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CONCEITO DE CRONICA

CONCEITO DE CRONICA

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INTRODUÇÃO Qual será o sabor da crônica?

Esse gênero literário muitas vezes pouco divulgado possui um sabor peculiar, que você poderá apreciar nesse site da TV Cultura. A idéia de produzir um site que tivesse a crônica como tema central surgiu a partir do programa "Sabor da crônica", da Rádio Cultura FM. Nele, o jornalista Rodolfo Konder lê crônicas de sua autoria, levando o ouvinte a refletir sobre acontecimentos passados e presentes. Agora, através do site "Sabor da crônica", você poderá degustar antigas e novas tendências, conhecendo a origem e evolução da crônica, lendo textos de escritores consagrados e até fazendo sua própria crônica! A mesa está posta. Escolha seu prato preferido e bom apetite!

A palavra crônica deriva do Latimchronica, que significava, no início da era cristã, o relato de acontecimentos em ordem cronológica (a narração de histórias segundo a o rdem em que se sucedem no tempo). Era, portanto, um breve registro de eventos. No século XIX, com o desenvolvimento da imprensa, a crônica passou a fazer parte dos jornais. Ela apareceu pela primeira vez em 1799, no Journal de Débats, publicado em Paris. Esses textos comentavam, de forma crítica, acontecimentos que haviam ocorrido durante a semana. Tinham, portanto, um sentido histórico e serviam, assim como outros textos do jornal, para informar o leitor. Nesse período as crônicas eram publicados no rodapé dos jornais, os "folhetins". Essa prática foi trazida para o Brasil na segunda metade do século XIX e era muito parecida com os textos publicados nos jornais franceses. Alencar foi um dos escritores brasileiros a produzir esse tipo de texto nesse período . Com o passar do tempo, a crônica brasileira foi, gradualmente, distanciando -se daquela crônica com sentido documentário originada na França. Ela passou a ter um caráter mais literário, fazendo uso de linguagem mais leve e envolvendo poesia, lirismo e fantasia. Diversos escritores brasileiros de renome escreveram crônicas: Machado de Assis, João do Rio, Rubem Braga, Rachel de Queiroz, Fernando Sabino, Carlos D rummond de Andrade, Henrique Pongetti, Paulo Mendes Campos, Alcântara Machado, etc. Ainda hoje há diversos escritores que desenvolvem esse gênero, publicando textos em jornais, revistas e sites

A crônica é, primordialmente, um texto escrito para ser publicado no jornal. Este, como se sabe, é um veículo de informação diário e, portanto, veicula textos efêmeros. Um texto publicado no jornal de ontem dificilmente receberá atenção por parte dos leitores hoje.

Isso contribui também para que o leitor se identifique com o cronista. ou seja. Entretanto. Edith "menina-veneno" Cresson. pode-se dizer que a crônica situa-se entre o Jornalismo e a Literatura. elementos que o texto essencialmente informativo não contém. Descer no aeroporto de Narita leva à reflexão sobre o que incentiva milhares de nisseis a abandonarem o Brasil à procura de uma oportunidade no Japão. bomba em cima de bomba com . disse que os japoneses não sabem viver. Ricardo Semler escreveu a crônica abaixo. é um texto curto e narrado em primeira pessoa. Paulo no dia 23 de julho de 1991. Assim como o repórter. nunca! Foi só pegar no bicho com os tais pauzinhos e vuupt.. na maioria dos casos. O danado estava vivo! Posso parecer um pouco caipira. Com base nisso. que acaba se tornando o porta-voz daquele que lê Adiante.O mesmo tende a acontecer com a crônica. Após cercar -se desses acontecimentos diários. E assim progredia a visita ao Japão. e o cronista pode ser considerado o poeta dos acontecimentos do dia -a-dia. pois à crônica de hoje seguem-se muitas outras nas próximas edições. espontânea. Logicamente. que constituem a base da crônica. o camarão deu um salto de samurai de volta para o prato. você verá algumas dicas para escrever sua própria crônica. "Escândalos derrubam financista japonês" Essa manchete foi publicada no jornal Folha de S. Ao desenvolver seu estilo e ao selecionar as palavras que utiliza em seu texto.. o próprio escritor está "dialogando" com o leitor. Mas. Há semelhanças entre a crônica e o texto exclusivamente informativo. já tinha comido peixe cru em restaurante japonês. A crônica. aqui vai uma atividade que pode ajudá-lo a observar melhor esse gênero literário. o cronista está transmitindo ao leitor a sua visão de mundo. as crônicas apresentam linguagem simples. Geralmente. Com base nela. fantasia e criticismo. incluindo em seu texto elementos como ficção. o conforto de botar alguns iens no banco e saber que ainda estará lá quando for verificar o extrato. Passados alguns dias. ganhar dinheiro verdadeiro é uma razão. há elementos que distinguem um texto do outro. cruzado ou cruz-credo. o cronista se alimenta dos acontecimentos diários. na verdade. em 28 de julho de 1991. A primeira-ministra da França. Paulo. Mas fico pensando se o desespero é parte vital da decisão e se os nossos nisseis sabem no que estão se metendo. o cronista dá-lhes um toque próprio. É de puxar os olhos E o camarão se mexeu. Esta semana foi interessante aqui. caso você ainda não esteja muito confiante. Ele está. situada entre a linguagem oral e a literária. Até aí tudo bem. mas cru e vivo. O fato de ser publicada no jornal já lhe determina vida curta. O pessoalzinho daqui ficou uma vara. Crônica publicada no jornal Folha de S. expondo a sua forma pessoal de compreender os acontecimentos que o cercam. Em vez de trocarem o seu esforço por uma moeda-piada do tipo cruzeiro. Isso faz com que a crônica apresente uma visão totalmente pessoal de um determinado assunto: a visão do cronista. que mais parecem umas formigas.

3) Em que parte do texto Semler menciona o acontecimento que dá origem à sua crônica? No início? Ao longo do texto? 4) Como Semler encerra sua crônica? Há alguma ligação entre a frase que encerra e a que inicia a crônica? 5) O escritor estabeleceu alguma relação entre o Brasil e o fato ocorrido no Japão? 6) Qual o "recado" central que Semler quer dar com esse texto? Existe. mas é uma das nações mais protecionistas e paternais do globo. a Itoman vê os seus executivos saírem algemados por envolvimento em . p. Atividades com base na crônica Com base na crônica e na manchete do jornal acima. São Paulo. . É líder em tecnologia em diversas áreas.casos magistrais de corrupção nos mais altos níveis (ao leitor distraído reafirmo que estou em Tóquio e não em Brasília). mas as suas tradições milenares desafiam qualquer análise ou compreensão superficial. mas também muito a aprender. na crônica. 2) Será que você tem a mesma opinião sobre esse assunto? Faça uma lista com as suas idéias. Nivelar as expectativas com os pés no chão fará com que nossos imigrantes voltem algum dia ao Brasil para ajudar a desatolar o nosso país com o que vivenciaram fora. Todas as nações têm muito a ensinar. Tem ares de liberdade de mercado. É a meca da inovação. mas os seus ídolos de comerciais não têm nem mesmo os olhos puxados. a maior corretora de bolsa de valores do mundo. Ricardo Semler. Começou com o Marubeni.. Editora Best Seller. E. tente realizar as atividades a seguir: 1) Quais são as idéias defendidas por Semler ao longo do texto? Tente fazer uma lista com essas idéias. É nação orgulhosa de sua raça.. acusado de desvios de propinas para políticos. para finalizar a novela da semana. que andou desviando dinheiro e dando propina para políticos. O Japão é moderno. Aí. 2ª ed..Crônicas de um Empresário do Sanatório Brasil . que são publicadas em jornais e revistas. cabe a mesma reflexão que vale para Nova Jersey ou Lisboa.. mas só deixa japoneses legítimos assumirem qualquer cargo de importância nas empresas. foi a vez da Nomura.pasmem! . 1992. É bom colocar tudo no prato para evitar. E foram três casos totalmente independentes um do outro. que se acabe comendo cru.desvio de fundos e propinas para políticos. alguma frase que sintetize essa idéia? Muito bem! Você pode fazer exercícios como esse usando crônicas recentes. Texto extraído do livro Embrulhando o Peixe . como no caso do meu camarão rebelde.59. a exemplo de um comercial muito popular por aqui com o nosso "acerera A -i-roton"! Aos nisseis que pensam em vir para cá. Fã do capitalismo livre. é mestre inigualável de intervenção estatal e poupança forçada. mas é também o país que mais copiou produtos na história industrial. 58 . Rumar para o Japão à procura do pote de ouro do fim do arco -íris é uma ingenuidade.

Ricardo Semler O empresário Ricardo Frank Semler nasceu em São Paulo.. entrar em contato com a infinidade de coisas que acontecem ao seu redor. como ocorre na crônica exemplificativa de Ricardo Semler. Você pode procurá-lo em meios como jornais. Ficou bastante conhecido graças ao seu livro Virando a própria mesa.. Outra boa forma de encontrar um tema é andar... desânimo. 3. pois.. Como? Escrevendo sua própria crônica. horror." "Na minha opinião esse fato é. é muito importante que o seu ponto de vista.. Além de observar mais atentamente as pessoas e situações que fazem parte do seu dia-a-dia. Frases como as que seguem abaixo podem ser um bom começo para você fazer a sua lista: "Quando penso nesse fato." "Esse fato está relacionado com a minha realidade.. ou seja. Escolha algum acontecimento atual que lhe chame a atenção. revistas e noticiários. Agora que você já selecionou um acontecimento interessante. sem que seja necessário seguir etapas definidas. Tudo pode ser assunto para uma crônica. Você pode fazer uma lista com essas idéias antes de começar a crônica propriamente dita. Muito bem. você desenvolverá seu próprio processo criativo e o texto surgirá de forma natural." Como você deve ter notado. tente formular algumas opiniões sobre esse fato. eu. felicidade... 2. a sua forma de ver aquele fato fique evidente. conversar com as pessoas. Seu ponto de partida pode ser o próprio fato. a primeira idéia que me vem à mente. as pessoas estão dizendo que. passou a escrever crônicas para o jornal Folha de S. Tão interessante quanto isso é você mesmo tentar encontrar a sua forma de ver e questionar o mundo ao seu redor. Agora é a sua vez! Ao ler crônicas. Esse é um dos elementos que caracterizam a crônica: uma visão pessoal de um evento. em 1959. no qual relata suas experiências ao propor uma gestão democrática em sua empresa. criativos. mas esse também pode ser mencionado ao longo do texto. Foi eleito o empresário do ano em 1990 e em 1992. Agora que você já formou opiniões sobre o acontecimento escolhido. indignação. cause em você alguma sensação interessante: entusiasmo.. Isso pode ajudá-lo a escrever uma crônica com maior facilidade. Com o tempo. É importante que o tema escolhido desperte o seu interesse.. você estará exercitado sua redação ao tentar construir textos claros e." "Se eu estivesse nessa situação... abrir a janela. você conhece a visão de mundo daquela pessoa que escreveu o texto. ao mesmo tempo.." "Ao saber desse fato eu me senti. . é hora de escrever sua crônica. abordando assuntos polêmicos de forma crítica e bem humorada." "Sobre esse fato. Etapas para escrever sua crônica: 1... Paulo." "A solução para isso. Mais tarde. As etapas abaixo podem servir como um guia caso você esteja começando a se aventurar pelo mundo da crônica.

. Em lugar de estar a cogitar idéias.Escreva! Pratique! E procure usar a criatividade para criar seu próprio estilo. Na época de Alencar a crônica era um pouco diferente da que conhecemos hoje e parecia-se muito mais com os folhetins publicados na Europa daquele período. a parafusar novidades. aqui vão algumas dicas de livros que você pode consultar: . Editora Ática José de Alencar Biografia José Martiniano de Alencar (1829-1877) é um dos grandes nomes da literatura brasileira. às semanas. Alencar escrevia textos comentando fatos ocorridos durante a semana. com uns dias cheios de nuvens. que foram publicadas no Correio Mercantil em forma de folhetins. professor. seu texto tinha dois aspectos: um informativo. pois o escritor desenvolvia um estilo próprio de escrever seus textos. esses textos foram reunidos num livro. Editora da UNICAMP.O Gênero. político. Massaud Moisés. Crônica publicada no jornal Correio Mercantil. jornalista. Assim.A Crônica . Com isso. e outros límpidos e brilhantes. Escreveu também algumas crônicas. que recebeu o mesmo nome. . sua fixação e suas transformações no Brasil. Editora Cultrix. jurista. orador. quando me viesse uma semana alegre e risonha. São Paulo.Prosa.A criação literária .A crônica. Rio. mas muito inconstante. pediria emprestado a algum dos tipos da grande galeria feminina as feições e os traços para desenhar o meu original. Série Princípios. romancis ta. e a lembrar-me de fatos e coisas passadas. 19 de novembro Se a mitologia dos povos antigos tivesse dado formas de mulher. . como fêz com as horas. poeta e dramaturgo. Foi advogado. chamados Ao Correr da pena. de fada ou ninfa. pois é isso que faz de um escritor um bom cronista. já que tinha a função de informar os leitores. em 19 de novembro de 1854. Se você está interessado em saber um pouco mais sobre crônicas. Jorge de Sá. iluminados pelos raios esplêndidos do sol. Mais tarde. não me veria às vêzes em tão sérios embaraços para escrever esta revista. e um literário. Escreveu livros que foram marcos do Romantismo brasileiro: O Guarani e Iracema.

o qual também foi pomo da discórdia. cada um de seus olhos era um sermão. que valham a pena. porém. lembrar-me-ia de alguma moreninha da minha terra. ojosadormidillos. a qual. de céu azul e de estrêlas cintilantes. imaginaria alguma fada de formas graciosas. talvez me pudesse bem servir para o caso. em que fizesse umas belas noites de luar bem suaves e bem calmas. Ides ver. que sentia-se a gente renascer com o sol que vivificava a natureza. que acontecimentos se deram nestes dias. que descreveu Byron. só êste tipo imitado de D. como dizem os espanhóis. O público dilettante está por conseguinte arvorado em Paris. era uma aritmética ambulante. onde iria eu procurar um tipo. e os poetas já se prepararam para cantar a nova Ilíada e as causas terríveis de tão funesta guerra. Nugae. . Aposto que já estais a rir dêste meu projeto. tal e qual como as outras. esqueceram-se dessa invenção de personificar a semana. Com efeito. Dir-se-ia uma correspondência ou alguma velha polêmica que se houvesse despegado do seu competente jornal. pedir-lhe-ia que me contasse com tôda a graça e travessura do seu espírito os segredos de suas horas e de seus instantes. que fizeram tanta coisa boa. contar-vos-ei que a semana teve sete dias e sete noites. quarumpars parva fuit. duas de chuva e três de maçada. No Provisório estreou a nova cantora. tão frescos. tão puros. Dêstes sete dias muitos foram de chuva. para andar pelo mundo a discutir e argumentar. completando -se assim o número das três deusas que devem disputar o pomo de ouro. e por conseguinte não há remédio senão deixar as comparações e voltar ao positivo da crônica. Em primeiro lugar. É verdade que. Faria como o poeta. Ao contrário. um poema. na sua fronte estava estampada uma dissertação gramatical. Em São Pedro de Alcântara o aparecimento de João Caetano produziu uma noite de entusiasmo e um novo triunfo para o artista distinto. Vestiria a minha fada de branco com algumas fitas côr-de-rosa. com algumas modificações. não já escrever simplesmente. perguntando com os vossos botões que fatos são êstes que descobri na semana passada. com uma certa altivez misturada de uma dose sofrível de loureirismo. e limitar-me-ia às pequenas coisas que me tivessem interessado. quando me acertasse cair uma semana como esta passada. Então escreveria uma poesia. a qual num formulário de botica podia bem traduzir -se pela seguinte receita: uma dose de sol. em que os dias corressem puros e serenos. Seu único aspecto (da mulher) valia um discurso acadêmico. Admirável receita para curar a população desta côrte da febre de novidades que tem produzido a guerra do Oriente. de faces côr de jambo. desfiando fato por fato. Enfim. e alguns estiveram tão belos. se fôsse uma semana bem calma e bem tranqüila. Os antigos. único representante da arte dramática no Brasil. e livrava-me assim de meter-me em certas questões graves e importantes que ocupam a atualidade.Etteterrimas belli causas. mas contar. de olhos grandes. Juan poderia dar u ma ligeira idéia da semana passada. um romance ou um idílio singelo. um modêlo que a caracterizasse perfeitamente? Lembro-me de uma mulher.uma semana elegante de teatros e de bailes. As noites foram quase tôdas de inverno e de teatro. dia por dia.

Uma das coisas que têm obstado a fundação de um teatro nacional é o receio da inutilidade a que será condenado êste edifício. É a êste fim que deve presentemente dedicar-se o ator brasileiro. Hoje cumpre-nos fazer-lhe uma justiça. se não preferimos ficar em casa. Entretanto não acho razão no legislador em ter punido ùnicamente o falsificador de moeda. e até um elogio. . como sente a dificuldade de criá-los. de coroas e de versos que se procuram engrandecer ùnicamente pelo assunto. A polícia também tem-se esmerado em fazer cessar as cenas tumultuárias e desagradáveis que se iam tornando tão freqüentes naquele teatro. Não temos uma companhia regular. corrigindo pelo estudo alguns pequenos defeitos. que se preparava a montar uma fábrica dessa indústria lucrativa. não havendo elementos dispostos para êsse fim. que apregoam postiços de tôdas as qualidades. se. Não é. O crime de moeda falsa é um dos mais severamente punidos em todos os países. Dêste modo ficamos reduzidos ùnicamente ao teatro italiano. A única cena onde se representa em nossa língua ocupa-se com vaudevilles e comédias traduzidas do francês. terá o que lhe tem faltado até agora. que ela merece sem dúvida alguma. ùnicamente no teatro que a polícia tem dado provas de atividade. porém. Se João Caetano compreender quanto é nobre e digna de seu talento esta grande missão. Como ator. é preciso que agora como artista e como brasileiro trabalhe para o futuro de sua arte e para o engrandecimento de seu país. deixando impunes muitos outros falsificadores bem perigosos para a nossa felicidade e bem-estar. a dirigirmo-nos tôdas as noites de representação. O govêrno não se negará certamente a auxiliar uma obra tão útil para o nosso desenvolvimento moral. e. em vez de vãs ostentações. Todos os dias lemos nos jornais anúncios de dentistas. e trate de elevar a sua arte. já lhe apontaram. que outros. não têm dado lugar a que João Caetano forme uma escola sua. Efetuou -se esta semana a prisão de um moedeiro falso. O gôverno não só conhece a falta de artistas. Já algumas vêzestemos censurado a diretoria do teatro por certas coisas que nos parece se podem melhorar sem grandes sacrifícios. Tudo é muito bom. visto que não há melhor. Sua alma já deve estar saciada destês triunfos e dessas ovações pessoais. pela resolução que nos consta ter tomado de reparar o edifício e iluminá-lo a gás. ou outras causas que ignoramos. de cabeleireiros e de modistas. se continuassem. fundar uma escola dramática que conserve os exemplos e as boas lições do seu talento e a sua experiência. porque ameaça a fortuna do Estado e a dos particulares. com o qual decerto se deve despender avultada soma.Infelizmente as circunstâncias precárias do nosso teatro. quer descantem as coristas. quer encante a Charton. nas quais nem o sentido nem a pronúncia é nacional. que no nosso país ainda se acha completamente na infância. verá abrir-se para êle uma nova época. antes de mim. o apoio e a animação da imprensa desta côrte. sem que a lei se inquiete com semelhantes coisas. acabariam por afugentar dêle os apaixonados da música de batuque. para onde somos obrigados. quer cante a Casaloni. e que. que são apenas a manifestação de um fato que todos reconhecem. nem esperanças de possuí-Ia brevemente. já fêz muito para sua glória individual.

quando o castigam. e que interessa extraordinàriamente a segurança pública. que pode compensar um dos maiores riscos a que estamos sujeitos. São Paulo. e faça cessar o perigo que corremos todos os dias de encontrarmos a cada momento na rua ou no passeio a morte do hidrófobo. é condenado a uma porção de anos de cadeia. o tipo e o môdelo da amizade.Entretanto imagine-se a posição desgraçada de um homem que. as anquinhas se forem arrumando sôbre o toilette . em vez de se defender. e de um rostinho encantador. Texto extraído do livro: Ao correr da pena.quando a cabeleira. e para o qual olhamos indiferentemente. é uma singular revelação do caráter do homem. É uma injustiça clamorosa que cumpre reparar. Afonso Karr levou dois anos a escrever para conseguir que a polícia de Paris adotasse est a útil medida de segurança pública. abusando de sua confiança e boa-fé. Ediçõ es Melhoramentos. Assim. E é isto o que o homem chama um amigo! Já se vê que o sentimento não é tão nobre como o parece a princípio. José de Alencar. 87-92 . tendo-se casado. pois. Deixemos esta importante questão aos espíritos pensadores. aos amigos da humanidade. p. se submete a todos os caprichos e a tôdas as vontades sem distinção. certos erros consagrados e que todo o mundo repete. Tôdas estas vãs declamações dos poetas sobre êsse animal. Um homem qualquer que nos dá a descontar uma letra de uns miseráveis cem mil réis. falsificada por êle. dão uma bem mesquinha idéia do coração humano. e que desgraçam uma existência. O cão obedece sem reflexões. onde tôda a casta de falsificadores pendurou um produto de sua indústria. e muitas vêzes mesmo nos revoltamos por um mal entendido sentimento de humanidade. Não temos tempo de tratá-la com a profundeza que exige. roja-se aos pés de seu senhor e caricia a mão que o castigou. como um olhar falso. temos ainda de falar de uma outra medida do chefe de polícia a respeito dos cães. Êste consentimento unânime. que dizem representar o símbolo da fidelidade. ou uma palavra mentida. senão. Quando chegar o momento da decomposição dêste todo mecânico . enriquecem e riem-se à nossa custa. diz o escritor francês. os dentes de porcelana. Um dos maiores obstáculos que êle encontrou sempre foram certos prejuízos. que se move a nossa vontade. Entretanto aquêles que falsificam uma mulher. sem refletir. Demais. o prazer de possuir um autômato. o ôlho de vidro. nem compreender o sentido das palavras que profere. 2ª edição. resumiríamos o quadro de tôdasas desgraças que produzem não só aquelas falsificações do corpo. desde a antiguidade se diz que o cão é o amigo fiel do homem. e que de repente. o peito de algodão. leva para casa uma mulher tôda falsificada. Não é. O que cumpre é zelar a sua execução para que não se torne letra morta. apresenta-lhe o desagradável aspecto de um cabide de vestidos. em vez de um corpinho elegante e mimoso. um sorriso fingido.quem poderá avaliar a tristíssima posição dessa infeliz vítima dos progressos da indústria humana! Nem ao menos as leis lhe concedem o direito de intentar uma ação de falsidade contra aquêles que o lograram. mas também muitas outras. a que ordinàriamente damos tão pouco cuidado.

Neste jantar. mas eu prefiro falar a minha língua). no intuito de lhe dar um aspecto simbólico. No golpe do meio (coup dumilieu. que os homens não podiam roubar sem pecado. Creio que estão pintando o meu retrato. um dos seus principais fundadores. Foi o principal fundador da Academia Brasileira de Letras e o seu primeiro presidente. conquanto as notícias dissessem trinta e três (anos de Cristo). e juro se necessário fôr. Só 40 anos após sua morte é que se descobriu o verdadeiro autor das chamadas Crônicas de Lélio. Ouvi cabisbaixo. que havia ocorrido no dia 13 de maio de 1888. em falta de outro melhor. Crônica publicada no jornal Gazeta de Notícias. pessoa de seus dezoito anos. que estava à espreita. Por isso digo. finalmente. para ajudar a família. o maior escritor da literatura brasileira. Nasceu numa família muito humilde e. mais ou menos. ou como melhor nome tenha em holandês. depois do gato morto. fiz outro discurso agradecendo. que entendia que a nação inteira devia acompanhar as mesmas idéias e imitar o meu exemplo. a que meus amigos deram o nome de banquete. tratei de alforriar um molecote que tinha. e dei um jantar. reuni umas cinco pessoas. chamei o Pancrácio e disse-lhe com rara franqueza: . provavelmente. que tôda a história desta lei de 13 de maio estava por mim prevista. levantei-me eu com a taça de champanha e declarei que acompanhando as idéias pregadas por Cristo. Alforriá-lo era nada. restituía a liberdade ao meu escravo Pancrácio.Machado de Assis Biografia Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908) é considerado o maior escritor realista do Brasil e. recebi muitos cartões. Bons dias! Eu pertenço a uma família de profetas après coup. em Machado de Assis. Um dos meus amigos (creio que é ainda meu sobrinho) pegou de outra taça. Quincas Borba e Dom Casmurro. De 1858 em diante escreve para diversos jornais importantes com regularidade. como um furacão. e suponho que a óleo. e pediu à ilustre assembléia que correspondesse ao ato que acabava de publicar. De noite. que a liberdade era um dom de Deus. antes mesmo dos debates. em 19 de maio de 1888. brindando ao primeiro dos cariocas. entrou na sala. começou a trabalhar como aprendiz de tipógrafo na Imprensa Nacional em 1856. tanto que na segunda-feira. Machado escrevia suas crônicas sob pseudônimos. No dia seguinte. perdido por mil e quinhentos. há dezoito séculos. Dentre suas principais obras estão seus contos (O Alienista e A Cartomante estão entre os mais famosos) e os romances Memórias Póstumas de Brás Cubas. entendi que. Machado de Assis aborda com ironia a questão da abolição da escravatura. Na crônica abaixo. A crônica brasileira moderna tem. Caí na cadeira e não vi mais nada. e entreguei a carta ao molecote. post factum. e veio abraçar-me os pés. Pancrácio. perdido por mil. Todos os lenços comovidos apanharam as lágrimas de admiração.

quase divinos. Pois seis mil-réis. Precisou. dizendo ao escravo: és livre. Mas eu expliquei -lhe que o peteleco. Tudo compreendeu o meu bom Pancrácio.e. que os homens puros.Tu és livre. que êsse escravo tendo aprendido a ler. libertava um escravo. para satisfação do céu. Tudo cresce neste mundo. ..* Menor Perverso . no jornal Gazeta de Notícias. Quando nasceste. olha. Profissão de Fé e O caçador de esmeraldas. No fim de um ano. ch egando a ser perseguido e preso. Rio de Janeiro. merecendo destaque poesias como Via-Láctea. Crônica publicada. Machado de Assis. um ou outro puxão de orelhas.. se andares bem..Justamente. diversas crônicas. eu de mau humor. 1973.. Oito ou sete. e chamo-lhe bêsta quando lhe não chamo filho do diabo. Olavo Bilac Biografia Olavo Braz Martins dos Guimarães Bilac (1865-1918) é dos fundadores da Academia Brasileira de Letras e o autor de nosso Hino à Bandeira. repito. também.Pequeno ordenado. eras um pirralho dêste tamanho.Um ordenado pequeno. mas é de grão em grão que a galinha enche o seu papo.Oh! meusenhô! fico.. direi que. Fundou diversos jornais que duraram pouco tempo.491.. muito antes da abolição legal. não podia anular o direito civil adquirido por um título que lhe dei. efeitos da liberdade. daí pra cá. simplificar bastante a linguagem rebuscada que costumava usar em seus poemas e textos em prosa. Essa maleabilidade de Bilac é um bom exemplo da adaptação que os escritores tinham (e ainda têm) de fazer na hora de escrever crônicas a fim de tornar o texto mais descontraído e simples. na modéstia da família. sempre retardatários. na circular que mandarei aos meus eleitores. antes. Foi jornalista e poeta. em casa. e (Deus me perdoe!) creio que até alegre. mas os que se antecipam a ela. escrever e contar. O meu plano está feito. podes ir para onde quiseres. . senhô. . aceitou até um peteleco que lhe dei no dia seguinte.. Vol III. trôpegos e incapazes de restaurar a justiça na terra. não. tenho -lhe despedido alguns pontapés. José Aguilar. . . Boas noites. Tu vales muito mais que uma galinha.. cousastôdas que êle recebe humildemente. grandes e verdadeiramente políticos. É um dos principais representantes do Parnasianismo brasileiro.Artura não quédizê nada. ato que comoveu a tôda a gente que dêle teve notícia. já conhecida e tens mais um ordenado. és mais alto quatro dedos. Aqui tens casa amiga. Deixa ver.. provavelmente. uns seis mil -réis. conta com oito. p. quero ser deputado. Bilac escreveu. (simples suposições) é então professor de filosofia no Rio das Cobras. não são os que obedecem à lei. 3ª edição. 489 . Texto extraído do livro Obra Completa.. eram dois estados naturais. um ordenado que. mas que há de crescer. Sempre esteve muito envolvido com política. sendo um impulso natural. antes que o digam os poderes públicos. Êle continuava livre. por me não escovar bem as botas. já eu. Pancrácio aceitou tudo. tu cresceste imensamente. hoje estás mais alto que eu. entretanto.

dos que há dentro delas. Editora Nova Aguilar.. E os jornais. Só pensamos nessas casas de beneficência ou de correção. exausto.porque não lhe podemos dar o tratamento que a sua enfermidade requer. presídios. e é aqui que somos forçados a reconhecer que. Como? naturalmente. que os jornais consideram um grande criminoso. comovendo-nos ou indignando -nos. cujos instintos precisam ser refreados". se estamos muito adiantados em matéria de politicagem e parolagem. há uma grita convulsa... já tarde. um grande dispêndio de artigos pelas folhas e de atividade pela polícia. como? Metendo-o na Correção? mandando-o para o Acre? fuzilando-o? A ocasião é oportuna para mais uma vez se verificar quanto estamos mal aparelhados para atender às múltiplas necessidades da assistência social. mas. pedem quase todos. até que. Que se castigue.. Mas nada é impossível na vida. foi encontrado na praça da República e conduzido para uma delegacia policial.)" ( Obra reunida.. * No início do livro Ironia e piedade. um grande espalhafato. p. Se é verdade que esse menino conscientemente praticou a maldade de que é acusado. estão arriscados a ficar cada vez piores. ainda há pouco tempo. há um homem que se vai perder. consumado o seu ato de perversidade (ou de imprudência?) o pequeno fugiu.uma criança de três anos assassinada por outra de dez.. 1997. terminando a narração do caso triste.. O fato é que. escolas correcionais. ainda estamos atrasadíssimos em matéria de verdadeira civilização. uma certa disciplina de espírito. penitenciárias. perfeitamente curável) levou à prática de um ato tão cruel. o que se soube da vida íntima dessa escola serviu apenas para mostrar que. 737-738. lá dentro. Olavo Bilac escreve: "Quase todas estas páginas foram publicadas na Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro. 715) . Nesse pequeno infeliz. pelo vício da organização do estabelecimento. que "se castigue esse precoce facínora. não têm fiscalização efetiva. por nossa culpa. os pequenos maus. e andou vagando pelas ruas. Propositalmente? parece impossível. à espera de novo escândalo. dando-lhe uma educação especial.. quando um escândalo. que integra Obra reunida. Um criminoso de dez anos não é positivamente um criminoso. em quase unânime acordo de idéia e de expressão. . Mas onde? É aqui que surge a dificuldade.. Mas tenho também muita pena dessa outra criança.. banhado em lágrimas. morta no meio de horríveis torturas. Tive muita pena da pobre criança de três anos. Mas. que uma brincadeira funesta (ou uma inconsciente moléstia moral. p. Rio de Janeiro. Então. tudo volta ao mesmo estado. Tudo quanto se refere à assistência pública ainda está por fazer no Brasil: asilos.. (. faz explosão cá fora. das suas tendências para o exercício do mal.É este o título. logo depois. Já sei que há por aí uma Escola Correcional.. Diz-se que o "menor perverso" ensopou em espírito de vinho as roupas da vítima e ateou-lhes fogo. com que aparece em todos os jornais a notícia de um caso triste. Texto extraído do livro: Obra reunida. Olavo Bilac. em condições que ainda não foram bem tiradas a limpo. dos seus maus instintos. . o nosso dever não é castigá-lo: é salvá-lo de si mesmo.

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