INTRODUÇÃO O Brasil é um país que possui um grande número de veículos em circulação e, em decorrência, muitos acidentes com fatalidades ocorrem

em números assustadores diariamente. Motoristas imprudentes que se utilizam de veículos como armas de fogo. Em meio a esse assunto, que punição aplicar ao agente: dolo eventual ou culpa consciente? A diferença de ambos ainda se confunde, pois é necessário saber a vontade do agente. A busca da identificação da vontade que houve por parte do agente, a intenção ou não do resultado é difícil de provar. A culpa está caracterizada e descrita nos crimes de trânsito, mas um clamor da sociedade na busca de uma pena mais gravosa para esses crimes tem tentado reverter para a aplicação do dolo eventual, causando uma pressão no judiciário por causa dessa insatisfação e levando a mudanças na aplicação da pena. Os tribunais discutem e os doutrinadores também divergem suas opiniões na aplicação do dolo eventual, não sabendo se o agente agiu com culpa consciente ou não, causando grande celeuma. Diante dessa discussão nos deparamos com um problema que será analisado no decorrer desse trabalho. Enquanto uns entendem que não há possibilidade da aplicação do dolo eventual nos homicídios ocorridos no trânsito, pois o Código de Trânsito Brasileiro – CTB deixa bem claro no art. 302 que só existe a penalidade de forma culposa nos casos de homicídios praticados na direção de veículos automotores, outros entendem que podem sim aplicar o instituto dolo eventual em determinados crimes de trânsitos, como dirigir embriagado, andar pela contramão, prática de racha e etc, dependendo do caso em estudo. A relevância dessa temática traz nesse projeto teorias expostas em seu embasamento à finalidade de analisar a possibilidade ou não da aplicação do dolo eventual nos homicídios no trânsito, como a sociedade, doutrinadores e aplicadores da lei tem se comportado perante o insigne número de crimes ocorridos no trânsito. Examinar minuciosamente se há em determinados crimes de trânsitos os requisitos necessários para a aplicação do dolo eventual ou da culpa consciente. Verificar

como tem se comportado o operador do direito na hora de fazer subsunção e aplicação da pena em meio à celeuma entre dolo eventual e culpa consciente que podem ocorrer nesse tipo de crime. Pesquisar na jurisprudência e na doutrina como tem ocorrido à aplicabilidade do instituto dolo eventual e culpa consciente em alguns crimes ocorridos no trânsito, são uns dos objetivos desta pesquisa. Este estudo tem como importância para a sociedade o conhecimento do assunto dolo eventual, trazendo a diferenciação da culpa, ambas penalidades aplicadas em crimes de trânsito que no Brasil acontecem milhões todo ano e que muitos desses casos são julgados de maneira injusta, ficando a sociedade muitas vezes insatisfeita com a sentença final. Para isso foi constituída uma pesquisa bibliográfica, implementada a uma pesquisa de campo, para verificar o que os alunos do curso de Direito acham e pensam sobre esse assunto, se é a favor da aplicação do dolo eventual nos crimes de trânsito, se as penas aplicadas satisfazem o anseio de justiça.

Jus Navigandi. o qual é o adotado para conceituar o crime. a doutrina tem se dividido entre a teoria bipartida. e tendo a culpabilidade um 1 ALEXANDRE. como afirma Noronha.2 A melhor orientação para o conceito material de crime. Julio Fabrinni. Acesso em: 04 set. Direito Penal. “é aquele que tem em vista o bem protegido pela lei penal”. n. Tratado de Direito Penal. Cezar Roberto. crime é a violação da lei penal. 105 4 BITENCOURT. 96 apud. 2010. 3 MIRABETE. o Código Criminal de 1830 e o Código Penal de 1890 traziam o conceito de crime. Alessandro Rafael Bertollo de. antigamente.1 CONCEITO Embora o nosso Código Penal não haver trazido o conceito de crime. 210 . O conceito de crime . formal e analítico. p. Disponível em: <http://jus2. Damásio. p. p. 2003.CAPÍTULO I O CRIME 1. Magalhães. Segundo Damásio de Jesus o “conceito material do crime é de relevância jurídica. Direito Penal.uol.193.br/doutrina/texto. o material.1 A doutrina conceitua o crime sobre três aspectos. E. sendo o crime fato típico e antijurídico. mas a doutrina tem se preocupado em conceituá-lo. É importante ressaltar que. 2 JESUS. fev. NORONHA.4 Já analisando o conceito de crime sob o aspecto analítico. Teresina. uma vez que coloca em destaque o seu conteúdo teleológico. 62. Tal não ocorre na legislação atual como já citado anteriormente. a razão determinante de constituir uma conduta humana infração penal e sujeita a uma sanção”. p. O conceito formal e material é insuficiente para permitir à dogmática penal a realização de uma análise dos elementos estruturais do conceito do crime.3 Formalmente falando. propriamente dito.com. Manual de Direito Penal. ano 7.asp?id=3705>.

antijurídico e culpável) e os grandes autores conhecidíssimos em nosso meio jurídico. Espanha. tem defendido a teoria tripartida (fato típico. a partir da segunda metade do século XIX. O Código Penal adotou de forma não expressa à teoria finalista de Hans Welsel. De acordo com as palavras de Rodrigo Santos Emanuel: Hans Welzel foi o grande defensor da teoria finalista da ação que surgiu entre 1920 e 1930. Guilherme Nucci.5 Segundo Cezar Roberto Bitencourt: A definição atual do crime é produto da elaboração inicial da doutrina alemã. Disponível em: . foi trabalhado no aperfeiçoamento dos diversos elementos que compõe o delito. Segundo essa teoria toda e qualquer ação do homem têm uma finalidade e não simplesmente uma causalidade. onde se observou elementos finalísticos nos tipos penais. Heleno Fragoso. Portugal. também denominada neokantista. Nélson Hungria. diante das constatações neoclássicas. próprio do moderno pensamento científico.com>. acessado em: 27/08/2010 6 BITENCOURT.elemento que permitirá a manifestação da pena ao agente que praticou o delito. Julio Fabrini Mirabete e outros tem adotado a teoria bipartida (fato típico e ilícito). Tratado de Direito Penal. Áustria e Suíça. Grécia. Cezar Bitencourt. com a contribuição de outros países. Teorias da Conduta no Direito <www. antijurídico e culpável. 206 Penal. p. foi possível determinar elementos subjetivos no próprio tipo penal e não somente na culpabilidade. sendo assim a vontade é um elemento muito importante na hora de praticar a ação. entre outros. sob a influência do método analítico. Pela corrente neoclássica. como Itália. Edgar Magalhães Noronha. e a teoria tripartida sendo o crime fato típico. a doutrina tem se divergido com relação aos elementos que compõem o crime.pontojuridico. que. 5 EMANUELE. Fernando Galvão. Fernando Capez. Rodrigo Santos. onde se tem a partir dessa concepção a formação das duas teorias citadas acima. Celso Delmanto. uma classe majoritária composta por Aníbal Bruno. Cezar Roberto.6 Como citado anteriormente.

art. Curso Direito Penal. é a manifestação de uma vontade. Manual de Direito Penal. A conduta. onde o agente age negativamente. • Tipicidade. 98 9 DELMANTO. 19-20 . segundo o princípio da reserva legal (CP.7 Segundo Mirabete o fato típico “é o comportamento humano (positivo ou negativo) que provoca em regra um resultado. PIERANGELLI.5º.109 MIRABETE. p. ou omissiva. que pode ser dolosa ou culposa. em querer agir. onde se tem um comportamento positivo. Fato Típico Sendo um dos elementos do crime o fato típico é o fato material que se amolda perfeitamente aos elementos constantes do modelo previsto na lei penal. Julio Fabrinni. contemplando todos os seus elementos. p. e é previsto como infração penal”.9 Assim como o conceito de crime é composto de elementos. • Nexo de causalidade. art. constitucional mente garantido (CR/88. p. 1º). Do Consentimento do Ofendido na Teoria do Delito.1. José Henrique. • Resultado. Fernando.19 apud. Código Penal Comentado. um não fazer. 7 8 CAPEZ.10 Pode se classificar a conduta também como comissiva. p. 1. que são eles: • Conduta (dolosa ou culposa). também a doutrina conceitua o fato típico com a composição de quatro elementos.1.De acordo com a doutrina majoritária irá ser abordado de forma completa a teoria tripartida para uma maior explanação sobre o conceito de crime. “a pedra angular de toda a sistemática do delito”.8 Celso Delmanto afirma que “será fato típico quando a conduta estiver definida por lei como crime. XXXIX)”. p. 18-19 10 Idem. Celso.

14 É importante ressaltar que o fato concreto tem que conter todos esses elementos do fato típico. caso falte algum não poderá ser considerado crime.O elemento resultado do crime pode ser naturalístico ou jurídico (art. que fica outorgado à lei a relevante tarefa de definir. segundo a escola finalista. Fernando. o que seria um a verdadeira afronta ao direito penal da culpa. concreto. primeira parte do CP). nem pena sem prévia cominação legal” (art. sem os quais jamais pode haver punição. isto é. 13. sem a qual o resultado não teria ocorrido.179 . art. De acordo com as palavras de Celso Delmanto: O legislador. Já o resultado jurídico é o que se refere à própria lesão ou perigo de lesão ao bem jurídico penalmente tutelado. Manual de Direito Penal. p. a adequação perfeita entre o fato natural. p. e é considerado causa a ação ou omissão do agente. Na medida que a Constituição brasileira consagra expressamente o princípio de que “não há crime sem lei anterior que o defina.5º.11 O nexo de causalidade que se encontra tipificado no art. O resultado naturalístico consiste na modificação provocada no mundo exterior pela conduta do agente. 115 14 CAPEZ. XXXIX). 11 12 Idem. sobe pena de inadmissível responsabilidade penal objetiva.13 do CP deixa bem claro que deve haver um nexo ou ligação entre a conduta do agente e o resultado. de descrever os crimes. e a descrição contida na lei. Segundo Capez: O tipo legal é um dos postulados básicos do princípio da reserva legal.21 13 MIRABETE. pois o crime só poderá ser imputável a quem lhe deu causa. incorporou ao tipo penal a exigência de dolo ou culpa (elementos subjetivos do tipo – CP. p. Julio Fabrinni.19 Idem. Curso Direito Penal.13 Essa descrição abstrata contida na lei se dar o nome de Tipo. 18). 12 A tipicidade é o último elemento do fato típico. p. que é a correspondência exata.

em estrito cumprimento do dever legal ou no exercício regular de direito. direito próprio ou alheio.1. 23. Entende-se em legitima defesa que. 23. 25.258 17 PINTO.º Embora seja razoável exigir-se o sacrifício do direito ameaçado. nas circunstâncias. Livia. não era razoável exigir-se. 24. Legitima defesa. Hans-Heinrich. cujo sacrifício. Exercício regular de direito. Culpabilidade 15 16 JESCHECK. Tratado de Direito Penal.210 CAPEZ. Antijurídico ou Ilícito Hans-Heinrich Jescheck conceitua a antijuridicidade com sendo um “comportamento contrário ao dever de atuar ou de se abster estabelecido de em uma norma jurídica”. • • Art. a pena poderá ser reduzida de um a dois terços. Não há crime quando o agente pratica o fato: I – em estado de necessidade. atual ou iminente. CÉSPEDES. art.1. WINDT. Curso Direito Penal. pois existem as excludentes de ilicitude que se encontram tipificadas no nosso Código Penal. pelo qual a ação ou omissão típicas tornam-se ilícitas”. § 1. III.543 .2. que são elas: • Estado de necessidade. p. p. II. a direito seu ou de outrem. usando moderadamente dos meios necessários. repele injusta agressão. Art. nem podia de outro modo evitar. § 2.º Não pode alegar estado de necessidade que tinha o dever legal de enfrentar o perigo.15 Segundo Fernando Capez a ilicitude “é a contradição entre a conduta e o ordenamento jurídico.17 1. Considera-se em estado de necessidade que pratica o fato para salvar de perigo atual. Fernando. p.em legítima defesa. Márcia Cristina Vaz dos Santos. mas nem todo típico é ilícito.3. que não provocou por sua vontade.16 Todo fato penalmente ilícito é sempre típico.1. Antonio Luiz de Toledo. Art. Vade Mecum.

já a doutrina minoritária diz que não se trata de um elemento do crime. por doença mental ou desenvolvimento mental incompleto ou retardado. Fernando. São considerados inimputáveis segundo o nosso Código Penal: Art. Desenvolvimento metal retardado. sendo definida como juízo de censurabilidade e reprovação exercido sobre alguém que praticou um fato típico e ilícito.296 . é considerado elemento que compõe o crime. ao tempo da ação ou 18 19 CAPEZ. a culpabilidade. mas pressuposto para a imposição de pena. existem causas que excluem a imputabilidade. que são: • • • • Doença mental. Exigibilidade de conduta diversa. p. 26. p. psicológicas.Como já visto anteriormente. O agente deve ter condições físicas. A imputabilidade é a capacidade de entender o caráter ilícito do fato e de determinar-se de acordo com esse entendimento. Embriaguez completa proveniente de caso fortuito ou força maior.287 Idem. morais e mentais de saber que está realizando um ilícito penal e ter controle sobre sua vontade. Curso Direito Penal. que são eles: • • • Imputabilidade. Desenvolvimento mental incompleto. para a doutrina majoritária. É isento de pena o agente que. era. A culpabilidade é a possibilidade de o agente que praticou uma infração penal ser considerado culpado.19 Mas.18 Para que haja a culpabilidade do agente no ato praticado como crime é necessário ter em mente alguns elementos. Potencial consciência da ilicitude.

se o agente. Teoria do crime em síntese.° A pena pode ser reduzida de um a dois terços.22 20 PINTO. Os menores de 18 (dezoito) anos são penalmente inimputáveis. FERREIRA. 2008. A figura 1 nos traz resumidamente toda a teoria do crime que foi aqui esplanada. Jus Navigandi. proveniente de caso fortuito ou força maior. inteiramente incapaz de entender o caráter ilícito do fato ou de determinarse de acordo com esse entendimento. era. por embriaguez completa.com. então.20 O Código Penal também descreve quais os casos que não excluem a imputabilidade. n. § 1.543 21 22 Idem. Gecivaldo Vasconcelos. ano 12. § 2. uma causa de exclusão da culpabilidade. Antonio Luiz de Toledo. voluntária ou culposa. como afirma o art. Ibidem.21 A potencial consciência da ilicitude é quando o agente tem a total consciência e condição de perceber a que conduta que está praticando é contrária ao ordenamento jurídico. ficando sujeitos às normas estabelecidas na legislação especial. Vade Mecum. inteiramente incapaz de entender o caráter ilícito do fato ou de determinar-se de acordo com esse entendimento. p. 27. 1677. Acesso em: 13 set. II – a embriaguez. 3 fev. ao tempo da ação ou da omissão. WINDT. sendo que caso exista coação irresistível ou uma obediência hierárquica há. não possuía.asp?id=10913>. Exigibilidade de conduta diversa é a possibilidade de o agente praticar outra conduta. em virtude de perturbação de saúde mental ou por desenvolvimento mental incompleto ou retardado não era inteiramente capaz de entender o caráter ilícito do fato ou de determinar-se de acordo com esse entendimento Art.da omissão. proveniente de caso fortuito ou força maior. Márcia Cristina Vaz dos Santos. . Livia. Teresina. Não excluem a imputabilidade penal: I – a emoção ou a paixão. Disponível em: <http://jus2. 28.22 do Código penal.º É isento de pena o agente que. Parágrafo único. a plena capacidade de entender o caráter ilícito do fato de determinar-se de acordo com esse entendimento.uol. se o agente. CÉSPEDES. A pena pode ser reduzida de um a dois terço. pelo álcool ou substância de efeitos análogos.br/doutrina/texto. 201024 maio 2010. ao tempo da ação ou da omissão. por embriaguez. que são: Art.

I.Figura 1 CRIME Conduta. dolosa ou culposa (art. III. § 1º. 26 do CP). O S Tipicidade Conglobante: quando a conduta do agente não é imposta ou fomentada pela norma e afeta bens penalmente relevantes (tipicidade material). 27 do CP. imaturidade natural (arts. primeira parte. E X C L U D E N T E S ILÍCITO (relação de antagonismo entre a conduta do agente e o ordenamento jurídico) • • • • • Estado de necessidade (arts. 20 do CP) inevitável exclui o dolo e a culpa. CULPÁVEL (juízo de reprovação sobre a conduta ilícita do agente) E Imputabilidade L E M E N T O S Excluem a imputabilidade: • • • doença mental (art. E L Resultado jurídico/normativo (art. Consentimento do ofendido (admissível somente em alguns casos). • . II. do CP). Exercício regular de direito (art. e ainda. e 24 do CP). 18 do CP). Legítima defesa (arts. 23. 13. III. comissiva ou omissiva. e 228 da CF). do CP). que afeta ou ameaça de forma relevante bens penalmente tutelados). 23. Observar que o erro de tipo (art. 28. e 25 do CP). 13 do CP). FATO TÍPICO (fato material no qual se identifica a efetivação de uma conduta prevista no tipo penal incriminador. 23. condição de silvícola inadaptado. do CP). E N Formal: adequação perfeita do fato à lei penal T incriminadora. embriaguez completa proveniente de caso fortuito ou força maior (art. E M Nexo de causalidade entre a conduta e o resultado (art. Estrito cumprimento de dever legal (art. do CP). 23.

CÉSPEDES.uol.24 23 PINTO. O dolo e a culpa são definidos por nossa doutrina como os elementos subjetivos do crime e se encontram tipificados em nosso Código Penal no art. WINDT. Acesso em: 24 maio 2010. n. Art.asp?id=10913>. Rogério. 22 do CP). 21 do CP) exclui essa potencial consciência. quando o agente deu causa ao resultado por imprudência.Potencial consciência sobre a ilicitude do fato O erro de proibição inevitável (art. Vade Mecum. 3 fev. 2008.com.2 DOLO 2.p. quando o agente quis o resultado ou assumiu o risco de produzilo. Gecivaldo Vasconcelos. Jus Navigandi. p. 22 do CP). Teresina. para haver crime é necessária uma conduta dolosa ou culposa que se encontra como um dos elementos do fato típico.1 DOLO E CULPA Como já visto no capítulo anterior. Causas supralegais (identificáveis em situações concretas) FONTE: FERREIRA. negligência ou imperícia. Disponível em: <http://jus2. Livia. Curso de Direito Penal.br/doutrina/texto. 1677. Antonio Luiz de Toledo.2. CAPÍTULO II DOLO E CULPA 2.18. Diz se o crime: I – doloso. Teoria do crime em síntese . 18. 204 . ano 12. Excluem esse elemento: • Exigibilidade de conduta diversa • • Coação moral irresistível (art.542 24 GRECO. II – culposo.23 2. Obediência hierárquica (art.1 Conceito e Teorias Para Rogério Greco o dolo é a vontade livre e consciente dirigida a realizar a conduta prevista no tipo penal incriminador. Márcia Cristina Vaz dos Santos.

p. Teoria da representação.28 A teoria do consentimento segundo Cláudio Brandão: A teoria do consentimento surge a partir de uma crítica feitas à teoria da representação.26 O dolo é à vontade. Ele reconhece o dolo sempre que o agente tem a intenção de produzir resultado. 80 28 Idem.Segundo Cláudio Brandão o dolo é definido como consciência e vontade da realização dos elementos objetivos do crime. p.p. A doutrina explana três teorias que procuram conceituar e explicar o dolo.p.158 29 Idem. Geral. que diz que o dolo se configura com a simples previsão do resultado. Assim.Programa do Curso de Direito Criminal. é a vontade manifestada pela pessoa humana de realizar a conduta. Curso Direito Penal. será suficiente para a configuração do dolo o elemento intelectivo: a consciência. Curso de Direito Penal: Parte Francesco. Ibidem. mas deve-se analisar a atitude do agente frente a representação: além do resultado. Fernando. p. mostrando uma atitude de indiferença em face da sua configuração.27 A teoria da representação foi criada por Franz von Liszt. formulada por Ernst von Beling. e conhecer que o fato que está praticando é ilícito. Cláudio. Teoria consentimento. Cláudio. . o querer em praticar uma conduta prevista no tipo penal.25 No entendimento de Fernando Capez o dolo é à vontade e a consciência de realizar os elementos constantes do tipo legal. Segundo essa teoria a mera representação intelectual não é suficiente para a configuração do dolo. porque é ela que possibilita a representação mental do resultado. Mais amplamente. O mestre dos mestres definiu o dolo como intenção mais ou menos perfeita de praticar um ato contrário à lei.29 25 26 BRANDÃO.198 27 BRANDÃO.156 CAPEZ.158 apud CARRARA. são elas: • • • Teoria da vontade. Curso de Direito Penal: Parte Geral. Um grande expoente da teoria da vontade é Francesco Carrara.

o agente desfere golpes de facas na vítima com intenção alternativa: ferir ou matar. prevendo que pode matar o terceiro é-lhe indiferente que este último resultado se produza. mas sim à conduta. Percebe que é possível causar o resultado e. A vontade se 30 JESUS. pode também atingir a outra pessoa. Dolo eventual – ocorre quando o sujeito assume o risco de produzir o resultado. isto é. Possui duas formas: Dolo alternativo – quando a vontade do sujeito se dirige a um ou outro resultado. abrangendo os meios utilizados para tanto. Ex:. Atirando na vítima e matando também o terceiro. Ele tolera a morte do terceiro. p. Entre desistir da conduta e causar o resultado. prefere que este se produza.2 Espécies de dolo Para Damásio de Jesus a doutrina distingue duas formas de dolo: Dolo direto ou dolo determinado: o sujeito visa a certo e determinado resultado. pode-se dizer que o dolo é composto de alguns elementos. e a vontade o elemento volitivo. admite e aceita o risco de produzi-lo. Ex:.] Dolo indireto ou indeterminado: quando a vontade do sujeito não se dirige a certo e determinado resultado. a título de dolo eventual. A teoria da vontade foi a teoria adotada pelo nosso Código Penal prevista na primeira parte do art. Desse modo. o agente pretende atirar na vítima. 2.Com a analise do nosso Código Penal em seu art. Damásio..é a vontade do agente dirigida especificamente à produção do resultado típico. a título de dolo. I.30 Espécies de dolo segundo Guilherme de Souza Nucci: O dolo direto . responde por dois crimes de homicídio: o primeiro. tanto faz que o terceiro seja atingido ou não. A vontade não se dirige ao resultado (o agente não quer o evento). e a teoria do consentimento na segunda parte do mesmo dispositivo. tendo assim como o dolo a vontade de realizar o resultado ou a aceitação dos riscos de produzi-lo. I. pois se assim fosse haveria dolo direto. o agente desfere golpes de faca na vítima com intenção de matá-la. pode-se observar que foram adotadas duas teorias: a teoria da vontade e a teoria do consentimento ou assentimento..18. não obstante. embora não queira o evento. 18. sendo a consciência o elemento intelectivo. Direito Penal. Ele antevê e age. Ele não quer o resultado.2.340 . Ex:. prevendo que esta pode produzir aquele. o segundo. [. O dolo se projeta de forma direta no resultado morte. Não obstante essa possibilidade. realiza o comportamento. Para ele.

o dolo genérico.encaixa com perfeição ao resultado. ali. em verdade. era aquele em que no tipo penal podia ser identificado o que denominamos de especial fim de agir. Fazia-se. p. a lei usa o termo “assumir o risco de produzi-lo”. mas com fundamentação em outras teorias ele pode formar outras espécies. podemos dizer que em todo o tipo penal há uma finalidade que o difere de outro. Curso de Direito Penal. trazendo expressões dela indicativas. p. c) Dolo geral (também chamado de erro sucessivo ou abrratio causae). como dolo alternativo. um resultado ou outro b) Dolo cumulativo..] O dolo indireto ou eventual é a vontade dirigida a um resultado determinado. Trata-se. Por isso. em sequência. 221-222.2. Guilherme Nucci traz em seu Manual de Direito Penal essas outras classificações do dolo: a) Dolo alternativo.32 31 32 GRECO. Guilherme de Souza. porém vislumbrando a possibilidade de ocorrência de um segundo resultado.. embora sinta que ele pode se materializar juntamente com aquilo que pretende. no caso de tipos penais como o do art. ou seja. o agente não quer o segundo resultado diretamente.159 do Código Penal. que significa querer o agente. melhor dizendo. indicando alguma finalidade do agente. Manual de Direito Penal. mas jamais quanto aos elementos do tipo. 209 NUCCI. como o dolo genérico e o dolo específico. de acordo com a referida teoria. por exemplo. quando prevalecia a teoria natural da ação. Dizia-se que dolo genérico era aquele em que no tipo penal não havia indicativo algum do elemento subjetivo do agente ou. embora não seja tão evidente quando o próprio artigo se preocupa em direcionar a conduta do agente. razão pela qual vislumbravam. Ao contrário . É um erro sobre a causalidade. a distinção entre dolo genérico e dolo específico. Isso porque. No tipo do art. dolo cumulativo e dolo geral. Essas duas formas de dolo são as usadas em nossa doutrina atualmente. unido ao primeiro. em que na sua redação encontramos expressões que indicam a finalidade da conduta do agente (com o fim de. [. etc). Nesse caso.] Contudo uma fez adotada a teoria finalista da ação. Rogério. não há. não importando se a intenção do agente é mais ou menos evidenciada no tipo penal. indiferentemente. toda a conduta é finalisticamente dirigida à produção de um resultado qualquer.. mas admitido. que significa desejar o agente alcançar dois resultados. existe um dolo específico. o que lhe é indiferente.31 2. a ação é o exercício de uma atividade final. Dolo específico. mas que termina por determinar o resultado visado. [. de uma hipótese de engano quanto ao meio de execução do delito. nem tampouco quanto à ilicitude do que se pratica.3 Outras classificações do dolo Existem também outras classificações do dolo. 121 do Código Penal. a seu turno.. segundo os adeptos dessa distinção. . não desejado. não havia indicação alguma da finalidade da conduta do agente. de situação mais complexa.

que podia ter sido evitado. é crime culposo quando o agente deu causa ao resultado por imprudência. p. 192 35 BITENCOURT. Código Penal Comentado. utilizar apenas o termo dolo para designar o dolo genérico e elemento subjetivo do tipo específico para definir dolo específico. Contudo essa definição que se encontra tipificada não demonstra suficientemente um conceito concreto para que se possa afirmar que determinada conduta que o agente venha a praticar é considerada ou não culposa. 278 . Outra parcela da doutrina costuma. desatencioso.3 CULPA 2. voltado a um determinado objeto. ainda. a culpa. objetivamente previsível”. p.35 Segundo Delmanto: 33 34 NUCCI. mas previsível. que constituem o elemento subjetivo específico. Cezar Roberto. 221-222. embora adicionada deu uma especial finalidade. O dolo é a regra.Distinção entre dolo genérico e dolo específico segundo Guilherme de Souza Nucci: A doutrina tradicional costuma fazer diferença entre o dolo genérico. Para Guilherme de Souza Nucci culpa “é o comportamento voluntário. bastando considerar a existência do dolo e de suas finalidades específicas. Tratado de Direito Penal. Necessário assim se faz a busca doutrinária para um melhor entendimento e aprofundamento do estudo do conceito de culpa.3. Guilherme de Souza. II. podendo ser explícito ou implícito. p. não desejado. Idem. Entendemos ser desnecessária essas últimas duas denominações. negligência ou imperícia. Alguns autores. que seria a mesma vontade.33 2. lícito ou ilícito. que seria a vontade de praticar a conduta típica. exceção”. sem qualquer finalidade especial. atualmente.34 No entendimento de Cezar Roberto Bitencourt a definição de culpa “é tida como a inobservância do dever objetivo de cuidado manifestada numa conduta produtora de um resultado não querido. embora produza resultado ilícito. apreciam a denominação elemento subjetivo do injusto ou elemento subjetivo ilícito para compor o universo das específicas finalidades que possui o agente para atuar.1 Conceito e Teorias Segundo o Código Penal em seu artigo 18. e o dolo específico.

Celso. DELMANTO.155 do Código Penal. negligência ou imperícia. 34 NUCCI. f) Tipicidade. Guilherme de Souza.: não existe menção. significando que o agente deixou de seguir as regras básicas e gerais de atenção e cautela. o crime culposo precisa estar expressamente previsto no tipo penal. vale dizer. de acordo com sua capacidade pessoal. pois acharia que o incidente não iria acontecer. haveria crime culposo quando o sujeito. o mais b) Ausência do dever de cuidado objetivo. não empregando a atenção e cuidado exigido pelas circunstâncias.A culpa fundamenta-se na aferição do cuidado objetivo exigível pelas circunstâncias em que o fato aconteceu.3. não previu o resultado do seu comportamento ou. Essas regras gerais de cuidado derivam da proibição de ações de riscos que vão além daquilo que a comunidade juridicamente organizada está disposta a tolerar. pela análise da previsibilidade subjetiva. agiu ou não de forma a evitar o resultado [. no art. esperando. deve-se chegar à culpabilidade.2 Elementos da culpa Para que se caracterize uma conduta culposa é necessária a observação de alguns elementos. mas crê poder evitar que ocorra. e) Ausência de previsão (culpa inconsciente). à culpa. já que o agente não deseja a produção do evento lesivo. 2. mas com imprudência. afastada estará a culpa. Ausente a previsibilidade. Código Penal Comentado. isto é. quando o agente vislumbra o evento lesivo. inerente a qualquer ser humano normal.37 36 37 importante na culpa é a análise do comportamento e não o do resultado.. A seguir. se o sujeito. g) Nexo causal. levianamente pensou que ele não aconteceria. sem a intenção de praticar o ato. mesmo o prevendo. que ele não aconteça (culpa consciente). exigíveis de todos que vivem em sociedade. sinceramente. não é possível que o agente tenha previsto o evento lesivo. c) Resultado danoso involuntário. p. ou seja. pois não se exige da pessoa uma atenção extraordinária e fora do razoável. através da previsibilidade.36 Como se pode observar em todos os conceitos dados. a doutrina busca uma complementação do que o nosso Código Penal afirma. de forma que não há “furto culposo”. significa que somente a ligação. p. 224 . d) Previsibilidade. ou previsão do resultado. ou seja. Em todos eles percebe-se que o agente age de uma maneira voluntária.] Assim.. isto é. Para Guilherme de Souza Nucci os elementos da culpa são os seguintes: a) Concentração na análise da conduta voluntária do agente. entre a conduta do agente e o resultado danoso pode constituir o nexo de causalidade no crime culposo. o que indica a tipicidade da conduta do agente. Manual de Direito Penal. Ex. é imprescindível que o evento lesivo jamais tenha sido desejado ou acolhido pelo agente. que a possibilidade de prever o resultado lesivo.

3. impulsiva. de habilidade. perigosa. a saber: a) conduta voluntária. a) Imprudência – vem a ser uma atitude positiva.Segundo Rogério Greco a caracterização do delito culposo é necessário a conjugação de vários elementos. II. a inobservância do dever de cuidado objetivo. 98 . b) imprudência e imperícia). e e) a tipicidade. p. • Negligência. a atenção necessária. não o faz por preguiça. 2. b) Negligência – relaciona-se com a inatividade (forma omissiva). pelo agente. a previsibilidade. Curso de Direito Penal. c) Imprudência – vem a ser a incapacidade. e) previsibilidade. um agir sem a cautela. as modalidades de culpa que são elas: • Imprudência.39 A doutrina encontra-se quase unânime em relação aos elementos que compõe a culpa. • Imperícia. dirigir em alta velocidade. Luiz Regis Prado no seu livro Curso de Direito Penal conceitua essas modalidades de culpa. quando estacionado. tampouco assumido. Ex. c) o resultado lesivo não querido. p. f) tipicidade. de destreza ou de competência no 38 39 GRECO. 209 MIRABETE. Julio Fabrinni. desatenção ou displicência.38 Já no entendimento de Mirabete os elementos do crime culposo são: a) b) c) d) a conduta. afoitamento ou inconsideração.: não deixar veículo freado. a inércia do agente que podendo agir para não causar ou evitar o resultado lesivo. o resultado lesivo involuntária. Rogério. Ex. comissiva ou omissiva. a falta de conhecimentos técnicos precisos para o exercício de profissão ou arte. d) nexo de causalidade entre a conduta do agente que deixa de observar o seu dever de cuidado e o resultado lesivo dele advindo. É a ausência de aptidão técnica.: não observar a sinalização de trânsito (via preferencial). com precipitação. Manual de Direito Penal. É a conduta arriscada.3 Modalidades de Culpa O nosso Código Penal nos traz em seu artigo 18. desleixo.

ou seja. transgredindo.3. Não prevê o resultado. Curso de Direito Penal: Parte Geral. Consiste em deixar alguém de tomar o cuidado devido antes de começar a agir. que se verifica quando o autor não prevê o resultado que lhe é possível prever. antes de agir.exercício de qualquer atividade profissional. Luiz Regis Prado. Pressupõe a qualidade de habilitação para o exercício profissional. O negligente deixa de tomar. confia que este ato não se realizará. a abstenção de um comportamento que era devido.. Cláudio Brandão em seu livro Curso de Direito Penal diz que a dogmática penal distingue duas formas de culpa: A culpa inconsciente é aquela que o agente não prevê a possibilidade de um resultado típico e antijurídico.. mas de modo contrário ao seu dever de cuidado.40 Fernando Capez também conceitua as modalidades: a) Imprudência: é a culpa de quem age. quando era capaz de prevê-lo e o Direito exigia dele a previsão. trafego na contra mão. embora possível. Implica sempre um comportamento positivo. aquela que surge durante a realização de um fato sem o cuidado necessário. 147. apesar de usarem outros termos para definir os conceitos das modalidades da culpa. na falta de conhecimento ou habilidade de para o exercício de determinado mister.: ultrapassagem proibida. Ex. . Pode ser definida como uma ação descuidada. por inobservância de um dever de cuidado. Implica. O agente não conhece concretamente o dever 40 41 PRADO. p. Ex.p. sem saber. excesso de velocidade. p.: deixar de reparar os pneus e verificar os freios antes de viajar. Curso de Direito Penal Brasileiro. pois. Fernando.41 Os doutrinadores. desse modo. 42 BRANDÃO. Curso Direito Penal. Johannes.4 Espécies de Culpa Existem várias espécies de culpa classificadas por diversos doutrinadores. que ocorre durante uma a ação.42 Para Luiz Regis Prado as duas formas de culpa são: Culpa inconsciente (culpa stricto sensu) . a negligência dá-se sempre antes do início da conduta. o cuidado objetivo exigível. 2. Ao contrário da imprudência. não sinalizar devidamente perigoso cruzamento. as cautelas que deveria.208-209.é a culpa comum. c) Imperícia: é a demonstração de inaptidão técnica em profissão ou atividade. p. Ex: a falta de habilitação no conduzir o veículo (motorista profissional).158 apud WESSELS. [.] A culpa consciente é aquela em que o agente prevê a possibilidade da realização de um ato típico e antijurídico. terminam se convergindo em um mesmo sentido. Direito Penal – Aspectos Fundamentais. b) Negligência: é a culpa na sua forma omissiva. Cláudio. 365-366 CAPEZ. Consiste na incapacidade.

[. Temos como a principal diferença entre elas a previsibilidade que o agente tem do resultado. Há efetivamente previsão do resultado. mas espera que não ocorra. 43 PRADO.. já na segunda. sendo que na primeira espécie não é possível haver esta previsibilidade e. há uma consciente violação do cuidado objetivo. Luiz Regis Prado. sem a aceitação do risco de sua produção (confia que o evento não sobrevirá). A previsibilidade no delito de ação culposa se acha na culpabilidade e não no tipo injusto.] Culpa consciente ou com previsão . o agente pode sim prever o resultado. 365-366 ..o autor prevê o resultado como possível. Por sem dúvida. Curso de Direito Penal Brasileiro.43 As principais espécies de culpa que a nossa doutrina nos traz são a culpa inconsciente e a culpa consciente.objetivo de cuidado. apesar de lhe ser conhecível. p. mas considera capaz de não deixar que o resultado ocorra.

367 . leciona o Eminente Professor Luiz Regis Prado: Por assim dizer. preferindo arriscar-se a produzi-lo a renunciar à ação.44 Existe uma linha muito curta que divide esses dois institutos. pois acredita que poderá evitar.. o aceita. p. na culpa consciente. onde a principal diferença está na aceitação do resultado. mas com os olhos voltados especificamente para o homicídio praticado na direção de 44 Idem. porém espera que não ocorra. sendo que no dolo eventual o agente mesmo não querendo diretamente o resultado.CAPÍTULO III DOLO EVENTUAL E CULPA CONSCIENTE 3. Sobre a diferença entre dolo eventual e culpa consciente. assume todos os riscos e. principalmente nos homicídios que ocorrem no trânsito. concorda com o advento do resultado. mas não o aceita nem consente. Rogério Greco atento à diferença entre dolo eventual e culpa consciente. [.1 DIFERENÇA ENTRE DOLO EVENTUAL E CULPA CONSCIENTE Uma das maiores dificuldades encontradas dentro do direito penal tem sido à busca da diferença entre dolo eventual e culpa consciente.. o agente afasta ou repele. A doutrina e a jurisprudência ainda se encontram em um estado de dificuldade para saber qual a verdadeira intenção do agente na hora da prática de determinados crimes. existe um traço comum entre o dolo eventual e a culpa consciente: a previsão do resultado ilícito. o agente presta anuência. consente. embora inconsideradamente. já na culpa consciente o agente tem a previsão de que um resultado venha a ocorrer. a hipótese de superveniência do evento e empreende a ação na esperança de que não venha a ocorrer – prevê o resultado como possível.] No dolo eventual. Ao contrário.

mas. não adotou a teoria da representação. Não podemos..] Concluindo. que o Código Penal. 45 GRECO. como visto. como vimos. representando-o mentalmente. O dolo eventual. reside no fato de não se importar o agente com a ocorrência do resultado por ele antecipado mentalmente. se. mesmo atuando. ou seja. Curso de Direito Penal. quando tiram a vida ou causam lesões irreversíveis em pessoas inocentes. conforme tem sido o pensamento de alguns aplicadores da lei. sim. Só a estamos rejeitando como uma fórmula matemática.] Merece ser frisado. Se mesmo antevendo como possível a ocorrência do resultado como ele não se importava. não pode prosperar. no qual o agente encontrava-se embriagado e em excesso de velocidade. 229-230 . a da vontade e a do assentimento. pois que in dubio pro réu. embriaguez + velocidade excessiva = dolo eventual. condenar o motorista por dolo eventual quando. ao contrário da culpa consciente. tanto faz. p. Em alguns casos ocorrerá à aplicação do dolo eventual. portanto. o resultado previsto será evitado.. onde este mesmo agente. mas. houver dúvida com relação a este elemento subjetivo. para arrematar. Também não estamos afirmando que não há possibilidade de ocorrer tal hipótese.. deverá ser a infração penal desclassificada para aquele de natureza culposa. Não se pode partir do princípio de que todos aqueles que dirigem embriagados e com velocidade excessiva não se importam em causar a morte ou mesmo lesões em outras pessoas. [.. tendo a previsão de que poderia acontecer. confiava sinceramente na sua não-ocorrência. embora em alguns casos raros seja possível cogitar de dolo eventual em crimes de trânsito. simplesmente. para a caracterização do dolo eventual. ao contrário.. se ao final do processo pelo qual o motorista estava sendo processado por um crime doloso (como dolo eventual). [. não é pela conjugação da embriaguez com a velocidade excessiva que se pode chegar a essa conclusão. Rogério. O agente confia que. Essa fórmula criada. acredita.veículo automotor.] O clamor social no sentido de que os motoristas que dirigem embriagados e/ou em velocidade excessiva devem ser punidos severamente. No dolo eventual. sinceramente. [. que o agente anteveja como possível o resultado e o aceite. atua com culpa consciente. aduz que: A questão não é tão simples como se pensa. Na culpa consciente. dependendo assim do caso concreto. sim.. ainda. Exige-se. cometeu infração culposamente. considerando o seu elemento anímico. o agente não se preocupa com a ocorrência do resultado por ele previsto porque o aceita. o agente não quer e nem se assume o risco de produzir o resultado porque se importa com a sua ocorrência..45 Como se pode perceber nem todo e qualquer homicídio que ocorra no trânsito será generalizado como culpa consciente. na verdade. que o resultado lesivo não venha a ocorrer. in dúbio pro societate. como querem alguns. [.. E. não se importando realmente com a sua ocorrência.] Com isso queremos salientar que nem todos os casos em que houver a fórmula embriaguez + velocidade excessiva haverá dolo eventual. absoluta. atua com dolo eventual. e não. Para ele. não pode ter o condão de modificar toda a nossa estrutura jurídico-penal.

e suspensão ou proibição de se obter a permissão ou a habilitação para dirigir veículo automotor. III – deixar de prestar socorro. se o agente: I – não possuir Permissão para Dirigir ou Carteira de Habilitação. José Frederico. p.705. CÉSPEDES. 302 se encontra tipificado a prática do homicídio que é mencionado como tipo culposo: Art. II – praticá-lo em faixa de pedestre ou na calçada. Antonio Luiz de Toledo. aonde o agente conduz um veículo automotor e comete uma infração penal com o mesmo.n. Vade Mecum. Márcia Cristina Vaz dos Santos. p. Tratado de Direito Penal. IV – no exercício de sua profissão ou atividade. V – (Revogado pela Lei. WINDT. quando possível fazê-lo sem risco pessoal.” 46 O Código Brasileiro de Trânsito em seu artigo 96 traz a classificação dos veículos. Parágrafo Único.855 .320.11. quanto à tração. a pena é aumentada de terço à metade. estiver conduzindo veículo de transporte de passageiros. quanto à espécie e quanto à categoria e.1 CONCEITO DE CRIME AUTOMOBILÍSTICO Crime automobilístico ou crime de trânsito é o crime que ocorre em vias terrestres. à vítima do acidente. a partir do artigo 302 os crimes em espécies. de 2 (dois) a 4 (quatro) anos. quer de carga como de pessoas. Lívia. 250 PINTO.CAPÍTULO IV TIPO SUBJETIVO DO HOMICÍDIO OCORRIDO NO TRÂNSITO 4. Segundo José Frederico Marques “é toda infração penal oriunda de veículo motorizado na sua função comum de meio de locomoção e transporte. Praticar homicídio culposo na direção de veículo automotor: Pena – detenção. No homicídio culposo cometido na direção de veículo automotor. de 19-6-2008)47 46 47 MARQUES. No art.

não “praticar”. o excesso de velocidade nas vias. que faz muitas vítimas todo ano. que tecnicamente representa o núcleo do tipo. Esse assunto é de fundamental debate de nossos governantes. acima de tudo uma fiscalização mais eficaz. mas sim porque “matou alguém”. Damásio. Autor é quem realiza a conduta contida no verbo do tipo. O verbo típico e “matar”. o comportamento do autor no homicídio culposo. 71 .48 4. pela grande demanda de veículos que o Brasil possui e. O sujeito é punido não porque “praticou”. traz um capítulo específico dos Crimes de Trânsito nas Seções I e II. O Código Brasileiro de Trânsito. e sim “matar alguém culposamente”. como exemplo o caso de dirigir alcoolizado. Nunca houve maneira mais estranha de descrever delito. em que resgata o dever do Estado de punir com mais severidade aqueles que se utilizam de um veículo de maneira imprudente. em decorrência de muitos acidentes brutais e fatais causados por imprudências. refletindo a ação ou omissão. O verbo.Interessante a crítica que Damásio de Jesus traz em sua obra Crimes de Trânsito em relação á definição típica: O conceito típico é criticável. p. regulador dessa questão. não menciona a conduta principal do autor. causando acidentes brutais e ceifando vidas. levando assim o judiciário em alguns casos decidir 48 JESUS. buscando até mesmo a aplicação do instituto dolo eventual em determinados delitos que acontecem nessa esfera. não consiste em “praticar homicídio culposo”. levando assim uma revolta social e injustiça nos tribunais. dirigir pela contramão e etc. para fins de definição típica. e não quem “pratica homicídio”. pois o mesmo enquadra os crimes de trânsito como sendo culposos com penas baixas. questiona sobre uma Lei ou uma pena mais eficaz e inibitória relacionada à punição desses crimes. É a aplicação da culpa nesses crimes que tem trazido uma insatisfação social em meio às penas aplicadas. Ora. acidentes que poderiam ser evitados se houvessem leis mais severas ou penas mais duras e. Crimes de Trânsito. visto que. É “praticar”.2 APLICAÇÃO DO DOLO EVENTUAL E DA CULPA CONSCIENTE NO HOMICÍDIO OCORRIDO NO TRÂNSITO A sociedade insatisfeita com os crimes de trânsito e sua baixa punibilidade.

. em trecho com lombadas (TJSC Rcr. RT 728:529). . Crim. realizando manobra inadequada (TJRS SER nº 70003504610).Dirigir embriagado. em rua íngreme e movimentada (TJPR Apcr.Conduzir em alta velocidade.Dirigir embriagado.br/doutrina/texto. Em meio à aplicação do dolo eventual em determinados crimes de trânsitos. O dolo eventual nos crimes de trânsito. fugindo de perseguição policial (TJRS RSE nº 70003963063).Dirigir embriagado. pois. nº 697153161).000335-8). nº 694038860). Cornélio José. nº 97. . em local de aglomeração de pessoas (TJSP. sendo deficiente físico. Jus Navigandi.Participar de racha (STF HC 71. com faróis apagados. Crim. . inibindo que ocorra outros acidentes e não deixando o autor do crime com uma punidade leve.Dirigir embriagado. Muitos têm sido os julgados reconhecendo o dolo eventual nos crimes de trânsitos. em alta velocidade (Informativo nº 59 STJ). colhendo pedestre no acostamento. sempre ver o agente como se estivesse assumindo o risco de matar.975-3).49 49 HOLANDA.Conduzir em alta velocidade (TJSP SER nº 249.800/RS). nº 00. veículo com freios defeituosos. mas não é a sua intenção. para a sociedade. tem ocorrido a insigne dificuldade em saber verdadeiramente se o agente assumiu o risco ou agiu com a culpa consciente no mesmo.Dirigir embriagado. . que é uma pena mais eficaz. . . Crim.07780-4).Dirigir embriagado (TJRS RSE nº 70003230588).Ultrapassar semáforo fechado em alta velocidade (RT 571:404). e não como uma culpa. . veículo sem adaptação especial. .Dirigir embriagado. após tentativa de ultrapassagem em local proibido (TJRS. . perseguindo motocicleta (TJCE APen.002552-6).Dirigir embriagado. sem habilitação. Acesso . nº 0116422-5). veículo com freios defeituosos. onde o agente prevê que o dano pode ocorrer. . invadindo a via de sentido contrário (TJRS Ap. Disponível em: <http://jus2. . Emb. . ingressando com caminhão em via de trânsito intenso (TJSC Rec. ingressando em trevo rodoviário na contramão (TJRS Ap. nº 1998.Conduzir em alta velocidade. em alta velocidade.uol. em alta velocidade.Dirigir embriagado.Conduzir em alta velocidade. nº 6950554000). e em alta velocidade (TJRS Ap. Inf.Efetuar derrapagem proposital em alta velocidade (RT 522:468). vejamos alguns: .Arremessar veículo contra pessoas que realizavam protesto em via pública (TJSP SER nº 256. . em alta velocidade. 326. Essa tem sida a maior dificuldade na hora de aplicar a pena no crime de trânsito. 29 maio 2004. . em vez de ter ocorrido a culpa.asp?id=5263>.Dirigir embriagado. n.que. Crim.com. nº 694099524). . aplicar o dolo eventual. ano 8. em alta velocidade.097-3). . Teresina.

é necessário que existam circunstâncias específicas que demonstrem a vontade deliberada do agente em assumir o risco. em conhecer do recurso. Disponível em: <http://www. conforme direciona a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça. e dar-lhe provimento.RECURSO PROVIDO DECISÃO UNÂNIME. nos termos do voto do Desembargador Relator. Belém. João José da Silva Maroja Relator 50 Podemos perceber que entre os aplicadores da lei há uma divergência na aplicação desses dois institutos. Sala das Sessões do Tribunal de Justiça do Estado do Pará.Acesso em : 26 out. TJPA – Recurso em Sentido Estrito RSE 200930095862 PA. Os juízes singulares tem sido os mais aplicadores do dolo eventual nesses crimes. 50 BRASIL. via de regra. III Prescrita a pretensão punitiva referente ao delito de lesão corporal culposa. à unanimidade. EM GERAL. I A defesa requer a desclassificação da imputação do delito cometido com dolo eventual para a forma de homicídio culposo. em: 19 out. mas a maior parte dos desembargadores tem desclassificado esses crimes quando o acusado recorre. 2010.br/jurisprudencia/7241981/recurso-em-sentido-estrito-rse-200930095862pa-2009300-95862-tjpa/inteiro-teor>.com. Jus Brasil.2010. APRESENTAM A CULPA COMO ELEMENTO SUBJETIVO LESÃO CORPORAL CULPOSA -PRESCRIÇÃO . RICARDO ALBUQUERQUE DA SILVA 1 RELATOR: Des. 201023 mar.Tem-se um recurso com o pedido de desclassificação do dolo eventual para a sua forma culposa: RECURSO EM SENTIDO ESTRITO PROCESSO nº 2009. são cometidos com culpa. Julgamento presidido pela Excelentíssima Senhora Desembargadora Vânia Lúcia Silveira Azevedo da Silva.009586-2 COMARCA: BELÉM/PA RECORRENTE: LUIZ DE NAZARÉ DE OLIVEIRA FLORES (Adv. aos nove dias do mês de fevereiro de 2010. Vistos etc. Des. 09 de fevereiro de 2010.Recurso provido. Acordam os Excelentíssimos Senhores Desembargadores componentes da Egrégia 1ª Câmara Criminal Isolada. IV . Aduz que os crimes de trânsito. II Para que se atribua dolo eventual ao crime de trânsito.: Março Aurélio de Jesus Mendes) RECORRIDO: A JUSTIÇA PÚBLICA (Promotor de Justiça: Manoel Victor Sereni Murrieta) PROCURADOR DE JUSTIÇA: Dr. JOÃO JOSÉ DA SILVA MAROJA RECURSO EM SENTIDO ESTRITO CRIME DE TRÂNSITO EMBRIAGUEZ HOMICÍDIO DOLOSO RECORRENTE REQUER A DESCLASSIFICAÇÃO DO DOLO EVENTUAL PARA FORMA CULPOSA ALEGA QUE OS CRIMES DE TRÂNSITO.jusbrasil. para reformar a decisão do juízo de primeiro grau. . Decisão unânime.3.

]Presa em flagrante. o juiz João Guilherme entendeu que ao dirigir embriagado.2010. porque tinha a obrigação de estar mais atento.] Dolo eventual [. ser mais cauteloso. Ela dirigia seu veículo de marca Fiat Palio embriagada e em alta velocidade quando avançou o semáforo daquele cruzamento. que.] A ré em questão é Ana Santos Viana da Silva que será julgada pelo Tribunal do Júri. explicou o promotor.. A diferença é que no dolo eventual o agente aceita o risco de produzir o resultado mesmo após prever que ele pode acontecer.. Hipocrisia. negligência ou imperícia. o juiz pronunciou o caso como dolo eventual.] O dolo eventual ocorre quando a pessoa age com culpa e descuidadamente. Afonso Pereira. com imprudência. à época.br/noticias/2197036/justica-amapaense-reconhecemais-um-crime-com-dolo-eventual-no-transito> Acesso em: 26 out. Segundo o promotor de Justiça. por volta das 4h da manhã. 51 51 [s.com.. após o Tribunal de Justiça conceder habeas corpus à acusada. Jus Brasil. Pronunciamento da Justiça do Amapá: A Justiça amapaense pronunciou o primeiro crime de trânsito para ser julgado no Tribunal do Júri. em Macapá.]Na primeira fase da instrução do processo.. É comum.Disponível em:< http://www. é negar esta realidade.[. afirmou o juiz em sua sentença... o juiz analisa os fatos para encerrá-lo com a sentença em plenário do Tribunal do Júri. vindo a colidir com o taxi em que estavam as vítimas Adenael dos Santos Guedes.. no cruzamento da avenida Fab com a rua Jovino Dinoá.. a pessoa coloca em risco a segurança de si e de outras pessoas que utilizam as vias públicas. [.Os crimes de trânsito que mais têm sido pronunciados com a aplicação do dolo eventual são os que o agente se encontra embriagado. Baseado em denúncia do Ministério Público. Moacir Cordeiro Roc e Ítalo Rogério Campos de Almeida.n] Justiça amapaense reconhece mais um crime com dolo eventual no trânsito. [. . alguém ingerir bebida alcoólica e dirigir veículo automotor. Na segunda e última fase.jusbrasil.. pelo acidente que cometeu no dia 29 de junho de 2008. após a entrada em vigor da Lei Seca. para evitar o resultado. com excesso de velocidade ou na prática de racha. órgão competente para julgar os crimes dolosos contra a vida. mas deve responder pelo mal causado. foi solta com 47 dias na prisão.. [. negou ter avançado o sinal e de estar embriagada. causa o resultado sem querer.

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful