Jeanne Callegari

CAIO FERNANDO ABREU
inventário de um escritor irremediável

CD
SEOMAN

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Copyright © 2008, Editora Seoman Coordenação Editorial MANOEL LAUAND Capa e Revisão HENRIQUE MINATOGAWA Projeto Gráfico GABRIELA GUENTHER Foto da Capa e da Abertura do livro ADRIANA FRANCIOSI/AGÊNCIA RBS Checagem CLARA YWATA

Dados Internacionais de Catalogação Brasileira do Livro, SP, Brasil)

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Callegari, Jeanne Caio Fernando Abreu: inventário de um escritor irremediável / Jeanne Callegari. — São Paulo: Seoman, 2008. ISBN 978-85-98903-10-1 1. Abreu, Caio Fernando 2. Escritores brasileiros — Biografia I. Título 08-05638 CDD — 928.699 índices para catálogo sistemático: 1. Escritores brasileiros : Biografia 928.699 EDITORA SEOMAN Rua Pamplona, 1465 — cj. 72 — Jd. Paulista São Paulo — SP — Cep 01405-002 Fone: 11 3057-3502 info@seoman.com.br www.seoman.com.br Todos os direitos reservados e protegidos pela Lei 9.610/98. É proibida a reprodução total ou parcial sem a expressa anuência da editora. Foi feito depósito legal.

Jeanne começa imitando os romances clássicos. de atração pelo risco mas também de fascínio pela beleza. Caio já rascunha. com amor.Para Caio F. "Pernas e braços demais. uma voz que desafinava igual a um pato. à distância. com sua alma efervescente. mas sobretudo lutar contra o que se é. PREFÁCIO O perfil de Caio Fernando Abreu escrito por Jeanne Callegari pode ser lido como um romance. das primeiras descobertas e dos primeiros sustos. que se apóia no concreto e na objetividade. e para Eduardo Nasi. "Desde muito pequeno. que também viveu como se sua vida não passasse de um romance. Caio Fernando Abreu tenha sido um eterno adolescente — e o livro . Nem mesmo a prática do jornalismo. Esta tendência logo se revela uma disposição para a fermentação interior. Ela parte dos extratos remotos. nos mostra Jeanne. Um delicado romance que. eu queria me esconder de todos". cheio de paixão mas também de pudor. pelo apoio. lhe serviu para abrandar as turbulências íntimas. para temas ameaçadores como o erotismo. Em um conto como Pequeno monstro. Talvez se possa pensar que. o menino Caio demonstrou uma inclinação para a arte". desde cedo. de Os dragões não conhecem o paraíso. A estratégia narrativa de Jeanne combina com a estratégia existencial de Caio. pêlos nos lugares errados. um desses romances tensos. um terrível retrato de si. para acompanhar. a fraqueza e o risco de morte. diz. a formação difícil do escritor. através de um jovem ai ter ego e por vias tortas. pisa devagar sobre a matéria ardente. cheios de tristeza e de revolta. em cujas páginas avançamos com o coração na mão. Para Jonas Lopes. movimento que o arrastou. pela paixão. Viver é não só suportar. mas decisivos da infância.

na Holanda. nos mostra Jeanne. Hilda seguia a idéia do escritor grego Nikos Kazantzakis. "As vezes que tentei morrer foi por não suportar a maravilha de estar vivo e de ter escolhido ser eu mesmo". mas de incorporar como fundamento de sua existência. rompendo de vez os limites de uma vida burguesa. faz bicos. no início da década de 1970. havia desde logo um poeta (pela postura. se os escrevia. segundo quem. Mas Jeanne nos mostra também que. já é um homem que deseja abraçar o mundo. fugindo da perseguição da ditadura militar. vai para a Europa. ele se escondeu no sítio da escritora Hilda Hilst. Pode-se dizer que foi na chácara de Hilda. Mas. Leva então uma existência precária. lava pratos. e não porque escrevesse versos. nem assim a autora consegue organizar e domar a atmosfera de inconstância e de desamparo que cercou a vida do escritor. de vez. grudado a ele. nos enche de argumentos a favor dessa idéia. A bissexualidade se abre. Mesmo amparando-se no recurso mais didático da ordem cronológica. como um duplo. Quando. mais afunda na dor. um rebelde. na Suécia. datada do final dos anos 1960. mas um espírito — que o escritor adulto veio a nascer. a figura de um sujeito à margem. e que o ajudou a delimitar. enfim. pois. Um homem que nunca desconheceu o peso do caminho que lhe coube atravessar. é preciso primeiro dela se afastar. "Escrevo por uma espécie de incompatibilidade de gênios com a vida.de Jeanne Callegari. Em sua chácara. escoltado por ela — como uma parteira que de um corpo arrancasse não outro corpo. Lição que o jovem Caio tratou logo não só de imitar. por vezes. Períodos fundamentais — como aquele em que. sobrevive como pode. mas avança. de um desviante. nunca publicou). na Inglaterra. perderse na esperança de. Caio escreve em uma carta aos pais. para entender a sociedade. . se achar. na periferia de Campinas — ajudam a fixar traços mais firmes. se o jovem rebelde persistia. quanto mais Caio se liberta e expande seus horizontes.

O anjo negro chega ao extremo até que ele mesmo. e de solitário também". fisga quase toda a alma de Caio Fernando Abreu. "O ser todo exalava algo de sexual. Paulo. Caio avança. Dor e escrita se conectam de modo fatal. Dedica-se cada vez mais a ler poesia — sobretudo Adélia Prado. A relação de amor e tensão que tem com a poeta Ana Cristina César — que. mais especificamente na novela Pela noite. "de calça de couro. pela primeira vez. Fraco. termina por cometer suicídio — é uma síntese desses sentimentos. depois de muita luta interior. e como um destino (algo em que ele se lança para a vida e com grande vigor). do desastre. Jeanne reencontra Caio. mesmo rápida. É o momento da virada — em que o positivo que indica a doença. Sua escrita está cada vez mais impregnada de lirismo. O medo da loucura. se agiganta. Mesmo cheio de terrores. que comunica. recebe a notícia de que é soro-positivo. para não enlouquecer de impotência. que se acentua na atitude pessoal — que cultiva com esmero — de um bruxo. gestos finos. ela resume. muitas vezes. de modo frontal. aos 30 anos. e também de um misticismo vago. encostado em um carro. Caio menciona o terror da aids — que naquela época. jaqueta. ele mesmo descreve em uma crônica da época. de ignorância e preconceito. de "câncer gay". depois de uma doença longa e estranha. do fracasso. mas . nunca desiste de recomeçar. para re-fazer". É também o momento em que. em uma descrição que. Fato. elegantes". E aqui se deve entender o irremediável em dois sentidos: como uma condenação (algo que não tem remédio). ainda era chamada. negativo. apesar da sensibilidade extrema e da volúpia de viver sempre frustrada. em uma série de crônicas publicadas no jornal O Estado de S. Um sujeito que. um lirismo seco e doloroso. portanto. em O triângulo das águas. Fernando Pessoa e Mario Quintana. é convertido por Caio em algo positivo mesmo. escrevo para organizar o caos. De volta a São Paulo.escrevo para reinventar. e é nesse nó que Jeanne Callegari puxa o fio de "um escritor irremediável". A vida lhe abre uma nova face.

A morte o pega quando vivia como um romântico jardineiro. Seu livro tem a objetividade dos relatórios científicos. dos mergulhos negativos. José Castello . no sul. É nesse andar das coisas pequenas que Jeanne o persegue até o fim. a reserva temerosa das grandes confissões. quieto entre suas flores domésticas. porque sabe que aventurar-se na vida e na obra de Caio Fernando Abreu guarda sempre um grande risco. apegado ao prazer de cuidar dos próprios espinhos. sentidos novos e vitais. mas também o encantamento das cartas de amor e. ele volta a morar com os pais. e se dedica a rever seus livros. Jeanne se contém sempre. o mais que pode.cheio de coragem. procurando extrair. ainda. é mergulhar no veneno terno da imperfeição.

com quem. chás medicinais com whisky. o escritor admirado e cheio de seguidores. que alternava fases macrobióticas com costelas gordas. sempre flores. sempre em busca da luz. de aids. não com pedacinhos de pão ou pedrinhas. pelo contrário. a vontade de ficar sozinho. sempre algo fica de fora da moldura. Tinham ciúme e zelo de tocar em memórias tão delicadas. nas noites mais perigosas. do banal. gostava de andar no limite. de traduzir e dar unidade a todos os muitos que algum outro foi. de retrato. o Caio deprimido. Avencas. curioso e temerário. todos aqueles que ficaram carentes quando ele se foi. das flores. cigarro com jardins e flores. rosas. nenhum e cem mil. mas apaixonado pela vida. mas nunca a ponto de se perder. a literatura. do qual ele mesmo era um dos principais objetos. e também com seus órfãos. desde o início condenada ao fracasso. mas que passeava e pairava por todas elas. dar entrevista. mas com seus textos. de uma fidelidade canina com os amigos. filosofias e seitas. apaixonado sempre. da leveza. que marcava. queriam dividir sua visão do Caio. O Caio F. Costuma ser assim. reservado para poucos olhos. O Caio erudito. de um humor implacável e ácido. Ele foi milhares. inquieto. herdeiros e viúvas. o desespero. em 1996. como João e Maria da fábula. em uma tentativa como essa. nunca a ponto de perder o caminho de volta. fácil de amar. Achavam quase egoísmo . O Caio simpático com os outsiders. O Caio inclassificável. oculto pela linha fina. suas memórias. não foi a exceção da regra. que se recusava a fazer parte de movimentos. o Caio filosófico. O amigo difícil de conviver. estrangeiro. Muitos. O Caio obsessivo com o lado escuro de todas as coisas. O Caio que usava as palavras como arma de sobrevivência quando batia a depressão. Muitos não queriam falar. o Caio pop. Com todos esses tive que lidar. Escrever sobre Caio Fernando Abreu.INTRODUÇÃO: CEM MIL CAIOS Um. O Caio do equilíbrio sempre além do comum. o Caio abobrinha. O título de Pirandello ronda as noites de quem se impõe a tarefa. camaleão. girassóis.

um recorte dessas milhares de faces. dá para ir apreciando o caminho. Cansa reviver momentos tristes e a partida de alguém que se amou. Sim. e a todos agradeço a colaboração. a delicadeza em retornar meus pedidos insistentes. cada nova nuance. teríamos sobre o que falar. Antes é um perfil. buscar fatos muitas vezes esquecidos num cantinho das lembranças. A triste e heróica caminhada para o fim. É que esse relato não se pretende definitivo. em meio a suas rosas e a sua família.deixar a beleza de anedotas e palavras para trás. me sentindo íntima dele. Pois o ponto de chegada não existe. Apesar dos tantos traços. Jeanne Callegari . Por definição. Cansa forçar a memória. muitas fotografias para nos fazer lembrar. Muita gente para prosear a respeito. Não há razão mais certa que a outra. é imperfeito. uma biografia exaustiva. pensavam. através de contos e romances. Mais cem mil para serem estudados. emergia aquilo que eu buscava. Fui achando que entendia Caio. muitos arquivos a revirar. Ainda há muito a dizer sobre Caio Fernando Abreu. a importância como filho. Fiz algumas descobertas sobre esse jardineiroescritor marcante e apaixonado. no Rio. a adolescência em Porto Alegre. por trás de frases ditas e registradas em cartas. a boa vontade. Se a importância como escritor era flagrante desde o início. Partindo daqui. Por trás de depoimentos e histórias que marcaram. queriam que o mundo conhecesse o homem por trás do texto. personagem e autor da própria vida. aparecendo como em uma revelação fotográfica. amigo. faltam ainda detalhes. detalhe. como o personagem de Pirandello: a unidade. A vida adulta em São Paulo. do contorno esboçado. Sobre o que conversaríamos se ele estivesse aqui? Sobre a infância em Santiago. e que homem extraordinário era esse!. jornalista e personalidade foi surgindo devagar.

organizado por ítalo Moriconi e publicado pela editora Aeroplano em 2002. faz parte do acervo da família e foi gentilmente cedida por ela. .As cartas de Caio citadas no livro foram extraídas de Caio Fernando Abreu — Cartas. A carta de Manuel Abreu para o filho Zaél nunca foi publicada. assim como algumas das cartas de Vera Antoun e os postais de Pedro Paulo de Sena Madureira.

pedira para que levassem água. Folha de S. O Estado de S. Gil sabia que Caio o queria bem: não faria nada que pudesse prejudicar o amigo. Outras pessoas haviam passado por lá: no final da tarde. A reação era. e depois disso passara por vários veículos. Itália e Holanda. em São Paulo. Caio ligara para os dois. ganhador de dois prêmios Jabuti. Inglaterra. que estava junto no apartamento. traduzido na França. as coisas vão se complicar para mim. tinha integrado a primeira equipe de reportagem da Veja. Para evitar que Caio fizesse uma besteira. conversaram sobre a situação. Viveu com intensidade as décadas de 1970 e 1980 e. pela segunda vez naquela noite. deixando os amigos morrendo de saudades do lado de cá. argumentando que se ele se jogasse lá embaixo. Caio Fernando Abreu era um escritor consagrado. Nova. que estou aqui com você — grita Gil Veloso. você vai fazer isso comigo? Se você se matar. e ambos chegaram com garrafas na mão. Gallery Around. Leia Livros. Zero Hora. O ano era 1994. por ter retratado tão bem experiências e emoções de sua época. apenas. Ele está ao lado da janela do andar de cima do duplex de um flat na Frei Caneca. Paulo. Déa Martins e Gil se encontraram no elevador. menosprezava e era contra as pessoas que tinham a indelicadeza de se matar. o escritor tinha descoberto que era portador do vírus da aids. Há três dias. era considerado ícone de uma geração. com a vaga intenção de se jogar. um reflexo da febre. como IstoE. Como jornalista. Caio não era um suicida. viram que Caio não estava bem. Paulo. o amigo Gil conversava. que se aproximava da janela e a abria. a situação poderia complicar para o seu lado. Aos 45 anos. Além disso. se seria melhor interná-lo ou não. Alemanha. POP. Ele argumentava com o escritor Caio Fernando Abreu. e .PRÓLOGO — Caio. naquela segunda-feira. Correio da Manhã. Era também autor premiado de teatro. Subiram. Mas Gil Veloso não pensava em nada disso quando foi socorrê-lo no flat.

como se já esperasse: a doença o rondava fazia pelo menos dez anos. Eram mais ou menos onze da noite. e parecia natural que assim fosse. Estava muito fraco. Estava recluso. Assustado. ele diria que sua primeira reação foi de naturalidade. em 1983. Gil. Então veio a febre. delirou. acalmando o amigo até que pudesse descer novamente e pedir ajuda. entrou no jogo. Deu um grito. Déa foi embora e Gil ficou cuidando do Caio. pensou Caio. depois do fim de semana aparentemente sensato. Na primeira vez que desceu as escadas para alcançar o telefone. Cazuza. Fim da linha. Não era mais ficção. Mas. fingia estar vendo as borboletas imaginárias. Luiz Roberto Galizia. que se aproximava do parapeito. quando. Não houve jeito senão chamar uma ambulância e levá-lo para o hospital Emílio Ribas. Paulo Yutaka. começaram a aparecer os primeiros casos no Brasil. Recitou coisas sem sentido. Correu e pegou Caio. olhou para Gil e compreendeu o absurdo do gesto. Não eram poucos os amigos que Caio tinha perdido para a aids: Vicente Pereira. Caio estava já completamente nu. doença. e . Gil decidiu ligar para uma médica. O escritor passara os últimos três dias ligando para os amigos. Lory Finocchiaro. Depois. A essa altura. não queria comer. Agora era a sua vez. morte. com toda a força. algo mudou: ele finalmente pareceu assimilar. contando que estava com aids.combinaram de ir se falando. como uma criança. dando a notícia. Aids. agora era de verdade. conseguiu telefonar para alguns amigos e para a médica antes que Caio abrisse novamente a janela e ele precisasse argumentar para evitar novas tentativas. continuavam os delírios. Gil ficou conversando. o que estava acontecendo. Mesmo assim. Aids! Estou com aids. teve alucinações. e ele não se lembrava de mais nada. para assim tentar trazer o doente de volta à realidade. Caio paralisou. ouviu a janela se abrindo. os semsentidos que dizia. como se digerisse a situação. Da segunda vez. que estava com ele.

Caio ficou em uma maca enquanto aguardava que um quarto vagasse. que também estava ali. transferido junto com o primeiro batalhão destacado para operar na cidade. Primeiro. portanto. pequena cidade ao sul do Brasil. tinha sido no Rio Grande do Sul que tudo tinha começado. Voltar às raízes. mesmo sem conhecer a moça em questão. Afinal. porque.quem o vestiu e o colocou na ambulância foi Gil. de 24 anos. ter uma vida tranqüila. de bebedeiras e namoricos. Tendo escolhido a carreira militar. O comerciante Manuel Abreu. Caio já estava em um quarto. pois os enfermeiros tinham medo da contaminação. não havia leitos. normalmente tranqüilo. No hospital. por dois motivos. Zaél fora morar em Itaqui. tinha passado por uma fase boêmia. quando. O rapaz. amigos do copo e de mulheres bonitas. Coisa da idade. Voltar a Porto Alegre. Plantar roseiras. Os amigos foram visitá-lo e sua irmã Cláudia chegou de Porto Alegre. único responsável por seus atos. seu Manuel acreditava que o . No dia seguinte. no final de 1945. senta-se para escrever uma carta ao filho Zaél. emancipado e. O médico disse a ele: — Você precisa agora é de qualidade de vida. seu Manuel recebe uma carta do filho pedindo autorização para se casar. UM É a década de 1940 em Santiago do Boqueirão. para a casa dos pais. que também morava em Itaqui. nascido em 1887. Era tempo de Caio realizar um sonho: voltar ao Rio Grande do Sul. ele não nega. Não se lembrava de absolutamente nada. do contato com colegas farristas. Por isso. porque Zaél já era homem feito. Segundo. Gil já havia ligado para Déa.

ele termina a carta. Depois da entrada dela na vida de Zaél. tranqüilo. No dia 15 de dezembro. E Manuel deve ter gostado da nora que aprovara mesmo antes de conhecer. brincaria anos mais tarde uma das netas de dona Alcina. do teu pai e amigo. Quando Nair era pequena. o pai responde à carta. um dos rapazes. Era ela que. provavelmente cristãos-novos. trazia também recomendações para que Zaél economizasse dinheiro a fim de poder se casar o mais rápido possível. Seria sempre conhecido como homem afável. Itaqui tinha pouco mais de 18 mil habitantes na época e a base de sua economia era agropecuária. dizendo que. mãe dela. prejudicando o futuro de uma filha alheia". Zaél Menezes Abreu e Nair Ferreira Loureiro se casaram. Válter. era prima de Rodrigues Alves. com pulso firme e determinação. comandava a casa. "Por causa dos narizes". Eram descendentes de portugueses. dando seu consentimento para a cerimônia. se tornou . a situação financeira da família ficou complicada: com a morte do pai. Manuel esperava que as qualidades da noiva de Zaél se confirmassem. Manuel Abreu". foi a única dos sete filhos a cursar faculdade. Localizada na fronteira com a Argentina. porém.casamento seria uma boa maneira de tranqüilizar a vida de Zaél. A família de Nair era das mais distintas: Alcina Alves Ferreira. o jovem sossegou. assim. poder mandar as crianças para a escola. Nair insistia em estudar: viria a ser professora. três se tornaram donas de casa. Aproveitando para agradecer o lindo vidro de azeite que Otacílio e Jurema haviam mandado. "porque não é lícito também ficares noivo indefinidamente. com "saudades e abraços de todos. o presidente. Assim. Zaél e Nair se conheceram em Itaqui. A carta. onde ela nascera. decidida. a mãe começou a costurar para fora para pagar as contas e. com boa vontade e energia. No mais. Dois anos depois. Das outras meninas. seria possível controlar a vida desregrada que o filho levara até ali. e que ambos fossem dignos um do outro. Nair era mulher forte.

de vez em quando soltava tiradas mordazes e engraçadas. Zaél odiava profundamente o próprio nome. ela se mudou para uma fazenda em São Borja — a cidade dos presidentes Getúlio Vargas e João Goulart — para dar aulas para os filhos de um rico fazendeiro. Todo mundo confundia: Ismael. ele usava um enorme anel de ouro. anos depois. Na troca de olhares. Seu humor. como Nair. Provavelmente. Queria entrar fardado e a cavalo no clube. a se tornar prefeitos de São Borja. e assim foi até que conheceu Zaél. Israel. mas a anedota ficou na memória da família. era difícil achar quem acertasse. Ela perguntou o que significava aquela inicial. paixões nasciam e morriam. em Itaqui. fora inventado a partir de partes do nome de seus pais (ManuEL e AdeliZA). Quando Nair conheceu Zaél. com um Z gravado. contrariado. Marciano. freqüentes na época. Resmungava sempre algo sobre isso. na Praça Central. jogador de futebol — chegou a fazer parte do Botafogo do Rio de Janeiro. e o outro. Estava bêbado. Uma noite. para o outro. mas os amigos do quartel o amarraram na cama. Assim que se casaram — sem festa. Depois da fazenda. e ele queria porque queria entrar na festa para buscá-la. que. Zaél discutiu com Nair. no entanto. Depois de casado. e ele não pôde sair. enquanto ainda eram noivos. o encontro se deu em algum dos bailes. quando Nair perguntou o significado do Z. Zaél sossegou. Aos 17. A única que também se tornou professora. Um a um. assim como o de sua irmã Elza. Portanto. As mulheres andavam para um lado e os homens. A confusão foi desfeita. ela iria a um baile no Clube Comercial de Itaqui. pois não havia dinheiro para isso — Zaél foi transferido para Santiago e Nair . permaneceria o mesmo: embora calado. ele não teve dúvidas e disse: Zeferino. Nair foi para outra das pequenas cidades da região dar aula em uma escolinha. foi sua irmã Flora. Aos 16 anos. os três garotos viriam. Nair se formou na Escola Normal: ser professora era uma das únicas profissões possíveis para uma mulher naqueles tempos.delegado de polícia. ou na hora do footing. Mais tarde.

autor do sucesso de verão Tem que ser mulata. pelo menos um herói. o capítulo introdutório aparece em Ovelhas negras. coletânea lançada no fim da vida do escritor. ou pelas belezas. Por defender a lisura da eleição naquela localidade com a própria vida. com seus heróis e mártires. no entanto: houve um sambista. quando Nair ficou grávida do primeiro filho: uma terra predominantemente militar. perto da fronteira com a Argentina. antiga São Tiago das Missões. como qualquer outra cidade. Houve. e ele ambicionava um dia escrever um grande romance sobre a cidade. em um país apaixonado por futebol. Em 1936 — dois anos antes de Santiago ser oficialmente promovida a "cidade" — o juiz eleitoral Moysés Vianna morreu abraçado a uma urna eleitoral. Santiago do Boqueirão. também havia de existir um jogador vindo de Santiago: Anderson Polga. seus costumes e lendas. E. que. O Passo aparece em vários contos de Caio. à maneira da Macondo de Garcia Márquez e da Santa Maria de Juan Carlos Onetti. uma cidade fictícia. Nem só de quartéis viveu Santiago. . Sorte das mocinhas. o heróico juiz virou medalha: a "Medalha do Mérito Eleitoral Moysés Vianna". se destacava das outras pequenas cidades da região. mas pela quantidade de quartéis. que gostavam de namorar homens fardados. Santiago era polvilhada de quartéis.arrumou um emprego como professora em uma escola local. O pai de Neltair era primo-irmão de Zaél. em 1948. que certamente possuía. Achavam bonito. também. Túlio Piva. regravado em inúmeras línguas. Santiago viria a ser a inspiração para Caio criar o Passo da Guanxuma. Embora o texto inteiro jamais tenha sido feito. Lá nasceu também o cartunista Santiago. Assim era Santiago. Não pelo tamanho ou pela prosperidade. enquanto era cravejado de balas. batizado Neltair Rebés Abreu. no Rio Grande do Sul. concedida a todos aqueles que se destacassem pela atuação em matéria de Direito ou Justiça Eleitoral. tirou o apelido da cidade em que nasceu. e a maioria dos homens que ali moravam era militar.

não todo completo: seu Zaél. são touceiras espessas de guanxuma. nem sempre tinha paciência de escrever tudo que acontecia. As parteiras Julia Jacques e dona Alcina. sobre os cabelos da criança: "apesar de escassos. algum tempo depois. como o pai de Caio. que o preenchia. Lia tudo que saía sobre Getúlio nos jornais e tinha uma foto dele .. o mais real.]. calorão ou friagem. morre Getúlio Vargas.. E um menino bem grande: Caio Fernando Loureiro de Abreu nasceu pesando notáveis quatro quilos. Ainda assim. quase não incomoda". Na rua Pinheiro Machado. que os ramos servem pra fazer vassouras capazes de assentar até mesmo a poeira daquele deserto próximo que sopra e sopra noite e dia sem parar e.. Caio seria o único dos cinco filhos de Nair a ter um álbum de bebê. à beira dos lajeados ao sul. de dois males jamais sofreu. De tudo. nem de pó acumulado. O papai não vai enumerá-los por ser muito longo e estar com preguiça de escrever. se tornara getulista convicto. pelos descampados do norte e até mesmo entre os vãos mais sombrios das areias a oeste — o que mais tem em qualquer tempo de seca ou aguaceiro. [. sem sinais particulares e "muito quietinho. De distúrbios estomacais. mãe de Nair."Isso é o que se conta. que chá de guanxuma é tiro e queda. que." Eram oito e quinze da manhã do dia 12 de setembro de 1948. ai como dizem nesse Passo. nota-se que serão castanhos". com o passar dos anos. salpicadas entre as quatro patas da aranha — no meio dos girassóis do leste. Zaél. o pai. sofre ou sofrerá o Passo. 575." Em 1954. confirmavam: é um menino. mas se imagina do Passo. olhos pretos. na seção presentes: "Ganhou muitos presentes. nunca pára de crescer. O falecido presidente era natural de São Borja. o que se diz. Assim. o que se vê e não se vê. dizem tanto. Esse é o bebê Caio: cútis branca. anotaria. dizem. No álbum do bebê.. Nair de Abreu acabava de dar à luz pela primeira vez. por exemplo. está anotado. no primeiro aniversário de Caio.

Mas. do escritor de aventuras Karl May — um alemão cujas histórias se passavam no faroeste norte-americano. já muito magro e muito alto. iam faltando as coisas: . a livros de Monteiro Lobato e a coleção chamada O mundo da criança. grande amigo do Gringo. o Beco (pronuncia-se Beco). as crianças podiam ler tudo. o menino. As coleções completas de Érico Veríssimo. lia muitas coisas quando ia visitar a casa deles. o menino Caio demonstrava uma inclinação para a arte que viria a desenvolver mais tarde. a mãe. Nair.pendurada na parede. uma menina louquinha que queria fugir de casa. como Caio chamou a brincadeira anos depois. e não era só ele. Aos poucos. embora ele mesmo nunca tivesse deixado seu país — enfeitavam as prateleiras da casa. Quando ele morreu. de muita cultura. vizinho e primo dos Abreu. estava sempre com um livro na mão. em um conto do livro O ovo apunhalado. quando Caio tinha uns sete anos. Nenhuma leitura era proibida em sua casa: de gibis de aventuras e revistas como O Cruzeiro. O ambiente da casa dos pais era propício para isso: Zaél. O colega Ruy Krebs. que seria um dos melhores amiguinhos do Caio a partir do primeiro ano ginasial. em sua casa. só havia livros ideológicos. O quartel no fim da rua era o oásis: na frente da casa dos Abreu era onde o avião dos três garotos tinha caído. se na política as coisas iam mal. D. ou oásis. Sendo professora. pois seu pai era comunista e. Desde então. de sobrancelhas grossas e bem desenhadas. a história em quadrinhos de Lili Terremoto. ele. De vez em quando. Luiz Carlos Moura. na sua trajetória de escritor. como seria a vida toda. também instigava os filhos a aprender. Desde muito pequeno. Eles tinham que atravessar todo o deserto — o espaço entre a casa e o quartel — e conseguir víveres e peças para consertar o avião. Zaél ficou arrasado. que eles assinavam. dividia a paixão por livros. Beco e Gringo brincavam de deserto. Com seis anos. quando estudaram na mesma turma. Machado de Assis. em casa Zaél só tinha motivos para alegrias. homem sofisticado. escreve seu primeiro texto. irmão de Caio. o garoto continuou escrevendo e criando.

certa vez. a pobre caiu de cabeça no chão. são jogos que eles mesmos inventam. E os irmãos Abreu. atuar. Quando a moça se casou. e não o Caio. fingir que era tudo verdade. As crianças chegaram da escola. Quase sempre só os três: a maioria dos outros garotos não conseguia ir até o final. e Gringo. por incrível que pareça. assim como inventam as brincadeiras de fantoche e de deserto. Caio morreria de rir sempre que se lembrasse dessa história. Em um desses balanços. Ruy e Beco vão para a casa dos Abreu brincar. Nada de jogar futebol ou vôlei: quando brincam de bola. de cabeça baixa. a turma percorria as obras em construção atrás dos sacos que embalavam o cimento para fazer os cenários. então com dez anos. Caio resolveu brincar de circo. Na casa dos Abreu havia sempre uma empregada doméstica. D. os meninos estavam cansados. que de vez em quando aparecia por lá. Uma delas era também Nair. A noite. colega dos meninos. quem fazia os roteiros das peças que encenavam era ele. São duas da tarde. Montou toda a estrutura no galpão de casa. Armaram no teto um trapézio. a Nairzinha. decidiram. decidiram fazer um teatrinho de fantoches. Anos depois. A sede era a garagem da casa do Sales Horácio. Tinham que sentir. Em poucos quarteirões. são os que gostam de brincar brincadeiras mais parecidas com as de que eles mesmos gostam. Caio. de Porto Alegre. Nair ajudou a fazer o enxoval.água. escrita por Glênio . apesar do tombo feio. Ruy se lembra de que. Naquela época. O único que às vezes participava da brincadeira era o negrinho Jorge. pobre Etelvina! Certa vez. os empregados dormiam em casa. Houve também a Etelvina. E conseguiam. tratada com carinho pelos pais de Caio. suados. Cobertores velhos faziam as vezes de cortinas. filho de camponeses. e a Etelvina tinha que balançar pra lá e pra cá. Certa vez. Caio encontra uma receita de massa para fantoches na antiga Revista do Globo. Não se machucou. Como a turma gostava muito dos circos e teatros mambembes que de vez em quando passavam pela cidade. comida. fazer um teatro.

Mas isso seria muito tempo depois. um coqueiro. Da janela dele. e inventam historinhas para as peças. a não ser brincar. Além dos textos.Bianchetti. "A carta foi incluída no livro O que importa em Oracy. e tão secreta que. muito tempo depois. 'Nunca nos falamos. Na minha memória — já tão congestionada — e no meu coração — tão cheio de marcas e poços — você ocupa um dos lugares mais bonitos. organizado por Fátima Friedriczewski. E assim Caio descobriu que os poetas existiam. que depois se tornaria artista plástico famoso. faziam também teatrinhos de sombra. chegaria mesmo a pisar no palco como ator. mesmo sem nunca ter conversado com ele. Beethoven? Wagner? Caio dizia para Ruy que Oracy conversava com as estrelas. sente o cheiro profundo de jasmins que vem do jardim lá fora — o cheiro era tão forte que às vezes a mãe sentia tonturas — e vê a casa da frente. Caio. as cabecinhas de papel machê. escoava o som de música clássica. não há asfalto nas ruas. são meados dos anos 50. diziam. Uma cumplicidade muda. anos e anos depois. ele se perguntaria mais tarde. Era um som novo para Caio. dois malditos que se reconhecem sem que seja necessário sequer falar sobre isso. penso. às vezes. em companhia da mãe. Eles fabricam os bonequinhos. sentia com ele uma identificação. Froilan Oliveira e Júlio César Prates. De vez em quando. praticamente. a cidade é Santiago. Que seria?. Por agora. adaptaria textos de outros escritores. Faria suas próprias peças. Oracy fez pinturas e esculturas em fios de . Oracy Dornelles. poeta. muito forte. escondida por plantas. talvez você nunca tenha percebido. Em carta escrita a Oracy. Numa cidadezinha perdida. Uma casinha de madeira. Era um poeta. Não dava para imaginar que. nos anos 80. olha pela janela do quarto. Sem nunca ter trocado uma palavra com Oracy. Ficou só aquela vibração de silêncio. mora ali. nunca nos olhamos. o fornecimento de luz elétrica é intermitente e não há qualquer preocupação na cabeça das crianças. em Porto Alegre. Caio se lembraria da afinidade que sentira pelo vizinho. Caio viria a escrever de verdade para o teatro. porque tinha um telescópio para observar o céu.

ele esclareceria: era Beethoven o som que Caio ouvia pela janela. Em determinada hora. miss São Paulo. e acabava sempre conseguindo o que queria.cabelo e grãos de areia. as roupinhas. ou na sessão seguinte. os nomes. Quando as crianças eram mais novas. Enquanto Beco e Gringo jogam xadrez — Beco seria campeão amador da modalidade. as vinte e poucas bonequinhas vão surgindo no papel. com a diferença de que aquelas eram reais e essas. uma para cada estado do Brasil: miss Rio Grande do Sul. Pega seu boneco do "mocinho" e se encontra com Caio e Gringo. desenhadas. pequeninas. e os meninos esperavam ansiosos o dia de assistir aos "filmes de mocinho". o Cinema Imperial. quando crescesse —. Os dois estão convocados: é hora do desfile das misses. Oracy foi um dos fundadores do Clube de Beethoven. afinal Caio tinha esse jeito de impor sua vontade na hora das brincadeiras. Ruy pinta as modelos e desenha os trajes típicos. Beco sai de casa. fazendo uma algazarra. de tarde. e ficaria famoso pelo circo de pulgas que mantinha. uma a uma. Um divertimento que todos adoravam era ir ao cinema. às quatro da tarde. lado a lado. em que os membros se reuniam para ouvir concertos do compositor — nas noites de gala. Depois de meses de trabalho. Caio desenha as misses de maio. E a senha para a comoção geral: o pessoal todo do cinema começa a bater os pés no chão. tudo. vestidos a rigor. que também estão com seus bonequinhos. o mocinho começa a perseguir o bandido. Fã ardoroso do alemão. Vão ao cinema. as crianças se reúnem de novo para brincar. Mesmo que não estivessem muito interessados. só podiam entrar no cinema na matinê de domingo. Depois que estão prontas. No outro dia. as medidas inventadas. e eles vão ser os jurados. inventadas. Começa o filme. Anos mais tarde. que está lotado. Caio e Ruy chamam Gringo e Beco. Que nem aquelas que vinham com as fotografias na revista O Cruzeiro. Havia apenas uma sala de projeção na cidade. aos berros: . miss Minas Gerais. Caio e Ruy pegam cartolina e tinta nanquim.

principalmente. Caio pode ter tirado a descrição da . porém. e seria cartunista famoso. Os desenhos do Neltair. O problema surgiu quando chegaram as letras YeW: onde encontrar um nome cujas iniciais fossem essas letras dobradas? A questão obrigava os meninos a levar caderno e lápis para o cinema. Marilyn Monroe e assim por diante. BB era Brigitte Bardot. Era uma festa. primo de Caio. as famílias gostavam de acampar na beira dos rios. dos bons. inventaram passatempos relacionados. adotaria a alcunha de Santiago. para anotar caso aparecesse um YY ou WW. No verão. como concursos de desenhos para os cartazes dos filmes da semana. CC. Neltair cresceria. Claudia Cardinale. assim como no concurso de misses. DD. e também a praia de Jaguari. perto de Santiago. KK era Kay Kendall. O julgamento artístico dos meninos era bom. pois assistiam a muitos filmes épicos e bíblicos no cinema. AA era Antônio Aguilar. com exceção dos filmes censurados para menores. Havia uma praia muito bonita no distrito de Ernesto Alves. Ruy e Caio desenhavam os cartazes e. viram os desenhos de outro menino. cidade vizinha. Dessas praias. Os dois passavam na calçada só para olhar os desenhos. por acaso. Por exemplo. feita de lajes de pedra. Caio e Ruy se impressionavam. um nome que acharam no elenco de filmes mexicanos. ao mesmo tempo em que sacodem no ar seus bonequinhos de mocinho. tiveram a idéia de fazer um alfabeto duplo. Caio e Ruy se consideravam os melhores desenhistas da turma. mocinho! Caio. Gringo e Beco também gritam e batem os pés. os jurados eram o Gringo. com os gladiadores greco-romanos. eles já podem ir ao cinema quase todos os dias. Quando Caio cresce e seu companheiro passa a ser Ruy. Doris Day e Diana Dors. eram feitos com lascas de telha ou tijolo na calçada. Afinal. mocinho! Aí.— Aí. De tanto irem ao cinema. o Beco e a empregada da casa do Caio. e se espantaram. em homenagem à cidade. MM. Um dia. Uma vez. usando as iniciais dos nomes de artistas. como a maioria na cidade.

Pulavam. era muito perigoso. A brincadeira. Podiam passar a tarde chupando bergamotas ou brincando na casinha que Caio improvisara com uns compensados de madeira da embalagem de uma geladeira que haviam comprado. foi inventada por Caio: bailu. apropriando-me cada vez mais de sua natureza. não permitiu mais que os garotos brincassem desse jeito. assim como seu nome. de amigos e parentes. que comandava a casa. Os garotos subiam na cama. como quando os garotos passavam o dia no enorme quintal da casa dos Abreu. um acontecimento. Finalmente achei. na beira da sanga. Certa vez. O verde estava presente em muitas brincadeiras. indecifráveis como elas. os fantoches. Nair proibiu os filhos de fazer. até cair no chão. pitangueiras. . ou algum outro bicho. como se sutilmente as fosse amoldando à minha maneira de desejá-las. Na casinha. Apesar de divertido. embora inconscientemente soubesse da inutilidade de tudo. morando nas metrópoles acinzentadas e sem verde. do livro Os dragões não conhecem o paraíso. As praias e fazendas próximas. e a mãe. jogavam cobertores sobre as cabeças. de modo a não enxergarem nada. guardavam os brinquedos. alguém trouxe duas corujas. e começavam a pular. Inventário do irremediável: Chamá-las de alguma coisa seria dar um passo no caminho de seu conhecimento. misteriosas até hoje. um pouco inspirado no Clube do Bolinha e da Luluzinha. Caio escreveu sobre isso no conto Corujas. de seu primeiro livro de contos. Houve uma brincadeira. no entanto. os gibis. forneciam um contato com a natureza de que. Havia sempre um cachorrinho pela casa. Era uma novidade. anos mais tarde.praia do conto Uma praiazinha de areia bem clara. ali. onde havia todo tipo de árvore frutífera: bergamoteiras. Rasputin e Cassandra. Caio sentiria falta. que D. ocultei o batizado. já perdidas no tempo. Eram nomes de criaturas estranhas. A idéia era que fosse um lugar só deles. goiabeiras. Calei a descoberta. pulavam.

A subida era pelas laterais. também chamado Caio. Luiz Abreu. se lembra do preconceito contra o menino Caio na escola. Os outros meninos. balanços. A maioria dos meninos sobe. Caio está no Círculo Militar. Ele tem medo. implicando. era mais frágil. vem empurrar. Elza. Outro menino. velados. não balança que eu caio! — berrava o Caio Abreu lá do alto. e os meninos iam lá: Santiago. Tem quadra de tênis. não gostava de futebol. talvez por ser cunhado de Zaél e se sentir na obrigação de despertar no aluno um comportamento viril. que ficavam em um plano inclinado. Caio não. embora não fosse bom nos esportes. Um dia. casado com a irmã do pai de Caio. Está na aula de Educação Física. comprida e estreita. Afinal. apavorado. O primo Neltair. A sociedade santiaguense da época não estava preparada. Sabendo que Caio. escrever.Mas nem tudo era brincadeira. colega de Caio na 4a série. de patinação. que não consegue. Caio tem oito anos. másculo. aludindo à sua pretensa homossexualidade. o futuro escritor se senta no balanço. era competitivo: sempre . onde. o chama de cagão. desde pequeno. — Caio. tinha traços ambíguos. debocha do menino. O professor. certa feita. cada vez com mais força. que viria a se tornar o cartunista Santiago. O capitão vivia implicando com ele. é o Capitão Pely. que também dá aula de Matemática. E outro dia. o outro menino começa a empurrar com força. Era a época dos comentários maldosos. Caio. passavam umas projeções de filmes. exigindo. que conseguem subir. riem da cara do Caio. De vez em quando. Sempre esse professor pegando no pé. o irmão de Santiago. preferia desenhar. Chegaria mesmo a se envolver em brigas. O jeito de Caio sempre fora um pouco diferente. alguém fez em um jornal-mural uma caricatura do futuro escritor. um clube da cidade. Anos depois. o Abreu. o tímido e retraído Caio aprenderia a lidar com essas situações e seria mais enfrentativo. O capitão insiste para com que Caio suba. Os alunos têm que subir em uma tábua suspensa.

quase todo mundo dormia. as peças que Felipe e Caio costumavam pregar um no outro continuaram. mais velho. em 1957. O grito de Caio. Cláudia. morreu logo após o nascimento. Zaél era integrante da maçonaria. quando as irmãs caçulas Márcia e Cláudia já eram grandes. não podia nem vê-las. mas tinham algum prestígio. na casa da família. Por essa época. foram todos veranear na praia. E sapeca. Anos depois. acordou todo mundo na casa. Márcia nasce em 1960. Uma vez. ao mesmo tempo em que leite. Não eram ricos. desceu as escadas e foi até a cozinha pegar um copo de leite. Cerca de dois anos após o nascimento de Gringo. a família Abreu tem uma posição distinta na sociedade santiaguense. porém. batia nele. quando ele estava em casa sempre pegava as pessoas de surpresa pelos corredores e arrancava gritos de todo mundo. que acordara com a movimentação do irmão. Mesmo com os garotos crescidos. nada. Caio adorava assustar as pessoas: talvez por tédio. menos o Caio. em 1961. apavoradíssimo. Felipe pegava algumas e arremessava nele. por falta do que fazer. e D.representava o colégio nas disputas de conhecimento sobre Geografia e História. Nair estava sempre cotada entre as dez mais . Sabendo que o irmão mais velho odiava cebolas. nasceu Luiz Felipe. Valia a pena apanhar um pouquinho para ver a cara do irmão furioso. escondeu-se no vão da escada e esperou. Nair teve mais um filho. D. alcançava Felipe e batia. Felipe não disse nada: simplesmente estendeu os braços e colocou as mãos em cima das costas do irmão. Em dado momento. copo e bolachinhas voavam para todos os lados. ele saiu do quarto. que cresceu saudável. que ficava acordado até tarde escrevendo. Caio ficava furioso: mais alto. Luiz Felipe adorava provocar Caio. em Tramandaí. A década de 50 está terminando. Quando Caio voltou com um copo de leite e um prato de bolachinhas. nem sentir seu cheiro. Era noite. mas o castigo não conseguia fazer com que o mais novo parasse. Felipe. como se fosse um fantasma ou aparição. Esse.

que foram assistir ao espetáculo de forma lícita. Pela via da arte. em que os alunos liam textos e recitavam poemas. muito finos. quando incluiu o texto na coletânea Ovelhas negras. enfureceu-se com o irmão Gringo por ter entrado sem pagar no circo que estava na cidade. Essa posição da família era estimada por Caio: uma vez. A idéia do concurso era do professor Cavalcanti. que demonstrara uma personalidade forte e independente desde os primeiros anos. Como posso estar feliz? Não mereço o seu amor. pouco antes de morrer. a notoriedade de Zaél e Nair se estenderia a Caio. o filho mais velho. O meu coração estava cheio de ódio por Fernando. eu só pensava em vingança. participou de um concurso literário na aula. pois na sua ele e Ruy eram os responsáveis. George! — soluçou a moça. muito "adequados". Aos 13 anos de idade. Caio brigou com Gringo por ter exposto o nome da família daquela maneira. fotonovelas e melodramas mambembes do Circo-Teatro Serelepe. Gringo foi apanhado e expulso do lugar à vista de todos. o rapaz abraçou-a e deu-lhe um leve . inclusive de Caio e Beco. "E evidente que a história cheia de clichês. Você me perdoa? Como resposta. não presta. como se lembraria o escritor anos mais tarde. A carreira de militar e a situação de professora conferiam certa diferenciação social na época. figura importante nos primeiros anos do escritor: além de organizar os concursos literários. influenciada por radionovelas.elegantes da cidade nos vários bailes e festas a que compareciam. donos de um suntuoso castelo na França: — Oh. As meninas faziam fila para ler. escreve ele. aqueles mesmos em que Caio seria ironizado por colegas de outra turma. Para o concurso. Assim termina a história de Adriana e de seu envolvimento com os SaintMarie. e criou os jornais-murais. mas talvez possa render algumas risadas". Tanto ela quanto Zaél eram muito vaidosos. e o casal era muito respeitado. Caio encheu um caderno inteiro com o pequeno romance A maldição dos Saint-Marie. o professor promovia aos sábados as Horas de Leitura. Venceu.

que pedia que ficassem de olho no casal. que morreu de leucemia aos 15 anos. Caio roubou uma prova de História e entregou para a garota. um Caio diferente. às vezes oposto ao que outros se recordam. Lenita. Incapaz de se condicionar a algum rótulo. se espantam de que tenha tido namoradas. quando já tinha sua homossexualidade estabelecida. por exemplo. Depois dela. ele mandava as meninas comprarem balas . agora transformada em ruínas. o Caio mais sereno e maduro do fim da vida. Certa vez. começaram a aparecer as primeiras namoradinhas. a precursora dos salões de beleza em Santiago. A aurora já põe os dedos cor-de-rosa no puro azul do firma-mento. Afinal. onde as senhoras iam fazer os penteados da época. Lenita. A irmã mais nova de Iara. Ela era aluna de D. ele seria não um. Caio se apaixonou por uma menina muito bonita que morava perto de sua casa. Depois de um tempo. e sua amiga Nádia Ahmad se lembram de como gostavam de escorregar nas longas pernas do Caio quando ele ia visitar Iara. e Beco presenciou a cena em que ela passava a maior bronca no filho primogênito. Nair. Para cada pessoa que o conheceu. parecendo uma promessa de esperança e fé no futuro. filha de D. algumas das pessoas que conheceram o escritor mais tarde. mas muitos: o Caio tímido da infância e da adolescência. De alguma maneira. foi a Iara Nicola. Mais atrás vê-se a silhueta de dois jovens abraçados.beijo nos lábios. Talvez agora eles possam ser felizes. A primeira delas foi Tânia. O espanto acompanharia Caio pela vida afora. era considerado avançado para a época. Contra o horizonte destaca-se a outrora mansão dos Saint-Marie. a mãe dele descobriu. a pérfida Amália não fará mal a mais ninguém. Os meninos iam crescendo. Por isso é que. com seus cabelos compridos. o Caio enfrentativo e ousado da juventude. Beco se espantou: só naquele momento é que ele ficou sabendo que o amigo tinha uma queda pela garota. Caio. As duas estavam sempre por perto a pedido de D. Valéria Nicola. Como prova de seu amor.

enfim.para namorar Iara. jamais leria os livros do conterrâneo. E se não forem. Nair concordava. e D.] Cada passo que ouvia no corredor pensava que era a senhora chegando. Diz que esteve na enfermaria. No internato.. humilhado — mesmo assim restaria o consolo de ter descoberto que valho o que sou. as coisas não começam bem para o primogênito de D. Afinal de contas. "[.. Luiz Carlos Fava. mesmo que após um certo tempo eu voltasse derrotado. porém. se elas são realmente fortes como imagino. O colégio era caro e bom. com febre e sozinho. Nair. Ele não se adapta. o filho queria. que ele tivesse a melhor educação possível. Com 15 anos. mesmo que quebrassem no primeiro vôo. Ele queria conhecer novas coisas. onde ninguém me conhecesse. Confesso que tive vontade (e tenho) de morrer. e sabia que Santiago não poderia satisfazer seus anseios. Embora a mensalidade pesasse no orçamento dos Abreu.] . não consegue arrumar amigos. e até mesmo insistia. pedindo para irem buscá-lo. ferido. [. um oposto de Caio em todos os sentidos: esportista. novos lugares. bem longe daqui. seu primeiro romance: Eu gostaria de ir embora para uma cidade qualquer. e que tem vontade de morrer. másculo. onde não me tratassem com consideração apenas por eu ser "o filho de fulano" ou "o neto de beltrano". Como escreveria depois em Limite branco. Caio muda-se para Porto Alegre para estudar no Instituto Porto Alegre (IPA). cada riso de criança que vinha lá de fora eu julgava ser da Márcia ou da Cláudia. que acabaria por se casar com outro santiaguense.. Caio tinha que seguir em frente. não entende as matérias. Onde eu pudesse experimentar por mim mesmo as minhas asas para descobrir.. Caio fica doente e escreve uma carta medonha a seus pais.

Na época. irmão de Beco.[. D. E também a sua personalidade. Ruy passou a dividir o quarto com Caio. mãe. No ano seguinte. etc. os pais alarmaram-se e Zaél foi buscar o filho em Porto Alegre. Manoelito lhe deu muito apoio: apresentou outros escritores. que era amigo da família de Ruy.] Pelo amor de Deus. Caio já estava muito melhor. foi logo se apresentando. A filha de Manoelito. Quando Zaél chegou.A senhora vai dizer que isso é normal.. de notórios altos e baixos.. que alugava quartos para estudantes... de Santiago. morava no mesmo prédio o escritor Manoelito de Ornellas. e ele acabou não voltando para Santiago. sempre muito extrovertido. Após receber a carta. Agora é que descobri o quanto gosto disso daí. o amigo Ruy.] Há várias noites que não durmo e tenho pesadelos horríveis. como Érico Veríssimo. Mas não é não! Os outros que chegaram junto comigo já estão adaptados. e Antônio com o Carlos Renato. Logo Manoelito conheceu também Caio e leu seus contos. Foi por intermédio dele que Caio ingressaria no Jornalismo. [. A crise depressiva tinha passado. o exagero. que. Finalmente.[. eu não agüento mais! Veja se a senhora dá um jeito! Isso aqui é um verdadeiro inferno. Acho que até emagreci. e seu irmão Antônio também foram morar na pensão.. que começou a freqüentar o apartamento do escritor nessa época. Caio publica seu primeiro conto em .. Maria.] Por favor.. Gosto muito da senhora. Ajude-me!" A carta dá a perceber uma faceta de Caio: o pendor para o dramático. ando sempre com olheiras e não como nada. No ano seguinte à sua vinda. não me deixe só! Responda logo. mãezinha. de carro. Depois de morar no internato do IPA. Por coincidência. que o impressionaram muito. Caio vai para o Hotel Uruguay. espírita. a teatralidade. muda-se para a pensão de uma viúva. enxergava uma aura azul ao redor do Caio. no centro de Porto Alegre.. era tortuoso e demorado vencer a distância de mais ou menos 500 km que separa Santiago da capital.

Caio entra para o curso de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). O conto. e acaba encontrando Francisco. textos mais sombrios. única de uma longa fila de irmãs a não ter conseguido casar. Procurando consolo nos livros. Teresa. Bem. já é sintomático dos primeiros textos de Caio. O homenzinho apagado demais. Em 1967. Comemora o resultado na casa onde estava morando agora o amigo Ruy. Uma semana mais tarde olharam-se nos olhos. humilde demais. depois com simpatia. nervosa. A dele trêmula. Caio acabaria por trancar a matrícula e freqüentar o curso de Arte . Decide procurá-lo nos homens que passam nas ruas. No dia seguinte buscaram-se discretamente. quando ele enviou o conto para ver o que ela achava. No começo tinha nojo dele. e por isso mesmo mais desprezível. sempre quieto. Afastaram-se logo. mas ela tem esperanças: compra um piano e o convida para lhe dar aulas. depois com compreensão.. quase sem ilusões. revista que inaugurou um novo estilo entre as revistas femininas da época. Olhos fatigados. O conto é sobre uma mulher. A publicação foi uma surpresa de Carmen da Silva. a dela hesitante. noutro dia suas mãos tocaram-se rápidas sobre o teclado. que passara em Educação Física. as quatro mãos. um professor de piano. nada feliz. psicóloga e editora da seção A arte de ser mulher da Claudia. depois. Ela e Caio se correspondiam há algum tempo e. tristes. ambas. na revista Claudia. Mas ao cair de uma tarde. encabuladas.um veículo da grande circulação: O príncipe sapo. Ele está muito mais para sapo que para príncipe.. Teresa se apaixona pela história do Príncipe Sapo. ela nada respondeu: preferiu manter segredo até que a revista saísse. de gente quase velha. depressivos. Teresa surpreendeu-se a olhá-lo com pena. como consciente do desprezo que provocava. tocando-se como que por acaso.

livros. discos. parecia já ter definido desde muito cedo o que queria. Nessa época. o desejo de viver um grande amor. O escritor explora sua própria angústia para dar densidade aos personagens. Nessa época. a existência de Deus. Tanto que já tinha até escrito Limite branco. Caio era leitor voraz desde menino. um romance de formação que só viria a ser publicado em 1971. sua melhor amiga é Maria Lídia Magliani. A confusão de livros e pessoas nas barracas facilita que espertinhos ou estudantes sem dinheiro embolsem exemplares sem que ninguém perceba. aproveitavam para roubálos na Feira do Livro de Porto Alegre. e começava a descobrir autores que viriam a marcá-lo por toda a vida. sob a ótica .Dramática (CAD). andava com eles o futuro escritor João Gilberto Noll. Não porque quisessem ser diferentes. A descoberta do sexo. Embora tivesse apenas 18 anos quando escreveu Limite branco. Era capaz de discutir literatura como gente grande. volta e meia com tinta nos cabelos ou nas mãos. que estavam preocupados mesmo é em ser fiéis aos rumos que haviam escolhido. como Clarice Lispector. Noll ainda não sabia se escreveria prosa ou poesia. a busca de uma identidade e o homoerotismo: vários temas que reapareceriam depois na obra do escritor são tratados no livro. negra. Caio e Noll dividiam a paixão pelos livros: como não tinham dinheiro para comprá-los. Ela e Caio formavam uma dupla e tanto: ele alto. ela baixinha. principalmente a Maurício. De vez em quando. Sentavam-se em um banco da praça em frente à universidade e conversavam sobre filmes. em sua forma mais perversa — o suicídio. a morte. havia uma dose de humor na postura existencialista dos dois. e do qual Noll foi um dos primeiros leitores. o adolescente em crise que protagoniza o texto. embora ainda se preocupasse em descobrir um estilo pessoal. artista plástica. uma feira a céu aberto realizada em uma praça no centro da cidade. que fosse só seu. branquelo e magricela. mas Caio. o livro já continha muito do estilo que viria a caracterizar o escritor ao longo de sua carreira. Ambos vestidos de preto da cabeça aos pés.

A época era de ebulição cultural. A história se passa em meio ao turbulento final dos anos 60. A história de Maurício tem vários pontos em comum com a de Caio. Ele tem uma amiga pintora.do adolescente. Enquanto caminhava. Em plena ditadura militar. pensou. quando o fez. Caio não poderia fugir da época. de Hilda Hilst. há sempre pequenas polêmicas. que parece ter sido inspirada em Magliani. Marlene. A mãe de Maurício perde o bebê. "o momento histórico em que se passa mal e mal aparece no livro: ele é intimista. comportamental e política. ao ir estudar no IPA. de Virgínia Woolf. Começou a caminhar em direção à mancha esbranquiçada do casarão. sua beleza quase obscena. A casa crescia à medida que se aproximava. descobriu que aquela cor era quase a mesma das pétalas. alguns jovens se reuniam para discutir um futuro melhor. em prefácio para a uma reedição. sentindo-se confusamente feliz. usar drogas. sua turgidez. mas que. discussões . enfim. Por mais introspectivo que fosse. Ficava mais nítido o verde das janelas. Parou. As coisas brancas são sempre meio enxovalhadas. O jovem do livro se muda para a capital. como Nair perdera um dia. Assim como os livros de Clarice. Quando visita os pais em Santiago. as rosas pareciam palpitar com sua fartura. deixa o cabelo crescer. assim como Caio fez. comentar autores proibidos pelo regime. mas não podia ser. simplesmente. ouvir música. experimenta drogas. vinte e cinco anos depois. definiam-se as roseiras em torno delas. porque os dois se conheceram depois que o livro já estava pronto. Participa das discussões. ficou chocado com a inocência do personagem. porém. estar juntos. De longe. voltado quase exclusivamente para dentro". Ele afirma ainda que foi quase impossível reler o livro. como diz Caio. E do céu. repetiu a frase ao inverso: as coisas enxovalhadas são sempre meio brancas.

Fizeram o . nas peças. muito magro e desajeitado. futuro diretor teatral e um dos grandes amigos de Caio. a vivência de experiências como busca de um significado maior na vida. ainda incipientes. de Guimarães Rosa. Em pouco tempo. mas que viriam a caracterizar o escritor ao longo de sua vida: o enfrentamento. um pessoal novo que seria importante para a renovação da arte no Rio Grande do Sul. Estavam os dois no foyer quando um integrante do elenco passou e ofendeu Magliani. Irene o apresentara a toda a turma do teatro. O filhinho de D.políticas. estava todo mundo na delegacia: Caio. Nair estava crescendo e. mesmo que todo mundo o reconhecesse. nessa hora. embora os pais não o proibissem de fazer nada. por trás das roupas vermelhas. Caio se aproximou bastante da turma do teatro da universidade. E Caio foi o responsável pelas emoções no aniversário de Luiz Arthur. O tal rapaz. fez comentários racistas. em agosto de 1967. que dava aula de inglês no Yázigi e tinha Caio como aluno. com o grupo Província. todo o elenco da peça e o diretor do curso de Arte Dramática. para o curso de Direção Teatral do Centro de Arte Dramática (CAD). nos autores. Tanto que acabaria entrando. Magliani. talvez os pais sentissem saudade do tempo em que queria apenas brincar de fantoches com os amigos ou insistia em ser o Papai Noel no Natal. que formariam em 1969. a busca de uma identidade. Ele entrara nesse universo através de Irene Brietzke. anos depois. Um desses jovens era Luiz Arthur Nunes. já se podia perceber alguns comportamentos. Além da Magliani. Luiz estava ensaiando uma peça no teatro da universidade quando chegam Caio e Magliani com o presente. Gerd Bornheim. como aliás todos já desconfiavam. talvez. Caio não pensou duas vezes e se jogou para cima dele. E é desses conflitos e angústias que Caio tira material para Limite branco. o livro Tutaméia. Ele e o restante do grupo introduziram o escritor no universo do palco. que era a amiga mais próxima. era informante da ditadura. Luiz Arthur. assim como para muitos de seus primeiros contos.

ex-vice-reitor da universidade. da editora Abril. Chegou a chamar a editora de entreguista. Por medo de represálias. ela respondeu Depois da queda. entrevista conjunta com os outros candidatos. jornalista gaúcha. fez um fervoroso discurso antiimperialista. foi pego na rua e levou uma surra. graças a um tio influente de Luiz Arthur. Umas duas semanas depois. entrevista individual. Quem passasse pela fase da entrevista conjunta iria a São Paulo fazer um curso. O escritor levantou-se. discursando. a Veja. mas. que começaria a circular no ano seguinte. Embora não fosse formado em Jornalismo. a revista Realidade. que incluía testes de conhecimento geral. colérica. publicou um anúncio convocando os interessados a fazer os testes para participar de uma revista nova. ninguém ficou preso. e o entrevistador parecia não acreditar em uma peça que ainda não havia sido encenada em São Paulo tivesse sido montada em Porto Alegre. Em dado momento. de pé. Em 1967. o jornalista perguntou a Caio sua opinião a respeito do grupo Abril. Irado. Vera notou um certo ar de desdém em seu rosto. conheceu Caio na entrevista conjunta. Em 1968. e aí então seriam definidos os nomes dos contratados. quando achou que já dava para voltar para casa.boletim de ocorrência. Vera nunca se esqueceu da figura magra. Caio participou do exaustivo processo de seleção. e que ele era contra a colonização cultural a que os Estados Unidos submetiam os outros países. sem se preocupar se aquilo iria acabar com suas chances de trabalhar na Veja. Era um texto sobre a recém-morta Marilyn Monroe. Quando perguntaram a ela qual fora a peça mais recente a que tinha assistido. O jornalista que entrevistava o grupo vinha de São Paulo. e parecia achar que Porto Alegre era uma província. Caio foi passar uns tempos com Luiz Arthur na casa dos pais dele. quando a revista começou . falou que a Abril era ligada ao grupo TimeLife. depois de ambos passarem por todas as etapas. de Arthur Miller. Vera Spolidoro. e. de conhecimento específico.

DOIS Grande demais. perdeu ainda mais peso. das oito da manhã às seis da tarde. as árvores? Onde. vindo dos rincões gaúchos para trabalhar na primeira equipe da revista Veja. fosse o que fosse.a funcionar e os profissionais que iriam trabalhar na revista já estavam definidos. E o asfalto. ídolo de Caio. Alguma coisa aconteceu no coração de Caio Fernando Abreu quando ele se mudou para São Paulo. de desamparo. Caio diria que toda sua literatura seria fruto do choque. Ficava nervoso. asfalto por todos os lados. sem coragem de sair de casa. e. Caio estava entre eles. desafinada. Caio gramou durante os meses em que trabalhou na Veja. feia. Anos mais tarde. como o fora também para Caetano Veloso. com gripe. longe. Ele. E ainda por cima aquela voz. os bichos? Tudo era cinza. O escritor. de adolescente. chegou a ficar doente. irritado. São Paulo era grande demais. Era uma de suas fases depressivas: durante a vida toda. Demoraria muito para o jovem escritor entender a poesia concreta das esquinas de São Paulo. longe. de 1982. os amigos. dava até pra ficar na dúvida: São Paulo tinha céu? E a velocidade de tudo. a quem ele dedicaria sua obra de maior sucesso — o livro Morangos mofados. não se adaptou de início à cidade grande. A voz de criança. não parecia agradável. o humor de Caio oscilaria entre picos de euforia e . Sem costume de acordar cedo e batalhar de sol a sol. vertigem. uma sensação de desprotegimento. Nem mesmo o céu escapava do cinza. Trabalho de segunda a sexta. trabalhar o dia todo. Onde. Os parentes. Um difícil começo. que sempre fora muito magro. do contraste entre a vida interiorana em Santiago do Boqueirão e a vertigem causada pela velocidade da capital paulista. fina. Era preciso trabalhar.

como a magreza excessiva. . em conseqüência. caríssimo. A voz só fazia piorar a timidez do escritor. Com vinte anos de idade. Ele costumava dizer sobre o choque que foi trabalhar como jornalista em São Paulo: — Me estupraram até o último hímen. havia a voz. Só tardezinha saía de casa. odiosa. pequeno monstro. até monstruosos. A voz de Caio. infantil. Então caminhava quilômetros na beira do mar. mais a vergonha da voz. A timidez. pêlos nos lugares errados. Caio não tinha condições de bancar. E. eu queria me esconder de todos. que dissera que suas cordas vocais estavam viciadas no falar infantil. e aumentar seu isolamento e sua aversão às sociabilidades. para piorar tudo. junto com outras preocupações típicas da adolescência. o Pai dizia — estavam voltando da praia. não se desenvolvera. E há o garoto de Pequeno monstro. Esganiçada.fundos-do-poço de melancolias insuportáveis. me rolava na areia. nessa época: parecia arrogante. ele podia se recusar a ver qualquer pessoa ou mesmo a sair do quarto por dias seguidos. Muita gente tinha receio dele. uma voz que desafinava igual de pato. pelo menos à primeira vista. de Limite branco. ninguém te quer. O tratamento. que anseia poder olhar-se no espelho um dia sem ter vontade de desviar os olhos. Consultara um médico. Há o personagem Maurício. vezenquando chorava e repetia: pequeno monstro. Nessas ocasiões. aliadas a um certo senso de superioridade comum entre jovens intelectuais fazia de Caio uma figura não muito simpática. na hora que as empregadas domésticas — as dosas. a voz de Caio era um tormento para ele. inadequados. distante. conto de Os dragões não conhecem o paraíso: Pernas e braços demais. pode ter inspirado alguns contos do escritor em que os personagens se sentem feios. ele tinha vergonha de falar com as pessoas. irascível.

não há como escapar: Eu não sei.Se internamente Caio tinha problemas. Seria muito fácil. Estou esperando. lá. Muitos deles de forma simbólica. os militares haviam instaurado a ditadura no país. É um barulho leve. em 1964. tudo sobre o qual não se tem controle. leve. representa tudo que aprisiona. a rigidez e o sufocamento agravados quando não se pode sequer mencionar o assunto. Tenho tanto medo. . Um de seus livros chegaria. nós vamos ser todos esmagados por ele. e a censura aos organismos de mídia. como metáfora e como objeto em si. metafórica. cansei de escrever. A paixão pela figura do ovo. no exterior as coisas não estavam melhores. a casca de um ovo é tão frágil. Caio herdou de Clarice Lispector. cifrada. Caio viria a escrever vários contos sobre o clima asfixiante instaurado pela ditadura. veio a repressão. Que estamos todos dentro dele. como em O ovo. Estou ouvindo o rumor do ovo se aproximando cada vez mais. Não sei por que os homens não se armam de paus e pedras para furar a parede. cada vez mais. O ovo. mesmo. Depois da descoberta do que o aprisiona. Com eles. conto de Inventário do irremediável. a vela está quase apagando. Quase como um suspiro de gente cansada. Vou deitar. Cinco anos antes. Mas é um ovo que diminui cada vez mais. que aumentou em 1968. Tão perto que ninguém vai-me ouvir se eu gritar. a ter o objeto no título: O ovo apunhalado. Está muito perto. Só ontem cheguei à conclusão de que se trata de um enorme ovo. com o decreto do Ato Institucional n°5 (AI-5).

Decidiu. pela celebração. Até porque. engajada. e que a revolução era individual. sem levar o credo político às últimas conseqüências. mas sempre sem se comprometer demais. foi símbolo das mudanças culturais por que o Brasil passava na década de 60. de comportamento. Em tempos de AI-5. como Gil e Caetano — que ele sempre fez questão de afirmar que adorava — que de qualquer outro movimento cultural esquerdista do país. mesmo participações ocasionais eram suficientes para que o serviço de segurança do regime marcasse e perseguisse uma pessoa. morando em Porto Alegre sem os pais. e foi se esconder na Casa do Sol. ambígua e debochada de protestar. belíssimas. Sua tomada de consciência se dá em um período em que já existia o Tropicalismo. e fez parte da turma que achava que "festa" e "subversão" podiam estar ligadas. Caio chegou a freqüentar passeatas e reuniões de oposição à ditadura. sua influência era muito mais dos tropicalistas. dizendo que oficiais da DOPS estavam procurando por ele. contudo. . Ele ia mais aos encontros contra a ditadura pela festa que se fazia. — Para ver Norma Bengell vestida de Paço Rabanne — diria anos mais tarde. Além disso. então. e aquilo já não era pouco: Bengell foi uma atriz de intermináveis pernas. na época da poesia populista. pela oportunidade de ver pessoas. Ele preferia a maneira irônica. em Campinas. de se engajar. que surge no mesmo ano em que ingressa na universidade. Essa forma mais leve combinava com seu temperamento: Caio nunca foi muito de assumir compromissos. Politicamente.Novato em São Paulo. Caio ainda era um adolescente. cursando o ginásio. o notório senso de humor — herdado do pai. Zaél — se encaixava perfeitamente com a proposta dos tropicalistas. sítio da amiga Hilda Hilst. Com Caio não foi diferente: ele afirmou ter recebido um telefonema da redação da Veja. levantar bandeiras de qualquer tipo ou causa. sumir por uns tempos.

a onze quilômetros de Campinas. mas com o tempo ganhou intimidade e ia direto para a Casa do Sol. Caio conhecera Hilda por intermédio de Ana Lúcia Vasconcelos. decidiu abandonar a agitada capital paulista e se isolar no interior para escrever. dramaturga e jornalista. A revista vende pouco. enviada da outra casa de Hilda Hilst. em 2004. Aos 33 anos de idade. inclusive ele mesmo. de Nikos Kazantzakis. Ana escreveria um livro sobre ela).Em carta aos pais. Hilda. e de fotografias de escritores espalhadas pelas paredes. Hilda. Ao ler Carta a El Greco. que defende a idéia de que para entender a sociedade é preciso afastar-se dela. onde a escritora morava. em 2005. os anunciantes não querem saber de comprar espaço. tinha abandonado uma movimentada vida social para ir morar na fazenda que pertencera à sua mãe. março de 1969. Quando souberam disso. cinema. de livros. e ela acabou levando todo mundo para conhecer a Casa do Sol. . Ana Lúcia e Nello Pedra Gândara eram os grandes amigos de Caio na redação. shows. com o objetivo único de construir uma obra literária. que namorara Vinicius de Moraes e fora cortejada por Carlos Drummond de Andrade. Na Fazenda São José. ele conta história diferente. Uma vez foram juntos a uma palestra de Léo Gilson Ribeiro sobre crítica literária. Para a editora inteira não fechar. sua colega na primeira equipe da Veja. Caio voltaria muitas e muitas vezes. Ela nascera em Campinas. teria sido necessário demitir bastante gente. ficaria hospedado na casa de Ana. Ana perguntou a Léo o que achava de Hilda. que teria perambulado quase um mês pela cidade atrás de oportunidades sem conseguir nada. e as duas tinham se tornado muito amigas (décadas depois. atriz. Nas primeiras. Diz que Veja está dando prejuízos enormes. Teria ido para a casa de Hilda por não ter conseguido emprego. Caio. onde viveria até a morte. na companhia de seus noventa cachorros. Hilda construiria a Casa do Sol. muitos livros. iam a teatro. uma das mulheres mais bonitas de seu tempo. Nello e Léo ficaram entusiasmados: pediram a Ana que os apresentasse.

que ele teve que se proibir de ler Clarice. seus semblantes estão agitados. Bedecilda. naquela região do interior paulista.além das fotos do pai. Algumas das árvores que circundam a Casa do Sol têm mais de cem anos: figueiras. que ajuda a amenizar o calor que faz. e nada mais havia por fazer na literatura. durante a pequena temporada que passou na Casa do Sol. quando ele vai para a Casa do Sol. revisá-los. Tinha já alguns contos escritos: faltava agora organizá-los. por temporadas inteiras. com o escultor Dante Casarini. Ali o casal recebia os amigos. A coisa chegou a um ponto. lendo-a. E foi isso que fez. um bom escritor. do conhecimento e do talento dela. pois. republicado depois como Inventário do irremediável. na época a escritora favorita de Caio. E. . No alto. Vira-latas. em sua maioria. quase uma obsessão. o calor os deixa assim. desanimava. tudo que pudesse. em 1966. irremediavelmente influenciado por Clarice Lispector. em Santiago. por imposição da mãe dela. muito amedrontado também. como Caio. entusiasmado por ser hóspede daquela que ele considera uma das grandes escritoras do país e. na verdade. a sensação era de que tudo já estava escrito. como dizia. palmeiras. que ficavam. às vezes. de vez em quando. Queria aprender com Hilda tudo que pudesse. por quem sempre foi obcecada. para ser. Hilda e Dante já estão oficialmente casados. fazer daquela massa informe uma obra coerente. suas copas entrelaçadas fazem uma sombra boa. ele também. inquietos. exatamente por isso. quase sempre. Inseguro. a centenas de quilômetros dali — é um rapaz tímido. Hilda passou a viver. só lia os livros dela escondido de si mesmo. Dali sairia com um livro praticamente pronto: o Inventário do irremediável. Em 1968. Deprimia-se. calado. Na Casa do Sol. dracenas. O Caio que entra na propriedade — imponente e tranqüila como a casa grande e antiga em que morou um dia. O silêncio pesado é quebrado somente pelo latido das dezenas de cães que moram no sítio. queria sugar dela.

tudo que dizia respeito ao texto literário. Caio. em parte. Teorizava bastante a respeito dos assuntos.Enquanto inventariava seus contos irremediáveis. Não era só o divino que Caio discutia com Hilda. / Ching. além das aparências. nos anos 80 e 90. maravilhado. O inefável. e isso explica. fosse na forma. Caio funcionava também como uma espécie de secretário de Hilda: ela escrevia. sua precocidade na literatura. de minúcias como pontuação ao uso de certas palavras. o que fosse. até hoje dá entrevistas explicando do que se trata. fosse na temática. quiromancia. candomblé. No resto do tempo. Falavam muito sobre literatura. é claro. Procurava. era um rapaz espiritualizado: acreditava em astrologia. estudavam juntos o movimento dos astros. jamais se esqueceu da teoria. a influência de Hilda foi. Uma de suas teorias. nos anos 70. com nenhum desses credos. disciplina. Caio era capaz de discutir problemas de texto por horas a fio. De Deus. Não se comprometia. lapidados. sempre burilados. Ela. reescritos. Gostava de trabalhar a língua. ritmo. fundamental. Caio a explicaria ao escritor Júlio César Monteiro Martins. O escritor discorria sobre o assunto sempre que encontrava interlocutores. também. que. coisas do tipo. sempre. com menos de 20 anos de idade. era a dos metâmeros. inovar: fosse na estrutura. O termo vem da biologia: . Numa viagem ao sítio de Hilda. como se nota em seus textos. revisou e reescreveu a maior parte de sua obra. a literatura de Hilda foi sempre uma busca do inefável. Nessa relação com o divino. sobre o processo de criar. flertava com as várias filosofias. Tanto que. estudava com afinco algumas delas e inclusive as utilizava na arquitetura de seus textos. que dizia ter visto anjos. paciência ou vontade para tanto. Circulava pelas várias crenças. ter escrito e publicado ainda jovem. ele datilografava. conversado com os mortos e recebido em seu sítio a visita de discos voadores. ela diria. por exemplo. como muita gente que viveu o sonho hippie. não tinha responsabilidade. ajudou Caio a olhar o mundo buscando sempre algo mais.

essa caminhada. enfim. E mesmo sem querer. de um conto ou de um romance. ampliá-lo. simplesmente. espio sempre a outra rua por trás da igreja. anotações soltas sobre ambiente. mas sem ele agora — uma tarde. penso se não deveria retomá-la — essa rua. onde nem mora mais. As sombras. ou tênia. publicar uma coletânea desses metâmeros. Ele seleciona dois esboços que lhe parecem melhores e introduz sua teoria aos leitores. O texto permaneceria em estado de latência literária. uma espécie de verme. Esse anel contém informações sobre o verme inteiro. . trama. depois voltei caminhando pela rua cheia de árvores tão altas que suas copas se encontram e se misturam no alto. contemplar a sacada daquele décimo andar onde costumávamos nos debruçar abraçados para olhar aquela rua lá embaixo sendo aos poucos coberta pelas sombras da tarde furando a copatúnel das árvores. metâmero era um esboço. noite ou manhã quaisquer para refazer o percurso inverso até a casa dele. irregular. ele virá a se multiplicar e formar um animal completo. se quisesse. estilo. O primeiro deles se chama A perda e foi escrito em 1985: Quando passo às vezes por aquela esquina. Na literatura. se uma pessoa come carne contaminada com um cisticercó. como um túnel redondo. sem perceber claro o que sinto. Quando passo por lá assim rapidamente. Ou então. formar um conto completo ou um romance. E parado naquela esquina feito espião. numa tarde como a de ontem ou outras iguais destes tantos meses passados. e o escritor poderia retomá-lo um dia e. As sombras que crescem devagar sobre o asfalto quente do verão passado. lembro daquela tarde em que fui visitá-lo pela última vez. que é o que Caio viria a fazer em Ovelhas negras. que continha informações a respeito dos personagens.metâmero é um anel da solitária. a pensar coisas que nem lembro mais. um desses anéis.

discutido muita literatura e organizado o material de seu primeiro livro de contos. a faculdade de Filosofia. discos voadores. teria preferido ficar em Santiago. E o melhor: não ter que levantar cedo para trabalhar. a faculdade de Letras esperando por ele. sem porralouquismos também. Ela mesma cursaria. a volta para casa e a intenção de retornar à universidade. calmas. De lá. onde era alguém de posição. o sotaque familiar: o "tu". Não há. ele poderia voltar e tentar viver em São Paulo de novo. Caio achou que era hora de voltar a Porto Alegre. Caio acompanhou Hilda e Dante à praia. quando Nair insistiu em ir. um OVNI. a Hilda. sóbrios. não conseguira emprego em outros lugares. supostamente. e havia. os morros. de lá ter visto. O quarto de Caio é cor-de-rosa. Decisão tomada.Depois de passar algum tempo no sítio de Hilda. Não trabalhava mais na Abril. para que os outros filhos também pudessem estudar com facilidade. já militar reformado. o pai lê romances de Norman Mailer. a idéia de voltar para a faculdade. mas os argumentos da esposa foram mais fortes. escreveu aos pais comunicando a saída da Abril. Era uma opção. era a Casa da Lua. Caio mantém sua decisão de escrever enquanto está na casa dos pais. nem sair de casa para comer. sem loucuras. que ele só abandonara pela perspectiva de integrar a primeira equipe de jornalistas de uma nova revista. . sequer. o verde das árvores. Conversou com Hilda. os irmãos pequenos vêem televisão na sala. então. Zaél. quando estivesse de diploma na mão. Ele amou Porto Alegre em tudo que ela era diferente de São Paulo: sem asfalto. que por enquanto ainda não estava bem das pernas. Para Caio. mentora literária e espiritual. em Massaguaçu. afinal. por carta. ela concordou que o melhor seria voltar para a casa dos pais. os móveis são convencionais. voltar a Porto Alegre foi uma beleza: o céu azul. o ambiente convida a escrever — ele conta. porém. A família de Caio estava morando em Porto Alegre desde 1969. As pessoas doces. segundo refúgio da escritora. A mãe faz pós-graduação em Filosofia. sua principal interlocutora.

ele era só um rapaz vindo do Boqueirão. com problemas de relacionamento com os colegas . Maria Alice Barroso. Mas isso não era. a oportunidade era muito boa para ser desperdiçada. A capital gaúcha podia ser bonita o quanto quisesse. nem os amigos. a língua ferina de Caio não poupava ninguém. Caio faz uma visita à cidade sempre maravilhosa. principalmente em Porto Alegre. principalmente. da mesma linhagem literária de Virginia Woolf e Clarice. E. apenas quatro meses depois de ter voltado para a casa dos pais. Caio queria estar no olho do furacão.morre nas dificuldades burocráticas que há para reabrir a matrícula. O apartamento de Maria Helena fica em Ipanema. falando de personagens mineiros. Walmir Ayala. E também. fora um escritor que se rebelara contra a tradição do romance regionalista. uma afeição por ela. ele escrevera de forma intimista. Assim. Caio se comove: é o quarto que fora de Lúcio Cardoso. Caio aceitou o convite de Maria Helena. introspectiva. no Brasil de 1969. Como ele foi parar ali? — se pergunta. ou a admirasse como escritora. Lá estavam os escritores que Caio queria conhecer: Clarice Lispector. mas não de sua glória. irmã do já então falecido escritor Lúcio Cardoso. de modo algum. como alguns críticos o chamam. verdes árvores e céus azuis inigualáveis. mesmo achando-a um pouco "fora da realidade" e "liriguelha demais". com cuja obra a de Caio tinha alguns pontos de ligação — Lúcio. verdadeiramente. na inabilidade do escritor em se adaptar a um currículo. Havia sido convidado algumas vezes por Maria Helena Cardoso. Além do que. onde as coisas aconteciam. No auge desse estilo de texto. e o fato de ele achar uma tolice as cartas em que Maria Helena falava dos "passarinhos que cantam nos galhos das árvores" e das "sombras de outono" não significa que ele não nutrisse. cheia de cores. o Dostoiévski mineiro. e sim da sua degradação. Nélida Piñon. a horários fixos: ele não consegue parar quieto. Há pouco tempo. sim. Quando vê o quarto onde ficará hospedado. o Rio de Janeiro era um lugar onde as coisas aconteciam. suficiente. da degradação de suas tradições.

o Boroca. modesta. dizem que tenho olhos lindos!). povoada por pessoas bondosas e simpáticas. Caio viaja novamente para Campinas. ele é inteligente. não aceita ser chamada de uma das melhores escritoras do país — ao lado de Ia Lispector. Toda essa celebração em torno de Caio o deixa feliz. e ninguém suspeitar dos traumas. acho muita graça. teatros. e além disso é um dos críticos de literatura mais respeitados do Rio e conhece todo mundo. prometem arranjar editoras que publiquem seus livros. " Cerca de um mês depois de sua chegada ao Rio. enquanto Maria Helena assiste a uma novela na sala. muita gente ao seu redor. me acham parecido com Cristo. querem pintar retratos. O príncipe sapo. que eu era tímido e agressivo. estão entusiasmados com 0 trabalho dele. dos choros. Acho graça. "As vezes que tentei morrer foi por não suportar a maravilha de estar vivo e de ter escolhido ser eu mesmo e fazer aquilo que gosto — mesmo que muitos não compreendam ou não aceitem. orgulhoso. primo do pai de Caio. quando ele tinha 16 anos. Agora. Há também Carmen da Silva. "— escreve aos pais. em alguns minutos. sendo tratado a pão-de-ló por uma velhinha pequenina e ágil que. autor de Crônica da casa assassinada. E ela não é a única a tratá-lo bem: há Francisco Bittencourt. a noite o espera: bares. . porque me achava horroroso com aquele bigodinho precoce (hoje. dos medos. cinemas. belíssima. "E as pessoas que passam por mim não saberão jamais que nasci em Santiago do Boqueirão e um dia fui estudar em Porto Alegre. das quedas. Francisco e Carmen mostram os contos de Caio para outras pessoas. em uma cidade verdadeiramente esplendorosa. ele estava no quarto de um dos maiores escritores brasileiros. Tão estranho carregar uma vida inteira no corpo.e que crescera rápido demais. na revista Claudia. uma flor de pessoa. Caio vai sair. sério. no dia 21 de agosto. a editora que publicara o primeiro conto de Caio. junto com Hilda e Dante.

a admiração por Hilda beirava a reverência. Havia uma figueira no terreno da chácara. O ator Gilberto Gawronski. resolvera mudar de repente. Além disso. duravam um ou dois meses. no final de outubro de 1969. e em seguida Caio seguia de volta para Porto Alegre. marcante e inexplicável. envergonhado de falar com os outros. A voz nova de Caio era grave. sairia aquele vozeirão. A voz de Caio. Na verdade. sua hora chegou. A partir daquele momento. Ao longo de sua vida. pensando em melhorar pouco a pouco. vindo não se sabe de que parte do corpo magricela do escritor. Hilda teria dito ao escritor: "Cainho. ou para o Rio. do nada. ou para onde fosse. sempre que ele abrisse a boca. muito cheia de personalidade. assim como teimara até ali em ser uma voz normal. Caio mencionaria sua amizade com Hilda. charmosa. que conheceria Caio na década de 1980. como as outras. a presença de Caio na casa era muito intensa. O momento era de inquietude. ao encenar uma de suas peças. . com maiúsculas. Chegava sempre o momento em que a escritora tinha que chegar para ele e dizer: Caio. tinha. embora visitasse bastante a Casa do Sol. e com ele pôs-se a fazer exercícios e a gravar a voz. melhorado. Só que a voz. sua amizade. exigente. precisa ficar de pé para ouvir você ou posso ficar sentado mesmo? Ao longo dos anos. Caio e Hilda contariam a história da figueira para explicar a mudança da voz. Suas temporadas em Campinas eram intermitentes. bonita. brincaria com a situação: — Meu Deus. E então ele ia embora. A história começou quando ele ganhou um gravador de Hilda e Dante. de descobertas. uma notícia maravilhosa. e mudara não para ser uma voz comum. A partir dali. uma Boa Notícia. dizendo que chegara a morar um ano em sua casa. tinha outros desígnios. Caio não chegou a ficar tanto tempo lá.que tinham ido passar uma temporada na capital fluminense. porém. ele deixaria de ser o jovem tímido. finalmente. aconteceu uma coisa misteriosa e impressionante. e passaria a se assumir como adulto. de viagens. Mas ele ainda estava na Casa do Sol quando.

fala com ela. que a voz não mudou de repente coisa nenhuma. teria pegado um livro de Fernando Pessoa e começado a ler em voz alta. na Casa do Sol. e ela resolve".essa figueira é mágica. Era uma noite de lua cheia. Três dias depois. aos vinte e um. Quando a gente tem um problema muito grave. e considerava a hipótese de ficar por ali. amigo de Hilda que até hoje vive na Casa do Sol. e para ganhar um concurso literário de que estava participando. fez amizade. o que importa é que. Caio teria se sentado na área da casa e olhado a Lua. belíssima. ele estava de volta a Porto . Em dezembro. Os três pedidos acabariam realizados: Caio voltou para o Rio. Então ele teria abraçado a figueira e pedido para a voz mudar. mas Caio preferia acreditar na versão romântica e mágica da figueira. De todas as versões. Caio teve uma voz infantil. onde estava decidido a morar. a voz mudou. mudou aos poucos. mas para Caio deixar de ser tímido. Há até quem diga. Em um texto. em carta aos pais logo que a mudança se opera. Há outras versões: a de que ele teria feito três pedidos à figueira: para que a voz melhorasse. O escritor José Mora Fuentes. até os vinte anos. trabalhando com artesanato. decidido a se estabelecer por lá. então ele teria sentido que podia fazer três pedidos que eles se realizariam. porém. a voz teria mudado. já de voz nova e sensual. conseguir ir logo para a Europa. os empregos formais não apareciam. Os outros pedidos — tanto o prêmio literário quanto a viagem ao Rio — também logo se realizaram. como o irmão do escritor. esganiçada. obra a que dera forma final ali mesmo. Hilda afirma que o pedido não era para a mudança de voz. ela se tornou grave e lânguida e bela. estava lá. e lá soube que ganhara o Prêmio Fernando Chinaglia por Inventário do irremediável. Felipe Abreu. conheceu alguns hippies em uma praça de Ipanema. para voltar logo ao Rio. Tanto ela quanto Caio diriam que o terceiro pedido era. Mas a versão mais próxima da realidade é também de Caio. Caio voltou ao Rio. De volta ao quarto. em vez de voltar ao Rio. no terceiro verso.

Desde criança.Alegre. somada à que lhe era própria e mais uma espécie de certeza de que não havia nada de errado em sua condição. Entre algumas das que participou no período. pairava. assim como não concluíra o de Letras. A carta não era das mais fáceis de escrever: era a primeira depois de uma briga que tivera na fazenda com Dante. o papel era de Batman. "Decidi aceitar meu ser nômade. Logo depois. já na década de 80. que era exigente demais com os textos a serem encenados. Ali. e sabe-se lá o que este aprontara para causar tamanha reação. depois de rodar o país e parar de novo em Porto Alegre. em 1973. sobre o moralismo e a decadência da sociedade. E por aí afora. Alguns amigos leais dizem que Caio era bom ator. Caio ainda acredita que pode . Em Serafim. quando sua participação no teatro se restringia a escrever as peças. quando. por exemplo. Mas estamos em 1970. não se abalou demais: com a arrogância própria da idade. de inventar e encenar historinhas com seus bonequinhos de papel machê. escreveria a Hilda. ele se sentia acima dos preconceitos burgueses. Caio gostava de teatro. Caio. que nada tinham de trágicas ou de rodrigueanas. dizendo que era péssimo. Caio passaria todo o ano de 1970 na capital gaúcha. em The black grove. ele chegou mesmo a visitar Caio e sua família em Porto Alegre. Só queria saber de tragédias gregas e de Nelson Rodrigues. Descobriu. e o assunto da briga foi deixado de lado. claro. o resto achava descartável. até segunda ordem". ele podia desenvolver mais seriamente essa paixão. vestira-se de mulher. A coisa foi feia: as palavras "veado" e "doente" foram das mais leves que o escultor usou para caracterizar Caio no meio do entrevero. superior. Mas se divertiu aprendendo algumas coisas. Não chegou a terminar o curso. estavam Serafim fim fim. mas ele mesmo costumava brincar. Isso mudaria alguns anos depois. prestou exames para o curso de Direção Teatral. no Centro de Artes Dramáticas (CAD). anos depois. tamanha agressividade. no entanto. The black grove e The last moment. a amizade com Dante foi retomada. agora. Caio participou como ator de algumas peças.

em 1968. foram muitos os convites para entrevistas. o que causou o maior rebuliço. Mas embora Inventário do irremediável tenha sido o primeiro livro do escritor a ser publicado." A publicação do primeiro livro.completar o curso de Direção Teatral e mora com os pais em Porto Alegre. Caio manifesta sua carência. em vez de deixarem o escritor feliz. Menção Honrosa no Prêmio José Lins do Rego. Os cavalos brancos de Napoleão. Nesse momento. E houve também um livro de contos chamado Três tempos mortos. embora tivesse ganhado. O livro é dividido em quatro partes. orgiásticas. e reafirma sua determinação de ser escritor. Mas essas experiências. Em alguns contos do Inventário. regadas a maconha e drogas mais pesadas. algo que faz com que a pessoa mude. Como o escritor ainda tateasse seus próprios caminhos. deprimiam-no ainda mais. a morte é quase uma libertação. era um passo no sentido de Caio se firmar como escritor. as bacanais faziam Caio se sentir um lixo. desbundou por completo: experimentou mescalina. como no conto que abre o livro. Nesse conto. começou a participar de festas malucas. é no Inventário que a influência de Clarice Lispector se mostra maior e mais clara. A história da mescalina foi descoberta pelos pais. A única área em que as coisas iam bem era a profissional: Inventário do irremediável foi lançado com estardalhaço. em carta a Hilda Hilst: "Queria tanto que alguém me amasse por alguma coisa que eu escrevi. Assim como ela. repense sua vida. badalada ou não. não fora o primeiro a ser escrito: limite branco veio antes. inclusive a do homossexualismo. Caio trabalha muitas vezes com o conceito de epifania: uma revelação mágica no meio do cotidiano. essas revelações acabam por trazer a morte dos protagonistas. que ficaria para sempre inédito. no fim da noite. e a descoberta que os cavalos representam pode ser lida como qualquer descoberta. ou quatro . e um escritor amado pela literatura que fazia.

Ele passara um ano ruim. Há também um quinto inventário. Escreveu uma exultante e empolgada carta a Hilda. é marcada por sensações. Um fino fio de fumaça sobe aos poucos indeciso. Junto com a carta. e a sua personalidade. de bem consigo mesmo. Dobra os ombros. e. composto de um único conto: o Inventário do irremediável. Quando o jornalista . o cigarro esquecido queima. Personalidade magnética. No cinzeiro. com a novela Lázaro dedicada a ele. que há muito não lhe escrevia. Nenhum pensamento. Na mesma noite. de gestos incompletos. do amor e do espanto. a soprar a favor de Caio. cheio de carências e inseguranças. Os braços se cruzam. Caio não cabia em si de tanta satisfação e orgulho. Deu certo: depois de refletir muito sobre a vida. Não chora sequer. Sem compreender. Perto do coração selvagem. costas curvas. Joga a lâmina pela janela. o texto de Caio. Clarice fascinara leitores e críticos desde o primeiro livro. adensando o ar que se enche de olhos. Moderna. A lâmina vibra entre os dedos. vendo apenas para dentro. Sua literatura diferente. bem. a cabeça afunda entre as pernas. No fim do ano. Caio conheceu Clarice Lispector. A atenção fixa em si mesma. palavras não formuladas. um exemplar de Fluxo-floema. temas recorrentes na obra do escritor. enlaçam os joelhos. corpo nu. de mãos. como se chorasse.inventários: da morte. E não corta. a ação ocorre sempre na cabeça dos personagens. e do livro. Por continuar. estranha. como que para coroar esse novo estado de espírito. a maré começa. O final do conto. misteriosa. da solidão. ele chegou em casa e encontrou uma carta de Hilda. E a última frase define. mais uma vez. porém. traz uma esperança: a escolha pela vida. vaga entre a fumaça e tomba. vozes veladas. resolveu ir para a praia com alguns amigos. Está sentado na cama. vai-se curvando para si mesmo. sobre sua relação com os amigos. aconteceu algo que o faria retomar a carta e escrever mais um pouco. voltou recuperado. Só espera. Para espantar a tristeza. Como um cego. revolucionou a linguagem. pés descalços.

Caio vai embora meio aparvalhado e. escreve a Hilda contando o episódio. E a gente sente que ela não espera mais nada de nada nem de ninguém. Ê lenta e quase não fala. toda de preto. Ele fica. Quando ia saindo. de uma sabedoria e de uma amargura impressionantes. Vi uma mulher linda e estranhíssima num canto. De repente ela pára. Era ela. fora de dúvida. absolutamente incrível. com um clima de tristeza e santidade ao mesmo tempo. Tem olhos hipnóticos. de Hilda. Ela lhe dá seu telefone. lógico. entregou um exemplar de seu livro recém-publicado para ela. Otto pediu a ele que tomasse cuidado com Clarice. por acaso." .. Engole o jantar que lhe oferecem e sai chispando feito um foguete para a televisão." Conversam mais. " Caio chegou perto. falou. mas de bruxaria". nesse estado de êxtase e perturbação. "Não se trata de literatura. sai para o corredor. antes que vá muito longe. Caio fica nervoso. Falam de Nélida Piñon. um presságio. à noite. Caio aproveita o interesse dela e lhe entrega um exemplar sobres-salente do Fluxo-floema que. ele tinha na bolsa. porém. "Cheguei lá timidíssimo. um escritor que estava por ali decidiu apresentá-lo direito.José Castello perguntou a Otto Lara Resende sobre ela. parecido com Cristo. Pega o jornal para dar uma olhada. diz que acha ele muito bonito.. pede para ligar quando for ao Rio. conversam um pouco. quase diabólicos. que está sozinha e numa altura tal que ninguém jamais conseguiria alcançála. Clarice chega até a porta e chama: — Fica comigo. "Tive 33 orgasmos consecutivos. e lê que Clarice Lispector herselfestaria autografando seus livros em uma estação de TV.] Sinto que as coisas vão mudar radicalmente para mim — teu livro e Clarice Lispector num mesmo dia são. Caio termina de escrever para Hilda. "Ela é exatamente como os seus livros: transmite uma sensação estranha.[.

na utopia. ele é preso. é claro — e que certas coisas funcionam melhor na teoria. e falando bem o espanhol. Caio namora o realismo fantástico dos autores latino-americanos como Cortázar. em comunidade. ficção científica e elementos da cultura pop. Em 1971. Ele acredita que tudo pode dar certo. Garcia Márquez. tudo vai bem: Caio está feliz à beca com os novos textos que anda produzindo. Apanha da polícia e . bem de acordo com o sonho paz-e-amor da juventude da época. que o ser humano é egoísta — ele incluso. Com três garotas e um rapaz. Nascido na fronteira com a Argentina. a ditadura está em sua fase mais dura. obra que só viria a ser publicada em 1975. Flagrante falso de maconha. escreve textos fundindo o fantástico. Caio volta ao Rio. "Não sei se isso é auto-elogio. Caio aprecia autores como Ernesto Sábato. aluga uma tranqüila casa em Botafogo. às vezes. escreve a Hilda Hilst. que na prática. E. inclusive em livros." Nessa fase de sua escrita. A vida na comunidade não dá certo: ele e seus amigos se desentendem. Ricardo Piglia. só sai sob censura.Era o dia 29 de dezembro de 1970. Para piorar um pouco mais as coisas. e muito do material publicado. Várias histórias desse livro podem ser entendidas como crítica à sufocante situação por que o país passava na esfera política. que morar em comuna é a melhor maneira de se viver. ele decide tentar um modo de vida diferente. Quanto ao seu trabalho. Surgem assim alguns dos contos de O ovo apunhalado. ele sai da casa. mas acho que sou o único cara no Brasil que está fazendo literatura pop MESMO'. A estada no Rio é o começo do fim do sonho da contracultura para Caio. utilizando ao máximo as visões que tem em suas viagens — de LSD. O ano novo chegava. Começa a perceber que a individualidade. Carlos Fuentes. "Acho que finalmente achei a minha forma". mescalina ou chá de cogumelos —. cabelos longos e túnicas indianas compridas. é mais importante que a coletividade. em março. Totalmente imerso na cultura hippie.

carinho e amizade na casa de dois quase desconhecidos. pronto desde 1968. sai pela tangente. uma família. Dali a pouco. pelo menos na imaginação romântica de Caio. ele teria um carro do ano. Era o lançamento de Limite branco. ter filhos. ele pula fora. levou-a. intercede por ele. a coisa não vai pra frente: quando está com Verinha. ainda por cima. Chega mesmo a considerar a hipótese de se assentar. ele encontra abrigo. Vera tinha quatorze anos quando conheceu Caio. A comunidade do arco-íris. se divertindo e conversando e montando um clima apaixonado. forjada em plena década de 60. dono da editora em que ele trabalhava. de forma tão profunda. Ficaram amigos. Caio às vezes se torna esquivo. e foi por isso. seu trabalho. era tudo que importava. Entre a saída dele da comunidade e a volta envergonhada para Porto Alegre. na revista Manchete. para Porto Alegre. O que viria em seguida?. foi visitá-la no Rio algumas vezes. junto com a mãe e o irmão Henrique. em 1971. um apartamento com vista para o mar e estaria preocupado em pagar as prestações e a mensalidade da escola das crianças. escrevia-lhe cartas amorosas. Só de ida. Solto. mais que por benevolência. uma espécie de paixão entre os dois.só sai da prisão porque Adolpho Bloch. sua carreira. e até mais que isso: surgiu um clima. depois de horas com ela. casar. Caio gostou muito de Vera. No entanto. E esse quadro não combinava com a idéia da vida que um escritor devia levar. se afasta sem maiores explicações. Bloch queria distância de confusão. um lar. com direito a sonhos pequeno-burgueses de casamento. que já havia meio que definido que gostava de rapazes. em que havia uma boneca inspirada na garota. escreveu uma peça infantil. Mas Caio tem sorte. ficava assustado com a possibilidade de se envolver com uma garota e. Vinha sempre em primeiro lugar. primeiro romance do escritor. É a sexualidade em conflito: ele. ele pode ter pensado. Enfim. a única . nem tudo eram flores. E a vida de escritor. Caio é demitido. os irmãos Vera e Henrique Antoun. que o tirou da prisão e pagou a passagem de Caio para Porto Alegre.

Caio estava em uma de suas fases ruins. ouvir música e passear na beira do rio. tão distanciada. Assim. O ano de 1972 foi todo dedicado a essas experiências. em uma viagem a Itaqui. não queria sair de casa nem ver ninguém. mas. Pensava constantemente em suicídio. começou a procurar alguns amigos. no entanto. onde moravam seus avós. e fico sentindo falta do teu jeito lento de chegar pisando em nuvens. dessa vez. Caio ainda estava na fase de amor e empolgação pela garota. de mostrar um equilíbrio que não possuíam. Aí Caio passou a evitá-las de novo. Preferia ver um filme antigo. e não se arrepende de nada. Está reconciliado consigo mesmo. e lhe escreve: "Verinha-maravilha. Assustou-se. tudo muito parado. através da visão de paisagens antigas. deprimido. sempre azul. sem televisão.coisa à qual Caio foi sempre fiel durante a vida. . de fazer comentários espertos. não por incapacidade de contato. quase sempre clara como tem sido o ar verde-azulado desse verão. morena como uma princesa raptada por beduínos no deserto? Vezenquando baixa uma saudade. Pessoas sentadas na calçada. quando ainda morava com a comunidade hippie que montara naquele bairro. No entanto." De Porto Alegre. Caio escrevia a Vera contando de suas experiências com ácidos e demais drogas lisérgicas. Caio reencontrou-se. e sim por escolha. a relação com Vera não engrenou. gente que tinha evitado durante o período em que sentia só escuridão dentro de peito. ele voltou a ficar bem: ele sempre recuperava sua força através do contato com a terra de sua infância. olhando as estrelas. com o que chamaria de "vampirização" das pessoas: todo mundo só querendo saber de falar e falar. por onde anda você. sem carros. tão silenciosa? Em que nova galáxia posso te encontrar outra vez. No início de 1973. sem movimento. em Santa Teresa. Ele havia participado de algumas cerimônias de chá alucinógeno com ela. Em Porto Alegre. no entanto.

que o conhecia havia cerca de quatro anos e seria uma das melhores amigas de Caio até o fim. Caio escrevera o livro de contos O ovo apunhalado. [.como escreve a Vera: "Nada é errado. " Ou ainda: "Não sei muito. também não quero muito. Graça Medeiros. quando o erro faz parte de uma procura ou de um processo de conhecimento. Provar-lhes a atualidade da desacreditada palavra com a própria palavra. mas estou aprendendo a respirar o ar das montanhas. voltava de uma temporada na Europa e insistia que ele devia ir também: a atmosfera política e cultural no Brasil estava insuportável. Emoção esta que é vertida para uma linguagem que em alguns momentos atinge a rara plenitude próxima de um estado de graça. O conto Visita ganhou um prêmio do Instituto Estadual do Livro (IEL) em 1973. O prefácio. Caio começa a trabalhar no jornal Zero Hora como copidesque. por achar que nenhum dos outros trabalhos tinha nível.] Quando nos seminários de literatura os teóricos pedantes acabam por condenar a palavra. e diz: "Caio Fernando Abreu assume a emoção.. de loucura. Caio planejava sua viagem e continuava a escrever. a influência do realismo mágico dos latinos se faz notar em alguns textos. . Além disso. assinado por Lygia Fagundes Telles. também não tenho muito. como no próprio conto-título.. em carta a Hilda Hilst. Lygia o chama de "escritor da paixão". Aliada a uma imaginação cintilante". quando a serviço de uma técnica rica de recursos. gostando de viver. Essa vitória foi motivo de muito orgulho para Caio: segundo ele conta. mas a comissão julgadora atribuiu o prêmio apenas a ele. O ovo é um livro que fala de violência. toda a intelectualidade de Porto Alegre estava concorrendo. com o intuito de juntar dinheiro para viajar. Entre as horas de trabalho que passava no jornal. futura astróloga." Assim feliz. minha vontade simplesmente é mostrar-lhes um livro como este. já liberto — de certa forma — da influência de Clarice Lispector. mostra o quanto o escritor já era estimado e admirado nos altos meios literários do país.

discos. Juarez Fonseca. porém as pessoas têm medo do novo. O que os seres dizem é um atestado da maneira como Caio levava sua vida. Sandra Laporta. mas vencem no final. não chegou a conhecer Caio: ele e Magliani formavam uma dupla quase hermética. Falavam mal da ditadura. enquanto Caio cursava — ou tentava cursar — Letras. Jaime Gargioni. Conversavam sobre os assuntos da época: filmes. Oferecem para quem quiser compreendê-los. Em um mundo comum e medíocre. fumavam maconha. Juarez Fonseca lembra de ouvi-lo comentar: — Todo homem com mais de trinta anos é um canalha. uma bela prosa poética. onde Juarez já trabalhava. sofrem. Juarez . no entanto. Apenas uns poucos escolhidos se salvam. só que seu curso era outro. Os dois se conheceram quando Caio. e um dos poucos a conversar com eles de vez em quando era João Gilberto Noll. alguém de fora surge e promete a salvação. iam a bares. Caio era muito crítico. O que eles deixaram foram estes três postulados: importa é a luz. No conto Eles. um gay espalhafatoso de quem Caio gostava muito. Nessa época. muito ácido. a cinza é mais digna que a matéria intacta e a salvação pertence apenas àqueles que aceitarem a loucura escorrendo em suas veias. por exemplo. Na faculdade. Augusto Rigo.Alguns contos de Caio falam da esperança de redenção. Juarez Fonseca freqüentara a universidade na mesma época de Caio. livros. Havia também Lucrécia. já de volta a Porto Alegre depois de suas andanças por São Paulo e Rio. Juarez fazia Jornalismo. Juarez era da equipe do jornal do centro acadêmico. e Graça Medeiros. os salvadores. a turma de Caio em Porto Alegre era composta por Maria Lídia Magliani. uma dupla estranha. Nessa época. As pessoas saíam juntas. mesmo quando consome. E os mártires. quem aparece para mudar a rotina são seres de outro mundo. foi contratado pelo Zero Hora. O coruja. a mudança.

e cabelos pretos e lisos de índio. Augusto e Ana. Caio está exultante. Caio. era um só: Europa. como os dela. Chico Buarque também. Chico na Itália. além de se encontrarem com os irmãos. que haviam decidido fazer o percurso . E saíram. na cabeça dos brasileiros loucos para saltar fora. Caio. A questão era só escolher por onde começar. Augusto Rigo. Caio começou a colaborar nos projetos de que Juarez fazia parte. mais ou menos na época em que a temporada de trabalho começaria. casados desde 1971. A amiga Graça Medeiros já fora e voltara. Sandra na Suécia —. No aeroporto do Galeão. como diagramadora.tinha se tornado amigo de Magliani. o clima era de paranóia. em maio. " Antes de partir. Veja — na época ainda considerada inovadora — e. Era a efervescência da imprensa nanica. principalmente. a efervescência de uma geração que não agüentava a ditadura. "GRRRR: vontade de comer vocês dois com molho de chocolate. Caio escreveria aos dois. que também trabalhava no jornal. como o jornal Exemplar. como os dele. Sônia Azambuja. embora um vidro os separasse. Parecia que no Brasil não havia lugar para gente assim. pela revista Bondinbo. influenciado por O Pasquim. Os ídolos Caetano Veloso e Gilberto Gil já tinham ido em 1969. Sandra Laporta. Do avião. e se encontrariam todos na Suécia. estava lá. que já estava chegando. ainda entusiasmado com o encontro: dizia que Vera tinha olhos de vaca jérsei. Juarez e sua esposa. de medo. Não havia tempo a perder. que contestasse. foi muito bom encontrar os amigos. também amiga. O dia é 28 de abril de 1973. Vera e Henrique foram vê-lo antes da viagem e. o destino. e a turma de Porto Alegre escolheu a Suécia. De Henrique. O pessoal queria mais era sair fora. e que se casariam na Finlândia e teriam sete filhos com olhos de vaca jérsei. Era um grupo de seis pessoas. Márcio. Aninha. dizia ter pressentido que ele tinha QI de gênio. no Rio de Janeiro. a repressão nas ruas aumentava. Cada um em um país — a dupla de tropicalistas na Inglaterra. Cada um iria por um trajeto diferente.

Quando tornei a me voltar. Lembremos que a própria literatura que Caio fazia. mas nada aconteceu: os carros passavam por cima da minha imagem refletida nas vidraças. e não tenho medo. qualquer cozinheira conhece seu segredo. os carros corriam e a minha imagem mordia o lábio inferior. Então estendo os meus muitos braços coloridos e toco no cabo de bronze do . a casca branca. que viria a influenciar os surrealistas mais tarde. Olhei para o outro lado. tenro. Caio quer tirar carteira internacional de estudante e ver Bosch no Museu do Prado. mas se fosse Beirute. as linhas mansas de seu contorno: um ovo. "maravilhosos". ele continuava ali. A escala é em Madri. A obra do pintor holandês nascido em 1450 tinha alguns pontos de contato com a do escritor. logo antes de deixar o Brasil rumo a aventuras desconhecidas. e sinto pena dele. em que um ovo sai de uma moldura e persegue o personagem: Ele saiu da moldura e veio caminhando em minha direção. Está parado à minha frente e volta-se devagar para que eu fique cara a cara com o punhal cravado em suas costas. nesse momento. estava impregnada desses elementos. com que retratava a vida de pecados do ser humano. É quando julgo perceber nele uma espécie de súplica: socorra-me. você não vê que não tem a menor originalidade — e ele não parou -. quase ternura. Além do humor cáustico. onde planejam ficar umas duas semanas. Por acaso o destino final era a Suécia. todos já disseram tudo sobre você. Agora é um ovo delicado. Caio.. escrevem do aeroporto do Galeão um telegrama a Graça Medeiros. bem.juntos. era cheia de detalhes do fantástico.] Mas ele não se move. Disselhe isso — mas ele não parou -. mordi o lábio inferior. Era assim que aquele trio se sentia. poupe-me. abrevie-me. [. e da dificuldade de salvação.. cheios de boas expectativas e esperanças. Como no conto O ovo apunhalado. não importava. a arte. humilde. Ana e Augusto não vão direto para a Suécia. Brincavam que o avião tinha sido seqüestrado e que eles estavam em Beirute.

trabalhavam no mesmo local. e de lá para Madri de trem. andavam na mesma turma em Porto Alegre. Caio e Juarez ainda não eram íntimos. Bonito mesmo Caio só achou o bairro gótico. cheio de repressões. mas não trocavam confidencias e coisas do gênero. Vejo minha casca clara partir-se inteira em cacos brilhantes que ficam cintilando pelo chão do banheiro. Caio não achou mesmo muita graça na Espanha: a comida era horrorosa. E sinto uma lâmina penetrando fundo em minhas costas. até o encontro combinado na Suécia. até o pesado cabo de bronze onde dedos comprimem com força. Augusto e Ana foram a Barcelona. mas fecho os olhos no mesmo momento em que meus dedos se cerram em torno do punhal. Lúcia grita. Caio encontra. Sônia." De Madri. Nessa época. mas é tarde demais. meus dedos ferro. Uma breve hesitação. Juarez escreveu no diário que estava fazendo da viagem. Em Madri. rígidas. Era ainda época de ditadura no país. e nesse sentido estava longe de ser o paraíso dos costumes que Londres. as pessoas eram fechadas. e se ouviam relatos de torturas e fuzilamentos. Sua figura chamava a atenção: a Espanha é um país católico. por acaso. as ruas de Barcelona eram sujas e poluídas. Meus olhos são janelas. O casal tinha ido até Lisboa de navio. Se hospedaram em um hotel na esquina da casa onde morou Picasso. minhas pálpebras grades. e não se viram mais. 0 sangue escorre e eu. depois empurro lento. Juarez Fonseca e sua mulher. com catedrais com mais de 500 anos e casas de 300. minhas mãos tentáculos. Sobre o encontro casual com o grupo de Caio. Amsterdã ou mesmo Estocolmo prometiam ser. Estavam numa esquina da cidade quando viram passar Caio e os amigos que tinham ido com ele. Todo mundo olhando.punhal. também estou no céu com diamantes. no dia 29 de abril: "Caio muito louco caminhando pelas ruas. Hesito um pouco. perdidos entre espáduas. Foram tomar um café. Caio. . firme. A sua casca está manchada pelo fio de sangue coagulado. moralistas. agora.

com todos os cortes de cabelo e roupas que se possa imaginar. Caio também iria lavar pratos. todos iriam se estabelecer. arrumar empregos: Juarez iria trabalhar no restaurante Catelin. gente variada. que Caio estava mesmo indo morar em Estocolmo? Na Suécia. Era o paraíso. vou morar na Suécia. requintadas. Pisar nas ruas francesas era como "pisar no coração do mundo". O avô. Em dado momento. e depois se mudaram para outra. . Augusto se revelou um exímio ladrão de supermercados: vestia seu macacão Lee e enchia os bolsos de enlatados. mulheres elegantes. de cultura. Encontravam-se depois dos respectivos trabalhos e iam beber. O grupo estava sempre junto. um pouco maior. e Sandra Laporta em outro restaurante. morreu de rir. quando eu for grande. Qual seria a cara dele agora. fazer comida. Aos poucos. Bares charmosos. na fronteira do Rio Grande do Sul com a Argentina. Sandra também se saiu bem — roubava camarões do hotel onde trabalhava e trazia para casa.De lá. onde grupos de pessoas se reuniam para tomar vinho. conversar. Era noite em Itaqui. diria Caio. Os estudantes estavam de férias. todos iriam se ajeitando e conseguindo moradias individuais ou em duplas. Todo mundo se deliciava com os camarões que. Era uma festa. e os estrangeiros se hospedavam no que usualmente eram seus alojamentos. Sônia arrumaria emprego em um hotel. os grupos se juntaram e foram todos morar numa residência estudantil minúscula. fosse na "casa" de um ou de outro. o grupo seguiu para Paris. Passear pela capital francesa era como andar sobre séculos de história. jamais poderiam comer. também. porém. é claro. ele vira para o avô Aparício Medeiros e diz: — Um dia. de civilização. de outra forma. Harekrishnas andando sossegados pelas ruas. e a impressão que a capital francesa deixou foi de puro deslumbre. Ficaram uns seis dias nessa residência. em outro lugar. Aos poucos. Caio Fernando Abreu tinha nove anos de idade e estava passando uns dias na casa de seus avós.

com sol e tempo bom. até o efeito passar. Era medroso demais e não conseguia levar um roubo até o final. Caio vai até lá e passa na frente do visor de Juarez.. Caio também tinha medo. no dia 24 de maio.. digamos. andando por debaixo das árvores. O dia 27 de maio caiu num sábado bonito. Juarez pegou carona. extasiado: — Puxa. olha pelo visor da máquina fotográfica. de haxixe. Entre um delito e outro. Atmosfera mágica. Juarez pára de entender o que está . Os brasileiros reunidos em Estocolmo vão fazer um piquenique num bosque no bairro de Kungshara.caríssimos que eram. Uma caixa de TV está jogada no lixo. e embarcaram numa viagem incrível. numa boa. "Para bom entendedor. que logo começaram os planos para outra dessas excursões. Esse tem um insight e grita. E era um desses adoráveis quadradinhos mágicos que fez Juarez anotar em seu diário. esquilos passeando tranqüilos. Caio e Augusto tomaram o tal pink. de ácido. coloridas. de conto de fadas. cara. Uma beleza de bosque: jardins cheios de amores-perfeitos e tulipas. o pessoal arrumava tempo também. nas horas vagas. junto com ovelhas e cervos. Juarez nunca pegou nada. para viver o sonho lisérgico de uma geração. A coisa foi tão boa. na verdade. meia palavra basta. embaixo de um pequeno barranco. três ligeiras palavras: "Pintou um pink. Era época de maconha. Os ácidos tomados às duas e meia da tarde nada mais fizeram que realçar a magia natural do parque. o Caio parece o Jesus Cristo! Sandra corre para a frente da máquina e diz. Caio está vestido todo de branco. Juarez. No dia seguinte. e ficaram todos pirando cor-de-rosa. mas pegou uma coisinha aqui e outra ali. com medo de que aquilo fosse manifestação de alguma bad trip: — Corta essa. Nesse momento. com a cabeça em órbitas insondáveis. A primavera sueca está relativamente quente: dá pra sair de manga curta tranqüilamente.

acontecendo. O mundo à sua volta. Ele e Augusto rodaram vários dias até encontrarem colocações. Depois de sete horas. no Rio. Mas ali. junto aos amigos. facas. os textos que escrevera e publicara. num país distante. tudo de forma muito pura. Ele mesmo era muito sujeito a badtrips. possíveis significados. Os livros que lera. Na volta à terra. copos. o disco Chico & Caetano. lavando pratos. o fiorde ali do lado com o castelo do rei Gustavo Adolfo. as coisas pareciam possíveis. em uma imitação malsucedida de comunidade hippie. passa logo. Caio. e tinha passado por umas terríveis em Porto Alegre. o grupo foi para a casa de um português ouvir discos. panelas. junto com os outros. com seu temperamento depressivo. Jorge Ben. o bosque. aquele de lavar pratos. e Caio se dedicou a ficar oito horas de pé por dia. sem maldades ou malícias. E passou mesmo. Comeram xis-búrgueres com batatas fritas. Cat Stevens. Assim como parecia distante o tempo em que tinha morado em Santa Teresa. Caio falava e falava. A viagem ruim começa pra valer. bandejas. quando ele encontrou o primeiro emprego. Até mesmo utopias que tinham escorrido pelo ralo por causa da dureza da realidade pareciam mais fáceis de acontecer naquele país. longe da cidade. cara. vai consolá-lo: — Isso não é nada. Augusto foi parar numa fábrica. Não tinha sido fácil. Novos Baianos. Ali. A idéia de paraíso na terra deve ter desmoronado para Caio mais ou menos dois dias depois do piquenique no parque. ele não era melhor que ninguém. as descobertas de si mesmo e dos outros por que Juarez tinha passado. sua postura . Ali. com luvas de borracha até o cotovelo. naquela cozinha onde todo mundo falava uma língua que ele não entendia. onde os jovens se deitavam seminus nos parques para tomar sol. tudo. analisando a viagem do amigo. essas lembranças ruins pareciam distantes. longe do Brasil. no centro de Estocolmo. O detergente lavava também toda a arrogância que Caio pudesse sentir. E também garfos. Era em um bar. tudo perde o significado.

sem possibilidade de cura. pois era forte demais e seria capaz de pendurar pelo pescoço qualquer um daqueles intelectuais. Falta de Nega Lu. Mas não. Juarez e Sônia foram embora. Sentiria falta. na cozinha de um bar no centro de Estocolmo. Ali. com Porto Alegre. com o Rio de Janeiro. mas de quem ninguém debochava. Caio poderia voltar para a casa dos pais e viver uma vida de odalisca outra vez."avançada". porém. lavando louça. Ponto. Saudade de ficar com Augusto e outros malucos na praça. Fora assim com São Paulo. Caio foi se despedir deles. e a temporada chegasse ao fim — e chegaria. talvez. dramaticamente. que debochava de todo mundo. por enquanto. Uma vez lá. Que seu livro O ovo apunhalado tivesse ganhado Menção Honrosa em um concurso no Brasil. Fora assim com Madri. e ele também. bem ao seu estilo. Sentia-se um estrangeiro onde quer que fosse. Chegaria também sua vez de partir. enquanto eles vendiam colares e um francês tocava violão. ou dos dois japoneses. até dos guardas que vinham expulsá-los sempre que começava a sessão de violão. antes de chegar à Suécia. talvez. quando aquela vontade de viver novas experiências passasse. ele era um lavador de pratos que não falava sueco. como todos sabiam —. inteligente e bem informado. Mas. a Suécia era para ele o paraíso. o gay negro. Esse era Caio: sempre achava um jeito de colocar defeito no lugar onde estava. Juarez estava triste. Estava sendo assim com Estocolmo e provavelmente seria assim com Londres. Caio não se sentiria triste. que ele tanto ansiava em ver. ou do engraçado africano que trabalhavam com ele. sem maiores preocupações. o momento parecia duro demais para enfrentar. E Caio. . decidiria que o menino cheio de esperanças que ele fora um dia morrera ali. se sentisse triste. ele começaria a achar a cidade um horror. o boliviano. cujo único exercício físico era o levantamento de copo. nada disso o distinguia de David. isso não importava. No dia 18 de julho. enfrentativo. Claro que. e passado o impacto e a fascinação dos primeiros dias.

aliás. Durante todo o tempo em que esteve viajando. Trocaram cartas amorosas. Ele era individualista ao extremo e não deixaria que alguém entrasse em seu mundo. em Londres. Não era isso que ele tinha sonhado. não viria a ser o grande amor da vida de Caio. Falava. qualquer ameaça à sua liberdade. um dançarino cubano que ele estava meio que namorando. e era maravilhosa. Nesse ponto. horas na mesma posição para que os alunos o desenhassem. foi esfriando à medida que chegava a hora de voltar ao Brasil e encará-la frente a . em que ele contava suas experiências e suas mudanças de humor. logo ele já estaria achando a cidade fria demais. onde as pessoas eram fechadas demais. embora tenha tido seu momento. de Nelson. Mas Nelson.Depois de ter dado um pulo na Holanda e na Bélgica. ninguém seria. A primeira impressão foi de êxtase: cabelos coloridos andando pelas ruas. parques lindíssimos. e a fase brega do rei ainda não tinha começado. sem ninguém olhar nem comentar. era defensivo. finalmente. soltando farpas para todo lado. roupas dos anos 30. bem diferente da dura Estocolmo. Fazer faxinas em casas de atores. claro. trabalhar de modelo vivo em escolas de Belas-Artes. E aquela história de não ter dinheiro para nada e trabalhar em subempregos para sobreviver não era nenhuma maravilha. não era isso que os livros tinham prometido. A cidade parecia saída de um livro de Virgínia Woolf. como. Caio arrumara uma paixão que o fazia suspirar pelos cantos e cantar canções do Roberto Carlos (lembrem-se que o ano é 74. pessoas gentis. Chuva a todo momento. interessantes. Caio e Vera Antoun continuaram se correspondendo. com todas aquelas odes às mulheres pequenas-gordinhas-deóculos). ele saltava fora. por exemplo. A relação com Vera. só duraria o tempo suficiente para que Caio escrevesse meia dúzia de cartas para os pais e amigos. uma chateação. cinzenta demais. Caio estava. Todo o deslumbramento. incapaz de se comprometer. Depois de meses sozinho. por exemplo.

Primeiro. Me pergunto sempre se você não teceu em volta de mim uma porção de coisas irreais — se você não está projetando em mim qualquer coisa como um príncipe encantado — esperando a minha volta como quem espera a salvação. sem comicidade. vendendo o almoço para comprar cigarros. Além disso. disse que casar não tinha nada a ver. acabava. o cabelo lindo e escorrido de índio estava indo embora. não do jeito que vivia. Segundo. sempre sem dinheiro. Assim. exatamente aquilo que ele estava tentando evitar. que se duas pessoas se gostavam. já estava dizendo: opa. tanto sobre relações hetero como homossexuais. E terceiro. Ele. Essa sempre foi uma de suas principais preocupações: sempre quis viver um grande amor. estava branquelo demais de tanto não-sol que fazia em Londres. Quarto: ele estava ficando careca. não era preciso papel nenhum para afirmar isso.frente. Mas acho que precisamos 'falar seriamente'. A incomunicabilidade. Caio escreveu muitos textos sobre o relacionamento entre duas pessoas. comum entre pessoas que se gostam. era uma mudança e tanto. ele não tinha condição de pôr um filho no mundo. Mas não deixava que ninguém entrasse demais em sua intimidade. Desculpe. foi explorada em um texto de O ovo apunhalado. Para uma avenca partindo: — Olha. mas acho que sim. ele não podia mais dizer que a amava. antes do ônibus partir eu tenho uma porção de . A seu modo. sem fantasia. uma paixão avassaladora. quase sempre. não é bem assim. sozinho. só teria certeza disso se estivesse com ela ao vivo e em cores. experimentou de tudo." Para quem queria comer a garota com molho de chocolate. Será que ela ia querer alguém assim ao seu lado? Em abril de 1974: "Tenho medo de te ferir. que falara em casamento e filhotes com olhos de vaca-jérsei. entradas enormes na cabeça.

... espera.. você está acompanhando meu raciocínio? [... mas é que a gente tem tanto medo de penetrar naquilo que não se sabe se terá coragem de viver.. eu não vou escrever. vou dizer tudo numa só frase. eu vou escrever.... não.. porque as vivemos apenas naquela dimensão em que é permitido viver. entende...... é melhor mesmo você subir. eu quero dizer. indevassável..] [.... é isso mesmo... espera um pouco mais... está esfriando tanto..coisas pra te dizer..sim.. olha. é só uma coisa... antes de você ir embora eu quero te dizer quê.. mas é bom você botar um casaco... sabe. Além de arrebentar esperanças e se engraçar com rapazes cubanos. você vai. antes do ônibus partir eu quero te dizer uma porção de coisas. no mais fundo.. e se elas não chegarem a ser ditas nem eu nem você nos sentiremos satisfeitos com tudo que existimos. não fecha a janela. dessas coisas tão difíceis de serem ditas que geralmente ficam caladas.. Mas a Inglaterra é um país onde o shopliting é punido de forma mais severa . depois você arruma as malas e as bolsas. porque nunca se sabe nem como serão ditas nem como serão ouvidas... eu espero aqui do lado da janela... não existe um dimensão permitida e uma outra proibida. por que você fica sempre me interrompendo e me fazendo suspeitar que você não passa mesmo duma simples avenca? Eu preciso de muito silêncio e de muita concentração para dizer todas as coisas que eu tinha pra te dizer.. esse velho não vai incomodar você. sei.... não... fica tranqüila... Caio continuou em Londres com os pequenos roubos em lojas. dessas coisas assim que não se dizem costumeira-mente... não me entenda mal. olha.. será que vai dar tempo? Escuta. Coisa pequena.. e a culpa é única e exclusivamente sua..... as maçãs ficam comigo.. na estrada...... não é isso que eu quero dizer. continuaremos conversando enquanto o ônibus não sai. falta muito pouco tempo. porque tanto eu como você sentiremos uma falta enorme de todas essas coisas. porque elas não foram existidas completamente.... é muito importante. e se eu não te disser agora talvez não diga nunca mais. olha.. compreende? olha. As lojas grandes de onde roubavam nem sentiriam o prejuízo. eu ainda não disse tudo.. está tudo definido aqui dentro...] está bem.... depois..

quando Caio e o amigo Homero. Jesus. mas também não precisa virar pesadelo. os seguranças e policiais não queriam nem saber de conversa. dava para pagar. o sonho acabara. John Lennon anunciara o fim do sonho de toda uma geração. De volta ao Brasil. ele percebia o quando tinha reclamado de barriga cheia enquanto estava viajando. o Plastic Ono Band. Prisão num país estranho e 500 contos a menos: era até onde o amor à literatura tinha feito Caio chegar. Os besouros musicais já não existiam. Caio e Homero passaram a noite na cadeia e foram condenados a pagar 30 libras de multa. O ano de 1968 ia longe. Era mais do que Caio ganhava por semana na escola de Belas-Artes. roubar livros é errado. embora amenizado. do primeiro ábum de Lennon sem os Beatles. É. em julho de 1975. Os dias de Caio na Europa também. Elvis ou Beatles.que no Brasil. que também morava no apartamento que ele dividia com Marisa e Augusto. Por causa dos dois volumes de uma biografia imensa sobre Virgínia Woolf. entraram em uma livraria. ao cantar que não acreditava mais em coisa alguma: mágica. O . Ele só acreditava nele mesmo e em Yoko Ono. não é? A frase foi escrita por Caio Fernando Abreu no espelho de seu quarto em Porto Alegre. com a abertura começando a se esboçar. não houve meio de convencer os guardas de que. roubaram livros e foram vistos. mas não é pecado. Ching. what can I say?" A música era God. "The dream is over. mas apertando aqui e ali. e o mundo devia seguir em frente sem eles. Assim. TRÊS — Tá certo que o sonho acabou. estava na hora de voltar para casa. como diz Garcia Márquez. O clima claustrofóbico da ditadura continuava. Cinco anos antes. Buda.

Enquanto o enterro não vinha. Caio gostava muito de Bono. Bono era um psiquiatra diferente dos outros: era. mas que no geral só servia para reforçar aquilo que ele considerava o grande problema do ser humano: o ego. Ernesto Bono. Ninguém se entendia. E. Readaptar-se era difícil. Caio se virava para sobreviver em Porto Alegre. junto com o jornalista Luiz Carlos Maciel. Acreditava que a psicanálise tradicional tinha algumas vantagens. mas não tinha condições. avisou que só poderia publicar um conto dele se as palavras "merda" e "tesão" caíssem fora. em que Caio colaborava desde antes de viajar. coisas assim. se o dinheiro não fosse tão curto. e não era só para os Beatles.Suplemento Literário de Minas Gerais. O sonho estava acabando. O clima estava ficando pesado também no quesito drogas: muita gente estava começando a pirar. Só faltava aprontar o enterro. como em Londres ou Amsterdã. as referências eram outras. não adiantaria nada: o milagre estava com os dias contados. Não se podia andar pela rua com cabelos compridos e batas indianas sem chamar a atenção. no momento. e a necessidade de sobreviver maior que a de curar caraminholas da cabeça. mas algum trabalho ele . mesmo que tivesse. acreditava numa forma de conhecimento mais holística. internações em clínicas. mais de desapego. queria fazer de Porto Alegre um centro de irradiação da contracultura para todo o Brasil. elas também não sabiam nada das experiências por que ele passara. Ele ia por um lado mais zen. um antipsiquiatra. Por que mesmo ele tinha decidido voltar? A depressão veio pesada. porque estivera fora. de pagar suas consultas. O milagre econômico dos militares não tinha chegado até a casa da família Abreu. Não precisava fazer faxina nem posar em escolas de Belas-Artes. como não chegara para a maioria dos brasileiros. na verdade. falava em macrobiótica e. As pessoas em Porto Alegre estavam mudadas: tinham feito coisas das quais ele nada sabia. era o Brasil. Caio poderia consultar um psiquiatra amigo seu. É.

Em 1976. Bondinho: cada um com sua opção formal. estética e política. porém. ele esperou que alguma idéia aparecesse.tinha que ter. aliás. qualquer coisa que pudesse garantir algum dinheiro no fim do mês enquanto ele escrevia seus livros. ele colaborou em quase tudo que era nanico: Opinião. A imprensa nanica. que duraria apenas quatro números. sem idéias. Versus. Escrita. Eram jornais que. como a chamara João Antônio nas páginas de O Pasquim. Findo o prazo. oficinas de criação literária para alunos com ou sem talento. podiam se dar ao luxo de dar espaço a críticas e inovações. Dois meses antes da revista sair. sem dinheiro nem para as anti-consultas com Bono. não era privilégio de paulistas e cariocas. e a saída era. ainda não totalmente recuperado da experiência européia. na metade da década de 1970. por exemplo. como sempre. . um luxo. com quem. Caio compraria uma boa briga no final de 1976. Mas Caio estava deprimido. o jornal Exemplar. No eixo Rio-São Paulo. Opinião. o Jornalismo. Entre 1967 e 1973 existiu. Juarez pediu a Caio que entregasse uma crônica para o primeiro número da revista. Ficção. ele não estava melhor que antes. O jeito foi então escrever uma crônica falando exatamente desses sentimentos escuros que ele sentia. justamente por serem independentes. E uma das coisas que havia para se fazer em Porto Alegre. em que Caio Fernando Abreu chegou a colaborar algumas vezes. ficaram famosos veículos como O Pasquim. traduções e revisões para editoras. e nem as inspirações brotavam com mais facilidade. poderia escrever o que quisesse. Tirando O Pasquim. tendo em comum apenas a condição de nanicos. era colaborar com a imprensa alternativa. Juarez começou outro projeto que teria a participação de Caio: a revista Paralelo. Movimento. alguma coisa bonita para oferecer aos leitores. comandado por Juarez Fonseca. Ele teria uma página só para ele. Escrever na imprensa era parte daquilo que ele chamava de "biscates culturais": resenhas e críticas para jornais. Inéditos. sem esconder nem maquiar nada. Por dois meses. Movimento. pois havia veículos para todos os gostos.

como uma nevralgia psico-espiritual (!). todas mais aptas a escrever a página que ele: Tânia Faillace. só não estou mais afim de fingir que tudo-bem.Depois de consultar o amigo Giba Rocha. sinceridade — não sirvo nem pra porta-voz de mim mesmo. desculpem. esse "ter nascido me estragou a saúde"ambulante e crônico. para refazer. "apesar das nossas ficções": "Escrevo por uma espécie de incompatibilidade-de-gênios com a vida. e tenho consciência de quanto isso parece ridículo e juvenil. Mas não pense que não sei do inútil disso. acabo sempre caindo na mais lamentável das auto-lamentações: dói. para não enlouquecer de impotência. ele acabou se tornando mesmo. " Fala também em revolução sexual e de alguém que ele queria encontrar. referindo-se à previsão de Bono e de Luiz Carlos Maciel de que a Bahia já era e o novo pólo de irradiação da . o que. escrevo para reinventar. simplesmente não consigo pensar organizadamente (?) ou ter idéias claras ou/e precisas sobre as coisas. Mas no momento. parece que alguma peça importante para o meu funcionamento simplesmente quebrou. DÓI PRA CACETE. mas nunca está em casa. descobriu que muita gente tinha gostado de entrevistas que ele tinha dado. Sérgio Caparelli. para organizar o caos." A crônica segue e Caio menciona amigos. de forma não-planejada. Fala de uma coisa e outra. Cobra dos outros. e é isso mesmo que eu sou. Nas cartas que tenho escrito ou nos meus rabiscos solitários (e vis. tudo dói. essa era uma responsabilidade grande demais para ele. Eu disse: quaisquer. Luiz Fernando Emediato. Viam nele uma espécie de porta-voz da geração dos anos 70. meu irmão. talvez) no meio da noite. entrevistas veementes em que Caio assumia suas posições peculiares com firmeza. porque — estou usando o máximo de. cita Mario Quintana e Adélia Prado. "Acontece que não sou [porta-voz] e não quero assumir esse papel. quaisquer que sejam. de certa forma. Nos últimos tempos tenho me movimentado com dificuldade dentro dos meus escombros-de-dentro. por uma série de razões demasiado pessoais para serem trazidas ao baile (trata-se de um baile?) ando com uma autocrítica violentíssima e não consigo. você me entende?. reclama que as grandes sacanagens sociais continuam acontecendo. e eu não sei o que fazer. pessoas talentosas.

conversavam. a pessoa em quem realmente estavam de olho. Graça foi presa e condenada em um flagrante . em um falso flagrante de drogas. no litoral catarinense. na cidade. Caio. Mas a taça destinada à sua geração nem sempre tinha só champagne. já faz tempo. Se não havia dinheiro. Jaime. um pouco era por causa da economia em crise.. Dessa vez. entravam no mar. Se a ditadura existia. no Rio de Janeiro. a ditadura era uma das coisas sobre as quais Caio não tinha controle algum. ele de calção. Se ele não conseguia encontrar um único e belo amor. talvez estivesse procurando nos lugares errados. por questões políticas. quando foi preso em Garopaba. Ele já havia sido preso em 1971. Como Caio. chamou o garçom (seria o Isaac?) e pediu outra. uma crônica estava pronta. Bem. Tocavam flauta. eram dez ou quinze pessoas. mas também porque Caio nunca se sujeitou a um emprego comum por muito tempo. soltaram-no. estavam presos. e das brabas." E voilá. daquelas de matar filósofos. Se Caio estava mal. que era o verdadeiro alvo. Caio provou desse veneno em 1975. ora.contracultura no Brasil seria o Rio Grande do Sul: "como é que é? não era um lugar altamente esotérico? Não aconteceriam coisas incríveis por aqui?" O texto termina: "Alguém me disse. muito dignamente. "Arrotou. Caio apanhou muito. Era uma dose amarga que sua geração tinha que engolir sem reclamar. No caminho. se recusasse a falar. Estava bebendo de sua taça. Na ocasião. Caio e Graça foram até a padaria. ela de biquíni. Em dado momento. era por causa das drogas. entre elas Graça Medeiros. era porque. em parte a culpa era dele. riam. num bar: "Um dia alguém precisa virar a mesa ao invés de só pedir outra Brahma. alguém apontou para eles: — Olha lá! Minutos depois. Se havia bad trips. Queriam que ele depusesse contra Graça. como gostava de dizer. de vez em quando era cicuta..

em Florianópolis. Gil e Chiquinho. às vésperas de um show dos Doces Bárbaros. O responsável pela prisão era o delegado Elói Gonçalves. (Bofetada na face direita. Essa história serviu de inspiração a Caio para escrever o conto Garopaba mon amour. — Não sei. mistura de fatos com altas doses de invenção e fantasia. que. E não só: à fugitiva Graça Medeiros. rabo entre as pernas. Cão batido. por prender Gilberto Gil e Chiquinho Azevedo por porte de maconha. assim como Graça. Mastigamos em silêncio as chicotadas sobre nossas costas. de Emanuel Medeiros Vieira. ficou furiosa. foram condenados a passar um tempo em clínicas psiquiátricas. (Pontapé nas costas. Graça tinha sido uma das responsáveis pela publicação de O ovo apunhalado. Graça tinha dado um jeito de escapar da clínica.falso de porte de maconha. em Pedras de Calcutá. o mesmo que ficaria famoso. A epígrafe do texto é um trecho do conto Garopaba meu amor. de modo que Caio acabou nunca mais dedicando texto algum a ela. -Não sei. publicado pela primeira vez na revista Ficção. Depois de ter sido preso e solto na despedida de Jaime. — Conta. E os corações de vidro pintado estalam ainda mais alto que as ondas quebrando contra as pedras. escritor catarinense. em Garopaba. é claro. quando os olhos de um esbarram nos olhos do outro. -Não sei. mas. um ano depois.) Antes do episódio em Garopaba. (Bofetada na face esquerda. são de criança assustada esses olhos. e estava escondida. Evitamos nos encarar — por que sentimos vergonha ou piedade ou uma compreensão sangrenta do que somos e do que tudo é? —. E a quem o boca-grande do Caio dedica o conto? A Graça Medeiros. Nessa ocasião. Caio passou uns tempos na casa de Emanuel.) — Conta. O . a dedicatória foi suprimida. Quando o conto foi publicado em livro. armado na delegacia de Florianópolis dois dias depois de ter sido presa em Garopaba.) — Conta.

na maior facilidade. foi proibida. no apartamento de Luiz na rua Jerônimo Coelho. retocava. precisava de alguns textos. Premiada. e só viria a ser encenada em 1983. em parceria com a editora Globo. que mais tarde. primeira de várias parcerias da dupla. e assim sempre. fluía. que o sol ainda brilha e o mundo está a salvo. e com contos suprimidos pela censura. alguns amigos se escondem em uma casa abandonada.. tinha trabalhado com o grupo Província na peça Sarau das 9 às 11. pelo Instituto Estadual do Livro. menção honrosa do Prêmio Nacional de Ficção. Em 1974... e intercedeu junto a ele para que o livro saísse.livro tinha ganhado.. Em 1975. Ao amanhecer do dia seguinte. em 1976.. Graça era assessora de Paulo Amorim no Departamento Cultural da Secretaria de Educação e Cultura do Rio Grande do Sul. Como a experiência desse certo com o Sarau. foi repetida em 1977: Luiz Arthur ia fazer um espetáculo de esquetes. de onde Caio só sairia para a famosa casa da rua Chile. teria seu nome trocado para Pode ser que seja só o leiteiro lá fora. logo depois. e o outro mexia. A parceria com Luizar — como Caio o chamava — era boa. Um escrevia uma frase. descobrem que não há nuvens de radioatividade. por enquanto. e Caio escreveu alguns diálogos curtos. era a continuação do trabalho com teatro que Caio vinha fazendo desde que voltara da Europa. Aquela era uma peça de esquetes. ao qual o Instituto Estadual do Livro (IEL) era vinculado. Caio receberia o Prêmio Leitura do Serviço Nacional de Teatro (SNT) pela peça Uma visita ao fim do mundo. Os dois chegaram a morar juntos por um ano. Ou então cada um escrevia uma cena. sabiamente. Na época. porém. O leiteiro. Em Pode ser que seja só o leiteiro lá fora. o outro mais uma. a peça foi indicada para leituras em várias partes do país. além de publicar O ovo. . enquanto aguardam o fim do mundo chegar. mas só seria publicado dois anos depois. em 1973. e fora escrita a quatro mãos por Caio e por Luiz Arthur Nunes.

como qualquer pornografia. decidiu que iria escrever livros eróticos para ver se venderia mais.. Eles vêm nos matar porque nós sobrevivemos. ANGEL — Puede ser algun vecino. piração. principalmente através do conto. LEO — É a polícia. BABY— Ou Mona. escrevendo em jornais sobre os escritores que admirava. além disso. Mais de uma vez. e que quase ninguém conhecia. de certa forma consagrado. e ela não vendeu nem meio exemplar a mais por isso. perdeu o respeito de uma parte da crítica.JOÃO (Sem emoção. Com três livros publicados. com aquela pele toda verde. Por essa época. Nós tínhamos o direito de sobreviver ao fim do mundo. impressões. ninguém lia Hilda Hilst.. e nem só do grande. apodrecendo e caindo. que passou a chamá-la de velha safada. Esses escritores se correspondiam. Os monstros. e nisso Caio não desapontou os amigos. Tenho certeza que é a polícia. O espírito da época era de solidariedade com os colegas. deu provas de sua fidelidade.) — Estão batendo na porta. Caio já era. Ou os quatro cavaleiros do Apocalipse. trocavam informações. principalmente em Porto Alegre. Outro em quem Caio deu um empurrão foi o poeta Nei . como a própria Hilda Hilst. mostrando o texto dos amigos para outras pessoas. metade dos anos 70. Ilusão. tudo piração: pode ser que seja só o leiteiro lá fora. ALICE — Piração. Quem sabe é Mona com os extraterrestres? Eles vêm nos buscar também. CARLINHA — Eu acho que são os sobreviventes da explosão. um escritor reconhecido. coisas assim. aclamada por um certo ramo da crítica mas desconhecida do público. ROSINHA — Devem ser os três reis magos que vêm visitar o menino. já mais velha. incenso e mirra. trazendo ouro. A escritora se magoava com isso. claro: a pornografia de Hilda não era como outras pornografias. escrevendo resenhas positivas em jornais e revistas. tanto que. Na época. ele era um dos integrantes do chamado boom literário dos anos 70: uma turma nova que fazia ficção. tentavam ajudar uns aos outros dentro de suas capacidades.

Vê-lo publicado com capricho pelo governo do estado. mas. e foi ele que. foi um acontecimento: afinal. Caio inclusive. e perguntou em quem o poeta estava pensando quando escreveu. Então Caio sugeriu que ele colocasse o Mario Quintana no título do poema. Nei não era ainda conhecido. Quintana adorou o poema. Juarez Fonseca ainda andava por lá. iria na casa de Nei e o ajudaria a editar o livro Outubro. Quando o livro saiu. Nada teria a perder. organizaram o livro. Caio leu um poema do qual gostou muito. Estava em dúvida. no geral. ele era um autor marginal. porém. na primeira reunião de estudantes a que o calouro Nei compareceu. Caio sugeriu a troca de algumas palavras. como Caio. chamou-o a um canto e explicou tudo: o movimento estudantil é assim e assado. Caio o aconselhou a arriscar. anos depois. Antes de Mario Quintana ver o poema. Nei era jornalista. Caio usou de sua influência no IEL para conseguir a publicação de Outubro. Não se arrependeria: quando o livro saiu. e em geral estava certo: Nei acatava sua sugestão por achar que tinha ficado melhor. a não ser em jornais mimeografados. Tanto que aceitou fazer o prefácio do livro seguinte de Nei. E seria Juarez também que. em plena ditadura. o livro tinha que ser publicado. era algo para se comentar. Quando entrara na faculdade. Os três separaram os poemas por tema. junto com Caio. perguntou o poeta. cinema. Será?. Ele deu um parecer favorável à publicação do livro.Duelos. Os outros poetas podiam pensar: ei. gaúcho de Uruguaiana e radicado na capital. Alguns conheciam sua poesia de vê-la declamada nos encontros de estudantes. Eles eram amigos de conversar sobre literatura. tinham muito a agradecer à diretora do . se o Nei pode. nem tinha nada publicado em lugar nenhum. Muitos dos autores publicados nessa época pelo IEL. Nei seguiu o conselho e nomeou o poema Mario Quintana. — No Mario Quintana — disse Nei. eu também posso. o livro garimpado na papelada de Nei.

como escreveu em uma reportagem Luiz Fernando Emediato. a ser dirigida por Jeferson Ribeiro de Andrade. iria causar a Caio uma enorme dor de cabeça. o nanico mais influente do país tinha decidido criar uma editora. O mineiro Luiz Fernando Emediato era jornalista e . editora de O Pasquim. os autores começaram a se unir e a produzir antologias. Pouco tempo antes. porém. O primeiro livro que ele quis publicar foi uma história policial de Otávio Ribeiro. Em segundo. Uma dessas antologias. bom jornalista. aos 25 anos. poeta de 22 anos que dava seus primeiros passos na ficção. o carioca Júlio César Monteiro Martins. Era uma maneira de divulgar a novíssima literatura do país: muita gente estava escrevendo coisa boa. entre elas Teia & Assim escrevem os gaúchos. que. Com uma visão aberta e democrática do que devia ser a literatura. Entre os seis autores escolhidos estava Caio. que dificilmente conseguiriam espaço em outras editoras. com 28 anos (Caio tinha 27). gente que vinha se destacando pelo talento precoce. ela não podia dar conta de toda a cena literária do Rio Grande do Sul. Assim. Lígia Averbuck. algumas pagas do próprio bolso. ela trouxe para o instituto e conseguiu publicar muitos autores considerados malditos. Caio participou de várias. Os outros eram o próprio Jeferson. desconhecidos. mas escritor "sem grande brilho". Mais coisas precisavam ser feitas. Era aquela velha história: quem não fosse conhecido não seria publicado. ambas de 1976. E justo aquela que lhe daria mais visibilidade: a antologia publicada pela Codecri. o mais velho da turma. para combater a política conservadora das editoras.instituto. Domingos Pellegrini. com 21 anos e uma arrogância típica da idade. mas como se tornar conhecido se não aceitavam publicá-los? Apesar do heroísmo de Lígia Averbuck. e era preciso desovar essa produção de algum jeito. e muitos autores simplesmente novos. também participaria da antologia. Antônio Barreto. viria uma antologia de doze contos de autores novíssimos.

Havia muitas coisas na visão de arte dos . e Júlio César. numa bela definição dos envolvidos na antologia. fora considerado por muita gente uma espécie de garoto-prodígio da literatura brasileira. enorme. ele editava suas revistas. escreveria Emediato. Aos 19 anos. diria que talvez Flávio tivesse razão. Naquela época. O ovo apunhalado. da Codecri. em 1977. na reportagem que fez para a revista Geração. revoltava-se contra o fato de. embora as semelhanças parassem aí. ainda não ser considerado o maior gênio da literatura brasileira de todos os tempos". através de suplementos literários diversos. E. as coisas tinham tudo para dar certo. todos se revoltavam contra alguma coisa. Barreto. foram convidados para fazer parte da antologia Histórias de um novo tempo. Isso até que o crítico Flávio Moreira da Costa o chamasse de Shirley Temple: surpreendente enquanto jovem. um burguês liberal. trocavam impressões. iriam se agravar com o tempo. e Inéditos. Um desses escritores era Caio Fernando Abreu. que logo foi fechada pela polícia. cujo talento tinha o mesmo tamanho. revoltava-se naturalmente contra a trágica condição humana. e ruim à medida que fosse ficando mais velho. infeliz. Essas diferenças. da editora Geração Editorial. Caio mandou. Os autores da antologia se correspondiam. eles continuaram a se corresponder. Emediato. "Jéferson era naturalmente revoltado. que fundaria décadas depois. ficaram amigos. da vaidade juvenil. por causa do mau humor. tinha ganhado o prêmio Revelação de Autor e. se correspondia com outros autores. por causa disso. no entanto. Luiz gostara de um livro de Caio. e escreveu a ele pedindo um texto para a Inéditos. A princípio. todos amavam a literatura. Caio.editava as revistas Silêncio. antes de retomar as atividades de escritor. ainda que derramando sangue. Os dois vinham lendo os textos um do outro há algum tempo. Pellegrini e eu éramos marxistas e queríamos derrubar a ditadura a qualquer custo. escrevia seus romances e contos. Anos mais tarde. aos 21 anos.

embora fosse casado e hetero convicto. ou opiniões. e servira para mostrar que não era aquilo que ele queria. o indivíduo. Emediato enviaria a ele uma cópia do Manifesto Neo-Realista. fazia um ano que ele estava fazendo análise (tinha conseguido um emprego na Folha da Manhã como crítico de teatro. Imagina. Ora. em carta. sempre independente. Sua única experiência com um homem fora na adolescência. mas graças a quê? A analisar o ego. Mesmo assim. Ali parecia estar uma alma-irmã da sua. com a mesma sensibilidade. Virgínia Woolf. Agora ele estava melhor. duas vezes a segunda página do manifesto. Os seis eram os "paladinos do Oeste". para dar a entender a Emediato que não assinaria o manifesto. Caio usou de muito tato. com isso. Caio lera alguns desses textos. Caio ansiava pelo momento de conhecê-lo . O eu. e nenhuma da primeira. Mareei Proust. ser contra o individualismo. emergia da depressão pós-Europa. E esse era apenas o começo da confusão. Emediato tinha mandado. Além disso. como os chamaria na dedicatória de um livro anos depois Emediato. Em março de 1977. muito dono do próprio nariz. Suas influências literárias só falavam do indivíduo: Clarice Lispector. lentamente. Assim. por exemplo. de um conjunto de regras — ou diretrizes.companheiros com que Caio não concordava. como se queira chamar. O mineiro tinha escrito alguns contos de temática homossexual. pouco preocupado com o que pudessem pensar. ainda gostava muito do pessoal que sairia na antologia. o preferido de Caio. e assim podia pagar as consultas) e. A própria idéia de um manifesto. ele não era de forma alguma contra o individualismo. mas que no final viram regras mesmo — a serem seguidas não podia ser agradável para Caio. por engano. e achou que havia esperança. criado pelo grupo para dizer ao mundo o que eles pensavam sobre literatura. aliás. escrevia os tais contos. Que idéia. uma das primeiras coisas que Caio leu do documento foi a frase: "contra O individualismo". Afinal.

A grana era boa. Implicou. Histórias de um novo tempo teve sua primeira edição. poderia ver se suas expectativas se confirmavam ou não. Foi visitar Emediato em sua casa. um chalé de madeira agradável. Os moradores amigos se sucediam. e o texto saiu. como todos os textos. e acabaram logo. sob todos os pontos de vista. no cara-a-cara. mas ela mesma não ficou tanto tempo lá. A confusão aconteceu mesmo quando os quatro foram dar entrevista a O Pasquim. Os autores foram entrevistados pelo tablóide. E saiu editado. bem ao seu feitio. A casa estava alugada no nome de Graça Medeiros. O plano era visitar Caio em Porto Alegre — a relação entre eles sobrevivera aos entreveros com os demais paladinos e com O Pasquim — e depois ir até Buenos Ares ver Eduardo Gudino Kieffer e Jorge Luis Borges. com Júlio César. com trechos cortados. por exemplo. A coletânea era um sucesso. que uns dos outros só conheciam palavras escritas. e ele decidiu viajar com a esposa Sylvia. manifestando toda a sua raiva. Tudo correu bem. . Só que Caio não gostou nem um pouco da tal edição. só trechos dos seus depoimentos tinham sido cortados. Caio morava na casa da rua Chile. Luiz Fernando Emediato ganhou um prêmio literário da revista Status. com um pátio bem grande. Nessa época. por exemplo. Agora faltava encontrar o resto do grupo. puderam se apertar as mãos e se olhar nos olhos. esgotada em quinze dias. mandava ele lamber sabão ou catar coquinho. de 20 mil exemplares. no Rio de Janeiro. Na sua cabeça. E a resposta o deixou ainda mais irado: O Pasquim. Mais dez mil exemplares saíram. O filho de oito meses ficou com a avó. para que coubesse no jornal. a amizade se fortaleceu. toda a parte em que ele falava de homossexualismo teria ficado de fora. Depois disso. Intempestivo. O encontro com os outros paladinos aconteceu no lançamento da antologia. coisas do gênero. Nada de mal até aí. em Minas. a relação do grupo foi se esfacelando mais e mais. Quatro deles — Barreto e Pellegrini não puderam ir —. em quem não perdoava a vaidade juvenil. No final de 1977. em Belo Horizonte. escreveu uma carta ao jornal.pessoalmente.

por favor POR FAVOR: crave seus dentes na minha polpa . O mito do artista sofredor parecia calar fundo no coração do escritor.] tomar banho e ficar na sacada sem olhar os pêlos molhados do suor do peito do moço da construção em frente. mas pegou suas mãos. aqui-e-agora. de auto-sabotagem. o olhou nos olhos. Emediato ficou constrangido. então. A relação entre Sylvia e Emediato não ia muito bem já há algum tempo. como fizera a Emediato. es-pás-ti-ca. Teria assunto. Densidades Inimagináveis. espástica. Um exemplo é Até oito. Ele mencionara o assunto em carta para Caio. venha comigo. aqui-e-agora. nem lembro mais. e é claro: sofrendo bastante. Caio disse a Luiz Fernando que o amava.. que vontade. já na beira dos trinta anos. O que Emediato não sabia é que o amigo estava advogando em causa própria: em Porto Alegre.. e sempre tinha gente visitando. que fora com ele para a Europa. O personagem é uma mulher. em 1973.como Caio e Sandra Laporta. que levaria Caio a se apaixonar e se declarar várias vezes na vida. esperando o quê? esperando quem? Aqui-e-agora. teria sua tradução literária em vários contos. cinco-seis-sete-oito: por favor. Caio decepcionado. claro. A coisa não deu certo. a minha polpa macia. sequiosa de amor: [. que o aconselhou a não arrastar uma relação moribunda. Ah. proparoxítona é que tem acento na antepenúltima? o pôster de Burt Reynolds. Caio teria vivência para escrever. dizer propriamente não disse. para que assim sua liberdade e individualidade fossem mantidas intactas. Bem. A sede de amor.. como Emediato e Sylvia. Sua mania de se apaixonar por homens obviamente heterossexuais talvez fosse uma forma de defesa. do livro Pedras de Calcutá. Sylvia na cozinha. O suficiente para que Emediato entendesse a mensagem. de garantir desde o começo que não daria certo. na casa da rua Chile.. vivendo e sangrando e amando. não consigo mais ler essa porcaria. esses pássaros idiotas sobrevoando essa ilha de loucos.

Lygia Fagundes Telles. Emediato e Carlos Emílio se lembram que Caio. Instalou-se a confusão. a escritora. Caio sempre buscou em seus livros de contos uma unidade. Foram juntos a um congresso de escritores em São Paulo. Edla vetou. Quando o grupo tentou entrar no tal jantar. se escrevendo por vários anos. Caio e Emediato continuaram amigos. tanto temática quanto formal. certinho demais para ser seu amigo. Mesmo depois da declaração de amor não ser exatamente bem recebida. Seus . muito indignado com o que ele considerava uma discriminação. Ferreira Gullar. era um dos oficialmente inscritos no evento. Nos anos 80. Mas a maioria de seus amigos estava lá de farra: Emediato. Caio estava entre os convidados. Não o perdoaria por não ser louco como ele e seus ídolos: Cazuza. declarações de amores impossíveis e congressos com escritores superestrelas. Foi nesse encontro que Caio teve um bate-boca com Edla van Steen. onde trabalharia com Emediato e o veria quase todos os dias. Caio iria morar novamente em São Paulo. na época esposa de Flávio Moreira da Costa e uma das organizadoras do congresso. Pelo menos era essa a sensação que Emediato teria. Além das confusões com tablóides. se retirou do jantar junto com os amigos. Carlos Emílio Corrêa Lima. o bate-boca. 1977 foi o ano do lançamento de Pedras de Calcutá. Mas aí as coisas estariam mudadas: ele passaria a considerar Emediato careta demais. Mas em 1977. entre vários outros. terceira coletânea de contos de Caio. Edla havia organizado um jantar fechado. Caetano Veloso. do qual participariam apenas alguns escritores.maciaaaaaaaaaaaah. Júlio César Monteiro Martins. Raduan Nassar. Coletânea talvez não seja a palavra correta. Ney Matogrosso. Caio e Emediato ainda estavam muito ligados. A nata da nata da literatura brasileira estava lá: Rubem Fonseca.

daquelas em que uma criança entra dentro dessa roda. talvez a mente de todos: creio que quando esta última chama apagar um de nós terá de jogar-se ao fogo. aquecerá os outros por mais alguns momentos. O conteúdo do livro segue fazendo a biografia de uma geração: já não se acredita mais na revolução. Como um ritual. quando Caio organizaria a — aí. para manter essa coerência. no momento exato em que a última chama se desfizer e alguém esboçar o primeiro gesto. são divididos em partes.. muitos textos considerados bons pelo autor ficaram de fora. Pedras de Calcutá talvez seja o livro que marca o amadurecimento de Caio como escritor. sim — coletânea Ovelhas negras. na década de 90. e assim. Apenas um de nós treze fará o primeiro movimento. o calor e Deus pudessem voltar de repente. diz um verso bem bonito. Apenas já não somos crianças e desaprendemos a cantar. O indivíduo continua um estrangeiro em busca de um modo de estar no mundo. não nos olharemos dentro dos olhos. É o domínio da palavra escrita. por não se adequarem à proposta da obra que estivesse trabalhando no momento. e outro mais.] Não nos falaremos. no mundo que estava tão diferente nos últimos tempos. depois se tornará cinza. diz adeus e vai embora. Uma ciranda. As cartas continuam queimando.livros.. cada qual tratando de determinado tema ou enfocando os assuntos sob perspectivas específicas. artesãos. Pensei que talvez o sol. com o calor. Mas Deus morreu faz muito tempo. A relação com a palavra aproxima-se da dos poetas. nos ideais esfacelados. O mundo está esfacelado. Mas eles não voltarão. buscando sempre o termo exato. de Pedras de Calcutá: Há bem pouco um pensamento cruzou minha mente. [. A partir desse livro. Muitos desses textos seriam lançados mais tarde. com textos escritos dos 14 aos 46 anos de idade. . e depois mais um. Eu tentei pensar em Deus. se jogará ao fogo. Caio se sairá cada vez melhor nesse aspecto. lapidando e burilando. como no conto Holocausto. Cada livro tem uma lógica própria. Talvez se tenha ido junto com o sol. o sonho acabou. em geral.

gestos finos. que ninguém era de ferro. logo que se conheceram. elegantes. faltava algo. havia lugar para o humor. O rapaz. era Caio Fernando Abreu. Estranho estrangeiro. e notava sua calça de couro preta. Uma nuvem preta o acompanhava. escrevia suas coisas para teatro. Um breve caso. Caio não podia esperar mais tempo. Caio não deve ter ficado menos impressionado com os cabelos louros e os modos doces de Celso. e de solitário também. que não era exatamente um rapaz. hora de levantar vôo. era Celso Curi. mas um homem de trinta anos de idade. cabelos escuros. e as coisas bonitas já não acontecem mais. muito magro. como se uma tristeza infinita houvesse por trás dos olhos. Ainda assim. Em Porto Alegre. pois os dois. se cheirar. A presença do rapaz era forte. se tocar. mais uma vez. Era. pronto para partir corações e ter o seu partido outras tantas vezes.Seria bonito. estava aquele rapaz de calça de couro. Caio se sentia um estrangeiro eterno. como se podia dizer sempre das relações de Caio. estar no olho do furacão. mais tarde. Como seus personagens. aonde quer que fosse. QUATRO Encostado no carro. Talvez o centro. E quem o via pela primeira vez. como disse Celso. jaqueta. incapaz de viver nela. Em alguma brincadeira cujas origens se perderam na história. ele tinha emprego no jornal. jornalista e agitador cultural. mas intenso — queriam engolir um ao outro. viveram um apaixonado caso. No meio de tanta paixão. irremediável. que estava de volta a São Paulo. os dois começaram a se chamar de . não havia quem não a notasse. encontrava alguns amigos. O ser todo exalava algo de sexual. Alto. sem paz fora da própria terra. uma nuvem de melancolia. encostado no carro.

R. Permeando a obra e a vida de Caio. Semelhança menor não podia haver. por exemplo. Okky de Souza. palavras inventadas por Caio e por seus amigos que acabavam virando termos correntes no vocabulários desses grupos. por exemplo. tinha se tornado insuportável. Em São Paulo. trabalhando na revista POP. J. ou MVlen. Ele mesmo podia assumir um nome feminino. em alguma festa ou bar. em um conto ou crônica. no bairro de Pinheiros. Fraser. vou cobrar direito autoral. bebendo baldes de café e escrevendo. cheinhas. "Jacira". os dois magros que nem papel. Caio chamava. Uma expressão surgida na noite. por causa das atrizes Etty Fraser e Geórgia Gomide. ou Anthea. que se traduz em signos. na rua Capote Valente. como vai? Essa brincadeira de nomes não era exclusividade da relação de Caio e Celso. escrevendo. brincadeiras e palavras próprias. mais uma vez. Duran. e as atrizes. E essas brincadeiras com as palavras não existiam só na maneira de chamar as pessoas. Gomide — ligava Caio. podia ser utilizada por Caio no dia seguinte. e aí era Marilene falando com Marilene. Os amigos liam aquilo. — Olá. — Alô. como Marilene mesmo. Caio tinha voltado a morar em São Paulo em meados de 1978. pequena demais. morou em primeiro lugar com a amiga Maria Rosa Fonseca. é sinônimo de bicha. Porto Alegre. uma loucura. junto com Vânia Toledo. "rodenir" eqüivale a coisa brega. há o humor queer. .Fraser e Gomide. uma espécie de humor próprio dos gays. Caio e Maria Rosa se tornaram muito amigos. se divertiam. Maria Rosa fora esposa de Valdir Zwetsch. digamos. forte. massudo. a amiga Jacqueline Cantore de Marilene. Valdir e Caio agora repetiam a dose. "Lasanha" é aquele homem bonitão. Havia verdadeiros códigos. Mas a brincadeira pegou. Ela se lembra dele ouvindo Velvet Underground o dia todo. e depois ligavam dizendo: — Ei. amigo e colega de trabalho de Caio em Porto Alegre.

Em 1984. Caio não conhecia tanta gente na cidade. era melhor manter uma distância saudável dele. sanitária. no dia-adia. Continuavam encantados.escrevendo todos os dias. E foi aí que o encanto quase se desfez. ligava. O mau humor. quando Laura. sem rancores. a dificuldade com coisas práticas. Mas quando o mau humor resolvia dar as caras. No começo da estada. que viria a ser um tormento a vida toda para quem dividisse casa com ele. pedindo mil desculpas. Por que. era infinita. E havia aquela estranha necessidade de ficar sozinho de vez em quando. mas nunca se lembrava de uma conta para pagar. ele a chamava. Era mesmo difícil não se desentender com ele. Lady Laura. sem botar a cabeça para fora para . Depois batia-lhe o arrependimento. havia um quarto sobrando. Tinha um gênio dos diabos. fino. digamos. sua capacidade de fazer rir. Caio ajudaria a dar o primeiro banho. Ele tanto podia aparecer com flores ou mandando as pessoas para aquele lugar. Celso morava sozinho em um apartamento na Cristiano Vianna. Quando estava bem-humorado. um temperamento explosivo. todos se divertiam. e ela ia apresentando algumas pessoas. a filha de Maria Rosa. uma qualquer-coisa que de repente lhe subia e ele não conseguia medir palavras. era absolutamente impossível prever seu comportamento. De vez em quando saíam para jantar. ele e Celso já haviam se tornado grandes amigos. três dias trancado no quarto. um gentleman. gostava de tudo no lugar. Uma distância. tiradas mordazes e irônicas. E aí ele era elegante. Caio não era uma pessoa fácil de conviver. tarefas simples. nascesse. Caio topou na hora. murchinho. e quem ficasse no caminho levava chumbo. e Fraser e Gomide correram perigo. Quando Caio decidiu sair da casa de Maria Rosa. vira-lata com rabinho entre as pernas. é preciso que se diga. Cheio de manias. mil perdões. Por que não chamar Caio para morar com ele? Chamou. com a organização — dizem — típica dos virginianos. mas a paixão havia passado. arrumado. Caio ficava dois.

Nada que o passar do tempo não resolvesse. Mas quando ele resolvia sair. E aí era legal de novo conviver com o Caio. Depois de Celso. e tudo ficaria bem até que a montanha-russa desse mais uma volta e ele ficasse down outra vez. se precisava de alguma coisa. morando onde desse. A diversão era tanta que a turma da revista acabou virando a . Na última semana. Fraser e Gomide saíam com ele. Fraser e Gomide a vida inteira. pediam pizza por telefone e fechavam a revista. com quem calhasse. a coisa não funcionava. As faxineiras enlouqueciam. de Caio. Para Celso. e comentou: — Tenho uma pena de você. Mexeu com a cabeça. se mudavam para a redação. morando juntos. Celso também se mudou. destinado a apresentações ainda mais experimentais que as do palco normal. E houve tensão também: problemas de dinheiro que ficaram mal resolvidos. Foi aquela choradeira. Você nunca vai enlouquecer. um lugar para apresentações mais alternativas. eram momentos apreensivos. e abriu seu teatro. botar o taro. Caio saiu do apartamento. logo os dois estavam amigos de novo. foi a vez de Rofran Fernandes. E Caio prosseguiu sua vida nômade. vinte e cinco dias por mês o pessoal não fazia absolutamente nada. Celso não sabia. Caio continuava o trabalho na POP. foi no OFF. da editora Abril. só se divertia. Quase um ano depois de ir morar com Celso. Aí Caio podia contar piadas. já dava para ver que os dois. em um palquinho de lxlm. Uma das primeiras interpretações que Gilberto Gawronski fez de Dama da noite. falar de astrologia. chorava. e depois dele outros ainda.nem dar um olá. Mesmo assim. como que lamentando. O que Caio fazia lá dentro. se estava morto. o bom humor nas alturas. e os de fora sem saber se estava vivo. porque não podiam entrar no quarto e limpar. O trabalho lá era uma delícia: na descrição de Caio. Uma vez Caio botou as cartas para Celso. o Espaço OFF. não davam certo. se escrevia. Celso devendo alguma coisa a Caio. dormia.

e gostou do que leu: disse à amiga que ela tinha muito talento. de brincadeira. hoje conhecida escritora. para o terceiro. dramaturga e autora de novelas. onde trabalhava Maria Adelaide. A amizade seria selada por um episódio triste da vida de Paula. trabalhava Maria Adelaide Amaral. está entediado com a ligação da mulher. quando estavam mal. o sempre muito magro Caio resolveu pegar Adelaide no colo. e demais escritores que amavam ou que estivessem lendo no momento. uma única vez. Lui. e eles conversavam. Maria Adelaide ficou amicíssima de Caio. que também trabalhou na POP por uns tempos. Tempos depois. No meio de uma conversa aparentemente banal. ela optou por fazer um aborto. em 1987. que só viria a dar por terminado anos mais tarde. de coisas leves. Ela. falavam de coisas pesadas. Proust. do livro Morangos mofados. Outra amizade que veio daqueles tempos é com a jornalista Paula Dip. A amizade perdurou mesmo depois que deixaram de ser vizinhos de emprego. que deu seu apoio. ela menciona. e ele acabaria sendo muito protetor em relação a ela. escreveu o conto Pela passagem de uma grande dor. na Abril Cultural. quando estavam bem. No terceiro andar do prédio da editora. Caio subia do segundo andar. Discutindo Katherine Mansfield. Dedicado à Paula. Maria Adelaide escrevia o romance Luísa (quase uma história de amor). vizinha à POP. e o apelido ficou para sempre. quando tudo melhorava. Tendo se descoberto grávida. Paula era mais certinha. na época. Levinha.turma de Caio em São Paulo por uns tempos. Uma vez por dia. Caio foi um dos primeiros leitores. Caio se espantou: descobriu que ela não era magra. Na época. pesava 42 quilos. Levíssima. menos porralouca que Caio e alguns de seus amigos. o conto descreve uma conversa telefônica entre dois amigos. o homem. Um dia. que trabalhava na redação da revista Nova. que vai fazer um aborto. se divertiam. . pelo menos. em que ele parece ansioso por desligar. onde ficava a POP. Lawrence Durrell. Apresentada por Celso Curi. Contou a história ao Caio. era levíssima. não viam o tempo passar.

ou para edições . — Tá bom. também. é incômodo e doloroso para Lui. A POP era a primeira revista brasileira voltada para a cultura jovem.— Tá bom — ela disse. como o pessoal da redação costumava brincar na época. ele. haviam sido grandes dores. de como seriam se tivessem nascido. dos filhos que não teve. — Vou tirar amanhã — ela falou de repente. ele dizia. Aqui diz que tem vitamina E. na verdade. — Hein? — Nada. Para ele. — Abriu a mão e olhou as manchas branquicentas na palma. de vez em quando. é que as gestações aconteceram em períodos loucos. a "grande dor" do título: o assunto. Vai fazer teu chá. optou pelo aborto. Até hoje é lembrada por ter introduzido no país o punk rock. em que todos usavam drogas. A revista POP apresenta o punk rock é o marco histórico do gênero no Brasil. Caio falaria. o medo da criança nascer deformada pelas substâncias era grande. Mas era preciso "costurar pra fora" para sobreviver. E pensou que quando começavam a falar desse jeito era sempre um sinal tácito para alguém desligar. assim como fizera com a hippie anos antes. em crônicas e entrevistas. Costurava também. — Não é essa que é boa para a pele? A aparente frieza esconde. Embora hoje seja praticamente impossível achar o disquinho. para a revista Nova. — Tá bom — ele repetiu. Nas duas ocasiões em que namoradas suas engravidaram. Embora em determinado momento da vida Caio tenha aderido à estética punk. em geral ele não tinha muito em comum com os assuntos tratados na revista. E para Caio. na verdade. com a coletânea de 1977 que trazia músicas de grupos estrangeiros do novo gênero musical. A justificativa. e ele fazia o que podia. Mas não quis ser o primeiro. Ele mesmo passaria pela situação duas vezes na vida. em comum acordo com as garotas.

Não a parte de escrever. a parte prática e pragmática da coisa. E já chega falando grosso. mais dolorosa ainda era para Caio. a parte desinteressante de qualquer emprego. O diretor marca a reunião para nove da manhã. melhorar o lado visual. o que bastou para que este estourasse e abrisse a torneirinha de indignações.especiais. a Abril. A formação dele tinha sido feita antes de 1964. enfim. havia grande rotatividade de jornalistas. Caio não concordava. mas a questão dos horários. ou culinária. Sendo todas as revistas da mesma editora. e dos prazos. O diretor chamou Caio de obsoleto. ele tem uma pequena briga com o diretor da revista. o trabalho jornalístico era penoso para ele. pessoal que estivesse com o horário mais folgado. dizendo que a revista está péssima. em dias de fechamento. e muito bem. ou como cuidar de bebês. Tinha duas irmãs adolescentes. Sempre a contragosto. Era preciso reduzir os textos. — O leitor não gosta de ler — justificou o diretor. Em certo momento. Aquilo foi demais para Caio. eu não estou. o diretor comentou que os títulos de Caio pareciam livro antigo de História. Em fevereiro de 1979. As penas continuaram voando. sobre a vida de John Travolta. se o chefe achava que cultura e leitura eram coisas obsoletas. supostamente o público-alvo da revista. E disse mais. "emprestava-se" pessoal de outras redações. então estavam indo muito mal. e elas adoravam ler. — E se você está a fim de colaborar com o processo de castração mental da juventude brasileira pós-64. mas só aparece às dez e meia. e de lidar com chefes. E falou. aumentar as fotos. de certa forma. por exemplo. . se era chata de agüentar para qualquer um. que isso ele fazia com facilidade. Caio era contratado da POP. ou o que viesse. mas fazia free-lances para vários outros veículos. — A gente não deve colaborar com a alienação.

ele escreve uma carta ao amigo José Márcio Penido. "Afinal. A literatura andava meio abandonada há um tempo. comer tapioca. Caio resolveu ir a Olinda. cansado. na Rua do Hospício —juro! Solucionados os problemas de acomodação. olhar. José Márcio deve ter levado um susto. Aí rodei por lá um dia inteiro. Caio estava nervoso. assistir filmes como Iracema ou O Super-Macho ou A ilha das cangaceiras virgens (descobri que Helena Ramos dá de dez em qualquer Sônia Braga. atravessar Capibaribe. Nada de Olinda: a carta vinha de Porto Alegre mesmo. louco para dar uns pontapés nas pessoas e dizer umas verdades. bonito. Caio calou a boca. Uma semana depois de suas férias começarem. como na fábula do lobo e do cordeiro: contra a força não há argumentos". lugar calmo. As férias vieram. Talvez estivesse precisando de umas férias. olhar — olhar o quê. No fim. sem encontrar lugar pra ficar. meu deus? Meu caro Garcia de Oliveira. E toca subir rua. Estressava-se. percebi que não conhecia vivalma (ai esse português castiço!) na cidade. onde teria a paz necessária para escrever. Andava cheio de idéias. Ana Matos que me perdoe). Acabei indo pra Recife. idéias ambiciosas. ele concluiria em carta à mãe. dessa coisa de ganhar a vida. olhar. Logo no início. olhar. jornalista mineiro radicado em São Paulo. e não podia deixá-las morrer só por causa dos trabalhos jornalísticos. em retirante. passar o dedo com desgosto em cima do quilo de poeira dos móveis. depois de muito suar e gritar. eu FUI até Olinda. descer rua. Se esperava notícias do esturricante calor nordestino. de belas praias e malemolências. mas não podia. todo mundo em volta quieto. tropeçar em cantador. eu estudei muita História e se a juventude de hoje não sabe nem quem foi Getúlio Vargas é porque não se estuda mais História. menos de uma . e ele ia aproveitar o período de folga para retomála. Caio explica a mudança de planos: "O que aconteceu? Bem.— Minha mãe é professora de História. me deu uma solidão tão grande que. olhando a briga. voltar para o hotel. onde me instalei num hotel de oitava: o Suíça Hotel. em que contava o episódio.

Ao final do ano. no hay caminos. ele e Caio eram muito próximos. só morara em Cambuquira até os três anos de idade. Mais que a doença física. porque José Márcio. Sente-se solitário. ninguém absolutamente que se importasse com ele. Pero se hace camino ai andar. a situação era diferente da de Caio. o amigo José Márcio Penido também passava por suas próprias crises. na verdade. a amada e odiada Porto Alegre.semana depois. entre outros questionamentos. irmã da Sônia Braga. arrumei tudo e voltei pra Sampa. interpretado por Sônia em Dancin Days. amiga de Caio e de José Márcio Penido. Caio achava que se entendiam porque eram ambos de cidades do interior: ele de Santiago. Em São Paulo. o que aprender. Zé escreve uma carta triste para ele. cheia de interrogações. Caio a chamaria sempre de Ana Matos por causa do personagem Júlia Matos.) Em Porto Alegre. Nordeste a 30 graus e Rio Grande a 2 graus negativos. o mineiro funcionava como uma "referência viva" de São Paulo para o gaúcho. a cabeça de Caio não está legal. foi procurar suprir essas carências na cidade mais que conhecida. mas nem lá as coisas pareciam melhores. Não há o que ensinar. Ele cresceu com asfalto nas veias. Saiu do Recife porque não havia ninguém lá. Passei uma noite lá. mas nem disso está tão certo. da dor que precisa ser mexida e remexida. dúvidas. de volta da praia. responde como pode. Caio. Caio volta à vida de jornalista em São Paulo. a família tinha se mudado para Belo Horizonte. José Márcio de Cambuquira. Cita um poeta: "Caminante. ele diz querer escrever. Caio pegou uma gripe violentíssima — resultado da mudança brusca de temperatura. Na época. Peguei as lãs e peles e vim pra cá. que tinha morado em Santiago até ficar adolescente. quando Caio volta a Porto Alegre para mais um período de férias. Depois das férias. do . depois disso. Mas essa concepção era fruto da cabeça romântica de Caio. Ele está deprimido. e visitava a cidade sempre que podia. " (Ana Matos era Ana Braga." Fala da dor que é escrever.

. às vezes falando sozinho. interveio: se o contrato fosse cancelado. que come com calma. "A única recompensa é aquilo que Laing diz que é a única coisa que pode nos salvar da loucura. embora involuntária. Nenhuma melancia escancarada. na gaveta. Então. até que Luiz Schwarcz. Essa expressão ê fundamental na minha vida. o danado ainda custou a sair: ficou dois anos na Nova Fronteira. e de transformar grandes dores em grandes textos. senhor.quanto é preciso sangrar se se quiser produzir algo bom. Um morango mofado — e esse gosto. macilentas maçãs verdes. do suicídio. E depois de pronto. nenhum morango sangrento. nenhuma manga molhada. Às dez da manhã. sempre presente em minha boca? Antes da publicação de Morangos mofados. Em 1981. sua maneira de encarar a arte com seriedade. Caio já era. peras pálidas. e ele não podia fugir dela. estava em Caio. da auto-anulação: um sentimento de glória interior. " São sete da manhã. Caio acorda. somente então. nenhuma pitanga madura. começará a escrever. Depois da refeição. de certa forma. quatro quilômetros. para poder terminá-lo. Corre um pouco: três. mergulhado nas palavras. Caio pediu demissão da Nova. considerado um guru de sua geração. mas as pessoas aprendiam com ele. O dia todo submerso. A vocação para guru. E o resultado dessa jornada é um texto. enquanto terminava de escrever o livro. descansa um pouco. de forma espiritual e ao mesmo tempo intensa. volta para casa. Faz mais alguns exercícios. Era um paradoxo: Caio não estava ensinando ninguém. um belo texto. essa situação atingiu seu auge. vai à praia. onde trabalhava. na época na Brasiliense. dedicado a José Márcio Penido e que daria título ao próximo livro de Caio: o conto Morangos mofados: Na parede a natureza-morta com secas uvas brancas. Aprendiam sua maneira de ver o mundo. Com Morangos mofados. passeia um pouco. Está na hora de cozinhar o arroz.

Estava na metade. apesar das ilusões perdidas. Caio. o livro virou clássico instantâneo: oito edições tiradas em seqüência. por mais triste. Ele deixa as coisas em aberto. Apesar dos pesares. observando os canteiros de cimento: será possível plantar morangos aqui? Ou se não aqui. de repente. teria sido inspirado na primeira experiência . E agora que uma nova década começava. as emoções de uma época. Sargento Garcia. que vira a revolução acabar antes mesmo de ter qualquer chance de dar certo. Abriu os dedos. sucesso de vendas e de crítica. E sempre aquele rótulo ajudando o livro a vender: o retrato de uma geração. não toma essa posição. absolutamente só enquanto considerava atento. Morangos mofados. supondo que setenta fosse sua conta. no ar. aquele escrito na praia. Achava que sim. absolutamente claro. era hora de olhar para trás e rever o momento que passara. termina com uma esperança. deixa apenas fotografadas. é um atestado de que o mundo pode dar certo. num giro de cento e oitenta graus sobre os próprios pés. Mas era um homem recém-nascido quando voltou-se devagar. entre caminhadas ao sol e porções de arroz integral. o último conto.em um mês ele publicaria o livro. e tomar uma posição a respeito dele. Um dos contos mais marcantes do livro. procurar algum lugar em outro lugar? Frescos morangos vivos vermelhos. Que sim. mas era realmente um pouco assim como se ouvisse as notas iniciais de A sagração da primavera. Sim. Publicado. por mais melancólico. Mas seu livro. as mãos postas sobre o sexo. 0 gosto mofado de morangos tinha desaparecido. que finalmente o lançou. é hora de começar de novo: Poderia talvez ser internado no próximo minuto. Sim. Tinha cinco anos mais que trinta. Caio pediu para rasgar o contrato e entregou o texto à Brasiliense. para deslizar as costas pela sacada até ficar de joelhos sobre os ladrilhos escuros. em seu livro. Absolutamente calmo. Como uma dor de cabeça. em 1982. do desencanto de uma geração.

os quatro degraus de cimento.. no centro da cidade. o portão azul. e Isadora. alguém gritando alguma coisa. Quando Tutti Gregianin decidiu filmar o conto. é possível que o lugar a que o escritor se refere seja a casa dela. a própria Luiza. sem conseguir juntar os sons em palavras. O tal puxou papo com ele e marcou encontro para três dias depois. mas longe. que nenhum ofuscamento se fizesse outra vez. em Porto Alegre. A revelação. a madeira descascada da porta. No conto. em 1995. porém. morrendo de curiosidade. Como o conto é dedicado à Luiza Felpuda. o vidro rachado. com lençóis sujos e um rolo de papel higiênico na cabeceira. "Me jogou em cima da cama. ele foi seguido por um homem. uma vez desperta. porém. nada tem de perigosa. tão longe como se eu estivesse na janela de um trem em movimento. Caio foi. O conto traz em si a história dessa descoberta: [. num domingo à noite. Mesmo sem saber direito o que iria acontecer. completamente sem romantismo". conta Caio. que não devia abrir os olhos nem sentir cheiros para sempre surda cega muda naquele mais de dentro de mim. como uma língua molhada nervosa entrando rápida pelo mais secreto de mim para acordar alguma coisa que não devia acordar nunca. Embora eu soubesse que. Ao menos foi isso que ele contou em entrevista à Marie Claire. como os reflexos escondidos. em 1998. a mulher que aparece no conto. travesti de Porto Alegre que mantinha uma casa de prostituição.] barulho de copos na cozinha. nojento. Caio transforma o tal homem em um sargento. ou dolorida: . Quando tinha 16 anos. tentando apanhar um farrapo de voz na plataforma da estação cada vez mais recuada. feito bicho numa jaula fedida. para sempre e sempre assim.. não voltaria a dormir. como uma língua estrangeira. "Me fez segurar o pau dele e eu saí correndo".homossexual de Caio. o sargento Hermes. o escolhido para viver o sargento seria o ator Marcos Breda. porque devia ficar enjaulada amordaçada ali no fundo pantanoso de mim. entre grades e ferrugens quieta domada fera esquecida da própria ferocidade. O homem o levou a um lugar horrível.

As vezes. ainda que maldita: Queria dançar sobre os canteiros. Ela era uma garota jovem. Porque ninguém esquece uma mulher como Isadora. Em 1980. Uma vez desperta não voltará a dormir. Subi correndo no primeiro bonde. também. Era assim. Embora diga aos amigos que prefere se resguardar. mudando de emprego e de casa como quem troca de par de meia. sem esperar que parasse. chamando Cida para almoçar. e depois Jacquéline Cantore. na verdade. estiquei as pernas. pensei confuso. E ninguém me conhecia. artistas. então. O que é descoberto é um caminho.ela traz. De seu quintal. cantora. Na casinha da Melo Alves. Embora paulista. Eu não o conhecia. Ele já rodava bastante antes mesmo do livro sair. uma forma de viver. todos querem ser seus amigos. 0 bonde guinchou na curva. vieram morar Orlando Bernardes. amiga de tempos antigos. quando ela. Amanhã. escrevera uma carta e entregara junto com . por exemplo. Cida ia bastante a Porto Alegre nos anos 70. Ficou sozinho por um tempo. fã de Caio. a libertação. Em São Paulo. ela é que chamava. Meu caminho. Como guru involuntário de uma geração e. olhando as casas e os verdes do Bonfim. Caio circula bastante por essa época. Às vezes. cheio de uma alegria tão maldita que os passantes jamais compreenderiam. por causa do relacionamento que mantinha com uma pessoa de lá. sentei. Caio fora morar numa casinha de vila na Melo Alves. repeti sem entender. Eu nunca o tinha visto em toda a minha vida. Escritores. Mas não sentia nada. de O ovo apunhalado. sem saber para onde ia. como escritor respeitado. Tinham se conhecido no início da década de 80. podia enxergar o apartamento de Cida Moreira. sucesso de crítica e público. meu caminho não cabe nos trilhos de um bonde. Pedi passagem. debruçado na janela aberta. amanhã sem falta começo a fumar. que tem horror às rodinhas literárias. Caio dava um grito do quintal. atores. ao ficar fascinada com o conto Eles. decidi. qualquer coisa assim. Morangos mofados consagra Caio. ou bater papo.

Mas. Em novembro de 1981. sempre que tivesse platéia. e ele sempre se frustrava. Gostava de dançar. Uma verdadeira drama queen. Não que ele gostasse de estar deprimido. Caio preferia táxis. Ele sofria muito. Caio não chegava perto do volante. ou caminhar. E isso muitas vezes o levava àquelas depressões intermináveis. Mesmo a moto. quando podia pagá-los. fizera dois anos de psicoterapia com Mário Bertoni. se trancava no quarto dias e dias. e é claro que suas idealizações iam muito além da realidade. em Santiago do Boqueirão. papéis. jornais. Ele ligou para agradecer e desde então começaram a se corresponder e ficaram amigos. Caio retomou a psicoterapia. Na época da casa da Melo Alves. porém. da cena. Em Porto Alegre. Talvez essa perda tenha apressado a ida de Caio para São Paulo. As aulas ajudavam-no a sobreviver. se sentia bem. As tentativas de suicídio de Caio nunca foram levadas muito a sério por seus amigos mais antigos. ficava muito tempo sem ser utilizada. Caio então é chamado para substituí-lo e aceita. talvez. do teatro que Caio montava ao redor de si mesmo. Chegou a aprender.um presente na casa dos pais de Caio. Ele não dirigia carros. Caio Túlio Costa sai da edição do Leia livros. teatralmente. Caio tinha também uma moto. guardavam cartas. por causa disso. então. Ficaram um ano e meio na casa. Em São Paulo. e depois a substituiu por dança. Caio. chamavam o lugar de O Inconsciente. em Porto Alegre. Intensamente. Em São Paulo. Mas era assim que ele gostava de viver. Ônibus. aprontava: ameaçava se matar. em Porto Alegre. às vezes. . e fazia o que podia para se sentir bem. Embaixo da escada. Caio ficou muito abalado. então. o pai o deixava dirigir seu carro de vez em quando. pois foi exatamente no final de 1977 que ele voltou para o Sudeste para trabalhar na POP. ou mais íntimos: era parte do show. Só que em 1977 Bertoni morreu em um acidente de carro. muito menos. que adoravam. suplemento literário publicado pela editora Brasiliense. ele odiava. O escritor criava expectativas em torno das pessoas e das situações. inteiro.

Pede a Caio: — Ei. Uma vez nelas. que não só saiu da editora. com São Paulo e Porto Alegre. Caio conta que. Graça cuida dela. de novo. da qual Ana era muito consciente. Caio Graco. por que você não escreve outro livro na linha sexo. drogas e rock'n'roll. mas não conseguia morar lá por muito tempo. Todos se deixavam hipnotizar por ela. E esse pode ter sido um dos motivos que contribuíram para a depressão. vê ali um nicho interessante. A beleza. e quer repertir a dose. na beldade. e é um sucesso. Em maio de 1983. quando o livro estoura. Mas ainda é maio. Seu livro A teus pés foi um sucesso. ele podia — e devia — voltar ao trabalho jornalístico. ou de ódio e dependência. Em entrevista ao Estadão. Mesmo assim. aos 31 anos. estavam interessadas no personagem Ana C. . e assim o círculo se completou. Era o Triângulo das águas. mas as pessoas. O Rio de Janeiro. Caio ficou ofendidíssimo. que a levou a se jogar da janela de seu quarto em outubro de 1983. violentíssima. sabendo que a situação de Ana é delicada. Além de muito culta. das coisas a se fazer. Nessa época. belíssima. Ela era muito amiga de Graça Medeiros. ele tentou. Imagina se ele ia se entregar desse jeito ao mercado. como escreveu um livro totalmente diferente de Morangos mofados. sentia falta de tudo — dos amigos. São Paulo estava cansando. uma vez longe delas. mais uma vez. que por sua vez era grande amiga de Caio. passou a ser uma maldição. na deusa. Ana Cristina está deprimida. para estar perto.Morangos mofados já estava terminado. ele amava. da Brasiliense. grande ensaísta e poeta. Tão ofendido ficou. não as suportava. mais que interessadas nos poemas. Ana era bela. Caio se muda para o Rio para ajudar a cuidar. das folhas dos plátanos. Ele tinha essa relação de amor e ódio. o livro que pouca gente entendeu. que sabia o quanto era sedutora. Caio decide se mudar para o Rio de Janeiro. Caio estava muito próximo da poeta Ana Cristina César.

dança uma chula.Ana vai visitá-lo. E esse não seria o único estremecimento entre os dois. Nunca vi ninguém tão frágil. Something like that. com as depressões de Ana. Magra. e em seguida passa-lhe uma descompostura.] Parece Isabelle Adjani em Nosferatu. E lúcida. como os amigos sabiam. chorosa. onde moraram Rita Lee e Raul Seixas. Se ele a usava para sair de suas próprias depressões. Caio vai à festa. Caio às vezes gostava de falar. mas troppo morbo. ele adorava um bom churrasco.. têm uma idéia de terapia para Ana C. Põe mal nisso. por vezes. Porque tá uma crise sensível demais.. Com toda minha gripe. somos mais por uma terapia bageense.. toma uns mates. Caio a segura. em crise. certo dia. prenda. zombando de si mesmo: — Fala grosso. . uma tirana do lenço.[. é algo a se conjecturar. Imagina uma alface (ela) ao lado de uma costela gorda (eu). mas é bem possível. eu era um poço de saúde ao lado dela. sempre irônico. naturalmente. corre uma história em que ela. te joga nua no açude na hora da sesta." A terapia Fala Grosso Veado. por mais natural e integral e macrobiótico que Caio pudesse tentar ser. depois que começa a ser sugada. Ainda que amasse muito Ana Cristina. linda. relatado por Caio em carta a Jacqueline Cantore." Caio e Graça Medeiros conversam. MAL.. "Ana C. dá pra entender? Recomendei uma brahma na esquina com uma coxinha e um dreherpra rebater. Há pelo menos um outro. veado! E a terapia que ele imaginava para Ana C. come uma costela gorda. ameaça se jogar da janela. a situação entre os dois não era sempre um soneto de amor e paz. Não sei contar direito. Ele descreve o encontro em carta a Jacqueline Cantore. Era aniversário de Ana Cristina. Se houvesse um whisky pra completar. tipo te fresqueia. consumida. melhor ainda. trêmula. Caio se irritava. no hotel em Santa Teresa que Caio escolhe como moradia — um hotelzinho hippie. ia mais ou menos nessa linha: ". e estivesse no Rio em parte para ajudar a cuidar dela.

Caio engata uma conversa animadíssima com o tal T. T. desconfiadas. Na volta. Ana Cristina vem falar com ele. De repente chega L. — O que está acontecendo entre você e T. No aniversário de Caio. se despede com uma bomba: "te encontro amanhã às quatro no Amarelinho". É o último encontro dos dois. retire-se imediatamente. no livro de cartas.. — Vocês vão se ver mais? — Marcamos um encontro amanhã. Não é a última vez que os dois se vêem.. Além de Graça e Ana. — Você está me expulsando. A situação se ameniza.: — T. amigos do Rio. Três horas de conversa. por favor. está na festa com o namorado. — Então.. — Você sabe que ele vive com L. As pessoas em volta olham.onde conhece um rapaz — identificado apenas pela inicial T. — Me permite um conselho? — Pode ser. ele me disse. Caio tem muitos amigos no Rio. — Sinto muito. em setembro. — Então tchau e feliz aniversário. — Não vá a esse encontro. mas vou mesmo. sem ressentimentos. Ela achava o máximo que ele tivesse se mudado para um hotel para . No ouvido de Caio. com quem vive há quatro anos. Outras pessoas aparecem no hotel. L. obviamente. o Caio. T. vamos embora? Eu não estou gostando nada disso — disso sendo. há QUATRO anos? — Sei.? — Achei ele ótimo. Caio vai ao banheiro. — Estou. Não se importando muito com a longevidade da relação. para ver se os dois voltam a se entender. Graça Medeiros leva Ana até o hotel em Santa Teresa. na época esposa do compositor Carlos Lyra. só isso. que ficou famosa em programas humorísticos na TV pelo bordão "Brasileiro é tão bonzinho!". Como a atriz Kate Lyra.

que ao saber da visita do escritor já preparava o conhaquinho que ele adorava. quando foram chamados para escrever uma novela com José Wilker. editou os livros de Caio na Nova Fronteira. e Caio adorava visitar Pedro Paulo em seu apartamento no Leme. Pedro Paulo. porém. Madame Bovary era frívola. achava muito fútil todo aquele ambiente de coluna social. Stendhal. Não era futilidade. Kate era inteligente. que adorava ironizar a origem do amigo. mas a amizade perdurou. era amigo de Caio. Aí Caio entendeu. Machado de Assis. começou a lê-los por causa do Caio. Um dos aspectos do ambiente que permitira que Pedro Paulo. governanta. que vinha de família tradicional e endinheirada. nem parece que você leu Proust. Flaubert. Adorava também Carlos Henrique. Conversavam de literatura — o lado pop escondia a conhecimento profundo que Caio tinha dos clássicos. via nele a mesma unicidade. E é claro que o editor não levava . que nunca tinha dado grande atenção aos beatniks. criaram um papel só para ela. No caso de Pedro Paulo. Era louco por D. Maru. entre outras coisas. Outra amizade importante é o editor Pedro Paulo de Sena Madureira. Caio não inventou um personagem. e ele adorava o jeito dela. que conhecera o escritor por indicação de Lygia Fagundes Telles. A novela acabou não se concretizando. de uma cantora de rock russa. Tanto que Mário Prata e Caio. o próprio. Proust. por literatura. E Pedro Paulo. era frivolidade. este respondeu: — Caio. além de linda. Ele gostava de criticar os amigos que começavam a ganhar dinheiro: dizia que tinham se vendido ao sistema capitalista. praticamente da família. Proust também. Mais que editor. se interessava por filosofia. adquirisse tanta cultura. Em uma das ocasiões que questionou esse lado de Pedro Paulo. e. engraçado. companheiro de Pedro Paulo. ele e seu texto eram uma coisa só. espontâneo. Havia muitas afinidades entre os dois. Ficaram amigos imediatamente. a mesma falta de cisão que havia em sua própria personalidade: a biografia de Caio não era separada da obra. de alta sociedade.escrever. é claro. organizadíssimo.

— Triângulo das águas — completou Caio. Mas assim que o livro foi sendo absorvido. três novelas. Morangos tem um realismo que as novelas do Triângulo não buscam. — São três? Triângulo. Caio teria ficado muito feliz em receber uma quantia assim. sobre os arquétipos dos três signos do elemento água. Tinha grande domínio e preocupação com a forma. narra a . esse fluxo de palavras. se refere ao signo de Peixes. São três signos de água. Um título estava pronto. além de prestígio. e as comparações com Morangos sendo deixadas de lado. em contraste com os contos mais diretos de Morangos. O marinheiro. em Morangos. por exemplo. sabia o que estava fazendo. Por todas essas diferenças. são contos. a começar pelo tipo de texto. Dodecaedro. o livro estava pronto. ele ficou mais que feliz com sua estatueta. A primeira novela. a Escorpião. a Câncer. como é que não tem título? Chove nas três histórias. confere uma quantia em dinheiro aos ganhadores. Pela noite. até por ser um livro construído sobre uma estrutura astrológica. Levou o material para Pedro Paulo. mas como ainda não havia. A primeira das três novelas. O excesso de palavras do livro.a sério toda aquela mise-en-scène. um dos mais prestigiados do país. e no Triângulo. O triângulo das águas difere em tudo de Morangos mofados. Quando Caio entregou O triângulo das águas. o prêmio. a situação melhorou: o livro ganhou o Prêmio Jabuti. A terceira. que disse: — Caio. — São os textos das águas — emendou Caio. na época. a segunda. Dodecaedro. Hoje em dia. Caio era um escritor que não dava trabalho aos editores: entregava o texto praticamente pronto. O triângulo das águas causou estranheza. é uma escolha de Caio: ele busca esse jorro de água. Só faltava o título.

também. esse vagar. Seus olhos tinham a cor do mar. E se foi. em São Paulo. e que em certo dia recebe a visita de um marinheiro. enquanto ouvia. mesmo assim recomecei a chorar. o ser humano está sempre sozinho. Conquistara esse verde. conta-se como. revelando suas culpas.. Combinam de se ver de novo. sem parceiro fixo. Ele vive uma tumultuada vida amorosa. seus medos. [. solitário. O marinheiro. antes que seja tarde demais. Tinham a cor exata de quem. e o outro é Santiago.] Não estava triste. O triângulo das águas foi também o primeiro livro de Caio a mencionar a aids. como a Macondo de Garcia Márquez — se reencontram anos e anos depois. foi para São .história de doze amigos juntos em uma casa. através da vida do homem que decidiu se encerrar em casa. todas as horas. por causa de um personagem de Cortázar. olhou detidamente o mar. suas inseguranças. enquanto Santiago. E ao contar-se a história de cada um. O dono do apartamento onde ocorre o encontro arma um jogo de sedução. que vem como um profeta. aborda também o tema da solidão. em que ele é Pérsio. vindos do Passo da Guanxuma — muito parecida com Santiago. um jogo em que eles assumem outras identidades. na novela Pela noite. outra vez. depois de ter sido noivo de uma mulher por seis anos. Dois amigos de infância. era a cidade fictícia a que Caio sempre se referia. suas palavras jorram incessantemente. A segunda novela. mesmo cercado de amigos.. E provavelmente foi também o primeiro texto de um autor brasileiro a falar da doença. por muito tempo. uma mensagem. para lhe trazer a boa nova. Tocou de leve na minha mão estendida. imóvel. inquieto. por causa do personagem de Garcia Márquez. em uma sauna gay. o aviso guardado para sempre na memória das paredes: — Abraça tua loucura. e as emoções que atravessam em determinada noite: as paixões e tendências e medos de cada um vão se desvendando aos poucos. durante todos os dias de muitos meses e anos. para fugir das dores e paixões do mundo. Pérsio fala e fala.

ao seu final. marcada não só pela doença. duas ou três vezes. lamentando a morte do estilista. A partir daí. embora ainda envoltas em suspense. Caio estava no hotelzinho em Santa Teresa. Aqueles que tinham experimentado o amor livre. As notícias chegavam rápido ao Brasil. começou-se a achar que a doença tinha algo a ver com esse "comportamento" ou com essa "identidade" homossexual. A aids parecia castigo divino. suspense derivado. Como a única coisa em comum que as primeiras vítimas tinham era o fato de serem homossexuais. ele não a entende. pelo medo. a paranóia só aumentou. E contaminados estavam todos. Quando mais pesquisas foram feitas e se descobriu que a contaminação também podia atingir heterossexuais. mas também pela abertura política e pelo desvanecimento dos sonhos da contracultura. E no Brasil. . e sobre como ele agia no organismo. Desde o início da década de 80. a vida em comunidades. realmente. castigo aos gays. de certa forma. a partir do momento em que se diagnosticou o vírus. Essa estabilidade. da ignorância: pouco se sabia sobre as formas de contágio. essa tranqüilidade em lidar com a própria identidade sexual. é ele que menciona. sobre o vírus causador da doença. tudo a que tinham direito. as drogas. Ele e outros hóspedes ficavam bebendo e conversando. para a qual não havia cura. Quando soube da morte dele. o estrago já estava feito. Três anos depois de acabar. na verdade. uma doença devastadora que só atingia homossexuais. aos drogados. já se ouviam rumores sobre o que a mídia passou a chamar de "câncer gay". a aids. Cheio de culpas e medos. Pérsio não a tem. o marco da chegada da aids foi a morte do estilista Markito. e talvez a inveje.Paulo e ficou dez anos junto de um homem. ninguém podendo entrar nem sair do hotel. estavam agora condenados a viver sob a paranóia da contaminação. uma chuva abundante caindo. a década de 70 chegava. A vida do pessoal egresso da contracultura estava mudada para sempre. a todos que levavam uma vida libertária.

Além de reunir muitos escritores. Caio também escolheu mudar. havia a aids. por exemplo. Em outubro de 1983. Como se Ana não aceitasse. A maioria escolheu mudar. é a grande oportunidade de comprar livros a preços mais baixos que no resto do ano. ou não pudesse aceitar a mudança. ela se matou. em barracas ao ar livre na praça. Ele viveu os anos 80 com a mesma intensidade com que vivera os 70. madrinha da noite. e todos os anos a escolha do patrono da feira causa grande expectativa na imprensa e nos círculos literários locais. . Acompanhava o teatro. ítalo Moriconi escreveu que a morte de Ana foi um marco. parecido com Jesus Cristo. roupas sempre escuras. O triângulo das águas já tinha sido publicado. E do grupo teatral Asdrúbal Trouxe o Trombone. é uma tradição em Porto Alegre. o escritor assemelhava-se mais a um punk. e Caio foi a Porto Alegre lançá-lo na Feira do Livro. como Fernando Gabeira. Ao lado de Caio no lançamento de um de seus livros. Muitas editoras organizam seus lançamentos em função do evento em Porto Alegre. porém. ou a um dark. para algumas pessoas. por causa de sua barbinha. Adorava Marina Lima. Cazuza. do fim da década de 70. era entusiasta das novas manifestações. Há muito já não era o hippie de cabelos longos. Era fã. por exemplo. que vão lançar suas obras e autografá-las para o público. congelando sua Imagem nos doces anos em que se podia pensar em mudar o mundo. ela ficava sussurrando para ele: você é Quixote! Você é Quixote! Agora. que volta do exílio exibindo sunga de crochê nas praias do Rio. A escritora Clarice Lispector o chamara de Quixote. Porque era mais ou menos isso: mudar ou morrer. A feira. Estava ligado no seu tempo. e um orgulho de seus habitantes. calça e jaquetas de couro. a música. também. o medo dela era tão parte dos anos 80 quanto qualquer música da Legião Urbana. dos Titãs. O sangue de uma poeta. nos novos acontecimentos.Em seu perfil de Ana Cristina César. Infelizmente.

E uma lembrança triste. Talvez não imaginasse que ela conseguiria. dos quais Caio gostara muito. Bruna abriu a bolsa e disse: — Olha que estranho: quando eu estava saindo de casa para pegar o avião.Um dia depois de lançado o livro. ele diria ainda. meio mago. A "mágica" da lembrança não aparece aqui por acaso. meio mágico. e aquela coisa estranha no ar. Ele conhecia . você tem que ler esse livro' — e puxou da bolsa um exemplar de A teus pés. A atriz tinha escrito alguns livros. a dor que ela sentia. você me veio na cabeça dizendo 'Bruna. e desde então tinham se tornado grandes amigos. Ao menos na versão que Caio contou para o jornalista Eduardo Sterzi. — Bruna. "Tinha um toldo. Caio resolveu procurar Bruna. O estado emocional de Ana. mas quem? Os amigos em comum com Ana Cristina estavam todos no Rio. Não é incomum. Sempre que Caio estava em Porto Alegre e ela aparecia na cidade. Caio chorou. de coincidências inexplicáveis. o jornalista José Castello viajaria para a Europa no mesmo avião de Caio. eu vim aqui te contar que a Ana se matou. pela ingestão de remédios. onde se recuperava de outra tentativa de suicídio. que o entrevistaria anos depois. todo mundo transpirando. Caio ficou desnorteado. quando se trata de histórias envolvendo o Caio. o livro de poemas de Ana C. Jogou-se da janela da casa dos pais. E assim a notícia foi dada a Bruna. e o Mario Quintana lindo. a presença de um toque estranho. na entrevista. Caio recebe um telefonema: Ana Cristina César está morta. Às vezes. Então Caio se lembrou de Bruna Lombardi. De qualquer modo. e a Bruna linda. passear. ao mesmo tempo. no sétimo andar. ao gesto máximo do desespero. feita na semana anterior. quando o próprio Caio viria a ser o patrono da Feira do Livro. ele a buscava no aeroporto. levava-a para sair. não era surpresa para ninguém. Nos anos 90. que estava na feira acompanhando Mario Quintana. jantar. chorou convulsivamente. mágica". Mas talvez Caio não imaginasse que a poeta chegaria ao ponto extremo da dor. mas. ele parecia ser meio bruxo. Precisava dividir o sentimento com alguém. Quando o viu.

Ecos de Edgar Allan Poe e sua literatura sombria. A medida que o tempo passa. que tanto apelo tem junto a certos tribos urbanas. Um bruxo. havia um lado seu que era obcecado pela morte. como os góticos. Castello ficou fascinado pela figura do escritor: parecia um mago. é que a morte de Ana Cristina foi um fantasma que o perseguiu por muitos anos. no entanto. se atormentou pelo fantasma de Ana C. Caio falava e falava nela. muito misterioso. pela aids. da poesia de Baudelaire. era uma obsessão. Por mais que ele insistisse na vida. também. com tanto ódio quanto freqüência. poetas amados por Caio. Deus.o escritor de vista. que tinha uma arma para sobreviver — a literatura —. poetas malditos. certa raiva. a obsessão fica mais forte: pessoas de quem só ouvimos falar começam a morrer. Nem sempre é possível separar suas versões da verdade. Ana C. ele escreveu a Jacqueline: "E não conseguir dormir: na minha cabeça." A imagem da morte perseguia Caio. enquanto Caio botava o taro para as garotas sentadas a seu lado. junto com o amor. E foi esse lado que. coisa que pouca gente tem. Ficou apenas observando. E se apaixonou. Dizia-se um hedonista. mas ia ao banheiro com freqüência. por fim os . algo que o inquietava. depois amigos de amigos. e assim se desculpava antecipadamente por eventuais mentiras ou fantasias. Talvez herança do romantismo. o Caio. Depois do choque. negra. parada à beira de uma janela. e ao banheiro mais distante da sua poltrona. com que direito ela fez isso? Logo ela. que o tocava profundamente. para quem a morte foi sempre o grande tema. Essa idéia de morte romântica. Uma verdade incontestável. desde o começo. Com que direito. se alojava em seu lado escuro. suas macrobióticas. que o interessava. ou mesmo de outros autores. de certa forma. calava fundo em Caio. em seus incensos. Quando ela morreu. Pensamentos mórbidos: o que ela teria sentido um segundo antes de se jogar no espaço. apenas para passar em frente ao escritor e poder dar uma boa olhada nele. Castello não se atreveu a cumprimentar Caio. Tímido incurável. de Rimbaud.

A doença espreita. na noite. Porque quem ele queria gostava de homens. [. e sempre. e se revolta contra ela. Por várias pessoas ao mesmo tempo. sofria. Touro ascendente Capricórnio. Atendia pelo nome de Ivan Mattos.. a única coisa que não pode fazer é ignorá-la. A beira dos 35 anos. e por isso às vezes acabava escolhendo algum que não era homossexual..] Eu pensava que não existia. loucamente apaixonado. Porque tudo que vivi e senti antes me parece agora bobagem. Algo assim. as pessoas com quem dividimos casa e comida. em geral não muito alto — o que não quer dizer que não estivesse perdidamente. gays mais sóbrios. ". Porque quem ele queria gostava de homens também. era ator.. E mulheres. Não que Caio não se apaixonasse muito antes de conhecer Ivan. mas só de vez em quando. fala sobre ela. como um ladrão. esperando o momento certo de entrar na casa. Ou que. Porque quem ele escolhia só gostava de mulheres. Ele se apaixonava muito. O motivo tinha vinte e poucos anos de idade. o motivo. não era para mim". ao se apaixonar. Caio preferia os homens mais másculos.próprios amigos. e Caio estava perdidamente apaixonado. Caio ficava com vários tipos de caras. se existia. mas não queria compromisso sério. além de lançar seu O triângulo das águas na feira do livro. muitas vezes — porque quem ele queria não o queria. brincadeira. Sofria de paixão. eu estava certo de que não existia. começam a ficar doentes. mas para ficar. em graus de comprometimento variados. para se divertir. Chegou a sustentar três ou quatro casos ao mesmo tempo. eu pensava que não existia. Imagino que isso que chamamos de amor. sofria de amor.Também porque aconteceu uma coisa que. às vezes. a odeia. Havia mulheres. Caio tinha um motivo a mais para ir a Porto Alegre em outubro. e tinha uns olhos que mudavam de cor. se aproximando.. escreve a Maria Adelaide Amaral. Caio sente essa sombra se aproximando. Caio sofria. sim. Há quem diga que. mais viris. ronda. Caio chegou a namorar sério . como Deus. Sofria de rejeição. Gays mais espalhafatosos..

Caio vivia seu caso com Cacaia. Houve homens. Caio abriu a porta. e a maior parte dos seus contos. Pessoas se apaixonam por pessoas. Ele chega. são dedicados a alguém. Houve uma arquiteta. nada mais natural que o livro fosse dedicado também a ela. cujo apelido era Pifa. ou simplesmente uma forma de expressar carinho. ele dedica o livro Morangos mofados. ou do amigo com quem viveu fatos muito parecidos. Uma amiga veio até sua casa num domingo chuvoso. que a apresentou ao escritor. Esse tipo de homenagem era constante na literatura de Caio: todos os seus livros. e bate na porta. ansioso. e solidão. já morava em São Paulo." Em muitas entrevistas. . desde o início dos anos 70 até o final da vida. Caio sempre repetiu que não acreditava em homossexualidade OU heterossexualidade: acreditava. pensara em se casar e ter filhos. Embora ele tenha tido clara preferência por homens a maior parte da vida. de Morangos mofados. em 1995. Houve mulheres. em sexualidade. Houve Maria Emilia Bender. Para uma delas. "Foi ótimo. como ele escreveu em vários textos. contou o escritor. não por rótulos. a Cacaia. inclusive. Houve também Vera Antoun. Na época em que escreveu Morangos mofados. "Me jogou na cama e me estuprou". Houve paixões. debaixo de chuva. isso sim. Cacaia era amiga de Graça Medeiros. que sua primeira experiência sexual teria sido com uma mulher. e com quem o escritor. houve algumas mulheres de quem gostou. sem que nada no conteúdo do texto justificasse aquela dedicatória específica. E decepções.algumas delas. Podia ser uma lembrança da pessoa que o inspirou a escrever a história. sempre construindo castelos em cima de nuvens. mas ela não o deixou falar uma palavra. Um exemplo é o conto Além do ponto. Ele contaria em entrevista à Marie Claire. paixão que aconteceu mais por carta que pessoalmente. em que o protagonista vai até a casa de alguém. Ele tinha 19 anos. Maria Clara Jorge. levando cigarros e conhaque.

os dois se apaixonaram. por exemplo — é Ivan. dirigida por Luciano Alabarse. e continuei batendo sem me importar que as pessoas na rua parassem para olhar. A peça estava sendo encenada dez anos depois de ter sido proibida pela censura dos militares.E bati. era tudo um engano. mas eu não ia mais indo por dentro da chuva. Não sem antes pedir de volta a Ivan as . se é que ele o teve um dia. eu quis chamá-lo. ficou alguns meses com ele. outra ação. e tornei a bater. pelo meio da cidade. água de chuva e lama e conhaque no meu corpo sujo gasto exausto batendo feito louco naquela porta que não abria. de temperamento — venceram. talvez eu tivesse febre. se é que alguma vez o soube. Foi uma das mais longas relações de Caio de que se tem notícia — durou pouco mais de um ano — e mesmo assim não foi uma relação fácil. O jovem ator — na época com vinte anos — participava da montagem da peça Pode ser que seja só o leiteiro lá fora. Caio conheceu Ivan. de Caio. em Porto Alegre. idéias misturadas. Os dois se separaram. tão escuro agora que eu não conseguiria nunca mais encontrar o caminho de volta. e o afastava de Caio. ele acompanhou a montagem do amigo Luciano. que ele convive com Cacaia. depois do ponto. os poços profundos onde ninguém entrava. em que Caio mora no Rio de Janeiro. mas no final as diferenças — de idade. e Caio voltou à sua desastrosa vida afetiva de sempre. isso tudo não fascinava Ivan. eu só estava parado naquela porta fazia muito tempo. as depressões de Caio eram um fardo pesado demais a carregar. mas tinha esquecido seu nome. que conhecia desde os tempos em que freqüentava o Centro de Artes Dramáticas (CAD). tudo ficara muito confuso. e bati outra vez. eu continuava batendo e continuava chovendo sem parar. e nas idas de Caio a Porto Alegre. nem tentar outra coisa. Ele viajou com o escritor para o Rio. Para a juventude de Ivan. outro gesto além de continuar batendo batendo batendo batendo batendo batendo batendo batendo batendo batendo batendo batendo batendo batendo nesta porta que não abre nunca. porque é mais ou menos nesse período. tremores. mas o assustava. O lado escuro. E em 1983 a paixão principal — não se pode afirmar que fosse a única.

Entre os atores escolhidos para atuar em Reunião de família. de Lya Luft. talvez. ele e Caio ainda namoravam quando o escritor começa a adaptar a obra. numa referência à adolescente alemã Christiane F. já sabendo quem seriam os atores de antemão — Luciano os havia escolhido — Caio podia escrever o papel de cada um pensando nas características de cada ator. talvez. era mais engraçado. às vezes. drogada. quatro cartas por dia.. Caio aproveitou para tentar uma coisa nova em seu trabalho: a adaptação do texto de outra pessoa. de mistérios. Christiane F. Nas cartas. com medo. porque assim tinha mais gente com quem trocar correspondência. em que ele se expunha muito. de várias páginas. A literatura de Caio tinha vários pontos em comum com a delas. cuja história é contada no livro Eu. 13 anos. A adaptação de Caio foi muito bem-sucedida. de questionamentos sobre a existência. que seria levado ao palco no ano seguinte. de que aquilo pudesse ser usado contra ele de alguma forma. Lya era amiga de Caio. frágil e aberto que pessoalmente. mais solto. embora já não estivessem mais juntos quando o texto foi levado ao palco. um universo cheio de brumas. Caio escrevia três. assim como outras escritoras de renome. O texto era Reunião de família. pelas similaridades existentes entre seu universo e o de Lya Luft. escrito pelos jornalistas Horst Rieck e Kai Hermann. com direção de Luciano Alabarse. Cada . tímido e arredio. mais derramado. Ajudou também o fato de que. nas cartas. E ele era compulsivo em relação a escrever cartas: adorava conhecer pessoas novas. Todas tinham grande apreço por ele e respeito por sua obra. principalmente com a de Hilda. como Caio F. e eram cartas longas. Ao vivo. Assinava. prostituída. em 1984. claro. era discreto. estava.. que já dirigira a montagem de O leiteiro.apaixonadas cartas que tinha escrito a ele. muitas vezes. Caio era sempre muito mais sensível. um pouco. Na pequena temporada que passou em Porto Alegre.. Ivan. como Lygia Fagundes Telles e Hilda Hilst.

que poucas vezes tinham a chance de fazer um papel que se ajustasse plenamente às suas características e potencialidades. agora já não unicamente minhas. Nele. [. Fala do mergulho que deu numa história de amor tão linda que era como se fosse a primeira. mas a confiança que tinha em Caio venceu. no Menino Deus. no ano seguinte. foram deixando de assombrar. numa cidade deserta. era pensada para aquele ator específico. Lya ficou mais que feliz com o resultado: "Nos diálogos. a fascinação pela morte. a partida súbita de Lígia Averbuck. No final. "Encurralado entre o salto pela janela de Ana Cristina César. Embora não cite o nome de Ivan. do receio que teve a princípio.] Nas noites.fala. outros em linguagem cifrada. a fuga incompreensível de Carlinhos Hartlieb." Caio também escreve um pequeno texto para o livreto. embora não fosse o único lado do escritor. todas as horas a morte rondava. deixavam de ser aquelas figuras torturadas que habitavam o livro original. No texto. uma nova dimensão. mais expressiva ainda que o livro. aos poucos. Acho que Caio conseguiu uma coisa rara: uma adaptação que me pareceu. é a ele que se refere. Mas. todo o lado escuro que. mas nossas — minhas e de Caio Fernando Abreu — adquiriam uma nova vida.. elogiando o trabalho de Caio. depois de anos. Caio mostra algumas de suas obsessões. Carlinhos. ajudaram no sucesso da peça. nem por isso. Decidi trocar este árido Porto pela . assim. Ivan alega não ter conseguido suportar. de volta ao quarto de onde saí para a estrada. há textos de Lya Luft. no sobrado de meus pais. em muitas coisas. a vida e a dimensão das figuras de teatro. Ela fala do medo que tinha de alguém mexer em um texto seu. Os papéis escritos sob medida. emboscada entre objetos familiares de muitas gerações. além de serem uma oportunidade rara para os atores de teatro. sozinho num verão escaldante.. alguns de forma direta. Lígia e Ana C. No livrinho que acompanhou a apresentação da peça. senti que aquelas personagens. alude a acontecimentos de sua vida. e a autorização foi dada.

com o trabalho de Paula Dip e Antônio Bivar. Descobri dolorido que aquele amor não era especial nem para sempre: trocamos em miúdos pobres as juras de eternidade que. por acreditarmos em encontros." Os cachinhos do arcanjo são os cachos de Ivan. era Repressão sexual. o amor que não era para sempre. uma das primeiras do local. sucesso. Risco no céu. a morte que ele teve que enfrentar para lidar com os demônios do texto de Lya. ainda somos capazes de fazer. Enquanto ganhava a vida trabalhando na IstoÉ. house-organ da casa noturna Gallery. Carlinhos viajou para a Praia do Rosa. quando coordenava o IEL. Então colei os cabelos eriçados do punk sobre os cachinhos do arcanjo. Um dos donos da Gallery era José Pascowitch. assumindo minha carajá muito mais paulistana que fronteiriça. Tão juvenis — graças a Deus. seu corpo foi encontrado na casinha de madeira que construíra. a profissional estava indo melhor que nunca. Era a morte. irmão de Joyce Pascowitch. na época editada por Zuenir Ventura. nas sextasfeiras.louca Sampa. fazia uns lances para a Gallery Around. Cheio de culpas e amarguras. Logo depois de gravar seu primeiro disco individual. Carlinhos Hartlieb era um importante cantor e compositor gaúcho. lançara O ovo apunhalado de Caio em plena ditadura. que Caio leu por essa época. no Teatro de Arena. e que ficou também conhecido por organizar as famosas Rodas de Som: espetáculos à meia-noite. E o livro de Marilena Chauí. Ele chamou a irmã para cuidar da revista. Ela também morreu em 1984. autor de Por favor. em Porto Alegre. no litoral de Santa Catarina. se tornou um dos veículos mais . Lígia Averbuck era a protetora dos escritores gaúchos. que. E vim à tona com o livro de Marilena Chauí embaixo do braço. Nunca se soube exatamente do que ele morreu. com grupos desconhecidos. provavelmente. nem sempre Caio estava 100% feliz com sua sexualidade. Se a vida amorosa era o desastre de sempre. No dia 3 de fevereiro de 1984.

As frangas é um livro de que Caio gostava muito. Caio ganhou várias de amigos ao longo da vida. que tinha uma paixão também enorme por galinhas — e ovos — e escreveu vários textos a respeito. Assim. A história surgiu da coleção que Caio tinha de galinhas pequeninas. Além disso. em 1986. teve pré-estréia em Gramado. já que muitas novas surgiram em seu galinheiro depois da publicação do livro. ia melhor ainda. Filmado em Porto Alegre. que morava na geladeira do Caio. Caio não teve tempo.interessantes da época. O livro é a história desse galinheiro. Aqueles dois. e tinha no elenco Pedro Wayne. ligado nas tendências. antes de morrer. que ele só conseguia chamar de frangas. Apaixonado pelas galinhazinhas. revelando talentos como Barbara Gancia e José Simão. A parte que interessava. era escrever a continuação das frangas. no Rio de Janeiro. do sucesso pós-Morangos mofados. Mas isso era o ganha-pão. foi dirigido por Sérgio Amon. Além do lançamento do Triângulo. em 1987. porque assim eram chamadas em sua infância. Um dos projetos de Caio. depois se tornou redator da revista. E ele se preparava ainda para lançar o livro infantil As frangas. o filme foi o único brasileiro a concorrer ao 11º Festival de Cinema Gay e Lésbico em San Francisco (EUA). Em uma referência a Rambo. a literatura. cada franguinha do livro é baseada em uma franga de verdade. homônimo. e Caio deu uma força na produção. pequenos enfeites de geladeira. O filme. Caio terminava o roteiro de um longa 35 mm que seria baseado em um conto seu. no teatro Cacilda Becker. A Gallery Around faria escola com seu estilo elegante e sofisticado. o livro deveria se chamar Frangas 2 — a missão. . Caio começou como colaborador. que aos poucos foi inventando personalidades para cada uma delas. O livro era também uma forma de homenagear Clarice Lispector. Beto Ruas e Suzana Saldanha. da adaptação de Pode ser que seja só o leiteiro lá fora. Morangos mofados também estava sendo levado aos palcos. e com muita ironia. em Santiago. Muito premiado.

analisado e blasé". agora convive com pessoas que o conhecem. Era apaixonado por jardins e flores. Caio faz uns free-lances de crítica teatral para a IstoÉ. uma bela casa de dois quartos. Caio era amigo de Regina Duarte e Lygia Fagundes Telles. adorava Claudia Wonder. Faz também dois roteiros para Regina Duarte. Ele agora quer ficar ali por um bom tempo. Apesar de tudo. diretores. revisava livros. no momento. Caio está envolvido agora com alguns projetos para televisão. E revisão de originais para a Brasiliense. Caio tinha o português ótimo e era um grande revisor. e do fim da relação com Ivan. que faz a música de abertura da série. tenta se manter mais reservado. de quem se aproxima nessa época. se a pessoa fosse interessante. Nas editoras. Ele a conheceu na noite e adorava conversar com ela sobre a vida. Com a educação impecável que recebera no Rio Grande do Sul. mas não pouco importante: Caio era apaixonado por rosas. convidando os leitores a assistir ao seu show. começa a trabalhar. . era bom copidesque. Ele não se deslumbra com as estrelas que estão a seu lado. Caio. Vai morar em uma casa alugada do ator Ricardo Blat. Além do trabalho com a TV. Depois da morte de Ana C.entretanto. Ela faz a série Joana. Um dos livros que revisou foi Feliz ano velho. ao mesmo tempo. que manteria anos depois uma coluna na revista G Magazine. Na casa nova. em carta a Luiz Arthur Nunes). já um pouco esquecido da loucura que é viver na cidade. não quer virar "moda besta". duas mulheres respeitadas e famosas. decadentíssimo. em uma ocasião. de concluir essa história. Os dois chegam a sair juntos. diz. bêbado. diz Caio. Assim. Nos jornais. uma série sobre São Paulo com Bruna Lombardi e Carlos Alberto Riccelli. Caio volta a São Paulo. Está cercado de estrelas. atrizes. Quando começou a escrever crônicas para o Estadão. Trabalha em um roteiro para Ronda. vão a um show de Caetano Veloso ("lindo. não importava se era famosa ou não. com uma roseira no pátio. travesti paulista. Detalhe singelo. escritores. Caio chegou a falar de Claudia e seu trabalho. sempre fã de Caetano.

fazia Artes Cênicas no CAD. começam a ser pedidas pelas editoras. como Luiz Fernando Emediato. e só foi escrito para contar a história do acidente que. O ovo apunhalado era um livro que já tinha história e fãs ferrenhos. faz também traduções. era um rapaz muito novo e inexperiente. que na verdade ele é que teria escrito o livro. desde que faça modificações. Reedições de seus primeiros livros. tanto que a literatura fica meio em segundo plano: seu próximo livro de contos. onde trabalha agora o editor Pedro Paulo de Sena Madureira. É uma fase de intenso trabalho para Caio. Corre a história. Marcelo teria entregado uns rascunhos toscos para Caio. mas é preciso aparar algumas arestas.de Marcelo Rubens Paiva. O primeiro que o fez chorar em muito tempo. aos 20 anos de idade. Caio concorda em reeditar. E um escritor com público cada vez mais fiel. Feliz ano velho era seu primeiro livro. pela boca de defensores fiéis de Caio. Perfeccionista. de John Fante. dizia. de tantas modificações que foi obrigado a fazer. atualizá-lo. deixara o rapaz para sempre paralítico. leu o livro em 1982 e se apaixonou imediatamente. A edição sai pela Siciliano. autor que admira. Então. e ele praticamente teria reescrito o livro. Grace Gianoukas. Além das revisões de livros. quer mexer no texto. que foram publicados de forma quase artesanal quando ele ainda era adolescente. O próprio Caio. em 1984. Caio já pode olhar para trás e ver que construiu uma obra. Aos 36 anos. só sairá em 1988. Uma de que gosta muito é a de Sonhos de Bunker Hill. teria contado a amigos. corrigir erros. A base fica a mesma. publicado no mesmo ano de seu Morangos mofados. ele apenas poliu o texto de Marcelo. e morava com mais dois . Os dragões não conhecem o paraíso. que a história era um exagero. e o revisa todo. Ele é. melhorar o estilo. ele retoma o livro escrito uma década antes. Ela estudava em Porto Alegre. que. definitivamente. no entanto. atriz gaúcha. para uma nova edição de O ovo apunhalado. um escritor. que já lançara anteriormente o livro pela Salamandra. afinal.

e desde então se tornaram grandes amigos. quando Caio está morando na casa onde . e também trabalhava no restaurante. mas foi ótimo etc etc. Grace trabalhava em um restaurante de comida natural. quando Caio foi lançar O triângulo das águas na Feira do Livro. o Caio tá aí. só para ver o Caio. de verdade mesmo. Em 1984. Grace convidou-o para assistir ao seu espetáculo O Acre vai à Rússia. Dias depois. Já estava tudo escuro. ai ai ai! Shell. Caio ia a festas na sua casa. foi como uma bofetada: apaixonou-se pelo estilo. pelas coisas que ele dizia. conversaram de verdade. cumprimenta. os atores abraçavam o público. Grace não tinha dinheiro para comprar o livro. Tempos depois. mas Grace o viu entrar. agradeciam a presença. encontram-se por acaso num bar. o amigo de Santiago que fora com Caio para a Suécia. ela estava sem nada para ler. Ele passa. o Caio! O Caio tá aqui. Ai meu deus. Um dia ela vinha caminhando. Daí a pouco. muito blasé. de vanguarda. meu ídolo. Mas foi em frente. os pratos na mão. meu ídolo. ai meu Deus. e ela deu de cara com o Caio sentado em uma das mesas. Grace recebe um bilhete. irmã de Augusto Rigo. ela achou interessante. quando abriram-se as portas vai-e-vem..amigos do curso de Letras. Adorei o espetáculo de vocês. arrastou Grace pelo braço e a levou até a mesa. saíam juntos. Passou a semana de visita deitada na cama. lendo e relendo o livro. entrou na fila de autógrafos. Era do Caio. cidade que fica a quatro horas e meia de viagem de Porto. Na época. e lá foi ela dar um jeito de abraçar o Caio. Aí foi aquela festa: Grace foi para a mesa dele. Quando leu. um espetáculo moderno. que estava sendo muito elogiado na época. Ele foi muito correto. Meu Deus. apresentou-a ao Caio. não fui ao camarim porque sou muito tímido. e numa das visitas que faria à família. Mesmo assim. Caio vai ao espetáculo. tipo faroeste. pela primeira vez. pelo autor. Um dos amigos que moravam com ela lhe mostrou O ovo. Em 1983. mas não lhe deu muita atenção. No final. Voltou imediatamente. eles conversaram um pouco.. Mas Grace era natural de Rio Grande.

Os dois se sentaram no sofá. querendo falar com Ricardo Blat. — Eu também sou Abreu. Principalmente Clarice Lispector. Numa tarde. trabalhava no show-room. Então Caio se justificou. bem humorado. A noite. Grace não sabia onde se esconder de vergonha. ainda sorrindo. Caio foi gentil. . Aos olhos de Caio. E vamos indo. Grace só conhecia o lado meigo do Caio. Quando pediram para ir ao banheiro. aos vinte e um anos de idade. Grace era ainda uma menina. pois ele é que conhecia o rapaz. para alegria do escritor. que se mudara para o Rio de Janeiro. quando Caio estivesse em casa. Orlando tinha um show-room de moda. já empurrando os senhores porta afora. Grace viu os olhos de Caio transformarem-se em fúrias. Grace conheceu James Joyce. mas só entrava em greve. Todo mundo é Abreu.antes morava Ricardo Blat. Ele a protegia de todas as formas: lhe dava conselhos.. ela viria a conhecer seu lado agressivo. O Brasil inteiro é Abreu. porém. apareceram dois homens alegando ser oficiais de Justiça. com quem ele morara na casa da Melo Alves. apresentava-a a amigos. Caio também apresentou Grace a Orlando. Por essa época. Ezra Pound. Um dos homens pediu um copo d'água. a grossura com que Caio tratara os oficiais. Depois de uma visita a São Paulo junto com o irmão. em que se hospedaram na casa de Caio. mostrava livros que deveria ler. Caio foi crucial nesse momento: insistiu para que ela viesse. Um dia. Airton. Quando voltaram. ofereceu sua casa. Clarice Lispector. Disse que Ricardo não morava mais ali. Grace disse para voltarem à noite. vamos indo embora — responde Caio. — O senhor é Abreu? — perguntou um dos homens. era garçonete. disse que Porto Alegre era pequena demais. que adorava sua companhia. Grace decidiu vir morar de vez. sempre em greve. o lado gentleman. Grace vem morar com ele. — Aham. Tudo bem. A faculdade ainda não terminara. De dia. onde Grace passou a trabalhar. Ele começou a mudar. Caio deixou entrar. Com Caio..

o da direita aumentando. quando decidia dormir. o montinho de papéis da esquerda vai diminuindo. sabe-se lá por quê. um bar moderninho de São Paulo. Caio quis mandá-los logo embora. uma cervejinha. ele bate à máquina. Caio está fazendo café: é hora de escrever. o isqueiro e os cigarros. plantar drogas para um possível flagrante. Usava. Caio tinha antecedentes: por duas vezes. Quando há uma ou duas bitucas no cinzeiro. substitui o café por Jack Daniels. Paranóia ou verdade. não tinha nenhuma droga de sua preferência. a pilha de textos escritos. na noite. Quando percebeu isso. Do outro. Anfetaminas. Ao alcance da mão. Um bom whisky. aqueles homens não eram oficiais coisíssima nenhuma. Álcool: sempre. e pedir um whisky doze anos. à esquerda. até os amigos começarem a chegar. Gostava do que era bom: quando podia. chegava bem cedo ao bar. gostava de ir ao Ritz. não usava todo dia. a pequena máquina de escrever. a pilha de papéis em branco. As vezes. fuma um cigarro. para ficar acordado. Apesar dos gritinhos da mulherada e do ambiente . Às vezes cocaína. cinza. E assim por horas e horas a fio. nas festas. de vez em quando. ele o limpa. pelo mesmo motivo. sim. e ficava horas escrevendo. Ao final. No final de agosto de 1984. Maconha. eram de alguma polícia. Na maior parte das vezes. Comprimidos para dormir. Caio bebe um gole de café. sem uma ponta fora do lugar. e estavam ali para plantar alguma coisa contra o Ricardo. jogando as cinzas no lixo. Um strega flambado. tac-tac-tac. Gato escaldado. escrevia em casa mesmo. mas usava. a garrafa e a xícara de café. não via muitos motivos para confiar na polícia brasileira. Tac-tac tac-tac. Caio começa a trabalhar fixo na Around. impecável. Não era viciado. ele tinha sido preso por flagrante falso de drogas. Se anoitece. quando deixa a mesa. De um lado. o cinzeiro. No meio. ela está intacta. exceto pela pilha maior do lado dos papéis escritos. Não que ele não usasse drogas. Ele arruma a mesa. às vezes.Para ele. às vezes.

muito mais velho. vendo que a fila era . autor dos romances Tanto faz e Abacaxis e amigo de Caio. esse é um trabalho que ele gosta de fazer: dá a oportunidade a ele.". que nunca tinha visto ninguém morto. quem sabe duas ou três semanas. Não havia quem o ajudasse: o pai já havia morrido. de ir ao Rio de Janeiro entrevistar Ney Matogrosso.. foi visitar a mãe e encontrou-a morta. estava ajudando a vestir a morta. providenciar caixão. inclusive Caio. Certa vez. Porta do elevador fecha enquanto sobem os créditos. por mais ironia que tente imprimir às palavras. acontece uma coisa que deixa Caio muito impressionado. entretanto. De vez em quando.metido a chique. No Rio. Ficou impressionadíssimo. surge também um novo amor: Pedrinho." Caio conhecera Reinaldo em 1981. Esse homem é ou não é um romântico incurável? Um sonhador. como o lançamento de livros e seminários. que trabalhava junto com ele na Brasiliense. através de Maria Emilia Bender.. por exemplo. [.. Alguma coisa já não estava lá. Cena de cinema. O escritor Mário Prata morava no mesmo prédio. e ele costumava visitar a moça no apartamento que dividia com Ruy Fontana Lopes e Reinaldo Moraes. com pessoas cool entrando e saindo a todo momento. "A alma? Pode ser. no corpo morto da mulher. tão obcecado pela idéia de morte. Antes que pudesse colocar a carta a Luciano no correio. Caio e Maria Emilia foram namorados por algum tempo. em Porto Alegre. Reinaldo e Caio participavam de eventos literários juntos. Os amigos é que foram dar uma força. seu ídolo. ele era filho único. a última imagem foi a ponta do dedo indicador dele acariciando a ponta do meu dedo indicador através das grades da janelinha do elevador. falou no assunto por semanas. O escritor Reinaldo Moraes. no bairro de Higienópolis. escreve a Luciano Alabarse. Ele. exceto a cantora Elis Regina.. ". E achou que tinha aprendido algo com a experiência: ficado realmente adulto. depois de uma noite linda com Pedrinho. E a voz dizendo que vem a São Paulo daqui a uma. que morava perto de sua casa e morrera há pouco tempo. caída no chão da cozinha. enterro. Logo ele.].

em 1983. Os dois compartilhavam a porra-louquice e iam aos mesmos bares. que morava com ele. Grace chegava do trabalho. e mais ainda em relação a Grace. pé ante pé. e Caio estava acompanhado. por pouco mais de um mês. para quem chegou a escrever alguns roteiros. No início de 1985. conversa vem. O espaço era exíguo. que Reinaldo era ótimo. tarde da noite. ele fica num apartamento pequenino. Conversa vai. mas Caio era leal com os amigos. na rua Augusta — chegaram mesmo a participar da coletânea Contos Pirandellianos — 7 autores à procura de um bar. já que o dono da casa não a alugaria para três garotas. Tancredo Neves fora eleito presidente do Brasil por um Colégio Eleitoral. porém. havia um clima de alívio: em janeiro daquele ano. na verdade uma quitinete. Situações engraçadas aconteceram no curto período da quitinete: às vezes. disse ele a Grace e às amigas que dividiriam com ela a casa. chama Grace para ficar com ele na quitinete até surgir alguma coisa. Caio chamou os amigos e parentes de lado e dizia para irem. chegou um casal de namorados que era fã dos dois. Caio muda novamente de endereço. Não queria fazer "república". Na sessão de autógrafos. Grace. As eleições não foram diretas. como a maioria pedia. E as mudanças não aconteciam apenas na vida de Caio e Grace. Caio. para discutir a literatura dos anos 80. Antes de mudar para lá. mas era divertido mesmo assim. e lá ia ela. trombava em alguma coisa. Ele decide ir morar com Sérgio Bianchi. decide ir para uma pensão. Se esticasse o braço. mas que não havia ninguém na mesa do Reinaldo. como o Pirandello.grande na frente da sua mesa. mas pelo menos era um presidente . deitar-se no espaço mínimo entre a geladeira e a pia e a mesinha e o fogão. em que a idéia era histórias que se passassem no bar de Antônio Maschi. cineasta. amigo. foram juntos a um evento em uma universidade em Londrina. porém. a farra era grande. Nessas ocasiões. Ele pedia para que ela fosse dormir na cozinha. no hotel. No plano político. Caio terminou a noite com o menino e Reinaldo com a garota. Uma vez.

mui lépida. A paranóia aumenta um ponto. aí chamei o Sergião que telefonava da sala (Sergião disse: "Agora tenho que desligar porque minha casa tá pegando fogo". assando umas coxas de franga. ousadíssima. . Em carta a Jacqueline Cantore. a aids vai chegando mais perto de Caio. infecções. e ele começou a me puxar pra fora da cozinha. Marilene. observando aquela pêxa grávida no aquário. segunda. vejo CHAMAS ENORMES ATÉ QUASE O TETO. Como se a possibilidade de doença não bastasse. Seu vice José Sarney assumiu. incêndio causado por ele mesmo. e Caio já estava morando com Sérgio Bianchi. mas apoiara os militares até quase o final da ditadura.civil. uma pessoa de quem Caio gostava. jornalista. esta Marilene aqui QUASE MORREU QUEIMADA? Estava ela no fogão. aos 34 anos de idade. o escritor descreve o episódio. Enquanto isso. Caio ainda quase morre queimado num incêndio em seu apartamento. Caio tem umas pequenas doenças. que não se decide a parir (vão ser arianos. embora nunca tivesse tido a chance de se aproximar muito. Pedrinho. de costas para o fogão. queria avançar entre as chamas para DESLIGAR O FORNO (ela não tinha grana para comer e sua maior preocupação era que as coxas ficassem inutilizadas. Sarney também era civil. aftas na boca. eu esperava pêxes de Pêxes. Ela estava. no entanto: o presidente morreu antes de tomar posse. sas?) Então me viro (observe a mudança espontânea & natural da tercêra para a primêra pessoa) e eis que. "Sas que ontem. quebrou o pé dançando na festa de vitória do Tancredo. os demônios. diretor. foi internado. aos gritos de "Vai explodir! Vai explodir! Não joga água que é pior!". quando eis senão que sente um odor estranho vindo das bandas do dito fogão. mas os médicos dizem que não é nada. E foi: o tal namorado de Caio. isso já era algo a ser comemorado. Luiz Roberto Galizia. autor de poesia. bem natural). Joguei água. A alegria durou pouco. Era o mês de março. atrás do fogão. Depois de mais de vinte anos de militares no poder. mui poeticamente.

Enfim. que é simplesmente falar bobagem. cheiro de gás. Hilda Hilst. poesia também era muito importante na vida de Caio. Fumaça. Como essa. Ai. corremos para o corredor do prédio. e Caio o contou da maneira que sabia: com humor. que escreveu em fevereiro de 1974 e enviou a Vera Antoun: Estavam ali as portas . principalmente. Mario Quintana.isso é. que manteve por boa parte da vida. Seu Antônio. gemidos. não tens sequer um cão . Duas velhinhas saíam do elevador. saiam depressa que vai explodir tudo!". ele pensava. vem com um extintor de incêndio. Bueno. juro). ele vinha sempre com o trecho de um poema de Drummond: "Perdeste o melhor amigo.. Gritos.. Uma das velhinhas começa a desmaiar. assim como Ana Cristina César. Justificando essa maneira leve de ver a vida. Quando não há jeito. Adorava a poeta Ledusha. Ver filme cinemão de Hollywood. sussurros. faniquitos. essas coisas. Que medo!" O episódio terminou bem. & LABAREDAS CADA VEZ MAIS ALTAS. Marilene foi espiar se a pêxa tinha abortado: raçuda. Drummond. falar asneiras. apagou a vela de sete dias. Bom. e. Fernando Pessoa. Ele lia Adélia Prado. Caio também escrevia poesia: escrevia em seus diários. "apaguem os cigarros!" (Marilene correu para seu quartinho e. ao longo da vida. mas e o humourt" Afinal. o zelador. Mandou várias em cartas para amigos. num sopro. Todos eles eram influências tão grandes para sua prosa quanto os ficcionistas que ele amava. Junta gente na porta do prédio. paulista de alma carioca que era sua amiga. o extintor apagou tudo: espuma branca por toda a cozinha e toda a sala. a tremedeira. ela — continua grávida. Era adepto da "cultura das abobrinhas". Sergião: "Corram. carbonizadas). o melhor é rir.

E me retorno Ali No imóvel do gesto que não fiz. Revejo a dura consistência da porta Cerrando seu segredo.Janelas e varandas. Nesse ponto exato Elas estavam: Bastava um gesto. Mas o meu estar parado Era maior que eu. Estar parado Estar vivo: A mesma incompreensão E medo Entre mim E aquele estar das coisas. Estavam ali Na fronteira do olhar Onde o de dentro encontra Justamente Com o de fora. Ah Relembro a amplidão dessas varandas intocadas Os pequenos raios de luz Nos vidros coloridos das janelas. Estar ali Por estar ali E além de mim 0 que eu não ousava. Como se pudesse Agora Escancarar portas e janelas . Estar ali Como nunca ter chegado.

Para sair nu pelas varandas Desvairado e nu Profeta. Ou esse. sem data. como eu. Como um corpo que se ama E não se toca. amigo. manhãs perdidas como tudo que não fui) Mas continuo Ali. reunido entre os dispersos publicados no livro Caio 3D — o essencial da década de 1980. Brincava com . O cheiro de jasmins Entontecendo os quintais. louco. Boa negra Voltada para as estrelas Pés de chumbo cravados na lama: O canhão E sua escandalosa metafísica Caio nunca publicou em livro seus poemas. Talvez não os achasse bons. as tempestades. Não cantes. Sair para o vento O sol. Os outros por bebedeira Não saúdes A morte em literatura. Aqueles espaços Permanecem mortos dentro de mim. talvez não os levasse a sério. As quedas de estrelas e Bastilhas. (pudesse retomar manhãs. as neves. de 2005. infante.

Você compreende? Isso não é literário. música. na exatidão do uso das palavras. e tinha seu público. Fosse o que fosse que o inspirasse. disse em uma entrevista. no lirismo. propôs um adiantamento a Caio para que ele escrevesse um romance. pouco metódica. "Isso deve ser insuportável. De forma intuitiva.Mário Prata que poesia era coisa para quem não conseguia chegar ao fim da linha. coisas que magicamente as pessoas vão te dizendo". Pode ser Keith Jarrett. e aparece na preocupação com a forma. frases-ímã. e também para a crítica. "Eu vou magnetizando coisas no inconsciente. Como ele gostava de escrever com música. pensava. Sonhos. coisas do dia-a-dia. fazer uma "coreografia verbal" para ela. a idéia para Onde andará Dulce Veiga. o nãoliterário". redonda. Angela Ro Ro. Caio já ruminava a idéia há três anos. disse. Ele adorava essa frase. amadurecendo. era de fato inegável. E eu gosto de incorporar o chulo. teatro. Rolling Stones. Mas as coisas não eram bem assim com Caio. E o instrumento estava afinado. até que surgia uma história inteira. Muitos de seus contos vêm com o aviso: para ler ao som de. Era só sentar e escrever. Até cachê adiantado estava recebendo: Luiz Schwarcz. ele anotava sempre em caderninhos. E as influências para seus textos não vinham só da literatura: cinema. que devia ser insuportável para Academia. Como era bom poder tocar um instrumento. Caio chegou a dizer. em seus textos. lidar com um escritor que confessava que o trabalho do Cazuza e da Rita Lee foram influências muito maiores que Graciliano Ramos. tudo podia influenciar um texto. ele . tudo ia fermentando. sempre. como era bom poder escrever. então na Brasiliense. cujo verso "como é bom poder tocar um instrumento" Caio estava sempre repetindo. Mas a importância de ter lido os poetas. às vezes tentava apanhar no texto o ritmo daquela música. ter essa arma para lutar contra as agruras do mundo. certa vez. E Caetano Veloso.

Caio se sentia saudável. se estou aqui? Abobrinha 2b. mas o pneu furou. E como má notícia sempre anda de mãos dadas. Ruim mesmo era a falta de auto-estima que às vezes aparecia. Estava rolando o boato de que ele também estaria com aids. mas pelo menos as aftas sararam. a deixar recados na secretária eletrônica. preocupados. o motor pifou. As informações ainda eram poucas. Em carta a Jacqueline: "Abobrinha 2 (somente para iniciados): Abobrinha 2a. um ator gaúcho. Viaja a São Tome das Letras com Pedrinho. e isso só foi acontecer em 1990. parecia saudável. fez quando viu o Caio Fernando Abreu? Gritou: — Jaburú-ú!" . Para piorar um pouco mais. Por mais que Caio trabalhasse duro. Galizia já tinha ido. que por sua vez era ditado pelo ritmo do texto. e os boatos eram infundados — ao menos aparentemente. depois de anos enrolando. do outro lado da calçada. Queriam ir embora. Muitos escritores afirmam que o que fazem é captar uma idéia e escrevê-la. mas lá discutem muito. Baixo astral total. já então pela Companhia das Letras.tinha seu próprio ritmo. escreveu o livro em dois meses e o publicou. E a relação que durara nove meses acabava assim. amigos começam a ligar. Caio sabe da morte de Fernando Zimpeck. diferenças saltam à tona. S'as o que o Jaburu. Sempre com muito humor. E ser gay ainda era sinônimo da peste. quando. o texto viria quando tivesse que vir. Caio sofre mais uma decepção. as pessoas morriam muito rápido. tudo errado. S'as o que o Caio Fernando Abreu disse quando viu o Jaburu do outro lado da calçada? — Como é que estou do outro lado. brigam. Enquanto não escreve Dulce Veiga para a Brasiliense. mas dava para perceber uma certa tristeza. os gânglios que tinham aparecido diminuíram. são simples canais de transmissão da arte. uma certa carência por trás de suas brincadeiras. quase uma entidade independente.

mas naquela incômoda posição de chefe e subordinado. Como era um caderno de cultura em geral. ele dava um jeito de enfiar os Titãs no meio e fazer uma brincadeira. agora dividia a redação com ele. se vendido ao sistema. O Caderno 2 não era fácil de se editar. levava a sério demais a defesa do trabalho e da arte das pessoas que admirava. o suplemento de cultura. Caio. frio. que tinham perdido contato. que adorava o grupo. da música. e sim A-Z — e vai trabalhar em O Estado de S. mal-humorado. É a época da criação do Caderno 2. Havia outros. E Caio estava sempre pronto a defender seus amigos. aos 13 anos de . Emediato precisava fazer tudo isso. Por quê?. literatura. amigo de muito tempo. e o editor é Luiz Fernando Emediato. Por que essa implicância com os Titãs? Ele. Emediato e Caio. precisava botar o jornal na rua. junto com Luiz Arthur Nunes. da literatura. gostava de implicar com o grupo de rock Titãs. Por essa época. de se preocupar com horários de fechamento. não tinha humor nenhum nessas questões. havia vários grupinhos: o pessoal do teatro.Em 1986. quando achasse necessário. sempre tão bemhumorado. uma alfinetada de leve. começam a se ver todo dia. Emediato tinha se entregado. pela primeira vez. paladino do Oeste. talvez. se mortificava. de cumprir deadlines. música. amigo dos tempos de ditadura e jornais nanicos. por exemplo. Emediato. E quando cobrava resultados de Caio. A peça é inspirada no texto que Caio escrevera. E mesmo que não fossem amigos: ele rodava a baiana sempre que achava que alguém estava sendo injusto. Para ele. cinema. o pessoal do cinema. perguntava. era o chefe engravatado e careta. Caio trabalha também na peça A maldição do vale negro. uma palhaçadinha. Vai fazer o que sabe: crítica cultural. Caio tinha sua turma: José Márcio Penido. Em qualquer crônica ou texto. Paulo. Ninguém se misturava muito. o sisudo diário recebia jovens para fazer um caderno do tipo. mesmo os que não trabalhavam no jornal. este era seco. Caio abandona a Around — que agora não se chama mais Around. Caio não gostava de receber ordens.

disse que. muito intenso. na introdução de seu livro Mãe na zona. porém. Uma amiga em comum lhe pedira que acomodasse Caio por uns tempos. já tinham desistido de morar juntos.. garçonete. pai-de-santo. Inventou que o Antônio tinha trígono na quarta casa da Lua em Saturno. gente anônima. Fã de sua obra. Escreveram o texto e Luiz Arthur dirigiu a peça. alcoólatras famosos. travesti. A idéia para a história surgiu em uma noitada que Caio. dirigido por Sérgio Bianchi. conta Antônio. escritores. e Caio também não era uma pessoa muito fácil. muito louco. veados. achou o máximo ver o desfile de pessoas que se tornou comum no apartamento depois da vinda de Caio: "atores. ele tinha a mãe na zona. além da Lua e Saturno e Urano sabe lá onde. em 1989. alcoólatras anônimos.idade. poetas. mas era só. talvez com certo exagero. por vários anos. O escritor e Sérgio. guarda-costas. e mais um monte de coisas sem sentido. mãe-de-santo. mas quando soube que era o Caio. atrizes. Caio começara a dar uma de astrólogo e falar do mapa astral de Antônio. e os três passaram . porteiro de boate. ele se importava. finalmente. A expressão pegou. Caio e Luiz Arthur passaram todo o Carnaval de 1986 trabalhando e brincando com a idéia de melodrama. a coisa mudou de figura. Sérgio era. artistas plásticos.. Caio escreve também o roteiro do longametragem Romance. um rapaz que não conhecia. Não sabia as outras coisas. Na verdade. Vai morar com Antônio Neto. O rapaz entrou na brincadeira. o meio do céu em trígono em Urano. O escritor vai então para um apartamento na Haddock Lobo. lésbicas. vagabundos. dona de boate". mas que topara dividir apartamento com ele. Nesse período. Antônio era gaúcho e tinha morado no mesmo bairro do escritor em Porto Alegre. em Ovelhas negras. que foi publicado mais tarde. Foi quando Cazuza interveio e começou a brincar. gente famosa. onde fica. para o concurso de redação em sua escola — A maldição dos Saint-Marie. às vezes. Sabia que o rapaz era ariano e que seu ascendente era Libra. Cazuza e ele passaram em um bar. e Antônio disse que não se importava. que ganharia o Prêmio Molière de teatro.

foi o ator Marcos Breda." Outro que morou com Caio nesse período. durante seis meses. que era também gaúcho. início de 1987. dirigida por Jorge Takla. Lá de dentro. no entanto. O ator. O estratagema do ator era bom. e funcionaria com qualquer outra pessoa. em uma festa na casa da atriz Imara Reis. quando voltasse da rua. que conhecera Caio uns dois anos antes.a noite toda discutindo o que era ter a mãe na zona. O apartamento era mais movimentado por causa das . Antônio tomou coragem e escreveu o livro. Breda voltaria a São Paulo no ano seguinte. trancado no quarto. chorar e se arrepender profundamente. Depois. O ator também se preocupava com os sumiços de Caio. três dias sem aparecer. Breda. No terceiro dia. dois. se foder. Ele então bolou um estratagema: espalhou talco no chão entre o quarto de Caio e o banheiro. O problema era que Caio tomava comprimidos para dormir e ficava dois dias literalmente apagado. o conto Mãe na zona saiu na A-Z e fez muito sucesso. baseado na obra de Marcelo Rubens Paiva. ou à cozinha. Exatamente do mesmo jeito. Se o amigo havia saído para ir ao banheiro. Antônio escreveu. Caio convivia bem com a heterossexualidade convicta de Breda. porém. para fazer uma montagem da Electra de Sófocles. o talco continuava intacto. o ator tomou coragem e bateu na porta. e por fim Caio sugeriu que o rapaz escrevesse um conto ou crônica que ele publicaria. Apenas 19 anos depois. começar tudo de novo. que seria publicado em 1988. o que é ter a mãe na zona? Segundo as primeiras frases do conto de Antônio. "mãe na zona é errar. Dois dias depois. e foi então que dividiu o apartamento com Caio. podia saber se Caio estava vivo ou morto: bastava ver se havia pegadas. Assim. E. estava em São Paulo para participar do filme Feliz ano velho. de Porto Alegre. e apenas queria ficar sozinho. Caio insistia para que o rapaz escrevesse um livro: ele lhe daria toda força. afinal. era porque estava vivo. Ali. ele viu saírem da máquina de escrever vários dos contos do livro Os Dragões não conhecem o paraíso. uma voz cavernosa respondeu: Bom dia.

namoradas que o ator levava que pelos casos de Caio. Por acaso, muitas das meninas que Breda namorava na época eram bissexuais; Caio gostava de brincar com o amigo, dizendo que essa era sua forma de exercitar sua bichice sem culpa. Um dia, os dois vão a uma festa. Chega um amigo de Caio, que começa a dar em cima de Breda. Caio, sarcástico, enterra as esperanças do amigo: — Desista, meu amor. Todas nós já tentamos. É por influência de Caio também que Breda vai morar no Rio de Janeiro, na metade de 1987. Mário Prata estava escrevendo a novela Helena na Manchete e precisavam de alguns atores para certos papéis. Caio, que estava trabalhando com Prata em uma novela de José Wilker que acabou não se concretizando, indicou Breda, e lá foi ele. O ator foi para o Rio e não saiu mais. Representou em adaptações de algumas obras de Caio, como O homem e a mancha, no teatro, e Sargento Garcia, um curta. Em 2004, viria a participar, dessa vez como ator e também co-produtor, junto com Camila Pitanga, da remontagem da peçav4 maldição do vale negro, com direção de Luiz Arthur Nunes. O livro que Breda viu nascer enquanto morava com Caio, Os dragões não conhecem o paraíso, é provavelmente o melhor trabalho do escritor. Os contos apresentam uma unidade temática, segundo Caio nos diz, em uma pequena introdução. É um livro sobre amor. São treze contos, e não à toa — treze é um número cheio de significados místicos, mágicos, para quem acredita nessas coisas, e ele acreditava. Já na primeira história, Linda, uma história horrível, ele aborda o tema que o afligia: a aids. Sempre usando elipses, sem citar o nome da doença ou do vírus que a causa, ele fala dos sinais, da degradação do corpo. Um homem vai visitar a mãe. Doente, e pressentindo, talvez, seu fim, ele chega sem avisar, e encontra a mãe envelhecida, junto com a cadela também idosa, Linda.

— Mas vai tudo bem? -Tudo, mãe. -Trabalho? Ele fez que sim. Ela acariciou as orelhas sem pêlo da cadela. Depois olhou outra vez direto pra ele: — Saúde? Disque tem umas doenças novas aí, vi na tevê. Umas pestes. — Graças a Deus — ele cortou. Acendeu outro cigarro, as mãos tremiam um pouco. — E a dona Alzira, firme? Um por um, foi abrindo os botões. Acendeu a luz do abajur, para que a sala ficasse mais clara quando, sem camisa, começou a acariciar as manchas púrpura, da cor antiga do tapete na escada-agora, que cor? -, espalhadas embaixo dos pêlos do peito. Na ponta dos dedos, tocou o pescoço. Do lado direito, inclinando a cabeça, como se apalpasse uma semente no escuro. Depois foi dobrando os joelhos até o chão. Deus, pensou, antes de estender a outra mão para tocar no pêlo da cadela quase cega, cheia de manchas rosadas. Iguais às do tapete gasto da escada, iguais às da pele do seu peito, embaixo dos pêlos. Crespos, escuros, macios. — Linda — sussurrou. — Linda, você é tão linda, Linda.

Em todos os contos, o escritor aborda seus temas preferidos: o estranhamento, a solidão, a dor. Seus personagens vão envelhecendo com ele. Sempre jovens em Inventário do irremediável, agora há homens de 40 anos — como o próprio escritor. O estranhamento que sentiam em relação à cidade grande, muito forte em seus primeiros contos, agora já é aceito pelos personagens, que, mesmo solitários, vislumbram esperanças. O texto do escritor está em sua melhor forma, e isso foi reconhecido: Caio ganha seu segundo Jabuti por Os dragões. A repercussão do livro ultrapassa as fronteiras continentais e chega à Inglaterra, onde John Gledson, o maior especialista inglês em literatura brasileira, escreve uma crítica muito elogiosa para o Times, de Londres. Essa crítica abre portas para Caio: tradutoras e agentes foram procurá-lo; há interesse em publicar Os dragões em francês, em italiano, em alemão. A carreira internacional de Caio começa aí, e ele

não vai perder nenhuma chance de conseguir dar certo lá fora. Até porque isso significa viajar: Inglaterra, França, Alemanha... Dar uma descansada do Brasil. As possibilidades são imensas, mas não assim, imediatas — Levaria tempo até que as coisas se ajeitassem, contratos, ajustes: Caio só viaja para a Europa no final de 1990. Enquanto a viagem não chega, ele acerta algumas contas consigo mesmo; depois de cinco anos de espera, é a hora, finalmente, de se descobrir Onde andará Dulce Veiga.

CINCO

— Eu deveria cantar. Caio está numa fila de banco, esperando sua vez. De repente, lhe ocorre a frase: Eu deveria cantar. Ele corre para casa, excitado. O começo! Ele tem o começo. E todo o resto. A idéia, dele e do cineasta Guilherme de Almeida Prado, já existia há uns dez anos, os rascunhos já tinham uns seis, o quase-adiantamento para escrever já datava de uns quatro anos. A idéia inicial era inscrever o roteiro do filme em um concurso e depois escrever o romance. No entanto, apesar do roteiro estar terminado, Dulce Veiga não saía. Recusava-se. Os dragões desistiram de esperar, furaram a fila e foram publicados antes dela. Mas a idéia para a primeira frase — a singela "eu deveria cantar" — detonou o processo criativo. Tudo aquilo que Caio vinha maturando há anos resolveu sair à tona, com várias mudanças em relação ao roteiro feito a quatro mãos com Guilherme. Em dois meses, terminou o livro: escrevia dez, doze horas por dia. Das duas mil páginas que tinha escrito, no total, tirou umas duzentas. Escrevia, escrevia, escrevia. Resultado: um belo desvio na coluna. Além do livro pronto.

a Diana caçadora de seus contos. por Paulo Francis. com Limite branco. não era coincidência. aos 18 anos de idade. muitos deles nanicos. Ambos precoces. cercada de homens por todos os lados.O processo é o mesmo que acontece a uma amiga escritora. A mulher com pinta de fatal. uma questão da época. mas a maioria dos escritores brasileiros da época — estarem decididos. Havia revistas e jornais literários. alto. Eram amigos. que realmente eram lidos. loira fatal. O fato de os dois — e não só eles. sem papas na língua. cabelos lisos. o infantil A ponte das estrelas. escrito mais com a cabeça e menos com o coração. loucos. algo mais trabalhado. Enquanto ele escrevia Dulce Veiga. Márcia e Caio. depois de tantos anos escrevendo contos. quando se trombaram em algum lançamento de livro pela cidade. Márcia era amiga de Caio desde os anos 70. a preferida de Paulo Francis. era uma exigência do mercado mesmo. e ela o escreveu em pé. apadrinhados desde cedo por grandes nomes: ele por Hilda Hilst. Talvez houvesse uma necessidade de provar que se conseguia fazer algo de maior fôlego. mais pragmaticamente. numa tentativa de não engordar demais. Beldades perversas. Márcia Denser. Ambos belos: Caio com seu jeito de Quixote. cercada de anõezinhos. uma aventura no terreno do romance. que ele só praticara uma vez. que os publicavam. E. Márcia escrevia sua versão da Branca de Neve. a devoradora de homens. rosto de boneca. ela estava sempre no apartamento dele. a fabricar romances. com . ficaram amigos. também de dez a doze horas por dia. Enquanto Caio escreveu Sapatinhos vermelhos. que circulavam. ambos com aquele quê de malditos. Alter ego literário: Diana Marini. Ela era a Branca de Neve. Os anos 70 foram todos dedicados ao conto. com o impulso para o nocaute que um conto deve ter. por mais que os pés doessem. Nos anos 80. ela loira. Clarice Lispector e Lygia Fagundes Telles: ela. uma releitura para adultos do conto de Andersen. ela também se arriscava a um texto maior. que conseguiu conquistar três homens com seus sapatos. Ele era a mulher dos sapatos vermelhos.

e eu anotei. mas também Odete Lara. cantora muito popular que desaparecera vinte anos antes. como personagem. Entremeando a história. Em 1974. de algum lugar no interior do apartamento. uma boa matéria: é a busca de si mesmo. que aliás é personagem do livro. Assim.o fim da ditadura. Márcia Felácio. Dulce Veiga. A busca de Dulce Veiga significa mais para o narrador que um simples trabalho. ao escrever sobre Dulce Veiga. acabam os nanicos. na gravação de Billie Holiday. não era uma invenção de Caio. mas estou certo de que nessa ou na outra vez perguntei quem era e ela disse que era Billie. Os enigmas vão se resolvendo. foi com Dulce. grande contista. que foi amiga de Caio. O filme é estrelado por Betty Faria e Odete Lara. a cantora. tantos anos atrás. que nos anos 30 escreveu A estrela sobe. As editoras começam a preferir romances. Bruno Barreto faz a versão do romance para o cinema. he calls me. um amor que foi embora. gemidas. afinal a primeira entrevista que fez quando chegou na cidade grande. Rubem Fonseca. tão aplicado. por exemplo. naquele . Quem a criou foi o escritor Marques Rebelo. de Dulce Veiga. Dão a ele a tarefa de encontrar Dulce Veiga. com Dulce. viessem os acordes iniciais de Crazy. como ele. um escritor urbano. e poderia ser também Glad to be unhappy. porque o leitor médio está mais acostumado com eles. um amor do narrador. há as menções a Pedro. Tudo isso que agora parece clichê banal. um a um. agora sim. nem todos com o mesmo sucesso de crítica que seus livros anteriores de textos curtos. A busca de seu passado. publica vários romances nessa época. Sophisticated lady ou qualquer outra dessas canções roucas. Naquele tempo eu não as conhecia. Não estou absolutamente seguro que. Caio homenageia não só Marques Rebelo. vocalista de uma banda punk. O narrador de Onde andará Dulce Veiga é um jornalista. conhece a filha dela. Ele segue as pistas. e assim um veículo por onde escoar tanto texto curto. e rebatiza a cantora. ainda chamada Dulce Rodrigues.

Depois gritou qualquer coisa que se esfiapou no ar da manhã. ofuscado. apenas o indicador apontado para o alto. afinal. Uma arara pousou na árvore perto dela. ao lado do cachorro. Toda de branco. assim como tem Márcia. Ela ergueu o braço direito para o céu. soropositivo: descoberta da possibilidade de vida. enfim. para viver de acordo com os preceitos da seita Santo Daime. que ficou como se tivesse sido. e por isso foi embora. Ela lhe dá um gatinho de presente. Afirmo que havia música. feito seta. a jovem cantora. E ela que dá nome aos bois. e se compreende. acontece. A doença não é o fim. no final. O narrador tem aids.tempo — repito e não me canso. a mão fechada. o que deveria ter feito no começo. repito: seria tão perfeito se fosse exatamente assim como penso que lembro. assim como Pedro teve. seus sinais. . porque é belo e mágico na sua melancolia: naquele tempo — tudo era novo. quando se descobrisse. pois mesmo que não houvesse nada e o silêncio do apartamento fosse cortado apenas pelo ruído dos carros na avenida São João. há um choque. E começa a cantar. Sem querer. o gatinho chamado Cazuza. que nada e nunca. Finalmente se aceita. eu nem suspeitava das marcas pelo caminho. O encontro com Dulce. Dulce Veiga estava parada na porta da casa. tantos anos depois. Caio intui em Dulce Veiga o que seria a sua postura. A busca de Pedro é a busca de aceitação do presente. mas não é nada do que se esperava. Pisquei. Ela o faz encarar seus gânglios. e cita a doença nominalmente. O narrador começa a cantar. sem medo de mentir. Os primeiros raios do sol faziam brilhar aquela estranha coroa -tiara. diadema — que tinha entre os cabelos louros. Parecia meu nome. mas a possibilidade de um novo começo. Não há mistério: ela apenas se tinha recolhido a uma cidade do interior. lá embaixo — mesmo que não. e ele vai embora. pois ainda não sabia que estava doente. Ele faz. finalmente.

a admiração que sentia pela forma . Iam juntos a bares trash. e ficou em seu canto. Apareceu com uma coroa de flores enorme. Cazuza. mas Caio preferia esse bar aos chamados guetos gays. sempre que fosse falar de aids. Quando Cazuza morreu. Viajou até o Rio para o enterro. perdeu muitos deles. foi Cazuza. Desde então. O bar era o que se podia chamar de barra pesada: tiroteios. que ficou todo orgulhoso.Bonito. afirmando que escrevera uma matéria equilibrada. esse é o nome do gatinho com que Dulce presenteia o narrador no livro. A tal manchete foi uma confusão. Muita gente não encarava. Cazuza dedicou Só as mães são felizes a Caio. agarramentos de bastidores. Não em vão. o final e a manchete problemática seriam responsabilidade dos editores. Vários artistas e intelectuais elaboraram e assinaram um manifesto contra a revista. dizendo que ele não era gênio coisíssima nenhuma. No final do show. como Vai Improviso. era meu nome. Tiveram até um pequeno rolo. Caio chorou potes. citaria o cantor. em um show. namorico. Certa vez. A jornalista que fez a entrevista se demitiu. Caio odiava esses guetos. porém altivo. chorando. Cazuza e Caio foram amigos. chorando. e da maneira de lidar com ela. Ele via seus amigos sofrerem. E eu comecei a cantar. Mas estamos em 1989. do travesti Andreia de Maio. vai até o camarim e dá uns bons amassos no amigo. e o final da matéria também. com a manchete: "Cazuza: Uma vítima da aids agoniza em praça pública". em que se desmerecia o trabalho do cantor. mais choradas. tráfico de drogas. se admiravam. Caio ainda não teve coragem de fazer o que ele chamava de O Teste. odiava boates e saunas exclusivamente gays. Uma das perdas mais sofridas. Eles se gostavam. Caio sofreu muito ao acompanhar a decadência física do cantor. e foi um dos mais indignados com a capa da Veja que expunha uma foto de um magro e pequenino.

dirigida por Fernando Meirelles. como o fora a perda de Ana Cristina César. Em 1989. Foi mais uma das grandes perdas quç assombrariam Caio até o fim de seus dias. pela editora Mercado Aberto. E agora era montada uma na Bahia.como ele encarara a doença -aberta. De um humor negro. Na conversa de bar. Caio ia tocando a vida. Renato não atuava na peça. o lado que gostava de ir a bares barra pesada. uma estudiosa da obra do autor. Renato já cruzara com Caio pela noite de Porto Alegre. Vamos. andou pelo apartamento de Caio o ator gaúcho Renato dei Campão. com ele não havia tempo ruim. novas adaptações de Morangos mofados: já tinha havido a primeira. séria. depois de passarem a noite bebendo) ? Vamos. negríssimo. feita por Paulo Yutaka. anos depois. amigo querido que também viria a morrer de aids. Vamos pegar pó?. para dizer em uma palavra. arrogante. pronto para qualquer coisa. que ainda não era o aclamado diretor de cinema. é que Renato descobriu quão engraçado Caio podia ser. em 1983. fechada. mas engraçado. mas tinha um certo medo dele: o comentário geral era que o escritor era uma pessoa extremamente intelectual. Antes dessa época. em Porto Alegre. organizada por Regina Zilberman. uma programação da TV Gazeta. Apresentou. Era nessas aventuras que Renato o acompanhava. Na literatura. que já conhecia o escritor desde a primeira montagem de O leiteiro. Luciano Alabarse também fizera a sua. respondia Campão. Afora as tristezas. freqüentados por personagens do maior submundo da noite. Vamos beber? Vamos pegar um michê? Vamos comer churrasquinho (às sete da manhã. saiu uma coletânea de seus contos chamada Mel & girassóis. por uns tempos. Renato descobriu também o lado temerário de Caio. Era isso que Caio apreciava nele: sua disposição . dizia Caio. dizia Campão. No apartamento da Haddock Lobo. os amigos continuavam a aparecer. mas estava sempre com o grupo. tentando eliminar os preconceitos. No teatro. um programa de crítica literária na TVMix.

bêbado. o apartamento de Caio era um lugar agitado: visitas a toda hora. aqui é a Regina Duarte. Uma vez. no bar Líder. Ele continuou tranqüilamente a conversa. A mulher se pôs a gritar. e menos de um ano depois de ter saído de Porto Alegre. o lugar lotado. admiravam sua obra. e a secretária eletrônica com os recados mais ilustres: Caio. Caio gesticulava e falava alto. me liga. o emprego para Campão nunca veio. Ela não deu bola. mergulhou em uma de suas muitas crises depressivas. Atrás dele. e ela nada fez em represália. ele decidiu. ele viraria de novo: tu não vai sair daqui? Ela nada. o escritor acendeu o isqueiro. Ele e o escritor estariam conversando animadamente no balcão. talvez com medo de uma atitude ainda mais agressiva. Ele diz ter presenciado uma cena. levantou-o atrás da cabeça e ateou fogo nos longos cabelos da inconseqüente figura. Renato presenciou algumas cenas em que Caio. de vez em quando o mau humor o dominava. em Porto Alegre. Renato voltou. Mesmo com tantos contatos. Mais uma vez: tu não vai sair daqui? Como a mulher não saía. ele convidara o ator para se hospedar em seu apartamento em São Paulo. empolgado com o assunto que discutia.para aventuras. mas nada aconteceu a Caio. e continuava encostando em Caio. A agressividade de Caio vinha à tona. Nessa época. Caio se enrolou. que não sabia manter o próprio traseiro no lugar. amigos vindos de todas as partes. Algum tempo depois. e em certo momento virado para a mulher e dito: sai daqui. enquanto conversava com Campão. Calmamente. até na relação com os fãs. de vez em quando. prometendo arrumar um emprego na capital paulista para ele. Por mais que adorasse ser lido. Por ser amigo mais de farras noturnas. armava barracos escandalosíssimos. em 1987. que volta e meia batia sem querer a bunda em Caio. uma garota veio dizer que . havia uma mulher de cabelos compridos. Muitas meninas e meninos o assediavam. O escritor teria se irritado com aquilo. uma vez em Porto Alegre. Em 89. e vinham falar com ele.

Ivan estava no apartamento. adorava Caio. Fazia um frio enorme. o ator. às vezes. A terapia o ajudava demais. Ronaldo Pamplona. E na noite. que ele conhecera poucos anos antes. Um bailarino. Houve alguns casos até duradouros. Déa presenciou a briga de Caio e Ivan. Porque por mais que dissesse que aquele tal era o último amor. namorado do início dos anos 80.era fã de Caio. na loucura. embora fosse recatado a maior parte do tempo. Em 1989. dessa vez para sempre. bem. Moraram juntos por alguns meses — agora bons amigos. como dizia. quero amantes. que ficou magoadíssimo e foi embora no outro dia. no entanto. ele e a amiga Déa Martins. como sendo a provável pessoa de quem ele pegara aids. E de novo. afirma Caio na entrevista. sem dar mais notícias. que era impossível saber como Caio contraíra a doença. numa entrevista à Marie Claire. inclusive um que ele mencionaria mais tarde. uma pessoa conhecida que viveu na Suécia. E quebrando a cara. apaixonado por alguém. porque. Caio deu um tabefe em Ivan. também foi morar com Caio por uns tempos Ivan Mattos. e que morrera em 1989 em decorrência da síndrome. e ele e o amigo Luciano Alabarse saíam do cinema. ele estava sempre se apaixonando de novo. sofrendo uma desilusão amorosa por semana. Os amigos afirmam. Também. apenas — até que o gênio de Caio e o temperamento de Ivan se trombassem de vez e os dois brigassem feio. de novo. em outro período. por causa da menção do escritor de chamar um michê pelo telefone. Déa era divertidíssima. ele não se descuidou mais. de vez em quando tinha uns surtos de galinhagem. Caio chegou bêbado em casa. . Desde então. enquanto o escritor se corroia em culpa. era preciso mesmo um pronto-socorro emocional de vez em quando. A resposta veio rápida e ríspida: — Não quero fãs. e também para fazer loucuras. uma produtora de eventos também gaúcha. e os dois se juntavam sempre para falar bobagens. Todos esses conflitos Caio discutia com seu terapeuta.

seu grande colega. Além da terapia. Caio diria que sua ausência era a mais dolorida. Uma das pessoas que influenciou Caio a tentar o Santo Dai-me foi Vicente Pereira. através dos rituais mais variados.bêbado. Caio continuava a manter sua espiritualidade viva. crença em algo maior. e assim ele seguia vivendo. Jogava taro. é difícil afirmar que ele se protegia sempre. Ele e Caio foram grandes amigos. Quem participou do ritual original afirma que o que se fazia no Rio era uma imitação tosca do que acontecia nas selvas amazônicas. bem. D. Quando Vicente morreu. no Rio de Janeiro. / Ching. O Daime é uma substância alucinógena. Embora não fizesse o teste. Caio a entrevistou exaustivamente para saber como era tudo. pela beleza do ritual. anos depois. E assim. que virou moda entre os intelectuais e artistas do Rio e de São Paulo no final dos anos 80. As pessoas diziam que era paranóia dele. de uma certa forma: o mesmo humor. os melhores que se pode haver. que aquilo era apenas seu corpo colocando as inseguranças para fora. Enfim. ele chegou a freqüentar também o Santo Daime. Vicente foi um dos autores do famoso programa de humor TV Pirata. não por acaso. que participara dos rituais originais na Amazônia. Primeiro. dramaturgo. A beleza dos rituais o fascinava. O Santo Daime está presente em Onde andará Dulce Veiga. a mesma espiritualidade. cantora e amiga de Caio. Vicente tinha uma forma de encarar as coisas . ligado ao movimento do teatro besteirol que surgiria depois. a mesma forma de encarar a vida. uma infecção nos ouvidos que não sarava nunca. Era seu melhor amigo. o livro é dedicado a Cida Moreira. depois. era uma forma de tentar contatar a divindade. Falava sempre com sua mãe-de-santo. O jornalismo até que servia para alguma coisa. Sônia. Eram almas gêmeas. em torno da qual se formou uma seita na Amazônia. e usou essas informações no livro. e Caio tentava. de aids. amigo e parceiro de trabalho de Mauro Rasi. ficava paranóico sempre que aparecia alguma pequena doença. talvez mais que a fé. afinal. um herpes-zóster.

eu estarei no meio delas. também ligado ao teatro. Caio. talvez não como filosofia de vida. Muito antes de Caio e Vicente se conhecerem pessoalmente. por muito tempo. quando o conheceu. vivia esse desapego. Era só o Vicente entrar em alguma seita. Generoso. e estava sempre sem dinheiro. no minuto em que se encontrassem. mas era assim que ele era: não conseguia juntar nada.voltada ao desapego: não acumulava coisas. Por um lado. tão repetida por Caio. influenciou pelo menos mais uma pessoa: Miguel Falabella. uma pintura. talvez não de forma consciente. quando menos se esperava. um anel." Caio brincava com Vicente. Estava sempre trabalhando. um livro. um apartamento. estava sempre como visitante. Há uma frase de Vicente. Ele não assumia que fazia parte da seita. religiões. Amigos até o fim. Era assim que ele era. Era um sucesso como escritor. que muita gente chega a achar que é dele: "Quando duas ou mais pessoas estiverem reunidas em nome de Deus. você precisa conhecer o Caio. acumular bens. dois meses depois. credo. isso era triste: lhe dava uma solidão . acreditava que quanto mais desse. entre os dois. ele podia virar e se oferecer para pagar a conta de todo mundo no bar. comprar um carro. mais retornaria a ele. e sempre sem dinheiro. José Márcio Penido dizia: Caio. empregos. Sabia que. E ao Vicente: Vicente. traduções. com algum cargo ou posto importante. você precisa conhecer o Vicente. sacerdotisa. Não fazia parte de seu temperamento se comprometer a fundo com as coisas — namoros. Com essa filosofia. E assim foi. Não poderiam deixar de ser amigos. Sacerdote. se adorariam. fazia copidesques. já estava comandando as reuniões. José Márcio fez a ponte. eles já se conheciam dos relatos dos outros. dava constantemente presentes aos amigos. A semelhança era tão óbvia que as pessoas em volta percebiam. como turista. free-lances. E Vicente também. dava oficinas de criação literária. Mas sempre com um decote bem profundo. dizia que ele era a sacerdotisa do Daime. filosofia ou religião e. A relação de Caio com essas coisas era sempre mais descompromissada.

Falava de um menino. Márcio Souza escreveria o de Lula. Antes do segundo turno da eleição. Fernando. E assim foi. Por outro. a liberdade que tinha lhe permitia ir aonde fosse sem dar satisfações a ninguém. Os tempos aqui. E aceitou: — Quero. Segundo o escritor. Collor tinha ganhado as eleições. E tinha que ser.] — Você é o escolhido. foi considerado ofensivo demais pela direção do jornal. Vou perguntar pela última vez. mas ele nunca chegou a sair. sairia por sua boca escolhida ... — Mais fundo-pediu. não eram fáceis. como sempre. Caio escreveu o texto. às vezes. não dá para dizer. Foi publicado depois pelo jornal alternativo Verve. enchendo-o de ouro líquido. Quase como se adivinhasse o que viria depois: a roubalheira. O texto era um conto. Tudo isso. Fernando. e Caio o republicou.. com todas as características de ser o demônio. diria Caio. meu bem-amado — o menino ruivo gemeu. — Para possuir todos. mas a direção do JB acertou. você quer? Ele voltou a cabeça até mergulhar os olhos no verde sem limites dos olhos dos outro. E curvando-se mais: — Pense bem. e muita gente também. que tinha um encontro com um outro menino. E num movimento mais brusco explodiu dentro dele. O menino Fernando faria um acordo com o diabo para dominar a todos. sim. os caras-pintadas. para lançar seus livros. o impeachment. Dentes agudos picaram seu pescoço. se pudesse. Fernando. em afirmar: era ofensivo. Se fez bem ou não em não publicar o texto.. o Jornal do Brasil pediu a Caio que escrevesse um perfil de Collor. anos mais tarde. você foi o escolhido — o menino disse. ao menos. trinta anos mais tarde. Aquele mesmo que. E como Caio queria ir para a Europa. em 1989. Aquilo desanimava Caio. em Ovelhas negras. [.tremenda. um ruivo. quando Caio decidiu ir para a Europa. em 1990. — Daqui a trinta anos.

para a rádio BBC. ele não tinha dinheiro nenhum. sua barbinha. enquanto ele autografava livros. nas pedras do Arpoador. nem imaginava o quanto o termo colaria em Caio. quase dezembro de uma segunda-feira. a maneira errada. lhe assentaria bem como uma roupa feita sob medida. Por essas e outras é que a figura de Caio é tão associada a de D. viajou com a passagem que havia ganhado do prêmio Molière pela peça A maldição do vale negro. Um deus coroado pelo lado mais negro de todas as coisas. desajeitada. dia de Exu. para o jornal The Independent. para a Time Out. nove livros publicados. em algum lançamento). que só aconteceria dali a quatro meses. Quixote de La Mancha. e também na maneira trôpega de lutar por eles. de lealdade e busca de um mundo melhor. mas ele continuava lutando. Se . imaginou ouvir. um rei.para chover sobre as cabeças e corpos de todos aqueles homens e mulheres que o aplaudiriam como o cavaleiro andante. Foi notícia por lá: deu entrevista para a revista Time. Caio finalmente viaja à Europa. Quarenta e dois anos de idade. um príncipe. em março. ideais nobres. Molhou as pedras num jato prolongado de prazer-o primeiro. ao seu lado. que primeiro lhe deu o apelido (você é Quixote! Você é Quixote!. e lá estava o Caio procurando emprego de garçom. Só imaginou. Vai a Londres lançar a tradução inglesa de Os dragões não conhecem o paraíso — Dragons dont go to heaven — em uma feira de cultura brasileira. Clarice lhe sussurrava no ouvido. 0 menino ruivo tinha desaparecido ao sol do meio-dia em ponto. Na ida à Europa. O quixotismo dele estava presente em seus ideais. e a chance de sucesso parecia ser zero. Em novembro de 1990. Depois de divulgar seu livro. Astaroth. Caio foi correr atrás de lugar para morar e emprego. — Como é seu nome? — perguntou então. até o lançamento da edição francesa do livro. e provavelmente pensando em sua aparência. Às vezes. combatia moinhos de vento. Clarice Lispector. uma tradução inglesa. para conseguir passar mais um tempo na Europa.

o lançamento da edição francesa de Os dragões. com sua inabilidade em lidar com questões materiais. mora num bairro negro. como São Paulo era. Não sei para onde. por uma pechincha. Caio fica uns tempos na casa de Ray. um irlandês. que seria seu companheiro por anos. Eliot.S. Algum lugar onde eu possa plantar rosas. Quero porque . onde ela se matou. Ray. mas me soam mais para David Lynch do que para T. essa ele chamou de Dorothy. "Em cima. uma negrona grita o tempo todo fuck you little devil! I’ll kill you. um subemprego qualquer. sempre sem acentos — o teclado era britânico. uma SmithCorona. Em Londres. Comprou um casaco. foi até o rio Ouse. Comprou uma máquina de escrever usada. seu editor na Inglaterra. ele fez alguns free-lances para jornais no Brasil e. fez sua carreira internacional. Em Londres. escreve a Jacqueline Cantore. ". uma espécie de Harlem londrino. pegou uma pedrinha do jardim dela. que tudo é perigoso. o Brixton. teria que batalhar um emprego. não tinha nenhum dinheiro guardado para segurar a barra nessa hora. em março de 1991. Escreve a Magliani: "Depois desta. queria demais começar a providenciar uma mudança de São Paulo. além de ver muitos filmes e ler muitos livros — seu inglês vai se soltando mais e mais — Caio fica na espera dos compromissos que tem a cumprir: algumas leituras e palestras na Inglaterra. Seguindo o costume de dar nomes às suas máquinas de escrever. Caio estava feliz: visitou a casa onde morou Virgínia Woolf. Enquanto isso. a única diferença é que na Inglaterra as pessoas sofrem a crise com mais estilo.quisesse ficar lá. ele sonha. quixotescamente. um casacão de soldado alemão no mercado de Camden. com a qual passou a escrever cartas aos amigos. como Caio o descreve. quando voltar ao Brasil. assim. Grita mais coisas que não entendo. Ele sente que os tempos são difíceis. No fim das contas. bastard: para nigrinhos. depois. já que. Isso é FUNDAMENTAL.

Com todas as crises e dores e terceiro-mundismos. Havia sempre um motivo para não gostar do lugar. dos clichês que se costuma apregoar do país. postumamente e incompleto. ele jamais deixaria de ser um gaúcho. um estrangeiro. na mesma carta. E é assim que Caio começa. talvez. com o título — já modificado por Caio — de Estranhos estrangeiros. Assim que aceita sua condição de eterno estrangeiro. diferente. e não só em outras cidades. um gaúcho da fronteira. um estrangeiro. quando o livro for lançado lá: o retrato de um Brasil urbano. mas respondi com um grunhido.quero cultivar roseiras. apesar de todos os defeitos. O livro viria a ser publicado. Sobretudo ama. quando se achava que tudo estaria bem. mas no mundo. "No fundo. mas também poético. Como no trecho seguinte. ele achava tudo frio demais. Assim. pode aprender a amar o lugar onde está. apesar de todos os pesares. estendi . a confusão está é nele mesmo. a violência. nunca saí de Santiago do Boqueirão". em que a metrópole é o pano de fundo para suas lembranças: O motorista japonês tentou puxar conversa. afinal. em São Paulo ou Londres. violento. pela Companhia das Letras. E é isso que encantará os franceses. sempre. em Onde andará Dulce Veiga. Em Londres. o Brasil urbano. Porque ele era. finalmente. Caio pode parar e olhar ao redor e ver que os problemas. não estão em Santiago. um homem sem lugar. Seriam histórias sobre a condição de ser um estrangeiro. e Caio começou a perceber que ele seria. o seu Brasil. Mesmo aprendendo a gostar do Brasil. em Porto Alegre. a poluição. a amar o Brasil." Nessa carta. E o descreve muito bem. escreve. afinal. sentia que a cidade o sufocava. a Magliani. Caio ama e odeia o Brasil. não agüentava o moralismo das pessoas. Em Porto Alegre. acima de tudo. era a Europa. ele desistiu depois de comentar que ia cair a maior água. Em São Paulo. Afastei o banco para trás. ele conta ainda à amiga que planeja escrever um livro chamada Histórias estrangeiras. das grandes cidades.

gaúchas. lembrei então de Pedro. Lory E. Ele ligou o rádio. finalmente. e se algum diretor francês se interessa e resolve comprar os direitos? E se o Almodóvar se interessa. sobre o asfalto em brasa. a Lory E Band. e muito amiga do Caio. Dulce Veiga é uma história supercinematográfica. surgiu da idéia dos dois para um filme. e por quase um segundo. Caio começa a sonhar alto. anos depois. e a gravou.as pernas. veloz feito uma mariposa que cruza subitamente o ar nas noites de verão. muito maluca. lá na Espanha? Caio está brincando quanto a isso. eu queria ver no escuro do mundo. abri mais o vidro. afinal de contas. Débora é atriz. Laura Finocchiaro. muito rapidamente. a pilha de laudas virando pasta entre meus dedos. talvez budista. não o inseto que já foi embora. De repente a voz rouca de Cazuza começou a cantar. à procura de luz acesa para girar em torno. todas artistas. tão oriental. e era muito. Isso me fez gostar um pouco dele. deitei a cabeça no encosto de plástico pegajoso e por quase um segundo. rezei para que não sintonizasse num daqueles programas com descrições hiper-realistas de velhinhas estupradas. o vento soprava na minha cara. A outra irmã. como quem apaga ou acende uma dessas luzes para perceber no quarto vazio apenas a vibração de asas que restou no ar. Caio chegou a pedir para uma amiga cantora. a fazer o filme. por quase um segundo. Laura é uma das três irmãs Finocchiaro. tive certeza. Laura. sem querer nem provocar ou conduzir. como quem de repente suspira ou pisca e segue em frente. dentro do táxi que descia em direção ao Ibirapuera. a camisa molhada. musicar uma letra que ele fez. no fundo turvo do pensamento. mas ele não trocou. Vai trocar de estação. Com o sucesso do livro na Europa. cineasta. tinha a sua banda. O livro. e pedi que aumentasse por favor o volume. Com trinta e poucos . fechei os olhos. chacinas em orfanatos. vermes dentro de sanduíches. mas ele brinca principalmente para convencer o amigo Guilherme de Almeida Prado. enquanto o carro rastejava pelo trânsito difícil. secando o suor. Laura fez a música. claro. era roqueira. Chama-se Poltrona verde. outra vez. cantora.

Em 2006. como Adriana.anos. Stella participou. Adriana escreveria mais tarde a canção Alegre. A crítica. Escreveu releases para discos de Laura e de Cida.. faria sucesso com o espetáculo Terça insana. sem cobrar por isso.. ele admirava demais. Vinte anos depois. e sempre fazendo referências ao álbum Senhas. "deusa". apenas de farra. Chorava sempre na parte do "eu ando pelo mundo. no entanto. tinha o humor contundente e criticava a sociedade. . porque Londres em 1990 era apenas o começo — escreveu algumas cartas a ela. Era a peça As 1001 encarnações de Pompeu Loredo. da cantora. nas outras vezes em que esteve na Europa — sim. Cida Moreira. escrita por Vicente Pereira e Mauro Rasi. e a ouvia sem parar. filha de Dulce Veiga. fez a dupla com a cantora Katia Bronstein. morreu de aids. do primeiro besteirol da história dos besteiróis. amiga de Caio. como atriz. prestando atenção em cores. o espetáculo entraria no quinto ano de apresentações. surgiria uma nova tropa de atores e autores de teatro inspirados no movimento. O teatro besteirol fazia crônicas sobre o cotidiano." Em homenagem a Caio. De Cida. comédia de costumes. é um pouco inspirada em Lory. O personagem Márcia Felácio. que fez sucesso com a canção Doida demais. Caio adorava cantoras. e homenagem. Inspiração. contando de suas experiências. Nenhuma das duas tinha qualquer ligação com o interior ou com a música caipira. Em uma de suas viagens à Europa. atriz paulistana. E Caio não gostava apenas de cantoras sérias. Era amigo de muitas delas: Laura. Stella Miranda. seria uma das únicas fitinhas que ele levaria para ouvir no walk-man. era um dos melhores amigos. ele levou a fita da dupla pop-humorístico-sertaneja Xicotinho & Salto Alto. Grace Gianoukas. Caio amou o álbum. Diziam que era bobagem. vocalista da banda Vaginas dentatas. asfalto nas veias. A Adriana Calcanhoto. em 1980. não assimilava. O público e a crítica estariam prontos. Cida ou Marina Lima. e foi aí que surgiu o nome "besteirol". gravada por Vânia Bastos. sempre com mais e mais fãs. Adriana Calcanhoto. besteira.

Quando ele volta a São Paulo. Caio está de volta. Caio fez uma pequena ponta no filme Perfume de gardênia. Apesar da sua amizade com as cantoras. Caio está com a saúde meio arrebentada. O projeto só foi iniciado em 2005. não impede que Caio fique doente. como Dulce Veiga era um projeto dos dois. ambos de Guilherme. e de até a música estar pronta. Depois. Ele colhe várias ervas. elas pioram ainda mais. Renovado. A relação de Caio com o cinema de Guilherme vem antes. em Tiradentes. Minas. pode cultivar uma horta. numa cidade pequena. Foi só na volta a São Paulo que seu organismo começou a dar problemas. no entanto. uma otite. e com Laura. ainda que muitos anos depois. pode pintar e desenhar com tranqüilidade. porém. Ali Magliani. e também leu dois textos em off — com aquela bela. E. e depois de passear também pela França. agora sim. do projeto de Dulce Veiga. ele estava bem. cheia e grossa voz — no filme A dama do Cine Xangai. A tranqüilidade da cidade. Vai acompanhado da amiga escritora Sônia Coutinho. Caio não viu Dulce Veiga virar filme. Depois que voltou da Europa. Caio inveja a vida que Magliani conseguiu montar para si. suficientes para fazer litros de chá quando voltasse a Sampa. além disso. histórica. com todo apoio das leis culturais. Lá. que no livro não tem nome. cheia de belos morrinhos. Seis meses depois de ter deixado o Brasil. Guilherme de Almeida Prado não conseguiu filmá-lo naquela época. lenta. que Caio acha maravilhosa. 15 graus negativos. que é artista plástica.finalmente. as dificuldades de se fazer cinema no Brasil eram imensas. com umas pequenas infecções. longe das capitais. no frio. Primeiro. decide visitar Maria Lídia Magliani. no filme se chama Caio — uma singela homenagem ao amigo — e é vivido pelo ator Eriberto Leão. Carolina Dieckmann como Márcia E O narrador. era natural que o amigo filmasse a história. para esse tipo de humor. na neve. e com vários atores consagrados nos papéis principais: Maitê Proença como Dulce Veiga. feridas em dois dedos da mão esquerda e um da direita. não havia dinheiro. A médica chamou a infecção de .

Caio escreve ainda um ensaio sobre a atriz gaúcha Luciene Adami. também. Além de Curitiba para a oficina literária. depois mais laboratórios de criação literária. Escreve. Mesmo com as infecções e os namoricos que eventualmente aparecem. Dá palestras em várias cidades de São Paulo. principalmente. necessariamente. e às vezes comentava que preferia se dedicar somente à sua literatura. Caio passeia por São Luís do Maranhão e passa o Natal de 1991 em Porto Alegre. que atuou na novela Pantanal. que estava em cartaz na França. lia o que a turma escrevia com carinho. o escritor acaba perdendo o . escritores de renome. com a família. sugeria mudanças. em Curitiba. seu primeiro romance. como o conto Tentação. mesmo que não tenham nascido daí. aliás. ministrada pelo escritor na Casa de Cultura Mário de Andrade. Caio não consegue parar quieto. nas viagens à Europa que fez. crítica literária para a Playboy. Como sempre. sempre fazem de Caio um pouquinho mais feliz. que o conheceu na oficina Anatomia do Conto. Caio mandava sempre um postal ou trazia uma lembrança para ele. mas nem por isso deixava de fazer o trabalho bem feito. em São Paulo. Para a Playboy. pela Siciliano. não era motivo para fazer O Teste. A experiência de ter aula com ele foi marcante para muita gente.H. Um dos alunos de Caio foi o gaúcho João Batista. um contato com as raízes. Ele fazia pelo dinheiro. Quem fez oficina com ele conta: Caio era um professor atencioso.estreptococcia e achava que não. Entre uma viagem e outra. e os discutia depois. dava textos de Clarice Lispector. João e Caio se tornaram amigos. para os alunos lerem. volta renovado: uma viagem aos pampas. Ele volta preparado para enfrentar o passado e reescrever Limite branco. como o pôster de uma peça de teatro baseado em Clarice Lispector: La passion selon G. amiga sua e de Ivan Mattos. escrito aos 18 anos. A segunda edição do livro sai em 1994.

no final de 1992 já estava de viagem marcada para a Europa de novo. para uma bolsa de dois meses. Foi uma época de glória para ele: bem tratado. passaram pela Maison o escritor argentino Ricardo Piglia. com tudo pago: ele era convidado da Maison des Ecrivains Etrangers (Casa dos Escritores Estrangeiros). Assim à vontade. e o chileno Reinaldo Arenas. em Nova York. sua única obrigação era deixar um texto pronto. autor de Dinheiro queimado. Seis meses mais tarde. no décimo andar de um prédio defronte ao mar. no Brasil.apartamento onde mora. mais uma pequena mesada de 1500 dólares. uma pequena novela chamada Bem longe de Marienbad. Caio escreve um ótimo texto. publicada na França e. Caio rumou para SaintNazaire." "Há sempre alguma coisa de ausente que me . no póstumo Estranhos estrangeiros. bem alimentado. Funcionava assim: ele ficava dois meses num apartamento todo montado. que fica em Saint-Nazaire. na França. ele continuou morando no apartamento. Caio viveu. afinal. Depois de dez dias em Paris. para ser publicado pela editora Arcane XVII. Antes dele. anos depois. uma frase de Camille Claudel numa carta a Rodin: "Il y a toujours quelque chose d'absente qui me tourmente. O aluguel subira demais e ele não tinha como pagar. por dois meses. ao sair. Dessa vez. bem acompanhado. Arenas. e vales para ir ao cinema e teatro e bares de graça. ficou apenas três dias: tinha medo de se jogar da janela do apartamento — que ficava num décimo andar — e foi embora. mesmo assim. na verdade. entre outros. ele realmente se atirou de uma janela e morreu. O texto gira em torno de uma frase que perseguia o escritor há anos. um conto de fadas para escritores. inclusive com faxineira. enquanto a causa rolava na Justiça. Sem se preocupar demais. uma pequena cidade portuária.

e alguns dizem que há castelos pelo caminho. mesmo insignificante. que me soa romântico com seus erres rascantes ditos pela loura cinqüentona da portaria. com seu capotão inseparável. Ele segue as pistas do homem. e uma entrevista. com imagens dele andando pela cidade. Não pelo quarto. rue du Port —. igualmente imóvel. o que só se descobre ao final. em um francês bastante razoável. em que ele fala de suas influências. olho para fora enquanto o trem dispara sobre os trilhos." A novela. madame. É fácil descobrir o endereço — dix-sept. no frio e nas brumas. Wertheimer. é delicado e belo. sendo o leopardo o próprio narrador da história. Pelo risco da imobilidade eterna. com certeza madame não compreenderia tanta ânsia tropical. Ainda não anoiteceu. é a história de um homem que chega a uma pequena cidade na França para procurar um amor. vai a seu apartamento. se agita e move e se perde em outro lugar. Originalmente. ao final. bien sür. e por fim descobre a si mesmo. e ela insiste. Preciso ficar sempre atento. Desvio o rosto. Caio chamou a novela de O leopardo dos mares. em que se entremeiam passagens de sua narração de Bem longe de Marienbad em off. Aumento o som da canção. pela comida ou qualquer desses outros detalhes dos hotéis. Caio grava um pequeno documentário para a Maison. e promete. de literatura. descobre a busca do outro por si. Marienbad. mas pelo horror imóvel das enguias em sua jaula de vidro associado ao outro horror também imóvel daquela palavra. a possibilidade do reencontro e da harmonia. madame. permeado de referências a Arenas e à canção de Barbara e F. O texto. s'ilvous plaft. não devo me deter tempo demais em meus próprios olhos. Mais difícil. seria explicar por que me vou sem sequer passar uma noite aqui.atormenta. Na temporada que passa em Saint-Nazaire. congelado em inúteis delicadezas enquanto tudo ou nada ou apenas qualquer coisa. em primeira pessoa. pelo perigo de eu mesmo permanecer para sempre aqui. em português. de .

repetidamente. enfim. Ele. Enquanto não está escrevendo. segundo ele afirma em carta. e uma dramaturga tcheca. começa a afrouxar. Caminha na praia.cinema. e não tem mais onde morar quando voltar. Tudo na mais absoluta paz. diz que. Letônia e Lituânia. escreveu peças lindíssimas. independentemente de se acreditar ou não. de poesia. quando está escrevendo. ele vai ao cinema várias vezes. ele seria chamado para muitas entrevistas. que. cada um tem seu mapa astral desenhado antes da escrita. sempre pensa: onde está a câmera agora? Ele pensa o texto de uma forma cinematográfica. As pessoas costumam se referir a Gil como secretário de . com sua carteirinha de convidado. Fala também da importância do cinema em seus textos. só que todas girando em torno do tema HIV/aids. Faz também amizade com Marina. que nunca teve muita paciência para crianças. a astrologia é importante para ele na criação dos personagens de seus textos. uma turma da Estônia. Quem cuida de tudo. é Gil Veloso. participa de jantares e eventos com os outros escritores convidados da Maison. em sua ausência. a gaivota que mora na janela da cozinha. de seus processos de criação. Ele perdeu mesmo a causa judicial do seu apartamento. com seus zooms. e aquilo muito o chatearia. quando se descobrisse doente. de astrologia. a filha de nove anos de idade de seu editor na Arcane XVII. era um pequeno sonho. De vez em quando. Caio aproveita esse momento da melhor maneira que pode. pensava Caio. Ouve o álbum Senhas. de Adriana Calcanhoto. alguns anos depois. e dá a chance a Caio de falar de sua obra. a realização de um ideal: todo escritor deveria ter aquelas condições para escrever. Daniella. É nesse documentário que Caio fala que. Conversa também com Isabelle. Marina sabe tudo sobre Van Gogh e Caio adora conversar com ela. SaintNazaire. lê. O documentário é muito bem feito. e a personalidade bem formulada. porque no Brasil as coisas estão feias. cortes e mudanças de perspectiva. fade-ins e fade-outs.

que acabavam ficando para ele. porque ele exercia esse papel: ia na padaria. entre os quais estava Caio. ele viaja para divulgar seus livros. até se tornar uma espécie de secretário. embora não vestisse a camisa e saísse gritando palavras de ordem. às vezes. para a qual entrevistou 18 autores brasileiros. Os dois se conheceram na metade dos anos 80. Gil percebeu a dificuldade do escritor em lidar com as coisas práticas da vida. Gil brincava: anjo da guarda porque eu guardo suas coisas. verificava contratos. E foi ajudando. a explicação é que. papéis. Gil nunca recebeu um centavo para cuidar do Caio. Sappe havia defendido uma tese sobre a literatura gay no Brasil. Em seu estudo. por exemplo. Em janeiro. Em 1993. isso não existia. porque ele deveria ser chamado de escritor gay. Gil era fã da obra de Caio. Sappe constatou que os escritores brasileiros não gostavam muito que chamassem o que faziam de "literatura gay". Graciliano Ramos não era chamado de escritor hetero. é isso? Afinal. ajudando. o que nem sempre era fácil: era preciso paciência para lidar com o Caio. o amigo Sappe Grootendorst vai buscá-lo de carro. sem nenhuma segunda intenção. convivendo com ele. vai para a Holanda. Visitando Caio. Eles eram amigos. Para Amsterdã. ele tem carona. mistura de Gilberto Gil com Caetano Veloso. O escritor dizia sempre que Gil era um anjo da guarda enviado pelos céus para cuidar dele. Ficaram amigos. Em esquemas mais econômicos. Tinha edições de obras do escritor que o próprio não tinha. Tudo que fazia — nisso os amigos são unânimes em afirmar — era sem esperar nada em troca. Para Caio.Caio. pagava contas. contas. Na verdade. fazia de tudo para o escritor. Em seu caso. Amsterdã. bancos. Caio achou aquele nome ótimo: Gil Veloso. fazer leituras e palestras. ele escreveu alguns contos cujos . O luxo na Maison acabara. foi Gil que desmontou o apartamento da Haddock Lobo e deu um jeito de guardar as coisas do amigo em sua própria casa. mas nem por isso Caio deixou de voltar à Europa. Os dois foram sobretudo amigos. depois Kõln e Frankfurt.

personagens eram gays ou em que havia sugestões de homoerotismo. Nada panfletário, mas em algumas situações os personagens apanhavam, eram criticados, se davam mal por sua condição. Saíam feridos, mas moralmente vitoriosos. Um exemplo é o conto Aqueles dois, de Morangos mofados. Dois rapazes, Saul e Raul, se conhecem ao serem contratados para trabalhar na mesma firma. A amizade dos dois irrita o pessoal da empresa e ambos acabam demitidos. Saul e Raul saem juntos, altivos. A derrota fica reservada para os que desaprovavam a amizade dos dois:
Pelas tardes poeirentas daquele resto de janeiro, quando o sol parecia a gema de um enorme ovo frito no azul sem nuvens do céu, ninguém mais conseguiu trabalhar em paz na repartição. Quase todos ali dentro tinham a nítida sensação de que seriam infelizes para sempre. E foram.

Caio odiava o rótulo de escritor gay, assim como odiava quaisquer rótulos que pretendessem dar conta de sua literatura em uma palavra. Escritor introspectivo, escritor de geração, escritor marginal, quais fossem. Ele não gostava, como em geral nenhum escritor gosta. Fosse como fosse, Sappe entrevistou Caio para seu trabalho, e anos depois traduziu alguns contos dele para o holandês. Agora ele ia buscá-lo para irem até a Holanda. Entre uma leitura e outra, Sappe e Caio arrumam tempo para se apaixonarem um pelo outro e viverem uma breve, porém bonita, história de amor. Fazem juntos, e à mão, um livrinho com um conto de Caio traduzido por Sappe, e vendem em várias livrarias gays. Nessa viagem, Caio vai ainda à França e à Alemanha, para cumprir compromissos relativos à sua carreira lá fora. Depois volta ao Brasil. Sem a ajuda que esperava receber dos amigos, já que estava sem casa e sem dinheiro, segue direto para Porto Alegre, para fazer um tratamento dentário com sua irmã Cláudia, que é dentista. Em junho Caio volta à Europa: Alemanha, para o Interlit

— o Congresso Internacional de Escritores do III Mundo —, depois Itália, para fazer o lançamento da tradução italiana de Dulce Veiga em Milão, Gênova e Veneza. Alegria, alegria: um dos sonhos de Caio é conhecer Veneza. Depois ainda, Berlim. Entre um compromisso e outro, Caio escreve aos amigos. Cartões para Adriana Calcanhoto, Luciano Alabarse. Um cartão rápido, escrito a quatro mãos por Caio e Gerd Hilger, seu tradutor na Alemanha, para Gilberto Gawronski. No cartão, Caio conta a Gilberto das leituras de Dama da noite que ele e Gerd estavam fazendo Alemanha afora. Depois Caio diria a Gilberto, a respeito de sua performance: — Acho que você teria orgulho de mim. Dama da noite é um conto de Caio, que Gilberto Gawronski, gaúcho, ator, adaptou para teatro e representou inúmeras vezes. A primeira apresentação da peça foi em 1988, no teatro Crepúsculo de Cubatão, no Rio de Janeiro. Depois, a peça foi para o Espaço OFF, de Celso Curi, em São Paulo. Ao longo dos anos, Gawronski a interpretaria ainda em Porto Alegre, Londres e no Rio. Em 1996, o ator a representou também na França, em Lyon. Gawronski dirigiu, montou e atuou tantas vezes nesse espetáculo que é difícil imaginar uma apresentação de Dama da noite sem o envolvimento dele; por isso é que Caio disse a Gilberto que ele teria orgulho dele. O escritor considerava o personagem tanto do ator quanto dele mesmo, que a tinha escrito. O posto de musa inspiradora do conto é reivindicado por várias amigas de Caio. Várias delas acreditam ter sido a fonte de inspiração para a mulher do conto, a dama da noite que conversa com um garoto, que ela chama de boy, e conta a ele sua história, que é a história, na verdade, de todo outsider, de todos os que vivem à margem da sociedade. O mais provável, contudo, é que a personagem seja um compósito, um amálgama da personalidade de todos essas amigas, como Claudia Wonder, Márcia Denser — a quem o conto é dedicado — e mais ainda um toque da imaginação do escritor.
Como se eu estivesse por fora do movimento da vida.

A vida rolando por aí feito roda-gigante, com todo mundo dentro, e eu aqui parada, pateta, sentada no bar. Sem fazer nada, como se tivesse desaprendido a linguagem dos outros. A linguagem que eles usam pra se comunicar quando rodam assim e assim por diante nessa rodagigante. Você tem um passe para a roda-gigante, uma senha, um código, sei lá. Você fala qualquer coisa tipo bá, por exemplo, então o cara deixa você entrar, sentar e rodar junto com os outros. Mas eu fico sempre do lado de fora. Aqui parada, sem saber a palavra certa, sem conseguir adivinhar. Olhando de fora, a cara cheia, louca de vontade de estar lá — tá me entendendo, garotão? Eu sou a dama da noite que vai te contaminar com seu perfume venenoso e mortal. Eu sou a flor carnívora e noturna que vai te entontecer e te arrastar para o fundo do seu jardim pestilento. Eu sou a dama maldita que, sem nenhuma piedade, vai te poluir com todos os líquidos, contaminar seu sangue com todos os vírus. Cuidado comigo: eu sou a dama que mata, boy.

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e toda a troupe da Sabará. vai minha última foto. Te gusta?" .Verso do postal: "Com votos de Novo Ano LINDO p/ você.

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Preciso ter uma ilusão de segundo mundo — você sabe que. Ao final do filme. Dana está sempre no controle. Uma das cenas clássicas era a de Tom Hanks ouvindo Maria Callas e dançando.Na adaptação teatral. É um pouco caro. Gawronski se equilibra sobre saltos plataforma de 14 centímetros. O homem. um ser ambíguo. em silêncio. mas logo arruma um lugar para morar. No final de julho. mas o escritor faz questão de um mínimo de conforto. a dama da noite vira Dana de Avalon. embora precise dessa platéia. um PS: "Falei com Zulmira . Nos primeiros dias. um flat na Frei Caneca. Pronto: agora podem conversar de novo. encontra um advogado homofóbico — vivido por Denzel Washington —. demitido da firma onde trabalhava por estar doente. pode-se ver a decadência física do personagem. coloca a pesada jaqueta de couro negra. fica hospedado na casa de Gil Veloso. Caio diz: — Uma vodka pura. Ao final da carta. tenho uma alminha três chie". Paulista até o Ritz. que no entanto acha injusta a demissão de Hanks pela empresa. Por fim. andando pelo bar. De chorar potes de lágrimas. do boy que a escute. decide processar a firma. a peruca vermelha e os longuíssimos cílios e faz o monólogo sem parar. subindo nas mesas ou correndo. Foi com Gilberto Gawronski que Caio assistiu no cinema ao filme Filadélfia. Caminham pela Av. né. ela sabe o que faz. vivido por Tom Hanks. embora Laika. que retrata a história de um homem com aids. segurando a aparelhagem do soro. ela é experiente. uma pessoa com uma postura mais agressiva que a do conto. de 1993. escreve a Gerd Hilger. com o choque do filme amortecido pela bebida. Caio está de volta a São Paulo. Caio e Gilberto saem para a rua. Enquanto corre o processo. mas custa a achar um advogado que pegue o caso. e bebem duas doses. assistido no cinema. que fala apenas de uma quarentona que vive pelos bares à caça de homens. mais que uma drag queen.

De vez em quando. ele se dá o direito de discordar. A essa altura. Pergunta o que os membros realmente FAZEM na Academia. em julho de 1991. Caio já começa perguntando se ela é reacionária ou comunista. ele pergunta se o latifúndio é produtivo ou improdutivo. se ela acha que a literatura brasileira é muito desprezada. Castello não torturara ninguém. em certa época. Um desastre! Você acredita que ela me acusou de ter sido injusto com a Raquel (sic) de Queiroz? Manda MATAR (as duas)!" O episódio a que ele se refere é uma briga que teve na televisão. E pergunta do Collor: . a autora nega. pois Rachel colaborara com os trotskistas. os entrevistadores questionam a escritora sobre suas posições políticas. Quando ela fala que o PT continua o que o Brizola e os caudilhistas tinham de pior. são provocativas. Quando ela fala da propriedade que tem no Nordeste. muito amigo de seu marido. ao vivo. Rachel? — à resposta afirmativa dela. Quando a escritora defende a presença de José Sarney na Academia Brasileira de Letras. ele pergunta: — Mas você não tinha noção das torturas? Rachel afirma que ela apoiou o golpe do Castello Branco. Ele continua.. a entrevistada era Rachel. mas depois apoiara o golpe militar de 1964.Ribeiro Tavares. quando as faz. na época um programa bastante influente. e o apresentador. ela responde que vai lhe mandar o gibi com as notícias. só os que vieram depois. Caio era chamado para ser um dos entrevistadores do Roda Viva. o embate entre os dois é claro. Segundo ela. com a escritora Rachel de Queiroz. Rachel era contra João Goulart e Brizola. Começa o bombardeio: — Mas você apoiou o golpe.. ele ironiza: — Quem sabe não convidam o Collor para a Academia. Naquele dia. Jorge Escosteguy. Embora Caio não faça muitas perguntas. Já no começo do programa. O programa segue. da qual ela fazia parte. que era seu parente. da TV Cultura. Caio pergunta sobre literatura. que chamava de caudilhos.

eu concluo que você colaborou para coisas muito negativas nesse país. que você ajudou? Ela diz que só ajudou o golpe do Castello. se as minhas posições são constrangedoras para você. coisa e tal. É porque você é muito jovem e não passou os tempos piores. a mais polêmica. quer dizer que há um grau de liberdade muito maior — diz Rachel. — Não. o apresentador intervém. Realmente. eu não tenho mais perguntas a fazer — diz Caio. eu acho também as suas muito constrangedoras para mim. não. Mas eu estou me sentindo extremamente constrangido de estar na posição de render homenagem ao tipo de ideologia que eu profundamente desprezo. e eu não vou me tornar constrangedor. até que Caio faça sua última manifestação. eu só queria dizer isso.. — diz Rachel.. você tem que fazer perguntas. Por várias coisas que você falou. — Desde o Sarney que nós temos essa liberdade. todos nós somos humanos. — Mas é o mínimo. Estou me sentido muito constrangido de estar aqui. mas antes que continue. porque passamos tempos muito piores. no meu ponto de vista. estou sendo exigida de me pronunciar sobre . ele retruca. desculpe — intervém Escosteguy. eu respeito suas posições e espero que você respeite as minhas. — Eu respeito. — Não é o mínimo. — . É a última coisa. — Quero falar uma última coisa.. — Eu gostaria de responder a você que nós estamos num país democrático. O programa segue. insiste. — Caio. e não render homenagens.. Compreendo. — Se você tá perguntando isso em uma televisão oficial. erramos. — Tenho 42 anos e estive preso em 68! — Então você não aprendeu com o tempo.— Você não acha que o Collor tá dando continuidade ao que havia de mais lamentável no golpe militar de 64. nos equivocamos. tanto que calo — interrompe Caio. Caio diz que ainda está aprendendo.

Afinal. parafraseando alguma atriz de cinema. morre Vicente Pereira. Caio segurava o turbante. escreve a Gerd Hilger. A coluna faz bastante sucesso. o melhor amigo de Caio. de criar. A performance de Caio no programa suscitaria debates sobre o papel do entrevistador e do jornalista na entrevista. Mas tem que se levantar logo: afinal. Caio pega uma gripe que leva três semanas para ir embora. havia quem criticasse e quem defendesse sua posição. fica deprimido. sentia o ritmo e ia vivendo. mas sente alívio pelo amigo. que o anima um pouco: "Segura o turbante. doente. como escreve a Gerd Hilger: "Não se pode ser infeliz. e é preciso sobreviver. sem querer sair de casa. Mesmo quando se cura. agora. não se pode desistir de amar. não se pode morrer em vida. meu bem. só olha para o papel e rabisca. "Laika é laika. triste. e sente o ritmo". Galizia. que se recusa a sarar. que dividiu apartamento com ele. O programa continua. depois de acertado o lugar para morar. daí a pouco é hora de ir para a França de novo. O dinheiro que sobrou da Europa vai acabando aos poucos. é proibido — verbotten. Alheio a tudo isso. lançar os livros. Ele fica triste. Caio. Depois uma otite crônica. batalha serviços. não é assim em German? Não é possível adiar a vida. Em setembro de 1993. Caio não fala mais nada. Ele então faz trabalhos como revisar traduções — mal-feitíssimas. Não se pode: é pecado. possivelmente." . mas o dinheiro é insuficiente para Caio se manter. De forma que é recíproca nossa posição. Em janeiro de 1994. depois de lutar contra a aids por meses. de discutir isso com você. em paz. Já faz algum tempo que ele publica uma crônica quinzenal no Estadão. Mas se lembra também de uma frase que Vicente repetia. na opinião dele — feita por catedráticos da USP O pagamento? Um terço do que o tradutor original ganha. Cazuza. sempre será". O escritor se lembra de outros que foram: Orlando.esses temas que eu não gostaria de me pronunciar. Ele passa o mês praticamente de cama.

que ele odiou. Caio sempre arruma um tempinho para ir ao cinema. do diretor espanhol Pedro Almodóvar. depois volta à capital francesa. Apesar de muito requisitado para entrevistas. Não deixava de ser engraçado. para um garoto francês que viu a entrevista na TV. o Jayme Monjardim. também comparado ao Jô daqui. que continua em Tiradentes. Seus livros vão indo bem no país. a gravação do programa foi engraçadíssima. Trocara fraldas do filho. Caio resolve dar uma passeada. perfil em Les Inrockuptibles.Em março de 1994. que está curioso por conhecer. Tudo isso ele conta em carta a Maria Lídia Magliani. se apaixona por Short cuts. dirigido por Robert Altman e baseado no livro de Raymond Carver. comprou os três livros e deu vários outros de presente aos amigos. comparado por Caio ao Programa do Jô. com o ego nas alturas. depois uma semana em Saint-Nazaire. ele vende seu peixe. Caio chega à conclusão de que o Altman é um "Almodóvar COM substância". Está feliz: até autógrafo na rua ele deu. mas só a nomeação já deixou o brasileiro orgulhoso.. foto em cores em Telérama. Tendo assistido ao filme Kika. Caio passa uns tempos em Paris. Vai até Lisboa. e os franceses estão comprando: Dulce Veiga é indicado para o Prêmio Laure-Bataillon. Enfim. um chileno "gordimenso". comparou Dulce Veiga à cantora Maysa. o Cercle de Minuit. E coincidência das coincidências: quando Caio. Depois de dois meses na França. e . chamado Jamais sans mon livre (Jamais sem meu livro). Ele faz também outro programa de TV. e ele vai divulgá-los em um programa de TV sobre literatura. Caio volta a Paris. que premia o autor e o tradutor do melhor romance estrangeiro traduzido no ano. na entrevista. da Maison des Écrivains Etrangers. aqui no Brasil. Por conta dessas e outras. em que os outros convidados do dia são Isabella Rossellini e Jeff Bridges. o diretor do programa. enlouqueceu: ele tinha sido amigo íntimo dela.. Dessa vez. E há mais: sai matéria sobre ele na LExpress. John Updike acaba vencendo o prêmio em 1994.

ele tem que se livrar dessa dúvida. Falava e falava disso com os amigos. E foi só pisar em terras brasileiras para cair doente. Caio não quis ir. E ele tem trabalho a fazer. Caio perguntou: — E aí? — Não vai dar para fazer camiseta — respondeu ela. "Ambos me convidam para a colheita de narcisos da primavera. . escreve a Luciano Alabarse. eles fariam a maior festa. com medo da aids. bactéria. Não. o que fosse — não o largava de jeito nenhum. claro. Chegou em casa. Caio aceita a idéia. tem que voltar à Alemanha em outubro.para a Noruega. e por lá ficou. para a França de novo em novembro. Já faz quase dois meses que voltou da Europa." Depois de Lisboa e Noruega. o envelope já aberto. A frescura é tanta. que. diga que estou noivo de Isabelle Adjani — mas não fiquei metido e mando beijos. mandariam fazer camisetas com EU SOU NEGATIVO! escrito bem grande. E na hora de buscar o resultado. de uma vez por todas. e não consegue melhorar. Na época. mas a danada da doença — o vírus. os resultados do exame demoravam uma semana para sair. e Caio poderia respirar aliviado. Parece mesmo o melhor a fazer. em junho. sempre decidida. achou que era melhor fazer O Teste logo. Até que Graça Medeiros. o amigo de infância que foi para a Europa e não mais voltou. Casou-se com um norueguês. já que as infecções não o abandonam. Caio volta ao Brasil. Magro do jeito que era. Pediu para Graça buscar para ele. e sairiam pelas ruas jogando confete. Aí se tirariam as dúvidas. Dá-lhe antibióticos e mais antibióticos. Uma semana de angústia. de papel passado e tudo. Nesse caso. perdeu mais oito quilos. visitar Augusto. não resisto". Ela foi. Caio estava apavorado. "Se alguém perguntar por mim. apreensão. se desse negativo.

Em Carson McCullers doía fisicamente. deitado numa maça de hospital. Pois é no corpo que escrever me dói agora. feridas. Ele apenas diz que dói. Para você. mas eu não vou parar.] Assim Caio começa a contar ao seus leitores de O Estado de S. outros tantos ainda lutavam contra ela.SEIS Alguma coisa aconteceu comigo. Ele passara mais de uma década com medo de estar contaminado. A crônica. feito Pessoa. e não à toa. tudo é ainda muito turvo. com suas veias inchadas. publicada em 21 de agosto de 1994. Paulo que estava doente. Dói muito. embora . está sob efeito de remédios. [. para mim mesmo. Quando souber finalmente o que foi. essa coisa estranha. ainda. Mas por enquanto. vão me salvar. e por favor. e não é. Alguma coisa tão estranha que ainda não aprendi o jeito de falar claramente sobre ela. Caio ainda não entendeu direito o que está acontecendo. chama-se Primeira carta para além do muro. prometo. Nestas duas mãos que você não vê sobre o teclado. Ele se encaixava perfeitamente naqueles grupos e comportamentos "de risco". os braços cheios de agulhas espetadas. Como sempre tentei ser. Fazia sentido ele estar com aids: metade de seus amigos morrera em decorrência da doença. dizem. dói fisicamente escrever.. muito explícita sobre o mal que o acomete. É com terrível esforço que te escrevo.. saberei também esse jeito. no corpo feito de carne e veia e músculos. E isso agora não é mais apenas uma maneira literária de dizer que escrever significa mexer com funduras — como Clarice. ele encara a coisa toda bastante bem. cheias de fios e tubos plásticos ligados a agulhas enfiadas nas veias para dentro das quais escorrem líquidos que. tente entender o que tento dizer. A princípio. Então serei claro.

Caio pensou. contando a notícia: Cida Moreira. Graça ficou preocupada. Custaram a arrumar . provavelmente. Ele não falava coisa com coisa. e Gil logo percebeu. todo o absoluto que estava contido no resultado positivo do exame. Foi o que aconteceu ao Caio. Caio não estava nada bem. Era como se já soubesse. teve que voltar ao Rio para cumprir um compromisso de trabalho. O choque de saber-se condenado. Não se assustou. Foram para o Emílio Ribas. Pegou o telefone e calmamente ligou para os amigos. tenho aids. se matar. veio a febre. viram que estava sereno. Era peso demais. e rumaram para o apartamento do Caio. ao telefone. delirantes. não necessariamente drogados. Graça. Os médicos dão a isso o nome de "quadro de dissociação mental". conversaram. Ele não sabia o que estava fazendo. doentes. ela não conseguiu voltar na segunda. não necessariamente gays. Nada incomum em casos assim: grandes traumas podem levar as pessoas a ficarem temporariamente perturbadas. enfim. e não só ela. e ligou para ele. o choque da descoberta.já se soubesse que o vírus não era exclusivista e atingia gente de todo tipo. a febre levou ao delírio. parecia descer sobre sua cabeça e esmagá-la como um trator. O organismo não agüentou. Déa Martins e Gil Veloso também ficaram. de ser soropositivo. Durante o final de semana inteiro — pegara o resultado numa sexta-feira — ficou bem. Lygia Fagundes Telles. era demais. Ligou para mais gente. De repente. não se lembraria de nada. Vou morrer. No dia seguinte. Porém as coisas atrasaram. Não era intenção de Caio. Vou morrer. que estava cuidando dele. Muito alta. recitava em alemão. todo o significado. Gil segurou-o a tempo. A doença era a cara dele. não necessariamente promíscuos. Tentou se atirar da janela. Gil resolve que era melhor correr com ele para o hospital. Voltaria na segunda. Alguns amigos foram visitá-lo. acabou. sua mãe. francês. caíra a ficha: toda a irreversibilidade de sua doença. Ele tivera. finalmente. pensou ele.

Graça também teve uma discussão com o médico: ele dizia que Caio estava maluco. ele escreveu a Primeira carta para além do muro. Ele ia para os exames e pedia aos amigos: segura a Maria Callas pra mim. Ela dizia que não. por favor. que ele levava dançando. E termina o texto. No dia seguinte. incomunicável. realmente. Ele compôs raps para o AZT. Mas como o médico podia saber disso? Ele pensou que o Caio achava estar. brincou. Periga o teu amigo não te reconhecer. discretamente: — Eu não disse? Aí Gilberto relaxou. Outros amigos iam visitá-lo. o trauma. Quando Gilberto Gawronski apareceu para visitá-lo. como também o seu humor. ele se agarrava à única coisa que podia ajudá-lo a viver: a literatura. na Filadélfia. talvez eu apenas não tenha compreendido ainda a maneira como eles são. a maneira . Não só a memória de Caio estava intacta. O médico insistia em dizer que Caio estava mentalmente muito perturbado — provavelmente com um tumor no cérebro. porém. já fazendo referência velada à doença. Antes de ter descoberto esse jeito. claro. "Bem-vindo a Filadélfia". sua irmã. Quando abre a porta e Caio o reconhece. E o humor do Caio não parava. o médico alertou: — Se prepara. era uma referência ao filme de Tom Hanks. A Maria Callas era o aparato do soro. Logo ele voltaria ao normal. Gilberto entra no quarto com o coração apertado. exatamente como na cena de Filadélfia. ele ia descobrindo um jeito de lidar com a doença. Na crônica. era apenas o susto. assim: Tenho medo é desses outros que querem abrir minhas veias. que Caio e Gilberto haviam assistido juntos. veio de Porto Alegre. diz: — Bem-vindo à Filadélfia! O médico vira para Gilberto. já muita gente tinha sido avisada: Cláudia Abreu. Depois do susto inicial. vegetativo. Talvez não sejam maus. Graça Medeiros também já estava na cidade. cantou. esperando ver o amigo totalmente abalado.um leito no hospital lotado.

como tudo é ou tornou-se, inclusive eu mesmo, depois da imensa Turvação. A única coisa que posso fazer é escrever — essa é a certeza que te envio, se conseguir passar essa carta para além dos muros. Escuta bem, vou repetir no teu ouvido, muitas vezes: a única coisa que posso fazer é escrever, a única coisa que posso fazer é escrever.

Depois da primeira, vieram ainda uma segunda e uma terceira cartas. A segunda é um pouco mais clara que a primeira, e fala dos anjos que Caio encontrara em sua descida ao inferno: anjos de branco, funcionários do hospital; os anjos de negro, seus amigos que lhe trazem presentes e carinho. E os outros anjos, os que já foram.
Noite alta, meio farto de asas ruflando, liras, rendas e clarins, despenco no sono plástico dos tubos enfiados em meu peito. E ainda assim eles insistem, chegados desse Outro Lado de Todas as Coisas. Reconheço um por um. Contra o fundo blue de Derek Jarman, ao som de uma canção de Freddy Mercury, coreografados por Nureiev, identifico os passos bailarinos-nô de Paulo Yutaka. Com Galizia, Alex Vallauri espia rindo atrás da Rainha do Frango Assado e ah como quero abraçar Vicente Pereira, e outro Daime com Strazzer e mais uma viagem ao Rio com Nelson Pujol Yamamoto. Wagner Serra pedala bicicleta ao lado de Cyril Collard, enquanto Wilson Barras esbraveja contra Peter Greenaway, apoiado por Nelson Perlongher. Ao som de Lóri Finokiaro, Hervé Guilbert continua sua interminável carta para o amigo que não lhe salvou a vida. Reina Ido Arenas passa a mão devagar em seus cabelos claros. Tantos, meu Deus, os que se foram. Acordo com a voz safada de Cazuza repetindo em minha orelha fria: "Quem tem um sonho não dança, meu amor."

A terceira crônica é muito mais clara que as outras duas. Nela, Caio conta o que lhe tinha acontecido, detalhe por detalhe. O Teste, o resultado, as ligações para os amigos, depois a febre e o delírio, e o hospital. Caio ficou 27 dias internado no Emílio Ribas. Lá aconteceu uma coisa inesperada: ele recebeu tanto carinho das pessoas, tantas

vibrações positivas, como comentaria sempre em entrevistas dali adiante, que ele foi, serenamente, começando a aceitar. E que mais ele podia fazer? A doença era irreversível demais para que se pudesse lutar contra; era preciso aceitar. E ele aceitava todo dia, como escreveu na Ultima carta para além dos muros.
[...] O que importa é a Senhora Dona Vida, coberta de ouro e prata e sangue e musgo do Tempo e creme chantilly às vezes e confetes de algum carnaval, descobrindo pouco a pouco seu rosto horrendo e deslumbrante. Precisamos suportar. E beijá-la na boca. De alguma forma absurda, nunca estive tão bem.

A terceira crônica foi escrita já em Porto Alegre. O médico recomendara a ele: você precisa agora é de qualidade de vida. Então Caio decidiu: adeus, São Paulo. Fez uma festa de despedida na boate A Loca, na qual cantou Laura Finocchiaro e compareceram muitos amigos, como Paula Dip e o marido. Mário Prata se lembra de ter visto Caio pela última vez nessa festa. Muitas luzes vermelhas, verdes, azuis, muita fumaça. Prata estava sentado em uma escada quando Caio passou a mão em sua cabeça e subiu os degraus, leve, incorpóreo, parecendo, por causa das luzes coloridas, uma figura sobrenatural, um anjo. Caio voltou, então, ao Rio Grande do Sul, para morar com seus pais já tão idosos, no sobrado colonial espanhol no bairro Menino Deus. Há roseiras no jardim, como ele sempre sonhara em ter. E ele se dedica, então, a cuidar de si, de suas flores, de sua obra. Nunca foi tão fácil conviver com o Caio — alguma coisa nele meio que serenou. O mau humor de antes, as alfinetadas, o gênio difícil, tudo isso foi substituído por uma espécie de paz, de aceitação. Ele vivera os últimos anos em constante aceleração, viajando de cá para lá, ParisBerlim-Londres-São-Paulo, e agora era obrigado a parar. Ele sempre quisera desacelerar; invejava a amiga Magliani e sua horta, lá em Tiradentes. Agora era a hora. Não haveria outra, ele pensava. A vida não era mais adiável.

Ele descobriu o que já sabia ainda com mais força: amava a vida. Acalentava o sonho de fazer parte da primeira geração de sobreviventes, os primeiros a driblar o vírus da aids. Não a cura, que isso parecia impossível, mas alguma maneira de estabilizar a doença, deixá-la tipo a diabetes, algo crônico, porém não letal. Ele achava que, se conseguisse sobreviver mais um ou dois ou três anos, essa "cura" podia aparecer, e então ele poderia viver muitos anos mais. E estava certo: quando ele morreu, em 1996, já existiam os remédios que comporiam o famoso coquetel. Ainda não se sabia como dosá-los, e administrá-los nas doses certas para manter a doença em níveis controlados, mas já existiam. Em Porto Alegre, a rotina de Caio era simples: acordava cedo, tomava café, ia cuidar das roseiras. Escrevia um pouco: crônicas para O Estado de S. Paulo e agora também para a Zero Hora, de Porto Alegre. No Estadão, Caio escrevera crônicas de 1986 a 1989; depois de uma pausa de três anos, retomara seu espaço em 1992, e escreveu até dezembro de 1995. Uma seleção de suas crônicas para publicação em livro foi elaborada por Gil Veloso, quando Caio já estava doente. Pequenas epifanias foi publicado em maio de 1996, alguns meses depois da morte de Caio. A rotina leve na casa dos pais e as doses de AZT pareciam estar funcionando. Caio ganhara peso, os exames de sangue apontavam bons resultados de plaquetas, leucócitos e linfócitos. Quando precisou de um remédio mais caro, americano, que custava 4 mil dólares o grama, Lucinha Araújo, a mãe de Cazuza, e Scarlet Moon, esposa do Lulu Santos, conseguiram de graça para ele, conta Graça Medeiros. As coisas pareciam bem, e Caio decidiu que iria, sim, cumprir seus compromissos na Europa. Primeiro, a Alemanha. Em 1994, a Feira de Frankfurt foi dedicada ao Brasil; Caio foi participar da feira e depois seguiu por várias cidades alemãs, fazendo leituras e palestras. Ele iria ainda à França, passar duas semanas em Aries, numa mini-bolsa para escritores, mas não deu. Um teimoso

quando a lesão apareceu. E Caio ficou apaixonado por ele. Caio recebeu um presente inesperado. uma calça clara. Era lindo. Eduardo Sprinz. Celso estava muito mais triste que Caio. ou pelo menos assim parecia. imprimia tudo. Celso chorava o tempo todo. O sarcoma é uma espécie de câncer de pele. Maria Adelaide Amaral. porque estava incomodando. Lasanha. Assim que terminava de escrever. Amigos de São Paulo — Celso Curi.sarcoma de Kaposi resolveu brotar em Caio. Era. falou em cartas aos amigos que agora era um homem informatizado. E corrigia as provas à mão. Informatizado em termos: Caio não sabia muito bem mexer no computador. Quando Celso esteve em Porto Alegre para entregar o computador. Tratara de Lory Finocchiaro e de mais tantos positivos que havia em Porto Alegre. Celso Curi foi eleito para ir a Porto Alegre entregar o presente. a última vez que se veriam. Ah. uma lesão arroxeada que acomete as pessoas contaminadas com HIV. Além do laptop levado por Celso. E Caio. Caio adorou. por exemplo. achando que havia um motivo pelo qual ele pegara a doença. ao lado dele. e. e o motivo era revelado agora: conhecer o . o nome do imunologista. o médico. E também não queria aprender. portanto. provavelmente. e brotar bem na ponta do nariz. o imunologista. É um dos estágios mais adiantados da doença. escreveu crônicas contando de seu novo Robocop. apaixonado assim meio de brincadeira. Mas na ponta do nariz era demais. outras alegrias esperavam Caio: seu novo imunologista. mandando ele parar. meio a sério. Não sabia salvar os arquivos. Não foi surpresa. Vânia Toledo e mais alguns — fizeram uma vaquinha e compraram um laptop para ele. Caio antecipou a volta ao Brasil. pensando no amigo que ia perder. como sempre fizera. Caio já devia estar contaminado há pelo menos uns dez anos. segundo os cálculos dos médicos. ele e Caio saíram juntos para o teatro. Chorava de molhar a calça. dando soquinhos em sua perna. Belíssimo. De volta a Porto Alegre.

Claro que estou achando que tudo era fatal.. que adorava desenhar. Caio escreve a Gerd Hilger: "Gerd Alberto da Silva Hilger. Além da medicina clássica. afinal. o mais novo. e Laura. não . E passava tardes inteiras sentado com ela. era incrivelmente louco por frangas.. virginiano como o Caio. Via uma e começava a gritar: gangá-gangá! E o mais velho. desenhando. ele se apaixonava pelo imunologista. segundo ele. OK?" Por mais lindo que fosse o médico. desenhando. era mais curativo que AZT: crianças. Rodrigo. filhos de Cláudia e Jorge. Ele passava o dia brincando com seus sobrinhos: Rodrigo. no entanto. um clichê até justificável: se muita gente se apaixonava pelo analista. Caio não estava disposto a apostar todas as suas fichas num número só. filho de Luiz Felipe. de onze anos. estava mais próximo dele agora. ou leste. Felipinho. ontem foi apenas a segunda vez que nos encontramos! Mas falando sério — God! — que homem GOSTOSERRIMO. Caio comprou uma caixa de lápis de cor enorme para a Laura. honey. que era quem. e que natural e inevitavelmente ele também vai se apaixonar por mim. o Caio. o Felipinho. e o mais novo. Sempre apaixonado.. de um ano e meio. a não ser que leve o Valdir junto. eu recém comecei a pegar amizade. de quatro. ele se tratava também com propólis e lama de Araxá. e que fiquei doente apenas para conhecê-lo. quem o tocava. tinha o temperamento do tio: às vezes se isolava.. a quem Caio dedicou alguns contos. Para seu governo. E pelo médico. e que movido pelo amor descobrirá algum medicamento fantástico que me salvará a vida e certamente logo depois iremos viver em alguma ilha do Pacífico Sul (ou norte. uma amiga antiga. como o senhor é guloso! Já pedindo foto da MINHA lasanha completamente pelado(a). o tratava com florais de Bach. E Caio descobriu um remédio que. tanto faz) onde seremos felizes para sempre — e o senhor Não será convidado a nos visitar. e gostava muito de Frida Kahlo — queria sempre ver a foto daquela "mulher de bigode".médico. oeste. Cecília Niesemblat. quem lhe dava a promessa de vida.

nas crônicas. Horas e horas ele passava no jardim. o escritor pegava a bicicleta e ia dar longos passeios no parque da Marinha. descendente de italianos. alguns deles loucos por jardinagem. Conversava com os vizinhos. Era calmo. Ao contrário do tio. . ou Felipe. era muito informático. mexendo na terra. sua vizinha. Chegou a colocar na filha o nome de Itália. vizinho da casa ao lado. para ir à fisioterapia. D. que todos os dias passava em frente ao jardim. Anita era fascinada pelo continente. onde Caio passava a maior parte do tempo. Caio ficava encantado em conversar com ela. onde tirou algumas das fotos mais famosas de sua vida. como queria. as roseiras que ele amava — algumas das quais estão de pé até hoje. Eram caramujos canibais querendo devorar as flores. impressoras e tecnologias. rua onde os Abreu agora residiam. Anita. Havia as rosas. Junto com o marido. Caio brincava: estava pensando em trocar suas credenciais de "jornalista e escritor" para "escritor e jardineiro". E Caio gostava de viver assim. artista plástico. vivo. como Irineu Garcia. era difícil manter o jardim vivo. ou ervas daninhas de todo tipo. tranqüilo. Ela vira cada casa ser construída. enfim. Podia também ver o pôr-do-sol na usina do Gasômetro. e sabia a história de cada morador. esforço. Caio estava ficando obsoleto. De vez em quando. porém. ou a flor do girassol pesada demais para seu próprio caule — "como se não suportasse o peso da própria beleza que engendrou" — . ou as formigas querendo devorar as angélicas. cuidando. mesmo nome de uma sua irmã falecida. A sua principal preocupação era o jardim. principalmente em festas ou reuniões familiares. cuja casa ficava em frente à do Caio. Conversava com D. com quem o escritor trocava sementes e dicas e truques. Adorava conversar com Caio: ele lhe contava as histórias da Europa. ele falava sempre das dificuldades que tinha em manter o jardim. Era preciso trabalho. octogenária. lindo. sabia lidar com computadores. D. ou o inverno rigoroso que secava as plantas. E bonito.queria saber de ninguém. Anita fora a primeira moradora da Oscar Bittencourt. Nas cartas aos amigos.

nos últimos anos. Emy. Caio e Amanda foram alunos de astrologia de D. novela da ensaísta americana Susan Sontag que descreve as reações de um grupo de amigos quando um deles contrai aids. Os dois tinham algo em comum: assim como Graça Medeiros. Anos depois de sua morte. Amanda levou a tal caixinha em um almoço. uma alemã que influenciou várias gerações de astrólogos em Porto Alegre. para ficar mais bonitinho. na Jornada Literária de Passo Fundo. de uma geração mais nova que a do Caio. escrevia. Foi um sucesso. A tradução ter sido feita por Caio.Caio quase não saía do Menino Deus. que já era fã e se lembrava de vê-lo na rua. Caio estava lá para falar como escritor e ela. ele precisava de uma caixinha de isopor para guardar os remédios. para homenagear os moradores e o escritor. com o casaco preto enorme. o bairro onde morava. emocionou . Em 1995. Como Amanda Costa. aparecia. fez uma faixa com a frase. Escreveu em uma crônica. como a chamavam. Agora vou forrar com papel de oncinha. Sempre alguém ligava. Os dois se conheceram em agosto de 1985. compartilhava seus interesses literários e astrológicos. do qual Porto Alegre é apenas o que há em volta". Fez a tradução de Assim vivemos agora. Caio continuava trabalhando em outras coisas. nos anos 70. sempre perguntava se ela não achava que as mudanças astrológicas não poderiam trazer a cura da doença. Os moradores do Menino Deus consideram Caio uma espécie de patrimônio local. o chileno Carlos Aguirre Sepúlveda abriu uma pastelaria no bairro e. portador do vírus. um restaurante de que ele gostava muito. Trocavam cálculos astrais e confidencias nas cartas. Caio dedica alguns textos a D. astróloga e amiga. Além das crônicas. Caio não perdia o contato com os amigos. trabalhava na editora L&PM. certa vez: "moro no Menino Deus. Amanda. foram comer camarões no Tirol. e se deram bem de imediato. Mesmo isolado. Caio se sai com essa: — Obrigado. Emma de Mascheville.

até textos mais atuais. No entanto. mas porque ele leu a história há algum tempo e sugeriu a sua publicação. Repetia sempre: — Não quero que façam comigo o que fizeram com Ana Cristina César. Paulo. O fato de essa história significar algo para o Caio e que vai significar algo para outras pessoas porque ele fez a tradução me deixa muito feliz e agradecida a ele. Ele se referia à publicação. escrita aos 13 anos de idade para um concurso escolar. à publicação de suas cartas. O resultado foi o livro Ovelhas negras. Quando o livro foi publicado. Cada texto publicado na obra vem precedido de uma pequena explicação do escritor. pergunta em entrevista se ela sabia que o tradutor tinha aids. E mexeu em todos os seus guardados. comentários gerais. poemas inacabados. porque não entrou em nenhum livro. Pelo menos aquelas trocadas com outros escritores e artistas. que saiu pela editora Sulina. que saiu em nova edição pela Companhia das Letras. o que gosta ou o que não gosta nele. está muito boa. que conteria textos de todas as fases de sua vida. Tanto que doou à Fundação Casa de Rui Barbosa. "Sei e isso me emocionou muito. uma espécie de autobiografia ficcional. Ele estava selecionando seus inéditos para que ninguém o fizesse depois de sua morte. O livro traz desde A maldição dos Saint-Marie. Ovelhas negras era considerado por Caio um livro prépóstumo. de vários livros contendo inéditos e dispersos. Maurício Stycer. escritos já em Porto Alegre. Não só porque ele é um conhecido escritor e a tradução.a autora. no Rio de Janeiro. esse medo de Caio referia-se à sua ficção. em 1995. a todo vapor: revisou Morangos mofados. por exemplo. parece. da Folha de S. depois da morte de Ana C. que jamais teriam sido publicados com o crivo da poeta. papéis antigos: selecionava textos para uma antologia. contando as circunstâncias em que escreveu o texto." Caio trabalha também na literatura. ele não fazia restrição. enfim. em novembro de 1995. uma parte de sua correspondência .

Ao vivo. Inventário do irremediável. podia falar mais livremente. Algumas das que sobraram foram publicadas no livro organizado por Ítalo Moriconi Caio Fernando Abreu: Cartas. para diminuir o caráter definitivo do título original. publicado em 1970. Oito contos foram excluídos. Caio esperava ter tempo de escrever também a volta das frangas e Estranhos estrangeiros.) De qualquer forma. e assim o livro saiu. Caio revisou outros de seus livros. correções. Não era a pessoa deprimida que se poderia apreender de seus contos. de 2002. nas cartas. e falava de sentimentos que não teria coragem de dizer cara a cara. se perdeu num incêndio. que pessoalmente.passiva. no entanto. foram suprimidos.. claro — é você publicá-las. A publicação da obra gerou polêmica: alguns amigos de Caio não quiseram dar as suas cartas. Assim como não . uma idéia — após minha morte. escritora e amiga. segundo o autor. infelizmente. muitas vezes era irascível e calado. Muita gente citada nas cartas ainda estava viva. Não sei se você guardou as minhas como eu guardei as suas. melhorias nas frases. E o título passou a ser Inventário do irremediável. por ele achá-los repetitivos demais. E ele escreve a Lucienne Samôr. alguns nomes substituídos por iniciais. embora a estrutura permanecesse a mesma. se você as tem. e animado. por considerarem a publicação prematura." Grande parte das cartas de Caio para Lucienne. ganhou mudanças drásticas. e leve. Se você guardou. Não teve. e fazia piadas. são suas. E a minha herança para você. Fez algumas mudanças na pontuação. Vamos que eu me torne um mito literário (melancolicamente póstumo. Além de organizar Ovelhas negras. Os trechos mais pessoais. circulando. Vários amigos e leitores foram pegos de surpresa: é que nas cartas Caio era muito mais engraçado.. em fevereiro de 1995: "Nós nos escrevemos dezenas de cartas. e a língua ferina de Caio não costumava perdoar ninguém.

mas ele nunca chegou a encená-la. em que um vai saindo de dentro do outro. ninguém diz uma palavra. De um ator procurando um personagem. O homem e a mancha. para acompanhá-lo na leitura para Moreno e Fábio Namatame. que faria a cenografia. porém. como os bonecos de madeira russos. nem então e nem depois. a obra foi lançada depois da morte do escritor. também não pagou um centavo pelo texto que encomendara. aliás. Ele pedia aos amigos que se apressassem. Ao final. e também à cidade do personagem de Cervantes. um monólogo dirigido por Luiz Arthur Nunes e representado por Marcos Breda. os baboushkas. Ao que consta. na verdade. inclusive a adaptação que ele fez de Reunião de família. nasce o personagem obcecado com a mancha — uma alusão à aids. saía outro — na comparação do autor. Organizada por Luiz Arthur Nunes. de Lya Luft. La Mancha — e dele nasce D. Breda e Luiz Arthur iam montar a peça. num interessante jogo de personalidades. que é. Quixote.assistiu à montagem de um texto de teatro seu. e desse nasce o Cavaleiro da Triste Figura. foi constrangedora. mas Moreno não disse absolutamente nada. finalmente. brincar com isso. que estava em São Paulo. Assim ele construiu O homem e a mancha. com sua formação de ator e sua voz. e assim os personagens se alternam. Luiz começa a falar compulsivamente para preencher o silêncio. então. pois ele queria ver o texto encenado. Era uma peça complexa: de dentro de um personagem. O personagem o perseguia desde que Clarice Lispector resolvera apelidá-lo. Mas agora. O monólogo foi incluído no livro Teatro completo. chateado. Anos antes. A cena da apresentação da peça para ele. Caio faz uma bela leitura. uma releitura de D. mas também a qualquer espécie de paranóia ou obsessão. A peça tinha sido escrita por encomenda de Carlos Moreno — o garoto-propaganda do Bombril —. Caio chamou Luiz Arthur. Ele resolveu. Quixote. . que reúne todas as peças de Caio. Caio ficou arrasado.

Em dado momento. Em um depoimento muito bonito. De fato. a partir de Morangos mofados. embora reclamasse exagerada-mente. fez piada. Caio se sentia desconfortável com essa situação. mas fora vetado "por estar fora da mídia". risadas. Caio diz que não tem tempo para morrer. o protagonista e Márcia E A conversa segue. Quem dirige o programa é o amigo de longa data José Márcio Penido.Desde a descoberta da aids. Quem o ouvisse falar. o queriam. na verdade. que Caio fosse ignorado pela imprensa até 1994. seu nome se tornou mais popular. Na maior simpatia. E achava aquilo a ironia das ironias. respeitado. Paradoxalmente. Vai que eu não morro. a aids já aparecia em alguns textos seus: Onde andará Dulce Veiga é uma história de amor entre dois contaminados. muito popular em alguns meios. antes. com que cara eu vou ficar? Risadas. os pedidos de entrevista aumentaram. Jô lhe pergunta se ele não pensava em escrever algum livro tratando da doença. porque ele tinha tentado. Todo mundo tinha um exemplar em casa. no entanto. E ele foi. E ele . por exemplo. A ironia da situação. o que não era verdade. Ele sempre foi um autor procurado. Ele tem planos. com a desculpa de lançar Ovelhas negras e a reedição de Morangos mofados. pensaria que a mídia jamais lhe dera qualquer atenção até o dia em que descobriram que ele tinha aids. portanto. Depois ele explicou que. conversou com Jô. muitas delas motivadas pela questão da doença. depois que a aids já tinha sido citada. Caio decidira viver uma vida mais tranqüila em Porto Alegre. livrosímbolo de uma geração. Ele foi convidado para ir ao programa do Jô Soares. Já desde os anos 70 ele tinha seus fãs fiéis. ir ao programa divulgar algum de seus livros. Caio responde: — Não. e ninguém pode imaginar o quanto estar ali significa para Caio. porém. brincou. Agora. foi aí que a mídia começou a dar mais atenção a ele: choviam pedidos de entrevistas. Caio aparece também em um Globo Repórter sobre aids. coisas a fazer. Não se pode dizer.

um dos primeiros médicos a combater a aids no país. se nada for feito — era a época em que se soube do vírus Ébola. Mas na época não se sabia disso. o planeta é que está doente: maltratada. se curará o ser humano. Caio expõe sua teoria de que. mesmo sabendo que o interesse maior não era em sua obra. e todos serão felizes para sempre. e havia medo. Diz que faz parte de uma geração muito colonizada. não se envergonhar. junto com a jornalista Regina Echeverria. e Caio estava. Assim que se curar o planeta. os únicos que não eram médicos no evento. que morrera por causa da doença. que é a sexualidade. a Terra começou a reagir. a aids era uma doença cheia de estigmas. ele falava. Dráuzio Varella. que fora falar da história de seu marido. Por isso. Os dois. Mas é claro que a aids não era como o Ébola. . Caio estava lá para dar seu testemunho. que talha o ser humano no que ele tem de mais delicado. das dores e dos humores. Falar da doença era a melhor forma de combatê-la. de um simpósio sobre aids. beber. sim. não tenha desistido do cigarro. na verdade. um pouco. O escritor falou do que se passava física e emocionalmente com ele. ele dava entrevistas. Participa. por exemplo. até o fim. E por isso era preciso desmistificar. ficavam sentados de um lado do palco. o desconhecimento da doença. e os debatedores do outro — um deles era o dr. em 1994. mais do que nunca. que cresceu assistindo ao cinema americano. Ele vê coisas piores que a aids vindo por aí. Na entrevista. assim como Regina. convencido de que era preciso mudar a maneira de tratar o planeta.acredita na possibilidade de cura. Comoveu a platéia e ajudou a diminuir. e que portanto sempre acredita que vai haver um beijo da Doris Day com Rock Hudson no final. no teatro do Maksoud Plaza. ele não queria mais maltratar o corpo. os clichês associados aos soropositivos. e principalmente de combater os preconceitos ligados a ela. em São Paulo. se drogar. e sim na doença. Na visão do escritor. muito mais letal que o HIV. E também a nós mesmos: embora.

porém. o taxista. Por uns cinco minutos. dizia. fã de literatura. Caio preferia ir sem ninguém da família para essas sessões no hospital. Júlio Zanotta Vieiras na época presidente da Câmara Rio-grandense do Livro. Caio pediu que o levasse até lá. um escritor reconhecido. e um pouco. E pediu para irem embora. Comentou algo sobre oportunismo. dizendo que achava solene demais a palavra patrono. um pé do outro lado e outro aqui. por ser. realmente. por ele estar doente e não poder. pois ficou em silêncio a maior parte do caminho. No final de 1995. De início. Mauro comentou com Caio que tinha visto o ou-tdoor de seu livro Pequenas epifanias em uma rua. o médico avisou a Caio que ele . perguntou. a dois quarteirões da casa da família Abreu. E não deve ter gostado do que viu. para o câncer de pele. hoje escreve colunas para o jornal Diário Gaúcho. Influenciado por Caio. costumava caminhar até o ponto de táxi e chamar Mauro para levá-lo. o patrono tinha que estar bem vivo. viu a capa do seu livro. é claro. o escritor olhou seu nome no alto. taxista. Quando esclareceram que não. Os argumentos de Júlio venceram. Foram. estava mais é para padroeiro. insistiu para que assim fosse: a nomeação de Caio não era uma unanimidade. quando convidaram o escritor. sem descer do carro. E faz sucesso. ele relaxou e aceitou. Caio foi convidado para ser patrono de Feira do Livro de 1995. depois. Mas isso não é coisa para gente morta?. e Caio foi escolhido.Por estar de volta a Porto Alegre. e muita gente legal já tinha aceitado antes. sobre acharem que ele já estava morto. contando "causos" da vida de motorista. Seu ponto de táxi fica no Menino Deus. o taxista fã de literatura começou a escrever. Brincava. talvez. Um dia. acompanhava as crônicas de Caio no jornal. Mauro Castro. e preferia ser chamado de padrinho da feira. Por essa época. ter outra chance. Mauro. como Mario Quintana. que merecia a homenagem. ele desconfiou. Quando o escritor ia para o hospital Moinhos de Vento fazer radioterapia. se bem que.

Caio queria ir embora. mas não teve jeito: teve que levá- . não é isso que eu pensava. buscou-o. A mãe não poderia ir com ele: com 71 anos. Relembrou a infância. Mas Caio decidiu adiar a cirurgia. havia um hibisco. recebendo o título de santiaguense ilustre. Chegando lá. em Santa Catarina. Era urgente. Ele tinha a sensação de que tudo que ia fazer seria pela última vez. A companheira de viagem de Caio foi. Os irmãos tinham ocupações. foram. Zaél. Não ia lá há muitos anos. descansou. Na pousada onde ficaram. deprimida.precisaria extrair a vesícula. de passagem pela cidade. Pediu a seu irmão Felipe que o levasse de carro até Santiago do Boqueirão. Estava muito abalado. Caio e Déa tiveram algumas briguinhas. Estavam os dois muito mal: ela saindo de um relacionamento. Não é esse filme. Depois de retirar a vesícula. que flor é essa? Então você não sabe o que é um hibisco? Ficou irado. Déa olhou. Gawronski discutiu com ele. Tinha porque tinha que ver aquele filme. Embora estivesse sereno a maior parte do tempo. que ele adorava. que estava morando em Porto Alegre na época. por exemplo. muito sensível. da emoção que era voltar ao lugar onde nascera. Gilberto pegou o carro. aquela flor símbolo dos surfistas. às vezes era difícil lidar com Caio. de três horas. A temporada na terra natal foi ótima: Caio conversou muito com as tias. perguntou: que flor é essa? Foi o suficiente para Caio se irritar. Ele queria ver O Filme. ele. então. Déa Martins. já tinha sofrido duas isquemias cerebrais e não tinha saúde. O pai. muito doente. principalmente tia Elcy Abreu. Fez as pazes com essa parte do seu passado. Pegaram carona de carro com duas garotas amigas da família e foram. Quando foi ao cinema com Gilberto Gawronski. Com cinco minutos de filme. escreveu uma crônica para Zero Hora contando da viagem. ele não tinha tempo a perder. algo marcante. doente. significativo. não abandonaria a esposa em casa. desde que fora homenageado. Como assim. Quando voltou. Queria despedir-se da cidade. Ele iria à Praia do Rosa. escolheu um filme longuíssimo. Caio decidiu fazer outra viagem.

se sentiu muito mal. voltava do hospital e chorava. bem. Quando chegou em casa. a pensar nele. soube da morte do Caio. em 1984. do nada. pensar nele. Ela o desgastava. Amanda Costa estava almoçando em um restaurante árabe com uma amiga e começou. superada a timidez. No dia 25 de fevereiro. estou muito cansado. um dos poucos que acompanhou sua doença de perto até o fim. Mais ou menos na mesma hora. Os amigos o visitavam. Depois se arrependia. brincava o escritor. 71. Dizia que ela o atordoava. Luciano. Ele explodia. uma dor no peito inexplicável. lhe dava nos nervos. e Caio implicava com ela. o jornalista José Castello. Era como se ele já não coubesse mais em seu corpo. O pai. pegou pneumonia. a situação não era mais fácil. que. não o deixava em paz. Chorava no hospital mesmo. estava sempre atrás dele contando histórias intermináveis. quero alguma coisa mais ou menos assim: Caio F. O amigo Luciano Alabarse. e ele. céus. Quando chegou em São Paulo. ouviu no rádio que tinha morrido. o corpo do escritor não agüentaria a pressão. Do outro lado do mundo. 74 anos. Poucas semanas depois. A mãe doente.lo embora. entrevistara Caio algumas vezes. Déa teve que partir mais cedo da praia. Mas no dia seguinte brigava de novo. Caio tinha escrito ao amigo: "Na minha lápide. Reinaldo Moraes voltava de Buenos Aires de avião. Em casa. ao passar por Porto Alegre. que muito amou. sentiu uma tristeza. e ele lhes dizia: estou cansado. mas Caio mandava ele ficar quieto: você está mais deprimido que eu. Era um domingo. ela tão velhinha e ele fazendo malcriação. ele doente até o osso. a mãe. Quando voltou ao Brasil e soube da morte do . no Egito. pensar nele. recebeu uma proposta de trabalho no Rio e voltou para lá. Caio também antecipou sua volta a Porto Alegre: estava doente. uma e meia da tarde. Anos antes. Parecia mais o hospital Abreu do que a casa da família." Depois de vinte dias internado. brigava com ela. Caio faleceu.

uma carta. quem administra a obra dele é a família. Quando chega a parte de Gawronski. os amigos se reuniram para a leitura da carta. Escrevera. Usava um cachecol com uma fita vermelha: os dois teriam combinado que vermelho significava que estaria tudo bem. Hilda Hilst alega ter visto Caio. mãe e pai tinham falecido. na missa. Gilberto Gawronski da de cinema e audiovisual. Gil Veloso da literária. onde quer que estivesse. Um ano e dez meses depois dela. À sua maneira. . ele tem que ler: — Betinho. fez as contas. Sua mãe ficou inconsolável. A vontade de Caio não foi cumprida. Na carta. foi a vez de seu Zaél. fusos horários e tal. emocionado. Caio foi enterrado no cemitério São Miguel e Almas. para ser lida pelo seu pai. Um ano depois. ele lê. estava dando risadas. Queria que Marcos Breda ficasse responsável e recebesse os direitos de sua obra teatral. se o Spielberg quiser filmar Dulce Veiga. sete dias depois da morte. depois de sua morte. e viu que Caio morrera exatamente na hora em que ele tivera a sensação estranha no Egito. em Campinas. Em três anos. claro: não registrara nada em cartório. Dias antes de morrer. As dez da noite do domingo. na Casa do Sol. Pesando menos de 40 quilos. Mas. teve um acidente vascular cerebral (AVC) e não levantou mais da cama. você vai ficar rica! Caio. os restos mortais dos três foram transferidos para o Cemitério Ecumênico João XXIII. Caio fizera seu testamento. onde ocupam o número 4352 07.escritor. sem saber que isso ia acontecer. Fora se despedir. ele fazia pequenos legados. apenas. quatro meses depois. Seu Zaél sério. Alguns anos depois da morte de Zaél. morreu. filho.

Pois bem. e Caio teimou que ia entrar no mar. Lentamente. você vai pegar uma pneumonia. Ele iria sozinho. E voltou. foi andando até o mar. Atravessou a faixa de areia. Lentamente. Desde que chegara na pousada. Pediu ao deus das águas que o curasse. O céu estava nublado. com Déa. — Não entra. mas satisfeito. debaixo dos finos pingos de chuva. Era sua caminhada. ele estava usando um galho que catara na estrada como bengala. chuviscava. tá louco? Caio insistiu. Ia conseguir. entrou no mar. cara. em dezembro de 1995. . fez festa. Mergulhou.EPÍLOGO Na praia do Rosa. Jogou água para cima. nem o galho ele queria.

Salamandra. 2005. São Paulo: Brasiliense. 1988. 1975. Rio de Janeiro: 4a ed. 1984. Porto Alegre: Movimento. 1977. Rio de Janeiro: 3a ed. Morangos mofados. 2a ed. 1993.Obras de Caio Fernando Abreu publicadas no Brasil Inventário do irremediável. Siciliano. 2005. Rio de Janeiro: 4a ed. A Maldição do Vale Negro. 1992. Sulina. 1995. Agir. Agir. L&PM. 1992. São Paulo: Companhia das Letras. Rio de Janeiro: 3a ed. Rio de Janeiro: Globo. Pedras de Calcutá. 2007. São Paulo: 3a ed. 2a ed. Porto Alegre: IEL/RS (Instituto Estadual do Livro). 1988. 1982. Agir. 2a ed. São Paulo: 2a ed. Siciliano. Porto Alegre: Mercado Aberto. 2008. 1983. 1988. Companhia das Letras. São Paulo: 3a ed. 1970. Salamandra. São Paulo: Alfa-Omega. 1988. 1984. 1995. Mel e girassóis. Rio de Janeiro: 2a ed. Porto Alegre: Globo. Agir. 2a ed. 1995 (com o título alterado para Inventário do irremediável). Os dragões não conhecem o paraíso. 2007. Siciliano. Companhia das Letras. As frangas. Triângulo das águas. Rio de Janeiro: Expressão e Cultura. O ovo apunhalado. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. . Porto Alegre: 3a ed. 1971. Limite branco.

Planeta De Agostini. Porto Alegre: Sulina/IEL. 1995. Porto Alegre: Sulina. 2002. Rio de Janeiro: Aeroplano. 2002. .Onde andará Dulce Veiga? São Paulo: Companhia das Letras. Caio 3D: o essencial da década de 1980. 2006. Rio de Janeiro: 3a ed. São Paulo: Global Editora. Ovelhas negras. Rio de Janeiro: Agir. L&PM. Rio de Janeiro: Agir. Caio 3D: o essencial da década de 1990. 2005. Girassóis. São Paulo: Companhia das Letras. 2a ed. Rio de Janeiro: Agir. Estranhos estrangeiros. 2006. Teatro completo. Fragmentos. 1990. Org. 1997. Caio 3D: o essencial da década de 1970. 2006. 2007. Pequenas epifanias. Melhores contos de Caio Fernando Abreu. 2a ed. Porto Alegre: Sulina. Agir. Caio Fernando Abreu: Cartas.: ítalo Moriconi. Agir. 1996. 2008. 2003. 1996. Porto Alegre: L&PM. Rio de Janeiro: 2a ed. 2002. São Paulo: Global Editora. 1997.

cunhado. A Luiz Alberto Scotto e Carlos Locatelli. A todos. Felipe e Márcia Abreu. por terem sido tão bons anfitriões no Rio de Janeiro. A Wendel. eu sei. A Upiara Boschi. Bruno Werner. por conseguir material ao qual eu não teria acesso de outra forma. agradeço por terem me ouvido falar e falar sobre o livro. A Jacques. pelos conhecimentos sobre o Caio. Em São Paulo. apenas. que aliás não devolvi — nem pretendo. não só pelo abrigo. Aos professores Ricardo Barreto. A Beatriz Tironi Sanson. A Evandro e Leandro Martins. A Mauro Castro. Clóvis Geyer e Tânia Rodrigues. e a seu pai e a sua madrasta. Agradeço à Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis (PRAE) pelo apoio dado. A Marina . Tadeu e Romeu Martins. pelos mesmos motivos. emprestando-me seu Morangos mofados. os grandes planos e sugestões. pelo papel importante em apoiar e ouvir. darem palpites. pela generosidade com que compartilharam histórias. por ler o texto e opinar. A Diógenes Fischer. livros e documentos relativos ao irmão. Agradeço também a Alex Werner. por me ouvirem falar do trabalho. por existir. A Jorge Cabral. vídeos. e a Fábio Fabretti. por rodar Porto Alegre inteira de bicicleta para me entregar um vídeo com entrevistas do Caio. mas por tudo. a Juliano. sobretudo por gostar e me incentivar. agradeço as dicas e idéias. Foram quatro anos monotemáticos. e a sua mãe. e me contarem o que eles mesmos andam fazendo. A Edirê Ferreira e Paulo Vaz de Arruda.OBRIGADOS A Cláudia. por ter me levado pra lá e pra cá em seu táxi quando eu precisava. Maria Aldina. Esse livro começou a nascer na Universidade Federal de Santa Catarina. A Fábio Bianchini. Liliane. e sempre. A Luís Francisco Wasilewski. A Paulo Camossa. por primeiro ter me apresentado à obra de Caio F. grande amigo. a seu irmão. fotografias. pela ajuda em Porto Alegre. por ter sido um bom e divertido cicerone. pelas fontes que me passaram. por fazer o contato com uma das fontes. agradeço a minha irmã.

pelo grande conhecimento de todos os assuntos e pela amizade. Irineu Garcia. Márcia Denser. Carlos Emílio Corrêa Lima. Luiz Carlos Moura. por estar sempre disponível. À sua família. Ruy Krebs. por trocar figurinhas e contatos. Por isso. Fernanda. Quero agradecer. Renato Campão. Pelo mesmo motivo. Itália Homem Ledur (D. Leide. Luiz Abreu. meu obrigada a Carpinejar. Jaime Gargioni. Amanda Costa. Regina Echeverria. Luiz Schwarcz. por me ensinar sobre disciplina. Santiago. Cada um a seu modo. agradeço aos dois. Júlio César Monteiro Martins. Luiz Fernando Emediato. Celso Curi. Ricardo Lombardi. por ler os textos assim que eu os mandava. Laura Finocchiaro. Maria Lídia Magliani. Guilherme de Almeida Prado. Graça Medeiros. José Mora Fuentes. Por acreditar. Carlos Aguirre Sepúlveda. Vera Antoun. Paula Dip. sempre. Emanuel Medeiros Vieira. Anna Gioconda Homem (D. Reinaldo Moraes.Darmaros. Déa Martins. Jacqueline Cantore. que não é pouco. Marcos Breda. A meu editor. Cida Moreira. Mário Prata. pela fé no livro. Gilberto Gawronski. Agradeço a todos os entrevistados. especialmente tia Laura e minha mãe. Grace Gianoukas. Pedro Paulo de Sena Madureira. Manoel. Ana Lúcia Vasconcelos. Itália). José Castello. Rafael Franco e ao pessoal da revista Crescer. que me cederam seu tempo e suas memórias: Adriana Calcanhoto. Maria Adelaide Amaral. Stella Miranda. Juarez Fonseca. Maria Rosa Fonseca. A minha família. Sônia Azambuja. . por terem gentilmente cedido fotografias importantes para este livro. Ana Braga. pela paciência. a Jonas Lopes. Vera Spolidoro. Nei Duelos. Bruna Lombardi. Marisa. agradeço demais. João: pelo apoio. Gil Veloso e Luciano Alabarse cuidam com zelo da memória de Caio. pelas batatas fritas e sukitas. pelo apoio. Kate Lyra. Agradeço a Adriana Franciosi. Anita). Claudia Wonder. João Batista. José Márcio Penido. Ivan Mattos. Luiz Arthur Nunes. Antônio Neto. Luiz Carlos Fava. E a Regina Carvalho. também. a Ricardo Stefanelli e à equipe do jornal Zero Hora.

me apoiaram: seria longo citar todos os nomes.br/group/digitalsource  http://groups.Obrigada mesmo.com. mas obrigada. A todos que me ajudaram de alguma forma. não teria conseguido terminar o livro.com/group/expresso_literario    . E. Sem você. o melhor marido. companheiro. Te amo. querido. Sempre.google. amigo.google. finalmente. quero agradecer a Eduardo Nasi.   http://groups.

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