INTRODUÇÃO O Brasil é um país que possui um grande número de veículos em circulação e, em decorrência, muitos acidentes com fatalidades ocorrem

em números assustadores diariamente. Motoristas imprudentes que se utilizam de veículos como armas de fogo. Em meio a esse assunto, que punição aplicar ao agente: dolo eventual ou culpa consciente? A diferença de ambos ainda se confunde, pois é necessário saber a vontade do agente. A busca da identificação da vontade que houve por parte do agente, a intenção ou não do resultado é difícil de provar. A culpa está caracterizada e descrita nos crimes de trânsito, mas um clamor da sociedade na busca de uma pena mais gravosa para esses crimes tem tentado reverter para a aplicação do dolo eventual, causando uma pressão no judiciário por causa dessa insatisfação e levando a mudanças na aplicação da pena. Os tribunais discutem e os doutrinadores também divergem suas opiniões na aplicação do dolo eventual, não sabendo se o agente agiu com culpa consciente ou não, causando grande celeuma. Diante dessa discussão nos deparamos com um problema que será analisado no decorrer desse trabalho. Enquanto uns entendem que não há possibilidade da aplicação do dolo eventual nos homicídios ocorridos no trânsito, pois o Código de Trânsito Brasileiro – CTB deixa bem claro no art. 302 que só existe a penalidade de forma culposa nos casos de homicídios praticados na direção de veículos automotores, outros entendem que podem sim aplicar o instituto dolo eventual em determinados crimes de trânsitos, como dirigir embriagado, andar pela contramão, prática de racha e etc, dependendo do caso em estudo. A relevância dessa temática traz nesse projeto teorias expostas em seu embasamento à finalidade de analisar a possibilidade ou não da aplicação do dolo eventual nos homicídios no trânsito, como a sociedade, doutrinadores e aplicadores da lei tem se comportado perante o insigne número de crimes ocorridos no trânsito. Examinar minuciosamente se há em determinados crimes de trânsitos os requisitos necessários para a aplicação do dolo eventual ou da culpa consciente. Verificar

como tem se comportado o operador do direito na hora de fazer subsunção e aplicação da pena em meio à celeuma entre dolo eventual e culpa consciente que podem ocorrer nesse tipo de crime. Pesquisar na jurisprudência e na doutrina como tem ocorrido à aplicabilidade do instituto dolo eventual e culpa consciente em alguns crimes ocorridos no trânsito, são uns dos objetivos desta pesquisa. Este estudo tem como importância para a sociedade o conhecimento do assunto dolo eventual, trazendo a diferenciação da culpa, ambas penalidades aplicadas em crimes de trânsito que no Brasil acontecem milhões todo ano e que muitos desses casos são julgados de maneira injusta, ficando a sociedade muitas vezes insatisfeita com a sentença final. Para isso foi constituída uma pesquisa bibliográfica, implementada a uma pesquisa de campo, para verificar o que os alunos do curso de Direito acham e pensam sobre esse assunto, se é a favor da aplicação do dolo eventual nos crimes de trânsito, se as penas aplicadas satisfazem o anseio de justiça.

p. 2010.br/doutrina/texto.asp?id=3705>. 105 4 BITENCOURT.4 Já analisando o conceito de crime sob o aspecto analítico. Tratado de Direito Penal. ano 7. e tendo a culpabilidade um 1 ALEXANDRE. formal e analítico. fev. Direito Penal. Disponível em: <http://jus2.2 A melhor orientação para o conceito material de crime. 3 MIRABETE. mas a doutrina tem se preocupado em conceituá-lo. crime é a violação da lei penal.3 Formalmente falando. 210 . É importante ressaltar que. Cezar Roberto. Segundo Damásio de Jesus o “conceito material do crime é de relevância jurídica. como afirma Noronha.193. NORONHA. a razão determinante de constituir uma conduta humana infração penal e sujeita a uma sanção”. antigamente. “é aquele que tem em vista o bem protegido pela lei penal”. a doutrina tem se dividido entre a teoria bipartida. uma vez que coloca em destaque o seu conteúdo teleológico. propriamente dito. Teresina. Julio Fabrinni. Magalhães.1 CONCEITO Embora o nosso Código Penal não haver trazido o conceito de crime. p. o material. Alessandro Rafael Bertollo de. Tal não ocorre na legislação atual como já citado anteriormente. Direito Penal. o qual é o adotado para conceituar o crime. 62. E. p. n. o Código Criminal de 1830 e o Código Penal de 1890 traziam o conceito de crime.uol. Jus Navigandi. Manual de Direito Penal.1 A doutrina conceitua o crime sobre três aspectos. O conceito de crime . sendo o crime fato típico e antijurídico. 2 JESUS.com.CAPÍTULO I O CRIME 1. 96 apud. Damásio. Acesso em: 04 set. O conceito formal e material é insuficiente para permitir à dogmática penal a realização de uma análise dos elementos estruturais do conceito do crime. p. 2003.

antijurídico e culpável. também denominada neokantista. Portugal. Cezar Roberto. e a teoria tripartida sendo o crime fato típico. foi trabalhado no aperfeiçoamento dos diversos elementos que compõe o delito. 5 EMANUELE.6 Como citado anteriormente. próprio do moderno pensamento científico. tem defendido a teoria tripartida (fato típico. sob a influência do método analítico. Segundo essa teoria toda e qualquer ação do homem têm uma finalidade e não simplesmente uma causalidade. uma classe majoritária composta por Aníbal Bruno. Fernando Galvão. Guilherme Nucci. 206 Penal. O Código Penal adotou de forma não expressa à teoria finalista de Hans Welsel.pontojuridico. como Itália. Áustria e Suíça. onde se observou elementos finalísticos nos tipos penais. que. Edgar Magalhães Noronha. Nélson Hungria. Teorias da Conduta no Direito <www. De acordo com as palavras de Rodrigo Santos Emanuel: Hans Welzel foi o grande defensor da teoria finalista da ação que surgiu entre 1920 e 1930. com a contribuição de outros países. Pela corrente neoclássica. Disponível em: . p. Julio Fabrini Mirabete e outros tem adotado a teoria bipartida (fato típico e ilícito). Celso Delmanto. Grécia. onde se tem a partir dessa concepção a formação das duas teorias citadas acima.5 Segundo Cezar Roberto Bitencourt: A definição atual do crime é produto da elaboração inicial da doutrina alemã. Heleno Fragoso. sendo assim a vontade é um elemento muito importante na hora de praticar a ação.com>. antijurídico e culpável) e os grandes autores conhecidíssimos em nosso meio jurídico. Fernando Capez. acessado em: 27/08/2010 6 BITENCOURT. a doutrina tem se divergido com relação aos elementos que compõem o crime. Tratado de Direito Penal. Rodrigo Santos.elemento que permitirá a manifestação da pena ao agente que praticou o delito. a partir da segunda metade do século XIX. diante das constatações neoclássicas. entre outros. foi possível determinar elementos subjetivos no próprio tipo penal e não somente na culpabilidade. Espanha. Cezar Bitencourt.

1. Fernando. p. José Henrique. que pode ser dolosa ou culposa. segundo o princípio da reserva legal (CP. onde o agente age negativamente. p.9 Assim como o conceito de crime é composto de elementos. • Nexo de causalidade. 7 8 CAPEZ. 18-19 10 Idem. “a pedra angular de toda a sistemática do delito”. 1º).8 Celso Delmanto afirma que “será fato típico quando a conduta estiver definida por lei como crime. constitucional mente garantido (CR/88. Código Penal Comentado. ou omissiva. que são eles: • Conduta (dolosa ou culposa). Celso. Julio Fabrinni. 19-20 .109 MIRABETE.De acordo com a doutrina majoritária irá ser abordado de forma completa a teoria tripartida para uma maior explanação sobre o conceito de crime. e é previsto como infração penal”.5º. 1. art. p. XXXIX)”. • Tipicidade. um não fazer. Do Consentimento do Ofendido na Teoria do Delito. p.19 apud. p. onde se tem um comportamento positivo. Fato Típico Sendo um dos elementos do crime o fato típico é o fato material que se amolda perfeitamente aos elementos constantes do modelo previsto na lei penal. • Resultado. PIERANGELLI. A conduta. em querer agir. também a doutrina conceitua o fato típico com a composição de quatro elementos. Curso Direito Penal.7 Segundo Mirabete o fato típico “é o comportamento humano (positivo ou negativo) que provoca em regra um resultado. art.10 Pode se classificar a conduta também como comissiva. Manual de Direito Penal. 98 9 DELMANTO. contemplando todos os seus elementos. é a manifestação de uma vontade.1.

O resultado naturalístico consiste na modificação provocada no mundo exterior pela conduta do agente. Na medida que a Constituição brasileira consagra expressamente o princípio de que “não há crime sem lei anterior que o defina.179 . segundo a escola finalista. p. 11 12 Idem. o que seria um a verdadeira afronta ao direito penal da culpa. concreto. sem os quais jamais pode haver punição.13 Essa descrição abstrata contida na lei se dar o nome de Tipo. 18). primeira parte do CP).21 13 MIRABETE. p. 12 A tipicidade é o último elemento do fato típico. 115 14 CAPEZ. pois o crime só poderá ser imputável a quem lhe deu causa. Curso Direito Penal. incorporou ao tipo penal a exigência de dolo ou culpa (elementos subjetivos do tipo – CP.11 O nexo de causalidade que se encontra tipificado no art. Manual de Direito Penal.13 do CP deixa bem claro que deve haver um nexo ou ligação entre a conduta do agente e o resultado.14 É importante ressaltar que o fato concreto tem que conter todos esses elementos do fato típico. Já o resultado jurídico é o que se refere à própria lesão ou perigo de lesão ao bem jurídico penalmente tutelado.5º. 13. de descrever os crimes. Segundo Capez: O tipo legal é um dos postulados básicos do princípio da reserva legal. Julio Fabrinni. De acordo com as palavras de Celso Delmanto: O legislador. e a descrição contida na lei.19 Idem. a adequação perfeita entre o fato natural. que fica outorgado à lei a relevante tarefa de definir. sobe pena de inadmissível responsabilidade penal objetiva. isto é.O elemento resultado do crime pode ser naturalístico ou jurídico (art. Fernando. caso falte algum não poderá ser considerado crime. XXXIX). nem pena sem prévia cominação legal” (art. e é considerado causa a ação ou omissão do agente. p. que é a correspondência exata. art. sem a qual o resultado não teria ocorrido. p.

§ 2. II. não era razoável exigir-se. usando moderadamente dos meios necessários. a direito seu ou de outrem. p. Antijurídico ou Ilícito Hans-Heinrich Jescheck conceitua a antijuridicidade com sendo um “comportamento contrário ao dever de atuar ou de se abster estabelecido de em uma norma jurídica”. que não provocou por sua vontade.em estrito cumprimento do dever legal ou no exercício regular de direito. Livia.º Não pode alegar estado de necessidade que tinha o dever legal de enfrentar o perigo. 23. pois existem as excludentes de ilicitude que se encontram tipificadas no nosso Código Penal.16 Todo fato penalmente ilícito é sempre típico.2. Considera-se em estado de necessidade que pratica o fato para salvar de perigo atual. Não há crime quando o agente pratica o fato: I – em estado de necessidade.1.1. cujo sacrifício. p.º Embora seja razoável exigir-se o sacrifício do direito ameaçado. pelo qual a ação ou omissão típicas tornam-se ilícitas”. Antonio Luiz de Toledo. § 1. III. Fernando. Tratado de Direito Penal. CÉSPEDES. nas circunstâncias.15 Segundo Fernando Capez a ilicitude “é a contradição entre a conduta e o ordenamento jurídico. atual ou iminente.1.em legítima defesa. 25. mas nem todo típico é ilícito.17 1. art. a pena poderá ser reduzida de um a dois terços.543 . que são elas: • Estado de necessidade.258 17 PINTO. Art. • • Art. Vade Mecum. Culpabilidade 15 16 JESCHECK. Hans-Heinrich. Legitima defesa. direito próprio ou alheio. Curso Direito Penal. 24. Márcia Cristina Vaz dos Santos.210 CAPEZ. WINDT. Exercício regular de direito. Entende-se em legitima defesa que. p. 23. repele injusta agressão. Art.3. nem podia de outro modo evitar.

psicológicas. p.19 Mas. O agente deve ter condições físicas. Fernando. Desenvolvimento metal retardado. morais e mentais de saber que está realizando um ilícito penal e ter controle sobre sua vontade. A culpabilidade é a possibilidade de o agente que praticou uma infração penal ser considerado culpado. mas pressuposto para a imposição de pena. é considerado elemento que compõe o crime. a culpabilidade. É isento de pena o agente que.18 Para que haja a culpabilidade do agente no ato praticado como crime é necessário ter em mente alguns elementos. Exigibilidade de conduta diversa. Desenvolvimento mental incompleto. Embriaguez completa proveniente de caso fortuito ou força maior. São considerados inimputáveis segundo o nosso Código Penal: Art. existem causas que excluem a imputabilidade. sendo definida como juízo de censurabilidade e reprovação exercido sobre alguém que praticou um fato típico e ilícito. ao tempo da ação ou 18 19 CAPEZ. que são eles: • • • Imputabilidade. p. era.296 . que são: • • • • Doença mental.Como já visto anteriormente. Curso Direito Penal. para a doutrina majoritária. já a doutrina minoritária diz que não se trata de um elemento do crime. por doença mental ou desenvolvimento mental incompleto ou retardado. A imputabilidade é a capacidade de entender o caráter ilícito do fato e de determinar-se de acordo com esse entendimento.287 Idem. Potencial consciência da ilicitude. 26.

que são: Art. Parágrafo único. Gecivaldo Vasconcelos. p. WINDT. ano 12. 201024 maio 2010.22 20 PINTO. proveniente de caso fortuito ou força maior.° A pena pode ser reduzida de um a dois terços. A figura 1 nos traz resumidamente toda a teoria do crime que foi aqui esplanada. Não excluem a imputabilidade penal: I – a emoção ou a paixão. voluntária ou culposa.20 O Código Penal também descreve quais os casos que não excluem a imputabilidade. Teoria do crime em síntese.da omissão. proveniente de caso fortuito ou força maior. se o agente.22 do Código penal. Vade Mecum.uol. FERREIRA. a plena capacidade de entender o caráter ilícito do fato de determinar-se de acordo com esse entendimento. pelo álcool ou substância de efeitos análogos. Antonio Luiz de Toledo. em virtude de perturbação de saúde mental ou por desenvolvimento mental incompleto ou retardado não era inteiramente capaz de entender o caráter ilícito do fato ou de determinar-se de acordo com esse entendimento Art.21 A potencial consciência da ilicitude é quando o agente tem a total consciência e condição de perceber a que conduta que está praticando é contrária ao ordenamento jurídico. Acesso em: 13 set. Os menores de 18 (dezoito) anos são penalmente inimputáveis. inteiramente incapaz de entender o caráter ilícito do fato ou de determinarse de acordo com esse entendimento. II – a embriaguez. § 2. era. ao tempo da ação ou da omissão. não possuía. 27. . § 1. inteiramente incapaz de entender o caráter ilícito do fato ou de determinar-se de acordo com esse entendimento. por embriaguez. Livia.543 21 22 Idem. 3 fev. Jus Navigandi. Teresina. Márcia Cristina Vaz dos Santos. 2008. 28.br/doutrina/texto. se o agente. 1677. A pena pode ser reduzida de um a dois terço. Disponível em: <http://jus2. por embriaguez completa. Exigibilidade de conduta diversa é a possibilidade de o agente praticar outra conduta. uma causa de exclusão da culpabilidade. CÉSPEDES.º É isento de pena o agente que. como afirma o art. então. n. ao tempo da ação ou da omissão. sendo que caso exista coação irresistível ou uma obediência hierárquica há.com.asp?id=10913>. ficando sujeitos às normas estabelecidas na legislação especial. Ibidem.

23. e 25 do CP). do CP). 13 do CP). Consentimento do ofendido (admissível somente em alguns casos). 13. 27 do CP. II. III. 28. imaturidade natural (arts. E L Resultado jurídico/normativo (art. e ainda. embriaguez completa proveniente de caso fortuito ou força maior (art. Observar que o erro de tipo (art. E X C L U D E N T E S ILÍCITO (relação de antagonismo entre a conduta do agente e o ordenamento jurídico) • • • • • Estado de necessidade (arts. condição de silvícola inadaptado. comissiva ou omissiva. primeira parte. 18 do CP). 23. do CP). 20 do CP) inevitável exclui o dolo e a culpa. 23. O S Tipicidade Conglobante: quando a conduta do agente não é imposta ou fomentada pela norma e afeta bens penalmente relevantes (tipicidade material). que afeta ou ameaça de forma relevante bens penalmente tutelados). FATO TÍPICO (fato material no qual se identifica a efetivação de uma conduta prevista no tipo penal incriminador. CULPÁVEL (juízo de reprovação sobre a conduta ilícita do agente) E Imputabilidade L E M E N T O S Excluem a imputabilidade: • • • doença mental (art. E M Nexo de causalidade entre a conduta e o resultado (art. Estrito cumprimento de dever legal (art. do CP). do CP). 26 do CP). dolosa ou culposa (art. III. 23. § 1º. Legítima defesa (arts. e 24 do CP). e 228 da CF).Figura 1 CRIME Conduta. E N Formal: adequação perfeita do fato à lei penal T incriminadora. Exercício regular de direito (art. • . I.

1677.1 DOLO E CULPA Como já visto no capítulo anterior. 3 fev. CÉSPEDES. WINDT.br/doutrina/texto.542 24 GRECO. Livia. Excluem esse elemento: • Exigibilidade de conduta diversa • • Coação moral irresistível (art. quando o agente deu causa ao resultado por imprudência. Márcia Cristina Vaz dos Santos. ano 12. Teoria do crime em síntese . n.p. Teresina. Antonio Luiz de Toledo. Acesso em: 24 maio 2010.uol. 18.18.1 Conceito e Teorias Para Rogério Greco o dolo é a vontade livre e consciente dirigida a realizar a conduta prevista no tipo penal incriminador. Art. Vade Mecum. negligência ou imperícia. Causas supralegais (identificáveis em situações concretas) FONTE: FERREIRA. para haver crime é necessária uma conduta dolosa ou culposa que se encontra como um dos elementos do fato típico. 204 .Potencial consciência sobre a ilicitude do fato O erro de proibição inevitável (art. Gecivaldo Vasconcelos. Disponível em: <http://jus2.24 23 PINTO. p.23 2. II – culposo. Jus Navigandi. Obediência hierárquica (art.2.asp?id=10913>. O dolo e a culpa são definidos por nossa doutrina como os elementos subjetivos do crime e se encontram tipificados em nosso Código Penal no art. Diz se o crime: I – doloso.2 DOLO 2. Rogério. Curso de Direito Penal. 2008. 22 do CP). 21 do CP) exclui essa potencial consciência.com. CAPÍTULO II DOLO E CULPA 2. 22 do CP). quando o agente quis o resultado ou assumiu o risco de produzilo.

são elas: • • • Teoria da vontade. Assim. será suficiente para a configuração do dolo o elemento intelectivo: a consciência. porque é ela que possibilita a representação mental do resultado. 80 28 Idem. p.p. Um grande expoente da teoria da vontade é Francesco Carrara.p.25 No entendimento de Fernando Capez o dolo é à vontade e a consciência de realizar os elementos constantes do tipo legal. Geral. Fernando. que diz que o dolo se configura com a simples previsão do resultado. é a vontade manifestada pela pessoa humana de realizar a conduta. o querer em praticar uma conduta prevista no tipo penal.158 apud CARRARA. A doutrina explana três teorias que procuram conceituar e explicar o dolo. Curso de Direito Penal: Parte Geral.27 A teoria da representação foi criada por Franz von Liszt. Segundo essa teoria a mera representação intelectual não é suficiente para a configuração do dolo. Cláudio. Mais amplamente.198 27 BRANDÃO.26 O dolo é à vontade. mas deve-se analisar a atitude do agente frente a representação: além do resultado.158 29 Idem. O mestre dos mestres definiu o dolo como intenção mais ou menos perfeita de praticar um ato contrário à lei.156 CAPEZ. Curso Direito Penal. mostrando uma atitude de indiferença em face da sua configuração. Teoria da representação. .29 25 26 BRANDÃO.28 A teoria do consentimento segundo Cláudio Brandão: A teoria do consentimento surge a partir de uma crítica feitas à teoria da representação. Teoria consentimento. p. Ele reconhece o dolo sempre que o agente tem a intenção de produzir resultado. Ibidem. e conhecer que o fato que está praticando é ilícito.Segundo Cláudio Brandão o dolo é definido como consciência e vontade da realização dos elementos objetivos do crime.Programa do Curso de Direito Criminal. Cláudio. formulada por Ernst von Beling. Curso de Direito Penal: Parte Francesco.p.

e a teoria do consentimento na segunda parte do mesmo dispositivo. embora não queira o evento. Ex:. prevendo que pode matar o terceiro é-lhe indiferente que este último resultado se produza. 18..2 Espécies de dolo Para Damásio de Jesus a doutrina distingue duas formas de dolo: Dolo direto ou dolo determinado: o sujeito visa a certo e determinado resultado. responde por dois crimes de homicídio: o primeiro. Atirando na vítima e matando também o terceiro. o segundo. O dolo se projeta de forma direta no resultado morte. Não obstante essa possibilidade. sendo a consciência o elemento intelectivo. [. Ele não quer o resultado. admite e aceita o risco de produzi-lo. mas sim à conduta. A teoria da vontade foi a teoria adotada pelo nosso Código Penal prevista na primeira parte do art. pode também atingir a outra pessoa.2. abrangendo os meios utilizados para tanto. o agente pretende atirar na vítima. Ele tolera a morte do terceiro.340 . não obstante.30 Espécies de dolo segundo Guilherme de Souza Nucci: O dolo direto . 2. tendo assim como o dolo a vontade de realizar o resultado ou a aceitação dos riscos de produzi-lo. Ex:. Para ele. a título de dolo eventual. o agente desfere golpes de facas na vítima com intenção alternativa: ferir ou matar. pois se assim fosse haveria dolo direto. Entre desistir da conduta e causar o resultado. I. Damásio.Com a analise do nosso Código Penal em seu art.é a vontade do agente dirigida especificamente à produção do resultado típico.18. a título de dolo. Percebe que é possível causar o resultado e. Possui duas formas: Dolo alternativo – quando a vontade do sujeito se dirige a um ou outro resultado. Direito Penal. e a vontade o elemento volitivo. Ele antevê e age.] Dolo indireto ou indeterminado: quando a vontade do sujeito não se dirige a certo e determinado resultado. I. tanto faz que o terceiro seja atingido ou não.. Ex:. prefere que este se produza. A vontade se 30 JESUS. Desse modo. o agente desfere golpes de faca na vítima com intenção de matá-la. pode-se observar que foram adotadas duas teorias: a teoria da vontade e a teoria do consentimento ou assentimento. Dolo eventual – ocorre quando o sujeito assume o risco de produzir o resultado. p. realiza o comportamento. A vontade não se dirige ao resultado (o agente não quer o evento). isto é. pode-se dizer que o dolo é composto de alguns elementos. prevendo que esta pode produzir aquele.

31 2.] Contudo uma fez adotada a teoria finalista da ação. em que na sua redação encontramos expressões que indicam a finalidade da conduta do agente (com o fim de. 121 do Código Penal. Guilherme Nucci traz em seu Manual de Direito Penal essas outras classificações do dolo: a) Dolo alternativo. não há. [. de uma hipótese de engano quanto ao meio de execução do delito. razão pela qual vislumbravam. c) Dolo geral (também chamado de erro sucessivo ou abrratio causae). quando prevalecia a teoria natural da ação. Curso de Direito Penal. indicando alguma finalidade do agente. como dolo alternativo. a seu turno. mas com fundamentação em outras teorias ele pode formar outras espécies. mas que termina por determinar o resultado visado. a lei usa o termo “assumir o risco de produzi-lo”. por exemplo.2. que significa desejar o agente alcançar dois resultados. o dolo genérico. Dolo específico. É um erro sobre a causalidade. toda a conduta é finalisticamente dirigida à produção de um resultado qualquer. indiferentemente. era aquele em que no tipo penal podia ser identificado o que denominamos de especial fim de agir. embora sinta que ele pode se materializar juntamente com aquilo que pretende. existe um dolo específico. Nesse caso. 221-222. Fazia-se. Por isso. Manual de Direito Penal. mas jamais quanto aos elementos do tipo. o agente não quer o segundo resultado diretamente. nem tampouco quanto à ilicitude do que se pratica. Rogério. Trata-se. a distinção entre dolo genérico e dolo específico. porém vislumbrando a possibilidade de ocorrência de um segundo resultado. unido ao primeiro. ali... segundo os adeptos dessa distinção. a ação é o exercício de uma atividade final. [. etc). em sequência. podemos dizer que em todo o tipo penal há uma finalidade que o difere de outro. trazendo expressões dela indicativas. Essas duas formas de dolo são as usadas em nossa doutrina atualmente.. embora não seja tão evidente quando o próprio artigo se preocupa em direcionar a conduta do agente.encaixa com perfeição ao resultado.32 31 32 GRECO. não havia indicação alguma da finalidade da conduta do agente. dolo cumulativo e dolo geral. o que lhe é indiferente. não importando se a intenção do agente é mais ou menos evidenciada no tipo penal. No tipo do art.159 do Código Penal. mas admitido. ou seja. Dizia-se que dolo genérico era aquele em que no tipo penal não havia indicativo algum do elemento subjetivo do agente ou.] O dolo indireto ou eventual é a vontade dirigida a um resultado determinado. que significa querer o agente.. p. de acordo com a referida teoria. Ao contrário . em verdade. 209 NUCCI. um resultado ou outro b) Dolo cumulativo. Guilherme de Souza. .3 Outras classificações do dolo Existem também outras classificações do dolo. no caso de tipos penais como o do art. de situação mais complexa. como o dolo genérico e o dolo específico. p. melhor dizendo. Isso porque. não desejado.

278 . mas previsível. embora produza resultado ilícito.35 Segundo Delmanto: 33 34 NUCCI. Cezar Roberto. a culpa. ainda. objetivamente previsível”. não desejado. é crime culposo quando o agente deu causa ao resultado por imprudência. utilizar apenas o termo dolo para designar o dolo genérico e elemento subjetivo do tipo específico para definir dolo específico.33 2. p. 221-222.1 Conceito e Teorias Segundo o Código Penal em seu artigo 18. bastando considerar a existência do dolo e de suas finalidades específicas. Código Penal Comentado. Idem. Tratado de Direito Penal. que seria a mesma vontade.Distinção entre dolo genérico e dolo específico segundo Guilherme de Souza Nucci: A doutrina tradicional costuma fazer diferença entre o dolo genérico. que seria a vontade de praticar a conduta típica.3 CULPA 2. que constituem o elemento subjetivo específico. que podia ter sido evitado. negligência ou imperícia. desatencioso. Guilherme de Souza. Alguns autores. Necessário assim se faz a busca doutrinária para um melhor entendimento e aprofundamento do estudo do conceito de culpa. Contudo essa definição que se encontra tipificada não demonstra suficientemente um conceito concreto para que se possa afirmar que determinada conduta que o agente venha a praticar é considerada ou não culposa. Para Guilherme de Souza Nucci culpa “é o comportamento voluntário. apreciam a denominação elemento subjetivo do injusto ou elemento subjetivo ilícito para compor o universo das específicas finalidades que possui o agente para atuar. O dolo é a regra. podendo ser explícito ou implícito. 192 35 BITENCOURT. p. II. lícito ou ilícito. atualmente. Outra parcela da doutrina costuma. Entendemos ser desnecessária essas últimas duas denominações. p. sem qualquer finalidade especial.3.34 No entendimento de Cezar Roberto Bitencourt a definição de culpa “é tida como a inobservância do dever objetivo de cuidado manifestada numa conduta produtora de um resultado não querido. exceção”. voltado a um determinado objeto. e o dolo específico. embora adicionada deu uma especial finalidade.

no art. inerente a qualquer ser humano normal. o crime culposo precisa estar expressamente previsto no tipo penal.. quando o agente vislumbra o evento lesivo.] Assim. é imprescindível que o evento lesivo jamais tenha sido desejado ou acolhido pelo agente. não empregando a atenção e cuidado exigido pelas circunstâncias. já que o agente não deseja a produção do evento lesivo. negligência ou imperícia.37 36 37 importante na culpa é a análise do comportamento e não o do resultado. Para Guilherme de Souza Nucci os elementos da culpa são os seguintes: a) Concentração na análise da conduta voluntária do agente. d) Previsibilidade. 34 NUCCI. pois não se exige da pessoa uma atenção extraordinária e fora do razoável. DELMANTO.2 Elementos da culpa Para que se caracterize uma conduta culposa é necessária a observação de alguns elementos.3. de acordo com sua capacidade pessoal.. p. Ausente a previsibilidade. Em todos eles percebe-se que o agente age de uma maneira voluntária. a doutrina busca uma complementação do que o nosso Código Penal afirma. à culpa. afastada estará a culpa. f) Tipicidade.155 do Código Penal. g) Nexo causal. 2. se o sujeito. mesmo o prevendo. Ex. o que indica a tipicidade da conduta do agente. 224 . Guilherme de Souza. ou seja. significa que somente a ligação. que a possibilidade de prever o resultado lesivo. isto é. mas com imprudência.A culpa fundamenta-se na aferição do cuidado objetivo exigível pelas circunstâncias em que o fato aconteceu. isto é. vale dizer. através da previsibilidade. pela análise da previsibilidade subjetiva. pois acharia que o incidente não iria acontecer. e) Ausência de previsão (culpa inconsciente). não é possível que o agente tenha previsto o evento lesivo. Essas regras gerais de cuidado derivam da proibição de ações de riscos que vão além daquilo que a comunidade juridicamente organizada está disposta a tolerar. Celso. Código Penal Comentado. p. sem a intenção de praticar o ato. sinceramente. que ele não aconteça (culpa consciente). entre a conduta do agente e o resultado danoso pode constituir o nexo de causalidade no crime culposo. esperando. Manual de Direito Penal. não previu o resultado do seu comportamento ou. deve-se chegar à culpabilidade. exigíveis de todos que vivem em sociedade. mas crê poder evitar que ocorra. agiu ou não de forma a evitar o resultado [. levianamente pensou que ele não aconteceria. de forma que não há “furto culposo”. A seguir. c) Resultado danoso involuntário. significando que o agente deixou de seguir as regras básicas e gerais de atenção e cautela. haveria crime culposo quando o sujeito.: não existe menção. ou previsão do resultado. o mais b) Ausência do dever de cuidado objetivo.36 Como se pode observar em todos os conceitos dados. ou seja.

• Imperícia. Julio Fabrinni. dirigir em alta velocidade. 209 MIRABETE. Rogério. de destreza ou de competência no 38 39 GRECO. Ex. Luiz Regis Prado no seu livro Curso de Direito Penal conceitua essas modalidades de culpa. afoitamento ou inconsideração. com precipitação. 98 . p. quando estacionado. É a conduta arriscada. comissiva ou omissiva. Manual de Direito Penal.: não observar a sinalização de trânsito (via preferencial). Ex. não o faz por preguiça. a) Imprudência – vem a ser uma atitude positiva. a inércia do agente que podendo agir para não causar ou evitar o resultado lesivo.3 Modalidades de Culpa O nosso Código Penal nos traz em seu artigo 18. um agir sem a cautela. tampouco assumido. o resultado lesivo involuntária. a atenção necessária. b) imprudência e imperícia). d) nexo de causalidade entre a conduta do agente que deixa de observar o seu dever de cuidado e o resultado lesivo dele advindo. • Negligência. desatenção ou displicência.Segundo Rogério Greco a caracterização do delito culposo é necessário a conjugação de vários elementos. e e) a tipicidade. c) Imprudência – vem a ser a incapacidade. 2. desleixo. a saber: a) conduta voluntária. e) previsibilidade. II. Curso de Direito Penal. perigosa. p. a previsibilidade. impulsiva. pelo agente. É a ausência de aptidão técnica. b) Negligência – relaciona-se com a inatividade (forma omissiva). c) o resultado lesivo não querido. as modalidades de culpa que são elas: • Imprudência. f) tipicidade.39 A doutrina encontra-se quase unânime em relação aos elementos que compõe a culpa. a inobservância do dever de cuidado objetivo. de habilidade.38 Já no entendimento de Mirabete os elementos do crime culposo são: a) b) c) d) a conduta.3.: não deixar veículo freado. a falta de conhecimentos técnicos precisos para o exercício de profissão ou arte.

por inobservância de um dever de cuidado.3. b) Negligência: é a culpa na sua forma omissiva. p. a abstenção de um comportamento que era devido. Pode ser definida como uma ação descuidada.: ultrapassagem proibida. Curso de Direito Penal Brasileiro. desse modo. mas de modo contrário ao seu dever de cuidado. não sinalizar devidamente perigoso cruzamento. Cláudio Brandão em seu livro Curso de Direito Penal diz que a dogmática penal distingue duas formas de culpa: A culpa inconsciente é aquela que o agente não prevê a possibilidade de um resultado típico e antijurídico. Pressupõe a qualidade de habilitação para o exercício profissional. sem saber. o cuidado objetivo exigível.40 Fernando Capez também conceitua as modalidades: a) Imprudência: é a culpa de quem age. c) Imperícia: é a demonstração de inaptidão técnica em profissão ou atividade. a negligência dá-se sempre antes do início da conduta. Implica. Não prevê o resultado. Implica sempre um comportamento positivo. Ao contrário da imprudência. Curso de Direito Penal: Parte Geral. 2. O negligente deixa de tomar. Consiste em deixar alguém de tomar o cuidado devido antes de começar a agir.] A culpa consciente é aquela em que o agente prevê a possibilidade da realização de um ato típico e antijurídico. Luiz Regis Prado. Ex.é a culpa comum. 365-366 CAPEZ..208-209. apesar de usarem outros termos para definir os conceitos das modalidades da culpa. aquela que surge durante a realização de um fato sem o cuidado necessário. Johannes. Curso Direito Penal. que ocorre durante uma a ação. p. confia que este ato não se realizará.158 apud WESSELS. antes de agir. excesso de velocidade. quando era capaz de prevê-lo e o Direito exigia dele a previsão.4 Espécies de Culpa Existem várias espécies de culpa classificadas por diversos doutrinadores. ou seja. que se verifica quando o autor não prevê o resultado que lhe é possível prever. 147.p. Ex. Consiste na incapacidade. transgredindo. O agente não conhece concretamente o dever 40 41 PRADO. 42 BRANDÃO.41 Os doutrinadores. trafego na contra mão. na falta de conhecimento ou habilidade de para o exercício de determinado mister. . as cautelas que deveria.: deixar de reparar os pneus e verificar os freios antes de viajar. Fernando. Cláudio. [. Direito Penal – Aspectos Fundamentais. pois.exercício de qualquer atividade profissional. terminam se convergindo em um mesmo sentido. Ex: a falta de habilitação no conduzir o veículo (motorista profissional).. p. embora possível.42 Para Luiz Regis Prado as duas formas de culpa são: Culpa inconsciente (culpa stricto sensu) .

objetivo de cuidado. [. já na segunda. p. Por sem dúvida. Curso de Direito Penal Brasileiro. Luiz Regis Prado...o autor prevê o resultado como possível. A previsibilidade no delito de ação culposa se acha na culpabilidade e não no tipo injusto. Há efetivamente previsão do resultado. sem a aceitação do risco de sua produção (confia que o evento não sobrevirá).] Culpa consciente ou com previsão . Temos como a principal diferença entre elas a previsibilidade que o agente tem do resultado. 43 PRADO.43 As principais espécies de culpa que a nossa doutrina nos traz são a culpa inconsciente e a culpa consciente. sendo que na primeira espécie não é possível haver esta previsibilidade e. mas considera capaz de não deixar que o resultado ocorra. 365-366 . apesar de lhe ser conhecível. há uma consciente violação do cuidado objetivo. mas espera que não ocorra. o agente pode sim prever o resultado.

Ao contrário. principalmente nos homicídios que ocorrem no trânsito. consente. o agente presta anuência. a hipótese de superveniência do evento e empreende a ação na esperança de que não venha a ocorrer – prevê o resultado como possível.. A doutrina e a jurisprudência ainda se encontram em um estado de dificuldade para saber qual a verdadeira intenção do agente na hora da prática de determinados crimes. o aceita.367 . [. embora inconsideradamente. leciona o Eminente Professor Luiz Regis Prado: Por assim dizer. existe um traço comum entre o dolo eventual e a culpa consciente: a previsão do resultado ilícito. p.1 DIFERENÇA ENTRE DOLO EVENTUAL E CULPA CONSCIENTE Uma das maiores dificuldades encontradas dentro do direito penal tem sido à busca da diferença entre dolo eventual e culpa consciente. concorda com o advento do resultado. mas com os olhos voltados especificamente para o homicídio praticado na direção de 44 Idem.CAPÍTULO III DOLO EVENTUAL E CULPA CONSCIENTE 3. onde a principal diferença está na aceitação do resultado. sendo que no dolo eventual o agente mesmo não querendo diretamente o resultado. o agente afasta ou repele. porém espera que não ocorra. assume todos os riscos e. Rogério Greco atento à diferença entre dolo eventual e culpa consciente.] No dolo eventual.. Sobre a diferença entre dolo eventual e culpa consciente. preferindo arriscar-se a produzi-lo a renunciar à ação. na culpa consciente. pois acredita que poderá evitar. já na culpa consciente o agente tem a previsão de que um resultado venha a ocorrer. mas não o aceita nem consente.44 Existe uma linha muito curta que divide esses dois institutos.

tanto faz. onde este mesmo agente..45 Como se pode perceber nem todo e qualquer homicídio que ocorra no trânsito será generalizado como culpa consciente. dependendo assim do caso concreto.. [. não é pela conjugação da embriaguez com a velocidade excessiva que se pode chegar a essa conclusão. Se mesmo antevendo como possível a ocorrência do resultado como ele não se importava. não pode ter o condão de modificar toda a nossa estrutura jurídico-penal. no qual o agente encontrava-se embriagado e em excesso de velocidade. ao contrário da culpa consciente. para arrematar. não se importando realmente com a sua ocorrência... mas. embora em alguns casos raros seja possível cogitar de dolo eventual em crimes de trânsito. a da vontade e a do assentimento. que o Código Penal. Rogério. o agente não se preocupa com a ocorrência do resultado por ele previsto porque o aceita. mas. ao contrário. considerando o seu elemento anímico. Exige-se. 229-230 . como querem alguns. [. Também não estamos afirmando que não há possibilidade de ocorrer tal hipótese.. pois que in dubio pro réu. [. houver dúvida com relação a este elemento subjetivo. E. acredita. e não. No dolo eventual.] O clamor social no sentido de que os motoristas que dirigem embriagados e/ou em velocidade excessiva devem ser punidos severamente. [. para a caracterização do dolo eventual. O dolo eventual. Curso de Direito Penal. sim.. se ao final do processo pelo qual o motorista estava sendo processado por um crime doloso (como dolo eventual). representando-o mentalmente. sim. conforme tem sido o pensamento de alguns aplicadores da lei. Não podemos. não adotou a teoria da representação. o resultado previsto será evitado.] Concluindo.. como vimos. simplesmente. que o agente anteveja como possível o resultado e o aceite. atua com dolo eventual. 45 GRECO. ou seja.. quando tiram a vida ou causam lesões irreversíveis em pessoas inocentes. na verdade. sinceramente. condenar o motorista por dolo eventual quando. deverá ser a infração penal desclassificada para aquele de natureza culposa. portanto. o agente não quer e nem se assume o risco de produzir o resultado porque se importa com a sua ocorrência. Na culpa consciente. se. confiava sinceramente na sua não-ocorrência. Só a estamos rejeitando como uma fórmula matemática. absoluta. como visto. atua com culpa consciente. cometeu infração culposamente.veículo automotor. embriaguez + velocidade excessiva = dolo eventual. Para ele. mesmo atuando. que o resultado lesivo não venha a ocorrer.] Merece ser frisado. Em alguns casos ocorrerá à aplicação do dolo eventual. in dúbio pro societate. reside no fato de não se importar o agente com a ocorrência do resultado por ele antecipado mentalmente. aduz que: A questão não é tão simples como se pensa. ainda. Não se pode partir do princípio de que todos aqueles que dirigem embriagados e com velocidade excessiva não se importam em causar a morte ou mesmo lesões em outras pessoas. não pode prosperar. Essa fórmula criada. tendo a previsão de que poderia acontecer.] Com isso queremos salientar que nem todos os casos em que houver a fórmula embriaguez + velocidade excessiva haverá dolo eventual. O agente confia que. p.

No art. a partir do artigo 302 os crimes em espécies. aonde o agente conduz um veículo automotor e comete uma infração penal com o mesmo. estiver conduzindo veículo de transporte de passageiros. WINDT. Antonio Luiz de Toledo. Tratado de Direito Penal. quando possível fazê-lo sem risco pessoal. quanto à espécie e quanto à categoria e. Márcia Cristina Vaz dos Santos.855 .” 46 O Código Brasileiro de Trânsito em seu artigo 96 traz a classificação dos veículos. 302 se encontra tipificado a prática do homicídio que é mencionado como tipo culposo: Art.CAPÍTULO IV TIPO SUBJETIVO DO HOMICÍDIO OCORRIDO NO TRÂNSITO 4. quer de carga como de pessoas.n. quanto à tração.1 CONCEITO DE CRIME AUTOMOBILÍSTICO Crime automobilístico ou crime de trânsito é o crime que ocorre em vias terrestres.320. p. Segundo José Frederico Marques “é toda infração penal oriunda de veículo motorizado na sua função comum de meio de locomoção e transporte. se o agente: I – não possuir Permissão para Dirigir ou Carteira de Habilitação.705. Praticar homicídio culposo na direção de veículo automotor: Pena – detenção. a pena é aumentada de terço à metade. No homicídio culposo cometido na direção de veículo automotor. III – deixar de prestar socorro. Lívia. 250 PINTO. de 19-6-2008)47 46 47 MARQUES. V – (Revogado pela Lei. CÉSPEDES. IV – no exercício de sua profissão ou atividade. p.11. José Frederico. Parágrafo Único. II – praticá-lo em faixa de pedestre ou na calçada. de 2 (dois) a 4 (quatro) anos. Vade Mecum. e suspensão ou proibição de se obter a permissão ou a habilitação para dirigir veículo automotor. à vítima do acidente.

Damásio.48 4. pois o mesmo enquadra os crimes de trânsito como sendo culposos com penas baixas. e não quem “pratica homicídio”. refletindo a ação ou omissão. não consiste em “praticar homicídio culposo”.2 APLICAÇÃO DO DOLO EVENTUAL E DA CULPA CONSCIENTE NO HOMICÍDIO OCORRIDO NO TRÂNSITO A sociedade insatisfeita com os crimes de trânsito e sua baixa punibilidade. Ora. Autor é quem realiza a conduta contida no verbo do tipo. mas sim porque “matou alguém”. Crimes de Trânsito. O sujeito é punido não porque “praticou”. levando assim uma revolta social e injustiça nos tribunais.Interessante a crítica que Damásio de Jesus traz em sua obra Crimes de Trânsito em relação á definição típica: O conceito típico é criticável. traz um capítulo específico dos Crimes de Trânsito nas Seções I e II. acima de tudo uma fiscalização mais eficaz. O Código Brasileiro de Trânsito. em decorrência de muitos acidentes brutais e fatais causados por imprudências. Nunca houve maneira mais estranha de descrever delito. pela grande demanda de veículos que o Brasil possui e. O verbo. o comportamento do autor no homicídio culposo. em que resgata o dever do Estado de punir com mais severidade aqueles que se utilizam de um veículo de maneira imprudente. acidentes que poderiam ser evitados se houvessem leis mais severas ou penas mais duras e. regulador dessa questão. como exemplo o caso de dirigir alcoolizado. para fins de definição típica. que tecnicamente representa o núcleo do tipo. 71 . levando assim o judiciário em alguns casos decidir 48 JESUS. o excesso de velocidade nas vias. questiona sobre uma Lei ou uma pena mais eficaz e inibitória relacionada à punição desses crimes. buscando até mesmo a aplicação do instituto dolo eventual em determinados delitos que acontecem nessa esfera. que faz muitas vítimas todo ano. Esse assunto é de fundamental debate de nossos governantes. não menciona a conduta principal do autor. não “praticar”. É a aplicação da culpa nesses crimes que tem trazido uma insatisfação social em meio às penas aplicadas. O verbo típico e “matar”. causando acidentes brutais e ceifando vidas. visto que. dirigir pela contramão e etc. É “praticar”. e sim “matar alguém culposamente”. p.

em alta velocidade. RT 728:529). inibindo que ocorra outros acidentes e não deixando o autor do crime com uma punidade leve.Dirigir embriagado. O dolo eventual nos crimes de trânsito. 29 maio 2004. veículo com freios defeituosos. mas não é a sua intenção.uol. .Dirigir embriagado. aplicar o dolo eventual. Disponível em: <http://jus2. . veículo com freios defeituosos. Crim. ano 8. . . em alta velocidade (Informativo nº 59 STJ). . Teresina. . Crim.asp?id=5263>.Participar de racha (STF HC 71. Jus Navigandi.Conduzir em alta velocidade. nº 0116422-5).com. realizando manobra inadequada (TJRS SER nº 70003504610). em trecho com lombadas (TJSC Rcr. com faróis apagados. sendo deficiente físico. Essa tem sida a maior dificuldade na hora de aplicar a pena no crime de trânsito. fugindo de perseguição policial (TJRS RSE nº 70003963063).Dirigir embriagado. .07780-4). em alta velocidade. em rua íngreme e movimentada (TJPR Apcr.000335-8). . Crim. sem habilitação.que. nº 6950554000). 326. nº 97. . em alta velocidade. Inf.Dirigir embriagado (TJRS RSE nº 70003230588).Efetuar derrapagem proposital em alta velocidade (RT 522:468). .Dirigir embriagado.Arremessar veículo contra pessoas que realizavam protesto em via pública (TJSP SER nº 256. e não como uma culpa. invadindo a via de sentido contrário (TJRS Ap.097-3).Conduzir em alta velocidade (TJSP SER nº 249.Conduzir em alta velocidade.002552-6). em local de aglomeração de pessoas (TJSP.Dirigir embriagado.Ultrapassar semáforo fechado em alta velocidade (RT 571:404). Em meio à aplicação do dolo eventual em determinados crimes de trânsitos. . para a sociedade. nº 694099524). Muitos têm sido os julgados reconhecendo o dolo eventual nos crimes de trânsitos. veículo sem adaptação especial. nº 1998. colhendo pedestre no acostamento. Cornélio José. n.49 49 HOLANDA.Conduzir em alta velocidade. Emb.Dirigir embriagado. pois. perseguindo motocicleta (TJCE APen.800/RS).Dirigir embriagado.Dirigir embriagado. ingressando com caminhão em via de trânsito intenso (TJSC Rec. . . tem ocorrido a insigne dificuldade em saber verdadeiramente se o agente assumiu o risco ou agiu com a culpa consciente no mesmo. . em vez de ter ocorrido a culpa. nº 694038860).975-3). nº 697153161). sempre ver o agente como se estivesse assumindo o risco de matar. em alta velocidade. Acesso . após tentativa de ultrapassagem em local proibido (TJRS. . nº 00. e em alta velocidade (TJRS Ap. ingressando em trevo rodoviário na contramão (TJRS Ap. vejamos alguns: .br/doutrina/texto. . que é uma pena mais eficaz. . Crim. onde o agente prevê que o dano pode ocorrer.Dirigir embriagado.

com.Acesso em : 26 out.jusbrasil. é necessário que existam circunstâncias específicas que demonstrem a vontade deliberada do agente em assumir o risco.br/jurisprudencia/7241981/recurso-em-sentido-estrito-rse-200930095862pa-2009300-95862-tjpa/inteiro-teor>. 09 de fevereiro de 2010. mas a maior parte dos desembargadores tem desclassificado esses crimes quando o acusado recorre. . Belém. III Prescrita a pretensão punitiva referente ao delito de lesão corporal culposa. APRESENTAM A CULPA COMO ELEMENTO SUBJETIVO LESÃO CORPORAL CULPOSA -PRESCRIÇÃO .Tem-se um recurso com o pedido de desclassificação do dolo eventual para a sua forma culposa: RECURSO EM SENTIDO ESTRITO PROCESSO nº 2009. Sala das Sessões do Tribunal de Justiça do Estado do Pará. são cometidos com culpa. nos termos do voto do Desembargador Relator. 50 BRASIL.2010. em: 19 out.RECURSO PROVIDO DECISÃO UNÂNIME. EM GERAL.: Março Aurélio de Jesus Mendes) RECORRIDO: A JUSTIÇA PÚBLICA (Promotor de Justiça: Manoel Victor Sereni Murrieta) PROCURADOR DE JUSTIÇA: Dr. Disponível em: <http://www. 2010. II Para que se atribua dolo eventual ao crime de trânsito. Vistos etc. 201023 mar. em conhecer do recurso. Jus Brasil. aos nove dias do mês de fevereiro de 2010. Decisão unânime. Os juízes singulares tem sido os mais aplicadores do dolo eventual nesses crimes. João José da Silva Maroja Relator 50 Podemos perceber que entre os aplicadores da lei há uma divergência na aplicação desses dois institutos. para reformar a decisão do juízo de primeiro grau.3. TJPA – Recurso em Sentido Estrito RSE 200930095862 PA. I A defesa requer a desclassificação da imputação do delito cometido com dolo eventual para a forma de homicídio culposo. IV . Acordam os Excelentíssimos Senhores Desembargadores componentes da Egrégia 1ª Câmara Criminal Isolada.Recurso provido. Des. Julgamento presidido pela Excelentíssima Senhora Desembargadora Vânia Lúcia Silveira Azevedo da Silva. RICARDO ALBUQUERQUE DA SILVA 1 RELATOR: Des.009586-2 COMARCA: BELÉM/PA RECORRENTE: LUIZ DE NAZARÉ DE OLIVEIRA FLORES (Adv. à unanimidade. e dar-lhe provimento. JOÃO JOSÉ DA SILVA MAROJA RECURSO EM SENTIDO ESTRITO CRIME DE TRÂNSITO EMBRIAGUEZ HOMICÍDIO DOLOSO RECORRENTE REQUER A DESCLASSIFICAÇÃO DO DOLO EVENTUAL PARA FORMA CULPOSA ALEGA QUE OS CRIMES DE TRÂNSITO. via de regra. Aduz que os crimes de trânsito. conforme direciona a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça.

após a entrada em vigor da Lei Seca.. Afonso Pereira. com imprudência. Pronunciamento da Justiça do Amapá: A Justiça amapaense pronunciou o primeiro crime de trânsito para ser julgado no Tribunal do Júri... afirmou o juiz em sua sentença.. A diferença é que no dolo eventual o agente aceita o risco de produzir o resultado mesmo após prever que ele pode acontecer. para evitar o resultado. Moacir Cordeiro Roc e Ítalo Rogério Campos de Almeida. foi solta com 47 dias na prisão. no cruzamento da avenida Fab com a rua Jovino Dinoá. É comum. por volta das 4h da manhã. negligência ou imperícia.]Na primeira fase da instrução do processo. após o Tribunal de Justiça conceder habeas corpus à acusada.. [. Segundo o promotor de Justiça. à época. em Macapá.Os crimes de trânsito que mais têm sido pronunciados com a aplicação do dolo eventual são os que o agente se encontra embriagado. o juiz analisa os fatos para encerrá-lo com a sentença em plenário do Tribunal do Júri. Jus Brasil..Disponível em:< http://www. ser mais cauteloso. alguém ingerir bebida alcoólica e dirigir veículo automotor. causa o resultado sem querer. [. é negar esta realidade.] A ré em questão é Ana Santos Viana da Silva que será julgada pelo Tribunal do Júri. vindo a colidir com o taxi em que estavam as vítimas Adenael dos Santos Guedes. Na segunda e última fase.br/noticias/2197036/justica-amapaense-reconhecemais-um-crime-com-dolo-eventual-no-transito> Acesso em: 26 out. Ela dirigia seu veículo de marca Fiat Palio embriagada e em alta velocidade quando avançou o semáforo daquele cruzamento. porque tinha a obrigação de estar mais atento. ..jusbrasil.n] Justiça amapaense reconhece mais um crime com dolo eventual no trânsito. pelo acidente que cometeu no dia 29 de junho de 2008. órgão competente para julgar os crimes dolosos contra a vida. com excesso de velocidade ou na prática de racha. 51 51 [s. negou ter avançado o sinal e de estar embriagada.] Dolo eventual [.. Hipocrisia. explicou o promotor. que.] O dolo eventual ocorre quando a pessoa age com culpa e descuidadamente.[. mas deve responder pelo mal causado.com.]Presa em flagrante. Baseado em denúncia do Ministério Público.2010.. a pessoa coloca em risco a segurança de si e de outras pessoas que utilizam as vias públicas. o juiz João Guilherme entendeu que ao dirigir embriagado. [. o juiz pronunciou o caso como dolo eventual..

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