Você está na página 1de 3

Entrevista// Ruut Veenhoven

Se existe alguém no mundo capaz de falar sobre felicidade mais com a imparcialidade
de um cientista do que com a paixão dos que a perseguem, esse alguém provavelmente
é o sociólogo holandês Ruut Veenhoven, professor de felicidade humana da
Universidade Erasmus de Roterdã. Veenhoven é referência absoluta nos tais índices e
cálculos nos quais se apoiam tantas teorias sobre felicidade. Nem sempre foi assim.
Ainda estudante, quando anunciou aos colegas acadêmicos o tema sobre o qual se
aprofundaria, recebeu críticas, risos e lidou com professores que diziam que isso "não
era coisa de gente séria". Passados os anos, é ele o nome por trás do World Database
of Happiness, uma espécie de centro de pesquisa dedicado inteiramente a decifrar os
porquês da felicidade no mundo. Tantos anos dedicados ao assunto, no entanto, não o
fizeram mais feliz. Nem infeliz. Felicidade, afinal, "é uma coisa complexa", ele
reconhece. Está aí uma verdade tão escancarada que não exige constatação por
pesquisa. Confira a entrevista que ele concedeu à Revista, por e-mail.

O que é, afinal, a felicidade? A verdadeira felicidade existe?


Eu uso a palavra "felicidade" para descrever a alegria em viver a "vida como um todo".
Ou seja, o quanto uma pessoa gosta e se sente bem com a vida que leva. Por esse ponto
de vista não existe felicidade que não a verdadeira. Se você se sente feliz, é porque está.
A noção de "felicidade verdadeira" está ligada a conceitos já formados do que seria uma
boa vida, a noções comuns. Por essa visão, você não está realmente feliz se está
conformado em viver uma vida que não é boa do ponto de vista da maioria. Para dar um
exemplo, é esse o caso do criminoso que é feliz fazendo o que faz, mas para as quais as
pessoas apontam e dizem que ele "não é realmente feliz". É muito subjetivo.

É possível sermos felizes o tempo inteiro ou a felicidade também inclui momentos


de tristeza?
Na verdade, a maioria das pessoas são até bem satisfeitas com a vida delas na maior
parte do tempo. Isso é o que observamos em pesquisas e estudos sobre felicidade.
Mesmo essas pessoas estão suscetíveis a terem dias ruins. Essa questão é uma confusão
comum que se faz com o humor felicidade e com o sentimento de felicidade para
satisfação geral com a vida. Não podemos estar alegres o tempo inteiro, mas podemos,
sim, ser felizes o tempo todo, apesar dos momentos ruins.

Dinheiro e felicidade têm alguma relação?


O dinheiro afeta a felicidade, sim. Em geral, pessoas que vivem em países ricos são
mais felizes que as que moram em países pobres, e mesmo dentro dos países, as pessoas
mais ricas parecem mais felizes que as pobres, mas essa diferença é mais saliente em
nações pobres. Relações sociais, tendência genética, personalidade e posição social
também têm papéis relevantes. É uma mistura de fatores, como na saúde. A saúde
também depende de uma combinação de genes com o ambiente e o comportamento do
indivíduo.

Podemos aprender a ser mais felizes ou felicidade é algo que simplesmente se tem?
Podemos, claro! Como falei, a felicidade também depende de habilidades para lidar
com a vida e o comportamento de cada um. Quando, por exemplo, uma pessoa sofre um
acidente e precisar amputar um membro ou fica paralítica, inicialmente ela vai ficar
muito infeliz. Mas, a partir do momento que passa a dominar novas habilidades, ela
geralmente acaba restaurando a felicidade a um nível excelente.

Ser feliz e coçar...


Meia dúzia de bons amigos, uma dose de gargalhadas sinceras, uma xícara cheia de
união familiar e uma de satisfação com a carreira. Amor a gosto. Imagine só se existisse
uma receita para a felicidade tão simples quanto essa. Tantos números, tabelas e
estudos, no entanto, ainda não fizeram com que os cientistas e psicólogos chegassem a
uma satisfatória. E talvez nunca cheguem. Mesmo assim, existem algumas jogadas que,
ao que indicam pesquisas aqui e ali, podem nos deixar algumas casas mais próximos de
uma vida melhor nesse jogo infinito que, às vezes, parece a busca pela felicidade.
Ganha quem começar mais cedo. Vamos tentar?

1- Tenha amigos. Ao longo dos anos as pesquisas têm mostrado que pessoas que têm
laços sociais fortalecidos são mais felizes. Uma delas, conduzida pelo pai da psicologia
positiva, Martin Seligman, concluiu que os 10% de pessoas mais felizes têm um bom
relacionamento com os amigos e comprometimento em dedicar tempo a eles.

2- Pratique uma religião. Não se sabe se por causa da fé, pelos amigos que se conquista
na igreja ou se pelos dois fatores, as pessoas apegadas a uma religião tendem a ter níveis
maiores de felicidade. "Pessoas religiosas têm um significado para a vida, hábitos
saudáveis e uma esperança de que as coisas vão melhorar", justifica o economista
Angus Deaton, da Universidade de Princeton (EUA).

3- Não se compare aos outros. Segundo a psicóloga Lilian Graziano, a comparação com
quem está ao lado é uma eterna fonte de frustrações. "Sempre vamos encontrar alguém
que tem mais. É preciso olhar para o que temos e não para o que falta", diz.

4- Conte as coisas boas da vida a alguém ou faça um diário. O conselho é da psicóloga


Sonja Lyubomirsky, autora de A ciência da felicidade, que durante uma pesquisa
descobriu que as pessoas que uma vez na semana — e não mais que isso — escrevem
pelo menos cinco coisas pelas quais são gratas na vida são mais felizes.

5- Escute música. Ela ativa partes do cérebro que liberam endorfina e incrementam a
sensação de bem-estar tanto quanto exercícios físicos, sexo e comida. Além disso, ela
pode servir como relaxante e ajudar o cérebro a liberar melatonina — hormônio
responsável por regular o sono.

6- Mexa-se. Não é novidade para ninguém que exercitar o esqueleto estimula o cérebro
a liberar endorfina, hormônio responsável por uma sensação de bem-estar e
relaxamento.

7- Tenha um plano. Não vale acordar, trabalhar, voltar para casa e dormir. Segundo
Anderson Cavalcante, o grande erro das pessoas é viver sem um projeto. "Acordar todos
os dias e fazer algo que vai colaborar para alcançar a sua meta de vida é importante",
aconselha.

8- Seja gentil. É o que incentivam Sonja Lyubomirsky e o historiador Darrin McMahon.


A sensação de bem-estar depois é garantida, eles defendem. "Pensar demais na própria
felicidade só leva a angústia. Para evitar isso, melhor focar na felicidade daqueles que
nos rodeiam", afirma McMahon.

9- Trabalhe com o que gosta. "Felicidade e sucesso profissional estão ligados", defende
Anderson Cavalcante. Uma pesquisa norte-americana acompanhou por 20 anos 1,5 mil
ex-alunos de uma universidade. Ao final da pesquisa, 102 haviam ficado milionários e,
desse seleto grupo, 101 chegaram ao sucesso fazendo aquilo que os deixavam felizes.

10- Perdoe. "Para começar, comece escrevendo um diário no qual pode treinar deixar
no passado ressentimentos, raivas e mal-entendidos com pessoas que podem ter
magoado você algum dia", diz Sonja Lyubomirsky no seu livro A ciência da felicidade.

11- Faça uma faxina na sua mente. Entre esperar o mundo mudar para se alinhar aos
seus desejos, melhor começar a mudança por você, é o que aconselha o psicólogo
Jonathan Haidt. Encontre formas de ser mais otimista e não se torturar por coisas ditas
ou feitas no passado. Meditação e terapia cognitiva são opções possíveis.

12- Procure ajuda. Segundo a psicóloga Lilian Graziano, a psicoterapia pode ajudar a
clarear um pouco o caminho. "Alguns profissionais adeptos da psicologia positiva vão
ajudar você a se conhecer melhor, mas dando mais ênfase às suas qualidades do que aos
seus demônios", diz.