morada da humanidade
Que a miséria findaria
Tudo é do povo
Toda obra e toda riqueza
Tudo é do povo
Toda a História e grandeza
Tudo é do povo, vamos
Acabar com essa moleza!

(D.S.)

Página | 39
O pão sagrado

Uma réstia de sangue humano sobre o pão sagrado


E triste me vejo - eu mesmo! -, no assento aqui ao lado
Qual um narciso manco que reflete ensimesmado
Comendo em vão a hóstia com o mundo impregnado

Meus olhos queimariam ou seria o sol mesmo?


Seriam as lembranças que me vêm assim a esmo?
Seria um pranto humano que se prende a um abismo?
Ou, penso, são os santos derramando um óleo bento?

Mas sinto o meu peso precificado no mercado


Minha pele pendurada junto ao santo imaculado
E penso ser a morte o excremento despejado
Um poço pleno em vida que ora resta esvaziado

E penso nos meus medos que, em pé, me observam


As caras de carrancas que divertem e me enlevam
Um sopro de névoa branca e meus olhos como cegam
Seguindo a negra noite, onde os seios como secam

Pois me sinto profano joio maculando sacro trigo


Uma alma silente e vã, tendo a vida como abrigo
Querendo comer do pão, mas me sentindo um inimigo
Um ogro a fugir da graça e, mesmo assim, sendo um perigo

Página | 40
Banido do mundo físico qual uma alma, transparente
Passando entre a gente que caminha sempre à frente
Meus cíclicos devaneios como causam uma torrente,
Que parte soprando versos, pelos cantos, tristemente

Essa chuva que arde em mim! E que me toca ardentemente!


Que me rasga a veste, assim, despudoradamente.
Oh Deus, se existes, rogo tira logo esta corrente!
Que o mundo insere em mim e fere impiedosamente

Quisera a eternidade fosse puro pensamento


E o labor pensante completasse os vãos do tempo
Qual fez o casto homem que legou o pão e o vinho
E, então, os versos fossem o mais puro alimento

(D.S.)

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Batuque de galope

Ouvi vindo da rua quando estava acordando


O som de uma matraca qual cavalo galopando
E tive um surto louco qual me ocorre vez em quando
De traduzir em versos o que estava escutando

Me levantei
Fui estudar
Buscando uma maneira de meu verso galopar

Então pensei
Pra que chorar
Buscando um verso triste se eu quero me alegrar?!

No escuro do meu quarto galopando no meu verso


Perdi-me na batida do meu peito a palpitar
Iluminei meu quarto dando um soco na janela
E, pulando na rua, ensaiei sapatear

Olhei pra cá
Olhei pra lá
Não vi ninguém por perto, então resolvi parar

Eu vi, então,
Quando uma velha
Pulando da janela, espatifou-se pelo chão

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Então saí correndo, louco, dando cambalhota
Mirando surpreendido no decote da velhota
A velha deu um pulo e agarrada no meu braço
Pôs-se a se arrastar já esquecida do cansaço

Pensei então
Que bom pra mim
Dançando pela rua c’uma velha meiga assim!

Pensei então
Que bom pra mim
Dançando pela rua c’uma velha meiga assim!

E a batida da matraca já estava fenecendo


Cedendo tempo ao sol que já estava amanhecendo
E eu, de braço dado com a velha, na calçada
Sorvendo o gargalhar da nova amiga desdentada

(D.S.)

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Mais forte que a noite

Do lume que a Lua ousa


Bebem as lamparinas
Longilineamente finas
Imãs p´ras mariposas

Na noite retilínea
O céu, como uma lousa
D´estrelas cristalinas
Entr´outras nebulosas

Abriga a neblina fria


E a brisa gentil airosa
Que, numa corrente esguia
Penetra os desvãos das casas

Tristes, porém, jocosas


Em sinuosas esquinas
Espectrais femininas
Deitam-se nas calçadas

Sombras encabuladas
Tortuosamente belas
Observando estrelas
Luzem qual fossem fadas

Pelas encruzilhadas
Lar da nicromancia
Arde a feitiçaria
Sobre as vidas ditosas

Sombras misteriosas
Quase irrefletidas
Curvam-se além das coisas
Presas a outras vidas

Almas já combalidas
Gemem subind´a escada
Gritam, sem ser ouvidas
Ecos na madrugada

Mentes entorpecidas
Vagam igual cometas
Em frenesi, gametas
Cruzam-se em mães despidas

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Mentes efervescidas
Vidas tão desastrosas
Partem qual supernovas
Brios de suicidas

Lentas e esmaecidas
Ricas em rubescências
Tímidas ambulâncias
Piscam esbaforidas

Dentro de si, premida


Levam a noite oculta
D´onde só dor resulta
Da solução da vida

Gritos de horror, de luta


Ouvem paredes, becos
Tiros estalam secos
Quase ninguém escuta

Dentro da noite maldita


Este poeta ´inda tenta
Desta prisão onde habita
Ninho de caos e tormenta

Tenta, no luto da noite


Na solidão madorrenta
Que a inspiração afugenta
Senta, impingindo-se açoite

Luta n´arena da morte


Grita que o breu ´inda brilha
Pena, mas se maravilha
Diz que venceu o mais forte!

(D.S.)

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A casa de Botão

A casa do botão
Já não mais o segurava
Tão sozinho e largado
Outra casa procurava

Mas a blusa entortava


E a dona logo via
Que, quando ela o encaixava
O botão escapulia

Ai que casa mais frouxinha


Essa desse seu Botão
Que vivia, assim, de olho
Na vizinha apertadinha

Mas pedia a Maria


Que, então, a costurasse
Pois, entrando todo dia
Natural que se rasgasse

Ai Maria! – ele pedia


Tenha dó deste botão
Ói que um dia Deus castiga
Aleijando a tua mão!

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Ó que agulha e linha tinha
Deixa lá de lassidão
Pois de lassa já me basta
Essa casa de botão

Ai que falta que sentia


De sua casa, quando entrava
Tão novinha, arranhando
Que no fim do dia inchava

Ai que dor que lhe causava


Essa vil separação
A casinha reclamava
Não queria mais pressão

Mas depois se insinuava


Pro vizinho grandalhão
Isso sim que precisava
Carecia aperto não!

Mas a blusa enrugava


Exigia solução:
Ou a casa apertava
Ou trocava de botão

Seu Botão, então, chorava


Quis fazer musculação
A casinha se fechava
Pediu a separação

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A Maria, irritada
Agiu com resolução
E, sem explicação
Foi pro quarto da empregada

Retirou o seu Botão


Costurando outro, Rosa
Tão enorme, uma invasão
Instalou-se poderosa

A casinha, então chorou


O botão quase a rasgou

E o outro, o miudinho
Foi pra blusa do Pedrinho

Lá, na blusa do menino


A casinha, muito altiva
Apertada era mesmo
Mas tornou-se possessiva

O botão, quando ele entrava


Era tudo uma delícia
Mas, quando ele se cansava
Se encolhendo, ela o prendia

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Que casinha mais vadia!
E, ao dizer, se desculpava
Sempre que ela repetia
Pois sua goela sufocava

Enquanto a outra casinha


Só chorava arrependida
Com as pregas tão ardidas
Só ficava ali quietinha

Quando o Rosa se mexia


Já tremia, a coitadinha
Se ficasse boazinha
O botão não mais saía

Ele só que se exibia


O maior da blusa inteira
E tão rosa que floria
Como fosse uma roseira

Mas, Maria, um certo dia


Fez a troca dos botões
Costurou o botão Rosa
Na braguilha de um peão

Seu Botão, de volta à blusa


Onde tão feliz viveu
Mais feliz ficou agora
Que Maria o devolveu

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Um pontinho em cada lado
A casinha costurada
Acolheu o seu Botão
Sem ficar tão apertada

A patroa que é gulosa


De repente engordou

Pro patrão, ficou formosa


Mas Botão se revoltou

E de nada adiantou
Pois com ela não tem prosa

A patroa, tão fogosa


Seu Botão não mais fechou

(D.S.)

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