Jeanne Callegari

CAIO FERNANDO ABREU
inventário de um escritor irremediável

CD
SEOMAN

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Copyright © 2008, Editora Seoman Coordenação Editorial MANOEL LAUAND Capa e Revisão HENRIQUE MINATOGAWA Projeto Gráfico GABRIELA GUENTHER Foto da Capa e da Abertura do livro ADRIANA FRANCIOSI/AGÊNCIA RBS Checagem CLARA YWATA

Dados Internacionais de Catalogação Brasileira do Livro, SP, Brasil)

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Callegari, Jeanne Caio Fernando Abreu: inventário de um escritor irremediável / Jeanne Callegari. — São Paulo: Seoman, 2008. ISBN 978-85-98903-10-1 1. Abreu, Caio Fernando 2. Escritores brasileiros — Biografia I. Título 08-05638 CDD — 928.699 índices para catálogo sistemático: 1. Escritores brasileiros : Biografia 928.699 EDITORA SEOMAN Rua Pamplona, 1465 — cj. 72 — Jd. Paulista São Paulo — SP — Cep 01405-002 Fone: 11 3057-3502 info@seoman.com.br www.seoman.com.br Todos os direitos reservados e protegidos pela Lei 9.610/98. É proibida a reprodução total ou parcial sem a expressa anuência da editora. Foi feito depósito legal.

com amor. "Pernas e braços demais. movimento que o arrastou. Caio Fernando Abreu tenha sido um eterno adolescente — e o livro . Para Jonas Lopes. para temas ameaçadores como o erotismo. em cujas páginas avançamos com o coração na mão. Viver é não só suportar. diz. Jeanne começa imitando os romances clássicos. e para Eduardo Nasi. Caio já rascunha. mas sobretudo lutar contra o que se é. eu queria me esconder de todos". que também viveu como se sua vida não passasse de um romance. Nem mesmo a prática do jornalismo. através de um jovem ai ter ego e por vias tortas. à distância. A estratégia narrativa de Jeanne combina com a estratégia existencial de Caio. de atração pelo risco mas também de fascínio pela beleza. de Os dragões não conhecem o paraíso. Ela parte dos extratos remotos. cheios de tristeza e de revolta. uma voz que desafinava igual a um pato. "Desde muito pequeno. Esta tendência logo se revela uma disposição para a fermentação interior. para acompanhar.Para Caio F. cheio de paixão mas também de pudor. que se apóia no concreto e na objetividade. Em um conto como Pequeno monstro. com sua alma efervescente. Um delicado romance que. a fraqueza e o risco de morte. um desses romances tensos. Talvez se possa pensar que. nos mostra Jeanne. pela paixão. pelo apoio. a formação difícil do escritor. pisa devagar sobre a matéria ardente. das primeiras descobertas e dos primeiros sustos. um terrível retrato de si. PREFÁCIO O perfil de Caio Fernando Abreu escrito por Jeanne Callegari pode ser lido como um romance. desde cedo. pêlos nos lugares errados. o menino Caio demonstrou uma inclinação para a arte". lhe serviu para abrandar as turbulências íntimas. mas decisivos da infância.

nunca publicou). sobrevive como pode. se achar. se o jovem rebelde persistia. Caio escreve em uma carta aos pais. Quando. um rebelde. vai para a Europa. já é um homem que deseja abraçar o mundo. é preciso primeiro dela se afastar. Períodos fundamentais — como aquele em que. como um duplo. faz bicos. por vezes. Mas. quanto mais Caio se liberta e expande seus horizontes. a figura de um sujeito à margem. rompendo de vez os limites de uma vida burguesa. Um homem que nunca desconheceu o peso do caminho que lhe coube atravessar. fugindo da perseguição da ditadura militar. na periferia de Campinas — ajudam a fixar traços mais firmes. A bissexualidade se abre. "As vezes que tentei morrer foi por não suportar a maravilha de estar vivo e de ter escolhido ser eu mesmo". se os escrevia. pois. de um desviante. mas de incorporar como fundamento de sua existência. para entender a sociedade. Mas Jeanne nos mostra também que. havia desde logo um poeta (pela postura. "Escrevo por uma espécie de incompatibilidade de gênios com a vida. na Suécia. e que o ajudou a delimitar. segundo quem. escoltado por ela — como uma parteira que de um corpo arrancasse não outro corpo. Pode-se dizer que foi na chácara de Hilda.de Jeanne Callegari. nos enche de argumentos a favor dessa idéia. e não porque escrevesse versos. Leva então uma existência precária. nos mostra Jeanne. Mesmo amparando-se no recurso mais didático da ordem cronológica. na Holanda. Lição que o jovem Caio tratou logo não só de imitar. de vez. Hilda seguia a idéia do escritor grego Nikos Kazantzakis. mais afunda na dor. perderse na esperança de. datada do final dos anos 1960. ele se escondeu no sítio da escritora Hilda Hilst. lava pratos. grudado a ele. enfim. no início da década de 1970. mas avança. nem assim a autora consegue organizar e domar a atmosfera de inconstância e de desamparo que cercou a vida do escritor. na Inglaterra. Em sua chácara. . mas um espírito — que o escritor adulto veio a nascer.

Um sujeito que. é convertido por Caio em algo positivo mesmo. E aqui se deve entender o irremediável em dois sentidos: como uma condenação (algo que não tem remédio). "O ser todo exalava algo de sexual. em uma descrição que. fisga quase toda a alma de Caio Fernando Abreu. termina por cometer suicídio — é uma síntese desses sentimentos. depois de muita luta interior. ainda era chamada. A relação de amor e tensão que tem com a poeta Ana Cristina César — que. em uma série de crônicas publicadas no jornal O Estado de S. Jeanne reencontra Caio. "de calça de couro. para não enlouquecer de impotência. um lirismo seco e doloroso. O anjo negro chega ao extremo até que ele mesmo. encostado em um carro. para re-fazer". e de solitário também". e é nesse nó que Jeanne Callegari puxa o fio de "um escritor irremediável". Caio menciona o terror da aids — que naquela época. depois de uma doença longa e estranha. Fato. De volta a São Paulo. apesar da sensibilidade extrema e da volúpia de viver sempre frustrada. É também o momento em que. pela primeira vez. de modo frontal. do fracasso. mas . que se acentua na atitude pessoal — que cultiva com esmero — de um bruxo. negativo. Paulo. muitas vezes. que comunica. gestos finos. É o momento da virada — em que o positivo que indica a doença. jaqueta. do desastre. ela resume. Fraco. portanto. A vida lhe abre uma nova face. elegantes". de ignorância e preconceito. mesmo rápida. ele mesmo descreve em uma crônica da época. Sua escrita está cada vez mais impregnada de lirismo. Fernando Pessoa e Mario Quintana. e como um destino (algo em que ele se lança para a vida e com grande vigor). de "câncer gay". e também de um misticismo vago. em O triângulo das águas. escrevo para organizar o caos. se agiganta. aos 30 anos. Caio avança.escrevo para reinventar. Mesmo cheio de terrores. Dor e escrita se conectam de modo fatal. recebe a notícia de que é soro-positivo. nunca desiste de recomeçar. mais especificamente na novela Pela noite. Dedica-se cada vez mais a ler poesia — sobretudo Adélia Prado. O medo da loucura.

sentidos novos e vitais. mas também o encantamento das cartas de amor e. quieto entre suas flores domésticas. ainda. a reserva temerosa das grandes confissões.cheio de coragem. porque sabe que aventurar-se na vida e na obra de Caio Fernando Abreu guarda sempre um grande risco. o mais que pode. procurando extrair. é mergulhar no veneno terno da imperfeição. Seu livro tem a objetividade dos relatórios científicos. José Castello . É nesse andar das coisas pequenas que Jeanne o persegue até o fim. ele volta a morar com os pais. dos mergulhos negativos. no sul. A morte o pega quando vivia como um romântico jardineiro. e se dedica a rever seus livros. apegado ao prazer de cuidar dos próprios espinhos. Jeanne se contém sempre.

de retrato. fácil de amar. camaleão. não foi a exceção da regra. O título de Pirandello ronda as noites de quem se impõe a tarefa. sempre algo fica de fora da moldura. sempre flores. mas apaixonado pela vida. Muitos. que se recusava a fazer parte de movimentos. herdeiros e viúvas. O Caio obsessivo com o lado escuro de todas as coisas. o Caio pop. Muitos não queriam falar. oculto pela linha fina. girassóis. nas noites mais perigosas. O Caio erudito. Ele foi milhares. gostava de andar no limite. em 1996. Tinham ciúme e zelo de tocar em memórias tão delicadas. Avencas. todos aqueles que ficaram carentes quando ele se foi. estrangeiro.INTRODUÇÃO: CEM MIL CAIOS Um. não com pedacinhos de pão ou pedrinhas. O Caio que usava as palavras como arma de sobrevivência quando batia a depressão. filosofias e seitas. a literatura. do banal. Costuma ser assim. O Caio inclassificável. que marcava. O amigo difícil de conviver. do qual ele mesmo era um dos principais objetos. de uma fidelidade canina com os amigos. mas nunca a ponto de se perder. mas que passeava e pairava por todas elas. o escritor admirado e cheio de seguidores. suas memórias. nunca a ponto de perder o caminho de volta. como João e Maria da fábula. dar entrevista. de um humor implacável e ácido. a vontade de ficar sozinho. O Caio F. curioso e temerário. nenhum e cem mil. pelo contrário. O Caio do equilíbrio sempre além do comum. Com todos esses tive que lidar. chás medicinais com whisky. o Caio filosófico. apaixonado sempre. e também com seus órfãos. sempre em busca da luz. o Caio abobrinha. da leveza. que alternava fases macrobióticas com costelas gordas. com quem. O Caio simpático com os outsiders. das flores. cigarro com jardins e flores. em uma tentativa como essa. inquieto. Escrever sobre Caio Fernando Abreu. de traduzir e dar unidade a todos os muitos que algum outro foi. desde o início condenada ao fracasso. rosas. queriam dividir sua visão do Caio. Achavam quase egoísmo . mas com seus textos. o Caio deprimido. de aids. o desespero. reservado para poucos olhos.

É que esse relato não se pretende definitivo. e a todos agradeço a colaboração. Partindo daqui. Muita gente para prosear a respeito. Por trás de depoimentos e histórias que marcaram. Cansa forçar a memória. queriam que o mundo conhecesse o homem por trás do texto. por trás de frases ditas e registradas em cartas. Apesar dos tantos traços. a delicadeza em retornar meus pedidos insistentes. Fui achando que entendia Caio. detalhe. muitos arquivos a revirar. a boa vontade. no Rio. a importância como filho. do contorno esboçado. Antes é um perfil. personagem e autor da própria vida. uma biografia exaustiva. em meio a suas rosas e a sua família. Se a importância como escritor era flagrante desde o início. emergia aquilo que eu buscava. Não há razão mais certa que a outra. a adolescência em Porto Alegre. Ainda há muito a dizer sobre Caio Fernando Abreu. faltam ainda detalhes. Pois o ponto de chegada não existe. Sobre o que conversaríamos se ele estivesse aqui? Sobre a infância em Santiago. Mais cem mil para serem estudados.deixar a beleza de anedotas e palavras para trás. um recorte dessas milhares de faces. amigo. cada nova nuance. teríamos sobre o que falar. Fiz algumas descobertas sobre esse jardineiroescritor marcante e apaixonado. A triste e heróica caminhada para o fim. buscar fatos muitas vezes esquecidos num cantinho das lembranças. Cansa reviver momentos tristes e a partida de alguém que se amou. Jeanne Callegari . A vida adulta em São Paulo. Sim. me sentindo íntima dele. jornalista e personalidade foi surgindo devagar. é imperfeito. dá para ir apreciando o caminho. como o personagem de Pirandello: a unidade. e que homem extraordinário era esse!. pensavam. Por definição. através de contos e romances. aparecendo como em uma revelação fotográfica. muitas fotografias para nos fazer lembrar.

assim como algumas das cartas de Vera Antoun e os postais de Pedro Paulo de Sena Madureira. organizado por ítalo Moriconi e publicado pela editora Aeroplano em 2002. A carta de Manuel Abreu para o filho Zaél nunca foi publicada. faz parte do acervo da família e foi gentilmente cedida por ela. .As cartas de Caio citadas no livro foram extraídas de Caio Fernando Abreu — Cartas.

era considerado ícone de uma geração. O Estado de S. as coisas vão se complicar para mim. pela segunda vez naquela noite. conversaram sobre a situação. Aos 45 anos. Subiram. Além disso. a situação poderia complicar para o seu lado. Caio não era um suicida. Gil sabia que Caio o queria bem: não faria nada que pudesse prejudicar o amigo. ganhador de dois prêmios Jabuti. Há três dias. Itália e Holanda. pedira para que levassem água. em São Paulo. como IstoE. Como jornalista. POP. Outras pessoas haviam passado por lá: no final da tarde. um reflexo da febre. menosprezava e era contra as pessoas que tinham a indelicadeza de se matar. Zero Hora. deixando os amigos morrendo de saudades do lado de cá. Ele argumentava com o escritor Caio Fernando Abreu. Viveu com intensidade as décadas de 1970 e 1980 e. naquela segunda-feira. apenas. Leia Livros. e . que se aproximava da janela e a abria. o amigo Gil conversava. Caio ligara para os dois. você vai fazer isso comigo? Se você se matar. Mas Gil Veloso não pensava em nada disso quando foi socorrê-lo no flat. que estava junto no apartamento. traduzido na França. Correio da Manhã. tinha integrado a primeira equipe de reportagem da Veja. O ano era 1994. Para evitar que Caio fizesse uma besteira. Caio Fernando Abreu era um escritor consagrado. e ambos chegaram com garrafas na mão. Paulo. Ele está ao lado da janela do andar de cima do duplex de um flat na Frei Caneca. Era também autor premiado de teatro.PRÓLOGO — Caio. Inglaterra. o escritor tinha descoberto que era portador do vírus da aids. por ter retratado tão bem experiências e emoções de sua época. Déa Martins e Gil se encontraram no elevador. Folha de S. se seria melhor interná-lo ou não. e depois disso passara por vários veículos. Gallery Around. com a vaga intenção de se jogar. que estou aqui com você — grita Gil Veloso. A reação era. viram que Caio não estava bem. Alemanha. Nova. Paulo. argumentando que se ele se jogasse lá embaixo.

ele diria que sua primeira reação foi de naturalidade. Eram mais ou menos onze da noite. Deu um grito. e ele não se lembrava de mais nada. entrou no jogo. que se aproximava do parapeito. continuavam os delírios. Então veio a febre. dando a notícia. como se já esperasse: a doença o rondava fazia pelo menos dez anos. Aids! Estou com aids. contando que estava com aids. delirou. Déa foi embora e Gil ficou cuidando do Caio. fingia estar vendo as borboletas imaginárias. Na primeira vez que desceu as escadas para alcançar o telefone. para assim tentar trazer o doente de volta à realidade. ouviu a janela se abrindo. que estava com ele. O escritor passara os últimos três dias ligando para os amigos. Não houve jeito senão chamar uma ambulância e levá-lo para o hospital Emílio Ribas. e parecia natural que assim fosse. Luiz Roberto Galizia. depois do fim de semana aparentemente sensato. Gil decidiu ligar para uma médica. Assustado. Recitou coisas sem sentido. Mas. começaram a aparecer os primeiros casos no Brasil. agora era de verdade. pensou Caio. Aids. Fim da linha. Estava recluso. morte. Não eram poucos os amigos que Caio tinha perdido para a aids: Vicente Pereira. teve alucinações. Gil ficou conversando. Cazuza. doença. os semsentidos que dizia. Gil. Da segunda vez. olhou para Gil e compreendeu o absurdo do gesto. Agora era a sua vez. como uma criança. Correu e pegou Caio. acalmando o amigo até que pudesse descer novamente e pedir ajuda. o que estava acontecendo. Não era mais ficção. não queria comer. A essa altura. quando.combinaram de ir se falando. como se digerisse a situação. Estava muito fraco. Lory Finocchiaro. com toda a força. Mesmo assim. Depois. Paulo Yutaka. algo mudou: ele finalmente pareceu assimilar. conseguiu telefonar para alguns amigos e para a médica antes que Caio abrisse novamente a janela e ele precisasse argumentar para evitar novas tentativas. Caio paralisou. Caio estava já completamente nu. em 1983. e .

Voltar a Porto Alegre. quando. emancipado e. para a casa dos pais. porque. Não se lembrava de absolutamente nada. O rapaz. portanto. normalmente tranqüilo. O médico disse a ele: — Você precisa agora é de qualidade de vida. amigos do copo e de mulheres bonitas. Era tempo de Caio realizar um sonho: voltar ao Rio Grande do Sul. único responsável por seus atos. transferido junto com o primeiro batalhão destacado para operar na cidade. Afinal. que também morava em Itaqui. No hospital. não havia leitos. Zaél fora morar em Itaqui. O comerciante Manuel Abreu. seu Manuel recebe uma carta do filho pedindo autorização para se casar. Tendo escolhido a carreira militar. ele não nega. por dois motivos. de 24 anos. senta-se para escrever uma carta ao filho Zaél. nascido em 1887.quem o vestiu e o colocou na ambulância foi Gil. porque Zaél já era homem feito. Caio já estava em um quarto. Primeiro. tinha passado por uma fase boêmia. UM É a década de 1940 em Santiago do Boqueirão. mesmo sem conhecer a moça em questão. Por isso. Segundo. que também estava ali. ter uma vida tranqüila. Plantar roseiras. de bebedeiras e namoricos. seu Manuel acreditava que o . Caio ficou em uma maca enquanto aguardava que um quarto vagasse. no final de 1945. tinha sido no Rio Grande do Sul que tudo tinha começado. Coisa da idade. pequena cidade ao sul do Brasil. Os amigos foram visitá-lo e sua irmã Cláudia chegou de Porto Alegre. do contato com colegas farristas. pois os enfermeiros tinham medo da contaminação. Voltar às raízes. Gil já havia ligado para Déa. No dia seguinte.

"porque não é lícito também ficares noivo indefinidamente. Válter. Assim. A família de Nair era das mais distintas: Alcina Alves Ferreira. tranqüilo. trazia também recomendações para que Zaél economizasse dinheiro a fim de poder se casar o mais rápido possível. um dos rapazes. foi a única dos sete filhos a cursar faculdade. a mãe começou a costurar para fora para pagar as contas e. E Manuel deve ter gostado da nora que aprovara mesmo antes de conhecer. dizendo que. Manuel esperava que as qualidades da noiva de Zaél se confirmassem. Zaél Menezes Abreu e Nair Ferreira Loureiro se casaram. mãe dela. No mais. Manuel Abreu". Dois anos depois. o presidente. o pai responde à carta.casamento seria uma boa maneira de tranqüilizar a vida de Zaél. Zaél e Nair se conheceram em Itaqui. Aproveitando para agradecer o lindo vidro de azeite que Otacílio e Jurema haviam mandado. seria possível controlar a vida desregrada que o filho levara até ali. com boa vontade e energia. onde ela nascera. Eram descendentes de portugueses. decidida. com pulso firme e determinação. poder mandar as crianças para a escola. Itaqui tinha pouco mais de 18 mil habitantes na época e a base de sua economia era agropecuária. com "saudades e abraços de todos. ele termina a carta. a situação financeira da família ficou complicada: com a morte do pai. Nair insistia em estudar: viria a ser professora. dando seu consentimento para a cerimônia. prejudicando o futuro de uma filha alheia". Seria sempre conhecido como homem afável. "Por causa dos narizes". Depois da entrada dela na vida de Zaél. provavelmente cristãos-novos. comandava a casa. e que ambos fossem dignos um do outro. Das outras meninas. Era ela que. porém. o jovem sossegou. era prima de Rodrigues Alves. A carta. Nair era mulher forte. No dia 15 de dezembro. Quando Nair era pequena. brincaria anos mais tarde uma das netas de dona Alcina. se tornou . assim. do teu pai e amigo. três se tornaram donas de casa. Localizada na fronteira com a Argentina.

para o outro. Zaél sossegou. e o outro. Ela perguntou o que significava aquela inicial. Provavelmente. Todo mundo confundia: Ismael. ele usava um enorme anel de ouro. Na troca de olhares. a se tornar prefeitos de São Borja. quando Nair perguntou o significado do Z. e ele queria porque queria entrar na festa para buscá-la. como Nair.delegado de polícia. ou na hora do footing. A única que também se tornou professora. e ele não pôde sair. Zaél odiava profundamente o próprio nome. assim como o de sua irmã Elza. Zaél discutiu com Nair. permaneceria o mesmo: embora calado. os três garotos viriam. As mulheres andavam para um lado e os homens. na Praça Central. Um a um. contrariado. ela iria a um baile no Clube Comercial de Itaqui. Depois de casado. pois não havia dinheiro para isso — Zaél foi transferido para Santiago e Nair . Nair foi para outra das pequenas cidades da região dar aula em uma escolinha. Mais tarde. em Itaqui. mas a anedota ficou na memória da família. Aos 16 anos. Assim que se casaram — sem festa. jogador de futebol — chegou a fazer parte do Botafogo do Rio de Janeiro. foi sua irmã Flora. no entanto. Aos 17. Israel. Quando Nair conheceu Zaél. mas os amigos do quartel o amarraram na cama. ele não teve dúvidas e disse: Zeferino. paixões nasciam e morriam. Estava bêbado. era difícil achar quem acertasse. Seu humor. Marciano. que. enquanto ainda eram noivos. Queria entrar fardado e a cavalo no clube. Uma noite. com um Z gravado. A confusão foi desfeita. anos depois. ela se mudou para uma fazenda em São Borja — a cidade dos presidentes Getúlio Vargas e João Goulart — para dar aulas para os filhos de um rico fazendeiro. o encontro se deu em algum dos bailes. fora inventado a partir de partes do nome de seus pais (ManuEL e AdeliZA). freqüentes na época. e assim foi até que conheceu Zaél. Portanto. Resmungava sempre algo sobre isso. Depois da fazenda. Nair se formou na Escola Normal: ser professora era uma das únicas profissões possíveis para uma mulher naqueles tempos. de vez em quando soltava tiradas mordazes e engraçadas.

O pai de Neltair era primo-irmão de Zaél. Nem só de quartéis viveu Santiago. mas pela quantidade de quartéis. o heróico juiz virou medalha: a "Medalha do Mérito Eleitoral Moysés Vianna". E. Por defender a lisura da eleição naquela localidade com a própria vida. autor do sucesso de verão Tem que ser mulata. e ele ambicionava um dia escrever um grande romance sobre a cidade. também. pelo menos um herói. Santiago era polvilhada de quartéis. regravado em inúmeras línguas. concedida a todos aqueles que se destacassem pela atuação em matéria de Direito ou Justiça Eleitoral. Sorte das mocinhas. que certamente possuía. Em 1936 — dois anos antes de Santiago ser oficialmente promovida a "cidade" — o juiz eleitoral Moysés Vianna morreu abraçado a uma urna eleitoral. quando Nair ficou grávida do primeiro filho: uma terra predominantemente militar. tirou o apelido da cidade em que nasceu. O Passo aparece em vários contos de Caio. que gostavam de namorar homens fardados. no entanto: houve um sambista. Santiago do Boqueirão. em um país apaixonado por futebol. coletânea lançada no fim da vida do escritor. batizado Neltair Rebés Abreu. em 1948. antiga São Tiago das Missões. no Rio Grande do Sul. perto da fronteira com a Argentina. que. o capítulo introdutório aparece em Ovelhas negras. seus costumes e lendas. Túlio Piva. à maneira da Macondo de Garcia Márquez e da Santa Maria de Juan Carlos Onetti. Santiago viria a ser a inspiração para Caio criar o Passo da Guanxuma. Não pelo tamanho ou pela prosperidade. . ou pelas belezas. Lá nasceu também o cartunista Santiago. se destacava das outras pequenas cidades da região. e a maioria dos homens que ali moravam era militar. com seus heróis e mártires. Embora o texto inteiro jamais tenha sido feito. enquanto era cravejado de balas. também havia de existir um jogador vindo de Santiago: Anderson Polga.arrumou um emprego como professora em uma escola local. Achavam bonito. Houve. como qualquer outra cidade. Assim era Santiago. uma cidade fictícia.

de dois males jamais sofreu. mas se imagina do Passo. olhos pretos. sobre os cabelos da criança: "apesar de escassos. Na rua Pinheiro Machado. nunca pára de crescer. na seção presentes: "Ganhou muitos presentes." Em 1954. o que se vê e não se vê. nota-se que serão castanhos". algum tempo depois. por exemplo. com o passar dos anos. nem sempre tinha paciência de escrever tudo que acontecia. E um menino bem grande: Caio Fernando Loureiro de Abreu nasceu pesando notáveis quatro quilos.. está anotado. Assim. nem de pó acumulado. se tornara getulista convicto. o pai. As parteiras Julia Jacques e dona Alcina. salpicadas entre as quatro patas da aranha — no meio dos girassóis do leste. como o pai de Caio. Caio seria o único dos cinco filhos de Nair a ter um álbum de bebê. calorão ou friagem. o mais real. sofre ou sofrerá o Passo. O falecido presidente era natural de São Borja. não todo completo: seu Zaél. são touceiras espessas de guanxuma."Isso é o que se conta. quase não incomoda".]. Lia tudo que saía sobre Getúlio nos jornais e tinha uma foto dele . Esse é o bebê Caio: cútis branca. o que se diz.." Eram oito e quinze da manhã do dia 12 de setembro de 1948.. De tudo. De distúrbios estomacais. ai como dizem nesse Passo. morre Getúlio Vargas. no primeiro aniversário de Caio. dizem. Nair de Abreu acabava de dar à luz pela primeira vez. Ainda assim. 575. que os ramos servem pra fazer vassouras capazes de assentar até mesmo a poeira daquele deserto próximo que sopra e sopra noite e dia sem parar e. sem sinais particulares e "muito quietinho. que chá de guanxuma é tiro e queda.. O papai não vai enumerá-los por ser muito longo e estar com preguiça de escrever. que. confirmavam: é um menino. No álbum do bebê. Zaél. [. anotaria. mãe de Nair. que o preenchia. dizem tanto. à beira dos lajeados ao sul. pelos descampados do norte e até mesmo entre os vãos mais sombrios das areias a oeste — o que mais tem em qualquer tempo de seca ou aguaceiro.

o Beco (pronuncia-se Beco). quando estudaram na mesma turma. que seria um dos melhores amiguinhos do Caio a partir do primeiro ano ginasial. Luiz Carlos Moura. D. de muita cultura. e não era só ele. o garoto continuou escrevendo e criando. em sua casa. grande amigo do Gringo. ou oásis. se na política as coisas iam mal. O quartel no fim da rua era o oásis: na frente da casa dos Abreu era onde o avião dos três garotos tinha caído. De vez em quando. iam faltando as coisas: . O ambiente da casa dos pais era propício para isso: Zaél. a livros de Monteiro Lobato e a coleção chamada O mundo da criança. Quando ele morreu. Aos poucos. em um conto do livro O ovo apunhalado. Machado de Assis. na sua trajetória de escritor. ele. Eles tinham que atravessar todo o deserto — o espaço entre a casa e o quartel — e conseguir víveres e peças para consertar o avião. quando Caio tinha uns sete anos. do escritor de aventuras Karl May — um alemão cujas histórias se passavam no faroeste norte-americano. dividia a paixão por livros. irmão de Caio. Mas. de sobrancelhas grossas e bem desenhadas. o menino Caio demonstrava uma inclinação para a arte que viria a desenvolver mais tarde. estava sempre com um livro na mão. só havia livros ideológicos. As coleções completas de Érico Veríssimo. também instigava os filhos a aprender. Nair. embora ele mesmo nunca tivesse deixado seu país — enfeitavam as prateleiras da casa. já muito magro e muito alto. escreve seu primeiro texto. lia muitas coisas quando ia visitar a casa deles. que eles assinavam. o menino. Nenhuma leitura era proibida em sua casa: de gibis de aventuras e revistas como O Cruzeiro. Beco e Gringo brincavam de deserto. vizinho e primo dos Abreu.pendurada na parede. homem sofisticado. O colega Ruy Krebs. Desde então. Sendo professora. uma menina louquinha que queria fugir de casa. como Caio chamou a brincadeira anos depois. pois seu pai era comunista e. em casa Zaél só tinha motivos para alegrias. as crianças podiam ler tudo. como seria a vida toda. Desde muito pequeno. Zaél ficou arrasado. Com seis anos. a mãe. a história em quadrinhos de Lili Terremoto.

São duas da tarde. A noite. de Porto Alegre. Anos depois. pobre Etelvina! Certa vez. a turma percorria as obras em construção atrás dos sacos que embalavam o cimento para fazer os cenários. colega dos meninos. decidiram. E os irmãos Abreu. Caio. Naquela época. suados. Cobertores velhos faziam as vezes de cortinas. O único que às vezes participava da brincadeira era o negrinho Jorge. a Nairzinha. são jogos que eles mesmos inventam. e a Etelvina tinha que balançar pra lá e pra cá. comida. e Gringo. Ruy e Beco vão para a casa dos Abreu brincar. são os que gostam de brincar brincadeiras mais parecidas com as de que eles mesmos gostam. de cabeça baixa. os empregados dormiam em casa. Caio morreria de rir sempre que se lembrasse dessa história. quem fazia os roteiros das peças que encenavam era ele. escrita por Glênio . fazer um teatro. Montou toda a estrutura no galpão de casa. Quase sempre só os três: a maioria dos outros garotos não conseguia ir até o final. Tinham que sentir. Não se machucou. E conseguiam. assim como inventam as brincadeiras de fantoche e de deserto. fingir que era tudo verdade. Ruy se lembra de que. Nada de jogar futebol ou vôlei: quando brincam de bola. filho de camponeses. Armaram no teto um trapézio. por incrível que pareça. Em um desses balanços. tratada com carinho pelos pais de Caio. os meninos estavam cansados. que de vez em quando aparecia por lá. D. Na casa dos Abreu havia sempre uma empregada doméstica. atuar. Houve também a Etelvina. Certa vez. Nair ajudou a fazer o enxoval.água. As crianças chegaram da escola. Caio resolveu brincar de circo. Em poucos quarteirões. e não o Caio. Uma delas era também Nair. Quando a moça se casou. então com dez anos. apesar do tombo feio. Caio encontra uma receita de massa para fantoches na antiga Revista do Globo. a pobre caiu de cabeça no chão. A sede era a garagem da casa do Sales Horácio. Como a turma gostava muito dos circos e teatros mambembes que de vez em quando passavam pela cidade. certa vez. decidiram fazer um teatrinho de fantoches.

Uma cumplicidade muda. porque tinha um telescópio para observar o céu. muito forte. sentia com ele uma identificação. poeta. Na minha memória — já tão congestionada — e no meu coração — tão cheio de marcas e poços — você ocupa um dos lugares mais bonitos. Era um poeta. Mas isso seria muito tempo depois. Não dava para imaginar que. Em carta escrita a Oracy. Caio. De vez em quando. organizado por Fátima Friedriczewski. Por agora. o fornecimento de luz elétrica é intermitente e não há qualquer preocupação na cabeça das crianças. a cidade é Santiago. adaptaria textos de outros escritores. 'Nunca nos falamos. e tão secreta que. nunca nos olhamos. nos anos 80. penso. muito tempo depois. Faria suas próprias peças. Oracy Dornelles. Eles fabricam os bonequinhos. anos e anos depois. Oracy fez pinturas e esculturas em fios de . Era um som novo para Caio. Da janela dele. em companhia da mãe. chegaria mesmo a pisar no palco como ator. às vezes. mora ali. Uma casinha de madeira. Ficou só aquela vibração de silêncio. ele se perguntaria mais tarde. Caio viria a escrever de verdade para o teatro. Caio se lembraria da afinidade que sentira pelo vizinho. não há asfalto nas ruas. são meados dos anos 50. faziam também teatrinhos de sombra. Numa cidadezinha perdida. escoava o som de música clássica. diziam. E assim Caio descobriu que os poetas existiam.Bianchetti. praticamente. Sem nunca ter trocado uma palavra com Oracy. Além dos textos. talvez você nunca tenha percebido. um coqueiro. e inventam historinhas para as peças. sente o cheiro profundo de jasmins que vem do jardim lá fora — o cheiro era tão forte que às vezes a mãe sentia tonturas — e vê a casa da frente. Beethoven? Wagner? Caio dizia para Ruy que Oracy conversava com as estrelas. Que seria?. escondida por plantas. mesmo sem nunca ter conversado com ele. olha pela janela do quarto. em Porto Alegre. dois malditos que se reconhecem sem que seja necessário sequer falar sobre isso. "A carta foi incluída no livro O que importa em Oracy. Froilan Oliveira e Júlio César Prates. a não ser brincar. que depois se tornaria artista plástico famoso. as cabecinhas de papel machê.

quando crescesse —. Caio desenha as misses de maio. Enquanto Beco e Gringo jogam xadrez — Beco seria campeão amador da modalidade. Que nem aquelas que vinham com as fotografias na revista O Cruzeiro. ou na sessão seguinte. Depois que estão prontas. Em determinada hora. que está lotado. e acabava sempre conseguindo o que queria. Pega seu boneco do "mocinho" e se encontra com Caio e Gringo. em que os membros se reuniam para ouvir concertos do compositor — nas noites de gala. com a diferença de que aquelas eram reais e essas. as vinte e poucas bonequinhas vão surgindo no papel. de tarde. vestidos a rigor. que também estão com seus bonequinhos. as roupinhas. Os dois estão convocados: é hora do desfile das misses. o Cinema Imperial. Vão ao cinema. só podiam entrar no cinema na matinê de domingo. uma para cada estado do Brasil: miss Rio Grande do Sul. fazendo uma algazarra. desenhadas. Mesmo que não estivessem muito interessados. Caio e Ruy chamam Gringo e Beco. os nomes. Começa o filme. as crianças se reúnem de novo para brincar. o mocinho começa a perseguir o bandido. inventadas. às quatro da tarde. afinal Caio tinha esse jeito de impor sua vontade na hora das brincadeiras. Beco sai de casa. Quando as crianças eram mais novas. as medidas inventadas. No outro dia. e os meninos esperavam ansiosos o dia de assistir aos "filmes de mocinho".cabelo e grãos de areia. Oracy foi um dos fundadores do Clube de Beethoven. Anos mais tarde. miss Minas Gerais. e ficaria famoso pelo circo de pulgas que mantinha. E a senha para a comoção geral: o pessoal todo do cinema começa a bater os pés no chão. pequeninas. aos berros: . e eles vão ser os jurados. Havia apenas uma sala de projeção na cidade. Ruy pinta as modelos e desenha os trajes típicos. miss São Paulo. Caio e Ruy pegam cartolina e tinta nanquim. ele esclareceria: era Beethoven o som que Caio ouvia pela janela. uma a uma. Depois de meses de trabalho. lado a lado. Um divertimento que todos adoravam era ir ao cinema. tudo. Fã ardoroso do alemão.

e também a praia de Jaguari. usando as iniciais dos nomes de artistas. Uma vez. AA era Antônio Aguilar. Quando Caio cresce e seu companheiro passa a ser Ruy. como a maioria na cidade. Ruy e Caio desenhavam os cartazes e. BB era Brigitte Bardot. Doris Day e Diana Dors. em homenagem à cidade. O julgamento artístico dos meninos era bom. eram feitos com lascas de telha ou tijolo na calçada. Dessas praias. mocinho! Caio. KK era Kay Kendall. Um dia. DD. CC. Era uma festa. Afinal. para anotar caso aparecesse um YY ou WW. Claudia Cardinale. adotaria a alcunha de Santiago. porém. Os desenhos do Neltair. eles já podem ir ao cinema quase todos os dias. mocinho! Aí. como concursos de desenhos para os cartazes dos filmes da semana. Neltair cresceria. Caio pode ter tirado a descrição da . feita de lajes de pedra. De tanto irem ao cinema. as famílias gostavam de acampar na beira dos rios. ao mesmo tempo em que sacodem no ar seus bonequinhos de mocinho. com os gladiadores greco-romanos. perto de Santiago. dos bons. O problema surgiu quando chegaram as letras YeW: onde encontrar um nome cujas iniciais fossem essas letras dobradas? A questão obrigava os meninos a levar caderno e lápis para o cinema. cidade vizinha. Por exemplo.— Aí. um nome que acharam no elenco de filmes mexicanos. os jurados eram o Gringo. MM. e seria cartunista famoso. Caio e Ruy se impressionavam. primo de Caio. com exceção dos filmes censurados para menores. assim como no concurso de misses. o Beco e a empregada da casa do Caio. Os dois passavam na calçada só para olhar os desenhos. Havia uma praia muito bonita no distrito de Ernesto Alves. Gringo e Beco também gritam e batem os pés. viram os desenhos de outro menino. pois assistiam a muitos filmes épicos e bíblicos no cinema. inventaram passatempos relacionados. e se espantaram. tiveram a idéia de fazer um alfabeto duplo. Marilyn Monroe e assim por diante. principalmente. Caio e Ruy se consideravam os melhores desenhistas da turma. No verão. por acaso.

onde havia todo tipo de árvore frutífera: bergamoteiras. Rasputin e Cassandra. os gibis.praia do conto Uma praiazinha de areia bem clara. Havia sempre um cachorrinho pela casa. Nair proibiu os filhos de fazer. pitangueiras. que comandava a casa. Os garotos subiam na cama. na beira da sanga. alguém trouxe duas corujas. assim como seu nome. ou algum outro bicho. Eram nomes de criaturas estranhas. As praias e fazendas próximas. Caio sentiria falta. Apesar de divertido. do livro Os dragões não conhecem o paraíso. Houve uma brincadeira. como quando os garotos passavam o dia no enorme quintal da casa dos Abreu. um acontecimento. anos mais tarde. misteriosas até hoje. O verde estava presente em muitas brincadeiras. e começavam a pular. Pulavam. A idéia era que fosse um lugar só deles. não permitiu mais que os garotos brincassem desse jeito. goiabeiras. guardavam os brinquedos. de amigos e parentes. ali. que D. pulavam. morando nas metrópoles acinzentadas e sem verde. Era uma novidade. Podiam passar a tarde chupando bergamotas ou brincando na casinha que Caio improvisara com uns compensados de madeira da embalagem de uma geladeira que haviam comprado. indecifráveis como elas. forneciam um contato com a natureza de que. A brincadeira. de seu primeiro livro de contos. jogavam cobertores sobre as cabeças. Certa vez. os fantoches. Finalmente achei. Caio escreveu sobre isso no conto Corujas. ocultei o batizado. até cair no chão. um pouco inspirado no Clube do Bolinha e da Luluzinha. como se sutilmente as fosse amoldando à minha maneira de desejá-las. e a mãe. de modo a não enxergarem nada. Inventário do irremediável: Chamá-las de alguma coisa seria dar um passo no caminho de seu conhecimento. embora inconscientemente soubesse da inutilidade de tudo. Na casinha. era muito perigoso. foi inventada por Caio: bailu. . apropriando-me cada vez mais de sua natureza. já perdidas no tempo. Calei a descoberta. no entanto.

passavam umas projeções de filmes. certa feita. Era a época dos comentários maldosos. o tímido e retraído Caio aprenderia a lidar com essas situações e seria mais enfrentativo. o Abreu. O capitão vivia implicando com ele. que viria a se tornar o cartunista Santiago. não gostava de futebol. vem empurrar. o futuro escritor se senta no balanço. A subida era pelas laterais. o chama de cagão. Está na aula de Educação Física. Caio não. A maioria dos meninos sobe. apavorado. velados. E outro dia. é o Capitão Pely. que conseguem subir. o outro menino começa a empurrar com força. um clube da cidade. cada vez com mais força. Os outros meninos. desde pequeno. preferia desenhar. escrever. o irmão de Santiago. colega de Caio na 4a série. Sabendo que Caio. De vez em quando. era competitivo: sempre . aludindo à sua pretensa homossexualidade. balanços. que não consegue. Luiz Abreu. O capitão insiste para com que Caio suba. embora não fosse bom nos esportes. de patinação. que ficavam em um plano inclinado. Afinal. também chamado Caio. que também dá aula de Matemática. debocha do menino. A sociedade santiaguense da época não estava preparada. casado com a irmã do pai de Caio.Mas nem tudo era brincadeira. Elza. Caio está no Círculo Militar. Tem quadra de tênis. O primo Neltair. exigindo. tinha traços ambíguos. Um dia. Ele tem medo. Os alunos têm que subir em uma tábua suspensa. O jeito de Caio sempre fora um pouco diferente. Outro menino. riem da cara do Caio. implicando. Caio. Caio tem oito anos. Chegaria mesmo a se envolver em brigas. comprida e estreita. era mais frágil. Anos depois. e os meninos iam lá: Santiago. másculo. talvez por ser cunhado de Zaél e se sentir na obrigação de despertar no aluno um comportamento viril. Sempre esse professor pegando no pé. não balança que eu caio! — berrava o Caio Abreu lá do alto. alguém fez em um jornal-mural uma caricatura do futuro escritor. onde. — Caio. se lembra do preconceito contra o menino Caio na escola. O professor.

Cerca de dois anos após o nascimento de Gringo. D. ele saiu do quarto. Por essa época. E sapeca. a família Abreu tem uma posição distinta na sociedade santiaguense. Valia a pena apanhar um pouquinho para ver a cara do irmão furioso. apavoradíssimo. nada. Felipe não disse nada: simplesmente estendeu os braços e colocou as mãos em cima das costas do irmão. desceu as escadas e foi até a cozinha pegar um copo de leite. não podia nem vê-las. alcançava Felipe e batia. O grito de Caio. Sabendo que o irmão mais velho odiava cebolas. Não eram ricos. Caio adorava assustar as pessoas: talvez por tédio. que cresceu saudável. porém. ao mesmo tempo em que leite. quase todo mundo dormia. Caio ficava furioso: mais alto. Zaél era integrante da maçonaria. as peças que Felipe e Caio costumavam pregar um no outro continuaram. em 1961. mas tinham algum prestígio. como se fosse um fantasma ou aparição. foram todos veranear na praia. mais velho. e D. que acordara com a movimentação do irmão. Anos depois. Em dado momento. na casa da família. Luiz Felipe adorava provocar Caio. Felipe. que ficava acordado até tarde escrevendo. Era noite. mas o castigo não conseguia fazer com que o mais novo parasse. Quando Caio voltou com um copo de leite e um prato de bolachinhas. por falta do que fazer. menos o Caio. Nair teve mais um filho. nem sentir seu cheiro. nasceu Luiz Felipe. A década de 50 está terminando. Esse. escondeu-se no vão da escada e esperou. em Tramandaí.representava o colégio nas disputas de conhecimento sobre Geografia e História. Felipe pegava algumas e arremessava nele. Cláudia. batia nele. quando ele estava em casa sempre pegava as pessoas de surpresa pelos corredores e arrancava gritos de todo mundo. quando as irmãs caçulas Márcia e Cláudia já eram grandes. Uma vez. acordou todo mundo na casa. Márcia nasce em 1960. Nair estava sempre cotada entre as dez mais . em 1957. morreu logo após o nascimento. Mesmo com os garotos crescidos. copo e bolachinhas voavam para todos os lados.

o rapaz abraçou-a e deu-lhe um leve . como se lembraria o escritor anos mais tarde. fotonovelas e melodramas mambembes do Circo-Teatro Serelepe. que demonstrara uma personalidade forte e independente desde os primeiros anos. mas talvez possa render algumas risadas". e criou os jornais-murais. inclusive de Caio e Beco. George! — soluçou a moça. Pela via da arte. em que os alunos liam textos e recitavam poemas. A idéia do concurso era do professor Cavalcanti. escreve ele. e o casal era muito respeitado. O meu coração estava cheio de ódio por Fernando. Tanto ela quanto Zaél eram muito vaidosos. Venceu. eu só pensava em vingança. Você me perdoa? Como resposta. Gringo foi apanhado e expulso do lugar à vista de todos. o filho mais velho. o professor promovia aos sábados as Horas de Leitura. figura importante nos primeiros anos do escritor: além de organizar os concursos literários. Caio encheu um caderno inteiro com o pequeno romance A maldição dos Saint-Marie. As meninas faziam fila para ler.elegantes da cidade nos vários bailes e festas a que compareciam. influenciada por radionovelas. Essa posição da família era estimada por Caio: uma vez. pois na sua ele e Ruy eram os responsáveis. participou de um concurso literário na aula. muito "adequados". quando incluiu o texto na coletânea Ovelhas negras. Caio brigou com Gringo por ter exposto o nome da família daquela maneira. enfureceu-se com o irmão Gringo por ter entrado sem pagar no circo que estava na cidade. donos de um suntuoso castelo na França: — Oh. que foram assistir ao espetáculo de forma lícita. Para o concurso. pouco antes de morrer. Como posso estar feliz? Não mereço o seu amor. Assim termina a história de Adriana e de seu envolvimento com os SaintMarie. A carreira de militar e a situação de professora conferiam certa diferenciação social na época. aqueles mesmos em que Caio seria ironizado por colegas de outra turma. não presta. Aos 13 anos de idade. muito finos. "E evidente que a história cheia de clichês. a notoriedade de Zaél e Nair se estenderia a Caio.

a mãe dele descobriu. Caio se apaixonou por uma menina muito bonita que morava perto de sua casa. e Beco presenciou a cena em que ela passava a maior bronca no filho primogênito. Ela era aluna de D. onde as senhoras iam fazer os penteados da época. Lenita. a pérfida Amália não fará mal a mais ninguém. O espanto acompanharia Caio pela vida afora. De alguma maneira. era considerado avançado para a época. Depois de um tempo. que morreu de leucemia aos 15 anos. mas muitos: o Caio tímido da infância e da adolescência. o Caio mais sereno e maduro do fim da vida. às vezes oposto ao que outros se recordam. e sua amiga Nádia Ahmad se lembram de como gostavam de escorregar nas longas pernas do Caio quando ele ia visitar Iara. parecendo uma promessa de esperança e fé no futuro. o Caio enfrentativo e ousado da juventude. a precursora dos salões de beleza em Santiago. Os meninos iam crescendo. com seus cabelos compridos. Afinal. Por isso é que. Incapaz de se condicionar a algum rótulo. ele seria não um. Beco se espantou: só naquele momento é que ele ficou sabendo que o amigo tinha uma queda pela garota. Mais atrás vê-se a silhueta de dois jovens abraçados. Contra o horizonte destaca-se a outrora mansão dos Saint-Marie. A irmã mais nova de Iara. agora transformada em ruínas. por exemplo. filha de D. Como prova de seu amor. As duas estavam sempre por perto a pedido de D. que pedia que ficassem de olho no casal. algumas das pessoas que conheceram o escritor mais tarde. Caio roubou uma prova de História e entregou para a garota. ele mandava as meninas comprarem balas . Lenita. Valéria Nicola. Nair. se espantam de que tenha tido namoradas. A aurora já põe os dedos cor-de-rosa no puro azul do firma-mento. Para cada pessoa que o conheceu. Depois dela.beijo nos lábios. Talvez agora eles possam ser felizes. Certa vez. um Caio diferente. Caio. A primeira delas foi Tânia. foi a Iara Nicola. começaram a aparecer as primeiras namoradinhas. quando já tinha sua homossexualidade estabelecida.

Ele queria conhecer novas coisas. e que tem vontade de morrer. Com 15 anos. jamais leria os livros do conterrâneo. másculo. mesmo que quebrassem no primeiro vôo. O colégio era caro e bom. Luiz Carlos Fava. enfim. novos lugares. [. Caio fica doente e escreve uma carta medonha a seus pais.. não entende as matérias. Afinal de contas. onde não me tratassem com consideração apenas por eu ser "o filho de fulano" ou "o neto de beltrano". se elas são realmente fortes como imagino. Caio tinha que seguir em frente. humilhado — mesmo assim restaria o consolo de ter descoberto que valho o que sou. não consegue arrumar amigos. bem longe daqui. o filho queria. que ele tivesse a melhor educação possível. e até mesmo insistia. ferido.. as coisas não começam bem para o primogênito de D..para namorar Iara. Nair concordava. Ele não se adapta.. Como escreveria depois em Limite branco. cada riso de criança que vinha lá de fora eu julgava ser da Márcia ou da Cláudia.] Cada passo que ouvia no corredor pensava que era a senhora chegando. porém. mesmo que após um certo tempo eu voltasse derrotado. com febre e sozinho. Embora a mensalidade pesasse no orçamento dos Abreu. um oposto de Caio em todos os sentidos: esportista. Caio muda-se para Porto Alegre para estudar no Instituto Porto Alegre (IPA). pedindo para irem buscá-lo. Onde eu pudesse experimentar por mim mesmo as minhas asas para descobrir. No internato. e sabia que Santiago não poderia satisfazer seus anseios. que acabaria por se casar com outro santiaguense. e D. E se não forem.] . onde ninguém me conhecesse. Nair. seu primeiro romance: Eu gostaria de ir embora para uma cidade qualquer. Diz que esteve na enfermaria. Confesso que tive vontade (e tenho) de morrer. "[.

ando sempre com olheiras e não como nada. A crise depressiva tinha passado. e seu irmão Antônio também foram morar na pensão. enxergava uma aura azul ao redor do Caio. Foi por intermédio dele que Caio ingressaria no Jornalismo. a teatralidade... Logo Manoelito conheceu também Caio e leu seus contos. como Érico Veríssimo.] Por favor.[. Na época. irmão de Beco. No ano seguinte.. [. Finalmente. que. espírita. mãe.. foi logo se apresentando. Maria. de carro. etc.. Agora é que descobri o quanto gosto disso daí. de notórios altos e baixos. Quando Zaél chegou. muda-se para a pensão de uma viúva. que começou a freqüentar o apartamento do escritor nessa época. Ajude-me!" A carta dá a perceber uma faceta de Caio: o pendor para o dramático. não me deixe só! Responda logo. morava no mesmo prédio o escritor Manoelito de Ornellas.] Pelo amor de Deus... sempre muito extrovertido. Depois de morar no internato do IPA. A filha de Manoelito. Após receber a carta.A senhora vai dizer que isso é normal. Caio vai para o Hotel Uruguay. Caio já estava muito melhor. Ruy passou a dividir o quarto com Caio.[. Por coincidência. no centro de Porto Alegre. Gosto muito da senhora. que alugava quartos para estudantes. o amigo Ruy.. de Santiago. D. Mas não é não! Os outros que chegaram junto comigo já estão adaptados. que era amigo da família de Ruy. No ano seguinte à sua vinda.] Há várias noites que não durmo e tenho pesadelos horríveis. e ele acabou não voltando para Santiago. mãezinha. eu não agüento mais! Veja se a senhora dá um jeito! Isso aqui é um verdadeiro inferno. o exagero. E também a sua personalidade. e Antônio com o Carlos Renato. Acho que até emagreci. Caio publica seu primeiro conto em . Manoelito lhe deu muito apoio: apresentou outros escritores. os pais alarmaram-se e Zaél foi buscar o filho em Porto Alegre. era tortuoso e demorado vencer a distância de mais ou menos 500 km que separa Santiago da capital. que o impressionaram muito.

No dia seguinte buscaram-se discretamente.. e por isso mesmo mais desprezível. na revista Claudia. noutro dia suas mãos tocaram-se rápidas sobre o teclado. Afastaram-se logo. tocando-se como que por acaso. mas ela tem esperanças: compra um piano e o convida para lhe dar aulas. Ele está muito mais para sapo que para príncipe. Olhos fatigados. Teresa. Caio entra para o curso de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). um professor de piano. revista que inaugurou um novo estilo entre as revistas femininas da época. e acaba encontrando Francisco. Mas ao cair de uma tarde. que passara em Educação Física. A dele trêmula. textos mais sombrios. Uma semana mais tarde olharam-se nos olhos. encabuladas. depressivos. Comemora o resultado na casa onde estava morando agora o amigo Ruy. de gente quase velha.um veículo da grande circulação: O príncipe sapo. Procurando consolo nos livros. psicóloga e editora da seção A arte de ser mulher da Claudia. tristes. a dela hesitante. O conto. humilde demais. as quatro mãos.. Ela e Caio se correspondiam há algum tempo e. única de uma longa fila de irmãs a não ter conseguido casar. já é sintomático dos primeiros textos de Caio. O homenzinho apagado demais. Decide procurá-lo nos homens que passam nas ruas. ela nada respondeu: preferiu manter segredo até que a revista saísse. nada feliz. ambas. quando ele enviou o conto para ver o que ela achava. O conto é sobre uma mulher. quase sem ilusões. Em 1967. Teresa se apaixona pela história do Príncipe Sapo. como consciente do desprezo que provocava. depois. sempre quieto. Teresa surpreendeu-se a olhá-lo com pena. nervosa. depois com compreensão. A publicação foi uma surpresa de Carmen da Silva. Caio acabaria por trancar a matrícula e freqüentar o curso de Arte . No começo tinha nojo dele. Bem. depois com simpatia.

Embora tivesse apenas 18 anos quando escreveu Limite branco. sob a ótica . a existência de Deus. discos. embora ainda se preocupasse em descobrir um estilo pessoal. ela baixinha. Nessa época. volta e meia com tinta nos cabelos ou nas mãos. andava com eles o futuro escritor João Gilberto Noll. principalmente a Maurício. a busca de uma identidade e o homoerotismo: vários temas que reapareceriam depois na obra do escritor são tratados no livro. um romance de formação que só viria a ser publicado em 1971. o desejo de viver um grande amor. Sentavam-se em um banco da praça em frente à universidade e conversavam sobre filmes. em sua forma mais perversa — o suicídio. artista plástica. Noll ainda não sabia se escreveria prosa ou poesia. mas Caio. Era capaz de discutir literatura como gente grande. Ela e Caio formavam uma dupla e tanto: ele alto. A confusão de livros e pessoas nas barracas facilita que espertinhos ou estudantes sem dinheiro embolsem exemplares sem que ninguém perceba. havia uma dose de humor na postura existencialista dos dois. Não porque quisessem ser diferentes. e começava a descobrir autores que viriam a marcá-lo por toda a vida. livros. A descoberta do sexo. que fosse só seu. o livro já continha muito do estilo que viria a caracterizar o escritor ao longo de sua carreira. De vez em quando. sua melhor amiga é Maria Lídia Magliani. Nessa época. e do qual Noll foi um dos primeiros leitores. uma feira a céu aberto realizada em uma praça no centro da cidade. Ambos vestidos de preto da cabeça aos pés. aproveitavam para roubálos na Feira do Livro de Porto Alegre. que estavam preocupados mesmo é em ser fiéis aos rumos que haviam escolhido.Dramática (CAD). O escritor explora sua própria angústia para dar densidade aos personagens. parecia já ter definido desde muito cedo o que queria. Tanto que já tinha até escrito Limite branco. negra. a morte. como Clarice Lispector. Caio e Noll dividiam a paixão pelos livros: como não tinham dinheiro para comprá-los. Caio era leitor voraz desde menino. branquelo e magricela. o adolescente em crise que protagoniza o texto.

mas que. ficou chocado com a inocência do personagem. A época era de ebulição cultural. que parece ter sido inspirada em Magliani. ouvir música. as rosas pareciam palpitar com sua fartura. comentar autores proibidos pelo regime. em prefácio para a uma reedição. A casa crescia à medida que se aproximava. Participa das discussões. As coisas brancas são sempre meio enxovalhadas. porque os dois se conheceram depois que o livro já estava pronto. repetiu a frase ao inverso: as coisas enxovalhadas são sempre meio brancas. há sempre pequenas polêmicas. porém. estar juntos. descobriu que aquela cor era quase a mesma das pétalas. E do céu. Marlene. "o momento histórico em que se passa mal e mal aparece no livro: ele é intimista. mas não podia ser. sua beleza quase obscena. experimenta drogas. Enquanto caminhava. Assim como os livros de Clarice. simplesmente. A história se passa em meio ao turbulento final dos anos 60. quando o fez. vinte e cinco anos depois. deixa o cabelo crescer. Quando visita os pais em Santiago. ao ir estudar no IPA. A mãe de Maurício perde o bebê. alguns jovens se reuniam para discutir um futuro melhor. como diz Caio. Caio não poderia fugir da época.do adolescente. Ele afirma ainda que foi quase impossível reler o livro. O jovem do livro se muda para a capital. A história de Maurício tem vários pontos em comum com a de Caio. De longe. Ele tem uma amiga pintora. Ficava mais nítido o verde das janelas. de Hilda Hilst. usar drogas. Começou a caminhar em direção à mancha esbranquiçada do casarão. de Virgínia Woolf. pensou. discussões . voltado quase exclusivamente para dentro". comportamental e política. definiam-se as roseiras em torno delas. Em plena ditadura militar. Por mais introspectivo que fosse. sentindo-se confusamente feliz. assim como Caio fez. sua turgidez. enfim. como Nair perdera um dia. Parou.

de Guimarães Rosa. assim como para muitos de seus primeiros contos. nos autores. todo o elenco da peça e o diretor do curso de Arte Dramática. mas que viriam a caracterizar o escritor ao longo de sua vida: o enfrentamento. talvez. estava todo mundo na delegacia: Caio. Gerd Bornheim. Além da Magliani. nessa hora. Luiz estava ensaiando uma peça no teatro da universidade quando chegam Caio e Magliani com o presente. Magliani. anos depois. que dava aula de inglês no Yázigi e tinha Caio como aluno. E é desses conflitos e angústias que Caio tira material para Limite branco. o livro Tutaméia. O tal rapaz. Caio se aproximou bastante da turma do teatro da universidade. como aliás todos já desconfiavam. fez comentários racistas. talvez os pais sentissem saudade do tempo em que queria apenas brincar de fantoches com os amigos ou insistia em ser o Papai Noel no Natal. para o curso de Direção Teatral do Centro de Arte Dramática (CAD). um pessoal novo que seria importante para a renovação da arte no Rio Grande do Sul. Irene o apresentara a toda a turma do teatro. Ele e o restante do grupo introduziram o escritor no universo do palco. muito magro e desajeitado. que formariam em 1969. em agosto de 1967. Estavam os dois no foyer quando um integrante do elenco passou e ofendeu Magliani. que era a amiga mais próxima. embora os pais não o proibissem de fazer nada. Ele entrara nesse universo através de Irene Brietzke. a vivência de experiências como busca de um significado maior na vida. Luiz Arthur. a busca de uma identidade. Fizeram o . Um desses jovens era Luiz Arthur Nunes. nas peças. com o grupo Província. por trás das roupas vermelhas.políticas. era informante da ditadura. O filhinho de D. Nair estava crescendo e. Tanto que acabaria entrando. Caio não pensou duas vezes e se jogou para cima dele. mesmo que todo mundo o reconhecesse. ainda incipientes. futuro diretor teatral e um dos grandes amigos de Caio. já se podia perceber alguns comportamentos. E Caio foi o responsável pelas emoções no aniversário de Luiz Arthur. Em pouco tempo.

publicou um anúncio convocando os interessados a fazer os testes para participar de uma revista nova. colérica.boletim de ocorrência. sem se preocupar se aquilo iria acabar com suas chances de trabalhar na Veja. de conhecimento específico. quando achou que já dava para voltar para casa. Umas duas semanas depois. e parecia achar que Porto Alegre era uma província. o jornalista perguntou a Caio sua opinião a respeito do grupo Abril. graças a um tio influente de Luiz Arthur. a revista Realidade. e que ele era contra a colonização cultural a que os Estados Unidos submetiam os outros países. Por medo de represálias. Vera nunca se esqueceu da figura magra. que incluía testes de conhecimento geral. Caio participou do exaustivo processo de seleção. discursando. entrevista conjunta com os outros candidatos. ninguém ficou preso. falou que a Abril era ligada ao grupo TimeLife. Chegou a chamar a editora de entreguista. Caio foi passar uns tempos com Luiz Arthur na casa dos pais dele. foi pego na rua e levou uma surra. ex-vice-reitor da universidade. jornalista gaúcha. e. Vera notou um certo ar de desdém em seu rosto. ela respondeu Depois da queda. Quem passasse pela fase da entrevista conjunta iria a São Paulo fazer um curso. conheceu Caio na entrevista conjunta. O jornalista que entrevistava o grupo vinha de São Paulo. que começaria a circular no ano seguinte. de Arthur Miller. da editora Abril. a Veja. Vera Spolidoro. e o entrevistador parecia não acreditar em uma peça que ainda não havia sido encenada em São Paulo tivesse sido montada em Porto Alegre. mas. Em 1968. Em dado momento. depois de ambos passarem por todas as etapas. Era um texto sobre a recém-morta Marilyn Monroe. Irado. fez um fervoroso discurso antiimperialista. O escritor levantou-se. de pé. quando a revista começou . e aí então seriam definidos os nomes dos contratados. Quando perguntaram a ela qual fora a peça mais recente a que tinha assistido. Embora não fosse formado em Jornalismo. entrevista individual. Em 1967.

ídolo de Caio. do contraste entre a vida interiorana em Santiago do Boqueirão e a vertigem causada pela velocidade da capital paulista. de adolescente. uma sensação de desprotegimento. O escritor. e. São Paulo era grande demais. que sempre fora muito magro. Ele. feia. perdeu ainda mais peso. com gripe. Nem mesmo o céu escapava do cinza. Caio estava entre eles. DOIS Grande demais. fina. Ficava nervoso. o humor de Caio oscilaria entre picos de euforia e . não parecia agradável. não se adaptou de início à cidade grande. asfalto por todos os lados. Era preciso trabalhar. Os parentes. como o fora também para Caetano Veloso. longe. as árvores? Onde. Caio gramou durante os meses em que trabalhou na Veja. Caio diria que toda sua literatura seria fruto do choque. Demoraria muito para o jovem escritor entender a poesia concreta das esquinas de São Paulo. das oito da manhã às seis da tarde. chegou a ficar doente. os bichos? Tudo era cinza. os amigos. desafinada. E o asfalto. irritado. A voz de criança. dava até pra ficar na dúvida: São Paulo tinha céu? E a velocidade de tudo. Trabalho de segunda a sexta.a funcionar e os profissionais que iriam trabalhar na revista já estavam definidos. Era uma de suas fases depressivas: durante a vida toda. trabalhar o dia todo. Onde. a quem ele dedicaria sua obra de maior sucesso — o livro Morangos mofados. vindo dos rincões gaúchos para trabalhar na primeira equipe da revista Veja. vertigem. Um difícil começo. Alguma coisa aconteceu no coração de Caio Fernando Abreu quando ele se mudou para São Paulo. Anos mais tarde. E ainda por cima aquela voz. de 1982. fosse o que fosse. de desamparo. sem coragem de sair de casa. longe. Sem costume de acordar cedo e batalhar de sol a sol.

Com vinte anos de idade. odiosa. O tratamento. ele podia se recusar a ver qualquer pessoa ou mesmo a sair do quarto por dias seguidos. Há o personagem Maurício. vezenquando chorava e repetia: pequeno monstro. de Limite branco. Muita gente tinha receio dele. mais a vergonha da voz. A voz de Caio. eu queria me esconder de todos. havia a voz. Caio não tinha condições de bancar. ele tinha vergonha de falar com as pessoas. pequeno monstro. que anseia poder olhar-se no espelho um dia sem ter vontade de desviar os olhos. . inadequados. em conseqüência. Só tardezinha saía de casa. Ele costumava dizer sobre o choque que foi trabalhar como jornalista em São Paulo: — Me estupraram até o último hímen. aliadas a um certo senso de superioridade comum entre jovens intelectuais fazia de Caio uma figura não muito simpática. E.fundos-do-poço de melancolias insuportáveis. junto com outras preocupações típicas da adolescência. o Pai dizia — estavam voltando da praia. conto de Os dragões não conhecem o paraíso: Pernas e braços demais. infantil. pêlos nos lugares errados. que dissera que suas cordas vocais estavam viciadas no falar infantil. para piorar tudo. E há o garoto de Pequeno monstro. A timidez. nessa época: parecia arrogante. caríssimo. distante. A voz só fazia piorar a timidez do escritor. uma voz que desafinava igual de pato. pode ter inspirado alguns contos do escritor em que os personagens se sentem feios. pelo menos à primeira vista. Consultara um médico. como a magreza excessiva. irascível. Esganiçada. a voz de Caio era um tormento para ele. não se desenvolvera. ninguém te quer. até monstruosos. na hora que as empregadas domésticas — as dosas. Então caminhava quilômetros na beira do mar. Nessas ocasiões. me rolava na areia. e aumentar seu isolamento e sua aversão às sociabilidades.

Que estamos todos dentro dele. Tenho tanto medo. leve. Quase como um suspiro de gente cansada. em 1964. a casca de um ovo é tão frágil. no exterior as coisas não estavam melhores. Vou deitar. nós vamos ser todos esmagados por ele. É um barulho leve. Caio viria a escrever vários contos sobre o clima asfixiante instaurado pela ditadura. representa tudo que aprisiona. cifrada. não há como escapar: Eu não sei. a ter o objeto no título: O ovo apunhalado. Com eles. Só ontem cheguei à conclusão de que se trata de um enorme ovo. lá. cada vez mais. conto de Inventário do irremediável. como em O ovo. Não sei por que os homens não se armam de paus e pedras para furar a parede. Cinco anos antes. Seria muito fácil.Se internamente Caio tinha problemas. Um de seus livros chegaria. e a censura aos organismos de mídia. Está muito perto. metafórica. . mesmo. Estou ouvindo o rumor do ovo se aproximando cada vez mais. veio a repressão. com o decreto do Ato Institucional n°5 (AI-5). que aumentou em 1968. Muitos deles de forma simbólica. Depois da descoberta do que o aprisiona. a vela está quase apagando. Caio herdou de Clarice Lispector. tudo sobre o qual não se tem controle. cansei de escrever. como metáfora e como objeto em si. Estou esperando. Mas é um ovo que diminui cada vez mais. A paixão pela figura do ovo. Tão perto que ninguém vai-me ouvir se eu gritar. os militares haviam instaurado a ditadura no país. O ovo. a rigidez e o sufocamento agravados quando não se pode sequer mencionar o assunto.

e foi se esconder na Casa do Sol. como Gil e Caetano — que ele sempre fez questão de afirmar que adorava — que de qualquer outro movimento cultural esquerdista do país. levantar bandeiras de qualquer tipo ou causa. Caio chegou a freqüentar passeatas e reuniões de oposição à ditadura. cursando o ginásio. sua influência era muito mais dos tropicalistas. Em tempos de AI-5. Decidiu. de comportamento. . de se engajar.Novato em São Paulo. foi símbolo das mudanças culturais por que o Brasil passava na década de 60. pela oportunidade de ver pessoas. belíssimas. ambígua e debochada de protestar. dizendo que oficiais da DOPS estavam procurando por ele. sumir por uns tempos. na época da poesia populista. Sua tomada de consciência se dá em um período em que já existia o Tropicalismo. que surge no mesmo ano em que ingressa na universidade. Zaél — se encaixava perfeitamente com a proposta dos tropicalistas. Além disso. Ele preferia a maneira irônica. mesmo participações ocasionais eram suficientes para que o serviço de segurança do regime marcasse e perseguisse uma pessoa. Até porque. e fez parte da turma que achava que "festa" e "subversão" podiam estar ligadas. pela celebração. Ele ia mais aos encontros contra a ditadura pela festa que se fazia. Essa forma mais leve combinava com seu temperamento: Caio nunca foi muito de assumir compromissos. morando em Porto Alegre sem os pais. engajada. Politicamente. mas sempre sem se comprometer demais. e aquilo já não era pouco: Bengell foi uma atriz de intermináveis pernas. — Para ver Norma Bengell vestida de Paço Rabanne — diria anos mais tarde. em Campinas. e que a revolução era individual. sítio da amiga Hilda Hilst. Com Caio não foi diferente: ele afirmou ter recebido um telefonema da redação da Veja. Caio ainda era um adolescente. contudo. sem levar o credo político às últimas conseqüências. então. o notório senso de humor — herdado do pai.

de livros. Caio. onde a escritora morava. uma das mulheres mais bonitas de seu tempo. Diz que Veja está dando prejuízos enormes. Uma vez foram juntos a uma palestra de Léo Gilson Ribeiro sobre crítica literária. Caio voltaria muitas e muitas vezes. que teria perambulado quase um mês pela cidade atrás de oportunidades sem conseguir nada. Aos 33 anos de idade. em 2005. Hilda. de Nikos Kazantzakis. com o objetivo único de construir uma obra literária. e de fotografias de escritores espalhadas pelas paredes. enviada da outra casa de Hilda Hilst. a onze quilômetros de Campinas.Em carta aos pais. na companhia de seus noventa cachorros. dramaturga e jornalista. sua colega na primeira equipe da Veja. onde viveria até a morte. e as duas tinham se tornado muito amigas (décadas depois. Para a editora inteira não fechar. inclusive ele mesmo. Ana Lúcia e Nello Pedra Gândara eram os grandes amigos de Caio na redação. Ela nascera em Campinas. que defende a idéia de que para entender a sociedade é preciso afastar-se dela. Teria ido para a casa de Hilda por não ter conseguido emprego. atriz. Hilda construiria a Casa do Sol. mas com o tempo ganhou intimidade e ia direto para a Casa do Sol. ficaria hospedado na casa de Ana. Quando souberam disso. Hilda. teria sido necessário demitir bastante gente. . iam a teatro. ele conta história diferente. Caio conhecera Hilda por intermédio de Ana Lúcia Vasconcelos. decidiu abandonar a agitada capital paulista e se isolar no interior para escrever. muitos livros. Nas primeiras. Na Fazenda São José. Ana escreveria um livro sobre ela). que namorara Vinicius de Moraes e fora cortejada por Carlos Drummond de Andrade. Ao ler Carta a El Greco. Ana perguntou a Léo o que achava de Hilda. março de 1969. cinema. em 2004. A revista vende pouco. tinha abandonado uma movimentada vida social para ir morar na fazenda que pertencera à sua mãe. Nello e Léo ficaram entusiasmados: pediram a Ana que os apresentasse. os anunciantes não querem saber de comprar espaço. e ela acabou levando todo mundo para conhecer a Casa do Sol. shows.

que ficavam. republicado depois como Inventário do irremediável. naquela região do interior paulista. Ali o casal recebia os amigos. E. Deprimia-se. como Caio. irremediavelmente influenciado por Clarice Lispector. inquietos. calado. ele também. E foi isso que fez. O silêncio pesado é quebrado somente pelo latido das dezenas de cães que moram no sítio. de vez em quando. . e nada mais havia por fazer na literatura. muito amedrontado também. por quem sempre foi obcecada. que ajuda a amenizar o calor que faz. Hilda passou a viver. com o escultor Dante Casarini. quase uma obsessão. por temporadas inteiras. Na Casa do Sol. na época a escritora favorita de Caio. só lia os livros dela escondido de si mesmo. dracenas. Bedecilda. Algumas das árvores que circundam a Casa do Sol têm mais de cem anos: figueiras. queria sugar dela. Inseguro. tudo que pudesse. revisá-los. quando ele vai para a Casa do Sol. Em 1968. a sensação era de que tudo já estava escrito. O Caio que entra na propriedade — imponente e tranqüila como a casa grande e antiga em que morou um dia. Tinha já alguns contos escritos: faltava agora organizá-los. que ele teve que se proibir de ler Clarice. Hilda e Dante já estão oficialmente casados. palmeiras. para ser. do conhecimento e do talento dela. em sua maioria. o calor os deixa assim. por imposição da mãe dela. um bom escritor. lendo-a. como dizia. em Santiago.além das fotos do pai. às vezes. a centenas de quilômetros dali — é um rapaz tímido. fazer daquela massa informe uma obra coerente. pois. exatamente por isso. Queria aprender com Hilda tudo que pudesse. durante a pequena temporada que passou na Casa do Sol. A coisa chegou a um ponto. quase sempre. seus semblantes estão agitados. Vira-latas. No alto. em 1966. na verdade. suas copas entrelaçadas fazem uma sombra boa. Dali sairia com um livro praticamente pronto: o Inventário do irremediável. entusiasmado por ser hóspede daquela que ele considera uma das grandes escritoras do país e. desanimava.

era a dos metâmeros. não tinha responsabilidade. O termo vem da biologia: . conversado com os mortos e recebido em seu sítio a visita de discos voadores. jamais se esqueceu da teoria. fosse na temática. e isso explica. Nessa relação com o divino. Tanto que. Caio funcionava também como uma espécie de secretário de Hilda: ela escrevia. quiromancia. além das aparências. Uma de suas teorias. era um rapaz espiritualizado: acreditava em astrologia. Teorizava bastante a respeito dos assuntos. Caio era capaz de discutir problemas de texto por horas a fio. ela diria. como se nota em seus textos. O inefável. que. lapidados. nos anos 70. / Ching. Numa viagem ao sítio de Hilda. Circulava pelas várias crenças. a influência de Hilda foi. ele datilografava. Procurava. sempre burilados. ter escrito e publicado ainda jovem. a literatura de Hilda foi sempre uma busca do inefável. Gostava de trabalhar a língua. também. candomblé.Enquanto inventariava seus contos irremediáveis. flertava com as várias filosofias. sua precocidade na literatura. fundamental. revisou e reescreveu a maior parte de sua obra. Caio. Não era só o divino que Caio discutia com Hilda. de minúcias como pontuação ao uso de certas palavras. estudavam juntos o movimento dos astros. é claro. reescritos. Falavam muito sobre literatura. ajudou Caio a olhar o mundo buscando sempre algo mais. estudava com afinco algumas delas e inclusive as utilizava na arquitetura de seus textos. coisas do tipo. o que fosse. sobre o processo de criar. em parte. O escritor discorria sobre o assunto sempre que encontrava interlocutores. Caio a explicaria ao escritor Júlio César Monteiro Martins. paciência ou vontade para tanto. maravilhado. com menos de 20 anos de idade. Não se comprometia. por exemplo. disciplina. De Deus. sempre. até hoje dá entrevistas explicando do que se trata. inovar: fosse na estrutura. tudo que dizia respeito ao texto literário. Ela. nos anos 80 e 90. No resto do tempo. com nenhum desses credos. ritmo. como muita gente que viveu o sonho hippie. que dizia ter visto anjos. fosse na forma.

espio sempre a outra rua por trás da igreja. irregular. metâmero era um esboço. As sombras que crescem devagar sobre o asfalto quente do verão passado. O texto permaneceria em estado de latência literária. se quisesse. penso se não deveria retomá-la — essa rua. lembro daquela tarde em que fui visitá-lo pela última vez. anotações soltas sobre ambiente. numa tarde como a de ontem ou outras iguais destes tantos meses passados. noite ou manhã quaisquer para refazer o percurso inverso até a casa dele. E mesmo sem querer. ele virá a se multiplicar e formar um animal completo. contemplar a sacada daquele décimo andar onde costumávamos nos debruçar abraçados para olhar aquela rua lá embaixo sendo aos poucos coberta pelas sombras da tarde furando a copatúnel das árvores. essa caminhada. que continha informações a respeito dos personagens. Ou então. enfim. um desses anéis. onde nem mora mais. estilo. Esse anel contém informações sobre o verme inteiro. que é o que Caio viria a fazer em Ovelhas negras. ou tênia. O primeiro deles se chama A perda e foi escrito em 1985: Quando passo às vezes por aquela esquina. publicar uma coletânea desses metâmeros. de um conto ou de um romance. mas sem ele agora — uma tarde. como um túnel redondo. simplesmente. formar um conto completo ou um romance. e o escritor poderia retomá-lo um dia e. E parado naquela esquina feito espião. . Na literatura. trama. uma espécie de verme. depois voltei caminhando pela rua cheia de árvores tão altas que suas copas se encontram e se misturam no alto. se uma pessoa come carne contaminada com um cisticercó. As sombras. a pensar coisas que nem lembro mais. Ele seleciona dois esboços que lhe parecem melhores e introduz sua teoria aos leitores. sem perceber claro o que sinto. Quando passo por lá assim rapidamente. ampliá-lo.metâmero é um anel da solitária.

mas os argumentos da esposa foram mais fortes. a faculdade de Filosofia. não conseguira emprego em outros lugares. discos voadores. de lá ter visto. os móveis são convencionais. um OVNI. em Massaguaçu. por carta. Decisão tomada. escreveu aos pais comunicando a saída da Abril. segundo refúgio da escritora. supostamente. já militar reformado. Caio achou que era hora de voltar a Porto Alegre. De lá. Caio acompanhou Hilda e Dante à praia. sem loucuras. sua principal interlocutora. Não trabalhava mais na Abril. quando estivesse de diploma na mão. e havia. Ela mesma cursaria. a faculdade de Letras esperando por ele. o sotaque familiar: o "tu".Depois de passar algum tempo no sítio de Hilda. o verde das árvores. porém. afinal. E o melhor: não ter que levantar cedo para trabalhar. teria preferido ficar em Santiago. ele poderia voltar e tentar viver em São Paulo de novo. sequer. Para Caio. os irmãos pequenos vêem televisão na sala. As pessoas doces. Caio mantém sua decisão de escrever enquanto está na casa dos pais. . para que os outros filhos também pudessem estudar com facilidade. sóbrios. era a Casa da Lua. discutido muita literatura e organizado o material de seu primeiro livro de contos. sem porralouquismos também. Era uma opção. nem sair de casa para comer. então. a idéia de voltar para a faculdade. Ele amou Porto Alegre em tudo que ela era diferente de São Paulo: sem asfalto. Conversou com Hilda. A família de Caio estava morando em Porto Alegre desde 1969. a Hilda. que ele só abandonara pela perspectiva de integrar a primeira equipe de jornalistas de uma nova revista. os morros. Zaél. A mãe faz pós-graduação em Filosofia. Não há. mentora literária e espiritual. calmas. que por enquanto ainda não estava bem das pernas. O quarto de Caio é cor-de-rosa. o pai lê romances de Norman Mailer. onde era alguém de posição. a volta para casa e a intenção de retornar à universidade. voltar a Porto Alegre foi uma beleza: o céu azul. o ambiente convida a escrever — ele conta. ela concordou que o melhor seria voltar para a casa dos pais. quando Nair insistiu em ir.

Como ele foi parar ali? — se pergunta. Lá estavam os escritores que Caio queria conhecer: Clarice Lispector. verdes árvores e céus azuis inigualáveis. Caio faz uma visita à cidade sempre maravilhosa. de modo algum. a língua ferina de Caio não poupava ninguém. Caio aceitou o convite de Maria Helena. A capital gaúcha podia ser bonita o quanto quisesse. Walmir Ayala. ele era só um rapaz vindo do Boqueirão. suficiente. nem os amigos. onde as coisas aconteciam. como alguns críticos o chamam. a horários fixos: ele não consegue parar quieto. Além do que. introspectiva. o Rio de Janeiro era um lugar onde as coisas aconteciam. com problemas de relacionamento com os colegas . e o fato de ele achar uma tolice as cartas em que Maria Helena falava dos "passarinhos que cantam nos galhos das árvores" e das "sombras de outono" não significa que ele não nutrisse. ou a admirasse como escritora. sim. mesmo achando-a um pouco "fora da realidade" e "liriguelha demais".morre nas dificuldades burocráticas que há para reabrir a matrícula. Mas isso não era. com cuja obra a de Caio tinha alguns pontos de ligação — Lúcio. falando de personagens mineiros. principalmente em Porto Alegre. Há pouco tempo. ele escrevera de forma intimista. e sim da sua degradação. No auge desse estilo de texto. o Dostoiévski mineiro. Caio se comove: é o quarto que fora de Lúcio Cardoso. da mesma linhagem literária de Virginia Woolf e Clarice. Havia sido convidado algumas vezes por Maria Helena Cardoso. Caio queria estar no olho do furacão. uma afeição por ela. cheia de cores. O apartamento de Maria Helena fica em Ipanema. na inabilidade do escritor em se adaptar a um currículo. Assim. apenas quatro meses depois de ter voltado para a casa dos pais. da degradação de suas tradições. a oportunidade era muito boa para ser desperdiçada. fora um escritor que se rebelara contra a tradição do romance regionalista. no Brasil de 1969. verdadeiramente. E também. principalmente. Quando vê o quarto onde ficará hospedado. irmã do já então falecido escritor Lúcio Cardoso. mas não de sua glória. E. Maria Alice Barroso. Nélida Piñon.

ele estava no quarto de um dos maiores escritores brasileiros. das quedas. e além disso é um dos críticos de literatura mais respeitados do Rio e conhece todo mundo. Francisco e Carmen mostram os contos de Caio para outras pessoas. enquanto Maria Helena assiste a uma novela na sala. acho muita graça.e que crescera rápido demais. Acho graça. belíssima. prometem arranjar editoras que publiquem seus livros. povoada por pessoas bondosas e simpáticas. a editora que publicara o primeiro conto de Caio. na revista Claudia. a noite o espera: bares. . sério. " Cerca de um mês depois de sua chegada ao Rio. porque me achava horroroso com aquele bigodinho precoce (hoje. quando ele tinha 16 anos. "— escreve aos pais. "As vezes que tentei morrer foi por não suportar a maravilha de estar vivo e de ter escolhido ser eu mesmo e fazer aquilo que gosto — mesmo que muitos não compreendam ou não aceitem. em uma cidade verdadeiramente esplendorosa. E ela não é a única a tratá-lo bem: há Francisco Bittencourt. junto com Hilda e Dante. orgulhoso. Agora. Toda essa celebração em torno de Caio o deixa feliz. o Boroca. dos choros. Tão estranho carregar uma vida inteira no corpo. uma flor de pessoa. estão entusiasmados com 0 trabalho dele. dizem que tenho olhos lindos!). Caio vai sair. primo do pai de Caio. autor de Crônica da casa assassinada. sendo tratado a pão-de-ló por uma velhinha pequenina e ágil que. que eu era tímido e agressivo. não aceita ser chamada de uma das melhores escritoras do país — ao lado de Ia Lispector. no dia 21 de agosto. cinemas. dos medos. "E as pessoas que passam por mim não saberão jamais que nasci em Santiago do Boqueirão e um dia fui estudar em Porto Alegre. teatros. O príncipe sapo. Há também Carmen da Silva. me acham parecido com Cristo. ele é inteligente. muita gente ao seu redor. Caio viaja novamente para Campinas. e ninguém suspeitar dos traumas. querem pintar retratos. em alguns minutos. modesta.

e em seguida Caio seguia de volta para Porto Alegre. . porém. resolvera mudar de repente. e mudara não para ser uma voz comum. como as outras. ou para o Rio. Ao longo de sua vida. vindo não se sabe de que parte do corpo magricela do escritor. de viagens. O momento era de inquietude. e com ele pôs-se a fazer exercícios e a gravar a voz. sua amizade. sairia aquele vozeirão. melhorado. ao encenar uma de suas peças. Além disso. A partir daquele momento. bonita. Hilda teria dito ao escritor: "Cainho. exigente. e passaria a se assumir como adulto. A história começou quando ele ganhou um gravador de Hilda e Dante. do nada. Na verdade. aconteceu uma coisa misteriosa e impressionante. Caio mencionaria sua amizade com Hilda. envergonhado de falar com os outros. no final de outubro de 1969. A voz de Caio. pensando em melhorar pouco a pouco. E então ele ia embora. Havia uma figueira no terreno da chácara. Só que a voz.que tinham ido passar uma temporada na capital fluminense. Caio não chegou a ficar tanto tempo lá. tinha. que conheceria Caio na década de 1980. sua hora chegou. precisa ficar de pé para ouvir você ou posso ficar sentado mesmo? Ao longo dos anos. embora visitasse bastante a Casa do Sol. O ator Gilberto Gawronski. Caio e Hilda contariam a história da figueira para explicar a mudança da voz. finalmente. duravam um ou dois meses. A voz nova de Caio era grave. dizendo que chegara a morar um ano em sua casa. marcante e inexplicável. ou para onde fosse. Suas temporadas em Campinas eram intermitentes. Chegava sempre o momento em que a escritora tinha que chegar para ele e dizer: Caio. tinha outros desígnios. sempre que ele abrisse a boca. ele deixaria de ser o jovem tímido. assim como teimara até ali em ser uma voz normal. uma notícia maravilhosa. com maiúsculas. de descobertas. muito cheia de personalidade. A partir dali. uma Boa Notícia. a presença de Caio na casa era muito intensa. Mas ele ainda estava na Casa do Sol quando. brincaria com a situação: — Meu Deus. a admiração por Hilda beirava a reverência. charmosa.

e considerava a hipótese de ficar por ali. já de voz nova e sensual. trabalhando com artesanato. mudou aos poucos.essa figueira é mágica. Então ele teria abraçado a figueira e pedido para a voz mudar. Mas a versão mais próxima da realidade é também de Caio. Caio voltou ao Rio. decidido a se estabelecer por lá. teria pegado um livro de Fernando Pessoa e começado a ler em voz alta. De volta ao quarto. Há outras versões: a de que ele teria feito três pedidos à figueira: para que a voz melhorasse. belíssima. Em dezembro. Os três pedidos acabariam realizados: Caio voltou para o Rio. Há até quem diga. O escritor José Mora Fuentes. esganiçada. o que importa é que. amigo de Hilda que até hoje vive na Casa do Sol. e lá soube que ganhara o Prêmio Fernando Chinaglia por Inventário do irremediável. Quando a gente tem um problema muito grave. os empregos formais não apareciam. conheceu alguns hippies em uma praça de Ipanema. mas Caio preferia acreditar na versão romântica e mágica da figueira. e para ganhar um concurso literário de que estava participando. em vez de voltar ao Rio. no terceiro verso. a voz mudou. Caio teve uma voz infantil. e ela resolve". a voz teria mudado. estava lá. ele estava de volta a Porto . Hilda afirma que o pedido não era para a mudança de voz. De todas as versões. Tanto ela quanto Caio diriam que o terceiro pedido era. ela se tornou grave e lânguida e bela. onde estava decidido a morar. conseguir ir logo para a Europa. Era uma noite de lua cheia. em carta aos pais logo que a mudança se opera. até os vinte anos. então ele teria sentido que podia fazer três pedidos que eles se realizariam. para voltar logo ao Rio. mas para Caio deixar de ser tímido. fala com ela. Em um texto. Caio teria se sentado na área da casa e olhado a Lua. Três dias depois. como o irmão do escritor. que a voz não mudou de repente coisa nenhuma. obra a que dera forma final ali mesmo. na Casa do Sol. Felipe Abreu. fez amizade. porém. aos vinte e um. Os outros pedidos — tanto o prêmio literário quanto a viagem ao Rio — também logo se realizaram.

Mas se divertiu aprendendo algumas coisas. Não chegou a terminar o curso. Desde criança. agora. vestira-se de mulher. a amizade com Dante foi retomada. prestou exames para o curso de Direção Teatral. estavam Serafim fim fim. o resto achava descartável. Logo depois. Caio. Em Serafim. Caio participou como ator de algumas peças. e o assunto da briga foi deixado de lado. tamanha agressividade. Só queria saber de tragédias gregas e de Nelson Rodrigues. Mas estamos em 1970. Ali. em The black grove. The black grove e The last moment. superior. que era exigente demais com os textos a serem encenados. o papel era de Batman. Caio gostava de teatro. pairava. ele se sentia acima dos preconceitos burgueses. ele chegou mesmo a visitar Caio e sua família em Porto Alegre. A carta não era das mais fáceis de escrever: era a primeira depois de uma briga que tivera na fazenda com Dante. no Centro de Artes Dramáticas (CAD). de inventar e encenar historinhas com seus bonequinhos de papel machê. assim como não concluíra o de Letras. sobre o moralismo e a decadência da sociedade. claro. Caio ainda acredita que pode . "Decidi aceitar meu ser nômade. no entanto. e sabe-se lá o que este aprontara para causar tamanha reação. já na década de 80. até segunda ordem". Isso mudaria alguns anos depois. quando. dizendo que era péssimo. E por aí afora. por exemplo. depois de rodar o país e parar de novo em Porto Alegre. Entre algumas das que participou no período. Descobriu. A coisa foi feia: as palavras "veado" e "doente" foram das mais leves que o escultor usou para caracterizar Caio no meio do entrevero. em 1973. Caio passaria todo o ano de 1970 na capital gaúcha. somada à que lhe era própria e mais uma espécie de certeza de que não havia nada de errado em sua condição. mas ele mesmo costumava brincar. Alguns amigos leais dizem que Caio era bom ator.Alegre. escreveria a Hilda. anos depois. que nada tinham de trágicas ou de rodrigueanas. quando sua participação no teatro se restringia a escrever as peças. não se abalou demais: com a arrogância própria da idade. ele podia desenvolver mais seriamente essa paixão.

começou a participar de festas malucas. Mas essas experiências. no fim da noite. ou quatro . Nesse conto. era um passo no sentido de Caio se firmar como escritor. algo que faz com que a pessoa mude. deprimiam-no ainda mais. Assim como ela. O livro é dividido em quatro partes. embora tivesse ganhado. Menção Honrosa no Prêmio José Lins do Rego. Em alguns contos do Inventário. Os cavalos brancos de Napoleão. E houve também um livro de contos chamado Três tempos mortos. Caio manifesta sua carência. desbundou por completo: experimentou mescalina. Como o escritor ainda tateasse seus próprios caminhos.completar o curso de Direção Teatral e mora com os pais em Porto Alegre. em vez de deixarem o escritor feliz. foram muitos os convites para entrevistas. em carta a Hilda Hilst: "Queria tanto que alguém me amasse por alguma coisa que eu escrevi. não fora o primeiro a ser escrito: limite branco veio antes. A única área em que as coisas iam bem era a profissional: Inventário do irremediável foi lançado com estardalhaço. badalada ou não. como no conto que abre o livro. A história da mescalina foi descoberta pelos pais. em 1968. inclusive a do homossexualismo. o que causou o maior rebuliço. é no Inventário que a influência de Clarice Lispector se mostra maior e mais clara. regadas a maconha e drogas mais pesadas. repense sua vida. Mas embora Inventário do irremediável tenha sido o primeiro livro do escritor a ser publicado. Nesse momento. orgiásticas. e um escritor amado pela literatura que fazia. Caio trabalha muitas vezes com o conceito de epifania: uma revelação mágica no meio do cotidiano. que ficaria para sempre inédito. a morte é quase uma libertação. e reafirma sua determinação de ser escritor." A publicação do primeiro livro. essas revelações acabam por trazer a morte dos protagonistas. e a descoberta que os cavalos representam pode ser lida como qualquer descoberta. as bacanais faziam Caio se sentir um lixo.

estranha. e a sua personalidade. Como um cego. que há muito não lhe escrevia. cheio de carências e inseguranças. de bem consigo mesmo. Moderna. enlaçam os joelhos. Há também um quinto inventário. Um fino fio de fumaça sobe aos poucos indeciso. corpo nu. Por continuar. composto de um único conto: o Inventário do irremediável. Dobra os ombros. voltou recuperado. adensando o ar que se enche de olhos. No cinzeiro. Está sentado na cama. Perto do coração selvagem. Para espantar a tristeza. vaga entre a fumaça e tomba. Não chora sequer. e. palavras não formuladas. revolucionou a linguagem. é marcada por sensações. resolveu ir para a praia com alguns amigos. a ação ocorre sempre na cabeça dos personagens. O final do conto. como se chorasse. Escreveu uma exultante e empolgada carta a Hilda. a cabeça afunda entre as pernas. como que para coroar esse novo estado de espírito. ele chegou em casa e encontrou uma carta de Hilda. Ele passara um ano ruim. com a novela Lázaro dedicada a ele. Nenhum pensamento. A atenção fixa em si mesma. costas curvas. No fim do ano. Joga a lâmina pela janela. E a última frase define. mais uma vez. Clarice fascinara leitores e críticos desde o primeiro livro. vozes veladas. de gestos incompletos. o cigarro esquecido queima. vendo apenas para dentro. bem. Junto com a carta. Os braços se cruzam. porém. vai-se curvando para si mesmo. e do livro. o texto de Caio. Caio não cabia em si de tanta satisfação e orgulho. aconteceu algo que o faria retomar a carta e escrever mais um pouco. pés descalços. Personalidade magnética. Quando o jornalista . Sua literatura diferente. E não corta. sobre sua relação com os amigos. Caio conheceu Clarice Lispector. Na mesma noite. a soprar a favor de Caio. um exemplar de Fluxo-floema. Sem compreender. do amor e do espanto. Só espera. temas recorrentes na obra do escritor. da solidão.inventários: da morte. traz uma esperança: a escolha pela vida. a maré começa. misteriosa. A lâmina vibra entre os dedos. de mãos. Deu certo: depois de refletir muito sobre a vida.

sai para o corredor. Quando ia saindo. mas de bruxaria". Otto pediu a ele que tomasse cuidado com Clarice. lógico. de uma sabedoria e de uma amargura impressionantes. conversam um pouco.] Sinto que as coisas vão mudar radicalmente para mim — teu livro e Clarice Lispector num mesmo dia são. Ele fica." . " Caio chegou perto. Caio aproveita o interesse dela e lhe entrega um exemplar sobres-salente do Fluxo-floema que.[. "Ela é exatamente como os seus livros: transmite uma sensação estranha. Caio termina de escrever para Hilda. Vi uma mulher linda e estranhíssima num canto.." Conversam mais. falou. "Cheguei lá timidíssimo. parecido com Cristo. E a gente sente que ela não espera mais nada de nada nem de ninguém. diz que acha ele muito bonito. Engole o jantar que lhe oferecem e sai chispando feito um foguete para a televisão. antes que vá muito longe. escreve a Hilda contando o episódio. De repente ela pára. toda de preto. Tem olhos hipnóticos. de Hilda. um presságio. por acaso. Era ela. Caio vai embora meio aparvalhado e. Clarice chega até a porta e chama: — Fica comigo. pede para ligar quando for ao Rio. Pega o jornal para dar uma olhada. fora de dúvida. porém. Caio fica nervoso. absolutamente incrível. "Não se trata de literatura. Ela lhe dá seu telefone. entregou um exemplar de seu livro recém-publicado para ela. e lê que Clarice Lispector herselfestaria autografando seus livros em uma estação de TV. à noite. nesse estado de êxtase e perturbação. com um clima de tristeza e santidade ao mesmo tempo.. Ê lenta e quase não fala. um escritor que estava por ali decidiu apresentá-lo direito.José Castello perguntou a Otto Lara Resende sobre ela. que está sozinha e numa altura tal que ninguém jamais conseguiria alcançála. quase diabólicos. "Tive 33 orgasmos consecutivos. ele tinha na bolsa. Falam de Nélida Piñon.

obra que só viria a ser publicada em 1975. Apanha da polícia e . cabelos longos e túnicas indianas compridas. Nascido na fronteira com a Argentina. Totalmente imerso na cultura hippie. Ele acredita que tudo pode dar certo. ficção científica e elementos da cultura pop. e falando bem o espanhol. ele sai da casa. é claro — e que certas coisas funcionam melhor na teoria. escreve textos fundindo o fantástico. que morar em comuna é a melhor maneira de se viver. mescalina ou chá de cogumelos —. aluga uma tranqüila casa em Botafogo. é mais importante que a coletividade. Surgem assim alguns dos contos de O ovo apunhalado. "Acho que finalmente achei a minha forma". tudo vai bem: Caio está feliz à beca com os novos textos que anda produzindo. em março. Começa a perceber que a individualidade. A estada no Rio é o começo do fim do sonho da contracultura para Caio. Caio aprecia autores como Ernesto Sábato. Ricardo Piglia. a ditadura está em sua fase mais dura. Carlos Fuentes. O ano novo chegava. em comunidade. Para piorar um pouco mais as coisas. Flagrante falso de maconha. às vezes. Com três garotas e um rapaz. A vida na comunidade não dá certo: ele e seus amigos se desentendem. ele é preso. bem de acordo com o sonho paz-e-amor da juventude da época. inclusive em livros. mas acho que sou o único cara no Brasil que está fazendo literatura pop MESMO'.Era o dia 29 de dezembro de 1970." Nessa fase de sua escrita. Garcia Márquez. Caio namora o realismo fantástico dos autores latino-americanos como Cortázar. "Não sei se isso é auto-elogio. ele decide tentar um modo de vida diferente. Em 1971. e muito do material publicado. na utopia. que o ser humano é egoísta — ele incluso. Várias histórias desse livro podem ser entendidas como crítica à sufocante situação por que o país passava na esfera política. Caio volta ao Rio. escreve a Hilda Hilst. utilizando ao máximo as visões que tem em suas viagens — de LSD. só sai sob censura. Quanto ao seu trabalho. que na prática. E.

se divertindo e conversando e montando um clima apaixonado. e foi por isso. em 1971. A comunidade do arco-íris. Caio é demitido. No entanto. mais que por benevolência. E esse quadro não combinava com a idéia da vida que um escritor devia levar. ele encontra abrigo. que o tirou da prisão e pagou a passagem de Caio para Porto Alegre. que já havia meio que definido que gostava de rapazes. uma espécie de paixão entre os dois. casar. Vera tinha quatorze anos quando conheceu Caio. Bloch queria distância de confusão. ele pode ter pensado. uma família. um lar. nem tudo eram flores. a coisa não vai pra frente: quando está com Verinha. carinho e amizade na casa de dois quase desconhecidos. era tudo que importava. foi visitá-la no Rio algumas vezes. e até mais que isso: surgiu um clima. se afasta sem maiores explicações. para Porto Alegre. ele pula fora. Enfim. O que viria em seguida?. Dali a pouco. a única . Caio gostou muito de Vera. Só de ida. ficava assustado com a possibilidade de se envolver com uma garota e. de forma tão profunda. ainda por cima. pronto desde 1968. É a sexualidade em conflito: ele. ter filhos. na revista Manchete. dono da editora em que ele trabalhava. sai pela tangente. Vinha sempre em primeiro lugar. com direito a sonhos pequeno-burgueses de casamento. em que havia uma boneca inspirada na garota. um apartamento com vista para o mar e estaria preocupado em pagar as prestações e a mensalidade da escola das crianças. sua carreira.só sai da prisão porque Adolpho Bloch. E a vida de escritor. Entre a saída dele da comunidade e a volta envergonhada para Porto Alegre. levou-a. ele teria um carro do ano. intercede por ele. seu trabalho. Ficaram amigos. escreveu uma peça infantil. os irmãos Vera e Henrique Antoun. Era o lançamento de Limite branco. Chega mesmo a considerar a hipótese de se assentar. Mas Caio tem sorte. pelo menos na imaginação romântica de Caio. primeiro romance do escritor. junto com a mãe e o irmão Henrique. escrevia-lhe cartas amorosas. Solto. Caio às vezes se torna esquivo. forjada em plena década de 60. depois de horas com ela.

e não se arrepende de nada. onde moravam seus avós.coisa à qual Caio foi sempre fiel durante a vida. de fazer comentários espertos. no entanto. deprimido. em Santa Teresa. Aí Caio passou a evitá-las de novo. tão distanciada. Assustou-se. ouvir música e passear na beira do rio. não por incapacidade de contato. Preferia ver um filme antigo. quando ainda morava com a comunidade hippie que montara naquele bairro. em uma viagem a Itaqui. Caio reencontrou-se. Caio ainda estava na fase de amor e empolgação pela garota. Caio estava em uma de suas fases ruins. de mostrar um equilíbrio que não possuíam. . sem carros. No início de 1973. sem movimento. sempre azul. morena como uma princesa raptada por beduínos no deserto? Vezenquando baixa uma saudade. Assim. tão silenciosa? Em que nova galáxia posso te encontrar outra vez. O ano de 1972 foi todo dedicado a essas experiências. começou a procurar alguns amigos. e fico sentindo falta do teu jeito lento de chegar pisando em nuvens. Ele havia participado de algumas cerimônias de chá alucinógeno com ela. gente que tinha evitado durante o período em que sentia só escuridão dentro de peito. no entanto. por onde anda você. através da visão de paisagens antigas. olhando as estrelas. No entanto. ele voltou a ficar bem: ele sempre recuperava sua força através do contato com a terra de sua infância. Pessoas sentadas na calçada. mas. quase sempre clara como tem sido o ar verde-azulado desse verão. Pensava constantemente em suicídio. Caio escrevia a Vera contando de suas experiências com ácidos e demais drogas lisérgicas. e sim por escolha. e lhe escreve: "Verinha-maravilha. dessa vez. sem televisão. Está reconciliado consigo mesmo. Em Porto Alegre. a relação com Vera não engrenou." De Porto Alegre. com o que chamaria de "vampirização" das pessoas: todo mundo só querendo saber de falar e falar. tudo muito parado. não queria sair de casa nem ver ninguém.

Caio começa a trabalhar no jornal Zero Hora como copidesque. Essa vitória foi motivo de muito orgulho para Caio: segundo ele conta. Aliada a uma imaginação cintilante".como escreve a Vera: "Nada é errado. com o intuito de juntar dinheiro para viajar. O ovo é um livro que fala de violência. que o conhecia havia cerca de quatro anos e seria uma das melhores amigas de Caio até o fim. quando o erro faz parte de uma procura ou de um processo de conhecimento. quando a serviço de uma técnica rica de recursos. " Ou ainda: "Não sei muito. também não quero muito. já liberto — de certa forma — da influência de Clarice Lispector. Provar-lhes a atualidade da desacreditada palavra com a própria palavra. Graça Medeiros. Além disso. minha vontade simplesmente é mostrar-lhes um livro como este. por achar que nenhum dos outros trabalhos tinha nível. O conto Visita ganhou um prêmio do Instituto Estadual do Livro (IEL) em 1973. como no próprio conto-título. O prefácio. voltava de uma temporada na Europa e insistia que ele devia ir também: a atmosfera política e cultural no Brasil estava insuportável. futura astróloga. de loucura. Emoção esta que é vertida para uma linguagem que em alguns momentos atinge a rara plenitude próxima de um estado de graça. mostra o quanto o escritor já era estimado e admirado nos altos meios literários do país. também não tenho muito. a influência do realismo mágico dos latinos se faz notar em alguns textos.] Quando nos seminários de literatura os teóricos pedantes acabam por condenar a palavra. . Caio planejava sua viagem e continuava a escrever... toda a intelectualidade de Porto Alegre estava concorrendo. assinado por Lygia Fagundes Telles. [. gostando de viver. mas a comissão julgadora atribuiu o prêmio apenas a ele. e diz: "Caio Fernando Abreu assume a emoção. Entre as horas de trabalho que passava no jornal. Lygia o chama de "escritor da paixão". em carta a Hilda Hilst. mas estou aprendendo a respirar o ar das montanhas. Caio escrevera o livro de contos O ovo apunhalado." Assim feliz.

Apenas uns poucos escolhidos se salvam. foi contratado pelo Zero Hora. discos. a mudança. muito ácido. Juarez fazia Jornalismo. Havia também Lucrécia. no entanto. mesmo quando consome. O coruja. Nessa época. Nessa época. porém as pessoas têm medo do novo. Os dois se conheceram quando Caio. alguém de fora surge e promete a salvação. e um dos poucos a conversar com eles de vez em quando era João Gilberto Noll. fumavam maconha. a turma de Caio em Porto Alegre era composta por Maria Lídia Magliani. Conversavam sobre os assuntos da época: filmes. não chegou a conhecer Caio: ele e Magliani formavam uma dupla quase hermética. uma bela prosa poética. Augusto Rigo. e Graça Medeiros. Em um mundo comum e medíocre. Na faculdade. enquanto Caio cursava — ou tentava cursar — Letras. E os mártires. Oferecem para quem quiser compreendê-los. As pessoas saíam juntas. iam a bares. Falavam mal da ditadura. Sandra Laporta. No conto Eles. O que os seres dizem é um atestado da maneira como Caio levava sua vida. Caio era muito crítico.Alguns contos de Caio falam da esperança de redenção. mas vencem no final. sofrem. Juarez Fonseca lembra de ouvi-lo comentar: — Todo homem com mais de trinta anos é um canalha. O que eles deixaram foram estes três postulados: importa é a luz. Juarez era da equipe do jornal do centro acadêmico. quem aparece para mudar a rotina são seres de outro mundo. um gay espalhafatoso de quem Caio gostava muito. Jaime Gargioni. os salvadores. só que seu curso era outro. Juarez Fonseca. onde Juarez já trabalhava. já de volta a Porto Alegre depois de suas andanças por São Paulo e Rio. Juarez . por exemplo. Juarez Fonseca freqüentara a universidade na mesma época de Caio. uma dupla estranha. a cinza é mais digna que a matéria intacta e a salvação pertence apenas àqueles que aceitarem a loucura escorrendo em suas veias. livros.

A questão era só escolher por onde começar. principalmente. Augusto e Ana. Chico Buarque também. era um só: Europa. casados desde 1971. Caio começou a colaborar nos projetos de que Juarez fazia parte. No aeroporto do Galeão. que também trabalhava no jornal. como diagramadora. O dia é 28 de abril de 1973. E saíram. O pessoal queria mais era sair fora. Os ídolos Caetano Veloso e Gilberto Gil já tinham ido em 1969. a efervescência de uma geração que não agüentava a ditadura. que já estava chegando. Caio está exultante. Augusto Rigo. como o jornal Exemplar. De Henrique. dizia ter pressentido que ele tinha QI de gênio. Veja — na época ainda considerada inovadora — e. ainda entusiasmado com o encontro: dizia que Vera tinha olhos de vaca jérsei. Caio escreveria aos dois. de medo. Vera e Henrique foram vê-lo antes da viagem e. e cabelos pretos e lisos de índio. Não havia tempo a perder. Cada um iria por um trajeto diferente. Era a efervescência da imprensa nanica. que contestasse. foi muito bom encontrar os amigos. e a turma de Porto Alegre escolheu a Suécia. como os dela. que haviam decidido fazer o percurso . Sônia Azambuja. além de se encontrarem com os irmãos. mais ou menos na época em que a temporada de trabalho começaria. Aninha. Cada um em um país — a dupla de tropicalistas na Inglaterra. a repressão nas ruas aumentava. Caio. " Antes de partir. A amiga Graça Medeiros já fora e voltara. o clima era de paranóia. e se encontrariam todos na Suécia. também amiga. Sandra na Suécia —. Caio. Era um grupo de seis pessoas. e que se casariam na Finlândia e teriam sete filhos com olhos de vaca jérsei. o destino. embora um vidro os separasse.tinha se tornado amigo de Magliani. Sandra Laporta. influenciado por O Pasquim. na cabeça dos brasileiros loucos para saltar fora. "GRRRR: vontade de comer vocês dois com molho de chocolate. Juarez e sua esposa. pela revista Bondinbo. Parecia que no Brasil não havia lugar para gente assim. no Rio de Janeiro. Márcio. Do avião. em maio. como os dele. Chico na Itália. estava lá.

e não tenho medo. os carros corriam e a minha imagem mordia o lábio inferior. com que retratava a vida de pecados do ser humano. você não vê que não tem a menor originalidade — e ele não parou -. Ana e Augusto não vão direto para a Suécia. logo antes de deixar o Brasil rumo a aventuras desconhecidas. humilde. estava impregnada desses elementos. Lembremos que a própria literatura que Caio fazia. Como no conto O ovo apunhalado. não importava. todos já disseram tudo sobre você. a casca branca.. e da dificuldade de salvação. era cheia de detalhes do fantástico.. Está parado à minha frente e volta-se devagar para que eu fique cara a cara com o punhal cravado em suas costas.juntos. A obra do pintor holandês nascido em 1450 tinha alguns pontos de contato com a do escritor.] Mas ele não se move. Agora é um ovo delicado. escrevem do aeroporto do Galeão um telegrama a Graça Medeiros. em que um ovo sai de uma moldura e persegue o personagem: Ele saiu da moldura e veio caminhando em minha direção. Por acaso o destino final era a Suécia. mordi o lábio inferior. bem. Era assim que aquele trio se sentia. Caio quer tirar carteira internacional de estudante e ver Bosch no Museu do Prado. poupe-me. Olhei para o outro lado. quase ternura. Além do humor cáustico. É quando julgo perceber nele uma espécie de súplica: socorra-me. qualquer cozinheira conhece seu segredo. A escala é em Madri. Quando tornei a me voltar. ele continuava ali. tenro. Então estendo os meus muitos braços coloridos e toco no cabo de bronze do . mas se fosse Beirute. abrevie-me. Caio. [. e sinto pena dele. cheios de boas expectativas e esperanças. Disselhe isso — mas ele não parou -. que viria a influenciar os surrealistas mais tarde. Brincavam que o avião tinha sido seqüestrado e que eles estavam em Beirute. a arte. as linhas mansas de seu contorno: um ovo. nesse momento. mas nada aconteceu: os carros passavam por cima da minha imagem refletida nas vidraças. onde planejam ficar umas duas semanas. "maravilhosos".

Lúcia grita. Caio e Juarez ainda não eram íntimos. Sobre o encontro casual com o grupo de Caio. 0 sangue escorre e eu. Sônia. Caio. andavam na mesma turma em Porto Alegre. depois empurro lento. até o pesado cabo de bronze onde dedos comprimem com força. Em Madri. Augusto e Ana foram a Barcelona. as pessoas eram fechadas.punhal. E sinto uma lâmina penetrando fundo em minhas costas. Nessa época. Bonito mesmo Caio só achou o bairro gótico. Juarez escreveu no diário que estava fazendo da viagem. moralistas. Vejo minha casca clara partir-se inteira em cacos brilhantes que ficam cintilando pelo chão do banheiro. Meus olhos são janelas." De Madri. no dia 29 de abril: "Caio muito louco caminhando pelas ruas. rígidas. Juarez Fonseca e sua mulher. com catedrais com mais de 500 anos e casas de 300. firme. Caio encontra. meus dedos ferro. Uma breve hesitação. cheio de repressões. minhas mãos tentáculos. . Caio não achou mesmo muita graça na Espanha: a comida era horrorosa. Todo mundo olhando. mas não trocavam confidencias e coisas do gênero. perdidos entre espáduas. e nesse sentido estava longe de ser o paraíso dos costumes que Londres. A sua casca está manchada pelo fio de sangue coagulado. as ruas de Barcelona eram sujas e poluídas. e não se viram mais. e se ouviam relatos de torturas e fuzilamentos. Estavam numa esquina da cidade quando viram passar Caio e os amigos que tinham ido com ele. Amsterdã ou mesmo Estocolmo prometiam ser. Sua figura chamava a atenção: a Espanha é um país católico. Era ainda época de ditadura no país. minhas pálpebras grades. mas fecho os olhos no mesmo momento em que meus dedos se cerram em torno do punhal. trabalhavam no mesmo local. por acaso. e de lá para Madri de trem. Hesito um pouco. Se hospedaram em um hotel na esquina da casa onde morou Picasso. até o encontro combinado na Suécia. O casal tinha ido até Lisboa de navio. mas é tarde demais. Foram tomar um café. agora. também estou no céu com diamantes.

Qual seria a cara dele agora. de cultura. Aos poucos.De lá. também. fazer comida. fosse na "casa" de um ou de outro. requintadas. e depois se mudaram para outra. quando eu for grande. mulheres elegantes. Encontravam-se depois dos respectivos trabalhos e iam beber. O grupo estava sempre junto. o grupo seguiu para Paris. Aos poucos. Augusto se revelou um exímio ladrão de supermercados: vestia seu macacão Lee e enchia os bolsos de enlatados. Ficaram uns seis dias nessa residência. arrumar empregos: Juarez iria trabalhar no restaurante Catelin. gente variada. todos iriam se ajeitando e conseguindo moradias individuais ou em duplas. Sônia arrumaria emprego em um hotel. na fronteira do Rio Grande do Sul com a Argentina. Era noite em Itaqui. O avô. Harekrishnas andando sossegados pelas ruas. Sandra também se saiu bem — roubava camarões do hotel onde trabalhava e trazia para casa. Pisar nas ruas francesas era como "pisar no coração do mundo". e Sandra Laporta em outro restaurante. porém. que Caio estava mesmo indo morar em Estocolmo? Na Suécia. de outra forma. Caio Fernando Abreu tinha nove anos de idade e estava passando uns dias na casa de seus avós. onde grupos de pessoas se reuniam para tomar vinho. Em dado momento. é claro. . diria Caio. com todos os cortes de cabelo e roupas que se possa imaginar. todos iriam se estabelecer. ele vira para o avô Aparício Medeiros e diz: — Um dia. Era uma festa. e a impressão que a capital francesa deixou foi de puro deslumbre. os grupos se juntaram e foram todos morar numa residência estudantil minúscula. jamais poderiam comer. Passear pela capital francesa era como andar sobre séculos de história. em outro lugar. Os estudantes estavam de férias. Era o paraíso. Todo mundo se deliciava com os camarões que. morreu de rir. conversar. Bares charmosos. Caio também iria lavar pratos. vou morar na Suécia. e os estrangeiros se hospedavam no que usualmente eram seus alojamentos. um pouco maior. de civilização.

coloridas. Entre um delito e outro. com medo de que aquilo fosse manifestação de alguma bad trip: — Corta essa. Os brasileiros reunidos em Estocolmo vão fazer um piquenique num bosque no bairro de Kungshara. Caio está vestido todo de branco. nas horas vagas. Uma beleza de bosque: jardins cheios de amores-perfeitos e tulipas. e ficaram todos pirando cor-de-rosa. junto com ovelhas e cervos. para viver o sonho lisérgico de uma geração. Era medroso demais e não conseguia levar um roubo até o final. cara. com sol e tempo bom. que logo começaram os planos para outra dessas excursões. Caio e Augusto tomaram o tal pink.. Juarez nunca pegou nada. até o efeito passar. A primavera sueca está relativamente quente: dá pra sair de manga curta tranqüilamente. numa boa. E era um desses adoráveis quadradinhos mágicos que fez Juarez anotar em seu diário. três ligeiras palavras: "Pintou um pink. Uma caixa de TV está jogada no lixo. mas pegou uma coisinha aqui e outra ali. de ácido.caríssimos que eram. Juarez pára de entender o que está . No dia seguinte.. Caio vai até lá e passa na frente do visor de Juarez. no dia 24 de maio. de haxixe. com a cabeça em órbitas insondáveis. Caio também tinha medo. esquilos passeando tranqüilos. O dia 27 de maio caiu num sábado bonito. o pessoal arrumava tempo também. olha pelo visor da máquina fotográfica. Esse tem um insight e grita. A coisa foi tão boa. andando por debaixo das árvores. Juarez. Atmosfera mágica. embaixo de um pequeno barranco. de conto de fadas. digamos. e embarcaram numa viagem incrível. Os ácidos tomados às duas e meia da tarde nada mais fizeram que realçar a magia natural do parque. extasiado: — Puxa. na verdade. Nesse momento. meia palavra basta. "Para bom entendedor. o Caio parece o Jesus Cristo! Sandra corre para a frente da máquina e diz. Era época de maconha. Juarez pegou carona.

aquele de lavar pratos. A idéia de paraíso na terra deve ter desmoronado para Caio mais ou menos dois dias depois do piquenique no parque. o grupo foi para a casa de um português ouvir discos. num país distante. no Rio. copos. Ele e Augusto rodaram vários dias até encontrarem colocações. com luvas de borracha até o cotovelo. Caio falava e falava. Novos Baianos. tudo. naquela cozinha onde todo mundo falava uma língua que ele não entendia. Mas ali. as descobertas de si mesmo e dos outros por que Juarez tinha passado. junto com os outros. E passou mesmo. panelas. as coisas pareciam possíveis. o disco Chico & Caetano. Os livros que lera. O detergente lavava também toda a arrogância que Caio pudesse sentir. E também garfos. Jorge Ben. Augusto foi parar numa fábrica. tudo de forma muito pura. Na volta à terra.acontecendo. Ele mesmo era muito sujeito a badtrips. Depois de sete horas. e Caio se dedicou a ficar oito horas de pé por dia. quando ele encontrou o primeiro emprego. no centro de Estocolmo. Ali. Comeram xis-búrgueres com batatas fritas. cara. Ali. em uma imitação malsucedida de comunidade hippie. passa logo. bandejas. A viagem ruim começa pra valer. Até mesmo utopias que tinham escorrido pelo ralo por causa da dureza da realidade pareciam mais fáceis de acontecer naquele país. os textos que escrevera e publicara. onde os jovens se deitavam seminus nos parques para tomar sol. longe da cidade. lavando pratos. longe do Brasil. O mundo à sua volta. o fiorde ali do lado com o castelo do rei Gustavo Adolfo. sem maldades ou malícias. possíveis significados. ele não era melhor que ninguém. vai consolá-lo: — Isso não é nada. o bosque. facas. Cat Stevens. junto aos amigos. tudo perde o significado. Caio. Assim como parecia distante o tempo em que tinha morado em Santa Teresa. essas lembranças ruins pareciam distantes. Não tinha sido fácil. e tinha passado por umas terríveis em Porto Alegre. Era em um bar. analisando a viagem do amigo. com seu temperamento depressivo. sua postura .

ele era um lavador de pratos que não falava sueco. o momento parecia duro demais para enfrentar. Fora assim com Madri. ou do engraçado africano que trabalhavam com ele. mas de quem ninguém debochava. Saudade de ficar com Augusto e outros malucos na praça. sem maiores preocupações. Caio poderia voltar para a casa dos pais e viver uma vida de odalisca outra vez. cujo único exercício físico era o levantamento de copo. Juarez estava triste. Estava sendo assim com Estocolmo e provavelmente seria assim com Londres. E Caio. Caio foi se despedir deles. Claro que. Chegaria também sua vez de partir. Juarez e Sônia foram embora."avançada". quando aquela vontade de viver novas experiências passasse. talvez. o boliviano. isso não importava. Ponto. dramaticamente. sem possibilidade de cura. e passado o impacto e a fascinação dos primeiros dias. antes de chegar à Suécia. a Suécia era para ele o paraíso. com Porto Alegre. enfrentativo. e ele também. por enquanto. . Mas. Mas não. nada disso o distinguia de David. Falta de Nega Lu. Que seu livro O ovo apunhalado tivesse ganhado Menção Honrosa em um concurso no Brasil. bem ao seu estilo. inteligente e bem informado. ele começaria a achar a cidade um horror. decidiria que o menino cheio de esperanças que ele fora um dia morrera ali. e a temporada chegasse ao fim — e chegaria. Caio não se sentiria triste. Esse era Caio: sempre achava um jeito de colocar defeito no lugar onde estava. pois era forte demais e seria capaz de pendurar pelo pescoço qualquer um daqueles intelectuais. No dia 18 de julho. até dos guardas que vinham expulsá-los sempre que começava a sessão de violão. talvez. como todos sabiam —. enquanto eles vendiam colares e um francês tocava violão. Ali. com o Rio de Janeiro. na cozinha de um bar no centro de Estocolmo. Sentia-se um estrangeiro onde quer que fosse. ou dos dois japoneses. se sentisse triste. o gay negro. Fora assim com São Paulo. que debochava de todo mundo. porém. Sentiria falta. Uma vez lá. lavando louça. que ele tanto ansiava em ver.

com todas aquelas odes às mulheres pequenas-gordinhas-deóculos).Depois de ter dado um pulo na Holanda e na Bélgica. qualquer ameaça à sua liberdade. em que ele contava suas experiências e suas mudanças de humor. pessoas gentis. horas na mesma posição para que os alunos o desenhassem. cinzenta demais. parques lindíssimos. A primeira impressão foi de êxtase: cabelos coloridos andando pelas ruas. e era maravilhosa. sem ninguém olhar nem comentar. logo ele já estaria achando a cidade fria demais. Todo o deslumbramento. interessantes. Caio arrumara uma paixão que o fazia suspirar pelos cantos e cantar canções do Roberto Carlos (lembrem-se que o ano é 74. era defensivo. incapaz de se comprometer. não era isso que os livros tinham prometido. soltando farpas para todo lado. Durante todo o tempo em que esteve viajando. Fazer faxinas em casas de atores. Nesse ponto. de Nelson. como. trabalhar de modelo vivo em escolas de Belas-Artes. só duraria o tempo suficiente para que Caio escrevesse meia dúzia de cartas para os pais e amigos. finalmente. A relação com Vera. um dançarino cubano que ele estava meio que namorando. foi esfriando à medida que chegava a hora de voltar ao Brasil e encará-la frente a . bem diferente da dura Estocolmo. Trocaram cartas amorosas. Caio e Vera Antoun continuaram se correspondendo. aliás. embora tenha tido seu momento. em Londres. Falava. claro. e a fase brega do rei ainda não tinha começado. Depois de meses sozinho. Não era isso que ele tinha sonhado. E aquela história de não ter dinheiro para nada e trabalhar em subempregos para sobreviver não era nenhuma maravilha. roupas dos anos 30. uma chateação. A cidade parecia saída de um livro de Virgínia Woolf. Ele era individualista ao extremo e não deixaria que alguém entrasse em seu mundo. onde as pessoas eram fechadas demais. ele saltava fora. Mas Nelson. ninguém seria. por exemplo. Chuva a todo momento. Caio estava. por exemplo. não viria a ser o grande amor da vida de Caio.

uma paixão avassaladora. Assim. Me pergunto sempre se você não teceu em volta de mim uma porção de coisas irreais — se você não está projetando em mim qualquer coisa como um príncipe encantado — esperando a minha volta como quem espera a salvação. ele não podia mais dizer que a amava. era uma mudança e tanto." Para quem queria comer a garota com molho de chocolate. Desculpe. vendendo o almoço para comprar cigarros. A incomunicabilidade. entradas enormes na cabeça. E terceiro. não do jeito que vivia. Essa sempre foi uma de suas principais preocupações: sempre quis viver um grande amor. comum entre pessoas que se gostam. acabava. foi explorada em um texto de O ovo apunhalado. experimentou de tudo. estava branquelo demais de tanto não-sol que fazia em Londres. Além disso. não era preciso papel nenhum para afirmar isso. antes do ônibus partir eu tenho uma porção de . Será que ela ia querer alguém assim ao seu lado? Em abril de 1974: "Tenho medo de te ferir. tanto sobre relações hetero como homossexuais. o cabelo lindo e escorrido de índio estava indo embora. Quarto: ele estava ficando careca. só teria certeza disso se estivesse com ela ao vivo e em cores. que falara em casamento e filhotes com olhos de vaca-jérsei. Segundo. Primeiro. sempre sem dinheiro. quase sempre. sozinho. A seu modo. que se duas pessoas se gostavam. Ele. Para uma avenca partindo: — Olha. já estava dizendo: opa. ele não tinha condição de pôr um filho no mundo. Mas acho que precisamos 'falar seriamente'. não é bem assim. Mas não deixava que ninguém entrasse demais em sua intimidade. sem comicidade. sem fantasia.frente. disse que casar não tinha nada a ver. Caio escreveu muitos textos sobre o relacionamento entre duas pessoas. exatamente aquilo que ele estava tentando evitar. mas acho que sim.

... esse velho não vai incomodar você.] está bem. porque nunca se sabe nem como serão ditas nem como serão ouvidas.... depois você arruma as malas e as bolsas. porque tanto eu como você sentiremos uma falta enorme de todas essas coisas...... é só uma coisa... porque as vivemos apenas naquela dimensão em que é permitido viver... e a culpa é única e exclusivamente sua..... não é isso que eu quero dizer.... eu não vou escrever.. eu vou escrever. e se eu não te disser agora talvez não diga nunca mais... é melhor mesmo você subir. compreende? olha. na estrada. olha. é isso mesmo. está esfriando tanto.... continuaremos conversando enquanto o ônibus não sai.... Caio continuou em Londres com os pequenos roubos em lojas. espera.. entende.. não existe um dimensão permitida e uma outra proibida. vou dizer tudo numa só frase.. é muito importante. não fecha a janela. sabe..sim. no mais fundo. será que vai dar tempo? Escuta. espera um pouco mais. não.] [. fica tranqüila......coisas pra te dizer... antes de você ir embora eu quero te dizer quê... não.. as maçãs ficam comigo. e se elas não chegarem a ser ditas nem eu nem você nos sentiremos satisfeitos com tudo que existimos. por que você fica sempre me interrompendo e me fazendo suspeitar que você não passa mesmo duma simples avenca? Eu preciso de muito silêncio e de muita concentração para dizer todas as coisas que eu tinha pra te dizer. indevassável. dessas coisas tão difíceis de serem ditas que geralmente ficam caladas... dessas coisas assim que não se dizem costumeira-mente..... você está acompanhando meu raciocínio? [. está tudo definido aqui dentro.... eu quero dizer.. antes do ônibus partir eu quero te dizer uma porção de coisas....... eu ainda não disse tudo.. sei. Coisa pequena.. Mas a Inglaterra é um país onde o shopliting é punido de forma mais severa .. As lojas grandes de onde roubavam nem sentiriam o prejuízo.. não me entenda mal. mas é bom você botar um casaco. porque elas não foram existidas completamente. depois.... Além de arrebentar esperanças e se engraçar com rapazes cubanos. mas é que a gente tem tanto medo de penetrar naquilo que não se sabe se terá coragem de viver. falta muito pouco tempo.... olha. você vai. olha. eu espero aqui do lado da janela.

como diz Garcia Márquez. Caio e Homero passaram a noite na cadeia e foram condenados a pagar 30 libras de multa. mas não é pecado. John Lennon anunciara o fim do sonho de toda uma geração. O clima claustrofóbico da ditadura continuava. do primeiro ábum de Lennon sem os Beatles. os seguranças e policiais não queriam nem saber de conversa. o Plastic Ono Band. dava para pagar. Ching. em julho de 1975. Assim. Buda. Por causa dos dois volumes de uma biografia imensa sobre Virgínia Woolf. Os dias de Caio na Europa também. que também morava no apartamento que ele dividia com Marisa e Augusto. o sonho acabara. Prisão num país estranho e 500 contos a menos: era até onde o amor à literatura tinha feito Caio chegar. roubar livros é errado. quando Caio e o amigo Homero. ele percebia o quando tinha reclamado de barriga cheia enquanto estava viajando. "The dream is over. roubaram livros e foram vistos. Era mais do que Caio ganhava por semana na escola de Belas-Artes. mas apertando aqui e ali. TRÊS — Tá certo que o sonho acabou. com a abertura começando a se esboçar. Cinco anos antes. É. e o mundo devia seguir em frente sem eles. O ano de 1968 ia longe. De volta ao Brasil. Jesus. entraram em uma livraria. não é? A frase foi escrita por Caio Fernando Abreu no espelho de seu quarto em Porto Alegre. Os besouros musicais já não existiam. O . what can I say?" A música era God. ao cantar que não acreditava mais em coisa alguma: mágica. mas também não precisa virar pesadelo. embora amenizado.que no Brasil. estava na hora de voltar para casa. Elvis ou Beatles. Ele só acreditava nele mesmo e em Yoko Ono. não houve meio de convencer os guardas de que.

no momento. porque estivera fora. Acreditava que a psicanálise tradicional tinha algumas vantagens. um antipsiquiatra. mesmo que tivesse. É. Ele ia por um lado mais zen. E. junto com o jornalista Luiz Carlos Maciel. falava em macrobiótica e. Enquanto o enterro não vinha. O sonho estava acabando. Ninguém se entendia. Por que mesmo ele tinha decidido voltar? A depressão veio pesada. Ernesto Bono. acreditava numa forma de conhecimento mais holística. As pessoas em Porto Alegre estavam mudadas: tinham feito coisas das quais ele nada sabia. coisas assim. O clima estava ficando pesado também no quesito drogas: muita gente estava começando a pirar. se o dinheiro não fosse tão curto. Readaptar-se era difícil. na verdade. internações em clínicas. avisou que só poderia publicar um conto dele se as palavras "merda" e "tesão" caíssem fora. em que Caio colaborava desde antes de viajar. elas também não sabiam nada das experiências por que ele passara. queria fazer de Porto Alegre um centro de irradiação da contracultura para todo o Brasil. Não precisava fazer faxina nem posar em escolas de Belas-Artes. mas não tinha condições. mas que no geral só servia para reforçar aquilo que ele considerava o grande problema do ser humano: o ego. Caio gostava muito de Bono. Caio se virava para sobreviver em Porto Alegre. Bono era um psiquiatra diferente dos outros: era. era o Brasil. O milagre econômico dos militares não tinha chegado até a casa da família Abreu. e não era só para os Beatles.Suplemento Literário de Minas Gerais. Caio poderia consultar um psiquiatra amigo seu. e a necessidade de sobreviver maior que a de curar caraminholas da cabeça. de pagar suas consultas. Só faltava aprontar o enterro. mas algum trabalho ele . mais de desapego. Não se podia andar pela rua com cabelos compridos e batas indianas sem chamar a atenção. não adiantaria nada: o milagre estava com os dias contados. como não chegara para a maioria dos brasileiros. como em Londres ou Amsterdã. as referências eram outras.

Movimento. Opinião. pois havia veículos para todos os gostos. era colaborar com a imprensa alternativa. Movimento. Escrever na imprensa era parte daquilo que ele chamava de "biscates culturais": resenhas e críticas para jornais. ficaram famosos veículos como O Pasquim. Juarez começou outro projeto que teria a participação de Caio: a revista Paralelo. em que Caio Fernando Abreu chegou a colaborar algumas vezes. . Bondinho: cada um com sua opção formal. ainda não totalmente recuperado da experiência européia. Entre 1967 e 1973 existiu. A imprensa nanica. Eram jornais que. Escrita. Tirando O Pasquim. Ele teria uma página só para ele. o jornal Exemplar. por exemplo. Mas Caio estava deprimido. ele não estava melhor que antes. e nem as inspirações brotavam com mais facilidade. estética e política. No eixo Rio-São Paulo. ele esperou que alguma idéia aparecesse. não era privilégio de paulistas e cariocas. que duraria apenas quatro números. E uma das coisas que havia para se fazer em Porto Alegre. o Jornalismo. Juarez pediu a Caio que entregasse uma crônica para o primeiro número da revista. tendo em comum apenas a condição de nanicos. oficinas de criação literária para alunos com ou sem talento. alguma coisa bonita para oferecer aos leitores. Inéditos. Versus. Por dois meses. sem esconder nem maquiar nada. um luxo. com quem. Caio compraria uma boa briga no final de 1976. Findo o prazo. porém. poderia escrever o que quisesse. ele colaborou em quase tudo que era nanico: Opinião. sem idéias. Ficção. justamente por serem independentes. sem dinheiro nem para as anti-consultas com Bono. Dois meses antes da revista sair. comandado por Juarez Fonseca. qualquer coisa que pudesse garantir algum dinheiro no fim do mês enquanto ele escrevia seus livros.tinha que ter. como sempre. e a saída era. traduções e revisões para editoras. podiam se dar ao luxo de dar espaço a críticas e inovações. na metade da década de 1970. como a chamara João Antônio nas páginas de O Pasquim. aliás. Em 1976. O jeito foi então escrever uma crônica falando exatamente desses sentimentos escuros que ele sentia.

cita Mario Quintana e Adélia Prado. ele acabou se tornando mesmo. talvez) no meio da noite. você me entende?. desculpem. pessoas talentosas. Eu disse: quaisquer. referindo-se à previsão de Bono e de Luiz Carlos Maciel de que a Bahia já era e o novo pólo de irradiação da . de forma não-planejada. tudo dói. Nas cartas que tenho escrito ou nos meus rabiscos solitários (e vis. simplesmente não consigo pensar organizadamente (?) ou ter idéias claras ou/e precisas sobre as coisas. Viam nele uma espécie de porta-voz da geração dos anos 70. só não estou mais afim de fingir que tudo-bem. parece que alguma peça importante para o meu funcionamento simplesmente quebrou. Mas não pense que não sei do inútil disso. de certa forma." A crônica segue e Caio menciona amigos. "apesar das nossas ficções": "Escrevo por uma espécie de incompatibilidade-de-gênios com a vida. quaisquer que sejam. mas nunca está em casa. sinceridade — não sirvo nem pra porta-voz de mim mesmo. Nos últimos tempos tenho me movimentado com dificuldade dentro dos meus escombros-de-dentro. acabo sempre caindo na mais lamentável das auto-lamentações: dói. e tenho consciência de quanto isso parece ridículo e juvenil. e eu não sei o que fazer. por uma série de razões demasiado pessoais para serem trazidas ao baile (trata-se de um baile?) ando com uma autocrítica violentíssima e não consigo. Luiz Fernando Emediato. Mas no momento. todas mais aptas a escrever a página que ele: Tânia Faillace. escrevo para reinventar. para refazer. porque — estou usando o máximo de. para organizar o caos. o que. essa era uma responsabilidade grande demais para ele. esse "ter nascido me estragou a saúde"ambulante e crônico. reclama que as grandes sacanagens sociais continuam acontecendo. DÓI PRA CACETE.Depois de consultar o amigo Giba Rocha. descobriu que muita gente tinha gostado de entrevistas que ele tinha dado. Fala de uma coisa e outra. para não enlouquecer de impotência. meu irmão. como uma nevralgia psico-espiritual (!). Cobra dos outros. "Acontece que não sou [porta-voz] e não quero assumir esse papel. Sérgio Caparelli. entrevistas veementes em que Caio assumia suas posições peculiares com firmeza. e é isso mesmo que eu sou. " Fala também em revolução sexual e de alguém que ele queria encontrar.

ele de calção.. no litoral catarinense. Tocavam flauta. estavam presos. mas também porque Caio nunca se sujeitou a um emprego comum por muito tempo. talvez estivesse procurando nos lugares errados. entravam no mar. a pessoa em quem realmente estavam de olho.." E voilá. Queriam que ele depusesse contra Graça. Ele já havia sido preso em 1971. no Rio de Janeiro. Caio provou desse veneno em 1975. em um falso flagrante de drogas. um pouco era por causa da economia em crise. eram dez ou quinze pessoas. uma crônica estava pronta. No caminho. Caio apanhou muito. conversavam. em parte a culpa era dele. como gostava de dizer. Mas a taça destinada à sua geração nem sempre tinha só champagne. muito dignamente. a ditadura era uma das coisas sobre as quais Caio não tinha controle algum. e das brabas. Se a ditadura existia. quando foi preso em Garopaba. ela de biquíni. riam. na cidade. Graça foi presa e condenada em um flagrante . Se ele não conseguia encontrar um único e belo amor. entre elas Graça Medeiros. Bem. era por causa das drogas. Dessa vez. Jaime. de vez em quando era cicuta. Se não havia dinheiro. era porque.contracultura no Brasil seria o Rio Grande do Sul: "como é que é? não era um lugar altamente esotérico? Não aconteceriam coisas incríveis por aqui?" O texto termina: "Alguém me disse. que era o verdadeiro alvo. soltaram-no. Se havia bad trips. Na ocasião. por questões políticas. Caio e Graça foram até a padaria. Como Caio. Se Caio estava mal. chamou o garçom (seria o Isaac?) e pediu outra. "Arrotou. Estava bebendo de sua taça. Em dado momento. já faz tempo. num bar: "Um dia alguém precisa virar a mesa ao invés de só pedir outra Brahma. se recusasse a falar. daquelas de matar filósofos. Caio. alguém apontou para eles: — Olha lá! Minutos depois. ora. Era uma dose amarga que sua geração tinha que engolir sem reclamar.

Depois de ter sido preso e solto na despedida de Jaime. mas. escritor catarinense. O . assim como Graça. de Emanuel Medeiros Vieira. — Não sei.) — Conta. são de criança assustada esses olhos. a dedicatória foi suprimida. Essa história serviu de inspiração a Caio para escrever o conto Garopaba mon amour. Quando o conto foi publicado em livro. o mesmo que ficaria famoso. -Não sei. Evitamos nos encarar — por que sentimos vergonha ou piedade ou uma compreensão sangrenta do que somos e do que tudo é? —. E não só: à fugitiva Graça Medeiros. — Conta. rabo entre as pernas. Nessa ocasião. (Bofetada na face direita. (Pontapé nas costas.) Antes do episódio em Garopaba. A epígrafe do texto é um trecho do conto Garopaba meu amor. em Florianópolis. E os corações de vidro pintado estalam ainda mais alto que as ondas quebrando contra as pedras. por prender Gilberto Gil e Chiquinho Azevedo por porte de maconha. e estava escondida. Mastigamos em silêncio as chicotadas sobre nossas costas. quando os olhos de um esbarram nos olhos do outro. mistura de fatos com altas doses de invenção e fantasia. Cão batido. O responsável pela prisão era o delegado Elói Gonçalves. que.falso de porte de maconha. -Não sei. é claro.) — Conta. Caio passou uns tempos na casa de Emanuel. em Pedras de Calcutá. publicado pela primeira vez na revista Ficção. Graça tinha dado um jeito de escapar da clínica. foram condenados a passar um tempo em clínicas psiquiátricas. ficou furiosa. (Bofetada na face esquerda. um ano depois. E a quem o boca-grande do Caio dedica o conto? A Graça Medeiros. de modo que Caio acabou nunca mais dedicando texto algum a ela. Graça tinha sido uma das responsáveis pela publicação de O ovo apunhalado. armado na delegacia de Florianópolis dois dias depois de ter sido presa em Garopaba. em Garopaba. às vésperas de um show dos Doces Bárbaros. Gil e Chiquinho.

na maior facilidade. porém. de onde Caio só sairia para a famosa casa da rua Chile. retocava. menção honrosa do Prêmio Nacional de Ficção. fluía. foi proibida. era a continuação do trabalho com teatro que Caio vinha fazendo desde que voltara da Europa. a peça foi indicada para leituras em várias partes do país. por enquanto. Ou então cada um escrevia uma cena. em 1973. e com contos suprimidos pela censura. e assim sempre. precisava de alguns textos. Em 1974. e intercedeu junto a ele para que o livro saísse. A parceria com Luizar — como Caio o chamava — era boa. além de publicar O ovo..livro tinha ganhado. descobrem que não há nuvens de radioatividade. e o outro mexia. Premiada. Aquela era uma peça de esquetes. mas só seria publicado dois anos depois. alguns amigos se escondem em uma casa abandonada. no apartamento de Luiz na rua Jerônimo Coelho. o outro mais uma. tinha trabalhado com o grupo Província na peça Sarau das 9 às 11. Graça era assessora de Paulo Amorim no Departamento Cultural da Secretaria de Educação e Cultura do Rio Grande do Sul. que o sol ainda brilha e o mundo está a salvo. primeira de várias parcerias da dupla. enquanto aguardam o fim do mundo chegar. O leiteiro. e só viria a ser encenada em 1983.. teria seu nome trocado para Pode ser que seja só o leiteiro lá fora.. Um escrevia uma frase. Em 1975. Os dois chegaram a morar juntos por um ano. .. sabiamente. logo depois. em 1976. que mais tarde. em parceria com a editora Globo. ao qual o Instituto Estadual do Livro (IEL) era vinculado. Na época. e Caio escreveu alguns diálogos curtos.. Como a experiência desse certo com o Sarau. foi repetida em 1977: Luiz Arthur ia fazer um espetáculo de esquetes. pelo Instituto Estadual do Livro. Ao amanhecer do dia seguinte. Em Pode ser que seja só o leiteiro lá fora. e fora escrita a quatro mãos por Caio e por Luiz Arthur Nunes. Caio receberia o Prêmio Leitura do Serviço Nacional de Teatro (SNT) pela peça Uma visita ao fim do mundo.

Ou os quatro cavaleiros do Apocalipse. ANGEL — Puede ser algun vecino. Ilusão. aclamada por um certo ramo da crítica mas desconhecida do público. CARLINHA — Eu acho que são os sobreviventes da explosão. claro: a pornografia de Hilda não era como outras pornografias. A escritora se magoava com isso. com aquela pele toda verde. Esses escritores se correspondiam. O espírito da época era de solidariedade com os colegas.. Tenho certeza que é a polícia. tudo piração: pode ser que seja só o leiteiro lá fora. ROSINHA — Devem ser os três reis magos que vêm visitar o menino. escrevendo resenhas positivas em jornais e revistas. Eles vêm nos matar porque nós sobrevivemos.. LEO — É a polícia. coisas assim. deu provas de sua fidelidade. Com três livros publicados. ele era um dos integrantes do chamado boom literário dos anos 70: uma turma nova que fazia ficção. Caio já era. Os monstros. já mais velha. e que quase ninguém conhecia. metade dos anos 70. como a própria Hilda Hilst. e ela não vendeu nem meio exemplar a mais por isso. Quem sabe é Mona com os extraterrestres? Eles vêm nos buscar também. ALICE — Piração. Na época. principalmente através do conto. trocavam informações. tanto que. piração. que passou a chamá-la de velha safada. e nisso Caio não desapontou os amigos. além disso. BABY— Ou Mona. incenso e mirra.JOÃO (Sem emoção. principalmente em Porto Alegre. como qualquer pornografia. Nós tínhamos o direito de sobreviver ao fim do mundo. escrevendo em jornais sobre os escritores que admirava. de certa forma consagrado. um escritor reconhecido. decidiu que iria escrever livros eróticos para ver se venderia mais. e nem só do grande. Outro em quem Caio deu um empurrão foi o poeta Nei . impressões. perdeu o respeito de uma parte da crítica. Por essa época. mostrando o texto dos amigos para outras pessoas. apodrecendo e caindo. trazendo ouro.) — Estão batendo na porta. Mais de uma vez. tentavam ajudar uns aos outros dentro de suas capacidades. ninguém lia Hilda Hilst.

— No Mario Quintana — disse Nei. cinema. organizaram o livro. anos depois. se o Nei pode.Duelos. Antes de Mario Quintana ver o poema. chamou-o a um canto e explicou tudo: o movimento estudantil é assim e assado. Caio o aconselhou a arriscar. Não se arrependeria: quando o livro saiu. o livro tinha que ser publicado. Eles eram amigos de conversar sobre literatura. e perguntou em quem o poeta estava pensando quando escreveu. gaúcho de Uruguaiana e radicado na capital. Caio leu um poema do qual gostou muito. Então Caio sugeriu que ele colocasse o Mario Quintana no título do poema. porém. junto com Caio. como Caio. Vê-lo publicado com capricho pelo governo do estado. Ele deu um parecer favorável à publicação do livro. Os três separaram os poemas por tema. perguntou o poeta. e em geral estava certo: Nei acatava sua sugestão por achar que tinha ficado melhor. na primeira reunião de estudantes a que o calouro Nei compareceu. Estava em dúvida. Nei seguiu o conselho e nomeou o poema Mario Quintana. eu também posso. o livro garimpado na papelada de Nei. Nei era jornalista. Quintana adorou o poema. nem tinha nada publicado em lugar nenhum. era algo para se comentar. Nei não era ainda conhecido. Quando entrara na faculdade. Será?. Muitos dos autores publicados nessa época pelo IEL. no geral. Caio inclusive. ele era um autor marginal. Nada teria a perder. tinham muito a agradecer à diretora do . e foi ele que. Os outros poetas podiam pensar: ei. em plena ditadura. foi um acontecimento: afinal. Quando o livro saiu. mas. Alguns conheciam sua poesia de vê-la declamada nos encontros de estudantes. E seria Juarez também que. Juarez Fonseca ainda andava por lá. iria na casa de Nei e o ajudaria a editar o livro Outubro. a não ser em jornais mimeografados. Caio usou de sua influência no IEL para conseguir a publicação de Outubro. Tanto que aceitou fazer o prefácio do livro seguinte de Nei. Caio sugeriu a troca de algumas palavras.

O primeiro livro que ele quis publicar foi uma história policial de Otávio Ribeiro. ela não podia dar conta de toda a cena literária do Rio Grande do Sul. desconhecidos. para combater a política conservadora das editoras. viria uma antologia de doze contos de autores novíssimos. ela trouxe para o instituto e conseguiu publicar muitos autores considerados malditos. O mineiro Luiz Fernando Emediato era jornalista e .instituto. entre elas Teia & Assim escrevem os gaúchos. a ser dirigida por Jeferson Ribeiro de Andrade. que. Caio participou de várias. mas como se tornar conhecido se não aceitavam publicá-los? Apesar do heroísmo de Lígia Averbuck. Antônio Barreto. com 21 anos e uma arrogância típica da idade. Uma dessas antologias. porém. Mais coisas precisavam ser feitas. Entre os seis autores escolhidos estava Caio. e muitos autores simplesmente novos. e era preciso desovar essa produção de algum jeito. com 28 anos (Caio tinha 27). bom jornalista. Em segundo. como escreveu em uma reportagem Luiz Fernando Emediato. Lígia Averbuck. que dificilmente conseguiriam espaço em outras editoras. editora de O Pasquim. Era aquela velha história: quem não fosse conhecido não seria publicado. E justo aquela que lhe daria mais visibilidade: a antologia publicada pela Codecri. Domingos Pellegrini. gente que vinha se destacando pelo talento precoce. o carioca Júlio César Monteiro Martins. os autores começaram a se unir e a produzir antologias. Pouco tempo antes. Com uma visão aberta e democrática do que devia ser a literatura. poeta de 22 anos que dava seus primeiros passos na ficção. Assim. ambas de 1976. aos 25 anos. Os outros eram o próprio Jeferson. iria causar a Caio uma enorme dor de cabeça. também participaria da antologia. mas escritor "sem grande brilho". algumas pagas do próprio bolso. Era uma maneira de divulgar a novíssima literatura do país: muita gente estava escrevendo coisa boa. o mais velho da turma. o nanico mais influente do país tinha decidido criar uma editora.

e escreveu a ele pedindo um texto para a Inéditos. Os autores da antologia se correspondiam. através de suplementos literários diversos. Emediato. escreveria Emediato. cujo talento tinha o mesmo tamanho. as coisas tinham tudo para dar certo. A princípio. infeliz. revoltava-se naturalmente contra a trágica condição humana. antes de retomar as atividades de escritor. da editora Geração Editorial. e Inéditos. por causa do mau humor. Aos 19 anos.editava as revistas Silêncio. revoltava-se contra o fato de. da Codecri. iriam se agravar com o tempo. Isso até que o crítico Flávio Moreira da Costa o chamasse de Shirley Temple: surpreendente enquanto jovem. enorme. Um desses escritores era Caio Fernando Abreu. numa bela definição dos envolvidos na antologia. que fundaria décadas depois. Anos mais tarde. trocavam impressões. ele editava suas revistas. Caio mandou. Os dois vinham lendo os textos um do outro há algum tempo. em 1977. todos se revoltavam contra alguma coisa. Pellegrini e eu éramos marxistas e queríamos derrubar a ditadura a qualquer custo. foram convidados para fazer parte da antologia Histórias de um novo tempo. embora as semelhanças parassem aí. na reportagem que fez para a revista Geração. Essas diferenças. um burguês liberal. todos amavam a literatura. Naquela época. "Jéferson era naturalmente revoltado. aos 21 anos. Luiz gostara de um livro de Caio. tinha ganhado o prêmio Revelação de Autor e. no entanto. e Júlio César. fora considerado por muita gente uma espécie de garoto-prodígio da literatura brasileira. ainda não ser considerado o maior gênio da literatura brasileira de todos os tempos". Barreto. escrevia seus romances e contos. eles continuaram a se corresponder. por causa disso. E. O ovo apunhalado. que logo foi fechada pela polícia. da vaidade juvenil. se correspondia com outros autores. ficaram amigos. e ruim à medida que fosse ficando mais velho. ainda que derramando sangue. Havia muitas coisas na visão de arte dos . Caio. diria que talvez Flávio tivesse razão.

e servira para mostrar que não era aquilo que ele queria. Em março de 1977. e achou que havia esperança. Assim. criado pelo grupo para dizer ao mundo o que eles pensavam sobre literatura. Ali parecia estar uma alma-irmã da sua. como se queira chamar. Suas influências literárias só falavam do indivíduo: Clarice Lispector. Afinal. Mareei Proust. para dar a entender a Emediato que não assinaria o manifesto. A própria idéia de um manifesto. e assim podia pagar as consultas) e. sempre independente. emergia da depressão pós-Europa. O mineiro tinha escrito alguns contos de temática homossexual. Imagina. embora fosse casado e hetero convicto. ser contra o individualismo. muito dono do próprio nariz. Emediato tinha mandado. com isso.companheiros com que Caio não concordava. Caio usou de muito tato. e nenhuma da primeira. Ora. uma das primeiras coisas que Caio leu do documento foi a frase: "contra O individualismo". E esse era apenas o começo da confusão. Emediato enviaria a ele uma cópia do Manifesto Neo-Realista. Caio lera alguns desses textos. pouco preocupado com o que pudessem pensar. ou opiniões. o preferido de Caio. O eu. Agora ele estava melhor. por exemplo. Virgínia Woolf. por engano. mas graças a quê? A analisar o ego. mas que no final viram regras mesmo — a serem seguidas não podia ser agradável para Caio. Mesmo assim. o indivíduo. ele não era de forma alguma contra o individualismo. Os seis eram os "paladinos do Oeste". Sua única experiência com um homem fora na adolescência. como os chamaria na dedicatória de um livro anos depois Emediato. com a mesma sensibilidade. em carta. ainda gostava muito do pessoal que sairia na antologia. lentamente. Que idéia. de um conjunto de regras — ou diretrizes. Caio ansiava pelo momento de conhecê-lo . Além disso. aliás. fazia um ano que ele estava fazendo análise (tinha conseguido um emprego na Folha da Manhã como crítico de teatro. escrevia os tais contos. duas vezes a segunda página do manifesto.

manifestando toda a sua raiva. com um pátio bem grande. No final de 1977. e ele decidiu viajar com a esposa Sylvia. Caio morava na casa da rua Chile. O filho de oito meses ficou com a avó. Mais dez mil exemplares saíram. Intempestivo. sob todos os pontos de vista. Os moradores amigos se sucediam. mandava ele lamber sabão ou catar coquinho. Depois disso. e o texto saiu. E saiu editado. de 20 mil exemplares. mas ela mesma não ficou tanto tempo lá. Tudo correu bem. Implicou. A coletânea era um sucesso. que uns dos outros só conheciam palavras escritas. A grana era boa. Histórias de um novo tempo teve sua primeira edição. com trechos cortados. em quem não perdoava a vaidade juvenil. com Júlio César. no Rio de Janeiro. Luiz Fernando Emediato ganhou um prêmio literário da revista Status. em Minas. para que coubesse no jornal. toda a parte em que ele falava de homossexualismo teria ficado de fora. por exemplo. um chalé de madeira agradável.pessoalmente. Agora faltava encontrar o resto do grupo. A casa estava alugada no nome de Graça Medeiros. Os autores foram entrevistados pelo tablóide. esgotada em quinze dias. Na sua cabeça. e acabaram logo. em Belo Horizonte. a relação do grupo foi se esfacelando mais e mais. O encontro com os outros paladinos aconteceu no lançamento da antologia. escreveu uma carta ao jornal. como todos os textos. puderam se apertar as mãos e se olhar nos olhos. Só que Caio não gostou nem um pouco da tal edição. a amizade se fortaleceu. poderia ver se suas expectativas se confirmavam ou não. E a resposta o deixou ainda mais irado: O Pasquim. . no cara-a-cara. por exemplo. O plano era visitar Caio em Porto Alegre — a relação entre eles sobrevivera aos entreveros com os demais paladinos e com O Pasquim — e depois ir até Buenos Ares ver Eduardo Gudino Kieffer e Jorge Luis Borges. coisas do gênero. bem ao seu feitio. Quatro deles — Barreto e Pellegrini não puderam ir —. A confusão aconteceu mesmo quando os quatro foram dar entrevista a O Pasquim. Foi visitar Emediato em sua casa. Nessa época. só trechos dos seus depoimentos tinham sido cortados. Nada de mal até aí.

para que assim sua liberdade e individualidade fossem mantidas intactas. que o aconselhou a não arrastar uma relação moribunda. em 1973. como Emediato e Sylvia. sequiosa de amor: [. Ele mencionara o assunto em carta para Caio. esses pássaros idiotas sobrevoando essa ilha de loucos. Caio disse a Luiz Fernando que o amava. que vontade. Densidades Inimagináveis.como Caio e Sandra Laporta.. espástica. A relação entre Sylvia e Emediato não ia muito bem já há algum tempo. de garantir desde o começo que não daria certo. Emediato ficou constrangido. de auto-sabotagem. na casa da rua Chile.. nem lembro mais. não consigo mais ler essa porcaria. mas pegou suas mãos. Caio teria vivência para escrever.] tomar banho e ficar na sacada sem olhar os pêlos molhados do suor do peito do moço da construção em frente. o olhou nos olhos. es-pás-ti-ca.. que fora com ele para a Europa. já na beira dos trinta anos. do livro Pedras de Calcutá. Bem. cinco-seis-sete-oito: por favor. como fizera a Emediato. venha comigo. claro. O suficiente para que Emediato entendesse a mensagem. por favor POR FAVOR: crave seus dentes na minha polpa . Sylvia na cozinha. aqui-e-agora. Teria assunto. O personagem é uma mulher. A coisa não deu certo. Sua mania de se apaixonar por homens obviamente heterossexuais talvez fosse uma forma de defesa. dizer propriamente não disse.. então. O que Emediato não sabia é que o amigo estava advogando em causa própria: em Porto Alegre. teria sua tradução literária em vários contos. Ah. A sede de amor. proparoxítona é que tem acento na antepenúltima? o pôster de Burt Reynolds. aqui-e-agora. que levaria Caio a se apaixonar e se declarar várias vezes na vida. Um exemplo é Até oito. e é claro: sofrendo bastante. O mito do artista sofredor parecia calar fundo no coração do escritor. vivendo e sangrando e amando. a minha polpa macia. e sempre tinha gente visitando. esperando o quê? esperando quem? Aqui-e-agora. Caio decepcionado.

do qual participariam apenas alguns escritores. Edla havia organizado um jantar fechado. se retirou do jantar junto com os amigos. tanto temática quanto formal. na época esposa de Flávio Moreira da Costa e uma das organizadoras do congresso.maciaaaaaaaaaaaah. Emediato e Carlos Emílio se lembram que Caio. Ferreira Gullar. Instalou-se a confusão. terceira coletânea de contos de Caio. Caio sempre buscou em seus livros de contos uma unidade. Mas aí as coisas estariam mudadas: ele passaria a considerar Emediato careta demais. Caetano Veloso. Raduan Nassar. Mesmo depois da declaração de amor não ser exatamente bem recebida. entre vários outros. Mas a maioria de seus amigos estava lá de farra: Emediato. a escritora. 1977 foi o ano do lançamento de Pedras de Calcutá. Não o perdoaria por não ser louco como ele e seus ídolos: Cazuza. Coletânea talvez não seja a palavra correta. Nos anos 80. Caio e Emediato continuaram amigos. Pelo menos era essa a sensação que Emediato teria. Além das confusões com tablóides. Caio e Emediato ainda estavam muito ligados. Edla vetou. Quando o grupo tentou entrar no tal jantar. era um dos oficialmente inscritos no evento. muito indignado com o que ele considerava uma discriminação. Júlio César Monteiro Martins. Lygia Fagundes Telles. se escrevendo por vários anos. A nata da nata da literatura brasileira estava lá: Rubem Fonseca. Carlos Emílio Corrêa Lima. certinho demais para ser seu amigo. Caio iria morar novamente em São Paulo. o bate-boca. Ney Matogrosso. onde trabalharia com Emediato e o veria quase todos os dias. Foram juntos a um congresso de escritores em São Paulo. Mas em 1977. Foi nesse encontro que Caio teve um bate-boca com Edla van Steen. declarações de amores impossíveis e congressos com escritores superestrelas. Seus . Caio estava entre os convidados.

e assim. no mundo que estava tão diferente nos últimos tempos. O conteúdo do livro segue fazendo a biografia de uma geração: já não se acredita mais na revolução. não nos olharemos dentro dos olhos. na década de 90. com o calor.. se jogará ao fogo. As cartas continuam queimando. O indivíduo continua um estrangeiro em busca de um modo de estar no mundo. Talvez se tenha ido junto com o sol. buscando sempre o termo exato.] Não nos falaremos. depois se tornará cinza. lapidando e burilando. e outro mais. como no conto Holocausto. aquecerá os outros por mais alguns momentos. cada qual tratando de determinado tema ou enfocando os assuntos sob perspectivas específicas. Eu tentei pensar em Deus. de Pedras de Calcutá: Há bem pouco um pensamento cruzou minha mente.livros. Apenas um de nós treze fará o primeiro movimento. em geral. para manter essa coerência. o calor e Deus pudessem voltar de repente. Pedras de Calcutá talvez seja o livro que marca o amadurecimento de Caio como escritor. diz adeus e vai embora. sim — coletânea Ovelhas negras. quando Caio organizaria a — aí. A relação com a palavra aproxima-se da dos poetas. diz um verso bem bonito. . Uma ciranda. são divididos em partes. Mas Deus morreu faz muito tempo. talvez a mente de todos: creio que quando esta última chama apagar um de nós terá de jogar-se ao fogo. Como um ritual. no momento exato em que a última chama se desfizer e alguém esboçar o primeiro gesto. Muitos desses textos seriam lançados mais tarde. o sonho acabou. e depois mais um. Apenas já não somos crianças e desaprendemos a cantar. artesãos. por não se adequarem à proposta da obra que estivesse trabalhando no momento. com textos escritos dos 14 aos 46 anos de idade.. A partir desse livro. O mundo está esfacelado. Cada livro tem uma lógica própria. É o domínio da palavra escrita. Mas eles não voltarão. muitos textos considerados bons pelo autor ficaram de fora. [. Caio se sairá cada vez melhor nesse aspecto. nos ideais esfacelados. daquelas em que uma criança entra dentro dessa roda. Pensei que talvez o sol.

O rapaz. que estava de volta a São Paulo. faltava algo. mais tarde. cabelos escuros. mas intenso — queriam engolir um ao outro. e de solitário também. Estranho estrangeiro. mais uma vez. Caio não podia esperar mais tempo. se cheirar. e as coisas bonitas já não acontecem mais. Caio não deve ter ficado menos impressionado com os cabelos louros e os modos doces de Celso. viveram um apaixonado caso. pois os dois. hora de levantar vôo. A presença do rapaz era forte. E quem o via pela primeira vez. Como seus personagens. se tocar. como disse Celso. que ninguém era de ferro. gestos finos. QUATRO Encostado no carro. aonde quer que fosse.Seria bonito. como se uma tristeza infinita houvesse por trás dos olhos. Alto. não havia quem não a notasse. encostado no carro. sem paz fora da própria terra. escrevia suas coisas para teatro. O ser todo exalava algo de sexual. pronto para partir corações e ter o seu partido outras tantas vezes. No meio de tanta paixão. uma nuvem de melancolia. como se podia dizer sempre das relações de Caio. logo que se conheceram. e notava sua calça de couro preta. Talvez o centro. Em Porto Alegre. era Celso Curi. havia lugar para o humor. muito magro. Caio se sentia um estrangeiro eterno. estar no olho do furacão. Ainda assim. que não era exatamente um rapaz. jornalista e agitador cultural. ele tinha emprego no jornal. estava aquele rapaz de calça de couro. elegantes. mas um homem de trinta anos de idade. os dois começaram a se chamar de . era Caio Fernando Abreu. Uma nuvem preta o acompanhava. Um breve caso. incapaz de viver nela. jaqueta. Era. Em alguma brincadeira cujas origens se perderam na história. encontrava alguns amigos. irremediável.

Gomide — ligava Caio. como vai? Essa brincadeira de nomes não era exclusividade da relação de Caio e Celso. a amiga Jacqueline Cantore de Marilene. mais uma vez. Okky de Souza. é sinônimo de bicha. Caio chamava. pequena demais. os dois magros que nem papel. e depois ligavam dizendo: — Ei. Caio e Maria Rosa se tornaram muito amigos. Ele mesmo podia assumir um nome feminino. . "Lasanha" é aquele homem bonitão. Maria Rosa fora esposa de Valdir Zwetsch. bebendo baldes de café e escrevendo. "Jacira". Havia verdadeiros códigos. "rodenir" eqüivale a coisa brega. Uma expressão surgida na noite. ou MVlen. vou cobrar direito autoral. Duran. podia ser utilizada por Caio no dia seguinte. digamos. junto com Vânia Toledo. Caio tinha voltado a morar em São Paulo em meados de 1978. Permeando a obra e a vida de Caio. por exemplo. por causa das atrizes Etty Fraser e Geórgia Gomide. Os amigos liam aquilo. por exemplo. massudo. e aí era Marilene falando com Marilene. trabalhando na revista POP. ou Anthea. Porto Alegre. e as atrizes. há o humor queer. em alguma festa ou bar. Mas a brincadeira pegou. em um conto ou crônica. Ela se lembra dele ouvindo Velvet Underground o dia todo. palavras inventadas por Caio e por seus amigos que acabavam virando termos correntes no vocabulários desses grupos. brincadeiras e palavras próprias. como Marilene mesmo.Fraser e Gomide. morou em primeiro lugar com a amiga Maria Rosa Fonseca. Semelhança menor não podia haver. se divertiam. uma espécie de humor próprio dos gays. J. amigo e colega de trabalho de Caio em Porto Alegre. no bairro de Pinheiros. Valdir e Caio agora repetiam a dose. que se traduz em signos. escrevendo.R. Em São Paulo. forte. — Olá. E essas brincadeiras com as palavras não existiam só na maneira de chamar as pessoas. uma loucura. cheinhas. tinha se tornado insuportável. na rua Capote Valente. — Alô. Fraser.

E foi aí que o encanto quase se desfez. Era mesmo difícil não se desentender com ele. que viria a ser um tormento a vida toda para quem dividisse casa com ele. murchinho. De vez em quando saíam para jantar. mil perdões. era infinita. ele a chamava. ele e Celso já haviam se tornado grandes amigos. Caio não conhecia tanta gente na cidade. Quando estava bem-humorado. um gentleman. Caio topou na hora. No começo da estada. Uma distância. pedindo mil desculpas.escrevendo todos os dias. tiradas mordazes e irônicas. Ele tanto podia aparecer com flores ou mandando as pessoas para aquele lugar. quando Laura. havia um quarto sobrando. uma qualquer-coisa que de repente lhe subia e ele não conseguia medir palavras. Caio não era uma pessoa fácil de conviver. mas nunca se lembrava de uma conta para pagar. Tinha um gênio dos diabos. Caio ficava dois. mas a paixão havia passado. Continuavam encantados. Em 1984. ligava. gostava de tudo no lugar. tarefas simples. Mas quando o mau humor resolvia dar as caras. a filha de Maria Rosa. e Fraser e Gomide correram perigo. Por que não chamar Caio para morar com ele? Chamou. E havia aquela estranha necessidade de ficar sozinho de vez em quando. digamos. sem rancores. Cheio de manias. a dificuldade com coisas práticas. Quando Caio decidiu sair da casa de Maria Rosa. Por que. Caio ajudaria a dar o primeiro banho. é preciso que se diga. Depois batia-lhe o arrependimento. e ela ia apresentando algumas pessoas. fino. O mau humor. com a organização — dizem — típica dos virginianos. e quem ficasse no caminho levava chumbo. Lady Laura. nascesse. E aí ele era elegante. era absolutamente impossível prever seu comportamento. sem botar a cabeça para fora para . Celso morava sozinho em um apartamento na Cristiano Vianna. sua capacidade de fazer rir. no dia-adia. arrumado. era melhor manter uma distância saudável dele. vira-lata com rabinho entre as pernas. todos se divertiam. um temperamento explosivo. sanitária. três dias trancado no quarto.

Depois de Celso. Você nunca vai enlouquecer. Mexeu com a cabeça. só se divertia. Mesmo assim. já dava para ver que os dois.nem dar um olá. de Caio. como que lamentando. com quem calhasse. e abriu seu teatro. Uma vez Caio botou as cartas para Celso. a coisa não funcionava. falar de astrologia. Foi aquela choradeira. Caio saiu do apartamento. e depois dele outros ainda. Mas quando ele resolvia sair. o Espaço OFF. Celso também se mudou. Aí Caio podia contar piadas. em um palquinho de lxlm. A diversão era tanta que a turma da revista acabou virando a . O trabalho lá era uma delícia: na descrição de Caio. As faxineiras enlouqueciam. se estava morto. não davam certo. foi no OFF. Fraser e Gomide saíam com ele. vinte e cinco dias por mês o pessoal não fazia absolutamente nada. eram momentos apreensivos. E Caio prosseguiu sua vida nômade. Nada que o passar do tempo não resolvesse. se escrevia. Quase um ano depois de ir morar com Celso. chorava. morando onde desse. Celso devendo alguma coisa a Caio. O que Caio fazia lá dentro. destinado a apresentações ainda mais experimentais que as do palco normal. se mudavam para a redação. e os de fora sem saber se estava vivo. pediam pizza por telefone e fechavam a revista. Uma das primeiras interpretações que Gilberto Gawronski fez de Dama da noite. porque não podiam entrar no quarto e limpar. Na última semana. dormia. e tudo ficaria bem até que a montanha-russa desse mais uma volta e ele ficasse down outra vez. da editora Abril. o bom humor nas alturas. Caio continuava o trabalho na POP. e comentou: — Tenho uma pena de você. morando juntos. se precisava de alguma coisa. E houve tensão também: problemas de dinheiro que ficaram mal resolvidos. Celso não sabia. E aí era legal de novo conviver com o Caio. foi a vez de Rofran Fernandes. Para Celso. botar o taro. logo os dois estavam amigos de novo. um lugar para apresentações mais alternativas. Fraser e Gomide a vida inteira.

Outra amizade que veio daqueles tempos é com a jornalista Paula Dip. de brincadeira. hoje conhecida escritora. dramaturga e autora de novelas. onde trabalhava Maria Adelaide. Levíssima. e ele acabaria sendo muito protetor em relação a ela. Lui. No meio de uma conversa aparentemente banal. falavam de coisas pesadas. ela menciona. Apresentada por Celso Curi. e eles conversavam. pesava 42 quilos. Maria Adelaide ficou amicíssima de Caio. quando tudo melhorava. Lawrence Durrell. na época. na Abril Cultural. quando estavam mal. que trabalhava na redação da revista Nova. o homem. do livro Morangos mofados. ela optou por fazer um aborto. quando estavam bem. onde ficava a POP. No terceiro andar do prédio da editora. em que ele parece ansioso por desligar. Contou a história ao Caio. trabalhava Maria Adelaide Amaral. Um dia. e o apelido ficou para sempre. uma única vez. Paula era mais certinha. o sempre muito magro Caio resolveu pegar Adelaide no colo. e demais escritores que amavam ou que estivessem lendo no momento. em 1987. A amizade perdurou mesmo depois que deixaram de ser vizinhos de emprego. para o terceiro. Tendo se descoberto grávida. Dedicado à Paula. A amizade seria selada por um episódio triste da vida de Paula. Tempos depois. Caio se espantou: descobriu que ela não era magra. era levíssima. vizinha à POP. menos porralouca que Caio e alguns de seus amigos. que só viria a dar por terminado anos mais tarde. Ela. está entediado com a ligação da mulher.turma de Caio em São Paulo por uns tempos. o conto descreve uma conversa telefônica entre dois amigos. se divertiam. Uma vez por dia. Caio foi um dos primeiros leitores. Proust. de coisas leves. pelo menos. Na época. Caio subia do segundo andar. e gostou do que leu: disse à amiga que ela tinha muito talento. não viam o tempo passar. . que também trabalhou na POP por uns tempos. Discutindo Katherine Mansfield. Levinha. escreveu o conto Pela passagem de uma grande dor. Maria Adelaide escrevia o romance Luísa (quase uma história de amor). que deu seu apoio. que vai fazer um aborto.

ou para edições . em geral ele não tinha muito em comum com os assuntos tratados na revista. Aqui diz que tem vitamina E. na verdade. a "grande dor" do título: o assunto. dos filhos que não teve. em que todos usavam drogas. A justificativa. Ele mesmo passaria pela situação duas vezes na vida. assim como fizera com a hippie anos antes. Vai fazer teu chá. — Tá bom — ele repetiu. também. como o pessoal da redação costumava brincar na época. — Hein? — Nada. de como seriam se tivessem nascido. — Vou tirar amanhã — ela falou de repente. — Abriu a mão e olhou as manchas branquicentas na palma. optou pelo aborto. para a revista Nova. Embora hoje seja praticamente impossível achar o disquinho. A POP era a primeira revista brasileira voltada para a cultura jovem. Embora em determinado momento da vida Caio tenha aderido à estética punk. é que as gestações aconteceram em períodos loucos. ele dizia. o medo da criança nascer deformada pelas substâncias era grande. e ele fazia o que podia. com a coletânea de 1977 que trazia músicas de grupos estrangeiros do novo gênero musical. haviam sido grandes dores. ele. na verdade. de vez em quando. em comum acordo com as garotas. Costurava também. E pensou que quando começavam a falar desse jeito era sempre um sinal tácito para alguém desligar. — Não é essa que é boa para a pele? A aparente frieza esconde. Mas não quis ser o primeiro. Mas era preciso "costurar pra fora" para sobreviver. é incômodo e doloroso para Lui. A revista POP apresenta o punk rock é o marco histórico do gênero no Brasil. Nas duas ocasiões em que namoradas suas engravidaram. Para ele. Caio falaria.— Tá bom — ela disse. E para Caio. em crônicas e entrevistas. Até hoje é lembrada por ter introduzido no país o punk rock. — Tá bom.

aumentar as fotos. dizendo que a revista está péssima. e elas adoravam ler. Em certo momento. ele tem uma pequena briga com o diretor da revista.especiais. — E se você está a fim de colaborar com o processo de castração mental da juventude brasileira pós-64. O diretor chamou Caio de obsoleto. "emprestava-se" pessoal de outras redações. O diretor marca a reunião para nove da manhã. e muito bem. Não a parte de escrever. o que bastou para que este estourasse e abrisse a torneirinha de indignações. e de lidar com chefes. o diretor comentou que os títulos de Caio pareciam livro antigo de História. a Abril. que isso ele fazia com facilidade. — A gente não deve colaborar com a alienação. o trabalho jornalístico era penoso para ele. a parte prática e pragmática da coisa. se era chata de agüentar para qualquer um. ou o que viesse. enfim. Caio era contratado da POP. Sempre a contragosto. Sendo todas as revistas da mesma editora. mais dolorosa ainda era para Caio. eu não estou. Em fevereiro de 1979. se o chefe achava que cultura e leitura eram coisas obsoletas. por exemplo. então estavam indo muito mal. E falou. supostamente o público-alvo da revista. a parte desinteressante de qualquer emprego. Tinha duas irmãs adolescentes. E disse mais. ou como cuidar de bebês. E já chega falando grosso. mas só aparece às dez e meia. Aquilo foi demais para Caio. pessoal que estivesse com o horário mais folgado. . de certa forma. em dias de fechamento. ou culinária. e dos prazos. sobre a vida de John Travolta. — O leitor não gosta de ler — justificou o diretor. mas fazia free-lances para vários outros veículos. As penas continuaram voando. Caio não concordava. havia grande rotatividade de jornalistas. Era preciso reduzir os textos. mas a questão dos horários. melhorar o lado visual. A formação dele tinha sido feita antes de 1964.

As férias vieram. Caio calou a boca. eu FUI até Olinda. A literatura andava meio abandonada há um tempo. olhar. José Márcio deve ter levado um susto. ele escreve uma carta ao amigo José Márcio Penido. percebi que não conhecia vivalma (ai esse português castiço!) na cidade. na Rua do Hospício —juro! Solucionados os problemas de acomodação. comer tapioca. tropeçar em cantador. Aí rodei por lá um dia inteiro. me deu uma solidão tão grande que. como na fábula do lobo e do cordeiro: contra a força não há argumentos". No fim. Nada de Olinda: a carta vinha de Porto Alegre mesmo. todo mundo em volta quieto. Estressava-se. olhar. Acabei indo pra Recife. Caio explica a mudança de planos: "O que aconteceu? Bem. olhar — olhar o quê. Talvez estivesse precisando de umas férias. atravessar Capibaribe. Caio resolveu ir a Olinda. dessa coisa de ganhar a vida. em que contava o episódio. sem encontrar lugar pra ficar. e ele ia aproveitar o período de folga para retomála. onde me instalei num hotel de oitava: o Suíça Hotel. Uma semana depois de suas férias começarem. idéias ambiciosas. meu deus? Meu caro Garcia de Oliveira. ele concluiria em carta à mãe. eu estudei muita História e se a juventude de hoje não sabe nem quem foi Getúlio Vargas é porque não se estuda mais História. menos de uma . onde teria a paz necessária para escrever. Ana Matos que me perdoe). voltar para o hotel. cansado. bonito. mas não podia. olhando a briga. assistir filmes como Iracema ou O Super-Macho ou A ilha das cangaceiras virgens (descobri que Helena Ramos dá de dez em qualquer Sônia Braga. E toca subir rua. em retirante.— Minha mãe é professora de História. Logo no início. Caio estava nervoso. louco para dar uns pontapés nas pessoas e dizer umas verdades. olhar. depois de muito suar e gritar. lugar calmo. de belas praias e malemolências. "Afinal. jornalista mineiro radicado em São Paulo. descer rua. Andava cheio de idéias. passar o dedo com desgosto em cima do quilo de poeira dos móveis. e não podia deixá-las morrer só por causa dos trabalhos jornalísticos. Se esperava notícias do esturricante calor nordestino.

o que aprender. na verdade. de volta da praia. cheia de interrogações. Em São Paulo. do . Caio volta à vida de jornalista em São Paulo. a cabeça de Caio não está legal. o amigo José Márcio Penido também passava por suas próprias crises. responde como pode. a família tinha se mudado para Belo Horizonte. Não há o que ensinar. o mineiro funcionava como uma "referência viva" de São Paulo para o gaúcho." Fala da dor que é escrever. Passei uma noite lá. Nordeste a 30 graus e Rio Grande a 2 graus negativos. ele diz querer escrever. Depois das férias. Na época. Ele está deprimido. quando Caio volta a Porto Alegre para mais um período de férias. Ao final do ano. mas nem lá as coisas pareciam melhores. Pero se hace camino ai andar. Zé escreve uma carta triste para ele. amiga de Caio e de José Márcio Penido. Saiu do Recife porque não havia ninguém lá.) Em Porto Alegre. Caio. Peguei as lãs e peles e vim pra cá. Mas essa concepção era fruto da cabeça romântica de Caio. Sente-se solitário. arrumei tudo e voltei pra Sampa. mas nem disso está tão certo. que tinha morado em Santiago até ficar adolescente. só morara em Cambuquira até os três anos de idade. Caio pegou uma gripe violentíssima — resultado da mudança brusca de temperatura. Cita um poeta: "Caminante. da dor que precisa ser mexida e remexida. " (Ana Matos era Ana Braga. Caio achava que se entendiam porque eram ambos de cidades do interior: ele de Santiago. irmã da Sônia Braga. Ele cresceu com asfalto nas veias. Mais que a doença física. foi procurar suprir essas carências na cidade mais que conhecida. Caio a chamaria sempre de Ana Matos por causa do personagem Júlia Matos. depois disso. ele e Caio eram muito próximos. dúvidas.semana depois. a amada e odiada Porto Alegre. a situação era diferente da de Caio. porque José Márcio. entre outros questionamentos. interpretado por Sônia em Dancin Days. ninguém absolutamente que se importasse com ele. José Márcio de Cambuquira. no hay caminos. e visitava a cidade sempre que podia.

Está na hora de cozinhar o arroz. de forma espiritual e ao mesmo tempo intensa. na época na Brasiliense. nenhuma pitanga madura. Com Morangos mofados.quanto é preciso sangrar se se quiser produzir algo bom. mergulhado nas palavras. nenhuma manga molhada. somente então. Depois da refeição. de certa forma. senhor. que come com calma. descansa um pouco. Nenhuma melancia escancarada. O dia todo submerso. onde trabalhava. um belo texto. Caio pediu demissão da Nova. Aprendiam sua maneira de ver o mundo. do suicídio. nenhum morango sangrento. Era um paradoxo: Caio não estava ensinando ninguém. Faz mais alguns exercícios. vai à praia. para poder terminá-lo. interveio: se o contrato fosse cancelado. macilentas maçãs verdes. essa situação atingiu seu auge. às vezes falando sozinho. até que Luiz Schwarcz. o danado ainda custou a sair: ficou dois anos na Nova Fronteira. A vocação para guru. volta para casa. Então. Essa expressão ê fundamental na minha vida. Caio já era. peras pálidas. E depois de pronto. Em 1981. dedicado a José Márcio Penido e que daria título ao próximo livro de Caio: o conto Morangos mofados: Na parede a natureza-morta com secas uvas brancas. embora involuntária. Às dez da manhã. quatro quilômetros. passeia um pouco. Corre um pouco: três. Um morango mofado — e esse gosto. estava em Caio. começará a escrever. "A única recompensa é aquilo que Laing diz que é a única coisa que pode nos salvar da loucura. sua maneira de encarar a arte com seriedade. enquanto terminava de escrever o livro. da auto-anulação: um sentimento de glória interior. considerado um guru de sua geração. e de transformar grandes dores em grandes textos. na gaveta. . E o resultado dessa jornada é um texto. mas as pessoas aprendiam com ele. sempre presente em minha boca? Antes da publicação de Morangos mofados. " São sete da manhã. Caio acorda. e ele não podia fugir dela.

o livro virou clássico instantâneo: oito edições tiradas em seqüência. E agora que uma nova década começava. absolutamente só enquanto considerava atento. apesar das ilusões perdidas. mas era realmente um pouco assim como se ouvisse as notas iniciais de A sagração da primavera. o último conto. e tomar uma posição a respeito dele. num giro de cento e oitenta graus sobre os próprios pés. teria sido inspirado na primeira experiência . do desencanto de uma geração. as mãos postas sobre o sexo. Apesar dos pesares. supondo que setenta fosse sua conta. para deslizar as costas pela sacada até ficar de joelhos sobre os ladrilhos escuros. Caio pediu para rasgar o contrato e entregou o texto à Brasiliense.em um mês ele publicaria o livro. Ele deixa as coisas em aberto. em 1982. termina com uma esperança. em seu livro. Sim. que finalmente o lançou. Achava que sim. aquele escrito na praia. observando os canteiros de cimento: será possível plantar morangos aqui? Ou se não aqui. Tinha cinco anos mais que trinta. por mais melancólico. Sim. é hora de começar de novo: Poderia talvez ser internado no próximo minuto. Mas era um homem recém-nascido quando voltou-se devagar. absolutamente claro. de repente. Morangos mofados. Caio. E sempre aquele rótulo ajudando o livro a vender: o retrato de uma geração. deixa apenas fotografadas. entre caminhadas ao sol e porções de arroz integral. Um dos contos mais marcantes do livro. é um atestado de que o mundo pode dar certo. era hora de olhar para trás e rever o momento que passara. Sargento Garcia. procurar algum lugar em outro lugar? Frescos morangos vivos vermelhos. Estava na metade. 0 gosto mofado de morangos tinha desaparecido. por mais triste. Que sim. Publicado. que vira a revolução acabar antes mesmo de ter qualquer chance de dar certo. Abriu os dedos. Mas seu livro. sucesso de vendas e de crítica. as emoções de uma época. não toma essa posição. Absolutamente calmo. no ar. Como uma dor de cabeça.

com lençóis sujos e um rolo de papel higiênico na cabeceira. uma vez desperta. travesti de Porto Alegre que mantinha uma casa de prostituição.homossexual de Caio. num domingo à noite. para sempre e sempre assim. como os reflexos escondidos. tentando apanhar um farrapo de voz na plataforma da estação cada vez mais recuada. o portão azul. em 1998. o vidro rachado. "Me fez segurar o pau dele e eu saí correndo". Caio foi. A revelação. que nenhum ofuscamento se fizesse outra vez. a mulher que aparece no conto. nada tem de perigosa. Quando tinha 16 anos. a própria Luiza. porque devia ficar enjaulada amordaçada ali no fundo pantanoso de mim. tão longe como se eu estivesse na janela de um trem em movimento. é possível que o lugar a que o escritor se refere seja a casa dela. em Porto Alegre. O tal puxou papo com ele e marcou encontro para três dias depois. conta Caio. sem conseguir juntar os sons em palavras. "Me jogou em cima da cama. a madeira descascada da porta.. Como o conto é dedicado à Luiza Felpuda. feito bicho numa jaula fedida.] barulho de copos na cozinha. No conto. ou dolorida: . os quatro degraus de cimento. morrendo de curiosidade. no centro da cidade. entre grades e ferrugens quieta domada fera esquecida da própria ferocidade. em 1995. como uma língua molhada nervosa entrando rápida pelo mais secreto de mim para acordar alguma coisa que não devia acordar nunca. como uma língua estrangeira. porém. nojento.. e Isadora. Embora eu soubesse que. O homem o levou a um lugar horrível. Ao menos foi isso que ele contou em entrevista à Marie Claire. O conto traz em si a história dessa descoberta: [. completamente sem romantismo". mas longe. ele foi seguido por um homem. porém. Mesmo sem saber direito o que iria acontecer. que não devia abrir os olhos nem sentir cheiros para sempre surda cega muda naquele mais de dentro de mim. alguém gritando alguma coisa. o escolhido para viver o sargento seria o ator Marcos Breda. Quando Tutti Gregianin decidiu filmar o conto. não voltaria a dormir. o sargento Hermes. Caio transforma o tal homem em um sargento.

repeti sem entender. Em São Paulo. pensei confuso. Tinham se conhecido no início da década de 80. e depois Jacquéline Cantore. Escritores. Na casinha da Melo Alves. chamando Cida para almoçar. decidi. ao ficar fascinada com o conto Eles. Ela era uma garota jovem. por causa do relacionamento que mantinha com uma pessoa de lá. como escritor respeitado. Uma vez desperta não voltará a dormir. ainda que maldita: Queria dançar sobre os canteiros. amanhã sem falta começo a fumar. todos querem ser seus amigos. Embora diga aos amigos que prefere se resguardar. E ninguém me conhecia. olhando as casas e os verdes do Bonfim. estiquei as pernas. Caio circula bastante por essa época. que tem horror às rodinhas literárias. Subi correndo no primeiro bonde. ou bater papo. Pedi passagem. Mas não sentia nada. Ficou sozinho por um tempo. amiga de tempos antigos. ela é que chamava. Embora paulista. Em 1980. artistas. fã de Caio. As vezes. Caio dava um grito do quintal. 0 bonde guinchou na curva. sem saber para onde ia. debruçado na janela aberta. Era assim. escrevera uma carta e entregara junto com . a libertação. atores. Amanhã. De seu quintal. Eu nunca o tinha visto em toda a minha vida. sem esperar que parasse. de O ovo apunhalado. Cida ia bastante a Porto Alegre nos anos 70. Porque ninguém esquece uma mulher como Isadora. então. O que é descoberto é um caminho. podia enxergar o apartamento de Cida Moreira. Como guru involuntário de uma geração e. Às vezes. meu caminho não cabe nos trilhos de um bonde. também. Morangos mofados consagra Caio. Ele já rodava bastante antes mesmo do livro sair. uma forma de viver. mudando de emprego e de casa como quem troca de par de meia. por exemplo. vieram morar Orlando Bernardes. quando ela. sucesso de crítica e público. na verdade. qualquer coisa assim. Caio fora morar numa casinha de vila na Melo Alves. Eu não o conhecia. cantora. Meu caminho. cheio de uma alegria tão maldita que os passantes jamais compreenderiam.ela traz. sentei.

Ele sofria muito. então. O escritor criava expectativas em torno das pessoas e das situações. Ficaram um ano e meio na casa. ou caminhar. suplemento literário publicado pela editora Brasiliense. papéis. porém. jornais. Só que em 1977 Bertoni morreu em um acidente de carro. Mas. em Porto Alegre. As tentativas de suicídio de Caio nunca foram levadas muito a sério por seus amigos mais antigos. em Porto Alegre. chamavam o lugar de O Inconsciente. Chegou a aprender. do teatro que Caio montava ao redor de si mesmo. ficava muito tempo sem ser utilizada. Em São Paulo. e é claro que suas idealizações iam muito além da realidade.um presente na casa dos pais de Caio. em Santiago do Boqueirão. inteiro. se sentia bem. talvez. Na época da casa da Melo Alves. se trancava no quarto dias e dias. Caio tinha também uma moto. quando podia pagá-los. guardavam cartas. Ele não dirigia carros. e fazia o que podia para se sentir bem. Caio Túlio Costa sai da edição do Leia livros. que adoravam. aprontava: ameaçava se matar. Mesmo a moto. Em São Paulo. Em Porto Alegre. da cena. Uma verdadeira drama queen. Não que ele gostasse de estar deprimido. Caio retomou a psicoterapia. e depois a substituiu por dança. então. sempre que tivesse platéia. Caio ficou muito abalado. Intensamente. por causa disso. Caio. pois foi exatamente no final de 1977 que ele voltou para o Sudeste para trabalhar na POP. Talvez essa perda tenha apressado a ida de Caio para São Paulo. Ônibus. Em novembro de 1981. Embaixo da escada. ele odiava. o pai o deixava dirigir seu carro de vez em quando. Caio preferia táxis. Ele ligou para agradecer e desde então começaram a se corresponder e ficaram amigos. As aulas ajudavam-no a sobreviver. . ou mais íntimos: era parte do show. e ele sempre se frustrava. muito menos. Caio não chegava perto do volante. Mas era assim que ele gostava de viver. E isso muitas vezes o levava àquelas depressões intermináveis. Gostava de dançar. às vezes. fizera dois anos de psicoterapia com Mário Bertoni. Caio então é chamado para substituí-lo e aceita. teatralmente.

que a levou a se jogar da janela de seu quarto em outubro de 1983. Além de muito culta. O Rio de Janeiro. como escreveu um livro totalmente diferente de Morangos mofados. Seu livro A teus pés foi um sucesso. violentíssima. Caio decide se mudar para o Rio de Janeiro. sentia falta de tudo — dos amigos. mais uma vez. na deusa. Em maio de 1983. Caio ficou ofendidíssimo. aos 31 anos. Ele tinha essa relação de amor e ódio. com São Paulo e Porto Alegre. Mas ainda é maio. o livro que pouca gente entendeu. estavam interessadas no personagem Ana C. da Brasiliense. para estar perto. Imagina se ele ia se entregar desse jeito ao mercado. Era o Triângulo das águas. ele tentou. de novo. não as suportava. sabendo que a situação de Ana é delicada. da qual Ana era muito consciente. belíssima. Mesmo assim. Ela era muito amiga de Graça Medeiros. ele podia — e devia — voltar ao trabalho jornalístico. mas as pessoas. vê ali um nicho interessante. uma vez longe delas. das folhas dos plátanos. A beleza. e quer repertir a dose. que sabia o quanto era sedutora. das coisas a se fazer. mais que interessadas nos poemas. São Paulo estava cansando. Ana era bela. Ana Cristina está deprimida. Nessa época.Morangos mofados já estava terminado. ele amava. na beldade. E esse pode ter sido um dos motivos que contribuíram para a depressão. drogas e rock'n'roll. Caio conta que. Caio Graco. mas não conseguia morar lá por muito tempo. Graça cuida dela. Tão ofendido ficou. quando o livro estoura. que por sua vez era grande amiga de Caio. por que você não escreve outro livro na linha sexo. e assim o círculo se completou. Uma vez nelas. Todos se deixavam hipnotizar por ela. e é um sucesso. Caio se muda para o Rio para ajudar a cuidar. Caio estava muito próximo da poeta Ana Cristina César. ou de ódio e dependência. grande ensaísta e poeta. . Em entrevista ao Estadão. Pede a Caio: — Ei. passou a ser uma maldição. que não só saiu da editora.

trêmula. chorosa. corre uma história em que ela. por mais natural e integral e macrobiótico que Caio pudesse tentar ser... onde moraram Rita Lee e Raul Seixas. e estivesse no Rio em parte para ajudar a cuidar dela. Something like that. ele adorava um bom churrasco. eu era um poço de saúde ao lado dela. zombando de si mesmo: — Fala grosso. Ainda que amasse muito Ana Cristina.] Parece Isabelle Adjani em Nosferatu. Caio se irritava. E lúcida. em crise. Nunca vi ninguém tão frágil. Caio vai à festa. Com toda minha gripe. por vezes. no hotel em Santa Teresa que Caio escolhe como moradia — um hotelzinho hippie. Magra. Não sei contar direito. veado! E a terapia que ele imaginava para Ana C. a situação entre os dois não era sempre um soneto de amor e paz. sempre irônico." Caio e Graça Medeiros conversam. tipo te fresqueia. toma uns mates." A terapia Fala Grosso Veado. dá pra entender? Recomendei uma brahma na esquina com uma coxinha e um dreherpra rebater. Se ele a usava para sair de suas próprias depressões. Ele descreve o encontro em carta a Jacqueline Cantore. dança uma chula. "Ana C. e em seguida passa-lhe uma descompostura. prenda. Era aniversário de Ana Cristina. consumida.. como os amigos sabiam. Caio às vezes gostava de falar. somos mais por uma terapia bageense. é algo a se conjecturar. certo dia..[. . Caio a segura. come uma costela gorda. com as depressões de Ana. mas troppo morbo.Ana vai visitá-lo. ameaça se jogar da janela. MAL. Põe mal nisso. Porque tá uma crise sensível demais. Imagina uma alface (ela) ao lado de uma costela gorda (eu). naturalmente. ia mais ou menos nessa linha: ". Há pelo menos um outro. uma tirana do lenço. mas é bem possível. melhor ainda. E esse não seria o único estremecimento entre os dois. relatado por Caio em carta a Jacqueline Cantore. depois que começa a ser sugada. Se houvesse um whisky pra completar. linda. têm uma idéia de terapia para Ana C. te joga nua no açude na hora da sesta.

— Estou.onde conhece um rapaz — identificado apenas pela inicial T. — Vocês vão se ver mais? — Marcamos um encontro amanhã. — Sinto muito. Graça Medeiros leva Ana até o hotel em Santa Teresa. — O que está acontecendo entre você e T. Como a atriz Kate Lyra. há QUATRO anos? — Sei. Caio tem muitos amigos no Rio. para ver se os dois voltam a se entender. — Então tchau e feliz aniversário.. vamos embora? Eu não estou gostando nada disso — disso sendo. Outras pessoas aparecem no hotel. — Me permite um conselho? — Pode ser.. se despede com uma bomba: "te encontro amanhã às quatro no Amarelinho". na época esposa do compositor Carlos Lyra. T. — Não vá a esse encontro. Ela achava o máximo que ele tivesse se mudado para um hotel para . no livro de cartas. está na festa com o namorado. No ouvido de Caio. Caio engata uma conversa animadíssima com o tal T. Não é a última vez que os dois se vêem.: — T. Não se importando muito com a longevidade da relação. As pessoas em volta olham. Caio vai ao banheiro. — Você está me expulsando. De repente chega L. amigos do Rio. retire-se imediatamente. — Então. Ana Cristina vem falar com ele. Na volta. A situação se ameniza. em setembro. por favor. mas vou mesmo. — Você sabe que ele vive com L. sem ressentimentos. só isso. No aniversário de Caio.. obviamente. o Caio. T. Três horas de conversa. ele me disse. desconfiadas. É o último encontro dos dois. Além de Graça e Ana. L.? — Achei ele ótimo. que ficou famosa em programas humorísticos na TV pelo bordão "Brasileiro é tão bonzinho!". com quem vive há quatro anos.

praticamente da família. Pedro Paulo. Mais que editor. adquirisse tanta cultura. nem parece que você leu Proust. Não era futilidade. Flaubert. E é claro que o editor não levava . Em uma das ocasiões que questionou esse lado de Pedro Paulo. Tanto que Mário Prata e Caio. achava muito fútil todo aquele ambiente de coluna social. Stendhal. se interessava por filosofia. Aí Caio entendeu. organizadíssimo. o próprio. era frivolidade. Um dos aspectos do ambiente que permitira que Pedro Paulo. ele e seu texto eram uma coisa só. Adorava também Carlos Henrique. companheiro de Pedro Paulo. de alta sociedade. começou a lê-los por causa do Caio. Caio não inventou um personagem. editou os livros de Caio na Nova Fronteira. que vinha de família tradicional e endinheirada. que nunca tinha dado grande atenção aos beatniks. Machado de Assis. Havia muitas afinidades entre os dois. criaram um papel só para ela. de uma cantora de rock russa. é claro. entre outras coisas. Conversavam de literatura — o lado pop escondia a conhecimento profundo que Caio tinha dos clássicos. mas a amizade perdurou. que adorava ironizar a origem do amigo. E Pedro Paulo. Proust também. além de linda. A novela acabou não se concretizando. e. Madame Bovary era frívola. era amigo de Caio. espontâneo. Proust. e Caio adorava visitar Pedro Paulo em seu apartamento no Leme. porém. engraçado. Ficaram amigos imediatamente. a mesma falta de cisão que havia em sua própria personalidade: a biografia de Caio não era separada da obra. por literatura. que conhecera o escritor por indicação de Lygia Fagundes Telles. que ao saber da visita do escritor já preparava o conhaquinho que ele adorava. governanta. No caso de Pedro Paulo. via nele a mesma unicidade. Ele gostava de criticar os amigos que começavam a ganhar dinheiro: dizia que tinham se vendido ao sistema capitalista. e ele adorava o jeito dela. quando foram chamados para escrever uma novela com José Wilker. Kate era inteligente. Outra amizade importante é o editor Pedro Paulo de Sena Madureira. Era louco por D. este respondeu: — Caio. Maru.escrever.

em Morangos. Pela noite. a situação melhorou: o livro ganhou o Prêmio Jabuti. A primeira novela. o prêmio. Um título estava pronto. esse fluxo de palavras. até por ser um livro construído sobre uma estrutura astrológica.a sério toda aquela mise-en-scène. Morangos tem um realismo que as novelas do Triângulo não buscam. Hoje em dia. — São os textos das águas — emendou Caio. Dodecaedro. sobre os arquétipos dos três signos do elemento água. Só faltava o título. além de prestígio. o livro estava pronto. a Escorpião. Caio teria ficado muito feliz em receber uma quantia assim. O marinheiro. narra a . mas como ainda não havia. A primeira das três novelas. O triângulo das águas causou estranheza. O triângulo das águas difere em tudo de Morangos mofados. que disse: — Caio. a começar pelo tipo de texto. a Câncer. — Triângulo das águas — completou Caio. na época. Dodecaedro. Quando Caio entregou O triângulo das águas. Mas assim que o livro foi sendo absorvido. confere uma quantia em dinheiro aos ganhadores. Tinha grande domínio e preocupação com a forma. a segunda. Por todas essas diferenças. se refere ao signo de Peixes. é uma escolha de Caio: ele busca esse jorro de água. sabia o que estava fazendo. — São três? Triângulo. como é que não tem título? Chove nas três histórias. são contos. A terceira. e no Triângulo. em contraste com os contos mais diretos de Morangos. e as comparações com Morangos sendo deixadas de lado. O excesso de palavras do livro. Caio era um escritor que não dava trabalho aos editores: entregava o texto praticamente pronto. por exemplo. Levou o material para Pedro Paulo. ele ficou mais que feliz com sua estatueta. São três signos de água. três novelas. um dos mais prestigiados do país.

todas as horas. A segunda novela. por causa de um personagem de Cortázar. uma mensagem. e as emoções que atravessam em determinada noite: as paixões e tendências e medos de cada um vão se desvendando aos poucos. solitário. O marinheiro. Dois amigos de infância. em uma sauna gay. Ele vive uma tumultuada vida amorosa. durante todos os dias de muitos meses e anos. que vem como um profeta. e que em certo dia recebe a visita de um marinheiro. foi para São . E provavelmente foi também o primeiro texto de um autor brasileiro a falar da doença. E se foi. esse vagar. conta-se como. seus medos. em que ele é Pérsio. sem parceiro fixo.história de doze amigos juntos em uma casa. também. Conquistara esse verde. O dono do apartamento onde ocorre o encontro arma um jogo de sedução. imóvel.. [. por causa do personagem de Garcia Márquez. inquieto. na novela Pela noite. Tocou de leve na minha mão estendida. vindos do Passo da Guanxuma — muito parecida com Santiago. mesmo cercado de amigos. Combinam de se ver de novo. como a Macondo de Garcia Márquez — se reencontram anos e anos depois. olhou detidamente o mar. antes que seja tarde demais. suas inseguranças. através da vida do homem que decidiu se encerrar em casa. o aviso guardado para sempre na memória das paredes: — Abraça tua loucura. revelando suas culpas. enquanto ouvia. Tinham a cor exata de quem. O triângulo das águas foi também o primeiro livro de Caio a mencionar a aids. depois de ter sido noivo de uma mulher por seis anos. era a cidade fictícia a que Caio sempre se referia. E ao contar-se a história de cada um. para lhe trazer a boa nova.. e o outro é Santiago. enquanto Santiago. Pérsio fala e fala. mesmo assim recomecei a chorar. para fugir das dores e paixões do mundo. aborda também o tema da solidão. o ser humano está sempre sozinho. um jogo em que eles assumem outras identidades. suas palavras jorram incessantemente. por muito tempo.] Não estava triste. em São Paulo. outra vez. Seus olhos tinham a cor do mar.

marcada não só pela doença. uma doença devastadora que só atingia homossexuais. Essa estabilidade. E no Brasil. Ele e outros hóspedes ficavam bebendo e conversando. Pérsio não a tem. lamentando a morte do estilista. e talvez a inveje. A partir daí. a todos que levavam uma vida libertária. suspense derivado. E contaminados estavam todos. Cheio de culpas e medos. a aids. castigo aos gays. A aids parecia castigo divino. já se ouviam rumores sobre o que a mídia passou a chamar de "câncer gay". Três anos depois de acabar. ele não a entende. começou-se a achar que a doença tinha algo a ver com esse "comportamento" ou com essa "identidade" homossexual. é ele que menciona. Quando mais pesquisas foram feitas e se descobriu que a contaminação também podia atingir heterossexuais. Aqueles que tinham experimentado o amor livre. ninguém podendo entrar nem sair do hotel. A vida do pessoal egresso da contracultura estava mudada para sempre. ao seu final. embora ainda envoltas em suspense. Como a única coisa em comum que as primeiras vítimas tinham era o fato de serem homossexuais. As notícias chegavam rápido ao Brasil. mas também pela abertura política e pelo desvanecimento dos sonhos da contracultura. e sobre como ele agia no organismo. Desde o início da década de 80. as drogas. sobre o vírus causador da doença. da ignorância: pouco se sabia sobre as formas de contágio. tudo a que tinham direito. realmente. a década de 70 chegava. duas ou três vezes. a paranóia só aumentou. o marco da chegada da aids foi a morte do estilista Markito. a partir do momento em que se diagnosticou o vírus. de certa forma. estavam agora condenados a viver sob a paranóia da contaminação.Paulo e ficou dez anos junto de um homem. uma chuva abundante caindo. essa tranqüilidade em lidar com a própria identidade sexual. pelo medo. a vida em comunidades. Quando soube da morte dele. aos drogados. para a qual não havia cura. o estrago já estava feito. . Caio estava no hotelzinho em Santa Teresa. na verdade.

Como se Ana não aceitasse. o escritor assemelhava-se mais a um punk. nos novos acontecimentos. dos Titãs. Em outubro de 1983. que vão lançar suas obras e autografá-las para o público. O triângulo das águas já tinha sido publicado. A feira. Ele viveu os anos 80 com a mesma intensidade com que vivera os 70. Há muito já não era o hippie de cabelos longos. para algumas pessoas. ou a um dark. havia a aids. ou não pudesse aceitar a mudança. E do grupo teatral Asdrúbal Trouxe o Trombone. Além de reunir muitos escritores. A escritora Clarice Lispector o chamara de Quixote. congelando sua Imagem nos doces anos em que se podia pensar em mudar o mundo. por exemplo. O sangue de uma poeta. Estava ligado no seu tempo. Muitas editoras organizam seus lançamentos em função do evento em Porto Alegre. Ao lado de Caio no lançamento de um de seus livros. Caio também escolheu mudar. Infelizmente. e um orgulho de seus habitantes. ela se matou. Era fã. o medo dela era tão parte dos anos 80 quanto qualquer música da Legião Urbana. por exemplo. é uma tradição em Porto Alegre. é a grande oportunidade de comprar livros a preços mais baixos que no resto do ano. era entusiasta das novas manifestações.Em seu perfil de Ana Cristina César. calça e jaquetas de couro. ela ficava sussurrando para ele: você é Quixote! Você é Quixote! Agora. Cazuza. a música. Adorava Marina Lima. como Fernando Gabeira. também. e Caio foi a Porto Alegre lançá-lo na Feira do Livro. parecido com Jesus Cristo. que volta do exílio exibindo sunga de crochê nas praias do Rio. . ítalo Moriconi escreveu que a morte de Ana foi um marco. madrinha da noite. em barracas ao ar livre na praça. A maioria escolheu mudar. porém. Acompanhava o teatro. roupas sempre escuras. Porque era mais ou menos isso: mudar ou morrer. por causa de sua barbinha. e todos os anos a escolha do patrono da feira causa grande expectativa na imprensa e nos círculos literários locais. do fim da década de 70.

Precisava dividir o sentimento com alguém. na entrevista. ao gesto máximo do desespero. chorou convulsivamente. O estado emocional de Ana. meio mágico. ele parecia ser meio bruxo. de coincidências inexplicáveis. Jogou-se da janela da casa dos pais. no sétimo andar. Caio ficou desnorteado. Não é incomum. eu vim aqui te contar que a Ana se matou. Às vezes. Caio resolveu procurar Bruna. Mas talvez Caio não imaginasse que a poeta chegaria ao ponto extremo da dor. "Tinha um toldo. Sempre que Caio estava em Porto Alegre e ela aparecia na cidade. que estava na feira acompanhando Mario Quintana. você tem que ler esse livro' — e puxou da bolsa um exemplar de A teus pés. a presença de um toque estranho. onde se recuperava de outra tentativa de suicídio. A atriz tinha escrito alguns livros. — Bruna. e desde então tinham se tornado grandes amigos. quando se trata de histórias envolvendo o Caio. dos quais Caio gostara muito. que o entrevistaria anos depois. E assim a notícia foi dada a Bruna. quando o próprio Caio viria a ser o patrono da Feira do Livro. Talvez não imaginasse que ela conseguiria. o livro de poemas de Ana C. feita na semana anterior. passear. ele diria ainda. pela ingestão de remédios. levava-a para sair. e o Mario Quintana lindo. Ao menos na versão que Caio contou para o jornalista Eduardo Sterzi. todo mundo transpirando. jantar. mas. Quando o viu. Bruna abriu a bolsa e disse: — Olha que estranho: quando eu estava saindo de casa para pegar o avião. ele a buscava no aeroporto. ao mesmo tempo. A "mágica" da lembrança não aparece aqui por acaso. De qualquer modo. e aquela coisa estranha no ar. Caio chorou. a dor que ela sentia. você me veio na cabeça dizendo 'Bruna. o jornalista José Castello viajaria para a Europa no mesmo avião de Caio. Então Caio se lembrou de Bruna Lombardi. Caio recebe um telefonema: Ana Cristina César está morta.Um dia depois de lançado o livro. Nos anos 90. não era surpresa para ninguém. e a Bruna linda. meio mago. Ele conhecia . E uma lembrança triste. mas quem? Os amigos em comum com Ana Cristina estavam todos no Rio. mágica".

que o tocava profundamente. é que a morte de Ana Cristina foi um fantasma que o perseguiu por muitos anos. Deus. ou mesmo de outros autores. E se apaixonou. junto com o amor. ele escreveu a Jacqueline: "E não conseguir dormir: na minha cabeça. da poesia de Baudelaire. certa raiva.o escritor de vista. algo que o inquietava. para quem a morte foi sempre o grande tema. e ao banheiro mais distante da sua poltrona. que tanto apelo tem junto a certos tribos urbanas. que tinha uma arma para sobreviver — a literatura —. A medida que o tempo passa. depois amigos de amigos. Quando ela morreu. com que direito ela fez isso? Logo ela. E foi esse lado que. e assim se desculpava antecipadamente por eventuais mentiras ou fantasias. coisa que pouca gente tem. que o interessava. o Caio. negra. Castello não se atreveu a cumprimentar Caio. Castello ficou fascinado pela figura do escritor: parecia um mago. enquanto Caio botava o taro para as garotas sentadas a seu lado. muito misterioso. Nem sempre é possível separar suas versões da verdade. Talvez herança do romantismo. desde o começo." A imagem da morte perseguia Caio. era uma obsessão. Por mais que ele insistisse na vida. a obsessão fica mais forte: pessoas de quem só ouvimos falar começam a morrer. Ficou apenas observando. apenas para passar em frente ao escritor e poder dar uma boa olhada nele. se atormentou pelo fantasma de Ana C. com tanto ódio quanto freqüência. também. Ecos de Edgar Allan Poe e sua literatura sombria. por fim os . em seus incensos. poetas amados por Caio. Um bruxo. Uma verdade incontestável. no entanto. parada à beira de uma janela. como os góticos. Pensamentos mórbidos: o que ela teria sentido um segundo antes de se jogar no espaço. poetas malditos. pela aids. se alojava em seu lado escuro. Essa idéia de morte romântica. Com que direito. Tímido incurável. Caio falava e falava nela. mas ia ao banheiro com freqüência. suas macrobióticas. Ana C. havia um lado seu que era obcecado pela morte. calava fundo em Caio. Depois do choque. Dizia-se um hedonista. de certa forma. de Rimbaud.

. E mulheres. loucamente apaixonado. a odeia. Sofria de rejeição. sim. e por isso às vezes acabava escolhendo algum que não era homossexual. eu estava certo de que não existia. gays mais sóbrios. Sofria de paixão. como um ladrão. ronda. Havia mulheres. Caio chegou a namorar sério . a única coisa que não pode fazer é ignorá-la. não era para mim". era ator. [. como Deus.. escreve a Maria Adelaide Amaral. A doença espreita. Ou que. ao se apaixonar. Porque quem ele queria gostava de homens. mas não queria compromisso sério. Algo assim. se aproximando.] Eu pensava que não existia. às vezes.. em graus de comprometimento variados. Chegou a sustentar três ou quatro casos ao mesmo tempo. para se divertir. A beira dos 35 anos. Atendia pelo nome de Ivan Mattos. na noite. Porque quem ele escolhia só gostava de mulheres..Também porque aconteceu uma coisa que. Caio sofria. e tinha uns olhos que mudavam de cor. Porque quem ele queria gostava de homens também. em geral não muito alto — o que não quer dizer que não estivesse perdidamente. mas para ficar. e se revolta contra ela.próprios amigos. Por várias pessoas ao mesmo tempo. esperando o momento certo de entrar na casa. e sempre. se existia. fala sobre ela. ". mas só de vez em quando. Ele se apaixonava muito. o motivo. Gays mais espalhafatosos. Touro ascendente Capricórnio. Caio preferia os homens mais másculos. e Caio estava perdidamente apaixonado. Caio ficava com vários tipos de caras.. Porque tudo que vivi e senti antes me parece agora bobagem. Imagino que isso que chamamos de amor. eu pensava que não existia. sofria de amor. Caio tinha um motivo a mais para ir a Porto Alegre em outubro. as pessoas com quem dividimos casa e comida. O motivo tinha vinte e poucos anos de idade. mais viris. muitas vezes — porque quem ele queria não o queria. brincadeira. Caio sente essa sombra se aproximando. sofria. começam a ficar doentes. Há quem diga que. além de lançar seu O triângulo das águas na feira do livro. Não que Caio não se apaixonasse muito antes de conhecer Ivan.

ansioso. Caio sempre repetiu que não acreditava em homossexualidade OU heterossexualidade: acreditava. "Me jogou na cama e me estuprou". contou o escritor. Houve paixões. que sua primeira experiência sexual teria sido com uma mulher. mas ela não o deixou falar uma palavra. houve algumas mulheres de quem gostou. Ele contaria em entrevista à Marie Claire. Houve Maria Emilia Bender. Na época em que escreveu Morangos mofados. ou do amigo com quem viveu fatos muito parecidos.algumas delas. isso sim. sempre construindo castelos em cima de nuvens. sem que nada no conteúdo do texto justificasse aquela dedicatória específica. paixão que aconteceu mais por carta que pessoalmente. Uma amiga veio até sua casa num domingo chuvoso. que a apresentou ao escritor. e solidão." Em muitas entrevistas. de Morangos mofados. Cacaia era amiga de Graça Medeiros. Houve homens. desde o início dos anos 70 até o final da vida. Podia ser uma lembrança da pessoa que o inspirou a escrever a história. Houve também Vera Antoun. pensara em se casar e ter filhos. Caio vivia seu caso com Cacaia. são dedicados a alguém. inclusive. em 1995. como ele escreveu em vários textos. Houve mulheres. ele dedica o livro Morangos mofados. nada mais natural que o livro fosse dedicado também a ela. Ele tinha 19 anos. E decepções. e com quem o escritor. e a maior parte dos seus contos. Esse tipo de homenagem era constante na literatura de Caio: todos os seus livros. Maria Clara Jorge. Um exemplo é o conto Além do ponto. "Foi ótimo. Embora ele tenha tido clara preferência por homens a maior parte da vida. em sexualidade. Houve uma arquiteta. não por rótulos. e bate na porta. a Cacaia. cujo apelido era Pifa. levando cigarros e conhaque. já morava em São Paulo. debaixo de chuva. Caio abriu a porta. ou simplesmente uma forma de expressar carinho. Para uma delas. Pessoas se apaixonam por pessoas. em que o protagonista vai até a casa de alguém. Ele chega. .

E bati. e bati outra vez. Os dois se separaram. porque é mais ou menos nesse período. outra ação. mas tinha esquecido seu nome. e Caio voltou à sua desastrosa vida afetiva de sempre. era tudo um engano. nem tentar outra coisa. em Porto Alegre. outro gesto além de continuar batendo batendo batendo batendo batendo batendo batendo batendo batendo batendo batendo batendo batendo batendo nesta porta que não abre nunca. isso tudo não fascinava Ivan. depois do ponto. e nas idas de Caio a Porto Alegre. talvez eu tivesse febre. eu só estava parado naquela porta fazia muito tempo. ele acompanhou a montagem do amigo Luciano. eu quis chamá-lo. dirigida por Luciano Alabarse. pelo meio da cidade. tudo ficara muito confuso. e continuei batendo sem me importar que as pessoas na rua parassem para olhar. Caio conheceu Ivan. de temperamento — venceram. as depressões de Caio eram um fardo pesado demais a carregar. os poços profundos onde ninguém entrava. que ele convive com Cacaia. Ele viajou com o escritor para o Rio. e tornei a bater. em que Caio mora no Rio de Janeiro. mas no final as diferenças — de idade. A peça estava sendo encenada dez anos depois de ter sido proibida pela censura dos militares. idéias misturadas. mas eu não ia mais indo por dentro da chuva. se é que ele o teve um dia. E em 1983 a paixão principal — não se pode afirmar que fosse a única. tão escuro agora que eu não conseguiria nunca mais encontrar o caminho de volta. eu continuava batendo e continuava chovendo sem parar. se é que alguma vez o soube. tremores. que conhecia desde os tempos em que freqüentava o Centro de Artes Dramáticas (CAD). mas o assustava. de Caio. por exemplo — é Ivan. Para a juventude de Ivan. água de chuva e lama e conhaque no meu corpo sujo gasto exausto batendo feito louco naquela porta que não abria. O jovem ator — na época com vinte anos — participava da montagem da peça Pode ser que seja só o leiteiro lá fora. os dois se apaixonaram. O lado escuro. Foi uma das mais longas relações de Caio de que se tem notícia — durou pouco mais de um ano — e mesmo assim não foi uma relação fácil. e o afastava de Caio. Não sem antes pedir de volta a Ivan as . ficou alguns meses com ele.

tímido e arredio. E ele era compulsivo em relação a escrever cartas: adorava conhecer pessoas novas. 13 anos. de questionamentos sobre a existência. estava. Caio era sempre muito mais sensível. frágil e aberto que pessoalmente. de mistérios. um universo cheio de brumas. Ajudou também o fato de que. numa referência à adolescente alemã Christiane F. assim como outras escritoras de renome.. em que ele se expunha muito. com direção de Luciano Alabarse. claro. embora já não estivessem mais juntos quando o texto foi levado ao palco. A adaptação de Caio foi muito bem-sucedida. de várias páginas. Lya era amiga de Caio. que seria levado ao palco no ano seguinte. às vezes. um pouco. principalmente com a de Hilda. Nas cartas.. drogada. porque assim tinha mais gente com quem trocar correspondência. que já dirigira a montagem de O leiteiro. O texto era Reunião de família. pelas similaridades existentes entre seu universo e o de Lya Luft. Cada . mais derramado. em 1984. Entre os atores escolhidos para atuar em Reunião de família. era mais engraçado. muitas vezes. como Caio F. Christiane F. cuja história é contada no livro Eu. Ivan. Na pequena temporada que passou em Porto Alegre. prostituída. já sabendo quem seriam os atores de antemão — Luciano os havia escolhido — Caio podia escrever o papel de cada um pensando nas características de cada ator. talvez. Caio escrevia três. Assinava. com medo. como Lygia Fagundes Telles e Hilda Hilst. era discreto. Caio aproveitou para tentar uma coisa nova em seu trabalho: a adaptação do texto de outra pessoa. Todas tinham grande apreço por ele e respeito por sua obra. nas cartas. e eram cartas longas.apaixonadas cartas que tinha escrito a ele. Ao vivo. de Lya Luft. A literatura de Caio tinha vários pontos em comum com a delas. de que aquilo pudesse ser usado contra ele de alguma forma. talvez. mais solto. quatro cartas por dia. ele e Caio ainda namoravam quando o escritor começa a adaptar a obra. escrito pelos jornalistas Horst Rieck e Kai Hermann..

mas nossas — minhas e de Caio Fernando Abreu — adquiriam uma nova vida. deixavam de ser aquelas figuras torturadas que habitavam o livro original. nem por isso. alguns de forma direta. sozinho num verão escaldante. agora já não unicamente minhas. Caio mostra algumas de suas obsessões. [. No final..] Nas noites. depois de anos.. Fala do mergulho que deu numa história de amor tão linda que era como se fosse a primeira. ajudaram no sucesso da peça.fala. Nele. No texto. no sobrado de meus pais. elogiando o trabalho de Caio. senti que aquelas personagens. Acho que Caio conseguiu uma coisa rara: uma adaptação que me pareceu. outros em linguagem cifrada. e a autorização foi dada. Lígia e Ana C. Carlinhos. era pensada para aquele ator específico. a vida e a dimensão das figuras de teatro. emboscada entre objetos familiares de muitas gerações. que poucas vezes tinham a chance de fazer um papel que se ajustasse plenamente às suas características e potencialidades. aos poucos. a partida súbita de Lígia Averbuck. a fuga incompreensível de Carlinhos Hartlieb. uma nova dimensão. no ano seguinte. além de serem uma oportunidade rara para os atores de teatro. assim. é a ele que se refere. de volta ao quarto de onde saí para a estrada. a fascinação pela morte. todas as horas a morte rondava. Ela fala do medo que tinha de alguém mexer em um texto seu. há textos de Lya Luft. Ivan alega não ter conseguido suportar. mas a confiança que tinha em Caio venceu. Os papéis escritos sob medida. em muitas coisas." Caio também escreve um pequeno texto para o livreto. Mas. no Menino Deus. todo o lado escuro que. Decidi trocar este árido Porto pela . embora não fosse o único lado do escritor. No livrinho que acompanhou a apresentação da peça. mais expressiva ainda que o livro. Lya ficou mais que feliz com o resultado: "Nos diálogos. Embora não cite o nome de Ivan. do receio que teve a princípio. alude a acontecimentos de sua vida. foram deixando de assombrar. "Encurralado entre o salto pela janela de Ana Cristina César. numa cidade deserta.

fazia uns lances para a Gallery Around.louca Sampa. Risco no céu. E vim à tona com o livro de Marilena Chauí embaixo do braço. Se a vida amorosa era o desastre de sempre. Nunca se soube exatamente do que ele morreu. nem sempre Caio estava 100% feliz com sua sexualidade. house-organ da casa noturna Gallery. a morte que ele teve que enfrentar para lidar com os demônios do texto de Lya. Então colei os cabelos eriçados do punk sobre os cachinhos do arcanjo. Ele chamou a irmã para cuidar da revista. Ela também morreu em 1984. que. na época editada por Zuenir Ventura. em Porto Alegre. por acreditarmos em encontros. no Teatro de Arena. seu corpo foi encontrado na casinha de madeira que construíra. Tão juvenis — graças a Deus. quando coordenava o IEL. ainda somos capazes de fazer. Enquanto ganhava a vida trabalhando na IstoÉ. Era a morte. no litoral de Santa Catarina. provavelmente. nas sextasfeiras. Descobri dolorido que aquele amor não era especial nem para sempre: trocamos em miúdos pobres as juras de eternidade que. Um dos donos da Gallery era José Pascowitch. com o trabalho de Paula Dip e Antônio Bivar. Carlinhos viajou para a Praia do Rosa. Cheio de culpas e amarguras. lançara O ovo apunhalado de Caio em plena ditadura. se tornou um dos veículos mais . irmão de Joyce Pascowitch." Os cachinhos do arcanjo são os cachos de Ivan. uma das primeiras do local. com grupos desconhecidos. E o livro de Marilena Chauí. e que ficou também conhecido por organizar as famosas Rodas de Som: espetáculos à meia-noite. o amor que não era para sempre. Carlinhos Hartlieb era um importante cantor e compositor gaúcho. autor de Por favor. sucesso. No dia 3 de fevereiro de 1984. Logo depois de gravar seu primeiro disco individual. assumindo minha carajá muito mais paulistana que fronteiriça. era Repressão sexual. que Caio leu por essa época. a profissional estava indo melhor que nunca. Lígia Averbuck era a protetora dos escritores gaúchos.

Mas isso era o ganha-pão.interessantes da época. a literatura. em 1987. que aos poucos foi inventando personalidades para cada uma delas. Um dos projetos de Caio. Caio não teve tempo. Beto Ruas e Suzana Saldanha. A história surgiu da coleção que Caio tinha de galinhas pequeninas. Aqueles dois. O filme. homônimo. depois se tornou redator da revista. e com muita ironia. que ele só conseguia chamar de frangas. do sucesso pós-Morangos mofados. da adaptação de Pode ser que seja só o leiteiro lá fora. Além do lançamento do Triângulo. O livro era também uma forma de homenagear Clarice Lispector. que morava na geladeira do Caio. foi dirigido por Sérgio Amon. Filmado em Porto Alegre. em Santiago. no Rio de Janeiro. O livro é a história desse galinheiro. A Gallery Around faria escola com seu estilo elegante e sofisticado. antes de morrer. Caio terminava o roteiro de um longa 35 mm que seria baseado em um conto seu. Caio ganhou várias de amigos ao longo da vida. As frangas é um livro de que Caio gostava muito. o filme foi o único brasileiro a concorrer ao 11º Festival de Cinema Gay e Lésbico em San Francisco (EUA). ia melhor ainda. cada franguinha do livro é baseada em uma franga de verdade. e Caio deu uma força na produção. Morangos mofados também estava sendo levado aos palcos. Além disso. que tinha uma paixão também enorme por galinhas — e ovos — e escreveu vários textos a respeito. Muito premiado. . Apaixonado pelas galinhazinhas. teve pré-estréia em Gramado. em 1986. no teatro Cacilda Becker. porque assim eram chamadas em sua infância. pequenos enfeites de geladeira. já que muitas novas surgiram em seu galinheiro depois da publicação do livro. Caio começou como colaborador. revelando talentos como Barbara Gancia e José Simão. era escrever a continuação das frangas. e tinha no elenco Pedro Wayne. A parte que interessava. o livro deveria se chamar Frangas 2 — a missão. E ele se preparava ainda para lançar o livro infantil As frangas. Assim. Em uma referência a Rambo. ligado nas tendências.

vão a um show de Caetano Veloso ("lindo. diz Caio. Ele não se deslumbra com as estrelas que estão a seu lado. em uma ocasião. Apesar de tudo. de quem se aproxima nessa época. Caio. diretores. se a pessoa fosse interessante. revisava livros. escritores. Ele agora quer ficar ali por um bom tempo. Ela faz a série Joana. analisado e blasé". travesti paulista. ao mesmo tempo.entretanto. e do fim da relação com Ivan. Além do trabalho com a TV. convidando os leitores a assistir ao seu show. mas não pouco importante: Caio era apaixonado por rosas. Nas editoras. decadentíssimo. uma bela casa de dois quartos. Trabalha em um roteiro para Ronda. já um pouco esquecido da loucura que é viver na cidade. Caio está envolvido agora com alguns projetos para televisão. Caio volta a São Paulo. não importava se era famosa ou não. Nos jornais. Está cercado de estrelas. Caio faz uns free-lances de crítica teatral para a IstoÉ. tenta se manter mais reservado. de concluir essa história. Ele a conheceu na noite e adorava conversar com ela sobre a vida. Assim. diz. Os dois chegam a sair juntos. Detalhe singelo. Era apaixonado por jardins e flores. Caio chegou a falar de Claudia e seu trabalho. agora convive com pessoas que o conhecem. Um dos livros que revisou foi Feliz ano velho. não quer virar "moda besta". atrizes. duas mulheres respeitadas e famosas. . adorava Claudia Wonder. E revisão de originais para a Brasiliense. era bom copidesque. Faz também dois roteiros para Regina Duarte. Na casa nova. Caio era amigo de Regina Duarte e Lygia Fagundes Telles. uma série sobre São Paulo com Bruna Lombardi e Carlos Alberto Riccelli. com uma roseira no pátio. começa a trabalhar. Quando começou a escrever crônicas para o Estadão. que manteria anos depois uma coluna na revista G Magazine. no momento. Com a educação impecável que recebera no Rio Grande do Sul. sempre fã de Caetano. em carta a Luiz Arthur Nunes). Vai morar em uma casa alugada do ator Ricardo Blat. bêbado. Depois da morte de Ana C. que faz a música de abertura da série. Caio tinha o português ótimo e era um grande revisor.

Grace Gianoukas. e morava com mais dois . Marcelo teria entregado uns rascunhos toscos para Caio. quer mexer no texto. faz também traduções. Ela estudava em Porto Alegre. que foram publicados de forma quase artesanal quando ele ainda era adolescente. atualizá-lo. ele apenas poliu o texto de Marcelo. Além das revisões de livros. corrigir erros. e o revisa todo. só sairá em 1988. que já lançara anteriormente o livro pela Salamandra. Aos 36 anos. que na verdade ele é que teria escrito o livro. autor que admira. Reedições de seus primeiros livros. A edição sai pela Siciliano.de Marcelo Rubens Paiva. publicado no mesmo ano de seu Morangos mofados. pela boca de defensores fiéis de Caio. deixara o rapaz para sempre paralítico. Perfeccionista. atriz gaúcha. em 1984. O ovo apunhalado era um livro que já tinha história e fãs ferrenhos. afinal. dizia. Ele é. como Luiz Fernando Emediato. O primeiro que o fez chorar em muito tempo. de tantas modificações que foi obrigado a fazer. onde trabalha agora o editor Pedro Paulo de Sena Madureira. que. tanto que a literatura fica meio em segundo plano: seu próximo livro de contos. era um rapaz muito novo e inexperiente. de John Fante. um escritor. O próprio Caio. para uma nova edição de O ovo apunhalado. Então. Uma de que gosta muito é a de Sonhos de Bunker Hill. começam a ser pedidas pelas editoras. mas é preciso aparar algumas arestas. leu o livro em 1982 e se apaixonou imediatamente. Feliz ano velho era seu primeiro livro. Caio já pode olhar para trás e ver que construiu uma obra. Caio concorda em reeditar. É uma fase de intenso trabalho para Caio. A base fica a mesma. no entanto. fazia Artes Cênicas no CAD. desde que faça modificações. aos 20 anos de idade. que a história era um exagero. E um escritor com público cada vez mais fiel. e só foi escrito para contar a história do acidente que. teria contado a amigos. definitivamente. melhorar o estilo. e ele praticamente teria reescrito o livro. Corre a história. ele retoma o livro escrito uma década antes. Os dragões não conhecem o paraíso.

entrou na fila de autógrafos. foi como uma bofetada: apaixonou-se pelo estilo. mas Grace o viu entrar. Em 1983. Um dia ela vinha caminhando. arrastou Grace pelo braço e a levou até a mesa. e também trabalhava no restaurante. Em 1984.. eles conversaram um pouco. agradeciam a presença. e numa das visitas que faria à família. que estava sendo muito elogiado na época. Ele foi muito correto. Mas Grace era natural de Rio Grande. o amigo de Santiago que fora com Caio para a Suécia. Na época. pelas coisas que ele dizia. pela primeira vez. No final. os pratos na mão. ai ai ai! Shell. Tempos depois. Mas foi em frente. irmã de Augusto Rigo. Mesmo assim. Grace convidou-o para assistir ao seu espetáculo O Acre vai à Rússia. os atores abraçavam o público. mas foi ótimo etc etc. um espetáculo moderno. Grace não tinha dinheiro para comprar o livro. saíam juntos. Adorei o espetáculo de vocês. Passou a semana de visita deitada na cama.amigos do curso de Letras. Daí a pouco. não fui ao camarim porque sou muito tímido. apresentou-a ao Caio. mas não lhe deu muita atenção. Grace trabalhava em um restaurante de comida natural. ai meu Deus. Voltou imediatamente. e lá foi ela dar um jeito de abraçar o Caio. de vanguarda. meu ídolo. Dias depois. de verdade mesmo. Grace recebe um bilhete. Meu Deus. pelo autor. cumprimenta. o Caio! O Caio tá aqui. conversaram de verdade. Ele passa. Um dos amigos que moravam com ela lhe mostrou O ovo. Quando leu. quando abriram-se as portas vai-e-vem. o Caio tá aí.. ela achou interessante. só para ver o Caio. ela estava sem nada para ler. Aí foi aquela festa: Grace foi para a mesa dele. muito blasé. quando Caio foi lançar O triângulo das águas na Feira do Livro. cidade que fica a quatro horas e meia de viagem de Porto. Já estava tudo escuro. Ai meu deus. encontram-se por acaso num bar. Caio ia a festas na sua casa. lendo e relendo o livro. quando Caio está morando na casa onde . meu ídolo. Caio vai ao espetáculo. e desde então se tornaram grandes amigos. Era do Caio. e ela deu de cara com o Caio sentado em uma das mesas. tipo faroeste.

que se mudara para o Rio de Janeiro. sempre em greve. trabalhava no show-room. Grace disse para voltarem à noite. Tudo bem. Depois de uma visita a São Paulo junto com o irmão. Disse que Ricardo não morava mais ali. Grace só conhecia o lado meigo do Caio. pois ele é que conhecia o rapaz. para alegria do escritor. Os dois se sentaram no sofá. vamos indo embora — responde Caio.. onde Grace passou a trabalhar. Numa tarde. Todo mundo é Abreu. Grace viu os olhos de Caio transformarem-se em fúrias. — O senhor é Abreu? — perguntou um dos homens. quando Caio estivesse em casa. Quando voltaram. Com Caio. Por essa época. o lado gentleman. Ele a protegia de todas as formas: lhe dava conselhos. Quando pediram para ir ao banheiro. Principalmente Clarice Lispector. Aos olhos de Caio. já empurrando os senhores porta afora.antes morava Ricardo Blat. Ele começou a mudar. mas só entrava em greve. Grace era ainda uma menina. disse que Porto Alegre era pequena demais. . querendo falar com Ricardo Blat. Orlando tinha um show-room de moda. mostrava livros que deveria ler. Grace vem morar com ele. Grace decidiu vir morar de vez. que adorava sua companhia. com quem ele morara na casa da Melo Alves. apareceram dois homens alegando ser oficiais de Justiça. em que se hospedaram na casa de Caio. Ezra Pound. Grace conheceu James Joyce. A faculdade ainda não terminara. ofereceu sua casa. A noite. Clarice Lispector. Caio foi crucial nesse momento: insistiu para que ela viesse. a grossura com que Caio tratara os oficiais. porém. Grace não sabia onde se esconder de vergonha. ela viria a conhecer seu lado agressivo. Airton. — Eu também sou Abreu. O Brasil inteiro é Abreu. Caio foi gentil. Então Caio se justificou. apresentava-a a amigos.. E vamos indo. era garçonete. De dia. aos vinte e um anos de idade. Um dos homens pediu um copo d'água. Um dia. Caio deixou entrar. — Aham. Caio também apresentou Grace a Orlando. ainda sorrindo. bem humorado.

não usava todo dia. o montinho de papéis da esquerda vai diminuindo. não tinha nenhuma droga de sua preferência. Gostava do que era bom: quando podia. Caio tinha antecedentes: por duas vezes. uma cervejinha. ele bate à máquina. a pilha de textos escritos. até os amigos começarem a chegar. Se anoitece. Álcool: sempre. pelo mesmo motivo. e pedir um whisky doze anos. Ao final. a pilha de papéis em branco. de vez em quando. De um lado. ela está intacta. e ficava horas escrevendo. o isqueiro e os cigarros. mas usava. No meio. Tac-tac tac-tac. para ficar acordado. Paranóia ou verdade. o da direita aumentando. Quando há uma ou duas bitucas no cinzeiro. Anfetaminas. fuma um cigarro. Do outro. E assim por horas e horas a fio. jogando as cinzas no lixo. Apesar dos gritinhos da mulherada e do ambiente . exceto pela pilha maior do lado dos papéis escritos. a pequena máquina de escrever. quando deixa a mesa. e estavam ali para plantar alguma coisa contra o Ricardo. chegava bem cedo ao bar. Às vezes cocaína. impecável. à esquerda. As vezes. Gato escaldado. Na maior parte das vezes.Para ele. o cinzeiro. Usava. sabe-se lá por quê. Quando percebeu isso. escrevia em casa mesmo. às vezes. ele tinha sido preso por flagrante falso de drogas. Não que ele não usasse drogas. ele o limpa. tac-tac-tac. plantar drogas para um possível flagrante. sem uma ponta fora do lugar. Ele arruma a mesa. Ao alcance da mão. Um strega flambado. Não era viciado. sim. na noite. aqueles homens não eram oficiais coisíssima nenhuma. Caio bebe um gole de café. cinza. às vezes. quando decidia dormir. substitui o café por Jack Daniels. Caio quis mandá-los logo embora. um bar moderninho de São Paulo. Um bom whisky. No final de agosto de 1984. Caio está fazendo café: é hora de escrever. nas festas. gostava de ir ao Ritz. eram de alguma polícia. Comprimidos para dormir. não via muitos motivos para confiar na polícia brasileira. Maconha. Caio começa a trabalhar fixo na Around. a garrafa e a xícara de café.

Certa vez. escreve a Luciano Alabarse. caída no chão da cozinha. O escritor Mário Prata morava no mesmo prédio. depois de uma noite linda com Pedrinho. estava ajudando a vestir a morta. quem sabe duas ou três semanas. entretanto.metido a chique. seu ídolo. Ficou impressionadíssimo. muito mais velho. acontece uma coisa que deixa Caio muito impressionado. Porta do elevador fecha enquanto sobem os créditos. no corpo morto da mulher. Alguma coisa já não estava lá. autor dos romances Tanto faz e Abacaxis e amigo de Caio. ". falou no assunto por semanas..". E achou que tinha aprendido algo com a experiência: ficado realmente adulto. Os amigos é que foram dar uma força. a última imagem foi a ponta do dedo indicador dele acariciando a ponta do meu dedo indicador através das grades da janelinha do elevador. que nunca tinha visto ninguém morto. ele era filho único." Caio conhecera Reinaldo em 1981. Esse homem é ou não é um romântico incurável? Um sonhador. O escritor Reinaldo Moraes. inclusive Caio. Logo ele. Cena de cinema. Não havia quem o ajudasse: o pai já havia morrido. de ir ao Rio de Janeiro entrevistar Ney Matogrosso.]. Antes que pudesse colocar a carta a Luciano no correio. que trabalhava junto com ele na Brasiliense. foi visitar a mãe e encontrou-a morta. como o lançamento de livros e seminários. esse é um trabalho que ele gosta de fazer: dá a oportunidade a ele. No Rio. tão obcecado pela idéia de morte. no bairro de Higienópolis.. providenciar caixão.. por mais ironia que tente imprimir às palavras. "A alma? Pode ser. Reinaldo e Caio participavam de eventos literários juntos. através de Maria Emilia Bender. vendo que a fila era . Caio e Maria Emilia foram namorados por algum tempo. que morava perto de sua casa e morrera há pouco tempo.. com pessoas cool entrando e saindo a todo momento. surge também um novo amor: Pedrinho. em Porto Alegre. enterro. por exemplo. Ele. De vez em quando. exceto a cantora Elis Regina. [. E a voz dizendo que vem a São Paulo daqui a uma. e ele costumava visitar a moça no apartamento que dividia com Ruy Fontana Lopes e Reinaldo Moraes.

tarde da noite. porém. O espaço era exíguo. decide ir para uma pensão. amigo. E as mudanças não aconteciam apenas na vida de Caio e Grace. Ele pedia para que ela fosse dormir na cozinha. pé ante pé. que morava com ele. deitar-se no espaço mínimo entre a geladeira e a pia e a mesinha e o fogão. disse ele a Grace e às amigas que dividiriam com ela a casa. conversa vem. Grace chegava do trabalho. para discutir a literatura dos anos 80. na rua Augusta — chegaram mesmo a participar da coletânea Contos Pirandellianos — 7 autores à procura de um bar. mas pelo menos era um presidente . em que a idéia era histórias que se passassem no bar de Antônio Maschi. Nessas ocasiões. Ele decide ir morar com Sérgio Bianchi. a farra era grande. que Reinaldo era ótimo. mas era divertido mesmo assim. havia um clima de alívio: em janeiro daquele ano. e lá ia ela. foram juntos a um evento em uma universidade em Londrina. já que o dono da casa não a alugaria para três garotas. chegou um casal de namorados que era fã dos dois. Caio muda novamente de endereço. como o Pirandello. Caio terminou a noite com o menino e Reinaldo com a garota. Grace. em 1983. e Caio estava acompanhado. Caio. mas Caio era leal com os amigos. As eleições não foram diretas. Situações engraçadas aconteceram no curto período da quitinete: às vezes. ele fica num apartamento pequenino. por pouco mais de um mês. e mais ainda em relação a Grace. como a maioria pedia. Conversa vai. para quem chegou a escrever alguns roteiros. mas que não havia ninguém na mesa do Reinaldo.grande na frente da sua mesa. chama Grace para ficar com ele na quitinete até surgir alguma coisa. No plano político. No início de 1985. Uma vez. na verdade uma quitinete. cineasta. trombava em alguma coisa. Na sessão de autógrafos. Os dois compartilhavam a porra-louquice e iam aos mesmos bares. Caio chamou os amigos e parentes de lado e dizia para irem. Não queria fazer "república". Se esticasse o braço. porém. Tancredo Neves fora eleito presidente do Brasil por um Colégio Eleitoral. no hotel. Antes de mudar para lá.

aos 34 anos de idade. autor de poesia. ousadíssima. mas apoiara os militares até quase o final da ditadura. foi internado. a aids vai chegando mais perto de Caio. Enquanto isso. Pedrinho. Caio tem umas pequenas doenças. E foi: o tal namorado de Caio. que não se decide a parir (vão ser arianos. jornalista. Era o mês de março. Caio ainda quase morre queimado num incêndio em seu apartamento. queria avançar entre as chamas para DESLIGAR O FORNO (ela não tinha grana para comer e sua maior preocupação era que as coxas ficassem inutilizadas. "Sas que ontem. mas os médicos dizem que não é nada. e Caio já estava morando com Sérgio Bianchi. e ele começou a me puxar pra fora da cozinha. Joguei água. atrás do fogão. embora nunca tivesse tido a chance de se aproximar muito. Sarney também era civil. eu esperava pêxes de Pêxes. mui poeticamente. Ela estava. vejo CHAMAS ENORMES ATÉ QUASE O TETO.civil. incêndio causado por ele mesmo. Como se a possibilidade de doença não bastasse. quebrou o pé dançando na festa de vitória do Tancredo. A paranóia aumenta um ponto. Luiz Roberto Galizia. assando umas coxas de franga. segunda. Depois de mais de vinte anos de militares no poder. observando aquela pêxa grávida no aquário. infecções. aftas na boca. Marilene. no entanto: o presidente morreu antes de tomar posse. bem natural). quando eis senão que sente um odor estranho vindo das bandas do dito fogão. aos gritos de "Vai explodir! Vai explodir! Não joga água que é pior!". aí chamei o Sergião que telefonava da sala (Sergião disse: "Agora tenho que desligar porque minha casa tá pegando fogo". uma pessoa de quem Caio gostava. Seu vice José Sarney assumiu. esta Marilene aqui QUASE MORREU QUEIMADA? Estava ela no fogão. de costas para o fogão. Em carta a Jacqueline Cantore. isso já era algo a ser comemorado. o escritor descreve o episódio. diretor. sas?) Então me viro (observe a mudança espontânea & natural da tercêra para a primêra pessoa) e eis que. os demônios. A alegria durou pouco. mui lépida. .

e Caio o contou da maneira que sabia: com humor. Drummond. Ver filme cinemão de Hollywood. ele vinha sempre com o trecho de um poema de Drummond: "Perdeste o melhor amigo. Duas velhinhas saíam do elevador. gemidos. Marilene foi espiar se a pêxa tinha abortado: raçuda. Que medo!" O episódio terminou bem. essas coisas. Mandou várias em cartas para amigos. poesia também era muito importante na vida de Caio. Junta gente na porta do prédio. o zelador. Todos eles eram influências tão grandes para sua prosa quanto os ficcionistas que ele amava. que escreveu em fevereiro de 1974 e enviou a Vera Antoun: Estavam ali as portas . faniquitos. num sopro. Hilda Hilst. sussurros. Bueno. Fernando Pessoa. que manteve por boa parte da vida. saiam depressa que vai explodir tudo!". Caio também escrevia poesia: escrevia em seus diários. assim como Ana Cristina César. a tremedeira. Ai. & LABAREDAS CADA VEZ MAIS ALTAS. que é simplesmente falar bobagem. mas e o humourt" Afinal. "apaguem os cigarros!" (Marilene correu para seu quartinho e. ao longo da vida. Justificando essa maneira leve de ver a vida. e. apagou a vela de sete dias. Gritos. Sergião: "Corram. Ele lia Adélia Prado. Como essa. juro). corremos para o corredor do prédio. ele pensava. paulista de alma carioca que era sua amiga. principalmente. carbonizadas). ela — continua grávida.. Uma das velhinhas começa a desmaiar. Mario Quintana. Adorava a poeta Ledusha. Era adepto da "cultura das abobrinhas". Seu Antônio. vem com um extintor de incêndio.. Enfim.isso é. o extintor apagou tudo: espuma branca por toda a cozinha e toda a sala. Bom. não tens sequer um cão . Fumaça. falar asneiras. o melhor é rir. cheiro de gás. Quando não há jeito.

Janelas e varandas. Como se pudesse Agora Escancarar portas e janelas . E me retorno Ali No imóvel do gesto que não fiz. Estar parado Estar vivo: A mesma incompreensão E medo Entre mim E aquele estar das coisas. Estar ali Como nunca ter chegado. Revejo a dura consistência da porta Cerrando seu segredo. Estavam ali Na fronteira do olhar Onde o de dentro encontra Justamente Com o de fora. Estar ali Por estar ali E além de mim 0 que eu não ousava. Nesse ponto exato Elas estavam: Bastava um gesto. Mas o meu estar parado Era maior que eu. Ah Relembro a amplidão dessas varandas intocadas Os pequenos raios de luz Nos vidros coloridos das janelas.

talvez não os levasse a sério. Talvez não os achasse bons. reunido entre os dispersos publicados no livro Caio 3D — o essencial da década de 1980. Aqueles espaços Permanecem mortos dentro de mim. infante. sem data. Sair para o vento O sol. Não cantes. Os outros por bebedeira Não saúdes A morte em literatura. amigo. Ou esse. de 2005. As quedas de estrelas e Bastilhas. Brincava com . Como um corpo que se ama E não se toca. manhãs perdidas como tudo que não fui) Mas continuo Ali. as tempestades. Boa negra Voltada para as estrelas Pés de chumbo cravados na lama: O canhão E sua escandalosa metafísica Caio nunca publicou em livro seus poemas. (pudesse retomar manhãs. O cheiro de jasmins Entontecendo os quintais. louco. as neves.Para sair nu pelas varandas Desvairado e nu Profeta. como eu.

Era só sentar e escrever. no lirismo. certa vez. Rolling Stones. coisas do dia-a-dia. ele anotava sempre em caderninhos. E Caetano Veloso. fazer uma "coreografia verbal" para ela. que devia ser insuportável para Academia. E eu gosto de incorporar o chulo. disse. Pode ser Keith Jarrett. Como ele gostava de escrever com música. cujo verso "como é bom poder tocar um instrumento" Caio estava sempre repetindo. Até cachê adiantado estava recebendo: Luiz Schwarcz. e aparece na preocupação com a forma. "Eu vou magnetizando coisas no inconsciente. o nãoliterário".Mário Prata que poesia era coisa para quem não conseguia chegar ao fim da linha. Fosse o que fosse que o inspirasse. teatro. frases-ímã. "Isso deve ser insuportável. música. Mas as coisas não eram bem assim com Caio. ter essa arma para lutar contra as agruras do mundo. era de fato inegável. na exatidão do uso das palavras. tudo podia influenciar um texto. e tinha seu público. a idéia para Onde andará Dulce Veiga. Caio já ruminava a idéia há três anos. sempre. em seus textos. amadurecendo. pouco metódica. pensava. propôs um adiantamento a Caio para que ele escrevesse um romance. Angela Ro Ro. até que surgia uma história inteira. E as influências para seus textos não vinham só da literatura: cinema. lidar com um escritor que confessava que o trabalho do Cazuza e da Rita Lee foram influências muito maiores que Graciliano Ramos. Sonhos. disse em uma entrevista. então na Brasiliense. Muitos de seus contos vêm com o aviso: para ler ao som de. De forma intuitiva. tudo ia fermentando. Mas a importância de ter lido os poetas. Como era bom poder tocar um instrumento. coisas que magicamente as pessoas vão te dizendo". E o instrumento estava afinado. Ele adorava essa frase. como era bom poder escrever. e também para a crítica. redonda. Caio chegou a dizer. ele . Você compreende? Isso não é literário. às vezes tentava apanhar no texto o ritmo daquela música.

Estava rolando o boato de que ele também estaria com aids. diferenças saltam à tona. os gânglios que tinham aparecido diminuíram. mas lá discutem muito. e isso só foi acontecer em 1990. tudo errado. E ser gay ainda era sinônimo da peste. S'as o que o Jaburu. Viaja a São Tome das Letras com Pedrinho. preocupados. mas o pneu furou.tinha seu próprio ritmo. Muitos escritores afirmam que o que fazem é captar uma idéia e escrevê-la. mas pelo menos as aftas sararam. do outro lado da calçada. As informações ainda eram poucas. já então pela Companhia das Letras. a deixar recados na secretária eletrônica. Sempre com muito humor. que por sua vez era ditado pelo ritmo do texto. E como má notícia sempre anda de mãos dadas. depois de anos enrolando. Por mais que Caio trabalhasse duro. são simples canais de transmissão da arte. Galizia já tinha ido. se estou aqui? Abobrinha 2b. escreveu o livro em dois meses e o publicou. Caio sofre mais uma decepção. o texto viria quando tivesse que vir. Ruim mesmo era a falta de auto-estima que às vezes aparecia. brigam. S'as o que o Caio Fernando Abreu disse quando viu o Jaburu do outro lado da calçada? — Como é que estou do outro lado. Para piorar um pouco mais. Baixo astral total. quando. as pessoas morriam muito rápido. E a relação que durara nove meses acabava assim. fez quando viu o Caio Fernando Abreu? Gritou: — Jaburú-ú!" . Em carta a Jacqueline: "Abobrinha 2 (somente para iniciados): Abobrinha 2a. amigos começam a ligar. o motor pifou. um ator gaúcho. Caio sabe da morte de Fernando Zimpeck. uma certa carência por trás de suas brincadeiras. Queriam ir embora. quase uma entidade independente. e os boatos eram infundados — ao menos aparentemente. parecia saudável. mas dava para perceber uma certa tristeza. Enquanto não escreve Dulce Veiga para a Brasiliense. Caio se sentia saudável.

agora dividia a redação com ele.Em 1986. literatura. E mesmo que não fossem amigos: ele rodava a baiana sempre que achava que alguém estava sendo injusto. de se preocupar com horários de fechamento. Por que essa implicância com os Titãs? Ele. E quando cobrava resultados de Caio. pela primeira vez. Em qualquer crônica ou texto. música. perguntava. mesmo os que não trabalhavam no jornal. sempre tão bemhumorado. mal-humorado. este era seco. o suplemento de cultura. gostava de implicar com o grupo de rock Titãs. se vendido ao sistema. quando achasse necessário. Como era um caderno de cultura em geral. amigo dos tempos de ditadura e jornais nanicos. Caio trabalha também na peça A maldição do vale negro. uma alfinetada de leve. O Caderno 2 não era fácil de se editar. que adorava o grupo. Vai fazer o que sabe: crítica cultural. Caio abandona a Around — que agora não se chama mais Around. Emediato tinha se entregado. levava a sério demais a defesa do trabalho e da arte das pessoas que admirava. e sim A-Z — e vai trabalhar em O Estado de S. Caio tinha sua turma: José Márcio Penido. não tinha humor nenhum nessas questões. E Caio estava sempre pronto a defender seus amigos. começam a se ver todo dia. Paulo. Por essa época. É a época da criação do Caderno 2. Caio não gostava de receber ordens. que tinham perdido contato. ele dava um jeito de enfiar os Titãs no meio e fazer uma brincadeira. e o editor é Luiz Fernando Emediato. junto com Luiz Arthur Nunes. o sisudo diário recebia jovens para fazer um caderno do tipo. precisava botar o jornal na rua. Caio. uma palhaçadinha. por exemplo. Por quê?. Ninguém se misturava muito. da literatura. frio. A peça é inspirada no texto que Caio escrevera. amigo de muito tempo. se mortificava. mas naquela incômoda posição de chefe e subordinado. paladino do Oeste. Para ele. havia vários grupinhos: o pessoal do teatro. Emediato. talvez. da música. Emediato precisava fazer tudo isso. aos 13 anos de . era o chefe engravatado e careta. Havia outros. cinema. Emediato e Caio. de cumprir deadlines. o pessoal do cinema.

alcoólatras anônimos. Fã de sua obra. a coisa mudou de figura. escritores. Caio e Luiz Arthur passaram todo o Carnaval de 1986 trabalhando e brincando com a idéia de melodrama. e Antônio disse que não se importava. A idéia para a história surgiu em uma noitada que Caio. em Ovelhas negras. alcoólatras famosos. vagabundos. mas que topara dividir apartamento com ele. travesti. Não sabia as outras coisas. gente anônima. além da Lua e Saturno e Urano sabe lá onde. que ganharia o Prêmio Molière de teatro. em 1989. para o concurso de redação em sua escola — A maldição dos Saint-Marie. O escritor vai então para um apartamento na Haddock Lobo. um rapaz que não conhecia. Nesse período. mas era só. disse que. achou o máximo ver o desfile de pessoas que se tornou comum no apartamento depois da vinda de Caio: "atores. Inventou que o Antônio tinha trígono na quarta casa da Lua em Saturno. e Caio também não era uma pessoa muito fácil. poetas.idade. Na verdade. lésbicas. finalmente. e mais um monte de coisas sem sentido. Cazuza e ele passaram em um bar. na introdução de seu livro Mãe na zona. que foi publicado mais tarde. onde fica. A expressão pegou. Vai morar com Antônio Neto. Uma amiga em comum lhe pedira que acomodasse Caio por uns tempos. Sabia que o rapaz era ariano e que seu ascendente era Libra. às vezes. Caio começara a dar uma de astrólogo e falar do mapa astral de Antônio.. Foi quando Cazuza interveio e começou a brincar. ele tinha a mãe na zona. atrizes. conta Antônio. Sérgio era. garçonete. Caio escreve também o roteiro do longametragem Romance. veados. por vários anos. já tinham desistido de morar juntos. mãe-de-santo. porteiro de boate. guarda-costas. o meio do céu em trígono em Urano. O rapaz entrou na brincadeira. talvez com certo exagero.. muito intenso. artistas plásticos. gente famosa. mas quando soube que era o Caio. e os três passaram . dirigido por Sérgio Bianchi. muito louco. porém. dona de boate". Antônio era gaúcho e tinha morado no mesmo bairro do escritor em Porto Alegre. ele se importava. pai-de-santo. O escritor e Sérgio. Escreveram o texto e Luiz Arthur dirigiu a peça.

foi o ator Marcos Breda. que conhecera Caio uns dois anos antes. uma voz cavernosa respondeu: Bom dia. se foder. Caio insistia para que o rapaz escrevesse um livro: ele lhe daria toda força." Outro que morou com Caio nesse período. três dias sem aparecer. o que é ter a mãe na zona? Segundo as primeiras frases do conto de Antônio. Ali. chorar e se arrepender profundamente. trancado no quarto. podia saber se Caio estava vivo ou morto: bastava ver se havia pegadas. Caio convivia bem com a heterossexualidade convicta de Breda. início de 1987. que seria publicado em 1988. e por fim Caio sugeriu que o rapaz escrevesse um conto ou crônica que ele publicaria. de Porto Alegre. o conto Mãe na zona saiu na A-Z e fez muito sucesso. e funcionaria com qualquer outra pessoa. no entanto. e foi então que dividiu o apartamento com Caio. o ator tomou coragem e bateu na porta. quando voltasse da rua. estava em São Paulo para participar do filme Feliz ano velho. Dois dias depois. ou à cozinha. dirigida por Jorge Takla. Antônio tomou coragem e escreveu o livro. "mãe na zona é errar. No terceiro dia. afinal. O problema era que Caio tomava comprimidos para dormir e ficava dois dias literalmente apagado. porém. e apenas queria ficar sozinho. Exatamente do mesmo jeito. em uma festa na casa da atriz Imara Reis. O estratagema do ator era bom. que era também gaúcho. Depois. era porque estava vivo. E. Breda. o talco continuava intacto. Se o amigo havia saído para ir ao banheiro.a noite toda discutindo o que era ter a mãe na zona. para fazer uma montagem da Electra de Sófocles. Breda voltaria a São Paulo no ano seguinte. durante seis meses. O apartamento era mais movimentado por causa das . Antônio escreveu. começar tudo de novo. ele viu saírem da máquina de escrever vários dos contos do livro Os Dragões não conhecem o paraíso. Ele então bolou um estratagema: espalhou talco no chão entre o quarto de Caio e o banheiro. O ator também se preocupava com os sumiços de Caio. baseado na obra de Marcelo Rubens Paiva. Apenas 19 anos depois. Lá de dentro. dois. Assim. O ator.

namoradas que o ator levava que pelos casos de Caio. Por acaso, muitas das meninas que Breda namorava na época eram bissexuais; Caio gostava de brincar com o amigo, dizendo que essa era sua forma de exercitar sua bichice sem culpa. Um dia, os dois vão a uma festa. Chega um amigo de Caio, que começa a dar em cima de Breda. Caio, sarcástico, enterra as esperanças do amigo: — Desista, meu amor. Todas nós já tentamos. É por influência de Caio também que Breda vai morar no Rio de Janeiro, na metade de 1987. Mário Prata estava escrevendo a novela Helena na Manchete e precisavam de alguns atores para certos papéis. Caio, que estava trabalhando com Prata em uma novela de José Wilker que acabou não se concretizando, indicou Breda, e lá foi ele. O ator foi para o Rio e não saiu mais. Representou em adaptações de algumas obras de Caio, como O homem e a mancha, no teatro, e Sargento Garcia, um curta. Em 2004, viria a participar, dessa vez como ator e também co-produtor, junto com Camila Pitanga, da remontagem da peçav4 maldição do vale negro, com direção de Luiz Arthur Nunes. O livro que Breda viu nascer enquanto morava com Caio, Os dragões não conhecem o paraíso, é provavelmente o melhor trabalho do escritor. Os contos apresentam uma unidade temática, segundo Caio nos diz, em uma pequena introdução. É um livro sobre amor. São treze contos, e não à toa — treze é um número cheio de significados místicos, mágicos, para quem acredita nessas coisas, e ele acreditava. Já na primeira história, Linda, uma história horrível, ele aborda o tema que o afligia: a aids. Sempre usando elipses, sem citar o nome da doença ou do vírus que a causa, ele fala dos sinais, da degradação do corpo. Um homem vai visitar a mãe. Doente, e pressentindo, talvez, seu fim, ele chega sem avisar, e encontra a mãe envelhecida, junto com a cadela também idosa, Linda.

— Mas vai tudo bem? -Tudo, mãe. -Trabalho? Ele fez que sim. Ela acariciou as orelhas sem pêlo da cadela. Depois olhou outra vez direto pra ele: — Saúde? Disque tem umas doenças novas aí, vi na tevê. Umas pestes. — Graças a Deus — ele cortou. Acendeu outro cigarro, as mãos tremiam um pouco. — E a dona Alzira, firme? Um por um, foi abrindo os botões. Acendeu a luz do abajur, para que a sala ficasse mais clara quando, sem camisa, começou a acariciar as manchas púrpura, da cor antiga do tapete na escada-agora, que cor? -, espalhadas embaixo dos pêlos do peito. Na ponta dos dedos, tocou o pescoço. Do lado direito, inclinando a cabeça, como se apalpasse uma semente no escuro. Depois foi dobrando os joelhos até o chão. Deus, pensou, antes de estender a outra mão para tocar no pêlo da cadela quase cega, cheia de manchas rosadas. Iguais às do tapete gasto da escada, iguais às da pele do seu peito, embaixo dos pêlos. Crespos, escuros, macios. — Linda — sussurrou. — Linda, você é tão linda, Linda.

Em todos os contos, o escritor aborda seus temas preferidos: o estranhamento, a solidão, a dor. Seus personagens vão envelhecendo com ele. Sempre jovens em Inventário do irremediável, agora há homens de 40 anos — como o próprio escritor. O estranhamento que sentiam em relação à cidade grande, muito forte em seus primeiros contos, agora já é aceito pelos personagens, que, mesmo solitários, vislumbram esperanças. O texto do escritor está em sua melhor forma, e isso foi reconhecido: Caio ganha seu segundo Jabuti por Os dragões. A repercussão do livro ultrapassa as fronteiras continentais e chega à Inglaterra, onde John Gledson, o maior especialista inglês em literatura brasileira, escreve uma crítica muito elogiosa para o Times, de Londres. Essa crítica abre portas para Caio: tradutoras e agentes foram procurá-lo; há interesse em publicar Os dragões em francês, em italiano, em alemão. A carreira internacional de Caio começa aí, e ele

não vai perder nenhuma chance de conseguir dar certo lá fora. Até porque isso significa viajar: Inglaterra, França, Alemanha... Dar uma descansada do Brasil. As possibilidades são imensas, mas não assim, imediatas — Levaria tempo até que as coisas se ajeitassem, contratos, ajustes: Caio só viaja para a Europa no final de 1990. Enquanto a viagem não chega, ele acerta algumas contas consigo mesmo; depois de cinco anos de espera, é a hora, finalmente, de se descobrir Onde andará Dulce Veiga.

CINCO

— Eu deveria cantar. Caio está numa fila de banco, esperando sua vez. De repente, lhe ocorre a frase: Eu deveria cantar. Ele corre para casa, excitado. O começo! Ele tem o começo. E todo o resto. A idéia, dele e do cineasta Guilherme de Almeida Prado, já existia há uns dez anos, os rascunhos já tinham uns seis, o quase-adiantamento para escrever já datava de uns quatro anos. A idéia inicial era inscrever o roteiro do filme em um concurso e depois escrever o romance. No entanto, apesar do roteiro estar terminado, Dulce Veiga não saía. Recusava-se. Os dragões desistiram de esperar, furaram a fila e foram publicados antes dela. Mas a idéia para a primeira frase — a singela "eu deveria cantar" — detonou o processo criativo. Tudo aquilo que Caio vinha maturando há anos resolveu sair à tona, com várias mudanças em relação ao roteiro feito a quatro mãos com Guilherme. Em dois meses, terminou o livro: escrevia dez, doze horas por dia. Das duas mil páginas que tinha escrito, no total, tirou umas duzentas. Escrevia, escrevia, escrevia. Resultado: um belo desvio na coluna. Além do livro pronto.

quando se trombaram em algum lançamento de livro pela cidade. ela também se arriscava a um texto maior. Ambos belos: Caio com seu jeito de Quixote. por Paulo Francis. cercada de anõezinhos. a preferida de Paulo Francis. também de dez a doze horas por dia. com . Ela era a Branca de Neve. com Limite branco. muitos deles nanicos. Márcia era amiga de Caio desde os anos 70. Ele era a mulher dos sapatos vermelhos. era uma exigência do mercado mesmo. ficaram amigos. Márcia e Caio. a fabricar romances. Beldades perversas. Eram amigos. Alter ego literário: Diana Marini. Márcia escrevia sua versão da Branca de Neve. não era coincidência. loira fatal. que ele só praticara uma vez. que conseguiu conquistar três homens com seus sapatos. uma aventura no terreno do romance. algo mais trabalhado. rosto de boneca. que realmente eram lidos. com o impulso para o nocaute que um conto deve ter. mas a maioria dos escritores brasileiros da época — estarem decididos. Nos anos 80. ela estava sempre no apartamento dele. uma releitura para adultos do conto de Andersen. apadrinhados desde cedo por grandes nomes: ele por Hilda Hilst. a devoradora de homens. e ela o escreveu em pé. Márcia Denser. uma questão da época. depois de tantos anos escrevendo contos. ambos com aquele quê de malditos. que circulavam. Enquanto ele escrevia Dulce Veiga. mais pragmaticamente. aos 18 anos de idade.O processo é o mesmo que acontece a uma amiga escritora. cabelos lisos. E. numa tentativa de não engordar demais. o infantil A ponte das estrelas. Havia revistas e jornais literários. A mulher com pinta de fatal. O fato de os dois — e não só eles. a Diana caçadora de seus contos. Clarice Lispector e Lygia Fagundes Telles: ela. sem papas na língua. escrito mais com a cabeça e menos com o coração. Enquanto Caio escreveu Sapatinhos vermelhos. cercada de homens por todos os lados. que os publicavam. ela loira. Talvez houvesse uma necessidade de provar que se conseguia fazer algo de maior fôlego. Os anos 70 foram todos dedicados ao conto. alto. loucos. por mais que os pés doessem. Ambos precoces.

a cantora. naquele . Caio homenageia não só Marques Rebelo. vocalista de uma banda punk. ao escrever sobre Dulce Veiga. Em 1974. tantos anos atrás. afinal a primeira entrevista que fez quando chegou na cidade grande. A busca de seu passado. Rubem Fonseca. como ele. que aliás é personagem do livro. Sophisticated lady ou qualquer outra dessas canções roucas. acabam os nanicos. porque o leitor médio está mais acostumado com eles. não era uma invenção de Caio. Os enigmas vão se resolvendo. um a um. um escritor urbano. Bruno Barreto faz a versão do romance para o cinema. que nos anos 30 escreveu A estrela sobe. As editoras começam a preferir romances. um amor que foi embora. viessem os acordes iniciais de Crazy. Naquele tempo eu não as conhecia. grande contista. de algum lugar no interior do apartamento. foi com Dulce. ainda chamada Dulce Rodrigues. nem todos com o mesmo sucesso de crítica que seus livros anteriores de textos curtos. Entremeando a história. Márcia Felácio. uma boa matéria: é a busca de si mesmo. como personagem. O filme é estrelado por Betty Faria e Odete Lara. mas também Odete Lara. O narrador de Onde andará Dulce Veiga é um jornalista. de Dulce Veiga. por exemplo. agora sim. com Dulce. e rebatiza a cantora. e eu anotei. cantora muito popular que desaparecera vinte anos antes. Dão a ele a tarefa de encontrar Dulce Veiga. A busca de Dulce Veiga significa mais para o narrador que um simples trabalho. um amor do narrador. Assim. na gravação de Billie Holiday. publica vários romances nessa época. conhece a filha dela. que foi amiga de Caio. Não estou absolutamente seguro que. tão aplicado. e assim um veículo por onde escoar tanto texto curto. Quem a criou foi o escritor Marques Rebelo. Ele segue as pistas. mas estou certo de que nessa ou na outra vez perguntei quem era e ela disse que era Billie. gemidas. e poderia ser também Glad to be unhappy. he calls me. há as menções a Pedro.o fim da ditadura. Dulce Veiga. Tudo isso que agora parece clichê banal.

Ela ergueu o braço direito para o céu. seus sinais. que ficou como se tivesse sido. soropositivo: descoberta da possibilidade de vida. Depois gritou qualquer coisa que se esfiapou no ar da manhã. finalmente. Uma arara pousou na árvore perto dela. assim como Pedro teve. Pisquei. Ela o faz encarar seus gânglios. a jovem cantora. Toda de branco. Ela lhe dá um gatinho de presente. pois ainda não sabia que estava doente. E ela que dá nome aos bois. A busca de Pedro é a busca de aceitação do presente. feito seta. e cita a doença nominalmente. lá embaixo — mesmo que não. Não há mistério: ela apenas se tinha recolhido a uma cidade do interior. repito: seria tão perfeito se fosse exatamente assim como penso que lembro. Os primeiros raios do sol faziam brilhar aquela estranha coroa -tiara. a mão fechada. Parecia meu nome. Sem querer. A doença não é o fim. Finalmente se aceita. Dulce Veiga estava parada na porta da casa. para viver de acordo com os preceitos da seita Santo Daime. ao lado do cachorro. o gatinho chamado Cazuza. eu nem suspeitava das marcas pelo caminho. e se compreende. que nada e nunca.tempo — repito e não me canso. enfim. assim como tem Márcia. O encontro com Dulce. no final. o que deveria ter feito no começo. ofuscado. E começa a cantar. mas a possibilidade de um novo começo. O narrador começa a cantar. há um choque. quando se descobrisse. mas não é nada do que se esperava. porque é belo e mágico na sua melancolia: naquele tempo — tudo era novo. acontece. Caio intui em Dulce Veiga o que seria a sua postura. e por isso foi embora. afinal. O narrador tem aids. Ele faz. e ele vai embora. tantos anos depois. diadema — que tinha entre os cabelos louros. sem medo de mentir. pois mesmo que não houvesse nada e o silêncio do apartamento fosse cortado apenas pelo ruído dos carros na avenida São João. Afirmo que havia música. apenas o indicador apontado para o alto. .

Caio chorou potes. e o final da matéria também. E eu comecei a cantar. Eles se gostavam. Caio ainda não teve coragem de fazer o que ele chamava de O Teste. se admiravam. A jornalista que fez a entrevista se demitiu. namorico. do travesti Andreia de Maio. o final e a manchete problemática seriam responsabilidade dos editores. em um show. Mas estamos em 1989. sempre que fosse falar de aids. Ele via seus amigos sofrerem. era meu nome. a admiração que sentia pela forma . Certa vez. Quando Cazuza morreu. odiava boates e saunas exclusivamente gays. Uma das perdas mais sofridas. Não em vão. perdeu muitos deles. dizendo que ele não era gênio coisíssima nenhuma. Apareceu com uma coroa de flores enorme. porém altivo. tráfico de drogas. Iam juntos a bares trash.Bonito. agarramentos de bastidores. Viajou até o Rio para o enterro. A tal manchete foi uma confusão. Cazuza. chorando. chorando. Cazuza dedicou Só as mães são felizes a Caio. mais choradas. como Vai Improviso. mas Caio preferia esse bar aos chamados guetos gays. Muita gente não encarava. citaria o cantor. O bar era o que se podia chamar de barra pesada: tiroteios. Caio sofreu muito ao acompanhar a decadência física do cantor. vai até o camarim e dá uns bons amassos no amigo. Tiveram até um pequeno rolo. que ficou todo orgulhoso. Desde então. Cazuza e Caio foram amigos. afirmando que escrevera uma matéria equilibrada. foi Cazuza. e foi um dos mais indignados com a capa da Veja que expunha uma foto de um magro e pequenino. No final do show. esse é o nome do gatinho com que Dulce presenteia o narrador no livro. e da maneira de lidar com ela. com a manchete: "Cazuza: Uma vítima da aids agoniza em praça pública". em que se desmerecia o trabalho do cantor. e ficou em seu canto. Vários artistas e intelectuais elaboraram e assinaram um manifesto contra a revista. Caio odiava esses guetos.

Luciano Alabarse também fizera a sua.como ele encarara a doença -aberta. fechada. Era nessas aventuras que Renato o acompanhava. que já conhecia o escritor desde a primeira montagem de O leiteiro. De um humor negro. um programa de crítica literária na TVMix. em 1983. os amigos continuavam a aparecer. com ele não havia tempo ruim. para dizer em uma palavra. Afora as tristezas. novas adaptações de Morangos mofados: já tinha havido a primeira. tentando eliminar os preconceitos. uma programação da TV Gazeta. respondia Campão. anos depois. Vamos pegar pó?. por uns tempos. Era isso que Caio apreciava nele: sua disposição . Vamos. Em 1989. arrogante. feita por Paulo Yutaka. No teatro. Apresentou. No apartamento da Haddock Lobo. Caio ia tocando a vida. Na literatura. uma estudiosa da obra do autor. como o fora a perda de Ana Cristina César. saiu uma coletânea de seus contos chamada Mel & girassóis. Renato não atuava na peça. Renato já cruzara com Caio pela noite de Porto Alegre. em Porto Alegre. freqüentados por personagens do maior submundo da noite. amigo querido que também viria a morrer de aids. Foi mais uma das grandes perdas quç assombrariam Caio até o fim de seus dias. mas estava sempre com o grupo. que ainda não era o aclamado diretor de cinema. negríssimo. o lado que gostava de ir a bares barra pesada. Antes dessa época. Na conversa de bar. andou pelo apartamento de Caio o ator gaúcho Renato dei Campão. depois de passarem a noite bebendo) ? Vamos. pronto para qualquer coisa. Renato descobriu também o lado temerário de Caio. mas engraçado. organizada por Regina Zilberman. é que Renato descobriu quão engraçado Caio podia ser. dirigida por Fernando Meirelles. Vamos beber? Vamos pegar um michê? Vamos comer churrasquinho (às sete da manhã. dizia Caio. pela editora Mercado Aberto. mas tinha um certo medo dele: o comentário geral era que o escritor era uma pessoa extremamente intelectual. E agora era montada uma na Bahia. dizia Campão. séria.

e continuava encostando em Caio. Caio gesticulava e falava alto. Caio se enrolou. O escritor teria se irritado com aquilo. enquanto conversava com Campão. mergulhou em uma de suas muitas crises depressivas. Ele diz ter presenciado uma cena. e menos de um ano depois de ter saído de Porto Alegre. uma garota veio dizer que . Nessa época. Em 89. bêbado. havia uma mulher de cabelos compridos. empolgado com o assunto que discutia. Ele e o escritor estariam conversando animadamente no balcão. até na relação com os fãs. Por mais que adorasse ser lido. Calmamente. admiravam sua obra. Mesmo com tantos contatos. que não sabia manter o próprio traseiro no lugar. Ele continuou tranqüilamente a conversa. Uma vez. ele decidiu. Muitas meninas e meninos o assediavam. A mulher se pôs a gritar. prometendo arrumar um emprego na capital paulista para ele. amigos vindos de todas as partes. Ela não deu bola. e a secretária eletrônica com os recados mais ilustres: Caio. Renato presenciou algumas cenas em que Caio. em 1987. ele convidara o ator para se hospedar em seu apartamento em São Paulo. que volta e meia batia sem querer a bunda em Caio.para aventuras. levantou-o atrás da cabeça e ateou fogo nos longos cabelos da inconseqüente figura. Algum tempo depois. Atrás dele. ele viraria de novo: tu não vai sair daqui? Ela nada. o lugar lotado. e vinham falar com ele. de vez em quando o mau humor o dominava. no bar Líder. e em certo momento virado para a mulher e dito: sai daqui. e ela nada fez em represália. Mais uma vez: tu não vai sair daqui? Como a mulher não saía. uma vez em Porto Alegre. o escritor acendeu o isqueiro. aqui é a Regina Duarte. armava barracos escandalosíssimos. o emprego para Campão nunca veio. Por ser amigo mais de farras noturnas. o apartamento de Caio era um lugar agitado: visitas a toda hora. talvez com medo de uma atitude ainda mais agressiva. Renato voltou. de vez em quando. me liga. em Porto Alegre. A agressividade de Caio vinha à tona. mas nada aconteceu a Caio.

Também. que era impossível saber como Caio contraíra a doença. numa entrevista à Marie Claire. como dizia. e ele e o amigo Luciano Alabarse saíam do cinema. apenas — até que o gênio de Caio e o temperamento de Ivan se trombassem de vez e os dois brigassem feio. às vezes. porque. A resposta veio rápida e ríspida: — Não quero fãs.era fã de Caio. dessa vez para sempre. namorado do início dos anos 80. Fazia um frio enorme. Déa era divertidíssima. que ficou magoadíssimo e foi embora no outro dia. Ivan estava no apartamento. afirma Caio na entrevista. no entanto. E de novo. A terapia o ajudava demais. de novo. uma produtora de eventos também gaúcha. enquanto o escritor se corroia em culpa. Houve alguns casos até duradouros. adorava Caio. e também para fazer loucuras. . Porque por mais que dissesse que aquele tal era o último amor. como sendo a provável pessoa de quem ele pegara aids. Déa presenciou a briga de Caio e Ivan. Caio chegou bêbado em casa. que ele conhecera poucos anos antes. quero amantes. Em 1989. e que morrera em 1989 em decorrência da síndrome. era preciso mesmo um pronto-socorro emocional de vez em quando. Desde então. ele estava sempre se apaixonando de novo. o ator. ele e a amiga Déa Martins. apaixonado por alguém. na loucura. Um bailarino. bem. por causa da menção do escritor de chamar um michê pelo telefone. E quebrando a cara. Ronaldo Pamplona. Todos esses conflitos Caio discutia com seu terapeuta. sofrendo uma desilusão amorosa por semana. uma pessoa conhecida que viveu na Suécia. embora fosse recatado a maior parte do tempo. Moraram juntos por alguns meses — agora bons amigos. e os dois se juntavam sempre para falar bobagens. Os amigos afirmam. sem dar mais notícias. também foi morar com Caio por uns tempos Ivan Mattos. E na noite. de vez em quando tinha uns surtos de galinhagem. Caio deu um tabefe em Ivan. em outro período. inclusive um que ele mencionaria mais tarde. ele não se descuidou mais.

ele chegou a freqüentar também o Santo Daime. ligado ao movimento do teatro besteirol que surgiria depois. de aids. Vicente tinha uma forma de encarar as coisas . bem. não por acaso. e assim ele seguia vivendo. cantora e amiga de Caio. Quando Vicente morreu. uma infecção nos ouvidos que não sarava nunca. pela beleza do ritual.bêbado. D. Além da terapia. Eram almas gêmeas. amigo e parceiro de trabalho de Mauro Rasi. era uma forma de tentar contatar a divindade. e usou essas informações no livro. no Rio de Janeiro. E assim. Jogava taro. As pessoas diziam que era paranóia dele. Vicente foi um dos autores do famoso programa de humor TV Pirata. Caio a entrevistou exaustivamente para saber como era tudo. de uma certa forma: o mesmo humor. que virou moda entre os intelectuais e artistas do Rio e de São Paulo no final dos anos 80. / Ching. Primeiro. crença em algo maior. Caio diria que sua ausência era a mais dolorida. A beleza dos rituais o fascinava. um herpes-zóster. O Daime é uma substância alucinógena. dramaturgo. ficava paranóico sempre que aparecia alguma pequena doença. Uma das pessoas que influenciou Caio a tentar o Santo Dai-me foi Vicente Pereira. que aquilo era apenas seu corpo colocando as inseguranças para fora. e Caio tentava. que participara dos rituais originais na Amazônia. talvez mais que a fé. através dos rituais mais variados. é difícil afirmar que ele se protegia sempre. em torno da qual se formou uma seita na Amazônia. depois. Ele e Caio foram grandes amigos. Falava sempre com sua mãe-de-santo. o livro é dedicado a Cida Moreira. O Santo Daime está presente em Onde andará Dulce Veiga. Enfim. Quem participou do ritual original afirma que o que se fazia no Rio era uma imitação tosca do que acontecia nas selvas amazônicas. Sônia. a mesma forma de encarar a vida. O jornalismo até que servia para alguma coisa. afinal. Caio continuava a manter sua espiritualidade viva. Era seu melhor amigo. Embora não fizesse o teste. a mesma espiritualidade. seu grande colega. os melhores que se pode haver. anos depois.

também ligado ao teatro. Sabia que. Não poderiam deixar de ser amigos. Amigos até o fim. Ele não assumia que fazia parte da seita. como turista. E Vicente também. Era só o Vicente entrar em alguma seita. um livro. Era assim que ele era. Estava sempre trabalhando. acreditava que quanto mais desse. um anel. Não fazia parte de seu temperamento se comprometer a fundo com as coisas — namoros. Generoso. tão repetida por Caio. estava sempre como visitante. sacerdotisa. dois meses depois. free-lances. mas era assim que ele era: não conseguia juntar nada. entre os dois. empregos. credo. Muito antes de Caio e Vicente se conhecerem pessoalmente. e sempre sem dinheiro. que muita gente chega a achar que é dele: "Quando duas ou mais pessoas estiverem reunidas em nome de Deus. E ao Vicente: Vicente. se adorariam. por muito tempo. fazia copidesques. um apartamento. influenciou pelo menos mais uma pessoa: Miguel Falabella. dizia que ele era a sacerdotisa do Daime. quando menos se esperava. talvez não de forma consciente. acumular bens. Há uma frase de Vicente. você precisa conhecer o Caio. eles já se conheciam dos relatos dos outros. já estava comandando as reuniões. dava oficinas de criação literária. religiões. vivia esse desapego. filosofia ou religião e. uma pintura. talvez não como filosofia de vida. Com essa filosofia. A relação de Caio com essas coisas era sempre mais descompromissada. no minuto em que se encontrassem. eu estarei no meio delas. Caio. com algum cargo ou posto importante." Caio brincava com Vicente. traduções. Por um lado. José Márcio fez a ponte. e estava sempre sem dinheiro. dava constantemente presentes aos amigos. ele podia virar e se oferecer para pagar a conta de todo mundo no bar.voltada ao desapego: não acumulava coisas. mais retornaria a ele. A semelhança era tão óbvia que as pessoas em volta percebiam. José Márcio Penido dizia: Caio. E assim foi. você precisa conhecer o Vicente. isso era triste: lhe dava uma solidão . Era um sucesso como escritor. quando o conheceu. Sacerdote. comprar um carro. Mas sempre com um decote bem profundo.

anos mais tarde. O menino Fernando faria um acordo com o diabo para dominar a todos. em 1989. o Jornal do Brasil pediu a Caio que escrevesse um perfil de Collor. não eram fáceis. em Ovelhas negras. em afirmar: era ofensivo. um ruivo. O texto era um conto. E num movimento mais brusco explodiu dentro dele. — Mais fundo-pediu.. E aceitou: — Quero. se pudesse. que tinha um encontro com um outro menino. [. Vou perguntar pela última vez. meu bem-amado — o menino ruivo gemeu. Foi publicado depois pelo jornal alternativo Verve. enchendo-o de ouro líquido. sairia por sua boca escolhida . Márcio Souza escreveria o de Lula. Quase como se adivinhasse o que viria depois: a roubalheira.. mas ele nunca chegou a sair. Collor tinha ganhado as eleições. E assim foi. quando Caio decidiu ir para a Europa.] — Você é o escolhido. Fernando. e Caio o republicou. — Daqui a trinta anos. em 1990. Tudo isso. mas a direção do JB acertou. Aquele mesmo que. E curvando-se mais: — Pense bem. e muita gente também.tremenda.. para lançar seus livros. não dá para dizer. Aquilo desanimava Caio. você quer? Ele voltou a cabeça até mergulhar os olhos no verde sem limites dos olhos dos outro. diria Caio. Segundo o escritor. ao menos. os caras-pintadas. Os tempos aqui. Se fez bem ou não em não publicar o texto. Caio escreveu o texto. foi considerado ofensivo demais pela direção do jornal. E como Caio queria ir para a Europa. com todas as características de ser o demônio. — Para possuir todos. às vezes.. Fernando. como sempre. sim. o impeachment. Fernando. trinta anos mais tarde. você foi o escolhido — o menino disse. Antes do segundo turno da eleição. Dentes agudos picaram seu pescoço. E tinha que ser. Por outro. a liberdade que tinha lhe permitia ir aonde fosse sem dar satisfações a ninguém. Falava de um menino.

ele não tinha dinheiro nenhum. 0 menino ruivo tinha desaparecido ao sol do meio-dia em ponto. desajeitada. combatia moinhos de vento. em março. Só imaginou. lhe assentaria bem como uma roupa feita sob medida. Caio foi correr atrás de lugar para morar e emprego. Se . O quixotismo dele estava presente em seus ideais. uma tradução inglesa. a maneira errada. Às vezes. para a Time Out. e a chance de sucesso parecia ser zero. Quarenta e dois anos de idade. nas pedras do Arpoador. Clarice lhe sussurrava no ouvido. ideais nobres. Astaroth. Vai a Londres lançar a tradução inglesa de Os dragões não conhecem o paraíso — Dragons dont go to heaven — em uma feira de cultura brasileira. nem imaginava o quanto o termo colaria em Caio. Depois de divulgar seu livro. viajou com a passagem que havia ganhado do prêmio Molière pela peça A maldição do vale negro. Caio finalmente viaja à Europa. sua barbinha. dia de Exu. Clarice Lispector. até o lançamento da edição francesa do livro. Foi notícia por lá: deu entrevista para a revista Time. um rei. Quixote de La Mancha. e lá estava o Caio procurando emprego de garçom. e também na maneira trôpega de lutar por eles. para o jornal The Independent. que só aconteceria dali a quatro meses. para conseguir passar mais um tempo na Europa. mas ele continuava lutando. que primeiro lhe deu o apelido (você é Quixote! Você é Quixote!. e provavelmente pensando em sua aparência. Molhou as pedras num jato prolongado de prazer-o primeiro. — Como é seu nome? — perguntou então.para chover sobre as cabeças e corpos de todos aqueles homens e mulheres que o aplaudiriam como o cavaleiro andante. nove livros publicados. um príncipe. quase dezembro de uma segunda-feira. Um deus coroado pelo lado mais negro de todas as coisas. imaginou ouvir. Na ida à Europa. de lealdade e busca de um mundo melhor. para a rádio BBC. em algum lançamento). enquanto ele autografava livros. Por essas e outras é que a figura de Caio é tão associada a de D. Em novembro de 1990. ao seu lado.

quisesse ficar lá. Não sei para onde. a única diferença é que na Inglaterra as pessoas sofrem a crise com mais estilo. além de ver muitos filmes e ler muitos livros — seu inglês vai se soltando mais e mais — Caio fica na espera dos compromissos que tem a cumprir: algumas leituras e palestras na Inglaterra.S. ele sonha. uma negrona grita o tempo todo fuck you little devil! I’ll kill you. teria que batalhar um emprego. já que. quixotescamente. que tudo é perigoso. No fim das contas. Enquanto isso. um subemprego qualquer. sempre sem acentos — o teclado era britânico. como São Paulo era. mas me soam mais para David Lynch do que para T. Seguindo o costume de dar nomes às suas máquinas de escrever. Em Londres. por uma pechincha. "Em cima. bastard: para nigrinhos. que seria seu companheiro por anos. Quero porque . um irlandês. Grita mais coisas que não entendo. um casacão de soldado alemão no mercado de Camden. Escreve a Magliani: "Depois desta. não tinha nenhum dinheiro guardado para segurar a barra nessa hora. Caio estava feliz: visitou a casa onde morou Virgínia Woolf. com sua inabilidade em lidar com questões materiais. o lançamento da edição francesa de Os dragões. Isso é FUNDAMENTAL. Comprou um casaco. Algum lugar onde eu possa plantar rosas. Em Londres. seu editor na Inglaterra. Comprou uma máquina de escrever usada. foi até o rio Ouse. depois. Ray. onde ela se matou. uma espécie de Harlem londrino. queria demais começar a providenciar uma mudança de São Paulo. ". Eliot. essa ele chamou de Dorothy. ele fez alguns free-lances para jornais no Brasil e. fez sua carreira internacional. escreve a Jacqueline Cantore. uma SmithCorona. pegou uma pedrinha do jardim dela. Ele sente que os tempos são difíceis. mora num bairro negro. em março de 1991. com a qual passou a escrever cartas aos amigos. como Caio o descreve. assim. Caio fica uns tempos na casa de Ray. o Brixton. quando voltar ao Brasil.

Em Londres. mas respondi com um grunhido. dos clichês que se costuma apregoar do país. nunca saí de Santiago do Boqueirão". das grandes cidades. apesar de todos os pesares. talvez. O livro viria a ser publicado. mas no mundo. sentia que a cidade o sufocava. Afastei o banco para trás. apesar de todos os defeitos." Nessa carta. E é isso que encantará os franceses. Assim. a violência. não estão em Santiago. ele jamais deixaria de ser um gaúcho. não agüentava o moralismo das pessoas. um estrangeiro. acima de tudo. a amar o Brasil. a poluição. na mesma carta. Sobretudo ama. ele conta ainda à amiga que planeja escrever um livro chamada Histórias estrangeiras. o Brasil urbano. afinal. escreve. estendi . postumamente e incompleto. Assim que aceita sua condição de eterno estrangeiro. em que a metrópole é o pano de fundo para suas lembranças: O motorista japonês tentou puxar conversa. era a Europa. Em Porto Alegre. a confusão está é nele mesmo. o seu Brasil. Caio pode parar e olhar ao redor e ver que os problemas. diferente. um gaúcho da fronteira. E o descreve muito bem. com o título — já modificado por Caio — de Estranhos estrangeiros. pode aprender a amar o lugar onde está. Havia sempre um motivo para não gostar do lugar. quando se achava que tudo estaria bem. Mesmo aprendendo a gostar do Brasil. quando o livro for lançado lá: o retrato de um Brasil urbano. Com todas as crises e dores e terceiro-mundismos. E é assim que Caio começa. em Porto Alegre. mas também poético. ele achava tudo frio demais. e não só em outras cidades. um estrangeiro. Porque ele era. "No fundo. Seriam histórias sobre a condição de ser um estrangeiro. finalmente. Como no trecho seguinte. um homem sem lugar. afinal. Em São Paulo. sempre.quero cultivar roseiras. em São Paulo ou Londres. ele desistiu depois de comentar que ia cair a maior água. a Magliani. e Caio começou a perceber que ele seria. em Onde andará Dulce Veiga. pela Companhia das Letras. Caio ama e odeia o Brasil. violento.

cineasta. tinha a sua banda. vermes dentro de sanduíches. veloz feito uma mariposa que cruza subitamente o ar nas noites de verão. lá na Espanha? Caio está brincando quanto a isso. abri mais o vidro. e pedi que aumentasse por favor o volume. O livro. e era muito. chacinas em orfanatos. Caio começa a sonhar alto. Com o sucesso do livro na Europa. gaúchas. Laura é uma das três irmãs Finocchiaro. Ele ligou o rádio. e se algum diretor francês se interessa e resolve comprar os direitos? E se o Almodóvar se interessa. anos depois. a camisa molhada. surgiu da idéia dos dois para um filme. mas ele brinca principalmente para convencer o amigo Guilherme de Almeida Prado. mas ele não trocou. Laura fez a música. à procura de luz acesa para girar em torno. Isso me fez gostar um pouco dele. a fazer o filme. finalmente. dentro do táxi que descia em direção ao Ibirapuera. o vento soprava na minha cara.as pernas. por quase um segundo. lembrei então de Pedro. eu queria ver no escuro do mundo. no fundo turvo do pensamento. muito rapidamente. Caio chegou a pedir para uma amiga cantora. claro. Laura. tão oriental. talvez budista. cantora. tive certeza. todas artistas. secando o suor. muito maluca. como quem de repente suspira ou pisca e segue em frente. Lory E. a pilha de laudas virando pasta entre meus dedos. Vai trocar de estação. enquanto o carro rastejava pelo trânsito difícil. e a gravou. sem querer nem provocar ou conduzir. Com trinta e poucos . Chama-se Poltrona verde. Débora é atriz. rezei para que não sintonizasse num daqueles programas com descrições hiper-realistas de velhinhas estupradas. a Lory E Band. musicar uma letra que ele fez. e muito amiga do Caio. como quem apaga ou acende uma dessas luzes para perceber no quarto vazio apenas a vibração de asas que restou no ar. Laura Finocchiaro. sobre o asfalto em brasa. e por quase um segundo. não o inseto que já foi embora. A outra irmã. De repente a voz rouca de Cazuza começou a cantar. afinal de contas. fechei os olhos. Dulce Veiga é uma história supercinematográfica. outra vez. era roqueira. deitei a cabeça no encosto de plástico pegajoso e por quase um segundo.

e foi aí que surgiu o nome "besteirol". Em uma de suas viagens à Europa. Adriana escreveria mais tarde a canção Alegre. Cida ou Marina Lima. Nenhuma das duas tinha qualquer ligação com o interior ou com a música caipira. como Adriana. Escreveu releases para discos de Laura e de Cida. ele levou a fita da dupla pop-humorístico-sertaneja Xicotinho & Salto Alto. comédia de costumes.. asfalto nas veias. Caio amou o álbum. o espetáculo entraria no quinto ano de apresentações. e sempre fazendo referências ao álbum Senhas. . porque Londres em 1990 era apenas o começo — escreveu algumas cartas a ela. Cida Moreira. besteira. prestando atenção em cores. era um dos melhores amigos. gravada por Vânia Bastos. faria sucesso com o espetáculo Terça insana. seria uma das únicas fitinhas que ele levaria para ouvir no walk-man. Stella participou. A crítica. amiga de Caio. E Caio não gostava apenas de cantoras sérias. no entanto. Diziam que era bobagem. sem cobrar por isso. Era amigo de muitas delas: Laura. O público e a crítica estariam prontos. surgiria uma nova tropa de atores e autores de teatro inspirados no movimento. O teatro besteirol fazia crônicas sobre o cotidiano. Era a peça As 1001 encarnações de Pompeu Loredo. "deusa"." Em homenagem a Caio. tinha o humor contundente e criticava a sociedade. filha de Dulce Veiga. do primeiro besteirol da história dos besteiróis. Adriana Calcanhoto. atriz paulistana. Caio adorava cantoras. nas outras vezes em que esteve na Europa — sim. fez a dupla com a cantora Katia Bronstein. vocalista da banda Vaginas dentatas. Em 2006. Chorava sempre na parte do "eu ando pelo mundo. Vinte anos depois. sempre com mais e mais fãs.anos. da cantora. é um pouco inspirada em Lory. De Cida. Grace Gianoukas. apenas de farra. O personagem Márcia Felácio. A Adriana Calcanhoto. Inspiração. morreu de aids. não assimilava. como atriz. ele admirava demais. e homenagem. escrita por Vicente Pereira e Mauro Rasi. e a ouvia sem parar.. que fez sucesso com a canção Doida demais. contando de suas experiências. em 1980. Stella Miranda.

decide visitar Maria Lídia Magliani. do projeto de Dulce Veiga. Ali Magliani. histórica. 15 graus negativos. ainda que muitos anos depois. era natural que o amigo filmasse a história. numa cidade pequena. E. cheia e grossa voz — no filme A dama do Cine Xangai. não havia dinheiro. para esse tipo de humor. e com vários atores consagrados nos papéis principais: Maitê Proença como Dulce Veiga. ambos de Guilherme. que é artista plástica. Guilherme de Almeida Prado não conseguiu filmá-lo naquela época. no filme se chama Caio — uma singela homenagem ao amigo — e é vivido pelo ator Eriberto Leão. com todo apoio das leis culturais. longe das capitais. porém. e com Laura. Caio está com a saúde meio arrebentada. feridas em dois dedos da mão esquerda e um da direita. que Caio acha maravilhosa. lenta. pode cultivar uma horta. e também leu dois textos em off — com aquela bela. como Dulce Veiga era um projeto dos dois. Caio não viu Dulce Veiga virar filme. A médica chamou a infecção de . não impede que Caio fique doente. no frio. Primeiro. as dificuldades de se fazer cinema no Brasil eram imensas. A tranqüilidade da cidade. em Tiradentes. e de até a música estar pronta. Caio está de volta. além disso. Depois. e depois de passear também pela França. Vai acompanhado da amiga escritora Sônia Coutinho. O projeto só foi iniciado em 2005. que no livro não tem nome. cheia de belos morrinhos. Caio fez uma pequena ponta no filme Perfume de gardênia.finalmente. Foi só na volta a São Paulo que seu organismo começou a dar problemas. Lá. suficientes para fazer litros de chá quando voltasse a Sampa. Quando ele volta a São Paulo. Seis meses depois de ter deixado o Brasil. Ele colhe várias ervas. Minas. Caio inveja a vida que Magliani conseguiu montar para si. Apesar da sua amizade com as cantoras. Renovado. com umas pequenas infecções. A relação de Caio com o cinema de Guilherme vem antes. agora sim. na neve. uma otite. elas pioram ainda mais. pode pintar e desenhar com tranqüilidade. Carolina Dieckmann como Márcia E O narrador. ele estava bem. no entanto. Depois que voltou da Europa.

Caio escreve ainda um ensaio sobre a atriz gaúcha Luciene Adami. aliás. Para a Playboy. Ele fazia pelo dinheiro. A segunda edição do livro sai em 1994. em Curitiba. dava textos de Clarice Lispector. principalmente. Escreve. A experiência de ter aula com ele foi marcante para muita gente. João e Caio se tornaram amigos. sugeria mudanças. sempre fazem de Caio um pouquinho mais feliz. pela Siciliano. Caio passeia por São Luís do Maranhão e passa o Natal de 1991 em Porto Alegre. não era motivo para fazer O Teste. mas nem por isso deixava de fazer o trabalho bem feito. como o conto Tentação. em São Paulo. Além de Curitiba para a oficina literária. que estava em cartaz na França. escritores de renome. lia o que a turma escrevia com carinho.estreptococcia e achava que não. Um dos alunos de Caio foi o gaúcho João Batista. Como sempre. Mesmo com as infecções e os namoricos que eventualmente aparecem.H. e os discutia depois. crítica literária para a Playboy. volta renovado: uma viagem aos pampas. Quem fez oficina com ele conta: Caio era um professor atencioso. Caio não consegue parar quieto. depois mais laboratórios de criação literária. um contato com as raízes. que o conheceu na oficina Anatomia do Conto. nas viagens à Europa que fez. o escritor acaba perdendo o . amiga sua e de Ivan Mattos. e às vezes comentava que preferia se dedicar somente à sua literatura. também. mesmo que não tenham nascido daí. necessariamente. como o pôster de uma peça de teatro baseado em Clarice Lispector: La passion selon G. escrito aos 18 anos. que atuou na novela Pantanal. Caio mandava sempre um postal ou trazia uma lembrança para ele. ministrada pelo escritor na Casa de Cultura Mário de Andrade. seu primeiro romance. Dá palestras em várias cidades de São Paulo. para os alunos lerem. com a família. Ele volta preparado para enfrentar o passado e reescrever Limite branco. Entre uma viagem e outra.

Foi uma época de glória para ele: bem tratado. bem alimentado. bem acompanhado. entre outros. Funcionava assim: ele ficava dois meses num apartamento todo montado. O aluguel subira demais e ele não tinha como pagar. publicada na França e. Caio viveu. em Nova York. para ser publicado pela editora Arcane XVII. Assim à vontade. na verdade. sua única obrigação era deixar um texto pronto. e vales para ir ao cinema e teatro e bares de graça. mais uma pequena mesada de 1500 dólares. na França. mesmo assim. por dois meses. passaram pela Maison o escritor argentino Ricardo Piglia. uma pequena novela chamada Bem longe de Marienbad. Sem se preocupar demais. Caio rumou para SaintNazaire. que fica em Saint-Nazaire. enquanto a causa rolava na Justiça. Dessa vez. no décimo andar de um prédio defronte ao mar. afinal. anos depois. com tudo pago: ele era convidado da Maison des Ecrivains Etrangers (Casa dos Escritores Estrangeiros). O texto gira em torno de uma frase que perseguia o escritor há anos. no Brasil. uma frase de Camille Claudel numa carta a Rodin: "Il y a toujours quelque chose d'absente qui me tourmente. ele realmente se atirou de uma janela e morreu.apartamento onde mora. Caio escreve um ótimo texto. autor de Dinheiro queimado. uma pequena cidade portuária. ao sair. e o chileno Reinaldo Arenas. no póstumo Estranhos estrangeiros. Seis meses mais tarde. Depois de dez dias em Paris. no final de 1992 já estava de viagem marcada para a Europa de novo. Antes dele. ficou apenas três dias: tinha medo de se jogar da janela do apartamento — que ficava num décimo andar — e foi embora. inclusive com faxineira." "Há sempre alguma coisa de ausente que me . ele continuou morando no apartamento. para uma bolsa de dois meses. um conto de fadas para escritores. Arenas.

pela comida ou qualquer desses outros detalhes dos hotéis. e promete. com imagens dele andando pela cidade. Aumento o som da canção. em um francês bastante razoável. e ela insiste. Caio grava um pequeno documentário para a Maison. e uma entrevista. com seu capotão inseparável. s'ilvous plaft. seria explicar por que me vou sem sequer passar uma noite aqui. Caio chamou a novela de O leopardo dos mares. vai a seu apartamento. O texto. Pelo risco da imobilidade eterna. Desvio o rosto. em primeira pessoa. pelo perigo de eu mesmo permanecer para sempre aqui. descobre a busca do outro por si. e por fim descobre a si mesmo. Na temporada que passa em Saint-Nazaire. o que só se descobre ao final. é delicado e belo. é a história de um homem que chega a uma pequena cidade na França para procurar um amor. sendo o leopardo o próprio narrador da história. de literatura. Mais difícil. bien sür." A novela. no frio e nas brumas. madame. com certeza madame não compreenderia tanta ânsia tropical. que me soa romântico com seus erres rascantes ditos pela loura cinqüentona da portaria. igualmente imóvel. ao final. em que ele fala de suas influências. e alguns dizem que há castelos pelo caminho. em português. Originalmente. não devo me deter tempo demais em meus próprios olhos. mesmo insignificante. permeado de referências a Arenas e à canção de Barbara e F. mas pelo horror imóvel das enguias em sua jaula de vidro associado ao outro horror também imóvel daquela palavra. Ainda não anoiteceu.atormenta. de . madame. se agita e move e se perde em outro lugar. É fácil descobrir o endereço — dix-sept. Wertheimer. em que se entremeiam passagens de sua narração de Bem longe de Marienbad em off. rue du Port —. a possibilidade do reencontro e da harmonia. Ele segue as pistas do homem. Marienbad. olho para fora enquanto o trem dispara sobre os trilhos. congelado em inúteis delicadezas enquanto tudo ou nada ou apenas qualquer coisa. Não pelo quarto. Preciso ficar sempre atento.

pensava Caio. e não tem mais onde morar quando voltar. Fala também da importância do cinema em seus textos. Tudo na mais absoluta paz. Daniella. diz que. Enquanto não está escrevendo. de poesia. lê. e aquilo muito o chatearia. As pessoas costumam se referir a Gil como secretário de . alguns anos depois. Ouve o álbum Senhas. Conversa também com Isabelle. uma turma da Estônia. segundo ele afirma em carta. a astrologia é importante para ele na criação dos personagens de seus textos. cada um tem seu mapa astral desenhado antes da escrita. ele vai ao cinema várias vezes. É nesse documentário que Caio fala que. de Adriana Calcanhoto. porque no Brasil as coisas estão feias. a filha de nove anos de idade de seu editor na Arcane XVII. independentemente de se acreditar ou não. em sua ausência. Marina sabe tudo sobre Van Gogh e Caio adora conversar com ela. de seus processos de criação. De vez em quando. que nunca teve muita paciência para crianças. SaintNazaire. repetidamente. Caminha na praia. é Gil Veloso. era um pequeno sonho. de astrologia. que. com seus zooms. O documentário é muito bem feito. começa a afrouxar. quando se descobrisse doente. e dá a chance a Caio de falar de sua obra. Ele. cortes e mudanças de perspectiva. fade-ins e fade-outs. a gaivota que mora na janela da cozinha. enfim. Quem cuida de tudo. e a personalidade bem formulada. participa de jantares e eventos com os outros escritores convidados da Maison. Letônia e Lituânia. Caio aproveita esse momento da melhor maneira que pode. quando está escrevendo. com sua carteirinha de convidado. escreveu peças lindíssimas. ele seria chamado para muitas entrevistas. e uma dramaturga tcheca. sempre pensa: onde está a câmera agora? Ele pensa o texto de uma forma cinematográfica. Faz também amizade com Marina. Ele perdeu mesmo a causa judicial do seu apartamento.cinema. a realização de um ideal: todo escritor deveria ter aquelas condições para escrever. só que todas girando em torno do tema HIV/aids.

Na verdade. que acabavam ficando para ele. Sappe havia defendido uma tese sobre a literatura gay no Brasil. verificava contratos. Para Caio. papéis. Ficaram amigos. ele tem carona. pagava contas. Amsterdã. O escritor dizia sempre que Gil era um anjo da guarda enviado pelos céus para cuidar dele. Os dois foram sobretudo amigos. Caio achou aquele nome ótimo: Gil Veloso. porque ele deveria ser chamado de escritor gay. Sappe constatou que os escritores brasileiros não gostavam muito que chamassem o que faziam de "literatura gay". Tinha edições de obras do escritor que o próprio não tinha. convivendo com ele. Em esquemas mais econômicos. Gil brincava: anjo da guarda porque eu guardo suas coisas. o que nem sempre era fácil: era preciso paciência para lidar com o Caio.Caio. o amigo Sappe Grootendorst vai buscá-lo de carro. porque ele exercia esse papel: ia na padaria. vai para a Holanda. Para Amsterdã. é isso? Afinal. Gil era fã da obra de Caio. Graciliano Ramos não era chamado de escritor hetero. Visitando Caio. Gil percebeu a dificuldade do escritor em lidar com as coisas práticas da vida. Eles eram amigos. isso não existia. para a qual entrevistou 18 autores brasileiros. sem nenhuma segunda intenção. Tudo que fazia — nisso os amigos são unânimes em afirmar — era sem esperar nada em troca. ele viaja para divulgar seus livros. Em 1993. contas. mas nem por isso Caio deixou de voltar à Europa. mistura de Gilberto Gil com Caetano Veloso. Os dois se conheceram na metade dos anos 80. a explicação é que. às vezes. fazer leituras e palestras. Em seu estudo. até se tornar uma espécie de secretário. ele escreveu alguns contos cujos . foi Gil que desmontou o apartamento da Haddock Lobo e deu um jeito de guardar as coisas do amigo em sua própria casa. E foi ajudando. ajudando. por exemplo. embora não vestisse a camisa e saísse gritando palavras de ordem. entre os quais estava Caio. Em janeiro. fazia de tudo para o escritor. depois Kõln e Frankfurt. Gil nunca recebeu um centavo para cuidar do Caio. Em seu caso. bancos. O luxo na Maison acabara.

personagens eram gays ou em que havia sugestões de homoerotismo. Nada panfletário, mas em algumas situações os personagens apanhavam, eram criticados, se davam mal por sua condição. Saíam feridos, mas moralmente vitoriosos. Um exemplo é o conto Aqueles dois, de Morangos mofados. Dois rapazes, Saul e Raul, se conhecem ao serem contratados para trabalhar na mesma firma. A amizade dos dois irrita o pessoal da empresa e ambos acabam demitidos. Saul e Raul saem juntos, altivos. A derrota fica reservada para os que desaprovavam a amizade dos dois:
Pelas tardes poeirentas daquele resto de janeiro, quando o sol parecia a gema de um enorme ovo frito no azul sem nuvens do céu, ninguém mais conseguiu trabalhar em paz na repartição. Quase todos ali dentro tinham a nítida sensação de que seriam infelizes para sempre. E foram.

Caio odiava o rótulo de escritor gay, assim como odiava quaisquer rótulos que pretendessem dar conta de sua literatura em uma palavra. Escritor introspectivo, escritor de geração, escritor marginal, quais fossem. Ele não gostava, como em geral nenhum escritor gosta. Fosse como fosse, Sappe entrevistou Caio para seu trabalho, e anos depois traduziu alguns contos dele para o holandês. Agora ele ia buscá-lo para irem até a Holanda. Entre uma leitura e outra, Sappe e Caio arrumam tempo para se apaixonarem um pelo outro e viverem uma breve, porém bonita, história de amor. Fazem juntos, e à mão, um livrinho com um conto de Caio traduzido por Sappe, e vendem em várias livrarias gays. Nessa viagem, Caio vai ainda à França e à Alemanha, para cumprir compromissos relativos à sua carreira lá fora. Depois volta ao Brasil. Sem a ajuda que esperava receber dos amigos, já que estava sem casa e sem dinheiro, segue direto para Porto Alegre, para fazer um tratamento dentário com sua irmã Cláudia, que é dentista. Em junho Caio volta à Europa: Alemanha, para o Interlit

— o Congresso Internacional de Escritores do III Mundo —, depois Itália, para fazer o lançamento da tradução italiana de Dulce Veiga em Milão, Gênova e Veneza. Alegria, alegria: um dos sonhos de Caio é conhecer Veneza. Depois ainda, Berlim. Entre um compromisso e outro, Caio escreve aos amigos. Cartões para Adriana Calcanhoto, Luciano Alabarse. Um cartão rápido, escrito a quatro mãos por Caio e Gerd Hilger, seu tradutor na Alemanha, para Gilberto Gawronski. No cartão, Caio conta a Gilberto das leituras de Dama da noite que ele e Gerd estavam fazendo Alemanha afora. Depois Caio diria a Gilberto, a respeito de sua performance: — Acho que você teria orgulho de mim. Dama da noite é um conto de Caio, que Gilberto Gawronski, gaúcho, ator, adaptou para teatro e representou inúmeras vezes. A primeira apresentação da peça foi em 1988, no teatro Crepúsculo de Cubatão, no Rio de Janeiro. Depois, a peça foi para o Espaço OFF, de Celso Curi, em São Paulo. Ao longo dos anos, Gawronski a interpretaria ainda em Porto Alegre, Londres e no Rio. Em 1996, o ator a representou também na França, em Lyon. Gawronski dirigiu, montou e atuou tantas vezes nesse espetáculo que é difícil imaginar uma apresentação de Dama da noite sem o envolvimento dele; por isso é que Caio disse a Gilberto que ele teria orgulho dele. O escritor considerava o personagem tanto do ator quanto dele mesmo, que a tinha escrito. O posto de musa inspiradora do conto é reivindicado por várias amigas de Caio. Várias delas acreditam ter sido a fonte de inspiração para a mulher do conto, a dama da noite que conversa com um garoto, que ela chama de boy, e conta a ele sua história, que é a história, na verdade, de todo outsider, de todos os que vivem à margem da sociedade. O mais provável, contudo, é que a personagem seja um compósito, um amálgama da personalidade de todos essas amigas, como Claudia Wonder, Márcia Denser — a quem o conto é dedicado — e mais ainda um toque da imaginação do escritor.
Como se eu estivesse por fora do movimento da vida.

A vida rolando por aí feito roda-gigante, com todo mundo dentro, e eu aqui parada, pateta, sentada no bar. Sem fazer nada, como se tivesse desaprendido a linguagem dos outros. A linguagem que eles usam pra se comunicar quando rodam assim e assim por diante nessa rodagigante. Você tem um passe para a roda-gigante, uma senha, um código, sei lá. Você fala qualquer coisa tipo bá, por exemplo, então o cara deixa você entrar, sentar e rodar junto com os outros. Mas eu fico sempre do lado de fora. Aqui parada, sem saber a palavra certa, sem conseguir adivinhar. Olhando de fora, a cara cheia, louca de vontade de estar lá — tá me entendendo, garotão? Eu sou a dama da noite que vai te contaminar com seu perfume venenoso e mortal. Eu sou a flor carnívora e noturna que vai te entontecer e te arrastar para o fundo do seu jardim pestilento. Eu sou a dama maldita que, sem nenhuma piedade, vai te poluir com todos os líquidos, contaminar seu sangue com todos os vírus. Cuidado comigo: eu sou a dama que mata, boy.

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Verso do postal: "Com votos de Novo Ano LINDO p/ você. Te gusta?" . vai minha última foto. e toda a troupe da Sabará.

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né. No final de julho. do boy que a escute. Pronto: agora podem conversar de novo. que fala apenas de uma quarentona que vive pelos bares à caça de homens. tenho uma alminha três chie". Nos primeiros dias. que retrata a história de um homem com aids. Ao final do filme. Uma das cenas clássicas era a de Tom Hanks ouvindo Maria Callas e dançando. uma pessoa com uma postura mais agressiva que a do conto. a peruca vermelha e os longuíssimos cílios e faz o monólogo sem parar. com o choque do filme amortecido pela bebida. decide processar a firma. embora Laika. pode-se ver a decadência física do personagem. mas logo arruma um lugar para morar. ela sabe o que faz. demitido da firma onde trabalhava por estar doente. que no entanto acha injusta a demissão de Hanks pela empresa. Por fim.Na adaptação teatral. um ser ambíguo. Dana está sempre no controle. um flat na Frei Caneca. Caio diz: — Uma vodka pura. Ao final da carta. encontra um advogado homofóbico — vivido por Denzel Washington —. Foi com Gilberto Gawronski que Caio assistiu no cinema ao filme Filadélfia. vivido por Tom Hanks. um PS: "Falei com Zulmira . Gawronski se equilibra sobre saltos plataforma de 14 centímetros. ela é experiente. subindo nas mesas ou correndo. escreve a Gerd Hilger. É um pouco caro. fica hospedado na casa de Gil Veloso. mas custa a achar um advogado que pegue o caso. andando pelo bar. O homem. de 1993. em silêncio. Caio está de volta a São Paulo. Enquanto corre o processo. embora precise dessa platéia. assistido no cinema. De chorar potes de lágrimas. segurando a aparelhagem do soro. mas o escritor faz questão de um mínimo de conforto. Caio e Gilberto saem para a rua. mais que uma drag queen. Preciso ter uma ilusão de segundo mundo — você sabe que. Caminham pela Av. a dama da noite vira Dana de Avalon. e bebem duas doses. Paulista até o Ritz. coloca a pesada jaqueta de couro negra.

Caio pergunta sobre literatura. da qual ela fazia parte. Rachel? — à resposta afirmativa dela. Naquele dia. Embora Caio não faça muitas perguntas. ele se dá o direito de discordar. pois Rachel colaborara com os trotskistas. se ela acha que a literatura brasileira é muito desprezada. E pergunta do Collor: . Quando ela fala que o PT continua o que o Brizola e os caudilhistas tinham de pior. a autora nega.. ele pergunta: — Mas você não tinha noção das torturas? Rachel afirma que ela apoiou o golpe do Castello Branco. Segundo ela. Castello não torturara ninguém. quando as faz. em julho de 1991. os entrevistadores questionam a escritora sobre suas posições políticas. em certa época. ele pergunta se o latifúndio é produtivo ou improdutivo. ela responde que vai lhe mandar o gibi com as notícias. Quando ela fala da propriedade que tem no Nordeste. Um desastre! Você acredita que ela me acusou de ter sido injusto com a Raquel (sic) de Queiroz? Manda MATAR (as duas)!" O episódio a que ele se refere é uma briga que teve na televisão. O programa segue. Caio era chamado para ser um dos entrevistadores do Roda Viva.Ribeiro Tavares. Ele continua. com a escritora Rachel de Queiroz. mas depois apoiara o golpe militar de 1964. que chamava de caudilhos.. o embate entre os dois é claro. na época um programa bastante influente. Quando a escritora defende a presença de José Sarney na Academia Brasileira de Letras. Jorge Escosteguy. A essa altura. Caio já começa perguntando se ela é reacionária ou comunista. Pergunta o que os membros realmente FAZEM na Academia. são provocativas. que era seu parente. Rachel era contra João Goulart e Brizola. Já no começo do programa. ele ironiza: — Quem sabe não convidam o Collor para a Academia. e o apresentador. só os que vieram depois. muito amigo de seu marido. da TV Cultura. ao vivo. Começa o bombardeio: — Mas você apoiou o golpe. De vez em quando. a entrevistada era Rachel.

quer dizer que há um grau de liberdade muito maior — diz Rachel. Compreendo. É a última coisa.. porque passamos tempos muito piores. coisa e tal. no meu ponto de vista. você tem que fazer perguntas. erramos.. — Não é o mínimo. todos nós somos humanos. insiste. — Caio.. e não render homenagens. o apresentador intervém. — Se você tá perguntando isso em uma televisão oficial. Estou me sentido muito constrangido de estar aqui. até que Caio faça sua última manifestação. não. nos equivocamos.— Você não acha que o Collor tá dando continuidade ao que havia de mais lamentável no golpe militar de 64. — . a mais polêmica. — Tenho 42 anos e estive preso em 68! — Então você não aprendeu com o tempo. desculpe — intervém Escosteguy. Mas eu estou me sentindo extremamente constrangido de estar na posição de render homenagem ao tipo de ideologia que eu profundamente desprezo.. ele retruca. Realmente. Caio diz que ainda está aprendendo. — Eu gostaria de responder a você que nós estamos num país democrático. que você ajudou? Ela diz que só ajudou o golpe do Castello. — Mas é o mínimo. eu só queria dizer isso. — Não. tanto que calo — interrompe Caio. — diz Rachel. eu respeito suas posições e espero que você respeite as minhas. eu não tenho mais perguntas a fazer — diz Caio. O programa segue. eu concluo que você colaborou para coisas muito negativas nesse país. se as minhas posições são constrangedoras para você. estou sendo exigida de me pronunciar sobre . mas antes que continue. Por várias coisas que você falou. É porque você é muito jovem e não passou os tempos piores. e eu não vou me tornar constrangedor. — Quero falar uma última coisa. — Desde o Sarney que nós temos essa liberdade. — Eu respeito. eu acho também as suas muito constrangedoras para mim.

não se pode morrer em vida. meu bem. Caio segurava o turbante. "Laika é laika. que se recusa a sarar. Afinal. morre Vicente Pereira. Caio não fala mais nada. lançar os livros." . Caio pega uma gripe que leva três semanas para ir embora. Mesmo quando se cura. O programa continua. mas sente alívio pelo amigo. Mas tem que se levantar logo: afinal. de discutir isso com você. Cazuza. Mas se lembra também de uma frase que Vicente repetia. batalha serviços. escreve a Gerd Hilger. Caio. Em setembro de 1993. possivelmente. não é assim em German? Não é possível adiar a vida. em paz. e é preciso sobreviver. depois de lutar contra a aids por meses. mas o dinheiro é insuficiente para Caio se manter. como escreve a Gerd Hilger: "Não se pode ser infeliz. de criar.esses temas que eu não gostaria de me pronunciar. na opinião dele — feita por catedráticos da USP O pagamento? Um terço do que o tradutor original ganha. que o anima um pouco: "Segura o turbante. parafraseando alguma atriz de cinema. Galizia. e sente o ritmo". Ele fica triste. sem querer sair de casa. que dividiu apartamento com ele. sempre será". Alheio a tudo isso. Em janeiro de 1994. A coluna faz bastante sucesso. triste. havia quem criticasse e quem defendesse sua posição. o melhor amigo de Caio. depois de acertado o lugar para morar. só olha para o papel e rabisca. Não se pode: é pecado. Ele passa o mês praticamente de cama. daí a pouco é hora de ir para a França de novo. A performance de Caio no programa suscitaria debates sobre o papel do entrevistador e do jornalista na entrevista. Ele então faz trabalhos como revisar traduções — mal-feitíssimas. doente. O dinheiro que sobrou da Europa vai acabando aos poucos. é proibido — verbotten. agora. Já faz algum tempo que ele publica uma crônica quinzenal no Estadão. Depois uma otite crônica. fica deprimido. De forma que é recíproca nossa posição. sentia o ritmo e ia vivendo. O escritor se lembra de outros que foram: Orlando. não se pode desistir de amar.

. E coincidência das coincidências: quando Caio. o Jayme Monjardim. com o ego nas alturas. a gravação do programa foi engraçadíssima. que está curioso por conhecer. depois uma semana em Saint-Nazaire. mas só a nomeação já deixou o brasileiro orgulhoso. aqui no Brasil. em que os outros convidados do dia são Isabella Rossellini e Jeff Bridges. e ele vai divulgá-los em um programa de TV sobre literatura. enlouqueceu: ele tinha sido amigo íntimo dela. Caio passa uns tempos em Paris. Tendo assistido ao filme Kika. Caio chega à conclusão de que o Altman é um "Almodóvar COM substância". Seus livros vão indo bem no país. que ele odiou. foto em cores em Telérama. Ele faz também outro programa de TV. da Maison des Écrivains Etrangers. comparou Dulce Veiga à cantora Maysa. depois volta à capital francesa. ele vende seu peixe. o Cercle de Minuit. E há mais: sai matéria sobre ele na LExpress. que premia o autor e o tradutor do melhor romance estrangeiro traduzido no ano. John Updike acaba vencendo o prêmio em 1994. Apesar de muito requisitado para entrevistas. Caio sempre arruma um tempinho para ir ao cinema. comprou os três livros e deu vários outros de presente aos amigos. Não deixava de ser engraçado.. e . Enfim. Trocara fraldas do filho. Caio volta a Paris. Dessa vez. e os franceses estão comprando: Dulce Veiga é indicado para o Prêmio Laure-Bataillon. Vai até Lisboa. comparado por Caio ao Programa do Jô. se apaixona por Short cuts. que continua em Tiradentes. Tudo isso ele conta em carta a Maria Lídia Magliani. o diretor do programa. também comparado ao Jô daqui. Por conta dessas e outras. Depois de dois meses na França. para um garoto francês que viu a entrevista na TV.Em março de 1994. um chileno "gordimenso". perfil em Les Inrockuptibles. chamado Jamais sans mon livre (Jamais sem meu livro). Caio resolve dar uma passeada. do diretor espanhol Pedro Almodóvar. Está feliz: até autógrafo na rua ele deu. na entrevista. dirigido por Robert Altman e baseado no livro de Raymond Carver.

não resisto". e não consegue melhorar. Magro do jeito que era. E foi só pisar em terras brasileiras para cair doente. Caio perguntou: — E aí? — Não vai dar para fazer camiseta — respondeu ela. Já faz quase dois meses que voltou da Europa. Dá-lhe antibióticos e mais antibióticos. E ele tem trabalho a fazer. Ela foi. o envelope já aberto. apreensão. Na época. e por lá ficou. sempre decidida. "Se alguém perguntar por mim. tem que voltar à Alemanha em outubro. se desse negativo. claro. e Caio poderia respirar aliviado. Não. e sairiam pelas ruas jogando confete. A frescura é tanta. escreve a Luciano Alabarse. Caio estava apavorado.para a Noruega. achou que era melhor fazer O Teste logo. diga que estou noivo de Isabelle Adjani — mas não fiquei metido e mando beijos. em junho. o amigo de infância que foi para a Europa e não mais voltou. que. perdeu mais oito quilos. . "Ambos me convidam para a colheita de narcisos da primavera. Caio aceita a idéia. Até que Graça Medeiros. Parece mesmo o melhor a fazer. os resultados do exame demoravam uma semana para sair. para a França de novo em novembro. Caio não quis ir. eles fariam a maior festa. Uma semana de angústia. o que fosse — não o largava de jeito nenhum. já que as infecções não o abandonam. de papel passado e tudo. E na hora de buscar o resultado. Aí se tirariam as dúvidas. Caio volta ao Brasil. Pediu para Graça buscar para ele. mandariam fazer camisetas com EU SOU NEGATIVO! escrito bem grande. ele tem que se livrar dessa dúvida. visitar Augusto. Casou-se com um norueguês. de uma vez por todas. Falava e falava disso com os amigos. com medo da aids." Depois de Lisboa e Noruega. mas a danada da doença — o vírus. Nesse caso. bactéria. Chegou em casa.

Fazia sentido ele estar com aids: metade de seus amigos morrera em decorrência da doença. Pois é no corpo que escrever me dói agora. e por favor. Ele apenas diz que dói.] Assim Caio começa a contar ao seus leitores de O Estado de S. Dói muito. vão me salvar. muito explícita sobre o mal que o acomete. tudo é ainda muito turvo. Em Carson McCullers doía fisicamente. Mas por enquanto. Caio ainda não entendeu direito o que está acontecendo. Alguma coisa tão estranha que ainda não aprendi o jeito de falar claramente sobre ela.. Para você. A crônica. A princípio. chama-se Primeira carta para além do muro. feito Pessoa. e não é. tente entender o que tento dizer. no corpo feito de carne e veia e músculos. ele encara a coisa toda bastante bem. É com terrível esforço que te escrevo. Paulo que estava doente. ainda. saberei também esse jeito.SEIS Alguma coisa aconteceu comigo. mas eu não vou parar. deitado numa maça de hospital. os braços cheios de agulhas espetadas. para mim mesmo. cheias de fios e tubos plásticos ligados a agulhas enfiadas nas veias para dentro das quais escorrem líquidos que. essa coisa estranha. dizem. dói fisicamente escrever. embora . Como sempre tentei ser. Quando souber finalmente o que foi. publicada em 21 de agosto de 1994. feridas. outros tantos ainda lutavam contra ela. prometo. Então serei claro. Ele passara mais de uma década com medo de estar contaminado. está sob efeito de remédios. Nestas duas mãos que você não vê sobre o teclado.. [. e não à toa. Ele se encaixava perfeitamente naqueles grupos e comportamentos "de risco". E isso agora não é mais apenas uma maneira literária de dizer que escrever significa mexer com funduras — como Clarice. com suas veias inchadas.

A doença era a cara dele. Déa Martins e Gil Veloso também ficaram. Não se assustou. Foi o que aconteceu ao Caio. Ligou para mais gente. e rumaram para o apartamento do Caio. e não só ela. ela não conseguiu voltar na segunda. Os médicos dão a isso o nome de "quadro de dissociação mental". a febre levou ao delírio. de ser soropositivo. O choque de saber-se condenado. todo o absoluto que estava contido no resultado positivo do exame. era demais. provavelmente. Caio pensou. Era como se já soubesse. Graça ficou preocupada. recitava em alemão. Caio não estava nada bem. conversaram. não necessariamente drogados. Custaram a arrumar . Foram para o Emílio Ribas. e Gil logo percebeu. acabou. Ele tivera. Porém as coisas atrasaram. não necessariamente promíscuos. parecia descer sobre sua cabeça e esmagá-la como um trator. francês. enfim. viram que estava sereno. teve que voltar ao Rio para cumprir um compromisso de trabalho. delirantes. Vou morrer. pensou ele. sua mãe.já se soubesse que o vírus não era exclusivista e atingia gente de todo tipo. Lygia Fagundes Telles. ao telefone. Pegou o telefone e calmamente ligou para os amigos. e ligou para ele. se matar. Durante o final de semana inteiro — pegara o resultado numa sexta-feira — ficou bem. Tentou se atirar da janela. o choque da descoberta. Graça. não necessariamente gays. Vou morrer. que estava cuidando dele. finalmente. Alguns amigos foram visitá-lo. Era peso demais. veio a febre. Ele não sabia o que estava fazendo. De repente. doentes. não se lembraria de nada. caíra a ficha: toda a irreversibilidade de sua doença. tenho aids. todo o significado. Nada incomum em casos assim: grandes traumas podem levar as pessoas a ficarem temporariamente perturbadas. Não era intenção de Caio. contando a notícia: Cida Moreira. No dia seguinte. Gil segurou-o a tempo. Voltaria na segunda. Gil resolve que era melhor correr com ele para o hospital. Muito alta. O organismo não agüentou. Ele não falava coisa com coisa.

que Caio e Gilberto haviam assistido juntos. claro. na Filadélfia. brincou. o médico alertou: — Se prepara. já fazendo referência velada à doença. ele escreveu a Primeira carta para além do muro. Ele ia para os exames e pedia aos amigos: segura a Maria Callas pra mim. Talvez não sejam maus. por favor. Graça Medeiros também já estava na cidade. já muita gente tinha sido avisada: Cláudia Abreu. que ele levava dançando. veio de Porto Alegre. Graça também teve uma discussão com o médico: ele dizia que Caio estava maluco. cantou. Quando Gilberto Gawronski apareceu para visitá-lo. exatamente como na cena de Filadélfia. era uma referência ao filme de Tom Hanks.um leito no hospital lotado. a maneira . O médico insistia em dizer que Caio estava mentalmente muito perturbado — provavelmente com um tumor no cérebro. o trauma. ele ia descobrindo um jeito de lidar com a doença. Logo ele voltaria ao normal. diz: — Bem-vindo à Filadélfia! O médico vira para Gilberto. assim: Tenho medo é desses outros que querem abrir minhas veias. Não só a memória de Caio estava intacta. E termina o texto. Outros amigos iam visitá-lo. porém. A Maria Callas era o aparato do soro. No dia seguinte. vegetativo. discretamente: — Eu não disse? Aí Gilberto relaxou. ele se agarrava à única coisa que podia ajudá-lo a viver: a literatura. E o humor do Caio não parava. Ele compôs raps para o AZT. talvez eu apenas não tenha compreendido ainda a maneira como eles são. Quando abre a porta e Caio o reconhece. Antes de ter descoberto esse jeito. Mas como o médico podia saber disso? Ele pensou que o Caio achava estar. como também o seu humor. "Bem-vindo a Filadélfia". Gilberto entra no quarto com o coração apertado. sua irmã. Depois do susto inicial. Na crônica. Periga o teu amigo não te reconhecer. Ela dizia que não. esperando ver o amigo totalmente abalado. realmente. incomunicável. era apenas o susto.

como tudo é ou tornou-se, inclusive eu mesmo, depois da imensa Turvação. A única coisa que posso fazer é escrever — essa é a certeza que te envio, se conseguir passar essa carta para além dos muros. Escuta bem, vou repetir no teu ouvido, muitas vezes: a única coisa que posso fazer é escrever, a única coisa que posso fazer é escrever.

Depois da primeira, vieram ainda uma segunda e uma terceira cartas. A segunda é um pouco mais clara que a primeira, e fala dos anjos que Caio encontrara em sua descida ao inferno: anjos de branco, funcionários do hospital; os anjos de negro, seus amigos que lhe trazem presentes e carinho. E os outros anjos, os que já foram.
Noite alta, meio farto de asas ruflando, liras, rendas e clarins, despenco no sono plástico dos tubos enfiados em meu peito. E ainda assim eles insistem, chegados desse Outro Lado de Todas as Coisas. Reconheço um por um. Contra o fundo blue de Derek Jarman, ao som de uma canção de Freddy Mercury, coreografados por Nureiev, identifico os passos bailarinos-nô de Paulo Yutaka. Com Galizia, Alex Vallauri espia rindo atrás da Rainha do Frango Assado e ah como quero abraçar Vicente Pereira, e outro Daime com Strazzer e mais uma viagem ao Rio com Nelson Pujol Yamamoto. Wagner Serra pedala bicicleta ao lado de Cyril Collard, enquanto Wilson Barras esbraveja contra Peter Greenaway, apoiado por Nelson Perlongher. Ao som de Lóri Finokiaro, Hervé Guilbert continua sua interminável carta para o amigo que não lhe salvou a vida. Reina Ido Arenas passa a mão devagar em seus cabelos claros. Tantos, meu Deus, os que se foram. Acordo com a voz safada de Cazuza repetindo em minha orelha fria: "Quem tem um sonho não dança, meu amor."

A terceira crônica é muito mais clara que as outras duas. Nela, Caio conta o que lhe tinha acontecido, detalhe por detalhe. O Teste, o resultado, as ligações para os amigos, depois a febre e o delírio, e o hospital. Caio ficou 27 dias internado no Emílio Ribas. Lá aconteceu uma coisa inesperada: ele recebeu tanto carinho das pessoas, tantas

vibrações positivas, como comentaria sempre em entrevistas dali adiante, que ele foi, serenamente, começando a aceitar. E que mais ele podia fazer? A doença era irreversível demais para que se pudesse lutar contra; era preciso aceitar. E ele aceitava todo dia, como escreveu na Ultima carta para além dos muros.
[...] O que importa é a Senhora Dona Vida, coberta de ouro e prata e sangue e musgo do Tempo e creme chantilly às vezes e confetes de algum carnaval, descobrindo pouco a pouco seu rosto horrendo e deslumbrante. Precisamos suportar. E beijá-la na boca. De alguma forma absurda, nunca estive tão bem.

A terceira crônica foi escrita já em Porto Alegre. O médico recomendara a ele: você precisa agora é de qualidade de vida. Então Caio decidiu: adeus, São Paulo. Fez uma festa de despedida na boate A Loca, na qual cantou Laura Finocchiaro e compareceram muitos amigos, como Paula Dip e o marido. Mário Prata se lembra de ter visto Caio pela última vez nessa festa. Muitas luzes vermelhas, verdes, azuis, muita fumaça. Prata estava sentado em uma escada quando Caio passou a mão em sua cabeça e subiu os degraus, leve, incorpóreo, parecendo, por causa das luzes coloridas, uma figura sobrenatural, um anjo. Caio voltou, então, ao Rio Grande do Sul, para morar com seus pais já tão idosos, no sobrado colonial espanhol no bairro Menino Deus. Há roseiras no jardim, como ele sempre sonhara em ter. E ele se dedica, então, a cuidar de si, de suas flores, de sua obra. Nunca foi tão fácil conviver com o Caio — alguma coisa nele meio que serenou. O mau humor de antes, as alfinetadas, o gênio difícil, tudo isso foi substituído por uma espécie de paz, de aceitação. Ele vivera os últimos anos em constante aceleração, viajando de cá para lá, ParisBerlim-Londres-São-Paulo, e agora era obrigado a parar. Ele sempre quisera desacelerar; invejava a amiga Magliani e sua horta, lá em Tiradentes. Agora era a hora. Não haveria outra, ele pensava. A vida não era mais adiável.

Ele descobriu o que já sabia ainda com mais força: amava a vida. Acalentava o sonho de fazer parte da primeira geração de sobreviventes, os primeiros a driblar o vírus da aids. Não a cura, que isso parecia impossível, mas alguma maneira de estabilizar a doença, deixá-la tipo a diabetes, algo crônico, porém não letal. Ele achava que, se conseguisse sobreviver mais um ou dois ou três anos, essa "cura" podia aparecer, e então ele poderia viver muitos anos mais. E estava certo: quando ele morreu, em 1996, já existiam os remédios que comporiam o famoso coquetel. Ainda não se sabia como dosá-los, e administrá-los nas doses certas para manter a doença em níveis controlados, mas já existiam. Em Porto Alegre, a rotina de Caio era simples: acordava cedo, tomava café, ia cuidar das roseiras. Escrevia um pouco: crônicas para O Estado de S. Paulo e agora também para a Zero Hora, de Porto Alegre. No Estadão, Caio escrevera crônicas de 1986 a 1989; depois de uma pausa de três anos, retomara seu espaço em 1992, e escreveu até dezembro de 1995. Uma seleção de suas crônicas para publicação em livro foi elaborada por Gil Veloso, quando Caio já estava doente. Pequenas epifanias foi publicado em maio de 1996, alguns meses depois da morte de Caio. A rotina leve na casa dos pais e as doses de AZT pareciam estar funcionando. Caio ganhara peso, os exames de sangue apontavam bons resultados de plaquetas, leucócitos e linfócitos. Quando precisou de um remédio mais caro, americano, que custava 4 mil dólares o grama, Lucinha Araújo, a mãe de Cazuza, e Scarlet Moon, esposa do Lulu Santos, conseguiram de graça para ele, conta Graça Medeiros. As coisas pareciam bem, e Caio decidiu que iria, sim, cumprir seus compromissos na Europa. Primeiro, a Alemanha. Em 1994, a Feira de Frankfurt foi dedicada ao Brasil; Caio foi participar da feira e depois seguiu por várias cidades alemãs, fazendo leituras e palestras. Ele iria ainda à França, passar duas semanas em Aries, numa mini-bolsa para escritores, mas não deu. Um teimoso

mandando ele parar. imprimia tudo. Amigos de São Paulo — Celso Curi. Tratara de Lory Finocchiaro e de mais tantos positivos que havia em Porto Alegre. falou em cartas aos amigos que agora era um homem informatizado. uma calça clara. O sarcoma é uma espécie de câncer de pele. quando a lesão apareceu. provavelmente. outras alegrias esperavam Caio: seu novo imunologista. por exemplo. Além do laptop levado por Celso.sarcoma de Kaposi resolveu brotar em Caio. Não foi surpresa. e brotar bem na ponta do nariz. uma lesão arroxeada que acomete as pessoas contaminadas com HIV. É um dos estágios mais adiantados da doença. Celso chorava o tempo todo. Maria Adelaide Amaral. a última vez que se veriam. e o motivo era revelado agora: conhecer o . ou pelo menos assim parecia. achando que havia um motivo pelo qual ele pegara a doença. o médico. ele e Caio saíram juntos para o teatro. Vânia Toledo e mais alguns — fizeram uma vaquinha e compraram um laptop para ele. Caio adorou. E Caio ficou apaixonado por ele. Caio já devia estar contaminado há pelo menos uns dez anos. porque estava incomodando. Não sabia salvar os arquivos. Assim que terminava de escrever. meio a sério. Informatizado em termos: Caio não sabia muito bem mexer no computador. Celso estava muito mais triste que Caio. Quando Celso esteve em Porto Alegre para entregar o computador. E também não queria aprender. E corrigia as provas à mão. Belíssimo. Chorava de molhar a calça. Caio antecipou a volta ao Brasil. Ah. Caio recebeu um presente inesperado. Lasanha. o nome do imunologista. Mas na ponta do nariz era demais. como sempre fizera. De volta a Porto Alegre. ao lado dele. Era. e. pensando no amigo que ia perder. apaixonado assim meio de brincadeira. o imunologista. Celso Curi foi eleito para ir a Porto Alegre entregar o presente. escreveu crônicas contando de seu novo Robocop. E Caio. Era lindo. segundo os cálculos dos médicos. Eduardo Sprinz. dando soquinhos em sua perna. portanto.

a não ser que leve o Valdir junto. que era quem.. tinha o temperamento do tio: às vezes se isolava. eu recém comecei a pegar amizade. Rodrigo. E passava tardes inteiras sentado com ela. e que fiquei doente apenas para conhecê-lo. Cecília Niesemblat. Felipinho. no entanto. ele se apaixonava pelo imunologista. desenhando. ontem foi apenas a segunda vez que nos encontramos! Mas falando sério — God! — que homem GOSTOSERRIMO.. Além da medicina clássica. não . Caio não estava disposto a apostar todas as suas fichas num número só. Caio escreve a Gerd Hilger: "Gerd Alberto da Silva Hilger.. era incrivelmente louco por frangas. estava mais próximo dele agora. Ele passava o dia brincando com seus sobrinhos: Rodrigo. e gostava muito de Frida Kahlo — queria sempre ver a foto daquela "mulher de bigode". a quem Caio dedicou alguns contos. Caio comprou uma caixa de lápis de cor enorme para a Laura. e que natural e inevitavelmente ele também vai se apaixonar por mim. quem o tocava. o mais novo. o Caio. Para seu governo. um clichê até justificável: se muita gente se apaixonava pelo analista. segundo ele. como o senhor é guloso! Já pedindo foto da MINHA lasanha completamente pelado(a). de quatro. filhos de Cláudia e Jorge. o tratava com florais de Bach. de onze anos. e que movido pelo amor descobrirá algum medicamento fantástico que me salvará a vida e certamente logo depois iremos viver em alguma ilha do Pacífico Sul (ou norte. Sempre apaixonado. o Felipinho. ele se tratava também com propólis e lama de Araxá. desenhando. Via uma e começava a gritar: gangá-gangá! E o mais velho. virginiano como o Caio. tanto faz) onde seremos felizes para sempre — e o senhor Não será convidado a nos visitar. quem lhe dava a promessa de vida. e Laura. era mais curativo que AZT: crianças. uma amiga antiga. OK?" Por mais lindo que fosse o médico. E Caio descobriu um remédio que.. e o mais novo. E pelo médico. que adorava desenhar. filho de Luiz Felipe. ou leste. afinal. oeste. Claro que estou achando que tudo era fatal.médico. honey. de um ano e meio.

nas crônicas. Junto com o marido. esforço. A sua principal preocupação era o jardim. ou as formigas querendo devorar as angélicas. vivo. rua onde os Abreu agora residiam. era difícil manter o jardim vivo. De vez em quando. principalmente em festas ou reuniões familiares. ou a flor do girassol pesada demais para seu próprio caule — "como se não suportasse o peso da própria beleza que engendrou" — . como queria. Podia também ver o pôr-do-sol na usina do Gasômetro. Eram caramujos canibais querendo devorar as flores. alguns deles loucos por jardinagem. porém. Havia as rosas. E Caio gostava de viver assim. era muito informático.queria saber de ninguém. D. tranqüilo. Caio estava ficando obsoleto. ou o inverno rigoroso que secava as plantas. Anita. cuidando. ou ervas daninhas de todo tipo. as roseiras que ele amava — algumas das quais estão de pé até hoje. mesmo nome de uma sua irmã falecida. sua vizinha. mexendo na terra. o escritor pegava a bicicleta e ia dar longos passeios no parque da Marinha. Ela vira cada casa ser construída. para ir à fisioterapia. . artista plástico. Conversava com os vizinhos. Horas e horas ele passava no jardim. Era calmo. com quem o escritor trocava sementes e dicas e truques. Caio ficava encantado em conversar com ela. como Irineu Garcia. Caio brincava: estava pensando em trocar suas credenciais de "jornalista e escritor" para "escritor e jardineiro". que todos os dias passava em frente ao jardim. cuja casa ficava em frente à do Caio. E bonito. Anita fora a primeira moradora da Oscar Bittencourt. Ao contrário do tio. D. ele falava sempre das dificuldades que tinha em manter o jardim. Era preciso trabalho. sabia lidar com computadores. e sabia a história de cada morador. descendente de italianos. vizinho da casa ao lado. lindo. Anita era fascinada pelo continente. Nas cartas aos amigos. onde tirou algumas das fotos mais famosas de sua vida. Chegou a colocar na filha o nome de Itália. Adorava conversar com Caio: ele lhe contava as histórias da Europa. impressoras e tecnologias. onde Caio passava a maior parte do tempo. enfim. Conversava com D. octogenária. ou Felipe.

compartilhava seus interesses literários e astrológicos. Emma de Mascheville. uma alemã que influenciou várias gerações de astrólogos em Porto Alegre. Caio dedica alguns textos a D. ele precisava de uma caixinha de isopor para guardar os remédios. Mesmo isolado. Amanda levou a tal caixinha em um almoço. o bairro onde morava. sempre perguntava se ela não achava que as mudanças astrológicas não poderiam trazer a cura da doença. emocionou . foram comer camarões no Tirol. Em 1995. Foi um sucesso. Caio e Amanda foram alunos de astrologia de D. Caio continuava trabalhando em outras coisas. Trocavam cálculos astrais e confidencias nas cartas. do qual Porto Alegre é apenas o que há em volta". e se deram bem de imediato. Os moradores do Menino Deus consideram Caio uma espécie de patrimônio local. escrevia. Caio estava lá para falar como escritor e ela. Escreveu em uma crônica. Emy. astróloga e amiga. Anos depois de sua morte. na Jornada Literária de Passo Fundo. novela da ensaísta americana Susan Sontag que descreve as reações de um grupo de amigos quando um deles contrai aids. um restaurante de que ele gostava muito. de uma geração mais nova que a do Caio. trabalhava na editora L&PM. o chileno Carlos Aguirre Sepúlveda abriu uma pastelaria no bairro e. aparecia. portador do vírus. para ficar mais bonitinho. Os dois se conheceram em agosto de 1985. como a chamavam. Além das crônicas. Caio se sai com essa: — Obrigado. Os dois tinham algo em comum: assim como Graça Medeiros. Fez a tradução de Assim vivemos agora. Caio não perdia o contato com os amigos. A tradução ter sido feita por Caio. certa vez: "moro no Menino Deus. Agora vou forrar com papel de oncinha. com o casaco preto enorme. que já era fã e se lembrava de vê-lo na rua. Amanda. nos anos 70.Caio quase não saía do Menino Deus. nos últimos anos. Sempre alguém ligava. Como Amanda Costa. para homenagear os moradores e o escritor. fez uma faixa com a frase.

Pelo menos aquelas trocadas com outros escritores e artistas. escrita aos 13 anos de idade para um concurso escolar. poemas inacabados. Repetia sempre: — Não quero que façam comigo o que fizeram com Ana Cristina César. da Folha de S. O livro traz desde A maldição dos Saint-Marie. em novembro de 1995. enfim. O fato de essa história significar algo para o Caio e que vai significar algo para outras pessoas porque ele fez a tradução me deixa muito feliz e agradecida a ele. uma parte de sua correspondência . esse medo de Caio referia-se à sua ficção. Cada texto publicado na obra vem precedido de uma pequena explicação do escritor. que saiu em nova edição pela Companhia das Letras. parece. de vários livros contendo inéditos e dispersos. escritos já em Porto Alegre. Paulo. E mexeu em todos os seus guardados. à publicação de suas cartas. "Sei e isso me emocionou muito. em 1995. Tanto que doou à Fundação Casa de Rui Barbosa. Quando o livro foi publicado. que conteria textos de todas as fases de sua vida. pergunta em entrevista se ela sabia que o tradutor tinha aids. Maurício Stycer.a autora. o que gosta ou o que não gosta nele. contando as circunstâncias em que escreveu o texto. que saiu pela editora Sulina. até textos mais atuais. mas porque ele leu a história há algum tempo e sugeriu a sua publicação. Ovelhas negras era considerado por Caio um livro prépóstumo. O resultado foi o livro Ovelhas negras. no Rio de Janeiro. por exemplo. está muito boa. Ele se referia à publicação. a todo vapor: revisou Morangos mofados. No entanto. Ele estava selecionando seus inéditos para que ninguém o fizesse depois de sua morte. Não só porque ele é um conhecido escritor e a tradução. papéis antigos: selecionava textos para uma antologia. que jamais teriam sido publicados com o crivo da poeta. ele não fazia restrição. comentários gerais. depois da morte de Ana C." Caio trabalha também na literatura. porque não entrou em nenhum livro. uma espécie de autobiografia ficcional.

Muita gente citada nas cartas ainda estava viva. Os trechos mais pessoais. em fevereiro de 1995: "Nós nos escrevemos dezenas de cartas. que pessoalmente." Grande parte das cartas de Caio para Lucienne. Não era a pessoa deprimida que se poderia apreender de seus contos. muitas vezes era irascível e calado. e fazia piadas. Ao vivo. e a língua ferina de Caio não costumava perdoar ninguém. Caio esperava ter tempo de escrever também a volta das frangas e Estranhos estrangeiros. Assim como não . Oito contos foram excluídos. Vários amigos e leitores foram pegos de surpresa: é que nas cartas Caio era muito mais engraçado. são suas. A publicação da obra gerou polêmica: alguns amigos de Caio não quiseram dar as suas cartas. e animado. e falava de sentimentos que não teria coragem de dizer cara a cara. por ele achá-los repetitivos demais.. uma idéia — após minha morte. embora a estrutura permanecesse a mesma. e assim o livro saiu. no entanto. infelizmente. melhorias nas frases. Além de organizar Ovelhas negras. foram suprimidos.passiva. Não sei se você guardou as minhas como eu guardei as suas. por considerarem a publicação prematura.) De qualquer forma. podia falar mais livremente. Se você guardou. publicado em 1970. claro — é você publicá-las. de 2002. escritora e amiga. E ele escreve a Lucienne Samôr. E o título passou a ser Inventário do irremediável. Algumas das que sobraram foram publicadas no livro organizado por Ítalo Moriconi Caio Fernando Abreu: Cartas. e leve. ganhou mudanças drásticas. Caio revisou outros de seus livros. se você as tem. correções. nas cartas. E a minha herança para você. Vamos que eu me torne um mito literário (melancolicamente póstumo.. se perdeu num incêndio. Não teve. segundo o autor. Fez algumas mudanças na pontuação. alguns nomes substituídos por iniciais. circulando. Inventário do irremediável. para diminuir o caráter definitivo do título original.

Caio ficou arrasado. Caio faz uma bela leitura. e desse nasce o Cavaleiro da Triste Figura. Quixote. nasce o personagem obcecado com a mancha — uma alusão à aids.assistiu à montagem de um texto de teatro seu. saía outro — na comparação do autor. Quixote. Caio chamou Luiz Arthur. então. A cena da apresentação da peça para ele. . uma releitura de D. O monólogo foi incluído no livro Teatro completo. O personagem o perseguia desde que Clarice Lispector resolvera apelidá-lo. A peça tinha sido escrita por encomenda de Carlos Moreno — o garoto-propaganda do Bombril —. chateado. e assim os personagens se alternam. como os bonecos de madeira russos. porém. Ao que consta. foi constrangedora. que faria a cenografia. pois ele queria ver o texto encenado. a obra foi lançada depois da morte do escritor. um monólogo dirigido por Luiz Arthur Nunes e representado por Marcos Breda. ninguém diz uma palavra. brincar com isso. para acompanhá-lo na leitura para Moreno e Fábio Namatame. Ele resolveu. La Mancha — e dele nasce D. Luiz começa a falar compulsivamente para preencher o silêncio. Era uma peça complexa: de dentro de um personagem. de Lya Luft. que estava em São Paulo. Anos antes. inclusive a adaptação que ele fez de Reunião de família. aliás. mas ele nunca chegou a encená-la. De um ator procurando um personagem. num interessante jogo de personalidades. mas Moreno não disse absolutamente nada. em que um vai saindo de dentro do outro. mas também a qualquer espécie de paranóia ou obsessão. que reúne todas as peças de Caio. finalmente. e também à cidade do personagem de Cervantes. Ele pedia aos amigos que se apressassem. que é. O homem e a mancha. com sua formação de ator e sua voz. Ao final. na verdade. Breda e Luiz Arthur iam montar a peça. nem então e nem depois. os baboushkas. Assim ele construiu O homem e a mancha. Organizada por Luiz Arthur Nunes. Mas agora. também não pagou um centavo pelo texto que encomendara.

foi aí que a mídia começou a dar mais atenção a ele: choviam pedidos de entrevistas. por exemplo. Caio decidira viver uma vida mais tranqüila em Porto Alegre. risadas. E achava aquilo a ironia das ironias. Ele tem planos. Caio aparece também em um Globo Repórter sobre aids. Não se pode dizer. com a desculpa de lançar Ovelhas negras e a reedição de Morangos mofados. mas fora vetado "por estar fora da mídia". o queriam. os pedidos de entrevista aumentaram. E ele foi. muito popular em alguns meios. o que não era verdade. depois que a aids já tinha sido citada. De fato. Jô lhe pergunta se ele não pensava em escrever algum livro tratando da doença. embora reclamasse exagerada-mente. Ele sempre foi um autor procurado. Em um depoimento muito bonito. a partir de Morangos mofados. coisas a fazer.Desde a descoberta da aids. Caio responde: — Não. Paradoxalmente. o protagonista e Márcia E A conversa segue. com que cara eu vou ficar? Risadas. Ele foi convidado para ir ao programa do Jô Soares. na verdade. antes. fez piada. Caio se sentia desconfortável com essa situação. a aids já aparecia em alguns textos seus: Onde andará Dulce Veiga é uma história de amor entre dois contaminados. respeitado. Em dado momento. livrosímbolo de uma geração. Na maior simpatia. Quem o ouvisse falar. ir ao programa divulgar algum de seus livros. e ninguém pode imaginar o quanto estar ali significa para Caio. porque ele tinha tentado. portanto. Caio diz que não tem tempo para morrer. que Caio fosse ignorado pela imprensa até 1994. Depois ele explicou que. A ironia da situação. conversou com Jô. Todo mundo tinha um exemplar em casa. brincou. seu nome se tornou mais popular. no entanto. Quem dirige o programa é o amigo de longa data José Márcio Penido. Agora. Vai que eu não morro. porém. pensaria que a mídia jamais lhe dera qualquer atenção até o dia em que descobriram que ele tinha aids. muitas delas motivadas pela questão da doença. Já desde os anos 70 ele tinha seus fãs fiéis. E ele .

muito mais letal que o HIV. não tenha desistido do cigarro. . se nada for feito — era a época em que se soube do vírus Ébola. sim. e principalmente de combater os preconceitos ligados a ela. se curará o ser humano. que fora falar da história de seu marido. Assim que se curar o planeta. junto com a jornalista Regina Echeverria. E também a nós mesmos: embora. que cresceu assistindo ao cinema americano. ele falava. no teatro do Maksoud Plaza. E por isso era preciso desmistificar. não se envergonhar. a Terra começou a reagir. em 1994. ele não queria mais maltratar o corpo. convencido de que era preciso mudar a maneira de tratar o planeta. Caio expõe sua teoria de que. das dores e dos humores. Por isso. um pouco. e havia medo. mais do que nunca. Falar da doença era a melhor forma de combatê-la. os clichês associados aos soropositivos. Os dois. beber. um dos primeiros médicos a combater a aids no país. assim como Regina. Diz que faz parte de uma geração muito colonizada. e os debatedores do outro — um deles era o dr. até o fim. Mas é claro que a aids não era como o Ébola. Dráuzio Varella. e todos serão felizes para sempre. Na entrevista. e sim na doença. ele dava entrevistas. mesmo sabendo que o interesse maior não era em sua obra. que morrera por causa da doença. O escritor falou do que se passava física e emocionalmente com ele. e que portanto sempre acredita que vai haver um beijo da Doris Day com Rock Hudson no final. de um simpósio sobre aids. que é a sexualidade. e Caio estava. Mas na época não se sabia disso. ficavam sentados de um lado do palco. Na visão do escritor. a aids era uma doença cheia de estigmas. Caio estava lá para dar seu testemunho. os únicos que não eram médicos no evento. na verdade. Ele vê coisas piores que a aids vindo por aí. o planeta é que está doente: maltratada. Comoveu a platéia e ajudou a diminuir. Participa.acredita na possibilidade de cura. o desconhecimento da doença. se drogar. em São Paulo. que talha o ser humano no que ele tem de mais delicado. por exemplo.

ele relaxou e aceitou.Por estar de volta a Porto Alegre. Mauro. Comentou algo sobre oportunismo. Mauro Castro. acompanhava as crônicas de Caio no jornal. Caio pediu que o levasse até lá. Foram. pois ficou em silêncio a maior parte do caminho. o escritor olhou seu nome no alto. realmente. E pediu para irem embora. se bem que. é claro. Influenciado por Caio. que merecia a homenagem. No final de 1995. o taxista fã de literatura começou a escrever. Quando esclareceram que não. fã de literatura. dizia. a dois quarteirões da casa da família Abreu. taxista. por ser. um pé do outro lado e outro aqui. e muita gente legal já tinha aceitado antes. ter outra chance. um escritor reconhecido. E faz sucesso. Por uns cinco minutos. depois. o patrono tinha que estar bem vivo. Brincava. o médico avisou a Caio que ele . Os argumentos de Júlio venceram. contando "causos" da vida de motorista. E não deve ter gostado do que viu. insistiu para que assim fosse: a nomeação de Caio não era uma unanimidade. Um dia. e Caio foi escolhido. porém. talvez. sem descer do carro. por ele estar doente e não poder. Júlio Zanotta Vieiras na época presidente da Câmara Rio-grandense do Livro. Caio preferia ir sem ninguém da família para essas sessões no hospital. Mas isso não é coisa para gente morta?. para o câncer de pele. perguntou. e um pouco. Seu ponto de táxi fica no Menino Deus. sobre acharem que ele já estava morto. De início. Por essa época. ele desconfiou. hoje escreve colunas para o jornal Diário Gaúcho. e preferia ser chamado de padrinho da feira. Mauro comentou com Caio que tinha visto o ou-tdoor de seu livro Pequenas epifanias em uma rua. viu a capa do seu livro. dizendo que achava solene demais a palavra patrono. Caio foi convidado para ser patrono de Feira do Livro de 1995. quando convidaram o escritor. o taxista. costumava caminhar até o ponto de táxi e chamar Mauro para levá-lo. estava mais é para padroeiro. como Mario Quintana. Quando o escritor ia para o hospital Moinhos de Vento fazer radioterapia.

Estavam os dois muito mal: ela saindo de um relacionamento. por exemplo.precisaria extrair a vesícula. da emoção que era voltar ao lugar onde nascera. de três horas. Fez as pazes com essa parte do seu passado. escolheu um filme longuíssimo. havia um hibisco. Queria despedir-se da cidade. perguntou: que flor é essa? Foi o suficiente para Caio se irritar. Os irmãos tinham ocupações. Ele tinha a sensação de que tudo que ia fazer seria pela última vez. que ele adorava. principalmente tia Elcy Abreu. algo marcante. Caio queria ir embora. Tinha porque tinha que ver aquele filme. Não é esse filme. Como assim. Estava muito abalado. A temporada na terra natal foi ótima: Caio conversou muito com as tias. Relembrou a infância. já tinha sofrido duas isquemias cerebrais e não tinha saúde. O pai. Déa Martins. Gilberto pegou o carro. A companheira de viagem de Caio foi. Déa olhou. aquela flor símbolo dos surfistas. mas não teve jeito: teve que levá- . desde que fora homenageado. Na pousada onde ficaram. Embora estivesse sereno a maior parte do tempo. não é isso que eu pensava. ele não tinha tempo a perder. Era urgente. Não ia lá há muitos anos. doente. descansou. foram. Pegaram carona de carro com duas garotas amigas da família e foram. Zaél. Quando foi ao cinema com Gilberto Gawronski. recebendo o título de santiaguense ilustre. deprimida. Mas Caio decidiu adiar a cirurgia. Quando voltou. de passagem pela cidade. não abandonaria a esposa em casa. buscou-o. às vezes era difícil lidar com Caio. Ele queria ver O Filme. Chegando lá. muito doente. Caio e Déa tiveram algumas briguinhas. Caio decidiu fazer outra viagem. escreveu uma crônica para Zero Hora contando da viagem. A mãe não poderia ir com ele: com 71 anos. Com cinco minutos de filme. Gawronski discutiu com ele. significativo. em Santa Catarina. Pediu a seu irmão Felipe que o levasse de carro até Santiago do Boqueirão. Depois de retirar a vesícula. ele. muito sensível. então. Ele iria à Praia do Rosa. que flor é essa? Então você não sabe o que é um hibisco? Ficou irado. que estava morando em Porto Alegre na época.

Poucas semanas depois. Quando chegou em São Paulo. No dia 25 de fevereiro. Luciano. a mãe." Depois de vinte dias internado. a situação não era mais fácil. Quando voltou ao Brasil e soube da morte do . Amanda Costa estava almoçando em um restaurante árabe com uma amiga e começou. Quando chegou em casa. soube da morte do Caio. que. Era como se ele já não coubesse mais em seu corpo. pegou pneumonia. Mas no dia seguinte brigava de novo. brigava com ela. Reinaldo Moraes voltava de Buenos Aires de avião. ele doente até o osso. o jornalista José Castello. um dos poucos que acompanhou sua doença de perto até o fim. lhe dava nos nervos. Caio também antecipou sua volta a Porto Alegre: estava doente. entrevistara Caio algumas vezes. não o deixava em paz.lo embora. ao passar por Porto Alegre. brincava o escritor. Caio faleceu. Era um domingo. superada a timidez. estou muito cansado. e ele. recebeu uma proposta de trabalho no Rio e voltou para lá. O amigo Luciano Alabarse. sentiu uma tristeza. voltava do hospital e chorava. 74 anos. que muito amou. ela tão velhinha e ele fazendo malcriação. bem. Mais ou menos na mesma hora. se sentiu muito mal. Ela o desgastava. Déa teve que partir mais cedo da praia. céus. do nada. Em casa. Caio tinha escrito ao amigo: "Na minha lápide. no Egito. Parecia mais o hospital Abreu do que a casa da família. uma dor no peito inexplicável. Os amigos o visitavam. Depois se arrependia. uma e meia da tarde. O pai. Chorava no hospital mesmo. A mãe doente. quero alguma coisa mais ou menos assim: Caio F. 71. Anos antes. Ele explodia. ouviu no rádio que tinha morrido. mas Caio mandava ele ficar quieto: você está mais deprimido que eu. e ele lhes dizia: estou cansado. e Caio implicava com ela. o corpo do escritor não agüentaria a pressão. Do outro lado do mundo. em 1984. pensar nele. a pensar nele. pensar nele. estava sempre atrás dele contando histórias intermináveis. Dizia que ela o atordoava.

Fora se despedir. se o Spielberg quiser filmar Dulce Veiga. onde ocupam o número 4352 07. ele fazia pequenos legados. Em três anos. Seu Zaél sério. Quando chega a parte de Gawronski. Escrevera. Hilda Hilst alega ter visto Caio. As dez da noite do domingo. foi a vez de seu Zaél. Alguns anos depois da morte de Zaél. onde quer que estivesse. para ser lida pelo seu pai. ele lê. os amigos se reuniram para a leitura da carta. ele tem que ler: — Betinho. mãe e pai tinham falecido. os restos mortais dos três foram transferidos para o Cemitério Ecumênico João XXIII. quatro meses depois. Usava um cachecol com uma fita vermelha: os dois teriam combinado que vermelho significava que estaria tudo bem. À sua maneira. sem saber que isso ia acontecer. estava dando risadas. uma carta. Gilberto Gawronski da de cinema e audiovisual. fusos horários e tal. filho. Mas. e viu que Caio morrera exatamente na hora em que ele tivera a sensação estranha no Egito. Pesando menos de 40 quilos. apenas. teve um acidente vascular cerebral (AVC) e não levantou mais da cama. sete dias depois da morte. Um ano e dez meses depois dela. quem administra a obra dele é a família. fez as contas.escritor. Gil Veloso da literária. depois de sua morte. Sua mãe ficou inconsolável. na Casa do Sol. Queria que Marcos Breda ficasse responsável e recebesse os direitos de sua obra teatral. em Campinas. . Caio foi enterrado no cemitério São Miguel e Almas. morreu. Dias antes de morrer. emocionado. Na carta. você vai ficar rica! Caio. na missa. A vontade de Caio não foi cumprida. Um ano depois. Caio fizera seu testamento. claro: não registrara nada em cartório.

E voltou. nem o galho ele queria. em dezembro de 1995. ele estava usando um galho que catara na estrada como bengala. cara. Atravessou a faixa de areia. foi andando até o mar. tá louco? Caio insistiu. Lentamente. entrou no mar. e Caio teimou que ia entrar no mar. com Déa. fez festa.EPÍLOGO Na praia do Rosa. Era sua caminhada. Jogou água para cima. Mergulhou. Ia conseguir. mas satisfeito. . Lentamente. Desde que chegara na pousada. — Não entra. debaixo dos finos pingos de chuva. O céu estava nublado. chuviscava. Ele iria sozinho. Pediu ao deus das águas que o curasse. você vai pegar uma pneumonia. Pois bem.

Sulina. Porto Alegre: Globo. São Paulo: Alfa-Omega. Morangos mofados. 2005. Porto Alegre: Movimento. As frangas. Siciliano. São Paulo: 3a ed. Os dragões não conhecem o paraíso. Agir. 1995. Agir. 1983. Agir. . 1993. O ovo apunhalado. Rio de Janeiro: 4a ed. Companhia das Letras. Siciliano.Obras de Caio Fernando Abreu publicadas no Brasil Inventário do irremediável. L&PM. Companhia das Letras. 1982. 1975. 2007. 2008. Rio de Janeiro: 2a ed. Rio de Janeiro: 3a ed. Rio de Janeiro: Expressão e Cultura. Siciliano. 1988. São Paulo: 3a ed. 1988. Pedras de Calcutá. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. Triângulo das águas. 1984. 2a ed. 1992. Porto Alegre: IEL/RS (Instituto Estadual do Livro). Salamandra. Rio de Janeiro: 4a ed. 1995 (com o título alterado para Inventário do irremediável). São Paulo: 2a ed. Limite branco. Porto Alegre: 3a ed. 1971. 2a ed. 2005. 1984. 1977. 2007. Mel e girassóis. Salamandra. A Maldição do Vale Negro. 1970. São Paulo: Companhia das Letras. 1988. Rio de Janeiro: 3a ed. 1988. São Paulo: Brasiliense. Agir. 2a ed. 1992. 2a ed. Rio de Janeiro: Globo. Porto Alegre: Mercado Aberto. 1995.

2005. Planeta De Agostini. Porto Alegre: Sulina. São Paulo: Global Editora. Estranhos estrangeiros. 2002. Fragmentos. Rio de Janeiro: Agir.Onde andará Dulce Veiga? São Paulo: Companhia das Letras. Pequenas epifanias. 1990. Porto Alegre: Sulina. Caio Fernando Abreu: Cartas. Rio de Janeiro: Agir.: ítalo Moriconi. 1996. Caio 3D: o essencial da década de 1970. 2003. 2006. 1995. 1997. Rio de Janeiro: Agir. Agir. . Rio de Janeiro: Aeroplano. Girassóis. Ovelhas negras. 2006. Agir. Melhores contos de Caio Fernando Abreu. Porto Alegre: L&PM. Teatro completo. Porto Alegre: Sulina/IEL. 2008. 1997. 2002. São Paulo: Global Editora. Caio 3D: o essencial da década de 1990. 2007. Rio de Janeiro: 3a ed. 2a ed. 1996. São Paulo: Companhia das Letras. Caio 3D: o essencial da década de 1980. L&PM. 2006. 2a ed. Rio de Janeiro: 2a ed. 2002. Org.

por conseguir material ao qual eu não teria acesso de outra forma. os grandes planos e sugestões. mas por tudo. agradeço a minha irmã. e a Fábio Fabretti. por primeiro ter me apresentado à obra de Caio F. A Jorge Cabral. A Edirê Ferreira e Paulo Vaz de Arruda. A Mauro Castro. por rodar Porto Alegre inteira de bicicleta para me entregar um vídeo com entrevistas do Caio. e a seu pai e a sua madrasta. Tadeu e Romeu Martins. Maria Aldina. grande amigo. A Beatriz Tironi Sanson. A Paulo Camossa. a Juliano. e a sua mãe. Agradeço também a Alex Werner. Em São Paulo. Agradeço à Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis (PRAE) pelo apoio dado. pelos mesmos motivos. emprestando-me seu Morangos mofados. por ter me levado pra lá e pra cá em seu táxi quando eu precisava. Felipe e Márcia Abreu. pela generosidade com que compartilharam histórias. Esse livro começou a nascer na Universidade Federal de Santa Catarina. A Evandro e Leandro Martins. pelos conhecimentos sobre o Caio. livros e documentos relativos ao irmão. sobretudo por gostar e me incentivar. A Wendel. A Luiz Alberto Scotto e Carlos Locatelli. A Luís Francisco Wasilewski. pelo papel importante em apoiar e ouvir. agradeço as dicas e idéias. por terem sido tão bons anfitriões no Rio de Janeiro. eu sei. não só pelo abrigo. A Upiara Boschi. A Marina . cunhado. por me ouvirem falar do trabalho. fotografias. agradeço por terem me ouvido falar e falar sobre o livro. Liliane. A Jacques. A todos. Clóvis Geyer e Tânia Rodrigues. que aliás não devolvi — nem pretendo. por ler o texto e opinar. A Fábio Bianchini.OBRIGADOS A Cláudia. por fazer o contato com uma das fontes. vídeos. Bruno Werner. apenas. darem palpites. por ter sido um bom e divertido cicerone. Aos professores Ricardo Barreto. pela ajuda em Porto Alegre. e sempre. a seu irmão. pelas fontes que me passaram. por existir. e me contarem o que eles mesmos andam fazendo. Foram quatro anos monotemáticos. A Diógenes Fischer.

Luiz Fernando Emediato. especialmente tia Laura e minha mãe. por estar sempre disponível. José Márcio Penido. Luiz Arthur Nunes. Jacqueline Cantore. Luiz Carlos Fava. Manoel. . Claudia Wonder. Mário Prata.Darmaros. meu obrigada a Carpinejar. Emanuel Medeiros Vieira. Laura Finocchiaro. Itália). Guilherme de Almeida Prado. Cida Moreira. também. Reinaldo Moraes. Renato Campão. Bruna Lombardi. Maria Adelaide Amaral. Quero agradecer. Gil Veloso e Luciano Alabarse cuidam com zelo da memória de Caio. Itália Homem Ledur (D. a Ricardo Stefanelli e à equipe do jornal Zero Hora. Pedro Paulo de Sena Madureira. sempre. José Castello. Jaime Gargioni. Paula Dip. que me cederam seu tempo e suas memórias: Adriana Calcanhoto. Juarez Fonseca. agradeço aos dois. Agradeço a todos os entrevistados. Santiago. Por isso. por me ensinar sobre disciplina. a Jonas Lopes. Anita). Graça Medeiros. Ricardo Lombardi. José Mora Fuentes. Gilberto Gawronski. Kate Lyra. Vera Spolidoro. Leide. A minha família. pelo apoio. Irineu Garcia. Grace Gianoukas. Márcia Denser. Sônia Azambuja. Carlos Aguirre Sepúlveda. Ruy Krebs. agradeço demais. Nei Duelos. que não é pouco. por ler os textos assim que eu os mandava. Amanda Costa. Luiz Carlos Moura. pelo grande conhecimento de todos os assuntos e pela amizade. Cada um a seu modo. À sua família. pela fé no livro. Rafael Franco e ao pessoal da revista Crescer. Agradeço a Adriana Franciosi. Fernanda. Marisa. Luiz Schwarcz. Déa Martins. Pelo mesmo motivo. Antônio Neto. Luiz Abreu. A meu editor. E a Regina Carvalho. Carlos Emílio Corrêa Lima. por terem gentilmente cedido fotografias importantes para este livro. Ana Lúcia Vasconcelos. Anna Gioconda Homem (D. Celso Curi. João Batista. Regina Echeverria. Por acreditar. Ivan Mattos. Júlio César Monteiro Martins. Stella Miranda. Maria Lídia Magliani. João: pelo apoio. Maria Rosa Fonseca. pela paciência. Vera Antoun. Ana Braga. Marcos Breda. pelas batatas fritas e sukitas. por trocar figurinhas e contatos.

Obrigada mesmo. Sem você.com/group/expresso_literario    .br/group/digitalsource  http://groups. mas obrigada. quero agradecer a Eduardo Nasi. finalmente. me apoiaram: seria longo citar todos os nomes. companheiro. Te amo. A todos que me ajudaram de alguma forma. não teria conseguido terminar o livro. E. amigo.google.com. Sempre. querido.   http://groups. o melhor marido.google.

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