Jeanne Callegari

CAIO FERNANDO ABREU
inventário de um escritor irremediável

CD
SEOMAN

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Copyright © 2008, Editora Seoman Coordenação Editorial MANOEL LAUAND Capa e Revisão HENRIQUE MINATOGAWA Projeto Gráfico GABRIELA GUENTHER Foto da Capa e da Abertura do livro ADRIANA FRANCIOSI/AGÊNCIA RBS Checagem CLARA YWATA

Dados Internacionais de Catalogação Brasileira do Livro, SP, Brasil)

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Callegari, Jeanne Caio Fernando Abreu: inventário de um escritor irremediável / Jeanne Callegari. — São Paulo: Seoman, 2008. ISBN 978-85-98903-10-1 1. Abreu, Caio Fernando 2. Escritores brasileiros — Biografia I. Título 08-05638 CDD — 928.699 índices para catálogo sistemático: 1. Escritores brasileiros : Biografia 928.699 EDITORA SEOMAN Rua Pamplona, 1465 — cj. 72 — Jd. Paulista São Paulo — SP — Cep 01405-002 Fone: 11 3057-3502 info@seoman.com.br www.seoman.com.br Todos os direitos reservados e protegidos pela Lei 9.610/98. É proibida a reprodução total ou parcial sem a expressa anuência da editora. Foi feito depósito legal.

desde cedo. à distância. através de um jovem ai ter ego e por vias tortas. Nem mesmo a prática do jornalismo. que se apóia no concreto e na objetividade. em cujas páginas avançamos com o coração na mão. e para Eduardo Nasi. para temas ameaçadores como o erotismo. pelo apoio. nos mostra Jeanne. com amor. Viver é não só suportar. Caio já rascunha. mas sobretudo lutar contra o que se é. de atração pelo risco mas também de fascínio pela beleza. das primeiras descobertas e dos primeiros sustos. Talvez se possa pensar que. PREFÁCIO O perfil de Caio Fernando Abreu escrito por Jeanne Callegari pode ser lido como um romance. de Os dragões não conhecem o paraíso. Para Jonas Lopes.Para Caio F. Ela parte dos extratos remotos. mas decisivos da infância. pisa devagar sobre a matéria ardente. cheios de tristeza e de revolta. "Pernas e braços demais. que também viveu como se sua vida não passasse de um romance. um desses romances tensos. Esta tendência logo se revela uma disposição para a fermentação interior. uma voz que desafinava igual a um pato. pela paixão. a formação difícil do escritor. cheio de paixão mas também de pudor. A estratégia narrativa de Jeanne combina com a estratégia existencial de Caio. Jeanne começa imitando os romances clássicos. eu queria me esconder de todos". Caio Fernando Abreu tenha sido um eterno adolescente — e o livro . o menino Caio demonstrou uma inclinação para a arte". um terrível retrato de si. a fraqueza e o risco de morte. movimento que o arrastou. lhe serviu para abrandar as turbulências íntimas. pêlos nos lugares errados. com sua alma efervescente. "Desde muito pequeno. Em um conto como Pequeno monstro. para acompanhar. Um delicado romance que. diz.

na Inglaterra. havia desde logo um poeta (pela postura. mas de incorporar como fundamento de sua existência. Caio escreve em uma carta aos pais. vai para a Europa. por vezes. perderse na esperança de. Mesmo amparando-se no recurso mais didático da ordem cronológica. a figura de um sujeito à margem. Mas. ele se escondeu no sítio da escritora Hilda Hilst. na periferia de Campinas — ajudam a fixar traços mais firmes. mais afunda na dor. segundo quem. .de Jeanne Callegari. e que o ajudou a delimitar. como um duplo. Leva então uma existência precária. Um homem que nunca desconheceu o peso do caminho que lhe coube atravessar. e não porque escrevesse versos. Quando. na Holanda. rompendo de vez os limites de uma vida burguesa. nos enche de argumentos a favor dessa idéia. escoltado por ela — como uma parteira que de um corpo arrancasse não outro corpo. Hilda seguia a idéia do escritor grego Nikos Kazantzakis. datada do final dos anos 1960. "As vezes que tentei morrer foi por não suportar a maravilha de estar vivo e de ter escolhido ser eu mesmo". mas avança. se os escrevia. enfim. de vez. já é um homem que deseja abraçar o mundo. Mas Jeanne nos mostra também que. nem assim a autora consegue organizar e domar a atmosfera de inconstância e de desamparo que cercou a vida do escritor. de um desviante. Pode-se dizer que foi na chácara de Hilda. para entender a sociedade. se achar. A bissexualidade se abre. Em sua chácara. quanto mais Caio se liberta e expande seus horizontes. pois. nunca publicou). lava pratos. nos mostra Jeanne. mas um espírito — que o escritor adulto veio a nascer. faz bicos. se o jovem rebelde persistia. grudado a ele. Períodos fundamentais — como aquele em que. Lição que o jovem Caio tratou logo não só de imitar. no início da década de 1970. fugindo da perseguição da ditadura militar. na Suécia. um rebelde. é preciso primeiro dela se afastar. sobrevive como pode. "Escrevo por uma espécie de incompatibilidade de gênios com a vida.

Caio avança. elegantes". termina por cometer suicídio — é uma síntese desses sentimentos. e também de um misticismo vago. A relação de amor e tensão que tem com a poeta Ana Cristina César — que. Caio menciona o terror da aids — que naquela época. portanto. Fato. Mesmo cheio de terrores. escrevo para organizar o caos. mais especificamente na novela Pela noite. "O ser todo exalava algo de sexual. que se acentua na atitude pessoal — que cultiva com esmero — de um bruxo. apesar da sensibilidade extrema e da volúpia de viver sempre frustrada. e de solitário também". do desastre. de ignorância e preconceito. depois de uma doença longa e estranha. É o momento da virada — em que o positivo que indica a doença. de "câncer gay". ela resume. De volta a São Paulo. em uma descrição que. do fracasso. e é nesse nó que Jeanne Callegari puxa o fio de "um escritor irremediável". para re-fazer". em O triângulo das águas. é convertido por Caio em algo positivo mesmo. Fraco. recebe a notícia de que é soro-positivo. pela primeira vez. Dedica-se cada vez mais a ler poesia — sobretudo Adélia Prado. se agiganta. E aqui se deve entender o irremediável em dois sentidos: como uma condenação (algo que não tem remédio). "de calça de couro. Sua escrita está cada vez mais impregnada de lirismo. É também o momento em que. nunca desiste de recomeçar. um lirismo seco e doloroso. Dor e escrita se conectam de modo fatal. Jeanne reencontra Caio. Um sujeito que. gestos finos. ele mesmo descreve em uma crônica da época. aos 30 anos. e como um destino (algo em que ele se lança para a vida e com grande vigor). jaqueta. depois de muita luta interior. fisga quase toda a alma de Caio Fernando Abreu. que comunica. ainda era chamada. A vida lhe abre uma nova face. O anjo negro chega ao extremo até que ele mesmo. mesmo rápida. muitas vezes. negativo. Fernando Pessoa e Mario Quintana.escrevo para reinventar. Paulo. em uma série de crônicas publicadas no jornal O Estado de S. encostado em um carro. mas . O medo da loucura. para não enlouquecer de impotência. de modo frontal.

ele volta a morar com os pais. José Castello .cheio de coragem. Jeanne se contém sempre. apegado ao prazer de cuidar dos próprios espinhos. porque sabe que aventurar-se na vida e na obra de Caio Fernando Abreu guarda sempre um grande risco. o mais que pode. dos mergulhos negativos. Seu livro tem a objetividade dos relatórios científicos. procurando extrair. mas também o encantamento das cartas de amor e. a reserva temerosa das grandes confissões. ainda. é mergulhar no veneno terno da imperfeição. É nesse andar das coisas pequenas que Jeanne o persegue até o fim. e se dedica a rever seus livros. quieto entre suas flores domésticas. sentidos novos e vitais. no sul. A morte o pega quando vivia como um romântico jardineiro.

do qual ele mesmo era um dos principais objetos. apaixonado sempre. O Caio obsessivo com o lado escuro de todas as coisas. O título de Pirandello ronda as noites de quem se impõe a tarefa. girassóis. o Caio abobrinha. inquieto. que marcava. das flores. mas apaixonado pela vida. filosofias e seitas. de uma fidelidade canina com os amigos. de retrato. suas memórias. oculto pela linha fina. Achavam quase egoísmo . reservado para poucos olhos. curioso e temerário. Com todos esses tive que lidar. cigarro com jardins e flores. de traduzir e dar unidade a todos os muitos que algum outro foi. fácil de amar. gostava de andar no limite. de um humor implacável e ácido. a vontade de ficar sozinho. Muitos. mas que passeava e pairava por todas elas. com quem. queriam dividir sua visão do Caio. que alternava fases macrobióticas com costelas gordas. mas com seus textos. do banal. Avencas. estrangeiro. o Caio filosófico. dar entrevista. O amigo difícil de conviver. herdeiros e viúvas. O Caio que usava as palavras como arma de sobrevivência quando batia a depressão. camaleão. nunca a ponto de perder o caminho de volta. Ele foi milhares. que se recusava a fazer parte de movimentos. o escritor admirado e cheio de seguidores. O Caio do equilíbrio sempre além do comum. O Caio inclassificável.INTRODUÇÃO: CEM MIL CAIOS Um. nenhum e cem mil. o Caio deprimido. rosas. O Caio F. não com pedacinhos de pão ou pedrinhas. Tinham ciúme e zelo de tocar em memórias tão delicadas. sempre em busca da luz. em uma tentativa como essa. todos aqueles que ficaram carentes quando ele se foi. em 1996. sempre flores. Escrever sobre Caio Fernando Abreu. não foi a exceção da regra. de aids. pelo contrário. Muitos não queriam falar. a literatura. O Caio erudito. o Caio pop. mas nunca a ponto de se perder. da leveza. sempre algo fica de fora da moldura. desde o início condenada ao fracasso. O Caio simpático com os outsiders. e também com seus órfãos. chás medicinais com whisky. Costuma ser assim. o desespero. como João e Maria da fábula. nas noites mais perigosas.

é imperfeito. a importância como filho. A triste e heróica caminhada para o fim. Partindo daqui. aparecendo como em uma revelação fotográfica. detalhe. Fui achando que entendia Caio. a delicadeza em retornar meus pedidos insistentes.deixar a beleza de anedotas e palavras para trás. Jeanne Callegari . Por trás de depoimentos e histórias que marcaram. a boa vontade. cada nova nuance. Cansa reviver momentos tristes e a partida de alguém que se amou. Antes é um perfil. muitos arquivos a revirar. no Rio. A vida adulta em São Paulo. amigo. Ainda há muito a dizer sobre Caio Fernando Abreu. jornalista e personalidade foi surgindo devagar. e a todos agradeço a colaboração. queriam que o mundo conhecesse o homem por trás do texto. um recorte dessas milhares de faces. Mais cem mil para serem estudados. muitas fotografias para nos fazer lembrar. Sim. Sobre o que conversaríamos se ele estivesse aqui? Sobre a infância em Santiago. como o personagem de Pirandello: a unidade. Pois o ponto de chegada não existe. Por definição. por trás de frases ditas e registradas em cartas. me sentindo íntima dele. Fiz algumas descobertas sobre esse jardineiroescritor marcante e apaixonado. buscar fatos muitas vezes esquecidos num cantinho das lembranças. através de contos e romances. Apesar dos tantos traços. Muita gente para prosear a respeito. e que homem extraordinário era esse!. uma biografia exaustiva. Se a importância como escritor era flagrante desde o início. É que esse relato não se pretende definitivo. a adolescência em Porto Alegre. dá para ir apreciando o caminho. Cansa forçar a memória. faltam ainda detalhes. teríamos sobre o que falar. personagem e autor da própria vida. pensavam. do contorno esboçado. emergia aquilo que eu buscava. em meio a suas rosas e a sua família. Não há razão mais certa que a outra.

assim como algumas das cartas de Vera Antoun e os postais de Pedro Paulo de Sena Madureira. faz parte do acervo da família e foi gentilmente cedida por ela. .As cartas de Caio citadas no livro foram extraídas de Caio Fernando Abreu — Cartas. A carta de Manuel Abreu para o filho Zaél nunca foi publicada. organizado por ítalo Moriconi e publicado pela editora Aeroplano em 2002.

Correio da Manhã. a situação poderia complicar para o seu lado. Caio não era um suicida. Ele está ao lado da janela do andar de cima do duplex de um flat na Frei Caneca. o escritor tinha descoberto que era portador do vírus da aids. O ano era 1994. que estava junto no apartamento. Paulo. e depois disso passara por vários veículos. POP. Déa Martins e Gil se encontraram no elevador. deixando os amigos morrendo de saudades do lado de cá. e ambos chegaram com garrafas na mão. Alemanha. se seria melhor interná-lo ou não. que estou aqui com você — grita Gil Veloso. naquela segunda-feira. Gallery Around. Leia Livros. um reflexo da febre. viram que Caio não estava bem.PRÓLOGO — Caio. Gil sabia que Caio o queria bem: não faria nada que pudesse prejudicar o amigo. Além disso. O Estado de S. Nova. o amigo Gil conversava. pela segunda vez naquela noite. Zero Hora. Itália e Holanda. Como jornalista. argumentando que se ele se jogasse lá embaixo. Mas Gil Veloso não pensava em nada disso quando foi socorrê-lo no flat. Há três dias. e . Caio Fernando Abreu era um escritor consagrado. Para evitar que Caio fizesse uma besteira. em São Paulo. Subiram. tinha integrado a primeira equipe de reportagem da Veja. Folha de S. ganhador de dois prêmios Jabuti. Viveu com intensidade as décadas de 1970 e 1980 e. Era também autor premiado de teatro. que se aproximava da janela e a abria. como IstoE. era considerado ícone de uma geração. menosprezava e era contra as pessoas que tinham a indelicadeza de se matar. por ter retratado tão bem experiências e emoções de sua época. as coisas vão se complicar para mim. você vai fazer isso comigo? Se você se matar. Ele argumentava com o escritor Caio Fernando Abreu. pedira para que levassem água. Outras pessoas haviam passado por lá: no final da tarde. Caio ligara para os dois. traduzido na França. Aos 45 anos. Inglaterra. conversaram sobre a situação. com a vaga intenção de se jogar. Paulo. A reação era. apenas.

Caio estava já completamente nu. contando que estava com aids. conseguiu telefonar para alguns amigos e para a médica antes que Caio abrisse novamente a janela e ele precisasse argumentar para evitar novas tentativas. começaram a aparecer os primeiros casos no Brasil. Deu um grito. doença. continuavam os delírios. Paulo Yutaka. algo mudou: ele finalmente pareceu assimilar. em 1983. delirou. Não houve jeito senão chamar uma ambulância e levá-lo para o hospital Emílio Ribas. como uma criança. que se aproximava do parapeito. Gil. Lory Finocchiaro. e . depois do fim de semana aparentemente sensato. dando a notícia. O escritor passara os últimos três dias ligando para os amigos. Mas. Estava recluso. como se digerisse a situação. fingia estar vendo as borboletas imaginárias. agora era de verdade. Gil ficou conversando. o que estava acontecendo. quando. como se já esperasse: a doença o rondava fazia pelo menos dez anos. e parecia natural que assim fosse. com toda a força. Agora era a sua vez. Assustado. que estava com ele. Recitou coisas sem sentido. acalmando o amigo até que pudesse descer novamente e pedir ajuda. Gil decidiu ligar para uma médica. os semsentidos que dizia. Mesmo assim. Depois. A essa altura. Não eram poucos os amigos que Caio tinha perdido para a aids: Vicente Pereira. Da segunda vez. ele diria que sua primeira reação foi de naturalidade. Caio paralisou. Cazuza. morte. Aids. Então veio a febre. teve alucinações. olhou para Gil e compreendeu o absurdo do gesto. pensou Caio.combinaram de ir se falando. Correu e pegou Caio. Aids! Estou com aids. Luiz Roberto Galizia. Na primeira vez que desceu as escadas para alcançar o telefone. ouviu a janela se abrindo. e ele não se lembrava de mais nada. Déa foi embora e Gil ficou cuidando do Caio. não queria comer. Não era mais ficção. Eram mais ou menos onze da noite. Fim da linha. entrou no jogo. para assim tentar trazer o doente de volta à realidade. Estava muito fraco.

do contato com colegas farristas. tinha passado por uma fase boêmia. senta-se para escrever uma carta ao filho Zaél. porque. pois os enfermeiros tinham medo da contaminação. quando. Caio ficou em uma maca enquanto aguardava que um quarto vagasse. emancipado e. Zaél fora morar em Itaqui. que também morava em Itaqui. No dia seguinte. nascido em 1887. UM É a década de 1940 em Santiago do Boqueirão. O médico disse a ele: — Você precisa agora é de qualidade de vida. Tendo escolhido a carreira militar. tinha sido no Rio Grande do Sul que tudo tinha começado. no final de 1945. seu Manuel recebe uma carta do filho pedindo autorização para se casar. ele não nega. Gil já havia ligado para Déa. Por isso. de 24 anos. Afinal. de bebedeiras e namoricos. Primeiro. Plantar roseiras. O comerciante Manuel Abreu. mesmo sem conhecer a moça em questão. Não se lembrava de absolutamente nada. não havia leitos. único responsável por seus atos. Caio já estava em um quarto. Voltar a Porto Alegre. No hospital. ter uma vida tranqüila. amigos do copo e de mulheres bonitas. O rapaz. que também estava ali.quem o vestiu e o colocou na ambulância foi Gil. normalmente tranqüilo. para a casa dos pais. pequena cidade ao sul do Brasil. Os amigos foram visitá-lo e sua irmã Cláudia chegou de Porto Alegre. Voltar às raízes. Segundo. por dois motivos. Era tempo de Caio realizar um sonho: voltar ao Rio Grande do Sul. transferido junto com o primeiro batalhão destacado para operar na cidade. portanto. Coisa da idade. porque Zaél já era homem feito. seu Manuel acreditava que o .

assim. a mãe começou a costurar para fora para pagar as contas e. No mais. Nair era mulher forte. tranqüilo. Era ela que. "porque não é lícito também ficares noivo indefinidamente. Assim. trazia também recomendações para que Zaél economizasse dinheiro a fim de poder se casar o mais rápido possível. prejudicando o futuro de uma filha alheia". comandava a casa. Depois da entrada dela na vida de Zaél. provavelmente cristãos-novos. mãe dela. Manuel Abreu". Das outras meninas. Aproveitando para agradecer o lindo vidro de azeite que Otacílio e Jurema haviam mandado. Nair insistia em estudar: viria a ser professora. com "saudades e abraços de todos. porém. No dia 15 de dezembro. Manuel esperava que as qualidades da noiva de Zaél se confirmassem. foi a única dos sete filhos a cursar faculdade. A carta. Localizada na fronteira com a Argentina. do teu pai e amigo. três se tornaram donas de casa. Quando Nair era pequena. poder mandar as crianças para a escola. ele termina a carta. Zaél e Nair se conheceram em Itaqui. Eram descendentes de portugueses. o pai responde à carta. e que ambos fossem dignos um do outro. "Por causa dos narizes". a situação financeira da família ficou complicada: com a morte do pai. Válter. dando seu consentimento para a cerimônia. decidida. Dois anos depois.casamento seria uma boa maneira de tranqüilizar a vida de Zaél. brincaria anos mais tarde uma das netas de dona Alcina. se tornou . o presidente. era prima de Rodrigues Alves. dizendo que. com pulso firme e determinação. Itaqui tinha pouco mais de 18 mil habitantes na época e a base de sua economia era agropecuária. Seria sempre conhecido como homem afável. onde ela nascera. o jovem sossegou. com boa vontade e energia. Zaél Menezes Abreu e Nair Ferreira Loureiro se casaram. seria possível controlar a vida desregrada que o filho levara até ali. E Manuel deve ter gostado da nora que aprovara mesmo antes de conhecer. um dos rapazes. A família de Nair era das mais distintas: Alcina Alves Ferreira.

Israel. mas os amigos do quartel o amarraram na cama. enquanto ainda eram noivos. ou na hora do footing. Nair se formou na Escola Normal: ser professora era uma das únicas profissões possíveis para uma mulher naqueles tempos. Queria entrar fardado e a cavalo no clube. o encontro se deu em algum dos bailes. Resmungava sempre algo sobre isso. de vez em quando soltava tiradas mordazes e engraçadas. mas a anedota ficou na memória da família. em Itaqui. Marciano. os três garotos viriam. A confusão foi desfeita. fora inventado a partir de partes do nome de seus pais (ManuEL e AdeliZA). As mulheres andavam para um lado e os homens. ela iria a um baile no Clube Comercial de Itaqui. Quando Nair conheceu Zaél. e ele queria porque queria entrar na festa para buscá-la. a se tornar prefeitos de São Borja. Portanto. paixões nasciam e morriam. era difícil achar quem acertasse. e assim foi até que conheceu Zaél. Mais tarde. ela se mudou para uma fazenda em São Borja — a cidade dos presidentes Getúlio Vargas e João Goulart — para dar aulas para os filhos de um rico fazendeiro. Estava bêbado. pois não havia dinheiro para isso — Zaél foi transferido para Santiago e Nair . Uma noite. Seu humor. Na troca de olhares. permaneceria o mesmo: embora calado. Aos 16 anos. Zaél sossegou. e ele não pôde sair. Depois da fazenda. Provavelmente. jogador de futebol — chegou a fazer parte do Botafogo do Rio de Janeiro. Assim que se casaram — sem festa. A única que também se tornou professora. no entanto. foi sua irmã Flora. Zaél discutiu com Nair. ele usava um enorme anel de ouro. que. e o outro. na Praça Central. para o outro. Todo mundo confundia: Ismael. freqüentes na época. Ela perguntou o que significava aquela inicial.delegado de polícia. Nair foi para outra das pequenas cidades da região dar aula em uma escolinha. contrariado. Aos 17. com um Z gravado. ele não teve dúvidas e disse: Zeferino. Um a um. Zaél odiava profundamente o próprio nome. Depois de casado. como Nair. quando Nair perguntou o significado do Z. assim como o de sua irmã Elza. anos depois.

enquanto era cravejado de balas. batizado Neltair Rebés Abreu. Achavam bonito. se destacava das outras pequenas cidades da região. Nem só de quartéis viveu Santiago. E. perto da fronteira com a Argentina. Por defender a lisura da eleição naquela localidade com a própria vida. no Rio Grande do Sul. que certamente possuía. Houve. uma cidade fictícia. Túlio Piva. pelo menos um herói. o capítulo introdutório aparece em Ovelhas negras. coletânea lançada no fim da vida do escritor. e ele ambicionava um dia escrever um grande romance sobre a cidade. com seus heróis e mártires. Não pelo tamanho ou pela prosperidade. Assim era Santiago. mas pela quantidade de quartéis. antiga São Tiago das Missões. regravado em inúmeras línguas. Em 1936 — dois anos antes de Santiago ser oficialmente promovida a "cidade" — o juiz eleitoral Moysés Vianna morreu abraçado a uma urna eleitoral. também havia de existir um jogador vindo de Santiago: Anderson Polga. seus costumes e lendas. concedida a todos aqueles que se destacassem pela atuação em matéria de Direito ou Justiça Eleitoral. e a maioria dos homens que ali moravam era militar. ou pelas belezas. Santiago do Boqueirão. Lá nasceu também o cartunista Santiago. também. que gostavam de namorar homens fardados. em um país apaixonado por futebol. no entanto: houve um sambista. O pai de Neltair era primo-irmão de Zaél. . como qualquer outra cidade. tirou o apelido da cidade em que nasceu. quando Nair ficou grávida do primeiro filho: uma terra predominantemente militar.arrumou um emprego como professora em uma escola local. Santiago era polvilhada de quartéis. Santiago viria a ser a inspiração para Caio criar o Passo da Guanxuma. Sorte das mocinhas. Embora o texto inteiro jamais tenha sido feito. que. à maneira da Macondo de Garcia Márquez e da Santa Maria de Juan Carlos Onetti. em 1948. O Passo aparece em vários contos de Caio. o heróico juiz virou medalha: a "Medalha do Mérito Eleitoral Moysés Vianna". autor do sucesso de verão Tem que ser mulata.

O papai não vai enumerá-los por ser muito longo e estar com preguiça de escrever.. está anotado. De distúrbios estomacais. o mais real. sofre ou sofrerá o Passo. que o preenchia..]. dizem tanto."Isso é o que se conta. olhos pretos.." Eram oito e quinze da manhã do dia 12 de setembro de 1948. ai como dizem nesse Passo. são touceiras espessas de guanxuma. Esse é o bebê Caio: cútis branca. sobre os cabelos da criança: "apesar de escassos. [. como o pai de Caio. No álbum do bebê. que. Zaél. na seção presentes: "Ganhou muitos presentes. o pai. dizem. sem sinais particulares e "muito quietinho. algum tempo depois. nem sempre tinha paciência de escrever tudo que acontecia. morre Getúlio Vargas. salpicadas entre as quatro patas da aranha — no meio dos girassóis do leste. quase não incomoda". por exemplo. 575. E um menino bem grande: Caio Fernando Loureiro de Abreu nasceu pesando notáveis quatro quilos. Lia tudo que saía sobre Getúlio nos jornais e tinha uma foto dele . o que se diz. mas se imagina do Passo. Nair de Abreu acabava de dar à luz pela primeira vez. nunca pára de crescer. se tornara getulista convicto. no primeiro aniversário de Caio. nota-se que serão castanhos". que os ramos servem pra fazer vassouras capazes de assentar até mesmo a poeira daquele deserto próximo que sopra e sopra noite e dia sem parar e. Na rua Pinheiro Machado. O falecido presidente era natural de São Borja.. nem de pó acumulado. confirmavam: é um menino. Caio seria o único dos cinco filhos de Nair a ter um álbum de bebê. anotaria. Assim." Em 1954. à beira dos lajeados ao sul. que chá de guanxuma é tiro e queda. pelos descampados do norte e até mesmo entre os vãos mais sombrios das areias a oeste — o que mais tem em qualquer tempo de seca ou aguaceiro. com o passar dos anos. de dois males jamais sofreu. Ainda assim. As parteiras Julia Jacques e dona Alcina. De tudo. não todo completo: seu Zaél. o que se vê e não se vê. mãe de Nair. calorão ou friagem.

Nair. O ambiente da casa dos pais era propício para isso: Zaél. escreve seu primeiro texto. quando estudaram na mesma turma. em casa Zaél só tinha motivos para alegrias. de sobrancelhas grossas e bem desenhadas. e não era só ele. De vez em quando. como seria a vida toda. Quando ele morreu. dividia a paixão por livros. Eles tinham que atravessar todo o deserto — o espaço entre a casa e o quartel — e conseguir víveres e peças para consertar o avião. também instigava os filhos a aprender. do escritor de aventuras Karl May — um alemão cujas histórias se passavam no faroeste norte-americano. em um conto do livro O ovo apunhalado. lia muitas coisas quando ia visitar a casa deles. embora ele mesmo nunca tivesse deixado seu país — enfeitavam as prateleiras da casa. Nenhuma leitura era proibida em sua casa: de gibis de aventuras e revistas como O Cruzeiro. o Beco (pronuncia-se Beco). se na política as coisas iam mal. Beco e Gringo brincavam de deserto. vizinho e primo dos Abreu. irmão de Caio. em sua casa. o menino Caio demonstrava uma inclinação para a arte que viria a desenvolver mais tarde. uma menina louquinha que queria fugir de casa. já muito magro e muito alto. as crianças podiam ler tudo. Aos poucos. estava sempre com um livro na mão. Desde então. só havia livros ideológicos. As coleções completas de Érico Veríssimo. Zaél ficou arrasado. pois seu pai era comunista e. o menino. a livros de Monteiro Lobato e a coleção chamada O mundo da criança.pendurada na parede. grande amigo do Gringo. iam faltando as coisas: . Mas. que seria um dos melhores amiguinhos do Caio a partir do primeiro ano ginasial. como Caio chamou a brincadeira anos depois. Com seis anos. ele. Machado de Assis. de muita cultura. O colega Ruy Krebs. quando Caio tinha uns sete anos. Desde muito pequeno. a mãe. Luiz Carlos Moura. a história em quadrinhos de Lili Terremoto. D. na sua trajetória de escritor. o garoto continuou escrevendo e criando. O quartel no fim da rua era o oásis: na frente da casa dos Abreu era onde o avião dos três garotos tinha caído. que eles assinavam. Sendo professora. ou oásis. homem sofisticado.

Caio encontra uma receita de massa para fantoches na antiga Revista do Globo. que de vez em quando aparecia por lá. fazer um teatro. Tinham que sentir. quem fazia os roteiros das peças que encenavam era ele. a turma percorria as obras em construção atrás dos sacos que embalavam o cimento para fazer os cenários. Cobertores velhos faziam as vezes de cortinas. são os que gostam de brincar brincadeiras mais parecidas com as de que eles mesmos gostam. Houve também a Etelvina. certa vez. são jogos que eles mesmos inventam. por incrível que pareça. São duas da tarde. Montou toda a estrutura no galpão de casa. Caio resolveu brincar de circo. suados. decidiram fazer um teatrinho de fantoches. a Nairzinha. filho de camponeses. A sede era a garagem da casa do Sales Horácio. Anos depois. Caio morreria de rir sempre que se lembrasse dessa história. decidiram. de Porto Alegre. pobre Etelvina! Certa vez. a pobre caiu de cabeça no chão. e não o Caio. Armaram no teto um trapézio. comida. escrita por Glênio . Ruy e Beco vão para a casa dos Abreu brincar. e a Etelvina tinha que balançar pra lá e pra cá. os meninos estavam cansados. de cabeça baixa. assim como inventam as brincadeiras de fantoche e de deserto. Quando a moça se casou. tratada com carinho pelos pais de Caio. colega dos meninos. Caio. Nair ajudou a fazer o enxoval. os empregados dormiam em casa. E conseguiam. então com dez anos. Em um desses balanços. atuar. Na casa dos Abreu havia sempre uma empregada doméstica. Como a turma gostava muito dos circos e teatros mambembes que de vez em quando passavam pela cidade. Em poucos quarteirões. Ruy se lembra de que. Certa vez. A noite. Uma delas era também Nair. apesar do tombo feio. E os irmãos Abreu. Quase sempre só os três: a maioria dos outros garotos não conseguia ir até o final. D. Não se machucou. e Gringo. As crianças chegaram da escola.água. Naquela época. fingir que era tudo verdade. Nada de jogar futebol ou vôlei: quando brincam de bola. O único que às vezes participava da brincadeira era o negrinho Jorge.

escondida por plantas. poeta. anos e anos depois. faziam também teatrinhos de sombra. Da janela dele. mora ali. Faria suas próprias peças. escoava o som de música clássica. nos anos 80. Oracy Dornelles. dois malditos que se reconhecem sem que seja necessário sequer falar sobre isso. mesmo sem nunca ter conversado com ele. são meados dos anos 50. às vezes. a cidade é Santiago. muito tempo depois. Por agora. Caio. Em carta escrita a Oracy. penso. não há asfalto nas ruas. as cabecinhas de papel machê. em companhia da mãe. porque tinha um telescópio para observar o céu. muito forte. Eles fabricam os bonequinhos. adaptaria textos de outros escritores. e tão secreta que. sentia com ele uma identificação. a não ser brincar. Oracy fez pinturas e esculturas em fios de . Além dos textos. Uma cumplicidade muda. Que seria?. praticamente. olha pela janela do quarto. 'Nunca nos falamos. sente o cheiro profundo de jasmins que vem do jardim lá fora — o cheiro era tão forte que às vezes a mãe sentia tonturas — e vê a casa da frente. em Porto Alegre. o fornecimento de luz elétrica é intermitente e não há qualquer preocupação na cabeça das crianças. Caio viria a escrever de verdade para o teatro. que depois se tornaria artista plástico famoso. e inventam historinhas para as peças. Era um som novo para Caio. Sem nunca ter trocado uma palavra com Oracy. Era um poeta. um coqueiro. "A carta foi incluída no livro O que importa em Oracy. Beethoven? Wagner? Caio dizia para Ruy que Oracy conversava com as estrelas. Froilan Oliveira e Júlio César Prates. Mas isso seria muito tempo depois. Uma casinha de madeira. nunca nos olhamos. Ficou só aquela vibração de silêncio. E assim Caio descobriu que os poetas existiam. De vez em quando. ele se perguntaria mais tarde. talvez você nunca tenha percebido. Não dava para imaginar que. Na minha memória — já tão congestionada — e no meu coração — tão cheio de marcas e poços — você ocupa um dos lugares mais bonitos. Numa cidadezinha perdida. organizado por Fátima Friedriczewski. chegaria mesmo a pisar no palco como ator. diziam. Caio se lembraria da afinidade que sentira pelo vizinho.Bianchetti.

as crianças se reúnem de novo para brincar. as medidas inventadas. Os dois estão convocados: é hora do desfile das misses. miss São Paulo. e acabava sempre conseguindo o que queria. Oracy foi um dos fundadores do Clube de Beethoven. No outro dia. desenhadas. às quatro da tarde. Quando as crianças eram mais novas. o mocinho começa a perseguir o bandido. Havia apenas uma sala de projeção na cidade.cabelo e grãos de areia. Ruy pinta as modelos e desenha os trajes típicos. e ficaria famoso pelo circo de pulgas que mantinha. Vão ao cinema. Anos mais tarde. as vinte e poucas bonequinhas vão surgindo no papel. Mesmo que não estivessem muito interessados. fazendo uma algazarra. os nomes. Enquanto Beco e Gringo jogam xadrez — Beco seria campeão amador da modalidade. Depois de meses de trabalho. ele esclareceria: era Beethoven o som que Caio ouvia pela janela. e os meninos esperavam ansiosos o dia de assistir aos "filmes de mocinho". que também estão com seus bonequinhos. Caio e Ruy chamam Gringo e Beco. Um divertimento que todos adoravam era ir ao cinema. e eles vão ser os jurados. Pega seu boneco do "mocinho" e se encontra com Caio e Gringo. as roupinhas. só podiam entrar no cinema na matinê de domingo. Em determinada hora. aos berros: . ou na sessão seguinte. Fã ardoroso do alemão. pequeninas. uma a uma. o Cinema Imperial. Que nem aquelas que vinham com as fotografias na revista O Cruzeiro. tudo. inventadas. E a senha para a comoção geral: o pessoal todo do cinema começa a bater os pés no chão. lado a lado. Começa o filme. com a diferença de que aquelas eram reais e essas. Caio e Ruy pegam cartolina e tinta nanquim. uma para cada estado do Brasil: miss Rio Grande do Sul. em que os membros se reuniam para ouvir concertos do compositor — nas noites de gala. quando crescesse —. vestidos a rigor. Caio desenha as misses de maio. afinal Caio tinha esse jeito de impor sua vontade na hora das brincadeiras. de tarde. Beco sai de casa. Depois que estão prontas. que está lotado. miss Minas Gerais.

De tanto irem ao cinema. Um dia. em homenagem à cidade. usando as iniciais dos nomes de artistas. Gringo e Beco também gritam e batem os pés. No verão. dos bons. Dessas praias. Doris Day e Diana Dors. AA era Antônio Aguilar. KK era Kay Kendall. principalmente. com exceção dos filmes censurados para menores. mocinho! Aí. O julgamento artístico dos meninos era bom. Marilyn Monroe e assim por diante. Os desenhos do Neltair. Quando Caio cresce e seu companheiro passa a ser Ruy. Havia uma praia muito bonita no distrito de Ernesto Alves. com os gladiadores greco-romanos. Por exemplo. MM. por acaso. BB era Brigitte Bardot. um nome que acharam no elenco de filmes mexicanos. mocinho! Caio. para anotar caso aparecesse um YY ou WW. O problema surgiu quando chegaram as letras YeW: onde encontrar um nome cujas iniciais fossem essas letras dobradas? A questão obrigava os meninos a levar caderno e lápis para o cinema.— Aí. Ruy e Caio desenhavam os cartazes e. cidade vizinha. Os dois passavam na calçada só para olhar os desenhos. assim como no concurso de misses. e se espantaram. e seria cartunista famoso. pois assistiam a muitos filmes épicos e bíblicos no cinema. porém. ao mesmo tempo em que sacodem no ar seus bonequinhos de mocinho. como concursos de desenhos para os cartazes dos filmes da semana. feita de lajes de pedra. CC. Caio e Ruy se consideravam os melhores desenhistas da turma. eles já podem ir ao cinema quase todos os dias. e também a praia de Jaguari. eram feitos com lascas de telha ou tijolo na calçada. viram os desenhos de outro menino. adotaria a alcunha de Santiago. Claudia Cardinale. Afinal. Caio e Ruy se impressionavam. perto de Santiago. Neltair cresceria. Era uma festa. Uma vez. primo de Caio. os jurados eram o Gringo. Caio pode ter tirado a descrição da . as famílias gostavam de acampar na beira dos rios. tiveram a idéia de fazer um alfabeto duplo. o Beco e a empregada da casa do Caio. como a maioria na cidade. DD. inventaram passatempos relacionados.

pulavam. alguém trouxe duas corujas. Eram nomes de criaturas estranhas. A brincadeira. O verde estava presente em muitas brincadeiras. era muito perigoso. os gibis. Calei a descoberta. morando nas metrópoles acinzentadas e sem verde. e a mãe. Era uma novidade. Certa vez. de amigos e parentes. até cair no chão. As praias e fazendas próximas. indecifráveis como elas. já perdidas no tempo. guardavam os brinquedos. pitangueiras. Apesar de divertido. onde havia todo tipo de árvore frutífera: bergamoteiras. um pouco inspirado no Clube do Bolinha e da Luluzinha. ou algum outro bicho. anos mais tarde. misteriosas até hoje. A idéia era que fosse um lugar só deles. Houve uma brincadeira. ali. Caio sentiria falta. os fantoches. que D. goiabeiras. como quando os garotos passavam o dia no enorme quintal da casa dos Abreu. foi inventada por Caio: bailu. Havia sempre um cachorrinho pela casa. forneciam um contato com a natureza de que. apropriando-me cada vez mais de sua natureza. Pulavam. ocultei o batizado. um acontecimento. embora inconscientemente soubesse da inutilidade de tudo. Rasputin e Cassandra. Os garotos subiam na cama. . como se sutilmente as fosse amoldando à minha maneira de desejá-las. Finalmente achei. Inventário do irremediável: Chamá-las de alguma coisa seria dar um passo no caminho de seu conhecimento. Caio escreveu sobre isso no conto Corujas. não permitiu mais que os garotos brincassem desse jeito. Nair proibiu os filhos de fazer. Podiam passar a tarde chupando bergamotas ou brincando na casinha que Caio improvisara com uns compensados de madeira da embalagem de uma geladeira que haviam comprado. Na casinha. assim como seu nome. que comandava a casa.praia do conto Uma praiazinha de areia bem clara. do livro Os dragões não conhecem o paraíso. no entanto. e começavam a pular. de modo a não enxergarem nada. jogavam cobertores sobre as cabeças. na beira da sanga. de seu primeiro livro de contos.

o chama de cagão. que ficavam em um plano inclinado. é o Capitão Pely. o tímido e retraído Caio aprenderia a lidar com essas situações e seria mais enfrentativo. debocha do menino. velados. Caio está no Círculo Militar. casado com a irmã do pai de Caio. se lembra do preconceito contra o menino Caio na escola. Tem quadra de tênis. preferia desenhar. exigindo. Afinal. E outro dia. aludindo à sua pretensa homossexualidade. de patinação. Chegaria mesmo a se envolver em brigas. o futuro escritor se senta no balanço. alguém fez em um jornal-mural uma caricatura do futuro escritor. Era a época dos comentários maldosos. Um dia. — Caio. colega de Caio na 4a série. implicando. talvez por ser cunhado de Zaél e se sentir na obrigação de despertar no aluno um comportamento viril. riem da cara do Caio. que também dá aula de Matemática. A maioria dos meninos sobe. O capitão vivia implicando com ele. não gostava de futebol. desde pequeno. escrever. Luiz Abreu. que conseguem subir. Sabendo que Caio. másculo. comprida e estreita. Os outros meninos. certa feita.Mas nem tudo era brincadeira. Está na aula de Educação Física. também chamado Caio. De vez em quando. não balança que eu caio! — berrava o Caio Abreu lá do alto. O professor. Outro menino. embora não fosse bom nos esportes. cada vez com mais força. O capitão insiste para com que Caio suba. A sociedade santiaguense da época não estava preparada. que viria a se tornar o cartunista Santiago. Sempre esse professor pegando no pé. Caio. Caio não. Ele tem medo. um clube da cidade. A subida era pelas laterais. O jeito de Caio sempre fora um pouco diferente. o Abreu. o outro menino começa a empurrar com força. passavam umas projeções de filmes. vem empurrar. balanços. O primo Neltair. o irmão de Santiago. Caio tem oito anos. que não consegue. Elza. era mais frágil. era competitivo: sempre . apavorado. e os meninos iam lá: Santiago. onde. Os alunos têm que subir em uma tábua suspensa. Anos depois. tinha traços ambíguos.

O grito de Caio. nem sentir seu cheiro. que cresceu saudável. mas tinham algum prestígio. Felipe não disse nada: simplesmente estendeu os braços e colocou as mãos em cima das costas do irmão. em 1961. Nair estava sempre cotada entre as dez mais . D. quando as irmãs caçulas Márcia e Cláudia já eram grandes. Quando Caio voltou com um copo de leite e um prato de bolachinhas. escondeu-se no vão da escada e esperou. Uma vez. desceu as escadas e foi até a cozinha pegar um copo de leite. A década de 50 está terminando. as peças que Felipe e Caio costumavam pregar um no outro continuaram. Por essa época. nada. Zaél era integrante da maçonaria. Em dado momento. como se fosse um fantasma ou aparição. mas o castigo não conseguia fazer com que o mais novo parasse. e D. na casa da família. em 1957. Caio adorava assustar as pessoas: talvez por tédio. Cláudia. Nair teve mais um filho. Era noite. quando ele estava em casa sempre pegava as pessoas de surpresa pelos corredores e arrancava gritos de todo mundo. Márcia nasce em 1960. Felipe pegava algumas e arremessava nele.representava o colégio nas disputas de conhecimento sobre Geografia e História. menos o Caio. Caio ficava furioso: mais alto. por falta do que fazer. Valia a pena apanhar um pouquinho para ver a cara do irmão furioso. porém. Não eram ricos. a família Abreu tem uma posição distinta na sociedade santiaguense. quase todo mundo dormia. Anos depois. nasceu Luiz Felipe. ele saiu do quarto. acordou todo mundo na casa. foram todos veranear na praia. alcançava Felipe e batia. Felipe. não podia nem vê-las. Luiz Felipe adorava provocar Caio. em Tramandaí. Esse. Cerca de dois anos após o nascimento de Gringo. E sapeca. ao mesmo tempo em que leite. que acordara com a movimentação do irmão. batia nele. que ficava acordado até tarde escrevendo. apavoradíssimo. Sabendo que o irmão mais velho odiava cebolas. copo e bolachinhas voavam para todos os lados. Mesmo com os garotos crescidos. morreu logo após o nascimento. mais velho.

Caio brigou com Gringo por ter exposto o nome da família daquela maneira. muito "adequados". "E evidente que a história cheia de clichês. fotonovelas e melodramas mambembes do Circo-Teatro Serelepe. a notoriedade de Zaél e Nair se estenderia a Caio. Como posso estar feliz? Não mereço o seu amor. donos de um suntuoso castelo na França: — Oh. Assim termina a história de Adriana e de seu envolvimento com os SaintMarie. Você me perdoa? Como resposta. George! — soluçou a moça. que foram assistir ao espetáculo de forma lícita. que demonstrara uma personalidade forte e independente desde os primeiros anos. inclusive de Caio e Beco.elegantes da cidade nos vários bailes e festas a que compareciam. enfureceu-se com o irmão Gringo por ter entrado sem pagar no circo que estava na cidade. o filho mais velho. As meninas faziam fila para ler. participou de um concurso literário na aula. Aos 13 anos de idade. mas talvez possa render algumas risadas". e o casal era muito respeitado. Caio encheu um caderno inteiro com o pequeno romance A maldição dos Saint-Marie. o rapaz abraçou-a e deu-lhe um leve . O meu coração estava cheio de ódio por Fernando. quando incluiu o texto na coletânea Ovelhas negras. aqueles mesmos em que Caio seria ironizado por colegas de outra turma. figura importante nos primeiros anos do escritor: além de organizar os concursos literários. A carreira de militar e a situação de professora conferiam certa diferenciação social na época. pois na sua ele e Ruy eram os responsáveis. Pela via da arte. escreve ele. pouco antes de morrer. em que os alunos liam textos e recitavam poemas. Para o concurso. Tanto ela quanto Zaél eram muito vaidosos. muito finos. A idéia do concurso era do professor Cavalcanti. Venceu. e criou os jornais-murais. influenciada por radionovelas. Essa posição da família era estimada por Caio: uma vez. eu só pensava em vingança. não presta. Gringo foi apanhado e expulso do lugar à vista de todos. como se lembraria o escritor anos mais tarde. o professor promovia aos sábados as Horas de Leitura.

Talvez agora eles possam ser felizes. A primeira delas foi Tânia. Depois dela. ele mandava as meninas comprarem balas . a mãe dele descobriu. o Caio enfrentativo e ousado da juventude. mas muitos: o Caio tímido da infância e da adolescência. filha de D. Lenita. a pérfida Amália não fará mal a mais ninguém. Caio se apaixonou por uma menina muito bonita que morava perto de sua casa. por exemplo. Lenita. a precursora dos salões de beleza em Santiago. Afinal. Por isso é que. com seus cabelos compridos. e sua amiga Nádia Ahmad se lembram de como gostavam de escorregar nas longas pernas do Caio quando ele ia visitar Iara. Beco se espantou: só naquele momento é que ele ficou sabendo que o amigo tinha uma queda pela garota. e Beco presenciou a cena em que ela passava a maior bronca no filho primogênito. era considerado avançado para a época. De alguma maneira. Incapaz de se condicionar a algum rótulo. Caio roubou uma prova de História e entregou para a garota. Para cada pessoa que o conheceu. Valéria Nicola. ele seria não um. Ela era aluna de D. agora transformada em ruínas. A aurora já põe os dedos cor-de-rosa no puro azul do firma-mento. Depois de um tempo. se espantam de que tenha tido namoradas. que morreu de leucemia aos 15 anos. Mais atrás vê-se a silhueta de dois jovens abraçados. O espanto acompanharia Caio pela vida afora. A irmã mais nova de Iara. Como prova de seu amor. Nair. começaram a aparecer as primeiras namoradinhas. Certa vez. quando já tinha sua homossexualidade estabelecida. Os meninos iam crescendo. às vezes oposto ao que outros se recordam. Caio. As duas estavam sempre por perto a pedido de D. o Caio mais sereno e maduro do fim da vida. Contra o horizonte destaca-se a outrora mansão dos Saint-Marie.beijo nos lábios. algumas das pessoas que conheceram o escritor mais tarde. que pedia que ficassem de olho no casal. um Caio diferente. parecendo uma promessa de esperança e fé no futuro. onde as senhoras iam fazer os penteados da época. foi a Iara Nicola.

O colégio era caro e bom. novos lugares.] Cada passo que ouvia no corredor pensava que era a senhora chegando. o filho queria. e que tem vontade de morrer. jamais leria os livros do conterrâneo. e até mesmo insistia. Afinal de contas. E se não forem. porém. Ele não se adapta.para namorar Iara. Caio tinha que seguir em frente. Como escreveria depois em Limite branco. onde não me tratassem com consideração apenas por eu ser "o filho de fulano" ou "o neto de beltrano". Com 15 anos. que acabaria por se casar com outro santiaguense. "[. Caio muda-se para Porto Alegre para estudar no Instituto Porto Alegre (IPA). com febre e sozinho. Caio fica doente e escreve uma carta medonha a seus pais. ferido.. Diz que esteve na enfermaria. bem longe daqui. pedindo para irem buscá-lo. Nair. que ele tivesse a melhor educação possível. Luiz Carlos Fava. não entende as matérias. Onde eu pudesse experimentar por mim mesmo as minhas asas para descobrir.. seu primeiro romance: Eu gostaria de ir embora para uma cidade qualquer. um oposto de Caio em todos os sentidos: esportista.. e D. mesmo que quebrassem no primeiro vôo. Nair concordava. não consegue arrumar amigos. másculo. mesmo que após um certo tempo eu voltasse derrotado. [. Embora a mensalidade pesasse no orçamento dos Abreu. humilhado — mesmo assim restaria o consolo de ter descoberto que valho o que sou. se elas são realmente fortes como imagino.] . e sabia que Santiago não poderia satisfazer seus anseios.. enfim. onde ninguém me conhecesse. No internato. Confesso que tive vontade (e tenho) de morrer. Ele queria conhecer novas coisas. cada riso de criança que vinha lá de fora eu julgava ser da Márcia ou da Cláudia. as coisas não começam bem para o primogênito de D.

No ano seguinte. os pais alarmaram-se e Zaél foi buscar o filho em Porto Alegre. que alugava quartos para estudantes. E também a sua personalidade... mãezinha. Gosto muito da senhora. que. sempre muito extrovertido.[. foi logo se apresentando. Maria. morava no mesmo prédio o escritor Manoelito de Ornellas. e ele acabou não voltando para Santiago. a teatralidade. Agora é que descobri o quanto gosto disso daí.. que era amigo da família de Ruy. Manoelito lhe deu muito apoio: apresentou outros escritores. o amigo Ruy. Ajude-me!" A carta dá a perceber uma faceta de Caio: o pendor para o dramático. Quando Zaél chegou. Finalmente. o exagero. no centro de Porto Alegre. Ruy passou a dividir o quarto com Caio. e Antônio com o Carlos Renato.A senhora vai dizer que isso é normal.. Logo Manoelito conheceu também Caio e leu seus contos. Foi por intermédio dele que Caio ingressaria no Jornalismo.] Pelo amor de Deus.[. de notórios altos e baixos.. não me deixe só! Responda logo. muda-se para a pensão de uma viúva. Caio vai para o Hotel Uruguay. era tortuoso e demorado vencer a distância de mais ou menos 500 km que separa Santiago da capital.. de carro. etc. Por coincidência. Caio já estava muito melhor. que começou a freqüentar o apartamento do escritor nessa época. mãe. Depois de morar no internato do IPA. ando sempre com olheiras e não como nada. A filha de Manoelito. Após receber a carta. eu não agüento mais! Veja se a senhora dá um jeito! Isso aqui é um verdadeiro inferno.. Acho que até emagreci. A crise depressiva tinha passado. [. e seu irmão Antônio também foram morar na pensão. Na época. irmão de Beco. Mas não é não! Os outros que chegaram junto comigo já estão adaptados. D. espírita. No ano seguinte à sua vinda. que o impressionaram muito.] Há várias noites que não durmo e tenho pesadelos horríveis. como Érico Veríssimo. enxergava uma aura azul ao redor do Caio.] Por favor. de Santiago.. Caio publica seu primeiro conto em .

depois com simpatia. Caio entra para o curso de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Teresa surpreendeu-se a olhá-lo com pena. nervosa. Afastaram-se logo. sempre quieto. que passara em Educação Física. depois. O conto. textos mais sombrios. Ele está muito mais para sapo que para príncipe.um veículo da grande circulação: O príncipe sapo. depressivos. única de uma longa fila de irmãs a não ter conseguido casar. Decide procurá-lo nos homens que passam nas ruas. Teresa se apaixona pela história do Príncipe Sapo. já é sintomático dos primeiros textos de Caio.. Uma semana mais tarde olharam-se nos olhos.. Ela e Caio se correspondiam há algum tempo e. de gente quase velha. Procurando consolo nos livros. O conto é sobre uma mulher. um professor de piano. tocando-se como que por acaso. as quatro mãos. Bem. humilde demais. psicóloga e editora da seção A arte de ser mulher da Claudia. mas ela tem esperanças: compra um piano e o convida para lhe dar aulas. quando ele enviou o conto para ver o que ela achava. revista que inaugurou um novo estilo entre as revistas femininas da época. Em 1967. A dele trêmula. Mas ao cair de uma tarde. quase sem ilusões. encabuladas. Caio acabaria por trancar a matrícula e freqüentar o curso de Arte . ambas. O homenzinho apagado demais. como consciente do desprezo que provocava. tristes. No começo tinha nojo dele. noutro dia suas mãos tocaram-se rápidas sobre o teclado. ela nada respondeu: preferiu manter segredo até que a revista saísse. A publicação foi uma surpresa de Carmen da Silva. Teresa. e por isso mesmo mais desprezível. No dia seguinte buscaram-se discretamente. Comemora o resultado na casa onde estava morando agora o amigo Ruy. a dela hesitante. na revista Claudia. depois com compreensão. Olhos fatigados. e acaba encontrando Francisco. nada feliz.

Caio era leitor voraz desde menino. que fosse só seu. uma feira a céu aberto realizada em uma praça no centro da cidade. sua melhor amiga é Maria Lídia Magliani. negra. o desejo de viver um grande amor. parecia já ter definido desde muito cedo o que queria. De vez em quando. aproveitavam para roubálos na Feira do Livro de Porto Alegre. a morte. Nessa época. e começava a descobrir autores que viriam a marcá-lo por toda a vida. andava com eles o futuro escritor João Gilberto Noll. a busca de uma identidade e o homoerotismo: vários temas que reapareceriam depois na obra do escritor são tratados no livro. Não porque quisessem ser diferentes. um romance de formação que só viria a ser publicado em 1971. Tanto que já tinha até escrito Limite branco. Sentavam-se em um banco da praça em frente à universidade e conversavam sobre filmes. o livro já continha muito do estilo que viria a caracterizar o escritor ao longo de sua carreira. Noll ainda não sabia se escreveria prosa ou poesia. discos. em sua forma mais perversa — o suicídio. a existência de Deus. e do qual Noll foi um dos primeiros leitores. ela baixinha. Era capaz de discutir literatura como gente grande. A confusão de livros e pessoas nas barracas facilita que espertinhos ou estudantes sem dinheiro embolsem exemplares sem que ninguém perceba. como Clarice Lispector. Ela e Caio formavam uma dupla e tanto: ele alto. Ambos vestidos de preto da cabeça aos pés. Nessa época. que estavam preocupados mesmo é em ser fiéis aos rumos que haviam escolhido. artista plástica. mas Caio. o adolescente em crise que protagoniza o texto. Embora tivesse apenas 18 anos quando escreveu Limite branco. O escritor explora sua própria angústia para dar densidade aos personagens. branquelo e magricela. A descoberta do sexo. havia uma dose de humor na postura existencialista dos dois. livros. Caio e Noll dividiam a paixão pelos livros: como não tinham dinheiro para comprá-los. volta e meia com tinta nos cabelos ou nas mãos. sob a ótica . principalmente a Maurício. embora ainda se preocupasse em descobrir um estilo pessoal.Dramática (CAD).

Assim como os livros de Clarice. As coisas brancas são sempre meio enxovalhadas. Por mais introspectivo que fosse. usar drogas. ao ir estudar no IPA.do adolescente. sentindo-se confusamente feliz. vinte e cinco anos depois. quando o fez. Ficava mais nítido o verde das janelas. Em plena ditadura militar. "o momento histórico em que se passa mal e mal aparece no livro: ele é intimista. estar juntos. Participa das discussões. Começou a caminhar em direção à mancha esbranquiçada do casarão. O jovem do livro se muda para a capital. voltado quase exclusivamente para dentro". como diz Caio. descobriu que aquela cor era quase a mesma das pétalas. Quando visita os pais em Santiago. as rosas pareciam palpitar com sua fartura. comentar autores proibidos pelo regime. comportamental e política. porque os dois se conheceram depois que o livro já estava pronto. repetiu a frase ao inverso: as coisas enxovalhadas são sempre meio brancas. que parece ter sido inspirada em Magliani. Marlene. definiam-se as roseiras em torno delas. como Nair perdera um dia. deixa o cabelo crescer. Ele afirma ainda que foi quase impossível reler o livro. E do céu. Ele tem uma amiga pintora. em prefácio para a uma reedição. enfim. De longe. Enquanto caminhava. A mãe de Maurício perde o bebê. discussões . simplesmente. porém. sua beleza quase obscena. mas que. A casa crescia à medida que se aproximava. alguns jovens se reuniam para discutir um futuro melhor. de Hilda Hilst. pensou. A história se passa em meio ao turbulento final dos anos 60. A época era de ebulição cultural. ficou chocado com a inocência do personagem. mas não podia ser. sua turgidez. Parou. de Virgínia Woolf. assim como Caio fez. A história de Maurício tem vários pontos em comum com a de Caio. há sempre pequenas polêmicas. Caio não poderia fugir da época. ouvir música. experimenta drogas.

Em pouco tempo. nessa hora. Estavam os dois no foyer quando um integrante do elenco passou e ofendeu Magliani. O filhinho de D. Luiz estava ensaiando uma peça no teatro da universidade quando chegam Caio e Magliani com o presente. Além da Magliani. com o grupo Província. talvez. Gerd Bornheim. Um desses jovens era Luiz Arthur Nunes. O tal rapaz. fez comentários racistas. para o curso de Direção Teatral do Centro de Arte Dramática (CAD). o livro Tutaméia. E é desses conflitos e angústias que Caio tira material para Limite branco. Tanto que acabaria entrando. embora os pais não o proibissem de fazer nada. talvez os pais sentissem saudade do tempo em que queria apenas brincar de fantoches com os amigos ou insistia em ser o Papai Noel no Natal. Magliani. de Guimarães Rosa. nos autores. que dava aula de inglês no Yázigi e tinha Caio como aluno. por trás das roupas vermelhas. a busca de uma identidade.políticas. que formariam em 1969. nas peças. muito magro e desajeitado. em agosto de 1967. a vivência de experiências como busca de um significado maior na vida. Luiz Arthur. como aliás todos já desconfiavam. mas que viriam a caracterizar o escritor ao longo de sua vida: o enfrentamento. Caio se aproximou bastante da turma do teatro da universidade. anos depois. era informante da ditadura. Ele entrara nesse universo através de Irene Brietzke. ainda incipientes. todo o elenco da peça e o diretor do curso de Arte Dramática. futuro diretor teatral e um dos grandes amigos de Caio. Ele e o restante do grupo introduziram o escritor no universo do palco. Irene o apresentara a toda a turma do teatro. um pessoal novo que seria importante para a renovação da arte no Rio Grande do Sul. Caio não pensou duas vezes e se jogou para cima dele. Nair estava crescendo e. E Caio foi o responsável pelas emoções no aniversário de Luiz Arthur. que era a amiga mais próxima. assim como para muitos de seus primeiros contos. Fizeram o . mesmo que todo mundo o reconhecesse. já se podia perceber alguns comportamentos. estava todo mundo na delegacia: Caio.

Era um texto sobre a recém-morta Marilyn Monroe. O escritor levantou-se. ela respondeu Depois da queda. de pé. discursando. ninguém ficou preso. entrevista individual. e aí então seriam definidos os nomes dos contratados.boletim de ocorrência. foi pego na rua e levou uma surra. quando a revista começou . que incluía testes de conhecimento geral. quando achou que já dava para voltar para casa. Quem passasse pela fase da entrevista conjunta iria a São Paulo fazer um curso. o jornalista perguntou a Caio sua opinião a respeito do grupo Abril. e que ele era contra a colonização cultural a que os Estados Unidos submetiam os outros países. depois de ambos passarem por todas as etapas. a revista Realidade. entrevista conjunta com os outros candidatos. Umas duas semanas depois. da editora Abril. de Arthur Miller. Irado. ex-vice-reitor da universidade. sem se preocupar se aquilo iria acabar com suas chances de trabalhar na Veja. Vera notou um certo ar de desdém em seu rosto. colérica. Em dado momento. fez um fervoroso discurso antiimperialista. Por medo de represálias. de conhecimento específico. publicou um anúncio convocando os interessados a fazer os testes para participar de uma revista nova. Caio foi passar uns tempos com Luiz Arthur na casa dos pais dele. Quando perguntaram a ela qual fora a peça mais recente a que tinha assistido. jornalista gaúcha. Em 1968. Caio participou do exaustivo processo de seleção. O jornalista que entrevistava o grupo vinha de São Paulo. e parecia achar que Porto Alegre era uma província. a Veja. mas. Vera nunca se esqueceu da figura magra. Chegou a chamar a editora de entreguista. graças a um tio influente de Luiz Arthur. conheceu Caio na entrevista conjunta. e. Vera Spolidoro. que começaria a circular no ano seguinte. e o entrevistador parecia não acreditar em uma peça que ainda não havia sido encenada em São Paulo tivesse sido montada em Porto Alegre. Embora não fosse formado em Jornalismo. Em 1967. falou que a Abril era ligada ao grupo TimeLife.

Demoraria muito para o jovem escritor entender a poesia concreta das esquinas de São Paulo. perdeu ainda mais peso.a funcionar e os profissionais que iriam trabalhar na revista já estavam definidos. Onde. que sempre fora muito magro. trabalhar o dia todo. fina. Trabalho de segunda a sexta. Era preciso trabalhar. E ainda por cima aquela voz. do contraste entre a vida interiorana em Santiago do Boqueirão e a vertigem causada pela velocidade da capital paulista. com gripe. asfalto por todos os lados. sem coragem de sair de casa. vertigem. de desamparo. as árvores? Onde. ídolo de Caio. das oito da manhã às seis da tarde. Ele. feia. de adolescente. desafinada. Caio estava entre eles. de 1982. Caio gramou durante os meses em que trabalhou na Veja. DOIS Grande demais. os amigos. não se adaptou de início à cidade grande. Nem mesmo o céu escapava do cinza. Sem costume de acordar cedo e batalhar de sol a sol. chegou a ficar doente. Um difícil começo. dava até pra ficar na dúvida: São Paulo tinha céu? E a velocidade de tudo. Anos mais tarde. Os parentes. e. os bichos? Tudo era cinza. longe. a quem ele dedicaria sua obra de maior sucesso — o livro Morangos mofados. não parecia agradável. irritado. Ficava nervoso. Era uma de suas fases depressivas: durante a vida toda. E o asfalto. fosse o que fosse. Alguma coisa aconteceu no coração de Caio Fernando Abreu quando ele se mudou para São Paulo. uma sensação de desprotegimento. como o fora também para Caetano Veloso. longe. O escritor. São Paulo era grande demais. A voz de criança. Caio diria que toda sua literatura seria fruto do choque. vindo dos rincões gaúchos para trabalhar na primeira equipe da revista Veja. o humor de Caio oscilaria entre picos de euforia e .

a voz de Caio era um tormento para ele. junto com outras preocupações típicas da adolescência. ele tinha vergonha de falar com as pessoas.fundos-do-poço de melancolias insuportáveis. distante. O tratamento. ninguém te quer. E. Ele costumava dizer sobre o choque que foi trabalhar como jornalista em São Paulo: — Me estupraram até o último hímen. Então caminhava quilômetros na beira do mar. pode ter inspirado alguns contos do escritor em que os personagens se sentem feios. havia a voz. . Esganiçada. Só tardezinha saía de casa. E há o garoto de Pequeno monstro. irascível. me rolava na areia. não se desenvolvera. A voz de Caio. Muita gente tinha receio dele. Com vinte anos de idade. que anseia poder olhar-se no espelho um dia sem ter vontade de desviar os olhos. A voz só fazia piorar a timidez do escritor. Consultara um médico. na hora que as empregadas domésticas — as dosas. de Limite branco. caríssimo. A timidez. inadequados. e aumentar seu isolamento e sua aversão às sociabilidades. que dissera que suas cordas vocais estavam viciadas no falar infantil. o Pai dizia — estavam voltando da praia. para piorar tudo. Há o personagem Maurício. pêlos nos lugares errados. mais a vergonha da voz. ele podia se recusar a ver qualquer pessoa ou mesmo a sair do quarto por dias seguidos. eu queria me esconder de todos. odiosa. aliadas a um certo senso de superioridade comum entre jovens intelectuais fazia de Caio uma figura não muito simpática. pequeno monstro. Caio não tinha condições de bancar. infantil. Nessas ocasiões. uma voz que desafinava igual de pato. pelo menos à primeira vista. até monstruosos. vezenquando chorava e repetia: pequeno monstro. em conseqüência. conto de Os dragões não conhecem o paraíso: Pernas e braços demais. como a magreza excessiva. nessa época: parecia arrogante.

Seria muito fácil. conto de Inventário do irremediável. e a censura aos organismos de mídia.Se internamente Caio tinha problemas. veio a repressão. lá. Muitos deles de forma simbólica. Vou deitar. Que estamos todos dentro dele. como metáfora e como objeto em si. Caio viria a escrever vários contos sobre o clima asfixiante instaurado pela ditadura. tudo sobre o qual não se tem controle. no exterior as coisas não estavam melhores. nós vamos ser todos esmagados por ele. cifrada. mesmo. Quase como um suspiro de gente cansada. Tão perto que ninguém vai-me ouvir se eu gritar. Depois da descoberta do que o aprisiona. a ter o objeto no título: O ovo apunhalado. cansei de escrever. com o decreto do Ato Institucional n°5 (AI-5). Estou esperando. não há como escapar: Eu não sei. representa tudo que aprisiona. leve. como em O ovo. metafórica. a vela está quase apagando. em 1964. Estou ouvindo o rumor do ovo se aproximando cada vez mais. Está muito perto. Tenho tanto medo. A paixão pela figura do ovo. Caio herdou de Clarice Lispector. . Não sei por que os homens não se armam de paus e pedras para furar a parede. a casca de um ovo é tão frágil. Com eles. Um de seus livros chegaria. Só ontem cheguei à conclusão de que se trata de um enorme ovo. que aumentou em 1968. Mas é um ovo que diminui cada vez mais. os militares haviam instaurado a ditadura no país. a rigidez e o sufocamento agravados quando não se pode sequer mencionar o assunto. O ovo. Cinco anos antes. É um barulho leve. cada vez mais.

Novato em São Paulo. sítio da amiga Hilda Hilst. contudo. sumir por uns tempos. levantar bandeiras de qualquer tipo ou causa. belíssimas. mas sempre sem se comprometer demais. foi símbolo das mudanças culturais por que o Brasil passava na década de 60. sua influência era muito mais dos tropicalistas. — Para ver Norma Bengell vestida de Paço Rabanne — diria anos mais tarde. morando em Porto Alegre sem os pais. e fez parte da turma que achava que "festa" e "subversão" podiam estar ligadas. Ele ia mais aos encontros contra a ditadura pela festa que se fazia. Até porque. pela oportunidade de ver pessoas. e foi se esconder na Casa do Sol. Zaél — se encaixava perfeitamente com a proposta dos tropicalistas. cursando o ginásio. Com Caio não foi diferente: ele afirmou ter recebido um telefonema da redação da Veja. Em tempos de AI-5. então. como Gil e Caetano — que ele sempre fez questão de afirmar que adorava — que de qualquer outro movimento cultural esquerdista do país. . em Campinas. Caio ainda era um adolescente. dizendo que oficiais da DOPS estavam procurando por ele. Sua tomada de consciência se dá em um período em que já existia o Tropicalismo. de comportamento. e que a revolução era individual. na época da poesia populista. Essa forma mais leve combinava com seu temperamento: Caio nunca foi muito de assumir compromissos. de se engajar. engajada. mesmo participações ocasionais eram suficientes para que o serviço de segurança do regime marcasse e perseguisse uma pessoa. sem levar o credo político às últimas conseqüências. Ele preferia a maneira irônica. ambígua e debochada de protestar. Além disso. o notório senso de humor — herdado do pai. Politicamente. Caio chegou a freqüentar passeatas e reuniões de oposição à ditadura. e aquilo já não era pouco: Bengell foi uma atriz de intermináveis pernas. pela celebração. Decidiu. que surge no mesmo ano em que ingressa na universidade.

Quando souberam disso. Ana perguntou a Léo o que achava de Hilda. Caio. Teria ido para a casa de Hilda por não ter conseguido emprego. Nello e Léo ficaram entusiasmados: pediram a Ana que os apresentasse. iam a teatro. onde a escritora morava. inclusive ele mesmo. de livros. os anunciantes não querem saber de comprar espaço. dramaturga e jornalista. em 2005. e de fotografias de escritores espalhadas pelas paredes. e ela acabou levando todo mundo para conhecer a Casa do Sol. a onze quilômetros de Campinas. Hilda. Ao ler Carta a El Greco. Caio conhecera Hilda por intermédio de Ana Lúcia Vasconcelos. enviada da outra casa de Hilda Hilst.Em carta aos pais. de Nikos Kazantzakis. decidiu abandonar a agitada capital paulista e se isolar no interior para escrever. e as duas tinham se tornado muito amigas (décadas depois. tinha abandonado uma movimentada vida social para ir morar na fazenda que pertencera à sua mãe. ele conta história diferente. Ana Lúcia e Nello Pedra Gândara eram os grandes amigos de Caio na redação. sua colega na primeira equipe da Veja. Para a editora inteira não fechar. que namorara Vinicius de Moraes e fora cortejada por Carlos Drummond de Andrade. muitos livros. Hilda. Na Fazenda São José. Ana escreveria um livro sobre ela). ficaria hospedado na casa de Ana. Uma vez foram juntos a uma palestra de Léo Gilson Ribeiro sobre crítica literária. Diz que Veja está dando prejuízos enormes. que teria perambulado quase um mês pela cidade atrás de oportunidades sem conseguir nada. teria sido necessário demitir bastante gente. Nas primeiras. com o objetivo único de construir uma obra literária. em 2004. A revista vende pouco. uma das mulheres mais bonitas de seu tempo. shows. Hilda construiria a Casa do Sol. onde viveria até a morte. Ela nascera em Campinas. mas com o tempo ganhou intimidade e ia direto para a Casa do Sol. Aos 33 anos de idade. que defende a idéia de que para entender a sociedade é preciso afastar-se dela. Caio voltaria muitas e muitas vezes. na companhia de seus noventa cachorros. atriz. março de 1969. cinema. .

em Santiago. A coisa chegou a um ponto. entusiasmado por ser hóspede daquela que ele considera uma das grandes escritoras do país e. Tinha já alguns contos escritos: faltava agora organizá-los. exatamente por isso. na época a escritora favorita de Caio. às vezes. para ser. só lia os livros dela escondido de si mesmo. Queria aprender com Hilda tudo que pudesse. durante a pequena temporada que passou na Casa do Sol. Dali sairia com um livro praticamente pronto: o Inventário do irremediável. muito amedrontado também. quase sempre. que ficavam. revisá-los. . irremediavelmente influenciado por Clarice Lispector. E. fazer daquela massa informe uma obra coerente. inquietos. Algumas das árvores que circundam a Casa do Sol têm mais de cem anos: figueiras. em 1966. seus semblantes estão agitados. a sensação era de que tudo já estava escrito. de vez em quando. em sua maioria. quando ele vai para a Casa do Sol. Na Casa do Sol. do conhecimento e do talento dela. Hilda passou a viver. E foi isso que fez. Inseguro. calado. O Caio que entra na propriedade — imponente e tranqüila como a casa grande e antiga em que morou um dia. por imposição da mãe dela. dracenas. por temporadas inteiras. Hilda e Dante já estão oficialmente casados. republicado depois como Inventário do irremediável. naquela região do interior paulista. que ele teve que se proibir de ler Clarice. quase uma obsessão. que ajuda a amenizar o calor que faz. No alto. Ali o casal recebia os amigos. palmeiras. Vira-latas. pois. suas copas entrelaçadas fazem uma sombra boa. queria sugar dela. por quem sempre foi obcecada. o calor os deixa assim. como dizia. tudo que pudesse. Deprimia-se. na verdade. desanimava. Bedecilda. a centenas de quilômetros dali — é um rapaz tímido. O silêncio pesado é quebrado somente pelo latido das dezenas de cães que moram no sítio. como Caio. lendo-a.além das fotos do pai. ele também. Em 1968. um bom escritor. e nada mais havia por fazer na literatura. com o escultor Dante Casarini.

maravilhado. Procurava. em parte. é claro. estudavam juntos o movimento dos astros. Tanto que. Caio. ele datilografava. além das aparências. quiromancia. era a dos metâmeros. O escritor discorria sobre o assunto sempre que encontrava interlocutores. sempre. nos anos 70.Enquanto inventariava seus contos irremediáveis. fosse na temática. que. flertava com as várias filosofias. jamais se esqueceu da teoria. por exemplo. que dizia ter visto anjos. o que fosse. Circulava pelas várias crenças. inovar: fosse na estrutura. ritmo. Caio funcionava também como uma espécie de secretário de Hilda: ela escrevia. fundamental. coisas do tipo. paciência ou vontade para tanto. fosse na forma. reescritos. como se nota em seus textos. não tinha responsabilidade. Caio a explicaria ao escritor Júlio César Monteiro Martins. Caio era capaz de discutir problemas de texto por horas a fio. Teorizava bastante a respeito dos assuntos. Uma de suas teorias. Gostava de trabalhar a língua. sobre o processo de criar. O termo vem da biologia: . como muita gente que viveu o sonho hippie. também. disciplina. Numa viagem ao sítio de Hilda. com menos de 20 anos de idade. Não se comprometia. lapidados. ter escrito e publicado ainda jovem. Nessa relação com o divino. sua precocidade na literatura. ajudou Caio a olhar o mundo buscando sempre algo mais. conversado com os mortos e recebido em seu sítio a visita de discos voadores. revisou e reescreveu a maior parte de sua obra. tudo que dizia respeito ao texto literário. No resto do tempo. candomblé. estudava com afinco algumas delas e inclusive as utilizava na arquitetura de seus textos. ela diria. a literatura de Hilda foi sempre uma busca do inefável. com nenhum desses credos. era um rapaz espiritualizado: acreditava em astrologia. Ela. até hoje dá entrevistas explicando do que se trata. O inefável. Não era só o divino que Caio discutia com Hilda. sempre burilados. de minúcias como pontuação ao uso de certas palavras. De Deus. / Ching. e isso explica. a influência de Hilda foi. nos anos 80 e 90. Falavam muito sobre literatura.

onde nem mora mais. estilo. sem perceber claro o que sinto. se uma pessoa come carne contaminada com um cisticercó. como um túnel redondo. contemplar a sacada daquele décimo andar onde costumávamos nos debruçar abraçados para olhar aquela rua lá embaixo sendo aos poucos coberta pelas sombras da tarde furando a copatúnel das árvores. espio sempre a outra rua por trás da igreja. penso se não deveria retomá-la — essa rua. ele virá a se multiplicar e formar um animal completo. E mesmo sem querer. se quisesse. um desses anéis. anotações soltas sobre ambiente. irregular. ampliá-lo. . trama. que é o que Caio viria a fazer em Ovelhas negras. e o escritor poderia retomá-lo um dia e. a pensar coisas que nem lembro mais. Ou então. Ele seleciona dois esboços que lhe parecem melhores e introduz sua teoria aos leitores. As sombras. essa caminhada. numa tarde como a de ontem ou outras iguais destes tantos meses passados. O texto permaneceria em estado de latência literária. O primeiro deles se chama A perda e foi escrito em 1985: Quando passo às vezes por aquela esquina.metâmero é um anel da solitária. ou tênia. de um conto ou de um romance. Esse anel contém informações sobre o verme inteiro. formar um conto completo ou um romance. enfim. lembro daquela tarde em que fui visitá-lo pela última vez. uma espécie de verme. mas sem ele agora — uma tarde. que continha informações a respeito dos personagens. noite ou manhã quaisquer para refazer o percurso inverso até a casa dele. As sombras que crescem devagar sobre o asfalto quente do verão passado. simplesmente. Quando passo por lá assim rapidamente. publicar uma coletânea desses metâmeros. metâmero era um esboço. E parado naquela esquina feito espião. depois voltei caminhando pela rua cheia de árvores tão altas que suas copas se encontram e se misturam no alto. Na literatura.

afinal.Depois de passar algum tempo no sítio de Hilda. um OVNI. a idéia de voltar para a faculdade. Não há. a faculdade de Filosofia. não conseguira emprego em outros lugares. sem porralouquismos também. o verde das árvores. O quarto de Caio é cor-de-rosa. Conversou com Hilda. ela concordou que o melhor seria voltar para a casa dos pais. que por enquanto ainda não estava bem das pernas. mentora literária e espiritual. Ele amou Porto Alegre em tudo que ela era diferente de São Paulo: sem asfalto. sequer. segundo refúgio da escritora. sem loucuras. então. os irmãos pequenos vêem televisão na sala. A família de Caio estava morando em Porto Alegre desde 1969. Ela mesma cursaria. a faculdade de Letras esperando por ele. Para Caio. a volta para casa e a intenção de retornar à universidade. voltar a Porto Alegre foi uma beleza: o céu azul. discutido muita literatura e organizado o material de seu primeiro livro de contos. escreveu aos pais comunicando a saída da Abril. para que os outros filhos também pudessem estudar com facilidade. mas os argumentos da esposa foram mais fortes. nem sair de casa para comer. De lá. Decisão tomada. era a Casa da Lua. sóbrios. Caio mantém sua decisão de escrever enquanto está na casa dos pais. o pai lê romances de Norman Mailer. Caio acompanhou Hilda e Dante à praia. porém. quando estivesse de diploma na mão. ele poderia voltar e tentar viver em São Paulo de novo. e havia. Caio achou que era hora de voltar a Porto Alegre. E o melhor: não ter que levantar cedo para trabalhar. em Massaguaçu. de lá ter visto. o sotaque familiar: o "tu". quando Nair insistiu em ir. A mãe faz pós-graduação em Filosofia. . por carta. onde era alguém de posição. já militar reformado. que ele só abandonara pela perspectiva de integrar a primeira equipe de jornalistas de uma nova revista. calmas. o ambiente convida a escrever — ele conta. Era uma opção. Não trabalhava mais na Abril. a Hilda. Zaél. sua principal interlocutora. discos voadores. os morros. supostamente. os móveis são convencionais. teria preferido ficar em Santiago. As pessoas doces.

verdes árvores e céus azuis inigualáveis. O apartamento de Maria Helena fica em Ipanema. falando de personagens mineiros. E. no Brasil de 1969. da degradação de suas tradições.morre nas dificuldades burocráticas que há para reabrir a matrícula. ele era só um rapaz vindo do Boqueirão. Caio aceitou o convite de Maria Helena. o Dostoiévski mineiro. apenas quatro meses depois de ter voltado para a casa dos pais. cheia de cores. de modo algum. verdadeiramente. com problemas de relacionamento com os colegas . onde as coisas aconteciam. Nélida Piñon. fora um escritor que se rebelara contra a tradição do romance regionalista. irmã do já então falecido escritor Lúcio Cardoso. Há pouco tempo. sim. Quando vê o quarto onde ficará hospedado. Caio se comove: é o quarto que fora de Lúcio Cardoso. E também. Mas isso não era. na inabilidade do escritor em se adaptar a um currículo. o Rio de Janeiro era um lugar onde as coisas aconteciam. introspectiva. Como ele foi parar ali? — se pergunta. mas não de sua glória. No auge desse estilo de texto. a oportunidade era muito boa para ser desperdiçada. ele escrevera de forma intimista. principalmente. uma afeição por ela. como alguns críticos o chamam. e sim da sua degradação. a horários fixos: ele não consegue parar quieto. Havia sido convidado algumas vezes por Maria Helena Cardoso. suficiente. nem os amigos. Assim. a língua ferina de Caio não poupava ninguém. Lá estavam os escritores que Caio queria conhecer: Clarice Lispector. Caio faz uma visita à cidade sempre maravilhosa. ou a admirasse como escritora. mesmo achando-a um pouco "fora da realidade" e "liriguelha demais". A capital gaúcha podia ser bonita o quanto quisesse. Além do que. com cuja obra a de Caio tinha alguns pontos de ligação — Lúcio. Walmir Ayala. da mesma linhagem literária de Virginia Woolf e Clarice. principalmente em Porto Alegre. Caio queria estar no olho do furacão. Maria Alice Barroso. e o fato de ele achar uma tolice as cartas em que Maria Helena falava dos "passarinhos que cantam nos galhos das árvores" e das "sombras de outono" não significa que ele não nutrisse.

Há também Carmen da Silva. belíssima. Acho graça. autor de Crônica da casa assassinada. não aceita ser chamada de uma das melhores escritoras do país — ao lado de Ia Lispector. acho muita graça.e que crescera rápido demais. querem pintar retratos. teatros. uma flor de pessoa. dos medos. prometem arranjar editoras que publiquem seus livros. E ela não é a única a tratá-lo bem: há Francisco Bittencourt. na revista Claudia. "As vezes que tentei morrer foi por não suportar a maravilha de estar vivo e de ter escolhido ser eu mesmo e fazer aquilo que gosto — mesmo que muitos não compreendam ou não aceitem. me acham parecido com Cristo. orgulhoso. . Caio viaja novamente para Campinas. sendo tratado a pão-de-ló por uma velhinha pequenina e ágil que. das quedas. e além disso é um dos críticos de literatura mais respeitados do Rio e conhece todo mundo. modesta. que eu era tímido e agressivo. junto com Hilda e Dante. muita gente ao seu redor. "E as pessoas que passam por mim não saberão jamais que nasci em Santiago do Boqueirão e um dia fui estudar em Porto Alegre. a noite o espera: bares. ele é inteligente. Toda essa celebração em torno de Caio o deixa feliz. enquanto Maria Helena assiste a uma novela na sala. cinemas. Francisco e Carmen mostram os contos de Caio para outras pessoas. estão entusiasmados com 0 trabalho dele. em alguns minutos. porque me achava horroroso com aquele bigodinho precoce (hoje. dizem que tenho olhos lindos!). primo do pai de Caio. "— escreve aos pais. " Cerca de um mês depois de sua chegada ao Rio. em uma cidade verdadeiramente esplendorosa. e ninguém suspeitar dos traumas. quando ele tinha 16 anos. sério. o Boroca. Caio vai sair. Tão estranho carregar uma vida inteira no corpo. povoada por pessoas bondosas e simpáticas. dos choros. no dia 21 de agosto. ele estava no quarto de um dos maiores escritores brasileiros. O príncipe sapo. Agora. a editora que publicara o primeiro conto de Caio.

Caio não chegou a ficar tanto tempo lá. sua hora chegou. muito cheia de personalidade. e com ele pôs-se a fazer exercícios e a gravar a voz. Caio e Hilda contariam a história da figueira para explicar a mudança da voz. O ator Gilberto Gawronski. Além disso. exigente. que conheceria Caio na década de 1980. pensando em melhorar pouco a pouco. como as outras. Na verdade. Havia uma figueira no terreno da chácara. Caio mencionaria sua amizade com Hilda. duravam um ou dois meses. Ao longo de sua vida. precisa ficar de pé para ouvir você ou posso ficar sentado mesmo? Ao longo dos anos. brincaria com a situação: — Meu Deus. no final de outubro de 1969. assim como teimara até ali em ser uma voz normal. finalmente. e passaria a se assumir como adulto. A história começou quando ele ganhou um gravador de Hilda e Dante. de viagens. vindo não se sabe de que parte do corpo magricela do escritor. melhorado. ao encenar uma de suas peças. E então ele ia embora. ele deixaria de ser o jovem tímido. resolvera mudar de repente. A voz nova de Caio era grave. Só que a voz. marcante e inexplicável. A voz de Caio. e em seguida Caio seguia de volta para Porto Alegre. O momento era de inquietude. envergonhado de falar com os outros. uma notícia maravilhosa. A partir dali. sairia aquele vozeirão. ou para o Rio. do nada. a admiração por Hilda beirava a reverência. com maiúsculas. aconteceu uma coisa misteriosa e impressionante. A partir daquele momento. de descobertas. Suas temporadas em Campinas eram intermitentes. porém. bonita. ou para onde fosse. Mas ele ainda estava na Casa do Sol quando. Chegava sempre o momento em que a escritora tinha que chegar para ele e dizer: Caio. . dizendo que chegara a morar um ano em sua casa. sua amizade. tinha outros desígnios. a presença de Caio na casa era muito intensa. charmosa. uma Boa Notícia. e mudara não para ser uma voz comum. tinha.que tinham ido passar uma temporada na capital fluminense. Hilda teria dito ao escritor: "Cainho. embora visitasse bastante a Casa do Sol. sempre que ele abrisse a boca.

que a voz não mudou de repente coisa nenhuma. Então ele teria abraçado a figueira e pedido para a voz mudar. a voz teria mudado. os empregos formais não apareciam. mudou aos poucos. O escritor José Mora Fuentes. e lá soube que ganhara o Prêmio Fernando Chinaglia por Inventário do irremediável. conseguir ir logo para a Europa. Mas a versão mais próxima da realidade é também de Caio. decidido a se estabelecer por lá. Em um texto. Há outras versões: a de que ele teria feito três pedidos à figueira: para que a voz melhorasse. até os vinte anos. então ele teria sentido que podia fazer três pedidos que eles se realizariam. belíssima. como o irmão do escritor. mas para Caio deixar de ser tímido. e para ganhar um concurso literário de que estava participando. teria pegado um livro de Fernando Pessoa e começado a ler em voz alta. o que importa é que. aos vinte e um. Felipe Abreu. Tanto ela quanto Caio diriam que o terceiro pedido era. trabalhando com artesanato. em vez de voltar ao Rio. esganiçada. onde estava decidido a morar. já de voz nova e sensual. De todas as versões. Os três pedidos acabariam realizados: Caio voltou para o Rio. Caio voltou ao Rio. a voz mudou. Caio teria se sentado na área da casa e olhado a Lua. ela se tornou grave e lânguida e bela. porém. e ela resolve". e considerava a hipótese de ficar por ali. obra a que dera forma final ali mesmo. fez amizade. em carta aos pais logo que a mudança se opera. amigo de Hilda que até hoje vive na Casa do Sol. fala com ela.essa figueira é mágica. Quando a gente tem um problema muito grave. Hilda afirma que o pedido não era para a mudança de voz. Três dias depois. Era uma noite de lua cheia. Há até quem diga. De volta ao quarto. na Casa do Sol. Em dezembro. Os outros pedidos — tanto o prêmio literário quanto a viagem ao Rio — também logo se realizaram. estava lá. para voltar logo ao Rio. mas Caio preferia acreditar na versão romântica e mágica da figueira. Caio teve uma voz infantil. conheceu alguns hippies em uma praça de Ipanema. ele estava de volta a Porto . no terceiro verso.

agora. anos depois. até segunda ordem". Caio participou como ator de algumas peças. Mas estamos em 1970. e sabe-se lá o que este aprontara para causar tamanha reação. e o assunto da briga foi deixado de lado. somada à que lhe era própria e mais uma espécie de certeza de que não havia nada de errado em sua condição. o papel era de Batman. dizendo que era péssimo. de inventar e encenar historinhas com seus bonequinhos de papel machê. pairava. Não chegou a terminar o curso. mas ele mesmo costumava brincar. estavam Serafim fim fim. Descobriu. Ali. A coisa foi feia: as palavras "veado" e "doente" foram das mais leves que o escultor usou para caracterizar Caio no meio do entrevero. assim como não concluíra o de Letras. vestira-se de mulher. por exemplo. claro. Caio ainda acredita que pode . Logo depois. sobre o moralismo e a decadência da sociedade. quando. Caio gostava de teatro. Só queria saber de tragédias gregas e de Nelson Rodrigues. ele chegou mesmo a visitar Caio e sua família em Porto Alegre. ele se sentia acima dos preconceitos burgueses. Isso mudaria alguns anos depois. no Centro de Artes Dramáticas (CAD). Mas se divertiu aprendendo algumas coisas. Entre algumas das que participou no período.Alegre. E por aí afora. The black grove e The last moment. escreveria a Hilda. o resto achava descartável. não se abalou demais: com a arrogância própria da idade. "Decidi aceitar meu ser nômade. ele podia desenvolver mais seriamente essa paixão. em The black grove. A carta não era das mais fáceis de escrever: era a primeira depois de uma briga que tivera na fazenda com Dante. Alguns amigos leais dizem que Caio era bom ator. Desde criança. superior. Caio. no entanto. Caio passaria todo o ano de 1970 na capital gaúcha. Em Serafim. que nada tinham de trágicas ou de rodrigueanas. quando sua participação no teatro se restringia a escrever as peças. a amizade com Dante foi retomada. tamanha agressividade. já na década de 80. em 1973. depois de rodar o país e parar de novo em Porto Alegre. prestou exames para o curso de Direção Teatral. que era exigente demais com os textos a serem encenados.

a morte é quase uma libertação. Mas embora Inventário do irremediável tenha sido o primeiro livro do escritor a ser publicado. como no conto que abre o livro. no fim da noite. O livro é dividido em quatro partes. em 1968. Nesse conto.completar o curso de Direção Teatral e mora com os pais em Porto Alegre. Em alguns contos do Inventário. Assim como ela. A única área em que as coisas iam bem era a profissional: Inventário do irremediável foi lançado com estardalhaço. embora tivesse ganhado. em carta a Hilda Hilst: "Queria tanto que alguém me amasse por alguma coisa que eu escrevi. e a descoberta que os cavalos representam pode ser lida como qualquer descoberta. Caio manifesta sua carência. Caio trabalha muitas vezes com o conceito de epifania: uma revelação mágica no meio do cotidiano. as bacanais faziam Caio se sentir um lixo." A publicação do primeiro livro. e reafirma sua determinação de ser escritor. essas revelações acabam por trazer a morte dos protagonistas. orgiásticas. é no Inventário que a influência de Clarice Lispector se mostra maior e mais clara. Nesse momento. era um passo no sentido de Caio se firmar como escritor. regadas a maconha e drogas mais pesadas. Os cavalos brancos de Napoleão. em vez de deixarem o escritor feliz. A história da mescalina foi descoberta pelos pais. o que causou o maior rebuliço. que ficaria para sempre inédito. inclusive a do homossexualismo. e um escritor amado pela literatura que fazia. foram muitos os convites para entrevistas. E houve também um livro de contos chamado Três tempos mortos. ou quatro . badalada ou não. repense sua vida. Mas essas experiências. não fora o primeiro a ser escrito: limite branco veio antes. Menção Honrosa no Prêmio José Lins do Rego. Como o escritor ainda tateasse seus próprios caminhos. algo que faz com que a pessoa mude. começou a participar de festas malucas. deprimiam-no ainda mais. desbundou por completo: experimentou mescalina.

costas curvas. Não chora sequer. com a novela Lázaro dedicada a ele. O final do conto. Há também um quinto inventário. o cigarro esquecido queima. e a sua personalidade. de mãos. Junto com a carta. estranha.inventários: da morte. sobre sua relação com os amigos. porém. enlaçam os joelhos. aconteceu algo que o faria retomar a carta e escrever mais um pouco. palavras não formuladas. e. bem. Deu certo: depois de refletir muito sobre a vida. E não corta. A lâmina vibra entre os dedos. Moderna. Caio conheceu Clarice Lispector. Como um cego. ele chegou em casa e encontrou uma carta de Hilda. Está sentado na cama. Joga a lâmina pela janela. voltou recuperado. No cinzeiro. mais uma vez. cheio de carências e inseguranças. um exemplar de Fluxo-floema. é marcada por sensações. composto de um único conto: o Inventário do irremediável. Por continuar. da solidão. misteriosa. Só espera. Escreveu uma exultante e empolgada carta a Hilda. adensando o ar que se enche de olhos. Caio não cabia em si de tanta satisfação e orgulho. de gestos incompletos. temas recorrentes na obra do escritor. Sem compreender. Personalidade magnética. Perto do coração selvagem. a soprar a favor de Caio. Ele passara um ano ruim. Na mesma noite. a maré começa. A atenção fixa em si mesma. E a última frase define. Clarice fascinara leitores e críticos desde o primeiro livro. como que para coroar esse novo estado de espírito. o texto de Caio. a cabeça afunda entre as pernas. Sua literatura diferente. como se chorasse. Um fino fio de fumaça sobe aos poucos indeciso. Para espantar a tristeza. pés descalços. Os braços se cruzam. do amor e do espanto. traz uma esperança: a escolha pela vida. vendo apenas para dentro. vaga entre a fumaça e tomba. e do livro. No fim do ano. a ação ocorre sempre na cabeça dos personagens. vai-se curvando para si mesmo. corpo nu. Dobra os ombros. revolucionou a linguagem. de bem consigo mesmo. Nenhum pensamento. Quando o jornalista . resolveu ir para a praia com alguns amigos. vozes veladas. que há muito não lhe escrevia.

diz que acha ele muito bonito. quase diabólicos. ele tinha na bolsa. Engole o jantar que lhe oferecem e sai chispando feito um foguete para a televisão. com um clima de tristeza e santidade ao mesmo tempo. E a gente sente que ela não espera mais nada de nada nem de ninguém. absolutamente incrível. conversam um pouco. Otto pediu a ele que tomasse cuidado com Clarice. "Ela é exatamente como os seus livros: transmite uma sensação estranha. Falam de Nélida Piñon. um escritor que estava por ali decidiu apresentá-lo direito.José Castello perguntou a Otto Lara Resende sobre ela. de Hilda. que está sozinha e numa altura tal que ninguém jamais conseguiria alcançála.[. porém. Tem olhos hipnóticos. Era ela. "Tive 33 orgasmos consecutivos. Ele fica. Pega o jornal para dar uma olhada. "Não se trata de literatura. antes que vá muito longe." . entregou um exemplar de seu livro recém-publicado para ela.] Sinto que as coisas vão mudar radicalmente para mim — teu livro e Clarice Lispector num mesmo dia são. Caio fica nervoso. lógico. Vi uma mulher linda e estranhíssima num canto. Quando ia saindo. Caio aproveita o interesse dela e lhe entrega um exemplar sobres-salente do Fluxo-floema que. fora de dúvida. falou." Conversam mais. Caio vai embora meio aparvalhado e. à noite. nesse estado de êxtase e perturbação. parecido com Cristo. e lê que Clarice Lispector herselfestaria autografando seus livros em uma estação de TV. sai para o corredor. Clarice chega até a porta e chama: — Fica comigo. Ela lhe dá seu telefone. escreve a Hilda contando o episódio. por acaso. "Cheguei lá timidíssimo. Ê lenta e quase não fala. pede para ligar quando for ao Rio... de uma sabedoria e de uma amargura impressionantes. " Caio chegou perto. Caio termina de escrever para Hilda. um presságio. mas de bruxaria". toda de preto. De repente ela pára.

cabelos longos e túnicas indianas compridas. Com três garotas e um rapaz. Caio aprecia autores como Ernesto Sábato. Totalmente imerso na cultura hippie. Em 1971. é claro — e que certas coisas funcionam melhor na teoria. e muito do material publicado. mescalina ou chá de cogumelos —. em comunidade. O ano novo chegava. às vezes. ele é preso. Flagrante falso de maconha. ele decide tentar um modo de vida diferente. tudo vai bem: Caio está feliz à beca com os novos textos que anda produzindo. que na prática. na utopia. que morar em comuna é a melhor maneira de se viver. Quanto ao seu trabalho. Ricardo Piglia. a ditadura está em sua fase mais dura. só sai sob censura. "Acho que finalmente achei a minha forma". escreve textos fundindo o fantástico. utilizando ao máximo as visões que tem em suas viagens — de LSD. que o ser humano é egoísta — ele incluso. e falando bem o espanhol. Apanha da polícia e .Era o dia 29 de dezembro de 1970. "Não sei se isso é auto-elogio. Carlos Fuentes. A estada no Rio é o começo do fim do sonho da contracultura para Caio. mas acho que sou o único cara no Brasil que está fazendo literatura pop MESMO'. Ele acredita que tudo pode dar certo. E. A vida na comunidade não dá certo: ele e seus amigos se desentendem. Para piorar um pouco mais as coisas. Começa a perceber que a individualidade. Caio namora o realismo fantástico dos autores latino-americanos como Cortázar. em março. é mais importante que a coletividade." Nessa fase de sua escrita. bem de acordo com o sonho paz-e-amor da juventude da época. escreve a Hilda Hilst. Garcia Márquez. Caio volta ao Rio. Nascido na fronteira com a Argentina. ficção científica e elementos da cultura pop. obra que só viria a ser publicada em 1975. Várias histórias desse livro podem ser entendidas como crítica à sufocante situação por que o país passava na esfera política. Surgem assim alguns dos contos de O ovo apunhalado. inclusive em livros. ele sai da casa. aluga uma tranqüila casa em Botafogo.

só sai da prisão porque Adolpho Bloch. pelo menos na imaginação romântica de Caio. Caio às vezes se torna esquivo. levou-a. a única . sua carreira. No entanto. para Porto Alegre. mais que por benevolência. que já havia meio que definido que gostava de rapazes. Mas Caio tem sorte. Chega mesmo a considerar a hipótese de se assentar. Solto. pronto desde 1968. ainda por cima. Era o lançamento de Limite branco. se afasta sem maiores explicações. seu trabalho. Caio gostou muito de Vera. junto com a mãe e o irmão Henrique. O que viria em seguida?. Entre a saída dele da comunidade e a volta envergonhada para Porto Alegre. intercede por ele. com direito a sonhos pequeno-burgueses de casamento. se divertindo e conversando e montando um clima apaixonado. ele pula fora. dono da editora em que ele trabalhava. ele encontra abrigo. depois de horas com ela. E a vida de escritor. foi visitá-la no Rio algumas vezes. A comunidade do arco-íris. que o tirou da prisão e pagou a passagem de Caio para Porto Alegre. ele pode ter pensado. em 1971. e foi por isso. forjada em plena década de 60. É a sexualidade em conflito: ele. de forma tão profunda. um apartamento com vista para o mar e estaria preocupado em pagar as prestações e a mensalidade da escola das crianças. e até mais que isso: surgiu um clima. Só de ida. era tudo que importava. Bloch queria distância de confusão. escrevia-lhe cartas amorosas. em que havia uma boneca inspirada na garota. Vera tinha quatorze anos quando conheceu Caio. E esse quadro não combinava com a idéia da vida que um escritor devia levar. uma família. Ficaram amigos. ele teria um carro do ano. um lar. a coisa não vai pra frente: quando está com Verinha. ficava assustado com a possibilidade de se envolver com uma garota e. casar. nem tudo eram flores. os irmãos Vera e Henrique Antoun. Dali a pouco. Vinha sempre em primeiro lugar. na revista Manchete. sai pela tangente. carinho e amizade na casa de dois quase desconhecidos. primeiro romance do escritor. Caio é demitido. escreveu uma peça infantil. ter filhos. uma espécie de paixão entre os dois. Enfim.

de fazer comentários espertos. sempre azul. tudo muito parado. sem carros. quando ainda morava com a comunidade hippie que montara naquele bairro. e fico sentindo falta do teu jeito lento de chegar pisando em nuvens. através da visão de paisagens antigas. Aí Caio passou a evitá-las de novo. O ano de 1972 foi todo dedicado a essas experiências. onde moravam seus avós. mas. dessa vez. morena como uma princesa raptada por beduínos no deserto? Vezenquando baixa uma saudade. quase sempre clara como tem sido o ar verde-azulado desse verão. Preferia ver um filme antigo. por onde anda você. ouvir música e passear na beira do rio. No início de 1973. Pensava constantemente em suicídio. Caio escrevia a Vera contando de suas experiências com ácidos e demais drogas lisérgicas. Está reconciliado consigo mesmo. gente que tinha evitado durante o período em que sentia só escuridão dentro de peito. de mostrar um equilíbrio que não possuíam. Caio estava em uma de suas fases ruins. olhando as estrelas. sem movimento. Assim. ele voltou a ficar bem: ele sempre recuperava sua força através do contato com a terra de sua infância. Assustou-se. no entanto. Ele havia participado de algumas cerimônias de chá alucinógeno com ela. No entanto. não por incapacidade de contato. em uma viagem a Itaqui. tão silenciosa? Em que nova galáxia posso te encontrar outra vez. e lhe escreve: "Verinha-maravilha. Caio ainda estava na fase de amor e empolgação pela garota. com o que chamaria de "vampirização" das pessoas: todo mundo só querendo saber de falar e falar. e sim por escolha." De Porto Alegre. deprimido. . a relação com Vera não engrenou. começou a procurar alguns amigos. Caio reencontrou-se. sem televisão. Em Porto Alegre. não queria sair de casa nem ver ninguém.coisa à qual Caio foi sempre fiel durante a vida. Pessoas sentadas na calçada. tão distanciada. e não se arrepende de nada. em Santa Teresa. no entanto.

" Assim feliz. Essa vitória foi motivo de muito orgulho para Caio: segundo ele conta. minha vontade simplesmente é mostrar-lhes um livro como este. O conto Visita ganhou um prêmio do Instituto Estadual do Livro (IEL) em 1973. O ovo é um livro que fala de violência. a influência do realismo mágico dos latinos se faz notar em alguns textos. também não tenho muito. Aliada a uma imaginação cintilante". Lygia o chama de "escritor da paixão". Além disso.como escreve a Vera: "Nada é errado. [. e diz: "Caio Fernando Abreu assume a emoção. assinado por Lygia Fagundes Telles.. que o conhecia havia cerca de quatro anos e seria uma das melhores amigas de Caio até o fim. com o intuito de juntar dinheiro para viajar. quando o erro faz parte de uma procura ou de um processo de conhecimento. Emoção esta que é vertida para uma linguagem que em alguns momentos atinge a rara plenitude próxima de um estado de graça. . " Ou ainda: "Não sei muito. também não quero muito. O prefácio. por achar que nenhum dos outros trabalhos tinha nível. como no próprio conto-título. voltava de uma temporada na Europa e insistia que ele devia ir também: a atmosfera política e cultural no Brasil estava insuportável. mas estou aprendendo a respirar o ar das montanhas. quando a serviço de uma técnica rica de recursos. mostra o quanto o escritor já era estimado e admirado nos altos meios literários do país.. Caio escrevera o livro de contos O ovo apunhalado.] Quando nos seminários de literatura os teóricos pedantes acabam por condenar a palavra. Caio começa a trabalhar no jornal Zero Hora como copidesque. mas a comissão julgadora atribuiu o prêmio apenas a ele. futura astróloga. Entre as horas de trabalho que passava no jornal. já liberto — de certa forma — da influência de Clarice Lispector. em carta a Hilda Hilst. Provar-lhes a atualidade da desacreditada palavra com a própria palavra. Caio planejava sua viagem e continuava a escrever. toda a intelectualidade de Porto Alegre estava concorrendo. Graça Medeiros. de loucura. gostando de viver.

quem aparece para mudar a rotina são seres de outro mundo. não chegou a conhecer Caio: ele e Magliani formavam uma dupla quase hermética. Sandra Laporta. por exemplo. Juarez Fonseca lembra de ouvi-lo comentar: — Todo homem com mais de trinta anos é um canalha. Jaime Gargioni. Em um mundo comum e medíocre. enquanto Caio cursava — ou tentava cursar — Letras. O que eles deixaram foram estes três postulados: importa é a luz. livros. O que os seres dizem é um atestado da maneira como Caio levava sua vida.Alguns contos de Caio falam da esperança de redenção. um gay espalhafatoso de quem Caio gostava muito. Juarez era da equipe do jornal do centro acadêmico. Na faculdade. Juarez Fonseca. discos. Oferecem para quem quiser compreendê-los. mesmo quando consome. foi contratado pelo Zero Hora. a cinza é mais digna que a matéria intacta e a salvação pertence apenas àqueles que aceitarem a loucura escorrendo em suas veias. Nessa época. sofrem. porém as pessoas têm medo do novo. Falavam mal da ditadura. uma dupla estranha. Apenas uns poucos escolhidos se salvam. Juarez Fonseca freqüentara a universidade na mesma época de Caio. O coruja. mas vencem no final. já de volta a Porto Alegre depois de suas andanças por São Paulo e Rio. Juarez . no entanto. Os dois se conheceram quando Caio. só que seu curso era outro. e Graça Medeiros. iam a bares. No conto Eles. As pessoas saíam juntas. alguém de fora surge e promete a salvação. E os mártires. Augusto Rigo. a turma de Caio em Porto Alegre era composta por Maria Lídia Magliani. Conversavam sobre os assuntos da época: filmes. os salvadores. onde Juarez já trabalhava. Caio era muito crítico. fumavam maconha. a mudança. Juarez fazia Jornalismo. Nessa época. Havia também Lucrécia. e um dos poucos a conversar com eles de vez em quando era João Gilberto Noll. muito ácido. uma bela prosa poética.

ainda entusiasmado com o encontro: dizia que Vera tinha olhos de vaca jérsei. Juarez e sua esposa. Aninha. e que se casariam na Finlândia e teriam sete filhos com olhos de vaca jérsei. Caio começou a colaborar nos projetos de que Juarez fazia parte. como o jornal Exemplar. Caio está exultante. Não havia tempo a perder. Veja — na época ainda considerada inovadora — e. que haviam decidido fazer o percurso . Os ídolos Caetano Veloso e Gilberto Gil já tinham ido em 1969. principalmente. e a turma de Porto Alegre escolheu a Suécia. dizia ter pressentido que ele tinha QI de gênio. Augusto Rigo. Cada um em um país — a dupla de tropicalistas na Inglaterra. A amiga Graça Medeiros já fora e voltara. pela revista Bondinbo. e cabelos pretos e lisos de índio. como diagramadora. de medo. A questão era só escolher por onde começar. Sandra Laporta. na cabeça dos brasileiros loucos para saltar fora. em maio. que também trabalhava no jornal. Chico na Itália.tinha se tornado amigo de Magliani. Caio. "GRRRR: vontade de comer vocês dois com molho de chocolate. Era um grupo de seis pessoas. mais ou menos na época em que a temporada de trabalho começaria. Sandra na Suécia —. que já estava chegando. era um só: Europa. O dia é 28 de abril de 1973. o clima era de paranóia. Chico Buarque também. no Rio de Janeiro. estava lá. influenciado por O Pasquim. casados desde 1971. No aeroporto do Galeão. O pessoal queria mais era sair fora. Cada um iria por um trajeto diferente. Augusto e Ana. que contestasse. De Henrique. a repressão nas ruas aumentava. embora um vidro os separasse. Caio escreveria aos dois. foi muito bom encontrar os amigos. Era a efervescência da imprensa nanica. E saíram. Márcio. além de se encontrarem com os irmãos. Parecia que no Brasil não havia lugar para gente assim. " Antes de partir. Vera e Henrique foram vê-lo antes da viagem e. o destino. também amiga. Caio. como os dele. como os dela. a efervescência de uma geração que não agüentava a ditadura. e se encontrariam todos na Suécia. Do avião. Sônia Azambuja.

não importava.] Mas ele não se move. Agora é um ovo delicado. nesse momento. [. e não tenho medo. Lembremos que a própria literatura que Caio fazia. mas nada aconteceu: os carros passavam por cima da minha imagem refletida nas vidraças. quase ternura. onde planejam ficar umas duas semanas. Ana e Augusto não vão direto para a Suécia. que viria a influenciar os surrealistas mais tarde. Além do humor cáustico. mordi o lábio inferior. e sinto pena dele.. mas se fosse Beirute. ele continuava ali. Caio. bem. cheios de boas expectativas e esperanças. em que um ovo sai de uma moldura e persegue o personagem: Ele saiu da moldura e veio caminhando em minha direção. a arte. É quando julgo perceber nele uma espécie de súplica: socorra-me. qualquer cozinheira conhece seu segredo. humilde. poupe-me. Então estendo os meus muitos braços coloridos e toco no cabo de bronze do . Quando tornei a me voltar. a casca branca. Olhei para o outro lado.juntos. A obra do pintor holandês nascido em 1450 tinha alguns pontos de contato com a do escritor. Caio quer tirar carteira internacional de estudante e ver Bosch no Museu do Prado. você não vê que não tem a menor originalidade — e ele não parou -. logo antes de deixar o Brasil rumo a aventuras desconhecidas. Disselhe isso — mas ele não parou -. estava impregnada desses elementos. todos já disseram tudo sobre você. abrevie-me. tenro. era cheia de detalhes do fantástico. "maravilhosos". Brincavam que o avião tinha sido seqüestrado e que eles estavam em Beirute. os carros corriam e a minha imagem mordia o lábio inferior. Está parado à minha frente e volta-se devagar para que eu fique cara a cara com o punhal cravado em suas costas. Era assim que aquele trio se sentia. e da dificuldade de salvação. Como no conto O ovo apunhalado. as linhas mansas de seu contorno: um ovo.. escrevem do aeroporto do Galeão um telegrama a Graça Medeiros. Por acaso o destino final era a Suécia. A escala é em Madri. com que retratava a vida de pecados do ser humano.

Amsterdã ou mesmo Estocolmo prometiam ser. e não se viram mais. as pessoas eram fechadas. mas não trocavam confidencias e coisas do gênero. Sônia. A sua casca está manchada pelo fio de sangue coagulado. 0 sangue escorre e eu." De Madri. também estou no céu com diamantes. E sinto uma lâmina penetrando fundo em minhas costas. O casal tinha ido até Lisboa de navio. minhas pálpebras grades. Todo mundo olhando. Lúcia grita.punhal. meus dedos ferro. firme. Vejo minha casca clara partir-se inteira em cacos brilhantes que ficam cintilando pelo chão do banheiro. até o pesado cabo de bronze onde dedos comprimem com força. Caio e Juarez ainda não eram íntimos. rígidas. mas fecho os olhos no mesmo momento em que meus dedos se cerram em torno do punhal. Juarez escreveu no diário que estava fazendo da viagem. com catedrais com mais de 500 anos e casas de 300. e se ouviam relatos de torturas e fuzilamentos. moralistas. Meus olhos são janelas. perdidos entre espáduas. Em Madri. depois empurro lento. e de lá para Madri de trem. Foram tomar um café. . Sua figura chamava a atenção: a Espanha é um país católico. Caio. Caio não achou mesmo muita graça na Espanha: a comida era horrorosa. Caio encontra. mas é tarde demais. andavam na mesma turma em Porto Alegre. por acaso. cheio de repressões. até o encontro combinado na Suécia. Sobre o encontro casual com o grupo de Caio. Estavam numa esquina da cidade quando viram passar Caio e os amigos que tinham ido com ele. Juarez Fonseca e sua mulher. Se hospedaram em um hotel na esquina da casa onde morou Picasso. agora. as ruas de Barcelona eram sujas e poluídas. Bonito mesmo Caio só achou o bairro gótico. minhas mãos tentáculos. no dia 29 de abril: "Caio muito louco caminhando pelas ruas. Hesito um pouco. e nesse sentido estava longe de ser o paraíso dos costumes que Londres. trabalhavam no mesmo local. Nessa época. Augusto e Ana foram a Barcelona. Era ainda época de ditadura no país. Uma breve hesitação.

todos iriam se ajeitando e conseguindo moradias individuais ou em duplas. conversar. Todo mundo se deliciava com os camarões que. Harekrishnas andando sossegados pelas ruas. o grupo seguiu para Paris. O grupo estava sempre junto. Era uma festa. vou morar na Suécia. um pouco maior. fazer comida. Pisar nas ruas francesas era como "pisar no coração do mundo". que Caio estava mesmo indo morar em Estocolmo? Na Suécia. Ficaram uns seis dias nessa residência. e a impressão que a capital francesa deixou foi de puro deslumbre. quando eu for grande. e os estrangeiros se hospedavam no que usualmente eram seus alojamentos. Aos poucos. Encontravam-se depois dos respectivos trabalhos e iam beber. Os estudantes estavam de férias. fosse na "casa" de um ou de outro. e Sandra Laporta em outro restaurante. Em dado momento. onde grupos de pessoas se reuniam para tomar vinho. é claro. de outra forma. arrumar empregos: Juarez iria trabalhar no restaurante Catelin. Aos poucos. em outro lugar. Passear pela capital francesa era como andar sobre séculos de história. de civilização. porém. de cultura. com todos os cortes de cabelo e roupas que se possa imaginar. Era o paraíso. na fronteira do Rio Grande do Sul com a Argentina. Augusto se revelou um exímio ladrão de supermercados: vestia seu macacão Lee e enchia os bolsos de enlatados. Era noite em Itaqui. mulheres elegantes. morreu de rir. Qual seria a cara dele agora. requintadas. Sandra também se saiu bem — roubava camarões do hotel onde trabalhava e trazia para casa. gente variada. Bares charmosos. Caio Fernando Abreu tinha nove anos de idade e estava passando uns dias na casa de seus avós. ele vira para o avô Aparício Medeiros e diz: — Um dia. jamais poderiam comer. os grupos se juntaram e foram todos morar numa residência estudantil minúscula. e depois se mudaram para outra. O avô.De lá. diria Caio. Sônia arrumaria emprego em um hotel. Caio também iria lavar pratos. todos iriam se estabelecer. . também.

embaixo de um pequeno barranco. o Caio parece o Jesus Cristo! Sandra corre para a frente da máquina e diz. digamos. Caio está vestido todo de branco. O dia 27 de maio caiu num sábado bonito. com sol e tempo bom.. e ficaram todos pirando cor-de-rosa. A primavera sueca está relativamente quente: dá pra sair de manga curta tranqüilamente. junto com ovelhas e cervos. Caio vai até lá e passa na frente do visor de Juarez. A coisa foi tão boa. três ligeiras palavras: "Pintou um pink. Nesse momento. com medo de que aquilo fosse manifestação de alguma bad trip: — Corta essa. e embarcaram numa viagem incrível. Caio e Augusto tomaram o tal pink. andando por debaixo das árvores. "Para bom entendedor. de haxixe.. E era um desses adoráveis quadradinhos mágicos que fez Juarez anotar em seu diário. No dia seguinte. Uma caixa de TV está jogada no lixo. meia palavra basta. com a cabeça em órbitas insondáveis. Era medroso demais e não conseguia levar um roubo até o final. Caio também tinha medo. Era época de maconha. na verdade. numa boa. extasiado: — Puxa. olha pelo visor da máquina fotográfica. de conto de fadas. nas horas vagas. que logo começaram os planos para outra dessas excursões. Os ácidos tomados às duas e meia da tarde nada mais fizeram que realçar a magia natural do parque. cara. até o efeito passar. Juarez pára de entender o que está . Juarez. Os brasileiros reunidos em Estocolmo vão fazer um piquenique num bosque no bairro de Kungshara. Uma beleza de bosque: jardins cheios de amores-perfeitos e tulipas. o pessoal arrumava tempo também. de ácido. mas pegou uma coisinha aqui e outra ali. Entre um delito e outro. Juarez pegou carona. no dia 24 de maio. para viver o sonho lisérgico de uma geração. Juarez nunca pegou nada.caríssimos que eram. coloridas. Esse tem um insight e grita. Atmosfera mágica. esquilos passeando tranqüilos.

panelas. tudo perde o significado. o fiorde ali do lado com o castelo do rei Gustavo Adolfo. com luvas de borracha até o cotovelo. sem maldades ou malícias. Jorge Ben. quando ele encontrou o primeiro emprego. bandejas. O mundo à sua volta. Caio. tudo. O detergente lavava também toda a arrogância que Caio pudesse sentir. no centro de Estocolmo. possíveis significados. sua postura . os textos que escrevera e publicara. Mas ali. Assim como parecia distante o tempo em que tinha morado em Santa Teresa. Depois de sete horas. Ele mesmo era muito sujeito a badtrips. junto com os outros. Não tinha sido fácil. Ali. Na volta à terra. copos. cara. vai consolá-lo: — Isso não é nada. e tinha passado por umas terríveis em Porto Alegre. Caio falava e falava. num país distante. Ali. E passou mesmo. Cat Stevens. o disco Chico & Caetano. ele não era melhor que ninguém. e Caio se dedicou a ficar oito horas de pé por dia. as coisas pareciam possíveis. junto aos amigos. o grupo foi para a casa de um português ouvir discos. A viagem ruim começa pra valer.acontecendo. essas lembranças ruins pareciam distantes. Novos Baianos. Ele e Augusto rodaram vários dias até encontrarem colocações. analisando a viagem do amigo. longe da cidade. o bosque. Os livros que lera. A idéia de paraíso na terra deve ter desmoronado para Caio mais ou menos dois dias depois do piquenique no parque. Comeram xis-búrgueres com batatas fritas. onde os jovens se deitavam seminus nos parques para tomar sol. E também garfos. Augusto foi parar numa fábrica. aquele de lavar pratos. com seu temperamento depressivo. Até mesmo utopias que tinham escorrido pelo ralo por causa da dureza da realidade pareciam mais fáceis de acontecer naquele país. facas. as descobertas de si mesmo e dos outros por que Juarez tinha passado. em uma imitação malsucedida de comunidade hippie. no Rio. Era em um bar. naquela cozinha onde todo mundo falava uma língua que ele não entendia. tudo de forma muito pura. longe do Brasil. passa logo. lavando pratos.

por enquanto. o momento parecia duro demais para enfrentar. que debochava de todo mundo. que ele tanto ansiava em ver. cujo único exercício físico era o levantamento de copo. a Suécia era para ele o paraíso. bem ao seu estilo. o gay negro. Fora assim com São Paulo. Que seu livro O ovo apunhalado tivesse ganhado Menção Honrosa em um concurso no Brasil. talvez. Caio poderia voltar para a casa dos pais e viver uma vida de odalisca outra vez. mas de quem ninguém debochava. E Caio. Esse era Caio: sempre achava um jeito de colocar defeito no lugar onde estava. sem possibilidade de cura. Mas não. ou do engraçado africano que trabalhavam com ele. inteligente e bem informado. Uma vez lá. dramaticamente. e ele também. até dos guardas que vinham expulsá-los sempre que começava a sessão de violão. Ali. No dia 18 de julho. ou dos dois japoneses. pois era forte demais e seria capaz de pendurar pelo pescoço qualquer um daqueles intelectuais."avançada". antes de chegar à Suécia. Claro que. . Caio não se sentiria triste. Mas. na cozinha de um bar no centro de Estocolmo. Falta de Nega Lu. enfrentativo. sem maiores preocupações. decidiria que o menino cheio de esperanças que ele fora um dia morrera ali. Chegaria também sua vez de partir. Sentiria falta. como todos sabiam —. com o Rio de Janeiro. Juarez e Sônia foram embora. Sentia-se um estrangeiro onde quer que fosse. Saudade de ficar com Augusto e outros malucos na praça. com Porto Alegre. Caio foi se despedir deles. Estava sendo assim com Estocolmo e provavelmente seria assim com Londres. enquanto eles vendiam colares e um francês tocava violão. Fora assim com Madri. porém. Ponto. se sentisse triste. talvez. ele era um lavador de pratos que não falava sueco. e a temporada chegasse ao fim — e chegaria. isso não importava. Juarez estava triste. nada disso o distinguia de David. e passado o impacto e a fascinação dos primeiros dias. quando aquela vontade de viver novas experiências passasse. ele começaria a achar a cidade um horror. o boliviano. lavando louça.

interessantes. não viria a ser o grande amor da vida de Caio. sem ninguém olhar nem comentar. bem diferente da dura Estocolmo. A primeira impressão foi de êxtase: cabelos coloridos andando pelas ruas. com todas aquelas odes às mulheres pequenas-gordinhas-deóculos). uma chateação. claro. embora tenha tido seu momento. onde as pessoas eram fechadas demais. Não era isso que ele tinha sonhado. Depois de meses sozinho. roupas dos anos 30. Ele era individualista ao extremo e não deixaria que alguém entrasse em seu mundo. cinzenta demais. como. em que ele contava suas experiências e suas mudanças de humor. só duraria o tempo suficiente para que Caio escrevesse meia dúzia de cartas para os pais e amigos. finalmente. ele saltava fora. e era maravilhosa. A relação com Vera. um dançarino cubano que ele estava meio que namorando. e a fase brega do rei ainda não tinha começado. qualquer ameaça à sua liberdade. não era isso que os livros tinham prometido. Mas Nelson. de Nelson.Depois de ter dado um pulo na Holanda e na Bélgica. horas na mesma posição para que os alunos o desenhassem. pessoas gentis. Durante todo o tempo em que esteve viajando. soltando farpas para todo lado. trabalhar de modelo vivo em escolas de Belas-Artes. por exemplo. E aquela história de não ter dinheiro para nada e trabalhar em subempregos para sobreviver não era nenhuma maravilha. Falava. era defensivo. incapaz de se comprometer. Caio arrumara uma paixão que o fazia suspirar pelos cantos e cantar canções do Roberto Carlos (lembrem-se que o ano é 74. parques lindíssimos. ninguém seria. por exemplo. A cidade parecia saída de um livro de Virgínia Woolf. Caio estava. Trocaram cartas amorosas. Todo o deslumbramento. Chuva a todo momento. foi esfriando à medida que chegava a hora de voltar ao Brasil e encará-la frente a . logo ele já estaria achando a cidade fria demais. Caio e Vera Antoun continuaram se correspondendo. em Londres. aliás. Nesse ponto. Fazer faxinas em casas de atores.

sem fantasia. mas acho que sim. ele não podia mais dizer que a amava. quase sempre.frente. Primeiro. Caio escreveu muitos textos sobre o relacionamento entre duas pessoas. Me pergunto sempre se você não teceu em volta de mim uma porção de coisas irreais — se você não está projetando em mim qualquer coisa como um príncipe encantado — esperando a minha volta como quem espera a salvação. disse que casar não tinha nada a ver. que falara em casamento e filhotes com olhos de vaca-jérsei. Assim. Desculpe. sozinho. estava branquelo demais de tanto não-sol que fazia em Londres. Além disso. não do jeito que vivia. uma paixão avassaladora. Essa sempre foi uma de suas principais preocupações: sempre quis viver um grande amor. entradas enormes na cabeça. E terceiro. Quarto: ele estava ficando careca. A seu modo. o cabelo lindo e escorrido de índio estava indo embora. não é bem assim. Mas acho que precisamos 'falar seriamente'. experimentou de tudo. vendendo o almoço para comprar cigarros. sempre sem dinheiro. só teria certeza disso se estivesse com ela ao vivo e em cores. comum entre pessoas que se gostam. A incomunicabilidade. Para uma avenca partindo: — Olha. tanto sobre relações hetero como homossexuais. antes do ônibus partir eu tenho uma porção de . exatamente aquilo que ele estava tentando evitar. foi explorada em um texto de O ovo apunhalado. acabava. Segundo. ele não tinha condição de pôr um filho no mundo." Para quem queria comer a garota com molho de chocolate. sem comicidade. Será que ela ia querer alguém assim ao seu lado? Em abril de 1974: "Tenho medo de te ferir. já estava dizendo: opa. era uma mudança e tanto. Ele. não era preciso papel nenhum para afirmar isso. Mas não deixava que ninguém entrasse demais em sua intimidade. que se duas pessoas se gostavam.

não me entenda mal.. será que vai dar tempo? Escuta. não fecha a janela.. eu vou escrever.. você vai. eu quero dizer.. no mais fundo. eu ainda não disse tudo..... antes do ônibus partir eu quero te dizer uma porção de coisas...... entende. olha. depois você arruma as malas e as bolsas... compreende? olha.. fica tranqüila.. eu não vou escrever... e se eu não te disser agora talvez não diga nunca mais. espera........ está esfriando tanto. sei. e a culpa é única e exclusivamente sua.... está tudo definido aqui dentro..] [. falta muito pouco tempo. indevassável. porque as vivemos apenas naquela dimensão em que é permitido viver. vou dizer tudo numa só frase. sabe.. na estrada... e se elas não chegarem a ser ditas nem eu nem você nos sentiremos satisfeitos com tudo que existimos. olha. porque elas não foram existidas completamente. depois... Além de arrebentar esperanças e se engraçar com rapazes cubanos. mas é que a gente tem tanto medo de penetrar naquilo que não se sabe se terá coragem de viver. Mas a Inglaterra é um país onde o shopliting é punido de forma mais severa . é muito importante...] está bem.. esse velho não vai incomodar você.... as maçãs ficam comigo....... por que você fica sempre me interrompendo e me fazendo suspeitar que você não passa mesmo duma simples avenca? Eu preciso de muito silêncio e de muita concentração para dizer todas as coisas que eu tinha pra te dizer. dessas coisas tão difíceis de serem ditas que geralmente ficam caladas. não. não existe um dimensão permitida e uma outra proibida. é isso mesmo.. não. porque tanto eu como você sentiremos uma falta enorme de todas essas coisas. As lojas grandes de onde roubavam nem sentiriam o prejuízo. eu espero aqui do lado da janela. olha. Caio continuou em Londres com os pequenos roubos em lojas..... é só uma coisa. não é isso que eu quero dizer.. você está acompanhando meu raciocínio? [.. Coisa pequena....sim.. espera um pouco mais. mas é bom você botar um casaco...... é melhor mesmo você subir.coisas pra te dizer.... continuaremos conversando enquanto o ônibus não sai... porque nunca se sabe nem como serão ditas nem como serão ouvidas.. antes de você ir embora eu quero te dizer quê.. dessas coisas assim que não se dizem costumeira-mente..

ao cantar que não acreditava mais em coisa alguma: mágica. embora amenizado. em julho de 1975. Buda. não houve meio de convencer os guardas de que. estava na hora de voltar para casa. o Plastic Ono Band. mas também não precisa virar pesadelo. O clima claustrofóbico da ditadura continuava. como diz Garcia Márquez. ele percebia o quando tinha reclamado de barriga cheia enquanto estava viajando. e o mundo devia seguir em frente sem eles. Ching. Por causa dos dois volumes de uma biografia imensa sobre Virgínia Woolf. Os dias de Caio na Europa também. mas apertando aqui e ali. Jesus. Era mais do que Caio ganhava por semana na escola de Belas-Artes. os seguranças e policiais não queriam nem saber de conversa. dava para pagar. com a abertura começando a se esboçar. o sonho acabara. Ele só acreditava nele mesmo e em Yoko Ono. não é? A frase foi escrita por Caio Fernando Abreu no espelho de seu quarto em Porto Alegre. O ano de 1968 ia longe. Cinco anos antes. O . Prisão num país estranho e 500 contos a menos: era até onde o amor à literatura tinha feito Caio chegar. entraram em uma livraria. "The dream is over. John Lennon anunciara o fim do sonho de toda uma geração. roubar livros é errado. De volta ao Brasil. Assim. Elvis ou Beatles. do primeiro ábum de Lennon sem os Beatles. roubaram livros e foram vistos.que no Brasil. Os besouros musicais já não existiam. Caio e Homero passaram a noite na cadeia e foram condenados a pagar 30 libras de multa. TRÊS — Tá certo que o sonho acabou. mas não é pecado. what can I say?" A música era God. quando Caio e o amigo Homero. que também morava no apartamento que ele dividia com Marisa e Augusto. É.

As pessoas em Porto Alegre estavam mudadas: tinham feito coisas das quais ele nada sabia. um antipsiquiatra. e não era só para os Beatles. O clima estava ficando pesado também no quesito drogas: muita gente estava começando a pirar. Ninguém se entendia. na verdade. E. e a necessidade de sobreviver maior que a de curar caraminholas da cabeça. mais de desapego. elas também não sabiam nada das experiências por que ele passara. não adiantaria nada: o milagre estava com os dias contados. Caio se virava para sobreviver em Porto Alegre. Readaptar-se era difícil. Caio gostava muito de Bono. as referências eram outras. falava em macrobiótica e. avisou que só poderia publicar um conto dele se as palavras "merda" e "tesão" caíssem fora. acreditava numa forma de conhecimento mais holística. O milagre econômico dos militares não tinha chegado até a casa da família Abreu. internações em clínicas. O sonho estava acabando. era o Brasil. Caio poderia consultar um psiquiatra amigo seu. Ernesto Bono. É. mas algum trabalho ele . junto com o jornalista Luiz Carlos Maciel. Ele ia por um lado mais zen. se o dinheiro não fosse tão curto. Enquanto o enterro não vinha. no momento. Só faltava aprontar o enterro. mas que no geral só servia para reforçar aquilo que ele considerava o grande problema do ser humano: o ego. em que Caio colaborava desde antes de viajar. Por que mesmo ele tinha decidido voltar? A depressão veio pesada. Acreditava que a psicanálise tradicional tinha algumas vantagens. de pagar suas consultas. Não precisava fazer faxina nem posar em escolas de Belas-Artes. como não chegara para a maioria dos brasileiros.Suplemento Literário de Minas Gerais. Não se podia andar pela rua com cabelos compridos e batas indianas sem chamar a atenção. queria fazer de Porto Alegre um centro de irradiação da contracultura para todo o Brasil. porque estivera fora. mesmo que tivesse. como em Londres ou Amsterdã. Bono era um psiquiatra diferente dos outros: era. mas não tinha condições. coisas assim.

qualquer coisa que pudesse garantir algum dinheiro no fim do mês enquanto ele escrevia seus livros. Caio compraria uma boa briga no final de 1976. Dois meses antes da revista sair. na metade da década de 1970. como sempre. ficaram famosos veículos como O Pasquim. Juarez começou outro projeto que teria a participação de Caio: a revista Paralelo. sem dinheiro nem para as anti-consultas com Bono. traduções e revisões para editoras. O jeito foi então escrever uma crônica falando exatamente desses sentimentos escuros que ele sentia. em que Caio Fernando Abreu chegou a colaborar algumas vezes. comandado por Juarez Fonseca. oficinas de criação literária para alunos com ou sem talento. Escrita. tendo em comum apenas a condição de nanicos. E uma das coisas que havia para se fazer em Porto Alegre. ainda não totalmente recuperado da experiência européia. o jornal Exemplar. Juarez pediu a Caio que entregasse uma crônica para o primeiro número da revista. Versus. e a saída era. sem esconder nem maquiar nada. Movimento. com quem. o Jornalismo. Findo o prazo. Por dois meses. Eram jornais que. Bondinho: cada um com sua opção formal. ele colaborou em quase tudo que era nanico: Opinião. um luxo. Em 1976. porém. A imprensa nanica.tinha que ter. como a chamara João Antônio nas páginas de O Pasquim. No eixo Rio-São Paulo. estética e política. aliás. sem idéias. pois havia veículos para todos os gostos. ele não estava melhor que antes. era colaborar com a imprensa alternativa. Escrever na imprensa era parte daquilo que ele chamava de "biscates culturais": resenhas e críticas para jornais. Movimento. e nem as inspirações brotavam com mais facilidade. . que duraria apenas quatro números. Ficção. Entre 1967 e 1973 existiu. justamente por serem independentes. Mas Caio estava deprimido. Inéditos. podiam se dar ao luxo de dar espaço a críticas e inovações. alguma coisa bonita para oferecer aos leitores. poderia escrever o que quisesse. Tirando O Pasquim. não era privilégio de paulistas e cariocas. Opinião. por exemplo. ele esperou que alguma idéia aparecesse. Ele teria uma página só para ele.

Cobra dos outros. cita Mario Quintana e Adélia Prado. "Acontece que não sou [porta-voz] e não quero assumir esse papel. "apesar das nossas ficções": "Escrevo por uma espécie de incompatibilidade-de-gênios com a vida. e tenho consciência de quanto isso parece ridículo e juvenil.Depois de consultar o amigo Giba Rocha. Eu disse: quaisquer. descobriu que muita gente tinha gostado de entrevistas que ele tinha dado. reclama que as grandes sacanagens sociais continuam acontecendo. essa era uma responsabilidade grande demais para ele. para refazer. tudo dói. porque — estou usando o máximo de. Sérgio Caparelli. Nos últimos tempos tenho me movimentado com dificuldade dentro dos meus escombros-de-dentro. só não estou mais afim de fingir que tudo-bem. de forma não-planejada. e eu não sei o que fazer. por uma série de razões demasiado pessoais para serem trazidas ao baile (trata-se de um baile?) ando com uma autocrítica violentíssima e não consigo. pessoas talentosas. para não enlouquecer de impotência. Nas cartas que tenho escrito ou nos meus rabiscos solitários (e vis. sinceridade — não sirvo nem pra porta-voz de mim mesmo. para organizar o caos. Fala de uma coisa e outra. acabo sempre caindo na mais lamentável das auto-lamentações: dói. Viam nele uma espécie de porta-voz da geração dos anos 70. Luiz Fernando Emediato. ele acabou se tornando mesmo. o que. como uma nevralgia psico-espiritual (!). todas mais aptas a escrever a página que ele: Tânia Faillace. referindo-se à previsão de Bono e de Luiz Carlos Maciel de que a Bahia já era e o novo pólo de irradiação da . " Fala também em revolução sexual e de alguém que ele queria encontrar. Mas não pense que não sei do inútil disso. Mas no momento. parece que alguma peça importante para o meu funcionamento simplesmente quebrou. mas nunca está em casa. você me entende?. desculpem. esse "ter nascido me estragou a saúde"ambulante e crônico." A crônica segue e Caio menciona amigos. e é isso mesmo que eu sou. simplesmente não consigo pensar organizadamente (?) ou ter idéias claras ou/e precisas sobre as coisas. DÓI PRA CACETE. de certa forma. meu irmão. quaisquer que sejam. entrevistas veementes em que Caio assumia suas posições peculiares com firmeza. escrevo para reinventar. talvez) no meio da noite.

de vez em quando era cicuta." E voilá. Dessa vez. chamou o garçom (seria o Isaac?) e pediu outra. eram dez ou quinze pessoas. por questões políticas. a pessoa em quem realmente estavam de olho. Graça foi presa e condenada em um flagrante . Tocavam flauta. No caminho. um pouco era por causa da economia em crise. Estava bebendo de sua taça. Em dado momento. Mas a taça destinada à sua geração nem sempre tinha só champagne. Se a ditadura existia. no litoral catarinense. quando foi preso em Garopaba. muito dignamente. Caio e Graça foram até a padaria. ele de calção. entravam no mar. estavam presos. Na ocasião. Era uma dose amarga que sua geração tinha que engolir sem reclamar. Ele já havia sido preso em 1971. como gostava de dizer. ela de biquíni. era porque. "Arrotou. riam. e das brabas. no Rio de Janeiro. na cidade. uma crônica estava pronta. talvez estivesse procurando nos lugares errados. já faz tempo. daquelas de matar filósofos. Se não havia dinheiro. Como Caio.contracultura no Brasil seria o Rio Grande do Sul: "como é que é? não era um lugar altamente esotérico? Não aconteceriam coisas incríveis por aqui?" O texto termina: "Alguém me disse.. entre elas Graça Medeiros. ora. em parte a culpa era dele. Se Caio estava mal. Bem. mas também porque Caio nunca se sujeitou a um emprego comum por muito tempo. conversavam. alguém apontou para eles: — Olha lá! Minutos depois. Caio. soltaram-no. Caio provou desse veneno em 1975. a ditadura era uma das coisas sobre as quais Caio não tinha controle algum. era por causa das drogas. num bar: "Um dia alguém precisa virar a mesa ao invés de só pedir outra Brahma. que era o verdadeiro alvo.. em um falso flagrante de drogas. se recusasse a falar. Jaime. Se ele não conseguia encontrar um único e belo amor. Queriam que ele depusesse contra Graça. Caio apanhou muito. Se havia bad trips.

quando os olhos de um esbarram nos olhos do outro. rabo entre as pernas. (Pontapé nas costas. armado na delegacia de Florianópolis dois dias depois de ter sido presa em Garopaba. Quando o conto foi publicado em livro. (Bofetada na face direita. -Não sei. Evitamos nos encarar — por que sentimos vergonha ou piedade ou uma compreensão sangrenta do que somos e do que tudo é? —. (Bofetada na face esquerda. por prender Gilberto Gil e Chiquinho Azevedo por porte de maconha. em Garopaba. um ano depois. escritor catarinense. Depois de ter sido preso e solto na despedida de Jaime. Nessa ocasião. Mastigamos em silêncio as chicotadas sobre nossas costas.) Antes do episódio em Garopaba. publicado pela primeira vez na revista Ficção. a dedicatória foi suprimida. é claro. de Emanuel Medeiros Vieira. são de criança assustada esses olhos. de modo que Caio acabou nunca mais dedicando texto algum a ela. e estava escondida. ficou furiosa. que. Gil e Chiquinho.) — Conta. O responsável pela prisão era o delegado Elói Gonçalves. o mesmo que ficaria famoso. em Pedras de Calcutá.) — Conta. Essa história serviu de inspiração a Caio para escrever o conto Garopaba mon amour. foram condenados a passar um tempo em clínicas psiquiátricas.falso de porte de maconha. Graça tinha dado um jeito de escapar da clínica. Cão batido. em Florianópolis. E a quem o boca-grande do Caio dedica o conto? A Graça Medeiros. mistura de fatos com altas doses de invenção e fantasia. Caio passou uns tempos na casa de Emanuel. às vésperas de um show dos Doces Bárbaros. — Não sei. O . A epígrafe do texto é um trecho do conto Garopaba meu amor. assim como Graça. -Não sei. E não só: à fugitiva Graça Medeiros. E os corações de vidro pintado estalam ainda mais alto que as ondas quebrando contra as pedras. — Conta. mas. Graça tinha sido uma das responsáveis pela publicação de O ovo apunhalado.

no apartamento de Luiz na rua Jerônimo Coelho. em 1973.. Os dois chegaram a morar juntos por um ano.. que mais tarde. a peça foi indicada para leituras em várias partes do país. era a continuação do trabalho com teatro que Caio vinha fazendo desde que voltara da Europa. ao qual o Instituto Estadual do Livro (IEL) era vinculado. em 1976. teria seu nome trocado para Pode ser que seja só o leiteiro lá fora. Caio receberia o Prêmio Leitura do Serviço Nacional de Teatro (SNT) pela peça Uma visita ao fim do mundo. logo depois. em parceria com a editora Globo. primeira de várias parcerias da dupla. fluía. mas só seria publicado dois anos depois. tinha trabalhado com o grupo Província na peça Sarau das 9 às 11.. Premiada. e intercedeu junto a ele para que o livro saísse. alguns amigos se escondem em uma casa abandonada. e só viria a ser encenada em 1983.. que o sol ainda brilha e o mundo está a salvo. além de publicar O ovo. pelo Instituto Estadual do Livro.. A parceria com Luizar — como Caio o chamava — era boa. Ao amanhecer do dia seguinte. O leiteiro. Como a experiência desse certo com o Sarau. e com contos suprimidos pela censura. Graça era assessora de Paulo Amorim no Departamento Cultural da Secretaria de Educação e Cultura do Rio Grande do Sul. e fora escrita a quatro mãos por Caio e por Luiz Arthur Nunes. menção honrosa do Prêmio Nacional de Ficção. o outro mais uma. Aquela era uma peça de esquetes. por enquanto. na maior facilidade. precisava de alguns textos.livro tinha ganhado. foi repetida em 1977: Luiz Arthur ia fazer um espetáculo de esquetes. porém. enquanto aguardam o fim do mundo chegar. e Caio escreveu alguns diálogos curtos. . descobrem que não há nuvens de radioatividade. Em Pode ser que seja só o leiteiro lá fora. de onde Caio só sairia para a famosa casa da rua Chile. sabiamente. foi proibida. Um escrevia uma frase. e assim sempre. Em 1974. Ou então cada um escrevia uma cena. Em 1975. e o outro mexia. retocava. Na época.

apodrecendo e caindo. um escritor reconhecido. ROSINHA — Devem ser os três reis magos que vêm visitar o menino. impressões. com aquela pele toda verde. principalmente em Porto Alegre. CARLINHA — Eu acho que são os sobreviventes da explosão. ALICE — Piração. Outro em quem Caio deu um empurrão foi o poeta Nei .. tudo piração: pode ser que seja só o leiteiro lá fora. Com três livros publicados. que passou a chamá-la de velha safada. incenso e mirra. e que quase ninguém conhecia. e nem só do grande. trocavam informações. ANGEL — Puede ser algun vecino. Esses escritores se correspondiam. metade dos anos 70. como qualquer pornografia. decidiu que iria escrever livros eróticos para ver se venderia mais. Caio já era. LEO — É a polícia. Os monstros. aclamada por um certo ramo da crítica mas desconhecida do público. perdeu o respeito de uma parte da crítica. e ela não vendeu nem meio exemplar a mais por isso. escrevendo resenhas positivas em jornais e revistas. Por essa época.. claro: a pornografia de Hilda não era como outras pornografias. deu provas de sua fidelidade. O espírito da época era de solidariedade com os colegas.JOÃO (Sem emoção. principalmente através do conto. escrevendo em jornais sobre os escritores que admirava. Na época. Eles vêm nos matar porque nós sobrevivemos. tanto que. A escritora se magoava com isso. Quem sabe é Mona com os extraterrestres? Eles vêm nos buscar também. de certa forma consagrado. Tenho certeza que é a polícia. trazendo ouro. Mais de uma vez. ninguém lia Hilda Hilst. e nisso Caio não desapontou os amigos. mostrando o texto dos amigos para outras pessoas. Nós tínhamos o direito de sobreviver ao fim do mundo. além disso. BABY— Ou Mona. coisas assim. Ou os quatro cavaleiros do Apocalipse. piração. tentavam ajudar uns aos outros dentro de suas capacidades.) — Estão batendo na porta. Ilusão. já mais velha. como a própria Hilda Hilst. ele era um dos integrantes do chamado boom literário dos anos 70: uma turma nova que fazia ficção.

Caio sugeriu a troca de algumas palavras. e foi ele que. cinema. Nada teria a perder. Estava em dúvida. chamou-o a um canto e explicou tudo: o movimento estudantil é assim e assado. Tanto que aceitou fazer o prefácio do livro seguinte de Nei. Nei não era ainda conhecido. em plena ditadura. no geral. Muitos dos autores publicados nessa época pelo IEL. Ele deu um parecer favorável à publicação do livro. Quando entrara na faculdade. Nei seguiu o conselho e nomeou o poema Mario Quintana. a não ser em jornais mimeografados. Caio o aconselhou a arriscar. E seria Juarez também que. organizaram o livro. se o Nei pode. Caio leu um poema do qual gostou muito. junto com Caio. porém. Quintana adorou o poema. Alguns conheciam sua poesia de vê-la declamada nos encontros de estudantes. Então Caio sugeriu que ele colocasse o Mario Quintana no título do poema. — No Mario Quintana — disse Nei. Quando o livro saiu. foi um acontecimento: afinal. eu também posso. Os outros poetas podiam pensar: ei.Duelos. e perguntou em quem o poeta estava pensando quando escreveu. Caio inclusive. Antes de Mario Quintana ver o poema. o livro tinha que ser publicado. iria na casa de Nei e o ajudaria a editar o livro Outubro. Os três separaram os poemas por tema. nem tinha nada publicado em lugar nenhum. tinham muito a agradecer à diretora do . anos depois. ele era um autor marginal. Será?. mas. como Caio. e em geral estava certo: Nei acatava sua sugestão por achar que tinha ficado melhor. Nei era jornalista. era algo para se comentar. Caio usou de sua influência no IEL para conseguir a publicação de Outubro. perguntou o poeta. na primeira reunião de estudantes a que o calouro Nei compareceu. gaúcho de Uruguaiana e radicado na capital. Não se arrependeria: quando o livro saiu. Eles eram amigos de conversar sobre literatura. Vê-lo publicado com capricho pelo governo do estado. o livro garimpado na papelada de Nei. Juarez Fonseca ainda andava por lá.

poeta de 22 anos que dava seus primeiros passos na ficção. editora de O Pasquim. mas escritor "sem grande brilho". Caio participou de várias. Era aquela velha história: quem não fosse conhecido não seria publicado. o mais velho da turma. mas como se tornar conhecido se não aceitavam publicá-los? Apesar do heroísmo de Lígia Averbuck. Os outros eram o próprio Jeferson. e era preciso desovar essa produção de algum jeito. como escreveu em uma reportagem Luiz Fernando Emediato. o carioca Júlio César Monteiro Martins. e muitos autores simplesmente novos. E justo aquela que lhe daria mais visibilidade: a antologia publicada pela Codecri. O primeiro livro que ele quis publicar foi uma história policial de Otávio Ribeiro. ela trouxe para o instituto e conseguiu publicar muitos autores considerados malditos. Em segundo. iria causar a Caio uma enorme dor de cabeça. aos 25 anos. Assim. Entre os seis autores escolhidos estava Caio. com 21 anos e uma arrogância típica da idade. Mais coisas precisavam ser feitas. ela não podia dar conta de toda a cena literária do Rio Grande do Sul. porém. Uma dessas antologias.instituto. gente que vinha se destacando pelo talento precoce. Pouco tempo antes. desconhecidos. bom jornalista. O mineiro Luiz Fernando Emediato era jornalista e . também participaria da antologia. entre elas Teia & Assim escrevem os gaúchos. viria uma antologia de doze contos de autores novíssimos. o nanico mais influente do país tinha decidido criar uma editora. com 28 anos (Caio tinha 27). Com uma visão aberta e democrática do que devia ser a literatura. Lígia Averbuck. que dificilmente conseguiriam espaço em outras editoras. Antônio Barreto. algumas pagas do próprio bolso. Domingos Pellegrini. que. Era uma maneira de divulgar a novíssima literatura do país: muita gente estava escrevendo coisa boa. a ser dirigida por Jeferson Ribeiro de Andrade. para combater a política conservadora das editoras. os autores começaram a se unir e a produzir antologias. ambas de 1976.

Barreto. trocavam impressões. Emediato. escrevia seus romances e contos. um burguês liberal. e Inéditos. antes de retomar as atividades de escritor. A princípio. "Jéferson era naturalmente revoltado. todos se revoltavam contra alguma coisa. por causa disso. ele editava suas revistas. numa bela definição dos envolvidos na antologia. tinha ganhado o prêmio Revelação de Autor e. revoltava-se contra o fato de. se correspondia com outros autores. enorme. da Codecri. e escreveu a ele pedindo um texto para a Inéditos. da editora Geração Editorial. e ruim à medida que fosse ficando mais velho. cujo talento tinha o mesmo tamanho. Pellegrini e eu éramos marxistas e queríamos derrubar a ditadura a qualquer custo. iriam se agravar com o tempo. revoltava-se naturalmente contra a trágica condição humana. Essas diferenças. da vaidade juvenil. aos 21 anos. que fundaria décadas depois. todos amavam a literatura. na reportagem que fez para a revista Geração. por causa do mau humor. ainda não ser considerado o maior gênio da literatura brasileira de todos os tempos". através de suplementos literários diversos. Havia muitas coisas na visão de arte dos . foram convidados para fazer parte da antologia Histórias de um novo tempo. ficaram amigos. eles continuaram a se corresponder. Um desses escritores era Caio Fernando Abreu. no entanto. as coisas tinham tudo para dar certo. Naquela época. e Júlio César. em 1977. Anos mais tarde. embora as semelhanças parassem aí. Os autores da antologia se correspondiam. ainda que derramando sangue. Caio mandou. Os dois vinham lendo os textos um do outro há algum tempo. escreveria Emediato. Aos 19 anos.editava as revistas Silêncio. diria que talvez Flávio tivesse razão. Isso até que o crítico Flávio Moreira da Costa o chamasse de Shirley Temple: surpreendente enquanto jovem. E. Caio. que logo foi fechada pela polícia. Luiz gostara de um livro de Caio. O ovo apunhalado. fora considerado por muita gente uma espécie de garoto-prodígio da literatura brasileira. infeliz.

A própria idéia de um manifesto. emergia da depressão pós-Europa. Caio usou de muito tato. aliás. uma das primeiras coisas que Caio leu do documento foi a frase: "contra O individualismo". ser contra o individualismo. por exemplo. Agora ele estava melhor. Sua única experiência com um homem fora na adolescência. Caio lera alguns desses textos. ainda gostava muito do pessoal que sairia na antologia. Ali parecia estar uma alma-irmã da sua. fazia um ano que ele estava fazendo análise (tinha conseguido um emprego na Folha da Manhã como crítico de teatro. o indivíduo. Que idéia. Além disso. Imagina. e nenhuma da primeira. mas que no final viram regras mesmo — a serem seguidas não podia ser agradável para Caio. Ora. Os seis eram os "paladinos do Oeste". mas graças a quê? A analisar o ego. ou opiniões. para dar a entender a Emediato que não assinaria o manifesto. O mineiro tinha escrito alguns contos de temática homossexual. Emediato enviaria a ele uma cópia do Manifesto Neo-Realista. Mesmo assim. escrevia os tais contos. com a mesma sensibilidade.companheiros com que Caio não concordava. Emediato tinha mandado. como se queira chamar. com isso. Afinal. Virgínia Woolf. sempre independente. e servira para mostrar que não era aquilo que ele queria. ele não era de forma alguma contra o individualismo. O eu. muito dono do próprio nariz. embora fosse casado e hetero convicto. e assim podia pagar as consultas) e. Mareei Proust. e achou que havia esperança. Suas influências literárias só falavam do indivíduo: Clarice Lispector. de um conjunto de regras — ou diretrizes. Em março de 1977. E esse era apenas o começo da confusão. pouco preocupado com o que pudessem pensar. em carta. como os chamaria na dedicatória de um livro anos depois Emediato. Assim. Caio ansiava pelo momento de conhecê-lo . por engano. criado pelo grupo para dizer ao mundo o que eles pensavam sobre literatura. lentamente. o preferido de Caio. duas vezes a segunda página do manifesto.

O filho de oito meses ficou com a avó. puderam se apertar as mãos e se olhar nos olhos. Só que Caio não gostou nem um pouco da tal edição. E saiu editado. mandava ele lamber sabão ou catar coquinho. Os moradores amigos se sucediam. Intempestivo. em quem não perdoava a vaidade juvenil. . O encontro com os outros paladinos aconteceu no lançamento da antologia. escreveu uma carta ao jornal. esgotada em quinze dias. e acabaram logo. Depois disso. A coletânea era um sucesso. como todos os textos. bem ao seu feitio. toda a parte em que ele falava de homossexualismo teria ficado de fora. poderia ver se suas expectativas se confirmavam ou não. Histórias de um novo tempo teve sua primeira edição. com trechos cortados. Implicou. a amizade se fortaleceu.pessoalmente. que uns dos outros só conheciam palavras escritas. e ele decidiu viajar com a esposa Sylvia. Tudo correu bem. Quatro deles — Barreto e Pellegrini não puderam ir —. O plano era visitar Caio em Porto Alegre — a relação entre eles sobrevivera aos entreveros com os demais paladinos e com O Pasquim — e depois ir até Buenos Ares ver Eduardo Gudino Kieffer e Jorge Luis Borges. a relação do grupo foi se esfacelando mais e mais. A grana era boa. no cara-a-cara. Luiz Fernando Emediato ganhou um prêmio literário da revista Status. A casa estava alugada no nome de Graça Medeiros. um chalé de madeira agradável. mas ela mesma não ficou tanto tempo lá. e o texto saiu. Agora faltava encontrar o resto do grupo. Foi visitar Emediato em sua casa. Mais dez mil exemplares saíram. Na sua cabeça. Nada de mal até aí. em Minas. coisas do gênero. para que coubesse no jornal. por exemplo. só trechos dos seus depoimentos tinham sido cortados. Caio morava na casa da rua Chile. de 20 mil exemplares. Nessa época. Os autores foram entrevistados pelo tablóide. E a resposta o deixou ainda mais irado: O Pasquim. A confusão aconteceu mesmo quando os quatro foram dar entrevista a O Pasquim. por exemplo. manifestando toda a sua raiva. no Rio de Janeiro. com um pátio bem grande. sob todos os pontos de vista. No final de 1977. em Belo Horizonte. com Júlio César.

não consigo mais ler essa porcaria. que fora com ele para a Europa.] tomar banho e ficar na sacada sem olhar os pêlos molhados do suor do peito do moço da construção em frente. para que assim sua liberdade e individualidade fossem mantidas intactas. claro. A relação entre Sylvia e Emediato não ia muito bem já há algum tempo. a minha polpa macia. que vontade.. esperando o quê? esperando quem? Aqui-e-agora. O que Emediato não sabia é que o amigo estava advogando em causa própria: em Porto Alegre. Caio decepcionado. esses pássaros idiotas sobrevoando essa ilha de loucos. O mito do artista sofredor parecia calar fundo no coração do escritor. do livro Pedras de Calcutá. na casa da rua Chile. vivendo e sangrando e amando. Caio disse a Luiz Fernando que o amava. dizer propriamente não disse. de garantir desde o começo que não daria certo. Caio teria vivência para escrever. Ele mencionara o assunto em carta para Caio. teria sua tradução literária em vários contos. que levaria Caio a se apaixonar e se declarar várias vezes na vida. A coisa não deu certo. es-pás-ti-ca. aqui-e-agora. em 1973. já na beira dos trinta anos.. de auto-sabotagem.. o olhou nos olhos. e sempre tinha gente visitando.como Caio e Sandra Laporta. como Emediato e Sylvia. Teria assunto. sequiosa de amor: [. nem lembro mais. Densidades Inimagináveis.. como fizera a Emediato. mas pegou suas mãos. e é claro: sofrendo bastante. espástica. Bem. cinco-seis-sete-oito: por favor. Emediato ficou constrangido. A sede de amor. que o aconselhou a não arrastar uma relação moribunda. Um exemplo é Até oito. Sylvia na cozinha. venha comigo. aqui-e-agora. Sua mania de se apaixonar por homens obviamente heterossexuais talvez fosse uma forma de defesa. O personagem é uma mulher. por favor POR FAVOR: crave seus dentes na minha polpa . proparoxítona é que tem acento na antepenúltima? o pôster de Burt Reynolds. Ah. O suficiente para que Emediato entendesse a mensagem. então.

Lygia Fagundes Telles. Caio sempre buscou em seus livros de contos uma unidade. se retirou do jantar junto com os amigos.maciaaaaaaaaaaaah. Júlio César Monteiro Martins. Não o perdoaria por não ser louco como ele e seus ídolos: Cazuza. Carlos Emílio Corrêa Lima. Caio estava entre os convidados. Mesmo depois da declaração de amor não ser exatamente bem recebida. entre vários outros. Mas a maioria de seus amigos estava lá de farra: Emediato. Caetano Veloso. era um dos oficialmente inscritos no evento. Edla havia organizado um jantar fechado. terceira coletânea de contos de Caio. Caio e Emediato continuaram amigos. Caio e Emediato ainda estavam muito ligados. Raduan Nassar. muito indignado com o que ele considerava uma discriminação. na época esposa de Flávio Moreira da Costa e uma das organizadoras do congresso. certinho demais para ser seu amigo. o bate-boca. declarações de amores impossíveis e congressos com escritores superestrelas. Quando o grupo tentou entrar no tal jantar. tanto temática quanto formal. Coletânea talvez não seja a palavra correta. 1977 foi o ano do lançamento de Pedras de Calcutá. do qual participariam apenas alguns escritores. Ferreira Gullar. Além das confusões com tablóides. Mas aí as coisas estariam mudadas: ele passaria a considerar Emediato careta demais. se escrevendo por vários anos. Mas em 1977. Seus . Caio iria morar novamente em São Paulo. Emediato e Carlos Emílio se lembram que Caio. Foram juntos a um congresso de escritores em São Paulo. Nos anos 80. Ney Matogrosso. Foi nesse encontro que Caio teve um bate-boca com Edla van Steen. Edla vetou. onde trabalharia com Emediato e o veria quase todos os dias. a escritora. Instalou-se a confusão. A nata da nata da literatura brasileira estava lá: Rubem Fonseca. Pelo menos era essa a sensação que Emediato teria.

As cartas continuam queimando. A partir desse livro. É o domínio da palavra escrita. Mas Deus morreu faz muito tempo. se jogará ao fogo. com textos escritos dos 14 aos 46 anos de idade. diz adeus e vai embora. daquelas em que uma criança entra dentro dessa roda. Uma ciranda. na década de 90. muitos textos considerados bons pelo autor ficaram de fora. Apenas já não somos crianças e desaprendemos a cantar.] Não nos falaremos. Mas eles não voltarão.. Caio se sairá cada vez melhor nesse aspecto. talvez a mente de todos: creio que quando esta última chama apagar um de nós terá de jogar-se ao fogo. O mundo está esfacelado. e depois mais um. são divididos em partes. o calor e Deus pudessem voltar de repente. depois se tornará cinza. por não se adequarem à proposta da obra que estivesse trabalhando no momento. Pensei que talvez o sol. para manter essa coerência. [. Eu tentei pensar em Deus. Pedras de Calcutá talvez seja o livro que marca o amadurecimento de Caio como escritor. e assim. Talvez se tenha ido junto com o sol. com o calor. O conteúdo do livro segue fazendo a biografia de uma geração: já não se acredita mais na revolução. . aquecerá os outros por mais alguns momentos. Cada livro tem uma lógica própria. Apenas um de nós treze fará o primeiro movimento. no mundo que estava tão diferente nos últimos tempos. diz um verso bem bonito. cada qual tratando de determinado tema ou enfocando os assuntos sob perspectivas específicas. como no conto Holocausto.. Como um ritual. o sonho acabou. artesãos. e outro mais. O indivíduo continua um estrangeiro em busca de um modo de estar no mundo. Muitos desses textos seriam lançados mais tarde. buscando sempre o termo exato. nos ideais esfacelados. em geral. não nos olharemos dentro dos olhos. sim — coletânea Ovelhas negras. de Pedras de Calcutá: Há bem pouco um pensamento cruzou minha mente. quando Caio organizaria a — aí. no momento exato em que a última chama se desfizer e alguém esboçar o primeiro gesto.livros. A relação com a palavra aproxima-se da dos poetas. lapidando e burilando.

logo que se conheceram. como disse Celso. Caio não deve ter ficado menos impressionado com os cabelos louros e os modos doces de Celso. e as coisas bonitas já não acontecem mais. aonde quer que fosse. O ser todo exalava algo de sexual. A presença do rapaz era forte. sem paz fora da própria terra. mais uma vez. Talvez o centro. Ainda assim. Caio se sentia um estrangeiro eterno. jaqueta. se cheirar. hora de levantar vôo. não havia quem não a notasse. elegantes. ele tinha emprego no jornal. que estava de volta a São Paulo. escrevia suas coisas para teatro. faltava algo. mas intenso — queriam engolir um ao outro.Seria bonito. encostado no carro. Em alguma brincadeira cujas origens se perderam na história. Em Porto Alegre. encontrava alguns amigos. uma nuvem de melancolia. Caio não podia esperar mais tempo. estar no olho do furacão. Alto. como se podia dizer sempre das relações de Caio. jornalista e agitador cultural. Um breve caso. viveram um apaixonado caso. cabelos escuros. E quem o via pela primeira vez. que ninguém era de ferro. pois os dois. O rapaz. Como seus personagens. estava aquele rapaz de calça de couro. Uma nuvem preta o acompanhava. os dois começaram a se chamar de . era Caio Fernando Abreu. mais tarde. como se uma tristeza infinita houvesse por trás dos olhos. pronto para partir corações e ter o seu partido outras tantas vezes. mas um homem de trinta anos de idade. irremediável. Era. muito magro. havia lugar para o humor. era Celso Curi. incapaz de viver nela. No meio de tanta paixão. Estranho estrangeiro. e de solitário também. e notava sua calça de couro preta. se tocar. que não era exatamente um rapaz. QUATRO Encostado no carro. gestos finos.

"Lasanha" é aquele homem bonitão. digamos. que se traduz em signos. por exemplo. — Alô. Permeando a obra e a vida de Caio. em alguma festa ou bar.R. palavras inventadas por Caio e por seus amigos que acabavam virando termos correntes no vocabulários desses grupos. J. pequena demais. os dois magros que nem papel. e as atrizes. há o humor queer. Caio e Maria Rosa se tornaram muito amigos. ou MVlen. ou Anthea. em um conto ou crônica. escrevendo. Caio chamava. cheinhas. e depois ligavam dizendo: — Ei. Semelhança menor não podia haver. a amiga Jacqueline Cantore de Marilene. trabalhando na revista POP. amigo e colega de trabalho de Caio em Porto Alegre. massudo. bebendo baldes de café e escrevendo. Ela se lembra dele ouvindo Velvet Underground o dia todo. Porto Alegre. brincadeiras e palavras próprias. podia ser utilizada por Caio no dia seguinte. como vai? Essa brincadeira de nomes não era exclusividade da relação de Caio e Celso. Caio tinha voltado a morar em São Paulo em meados de 1978. Ele mesmo podia assumir um nome feminino. — Olá. Valdir e Caio agora repetiam a dose. no bairro de Pinheiros. Maria Rosa fora esposa de Valdir Zwetsch. "Jacira". vou cobrar direito autoral. Gomide — ligava Caio. como Marilene mesmo. por exemplo. Uma expressão surgida na noite. Havia verdadeiros códigos. Mas a brincadeira pegou. E essas brincadeiras com as palavras não existiam só na maneira de chamar as pessoas. uma loucura. mais uma vez. Duran. forte. morou em primeiro lugar com a amiga Maria Rosa Fonseca. Okky de Souza. . junto com Vânia Toledo.Fraser e Gomide. é sinônimo de bicha. Fraser. se divertiam. tinha se tornado insuportável. Em São Paulo. e aí era Marilene falando com Marilene. uma espécie de humor próprio dos gays. na rua Capote Valente. "rodenir" eqüivale a coisa brega. por causa das atrizes Etty Fraser e Geórgia Gomide. Os amigos liam aquilo.

arrumado. uma qualquer-coisa que de repente lhe subia e ele não conseguia medir palavras. Quando estava bem-humorado. no dia-adia. ele e Celso já haviam se tornado grandes amigos. fino. pedindo mil desculpas. Por que. três dias trancado no quarto. sem botar a cabeça para fora para . De vez em quando saíam para jantar. a filha de Maria Rosa. mas nunca se lembrava de uma conta para pagar. com a organização — dizem — típica dos virginianos. Mas quando o mau humor resolvia dar as caras. todos se divertiam. mas a paixão havia passado. Lady Laura. que viria a ser um tormento a vida toda para quem dividisse casa com ele. ligava. sem rancores. é preciso que se diga. O mau humor. nascesse. Caio não conhecia tanta gente na cidade. um gentleman. E aí ele era elegante. gostava de tudo no lugar. digamos. E havia aquela estranha necessidade de ficar sozinho de vez em quando. e Fraser e Gomide correram perigo. No começo da estada. Continuavam encantados. e ela ia apresentando algumas pessoas. quando Laura. era melhor manter uma distância saudável dele. Uma distância.escrevendo todos os dias. havia um quarto sobrando. Celso morava sozinho em um apartamento na Cristiano Vianna. Quando Caio decidiu sair da casa de Maria Rosa. Caio ficava dois. tiradas mordazes e irônicas. Caio ajudaria a dar o primeiro banho. Por que não chamar Caio para morar com ele? Chamou. sanitária. Depois batia-lhe o arrependimento. Caio não era uma pessoa fácil de conviver. E foi aí que o encanto quase se desfez. Ele tanto podia aparecer com flores ou mandando as pessoas para aquele lugar. Tinha um gênio dos diabos. e quem ficasse no caminho levava chumbo. Cheio de manias. era absolutamente impossível prever seu comportamento. ele a chamava. um temperamento explosivo. era infinita. mil perdões. Caio topou na hora. Era mesmo difícil não se desentender com ele. vira-lata com rabinho entre as pernas. tarefas simples. a dificuldade com coisas práticas. Em 1984. murchinho. sua capacidade de fazer rir.

já dava para ver que os dois. Na última semana. O trabalho lá era uma delícia: na descrição de Caio. A diversão era tanta que a turma da revista acabou virando a . morando onde desse. botar o taro. falar de astrologia. Nada que o passar do tempo não resolvesse.nem dar um olá. se mudavam para a redação. a coisa não funcionava. se escrevia. como que lamentando. Caio saiu do apartamento. e abriu seu teatro. E houve tensão também: problemas de dinheiro que ficaram mal resolvidos. O que Caio fazia lá dentro. Depois de Celso. se precisava de alguma coisa. o bom humor nas alturas. Fraser e Gomide a vida inteira. Uma vez Caio botou as cartas para Celso. porque não podiam entrar no quarto e limpar. Celso devendo alguma coisa a Caio. Mesmo assim. Celso não sabia. vinte e cinco dias por mês o pessoal não fazia absolutamente nada. dormia. As faxineiras enlouqueciam. Celso também se mudou. E aí era legal de novo conviver com o Caio. Mexeu com a cabeça. Foi aquela choradeira. se estava morto. não davam certo. foi no OFF. e depois dele outros ainda. morando juntos. eram momentos apreensivos. em um palquinho de lxlm. Aí Caio podia contar piadas. Mas quando ele resolvia sair. Para Celso. destinado a apresentações ainda mais experimentais que as do palco normal. chorava. e os de fora sem saber se estava vivo. logo os dois estavam amigos de novo. de Caio. Uma das primeiras interpretações que Gilberto Gawronski fez de Dama da noite. Você nunca vai enlouquecer. só se divertia. E Caio prosseguiu sua vida nômade. foi a vez de Rofran Fernandes. com quem calhasse. Fraser e Gomide saíam com ele. o Espaço OFF. e comentou: — Tenho uma pena de você. Caio continuava o trabalho na POP. da editora Abril. um lugar para apresentações mais alternativas. e tudo ficaria bem até que a montanha-russa desse mais uma volta e ele ficasse down outra vez. Quase um ano depois de ir morar com Celso. pediam pizza por telefone e fechavam a revista.

Levíssima. que só viria a dar por terminado anos mais tarde. quando estavam mal. não viam o tempo passar. Dedicado à Paula. Lui. o sempre muito magro Caio resolveu pegar Adelaide no colo. o homem. Proust. vizinha à POP. que também trabalhou na POP por uns tempos. No terceiro andar do prédio da editora. Tempos depois. onde trabalhava Maria Adelaide. está entediado com a ligação da mulher. No meio de uma conversa aparentemente banal. quando tudo melhorava. ela optou por fazer um aborto. de brincadeira. Caio subia do segundo andar. Maria Adelaide escrevia o romance Luísa (quase uma história de amor). Uma vez por dia. em 1987. Ela. uma única vez. escreveu o conto Pela passagem de uma grande dor. e demais escritores que amavam ou que estivessem lendo no momento. . Um dia. dramaturga e autora de novelas. para o terceiro. Na época. e eles conversavam. e gostou do que leu: disse à amiga que ela tinha muito talento. na Abril Cultural. e o apelido ficou para sempre. que deu seu apoio. pelo menos. Lawrence Durrell. se divertiam. Caio foi um dos primeiros leitores. era levíssima.turma de Caio em São Paulo por uns tempos. de coisas leves. Outra amizade que veio daqueles tempos é com a jornalista Paula Dip. Maria Adelaide ficou amicíssima de Caio. que vai fazer um aborto. Tendo se descoberto grávida. hoje conhecida escritora. quando estavam bem. em que ele parece ansioso por desligar. Paula era mais certinha. trabalhava Maria Adelaide Amaral. falavam de coisas pesadas. pesava 42 quilos. que trabalhava na redação da revista Nova. Discutindo Katherine Mansfield. Apresentada por Celso Curi. A amizade perdurou mesmo depois que deixaram de ser vizinhos de emprego. do livro Morangos mofados. Contou a história ao Caio. menos porralouca que Caio e alguns de seus amigos. Caio se espantou: descobriu que ela não era magra. onde ficava a POP. na época. o conto descreve uma conversa telefônica entre dois amigos. e ele acabaria sendo muito protetor em relação a ela. ela menciona. A amizade seria selada por um episódio triste da vida de Paula. Levinha.

de vez em quando. Embora hoje seja praticamente impossível achar o disquinho. Embora em determinado momento da vida Caio tenha aderido à estética punk. Mas não quis ser o primeiro. Até hoje é lembrada por ter introduzido no país o punk rock. Mas era preciso "costurar pra fora" para sobreviver. Nas duas ocasiões em que namoradas suas engravidaram. Aqui diz que tem vitamina E. o medo da criança nascer deformada pelas substâncias era grande. A POP era a primeira revista brasileira voltada para a cultura jovem. Ele mesmo passaria pela situação duas vezes na vida. com a coletânea de 1977 que trazia músicas de grupos estrangeiros do novo gênero musical. em crônicas e entrevistas. — Tá bom. é que as gestações aconteceram em períodos loucos. como o pessoal da redação costumava brincar na época. Vai fazer teu chá. Costurava também. em geral ele não tinha muito em comum com os assuntos tratados na revista. A justificativa. — Hein? — Nada. também. ou para edições . ele. E para Caio. haviam sido grandes dores. em comum acordo com as garotas. na verdade. e ele fazia o que podia. a "grande dor" do título: o assunto. — Vou tirar amanhã — ela falou de repente. em que todos usavam drogas. — Não é essa que é boa para a pele? A aparente frieza esconde. de como seriam se tivessem nascido. — Abriu a mão e olhou as manchas branquicentas na palma.— Tá bom — ela disse. optou pelo aborto. dos filhos que não teve. E pensou que quando começavam a falar desse jeito era sempre um sinal tácito para alguém desligar. Caio falaria. para a revista Nova. assim como fizera com a hippie anos antes. ele dizia. na verdade. Para ele. A revista POP apresenta o punk rock é o marco histórico do gênero no Brasil. — Tá bom — ele repetiu. é incômodo e doloroso para Lui.

que isso ele fazia com facilidade. melhorar o lado visual. mais dolorosa ainda era para Caio. sobre a vida de John Travolta. E já chega falando grosso. o que bastou para que este estourasse e abrisse a torneirinha de indignações. em dias de fechamento. pessoal que estivesse com o horário mais folgado. A formação dele tinha sido feita antes de 1964.especiais. O diretor marca a reunião para nove da manhã. a parte prática e pragmática da coisa. — A gente não deve colaborar com a alienação. mas só aparece às dez e meia. "emprestava-se" pessoal de outras redações. eu não estou. ou o que viesse. Caio era contratado da POP. e dos prazos. ele tem uma pequena briga com o diretor da revista. mas fazia free-lances para vários outros veículos. e elas adoravam ler. ou como cuidar de bebês. então estavam indo muito mal. a Abril. O diretor chamou Caio de obsoleto. se era chata de agüentar para qualquer um. Não a parte de escrever. mas a questão dos horários. E falou. E disse mais. Tinha duas irmãs adolescentes. Aquilo foi demais para Caio. — O leitor não gosta de ler — justificou o diretor. As penas continuaram voando. dizendo que a revista está péssima. Caio não concordava. enfim. o diretor comentou que os títulos de Caio pareciam livro antigo de História. havia grande rotatividade de jornalistas. Em fevereiro de 1979. se o chefe achava que cultura e leitura eram coisas obsoletas. — E se você está a fim de colaborar com o processo de castração mental da juventude brasileira pós-64. a parte desinteressante de qualquer emprego. o trabalho jornalístico era penoso para ele. Sendo todas as revistas da mesma editora. ou culinária. Sempre a contragosto. aumentar as fotos. e de lidar com chefes. . de certa forma. Era preciso reduzir os textos. Em certo momento. por exemplo. e muito bem. supostamente o público-alvo da revista.

Caio resolveu ir a Olinda. cansado. atravessar Capibaribe. Caio explica a mudança de planos: "O que aconteceu? Bem. olhar. A literatura andava meio abandonada há um tempo. depois de muito suar e gritar. Logo no início. meu deus? Meu caro Garcia de Oliveira. olhando a briga. tropeçar em cantador. Caio estava nervoso. todo mundo em volta quieto. Se esperava notícias do esturricante calor nordestino. Aí rodei por lá um dia inteiro. jornalista mineiro radicado em São Paulo. percebi que não conhecia vivalma (ai esse português castiço!) na cidade. bonito. ele concluiria em carta à mãe. Nada de Olinda: a carta vinha de Porto Alegre mesmo. José Márcio deve ter levado um susto. olhar. como na fábula do lobo e do cordeiro: contra a força não há argumentos". dessa coisa de ganhar a vida. As férias vieram. Ana Matos que me perdoe). comer tapioca. olhar — olhar o quê. onde teria a paz necessária para escrever. No fim. idéias ambiciosas. de belas praias e malemolências. e não podia deixá-las morrer só por causa dos trabalhos jornalísticos. Andava cheio de idéias. Estressava-se. passar o dedo com desgosto em cima do quilo de poeira dos móveis. em que contava o episódio.— Minha mãe é professora de História. e ele ia aproveitar o período de folga para retomála. "Afinal. olhar. me deu uma solidão tão grande que. E toca subir rua. voltar para o hotel. Uma semana depois de suas férias começarem. eu FUI até Olinda. em retirante. menos de uma . lugar calmo. assistir filmes como Iracema ou O Super-Macho ou A ilha das cangaceiras virgens (descobri que Helena Ramos dá de dez em qualquer Sônia Braga. ele escreve uma carta ao amigo José Márcio Penido. descer rua. Talvez estivesse precisando de umas férias. sem encontrar lugar pra ficar. onde me instalei num hotel de oitava: o Suíça Hotel. na Rua do Hospício —juro! Solucionados os problemas de acomodação. mas não podia. Acabei indo pra Recife. Caio calou a boca. louco para dar uns pontapés nas pessoas e dizer umas verdades. eu estudei muita História e se a juventude de hoje não sabe nem quem foi Getúlio Vargas é porque não se estuda mais História.

Cita um poeta: "Caminante. a família tinha se mudado para Belo Horizonte. irmã da Sônia Braga. entre outros questionamentos. Ele cresceu com asfalto nas veias. quando Caio volta a Porto Alegre para mais um período de férias. porque José Márcio. que tinha morado em Santiago até ficar adolescente. mas nem lá as coisas pareciam melhores. só morara em Cambuquira até os três anos de idade. Mas essa concepção era fruto da cabeça romântica de Caio.) Em Porto Alegre. Sente-se solitário. ele e Caio eram muito próximos. Caio. amiga de Caio e de José Márcio Penido. Ele está deprimido. a situação era diferente da de Caio. Mais que a doença física. e visitava a cidade sempre que podia. interpretado por Sônia em Dancin Days. foi procurar suprir essas carências na cidade mais que conhecida. mas nem disso está tão certo. responde como pode. cheia de interrogações. o mineiro funcionava como uma "referência viva" de São Paulo para o gaúcho. o amigo José Márcio Penido também passava por suas próprias crises. Passei uma noite lá. na verdade. ele diz querer escrever. Peguei as lãs e peles e vim pra cá. Pero se hace camino ai andar. do . José Márcio de Cambuquira." Fala da dor que é escrever. Em São Paulo. Na época. de volta da praia. a amada e odiada Porto Alegre. Nordeste a 30 graus e Rio Grande a 2 graus negativos. Não há o que ensinar. Caio a chamaria sempre de Ana Matos por causa do personagem Júlia Matos. Caio volta à vida de jornalista em São Paulo. no hay caminos. Caio achava que se entendiam porque eram ambos de cidades do interior: ele de Santiago. Ao final do ano. Zé escreve uma carta triste para ele. da dor que precisa ser mexida e remexida. Caio pegou uma gripe violentíssima — resultado da mudança brusca de temperatura. depois disso. " (Ana Matos era Ana Braga. ninguém absolutamente que se importasse com ele. Saiu do Recife porque não havia ninguém lá. o que aprender.semana depois. arrumei tudo e voltei pra Sampa. dúvidas. Depois das férias. a cabeça de Caio não está legal.

passeia um pouco. somente então. Caio já era. peras pálidas. E o resultado dessa jornada é um texto. . e ele não podia fugir dela. para poder terminá-lo. quatro quilômetros. considerado um guru de sua geração. Um morango mofado — e esse gosto. Às dez da manhã. sua maneira de encarar a arte com seriedade. enquanto terminava de escrever o livro. " São sete da manhã. Era um paradoxo: Caio não estava ensinando ninguém. onde trabalhava. um belo texto. do suicídio. Nenhuma melancia escancarada. nenhum morango sangrento. da auto-anulação: um sentimento de glória interior. Está na hora de cozinhar o arroz. macilentas maçãs verdes. sempre presente em minha boca? Antes da publicação de Morangos mofados. Faz mais alguns exercícios. o danado ainda custou a sair: ficou dois anos na Nova Fronteira. embora involuntária. começará a escrever. volta para casa. essa situação atingiu seu auge. até que Luiz Schwarcz. Então. descansa um pouco. Aprendiam sua maneira de ver o mundo. nenhuma pitanga madura. mergulhado nas palavras. e de transformar grandes dores em grandes textos. Essa expressão ê fundamental na minha vida. de forma espiritual e ao mesmo tempo intensa. mas as pessoas aprendiam com ele. E depois de pronto. vai à praia. Caio acorda. na época na Brasiliense. Depois da refeição. que come com calma. O dia todo submerso. de certa forma. Com Morangos mofados. estava em Caio. dedicado a José Márcio Penido e que daria título ao próximo livro de Caio: o conto Morangos mofados: Na parede a natureza-morta com secas uvas brancas. na gaveta. interveio: se o contrato fosse cancelado. nenhuma manga molhada. às vezes falando sozinho. A vocação para guru. Corre um pouco: três.quanto é preciso sangrar se se quiser produzir algo bom. Caio pediu demissão da Nova. Em 1981. senhor. "A única recompensa é aquilo que Laing diz que é a única coisa que pode nos salvar da loucura.

Ele deixa as coisas em aberto. por mais triste. 0 gosto mofado de morangos tinha desaparecido. o último conto. termina com uma esperança. Morangos mofados. teria sido inspirado na primeira experiência . sucesso de vendas e de crítica. as emoções de uma época. aquele escrito na praia. por mais melancólico. observando os canteiros de cimento: será possível plantar morangos aqui? Ou se não aqui. Que sim. Achava que sim. entre caminhadas ao sol e porções de arroz integral. as mãos postas sobre o sexo. Caio. Sargento Garcia. supondo que setenta fosse sua conta. do desencanto de uma geração. Mas seu livro. absolutamente claro. para deslizar as costas pela sacada até ficar de joelhos sobre os ladrilhos escuros. é um atestado de que o mundo pode dar certo. deixa apenas fotografadas. absolutamente só enquanto considerava atento. Como uma dor de cabeça. em 1982. de repente. que finalmente o lançou. Abriu os dedos. e tomar uma posição a respeito dele. que vira a revolução acabar antes mesmo de ter qualquer chance de dar certo. o livro virou clássico instantâneo: oito edições tiradas em seqüência. E agora que uma nova década começava. Apesar dos pesares. procurar algum lugar em outro lugar? Frescos morangos vivos vermelhos. Mas era um homem recém-nascido quando voltou-se devagar. Sim. mas era realmente um pouco assim como se ouvisse as notas iniciais de A sagração da primavera. num giro de cento e oitenta graus sobre os próprios pés. E sempre aquele rótulo ajudando o livro a vender: o retrato de uma geração. era hora de olhar para trás e rever o momento que passara. Sim. Publicado. em seu livro.em um mês ele publicaria o livro. Um dos contos mais marcantes do livro. Estava na metade. apesar das ilusões perdidas. Caio pediu para rasgar o contrato e entregou o texto à Brasiliense. no ar. Absolutamente calmo. é hora de começar de novo: Poderia talvez ser internado no próximo minuto. não toma essa posição. Tinha cinco anos mais que trinta.

não voltaria a dormir. alguém gritando alguma coisa. o escolhido para viver o sargento seria o ator Marcos Breda. que não devia abrir os olhos nem sentir cheiros para sempre surda cega muda naquele mais de dentro de mim. a própria Luiza. num domingo à noite. em 1995. e Isadora. a mulher que aparece no conto.. Como o conto é dedicado à Luiza Felpuda. em 1998. Embora eu soubesse que. "Me jogou em cima da cama. para sempre e sempre assim. tentando apanhar um farrapo de voz na plataforma da estação cada vez mais recuada. Quando tinha 16 anos. porém. ele foi seguido por um homem. A revelação. feito bicho numa jaula fedida. O homem o levou a um lugar horrível. mas longe. ou dolorida: . entre grades e ferrugens quieta domada fera esquecida da própria ferocidade. uma vez desperta. como os reflexos escondidos. O conto traz em si a história dessa descoberta: [. completamente sem romantismo". porém. que nenhum ofuscamento se fizesse outra vez.homossexual de Caio. nojento.] barulho de copos na cozinha. conta Caio. o portão azul. tão longe como se eu estivesse na janela de um trem em movimento. Ao menos foi isso que ele contou em entrevista à Marie Claire. porque devia ficar enjaulada amordaçada ali no fundo pantanoso de mim. com lençóis sujos e um rolo de papel higiênico na cabeceira.. a madeira descascada da porta. nada tem de perigosa. travesti de Porto Alegre que mantinha uma casa de prostituição. o vidro rachado. os quatro degraus de cimento. como uma língua estrangeira. como uma língua molhada nervosa entrando rápida pelo mais secreto de mim para acordar alguma coisa que não devia acordar nunca. o sargento Hermes. no centro da cidade. Caio transforma o tal homem em um sargento. O tal puxou papo com ele e marcou encontro para três dias depois. Quando Tutti Gregianin decidiu filmar o conto. morrendo de curiosidade. Caio foi. é possível que o lugar a que o escritor se refere seja a casa dela. No conto. Mesmo sem saber direito o que iria acontecer. em Porto Alegre. sem conseguir juntar os sons em palavras. "Me fez segurar o pau dele e eu saí correndo".

Embora paulista. Uma vez desperta não voltará a dormir. e depois Jacquéline Cantore. Cida ia bastante a Porto Alegre nos anos 70. pensei confuso. Tinham se conhecido no início da década de 80. olhando as casas e os verdes do Bonfim. Eu nunca o tinha visto em toda a minha vida. Morangos mofados consagra Caio. quando ela. amiga de tempos antigos. 0 bonde guinchou na curva. chamando Cida para almoçar. O que é descoberto é um caminho. atores. sem saber para onde ia. Em São Paulo. ou bater papo. Subi correndo no primeiro bonde. As vezes. Ele já rodava bastante antes mesmo do livro sair. ao ficar fascinada com o conto Eles. então. ela é que chamava. cheio de uma alegria tão maldita que os passantes jamais compreenderiam. decidi. por exemplo. Pedi passagem. de O ovo apunhalado. Caio dava um grito do quintal. De seu quintal. Como guru involuntário de uma geração e. Meu caminho. sem esperar que parasse. Mas não sentia nada. Eu não o conhecia.ela traz. mudando de emprego e de casa como quem troca de par de meia. sucesso de crítica e público. estiquei as pernas. todos querem ser seus amigos. meu caminho não cabe nos trilhos de um bonde. cantora. fã de Caio. artistas. Amanhã. na verdade. Às vezes. por causa do relacionamento que mantinha com uma pessoa de lá. Escritores. que tem horror às rodinhas literárias. também. Caio fora morar numa casinha de vila na Melo Alves. Na casinha da Melo Alves. debruçado na janela aberta. ainda que maldita: Queria dançar sobre os canteiros. Ela era uma garota jovem. uma forma de viver. como escritor respeitado. sentei. podia enxergar o apartamento de Cida Moreira. Caio circula bastante por essa época. vieram morar Orlando Bernardes. qualquer coisa assim. Ficou sozinho por um tempo. Porque ninguém esquece uma mulher como Isadora. repeti sem entender. amanhã sem falta começo a fumar. Em 1980. Era assim. escrevera uma carta e entregara junto com . a libertação. E ninguém me conhecia. Embora diga aos amigos que prefere se resguardar.

então. aprontava: ameaçava se matar. As aulas ajudavam-no a sobreviver. Mas. se sentia bem. guardavam cartas. Mesmo a moto. Gostava de dançar. Caio ficou muito abalado. O escritor criava expectativas em torno das pessoas e das situações. e é claro que suas idealizações iam muito além da realidade. Ele não dirigia carros. em Porto Alegre. Só que em 1977 Bertoni morreu em um acidente de carro. em Santiago do Boqueirão. Uma verdadeira drama queen. Em Porto Alegre. As tentativas de suicídio de Caio nunca foram levadas muito a sério por seus amigos mais antigos. Em novembro de 1981. muito menos. e depois a substituiu por dança. chamavam o lugar de O Inconsciente. Ele ligou para agradecer e desde então começaram a se corresponder e ficaram amigos. Caio tinha também uma moto. Ficaram um ano e meio na casa. se trancava no quarto dias e dias. suplemento literário publicado pela editora Brasiliense. por causa disso. que adoravam. Intensamente. então. pois foi exatamente no final de 1977 que ele voltou para o Sudeste para trabalhar na POP. Caio. Embaixo da escada. Ele sofria muito. Caio retomou a psicoterapia. Caio então é chamado para substituí-lo e aceita. inteiro. do teatro que Caio montava ao redor de si mesmo. Ônibus. Caio não chegava perto do volante. Talvez essa perda tenha apressado a ida de Caio para São Paulo. fizera dois anos de psicoterapia com Mário Bertoni. porém. da cena. jornais. ficava muito tempo sem ser utilizada. Em São Paulo. e ele sempre se frustrava. . ele odiava. Caio Túlio Costa sai da edição do Leia livros. o pai o deixava dirigir seu carro de vez em quando. sempre que tivesse platéia. Caio preferia táxis. em Porto Alegre. quando podia pagá-los. ou caminhar. ou mais íntimos: era parte do show. E isso muitas vezes o levava àquelas depressões intermináveis. Mas era assim que ele gostava de viver. Não que ele gostasse de estar deprimido. Na época da casa da Melo Alves. teatralmente. às vezes. e fazia o que podia para se sentir bem. Chegou a aprender. Em São Paulo. talvez. papéis.um presente na casa dos pais de Caio.

para estar perto.Morangos mofados já estava terminado. com São Paulo e Porto Alegre. Caio se muda para o Rio para ajudar a cuidar. que sabia o quanto era sedutora. quando o livro estoura. Ela era muito amiga de Graça Medeiros. Pede a Caio: — Ei. aos 31 anos. Ana Cristina está deprimida. Caio decide se mudar para o Rio de Janeiro. de novo. na beldade. Caio estava muito próximo da poeta Ana Cristina César. O Rio de Janeiro. e é um sucesso. Caio Graco. que a levou a se jogar da janela de seu quarto em outubro de 1983. Ele tinha essa relação de amor e ódio. por que você não escreve outro livro na linha sexo. . uma vez longe delas. Ana era bela. que não só saiu da editora. na deusa. Além de muito culta. que por sua vez era grande amiga de Caio. mas não conseguia morar lá por muito tempo. Caio conta que. das folhas dos plátanos. Uma vez nelas. das coisas a se fazer. e assim o círculo se completou. não as suportava. Em entrevista ao Estadão. grande ensaísta e poeta. ele podia — e devia — voltar ao trabalho jornalístico. da Brasiliense. E esse pode ter sido um dos motivos que contribuíram para a depressão. sabendo que a situação de Ana é delicada. mas as pessoas. ele amava. Seu livro A teus pés foi um sucesso. ou de ódio e dependência. Em maio de 1983. Nessa época. mais uma vez. sentia falta de tudo — dos amigos. Mesmo assim. Tão ofendido ficou. estavam interessadas no personagem Ana C. belíssima. violentíssima. Todos se deixavam hipnotizar por ela. Graça cuida dela. como escreveu um livro totalmente diferente de Morangos mofados. Caio ficou ofendidíssimo. São Paulo estava cansando. drogas e rock'n'roll. o livro que pouca gente entendeu. A beleza. Mas ainda é maio. Era o Triângulo das águas. passou a ser uma maldição. da qual Ana era muito consciente. ele tentou. mais que interessadas nos poemas. Imagina se ele ia se entregar desse jeito ao mercado. vê ali um nicho interessante. e quer repertir a dose.

Ana vai visitá-lo. somos mais por uma terapia bageense. naturalmente... ia mais ou menos nessa linha: ". ele adorava um bom churrasco. uma tirana do lenço. Something like that. Ainda que amasse muito Ana Cristina. Com toda minha gripe. Caio vai à festa. Era aniversário de Ana Cristina. Porque tá uma crise sensível demais.[. Se ele a usava para sair de suas próprias depressões. por vezes. E lúcida. Põe mal nisso. Há pelo menos um outro. tipo te fresqueia. Caio às vezes gostava de falar. Nunca vi ninguém tão frágil. certo dia. corre uma história em que ela. onde moraram Rita Lee e Raul Seixas. como os amigos sabiam. Imagina uma alface (ela) ao lado de uma costela gorda (eu). dança uma chula. prenda. com as depressões de Ana. consumida. te joga nua no açude na hora da sesta. come uma costela gorda. zombando de si mesmo: — Fala grosso. depois que começa a ser sugada.] Parece Isabelle Adjani em Nosferatu. melhor ainda. toma uns mates. eu era um poço de saúde ao lado dela. MAL. Ele descreve o encontro em carta a Jacqueline Cantore." A terapia Fala Grosso Veado. veado! E a terapia que ele imaginava para Ana C. "Ana C. mas troppo morbo. dá pra entender? Recomendei uma brahma na esquina com uma coxinha e um dreherpra rebater. por mais natural e integral e macrobiótico que Caio pudesse tentar ser. trêmula.. têm uma idéia de terapia para Ana C. e em seguida passa-lhe uma descompostura. . Se houvesse um whisky pra completar. e estivesse no Rio em parte para ajudar a cuidar dela. Magra. chorosa. Caio se irritava.. mas é bem possível. é algo a se conjecturar. Não sei contar direito. E esse não seria o único estremecimento entre os dois. a situação entre os dois não era sempre um soneto de amor e paz. ameaça se jogar da janela. no hotel em Santa Teresa que Caio escolhe como moradia — um hotelzinho hippie. em crise. Caio a segura. sempre irônico." Caio e Graça Medeiros conversam. relatado por Caio em carta a Jacqueline Cantore. linda.

desconfiadas. Além de Graça e Ana. Na volta. É o último encontro dos dois. No ouvido de Caio. por favor. — Então tchau e feliz aniversário. na época esposa do compositor Carlos Lyra. De repente chega L. está na festa com o namorado. em setembro. obviamente. — Então. No aniversário de Caio. o Caio. só isso. retire-se imediatamente. — Sinto muito. Ana Cristina vem falar com ele. sem ressentimentos. T. ele me disse. amigos do Rio. Caio vai ao banheiro. As pessoas em volta olham. — Vocês vão se ver mais? — Marcamos um encontro amanhã. que ficou famosa em programas humorísticos na TV pelo bordão "Brasileiro é tão bonzinho!". Não é a última vez que os dois se vêem. Graça Medeiros leva Ana até o hotel em Santa Teresa. T. — Você sabe que ele vive com L. para ver se os dois voltam a se entender. Outras pessoas aparecem no hotel. — Você está me expulsando. com quem vive há quatro anos. no livro de cartas. Caio tem muitos amigos no Rio.onde conhece um rapaz — identificado apenas pela inicial T. mas vou mesmo. L. vamos embora? Eu não estou gostando nada disso — disso sendo.? — Achei ele ótimo.. Ela achava o máximo que ele tivesse se mudado para um hotel para . — Me permite um conselho? — Pode ser. Três horas de conversa.. há QUATRO anos? — Sei.: — T. — Estou. — Não vá a esse encontro. A situação se ameniza. Caio engata uma conversa animadíssima com o tal T.. Como a atriz Kate Lyra. — O que está acontecendo entre você e T. Não se importando muito com a longevidade da relação. se despede com uma bomba: "te encontro amanhã às quatro no Amarelinho".

Stendhal. é claro. ele e seu texto eram uma coisa só. começou a lê-los por causa do Caio. este respondeu: — Caio. E é claro que o editor não levava . de uma cantora de rock russa. entre outras coisas. o próprio. e ele adorava o jeito dela. se interessava por filosofia. organizadíssimo. que adorava ironizar a origem do amigo. praticamente da família. quando foram chamados para escrever uma novela com José Wilker. No caso de Pedro Paulo. Proust também. Tanto que Mário Prata e Caio. a mesma falta de cisão que havia em sua própria personalidade: a biografia de Caio não era separada da obra. de alta sociedade. Era louco por D. por literatura. engraçado. adquirisse tanta cultura. Não era futilidade. Kate era inteligente. Ele gostava de criticar os amigos que começavam a ganhar dinheiro: dizia que tinham se vendido ao sistema capitalista. e. que nunca tinha dado grande atenção aos beatniks. governanta. E Pedro Paulo. Conversavam de literatura — o lado pop escondia a conhecimento profundo que Caio tinha dos clássicos. editou os livros de Caio na Nova Fronteira. além de linda. achava muito fútil todo aquele ambiente de coluna social. A novela acabou não se concretizando. que conhecera o escritor por indicação de Lygia Fagundes Telles. Machado de Assis. Pedro Paulo. Ficaram amigos imediatamente. que vinha de família tradicional e endinheirada. Havia muitas afinidades entre os dois. nem parece que você leu Proust. era frivolidade. e Caio adorava visitar Pedro Paulo em seu apartamento no Leme. Em uma das ocasiões que questionou esse lado de Pedro Paulo. espontâneo. que ao saber da visita do escritor já preparava o conhaquinho que ele adorava.escrever. Maru. Adorava também Carlos Henrique. Outra amizade importante é o editor Pedro Paulo de Sena Madureira. era amigo de Caio. Aí Caio entendeu. porém. Madame Bovary era frívola. Mais que editor. Um dos aspectos do ambiente que permitira que Pedro Paulo. criaram um papel só para ela. companheiro de Pedro Paulo. mas a amizade perdurou. via nele a mesma unicidade. Proust. Flaubert. Caio não inventou um personagem.

mas como ainda não havia. na época. Levou o material para Pedro Paulo. Hoje em dia. como é que não tem título? Chove nas três histórias. a Câncer. até por ser um livro construído sobre uma estrutura astrológica. ele ficou mais que feliz com sua estatueta. — São três? Triângulo. A primeira das três novelas. três novelas. Pela noite. confere uma quantia em dinheiro aos ganhadores. e no Triângulo. se refere ao signo de Peixes. Um título estava pronto. e as comparações com Morangos sendo deixadas de lado. A primeira novela. a começar pelo tipo de texto. sabia o que estava fazendo. Caio teria ficado muito feliz em receber uma quantia assim. O excesso de palavras do livro. narra a . — São os textos das águas — emendou Caio. O triângulo das águas difere em tudo de Morangos mofados. Dodecaedro. São três signos de água. Quando Caio entregou O triângulo das águas.a sério toda aquela mise-en-scène. Dodecaedro. sobre os arquétipos dos três signos do elemento água. o livro estava pronto. Caio era um escritor que não dava trabalho aos editores: entregava o texto praticamente pronto. Morangos tem um realismo que as novelas do Triângulo não buscam. Só faltava o título. por exemplo. — Triângulo das águas — completou Caio. a segunda. é uma escolha de Caio: ele busca esse jorro de água. a Escorpião. Tinha grande domínio e preocupação com a forma. além de prestígio. o prêmio. A terceira. O marinheiro. O triângulo das águas causou estranheza. que disse: — Caio. Por todas essas diferenças. Mas assim que o livro foi sendo absorvido. esse fluxo de palavras. em contraste com os contos mais diretos de Morangos. em Morangos. são contos. a situação melhorou: o livro ganhou o Prêmio Jabuti. um dos mais prestigiados do país.

o ser humano está sempre sozinho. Combinam de se ver de novo. o aviso guardado para sempre na memória das paredes: — Abraça tua loucura. para fugir das dores e paixões do mundo. era a cidade fictícia a que Caio sempre se referia. uma mensagem. Tocou de leve na minha mão estendida. inquieto. outra vez. na novela Pela noite. sem parceiro fixo. para lhe trazer a boa nova. em São Paulo. O dono do apartamento onde ocorre o encontro arma um jogo de sedução. enquanto ouvia. e as emoções que atravessam em determinada noite: as paixões e tendências e medos de cada um vão se desvendando aos poucos. em uma sauna gay. Ele vive uma tumultuada vida amorosa. solitário. por causa de um personagem de Cortázar. suas palavras jorram incessantemente. A segunda novela. que vem como um profeta. e o outro é Santiago. antes que seja tarde demais. O marinheiro. também. imóvel. durante todos os dias de muitos meses e anos. E ao contar-se a história de cada um. através da vida do homem que decidiu se encerrar em casa. Seus olhos tinham a cor do mar. Tinham a cor exata de quem. por causa do personagem de Garcia Márquez. E provavelmente foi também o primeiro texto de um autor brasileiro a falar da doença. Conquistara esse verde. revelando suas culpas. um jogo em que eles assumem outras identidades. depois de ter sido noivo de uma mulher por seis anos. O triângulo das águas foi também o primeiro livro de Caio a mencionar a aids. em que ele é Pérsio. como a Macondo de Garcia Márquez — se reencontram anos e anos depois. Pérsio fala e fala. e que em certo dia recebe a visita de um marinheiro. conta-se como. suas inseguranças. esse vagar. Dois amigos de infância. [. olhou detidamente o mar.história de doze amigos juntos em uma casa. por muito tempo. aborda também o tema da solidão. vindos do Passo da Guanxuma — muito parecida com Santiago. todas as horas.] Não estava triste.. mesmo cercado de amigos. seus medos. E se foi.. mesmo assim recomecei a chorar. enquanto Santiago. foi para São .

uma doença devastadora que só atingia homossexuais. Essa estabilidade. pelo medo. A partir daí. e sobre como ele agia no organismo. E contaminados estavam todos. Desde o início da década de 80. na verdade. Três anos depois de acabar. ele não a entende. a vida em comunidades. Quando mais pesquisas foram feitas e se descobriu que a contaminação também podia atingir heterossexuais. Caio estava no hotelzinho em Santa Teresa. o marco da chegada da aids foi a morte do estilista Markito. embora ainda envoltas em suspense. A vida do pessoal egresso da contracultura estava mudada para sempre. a paranóia só aumentou. ninguém podendo entrar nem sair do hotel. sobre o vírus causador da doença. ao seu final. e talvez a inveje. para a qual não havia cura. começou-se a achar que a doença tinha algo a ver com esse "comportamento" ou com essa "identidade" homossexual. E no Brasil. marcada não só pela doença. Pérsio não a tem. a aids. . duas ou três vezes. suspense derivado. Como a única coisa em comum que as primeiras vítimas tinham era o fato de serem homossexuais. Quando soube da morte dele. lamentando a morte do estilista. Aqueles que tinham experimentado o amor livre. Ele e outros hóspedes ficavam bebendo e conversando. já se ouviam rumores sobre o que a mídia passou a chamar de "câncer gay". da ignorância: pouco se sabia sobre as formas de contágio. as drogas. a década de 70 chegava. é ele que menciona. Cheio de culpas e medos. realmente. tudo a que tinham direito. uma chuva abundante caindo. estavam agora condenados a viver sob a paranóia da contaminação. a partir do momento em que se diagnosticou o vírus. essa tranqüilidade em lidar com a própria identidade sexual. de certa forma. o estrago já estava feito. aos drogados. mas também pela abertura política e pelo desvanecimento dos sonhos da contracultura. castigo aos gays. As notícias chegavam rápido ao Brasil.Paulo e ficou dez anos junto de um homem. a todos que levavam uma vida libertária. A aids parecia castigo divino.

A feira. que volta do exílio exibindo sunga de crochê nas praias do Rio. havia a aids. ela ficava sussurrando para ele: você é Quixote! Você é Quixote! Agora. porém. ela se matou. Infelizmente. Ele viveu os anos 80 com a mesma intensidade com que vivera os 70. do fim da década de 70. congelando sua Imagem nos doces anos em que se podia pensar em mudar o mundo. Acompanhava o teatro. Ao lado de Caio no lançamento de um de seus livros. ítalo Moriconi escreveu que a morte de Ana foi um marco. e um orgulho de seus habitantes. para algumas pessoas. Cazuza. . em barracas ao ar livre na praça. e Caio foi a Porto Alegre lançá-lo na Feira do Livro. por causa de sua barbinha. roupas sempre escuras. O sangue de uma poeta. também. era entusiasta das novas manifestações. Em outubro de 1983. calça e jaquetas de couro. dos Titãs. e todos os anos a escolha do patrono da feira causa grande expectativa na imprensa e nos círculos literários locais. ou não pudesse aceitar a mudança. ou a um dark. a música. como Fernando Gabeira. é uma tradição em Porto Alegre. nos novos acontecimentos. Além de reunir muitos escritores. A escritora Clarice Lispector o chamara de Quixote. que vão lançar suas obras e autografá-las para o público. madrinha da noite. é a grande oportunidade de comprar livros a preços mais baixos que no resto do ano. por exemplo. E do grupo teatral Asdrúbal Trouxe o Trombone. Era fã. o medo dela era tão parte dos anos 80 quanto qualquer música da Legião Urbana. O triângulo das águas já tinha sido publicado. Caio também escolheu mudar. o escritor assemelhava-se mais a um punk. por exemplo.Em seu perfil de Ana Cristina César. Estava ligado no seu tempo. Há muito já não era o hippie de cabelos longos. Porque era mais ou menos isso: mudar ou morrer. A maioria escolheu mudar. Como se Ana não aceitasse. Adorava Marina Lima. parecido com Jesus Cristo. Muitas editoras organizam seus lançamentos em função do evento em Porto Alegre.

a dor que ela sentia. de coincidências inexplicáveis. que estava na feira acompanhando Mario Quintana. Sempre que Caio estava em Porto Alegre e ela aparecia na cidade. onde se recuperava de outra tentativa de suicídio. todo mundo transpirando. Talvez não imaginasse que ela conseguiria. ao gesto máximo do desespero. "Tinha um toldo. e o Mario Quintana lindo. Bruna abriu a bolsa e disse: — Olha que estranho: quando eu estava saindo de casa para pegar o avião. no sétimo andar. mas. Jogou-se da janela da casa dos pais. mas quem? Os amigos em comum com Ana Cristina estavam todos no Rio. Mas talvez Caio não imaginasse que a poeta chegaria ao ponto extremo da dor. e a Bruna linda. jantar. quando se trata de histórias envolvendo o Caio. Precisava dividir o sentimento com alguém. mágica". você me veio na cabeça dizendo 'Bruna. eu vim aqui te contar que a Ana se matou. De qualquer modo. Não é incomum. o jornalista José Castello viajaria para a Europa no mesmo avião de Caio. dos quais Caio gostara muito. E assim a notícia foi dada a Bruna. — Bruna. O estado emocional de Ana. que o entrevistaria anos depois. passear. Ao menos na versão que Caio contou para o jornalista Eduardo Sterzi. Caio recebe um telefonema: Ana Cristina César está morta. quando o próprio Caio viria a ser o patrono da Feira do Livro. Caio chorou. e desde então tinham se tornado grandes amigos. ele diria ainda. Às vezes. na entrevista. ele parecia ser meio bruxo.Um dia depois de lançado o livro. Caio resolveu procurar Bruna. Quando o viu. você tem que ler esse livro' — e puxou da bolsa um exemplar de A teus pés. Então Caio se lembrou de Bruna Lombardi. Caio ficou desnorteado. ao mesmo tempo. meio mago. pela ingestão de remédios. não era surpresa para ninguém. a presença de um toque estranho. feita na semana anterior. Nos anos 90. chorou convulsivamente. ele a buscava no aeroporto. e aquela coisa estranha no ar. meio mágico. A atriz tinha escrito alguns livros. levava-a para sair. o livro de poemas de Ana C. A "mágica" da lembrança não aparece aqui por acaso. Ele conhecia . E uma lembrança triste.

por fim os . Deus. Quando ela morreu. que o interessava. desde o começo. depois amigos de amigos. Por mais que ele insistisse na vida. que tinha uma arma para sobreviver — a literatura —. Ecos de Edgar Allan Poe e sua literatura sombria. enquanto Caio botava o taro para as garotas sentadas a seu lado. Tímido incurável. parada à beira de uma janela. Pensamentos mórbidos: o que ela teria sentido um segundo antes de se jogar no espaço. Essa idéia de morte romântica. era uma obsessão. havia um lado seu que era obcecado pela morte. com que direito ela fez isso? Logo ela. da poesia de Baudelaire. é que a morte de Ana Cristina foi um fantasma que o perseguiu por muitos anos. A medida que o tempo passa. poetas malditos. a obsessão fica mais forte: pessoas de quem só ouvimos falar começam a morrer. no entanto. ou mesmo de outros autores. Talvez herança do romantismo. Ficou apenas observando. Um bruxo. Uma verdade incontestável. de Rimbaud. Com que direito. negra. Castello não se atreveu a cumprimentar Caio." A imagem da morte perseguia Caio. se atormentou pelo fantasma de Ana C. apenas para passar em frente ao escritor e poder dar uma boa olhada nele. também. coisa que pouca gente tem. pela aids. e ao banheiro mais distante da sua poltrona. de certa forma. Depois do choque. certa raiva. em seus incensos. junto com o amor. que o tocava profundamente. E se apaixonou. suas macrobióticas. com tanto ódio quanto freqüência. que tanto apelo tem junto a certos tribos urbanas. calava fundo em Caio. Castello ficou fascinado pela figura do escritor: parecia um mago. algo que o inquietava.o escritor de vista. Dizia-se um hedonista. E foi esse lado que. e assim se desculpava antecipadamente por eventuais mentiras ou fantasias. poetas amados por Caio. Caio falava e falava nela. para quem a morte foi sempre o grande tema. como os góticos. o Caio. Ana C. ele escreveu a Jacqueline: "E não conseguir dormir: na minha cabeça. mas ia ao banheiro com freqüência. se alojava em seu lado escuro. Nem sempre é possível separar suas versões da verdade. muito misterioso.

Porque quem ele queria gostava de homens também. mas não queria compromisso sério. [. Caio ficava com vários tipos de caras.. Há quem diga que. A doença espreita. Ele se apaixonava muito. além de lançar seu O triângulo das águas na feira do livro. escreve a Maria Adelaide Amaral. Porque quem ele escolhia só gostava de mulheres. às vezes. Por várias pessoas ao mesmo tempo. Imagino que isso que chamamos de amor. não era para mim". e tinha uns olhos que mudavam de cor. em geral não muito alto — o que não quer dizer que não estivesse perdidamente. Caio sente essa sombra se aproximando. Ou que. sofria de amor.. em graus de comprometimento variados. mais viris. e se revolta contra ela. sim. Não que Caio não se apaixonasse muito antes de conhecer Ivan. Porque quem ele queria gostava de homens. Algo assim. Touro ascendente Capricórnio. sofria. brincadeira. Sofria de paixão. Sofria de rejeição. para se divertir. Caio sofria. eu estava certo de que não existia.. Atendia pelo nome de Ivan Mattos. muitas vezes — porque quem ele queria não o queria. esperando o momento certo de entrar na casa. O motivo tinha vinte e poucos anos de idade. como Deus.. se existia. ". e por isso às vezes acabava escolhendo algum que não era homossexual. Porque tudo que vivi e senti antes me parece agora bobagem. Caio chegou a namorar sério . era ator. como um ladrão. as pessoas com quem dividimos casa e comida. começam a ficar doentes. e sempre. A beira dos 35 anos. a única coisa que não pode fazer é ignorá-la. a odeia. Gays mais espalhafatosos. o motivo. ronda. loucamente apaixonado. e Caio estava perdidamente apaixonado. Caio preferia os homens mais másculos. mas só de vez em quando. eu pensava que não existia.Também porque aconteceu uma coisa que. se aproximando.. gays mais sóbrios. na noite. mas para ficar. E mulheres. ao se apaixonar. Chegou a sustentar três ou quatro casos ao mesmo tempo.] Eu pensava que não existia. Caio tinha um motivo a mais para ir a Porto Alegre em outubro. Havia mulheres.próprios amigos. fala sobre ela.

ou do amigo com quem viveu fatos muito parecidos. já morava em São Paulo. desde o início dos anos 70 até o final da vida. e solidão. Ele contaria em entrevista à Marie Claire. são dedicados a alguém. Caio sempre repetiu que não acreditava em homossexualidade OU heterossexualidade: acreditava. Maria Clara Jorge. sem que nada no conteúdo do texto justificasse aquela dedicatória específica. em sexualidade. Na época em que escreveu Morangos mofados. em que o protagonista vai até a casa de alguém. "Me jogou na cama e me estuprou". Para uma delas. levando cigarros e conhaque. Um exemplo é o conto Além do ponto. e com quem o escritor. Houve homens. ansioso. isso sim. pensara em se casar e ter filhos. "Foi ótimo. Cacaia era amiga de Graça Medeiros. . contou o escritor." Em muitas entrevistas. nada mais natural que o livro fosse dedicado também a ela. Houve paixões. Ele tinha 19 anos. Houve mulheres. Uma amiga veio até sua casa num domingo chuvoso. que sua primeira experiência sexual teria sido com uma mulher. Esse tipo de homenagem era constante na literatura de Caio: todos os seus livros. que a apresentou ao escritor. debaixo de chuva. e bate na porta. Embora ele tenha tido clara preferência por homens a maior parte da vida. sempre construindo castelos em cima de nuvens. Caio abriu a porta. Houve uma arquiteta. ou simplesmente uma forma de expressar carinho. e a maior parte dos seus contos.algumas delas. paixão que aconteceu mais por carta que pessoalmente. ele dedica o livro Morangos mofados. como ele escreveu em vários textos. Houve Maria Emilia Bender. inclusive. a Cacaia. de Morangos mofados. em 1995. E decepções. houve algumas mulheres de quem gostou. Caio vivia seu caso com Cacaia. Houve também Vera Antoun. Podia ser uma lembrança da pessoa que o inspirou a escrever a história. Pessoas se apaixonam por pessoas. mas ela não o deixou falar uma palavra. cujo apelido era Pifa. não por rótulos. Ele chega.

idéias misturadas. mas tinha esquecido seu nome. nem tentar outra coisa. que conhecia desde os tempos em que freqüentava o Centro de Artes Dramáticas (CAD). se é que alguma vez o soube. dirigida por Luciano Alabarse. tudo ficara muito confuso. mas eu não ia mais indo por dentro da chuva. as depressões de Caio eram um fardo pesado demais a carregar.E bati. Para a juventude de Ivan. em que Caio mora no Rio de Janeiro. e Caio voltou à sua desastrosa vida afetiva de sempre. Os dois se separaram. isso tudo não fascinava Ivan. mas no final as diferenças — de idade. que ele convive com Cacaia. de temperamento — venceram. de Caio. Caio conheceu Ivan. tremores. e bati outra vez. E em 1983 a paixão principal — não se pode afirmar que fosse a única. eu só estava parado naquela porta fazia muito tempo. tão escuro agora que eu não conseguiria nunca mais encontrar o caminho de volta. porque é mais ou menos nesse período. eu continuava batendo e continuava chovendo sem parar. por exemplo — é Ivan. mas o assustava. e nas idas de Caio a Porto Alegre. ficou alguns meses com ele. Foi uma das mais longas relações de Caio de que se tem notícia — durou pouco mais de um ano — e mesmo assim não foi uma relação fácil. e tornei a bater. em Porto Alegre. era tudo um engano. Ele viajou com o escritor para o Rio. os dois se apaixonaram. ele acompanhou a montagem do amigo Luciano. eu quis chamá-lo. e o afastava de Caio. água de chuva e lama e conhaque no meu corpo sujo gasto exausto batendo feito louco naquela porta que não abria. outra ação. talvez eu tivesse febre. A peça estava sendo encenada dez anos depois de ter sido proibida pela censura dos militares. outro gesto além de continuar batendo batendo batendo batendo batendo batendo batendo batendo batendo batendo batendo batendo batendo batendo nesta porta que não abre nunca. se é que ele o teve um dia. Não sem antes pedir de volta a Ivan as . pelo meio da cidade. O jovem ator — na época com vinte anos — participava da montagem da peça Pode ser que seja só o leiteiro lá fora. O lado escuro. os poços profundos onde ninguém entrava. depois do ponto. e continuei batendo sem me importar que as pessoas na rua parassem para olhar.

frágil e aberto que pessoalmente. Caio era sempre muito mais sensível. 13 anos. talvez. cuja história é contada no livro Eu. como Caio F. de Lya Luft. talvez. Na pequena temporada que passou em Porto Alegre. de mistérios. como Lygia Fagundes Telles e Hilda Hilst. um pouco. com medo. embora já não estivessem mais juntos quando o texto foi levado ao palco. principalmente com a de Hilda. escrito pelos jornalistas Horst Rieck e Kai Hermann. nas cartas.. O texto era Reunião de família. em 1984. de que aquilo pudesse ser usado contra ele de alguma forma. já sabendo quem seriam os atores de antemão — Luciano os havia escolhido — Caio podia escrever o papel de cada um pensando nas características de cada ator. era mais engraçado. quatro cartas por dia. de várias páginas. às vezes. porque assim tinha mais gente com quem trocar correspondência. e eram cartas longas. Ajudou também o fato de que.. em que ele se expunha muito. Lya era amiga de Caio. de questionamentos sobre a existência. estava. numa referência à adolescente alemã Christiane F. drogada. assim como outras escritoras de renome. Ao vivo. mais solto. muitas vezes. prostituída. Ivan. pelas similaridades existentes entre seu universo e o de Lya Luft.apaixonadas cartas que tinha escrito a ele. Todas tinham grande apreço por ele e respeito por sua obra.. mais derramado. Caio escrevia três. A literatura de Caio tinha vários pontos em comum com a delas. Christiane F. Assinava. que já dirigira a montagem de O leiteiro. tímido e arredio. um universo cheio de brumas. que seria levado ao palco no ano seguinte. Entre os atores escolhidos para atuar em Reunião de família. ele e Caio ainda namoravam quando o escritor começa a adaptar a obra. Cada . era discreto. claro. Caio aproveitou para tentar uma coisa nova em seu trabalho: a adaptação do texto de outra pessoa. A adaptação de Caio foi muito bem-sucedida. E ele era compulsivo em relação a escrever cartas: adorava conhecer pessoas novas. Nas cartas. com direção de Luciano Alabarse.

Embora não cite o nome de Ivan. Mas. Carlinhos. Ivan alega não ter conseguido suportar. Acho que Caio conseguiu uma coisa rara: uma adaptação que me pareceu. Lígia e Ana C. No final. era pensada para aquele ator específico.. alude a acontecimentos de sua vida. há textos de Lya Luft. alguns de forma direta. assim. mais expressiva ainda que o livro. foram deixando de assombrar. No livrinho que acompanhou a apresentação da peça. elogiando o trabalho de Caio. "Encurralado entre o salto pela janela de Ana Cristina César. senti que aquelas personagens. todas as horas a morte rondava. no Menino Deus. aos poucos.fala. é a ele que se refere. Nele. a fuga incompreensível de Carlinhos Hartlieb. no ano seguinte." Caio também escreve um pequeno texto para o livreto. Decidi trocar este árido Porto pela . a vida e a dimensão das figuras de teatro. Caio mostra algumas de suas obsessões. e a autorização foi dada. [. outros em linguagem cifrada.] Nas noites. do receio que teve a princípio.. agora já não unicamente minhas. uma nova dimensão. nem por isso. No texto. Fala do mergulho que deu numa história de amor tão linda que era como se fosse a primeira. em muitas coisas. Lya ficou mais que feliz com o resultado: "Nos diálogos. Os papéis escritos sob medida. deixavam de ser aquelas figuras torturadas que habitavam o livro original. mas a confiança que tinha em Caio venceu. depois de anos. todo o lado escuro que. que poucas vezes tinham a chance de fazer um papel que se ajustasse plenamente às suas características e potencialidades. a fascinação pela morte. de volta ao quarto de onde saí para a estrada. embora não fosse o único lado do escritor. no sobrado de meus pais. além de serem uma oportunidade rara para os atores de teatro. a partida súbita de Lígia Averbuck. emboscada entre objetos familiares de muitas gerações. sozinho num verão escaldante. numa cidade deserta. mas nossas — minhas e de Caio Fernando Abreu — adquiriam uma nova vida. ajudaram no sucesso da peça. Ela fala do medo que tinha de alguém mexer em um texto seu.

" Os cachinhos do arcanjo são os cachos de Ivan. com grupos desconhecidos. que Caio leu por essa época.louca Sampa. quando coordenava o IEL. seu corpo foi encontrado na casinha de madeira que construíra. sucesso. Um dos donos da Gallery era José Pascowitch. provavelmente. o amor que não era para sempre. era Repressão sexual. fazia uns lances para a Gallery Around. uma das primeiras do local. Ele chamou a irmã para cuidar da revista. Então colei os cabelos eriçados do punk sobre os cachinhos do arcanjo. Logo depois de gravar seu primeiro disco individual. house-organ da casa noturna Gallery. Se a vida amorosa era o desastre de sempre. ainda somos capazes de fazer. Risco no céu. Carlinhos Hartlieb era um importante cantor e compositor gaúcho. Lígia Averbuck era a protetora dos escritores gaúchos. nem sempre Caio estava 100% feliz com sua sexualidade. No dia 3 de fevereiro de 1984. nas sextasfeiras. Carlinhos viajou para a Praia do Rosa. com o trabalho de Paula Dip e Antônio Bivar. no litoral de Santa Catarina. na época editada por Zuenir Ventura. que. irmão de Joyce Pascowitch. no Teatro de Arena. autor de Por favor. em Porto Alegre. Descobri dolorido que aquele amor não era especial nem para sempre: trocamos em miúdos pobres as juras de eternidade que. Ela também morreu em 1984. E o livro de Marilena Chauí. Tão juvenis — graças a Deus. e que ficou também conhecido por organizar as famosas Rodas de Som: espetáculos à meia-noite. Enquanto ganhava a vida trabalhando na IstoÉ. Cheio de culpas e amarguras. E vim à tona com o livro de Marilena Chauí embaixo do braço. a morte que ele teve que enfrentar para lidar com os demônios do texto de Lya. assumindo minha carajá muito mais paulistana que fronteiriça. por acreditarmos em encontros. se tornou um dos veículos mais . Era a morte. a profissional estava indo melhor que nunca. Nunca se soube exatamente do que ele morreu. lançara O ovo apunhalado de Caio em plena ditadura.

As frangas é um livro de que Caio gostava muito. Em uma referência a Rambo. pequenos enfeites de geladeira. A história surgiu da coleção que Caio tinha de galinhas pequeninas. depois se tornou redator da revista. O livro era também uma forma de homenagear Clarice Lispector. Um dos projetos de Caio. o livro deveria se chamar Frangas 2 — a missão. que tinha uma paixão também enorme por galinhas — e ovos — e escreveu vários textos a respeito. Caio ganhou várias de amigos ao longo da vida. da adaptação de Pode ser que seja só o leiteiro lá fora. . o filme foi o único brasileiro a concorrer ao 11º Festival de Cinema Gay e Lésbico em San Francisco (EUA). Aqueles dois. que ele só conseguia chamar de frangas. a literatura. ligado nas tendências. O filme. Filmado em Porto Alegre. Morangos mofados também estava sendo levado aos palcos. em 1987. Além do lançamento do Triângulo. Além disso. A parte que interessava. e tinha no elenco Pedro Wayne. e com muita ironia. já que muitas novas surgiram em seu galinheiro depois da publicação do livro. no teatro Cacilda Becker. Caio começou como colaborador. homônimo. Caio não teve tempo. Caio terminava o roteiro de um longa 35 mm que seria baseado em um conto seu. E ele se preparava ainda para lançar o livro infantil As frangas. porque assim eram chamadas em sua infância. Mas isso era o ganha-pão. Beto Ruas e Suzana Saldanha. teve pré-estréia em Gramado. Assim. e Caio deu uma força na produção. Muito premiado. A Gallery Around faria escola com seu estilo elegante e sofisticado. cada franguinha do livro é baseada em uma franga de verdade. que morava na geladeira do Caio. antes de morrer. era escrever a continuação das frangas. em Santiago. Apaixonado pelas galinhazinhas. O livro é a história desse galinheiro. que aos poucos foi inventando personalidades para cada uma delas. no Rio de Janeiro. do sucesso pós-Morangos mofados. em 1986. revelando talentos como Barbara Gancia e José Simão.interessantes da época. foi dirigido por Sérgio Amon. ia melhor ainda.

Depois da morte de Ana C. não quer virar "moda besta". não importava se era famosa ou não. se a pessoa fosse interessante. de concluir essa história. Caio está envolvido agora com alguns projetos para televisão. Era apaixonado por jardins e flores. tenta se manter mais reservado. Os dois chegam a sair juntos. Vai morar em uma casa alugada do ator Ricardo Blat. e do fim da relação com Ivan. em uma ocasião. Na casa nova. Apesar de tudo. que manteria anos depois uma coluna na revista G Magazine. sempre fã de Caetano. diz Caio. Além do trabalho com a TV. Nas editoras. Quando começou a escrever crônicas para o Estadão. Ela faz a série Joana. era bom copidesque. com uma roseira no pátio. duas mulheres respeitadas e famosas. Caio era amigo de Regina Duarte e Lygia Fagundes Telles. travesti paulista. revisava livros. Está cercado de estrelas. Caio. uma série sobre São Paulo com Bruna Lombardi e Carlos Alberto Riccelli. convidando os leitores a assistir ao seu show. agora convive com pessoas que o conhecem. no momento. Nos jornais. começa a trabalhar. bêbado. Caio volta a São Paulo. decadentíssimo.entretanto. escritores. Faz também dois roteiros para Regina Duarte. vão a um show de Caetano Veloso ("lindo. atrizes. ao mesmo tempo. Assim. Caio tinha o português ótimo e era um grande revisor. diz. de quem se aproxima nessa época. E revisão de originais para a Brasiliense. uma bela casa de dois quartos. em carta a Luiz Arthur Nunes). mas não pouco importante: Caio era apaixonado por rosas. Um dos livros que revisou foi Feliz ano velho. Ele agora quer ficar ali por um bom tempo. já um pouco esquecido da loucura que é viver na cidade. analisado e blasé". Caio faz uns free-lances de crítica teatral para a IstoÉ. Ele a conheceu na noite e adorava conversar com ela sobre a vida. Ele não se deslumbra com as estrelas que estão a seu lado. Caio chegou a falar de Claudia e seu trabalho. Detalhe singelo. Com a educação impecável que recebera no Rio Grande do Sul. Trabalha em um roteiro para Ronda. . diretores. que faz a música de abertura da série. adorava Claudia Wonder.

um escritor. Uma de que gosta muito é a de Sonhos de Bunker Hill. Além das revisões de livros. Feliz ano velho era seu primeiro livro. desde que faça modificações. leu o livro em 1982 e se apaixonou imediatamente. que na verdade ele é que teria escrito o livro. só sairá em 1988. em 1984. pela boca de defensores fiéis de Caio. Aos 36 anos. dizia. como Luiz Fernando Emediato. Perfeccionista. O ovo apunhalado era um livro que já tinha história e fãs ferrenhos. Marcelo teria entregado uns rascunhos toscos para Caio. publicado no mesmo ano de seu Morangos mofados. Então. de John Fante. e ele praticamente teria reescrito o livro. Corre a história. tanto que a literatura fica meio em segundo plano: seu próximo livro de contos. corrigir erros. quer mexer no texto. mas é preciso aparar algumas arestas.de Marcelo Rubens Paiva. Caio já pode olhar para trás e ver que construiu uma obra. que já lançara anteriormente o livro pela Salamandra. afinal. melhorar o estilo. para uma nova edição de O ovo apunhalado. Os dragões não conhecem o paraíso. de tantas modificações que foi obrigado a fazer. O próprio Caio. deixara o rapaz para sempre paralítico. Grace Gianoukas. definitivamente. E um escritor com público cada vez mais fiel. ele retoma o livro escrito uma década antes. atualizá-lo. onde trabalha agora o editor Pedro Paulo de Sena Madureira. faz também traduções. autor que admira. Ele é. fazia Artes Cênicas no CAD. no entanto. atriz gaúcha. era um rapaz muito novo e inexperiente. que a história era um exagero. Reedições de seus primeiros livros. e só foi escrito para contar a história do acidente que. e o revisa todo. que. teria contado a amigos. começam a ser pedidas pelas editoras. Caio concorda em reeditar. O primeiro que o fez chorar em muito tempo. ele apenas poliu o texto de Marcelo. Ela estudava em Porto Alegre. aos 20 anos de idade. e morava com mais dois . É uma fase de intenso trabalho para Caio. A base fica a mesma. que foram publicados de forma quase artesanal quando ele ainda era adolescente. A edição sai pela Siciliano.

Ele passa. Na época. o amigo de Santiago que fora com Caio para a Suécia. Grace recebe um bilhete. pelo autor. Grace trabalhava em um restaurante de comida natural. saíam juntos. Tempos depois. tipo faroeste. o Caio tá aí. Grace não tinha dinheiro para comprar o livro. cumprimenta. e desde então se tornaram grandes amigos. Era do Caio. meu ídolo. Quando leu. Daí a pouco. Meu Deus. conversaram de verdade.amigos do curso de Letras. Adorei o espetáculo de vocês. Grace convidou-o para assistir ao seu espetáculo O Acre vai à Rússia. Já estava tudo escuro. Em 1984. os pratos na mão. Voltou imediatamente. entrou na fila de autógrafos. que estava sendo muito elogiado na época. quando Caio foi lançar O triângulo das águas na Feira do Livro. pelas coisas que ele dizia. Ai meu deus. Caio ia a festas na sua casa. e também trabalhava no restaurante. No final. mas Grace o viu entrar. lendo e relendo o livro. muito blasé. de vanguarda. mas não lhe deu muita atenção. os atores abraçavam o público. não fui ao camarim porque sou muito tímido. pela primeira vez. e numa das visitas que faria à família. Caio vai ao espetáculo. Mas Grace era natural de Rio Grande. Um dia ela vinha caminhando. e lá foi ela dar um jeito de abraçar o Caio. Passou a semana de visita deitada na cama. Aí foi aquela festa: Grace foi para a mesa dele. cidade que fica a quatro horas e meia de viagem de Porto. quando abriram-se as portas vai-e-vem. e ela deu de cara com o Caio sentado em uma das mesas. Ele foi muito correto. Mesmo assim. Mas foi em frente. Dias depois.. encontram-se por acaso num bar. quando Caio está morando na casa onde . ela achou interessante. ela estava sem nada para ler. apresentou-a ao Caio. ai ai ai! Shell. eles conversaram um pouco. foi como uma bofetada: apaixonou-se pelo estilo. Em 1983. um espetáculo moderno. irmã de Augusto Rigo. só para ver o Caio. meu ídolo. de verdade mesmo. Um dos amigos que moravam com ela lhe mostrou O ovo.. agradeciam a presença. mas foi ótimo etc etc. arrastou Grace pelo braço e a levou até a mesa. o Caio! O Caio tá aqui. ai meu Deus.

O Brasil inteiro é Abreu. ela viria a conhecer seu lado agressivo. vamos indo embora — responde Caio. Caio foi gentil. Orlando tinha um show-room de moda. De dia. disse que Porto Alegre era pequena demais. . Quando pediram para ir ao banheiro. Um dia. Airton. Grace não sabia onde se esconder de vergonha. E vamos indo. Clarice Lispector. Disse que Ricardo não morava mais ali. Caio também apresentou Grace a Orlando. Quando voltaram. Ele começou a mudar. em que se hospedaram na casa de Caio. Com Caio. Principalmente Clarice Lispector. Ele a protegia de todas as formas: lhe dava conselhos. Caio foi crucial nesse momento: insistiu para que ela viesse. Então Caio se justificou. sempre em greve. Grace decidiu vir morar de vez. Um dos homens pediu um copo d'água. mostrava livros que deveria ler. — Eu também sou Abreu. já empurrando os senhores porta afora. bem humorado. Caio deixou entrar. Grace conheceu James Joyce. Numa tarde.. A noite. — Aham. Por essa época. Tudo bem. ofereceu sua casa. Os dois se sentaram no sofá. porém. que adorava sua companhia. Grace viu os olhos de Caio transformarem-se em fúrias.. mas só entrava em greve. — O senhor é Abreu? — perguntou um dos homens. quando Caio estivesse em casa. apresentava-a a amigos. com quem ele morara na casa da Melo Alves.antes morava Ricardo Blat. Aos olhos de Caio. querendo falar com Ricardo Blat. ainda sorrindo. Grace disse para voltarem à noite. que se mudara para o Rio de Janeiro. pois ele é que conhecia o rapaz. apareceram dois homens alegando ser oficiais de Justiça. para alegria do escritor. A faculdade ainda não terminara. onde Grace passou a trabalhar. Grace vem morar com ele. Depois de uma visita a São Paulo junto com o irmão. Ezra Pound. o lado gentleman. a grossura com que Caio tratara os oficiais. Todo mundo é Abreu. Grace era ainda uma menina. Grace só conhecia o lado meigo do Caio. era garçonete. trabalhava no show-room. aos vinte e um anos de idade.

ele bate à máquina. Ele arruma a mesa. Não era viciado. gostava de ir ao Ritz. Na maior parte das vezes. Apesar dos gritinhos da mulherada e do ambiente . eram de alguma polícia. plantar drogas para um possível flagrante. Usava. Quando percebeu isso. nas festas. Um strega flambado. para ficar acordado. Um bom whisky. As vezes. escrevia em casa mesmo. Gostava do que era bom: quando podia. Paranóia ou verdade. ele tinha sido preso por flagrante falso de drogas. Maconha. sim. não tinha nenhuma droga de sua preferência. sem uma ponta fora do lugar. quando decidia dormir. Às vezes cocaína. Tac-tac tac-tac. Caio está fazendo café: é hora de escrever. Caio quis mandá-los logo embora. tac-tac-tac. Ao final. a pilha de papéis em branco. Caio bebe um gole de café. um bar moderninho de São Paulo. Gato escaldado. o montinho de papéis da esquerda vai diminuindo. cinza. Ao alcance da mão. não usava todo dia. sabe-se lá por quê. de vez em quando. exceto pela pilha maior do lado dos papéis escritos. aqueles homens não eram oficiais coisíssima nenhuma. quando deixa a mesa. chegava bem cedo ao bar. ele o limpa. Se anoitece. No final de agosto de 1984. a garrafa e a xícara de café.Para ele. até os amigos começarem a chegar. uma cervejinha. De um lado. jogando as cinzas no lixo. Caio tinha antecedentes: por duas vezes. o cinzeiro. a pilha de textos escritos. Álcool: sempre. e ficava horas escrevendo. substitui o café por Jack Daniels. fuma um cigarro. mas usava. ela está intacta. à esquerda. não via muitos motivos para confiar na polícia brasileira. No meio. o isqueiro e os cigarros. E assim por horas e horas a fio. Não que ele não usasse drogas. pelo mesmo motivo. Quando há uma ou duas bitucas no cinzeiro. Caio começa a trabalhar fixo na Around. e pedir um whisky doze anos. na noite. Anfetaminas. a pequena máquina de escrever. Do outro. às vezes. Comprimidos para dormir. o da direita aumentando. e estavam ali para plantar alguma coisa contra o Ricardo. às vezes. impecável.

O escritor Mário Prata morava no mesmo prédio. por exemplo. De vez em quando. Logo ele. que trabalhava junto com ele na Brasiliense. Certa vez. foi visitar a mãe e encontrou-a morta. Os amigos é que foram dar uma força. Porta do elevador fecha enquanto sobem os créditos. No Rio. inclusive Caio. "A alma? Pode ser. Antes que pudesse colocar a carta a Luciano no correio.. Não havia quem o ajudasse: o pai já havia morrido. no bairro de Higienópolis." Caio conhecera Reinaldo em 1981. Alguma coisa já não estava lá. providenciar caixão. quem sabe duas ou três semanas. ". [. que nunca tinha visto ninguém morto. vendo que a fila era . através de Maria Emilia Bender.". esse é um trabalho que ele gosta de fazer: dá a oportunidade a ele. seu ídolo. muito mais velho. Ficou impressionadíssimo. acontece uma coisa que deixa Caio muito impressionado. em Porto Alegre. depois de uma noite linda com Pedrinho.]. escreve a Luciano Alabarse. surge também um novo amor: Pedrinho.. autor dos romances Tanto faz e Abacaxis e amigo de Caio. O escritor Reinaldo Moraes. exceto a cantora Elis Regina. Esse homem é ou não é um romântico incurável? Um sonhador. falou no assunto por semanas. Caio e Maria Emilia foram namorados por algum tempo. por mais ironia que tente imprimir às palavras. Cena de cinema.metido a chique. enterro. caída no chão da cozinha.. no corpo morto da mulher. que morava perto de sua casa e morrera há pouco tempo. entretanto. Reinaldo e Caio participavam de eventos literários juntos. de ir ao Rio de Janeiro entrevistar Ney Matogrosso. tão obcecado pela idéia de morte. E a voz dizendo que vem a São Paulo daqui a uma. Ele. com pessoas cool entrando e saindo a todo momento. e ele costumava visitar a moça no apartamento que dividia com Ruy Fontana Lopes e Reinaldo Moraes. estava ajudando a vestir a morta.. ele era filho único. como o lançamento de livros e seminários. E achou que tinha aprendido algo com a experiência: ficado realmente adulto. a última imagem foi a ponta do dedo indicador dele acariciando a ponta do meu dedo indicador através das grades da janelinha do elevador.

para discutir a literatura dos anos 80. havia um clima de alívio: em janeiro daquele ano. em 1983. porém. Caio. em que a idéia era histórias que se passassem no bar de Antônio Maschi. Situações engraçadas aconteceram no curto período da quitinete: às vezes. trombava em alguma coisa. e lá ia ela. foram juntos a um evento em uma universidade em Londrina. e Caio estava acompanhado. Na sessão de autógrafos. Nessas ocasiões. a farra era grande. No início de 1985. na verdade uma quitinete. chegou um casal de namorados que era fã dos dois. para quem chegou a escrever alguns roteiros. Se esticasse o braço. mas pelo menos era um presidente . no hotel. tarde da noite. chama Grace para ficar com ele na quitinete até surgir alguma coisa. decide ir para uma pensão. Grace chegava do trabalho. ele fica num apartamento pequenino. Antes de mudar para lá. já que o dono da casa não a alugaria para três garotas. Os dois compartilhavam a porra-louquice e iam aos mesmos bares. porém. Caio chamou os amigos e parentes de lado e dizia para irem. mas Caio era leal com os amigos.grande na frente da sua mesa. Caio terminou a noite com o menino e Reinaldo com a garota. mas era divertido mesmo assim. por pouco mais de um mês. Ele pedia para que ela fosse dormir na cozinha. que morava com ele. mas que não havia ninguém na mesa do Reinaldo. No plano político. Grace. e mais ainda em relação a Grace. que Reinaldo era ótimo. As eleições não foram diretas. na rua Augusta — chegaram mesmo a participar da coletânea Contos Pirandellianos — 7 autores à procura de um bar. disse ele a Grace e às amigas que dividiriam com ela a casa. Não queria fazer "república". como a maioria pedia. Ele decide ir morar com Sérgio Bianchi. Caio muda novamente de endereço. Uma vez. pé ante pé. cineasta. deitar-se no espaço mínimo entre a geladeira e a pia e a mesinha e o fogão. E as mudanças não aconteciam apenas na vida de Caio e Grace. como o Pirandello. Conversa vai. Tancredo Neves fora eleito presidente do Brasil por um Colégio Eleitoral. O espaço era exíguo. conversa vem. amigo.

"Sas que ontem. Como se a possibilidade de doença não bastasse. o escritor descreve o episódio. mui lépida. os demônios. aos gritos de "Vai explodir! Vai explodir! Não joga água que é pior!". embora nunca tivesse tido a chance de se aproximar muito. uma pessoa de quem Caio gostava.civil. Pedrinho. Seu vice José Sarney assumiu. mas os médicos dizem que não é nada. queria avançar entre as chamas para DESLIGAR O FORNO (ela não tinha grana para comer e sua maior preocupação era que as coxas ficassem inutilizadas. aftas na boca. segunda. aí chamei o Sergião que telefonava da sala (Sergião disse: "Agora tenho que desligar porque minha casa tá pegando fogo". a aids vai chegando mais perto de Caio. sas?) Então me viro (observe a mudança espontânea & natural da tercêra para a primêra pessoa) e eis que. observando aquela pêxa grávida no aquário. Joguei água. mui poeticamente. . Caio ainda quase morre queimado num incêndio em seu apartamento. Depois de mais de vinte anos de militares no poder. aos 34 anos de idade. foi internado. Enquanto isso. quando eis senão que sente um odor estranho vindo das bandas do dito fogão. E foi: o tal namorado de Caio. diretor. Caio tem umas pequenas doenças. A paranóia aumenta um ponto. vejo CHAMAS ENORMES ATÉ QUASE O TETO. e ele começou a me puxar pra fora da cozinha. A alegria durou pouco. autor de poesia. mas apoiara os militares até quase o final da ditadura. assando umas coxas de franga. esta Marilene aqui QUASE MORREU QUEIMADA? Estava ela no fogão. Ela estava. Sarney também era civil. de costas para o fogão. Marilene. quebrou o pé dançando na festa de vitória do Tancredo. que não se decide a parir (vão ser arianos. Era o mês de março. Em carta a Jacqueline Cantore. jornalista. isso já era algo a ser comemorado. e Caio já estava morando com Sérgio Bianchi. incêndio causado por ele mesmo. atrás do fogão. ousadíssima. infecções. Luiz Roberto Galizia. bem natural). no entanto: o presidente morreu antes de tomar posse. eu esperava pêxes de Pêxes.

o melhor é rir. & LABAREDAS CADA VEZ MAIS ALTAS. o extintor apagou tudo: espuma branca por toda a cozinha e toda a sala. Gritos. Era adepto da "cultura das abobrinhas". Uma das velhinhas começa a desmaiar. Ai. Hilda Hilst. Que medo!" O episódio terminou bem. Bom. Marilene foi espiar se a pêxa tinha abortado: raçuda. Todos eles eram influências tão grandes para sua prosa quanto os ficcionistas que ele amava. vem com um extintor de incêndio. Quando não há jeito. e Caio o contou da maneira que sabia: com humor. Bueno. Duas velhinhas saíam do elevador. assim como Ana Cristina César. essas coisas. Junta gente na porta do prédio. "apaguem os cigarros!" (Marilene correu para seu quartinho e. poesia também era muito importante na vida de Caio. sussurros. Ver filme cinemão de Hollywood. falar asneiras. Drummond. apagou a vela de sete dias... Enfim. a tremedeira. corremos para o corredor do prédio. ele pensava. ela — continua grávida. Seu Antônio. não tens sequer um cão . principalmente. carbonizadas). o zelador. que escreveu em fevereiro de 1974 e enviou a Vera Antoun: Estavam ali as portas . que é simplesmente falar bobagem. Mandou várias em cartas para amigos. Caio também escrevia poesia: escrevia em seus diários. Ele lia Adélia Prado. juro). Como essa. saiam depressa que vai explodir tudo!". que manteve por boa parte da vida. ao longo da vida.isso é. Mario Quintana. Sergião: "Corram. Fumaça. Adorava a poeta Ledusha. gemidos. cheiro de gás. ele vinha sempre com o trecho de um poema de Drummond: "Perdeste o melhor amigo. paulista de alma carioca que era sua amiga. e. Fernando Pessoa. mas e o humourt" Afinal. Justificando essa maneira leve de ver a vida. faniquitos. num sopro.

Revejo a dura consistência da porta Cerrando seu segredo. Como se pudesse Agora Escancarar portas e janelas . Estar ali Por estar ali E além de mim 0 que eu não ousava. Nesse ponto exato Elas estavam: Bastava um gesto. Ah Relembro a amplidão dessas varandas intocadas Os pequenos raios de luz Nos vidros coloridos das janelas. Estar ali Como nunca ter chegado.Janelas e varandas. Mas o meu estar parado Era maior que eu. E me retorno Ali No imóvel do gesto que não fiz. Estar parado Estar vivo: A mesma incompreensão E medo Entre mim E aquele estar das coisas. Estavam ali Na fronteira do olhar Onde o de dentro encontra Justamente Com o de fora.

como eu. louco. Os outros por bebedeira Não saúdes A morte em literatura. Aqueles espaços Permanecem mortos dentro de mim. manhãs perdidas como tudo que não fui) Mas continuo Ali. reunido entre os dispersos publicados no livro Caio 3D — o essencial da década de 1980.Para sair nu pelas varandas Desvairado e nu Profeta. as tempestades. sem data. de 2005. Talvez não os achasse bons. as neves. infante. amigo. Brincava com . talvez não os levasse a sério. Como um corpo que se ama E não se toca. Ou esse. O cheiro de jasmins Entontecendo os quintais. As quedas de estrelas e Bastilhas. Sair para o vento O sol. Não cantes. (pudesse retomar manhãs. Boa negra Voltada para as estrelas Pés de chumbo cravados na lama: O canhão E sua escandalosa metafísica Caio nunca publicou em livro seus poemas.

tudo ia fermentando. Caio chegou a dizer. certa vez. lidar com um escritor que confessava que o trabalho do Cazuza e da Rita Lee foram influências muito maiores que Graciliano Ramos. fazer uma "coreografia verbal" para ela. frases-ímã. em seus textos. ter essa arma para lutar contra as agruras do mundo. disse. como era bom poder escrever. Pode ser Keith Jarrett. ele . pouco metódica. o nãoliterário". disse em uma entrevista. então na Brasiliense. coisas do dia-a-dia. De forma intuitiva. Caio já ruminava a idéia há três anos. às vezes tentava apanhar no texto o ritmo daquela música. sempre. E eu gosto de incorporar o chulo. música. Rolling Stones. Fosse o que fosse que o inspirasse.Mário Prata que poesia era coisa para quem não conseguia chegar ao fim da linha. coisas que magicamente as pessoas vão te dizendo". E as influências para seus textos não vinham só da literatura: cinema. "Eu vou magnetizando coisas no inconsciente. E Caetano Veloso. a idéia para Onde andará Dulce Veiga. Como era bom poder tocar um instrumento. Até cachê adiantado estava recebendo: Luiz Schwarcz. redonda. que devia ser insuportável para Academia. Mas a importância de ter lido os poetas. na exatidão do uso das palavras. Muitos de seus contos vêm com o aviso: para ler ao som de. amadurecendo. ele anotava sempre em caderninhos. Mas as coisas não eram bem assim com Caio. no lirismo. Sonhos. Como ele gostava de escrever com música. e tinha seu público. propôs um adiantamento a Caio para que ele escrevesse um romance. e aparece na preocupação com a forma. Era só sentar e escrever. pensava. tudo podia influenciar um texto. "Isso deve ser insuportável. até que surgia uma história inteira. teatro. Ele adorava essa frase. e também para a crítica. Angela Ro Ro. Você compreende? Isso não é literário. E o instrumento estava afinado. cujo verso "como é bom poder tocar um instrumento" Caio estava sempre repetindo. era de fato inegável.

brigam. diferenças saltam à tona. Para piorar um pouco mais. As informações ainda eram poucas. Em carta a Jacqueline: "Abobrinha 2 (somente para iniciados): Abobrinha 2a.tinha seu próprio ritmo. quase uma entidade independente. quando. Muitos escritores afirmam que o que fazem é captar uma idéia e escrevê-la. e isso só foi acontecer em 1990. E como má notícia sempre anda de mãos dadas. E a relação que durara nove meses acabava assim. que por sua vez era ditado pelo ritmo do texto. a deixar recados na secretária eletrônica. já então pela Companhia das Letras. o texto viria quando tivesse que vir. depois de anos enrolando. e os boatos eram infundados — ao menos aparentemente. o motor pifou. os gânglios que tinham aparecido diminuíram. Ruim mesmo era a falta de auto-estima que às vezes aparecia. Caio sofre mais uma decepção. amigos começam a ligar. tudo errado. mas lá discutem muito. parecia saudável. E ser gay ainda era sinônimo da peste. mas o pneu furou. Caio se sentia saudável. Galizia já tinha ido. Sempre com muito humor. preocupados. fez quando viu o Caio Fernando Abreu? Gritou: — Jaburú-ú!" . Enquanto não escreve Dulce Veiga para a Brasiliense. as pessoas morriam muito rápido. uma certa carência por trás de suas brincadeiras. mas pelo menos as aftas sararam. Estava rolando o boato de que ele também estaria com aids. Por mais que Caio trabalhasse duro. Viaja a São Tome das Letras com Pedrinho. S'as o que o Jaburu. Queriam ir embora. Caio sabe da morte de Fernando Zimpeck. um ator gaúcho. S'as o que o Caio Fernando Abreu disse quando viu o Jaburu do outro lado da calçada? — Como é que estou do outro lado. escreveu o livro em dois meses e o publicou. são simples canais de transmissão da arte. se estou aqui? Abobrinha 2b. Baixo astral total. mas dava para perceber uma certa tristeza. do outro lado da calçada.

A peça é inspirada no texto que Caio escrevera. E Caio estava sempre pronto a defender seus amigos. havia vários grupinhos: o pessoal do teatro. começam a se ver todo dia. É a época da criação do Caderno 2. amigo dos tempos de ditadura e jornais nanicos. aos 13 anos de . Em qualquer crônica ou texto. Por quê?. de se preocupar com horários de fechamento. se vendido ao sistema. música. e o editor é Luiz Fernando Emediato. o pessoal do cinema. E mesmo que não fossem amigos: ele rodava a baiana sempre que achava que alguém estava sendo injusto. literatura. Paulo. Emediato tinha se entregado. Como era um caderno de cultura em geral. Caio. Emediato e Caio. de cumprir deadlines. perguntava. Ninguém se misturava muito. junto com Luiz Arthur Nunes. quando achasse necessário. não tinha humor nenhum nessas questões. da música. mesmo os que não trabalhavam no jornal. Emediato precisava fazer tudo isso.Em 1986. Emediato. O Caderno 2 não era fácil de se editar. gostava de implicar com o grupo de rock Titãs. da literatura. agora dividia a redação com ele. Caio abandona a Around — que agora não se chama mais Around. ele dava um jeito de enfiar os Titãs no meio e fazer uma brincadeira. por exemplo. uma alfinetada de leve. o sisudo diário recebia jovens para fazer um caderno do tipo. uma palhaçadinha. que tinham perdido contato. cinema. mal-humorado. que adorava o grupo. frio. este era seco. sempre tão bemhumorado. Havia outros. Para ele. Caio não gostava de receber ordens. se mortificava. E quando cobrava resultados de Caio. levava a sério demais a defesa do trabalho e da arte das pessoas que admirava. o suplemento de cultura. talvez. paladino do Oeste. pela primeira vez. Caio trabalha também na peça A maldição do vale negro. e sim A-Z — e vai trabalhar em O Estado de S. era o chefe engravatado e careta. Caio tinha sua turma: José Márcio Penido. Vai fazer o que sabe: crítica cultural. mas naquela incômoda posição de chefe e subordinado. precisava botar o jornal na rua. amigo de muito tempo. Por essa época. Por que essa implicância com os Titãs? Ele.

por vários anos. mas era só. e Antônio disse que não se importava. Na verdade. achou o máximo ver o desfile de pessoas que se tornou comum no apartamento depois da vinda de Caio: "atores. que ganharia o Prêmio Molière de teatro. Caio começara a dar uma de astrólogo e falar do mapa astral de Antônio. mas que topara dividir apartamento com ele. às vezes. Sérgio era. Vai morar com Antônio Neto. mas quando soube que era o Caio. conta Antônio. em 1989. ele tinha a mãe na zona. porteiro de boate. ele se importava. muito louco. pai-de-santo. garçonete. Fã de sua obra. dona de boate". já tinham desistido de morar juntos. gente anônima. gente famosa. em Ovelhas negras. atrizes.. muito intenso. e mais um monte de coisas sem sentido.. Inventou que o Antônio tinha trígono na quarta casa da Lua em Saturno. O rapaz entrou na brincadeira. alcoólatras anônimos. que foi publicado mais tarde. porém. travesti. onde fica. além da Lua e Saturno e Urano sabe lá onde. A expressão pegou. A idéia para a história surgiu em uma noitada que Caio. a coisa mudou de figura. Foi quando Cazuza interveio e começou a brincar. talvez com certo exagero. alcoólatras famosos. O escritor vai então para um apartamento na Haddock Lobo. guarda-costas. Antônio era gaúcho e tinha morado no mesmo bairro do escritor em Porto Alegre.idade. na introdução de seu livro Mãe na zona. Não sabia as outras coisas. dirigido por Sérgio Bianchi. e os três passaram . Sabia que o rapaz era ariano e que seu ascendente era Libra. um rapaz que não conhecia. poetas. Nesse período. finalmente. Caio escreve também o roteiro do longametragem Romance. Escreveram o texto e Luiz Arthur dirigiu a peça. para o concurso de redação em sua escola — A maldição dos Saint-Marie. e Caio também não era uma pessoa muito fácil. mãe-de-santo. Cazuza e ele passaram em um bar. escritores. disse que. veados. vagabundos. o meio do céu em trígono em Urano. Uma amiga em comum lhe pedira que acomodasse Caio por uns tempos. lésbicas. artistas plásticos. Caio e Luiz Arthur passaram todo o Carnaval de 1986 trabalhando e brincando com a idéia de melodrama. O escritor e Sérgio.

e apenas queria ficar sozinho. e por fim Caio sugeriu que o rapaz escrevesse um conto ou crônica que ele publicaria. o ator tomou coragem e bateu na porta. o conto Mãe na zona saiu na A-Z e fez muito sucesso. de Porto Alegre. O problema era que Caio tomava comprimidos para dormir e ficava dois dias literalmente apagado. estava em São Paulo para participar do filme Feliz ano velho. Antônio tomou coragem e escreveu o livro. chorar e se arrepender profundamente. No terceiro dia. no entanto. o que é ter a mãe na zona? Segundo as primeiras frases do conto de Antônio. trancado no quarto. O apartamento era mais movimentado por causa das . O estratagema do ator era bom. Caio convivia bem com a heterossexualidade convicta de Breda. e funcionaria com qualquer outra pessoa. O ator também se preocupava com os sumiços de Caio. para fazer uma montagem da Electra de Sófocles. início de 1987. Lá de dentro. Se o amigo havia saído para ir ao banheiro. quando voltasse da rua. O ator. Breda voltaria a São Paulo no ano seguinte. foi o ator Marcos Breda. Dois dias depois. durante seis meses. baseado na obra de Marcelo Rubens Paiva. Ele então bolou um estratagema: espalhou talco no chão entre o quarto de Caio e o banheiro. dirigida por Jorge Takla. que era também gaúcho. Assim. porém. três dias sem aparecer. afinal. começar tudo de novo." Outro que morou com Caio nesse período. "mãe na zona é errar. ele viu saírem da máquina de escrever vários dos contos do livro Os Dragões não conhecem o paraíso. Exatamente do mesmo jeito. em uma festa na casa da atriz Imara Reis. se foder. e foi então que dividiu o apartamento com Caio. era porque estava vivo. E. o talco continuava intacto. uma voz cavernosa respondeu: Bom dia. dois. Caio insistia para que o rapaz escrevesse um livro: ele lhe daria toda força.a noite toda discutindo o que era ter a mãe na zona. Depois. que seria publicado em 1988. Ali. Breda. Apenas 19 anos depois. que conhecera Caio uns dois anos antes. ou à cozinha. Antônio escreveu. podia saber se Caio estava vivo ou morto: bastava ver se havia pegadas.

namoradas que o ator levava que pelos casos de Caio. Por acaso, muitas das meninas que Breda namorava na época eram bissexuais; Caio gostava de brincar com o amigo, dizendo que essa era sua forma de exercitar sua bichice sem culpa. Um dia, os dois vão a uma festa. Chega um amigo de Caio, que começa a dar em cima de Breda. Caio, sarcástico, enterra as esperanças do amigo: — Desista, meu amor. Todas nós já tentamos. É por influência de Caio também que Breda vai morar no Rio de Janeiro, na metade de 1987. Mário Prata estava escrevendo a novela Helena na Manchete e precisavam de alguns atores para certos papéis. Caio, que estava trabalhando com Prata em uma novela de José Wilker que acabou não se concretizando, indicou Breda, e lá foi ele. O ator foi para o Rio e não saiu mais. Representou em adaptações de algumas obras de Caio, como O homem e a mancha, no teatro, e Sargento Garcia, um curta. Em 2004, viria a participar, dessa vez como ator e também co-produtor, junto com Camila Pitanga, da remontagem da peçav4 maldição do vale negro, com direção de Luiz Arthur Nunes. O livro que Breda viu nascer enquanto morava com Caio, Os dragões não conhecem o paraíso, é provavelmente o melhor trabalho do escritor. Os contos apresentam uma unidade temática, segundo Caio nos diz, em uma pequena introdução. É um livro sobre amor. São treze contos, e não à toa — treze é um número cheio de significados místicos, mágicos, para quem acredita nessas coisas, e ele acreditava. Já na primeira história, Linda, uma história horrível, ele aborda o tema que o afligia: a aids. Sempre usando elipses, sem citar o nome da doença ou do vírus que a causa, ele fala dos sinais, da degradação do corpo. Um homem vai visitar a mãe. Doente, e pressentindo, talvez, seu fim, ele chega sem avisar, e encontra a mãe envelhecida, junto com a cadela também idosa, Linda.

— Mas vai tudo bem? -Tudo, mãe. -Trabalho? Ele fez que sim. Ela acariciou as orelhas sem pêlo da cadela. Depois olhou outra vez direto pra ele: — Saúde? Disque tem umas doenças novas aí, vi na tevê. Umas pestes. — Graças a Deus — ele cortou. Acendeu outro cigarro, as mãos tremiam um pouco. — E a dona Alzira, firme? Um por um, foi abrindo os botões. Acendeu a luz do abajur, para que a sala ficasse mais clara quando, sem camisa, começou a acariciar as manchas púrpura, da cor antiga do tapete na escada-agora, que cor? -, espalhadas embaixo dos pêlos do peito. Na ponta dos dedos, tocou o pescoço. Do lado direito, inclinando a cabeça, como se apalpasse uma semente no escuro. Depois foi dobrando os joelhos até o chão. Deus, pensou, antes de estender a outra mão para tocar no pêlo da cadela quase cega, cheia de manchas rosadas. Iguais às do tapete gasto da escada, iguais às da pele do seu peito, embaixo dos pêlos. Crespos, escuros, macios. — Linda — sussurrou. — Linda, você é tão linda, Linda.

Em todos os contos, o escritor aborda seus temas preferidos: o estranhamento, a solidão, a dor. Seus personagens vão envelhecendo com ele. Sempre jovens em Inventário do irremediável, agora há homens de 40 anos — como o próprio escritor. O estranhamento que sentiam em relação à cidade grande, muito forte em seus primeiros contos, agora já é aceito pelos personagens, que, mesmo solitários, vislumbram esperanças. O texto do escritor está em sua melhor forma, e isso foi reconhecido: Caio ganha seu segundo Jabuti por Os dragões. A repercussão do livro ultrapassa as fronteiras continentais e chega à Inglaterra, onde John Gledson, o maior especialista inglês em literatura brasileira, escreve uma crítica muito elogiosa para o Times, de Londres. Essa crítica abre portas para Caio: tradutoras e agentes foram procurá-lo; há interesse em publicar Os dragões em francês, em italiano, em alemão. A carreira internacional de Caio começa aí, e ele

não vai perder nenhuma chance de conseguir dar certo lá fora. Até porque isso significa viajar: Inglaterra, França, Alemanha... Dar uma descansada do Brasil. As possibilidades são imensas, mas não assim, imediatas — Levaria tempo até que as coisas se ajeitassem, contratos, ajustes: Caio só viaja para a Europa no final de 1990. Enquanto a viagem não chega, ele acerta algumas contas consigo mesmo; depois de cinco anos de espera, é a hora, finalmente, de se descobrir Onde andará Dulce Veiga.

CINCO

— Eu deveria cantar. Caio está numa fila de banco, esperando sua vez. De repente, lhe ocorre a frase: Eu deveria cantar. Ele corre para casa, excitado. O começo! Ele tem o começo. E todo o resto. A idéia, dele e do cineasta Guilherme de Almeida Prado, já existia há uns dez anos, os rascunhos já tinham uns seis, o quase-adiantamento para escrever já datava de uns quatro anos. A idéia inicial era inscrever o roteiro do filme em um concurso e depois escrever o romance. No entanto, apesar do roteiro estar terminado, Dulce Veiga não saía. Recusava-se. Os dragões desistiram de esperar, furaram a fila e foram publicados antes dela. Mas a idéia para a primeira frase — a singela "eu deveria cantar" — detonou o processo criativo. Tudo aquilo que Caio vinha maturando há anos resolveu sair à tona, com várias mudanças em relação ao roteiro feito a quatro mãos com Guilherme. Em dois meses, terminou o livro: escrevia dez, doze horas por dia. Das duas mil páginas que tinha escrito, no total, tirou umas duzentas. Escrevia, escrevia, escrevia. Resultado: um belo desvio na coluna. Além do livro pronto.

uma aventura no terreno do romance. uma questão da época. aos 18 anos de idade. Eram amigos. Márcia era amiga de Caio desde os anos 70. era uma exigência do mercado mesmo. que conseguiu conquistar três homens com seus sapatos. a fabricar romances. ambos com aquele quê de malditos. escrito mais com a cabeça e menos com o coração. Ele era a mulher dos sapatos vermelhos. ficaram amigos. que os publicavam. muitos deles nanicos. que ele só praticara uma vez. mais pragmaticamente. loira fatal. uma releitura para adultos do conto de Andersen. apadrinhados desde cedo por grandes nomes: ele por Hilda Hilst. Os anos 70 foram todos dedicados ao conto. a preferida de Paulo Francis. Enquanto ele escrevia Dulce Veiga. o infantil A ponte das estrelas. quando se trombaram em algum lançamento de livro pela cidade. depois de tantos anos escrevendo contos. Alter ego literário: Diana Marini. E. que circulavam. Enquanto Caio escreveu Sapatinhos vermelhos. loucos. cercada de anõezinhos. Ambos belos: Caio com seu jeito de Quixote.O processo é o mesmo que acontece a uma amiga escritora. com Limite branco. mas a maioria dos escritores brasileiros da época — estarem decididos. ela loira. Havia revistas e jornais literários. por Paulo Francis. Márcia escrevia sua versão da Branca de Neve. e ela o escreveu em pé. também de dez a doze horas por dia. Márcia e Caio. Márcia Denser. numa tentativa de não engordar demais. A mulher com pinta de fatal. ela estava sempre no apartamento dele. O fato de os dois — e não só eles. cercada de homens por todos os lados. com o impulso para o nocaute que um conto deve ter. que realmente eram lidos. a devoradora de homens. com . Ela era a Branca de Neve. a Diana caçadora de seus contos. Clarice Lispector e Lygia Fagundes Telles: ela. Ambos precoces. rosto de boneca. Nos anos 80. alto. algo mais trabalhado. ela também se arriscava a um texto maior. Beldades perversas. por mais que os pés doessem. Talvez houvesse uma necessidade de provar que se conseguia fazer algo de maior fôlego. não era coincidência. cabelos lisos. sem papas na língua.

Tudo isso que agora parece clichê banal. com Dulce. tão aplicado. Bruno Barreto faz a versão do romance para o cinema. um amor que foi embora. uma boa matéria: é a busca de si mesmo. um escritor urbano. Caio homenageia não só Marques Rebelo. por exemplo. O filme é estrelado por Betty Faria e Odete Lara. Assim. acabam os nanicos. vocalista de uma banda punk. como personagem. como ele. há as menções a Pedro. Ele segue as pistas. ainda chamada Dulce Rodrigues. de algum lugar no interior do apartamento. tantos anos atrás. Dão a ele a tarefa de encontrar Dulce Veiga. Os enigmas vão se resolvendo. conhece a filha dela. na gravação de Billie Holiday. a cantora. Sophisticated lady ou qualquer outra dessas canções roucas. O narrador de Onde andará Dulce Veiga é um jornalista. gemidas. naquele . nem todos com o mesmo sucesso de crítica que seus livros anteriores de textos curtos. não era uma invenção de Caio. de Dulce Veiga. e rebatiza a cantora. Quem a criou foi o escritor Marques Rebelo. que aliás é personagem do livro. Márcia Felácio. e eu anotei. que nos anos 30 escreveu A estrela sobe. viessem os acordes iniciais de Crazy. As editoras começam a preferir romances. A busca de Dulce Veiga significa mais para o narrador que um simples trabalho. publica vários romances nessa época. um amor do narrador. Em 1974. porque o leitor médio está mais acostumado com eles. Entremeando a história. mas também Odete Lara. e poderia ser também Glad to be unhappy. Naquele tempo eu não as conhecia. he calls me. mas estou certo de que nessa ou na outra vez perguntei quem era e ela disse que era Billie. Dulce Veiga. foi com Dulce. Não estou absolutamente seguro que. e assim um veículo por onde escoar tanto texto curto. que foi amiga de Caio. afinal a primeira entrevista que fez quando chegou na cidade grande. um a um. cantora muito popular que desaparecera vinte anos antes. grande contista. ao escrever sobre Dulce Veiga. Rubem Fonseca. agora sim.o fim da ditadura. A busca de seu passado.

mas a possibilidade de um novo começo. afinal. que ficou como se tivesse sido. lá embaixo — mesmo que não. assim como tem Márcia. no final. há um choque. Parecia meu nome. O encontro com Dulce. Uma arara pousou na árvore perto dela. Afirmo que havia música. diadema — que tinha entre os cabelos louros. quando se descobrisse. Dulce Veiga estava parada na porta da casa. finalmente. para viver de acordo com os preceitos da seita Santo Daime. acontece.tempo — repito e não me canso. e cita a doença nominalmente. A doença não é o fim. repito: seria tão perfeito se fosse exatamente assim como penso que lembro. enfim. Sem querer. Ela lhe dá um gatinho de presente. Os primeiros raios do sol faziam brilhar aquela estranha coroa -tiara. e se compreende. apenas o indicador apontado para o alto. Caio intui em Dulce Veiga o que seria a sua postura. O narrador tem aids. Não há mistério: ela apenas se tinha recolhido a uma cidade do interior. o gatinho chamado Cazuza. Depois gritou qualquer coisa que se esfiapou no ar da manhã. a mão fechada. Ele faz. Ela o faz encarar seus gânglios. mas não é nada do que se esperava. eu nem suspeitava das marcas pelo caminho. O narrador começa a cantar. e ele vai embora. ofuscado. soropositivo: descoberta da possibilidade de vida. seus sinais. . E começa a cantar. porque é belo e mágico na sua melancolia: naquele tempo — tudo era novo. pois mesmo que não houvesse nada e o silêncio do apartamento fosse cortado apenas pelo ruído dos carros na avenida São João. Pisquei. ao lado do cachorro. Ela ergueu o braço direito para o céu. o que deveria ter feito no começo. Toda de branco. Finalmente se aceita. A busca de Pedro é a busca de aceitação do presente. e por isso foi embora. que nada e nunca. sem medo de mentir. a jovem cantora. assim como Pedro teve. tantos anos depois. feito seta. pois ainda não sabia que estava doente. E ela que dá nome aos bois.

Muita gente não encarava. Ele via seus amigos sofrerem. Caio odiava esses guetos. A jornalista que fez a entrevista se demitiu. odiava boates e saunas exclusivamente gays. No final do show. chorando. e o final da matéria também. se admiravam. Certa vez. e da maneira de lidar com ela.Bonito. mas Caio preferia esse bar aos chamados guetos gays. Cazuza e Caio foram amigos. Uma das perdas mais sofridas. E eu comecei a cantar. afirmando que escrevera uma matéria equilibrada. Cazuza. era meu nome. Quando Cazuza morreu. o final e a manchete problemática seriam responsabilidade dos editores. do travesti Andreia de Maio. chorando. Iam juntos a bares trash. porém altivo. perdeu muitos deles. em um show. Eles se gostavam. que ficou todo orgulhoso. Vários artistas e intelectuais elaboraram e assinaram um manifesto contra a revista. citaria o cantor. Desde então. esse é o nome do gatinho com que Dulce presenteia o narrador no livro. Apareceu com uma coroa de flores enorme. Cazuza dedicou Só as mães são felizes a Caio. agarramentos de bastidores. em que se desmerecia o trabalho do cantor. a admiração que sentia pela forma . e foi um dos mais indignados com a capa da Veja que expunha uma foto de um magro e pequenino. como Vai Improviso. A tal manchete foi uma confusão. Tiveram até um pequeno rolo. O bar era o que se podia chamar de barra pesada: tiroteios. Caio ainda não teve coragem de fazer o que ele chamava de O Teste. foi Cazuza. Não em vão. Caio chorou potes. e ficou em seu canto. Mas estamos em 1989. com a manchete: "Cazuza: Uma vítima da aids agoniza em praça pública". dizendo que ele não era gênio coisíssima nenhuma. Caio sofreu muito ao acompanhar a decadência física do cantor. mais choradas. namorico. Viajou até o Rio para o enterro. vai até o camarim e dá uns bons amassos no amigo. tráfico de drogas. sempre que fosse falar de aids.

De um humor negro. respondia Campão. dizia Caio.como ele encarara a doença -aberta. uma estudiosa da obra do autor. anos depois. os amigos continuavam a aparecer. mas engraçado. Na conversa de bar. No teatro. Vamos pegar pó?. Em 1989. saiu uma coletânea de seus contos chamada Mel & girassóis. Renato não atuava na peça. Foi mais uma das grandes perdas quç assombrariam Caio até o fim de seus dias. Na literatura. arrogante. negríssimo. que já conhecia o escritor desde a primeira montagem de O leiteiro. mas estava sempre com o grupo. com ele não havia tempo ruim. Era isso que Caio apreciava nele: sua disposição . para dizer em uma palavra. como o fora a perda de Ana Cristina César. dirigida por Fernando Meirelles. novas adaptações de Morangos mofados: já tinha havido a primeira. fechada. Vamos. freqüentados por personagens do maior submundo da noite. andou pelo apartamento de Caio o ator gaúcho Renato dei Campão. em 1983. Vamos beber? Vamos pegar um michê? Vamos comer churrasquinho (às sete da manhã. Renato descobriu também o lado temerário de Caio. depois de passarem a noite bebendo) ? Vamos. Antes dessa época. séria. o lado que gostava de ir a bares barra pesada. mas tinha um certo medo dele: o comentário geral era que o escritor era uma pessoa extremamente intelectual. pronto para qualquer coisa. que ainda não era o aclamado diretor de cinema. feita por Paulo Yutaka. é que Renato descobriu quão engraçado Caio podia ser. Caio ia tocando a vida. por uns tempos. dizia Campão. organizada por Regina Zilberman. Renato já cruzara com Caio pela noite de Porto Alegre. tentando eliminar os preconceitos. um programa de crítica literária na TVMix. uma programação da TV Gazeta. Era nessas aventuras que Renato o acompanhava. E agora era montada uma na Bahia. Apresentou. em Porto Alegre. amigo querido que também viria a morrer de aids. Afora as tristezas. pela editora Mercado Aberto. No apartamento da Haddock Lobo. Luciano Alabarse também fizera a sua.

e em certo momento virado para a mulher e dito: sai daqui. Atrás dele. O escritor teria se irritado com aquilo. bêbado. que não sabia manter o próprio traseiro no lugar. A mulher se pôs a gritar. Ele e o escritor estariam conversando animadamente no balcão. no bar Líder. Por ser amigo mais de farras noturnas. talvez com medo de uma atitude ainda mais agressiva. Por mais que adorasse ser lido. o escritor acendeu o isqueiro. de vez em quando. ele viraria de novo: tu não vai sair daqui? Ela nada. Caio gesticulava e falava alto. mergulhou em uma de suas muitas crises depressivas. Algum tempo depois. de vez em quando o mau humor o dominava. Calmamente. Caio se enrolou. admiravam sua obra. o apartamento de Caio era um lugar agitado: visitas a toda hora. e menos de um ano depois de ter saído de Porto Alegre. empolgado com o assunto que discutia. me liga. aqui é a Regina Duarte. Uma vez. Muitas meninas e meninos o assediavam. Mais uma vez: tu não vai sair daqui? Como a mulher não saía.para aventuras. em 1987. o lugar lotado. Em 89. mas nada aconteceu a Caio. e ela nada fez em represália. Nessa época. havia uma mulher de cabelos compridos. enquanto conversava com Campão. Ela não deu bola. Ele continuou tranqüilamente a conversa. e continuava encostando em Caio. Ele diz ter presenciado uma cena. até na relação com os fãs. uma vez em Porto Alegre. armava barracos escandalosíssimos. amigos vindos de todas as partes. prometendo arrumar um emprego na capital paulista para ele. A agressividade de Caio vinha à tona. uma garota veio dizer que . ele convidara o ator para se hospedar em seu apartamento em São Paulo. Mesmo com tantos contatos. Renato presenciou algumas cenas em que Caio. o emprego para Campão nunca veio. e a secretária eletrônica com os recados mais ilustres: Caio. Renato voltou. que volta e meia batia sem querer a bunda em Caio. levantou-o atrás da cabeça e ateou fogo nos longos cabelos da inconseqüente figura. ele decidiu. em Porto Alegre. e vinham falar com ele.

A resposta veio rápida e ríspida: — Não quero fãs. Porque por mais que dissesse que aquele tal era o último amor. que ele conhecera poucos anos antes.era fã de Caio. Um bailarino. E de novo. Todos esses conflitos Caio discutia com seu terapeuta. Caio chegou bêbado em casa. e que morrera em 1989 em decorrência da síndrome. também foi morar com Caio por uns tempos Ivan Mattos. às vezes. Os amigos afirmam. bem. Caio deu um tabefe em Ivan. ele não se descuidou mais. numa entrevista à Marie Claire. A terapia o ajudava demais. apenas — até que o gênio de Caio e o temperamento de Ivan se trombassem de vez e os dois brigassem feio. Em 1989. Déa presenciou a briga de Caio e Ivan. Também. por causa da menção do escritor de chamar um michê pelo telefone. que era impossível saber como Caio contraíra a doença. Déa era divertidíssima. namorado do início dos anos 80. uma pessoa conhecida que viveu na Suécia. era preciso mesmo um pronto-socorro emocional de vez em quando. quero amantes. e os dois se juntavam sempre para falar bobagens. Ivan estava no apartamento. E na noite. na loucura. como dizia. apaixonado por alguém. Desde então. ele e a amiga Déa Martins. Houve alguns casos até duradouros. que ficou magoadíssimo e foi embora no outro dia. dessa vez para sempre. ele estava sempre se apaixonando de novo. enquanto o escritor se corroia em culpa. e também para fazer loucuras. de novo. Fazia um frio enorme. de vez em quando tinha uns surtos de galinhagem. adorava Caio. E quebrando a cara. e ele e o amigo Luciano Alabarse saíam do cinema. Ronaldo Pamplona. no entanto. embora fosse recatado a maior parte do tempo. Moraram juntos por alguns meses — agora bons amigos. afirma Caio na entrevista. em outro período. porque. como sendo a provável pessoa de quem ele pegara aids. sem dar mais notícias. uma produtora de eventos também gaúcha. o ator. sofrendo uma desilusão amorosa por semana. inclusive um que ele mencionaria mais tarde. .

de uma certa forma: o mesmo humor. dramaturgo. Ele e Caio foram grandes amigos. Caio continuava a manter sua espiritualidade viva. é difícil afirmar que ele se protegia sempre. não por acaso. que aquilo era apenas seu corpo colocando as inseguranças para fora. Sônia. Vicente tinha uma forma de encarar as coisas . os melhores que se pode haver. ficava paranóico sempre que aparecia alguma pequena doença. a mesma forma de encarar a vida. um herpes-zóster. depois. talvez mais que a fé. e assim ele seguia vivendo. O jornalismo até que servia para alguma coisa. o livro é dedicado a Cida Moreira. no Rio de Janeiro. As pessoas diziam que era paranóia dele. que participara dos rituais originais na Amazônia. ligado ao movimento do teatro besteirol que surgiria depois. Embora não fizesse o teste. O Daime é uma substância alucinógena. Era seu melhor amigo. Vicente foi um dos autores do famoso programa de humor TV Pirata. Uma das pessoas que influenciou Caio a tentar o Santo Dai-me foi Vicente Pereira. bem. D. anos depois. Enfim. / Ching. a mesma espiritualidade. e usou essas informações no livro. Além da terapia. que virou moda entre os intelectuais e artistas do Rio e de São Paulo no final dos anos 80. Caio diria que sua ausência era a mais dolorida. Quando Vicente morreu.bêbado. cantora e amiga de Caio. Primeiro. ele chegou a freqüentar também o Santo Daime. afinal. através dos rituais mais variados. seu grande colega. Falava sempre com sua mãe-de-santo. Jogava taro. Eram almas gêmeas. E assim. e Caio tentava. era uma forma de tentar contatar a divindade. Quem participou do ritual original afirma que o que se fazia no Rio era uma imitação tosca do que acontecia nas selvas amazônicas. A beleza dos rituais o fascinava. uma infecção nos ouvidos que não sarava nunca. O Santo Daime está presente em Onde andará Dulce Veiga. em torno da qual se formou uma seita na Amazônia. pela beleza do ritual. de aids. amigo e parceiro de trabalho de Mauro Rasi. crença em algo maior. Caio a entrevistou exaustivamente para saber como era tudo.

mais retornaria a ele. Mas sempre com um decote bem profundo. também ligado ao teatro. você precisa conhecer o Caio. Não fazia parte de seu temperamento se comprometer a fundo com as coisas — namoros. José Márcio Penido dizia: Caio. acreditava que quanto mais desse. Era só o Vicente entrar em alguma seita. influenciou pelo menos mais uma pessoa: Miguel Falabella. religiões. um livro. vivia esse desapego. Era assim que ele era. Amigos até o fim. talvez não de forma consciente. entre os dois. estava sempre como visitante. empregos. free-lances. Sacerdote. e estava sempre sem dinheiro. sacerdotisa.voltada ao desapego: não acumulava coisas. Muito antes de Caio e Vicente se conhecerem pessoalmente. Caio. José Márcio fez a ponte. A semelhança era tão óbvia que as pessoas em volta percebiam. E assim foi. quando menos se esperava. eu estarei no meio delas. Generoso. quando o conheceu. dava constantemente presentes aos amigos. dava oficinas de criação literária. como turista. um apartamento. Estava sempre trabalhando. Com essa filosofia. comprar um carro. Por um lado. Sabia que. traduções. no minuto em que se encontrassem. eles já se conheciam dos relatos dos outros. isso era triste: lhe dava uma solidão . acumular bens. Não poderiam deixar de ser amigos. filosofia ou religião e. A relação de Caio com essas coisas era sempre mais descompromissada. um anel. ele podia virar e se oferecer para pagar a conta de todo mundo no bar. e sempre sem dinheiro. talvez não como filosofia de vida. mas era assim que ele era: não conseguia juntar nada. uma pintura. credo. E ao Vicente: Vicente. fazia copidesques. já estava comandando as reuniões. por muito tempo. você precisa conhecer o Vicente." Caio brincava com Vicente. Há uma frase de Vicente. Ele não assumia que fazia parte da seita. dois meses depois. com algum cargo ou posto importante. Era um sucesso como escritor. dizia que ele era a sacerdotisa do Daime. tão repetida por Caio. E Vicente também. que muita gente chega a achar que é dele: "Quando duas ou mais pessoas estiverem reunidas em nome de Deus. se adorariam.

E assim foi. com todas as características de ser o demônio.. os caras-pintadas. Quase como se adivinhasse o que viria depois: a roubalheira. e Caio o republicou. Fernando.] — Você é o escolhido. — Para possuir todos. meu bem-amado — o menino ruivo gemeu. como sempre. Aquilo desanimava Caio. em 1989. você quer? Ele voltou a cabeça até mergulhar os olhos no verde sem limites dos olhos dos outro. sairia por sua boca escolhida . Caio escreveu o texto. E como Caio queria ir para a Europa. não eram fáceis. Se fez bem ou não em não publicar o texto. Os tempos aqui. o impeachment. Segundo o escritor.. em afirmar: era ofensivo. que tinha um encontro com um outro menino. E num movimento mais brusco explodiu dentro dele. Antes do segundo turno da eleição. trinta anos mais tarde. Foi publicado depois pelo jornal alternativo Verve. não dá para dizer.tremenda. Márcio Souza escreveria o de Lula. Collor tinha ganhado as eleições. ao menos. Fernando. você foi o escolhido — o menino disse. E aceitou: — Quero. foi considerado ofensivo demais pela direção do jornal. — Daqui a trinta anos. Dentes agudos picaram seu pescoço. anos mais tarde. E curvando-se mais: — Pense bem. às vezes. em Ovelhas negras.. O menino Fernando faria um acordo com o diabo para dominar a todos. E tinha que ser. o Jornal do Brasil pediu a Caio que escrevesse um perfil de Collor. — Mais fundo-pediu. Aquele mesmo que. um ruivo. para lançar seus livros. se pudesse. Vou perguntar pela última vez. [. sim. e muita gente também. O texto era um conto. Por outro. Tudo isso. em 1990. Fernando. mas a direção do JB acertou. diria Caio. Falava de um menino. quando Caio decidiu ir para a Europa.. mas ele nunca chegou a sair. a liberdade que tinha lhe permitia ir aonde fosse sem dar satisfações a ninguém. enchendo-o de ouro líquido.

ao seu lado. Em novembro de 1990. Só imaginou. Por essas e outras é que a figura de Caio é tão associada a de D. até o lançamento da edição francesa do livro. sua barbinha. Às vezes. Se . que só aconteceria dali a quatro meses. quase dezembro de uma segunda-feira. viajou com a passagem que havia ganhado do prêmio Molière pela peça A maldição do vale negro. Na ida à Europa.para chover sobre as cabeças e corpos de todos aqueles homens e mulheres que o aplaudiriam como o cavaleiro andante. um rei. Foi notícia por lá: deu entrevista para a revista Time. e provavelmente pensando em sua aparência. dia de Exu. combatia moinhos de vento. lhe assentaria bem como uma roupa feita sob medida. Clarice lhe sussurrava no ouvido. nem imaginava o quanto o termo colaria em Caio. a maneira errada. Quixote de La Mancha. — Como é seu nome? — perguntou então. 0 menino ruivo tinha desaparecido ao sol do meio-dia em ponto. para a rádio BBC. ideais nobres. para conseguir passar mais um tempo na Europa. Vai a Londres lançar a tradução inglesa de Os dragões não conhecem o paraíso — Dragons dont go to heaven — em uma feira de cultura brasileira. Caio finalmente viaja à Europa. desajeitada. um príncipe. Quarenta e dois anos de idade. e lá estava o Caio procurando emprego de garçom. para o jornal The Independent. ele não tinha dinheiro nenhum. nove livros publicados. para a Time Out. Molhou as pedras num jato prolongado de prazer-o primeiro. em março. nas pedras do Arpoador. Astaroth. Clarice Lispector. uma tradução inglesa. imaginou ouvir. Um deus coroado pelo lado mais negro de todas as coisas. e a chance de sucesso parecia ser zero. O quixotismo dele estava presente em seus ideais. de lealdade e busca de um mundo melhor. que primeiro lhe deu o apelido (você é Quixote! Você é Quixote!. Depois de divulgar seu livro. e também na maneira trôpega de lutar por eles. Caio foi correr atrás de lugar para morar e emprego. enquanto ele autografava livros. em algum lançamento). mas ele continuava lutando.

que seria seu companheiro por anos. um subemprego qualquer. Não sei para onde. pegou uma pedrinha do jardim dela. ". já que. seu editor na Inglaterra. depois. foi até o rio Ouse. além de ver muitos filmes e ler muitos livros — seu inglês vai se soltando mais e mais — Caio fica na espera dos compromissos que tem a cumprir: algumas leituras e palestras na Inglaterra. Caio estava feliz: visitou a casa onde morou Virgínia Woolf. quando voltar ao Brasil. o Brixton. a única diferença é que na Inglaterra as pessoas sofrem a crise com mais estilo. mas me soam mais para David Lynch do que para T. sempre sem acentos — o teclado era britânico. Em Londres. queria demais começar a providenciar uma mudança de São Paulo. como São Paulo era. ele sonha. "Em cima. não tinha nenhum dinheiro guardado para segurar a barra nessa hora. onde ela se matou. uma SmithCorona.quisesse ficar lá. Algum lugar onde eu possa plantar rosas. Quero porque . ele fez alguns free-lances para jornais no Brasil e. Enquanto isso. essa ele chamou de Dorothy. bastard: para nigrinhos. Em Londres. como Caio o descreve. Ray. Seguindo o costume de dar nomes às suas máquinas de escrever. um casacão de soldado alemão no mercado de Camden. Escreve a Magliani: "Depois desta. por uma pechincha. um irlandês. com sua inabilidade em lidar com questões materiais. quixotescamente. Comprou um casaco. uma espécie de Harlem londrino. fez sua carreira internacional. o lançamento da edição francesa de Os dragões. No fim das contas. mora num bairro negro. em março de 1991. Isso é FUNDAMENTAL. com a qual passou a escrever cartas aos amigos. teria que batalhar um emprego. uma negrona grita o tempo todo fuck you little devil! I’ll kill you. Grita mais coisas que não entendo. Caio fica uns tempos na casa de Ray. Eliot. assim. Comprou uma máquina de escrever usada. escreve a Jacqueline Cantore. Ele sente que os tempos são difíceis. que tudo é perigoso.S.

ele desistiu depois de comentar que ia cair a maior água. o Brasil urbano. mas respondi com um grunhido. Afastei o banco para trás. o seu Brasil. dos clichês que se costuma apregoar do país. Assim. a confusão está é nele mesmo. violento. um estrangeiro. sempre. das grandes cidades. Em Porto Alegre. Como no trecho seguinte. sentia que a cidade o sufocava. em Porto Alegre. quando o livro for lançado lá: o retrato de um Brasil urbano. com o título — já modificado por Caio — de Estranhos estrangeiros. a violência. ele jamais deixaria de ser um gaúcho. Seriam histórias sobre a condição de ser um estrangeiro. talvez. E é assim que Caio começa. não agüentava o moralismo das pessoas. postumamente e incompleto. Em São Paulo. a poluição. Assim que aceita sua condição de eterno estrangeiro. afinal. Em Londres. em São Paulo ou Londres." Nessa carta. apesar de todos os defeitos. um estrangeiro. nunca saí de Santiago do Boqueirão". na mesma carta. acima de tudo. "No fundo. ele conta ainda à amiga que planeja escrever um livro chamada Histórias estrangeiras. era a Europa. mas no mundo. e não só em outras cidades. quando se achava que tudo estaria bem. pela Companhia das Letras. E o descreve muito bem. não estão em Santiago.quero cultivar roseiras. apesar de todos os pesares. finalmente. O livro viria a ser publicado. mas também poético. afinal. escreve. diferente. um gaúcho da fronteira. Com todas as crises e dores e terceiro-mundismos. a Magliani. em que a metrópole é o pano de fundo para suas lembranças: O motorista japonês tentou puxar conversa. Caio pode parar e olhar ao redor e ver que os problemas. Havia sempre um motivo para não gostar do lugar. Porque ele era. estendi . pode aprender a amar o lugar onde está. Mesmo aprendendo a gostar do Brasil. Sobretudo ama. a amar o Brasil. um homem sem lugar. ele achava tudo frio demais. e Caio começou a perceber que ele seria. Caio ama e odeia o Brasil. E é isso que encantará os franceses. em Onde andará Dulce Veiga.

muito maluca. sobre o asfalto em brasa. Com o sucesso do livro na Europa. Laura fez a música. era roqueira. cantora. O livro. e se algum diretor francês se interessa e resolve comprar os direitos? E se o Almodóvar se interessa. finalmente. deitei a cabeça no encosto de plástico pegajoso e por quase um segundo. sem querer nem provocar ou conduzir. tinha a sua banda. anos depois. e a gravou. eu queria ver no escuro do mundo. Vai trocar de estação. no fundo turvo do pensamento. muito rapidamente. Chama-se Poltrona verde. mas ele brinca principalmente para convencer o amigo Guilherme de Almeida Prado. lembrei então de Pedro. dentro do táxi que descia em direção ao Ibirapuera. a camisa molhada. cineasta. De repente a voz rouca de Cazuza começou a cantar. tive certeza. e era muito. claro. Débora é atriz. Com trinta e poucos . afinal de contas. vermes dentro de sanduíches.as pernas. Caio começa a sonhar alto. surgiu da idéia dos dois para um filme. enquanto o carro rastejava pelo trânsito difícil. fechei os olhos. não o inseto que já foi embora. gaúchas. Ele ligou o rádio. o vento soprava na minha cara. Laura. a pilha de laudas virando pasta entre meus dedos. e por quase um segundo. e muito amiga do Caio. abri mais o vidro. lá na Espanha? Caio está brincando quanto a isso. chacinas em orfanatos. musicar uma letra que ele fez. como quem apaga ou acende uma dessas luzes para perceber no quarto vazio apenas a vibração de asas que restou no ar. a fazer o filme. rezei para que não sintonizasse num daqueles programas com descrições hiper-realistas de velhinhas estupradas. e pedi que aumentasse por favor o volume. outra vez. tão oriental. a Lory E Band. Lory E. como quem de repente suspira ou pisca e segue em frente. Laura Finocchiaro. veloz feito uma mariposa que cruza subitamente o ar nas noites de verão. secando o suor. A outra irmã. mas ele não trocou. Caio chegou a pedir para uma amiga cantora. Dulce Veiga é uma história supercinematográfica. talvez budista. por quase um segundo. Laura é uma das três irmãs Finocchiaro. todas artistas. Isso me fez gostar um pouco dele. à procura de luz acesa para girar em torno.

ele admirava demais. é um pouco inspirada em Lory. Era a peça As 1001 encarnações de Pompeu Loredo. seria uma das únicas fitinhas que ele levaria para ouvir no walk-man. comédia de costumes. De Cida. escrita por Vicente Pereira e Mauro Rasi. E Caio não gostava apenas de cantoras sérias. que fez sucesso com a canção Doida demais. Era amigo de muitas delas: Laura.. Chorava sempre na parte do "eu ando pelo mundo. era um dos melhores amigos. Cida Moreira. em 1980. O público e a crítica estariam prontos. nas outras vezes em que esteve na Europa — sim. Caio amou o álbum. Stella participou. como atriz. porque Londres em 1990 era apenas o começo — escreveu algumas cartas a ela. amiga de Caio. . filha de Dulce Veiga. Cida ou Marina Lima. não assimilava. vocalista da banda Vaginas dentatas. contando de suas experiências. prestando atenção em cores. Caio adorava cantoras. O teatro besteirol fazia crônicas sobre o cotidiano.. Diziam que era bobagem. e foi aí que surgiu o nome "besteirol". tinha o humor contundente e criticava a sociedade. sem cobrar por isso. Nenhuma das duas tinha qualquer ligação com o interior ou com a música caipira. Em uma de suas viagens à Europa. como Adriana. besteira. no entanto. fez a dupla com a cantora Katia Bronstein. atriz paulistana. sempre com mais e mais fãs. A Adriana Calcanhoto. Stella Miranda. Em 2006. Adriana escreveria mais tarde a canção Alegre. e sempre fazendo referências ao álbum Senhas. "deusa". do primeiro besteirol da história dos besteiróis. surgiria uma nova tropa de atores e autores de teatro inspirados no movimento. morreu de aids. e homenagem. Grace Gianoukas. gravada por Vânia Bastos. o espetáculo entraria no quinto ano de apresentações. apenas de farra. Adriana Calcanhoto.anos. faria sucesso com o espetáculo Terça insana. Inspiração." Em homenagem a Caio. Escreveu releases para discos de Laura e de Cida. da cantora. A crítica. asfalto nas veias. Vinte anos depois. e a ouvia sem parar. O personagem Márcia Felácio. ele levou a fita da dupla pop-humorístico-sertaneja Xicotinho & Salto Alto.

Caio está de volta. uma otite. Seis meses depois de ter deixado o Brasil. Apesar da sua amizade com as cantoras. que é artista plástica. não impede que Caio fique doente. e também leu dois textos em off — com aquela bela. E. Quando ele volta a São Paulo. agora sim. com todo apoio das leis culturais. ambos de Guilherme. A tranqüilidade da cidade. Caio não viu Dulce Veiga virar filme. A relação de Caio com o cinema de Guilherme vem antes. suficientes para fazer litros de chá quando voltasse a Sampa. longe das capitais. para esse tipo de humor. cheia de belos morrinhos. não havia dinheiro. no entanto. como Dulce Veiga era um projeto dos dois. Depois. Caio inveja a vida que Magliani conseguiu montar para si. A médica chamou a infecção de . além disso. numa cidade pequena. cheia e grossa voz — no filme A dama do Cine Xangai. porém. pode pintar e desenhar com tranqüilidade. Caio fez uma pequena ponta no filme Perfume de gardênia. Lá.finalmente. com umas pequenas infecções. Caio está com a saúde meio arrebentada. elas pioram ainda mais. Vai acompanhado da amiga escritora Sônia Coutinho. Ele colhe várias ervas. e com Laura. que no livro não tem nome. ele estava bem. na neve. histórica. e depois de passear também pela França. decide visitar Maria Lídia Magliani. Carolina Dieckmann como Márcia E O narrador. O projeto só foi iniciado em 2005. do projeto de Dulce Veiga. e de até a música estar pronta. Depois que voltou da Europa. lenta. as dificuldades de se fazer cinema no Brasil eram imensas. era natural que o amigo filmasse a história. no frio. no filme se chama Caio — uma singela homenagem ao amigo — e é vivido pelo ator Eriberto Leão. feridas em dois dedos da mão esquerda e um da direita. ainda que muitos anos depois. Foi só na volta a São Paulo que seu organismo começou a dar problemas. 15 graus negativos. que Caio acha maravilhosa. Primeiro. pode cultivar uma horta. Guilherme de Almeida Prado não conseguiu filmá-lo naquela época. Ali Magliani. e com vários atores consagrados nos papéis principais: Maitê Proença como Dulce Veiga. em Tiradentes. Renovado. Minas.

não era motivo para fazer O Teste. que estava em cartaz na França. João e Caio se tornaram amigos. Caio não consegue parar quieto. mesmo que não tenham nascido daí. Ele volta preparado para enfrentar o passado e reescrever Limite branco. também. que o conheceu na oficina Anatomia do Conto. volta renovado: uma viagem aos pampas. como o conto Tentação.estreptococcia e achava que não. para os alunos lerem. A experiência de ter aula com ele foi marcante para muita gente. o escritor acaba perdendo o . amiga sua e de Ivan Mattos. depois mais laboratórios de criação literária. e às vezes comentava que preferia se dedicar somente à sua literatura. nas viagens à Europa que fez. em Curitiba. Para a Playboy. sugeria mudanças. lia o que a turma escrevia com carinho. principalmente. um contato com as raízes. Mesmo com as infecções e os namoricos que eventualmente aparecem. mas nem por isso deixava de fazer o trabalho bem feito. que atuou na novela Pantanal. crítica literária para a Playboy. Ele fazia pelo dinheiro. ministrada pelo escritor na Casa de Cultura Mário de Andrade. em São Paulo. aliás. Dá palestras em várias cidades de São Paulo.H. Escreve. Um dos alunos de Caio foi o gaúcho João Batista. e os discutia depois. necessariamente. Caio escreve ainda um ensaio sobre a atriz gaúcha Luciene Adami. dava textos de Clarice Lispector. Entre uma viagem e outra. escrito aos 18 anos. seu primeiro romance. A segunda edição do livro sai em 1994. escritores de renome. como o pôster de uma peça de teatro baseado em Clarice Lispector: La passion selon G. Caio passeia por São Luís do Maranhão e passa o Natal de 1991 em Porto Alegre. Além de Curitiba para a oficina literária. com a família. sempre fazem de Caio um pouquinho mais feliz. pela Siciliano. Caio mandava sempre um postal ou trazia uma lembrança para ele. Quem fez oficina com ele conta: Caio era um professor atencioso. Como sempre.

no Brasil. Caio escreve um ótimo texto. uma pequena cidade portuária. uma frase de Camille Claudel numa carta a Rodin: "Il y a toujours quelque chose d'absente qui me tourmente. um conto de fadas para escritores. no décimo andar de um prédio defronte ao mar. Dessa vez. Sem se preocupar demais. O texto gira em torno de uma frase que perseguia o escritor há anos.apartamento onde mora. ele realmente se atirou de uma janela e morreu. autor de Dinheiro queimado. publicada na França e. com tudo pago: ele era convidado da Maison des Ecrivains Etrangers (Casa dos Escritores Estrangeiros). Caio rumou para SaintNazaire. e vales para ir ao cinema e teatro e bares de graça. bem acompanhado. mesmo assim. Antes dele. entre outros. no final de 1992 já estava de viagem marcada para a Europa de novo. uma pequena novela chamada Bem longe de Marienbad. passaram pela Maison o escritor argentino Ricardo Piglia. inclusive com faxineira. Assim à vontade. Caio viveu. bem alimentado. anos depois. na verdade. ao sair. em Nova York. Foi uma época de glória para ele: bem tratado. Funcionava assim: ele ficava dois meses num apartamento todo montado. na França." "Há sempre alguma coisa de ausente que me . por dois meses. enquanto a causa rolava na Justiça. O aluguel subira demais e ele não tinha como pagar. no póstumo Estranhos estrangeiros. ele continuou morando no apartamento. Arenas. Depois de dez dias em Paris. afinal. para ser publicado pela editora Arcane XVII. mais uma pequena mesada de 1500 dólares. ficou apenas três dias: tinha medo de se jogar da janela do apartamento — que ficava num décimo andar — e foi embora. que fica em Saint-Nazaire. sua única obrigação era deixar um texto pronto. Seis meses mais tarde. e o chileno Reinaldo Arenas. para uma bolsa de dois meses.

o que só se descobre ao final. não devo me deter tempo demais em meus próprios olhos. pela comida ou qualquer desses outros detalhes dos hotéis. congelado em inúteis delicadezas enquanto tudo ou nada ou apenas qualquer coisa. Caio chamou a novela de O leopardo dos mares. e promete. em que se entremeiam passagens de sua narração de Bem longe de Marienbad em off. ao final. em primeira pessoa. descobre a busca do outro por si. em um francês bastante razoável. com seu capotão inseparável. Pelo risco da imobilidade eterna. Mais difícil. que me soa romântico com seus erres rascantes ditos pela loura cinqüentona da portaria. sendo o leopardo o próprio narrador da história. olho para fora enquanto o trem dispara sobre os trilhos. Desvio o rosto. Ele segue as pistas do homem. de literatura. é a história de um homem que chega a uma pequena cidade na França para procurar um amor. Caio grava um pequeno documentário para a Maison. Não pelo quarto. permeado de referências a Arenas e à canção de Barbara e F. Na temporada que passa em Saint-Nazaire. no frio e nas brumas. e alguns dizem que há castelos pelo caminho. O texto. mesmo insignificante. em português. rue du Port —. vai a seu apartamento. e uma entrevista. Originalmente. Aumento o som da canção. igualmente imóvel. mas pelo horror imóvel das enguias em sua jaula de vidro associado ao outro horror também imóvel daquela palavra. Ainda não anoiteceu. madame. s'ilvous plaft. madame.atormenta. Wertheimer. é delicado e belo. bien sür. a possibilidade do reencontro e da harmonia. Marienbad. com certeza madame não compreenderia tanta ânsia tropical. pelo perigo de eu mesmo permanecer para sempre aqui. se agita e move e se perde em outro lugar. e ela insiste. É fácil descobrir o endereço — dix-sept. Preciso ficar sempre atento. em que ele fala de suas influências. e por fim descobre a si mesmo. seria explicar por que me vou sem sequer passar uma noite aqui. de . com imagens dele andando pela cidade." A novela.

Quem cuida de tudo. quando se descobrisse doente. participa de jantares e eventos com os outros escritores convidados da Maison. escreveu peças lindíssimas.cinema. diz que. Fala também da importância do cinema em seus textos. a filha de nove anos de idade de seu editor na Arcane XVII. uma turma da Estônia. Enquanto não está escrevendo. Ele perdeu mesmo a causa judicial do seu apartamento. ele seria chamado para muitas entrevistas. cortes e mudanças de perspectiva. segundo ele afirma em carta. e uma dramaturga tcheca. é Gil Veloso. a gaivota que mora na janela da cozinha. com seus zooms. Tudo na mais absoluta paz. que. alguns anos depois. repetidamente. e aquilo muito o chatearia. pensava Caio. fade-ins e fade-outs. As pessoas costumam se referir a Gil como secretário de . É nesse documentário que Caio fala que. e a personalidade bem formulada. a astrologia é importante para ele na criação dos personagens de seus textos. com sua carteirinha de convidado. ele vai ao cinema várias vezes. Letônia e Lituânia. porque no Brasil as coisas estão feias. quando está escrevendo. independentemente de se acreditar ou não. de poesia. que nunca teve muita paciência para crianças. Daniella. SaintNazaire. de astrologia. De vez em quando. Caio aproveita esse momento da melhor maneira que pode. sempre pensa: onde está a câmera agora? Ele pensa o texto de uma forma cinematográfica. Ouve o álbum Senhas. a realização de um ideal: todo escritor deveria ter aquelas condições para escrever. O documentário é muito bem feito. de seus processos de criação. só que todas girando em torno do tema HIV/aids. de Adriana Calcanhoto. começa a afrouxar. Marina sabe tudo sobre Van Gogh e Caio adora conversar com ela. e não tem mais onde morar quando voltar. Faz também amizade com Marina. Caminha na praia. e dá a chance a Caio de falar de sua obra. cada um tem seu mapa astral desenhado antes da escrita. era um pequeno sonho. lê. Conversa também com Isabelle. em sua ausência. enfim. Ele.

Em seu caso. Caio achou aquele nome ótimo: Gil Veloso. isso não existia. O luxo na Maison acabara. Tudo que fazia — nisso os amigos são unânimes em afirmar — era sem esperar nada em troca. é isso? Afinal. Visitando Caio. Em janeiro. entre os quais estava Caio. Gil nunca recebeu um centavo para cuidar do Caio. bancos. Eles eram amigos. mas nem por isso Caio deixou de voltar à Europa. embora não vestisse a camisa e saísse gritando palavras de ordem. ele viaja para divulgar seus livros. Sappe havia defendido uma tese sobre a literatura gay no Brasil. Na verdade. Tinha edições de obras do escritor que o próprio não tinha. Os dois foram sobretudo amigos. pagava contas. ele escreveu alguns contos cujos . Em esquemas mais econômicos. contas. foi Gil que desmontou o apartamento da Haddock Lobo e deu um jeito de guardar as coisas do amigo em sua própria casa. Sappe constatou que os escritores brasileiros não gostavam muito que chamassem o que faziam de "literatura gay". convivendo com ele. porque ele exercia esse papel: ia na padaria. até se tornar uma espécie de secretário. Os dois se conheceram na metade dos anos 80. Amsterdã. Gil brincava: anjo da guarda porque eu guardo suas coisas. por exemplo. a explicação é que. Em seu estudo. porque ele deveria ser chamado de escritor gay. Para Amsterdã. ele tem carona. às vezes. ajudando. Ficaram amigos. que acabavam ficando para ele. verificava contratos. papéis. o amigo Sappe Grootendorst vai buscá-lo de carro. Graciliano Ramos não era chamado de escritor hetero. fazia de tudo para o escritor. vai para a Holanda.Caio. mistura de Gilberto Gil com Caetano Veloso. Para Caio. fazer leituras e palestras. para a qual entrevistou 18 autores brasileiros. o que nem sempre era fácil: era preciso paciência para lidar com o Caio. depois Kõln e Frankfurt. Em 1993. Gil era fã da obra de Caio. O escritor dizia sempre que Gil era um anjo da guarda enviado pelos céus para cuidar dele. Gil percebeu a dificuldade do escritor em lidar com as coisas práticas da vida. E foi ajudando. sem nenhuma segunda intenção.

personagens eram gays ou em que havia sugestões de homoerotismo. Nada panfletário, mas em algumas situações os personagens apanhavam, eram criticados, se davam mal por sua condição. Saíam feridos, mas moralmente vitoriosos. Um exemplo é o conto Aqueles dois, de Morangos mofados. Dois rapazes, Saul e Raul, se conhecem ao serem contratados para trabalhar na mesma firma. A amizade dos dois irrita o pessoal da empresa e ambos acabam demitidos. Saul e Raul saem juntos, altivos. A derrota fica reservada para os que desaprovavam a amizade dos dois:
Pelas tardes poeirentas daquele resto de janeiro, quando o sol parecia a gema de um enorme ovo frito no azul sem nuvens do céu, ninguém mais conseguiu trabalhar em paz na repartição. Quase todos ali dentro tinham a nítida sensação de que seriam infelizes para sempre. E foram.

Caio odiava o rótulo de escritor gay, assim como odiava quaisquer rótulos que pretendessem dar conta de sua literatura em uma palavra. Escritor introspectivo, escritor de geração, escritor marginal, quais fossem. Ele não gostava, como em geral nenhum escritor gosta. Fosse como fosse, Sappe entrevistou Caio para seu trabalho, e anos depois traduziu alguns contos dele para o holandês. Agora ele ia buscá-lo para irem até a Holanda. Entre uma leitura e outra, Sappe e Caio arrumam tempo para se apaixonarem um pelo outro e viverem uma breve, porém bonita, história de amor. Fazem juntos, e à mão, um livrinho com um conto de Caio traduzido por Sappe, e vendem em várias livrarias gays. Nessa viagem, Caio vai ainda à França e à Alemanha, para cumprir compromissos relativos à sua carreira lá fora. Depois volta ao Brasil. Sem a ajuda que esperava receber dos amigos, já que estava sem casa e sem dinheiro, segue direto para Porto Alegre, para fazer um tratamento dentário com sua irmã Cláudia, que é dentista. Em junho Caio volta à Europa: Alemanha, para o Interlit

— o Congresso Internacional de Escritores do III Mundo —, depois Itália, para fazer o lançamento da tradução italiana de Dulce Veiga em Milão, Gênova e Veneza. Alegria, alegria: um dos sonhos de Caio é conhecer Veneza. Depois ainda, Berlim. Entre um compromisso e outro, Caio escreve aos amigos. Cartões para Adriana Calcanhoto, Luciano Alabarse. Um cartão rápido, escrito a quatro mãos por Caio e Gerd Hilger, seu tradutor na Alemanha, para Gilberto Gawronski. No cartão, Caio conta a Gilberto das leituras de Dama da noite que ele e Gerd estavam fazendo Alemanha afora. Depois Caio diria a Gilberto, a respeito de sua performance: — Acho que você teria orgulho de mim. Dama da noite é um conto de Caio, que Gilberto Gawronski, gaúcho, ator, adaptou para teatro e representou inúmeras vezes. A primeira apresentação da peça foi em 1988, no teatro Crepúsculo de Cubatão, no Rio de Janeiro. Depois, a peça foi para o Espaço OFF, de Celso Curi, em São Paulo. Ao longo dos anos, Gawronski a interpretaria ainda em Porto Alegre, Londres e no Rio. Em 1996, o ator a representou também na França, em Lyon. Gawronski dirigiu, montou e atuou tantas vezes nesse espetáculo que é difícil imaginar uma apresentação de Dama da noite sem o envolvimento dele; por isso é que Caio disse a Gilberto que ele teria orgulho dele. O escritor considerava o personagem tanto do ator quanto dele mesmo, que a tinha escrito. O posto de musa inspiradora do conto é reivindicado por várias amigas de Caio. Várias delas acreditam ter sido a fonte de inspiração para a mulher do conto, a dama da noite que conversa com um garoto, que ela chama de boy, e conta a ele sua história, que é a história, na verdade, de todo outsider, de todos os que vivem à margem da sociedade. O mais provável, contudo, é que a personagem seja um compósito, um amálgama da personalidade de todos essas amigas, como Claudia Wonder, Márcia Denser — a quem o conto é dedicado — e mais ainda um toque da imaginação do escritor.
Como se eu estivesse por fora do movimento da vida.

A vida rolando por aí feito roda-gigante, com todo mundo dentro, e eu aqui parada, pateta, sentada no bar. Sem fazer nada, como se tivesse desaprendido a linguagem dos outros. A linguagem que eles usam pra se comunicar quando rodam assim e assim por diante nessa rodagigante. Você tem um passe para a roda-gigante, uma senha, um código, sei lá. Você fala qualquer coisa tipo bá, por exemplo, então o cara deixa você entrar, sentar e rodar junto com os outros. Mas eu fico sempre do lado de fora. Aqui parada, sem saber a palavra certa, sem conseguir adivinhar. Olhando de fora, a cara cheia, louca de vontade de estar lá — tá me entendendo, garotão? Eu sou a dama da noite que vai te contaminar com seu perfume venenoso e mortal. Eu sou a flor carnívora e noturna que vai te entontecer e te arrastar para o fundo do seu jardim pestilento. Eu sou a dama maldita que, sem nenhuma piedade, vai te poluir com todos os líquidos, contaminar seu sangue com todos os vírus. Cuidado comigo: eu sou a dama que mata, boy.

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Verso do postal: "Com votos de Novo Ano LINDO p/ você. vai minha última foto. Te gusta?" . e toda a troupe da Sabará.

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um PS: "Falei com Zulmira . embora Laika. coloca a pesada jaqueta de couro negra. a peruca vermelha e os longuíssimos cílios e faz o monólogo sem parar. né. É um pouco caro. Uma das cenas clássicas era a de Tom Hanks ouvindo Maria Callas e dançando. um ser ambíguo. Foi com Gilberto Gawronski que Caio assistiu no cinema ao filme Filadélfia. embora precise dessa platéia. No final de julho. ela é experiente. subindo nas mesas ou correndo. mas o escritor faz questão de um mínimo de conforto. mas logo arruma um lugar para morar. Paulista até o Ritz. O homem. segurando a aparelhagem do soro. com o choque do filme amortecido pela bebida. assistido no cinema. Gawronski se equilibra sobre saltos plataforma de 14 centímetros. em silêncio. Enquanto corre o processo. Pronto: agora podem conversar de novo. andando pelo bar. Ao final da carta. Ao final do filme. de 1993. demitido da firma onde trabalhava por estar doente. e bebem duas doses. Caminham pela Av. ela sabe o que faz. Dana está sempre no controle. Caio diz: — Uma vodka pura. do boy que a escute.Na adaptação teatral. De chorar potes de lágrimas. que no entanto acha injusta a demissão de Hanks pela empresa. Por fim. Caio está de volta a São Paulo. a dama da noite vira Dana de Avalon. vivido por Tom Hanks. fica hospedado na casa de Gil Veloso. decide processar a firma. Preciso ter uma ilusão de segundo mundo — você sabe que. pode-se ver a decadência física do personagem. encontra um advogado homofóbico — vivido por Denzel Washington —. Nos primeiros dias. um flat na Frei Caneca. tenho uma alminha três chie". que retrata a história de um homem com aids. mais que uma drag queen. Caio e Gilberto saem para a rua. uma pessoa com uma postura mais agressiva que a do conto. mas custa a achar um advogado que pegue o caso. que fala apenas de uma quarentona que vive pelos bares à caça de homens. escreve a Gerd Hilger.

que chamava de caudilhos. pois Rachel colaborara com os trotskistas. em certa época. se ela acha que a literatura brasileira é muito desprezada. Caio já começa perguntando se ela é reacionária ou comunista. Pergunta o que os membros realmente FAZEM na Academia. Caio pergunta sobre literatura. Jorge Escosteguy. ele pergunta se o latifúndio é produtivo ou improdutivo. com a escritora Rachel de Queiroz. Ele continua. a autora nega. muito amigo de seu marido. só os que vieram depois. da qual ela fazia parte. na época um programa bastante influente. Quando ela fala da propriedade que tem no Nordeste. Rachel? — à resposta afirmativa dela. ele se dá o direito de discordar. os entrevistadores questionam a escritora sobre suas posições políticas. E pergunta do Collor: . Já no começo do programa. Caio era chamado para ser um dos entrevistadores do Roda Viva. ela responde que vai lhe mandar o gibi com as notícias. Naquele dia. o embate entre os dois é claro. O programa segue. ele pergunta: — Mas você não tinha noção das torturas? Rachel afirma que ela apoiou o golpe do Castello Branco. e o apresentador. ao vivo. Começa o bombardeio: — Mas você apoiou o golpe. que era seu parente. Embora Caio não faça muitas perguntas. quando as faz.Ribeiro Tavares.. em julho de 1991. a entrevistada era Rachel. são provocativas. A essa altura. Rachel era contra João Goulart e Brizola. Castello não torturara ninguém. De vez em quando. mas depois apoiara o golpe militar de 1964.. Quando ela fala que o PT continua o que o Brizola e os caudilhistas tinham de pior. Um desastre! Você acredita que ela me acusou de ter sido injusto com a Raquel (sic) de Queiroz? Manda MATAR (as duas)!" O episódio a que ele se refere é uma briga que teve na televisão. Quando a escritora defende a presença de José Sarney na Academia Brasileira de Letras. da TV Cultura. ele ironiza: — Quem sabe não convidam o Collor para a Academia. Segundo ela.

até que Caio faça sua última manifestação. ele retruca. não. erramos. É porque você é muito jovem e não passou os tempos piores. todos nós somos humanos. — Eu gostaria de responder a você que nós estamos num país democrático. — Tenho 42 anos e estive preso em 68! — Então você não aprendeu com o tempo. O programa segue. Realmente. — Se você tá perguntando isso em uma televisão oficial. — Quero falar uma última coisa. insiste. — Desde o Sarney que nós temos essa liberdade.. coisa e tal.— Você não acha que o Collor tá dando continuidade ao que havia de mais lamentável no golpe militar de 64. eu só queria dizer isso. — Não. eu não tenho mais perguntas a fazer — diz Caio. É a última coisa. o apresentador intervém. mas antes que continue. desculpe — intervém Escosteguy. eu concluo que você colaborou para coisas muito negativas nesse país. e eu não vou me tornar constrangedor. — diz Rachel. se as minhas posições são constrangedoras para você. nos equivocamos. estou sendo exigida de me pronunciar sobre . Mas eu estou me sentindo extremamente constrangido de estar na posição de render homenagem ao tipo de ideologia que eu profundamente desprezo. a mais polêmica. tanto que calo — interrompe Caio. — Não é o mínimo. — Mas é o mínimo. Por várias coisas que você falou. porque passamos tempos muito piores. — . você tem que fazer perguntas... eu acho também as suas muito constrangedoras para mim. que você ajudou? Ela diz que só ajudou o golpe do Castello. no meu ponto de vista. Estou me sentido muito constrangido de estar aqui. quer dizer que há um grau de liberdade muito maior — diz Rachel. Compreendo. — Eu respeito.. — Caio. eu respeito suas posições e espero que você respeite as minhas. Caio diz que ainda está aprendendo. e não render homenagens.

depois de acertado o lugar para morar. mas o dinheiro é insuficiente para Caio se manter. morre Vicente Pereira. Mas se lembra também de uma frase que Vicente repetia. que se recusa a sarar. como escreve a Gerd Hilger: "Não se pode ser infeliz. parafraseando alguma atriz de cinema. O programa continua. mas sente alívio pelo amigo. fica deprimido. havia quem criticasse e quem defendesse sua posição. sentia o ritmo e ia vivendo. De forma que é recíproca nossa posição. Mesmo quando se cura. não se pode morrer em vida. A performance de Caio no programa suscitaria debates sobre o papel do entrevistador e do jornalista na entrevista. Depois uma otite crônica. batalha serviços. daí a pouco é hora de ir para a França de novo." . Caio pega uma gripe que leva três semanas para ir embora. Alheio a tudo isso. "Laika é laika. Afinal. meu bem. Não se pode: é pecado. Em janeiro de 1994. na opinião dele — feita por catedráticos da USP O pagamento? Um terço do que o tradutor original ganha. só olha para o papel e rabisca. é proibido — verbotten. Ele passa o mês praticamente de cama. O escritor se lembra de outros que foram: Orlando. depois de lutar contra a aids por meses. o melhor amigo de Caio. Ele então faz trabalhos como revisar traduções — mal-feitíssimas. Caio segurava o turbante. doente. A coluna faz bastante sucesso. Ele fica triste. triste. e sente o ritmo". Galizia. possivelmente. O dinheiro que sobrou da Europa vai acabando aos poucos. Já faz algum tempo que ele publica uma crônica quinzenal no Estadão. escreve a Gerd Hilger. de criar. não se pode desistir de amar. Mas tem que se levantar logo: afinal. Caio. agora. e é preciso sobreviver. de discutir isso com você.esses temas que eu não gostaria de me pronunciar. em paz. lançar os livros. que dividiu apartamento com ele. Caio não fala mais nada. não é assim em German? Não é possível adiar a vida. sem querer sair de casa. Cazuza. que o anima um pouco: "Segura o turbante. Em setembro de 1993. sempre será".

Trocara fraldas do filho. com o ego nas alturas. Depois de dois meses na França. na entrevista. Por conta dessas e outras. Dessa vez. Ele faz também outro programa de TV.. ele vende seu peixe. e . John Updike acaba vencendo o prêmio em 1994. Caio chega à conclusão de que o Altman é um "Almodóvar COM substância". Vai até Lisboa. enlouqueceu: ele tinha sido amigo íntimo dela. da Maison des Écrivains Etrangers. Apesar de muito requisitado para entrevistas. depois volta à capital francesa. um chileno "gordimenso".. em que os outros convidados do dia são Isabella Rossellini e Jeff Bridges. perfil em Les Inrockuptibles. Caio passa uns tempos em Paris. foto em cores em Telérama.Em março de 1994. Tudo isso ele conta em carta a Maria Lídia Magliani. do diretor espanhol Pedro Almodóvar. e os franceses estão comprando: Dulce Veiga é indicado para o Prêmio Laure-Bataillon. depois uma semana em Saint-Nazaire. mas só a nomeação já deixou o brasileiro orgulhoso. dirigido por Robert Altman e baseado no livro de Raymond Carver. e ele vai divulgá-los em um programa de TV sobre literatura. o Cercle de Minuit. aqui no Brasil. comparado por Caio ao Programa do Jô. Não deixava de ser engraçado. que está curioso por conhecer. a gravação do programa foi engraçadíssima. Caio volta a Paris. Caio resolve dar uma passeada. também comparado ao Jô daqui. E coincidência das coincidências: quando Caio. Caio sempre arruma um tempinho para ir ao cinema. que ele odiou. Tendo assistido ao filme Kika. Seus livros vão indo bem no país. Está feliz: até autógrafo na rua ele deu. comparou Dulce Veiga à cantora Maysa. Enfim. o diretor do programa. comprou os três livros e deu vários outros de presente aos amigos. para um garoto francês que viu a entrevista na TV. o Jayme Monjardim. E há mais: sai matéria sobre ele na LExpress. que continua em Tiradentes. chamado Jamais sans mon livre (Jamais sem meu livro). que premia o autor e o tradutor do melhor romance estrangeiro traduzido no ano. se apaixona por Short cuts.

apreensão. e não consegue melhorar. Dá-lhe antibióticos e mais antibióticos. Na época.para a Noruega. e Caio poderia respirar aliviado. Caio perguntou: — E aí? — Não vai dar para fazer camiseta — respondeu ela. E foi só pisar em terras brasileiras para cair doente. Ela foi. se desse negativo. de papel passado e tudo. claro. mandariam fazer camisetas com EU SOU NEGATIVO! escrito bem grande. Nesse caso. E ele tem trabalho a fazer. os resultados do exame demoravam uma semana para sair. bactéria. para a França de novo em novembro. A frescura é tanta. em junho. Caio volta ao Brasil. Uma semana de angústia. Até que Graça Medeiros. Não. Pediu para Graça buscar para ele. Já faz quase dois meses que voltou da Europa. com medo da aids. mas a danada da doença — o vírus. . eles fariam a maior festa. Chegou em casa. o amigo de infância que foi para a Europa e não mais voltou. sempre decidida. Magro do jeito que era. perdeu mais oito quilos. diga que estou noivo de Isabelle Adjani — mas não fiquei metido e mando beijos. o que fosse — não o largava de jeito nenhum. não resisto". E na hora de buscar o resultado. Aí se tirariam as dúvidas. Casou-se com um norueguês. Falava e falava disso com os amigos. o envelope já aberto." Depois de Lisboa e Noruega. Caio aceita a idéia. de uma vez por todas. Parece mesmo o melhor a fazer. já que as infecções não o abandonam. e sairiam pelas ruas jogando confete. achou que era melhor fazer O Teste logo. Caio estava apavorado. tem que voltar à Alemanha em outubro. visitar Augusto. "Se alguém perguntar por mim. Caio não quis ir. ele tem que se livrar dessa dúvida. e por lá ficou. "Ambos me convidam para a colheita de narcisos da primavera. que. escreve a Luciano Alabarse.

Como sempre tentei ser. A princípio. Ele apenas diz que dói. É com terrível esforço que te escrevo. deitado numa maça de hospital. e não é. tudo é ainda muito turvo. Então serei claro. Paulo que estava doente.. Mas por enquanto. vão me salvar. embora . Em Carson McCullers doía fisicamente. no corpo feito de carne e veia e músculos. Alguma coisa tão estranha que ainda não aprendi o jeito de falar claramente sobre ela. Para você. Pois é no corpo que escrever me dói agora. E isso agora não é mais apenas uma maneira literária de dizer que escrever significa mexer com funduras — como Clarice.SEIS Alguma coisa aconteceu comigo. e não à toa.] Assim Caio começa a contar ao seus leitores de O Estado de S. Dói muito. A crônica. feito Pessoa. para mim mesmo. ainda. cheias de fios e tubos plásticos ligados a agulhas enfiadas nas veias para dentro das quais escorrem líquidos que. Nestas duas mãos que você não vê sobre o teclado. Quando souber finalmente o que foi. está sob efeito de remédios. com suas veias inchadas. prometo. Ele se encaixava perfeitamente naqueles grupos e comportamentos "de risco". saberei também esse jeito. Ele passara mais de uma década com medo de estar contaminado. e por favor. Caio ainda não entendeu direito o que está acontecendo. [. chama-se Primeira carta para além do muro. dizem. os braços cheios de agulhas espetadas. ele encara a coisa toda bastante bem. mas eu não vou parar. essa coisa estranha. Fazia sentido ele estar com aids: metade de seus amigos morrera em decorrência da doença. outros tantos ainda lutavam contra ela. publicada em 21 de agosto de 1994. muito explícita sobre o mal que o acomete. feridas.. tente entender o que tento dizer. dói fisicamente escrever.

acabou. ao telefone. parecia descer sobre sua cabeça e esmagá-la como um trator. A doença era a cara dele. Nada incomum em casos assim: grandes traumas podem levar as pessoas a ficarem temporariamente perturbadas. não necessariamente promíscuos. viram que estava sereno. e ligou para ele. provavelmente. Custaram a arrumar . ela não conseguiu voltar na segunda. conversaram. veio a febre. De repente. delirantes. Lygia Fagundes Telles. Foram para o Emílio Ribas. O organismo não agüentou. todo o significado. era demais. Gil segurou-o a tempo. Caio pensou. Não era intenção de Caio. e Gil logo percebeu. Vou morrer. pensou ele. Déa Martins e Gil Veloso também ficaram. Foi o que aconteceu ao Caio.já se soubesse que o vírus não era exclusivista e atingia gente de todo tipo. Pegou o telefone e calmamente ligou para os amigos. Tentou se atirar da janela. Graça ficou preocupada. Ele não falava coisa com coisa. Vou morrer. teve que voltar ao Rio para cumprir um compromisso de trabalho. francês. Ele tivera. que estava cuidando dele. finalmente. No dia seguinte. Muito alta. Alguns amigos foram visitá-lo. O choque de saber-se condenado. Era peso demais. Não se assustou. sua mãe. e rumaram para o apartamento do Caio. Ligou para mais gente. todo o absoluto que estava contido no resultado positivo do exame. não necessariamente drogados. Ele não sabia o que estava fazendo. Durante o final de semana inteiro — pegara o resultado numa sexta-feira — ficou bem. recitava em alemão. o choque da descoberta. se matar. Porém as coisas atrasaram. não necessariamente gays. doentes. Caio não estava nada bem. contando a notícia: Cida Moreira. Os médicos dão a isso o nome de "quadro de dissociação mental". não se lembraria de nada. Graça. Gil resolve que era melhor correr com ele para o hospital. a febre levou ao delírio. tenho aids. Voltaria na segunda. de ser soropositivo. Era como se já soubesse. caíra a ficha: toda a irreversibilidade de sua doença. e não só ela. enfim.

assim: Tenho medo é desses outros que querem abrir minhas veias. vegetativo. o trauma. esperando ver o amigo totalmente abalado. como também o seu humor. Outros amigos iam visitá-lo. já muita gente tinha sido avisada: Cláudia Abreu. No dia seguinte. claro. que ele levava dançando. Depois do susto inicial. que Caio e Gilberto haviam assistido juntos. a maneira . "Bem-vindo a Filadélfia". discretamente: — Eu não disse? Aí Gilberto relaxou. O médico insistia em dizer que Caio estava mentalmente muito perturbado — provavelmente com um tumor no cérebro. cantou. Antes de ter descoberto esse jeito. Não só a memória de Caio estava intacta. era uma referência ao filme de Tom Hanks. diz: — Bem-vindo à Filadélfia! O médico vira para Gilberto.um leito no hospital lotado. Na crônica. Ele ia para os exames e pedia aos amigos: segura a Maria Callas pra mim. Quando abre a porta e Caio o reconhece. já fazendo referência velada à doença. sua irmã. na Filadélfia. talvez eu apenas não tenha compreendido ainda a maneira como eles são. E termina o texto. Gilberto entra no quarto com o coração apertado. Ela dizia que não. o médico alertou: — Se prepara. Quando Gilberto Gawronski apareceu para visitá-lo. era apenas o susto. veio de Porto Alegre. brincou. Talvez não sejam maus. porém. Graça Medeiros também já estava na cidade. ele escreveu a Primeira carta para além do muro. E o humor do Caio não parava. A Maria Callas era o aparato do soro. realmente. ele ia descobrindo um jeito de lidar com a doença. por favor. Ele compôs raps para o AZT. Mas como o médico podia saber disso? Ele pensou que o Caio achava estar. incomunicável. exatamente como na cena de Filadélfia. ele se agarrava à única coisa que podia ajudá-lo a viver: a literatura. Periga o teu amigo não te reconhecer. Graça também teve uma discussão com o médico: ele dizia que Caio estava maluco. Logo ele voltaria ao normal.

como tudo é ou tornou-se, inclusive eu mesmo, depois da imensa Turvação. A única coisa que posso fazer é escrever — essa é a certeza que te envio, se conseguir passar essa carta para além dos muros. Escuta bem, vou repetir no teu ouvido, muitas vezes: a única coisa que posso fazer é escrever, a única coisa que posso fazer é escrever.

Depois da primeira, vieram ainda uma segunda e uma terceira cartas. A segunda é um pouco mais clara que a primeira, e fala dos anjos que Caio encontrara em sua descida ao inferno: anjos de branco, funcionários do hospital; os anjos de negro, seus amigos que lhe trazem presentes e carinho. E os outros anjos, os que já foram.
Noite alta, meio farto de asas ruflando, liras, rendas e clarins, despenco no sono plástico dos tubos enfiados em meu peito. E ainda assim eles insistem, chegados desse Outro Lado de Todas as Coisas. Reconheço um por um. Contra o fundo blue de Derek Jarman, ao som de uma canção de Freddy Mercury, coreografados por Nureiev, identifico os passos bailarinos-nô de Paulo Yutaka. Com Galizia, Alex Vallauri espia rindo atrás da Rainha do Frango Assado e ah como quero abraçar Vicente Pereira, e outro Daime com Strazzer e mais uma viagem ao Rio com Nelson Pujol Yamamoto. Wagner Serra pedala bicicleta ao lado de Cyril Collard, enquanto Wilson Barras esbraveja contra Peter Greenaway, apoiado por Nelson Perlongher. Ao som de Lóri Finokiaro, Hervé Guilbert continua sua interminável carta para o amigo que não lhe salvou a vida. Reina Ido Arenas passa a mão devagar em seus cabelos claros. Tantos, meu Deus, os que se foram. Acordo com a voz safada de Cazuza repetindo em minha orelha fria: "Quem tem um sonho não dança, meu amor."

A terceira crônica é muito mais clara que as outras duas. Nela, Caio conta o que lhe tinha acontecido, detalhe por detalhe. O Teste, o resultado, as ligações para os amigos, depois a febre e o delírio, e o hospital. Caio ficou 27 dias internado no Emílio Ribas. Lá aconteceu uma coisa inesperada: ele recebeu tanto carinho das pessoas, tantas

vibrações positivas, como comentaria sempre em entrevistas dali adiante, que ele foi, serenamente, começando a aceitar. E que mais ele podia fazer? A doença era irreversível demais para que se pudesse lutar contra; era preciso aceitar. E ele aceitava todo dia, como escreveu na Ultima carta para além dos muros.
[...] O que importa é a Senhora Dona Vida, coberta de ouro e prata e sangue e musgo do Tempo e creme chantilly às vezes e confetes de algum carnaval, descobrindo pouco a pouco seu rosto horrendo e deslumbrante. Precisamos suportar. E beijá-la na boca. De alguma forma absurda, nunca estive tão bem.

A terceira crônica foi escrita já em Porto Alegre. O médico recomendara a ele: você precisa agora é de qualidade de vida. Então Caio decidiu: adeus, São Paulo. Fez uma festa de despedida na boate A Loca, na qual cantou Laura Finocchiaro e compareceram muitos amigos, como Paula Dip e o marido. Mário Prata se lembra de ter visto Caio pela última vez nessa festa. Muitas luzes vermelhas, verdes, azuis, muita fumaça. Prata estava sentado em uma escada quando Caio passou a mão em sua cabeça e subiu os degraus, leve, incorpóreo, parecendo, por causa das luzes coloridas, uma figura sobrenatural, um anjo. Caio voltou, então, ao Rio Grande do Sul, para morar com seus pais já tão idosos, no sobrado colonial espanhol no bairro Menino Deus. Há roseiras no jardim, como ele sempre sonhara em ter. E ele se dedica, então, a cuidar de si, de suas flores, de sua obra. Nunca foi tão fácil conviver com o Caio — alguma coisa nele meio que serenou. O mau humor de antes, as alfinetadas, o gênio difícil, tudo isso foi substituído por uma espécie de paz, de aceitação. Ele vivera os últimos anos em constante aceleração, viajando de cá para lá, ParisBerlim-Londres-São-Paulo, e agora era obrigado a parar. Ele sempre quisera desacelerar; invejava a amiga Magliani e sua horta, lá em Tiradentes. Agora era a hora. Não haveria outra, ele pensava. A vida não era mais adiável.

Ele descobriu o que já sabia ainda com mais força: amava a vida. Acalentava o sonho de fazer parte da primeira geração de sobreviventes, os primeiros a driblar o vírus da aids. Não a cura, que isso parecia impossível, mas alguma maneira de estabilizar a doença, deixá-la tipo a diabetes, algo crônico, porém não letal. Ele achava que, se conseguisse sobreviver mais um ou dois ou três anos, essa "cura" podia aparecer, e então ele poderia viver muitos anos mais. E estava certo: quando ele morreu, em 1996, já existiam os remédios que comporiam o famoso coquetel. Ainda não se sabia como dosá-los, e administrá-los nas doses certas para manter a doença em níveis controlados, mas já existiam. Em Porto Alegre, a rotina de Caio era simples: acordava cedo, tomava café, ia cuidar das roseiras. Escrevia um pouco: crônicas para O Estado de S. Paulo e agora também para a Zero Hora, de Porto Alegre. No Estadão, Caio escrevera crônicas de 1986 a 1989; depois de uma pausa de três anos, retomara seu espaço em 1992, e escreveu até dezembro de 1995. Uma seleção de suas crônicas para publicação em livro foi elaborada por Gil Veloso, quando Caio já estava doente. Pequenas epifanias foi publicado em maio de 1996, alguns meses depois da morte de Caio. A rotina leve na casa dos pais e as doses de AZT pareciam estar funcionando. Caio ganhara peso, os exames de sangue apontavam bons resultados de plaquetas, leucócitos e linfócitos. Quando precisou de um remédio mais caro, americano, que custava 4 mil dólares o grama, Lucinha Araújo, a mãe de Cazuza, e Scarlet Moon, esposa do Lulu Santos, conseguiram de graça para ele, conta Graça Medeiros. As coisas pareciam bem, e Caio decidiu que iria, sim, cumprir seus compromissos na Europa. Primeiro, a Alemanha. Em 1994, a Feira de Frankfurt foi dedicada ao Brasil; Caio foi participar da feira e depois seguiu por várias cidades alemãs, fazendo leituras e palestras. Ele iria ainda à França, passar duas semanas em Aries, numa mini-bolsa para escritores, mas não deu. Um teimoso

Eduardo Sprinz. a última vez que se veriam. uma lesão arroxeada que acomete as pessoas contaminadas com HIV. E corrigia as provas à mão. E também não queria aprender. ao lado dele. pensando no amigo que ia perder. segundo os cálculos dos médicos. O sarcoma é uma espécie de câncer de pele. Caio adorou. Mas na ponta do nariz era demais. Celso chorava o tempo todo. Não foi surpresa. falou em cartas aos amigos que agora era um homem informatizado. Informatizado em termos: Caio não sabia muito bem mexer no computador. Era lindo. E Caio. como sempre fizera. ele e Caio saíram juntos para o teatro. Caio antecipou a volta ao Brasil. Maria Adelaide Amaral. o nome do imunologista. Celso estava muito mais triste que Caio. e. Não sabia salvar os arquivos. provavelmente. Tratara de Lory Finocchiaro e de mais tantos positivos que havia em Porto Alegre. outras alegrias esperavam Caio: seu novo imunologista. Caio recebeu um presente inesperado. Quando Celso esteve em Porto Alegre para entregar o computador. uma calça clara. porque estava incomodando. escreveu crônicas contando de seu novo Robocop. quando a lesão apareceu. achando que havia um motivo pelo qual ele pegara a doença. o médico. Assim que terminava de escrever. e o motivo era revelado agora: conhecer o . Amigos de São Paulo — Celso Curi. Era. É um dos estágios mais adiantados da doença. dando soquinhos em sua perna. De volta a Porto Alegre. mandando ele parar. Belíssimo. Vânia Toledo e mais alguns — fizeram uma vaquinha e compraram um laptop para ele. Lasanha. ou pelo menos assim parecia.sarcoma de Kaposi resolveu brotar em Caio. Além do laptop levado por Celso. Ah. apaixonado assim meio de brincadeira. portanto. o imunologista. Chorava de molhar a calça. Caio já devia estar contaminado há pelo menos uns dez anos. E Caio ficou apaixonado por ele. e brotar bem na ponta do nariz. por exemplo. imprimia tudo. Celso Curi foi eleito para ir a Porto Alegre entregar o presente. meio a sério.

afinal. OK?" Por mais lindo que fosse o médico. quem lhe dava a promessa de vida. a quem Caio dedicou alguns contos. eu recém comecei a pegar amizade. era mais curativo que AZT: crianças. que era quem. oeste. ele se tratava também com propólis e lama de Araxá. o mais novo. Cecília Niesemblat. a não ser que leve o Valdir junto. de um ano e meio. e que fiquei doente apenas para conhecê-lo. de quatro. ou leste. tinha o temperamento do tio: às vezes se isolava. segundo ele. Sempre apaixonado.. de onze anos. desenhando. Via uma e começava a gritar: gangá-gangá! E o mais velho. e Laura. ele se apaixonava pelo imunologista. filhos de Cláudia e Jorge. não . um clichê até justificável: se muita gente se apaixonava pelo analista. Ele passava o dia brincando com seus sobrinhos: Rodrigo. e que natural e inevitavelmente ele também vai se apaixonar por mim. e que movido pelo amor descobrirá algum medicamento fantástico que me salvará a vida e certamente logo depois iremos viver em alguma ilha do Pacífico Sul (ou norte. desenhando. quem o tocava. Felipinho. como o senhor é guloso! Já pedindo foto da MINHA lasanha completamente pelado(a). E passava tardes inteiras sentado com ela. Caio não estava disposto a apostar todas as suas fichas num número só. Para seu governo. o tratava com florais de Bach. e gostava muito de Frida Kahlo — queria sempre ver a foto daquela "mulher de bigode". uma amiga antiga. ontem foi apenas a segunda vez que nos encontramos! Mas falando sério — God! — que homem GOSTOSERRIMO. estava mais próximo dele agora. filho de Luiz Felipe.. no entanto. Além da medicina clássica. Rodrigo. Caio escreve a Gerd Hilger: "Gerd Alberto da Silva Hilger. Claro que estou achando que tudo era fatal... E Caio descobriu um remédio que. virginiano como o Caio. o Caio. era incrivelmente louco por frangas.médico. Caio comprou uma caixa de lápis de cor enorme para a Laura. honey. tanto faz) onde seremos felizes para sempre — e o senhor Não será convidado a nos visitar. e o mais novo. que adorava desenhar. o Felipinho. E pelo médico.

era muito informático. nas crônicas. para ir à fisioterapia. Era calmo. Caio estava ficando obsoleto. alguns deles loucos por jardinagem.queria saber de ninguém. como queria. Ao contrário do tio. como Irineu Garcia. que todos os dias passava em frente ao jardim. com quem o escritor trocava sementes e dicas e truques. . sabia lidar com computadores. cuidando. as roseiras que ele amava — algumas das quais estão de pé até hoje. ou o inverno rigoroso que secava as plantas. o escritor pegava a bicicleta e ia dar longos passeios no parque da Marinha. Chegou a colocar na filha o nome de Itália. sua vizinha. ou a flor do girassol pesada demais para seu próprio caule — "como se não suportasse o peso da própria beleza que engendrou" — . e sabia a história de cada morador. Caio brincava: estava pensando em trocar suas credenciais de "jornalista e escritor" para "escritor e jardineiro". porém. Podia também ver o pôr-do-sol na usina do Gasômetro. artista plástico. De vez em quando. ele falava sempre das dificuldades que tinha em manter o jardim. Ela vira cada casa ser construída. Anita era fascinada pelo continente. Junto com o marido. vivo. D. Eram caramujos canibais querendo devorar as flores. rua onde os Abreu agora residiam. principalmente em festas ou reuniões familiares. mexendo na terra. octogenária. ou Felipe. tranqüilo. mesmo nome de uma sua irmã falecida. ou ervas daninhas de todo tipo. Nas cartas aos amigos. enfim. descendente de italianos. Horas e horas ele passava no jardim. Caio ficava encantado em conversar com ela. onde tirou algumas das fotos mais famosas de sua vida. A sua principal preocupação era o jardim. Anita fora a primeira moradora da Oscar Bittencourt. onde Caio passava a maior parte do tempo. D. Adorava conversar com Caio: ele lhe contava as histórias da Europa. E Caio gostava de viver assim. esforço. Conversava com D. Anita. Conversava com os vizinhos. Havia as rosas. Era preciso trabalho. vizinho da casa ao lado. impressoras e tecnologias. E bonito. lindo. ou as formigas querendo devorar as angélicas. cuja casa ficava em frente à do Caio. era difícil manter o jardim vivo.

Foi um sucesso. Os moradores do Menino Deus consideram Caio uma espécie de patrimônio local. Trocavam cálculos astrais e confidencias nas cartas. ele precisava de uma caixinha de isopor para guardar os remédios. para ficar mais bonitinho. nos anos 70. Escreveu em uma crônica. foram comer camarões no Tirol. que já era fã e se lembrava de vê-lo na rua. nos últimos anos. portador do vírus. Caio se sai com essa: — Obrigado. escrevia. sempre perguntava se ela não achava que as mudanças astrológicas não poderiam trazer a cura da doença. o bairro onde morava. fez uma faixa com a frase. Agora vou forrar com papel de oncinha. um restaurante de que ele gostava muito. na Jornada Literária de Passo Fundo. Amanda levou a tal caixinha em um almoço. Os dois se conheceram em agosto de 1985. novela da ensaísta americana Susan Sontag que descreve as reações de um grupo de amigos quando um deles contrai aids. o chileno Carlos Aguirre Sepúlveda abriu uma pastelaria no bairro e. Caio e Amanda foram alunos de astrologia de D. de uma geração mais nova que a do Caio. emocionou . Os dois tinham algo em comum: assim como Graça Medeiros. Além das crônicas. Mesmo isolado. Caio continuava trabalhando em outras coisas. Fez a tradução de Assim vivemos agora. do qual Porto Alegre é apenas o que há em volta". Em 1995. A tradução ter sido feita por Caio. e se deram bem de imediato. Caio estava lá para falar como escritor e ela. certa vez: "moro no Menino Deus. Anos depois de sua morte. Emy. Como Amanda Costa. Amanda. como a chamavam. Caio dedica alguns textos a D. astróloga e amiga. Sempre alguém ligava. uma alemã que influenciou várias gerações de astrólogos em Porto Alegre. Caio não perdia o contato com os amigos. compartilhava seus interesses literários e astrológicos. aparecia. com o casaco preto enorme. para homenagear os moradores e o escritor. trabalhava na editora L&PM. Emma de Mascheville.Caio quase não saía do Menino Deus.

uma espécie de autobiografia ficcional. à publicação de suas cartas. Pelo menos aquelas trocadas com outros escritores e artistas. que jamais teriam sido publicados com o crivo da poeta. No entanto. O livro traz desde A maldição dos Saint-Marie. a todo vapor: revisou Morangos mofados. depois da morte de Ana C. Cada texto publicado na obra vem precedido de uma pequena explicação do escritor. Maurício Stycer. uma parte de sua correspondência . no Rio de Janeiro. comentários gerais. pergunta em entrevista se ela sabia que o tradutor tinha aids. papéis antigos: selecionava textos para uma antologia. até textos mais atuais. de vários livros contendo inéditos e dispersos. poemas inacabados. Ele estava selecionando seus inéditos para que ninguém o fizesse depois de sua morte. que saiu em nova edição pela Companhia das Letras. escrita aos 13 anos de idade para um concurso escolar. mas porque ele leu a história há algum tempo e sugeriu a sua publicação. Ovelhas negras era considerado por Caio um livro prépóstumo. da Folha de S. parece. Repetia sempre: — Não quero que façam comigo o que fizeram com Ana Cristina César. por exemplo. Tanto que doou à Fundação Casa de Rui Barbosa. Paulo. O resultado foi o livro Ovelhas negras. que conteria textos de todas as fases de sua vida." Caio trabalha também na literatura. o que gosta ou o que não gosta nele. Quando o livro foi publicado. contando as circunstâncias em que escreveu o texto. O fato de essa história significar algo para o Caio e que vai significar algo para outras pessoas porque ele fez a tradução me deixa muito feliz e agradecida a ele.a autora. "Sei e isso me emocionou muito. esse medo de Caio referia-se à sua ficção. Ele se referia à publicação. que saiu pela editora Sulina. porque não entrou em nenhum livro. em 1995. Não só porque ele é um conhecido escritor e a tradução. enfim. escritos já em Porto Alegre. está muito boa. em novembro de 1995. ele não fazia restrição. E mexeu em todos os seus guardados.

e fazia piadas. Além de organizar Ovelhas negras. podia falar mais livremente. publicado em 1970. e a língua ferina de Caio não costumava perdoar ninguém. em fevereiro de 1995: "Nós nos escrevemos dezenas de cartas. Não era a pessoa deprimida que se poderia apreender de seus contos. Ao vivo. Muita gente citada nas cartas ainda estava viva. E ele escreve a Lucienne Samôr. Os trechos mais pessoais. claro — é você publicá-las. Inventário do irremediável. Se você guardou. ganhou mudanças drásticas. Vamos que eu me torne um mito literário (melancolicamente póstumo. e leve. de 2002.. se você as tem.) De qualquer forma. E a minha herança para você. foram suprimidos. para diminuir o caráter definitivo do título original. uma idéia — após minha morte. e animado. escritora e amiga. Algumas das que sobraram foram publicadas no livro organizado por Ítalo Moriconi Caio Fernando Abreu: Cartas. Caio esperava ter tempo de escrever também a volta das frangas e Estranhos estrangeiros. Oito contos foram excluídos. alguns nomes substituídos por iniciais. Fez algumas mudanças na pontuação.passiva. Não sei se você guardou as minhas como eu guardei as suas. E o título passou a ser Inventário do irremediável. melhorias nas frases. são suas. se perdeu num incêndio. nas cartas. segundo o autor. Assim como não . e assim o livro saiu. infelizmente. por ele achá-los repetitivos demais. circulando. Vários amigos e leitores foram pegos de surpresa: é que nas cartas Caio era muito mais engraçado." Grande parte das cartas de Caio para Lucienne. e falava de sentimentos que não teria coragem de dizer cara a cara. Não teve.. por considerarem a publicação prematura. Caio revisou outros de seus livros. no entanto. que pessoalmente. A publicação da obra gerou polêmica: alguns amigos de Caio não quiseram dar as suas cartas. embora a estrutura permanecesse a mesma. correções. muitas vezes era irascível e calado.

de Lya Luft. como os bonecos de madeira russos. pois ele queria ver o texto encenado. e também à cidade do personagem de Cervantes. Mas agora. A peça tinha sido escrita por encomenda de Carlos Moreno — o garoto-propaganda do Bombril —. brincar com isso. Assim ele construiu O homem e a mancha. uma releitura de D. num interessante jogo de personalidades. foi constrangedora.assistiu à montagem de um texto de teatro seu. um monólogo dirigido por Luiz Arthur Nunes e representado por Marcos Breda. também não pagou um centavo pelo texto que encomendara. inclusive a adaptação que ele fez de Reunião de família. A cena da apresentação da peça para ele. então. na verdade. finalmente. Quixote. ninguém diz uma palavra. Caio faz uma bela leitura. Caio chamou Luiz Arthur. em que um vai saindo de dentro do outro. a obra foi lançada depois da morte do escritor. mas também a qualquer espécie de paranóia ou obsessão. e desse nasce o Cavaleiro da Triste Figura. e assim os personagens se alternam. Ao final. . Anos antes. que reúne todas as peças de Caio. os baboushkas. para acompanhá-lo na leitura para Moreno e Fábio Namatame. Luiz começa a falar compulsivamente para preencher o silêncio. que faria a cenografia. mas Moreno não disse absolutamente nada. aliás. Breda e Luiz Arthur iam montar a peça. nasce o personagem obcecado com a mancha — uma alusão à aids. saía outro — na comparação do autor. Caio ficou arrasado. Era uma peça complexa: de dentro de um personagem. Ele pedia aos amigos que se apressassem. La Mancha — e dele nasce D. O homem e a mancha. chateado. mas ele nunca chegou a encená-la. que é. De um ator procurando um personagem. nem então e nem depois. O monólogo foi incluído no livro Teatro completo. Ele resolveu. Quixote. com sua formação de ator e sua voz. Organizada por Luiz Arthur Nunes. Ao que consta. porém. O personagem o perseguia desde que Clarice Lispector resolvera apelidá-lo. que estava em São Paulo.

Todo mundo tinha um exemplar em casa. muitas delas motivadas pela questão da doença. com a desculpa de lançar Ovelhas negras e a reedição de Morangos mofados. risadas. portanto. Caio se sentia desconfortável com essa situação. porque ele tinha tentado. brincou. que Caio fosse ignorado pela imprensa até 1994. o queriam. pensaria que a mídia jamais lhe dera qualquer atenção até o dia em que descobriram que ele tinha aids. De fato. e ninguém pode imaginar o quanto estar ali significa para Caio. porém. foi aí que a mídia começou a dar mais atenção a ele: choviam pedidos de entrevistas. muito popular em alguns meios. ir ao programa divulgar algum de seus livros. depois que a aids já tinha sido citada. o protagonista e Márcia E A conversa segue. livrosímbolo de uma geração. Agora. Quem o ouvisse falar. por exemplo. Caio diz que não tem tempo para morrer. Caio aparece também em um Globo Repórter sobre aids. E ele . Em um depoimento muito bonito. respeitado. coisas a fazer. antes. a partir de Morangos mofados.Desde a descoberta da aids. Paradoxalmente. E ele foi. Em dado momento. Vai que eu não morro. Caio decidira viver uma vida mais tranqüila em Porto Alegre. Caio responde: — Não. na verdade. no entanto. Quem dirige o programa é o amigo de longa data José Márcio Penido. os pedidos de entrevista aumentaram. Ele sempre foi um autor procurado. Não se pode dizer. Ele tem planos. seu nome se tornou mais popular. conversou com Jô. mas fora vetado "por estar fora da mídia". o que não era verdade. embora reclamasse exagerada-mente. com que cara eu vou ficar? Risadas. E achava aquilo a ironia das ironias. A ironia da situação. fez piada. Ele foi convidado para ir ao programa do Jô Soares. Jô lhe pergunta se ele não pensava em escrever algum livro tratando da doença. Na maior simpatia. Já desde os anos 70 ele tinha seus fãs fiéis. a aids já aparecia em alguns textos seus: Onde andará Dulce Veiga é uma história de amor entre dois contaminados. Depois ele explicou que.

um pouco. não tenha desistido do cigarro. se drogar. na verdade. e havia medo. Dráuzio Varella. e que portanto sempre acredita que vai haver um beijo da Doris Day com Rock Hudson no final. mais do que nunca. e os debatedores do outro — um deles era o dr. E também a nós mesmos: embora. de um simpósio sobre aids. não se envergonhar. O escritor falou do que se passava física e emocionalmente com ele. Assim que se curar o planeta. muito mais letal que o HIV. um dos primeiros médicos a combater a aids no país. Na visão do escritor. que cresceu assistindo ao cinema americano. até o fim. e principalmente de combater os preconceitos ligados a ela. se curará o ser humano. no teatro do Maksoud Plaza. Caio expõe sua teoria de que. que talha o ser humano no que ele tem de mais delicado. o desconhecimento da doença. sim. Falar da doença era a melhor forma de combatê-la. a aids era uma doença cheia de estigmas. em 1994. mesmo sabendo que o interesse maior não era em sua obra. a Terra começou a reagir. Ele vê coisas piores que a aids vindo por aí. assim como Regina. e Caio estava. ele dava entrevistas. os clichês associados aos soropositivos. convencido de que era preciso mudar a maneira de tratar o planeta. o planeta é que está doente: maltratada. beber. Caio estava lá para dar seu testemunho. em São Paulo. os únicos que não eram médicos no evento. por exemplo. das dores e dos humores. Na entrevista. Participa. e todos serão felizes para sempre. e sim na doença. . que é a sexualidade. Mas é claro que a aids não era como o Ébola. Os dois. ele falava. junto com a jornalista Regina Echeverria. Diz que faz parte de uma geração muito colonizada.acredita na possibilidade de cura. ele não queria mais maltratar o corpo. E por isso era preciso desmistificar. que fora falar da história de seu marido. se nada for feito — era a época em que se soube do vírus Ébola. que morrera por causa da doença. Comoveu a platéia e ajudou a diminuir. Por isso. ficavam sentados de um lado do palco. Mas na época não se sabia disso.

o taxista. porém. ele desconfiou. costumava caminhar até o ponto de táxi e chamar Mauro para levá-lo. o patrono tinha que estar bem vivo. Quando o escritor ia para o hospital Moinhos de Vento fazer radioterapia. E faz sucesso. Influenciado por Caio. De início. dizia. Por uns cinco minutos. Um dia. e Caio foi escolhido. o escritor olhou seu nome no alto. viu a capa do seu livro. Mauro comentou com Caio que tinha visto o ou-tdoor de seu livro Pequenas epifanias em uma rua. que merecia a homenagem. pois ficou em silêncio a maior parte do caminho. hoje escreve colunas para o jornal Diário Gaúcho. insistiu para que assim fosse: a nomeação de Caio não era uma unanimidade. Os argumentos de Júlio venceram. como Mario Quintana. contando "causos" da vida de motorista. por ser. ele relaxou e aceitou. talvez. realmente. Caio foi convidado para ser patrono de Feira do Livro de 1995. quando convidaram o escritor. um escritor reconhecido. um pé do outro lado e outro aqui. Mas isso não é coisa para gente morta?. ter outra chance. E não deve ter gostado do que viu. perguntou. Seu ponto de táxi fica no Menino Deus. Caio preferia ir sem ninguém da família para essas sessões no hospital. Quando esclareceram que não. para o câncer de pele. estava mais é para padroeiro. fã de literatura. Foram. Por essa época. e preferia ser chamado de padrinho da feira. Brincava. No final de 1995. taxista. acompanhava as crônicas de Caio no jornal. Júlio Zanotta Vieiras na época presidente da Câmara Rio-grandense do Livro. depois. e um pouco. Mauro. Caio pediu que o levasse até lá. e muita gente legal já tinha aceitado antes. se bem que. por ele estar doente e não poder. E pediu para irem embora. dizendo que achava solene demais a palavra patrono. sobre acharem que ele já estava morto. Mauro Castro. é claro. a dois quarteirões da casa da família Abreu.Por estar de volta a Porto Alegre. Comentou algo sobre oportunismo. sem descer do carro. o médico avisou a Caio que ele . o taxista fã de literatura começou a escrever.

Caio queria ir embora. ele. Ele queria ver O Filme. Pediu a seu irmão Felipe que o levasse de carro até Santiago do Boqueirão. A mãe não poderia ir com ele: com 71 anos. Estavam os dois muito mal: ela saindo de um relacionamento. Déa olhou. Não é esse filme. Não ia lá há muitos anos. havia um hibisco. que estava morando em Porto Alegre na época. Gilberto pegou o carro. Ele tinha a sensação de que tudo que ia fazer seria pela última vez. Com cinco minutos de filme. Na pousada onde ficaram. principalmente tia Elcy Abreu. doente. não é isso que eu pensava. recebendo o título de santiaguense ilustre. Caio e Déa tiveram algumas briguinhas. Era urgente. Gawronski discutiu com ele. já tinha sofrido duas isquemias cerebrais e não tinha saúde. então. Quando voltou. desde que fora homenageado. que ele adorava. Relembrou a infância. aquela flor símbolo dos surfistas. significativo. escreveu uma crônica para Zero Hora contando da viagem. Fez as pazes com essa parte do seu passado. da emoção que era voltar ao lugar onde nascera. deprimida. Pegaram carona de carro com duas garotas amigas da família e foram. em Santa Catarina. de passagem pela cidade. Mas Caio decidiu adiar a cirurgia. buscou-o. foram. por exemplo. Embora estivesse sereno a maior parte do tempo. Caio decidiu fazer outra viagem. perguntou: que flor é essa? Foi o suficiente para Caio se irritar. O pai. Ele iria à Praia do Rosa. A companheira de viagem de Caio foi. Tinha porque tinha que ver aquele filme. Depois de retirar a vesícula. mas não teve jeito: teve que levá- . Quando foi ao cinema com Gilberto Gawronski. não abandonaria a esposa em casa. Os irmãos tinham ocupações. Queria despedir-se da cidade.precisaria extrair a vesícula. A temporada na terra natal foi ótima: Caio conversou muito com as tias. de três horas. Como assim. Zaél. descansou. que flor é essa? Então você não sabe o que é um hibisco? Ficou irado. algo marcante. Chegando lá. ele não tinha tempo a perder. muito doente. Déa Martins. muito sensível. Estava muito abalado. às vezes era difícil lidar com Caio. escolheu um filme longuíssimo.

céus. mas Caio mandava ele ficar quieto: você está mais deprimido que eu. Déa teve que partir mais cedo da praia. Quando chegou em São Paulo. brincava o escritor. lhe dava nos nervos. estava sempre atrás dele contando histórias intermináveis. que. no Egito. Ela o desgastava. sentiu uma tristeza. No dia 25 de fevereiro. em 1984. o jornalista José Castello. Mas no dia seguinte brigava de novo. ele doente até o osso. pensar nele. Anos antes. que muito amou. uma dor no peito inexplicável. O pai. Luciano. do nada.lo embora. ao passar por Porto Alegre. não o deixava em paz. Os amigos o visitavam. a mãe. se sentiu muito mal. O amigo Luciano Alabarse. Quando voltou ao Brasil e soube da morte do . Era um domingo. o corpo do escritor não agüentaria a pressão. Amanda Costa estava almoçando em um restaurante árabe com uma amiga e começou. ela tão velhinha e ele fazendo malcriação. Dizia que ela o atordoava. um dos poucos que acompanhou sua doença de perto até o fim. Em casa. Poucas semanas depois. 71. e ele. Chorava no hospital mesmo. e ele lhes dizia: estou cansado. uma e meia da tarde. Reinaldo Moraes voltava de Buenos Aires de avião. Era como se ele já não coubesse mais em seu corpo." Depois de vinte dias internado. recebeu uma proposta de trabalho no Rio e voltou para lá. Caio tinha escrito ao amigo: "Na minha lápide. Caio faleceu. pensar nele. entrevistara Caio algumas vezes. pegou pneumonia. Ele explodia. a situação não era mais fácil. 74 anos. Caio também antecipou sua volta a Porto Alegre: estava doente. Parecia mais o hospital Abreu do que a casa da família. brigava com ela. A mãe doente. Depois se arrependia. estou muito cansado. ouviu no rádio que tinha morrido. a pensar nele. bem. soube da morte do Caio. quero alguma coisa mais ou menos assim: Caio F. Do outro lado do mundo. superada a timidez. Quando chegou em casa. Mais ou menos na mesma hora. voltava do hospital e chorava. e Caio implicava com ela.

Caio fizera seu testamento. na Casa do Sol. fusos horários e tal. os restos mortais dos três foram transferidos para o Cemitério Ecumênico João XXIII. mãe e pai tinham falecido. Na carta. estava dando risadas. e viu que Caio morrera exatamente na hora em que ele tivera a sensação estranha no Egito. sete dias depois da morte. uma carta. foi a vez de seu Zaél. Queria que Marcos Breda ficasse responsável e recebesse os direitos de sua obra teatral. em Campinas. quatro meses depois. Um ano depois. Seu Zaél sério. A vontade de Caio não foi cumprida. Gilberto Gawronski da de cinema e audiovisual. Dias antes de morrer. depois de sua morte. emocionado. Pesando menos de 40 quilos. Escrevera. ele fazia pequenos legados. . quem administra a obra dele é a família. Gil Veloso da literária. onde ocupam o número 4352 07. se o Spielberg quiser filmar Dulce Veiga. você vai ficar rica! Caio. na missa. ele tem que ler: — Betinho. fez as contas. À sua maneira. os amigos se reuniram para a leitura da carta. Hilda Hilst alega ter visto Caio.escritor. Mas. Alguns anos depois da morte de Zaél. As dez da noite do domingo. para ser lida pelo seu pai. Usava um cachecol com uma fita vermelha: os dois teriam combinado que vermelho significava que estaria tudo bem. sem saber que isso ia acontecer. filho. morreu. Sua mãe ficou inconsolável. apenas. ele lê. Caio foi enterrado no cemitério São Miguel e Almas. Quando chega a parte de Gawronski. Um ano e dez meses depois dela. onde quer que estivesse. teve um acidente vascular cerebral (AVC) e não levantou mais da cama. Fora se despedir. claro: não registrara nada em cartório. Em três anos.

fez festa. Lentamente. Lentamente. O céu estava nublado. com Déa. chuviscava. Pois bem. cara. tá louco? Caio insistiu. e Caio teimou que ia entrar no mar. Ele iria sozinho. mas satisfeito. foi andando até o mar. Era sua caminhada. Ia conseguir. . entrou no mar. nem o galho ele queria. em dezembro de 1995. Jogou água para cima. Desde que chegara na pousada. — Não entra. você vai pegar uma pneumonia.EPÍLOGO Na praia do Rosa. E voltou. Pediu ao deus das águas que o curasse. Mergulhou. debaixo dos finos pingos de chuva. Atravessou a faixa de areia. ele estava usando um galho que catara na estrada como bengala.

Porto Alegre: Movimento. 1992. Agir. Salamandra. 1970. 2005. Mel e girassóis. Rio de Janeiro: 2a ed. Agir. Rio de Janeiro: 3a ed. 1975. 1988. Companhia das Letras. Porto Alegre: Globo. Rio de Janeiro: Globo. Rio de Janeiro: 3a ed. 1984. 2a ed. A Maldição do Vale Negro. Triângulo das águas. Morangos mofados. O ovo apunhalado. 1984. Pedras de Calcutá. . Agir. Porto Alegre: Mercado Aberto. 1988. Rio de Janeiro: 4a ed. As frangas. Porto Alegre: IEL/RS (Instituto Estadual do Livro). Limite branco. São Paulo: Companhia das Letras. 2005. São Paulo: 2a ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. 1988. 2a ed. 2a ed.Obras de Caio Fernando Abreu publicadas no Brasil Inventário do irremediável. 1971. São Paulo: 3a ed. São Paulo: Alfa-Omega. 2008. Sulina. 2007. L&PM. 2007. Agir. Os dragões não conhecem o paraíso. 1995. São Paulo: 3a ed. Siciliano. 1983. Salamandra. 1992. 1995. Siciliano. Rio de Janeiro: 4a ed. Rio de Janeiro: Expressão e Cultura. 1988. São Paulo: Brasiliense. 1977. 1995 (com o título alterado para Inventário do irremediável). Porto Alegre: 3a ed. 1993. Siciliano. 2a ed. 1982. Companhia das Letras.

2003. 2006.: ítalo Moriconi. Teatro completo. São Paulo: Global Editora. Rio de Janeiro: Agir. 2002. 2002. Girassóis. 2005. Org. 2006. Porto Alegre: Sulina. 2002. 2a ed. Caio 3D: o essencial da década de 1980. Agir. 1997. Agir. 1995.Onde andará Dulce Veiga? São Paulo: Companhia das Letras. São Paulo: Companhia das Letras. Ovelhas negras. Caio 3D: o essencial da década de 1970. Porto Alegre: Sulina. Planeta De Agostini. 2008. Estranhos estrangeiros. 2006. Caio Fernando Abreu: Cartas. Rio de Janeiro: Aeroplano. Pequenas epifanias. Rio de Janeiro: Agir. 1996. 1996. Caio 3D: o essencial da década de 1990. . 1997. Rio de Janeiro: 3a ed. Porto Alegre: L&PM. 1990. São Paulo: Global Editora. Rio de Janeiro: Agir. Rio de Janeiro: 2a ed. Fragmentos. Porto Alegre: Sulina/IEL. L&PM. 2a ed. Melhores contos de Caio Fernando Abreu. 2007.

apenas. Esse livro começou a nascer na Universidade Federal de Santa Catarina. não só pelo abrigo. A todos. A Jorge Cabral. mas por tudo. por primeiro ter me apresentado à obra de Caio F. por ler o texto e opinar. A Edirê Ferreira e Paulo Vaz de Arruda. Maria Aldina. livros e documentos relativos ao irmão. pelos conhecimentos sobre o Caio. grande amigo. e a seu pai e a sua madrasta. Tadeu e Romeu Martins. agradeço a minha irmã. e a Fábio Fabretti. e sempre. A Luís Francisco Wasilewski. pela ajuda em Porto Alegre. A Upiara Boschi. pelo papel importante em apoiar e ouvir. agradeço por terem me ouvido falar e falar sobre o livro. A Diógenes Fischer. Liliane. vídeos. Agradeço também a Alex Werner. cunhado. por existir. Agradeço à Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis (PRAE) pelo apoio dado. por ter sido um bom e divertido cicerone. por conseguir material ao qual eu não teria acesso de outra forma. A Wendel. a seu irmão. A Mauro Castro. por rodar Porto Alegre inteira de bicicleta para me entregar um vídeo com entrevistas do Caio. Foram quatro anos monotemáticos. eu sei. Felipe e Márcia Abreu. por ter me levado pra lá e pra cá em seu táxi quando eu precisava. Em São Paulo. A Evandro e Leandro Martins. Bruno Werner. Aos professores Ricardo Barreto. darem palpites. e a sua mãe. agradeço as dicas e idéias. A Fábio Bianchini. por fazer o contato com uma das fontes. a Juliano. pelos mesmos motivos. pela generosidade com que compartilharam histórias. que aliás não devolvi — nem pretendo. por me ouvirem falar do trabalho. A Jacques. pelas fontes que me passaram. e me contarem o que eles mesmos andam fazendo. A Beatriz Tironi Sanson. emprestando-me seu Morangos mofados. os grandes planos e sugestões. sobretudo por gostar e me incentivar. A Marina .OBRIGADOS A Cláudia. fotografias. A Luiz Alberto Scotto e Carlos Locatelli. por terem sido tão bons anfitriões no Rio de Janeiro. A Paulo Camossa. Clóvis Geyer e Tânia Rodrigues.

Darmaros. Antônio Neto. Luiz Abreu. Cida Moreira. Stella Miranda. Ivan Mattos. agradeço demais. meu obrigada a Carpinejar. José Márcio Penido. Pelo mesmo motivo. Celso Curi. por estar sempre disponível. Amanda Costa. À sua família. que não é pouco. Vera Spolidoro. Luiz Fernando Emediato. pelas batatas fritas e sukitas. Itália Homem Ledur (D. Quero agradecer. Cada um a seu modo. Santiago. A minha família. Guilherme de Almeida Prado. Maria Rosa Fonseca. Luiz Carlos Fava. Luiz Arthur Nunes. Reinaldo Moraes. a Ricardo Stefanelli e à equipe do jornal Zero Hora. por trocar figurinhas e contatos. Ana Braga. Maria Adelaide Amaral. Déa Martins. pela paciência. Márcia Denser. Por acreditar. pelo grande conhecimento de todos os assuntos e pela amizade. Fernanda. especialmente tia Laura e minha mãe. Manoel. Luiz Carlos Moura. Mário Prata. Gil Veloso e Luciano Alabarse cuidam com zelo da memória de Caio. também. Marisa. Júlio César Monteiro Martins. Carlos Aguirre Sepúlveda. agradeço aos dois. Nei Duelos. Gilberto Gawronski. Maria Lídia Magliani. Leide. João Batista. Paula Dip. Kate Lyra. por terem gentilmente cedido fotografias importantes para este livro. sempre. A meu editor. . Regina Echeverria. Agradeço a Adriana Franciosi. Irineu Garcia. Graça Medeiros. Ana Lúcia Vasconcelos. por ler os textos assim que eu os mandava. Vera Antoun. pela fé no livro. Rafael Franco e ao pessoal da revista Crescer. Anita). Jacqueline Cantore. Juarez Fonseca. Luiz Schwarcz. José Mora Fuentes. João: pelo apoio. Anna Gioconda Homem (D. Itália). Bruna Lombardi. Emanuel Medeiros Vieira. E a Regina Carvalho. Agradeço a todos os entrevistados. Jaime Gargioni. Sônia Azambuja. Claudia Wonder. Ricardo Lombardi. José Castello. Grace Gianoukas. Por isso. Carlos Emílio Corrêa Lima. Laura Finocchiaro. Ruy Krebs. Pedro Paulo de Sena Madureira. a Jonas Lopes. Marcos Breda. Renato Campão. pelo apoio. por me ensinar sobre disciplina. que me cederam seu tempo e suas memórias: Adriana Calcanhoto.

br/group/digitalsource  http://groups. quero agradecer a Eduardo Nasi. Sempre. o melhor marido.com/group/expresso_literario    .Obrigada mesmo. A todos que me ajudaram de alguma forma. não teria conseguido terminar o livro. me apoiaram: seria longo citar todos os nomes. E. finalmente. mas obrigada. querido.google.com. Sem você.   http://groups. amigo.google. companheiro. Te amo.