Jeanne Callegari

CAIO FERNANDO ABREU
inventário de um escritor irremediável

CD
SEOMAN

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Copyright © 2008, Editora Seoman Coordenação Editorial MANOEL LAUAND Capa e Revisão HENRIQUE MINATOGAWA Projeto Gráfico GABRIELA GUENTHER Foto da Capa e da Abertura do livro ADRIANA FRANCIOSI/AGÊNCIA RBS Checagem CLARA YWATA

Dados Internacionais de Catalogação Brasileira do Livro, SP, Brasil)

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Callegari, Jeanne Caio Fernando Abreu: inventário de um escritor irremediável / Jeanne Callegari. — São Paulo: Seoman, 2008. ISBN 978-85-98903-10-1 1. Abreu, Caio Fernando 2. Escritores brasileiros — Biografia I. Título 08-05638 CDD — 928.699 índices para catálogo sistemático: 1. Escritores brasileiros : Biografia 928.699 EDITORA SEOMAN Rua Pamplona, 1465 — cj. 72 — Jd. Paulista São Paulo — SP — Cep 01405-002 Fone: 11 3057-3502 info@seoman.com.br www.seoman.com.br Todos os direitos reservados e protegidos pela Lei 9.610/98. É proibida a reprodução total ou parcial sem a expressa anuência da editora. Foi feito depósito legal.

eu queria me esconder de todos". com sua alma efervescente. cheio de paixão mas também de pudor. Para Jonas Lopes. de atração pelo risco mas também de fascínio pela beleza. com amor. pelo apoio. PREFÁCIO O perfil de Caio Fernando Abreu escrito por Jeanne Callegari pode ser lido como um romance. Talvez se possa pensar que. à distância. nos mostra Jeanne. pêlos nos lugares errados. de Os dragões não conhecem o paraíso. Viver é não só suportar. Um delicado romance que. em cujas páginas avançamos com o coração na mão. que também viveu como se sua vida não passasse de um romance. A estratégia narrativa de Jeanne combina com a estratégia existencial de Caio. lhe serviu para abrandar as turbulências íntimas. Ela parte dos extratos remotos. pisa devagar sobre a matéria ardente. pela paixão. desde cedo. para acompanhar. Caio já rascunha. a formação difícil do escritor. Nem mesmo a prática do jornalismo. Em um conto como Pequeno monstro. cheios de tristeza e de revolta. mas decisivos da infância. "Desde muito pequeno. "Pernas e braços demais. Jeanne começa imitando os romances clássicos. e para Eduardo Nasi. um desses romances tensos. para temas ameaçadores como o erotismo. Caio Fernando Abreu tenha sido um eterno adolescente — e o livro . que se apóia no concreto e na objetividade. a fraqueza e o risco de morte. o menino Caio demonstrou uma inclinação para a arte". mas sobretudo lutar contra o que se é. uma voz que desafinava igual a um pato. movimento que o arrastou. Esta tendência logo se revela uma disposição para a fermentação interior. das primeiras descobertas e dos primeiros sustos. através de um jovem ai ter ego e por vias tortas. um terrível retrato de si. diz.Para Caio F.

para entender a sociedade. nos mostra Jeanne. já é um homem que deseja abraçar o mundo. se os escrevia. A bissexualidade se abre. Mas. segundo quem. Mesmo amparando-se no recurso mais didático da ordem cronológica. Pode-se dizer que foi na chácara de Hilda. fugindo da perseguição da ditadura militar. um rebelde. na Suécia. perderse na esperança de. pois. grudado a ele. rompendo de vez os limites de uma vida burguesa. nem assim a autora consegue organizar e domar a atmosfera de inconstância e de desamparo que cercou a vida do escritor. no início da década de 1970. escoltado por ela — como uma parteira que de um corpo arrancasse não outro corpo. sobrevive como pode. Quando. Lição que o jovem Caio tratou logo não só de imitar. "As vezes que tentei morrer foi por não suportar a maravilha de estar vivo e de ter escolhido ser eu mesmo". Períodos fundamentais — como aquele em que. por vezes. lava pratos. . se achar. nos enche de argumentos a favor dessa idéia. de vez. quanto mais Caio se liberta e expande seus horizontes. nunca publicou). na Inglaterra. Um homem que nunca desconheceu o peso do caminho que lhe coube atravessar. mas de incorporar como fundamento de sua existência. Caio escreve em uma carta aos pais. Mas Jeanne nos mostra também que. vai para a Europa.de Jeanne Callegari. na periferia de Campinas — ajudam a fixar traços mais firmes. é preciso primeiro dela se afastar. ele se escondeu no sítio da escritora Hilda Hilst. enfim. e não porque escrevesse versos. "Escrevo por uma espécie de incompatibilidade de gênios com a vida. se o jovem rebelde persistia. como um duplo. de um desviante. datada do final dos anos 1960. Hilda seguia a idéia do escritor grego Nikos Kazantzakis. Em sua chácara. faz bicos. havia desde logo um poeta (pela postura. a figura de um sujeito à margem. e que o ajudou a delimitar. na Holanda. Leva então uma existência precária. mais afunda na dor. mas avança. mas um espírito — que o escritor adulto veio a nascer.

que comunica. "O ser todo exalava algo de sexual. Fato. apesar da sensibilidade extrema e da volúpia de viver sempre frustrada. em uma descrição que. para re-fazer". A relação de amor e tensão que tem com a poeta Ana Cristina César — que. recebe a notícia de que é soro-positivo. Dor e escrita se conectam de modo fatal. em O triângulo das águas. para não enlouquecer de impotência. Caio menciona o terror da aids — que naquela época. depois de uma doença longa e estranha. A vida lhe abre uma nova face. Dedica-se cada vez mais a ler poesia — sobretudo Adélia Prado. fisga quase toda a alma de Caio Fernando Abreu. É o momento da virada — em que o positivo que indica a doença. O anjo negro chega ao extremo até que ele mesmo. do desastre. mas . elegantes". encostado em um carro. de "câncer gay". É também o momento em que. Sua escrita está cada vez mais impregnada de lirismo. O medo da loucura. termina por cometer suicídio — é uma síntese desses sentimentos. nunca desiste de recomeçar. mesmo rápida. pela primeira vez. um lirismo seco e doloroso. ainda era chamada. depois de muita luta interior. de ignorância e preconceito. negativo. Um sujeito que. escrevo para organizar o caos. de modo frontal. se agiganta. Fernando Pessoa e Mario Quintana. que se acentua na atitude pessoal — que cultiva com esmero — de um bruxo. Fraco. Paulo. muitas vezes. Jeanne reencontra Caio. "de calça de couro. do fracasso. mais especificamente na novela Pela noite. e de solitário também". De volta a São Paulo. e também de um misticismo vago. ela resume. portanto. E aqui se deve entender o irremediável em dois sentidos: como uma condenação (algo que não tem remédio). e como um destino (algo em que ele se lança para a vida e com grande vigor).escrevo para reinventar. Caio avança. em uma série de crônicas publicadas no jornal O Estado de S. jaqueta. gestos finos. e é nesse nó que Jeanne Callegari puxa o fio de "um escritor irremediável". é convertido por Caio em algo positivo mesmo. aos 30 anos. Mesmo cheio de terrores. ele mesmo descreve em uma crônica da época.

dos mergulhos negativos. José Castello .cheio de coragem. porque sabe que aventurar-se na vida e na obra de Caio Fernando Abreu guarda sempre um grande risco. Seu livro tem a objetividade dos relatórios científicos. ele volta a morar com os pais. mas também o encantamento das cartas de amor e. Jeanne se contém sempre. é mergulhar no veneno terno da imperfeição. ainda. É nesse andar das coisas pequenas que Jeanne o persegue até o fim. no sul. e se dedica a rever seus livros. apegado ao prazer de cuidar dos próprios espinhos. sentidos novos e vitais. a reserva temerosa das grandes confissões. procurando extrair. A morte o pega quando vivia como um romântico jardineiro. o mais que pode. quieto entre suas flores domésticas.

em uma tentativa como essa. O Caio inclassificável. sempre algo fica de fora da moldura. do banal. de uma fidelidade canina com os amigos. de traduzir e dar unidade a todos os muitos que algum outro foi. de um humor implacável e ácido. nas noites mais perigosas. Costuma ser assim. O Caio simpático com os outsiders. sempre em busca da luz. pelo contrário. não foi a exceção da regra. o escritor admirado e cheio de seguidores. Avencas. a literatura. e também com seus órfãos. todos aqueles que ficaram carentes quando ele se foi. rosas. Ele foi milhares. herdeiros e viúvas. como João e Maria da fábula. Muitos. da leveza. apaixonado sempre. o Caio deprimido. o desespero. mas nunca a ponto de se perder. o Caio filosófico. O Caio F. mas apaixonado pela vida. estrangeiro. Com todos esses tive que lidar. O Caio que usava as palavras como arma de sobrevivência quando batia a depressão. oculto pela linha fina. com quem. O Caio do equilíbrio sempre além do comum. o Caio abobrinha. chás medicinais com whisky. sempre flores.INTRODUÇÃO: CEM MIL CAIOS Um. do qual ele mesmo era um dos principais objetos. das flores. inquieto. Tinham ciúme e zelo de tocar em memórias tão delicadas. reservado para poucos olhos. nenhum e cem mil. curioso e temerário. O título de Pirandello ronda as noites de quem se impõe a tarefa. O amigo difícil de conviver. desde o início condenada ao fracasso. filosofias e seitas. girassóis. queriam dividir sua visão do Caio. suas memórias. de retrato. que se recusava a fazer parte de movimentos. O Caio erudito. não com pedacinhos de pão ou pedrinhas. camaleão. dar entrevista. em 1996. Escrever sobre Caio Fernando Abreu. gostava de andar no limite. que marcava. mas que passeava e pairava por todas elas. que alternava fases macrobióticas com costelas gordas. Muitos não queriam falar. Achavam quase egoísmo . cigarro com jardins e flores. O Caio obsessivo com o lado escuro de todas as coisas. a vontade de ficar sozinho. fácil de amar. o Caio pop. de aids. nunca a ponto de perder o caminho de volta. mas com seus textos.

e a todos agradeço a colaboração. Cansa forçar a memória. detalhe. Apesar dos tantos traços. em meio a suas rosas e a sua família. a importância como filho. emergia aquilo que eu buscava. pensavam. A vida adulta em São Paulo. Sim. um recorte dessas milhares de faces. a boa vontade. através de contos e romances.deixar a beleza de anedotas e palavras para trás. como o personagem de Pirandello: a unidade. Se a importância como escritor era flagrante desde o início. cada nova nuance. muitos arquivos a revirar. Fui achando que entendia Caio. Cansa reviver momentos tristes e a partida de alguém que se amou. Mais cem mil para serem estudados. Muita gente para prosear a respeito. me sentindo íntima dele. A triste e heróica caminhada para o fim. aparecendo como em uma revelação fotográfica. e que homem extraordinário era esse!. Não há razão mais certa que a outra. amigo. faltam ainda detalhes. personagem e autor da própria vida. Sobre o que conversaríamos se ele estivesse aqui? Sobre a infância em Santiago. muitas fotografias para nos fazer lembrar. Ainda há muito a dizer sobre Caio Fernando Abreu. dá para ir apreciando o caminho. Fiz algumas descobertas sobre esse jardineiroescritor marcante e apaixonado. é imperfeito. a adolescência em Porto Alegre. do contorno esboçado. a delicadeza em retornar meus pedidos insistentes. É que esse relato não se pretende definitivo. jornalista e personalidade foi surgindo devagar. Por trás de depoimentos e histórias que marcaram. Pois o ponto de chegada não existe. Partindo daqui. queriam que o mundo conhecesse o homem por trás do texto. buscar fatos muitas vezes esquecidos num cantinho das lembranças. Jeanne Callegari . por trás de frases ditas e registradas em cartas. Antes é um perfil. Por definição. uma biografia exaustiva. teríamos sobre o que falar. no Rio.

As cartas de Caio citadas no livro foram extraídas de Caio Fernando Abreu — Cartas. A carta de Manuel Abreu para o filho Zaél nunca foi publicada. assim como algumas das cartas de Vera Antoun e os postais de Pedro Paulo de Sena Madureira. organizado por ítalo Moriconi e publicado pela editora Aeroplano em 2002. faz parte do acervo da família e foi gentilmente cedida por ela. .

Paulo. que estava junto no apartamento. se seria melhor interná-lo ou não. Inglaterra. apenas. Ele está ao lado da janela do andar de cima do duplex de um flat na Frei Caneca. Há três dias. Para evitar que Caio fizesse uma besteira. como IstoE. por ter retratado tão bem experiências e emoções de sua época. naquela segunda-feira. Era também autor premiado de teatro. as coisas vão se complicar para mim. Leia Livros. traduzido na França. O ano era 1994. Nova. Correio da Manhã. O Estado de S. Alemanha. que se aproximava da janela e a abria. deixando os amigos morrendo de saudades do lado de cá. Ele argumentava com o escritor Caio Fernando Abreu. Como jornalista. Além disso. tinha integrado a primeira equipe de reportagem da Veja. ganhador de dois prêmios Jabuti. em São Paulo. viram que Caio não estava bem. Viveu com intensidade as décadas de 1970 e 1980 e. e ambos chegaram com garrafas na mão. Gallery Around. Paulo. Caio não era um suicida. Mas Gil Veloso não pensava em nada disso quando foi socorrê-lo no flat. conversaram sobre a situação. Subiram. argumentando que se ele se jogasse lá embaixo. POP. o amigo Gil conversava. um reflexo da febre. com a vaga intenção de se jogar. Caio Fernando Abreu era um escritor consagrado. o escritor tinha descoberto que era portador do vírus da aids. Outras pessoas haviam passado por lá: no final da tarde. pedira para que levassem água. Caio ligara para os dois. que estou aqui com você — grita Gil Veloso. A reação era. a situação poderia complicar para o seu lado. menosprezava e era contra as pessoas que tinham a indelicadeza de se matar. Gil sabia que Caio o queria bem: não faria nada que pudesse prejudicar o amigo. Zero Hora. Folha de S.PRÓLOGO — Caio. era considerado ícone de uma geração. Déa Martins e Gil se encontraram no elevador. Itália e Holanda. e . e depois disso passara por vários veículos. Aos 45 anos. pela segunda vez naquela noite. você vai fazer isso comigo? Se você se matar.

contando que estava com aids. A essa altura. olhou para Gil e compreendeu o absurdo do gesto. que estava com ele. delirou. Correu e pegou Caio. pensou Caio. Não eram poucos os amigos que Caio tinha perdido para a aids: Vicente Pereira. Lory Finocchiaro. o que estava acontecendo. e parecia natural que assim fosse. não queria comer. Recitou coisas sem sentido. quando. morte. ouviu a janela se abrindo. Aids! Estou com aids. Caio estava já completamente nu. Mas. que se aproximava do parapeito. fingia estar vendo as borboletas imaginárias. Deu um grito. agora era de verdade. os semsentidos que dizia. em 1983. entrou no jogo. Assustado. Não houve jeito senão chamar uma ambulância e levá-lo para o hospital Emílio Ribas. para assim tentar trazer o doente de volta à realidade. e . Estava muito fraco. Não era mais ficção. Caio paralisou. algo mudou: ele finalmente pareceu assimilar. O escritor passara os últimos três dias ligando para os amigos. como se digerisse a situação.combinaram de ir se falando. e ele não se lembrava de mais nada. doença. Gil decidiu ligar para uma médica. Fim da linha. Então veio a febre. como se já esperasse: a doença o rondava fazia pelo menos dez anos. dando a notícia. Agora era a sua vez. Gil ficou conversando. teve alucinações. Na primeira vez que desceu as escadas para alcançar o telefone. depois do fim de semana aparentemente sensato. como uma criança. Luiz Roberto Galizia. Gil. Depois. Aids. continuavam os delírios. começaram a aparecer os primeiros casos no Brasil. Eram mais ou menos onze da noite. Estava recluso. Da segunda vez. Mesmo assim. Paulo Yutaka. conseguiu telefonar para alguns amigos e para a médica antes que Caio abrisse novamente a janela e ele precisasse argumentar para evitar novas tentativas. com toda a força. ele diria que sua primeira reação foi de naturalidade. acalmando o amigo até que pudesse descer novamente e pedir ajuda. Cazuza. Déa foi embora e Gil ficou cuidando do Caio.

portanto. que também morava em Itaqui. que também estava ali. nascido em 1887. do contato com colegas farristas. porque. No dia seguinte. Voltar a Porto Alegre. O médico disse a ele: — Você precisa agora é de qualidade de vida. Segundo. único responsável por seus atos. porque Zaél já era homem feito. seu Manuel recebe uma carta do filho pedindo autorização para se casar. Voltar às raízes. O rapaz. de bebedeiras e namoricos. tinha sido no Rio Grande do Sul que tudo tinha começado. normalmente tranqüilo. O comerciante Manuel Abreu. tinha passado por uma fase boêmia. Por isso. seu Manuel acreditava que o . Gil já havia ligado para Déa. Plantar roseiras. por dois motivos. Primeiro. Caio já estava em um quarto. Caio ficou em uma maca enquanto aguardava que um quarto vagasse. transferido junto com o primeiro batalhão destacado para operar na cidade. Os amigos foram visitá-lo e sua irmã Cláudia chegou de Porto Alegre. mesmo sem conhecer a moça em questão. Não se lembrava de absolutamente nada. pequena cidade ao sul do Brasil. pois os enfermeiros tinham medo da contaminação. Tendo escolhido a carreira militar. ter uma vida tranqüila.quem o vestiu e o colocou na ambulância foi Gil. para a casa dos pais. Era tempo de Caio realizar um sonho: voltar ao Rio Grande do Sul. quando. No hospital. não havia leitos. Zaél fora morar em Itaqui. emancipado e. de 24 anos. no final de 1945. Afinal. senta-se para escrever uma carta ao filho Zaél. ele não nega. Coisa da idade. UM É a década de 1940 em Santiago do Boqueirão. amigos do copo e de mulheres bonitas.

Localizada na fronteira com a Argentina. poder mandar as crianças para a escola. comandava a casa. E Manuel deve ter gostado da nora que aprovara mesmo antes de conhecer. Manuel esperava que as qualidades da noiva de Zaél se confirmassem. dando seu consentimento para a cerimônia. "Por causa dos narizes". No mais. Depois da entrada dela na vida de Zaél. um dos rapazes. dizendo que. o jovem sossegou. No dia 15 de dezembro. brincaria anos mais tarde uma das netas de dona Alcina. ele termina a carta. Manuel Abreu". Nair insistia em estudar: viria a ser professora. A carta. tranqüilo. Zaél e Nair se conheceram em Itaqui. Zaél Menezes Abreu e Nair Ferreira Loureiro se casaram. onde ela nascera. seria possível controlar a vida desregrada que o filho levara até ali. e que ambos fossem dignos um do outro. Itaqui tinha pouco mais de 18 mil habitantes na época e a base de sua economia era agropecuária. trazia também recomendações para que Zaél economizasse dinheiro a fim de poder se casar o mais rápido possível. a mãe começou a costurar para fora para pagar as contas e. com pulso firme e determinação. mãe dela. A família de Nair era das mais distintas: Alcina Alves Ferreira. "porque não é lícito também ficares noivo indefinidamente. três se tornaram donas de casa. Das outras meninas. Aproveitando para agradecer o lindo vidro de azeite que Otacílio e Jurema haviam mandado. decidida. era prima de Rodrigues Alves. foi a única dos sete filhos a cursar faculdade. com boa vontade e energia. com "saudades e abraços de todos. Seria sempre conhecido como homem afável. provavelmente cristãos-novos. Eram descendentes de portugueses. do teu pai e amigo. Nair era mulher forte. porém. prejudicando o futuro de uma filha alheia". Válter. Dois anos depois. Assim. o pai responde à carta. assim. se tornou . o presidente. Quando Nair era pequena. Era ela que.casamento seria uma boa maneira de tranqüilizar a vida de Zaél. a situação financeira da família ficou complicada: com a morte do pai.

que. Provavelmente. jogador de futebol — chegou a fazer parte do Botafogo do Rio de Janeiro. contrariado. o encontro se deu em algum dos bailes. permaneceria o mesmo: embora calado. pois não havia dinheiro para isso — Zaél foi transferido para Santiago e Nair . em Itaqui. Aos 16 anos. Assim que se casaram — sem festa. Israel. Zaél odiava profundamente o próprio nome. Quando Nair conheceu Zaél. mas os amigos do quartel o amarraram na cama. Marciano. de vez em quando soltava tiradas mordazes e engraçadas. era difícil achar quem acertasse. ela iria a um baile no Clube Comercial de Itaqui. e o outro. ele não teve dúvidas e disse: Zeferino. Mais tarde. paixões nasciam e morriam. foi sua irmã Flora. como Nair. enquanto ainda eram noivos. Zaél discutiu com Nair. A única que também se tornou professora. para o outro. Seu humor. anos depois. ele usava um enorme anel de ouro. As mulheres andavam para um lado e os homens. ela se mudou para uma fazenda em São Borja — a cidade dos presidentes Getúlio Vargas e João Goulart — para dar aulas para os filhos de um rico fazendeiro. assim como o de sua irmã Elza. e ele queria porque queria entrar na festa para buscá-la. Aos 17. Queria entrar fardado e a cavalo no clube. e assim foi até que conheceu Zaél. Estava bêbado. Depois da fazenda.delegado de polícia. Zaél sossegou. os três garotos viriam. mas a anedota ficou na memória da família. Um a um. Uma noite. Portanto. Nair foi para outra das pequenas cidades da região dar aula em uma escolinha. com um Z gravado. Resmungava sempre algo sobre isso. na Praça Central. Na troca de olhares. A confusão foi desfeita. a se tornar prefeitos de São Borja. quando Nair perguntou o significado do Z. Depois de casado. Nair se formou na Escola Normal: ser professora era uma das únicas profissões possíveis para uma mulher naqueles tempos. fora inventado a partir de partes do nome de seus pais (ManuEL e AdeliZA). ou na hora do footing. freqüentes na época. e ele não pôde sair. Todo mundo confundia: Ismael. no entanto. Ela perguntou o que significava aquela inicial.

Santiago viria a ser a inspiração para Caio criar o Passo da Guanxuma. à maneira da Macondo de Garcia Márquez e da Santa Maria de Juan Carlos Onetti. no entanto: houve um sambista. Santiago era polvilhada de quartéis. Assim era Santiago. Embora o texto inteiro jamais tenha sido feito. Por defender a lisura da eleição naquela localidade com a própria vida. batizado Neltair Rebés Abreu. também havia de existir um jogador vindo de Santiago: Anderson Polga. e a maioria dos homens que ali moravam era militar. também. quando Nair ficou grávida do primeiro filho: uma terra predominantemente militar. Santiago do Boqueirão. o heróico juiz virou medalha: a "Medalha do Mérito Eleitoral Moysés Vianna". seus costumes e lendas. em um país apaixonado por futebol. enquanto era cravejado de balas. ou pelas belezas. O Passo aparece em vários contos de Caio. Sorte das mocinhas. em 1948. como qualquer outra cidade. E. Lá nasceu também o cartunista Santiago. pelo menos um herói. perto da fronteira com a Argentina. Túlio Piva. concedida a todos aqueles que se destacassem pela atuação em matéria de Direito ou Justiça Eleitoral. uma cidade fictícia. o capítulo introdutório aparece em Ovelhas negras. Não pelo tamanho ou pela prosperidade. mas pela quantidade de quartéis. com seus heróis e mártires. que gostavam de namorar homens fardados. . no Rio Grande do Sul. Nem só de quartéis viveu Santiago. coletânea lançada no fim da vida do escritor. tirou o apelido da cidade em que nasceu. regravado em inúmeras línguas. e ele ambicionava um dia escrever um grande romance sobre a cidade. se destacava das outras pequenas cidades da região. que. Houve. que certamente possuía. O pai de Neltair era primo-irmão de Zaél. Em 1936 — dois anos antes de Santiago ser oficialmente promovida a "cidade" — o juiz eleitoral Moysés Vianna morreu abraçado a uma urna eleitoral. Achavam bonito. antiga São Tiago das Missões. autor do sucesso de verão Tem que ser mulata.arrumou um emprego como professora em uma escola local.

quase não incomoda". que o preenchia." Em 1954. Nair de Abreu acabava de dar à luz pela primeira vez. dizem. dizem tanto. nem de pó acumulado. anotaria.. são touceiras espessas de guanxuma. o que se diz.." Eram oito e quinze da manhã do dia 12 de setembro de 1948. mas se imagina do Passo. Caio seria o único dos cinco filhos de Nair a ter um álbum de bebê. Assim.. por exemplo. não todo completo: seu Zaél. como o pai de Caio. que. sem sinais particulares e "muito quietinho. olhos pretos. à beira dos lajeados ao sul. com o passar dos anos. nem sempre tinha paciência de escrever tudo que acontecia. sobre os cabelos da criança: "apesar de escassos. E um menino bem grande: Caio Fernando Loureiro de Abreu nasceu pesando notáveis quatro quilos. que chá de guanxuma é tiro e queda. [. está anotado. O papai não vai enumerá-los por ser muito longo e estar com preguiça de escrever. Lia tudo que saía sobre Getúlio nos jornais e tinha uma foto dele . o pai. Esse é o bebê Caio: cútis branca. o que se vê e não se vê. morre Getúlio Vargas. que os ramos servem pra fazer vassouras capazes de assentar até mesmo a poeira daquele deserto próximo que sopra e sopra noite e dia sem parar e. o mais real. confirmavam: é um menino. pelos descampados do norte e até mesmo entre os vãos mais sombrios das areias a oeste — o que mais tem em qualquer tempo de seca ou aguaceiro. de dois males jamais sofreu. nota-se que serão castanhos". na seção presentes: "Ganhou muitos presentes. No álbum do bebê.. De tudo. Na rua Pinheiro Machado. 575. As parteiras Julia Jacques e dona Alcina. algum tempo depois. O falecido presidente era natural de São Borja. sofre ou sofrerá o Passo. mãe de Nair. Zaél.]. calorão ou friagem. nunca pára de crescer."Isso é o que se conta. Ainda assim. De distúrbios estomacais. ai como dizem nesse Passo. no primeiro aniversário de Caio. salpicadas entre as quatro patas da aranha — no meio dos girassóis do leste. se tornara getulista convicto.

iam faltando as coisas: . Sendo professora. O colega Ruy Krebs. as crianças podiam ler tudo. em sua casa. Eles tinham que atravessar todo o deserto — o espaço entre a casa e o quartel — e conseguir víveres e peças para consertar o avião. dividia a paixão por livros. Com seis anos. na sua trajetória de escritor. estava sempre com um livro na mão. o menino Caio demonstrava uma inclinação para a arte que viria a desenvolver mais tarde. Nenhuma leitura era proibida em sua casa: de gibis de aventuras e revistas como O Cruzeiro. o garoto continuou escrevendo e criando. quando estudaram na mesma turma. As coleções completas de Érico Veríssimo. homem sofisticado. de muita cultura. O quartel no fim da rua era o oásis: na frente da casa dos Abreu era onde o avião dos três garotos tinha caído. pois seu pai era comunista e. Luiz Carlos Moura. escreve seu primeiro texto. a livros de Monteiro Lobato e a coleção chamada O mundo da criança. de sobrancelhas grossas e bem desenhadas. lia muitas coisas quando ia visitar a casa deles. do escritor de aventuras Karl May — um alemão cujas histórias se passavam no faroeste norte-americano. quando Caio tinha uns sete anos. Desde muito pequeno. e não era só ele. como seria a vida toda. só havia livros ideológicos. Beco e Gringo brincavam de deserto. a mãe. como Caio chamou a brincadeira anos depois. em um conto do livro O ovo apunhalado. a história em quadrinhos de Lili Terremoto. Desde então. Nair. que seria um dos melhores amiguinhos do Caio a partir do primeiro ano ginasial. D. em casa Zaél só tinha motivos para alegrias. grande amigo do Gringo. irmão de Caio. De vez em quando. embora ele mesmo nunca tivesse deixado seu país — enfeitavam as prateleiras da casa. Quando ele morreu. ou oásis. Mas.pendurada na parede. vizinho e primo dos Abreu. o Beco (pronuncia-se Beco). O ambiente da casa dos pais era propício para isso: Zaél. também instigava os filhos a aprender. Machado de Assis. o menino. Aos poucos. uma menina louquinha que queria fugir de casa. já muito magro e muito alto. se na política as coisas iam mal. Zaél ficou arrasado. que eles assinavam. ele.

Caio. por incrível que pareça. a turma percorria as obras em construção atrás dos sacos que embalavam o cimento para fazer os cenários. os empregados dormiam em casa. São duas da tarde. A sede era a garagem da casa do Sales Horácio. Cobertores velhos faziam as vezes de cortinas. E conseguiam. e não o Caio. Caio morreria de rir sempre que se lembrasse dessa história. fazer um teatro. colega dos meninos. quem fazia os roteiros das peças que encenavam era ele. comida. atuar. O único que às vezes participava da brincadeira era o negrinho Jorge. Quase sempre só os três: a maioria dos outros garotos não conseguia ir até o final. então com dez anos. os meninos estavam cansados. Nada de jogar futebol ou vôlei: quando brincam de bola. são jogos que eles mesmos inventam. decidiram fazer um teatrinho de fantoches. escrita por Glênio . de Porto Alegre. são os que gostam de brincar brincadeiras mais parecidas com as de que eles mesmos gostam. pobre Etelvina! Certa vez. Caio encontra uma receita de massa para fantoches na antiga Revista do Globo. Uma delas era também Nair. a pobre caiu de cabeça no chão. filho de camponeses. Houve também a Etelvina. suados. Como a turma gostava muito dos circos e teatros mambembes que de vez em quando passavam pela cidade. Em poucos quarteirões. tratada com carinho pelos pais de Caio. e Gringo. Não se machucou. Armaram no teto um trapézio.água. a Nairzinha. D. As crianças chegaram da escola. que de vez em quando aparecia por lá. E os irmãos Abreu. A noite. decidiram. Em um desses balanços. Nair ajudou a fazer o enxoval. Caio resolveu brincar de circo. Anos depois. Certa vez. de cabeça baixa. assim como inventam as brincadeiras de fantoche e de deserto. apesar do tombo feio. Tinham que sentir. Ruy se lembra de que. Na casa dos Abreu havia sempre uma empregada doméstica. e a Etelvina tinha que balançar pra lá e pra cá. Quando a moça se casou. certa vez. fingir que era tudo verdade. Ruy e Beco vão para a casa dos Abreu brincar. Naquela época. Montou toda a estrutura no galpão de casa.

escoava o som de música clássica. De vez em quando. sente o cheiro profundo de jasmins que vem do jardim lá fora — o cheiro era tão forte que às vezes a mãe sentia tonturas — e vê a casa da frente. diziam. Mas isso seria muito tempo depois. nunca nos olhamos. Oracy Dornelles. Não dava para imaginar que. Sem nunca ter trocado uma palavra com Oracy. Numa cidadezinha perdida. Oracy fez pinturas e esculturas em fios de . mora ali. talvez você nunca tenha percebido. o fornecimento de luz elétrica é intermitente e não há qualquer preocupação na cabeça das crianças. anos e anos depois. mesmo sem nunca ter conversado com ele. em companhia da mãe. porque tinha um telescópio para observar o céu. Em carta escrita a Oracy. Que seria?. adaptaria textos de outros escritores. praticamente. as cabecinhas de papel machê. Na minha memória — já tão congestionada — e no meu coração — tão cheio de marcas e poços — você ocupa um dos lugares mais bonitos. Por agora.Bianchetti. em Porto Alegre. E assim Caio descobriu que os poetas existiam. muito tempo depois. ele se perguntaria mais tarde. Ficou só aquela vibração de silêncio. Da janela dele. Era um som novo para Caio. não há asfalto nas ruas. dois malditos que se reconhecem sem que seja necessário sequer falar sobre isso. penso. poeta. às vezes. sentia com ele uma identificação. Caio se lembraria da afinidade que sentira pelo vizinho. escondida por plantas. um coqueiro. Eles fabricam os bonequinhos. são meados dos anos 50. Era um poeta. Além dos textos. nos anos 80. "A carta foi incluída no livro O que importa em Oracy. e inventam historinhas para as peças. Faria suas próprias peças. e tão secreta que. chegaria mesmo a pisar no palco como ator. Caio. Uma casinha de madeira. que depois se tornaria artista plástico famoso. 'Nunca nos falamos. faziam também teatrinhos de sombra. Uma cumplicidade muda. Caio viria a escrever de verdade para o teatro. Froilan Oliveira e Júlio César Prates. a cidade é Santiago. olha pela janela do quarto. organizado por Fátima Friedriczewski. muito forte. Beethoven? Wagner? Caio dizia para Ruy que Oracy conversava com as estrelas. a não ser brincar.

e acabava sempre conseguindo o que queria. os nomes. vestidos a rigor. uma para cada estado do Brasil: miss Rio Grande do Sul. Anos mais tarde. Depois que estão prontas. só podiam entrar no cinema na matinê de domingo. Um divertimento que todos adoravam era ir ao cinema. Havia apenas uma sala de projeção na cidade. lado a lado. Quando as crianças eram mais novas. em que os membros se reuniam para ouvir concertos do compositor — nas noites de gala. Os dois estão convocados: é hora do desfile das misses. Em determinada hora. tudo. Vão ao cinema. Caio e Ruy chamam Gringo e Beco. aos berros: . Que nem aquelas que vinham com as fotografias na revista O Cruzeiro. e ficaria famoso pelo circo de pulgas que mantinha. que está lotado. uma a uma. Caio e Ruy pegam cartolina e tinta nanquim. e eles vão ser os jurados. Ruy pinta as modelos e desenha os trajes típicos. desenhadas. Enquanto Beco e Gringo jogam xadrez — Beco seria campeão amador da modalidade.cabelo e grãos de areia. ou na sessão seguinte. E a senha para a comoção geral: o pessoal todo do cinema começa a bater os pés no chão. pequeninas. que também estão com seus bonequinhos. inventadas. quando crescesse —. e os meninos esperavam ansiosos o dia de assistir aos "filmes de mocinho". Caio desenha as misses de maio. miss Minas Gerais. miss São Paulo. as roupinhas. Pega seu boneco do "mocinho" e se encontra com Caio e Gringo. o mocinho começa a perseguir o bandido. o Cinema Imperial. Começa o filme. afinal Caio tinha esse jeito de impor sua vontade na hora das brincadeiras. de tarde. Depois de meses de trabalho. Oracy foi um dos fundadores do Clube de Beethoven. No outro dia. Fã ardoroso do alemão. as vinte e poucas bonequinhas vão surgindo no papel. com a diferença de que aquelas eram reais e essas. as crianças se reúnem de novo para brincar. as medidas inventadas. fazendo uma algazarra. Beco sai de casa. ele esclareceria: era Beethoven o som que Caio ouvia pela janela. às quatro da tarde. Mesmo que não estivessem muito interessados.

primo de Caio. AA era Antônio Aguilar. usando as iniciais dos nomes de artistas. como a maioria na cidade. viram os desenhos de outro menino. Afinal. Caio pode ter tirado a descrição da . CC. Caio e Ruy se consideravam os melhores desenhistas da turma. Os dois passavam na calçada só para olhar os desenhos. feita de lajes de pedra. perto de Santiago. um nome que acharam no elenco de filmes mexicanos. porém. mocinho! Aí. e também a praia de Jaguari. KK era Kay Kendall. Os desenhos do Neltair. Quando Caio cresce e seu companheiro passa a ser Ruy. Gringo e Beco também gritam e batem os pés. Doris Day e Diana Dors. por acaso. assim como no concurso de misses. pois assistiam a muitos filmes épicos e bíblicos no cinema. com exceção dos filmes censurados para menores. e seria cartunista famoso. como concursos de desenhos para os cartazes dos filmes da semana. Neltair cresceria. dos bons. Caio e Ruy se impressionavam. o Beco e a empregada da casa do Caio. BB era Brigitte Bardot. Dessas praias. Marilyn Monroe e assim por diante. Claudia Cardinale. principalmente. eram feitos com lascas de telha ou tijolo na calçada. Uma vez. tiveram a idéia de fazer um alfabeto duplo. em homenagem à cidade. eles já podem ir ao cinema quase todos os dias. No verão. os jurados eram o Gringo. Ruy e Caio desenhavam os cartazes e. cidade vizinha. adotaria a alcunha de Santiago.— Aí. Era uma festa. ao mesmo tempo em que sacodem no ar seus bonequinhos de mocinho. inventaram passatempos relacionados. para anotar caso aparecesse um YY ou WW. De tanto irem ao cinema. com os gladiadores greco-romanos. DD. MM. Havia uma praia muito bonita no distrito de Ernesto Alves. O problema surgiu quando chegaram as letras YeW: onde encontrar um nome cujas iniciais fossem essas letras dobradas? A questão obrigava os meninos a levar caderno e lápis para o cinema. e se espantaram. Um dia. as famílias gostavam de acampar na beira dos rios. Por exemplo. O julgamento artístico dos meninos era bom. mocinho! Caio.

Caio escreveu sobre isso no conto Corujas. que comandava a casa. Pulavam. apropriando-me cada vez mais de sua natureza. Havia sempre um cachorrinho pela casa. assim como seu nome. ali. Nair proibiu os filhos de fazer. onde havia todo tipo de árvore frutífera: bergamoteiras. As praias e fazendas próximas. Eram nomes de criaturas estranhas. Calei a descoberta. era muito perigoso. indecifráveis como elas. A idéia era que fosse um lugar só deles. . jogavam cobertores sobre as cabeças. Apesar de divertido. Na casinha. anos mais tarde. guardavam os brinquedos. Finalmente achei. foi inventada por Caio: bailu. ocultei o batizado. ou algum outro bicho. A brincadeira. e começavam a pular. os fantoches. como se sutilmente as fosse amoldando à minha maneira de desejá-las. já perdidas no tempo. do livro Os dragões não conhecem o paraíso. misteriosas até hoje. embora inconscientemente soubesse da inutilidade de tudo. pitangueiras.praia do conto Uma praiazinha de areia bem clara. forneciam um contato com a natureza de que. alguém trouxe duas corujas. que D. no entanto. um acontecimento. Caio sentiria falta. os gibis. não permitiu mais que os garotos brincassem desse jeito. goiabeiras. Era uma novidade. de amigos e parentes. Houve uma brincadeira. O verde estava presente em muitas brincadeiras. Rasputin e Cassandra. de modo a não enxergarem nada. Os garotos subiam na cama. morando nas metrópoles acinzentadas e sem verde. e a mãe. pulavam. Certa vez. na beira da sanga. até cair no chão. Inventário do irremediável: Chamá-las de alguma coisa seria dar um passo no caminho de seu conhecimento. de seu primeiro livro de contos. como quando os garotos passavam o dia no enorme quintal da casa dos Abreu. Podiam passar a tarde chupando bergamotas ou brincando na casinha que Caio improvisara com uns compensados de madeira da embalagem de uma geladeira que haviam comprado. um pouco inspirado no Clube do Bolinha e da Luluzinha.

onde. Afinal. implicando. que ficavam em um plano inclinado. Caio não. também chamado Caio. o chama de cagão. cada vez com mais força. certa feita. o outro menino começa a empurrar com força. que também dá aula de Matemática. era competitivo: sempre . Era a época dos comentários maldosos. escrever. Elza.Mas nem tudo era brincadeira. que viria a se tornar o cartunista Santiago. O primo Neltair. E outro dia. alguém fez em um jornal-mural uma caricatura do futuro escritor. desde pequeno. de patinação. Tem quadra de tênis. talvez por ser cunhado de Zaél e se sentir na obrigação de despertar no aluno um comportamento viril. Caio tem oito anos. A sociedade santiaguense da época não estava preparada. era mais frágil. passavam umas projeções de filmes. riem da cara do Caio. apavorado. O capitão vivia implicando com ele. Caio está no Círculo Militar. A maioria dos meninos sobe. exigindo. debocha do menino. é o Capitão Pely. Está na aula de Educação Física. O professor. não balança que eu caio! — berrava o Caio Abreu lá do alto. se lembra do preconceito contra o menino Caio na escola. — Caio. comprida e estreita. casado com a irmã do pai de Caio. não gostava de futebol. Luiz Abreu. O capitão insiste para com que Caio suba. que não consegue. Chegaria mesmo a se envolver em brigas. Caio. Sabendo que Caio. preferia desenhar. Outro menino. e os meninos iam lá: Santiago. Anos depois. Os alunos têm que subir em uma tábua suspensa. Os outros meninos. Sempre esse professor pegando no pé. O jeito de Caio sempre fora um pouco diferente. colega de Caio na 4a série. o futuro escritor se senta no balanço. um clube da cidade. tinha traços ambíguos. balanços. De vez em quando. o Abreu. aludindo à sua pretensa homossexualidade. o tímido e retraído Caio aprenderia a lidar com essas situações e seria mais enfrentativo. A subida era pelas laterais. vem empurrar. velados. Um dia. embora não fosse bom nos esportes. másculo. Ele tem medo. que conseguem subir. o irmão de Santiago.

representava o colégio nas disputas de conhecimento sobre Geografia e História. Esse. ao mesmo tempo em que leite. Era noite. ele saiu do quarto. Não eram ricos. Por essa época. que cresceu saudável. mas tinham algum prestígio. alcançava Felipe e batia. morreu logo após o nascimento. e D. Sabendo que o irmão mais velho odiava cebolas. copo e bolachinhas voavam para todos os lados. apavoradíssimo. Valia a pena apanhar um pouquinho para ver a cara do irmão furioso. quando ele estava em casa sempre pegava as pessoas de surpresa pelos corredores e arrancava gritos de todo mundo. D. quando as irmãs caçulas Márcia e Cláudia já eram grandes. menos o Caio. batia nele. porém. nasceu Luiz Felipe. as peças que Felipe e Caio costumavam pregar um no outro continuaram. desceu as escadas e foi até a cozinha pegar um copo de leite. em Tramandaí. que ficava acordado até tarde escrevendo. Nair teve mais um filho. escondeu-se no vão da escada e esperou. Em dado momento. E sapeca. Nair estava sempre cotada entre as dez mais . Felipe pegava algumas e arremessava nele. Zaél era integrante da maçonaria. Cerca de dois anos após o nascimento de Gringo. Caio ficava furioso: mais alto. Uma vez. não podia nem vê-las. foram todos veranear na praia. mais velho. na casa da família. Anos depois. Caio adorava assustar as pessoas: talvez por tédio. acordou todo mundo na casa. nada. em 1961. como se fosse um fantasma ou aparição. em 1957. Quando Caio voltou com um copo de leite e um prato de bolachinhas. Mesmo com os garotos crescidos. nem sentir seu cheiro. quase todo mundo dormia. Luiz Felipe adorava provocar Caio. a família Abreu tem uma posição distinta na sociedade santiaguense. que acordara com a movimentação do irmão. mas o castigo não conseguia fazer com que o mais novo parasse. Felipe. Cláudia. por falta do que fazer. Felipe não disse nada: simplesmente estendeu os braços e colocou as mãos em cima das costas do irmão. A década de 50 está terminando. O grito de Caio. Márcia nasce em 1960.

escreve ele. que demonstrara uma personalidade forte e independente desde os primeiros anos. e o casal era muito respeitado. eu só pensava em vingança. Para o concurso. não presta. inclusive de Caio e Beco. A idéia do concurso era do professor Cavalcanti. George! — soluçou a moça. muito "adequados". pois na sua ele e Ruy eram os responsáveis. O meu coração estava cheio de ódio por Fernando. o filho mais velho. pouco antes de morrer. Aos 13 anos de idade. como se lembraria o escritor anos mais tarde. figura importante nos primeiros anos do escritor: além de organizar os concursos literários. muito finos. Gringo foi apanhado e expulso do lugar à vista de todos. em que os alunos liam textos e recitavam poemas. a notoriedade de Zaél e Nair se estenderia a Caio. mas talvez possa render algumas risadas".elegantes da cidade nos vários bailes e festas a que compareciam. Como posso estar feliz? Não mereço o seu amor. participou de um concurso literário na aula. quando incluiu o texto na coletânea Ovelhas negras. Venceu. fotonovelas e melodramas mambembes do Circo-Teatro Serelepe. As meninas faziam fila para ler. influenciada por radionovelas. o rapaz abraçou-a e deu-lhe um leve . que foram assistir ao espetáculo de forma lícita. Pela via da arte. A carreira de militar e a situação de professora conferiam certa diferenciação social na época. aqueles mesmos em que Caio seria ironizado por colegas de outra turma. enfureceu-se com o irmão Gringo por ter entrado sem pagar no circo que estava na cidade. Você me perdoa? Como resposta. Essa posição da família era estimada por Caio: uma vez. Tanto ela quanto Zaél eram muito vaidosos. Caio encheu um caderno inteiro com o pequeno romance A maldição dos Saint-Marie. o professor promovia aos sábados as Horas de Leitura. Assim termina a história de Adriana e de seu envolvimento com os SaintMarie. donos de um suntuoso castelo na França: — Oh. Caio brigou com Gringo por ter exposto o nome da família daquela maneira. "E evidente que a história cheia de clichês. e criou os jornais-murais.

a pérfida Amália não fará mal a mais ninguém. parecendo uma promessa de esperança e fé no futuro. começaram a aparecer as primeiras namoradinhas. se espantam de que tenha tido namoradas.beijo nos lábios. ele seria não um. a mãe dele descobriu. um Caio diferente. Depois dela. ele mandava as meninas comprarem balas . Valéria Nicola. Por isso é que. O espanto acompanharia Caio pela vida afora. Beco se espantou: só naquele momento é que ele ficou sabendo que o amigo tinha uma queda pela garota. Contra o horizonte destaca-se a outrora mansão dos Saint-Marie. com seus cabelos compridos. foi a Iara Nicola. Ela era aluna de D. mas muitos: o Caio tímido da infância e da adolescência. Certa vez. Afinal. por exemplo. Como prova de seu amor. às vezes oposto ao que outros se recordam. Os meninos iam crescendo. agora transformada em ruínas. a precursora dos salões de beleza em Santiago. o Caio mais sereno e maduro do fim da vida. De alguma maneira. Lenita. Para cada pessoa que o conheceu. Talvez agora eles possam ser felizes. Caio se apaixonou por uma menina muito bonita que morava perto de sua casa. A irmã mais nova de Iara. Mais atrás vê-se a silhueta de dois jovens abraçados. filha de D. era considerado avançado para a época. que pedia que ficassem de olho no casal. que morreu de leucemia aos 15 anos. e Beco presenciou a cena em que ela passava a maior bronca no filho primogênito. Incapaz de se condicionar a algum rótulo. e sua amiga Nádia Ahmad se lembram de como gostavam de escorregar nas longas pernas do Caio quando ele ia visitar Iara. quando já tinha sua homossexualidade estabelecida. onde as senhoras iam fazer os penteados da época. As duas estavam sempre por perto a pedido de D. A aurora já põe os dedos cor-de-rosa no puro azul do firma-mento. Nair. Depois de um tempo. Lenita. A primeira delas foi Tânia. Caio roubou uma prova de História e entregou para a garota. Caio. o Caio enfrentativo e ousado da juventude. algumas das pessoas que conheceram o escritor mais tarde.

um oposto de Caio em todos os sentidos: esportista. Luiz Carlos Fava.] . Ele queria conhecer novas coisas. No internato. [. não entende as matérias.. e que tem vontade de morrer. seu primeiro romance: Eu gostaria de ir embora para uma cidade qualquer. Caio tinha que seguir em frente. Onde eu pudesse experimentar por mim mesmo as minhas asas para descobrir. O colégio era caro e bom. Afinal de contas. Nair concordava. másculo. cada riso de criança que vinha lá de fora eu julgava ser da Márcia ou da Cláudia. pedindo para irem buscá-lo. Como escreveria depois em Limite branco. Caio fica doente e escreve uma carta medonha a seus pais. que ele tivesse a melhor educação possível. e sabia que Santiago não poderia satisfazer seus anseios.para namorar Iara. mesmo que quebrassem no primeiro vôo. se elas são realmente fortes como imagino. Ele não se adapta. e D.] Cada passo que ouvia no corredor pensava que era a senhora chegando. onde ninguém me conhecesse. que acabaria por se casar com outro santiaguense. enfim. e até mesmo insistia. Confesso que tive vontade (e tenho) de morrer. Diz que esteve na enfermaria. Caio muda-se para Porto Alegre para estudar no Instituto Porto Alegre (IPA). com febre e sozinho. ferido. as coisas não começam bem para o primogênito de D.. jamais leria os livros do conterrâneo. novos lugares. bem longe daqui. humilhado — mesmo assim restaria o consolo de ter descoberto que valho o que sou. E se não forem. onde não me tratassem com consideração apenas por eu ser "o filho de fulano" ou "o neto de beltrano".. o filho queria. mesmo que após um certo tempo eu voltasse derrotado. porém. Embora a mensalidade pesasse no orçamento dos Abreu. Nair. "[. Com 15 anos.. não consegue arrumar amigos.

como Érico Veríssimo. ando sempre com olheiras e não como nada. morava no mesmo prédio o escritor Manoelito de Ornellas. irmão de Beco. Caio vai para o Hotel Uruguay. Quando Zaél chegou. Após receber a carta. Caio já estava muito melhor.. e ele acabou não voltando para Santiago. Agora é que descobri o quanto gosto disso daí. de carro. mãe.. Logo Manoelito conheceu também Caio e leu seus contos.[. espírita. era tortuoso e demorado vencer a distância de mais ou menos 500 km que separa Santiago da capital. Foi por intermédio dele que Caio ingressaria no Jornalismo. no centro de Porto Alegre.. foi logo se apresentando. que alugava quartos para estudantes. que era amigo da família de Ruy. e seu irmão Antônio também foram morar na pensão. Depois de morar no internato do IPA. [.] Há várias noites que não durmo e tenho pesadelos horríveis. de notórios altos e baixos. Ajude-me!" A carta dá a perceber uma faceta de Caio: o pendor para o dramático.. Ruy passou a dividir o quarto com Caio. Caio publica seu primeiro conto em . A filha de Manoelito. D. Acho que até emagreci. Finalmente. Na época. a teatralidade. o amigo Ruy.A senhora vai dizer que isso é normal. Gosto muito da senhora.] Pelo amor de Deus. Manoelito lhe deu muito apoio: apresentou outros escritores. enxergava uma aura azul ao redor do Caio. Maria. E também a sua personalidade. sempre muito extrovertido.. os pais alarmaram-se e Zaél foi buscar o filho em Porto Alegre. A crise depressiva tinha passado. que. eu não agüento mais! Veja se a senhora dá um jeito! Isso aqui é um verdadeiro inferno.. de Santiago. No ano seguinte.. mãezinha. muda-se para a pensão de uma viúva.] Por favor. etc. não me deixe só! Responda logo.. e Antônio com o Carlos Renato. Mas não é não! Os outros que chegaram junto comigo já estão adaptados. o exagero. Por coincidência. que o impressionaram muito.[. No ano seguinte à sua vinda. que começou a freqüentar o apartamento do escritor nessa época.

nervosa. que passara em Educação Física. No dia seguinte buscaram-se discretamente. já é sintomático dos primeiros textos de Caio. Afastaram-se logo. Olhos fatigados. nada feliz. depressivos. Caio entra para o curso de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Uma semana mais tarde olharam-se nos olhos. as quatro mãos. um professor de piano. sempre quieto. como consciente do desprezo que provocava. quando ele enviou o conto para ver o que ela achava. O conto é sobre uma mulher. encabuladas. revista que inaugurou um novo estilo entre as revistas femininas da época. depois com compreensão. na revista Claudia. Ele está muito mais para sapo que para príncipe. O conto. ela nada respondeu: preferiu manter segredo até que a revista saísse. Comemora o resultado na casa onde estava morando agora o amigo Ruy. e por isso mesmo mais desprezível. Teresa. A publicação foi uma surpresa de Carmen da Silva. Caio acabaria por trancar a matrícula e freqüentar o curso de Arte .. ambas. depois com simpatia. No começo tinha nojo dele. Procurando consolo nos livros. e acaba encontrando Francisco. a dela hesitante. O homenzinho apagado demais.. psicóloga e editora da seção A arte de ser mulher da Claudia. A dele trêmula. textos mais sombrios. mas ela tem esperanças: compra um piano e o convida para lhe dar aulas. noutro dia suas mãos tocaram-se rápidas sobre o teclado. Teresa se apaixona pela história do Príncipe Sapo. Mas ao cair de uma tarde. Em 1967. humilde demais. tocando-se como que por acaso. de gente quase velha. depois. Ela e Caio se correspondiam há algum tempo e. Decide procurá-lo nos homens que passam nas ruas. tristes. quase sem ilusões. única de uma longa fila de irmãs a não ter conseguido casar.um veículo da grande circulação: O príncipe sapo. Teresa surpreendeu-se a olhá-lo com pena. Bem.

Dramática (CAD). que fosse só seu. principalmente a Maurício. Noll ainda não sabia se escreveria prosa ou poesia. Ambos vestidos de preto da cabeça aos pés. Sentavam-se em um banco da praça em frente à universidade e conversavam sobre filmes. Caio era leitor voraz desde menino. volta e meia com tinta nos cabelos ou nas mãos. A confusão de livros e pessoas nas barracas facilita que espertinhos ou estudantes sem dinheiro embolsem exemplares sem que ninguém perceba. e do qual Noll foi um dos primeiros leitores. a busca de uma identidade e o homoerotismo: vários temas que reapareceriam depois na obra do escritor são tratados no livro. sua melhor amiga é Maria Lídia Magliani. um romance de formação que só viria a ser publicado em 1971. Era capaz de discutir literatura como gente grande. que estavam preocupados mesmo é em ser fiéis aos rumos que haviam escolhido. De vez em quando. Nessa época. branquelo e magricela. em sua forma mais perversa — o suicídio. O escritor explora sua própria angústia para dar densidade aos personagens. sob a ótica . Caio e Noll dividiam a paixão pelos livros: como não tinham dinheiro para comprá-los. embora ainda se preocupasse em descobrir um estilo pessoal. a morte. Ela e Caio formavam uma dupla e tanto: ele alto. parecia já ter definido desde muito cedo o que queria. Tanto que já tinha até escrito Limite branco. havia uma dose de humor na postura existencialista dos dois. o adolescente em crise que protagoniza o texto. ela baixinha. o desejo de viver um grande amor. Nessa época. livros. o livro já continha muito do estilo que viria a caracterizar o escritor ao longo de sua carreira. artista plástica. A descoberta do sexo. discos. e começava a descobrir autores que viriam a marcá-lo por toda a vida. Embora tivesse apenas 18 anos quando escreveu Limite branco. andava com eles o futuro escritor João Gilberto Noll. negra. Não porque quisessem ser diferentes. aproveitavam para roubálos na Feira do Livro de Porto Alegre. a existência de Deus. como Clarice Lispector. uma feira a céu aberto realizada em uma praça no centro da cidade. mas Caio.

usar drogas. repetiu a frase ao inverso: as coisas enxovalhadas são sempre meio brancas. A história de Maurício tem vários pontos em comum com a de Caio. descobriu que aquela cor era quase a mesma das pétalas. pensou. mas que. de Hilda Hilst. voltado quase exclusivamente para dentro". Ele tem uma amiga pintora. porque os dois se conheceram depois que o livro já estava pronto. mas não podia ser. E do céu. deixa o cabelo crescer. Ele afirma ainda que foi quase impossível reler o livro. de Virgínia Woolf. Parou. porém. como diz Caio. Assim como os livros de Clarice. Caio não poderia fugir da época. sua turgidez. definiam-se as roseiras em torno delas. Quando visita os pais em Santiago. De longe. O jovem do livro se muda para a capital. sentindo-se confusamente feliz. A época era de ebulição cultural. sua beleza quase obscena. "o momento histórico em que se passa mal e mal aparece no livro: ele é intimista. vinte e cinco anos depois.do adolescente. há sempre pequenas polêmicas. Ficava mais nítido o verde das janelas. Em plena ditadura militar. assim como Caio fez. enfim. simplesmente. comentar autores proibidos pelo regime. discussões . As coisas brancas são sempre meio enxovalhadas. Participa das discussões. ouvir música. A história se passa em meio ao turbulento final dos anos 60. como Nair perdera um dia. Marlene. experimenta drogas. Começou a caminhar em direção à mancha esbranquiçada do casarão. Enquanto caminhava. quando o fez. alguns jovens se reuniam para discutir um futuro melhor. em prefácio para a uma reedição. Por mais introspectivo que fosse. ficou chocado com a inocência do personagem. as rosas pareciam palpitar com sua fartura. estar juntos. A casa crescia à medida que se aproximava. A mãe de Maurício perde o bebê. que parece ter sido inspirada em Magliani. comportamental e política. ao ir estudar no IPA.

era informante da ditadura. que era a amiga mais próxima. mas que viriam a caracterizar o escritor ao longo de sua vida: o enfrentamento. Além da Magliani. todo o elenco da peça e o diretor do curso de Arte Dramática. assim como para muitos de seus primeiros contos. talvez. talvez os pais sentissem saudade do tempo em que queria apenas brincar de fantoches com os amigos ou insistia em ser o Papai Noel no Natal. como aliás todos já desconfiavam. que formariam em 1969. muito magro e desajeitado. O tal rapaz. Luiz estava ensaiando uma peça no teatro da universidade quando chegam Caio e Magliani com o presente. Luiz Arthur. em agosto de 1967. de Guimarães Rosa.políticas. com o grupo Província. Irene o apresentara a toda a turma do teatro. o livro Tutaméia. nas peças. a busca de uma identidade. Caio não pensou duas vezes e se jogou para cima dele. Nair estava crescendo e. O filhinho de D. futuro diretor teatral e um dos grandes amigos de Caio. um pessoal novo que seria importante para a renovação da arte no Rio Grande do Sul. Gerd Bornheim. Caio se aproximou bastante da turma do teatro da universidade. já se podia perceber alguns comportamentos. Ele e o restante do grupo introduziram o escritor no universo do palco. anos depois. Ele entrara nesse universo através de Irene Brietzke. E Caio foi o responsável pelas emoções no aniversário de Luiz Arthur. nessa hora. por trás das roupas vermelhas. Fizeram o . Tanto que acabaria entrando. fez comentários racistas. E é desses conflitos e angústias que Caio tira material para Limite branco. embora os pais não o proibissem de fazer nada. que dava aula de inglês no Yázigi e tinha Caio como aluno. Estavam os dois no foyer quando um integrante do elenco passou e ofendeu Magliani. Em pouco tempo. a vivência de experiências como busca de um significado maior na vida. Um desses jovens era Luiz Arthur Nunes. ainda incipientes. para o curso de Direção Teatral do Centro de Arte Dramática (CAD). mesmo que todo mundo o reconhecesse. Magliani. nos autores. estava todo mundo na delegacia: Caio.

Vera Spolidoro. mas. Vera nunca se esqueceu da figura magra. a revista Realidade. ela respondeu Depois da queda. Caio foi passar uns tempos com Luiz Arthur na casa dos pais dele. Em 1968. Umas duas semanas depois.boletim de ocorrência. sem se preocupar se aquilo iria acabar com suas chances de trabalhar na Veja. depois de ambos passarem por todas as etapas. e parecia achar que Porto Alegre era uma província. e o entrevistador parecia não acreditar em uma peça que ainda não havia sido encenada em São Paulo tivesse sido montada em Porto Alegre. O jornalista que entrevistava o grupo vinha de São Paulo. e que ele era contra a colonização cultural a que os Estados Unidos submetiam os outros países. de conhecimento específico. Chegou a chamar a editora de entreguista. de Arthur Miller. discursando. conheceu Caio na entrevista conjunta. entrevista conjunta com os outros candidatos. e aí então seriam definidos os nomes dos contratados. foi pego na rua e levou uma surra. falou que a Abril era ligada ao grupo TimeLife. Vera notou um certo ar de desdém em seu rosto. O escritor levantou-se. quando a revista começou . Por medo de represálias. ex-vice-reitor da universidade. jornalista gaúcha. Caio participou do exaustivo processo de seleção. Quem passasse pela fase da entrevista conjunta iria a São Paulo fazer um curso. Em 1967. da editora Abril. a Veja. Era um texto sobre a recém-morta Marilyn Monroe. que incluía testes de conhecimento geral. entrevista individual. Em dado momento. Embora não fosse formado em Jornalismo. Quando perguntaram a ela qual fora a peça mais recente a que tinha assistido. o jornalista perguntou a Caio sua opinião a respeito do grupo Abril. ninguém ficou preso. fez um fervoroso discurso antiimperialista. publicou um anúncio convocando os interessados a fazer os testes para participar de uma revista nova. que começaria a circular no ano seguinte. quando achou que já dava para voltar para casa. graças a um tio influente de Luiz Arthur. de pé. colérica. Irado. e.

Caio diria que toda sua literatura seria fruto do choque. longe. desafinada. chegou a ficar doente. Anos mais tarde. Era preciso trabalhar. os bichos? Tudo era cinza. perdeu ainda mais peso. longe. dava até pra ficar na dúvida: São Paulo tinha céu? E a velocidade de tudo. asfalto por todos os lados. São Paulo era grande demais. DOIS Grande demais. de adolescente. como o fora também para Caetano Veloso. vertigem. Um difícil começo. ídolo de Caio. das oito da manhã às seis da tarde. uma sensação de desprotegimento. vindo dos rincões gaúchos para trabalhar na primeira equipe da revista Veja. A voz de criança. o humor de Caio oscilaria entre picos de euforia e . Demoraria muito para o jovem escritor entender a poesia concreta das esquinas de São Paulo. feia. Alguma coisa aconteceu no coração de Caio Fernando Abreu quando ele se mudou para São Paulo. fina. Onde. Trabalho de segunda a sexta. não parecia agradável. E ainda por cima aquela voz. Caio estava entre eles. E o asfalto.a funcionar e os profissionais que iriam trabalhar na revista já estavam definidos. Sem costume de acordar cedo e batalhar de sol a sol. e. trabalhar o dia todo. Os parentes. Caio gramou durante os meses em que trabalhou na Veja. Nem mesmo o céu escapava do cinza. não se adaptou de início à cidade grande. de 1982. Ele. do contraste entre a vida interiorana em Santiago do Boqueirão e a vertigem causada pela velocidade da capital paulista. que sempre fora muito magro. fosse o que fosse. irritado. de desamparo. as árvores? Onde. sem coragem de sair de casa. com gripe. Era uma de suas fases depressivas: durante a vida toda. O escritor. Ficava nervoso. a quem ele dedicaria sua obra de maior sucesso — o livro Morangos mofados. os amigos.

ele tinha vergonha de falar com as pessoas. inadequados. que anseia poder olhar-se no espelho um dia sem ter vontade de desviar os olhos. E há o garoto de Pequeno monstro. ele podia se recusar a ver qualquer pessoa ou mesmo a sair do quarto por dias seguidos. na hora que as empregadas domésticas — as dosas. pêlos nos lugares errados. me rolava na areia. A voz de Caio. junto com outras preocupações típicas da adolescência. distante. A timidez. o Pai dizia — estavam voltando da praia. não se desenvolvera. Há o personagem Maurício. Com vinte anos de idade. E. pequeno monstro. infantil. odiosa. vezenquando chorava e repetia: pequeno monstro. de Limite branco. havia a voz.fundos-do-poço de melancolias insuportáveis. a voz de Caio era um tormento para ele. em conseqüência. até monstruosos. Caio não tinha condições de bancar. eu queria me esconder de todos. como a magreza excessiva. e aumentar seu isolamento e sua aversão às sociabilidades. irascível. Nessas ocasiões. ninguém te quer. A voz só fazia piorar a timidez do escritor. aliadas a um certo senso de superioridade comum entre jovens intelectuais fazia de Caio uma figura não muito simpática. Ele costumava dizer sobre o choque que foi trabalhar como jornalista em São Paulo: — Me estupraram até o último hímen. . Esganiçada. caríssimo. pode ter inspirado alguns contos do escritor em que os personagens se sentem feios. O tratamento. que dissera que suas cordas vocais estavam viciadas no falar infantil. Então caminhava quilômetros na beira do mar. para piorar tudo. Consultara um médico. Só tardezinha saía de casa. Muita gente tinha receio dele. nessa época: parecia arrogante. pelo menos à primeira vista. uma voz que desafinava igual de pato. mais a vergonha da voz. conto de Os dragões não conhecem o paraíso: Pernas e braços demais.

Não sei por que os homens não se armam de paus e pedras para furar a parede. cansei de escrever. em 1964. Um de seus livros chegaria. os militares haviam instaurado a ditadura no país. Seria muito fácil. A paixão pela figura do ovo. Só ontem cheguei à conclusão de que se trata de um enorme ovo. tudo sobre o qual não se tem controle. e a censura aos organismos de mídia. . Depois da descoberta do que o aprisiona. Vou deitar. Estou esperando. É um barulho leve. Caio herdou de Clarice Lispector. veio a repressão. nós vamos ser todos esmagados por ele. O ovo. Está muito perto. Mas é um ovo que diminui cada vez mais. Tão perto que ninguém vai-me ouvir se eu gritar. como metáfora e como objeto em si. como em O ovo. Que estamos todos dentro dele. não há como escapar: Eu não sei.Se internamente Caio tinha problemas. Caio viria a escrever vários contos sobre o clima asfixiante instaurado pela ditadura. a casca de um ovo é tão frágil. que aumentou em 1968. Com eles. no exterior as coisas não estavam melhores. conto de Inventário do irremediável. lá. Cinco anos antes. cada vez mais. Tenho tanto medo. Estou ouvindo o rumor do ovo se aproximando cada vez mais. a ter o objeto no título: O ovo apunhalado. a rigidez e o sufocamento agravados quando não se pode sequer mencionar o assunto. leve. a vela está quase apagando. Quase como um suspiro de gente cansada. representa tudo que aprisiona. cifrada. mesmo. metafórica. Muitos deles de forma simbólica. com o decreto do Ato Institucional n°5 (AI-5).

sua influência era muito mais dos tropicalistas. Ele preferia a maneira irônica. sem levar o credo político às últimas conseqüências. — Para ver Norma Bengell vestida de Paço Rabanne — diria anos mais tarde. Caio ainda era um adolescente. pela celebração. Sua tomada de consciência se dá em um período em que já existia o Tropicalismo. como Gil e Caetano — que ele sempre fez questão de afirmar que adorava — que de qualquer outro movimento cultural esquerdista do país. belíssimas. então. e fez parte da turma que achava que "festa" e "subversão" podiam estar ligadas. na época da poesia populista. e aquilo já não era pouco: Bengell foi uma atriz de intermináveis pernas. e foi se esconder na Casa do Sol. Politicamente. morando em Porto Alegre sem os pais. Com Caio não foi diferente: ele afirmou ter recebido um telefonema da redação da Veja.Novato em São Paulo. engajada. o notório senso de humor — herdado do pai. sumir por uns tempos. Em tempos de AI-5. e que a revolução era individual. Além disso. . mesmo participações ocasionais eram suficientes para que o serviço de segurança do regime marcasse e perseguisse uma pessoa. Zaél — se encaixava perfeitamente com a proposta dos tropicalistas. dizendo que oficiais da DOPS estavam procurando por ele. Decidiu. Ele ia mais aos encontros contra a ditadura pela festa que se fazia. contudo. Até porque. mas sempre sem se comprometer demais. que surge no mesmo ano em que ingressa na universidade. levantar bandeiras de qualquer tipo ou causa. em Campinas. de comportamento. Caio chegou a freqüentar passeatas e reuniões de oposição à ditadura. de se engajar. sítio da amiga Hilda Hilst. foi símbolo das mudanças culturais por que o Brasil passava na década de 60. pela oportunidade de ver pessoas. Essa forma mais leve combinava com seu temperamento: Caio nunca foi muito de assumir compromissos. ambígua e debochada de protestar. cursando o ginásio.

Quando souberam disso. em 2005. na companhia de seus noventa cachorros. março de 1969. cinema. Na Fazenda São José.Em carta aos pais. Ao ler Carta a El Greco. tinha abandonado uma movimentada vida social para ir morar na fazenda que pertencera à sua mãe. dramaturga e jornalista. Uma vez foram juntos a uma palestra de Léo Gilson Ribeiro sobre crítica literária. de Nikos Kazantzakis. onde viveria até a morte. shows. decidiu abandonar a agitada capital paulista e se isolar no interior para escrever. inclusive ele mesmo. Caio conhecera Hilda por intermédio de Ana Lúcia Vasconcelos. Ana perguntou a Léo o que achava de Hilda. Hilda. enviada da outra casa de Hilda Hilst. que namorara Vinicius de Moraes e fora cortejada por Carlos Drummond de Andrade. muitos livros. Hilda. Hilda construiria a Casa do Sol. Nas primeiras. onde a escritora morava. Aos 33 anos de idade. Teria ido para a casa de Hilda por não ter conseguido emprego. ele conta história diferente. que defende a idéia de que para entender a sociedade é preciso afastar-se dela. os anunciantes não querem saber de comprar espaço. e de fotografias de escritores espalhadas pelas paredes. Diz que Veja está dando prejuízos enormes. a onze quilômetros de Campinas. Para a editora inteira não fechar. . Caio. uma das mulheres mais bonitas de seu tempo. A revista vende pouco. de livros. ficaria hospedado na casa de Ana. Caio voltaria muitas e muitas vezes. Ana Lúcia e Nello Pedra Gândara eram os grandes amigos de Caio na redação. e as duas tinham se tornado muito amigas (décadas depois. atriz. Nello e Léo ficaram entusiasmados: pediram a Ana que os apresentasse. em 2004. Ana escreveria um livro sobre ela). que teria perambulado quase um mês pela cidade atrás de oportunidades sem conseguir nada. Ela nascera em Campinas. iam a teatro. teria sido necessário demitir bastante gente. sua colega na primeira equipe da Veja. com o objetivo único de construir uma obra literária. e ela acabou levando todo mundo para conhecer a Casa do Sol. mas com o tempo ganhou intimidade e ia direto para a Casa do Sol.

às vezes. o calor os deixa assim. Em 1968. desanimava. como dizia. tudo que pudesse. e nada mais havia por fazer na literatura. A coisa chegou a um ponto. a sensação era de que tudo já estava escrito. por temporadas inteiras. Dali sairia com um livro praticamente pronto: o Inventário do irremediável. No alto.além das fotos do pai. como Caio. que ele teve que se proibir de ler Clarice. que ajuda a amenizar o calor que faz. O Caio que entra na propriedade — imponente e tranqüila como a casa grande e antiga em que morou um dia. Inseguro. ele também. calado. Algumas das árvores que circundam a Casa do Sol têm mais de cem anos: figueiras. suas copas entrelaçadas fazem uma sombra boa. quando ele vai para a Casa do Sol. muito amedrontado também. queria sugar dela. irremediavelmente influenciado por Clarice Lispector. com o escultor Dante Casarini. Vira-latas. durante a pequena temporada que passou na Casa do Sol. para ser. E. dracenas. em sua maioria. só lia os livros dela escondido de si mesmo. exatamente por isso. naquela região do interior paulista. de vez em quando. Tinha já alguns contos escritos: faltava agora organizá-los. Ali o casal recebia os amigos. um bom escritor. a centenas de quilômetros dali — é um rapaz tímido. entusiasmado por ser hóspede daquela que ele considera uma das grandes escritoras do país e. Deprimia-se. lendo-a. Na Casa do Sol. quase uma obsessão. seus semblantes estão agitados. Hilda passou a viver. republicado depois como Inventário do irremediável. E foi isso que fez. palmeiras. Queria aprender com Hilda tudo que pudesse. fazer daquela massa informe uma obra coerente. do conhecimento e do talento dela. que ficavam. Bedecilda. em Santiago. por imposição da mãe dela. em 1966. . Hilda e Dante já estão oficialmente casados. inquietos. quase sempre. O silêncio pesado é quebrado somente pelo latido das dezenas de cães que moram no sítio. pois. na verdade. na época a escritora favorita de Caio. por quem sempre foi obcecada. revisá-los.

jamais se esqueceu da teoria. em parte. Falavam muito sobre literatura. Circulava pelas várias crenças. maravilhado. Numa viagem ao sítio de Hilda. sempre burilados. sua precocidade na literatura. a literatura de Hilda foi sempre uma busca do inefável. é claro. de minúcias como pontuação ao uso de certas palavras. até hoje dá entrevistas explicando do que se trata. nos anos 80 e 90. além das aparências. / Ching. paciência ou vontade para tanto. tudo que dizia respeito ao texto literário. como se nota em seus textos. também. e isso explica. nos anos 70. sobre o processo de criar. Ela. quiromancia. estudava com afinco algumas delas e inclusive as utilizava na arquitetura de seus textos. O inefável. estudavam juntos o movimento dos astros. ajudou Caio a olhar o mundo buscando sempre algo mais.Enquanto inventariava seus contos irremediáveis. ela diria. De Deus. que dizia ter visto anjos. com nenhum desses credos. disciplina. por exemplo. Caio. No resto do tempo. Gostava de trabalhar a língua. sempre. Não era só o divino que Caio discutia com Hilda. lapidados. conversado com os mortos e recebido em seu sítio a visita de discos voadores. Teorizava bastante a respeito dos assuntos. fosse na temática. fosse na forma. O escritor discorria sobre o assunto sempre que encontrava interlocutores. que. ter escrito e publicado ainda jovem. não tinha responsabilidade. fundamental. Procurava. inovar: fosse na estrutura. candomblé. reescritos. ele datilografava. Uma de suas teorias. Tanto que. ritmo. era um rapaz espiritualizado: acreditava em astrologia. Nessa relação com o divino. era a dos metâmeros. O termo vem da biologia: . como muita gente que viveu o sonho hippie. o que fosse. Caio era capaz de discutir problemas de texto por horas a fio. Caio a explicaria ao escritor Júlio César Monteiro Martins. flertava com as várias filosofias. a influência de Hilda foi. Não se comprometia. Caio funcionava também como uma espécie de secretário de Hilda: ela escrevia. com menos de 20 anos de idade. revisou e reescreveu a maior parte de sua obra. coisas do tipo.

que é o que Caio viria a fazer em Ovelhas negras. ou tênia. Ele seleciona dois esboços que lhe parecem melhores e introduz sua teoria aos leitores. O primeiro deles se chama A perda e foi escrito em 1985: Quando passo às vezes por aquela esquina. e o escritor poderia retomá-lo um dia e. Esse anel contém informações sobre o verme inteiro. um desses anéis. formar um conto completo ou um romance. uma espécie de verme. metâmero era um esboço. ampliá-lo. sem perceber claro o que sinto. enfim. As sombras que crescem devagar sobre o asfalto quente do verão passado. E mesmo sem querer. Ou então. O texto permaneceria em estado de latência literária. trama. contemplar a sacada daquele décimo andar onde costumávamos nos debruçar abraçados para olhar aquela rua lá embaixo sendo aos poucos coberta pelas sombras da tarde furando a copatúnel das árvores. se uma pessoa come carne contaminada com um cisticercó. essa caminhada. . irregular. que continha informações a respeito dos personagens. ele virá a se multiplicar e formar um animal completo. numa tarde como a de ontem ou outras iguais destes tantos meses passados. As sombras. se quisesse. como um túnel redondo. simplesmente. penso se não deveria retomá-la — essa rua. Na literatura. Quando passo por lá assim rapidamente. depois voltei caminhando pela rua cheia de árvores tão altas que suas copas se encontram e se misturam no alto.metâmero é um anel da solitária. publicar uma coletânea desses metâmeros. estilo. onde nem mora mais. lembro daquela tarde em que fui visitá-lo pela última vez. a pensar coisas que nem lembro mais. mas sem ele agora — uma tarde. espio sempre a outra rua por trás da igreja. anotações soltas sobre ambiente. de um conto ou de um romance. noite ou manhã quaisquer para refazer o percurso inverso até a casa dele. E parado naquela esquina feito espião.

Caio mantém sua decisão de escrever enquanto está na casa dos pais. Decisão tomada. porém. os móveis são convencionais. Caio achou que era hora de voltar a Porto Alegre. o pai lê romances de Norman Mailer. para que os outros filhos também pudessem estudar com facilidade. afinal. Caio acompanhou Hilda e Dante à praia. sequer. a faculdade de Letras esperando por ele. segundo refúgio da escritora. discos voadores. Zaél. em Massaguaçu. O quarto de Caio é cor-de-rosa. quando estivesse de diploma na mão. voltar a Porto Alegre foi uma beleza: o céu azul. por carta. sem loucuras. De lá. já militar reformado. um OVNI. quando Nair insistiu em ir. e havia. a Hilda. Não há. de lá ter visto. então. que por enquanto ainda não estava bem das pernas. Não trabalhava mais na Abril. não conseguira emprego em outros lugares. ela concordou que o melhor seria voltar para a casa dos pais. era a Casa da Lua. sem porralouquismos também. . sóbrios. os irmãos pequenos vêem televisão na sala. a volta para casa e a intenção de retornar à universidade. os morros. sua principal interlocutora. Ela mesma cursaria. discutido muita literatura e organizado o material de seu primeiro livro de contos. calmas. Era uma opção. o verde das árvores. onde era alguém de posição.Depois de passar algum tempo no sítio de Hilda. supostamente. Para Caio. que ele só abandonara pela perspectiva de integrar a primeira equipe de jornalistas de uma nova revista. mentora literária e espiritual. ele poderia voltar e tentar viver em São Paulo de novo. a faculdade de Filosofia. o ambiente convida a escrever — ele conta. A família de Caio estava morando em Porto Alegre desde 1969. o sotaque familiar: o "tu". E o melhor: não ter que levantar cedo para trabalhar. A mãe faz pós-graduação em Filosofia. As pessoas doces. mas os argumentos da esposa foram mais fortes. nem sair de casa para comer. teria preferido ficar em Santiago. Conversou com Hilda. escreveu aos pais comunicando a saída da Abril. a idéia de voltar para a faculdade. Ele amou Porto Alegre em tudo que ela era diferente de São Paulo: sem asfalto.

principalmente. irmã do já então falecido escritor Lúcio Cardoso. introspectiva. mesmo achando-a um pouco "fora da realidade" e "liriguelha demais". uma afeição por ela. de modo algum. mas não de sua glória. fora um escritor que se rebelara contra a tradição do romance regionalista. Quando vê o quarto onde ficará hospedado. na inabilidade do escritor em se adaptar a um currículo. Além do que. sim. com problemas de relacionamento com os colegas . E. Caio faz uma visita à cidade sempre maravilhosa. Nélida Piñon. E também. e sim da sua degradação. suficiente. Caio se comove: é o quarto que fora de Lúcio Cardoso. como alguns críticos o chamam. onde as coisas aconteciam. a horários fixos: ele não consegue parar quieto. Maria Alice Barroso. principalmente em Porto Alegre. nem os amigos. Como ele foi parar ali? — se pergunta. com cuja obra a de Caio tinha alguns pontos de ligação — Lúcio. Mas isso não era. Caio aceitou o convite de Maria Helena. ele era só um rapaz vindo do Boqueirão. cheia de cores. O apartamento de Maria Helena fica em Ipanema. falando de personagens mineiros. verdes árvores e céus azuis inigualáveis. no Brasil de 1969. verdadeiramente. ou a admirasse como escritora. apenas quatro meses depois de ter voltado para a casa dos pais. o Rio de Janeiro era um lugar onde as coisas aconteciam. da degradação de suas tradições. Assim. Havia sido convidado algumas vezes por Maria Helena Cardoso. e o fato de ele achar uma tolice as cartas em que Maria Helena falava dos "passarinhos que cantam nos galhos das árvores" e das "sombras de outono" não significa que ele não nutrisse. a oportunidade era muito boa para ser desperdiçada.morre nas dificuldades burocráticas que há para reabrir a matrícula. Há pouco tempo. No auge desse estilo de texto. Lá estavam os escritores que Caio queria conhecer: Clarice Lispector. Caio queria estar no olho do furacão. A capital gaúcha podia ser bonita o quanto quisesse. o Dostoiévski mineiro. da mesma linhagem literária de Virginia Woolf e Clarice. ele escrevera de forma intimista. a língua ferina de Caio não poupava ninguém. Walmir Ayala.

a editora que publicara o primeiro conto de Caio. modesta. dos medos. dizem que tenho olhos lindos!).e que crescera rápido demais. " Cerca de um mês depois de sua chegada ao Rio. O príncipe sapo. uma flor de pessoa. quando ele tinha 16 anos. enquanto Maria Helena assiste a uma novela na sala. sério. em alguns minutos. que eu era tímido e agressivo. cinemas. o Boroca. junto com Hilda e Dante. porque me achava horroroso com aquele bigodinho precoce (hoje. sendo tratado a pão-de-ló por uma velhinha pequenina e ágil que. em uma cidade verdadeiramente esplendorosa. e além disso é um dos críticos de literatura mais respeitados do Rio e conhece todo mundo. . Agora. orgulhoso. no dia 21 de agosto. prometem arranjar editoras que publiquem seus livros. Toda essa celebração em torno de Caio o deixa feliz. "— escreve aos pais. acho muita graça. teatros. Acho graça. das quedas. não aceita ser chamada de uma das melhores escritoras do país — ao lado de Ia Lispector. Caio vai sair. ele é inteligente. Há também Carmen da Silva. estão entusiasmados com 0 trabalho dele. ele estava no quarto de um dos maiores escritores brasileiros. me acham parecido com Cristo. "E as pessoas que passam por mim não saberão jamais que nasci em Santiago do Boqueirão e um dia fui estudar em Porto Alegre. dos choros. muita gente ao seu redor. a noite o espera: bares. "As vezes que tentei morrer foi por não suportar a maravilha de estar vivo e de ter escolhido ser eu mesmo e fazer aquilo que gosto — mesmo que muitos não compreendam ou não aceitem. belíssima. Caio viaja novamente para Campinas. Francisco e Carmen mostram os contos de Caio para outras pessoas. Tão estranho carregar uma vida inteira no corpo. querem pintar retratos. primo do pai de Caio. na revista Claudia. povoada por pessoas bondosas e simpáticas. autor de Crônica da casa assassinada. E ela não é a única a tratá-lo bem: há Francisco Bittencourt. e ninguém suspeitar dos traumas.

marcante e inexplicável. do nada. assim como teimara até ali em ser uma voz normal. pensando em melhorar pouco a pouco. sua hora chegou. e em seguida Caio seguia de volta para Porto Alegre. tinha. charmosa. Caio mencionaria sua amizade com Hilda. ao encenar uma de suas peças. Chegava sempre o momento em que a escritora tinha que chegar para ele e dizer: Caio. e mudara não para ser uma voz comum. precisa ficar de pé para ouvir você ou posso ficar sentado mesmo? Ao longo dos anos. Havia uma figueira no terreno da chácara. A partir daquele momento. dizendo que chegara a morar um ano em sua casa. . envergonhado de falar com os outros. Mas ele ainda estava na Casa do Sol quando. sairia aquele vozeirão. como as outras. uma Boa Notícia. ele deixaria de ser o jovem tímido. embora visitasse bastante a Casa do Sol. ou para onde fosse. sua amizade. finalmente. Na verdade. no final de outubro de 1969. E então ele ia embora. A história começou quando ele ganhou um gravador de Hilda e Dante. a admiração por Hilda beirava a reverência. melhorado.que tinham ido passar uma temporada na capital fluminense. de descobertas. O momento era de inquietude. ou para o Rio. Só que a voz. resolvera mudar de repente. brincaria com a situação: — Meu Deus. A voz nova de Caio era grave. de viagens. Hilda teria dito ao escritor: "Cainho. duravam um ou dois meses. que conheceria Caio na década de 1980. a presença de Caio na casa era muito intensa. exigente. e com ele pôs-se a fazer exercícios e a gravar a voz. Suas temporadas em Campinas eram intermitentes. Além disso. aconteceu uma coisa misteriosa e impressionante. vindo não se sabe de que parte do corpo magricela do escritor. sempre que ele abrisse a boca. O ator Gilberto Gawronski. A voz de Caio. Ao longo de sua vida. uma notícia maravilhosa. com maiúsculas. A partir dali. muito cheia de personalidade. e passaria a se assumir como adulto. Caio não chegou a ficar tanto tempo lá. tinha outros desígnios. Caio e Hilda contariam a história da figueira para explicar a mudança da voz. bonita. porém.

e lá soube que ganhara o Prêmio Fernando Chinaglia por Inventário do irremediável. e ela resolve". estava lá. De todas as versões. teria pegado um livro de Fernando Pessoa e começado a ler em voz alta. no terceiro verso. mas para Caio deixar de ser tímido. Hilda afirma que o pedido não era para a mudança de voz. em vez de voltar ao Rio. onde estava decidido a morar. Quando a gente tem um problema muito grave. belíssima. Caio teria se sentado na área da casa e olhado a Lua. Mas a versão mais próxima da realidade é também de Caio. Três dias depois. ele estava de volta a Porto . De volta ao quarto. Em dezembro. Em um texto. fala com ela. Era uma noite de lua cheia. mas Caio preferia acreditar na versão romântica e mágica da figueira. como o irmão do escritor. e para ganhar um concurso literário de que estava participando. Caio teve uma voz infantil. O escritor José Mora Fuentes. Há até quem diga. para voltar logo ao Rio. conheceu alguns hippies em uma praça de Ipanema. obra a que dera forma final ali mesmo. decidido a se estabelecer por lá. fez amizade.essa figueira é mágica. o que importa é que. Felipe Abreu. e considerava a hipótese de ficar por ali. mudou aos poucos. Os outros pedidos — tanto o prêmio literário quanto a viagem ao Rio — também logo se realizaram. Há outras versões: a de que ele teria feito três pedidos à figueira: para que a voz melhorasse. ela se tornou grave e lânguida e bela. esganiçada. que a voz não mudou de repente coisa nenhuma. porém. então ele teria sentido que podia fazer três pedidos que eles se realizariam. Então ele teria abraçado a figueira e pedido para a voz mudar. amigo de Hilda que até hoje vive na Casa do Sol. Os três pedidos acabariam realizados: Caio voltou para o Rio. os empregos formais não apareciam. até os vinte anos. aos vinte e um. conseguir ir logo para a Europa. em carta aos pais logo que a mudança se opera. na Casa do Sol. Tanto ela quanto Caio diriam que o terceiro pedido era. Caio voltou ao Rio. a voz mudou. já de voz nova e sensual. a voz teria mudado. trabalhando com artesanato.

superior. Desde criança. que era exigente demais com os textos a serem encenados. pairava. assim como não concluíra o de Letras. até segunda ordem". Alguns amigos leais dizem que Caio era bom ator. sobre o moralismo e a decadência da sociedade. no Centro de Artes Dramáticas (CAD). Logo depois. "Decidi aceitar meu ser nômade. dizendo que era péssimo. Mas se divertiu aprendendo algumas coisas. Entre algumas das que participou no período. somada à que lhe era própria e mais uma espécie de certeza de que não havia nada de errado em sua condição. ele se sentia acima dos preconceitos burgueses. a amizade com Dante foi retomada. The black grove e The last moment. Caio ainda acredita que pode . Só queria saber de tragédias gregas e de Nelson Rodrigues. que nada tinham de trágicas ou de rodrigueanas. em 1973. E por aí afora. não se abalou demais: com a arrogância própria da idade. e o assunto da briga foi deixado de lado. Caio participou como ator de algumas peças. Caio gostava de teatro. em The black grove. Mas estamos em 1970. ele podia desenvolver mais seriamente essa paixão. prestou exames para o curso de Direção Teatral. o resto achava descartável. quando sua participação no teatro se restringia a escrever as peças. estavam Serafim fim fim. Caio passaria todo o ano de 1970 na capital gaúcha. mas ele mesmo costumava brincar. quando. depois de rodar o país e parar de novo em Porto Alegre. Isso mudaria alguns anos depois. por exemplo. claro. de inventar e encenar historinhas com seus bonequinhos de papel machê. o papel era de Batman. A coisa foi feia: as palavras "veado" e "doente" foram das mais leves que o escultor usou para caracterizar Caio no meio do entrevero. escreveria a Hilda. vestira-se de mulher. Não chegou a terminar o curso. A carta não era das mais fáceis de escrever: era a primeira depois de uma briga que tivera na fazenda com Dante. Em Serafim. Ali. agora. anos depois. tamanha agressividade. no entanto. ele chegou mesmo a visitar Caio e sua família em Porto Alegre. já na década de 80. Caio. Descobriu.Alegre. e sabe-se lá o que este aprontara para causar tamanha reação.

Menção Honrosa no Prêmio José Lins do Rego. não fora o primeiro a ser escrito: limite branco veio antes.completar o curso de Direção Teatral e mora com os pais em Porto Alegre. começou a participar de festas malucas. o que causou o maior rebuliço. regadas a maconha e drogas mais pesadas. O livro é dividido em quatro partes. e a descoberta que os cavalos representam pode ser lida como qualquer descoberta. orgiásticas. Nesse conto. repense sua vida. era um passo no sentido de Caio se firmar como escritor. que ficaria para sempre inédito. Assim como ela. ou quatro . badalada ou não. Caio manifesta sua carência. e um escritor amado pela literatura que fazia." A publicação do primeiro livro. as bacanais faziam Caio se sentir um lixo. essas revelações acabam por trazer a morte dos protagonistas. em 1968. Como o escritor ainda tateasse seus próprios caminhos. a morte é quase uma libertação. A história da mescalina foi descoberta pelos pais. foram muitos os convites para entrevistas. embora tivesse ganhado. Em alguns contos do Inventário. em carta a Hilda Hilst: "Queria tanto que alguém me amasse por alguma coisa que eu escrevi. no fim da noite. é no Inventário que a influência de Clarice Lispector se mostra maior e mais clara. em vez de deixarem o escritor feliz. Nesse momento. E houve também um livro de contos chamado Três tempos mortos. Os cavalos brancos de Napoleão. Mas embora Inventário do irremediável tenha sido o primeiro livro do escritor a ser publicado. deprimiam-no ainda mais. desbundou por completo: experimentou mescalina. como no conto que abre o livro. Caio trabalha muitas vezes com o conceito de epifania: uma revelação mágica no meio do cotidiano. inclusive a do homossexualismo. algo que faz com que a pessoa mude. A única área em que as coisas iam bem era a profissional: Inventário do irremediável foi lançado com estardalhaço. e reafirma sua determinação de ser escritor. Mas essas experiências.

a ação ocorre sempre na cabeça dos personagens. de mãos. cheio de carências e inseguranças. E a última frase define. Sem compreender. Como um cego. Moderna. Junto com a carta. estranha. a maré começa. No cinzeiro. Perto do coração selvagem. Está sentado na cama.inventários: da morte. Caio conheceu Clarice Lispector. No fim do ano. Dobra os ombros. Por continuar. como que para coroar esse novo estado de espírito. enlaçam os joelhos. composto de um único conto: o Inventário do irremediável. A atenção fixa em si mesma. Os braços se cruzam. vaga entre a fumaça e tomba. que há muito não lhe escrevia. palavras não formuladas. com a novela Lázaro dedicada a ele. revolucionou a linguagem. sobre sua relação com os amigos. ele chegou em casa e encontrou uma carta de Hilda. Há também um quinto inventário. Só espera. Escreveu uma exultante e empolgada carta a Hilda. e. do amor e do espanto. resolveu ir para a praia com alguns amigos. Quando o jornalista . A lâmina vibra entre os dedos. da solidão. Caio não cabia em si de tanta satisfação e orgulho. e do livro. um exemplar de Fluxo-floema. a soprar a favor de Caio. a cabeça afunda entre as pernas. Nenhum pensamento. voltou recuperado. porém. de bem consigo mesmo. de gestos incompletos. O final do conto. Deu certo: depois de refletir muito sobre a vida. como se chorasse. bem. E não corta. aconteceu algo que o faria retomar a carta e escrever mais um pouco. Joga a lâmina pela janela. Clarice fascinara leitores e críticos desde o primeiro livro. pés descalços. adensando o ar que se enche de olhos. traz uma esperança: a escolha pela vida. é marcada por sensações. o cigarro esquecido queima. vai-se curvando para si mesmo. o texto de Caio. Personalidade magnética. Para espantar a tristeza. vozes veladas. Ele passara um ano ruim. vendo apenas para dentro. e a sua personalidade. corpo nu. costas curvas. Não chora sequer. mais uma vez. misteriosa. Sua literatura diferente. temas recorrentes na obra do escritor. Um fino fio de fumaça sobe aos poucos indeciso. Na mesma noite.

nesse estado de êxtase e perturbação. fora de dúvida. Engole o jantar que lhe oferecem e sai chispando feito um foguete para a televisão. ele tinha na bolsa. Quando ia saindo. mas de bruxaria". E a gente sente que ela não espera mais nada de nada nem de ninguém. Otto pediu a ele que tomasse cuidado com Clarice. e lê que Clarice Lispector herselfestaria autografando seus livros em uma estação de TV. porém.. toda de preto. Caio fica nervoso." Conversam mais.[. Caio vai embora meio aparvalhado e. por acaso. "Tive 33 orgasmos consecutivos. Caio aproveita o interesse dela e lhe entrega um exemplar sobres-salente do Fluxo-floema que. conversam um pouco. Clarice chega até a porta e chama: — Fica comigo. que está sozinha e numa altura tal que ninguém jamais conseguiria alcançála. um escritor que estava por ali decidiu apresentá-lo direito. diz que acha ele muito bonito. de Hilda. "Ela é exatamente como os seus livros: transmite uma sensação estranha. De repente ela pára. absolutamente incrível.José Castello perguntou a Otto Lara Resende sobre ela. antes que vá muito longe. Tem olhos hipnóticos. entregou um exemplar de seu livro recém-publicado para ela. Vi uma mulher linda e estranhíssima num canto. Ê lenta e quase não fala." . Ele fica. de uma sabedoria e de uma amargura impressionantes. falou. " Caio chegou perto. um presságio.] Sinto que as coisas vão mudar radicalmente para mim — teu livro e Clarice Lispector num mesmo dia são. lógico. Ela lhe dá seu telefone. com um clima de tristeza e santidade ao mesmo tempo. "Não se trata de literatura. quase diabólicos. à noite. "Cheguei lá timidíssimo. Caio termina de escrever para Hilda. escreve a Hilda contando o episódio. Era ela.. parecido com Cristo. pede para ligar quando for ao Rio. sai para o corredor. Pega o jornal para dar uma olhada. Falam de Nélida Piñon.

e muito do material publicado. Carlos Fuentes. Caio volta ao Rio. utilizando ao máximo as visões que tem em suas viagens — de LSD. O ano novo chegava. escreve textos fundindo o fantástico. A vida na comunidade não dá certo: ele e seus amigos se desentendem. Apanha da polícia e . só sai sob censura. Nascido na fronteira com a Argentina. Caio aprecia autores como Ernesto Sábato. Ricardo Piglia. tudo vai bem: Caio está feliz à beca com os novos textos que anda produzindo. em março. Para piorar um pouco mais as coisas. é mais importante que a coletividade.Era o dia 29 de dezembro de 1970. aluga uma tranqüila casa em Botafogo. Flagrante falso de maconha. "Acho que finalmente achei a minha forma". obra que só viria a ser publicada em 1975. em comunidade. Garcia Márquez. e falando bem o espanhol. inclusive em livros. escreve a Hilda Hilst. cabelos longos e túnicas indianas compridas. A estada no Rio é o começo do fim do sonho da contracultura para Caio. ele sai da casa. bem de acordo com o sonho paz-e-amor da juventude da época. Várias histórias desse livro podem ser entendidas como crítica à sufocante situação por que o país passava na esfera política. Em 1971. Começa a perceber que a individualidade. ficção científica e elementos da cultura pop. a ditadura está em sua fase mais dura. ele decide tentar um modo de vida diferente. é claro — e que certas coisas funcionam melhor na teoria. às vezes. mas acho que sou o único cara no Brasil que está fazendo literatura pop MESMO'. ele é preso. "Não sei se isso é auto-elogio. Totalmente imerso na cultura hippie. Surgem assim alguns dos contos de O ovo apunhalado." Nessa fase de sua escrita. que na prática. Ele acredita que tudo pode dar certo. na utopia. que morar em comuna é a melhor maneira de se viver. E. que o ser humano é egoísta — ele incluso. Com três garotas e um rapaz. Caio namora o realismo fantástico dos autores latino-americanos como Cortázar. mescalina ou chá de cogumelos —. Quanto ao seu trabalho.

só sai da prisão porque Adolpho Bloch. Entre a saída dele da comunidade e a volta envergonhada para Porto Alegre. Bloch queria distância de confusão. E a vida de escritor. casar. os irmãos Vera e Henrique Antoun. dono da editora em que ele trabalhava. seu trabalho. um apartamento com vista para o mar e estaria preocupado em pagar as prestações e a mensalidade da escola das crianças. E esse quadro não combinava com a idéia da vida que um escritor devia levar. escreveu uma peça infantil. sai pela tangente. a coisa não vai pra frente: quando está com Verinha. Caio às vezes se torna esquivo. levou-a. na revista Manchete. Ficaram amigos. Mas Caio tem sorte. mais que por benevolência. um lar. Caio gostou muito de Vera. Dali a pouco. É a sexualidade em conflito: ele. Só de ida. ele pode ter pensado. para Porto Alegre. que já havia meio que definido que gostava de rapazes. em que havia uma boneca inspirada na garota. e até mais que isso: surgiu um clima. Chega mesmo a considerar a hipótese de se assentar. ele teria um carro do ano. Era o lançamento de Limite branco. de forma tão profunda. era tudo que importava. foi visitá-la no Rio algumas vezes. pronto desde 1968. carinho e amizade na casa de dois quase desconhecidos. intercede por ele. que o tirou da prisão e pagou a passagem de Caio para Porto Alegre. se divertindo e conversando e montando um clima apaixonado. ainda por cima. A comunidade do arco-íris. em 1971. ter filhos. se afasta sem maiores explicações. a única . primeiro romance do escritor. Caio é demitido. Solto. No entanto. ele encontra abrigo. Vinha sempre em primeiro lugar. escrevia-lhe cartas amorosas. com direito a sonhos pequeno-burgueses de casamento. nem tudo eram flores. junto com a mãe e o irmão Henrique. depois de horas com ela. Enfim. uma espécie de paixão entre os dois. ficava assustado com a possibilidade de se envolver com uma garota e. O que viria em seguida?. forjada em plena década de 60. Vera tinha quatorze anos quando conheceu Caio. pelo menos na imaginação romântica de Caio. sua carreira. e foi por isso. uma família. ele pula fora.

ele voltou a ficar bem: ele sempre recuperava sua força através do contato com a terra de sua infância. a relação com Vera não engrenou. Assustou-se. mas. de fazer comentários espertos. No entanto. e fico sentindo falta do teu jeito lento de chegar pisando em nuvens. e sim por escolha. Caio escrevia a Vera contando de suas experiências com ácidos e demais drogas lisérgicas. tão distanciada. ouvir música e passear na beira do rio. com o que chamaria de "vampirização" das pessoas: todo mundo só querendo saber de falar e falar. Assim. tão silenciosa? Em que nova galáxia posso te encontrar outra vez. quando ainda morava com a comunidade hippie que montara naquele bairro. em uma viagem a Itaqui." De Porto Alegre. não por incapacidade de contato. sem movimento. sempre azul. sem televisão. em Santa Teresa. deprimido. onde moravam seus avós. no entanto. morena como uma princesa raptada por beduínos no deserto? Vezenquando baixa uma saudade. quase sempre clara como tem sido o ar verde-azulado desse verão. Caio reencontrou-se. Caio estava em uma de suas fases ruins. dessa vez. Pensava constantemente em suicídio. Pessoas sentadas na calçada. Ele havia participado de algumas cerimônias de chá alucinógeno com ela. tudo muito parado.coisa à qual Caio foi sempre fiel durante a vida. olhando as estrelas. gente que tinha evitado durante o período em que sentia só escuridão dentro de peito. No início de 1973. Caio ainda estava na fase de amor e empolgação pela garota. por onde anda você. não queria sair de casa nem ver ninguém. e lhe escreve: "Verinha-maravilha. Está reconciliado consigo mesmo. no entanto. começou a procurar alguns amigos. Em Porto Alegre. sem carros. e não se arrepende de nada. . Preferia ver um filme antigo. através da visão de paisagens antigas. de mostrar um equilíbrio que não possuíam. O ano de 1972 foi todo dedicado a essas experiências. Aí Caio passou a evitá-las de novo.

mas a comissão julgadora atribuiu o prêmio apenas a ele. já liberto — de certa forma — da influência de Clarice Lispector. gostando de viver. como no próprio conto-título. Caio planejava sua viagem e continuava a escrever. O conto Visita ganhou um prêmio do Instituto Estadual do Livro (IEL) em 1973." Assim feliz. Graça Medeiros. toda a intelectualidade de Porto Alegre estava concorrendo. por achar que nenhum dos outros trabalhos tinha nível.] Quando nos seminários de literatura os teóricos pedantes acabam por condenar a palavra.. Entre as horas de trabalho que passava no jornal. com o intuito de juntar dinheiro para viajar. assinado por Lygia Fagundes Telles. quando a serviço de uma técnica rica de recursos. que o conhecia havia cerca de quatro anos e seria uma das melhores amigas de Caio até o fim. em carta a Hilda Hilst.como escreve a Vera: "Nada é errado. mas estou aprendendo a respirar o ar das montanhas. quando o erro faz parte de uma procura ou de um processo de conhecimento. futura astróloga.. Além disso. Emoção esta que é vertida para uma linguagem que em alguns momentos atinge a rara plenitude próxima de um estado de graça. voltava de uma temporada na Europa e insistia que ele devia ir também: a atmosfera política e cultural no Brasil estava insuportável. a influência do realismo mágico dos latinos se faz notar em alguns textos. Lygia o chama de "escritor da paixão". Aliada a uma imaginação cintilante". O ovo é um livro que fala de violência. [. . Caio começa a trabalhar no jornal Zero Hora como copidesque. de loucura. também não quero muito. Essa vitória foi motivo de muito orgulho para Caio: segundo ele conta. e diz: "Caio Fernando Abreu assume a emoção. mostra o quanto o escritor já era estimado e admirado nos altos meios literários do país. também não tenho muito. minha vontade simplesmente é mostrar-lhes um livro como este. Provar-lhes a atualidade da desacreditada palavra com a própria palavra. Caio escrevera o livro de contos O ovo apunhalado. " Ou ainda: "Não sei muito. O prefácio.

mas vencem no final. porém as pessoas têm medo do novo. fumavam maconha. Juarez Fonseca freqüentara a universidade na mesma época de Caio. E os mártires. Sandra Laporta. Oferecem para quem quiser compreendê-los. e Graça Medeiros. Em um mundo comum e medíocre. Jaime Gargioni. Juarez fazia Jornalismo. e um dos poucos a conversar com eles de vez em quando era João Gilberto Noll. foi contratado pelo Zero Hora. Nessa época. a cinza é mais digna que a matéria intacta e a salvação pertence apenas àqueles que aceitarem a loucura escorrendo em suas veias. uma bela prosa poética. só que seu curso era outro. mesmo quando consome. As pessoas saíam juntas. Juarez . não chegou a conhecer Caio: ele e Magliani formavam uma dupla quase hermética. muito ácido. enquanto Caio cursava — ou tentava cursar — Letras. sofrem. uma dupla estranha. No conto Eles. Juarez era da equipe do jornal do centro acadêmico. Caio era muito crítico. Juarez Fonseca. um gay espalhafatoso de quem Caio gostava muito. já de volta a Porto Alegre depois de suas andanças por São Paulo e Rio. Havia também Lucrécia. Na faculdade. Conversavam sobre os assuntos da época: filmes. discos. O coruja. os salvadores. onde Juarez já trabalhava. O que os seres dizem é um atestado da maneira como Caio levava sua vida. Augusto Rigo. Falavam mal da ditadura. alguém de fora surge e promete a salvação. por exemplo. no entanto. quem aparece para mudar a rotina são seres de outro mundo. livros. Juarez Fonseca lembra de ouvi-lo comentar: — Todo homem com mais de trinta anos é um canalha. a turma de Caio em Porto Alegre era composta por Maria Lídia Magliani. a mudança. Nessa época.Alguns contos de Caio falam da esperança de redenção. Os dois se conheceram quando Caio. iam a bares. O que eles deixaram foram estes três postulados: importa é a luz. Apenas uns poucos escolhidos se salvam.

Era a efervescência da imprensa nanica. a efervescência de uma geração que não agüentava a ditadura. A questão era só escolher por onde começar. Augusto e Ana. Vera e Henrique foram vê-lo antes da viagem e. Augusto Rigo. Cada um em um país — a dupla de tropicalistas na Inglaterra. que contestasse. estava lá. Caio. de medo. Parecia que no Brasil não havia lugar para gente assim. Cada um iria por um trajeto diferente. Caio. era um só: Europa. Caio começou a colaborar nos projetos de que Juarez fazia parte. " Antes de partir. em maio. No aeroporto do Galeão. O pessoal queria mais era sair fora. o destino. foi muito bom encontrar os amigos. Márcio. Os ídolos Caetano Veloso e Gilberto Gil já tinham ido em 1969. "GRRRR: vontade de comer vocês dois com molho de chocolate. Caio está exultante. Chico Buarque também. na cabeça dos brasileiros loucos para saltar fora. influenciado por O Pasquim. Caio escreveria aos dois. Não havia tempo a perder. como o jornal Exemplar. que também trabalhava no jornal. E saíram. além de se encontrarem com os irmãos. Sônia Azambuja. como os dele. o clima era de paranóia. que já estava chegando. O dia é 28 de abril de 1973. Era um grupo de seis pessoas. e que se casariam na Finlândia e teriam sete filhos com olhos de vaca jérsei. que haviam decidido fazer o percurso . dizia ter pressentido que ele tinha QI de gênio. Aninha. também amiga. casados desde 1971. Juarez e sua esposa. e se encontrariam todos na Suécia. Sandra Laporta. Veja — na época ainda considerada inovadora — e. Do avião. a repressão nas ruas aumentava. no Rio de Janeiro. e a turma de Porto Alegre escolheu a Suécia. como diagramadora. mais ou menos na época em que a temporada de trabalho começaria. Chico na Itália.tinha se tornado amigo de Magliani. Sandra na Suécia —. De Henrique. ainda entusiasmado com o encontro: dizia que Vera tinha olhos de vaca jérsei. principalmente. pela revista Bondinbo. como os dela. e cabelos pretos e lisos de índio. A amiga Graça Medeiros já fora e voltara. embora um vidro os separasse.

Além do humor cáustico. quase ternura. [. as linhas mansas de seu contorno: um ovo. abrevie-me. Então estendo os meus muitos braços coloridos e toco no cabo de bronze do . você não vê que não tem a menor originalidade — e ele não parou -. era cheia de detalhes do fantástico. "maravilhosos". nesse momento. com que retratava a vida de pecados do ser humano. Está parado à minha frente e volta-se devagar para que eu fique cara a cara com o punhal cravado em suas costas. Ana e Augusto não vão direto para a Suécia. mordi o lábio inferior.] Mas ele não se move. e da dificuldade de salvação. Disselhe isso — mas ele não parou -. qualquer cozinheira conhece seu segredo.juntos. mas se fosse Beirute. todos já disseram tudo sobre você. onde planejam ficar umas duas semanas. e não tenho medo. escrevem do aeroporto do Galeão um telegrama a Graça Medeiros. em que um ovo sai de uma moldura e persegue o personagem: Ele saiu da moldura e veio caminhando em minha direção. não importava. É quando julgo perceber nele uma espécie de súplica: socorra-me. que viria a influenciar os surrealistas mais tarde. os carros corriam e a minha imagem mordia o lábio inferior. cheios de boas expectativas e esperanças. mas nada aconteceu: os carros passavam por cima da minha imagem refletida nas vidraças. ele continuava ali. Olhei para o outro lado. A obra do pintor holandês nascido em 1450 tinha alguns pontos de contato com a do escritor. humilde. tenro. Caio quer tirar carteira internacional de estudante e ver Bosch no Museu do Prado. Agora é um ovo delicado. Por acaso o destino final era a Suécia. Era assim que aquele trio se sentia. estava impregnada desses elementos. a casca branca. Lembremos que a própria literatura que Caio fazia. Caio. e sinto pena dele. bem. Quando tornei a me voltar. a arte. logo antes de deixar o Brasil rumo a aventuras desconhecidas.. Brincavam que o avião tinha sido seqüestrado e que eles estavam em Beirute.. A escala é em Madri. poupe-me. Como no conto O ovo apunhalado.

com catedrais com mais de 500 anos e casas de 300. A sua casca está manchada pelo fio de sangue coagulado. também estou no céu com diamantes. meus dedos ferro. Caio encontra. Em Madri. andavam na mesma turma em Porto Alegre. mas é tarde demais. trabalhavam no mesmo local. até o pesado cabo de bronze onde dedos comprimem com força. Se hospedaram em um hotel na esquina da casa onde morou Picasso. E sinto uma lâmina penetrando fundo em minhas costas. Estavam numa esquina da cidade quando viram passar Caio e os amigos que tinham ido com ele. agora. e se ouviam relatos de torturas e fuzilamentos. Juarez Fonseca e sua mulher. Todo mundo olhando. Augusto e Ana foram a Barcelona. cheio de repressões. e não se viram mais. Lúcia grita. . Nessa época. Uma breve hesitação. até o encontro combinado na Suécia. Amsterdã ou mesmo Estocolmo prometiam ser. mas não trocavam confidencias e coisas do gênero. 0 sangue escorre e eu. e de lá para Madri de trem. Foram tomar um café. depois empurro lento. Juarez escreveu no diário que estava fazendo da viagem. Sônia." De Madri. por acaso. firme. Caio não achou mesmo muita graça na Espanha: a comida era horrorosa. minhas mãos tentáculos.punhal. rígidas. Bonito mesmo Caio só achou o bairro gótico. O casal tinha ido até Lisboa de navio. Sobre o encontro casual com o grupo de Caio. as pessoas eram fechadas. Vejo minha casca clara partir-se inteira em cacos brilhantes que ficam cintilando pelo chão do banheiro. Hesito um pouco. Meus olhos são janelas. perdidos entre espáduas. mas fecho os olhos no mesmo momento em que meus dedos se cerram em torno do punhal. Caio. minhas pálpebras grades. as ruas de Barcelona eram sujas e poluídas. moralistas. no dia 29 de abril: "Caio muito louco caminhando pelas ruas. Era ainda época de ditadura no país. Caio e Juarez ainda não eram íntimos. Sua figura chamava a atenção: a Espanha é um país católico. e nesse sentido estava longe de ser o paraíso dos costumes que Londres.

de cultura. ele vira para o avô Aparício Medeiros e diz: — Um dia. Bares charmosos. Era noite em Itaqui. é claro. Todo mundo se deliciava com os camarões que. Ficaram uns seis dias nessa residência. fazer comida. de outra forma. um pouco maior. Caio também iria lavar pratos. todos iriam se ajeitando e conseguindo moradias individuais ou em duplas. diria Caio. Passear pela capital francesa era como andar sobre séculos de história. Os estudantes estavam de férias. fosse na "casa" de um ou de outro. Harekrishnas andando sossegados pelas ruas. Aos poucos. Sônia arrumaria emprego em um hotel. de civilização. jamais poderiam comer. e depois se mudaram para outra. O grupo estava sempre junto. os grupos se juntaram e foram todos morar numa residência estudantil minúscula. requintadas. Aos poucos. Sandra também se saiu bem — roubava camarões do hotel onde trabalhava e trazia para casa. na fronteira do Rio Grande do Sul com a Argentina. com todos os cortes de cabelo e roupas que se possa imaginar. Qual seria a cara dele agora. e os estrangeiros se hospedavam no que usualmente eram seus alojamentos. . Caio Fernando Abreu tinha nove anos de idade e estava passando uns dias na casa de seus avós. e a impressão que a capital francesa deixou foi de puro deslumbre. o grupo seguiu para Paris. todos iriam se estabelecer. Pisar nas ruas francesas era como "pisar no coração do mundo". O avô. Em dado momento. Augusto se revelou um exímio ladrão de supermercados: vestia seu macacão Lee e enchia os bolsos de enlatados.De lá. vou morar na Suécia. também. gente variada. em outro lugar. Era o paraíso. morreu de rir. arrumar empregos: Juarez iria trabalhar no restaurante Catelin. Era uma festa. que Caio estava mesmo indo morar em Estocolmo? Na Suécia. quando eu for grande. onde grupos de pessoas se reuniam para tomar vinho. Encontravam-se depois dos respectivos trabalhos e iam beber. porém. mulheres elegantes. e Sandra Laporta em outro restaurante. conversar.

de conto de fadas. meia palavra basta. junto com ovelhas e cervos. Atmosfera mágica. nas horas vagas.caríssimos que eram. o Caio parece o Jesus Cristo! Sandra corre para a frente da máquina e diz. Juarez nunca pegou nada. andando por debaixo das árvores. com medo de que aquilo fosse manifestação de alguma bad trip: — Corta essa. com sol e tempo bom. no dia 24 de maio. "Para bom entendedor. A coisa foi tão boa. na verdade. e embarcaram numa viagem incrível. Nesse momento. numa boa.. Caio vai até lá e passa na frente do visor de Juarez. de ácido. Juarez pegou carona. Caio também tinha medo. digamos. Entre um delito e outro. Juarez pára de entender o que está . Uma caixa de TV está jogada no lixo. embaixo de um pequeno barranco. cara. de haxixe. Esse tem um insight e grita. O dia 27 de maio caiu num sábado bonito. Os brasileiros reunidos em Estocolmo vão fazer um piquenique num bosque no bairro de Kungshara. três ligeiras palavras: "Pintou um pink. A primavera sueca está relativamente quente: dá pra sair de manga curta tranqüilamente. extasiado: — Puxa. para viver o sonho lisérgico de uma geração. Caio está vestido todo de branco. e ficaram todos pirando cor-de-rosa. Era época de maconha. E era um desses adoráveis quadradinhos mágicos que fez Juarez anotar em seu diário. Juarez. até o efeito passar. que logo começaram os planos para outra dessas excursões. No dia seguinte. olha pelo visor da máquina fotográfica.. Era medroso demais e não conseguia levar um roubo até o final. mas pegou uma coisinha aqui e outra ali. com a cabeça em órbitas insondáveis. o pessoal arrumava tempo também. esquilos passeando tranqüilos. coloridas. Caio e Augusto tomaram o tal pink. Os ácidos tomados às duas e meia da tarde nada mais fizeram que realçar a magia natural do parque. Uma beleza de bosque: jardins cheios de amores-perfeitos e tulipas.

Ele mesmo era muito sujeito a badtrips. longe do Brasil. as coisas pareciam possíveis. essas lembranças ruins pareciam distantes. E passou mesmo. Ele e Augusto rodaram vários dias até encontrarem colocações. os textos que escrevera e publicara. tudo. O mundo à sua volta. onde os jovens se deitavam seminus nos parques para tomar sol. Caio. o bosque. E também garfos. Até mesmo utopias que tinham escorrido pelo ralo por causa da dureza da realidade pareciam mais fáceis de acontecer naquele país. A viagem ruim começa pra valer. Augusto foi parar numa fábrica. o fiorde ali do lado com o castelo do rei Gustavo Adolfo. tudo perde o significado. Não tinha sido fácil. sua postura . Ali. bandejas. Ali. o disco Chico & Caetano. Na volta à terra. vai consolá-lo: — Isso não é nada. lavando pratos. com luvas de borracha até o cotovelo. sem maldades ou malícias. tudo de forma muito pura. quando ele encontrou o primeiro emprego. aquele de lavar pratos. panelas. as descobertas de si mesmo e dos outros por que Juarez tinha passado. e tinha passado por umas terríveis em Porto Alegre. Mas ali.acontecendo. com seu temperamento depressivo. o grupo foi para a casa de um português ouvir discos. ele não era melhor que ninguém. Novos Baianos. e Caio se dedicou a ficar oito horas de pé por dia. O detergente lavava também toda a arrogância que Caio pudesse sentir. cara. copos. longe da cidade. junto aos amigos. Comeram xis-búrgueres com batatas fritas. analisando a viagem do amigo. passa logo. em uma imitação malsucedida de comunidade hippie. junto com os outros. Caio falava e falava. facas. Assim como parecia distante o tempo em que tinha morado em Santa Teresa. Depois de sete horas. Os livros que lera. Era em um bar. no centro de Estocolmo. Cat Stevens. num país distante. naquela cozinha onde todo mundo falava uma língua que ele não entendia. no Rio. A idéia de paraíso na terra deve ter desmoronado para Caio mais ou menos dois dias depois do piquenique no parque. possíveis significados. Jorge Ben.

Falta de Nega Lu. Ponto. Mas não. E Caio. se sentisse triste. ele começaria a achar a cidade um horror. e ele também. antes de chegar à Suécia. a Suécia era para ele o paraíso. sem maiores preocupações. Caio poderia voltar para a casa dos pais e viver uma vida de odalisca outra vez. e passado o impacto e a fascinação dos primeiros dias. Fora assim com Madri. como todos sabiam —. Fora assim com São Paulo. Caio foi se despedir deles. que debochava de todo mundo. sem possibilidade de cura. porém. o momento parecia duro demais para enfrentar. o boliviano. nada disso o distinguia de David. com o Rio de Janeiro. Que seu livro O ovo apunhalado tivesse ganhado Menção Honrosa em um concurso no Brasil. ou dos dois japoneses. ele era um lavador de pratos que não falava sueco. talvez. Claro que. Caio não se sentiria triste. lavando louça. decidiria que o menino cheio de esperanças que ele fora um dia morrera ali. mas de quem ninguém debochava. e a temporada chegasse ao fim — e chegaria. Esse era Caio: sempre achava um jeito de colocar defeito no lugar onde estava. dramaticamente. por enquanto. pois era forte demais e seria capaz de pendurar pelo pescoço qualquer um daqueles intelectuais. inteligente e bem informado. Juarez estava triste. até dos guardas que vinham expulsá-los sempre que começava a sessão de violão. Uma vez lá. Juarez e Sônia foram embora. No dia 18 de julho. bem ao seu estilo. Chegaria também sua vez de partir. . na cozinha de um bar no centro de Estocolmo. que ele tanto ansiava em ver. quando aquela vontade de viver novas experiências passasse. enquanto eles vendiam colares e um francês tocava violão. Sentia-se um estrangeiro onde quer que fosse. Estava sendo assim com Estocolmo e provavelmente seria assim com Londres. Saudade de ficar com Augusto e outros malucos na praça. ou do engraçado africano que trabalhavam com ele. cujo único exercício físico era o levantamento de copo. talvez. com Porto Alegre. isso não importava. enfrentativo. Ali. o gay negro. Mas."avançada". Sentiria falta.

A relação com Vera. foi esfriando à medida que chegava a hora de voltar ao Brasil e encará-la frente a . trabalhar de modelo vivo em escolas de Belas-Artes. em que ele contava suas experiências e suas mudanças de humor. Mas Nelson. Falava. Todo o deslumbramento. qualquer ameaça à sua liberdade. embora tenha tido seu momento. logo ele já estaria achando a cidade fria demais. só duraria o tempo suficiente para que Caio escrevesse meia dúzia de cartas para os pais e amigos. por exemplo. incapaz de se comprometer. em Londres. não viria a ser o grande amor da vida de Caio. interessantes. horas na mesma posição para que os alunos o desenhassem. roupas dos anos 30. era defensivo. Chuva a todo momento. aliás. por exemplo. Fazer faxinas em casas de atores. Trocaram cartas amorosas. e a fase brega do rei ainda não tinha começado. Caio arrumara uma paixão que o fazia suspirar pelos cantos e cantar canções do Roberto Carlos (lembrem-se que o ano é 74. Depois de meses sozinho. A cidade parecia saída de um livro de Virgínia Woolf. ninguém seria. Durante todo o tempo em que esteve viajando. claro. soltando farpas para todo lado. Caio e Vera Antoun continuaram se correspondendo. Ele era individualista ao extremo e não deixaria que alguém entrasse em seu mundo. um dançarino cubano que ele estava meio que namorando. parques lindíssimos. A primeira impressão foi de êxtase: cabelos coloridos andando pelas ruas. uma chateação. e era maravilhosa. pessoas gentis. de Nelson. sem ninguém olhar nem comentar. Não era isso que ele tinha sonhado. E aquela história de não ter dinheiro para nada e trabalhar em subempregos para sobreviver não era nenhuma maravilha. não era isso que os livros tinham prometido. ele saltava fora.Depois de ter dado um pulo na Holanda e na Bélgica. finalmente. onde as pessoas eram fechadas demais. cinzenta demais. bem diferente da dura Estocolmo. como. Nesse ponto. Caio estava. com todas aquelas odes às mulheres pequenas-gordinhas-deóculos).

" Para quem queria comer a garota com molho de chocolate. tanto sobre relações hetero como homossexuais. vendendo o almoço para comprar cigarros. Essa sempre foi uma de suas principais preocupações: sempre quis viver um grande amor. estava branquelo demais de tanto não-sol que fazia em Londres. disse que casar não tinha nada a ver. ele não podia mais dizer que a amava. mas acho que sim. A incomunicabilidade. não do jeito que vivia. E terceiro. comum entre pessoas que se gostam. que se duas pessoas se gostavam. exatamente aquilo que ele estava tentando evitar. uma paixão avassaladora. já estava dizendo: opa. Me pergunto sempre se você não teceu em volta de mim uma porção de coisas irreais — se você não está projetando em mim qualquer coisa como um príncipe encantado — esperando a minha volta como quem espera a salvação. não é bem assim. ele não tinha condição de pôr um filho no mundo. sem comicidade. Mas não deixava que ninguém entrasse demais em sua intimidade. Para uma avenca partindo: — Olha. o cabelo lindo e escorrido de índio estava indo embora. Desculpe. só teria certeza disso se estivesse com ela ao vivo e em cores. Caio escreveu muitos textos sobre o relacionamento entre duas pessoas. acabava. foi explorada em um texto de O ovo apunhalado. Segundo. Ele. Será que ela ia querer alguém assim ao seu lado? Em abril de 1974: "Tenho medo de te ferir. que falara em casamento e filhotes com olhos de vaca-jérsei. sempre sem dinheiro. A seu modo. sozinho. Primeiro.frente. Mas acho que precisamos 'falar seriamente'. não era preciso papel nenhum para afirmar isso. Além disso. era uma mudança e tanto. Assim. Quarto: ele estava ficando careca. entradas enormes na cabeça. antes do ônibus partir eu tenho uma porção de . experimentou de tudo. sem fantasia. quase sempre.

porque elas não foram existidas completamente..coisas pra te dizer. antes de você ir embora eu quero te dizer quê. falta muito pouco tempo. olha..... eu vou escrever..] [. eu quero dizer... Além de arrebentar esperanças e se engraçar com rapazes cubanos. e se eu não te disser agora talvez não diga nunca mais... e se elas não chegarem a ser ditas nem eu nem você nos sentiremos satisfeitos com tudo que existimos. depois... espera um pouco mais.. não é isso que eu quero dizer....sim.. na estrada. Coisa pequena.. porque tanto eu como você sentiremos uma falta enorme de todas essas coisas. eu não vou escrever... depois você arruma as malas e as bolsas. As lojas grandes de onde roubavam nem sentiriam o prejuízo. as maçãs ficam comigo... é só uma coisa. é melhor mesmo você subir. está esfriando tanto.. você vai.. está tudo definido aqui dentro.. Mas a Inglaterra é um país onde o shopliting é punido de forma mais severa ... indevassável.. não me entenda mal.. mas é bom você botar um casaco....... eu ainda não disse tudo... eu espero aqui do lado da janela.. e a culpa é única e exclusivamente sua. não.. é isso mesmo.... antes do ônibus partir eu quero te dizer uma porção de coisas.. no mais fundo.. compreende? olha...... não fecha a janela. sei. dessas coisas tão difíceis de serem ditas que geralmente ficam caladas. esse velho não vai incomodar você. espera. fica tranqüila.. mas é que a gente tem tanto medo de penetrar naquilo que não se sabe se terá coragem de viver.... por que você fica sempre me interrompendo e me fazendo suspeitar que você não passa mesmo duma simples avenca? Eu preciso de muito silêncio e de muita concentração para dizer todas as coisas que eu tinha pra te dizer.. porque nunca se sabe nem como serão ditas nem como serão ouvidas.... não. olha.] está bem. você está acompanhando meu raciocínio? [... será que vai dar tempo? Escuta... é muito importante.... porque as vivemos apenas naquela dimensão em que é permitido viver.. vou dizer tudo numa só frase. Caio continuou em Londres com os pequenos roubos em lojas.. dessas coisas assim que não se dizem costumeira-mente.... não existe um dimensão permitida e uma outra proibida. entende. continuaremos conversando enquanto o ônibus não sai.. sabe.. olha.

roubar livros é errado. Elvis ou Beatles. É. TRÊS — Tá certo que o sonho acabou. mas também não precisa virar pesadelo. O clima claustrofóbico da ditadura continuava. embora amenizado. O . John Lennon anunciara o fim do sonho de toda uma geração. dava para pagar. mas apertando aqui e ali. Era mais do que Caio ganhava por semana na escola de Belas-Artes. roubaram livros e foram vistos.que no Brasil. Os besouros musicais já não existiam. do primeiro ábum de Lennon sem os Beatles. Ele só acreditava nele mesmo e em Yoko Ono. Jesus. Por causa dos dois volumes de uma biografia imensa sobre Virgínia Woolf. what can I say?" A música era God. o Plastic Ono Band. como diz Garcia Márquez. Assim. não é? A frase foi escrita por Caio Fernando Abreu no espelho de seu quarto em Porto Alegre. De volta ao Brasil. Cinco anos antes. em julho de 1975. "The dream is over. mas não é pecado. entraram em uma livraria. não houve meio de convencer os guardas de que. estava na hora de voltar para casa. quando Caio e o amigo Homero. com a abertura começando a se esboçar. ao cantar que não acreditava mais em coisa alguma: mágica. Buda. que também morava no apartamento que ele dividia com Marisa e Augusto. Prisão num país estranho e 500 contos a menos: era até onde o amor à literatura tinha feito Caio chegar. Ching. O ano de 1968 ia longe. e o mundo devia seguir em frente sem eles. Os dias de Caio na Europa também. Caio e Homero passaram a noite na cadeia e foram condenados a pagar 30 libras de multa. os seguranças e policiais não queriam nem saber de conversa. ele percebia o quando tinha reclamado de barriga cheia enquanto estava viajando. o sonho acabara.

O clima estava ficando pesado também no quesito drogas: muita gente estava começando a pirar. porque estivera fora. junto com o jornalista Luiz Carlos Maciel. não adiantaria nada: o milagre estava com os dias contados. O milagre econômico dos militares não tinha chegado até a casa da família Abreu. Bono era um psiquiatra diferente dos outros: era. O sonho estava acabando. As pessoas em Porto Alegre estavam mudadas: tinham feito coisas das quais ele nada sabia. no momento. de pagar suas consultas. como em Londres ou Amsterdã. coisas assim. Ele ia por um lado mais zen. em que Caio colaborava desde antes de viajar. Readaptar-se era difícil. as referências eram outras. Caio poderia consultar um psiquiatra amigo seu. mais de desapego. era o Brasil. Não se podia andar pela rua com cabelos compridos e batas indianas sem chamar a atenção. acreditava numa forma de conhecimento mais holística. É. falava em macrobiótica e. Enquanto o enterro não vinha. mas não tinha condições. Ninguém se entendia. mesmo que tivesse. Acreditava que a psicanálise tradicional tinha algumas vantagens. Só faltava aprontar o enterro. se o dinheiro não fosse tão curto. na verdade.Suplemento Literário de Minas Gerais. avisou que só poderia publicar um conto dele se as palavras "merda" e "tesão" caíssem fora. Caio se virava para sobreviver em Porto Alegre. Ernesto Bono. um antipsiquiatra. Por que mesmo ele tinha decidido voltar? A depressão veio pesada. como não chegara para a maioria dos brasileiros. Caio gostava muito de Bono. Não precisava fazer faxina nem posar em escolas de Belas-Artes. queria fazer de Porto Alegre um centro de irradiação da contracultura para todo o Brasil. mas algum trabalho ele . mas que no geral só servia para reforçar aquilo que ele considerava o grande problema do ser humano: o ego. internações em clínicas. elas também não sabiam nada das experiências por que ele passara. e não era só para os Beatles. E. e a necessidade de sobreviver maior que a de curar caraminholas da cabeça.

poderia escrever o que quisesse. Juarez pediu a Caio que entregasse uma crônica para o primeiro número da revista. aliás. era colaborar com a imprensa alternativa. Ficção. Tirando O Pasquim. sem dinheiro nem para as anti-consultas com Bono. Eram jornais que. . ficaram famosos veículos como O Pasquim. um luxo. tendo em comum apenas a condição de nanicos. Escrita. Inéditos. que duraria apenas quatro números. O jeito foi então escrever uma crônica falando exatamente desses sentimentos escuros que ele sentia. alguma coisa bonita para oferecer aos leitores. na metade da década de 1970. qualquer coisa que pudesse garantir algum dinheiro no fim do mês enquanto ele escrevia seus livros. oficinas de criação literária para alunos com ou sem talento. Juarez começou outro projeto que teria a participação de Caio: a revista Paralelo. como sempre. em que Caio Fernando Abreu chegou a colaborar algumas vezes. o jornal Exemplar. Em 1976. Caio compraria uma boa briga no final de 1976. ele não estava melhor que antes. com quem. Movimento. estética e política. A imprensa nanica. sem esconder nem maquiar nada. comandado por Juarez Fonseca. justamente por serem independentes. não era privilégio de paulistas e cariocas. e nem as inspirações brotavam com mais facilidade. sem idéias. como a chamara João Antônio nas páginas de O Pasquim. ainda não totalmente recuperado da experiência européia. Entre 1967 e 1973 existiu. ele esperou que alguma idéia aparecesse.tinha que ter. No eixo Rio-São Paulo. Mas Caio estava deprimido. Findo o prazo. Versus. traduções e revisões para editoras. Ele teria uma página só para ele. por exemplo. Opinião. Dois meses antes da revista sair. Movimento. ele colaborou em quase tudo que era nanico: Opinião. o Jornalismo. Bondinho: cada um com sua opção formal. podiam se dar ao luxo de dar espaço a críticas e inovações. E uma das coisas que havia para se fazer em Porto Alegre. porém. pois havia veículos para todos os gostos. Escrever na imprensa era parte daquilo que ele chamava de "biscates culturais": resenhas e críticas para jornais. e a saída era. Por dois meses.

você me entende?. por uma série de razões demasiado pessoais para serem trazidas ao baile (trata-se de um baile?) ando com uma autocrítica violentíssima e não consigo. para não enlouquecer de impotência. esse "ter nascido me estragou a saúde"ambulante e crônico. de certa forma. todas mais aptas a escrever a página que ele: Tânia Faillace. Fala de uma coisa e outra. Nos últimos tempos tenho me movimentado com dificuldade dentro dos meus escombros-de-dentro. porque — estou usando o máximo de. Mas no momento. Viam nele uma espécie de porta-voz da geração dos anos 70. descobriu que muita gente tinha gostado de entrevistas que ele tinha dado. como uma nevralgia psico-espiritual (!). Mas não pense que não sei do inútil disso. tudo dói. DÓI PRA CACETE.Depois de consultar o amigo Giba Rocha. e tenho consciência de quanto isso parece ridículo e juvenil. "Acontece que não sou [porta-voz] e não quero assumir esse papel. "apesar das nossas ficções": "Escrevo por uma espécie de incompatibilidade-de-gênios com a vida. talvez) no meio da noite. simplesmente não consigo pensar organizadamente (?) ou ter idéias claras ou/e precisas sobre as coisas." A crônica segue e Caio menciona amigos. quaisquer que sejam. Sérgio Caparelli. só não estou mais afim de fingir que tudo-bem. de forma não-planejada. e é isso mesmo que eu sou. Eu disse: quaisquer. ele acabou se tornando mesmo. pessoas talentosas. escrevo para reinventar. reclama que as grandes sacanagens sociais continuam acontecendo. Cobra dos outros. meu irmão. Luiz Fernando Emediato. entrevistas veementes em que Caio assumia suas posições peculiares com firmeza. cita Mario Quintana e Adélia Prado. referindo-se à previsão de Bono e de Luiz Carlos Maciel de que a Bahia já era e o novo pólo de irradiação da . para refazer. e eu não sei o que fazer. mas nunca está em casa. sinceridade — não sirvo nem pra porta-voz de mim mesmo. essa era uma responsabilidade grande demais para ele. parece que alguma peça importante para o meu funcionamento simplesmente quebrou. acabo sempre caindo na mais lamentável das auto-lamentações: dói. para organizar o caos. Nas cartas que tenho escrito ou nos meus rabiscos solitários (e vis. desculpem. o que. " Fala também em revolução sexual e de alguém que ele queria encontrar.

um pouco era por causa da economia em crise. Se a ditadura existia." E voilá. soltaram-no. riam. era porque. Graça foi presa e condenada em um flagrante . que era o verdadeiro alvo. entravam no mar. Bem. estavam presos. Na ocasião.. no Rio de Janeiro. a ditadura era uma das coisas sobre as quais Caio não tinha controle algum. em parte a culpa era dele. eram dez ou quinze pessoas. Estava bebendo de sua taça. uma crônica estava pronta. Dessa vez. chamou o garçom (seria o Isaac?) e pediu outra. Como Caio. alguém apontou para eles: — Olha lá! Minutos depois. Mas a taça destinada à sua geração nem sempre tinha só champagne. conversavam. mas também porque Caio nunca se sujeitou a um emprego comum por muito tempo. Se havia bad trips. Tocavam flauta. talvez estivesse procurando nos lugares errados. Se Caio estava mal. Ele já havia sido preso em 1971. em um falso flagrante de drogas. Se ele não conseguia encontrar um único e belo amor. muito dignamente. era por causa das drogas. Em dado momento. Caio e Graça foram até a padaria. quando foi preso em Garopaba. Se não havia dinheiro. daquelas de matar filósofos. de vez em quando era cicuta. Era uma dose amarga que sua geração tinha que engolir sem reclamar. na cidade. num bar: "Um dia alguém precisa virar a mesa ao invés de só pedir outra Brahma. como gostava de dizer. a pessoa em quem realmente estavam de olho. Caio apanhou muito. "Arrotou. ela de biquíni. ele de calção. entre elas Graça Medeiros. e das brabas. no litoral catarinense. Queriam que ele depusesse contra Graça. Caio provou desse veneno em 1975. já faz tempo. No caminho. Jaime. se recusasse a falar. por questões políticas. Caio.. ora.contracultura no Brasil seria o Rio Grande do Sul: "como é que é? não era um lugar altamente esotérico? Não aconteceriam coisas incríveis por aqui?" O texto termina: "Alguém me disse.

publicado pela primeira vez na revista Ficção.) Antes do episódio em Garopaba.) — Conta. de Emanuel Medeiros Vieira. O responsável pela prisão era o delegado Elói Gonçalves. Essa história serviu de inspiração a Caio para escrever o conto Garopaba mon amour. mas. (Bofetada na face esquerda. Graça tinha sido uma das responsáveis pela publicação de O ovo apunhalado.) — Conta. o mesmo que ficaria famoso. armado na delegacia de Florianópolis dois dias depois de ter sido presa em Garopaba. escritor catarinense. E os corações de vidro pintado estalam ainda mais alto que as ondas quebrando contra as pedras. em Florianópolis. Cão batido. E a quem o boca-grande do Caio dedica o conto? A Graça Medeiros. (Bofetada na face direita. — Conta. Caio passou uns tempos na casa de Emanuel. que. por prender Gilberto Gil e Chiquinho Azevedo por porte de maconha. quando os olhos de um esbarram nos olhos do outro. ficou furiosa. Evitamos nos encarar — por que sentimos vergonha ou piedade ou uma compreensão sangrenta do que somos e do que tudo é? —. são de criança assustada esses olhos. de modo que Caio acabou nunca mais dedicando texto algum a ela. um ano depois. em Garopaba. Quando o conto foi publicado em livro. O . rabo entre as pernas. Nessa ocasião. — Não sei.falso de porte de maconha. assim como Graça. E não só: à fugitiva Graça Medeiros. Graça tinha dado um jeito de escapar da clínica. (Pontapé nas costas. é claro. em Pedras de Calcutá. e estava escondida. -Não sei. Depois de ter sido preso e solto na despedida de Jaime. mistura de fatos com altas doses de invenção e fantasia. -Não sei. Gil e Chiquinho. a dedicatória foi suprimida. às vésperas de um show dos Doces Bárbaros. Mastigamos em silêncio as chicotadas sobre nossas costas. A epígrafe do texto é um trecho do conto Garopaba meu amor. foram condenados a passar um tempo em clínicas psiquiátricas.

livro tinha ganhado. em 1976. e só viria a ser encenada em 1983. enquanto aguardam o fim do mundo chegar. e com contos suprimidos pela censura. que o sol ainda brilha e o mundo está a salvo. era a continuação do trabalho com teatro que Caio vinha fazendo desde que voltara da Europa. na maior facilidade.. teria seu nome trocado para Pode ser que seja só o leiteiro lá fora. primeira de várias parcerias da dupla. menção honrosa do Prêmio Nacional de Ficção.. o outro mais uma. pelo Instituto Estadual do Livro. Em Pode ser que seja só o leiteiro lá fora. que mais tarde. e intercedeu junto a ele para que o livro saísse. ao qual o Instituto Estadual do Livro (IEL) era vinculado. Aquela era uma peça de esquetes. O leiteiro.. descobrem que não há nuvens de radioatividade. e o outro mexia. precisava de alguns textos. fluía. foi repetida em 1977: Luiz Arthur ia fazer um espetáculo de esquetes. em parceria com a editora Globo. Ao amanhecer do dia seguinte. .. Graça era assessora de Paulo Amorim no Departamento Cultural da Secretaria de Educação e Cultura do Rio Grande do Sul. Os dois chegaram a morar juntos por um ano. em 1973. Como a experiência desse certo com o Sarau. e assim sempre. foi proibida. Em 1975.. A parceria com Luizar — como Caio o chamava — era boa. Na época. e Caio escreveu alguns diálogos curtos. de onde Caio só sairia para a famosa casa da rua Chile. retocava. tinha trabalhado com o grupo Província na peça Sarau das 9 às 11. sabiamente. Em 1974. Um escrevia uma frase. Ou então cada um escrevia uma cena. no apartamento de Luiz na rua Jerônimo Coelho. logo depois. a peça foi indicada para leituras em várias partes do país. Premiada. Caio receberia o Prêmio Leitura do Serviço Nacional de Teatro (SNT) pela peça Uma visita ao fim do mundo. porém. mas só seria publicado dois anos depois. e fora escrita a quatro mãos por Caio e por Luiz Arthur Nunes. além de publicar O ovo. alguns amigos se escondem em uma casa abandonada. por enquanto.

perdeu o respeito de uma parte da crítica. Com três livros publicados.) — Estão batendo na porta. incenso e mirra. Outro em quem Caio deu um empurrão foi o poeta Nei . piração. como a própria Hilda Hilst. ANGEL — Puede ser algun vecino. e que quase ninguém conhecia. deu provas de sua fidelidade. Nós tínhamos o direito de sobreviver ao fim do mundo.. apodrecendo e caindo. LEO — É a polícia. ROSINHA — Devem ser os três reis magos que vêm visitar o menino. claro: a pornografia de Hilda não era como outras pornografias. Quem sabe é Mona com os extraterrestres? Eles vêm nos buscar também. Tenho certeza que é a polícia. A escritora se magoava com isso.. Eles vêm nos matar porque nós sobrevivemos. Caio já era. impressões. de certa forma consagrado. que passou a chamá-la de velha safada. Por essa época. BABY— Ou Mona. Esses escritores se correspondiam. tudo piração: pode ser que seja só o leiteiro lá fora. aclamada por um certo ramo da crítica mas desconhecida do público. e nisso Caio não desapontou os amigos. tanto que. como qualquer pornografia. com aquela pele toda verde. trazendo ouro. ninguém lia Hilda Hilst. Ilusão. já mais velha. ele era um dos integrantes do chamado boom literário dos anos 70: uma turma nova que fazia ficção. Na época. Os monstros. além disso. um escritor reconhecido. Ou os quatro cavaleiros do Apocalipse. principalmente através do conto. metade dos anos 70. principalmente em Porto Alegre. trocavam informações. CARLINHA — Eu acho que são os sobreviventes da explosão.JOÃO (Sem emoção. escrevendo em jornais sobre os escritores que admirava. tentavam ajudar uns aos outros dentro de suas capacidades. decidiu que iria escrever livros eróticos para ver se venderia mais. ALICE — Piração. e nem só do grande. O espírito da época era de solidariedade com os colegas. e ela não vendeu nem meio exemplar a mais por isso. escrevendo resenhas positivas em jornais e revistas. Mais de uma vez. coisas assim. mostrando o texto dos amigos para outras pessoas.

Os três separaram os poemas por tema. cinema. Estava em dúvida. Tanto que aceitou fazer o prefácio do livro seguinte de Nei. ele era um autor marginal. Caio inclusive. e em geral estava certo: Nei acatava sua sugestão por achar que tinha ficado melhor. o livro tinha que ser publicado. Será?. Não se arrependeria: quando o livro saiu. Ele deu um parecer favorável à publicação do livro. Nei não era ainda conhecido. Então Caio sugeriu que ele colocasse o Mario Quintana no título do poema. Nei seguiu o conselho e nomeou o poema Mario Quintana. chamou-o a um canto e explicou tudo: o movimento estudantil é assim e assado. mas. Caio leu um poema do qual gostou muito. Caio o aconselhou a arriscar. Quando o livro saiu. Antes de Mario Quintana ver o poema. eu também posso. era algo para se comentar. Eles eram amigos de conversar sobre literatura. como Caio. Alguns conheciam sua poesia de vê-la declamada nos encontros de estudantes. tinham muito a agradecer à diretora do . Muitos dos autores publicados nessa época pelo IEL. o livro garimpado na papelada de Nei. na primeira reunião de estudantes a que o calouro Nei compareceu. foi um acontecimento: afinal. e perguntou em quem o poeta estava pensando quando escreveu. iria na casa de Nei e o ajudaria a editar o livro Outubro. no geral. porém. Quando entrara na faculdade. em plena ditadura. gaúcho de Uruguaiana e radicado na capital. organizaram o livro. se o Nei pode. Nada teria a perder. perguntou o poeta.Duelos. Nei era jornalista. Caio sugeriu a troca de algumas palavras. Os outros poetas podiam pensar: ei. a não ser em jornais mimeografados. junto com Caio. nem tinha nada publicado em lugar nenhum. E seria Juarez também que. e foi ele que. Quintana adorou o poema. Vê-lo publicado com capricho pelo governo do estado. Juarez Fonseca ainda andava por lá. Caio usou de sua influência no IEL para conseguir a publicação de Outubro. — No Mario Quintana — disse Nei. anos depois.

Era aquela velha história: quem não fosse conhecido não seria publicado. que. como escreveu em uma reportagem Luiz Fernando Emediato. ela trouxe para o instituto e conseguiu publicar muitos autores considerados malditos. com 28 anos (Caio tinha 27). entre elas Teia & Assim escrevem os gaúchos. mas como se tornar conhecido se não aceitavam publicá-los? Apesar do heroísmo de Lígia Averbuck. O primeiro livro que ele quis publicar foi uma história policial de Otávio Ribeiro. Os outros eram o próprio Jeferson. o nanico mais influente do país tinha decidido criar uma editora. porém. Domingos Pellegrini. desconhecidos. Assim. aos 25 anos. viria uma antologia de doze contos de autores novíssimos. ela não podia dar conta de toda a cena literária do Rio Grande do Sul. poeta de 22 anos que dava seus primeiros passos na ficção. bom jornalista. que dificilmente conseguiriam espaço em outras editoras. Entre os seis autores escolhidos estava Caio. os autores começaram a se unir e a produzir antologias. a ser dirigida por Jeferson Ribeiro de Andrade. ambas de 1976. Uma dessas antologias. e era preciso desovar essa produção de algum jeito. Mais coisas precisavam ser feitas. o mais velho da turma. editora de O Pasquim. com 21 anos e uma arrogância típica da idade. O mineiro Luiz Fernando Emediato era jornalista e .instituto. mas escritor "sem grande brilho". Pouco tempo antes. e muitos autores simplesmente novos. o carioca Júlio César Monteiro Martins. Era uma maneira de divulgar a novíssima literatura do país: muita gente estava escrevendo coisa boa. Em segundo. algumas pagas do próprio bolso. para combater a política conservadora das editoras. gente que vinha se destacando pelo talento precoce. Lígia Averbuck. Caio participou de várias. iria causar a Caio uma enorme dor de cabeça. Com uma visão aberta e democrática do que devia ser a literatura. E justo aquela que lhe daria mais visibilidade: a antologia publicada pela Codecri. também participaria da antologia. Antônio Barreto.

infeliz. escreveria Emediato. ainda que derramando sangue. se correspondia com outros autores. aos 21 anos. todos amavam a literatura. tinha ganhado o prêmio Revelação de Autor e. que fundaria décadas depois. que logo foi fechada pela polícia. ainda não ser considerado o maior gênio da literatura brasileira de todos os tempos". O ovo apunhalado. por causa disso. através de suplementos literários diversos. embora as semelhanças parassem aí. na reportagem que fez para a revista Geração. Barreto. Emediato. diria que talvez Flávio tivesse razão. Os autores da antologia se correspondiam. da vaidade juvenil. ficaram amigos. Essas diferenças. fora considerado por muita gente uma espécie de garoto-prodígio da literatura brasileira. revoltava-se contra o fato de. Havia muitas coisas na visão de arte dos . da Codecri. as coisas tinham tudo para dar certo. E.editava as revistas Silêncio. antes de retomar as atividades de escritor. Isso até que o crítico Flávio Moreira da Costa o chamasse de Shirley Temple: surpreendente enquanto jovem. numa bela definição dos envolvidos na antologia. e ruim à medida que fosse ficando mais velho. escrevia seus romances e contos. iriam se agravar com o tempo. eles continuaram a se corresponder. "Jéferson era naturalmente revoltado. ele editava suas revistas. um burguês liberal. Um desses escritores era Caio Fernando Abreu. em 1977. Luiz gostara de um livro de Caio. enorme. Os dois vinham lendo os textos um do outro há algum tempo. e Inéditos. Caio. Anos mais tarde. Caio mandou. cujo talento tinha o mesmo tamanho. Pellegrini e eu éramos marxistas e queríamos derrubar a ditadura a qualquer custo. trocavam impressões. e Júlio César. A princípio. da editora Geração Editorial. no entanto. foram convidados para fazer parte da antologia Histórias de um novo tempo. Naquela época. revoltava-se naturalmente contra a trágica condição humana. e escreveu a ele pedindo um texto para a Inéditos. por causa do mau humor. Aos 19 anos. todos se revoltavam contra alguma coisa.

para dar a entender a Emediato que não assinaria o manifesto. o indivíduo. escrevia os tais contos. Mesmo assim. emergia da depressão pós-Europa. por engano. ser contra o individualismo. ele não era de forma alguma contra o individualismo. E esse era apenas o começo da confusão. muito dono do próprio nariz. O eu. com a mesma sensibilidade. Sua única experiência com um homem fora na adolescência. Emediato enviaria a ele uma cópia do Manifesto Neo-Realista. fazia um ano que ele estava fazendo análise (tinha conseguido um emprego na Folha da Manhã como crítico de teatro. com isso. embora fosse casado e hetero convicto. e nenhuma da primeira. e assim podia pagar as consultas) e. ainda gostava muito do pessoal que sairia na antologia. Suas influências literárias só falavam do indivíduo: Clarice Lispector. como se queira chamar. criado pelo grupo para dizer ao mundo o que eles pensavam sobre literatura. Os seis eram os "paladinos do Oeste". por exemplo. em carta. Agora ele estava melhor. Caio usou de muito tato. pouco preocupado com o que pudessem pensar. ou opiniões. Em março de 1977. Ali parecia estar uma alma-irmã da sua. Ora. e servira para mostrar que não era aquilo que ele queria. Virgínia Woolf. Emediato tinha mandado. Assim. lentamente. Mareei Proust. Imagina. O mineiro tinha escrito alguns contos de temática homossexual. e achou que havia esperança.companheiros com que Caio não concordava. de um conjunto de regras — ou diretrizes. como os chamaria na dedicatória de um livro anos depois Emediato. uma das primeiras coisas que Caio leu do documento foi a frase: "contra O individualismo". A própria idéia de um manifesto. Que idéia. mas graças a quê? A analisar o ego. Caio ansiava pelo momento de conhecê-lo . o preferido de Caio. mas que no final viram regras mesmo — a serem seguidas não podia ser agradável para Caio. sempre independente. Caio lera alguns desses textos. aliás. Além disso. duas vezes a segunda página do manifesto. Afinal.

esgotada em quinze dias. em Belo Horizonte. poderia ver se suas expectativas se confirmavam ou não. Nessa época. de 20 mil exemplares. escreveu uma carta ao jornal. sob todos os pontos de vista. O encontro com os outros paladinos aconteceu no lançamento da antologia. e ele decidiu viajar com a esposa Sylvia. puderam se apertar as mãos e se olhar nos olhos. E saiu editado. bem ao seu feitio. No final de 1977. A coletânea era um sucesso. Intempestivo. um chalé de madeira agradável. no Rio de Janeiro. com Júlio César. A confusão aconteceu mesmo quando os quatro foram dar entrevista a O Pasquim. Foi visitar Emediato em sua casa. mandava ele lamber sabão ou catar coquinho. Nada de mal até aí. Depois disso. Histórias de um novo tempo teve sua primeira edição. Na sua cabeça. por exemplo. Implicou. com trechos cortados. Tudo correu bem. Quatro deles — Barreto e Pellegrini não puderam ir —. manifestando toda a sua raiva. em Minas. Só que Caio não gostou nem um pouco da tal edição. A grana era boa. mas ela mesma não ficou tanto tempo lá. coisas do gênero. como todos os textos. Os moradores amigos se sucediam.pessoalmente. para que coubesse no jornal. . no cara-a-cara. toda a parte em que ele falava de homossexualismo teria ficado de fora. com um pátio bem grande. Luiz Fernando Emediato ganhou um prêmio literário da revista Status. por exemplo. e acabaram logo. a amizade se fortaleceu. a relação do grupo foi se esfacelando mais e mais. e o texto saiu. Mais dez mil exemplares saíram. O plano era visitar Caio em Porto Alegre — a relação entre eles sobrevivera aos entreveros com os demais paladinos e com O Pasquim — e depois ir até Buenos Ares ver Eduardo Gudino Kieffer e Jorge Luis Borges. só trechos dos seus depoimentos tinham sido cortados. que uns dos outros só conheciam palavras escritas. A casa estava alugada no nome de Graça Medeiros. em quem não perdoava a vaidade juvenil. Caio morava na casa da rua Chile. O filho de oito meses ficou com a avó. E a resposta o deixou ainda mais irado: O Pasquim. Agora faltava encontrar o resto do grupo. Os autores foram entrevistados pelo tablóide.

espástica. Caio disse a Luiz Fernando que o amava. sequiosa de amor: [. Caio teria vivência para escrever. para que assim sua liberdade e individualidade fossem mantidas intactas. vivendo e sangrando e amando. Bem.. dizer propriamente não disse. como fizera a Emediato. claro. es-pás-ti-ca. Emediato ficou constrangido. a minha polpa macia. venha comigo. aqui-e-agora. A sede de amor. O que Emediato não sabia é que o amigo estava advogando em causa própria: em Porto Alegre. O mito do artista sofredor parecia calar fundo no coração do escritor. em 1973. na casa da rua Chile. de auto-sabotagem. Um exemplo é Até oito.. nem lembro mais. e sempre tinha gente visitando. esperando o quê? esperando quem? Aqui-e-agora.. A relação entre Sylvia e Emediato não ia muito bem já há algum tempo. A coisa não deu certo. Sua mania de se apaixonar por homens obviamente heterossexuais talvez fosse uma forma de defesa. mas pegou suas mãos. por favor POR FAVOR: crave seus dentes na minha polpa . então. já na beira dos trinta anos. e é claro: sofrendo bastante. esses pássaros idiotas sobrevoando essa ilha de loucos.como Caio e Sandra Laporta.] tomar banho e ficar na sacada sem olhar os pêlos molhados do suor do peito do moço da construção em frente. Ele mencionara o assunto em carta para Caio. que o aconselhou a não arrastar uma relação moribunda. que vontade. Sylvia na cozinha. Ah. teria sua tradução literária em vários contos. Densidades Inimagináveis. Caio decepcionado. que fora com ele para a Europa. que levaria Caio a se apaixonar e se declarar várias vezes na vida. aqui-e-agora. do livro Pedras de Calcutá. cinco-seis-sete-oito: por favor. não consigo mais ler essa porcaria. como Emediato e Sylvia. de garantir desde o começo que não daria certo.. O personagem é uma mulher. o olhou nos olhos. Teria assunto. proparoxítona é que tem acento na antepenúltima? o pôster de Burt Reynolds. O suficiente para que Emediato entendesse a mensagem.

certinho demais para ser seu amigo. se retirou do jantar junto com os amigos. Não o perdoaria por não ser louco como ele e seus ídolos: Cazuza. do qual participariam apenas alguns escritores. Foram juntos a um congresso de escritores em São Paulo.maciaaaaaaaaaaaah. Foi nesse encontro que Caio teve um bate-boca com Edla van Steen. Nos anos 80. Edla havia organizado um jantar fechado. Instalou-se a confusão. se escrevendo por vários anos. Emediato e Carlos Emílio se lembram que Caio. entre vários outros. declarações de amores impossíveis e congressos com escritores superestrelas. A nata da nata da literatura brasileira estava lá: Rubem Fonseca. Coletânea talvez não seja a palavra correta. Carlos Emílio Corrêa Lima. 1977 foi o ano do lançamento de Pedras de Calcutá. onde trabalharia com Emediato e o veria quase todos os dias. Lygia Fagundes Telles. Mas aí as coisas estariam mudadas: ele passaria a considerar Emediato careta demais. Mesmo depois da declaração de amor não ser exatamente bem recebida. Caio e Emediato ainda estavam muito ligados. Caio sempre buscou em seus livros de contos uma unidade. terceira coletânea de contos de Caio. Seus . Caetano Veloso. tanto temática quanto formal. Edla vetou. muito indignado com o que ele considerava uma discriminação. Caio estava entre os convidados. Caio e Emediato continuaram amigos. na época esposa de Flávio Moreira da Costa e uma das organizadoras do congresso. Caio iria morar novamente em São Paulo. Ferreira Gullar. Além das confusões com tablóides. Ney Matogrosso. Quando o grupo tentou entrar no tal jantar. o bate-boca. Mas em 1977. Raduan Nassar. Mas a maioria de seus amigos estava lá de farra: Emediato. era um dos oficialmente inscritos no evento. Júlio César Monteiro Martins. a escritora. Pelo menos era essa a sensação que Emediato teria.

se jogará ao fogo. e assim. O mundo está esfacelado. de Pedras de Calcutá: Há bem pouco um pensamento cruzou minha mente. As cartas continuam queimando. e outro mais. Talvez se tenha ido junto com o sol. quando Caio organizaria a — aí. diz adeus e vai embora. lapidando e burilando. como no conto Holocausto. É o domínio da palavra escrita. Cada livro tem uma lógica própria. em geral. Pensei que talvez o sol. Uma ciranda. cada qual tratando de determinado tema ou enfocando os assuntos sob perspectivas específicas. Caio se sairá cada vez melhor nesse aspecto.. Mas eles não voltarão. artesãos. daquelas em que uma criança entra dentro dessa roda. nos ideais esfacelados. muitos textos considerados bons pelo autor ficaram de fora. são divididos em partes. com o calor. no mundo que estava tão diferente nos últimos tempos. O indivíduo continua um estrangeiro em busca de um modo de estar no mundo. e depois mais um. na década de 90. talvez a mente de todos: creio que quando esta última chama apagar um de nós terá de jogar-se ao fogo. por não se adequarem à proposta da obra que estivesse trabalhando no momento. Como um ritual. Muitos desses textos seriam lançados mais tarde. .] Não nos falaremos. buscando sempre o termo exato. não nos olharemos dentro dos olhos. para manter essa coerência. com textos escritos dos 14 aos 46 anos de idade. o sonho acabou. sim — coletânea Ovelhas negras. o calor e Deus pudessem voltar de repente. depois se tornará cinza. Pedras de Calcutá talvez seja o livro que marca o amadurecimento de Caio como escritor. [. diz um verso bem bonito. Apenas um de nós treze fará o primeiro movimento. A relação com a palavra aproxima-se da dos poetas. A partir desse livro. Mas Deus morreu faz muito tempo. Apenas já não somos crianças e desaprendemos a cantar.livros. Eu tentei pensar em Deus. no momento exato em que a última chama se desfizer e alguém esboçar o primeiro gesto. aquecerá os outros por mais alguns momentos. O conteúdo do livro segue fazendo a biografia de uma geração: já não se acredita mais na revolução..

era Celso Curi. muito magro. pois os dois. O rapaz. escrevia suas coisas para teatro. mas intenso — queriam engolir um ao outro. viveram um apaixonado caso. uma nuvem de melancolia. Era. sem paz fora da própria terra. e de solitário também. se tocar. Talvez o centro. Como seus personagens. encostado no carro. como se podia dizer sempre das relações de Caio. No meio de tanta paixão. e notava sua calça de couro preta. E quem o via pela primeira vez. e as coisas bonitas já não acontecem mais. hora de levantar vôo. incapaz de viver nela. QUATRO Encostado no carro. Caio não deve ter ficado menos impressionado com os cabelos louros e os modos doces de Celso. havia lugar para o humor. encontrava alguns amigos. A presença do rapaz era forte. gestos finos. cabelos escuros. pronto para partir corações e ter o seu partido outras tantas vezes. mais tarde. que estava de volta a São Paulo. jaqueta. Uma nuvem preta o acompanhava. elegantes. Ainda assim. aonde quer que fosse. ele tinha emprego no jornal. mais uma vez. jornalista e agitador cultural. Caio se sentia um estrangeiro eterno. não havia quem não a notasse. Em alguma brincadeira cujas origens se perderam na história. Caio não podia esperar mais tempo. estava aquele rapaz de calça de couro. faltava algo. mas um homem de trinta anos de idade. Em Porto Alegre. irremediável. que ninguém era de ferro. Alto. O ser todo exalava algo de sexual. era Caio Fernando Abreu. Um breve caso. como disse Celso. se cheirar. Estranho estrangeiro. estar no olho do furacão. logo que se conheceram.Seria bonito. como se uma tristeza infinita houvesse por trás dos olhos. os dois começaram a se chamar de . que não era exatamente um rapaz.

Fraser. Em São Paulo. pequena demais. Ele mesmo podia assumir um nome feminino. "Lasanha" é aquele homem bonitão. ou Anthea. por exemplo. trabalhando na revista POP. digamos. como vai? Essa brincadeira de nomes não era exclusividade da relação de Caio e Celso. se divertiam. escrevendo. os dois magros que nem papel. Caio tinha voltado a morar em São Paulo em meados de 1978. Semelhança menor não podia haver.R. mais uma vez. "rodenir" eqüivale a coisa brega. Gomide — ligava Caio. forte. uma espécie de humor próprio dos gays. Porto Alegre. em alguma festa ou bar. cheinhas. Havia verdadeiros códigos. há o humor queer. "Jacira". Caio chamava. Uma expressão surgida na noite. J. e as atrizes. junto com Vânia Toledo. e depois ligavam dizendo: — Ei. no bairro de Pinheiros. é sinônimo de bicha. bebendo baldes de café e escrevendo. Duran. Permeando a obra e a vida de Caio. uma loucura. e aí era Marilene falando com Marilene. brincadeiras e palavras próprias. podia ser utilizada por Caio no dia seguinte. a amiga Jacqueline Cantore de Marilene. em um conto ou crônica. na rua Capote Valente. Mas a brincadeira pegou. tinha se tornado insuportável. — Alô. Caio e Maria Rosa se tornaram muito amigos. Os amigos liam aquilo. E essas brincadeiras com as palavras não existiam só na maneira de chamar as pessoas. . como Marilene mesmo. morou em primeiro lugar com a amiga Maria Rosa Fonseca. por causa das atrizes Etty Fraser e Geórgia Gomide. ou MVlen. palavras inventadas por Caio e por seus amigos que acabavam virando termos correntes no vocabulários desses grupos. por exemplo. que se traduz em signos.Fraser e Gomide. vou cobrar direito autoral. — Olá. Valdir e Caio agora repetiam a dose. Okky de Souza. Maria Rosa fora esposa de Valdir Zwetsch. Ela se lembra dele ouvindo Velvet Underground o dia todo. massudo. amigo e colega de trabalho de Caio em Porto Alegre.

murchinho. era melhor manter uma distância saudável dele. um gentleman. sem rancores. todos se divertiam. E foi aí que o encanto quase se desfez. pedindo mil desculpas. é preciso que se diga. sua capacidade de fazer rir. Tinha um gênio dos diabos. Ele tanto podia aparecer com flores ou mandando as pessoas para aquele lugar. mas a paixão havia passado. ligava. a filha de Maria Rosa. Depois batia-lhe o arrependimento. nascesse. Era mesmo difícil não se desentender com ele. Continuavam encantados. ele e Celso já haviam se tornado grandes amigos. E havia aquela estranha necessidade de ficar sozinho de vez em quando. três dias trancado no quarto. que viria a ser um tormento a vida toda para quem dividisse casa com ele. vira-lata com rabinho entre as pernas. no dia-adia. e Fraser e Gomide correram perigo. Caio ficava dois. Caio ajudaria a dar o primeiro banho. Cheio de manias. De vez em quando saíam para jantar. No começo da estada. digamos. e quem ficasse no caminho levava chumbo. era absolutamente impossível prever seu comportamento. tiradas mordazes e irônicas. ele a chamava. Uma distância. havia um quarto sobrando. quando Laura. tarefas simples. gostava de tudo no lugar. Por que não chamar Caio para morar com ele? Chamou. um temperamento explosivo. Em 1984. Quando Caio decidiu sair da casa de Maria Rosa. E aí ele era elegante. O mau humor. uma qualquer-coisa que de repente lhe subia e ele não conseguia medir palavras. com a organização — dizem — típica dos virginianos. e ela ia apresentando algumas pessoas. mas nunca se lembrava de uma conta para pagar.escrevendo todos os dias. Celso morava sozinho em um apartamento na Cristiano Vianna. sanitária. era infinita. fino. arrumado. sem botar a cabeça para fora para . Caio não era uma pessoa fácil de conviver. mil perdões. Lady Laura. Por que. Quando estava bem-humorado. Caio não conhecia tanta gente na cidade. a dificuldade com coisas práticas. Caio topou na hora. Mas quando o mau humor resolvia dar as caras.

se escrevia. Mexeu com a cabeça.nem dar um olá. Mas quando ele resolvia sair. e depois dele outros ainda. Você nunca vai enlouquecer. Uma das primeiras interpretações que Gilberto Gawronski fez de Dama da noite. pediam pizza por telefone e fechavam a revista. Mesmo assim. As faxineiras enlouqueciam. Quase um ano depois de ir morar com Celso. em um palquinho de lxlm. e os de fora sem saber se estava vivo. dormia. Na última semana. E Caio prosseguiu sua vida nômade. foi a vez de Rofran Fernandes. se precisava de alguma coisa. a coisa não funcionava. morando juntos. já dava para ver que os dois. e tudo ficaria bem até que a montanha-russa desse mais uma volta e ele ficasse down outra vez. E houve tensão também: problemas de dinheiro que ficaram mal resolvidos. se estava morto. logo os dois estavam amigos de novo. Foi aquela choradeira. Fraser e Gomide saíam com ele. como que lamentando. E aí era legal de novo conviver com o Caio. chorava. porque não podiam entrar no quarto e limpar. Caio continuava o trabalho na POP. e comentou: — Tenho uma pena de você. Celso também se mudou. e abriu seu teatro. falar de astrologia. Nada que o passar do tempo não resolvesse. um lugar para apresentações mais alternativas. Depois de Celso. Celso não sabia. Aí Caio podia contar piadas. vinte e cinco dias por mês o pessoal não fazia absolutamente nada. A diversão era tanta que a turma da revista acabou virando a . destinado a apresentações ainda mais experimentais que as do palco normal. morando onde desse. de Caio. Celso devendo alguma coisa a Caio. da editora Abril. não davam certo. Para Celso. eram momentos apreensivos. só se divertia. se mudavam para a redação. botar o taro. o Espaço OFF. o bom humor nas alturas. foi no OFF. Caio saiu do apartamento. com quem calhasse. O que Caio fazia lá dentro. Uma vez Caio botou as cartas para Celso. O trabalho lá era uma delícia: na descrição de Caio. Fraser e Gomide a vida inteira.

No terceiro andar do prédio da editora. Caio subia do segundo andar. Levíssima. Paula era mais certinha. onde trabalhava Maria Adelaide. quando estavam bem. que também trabalhou na POP por uns tempos. falavam de coisas pesadas. e o apelido ficou para sempre. Lawrence Durrell. Dedicado à Paula. se divertiam. uma única vez. A amizade perdurou mesmo depois que deixaram de ser vizinhos de emprego. Caio se espantou: descobriu que ela não era magra. e ele acabaria sendo muito protetor em relação a ela.turma de Caio em São Paulo por uns tempos. de coisas leves. Lui. na época. Ela. e eles conversavam. e gostou do que leu: disse à amiga que ela tinha muito talento. No meio de uma conversa aparentemente banal. Tempos depois. para o terceiro. quando tudo melhorava. pelo menos. que deu seu apoio. o sempre muito magro Caio resolveu pegar Adelaide no colo. Uma vez por dia. Discutindo Katherine Mansfield. quando estavam mal. ela menciona. está entediado com a ligação da mulher. em 1987. Outra amizade que veio daqueles tempos é com a jornalista Paula Dip. Maria Adelaide ficou amicíssima de Caio. escreveu o conto Pela passagem de uma grande dor. o conto descreve uma conversa telefônica entre dois amigos. de brincadeira. dramaturga e autora de novelas. o homem. Apresentada por Celso Curi. Tendo se descoberto grávida. vizinha à POP. Maria Adelaide escrevia o romance Luísa (quase uma história de amor). menos porralouca que Caio e alguns de seus amigos. ela optou por fazer um aborto. e demais escritores que amavam ou que estivessem lendo no momento. Caio foi um dos primeiros leitores. onde ficava a POP. Proust. Um dia. era levíssima. hoje conhecida escritora. na Abril Cultural. trabalhava Maria Adelaide Amaral. Levinha. não viam o tempo passar. Contou a história ao Caio. que vai fazer um aborto. que só viria a dar por terminado anos mais tarde. pesava 42 quilos. em que ele parece ansioso por desligar. que trabalhava na redação da revista Nova. . Na época. A amizade seria selada por um episódio triste da vida de Paula. do livro Morangos mofados.

— Vou tirar amanhã — ela falou de repente. é incômodo e doloroso para Lui. o medo da criança nascer deformada pelas substâncias era grande.— Tá bom — ela disse. de vez em quando. optou pelo aborto. Ele mesmo passaria pela situação duas vezes na vida. E para Caio. A revista POP apresenta o punk rock é o marco histórico do gênero no Brasil. ele. Mas era preciso "costurar pra fora" para sobreviver. Embora hoje seja praticamente impossível achar o disquinho. — Tá bom — ele repetiu. em comum acordo com as garotas. assim como fizera com a hippie anos antes. Embora em determinado momento da vida Caio tenha aderido à estética punk. como o pessoal da redação costumava brincar na época. — Hein? — Nada. em crônicas e entrevistas. Até hoje é lembrada por ter introduzido no país o punk rock. — Não é essa que é boa para a pele? A aparente frieza esconde. haviam sido grandes dores. para a revista Nova. Caio falaria. é que as gestações aconteceram em períodos loucos. na verdade. ou para edições . Mas não quis ser o primeiro. ele dizia. Nas duas ocasiões em que namoradas suas engravidaram. — Abriu a mão e olhou as manchas branquicentas na palma. A justificativa. Vai fazer teu chá. E pensou que quando começavam a falar desse jeito era sempre um sinal tácito para alguém desligar. Aqui diz que tem vitamina E. Costurava também. A POP era a primeira revista brasileira voltada para a cultura jovem. e ele fazia o que podia. a "grande dor" do título: o assunto. na verdade. Para ele. dos filhos que não teve. de como seriam se tivessem nascido. — Tá bom. em que todos usavam drogas. em geral ele não tinha muito em comum com os assuntos tratados na revista. também. com a coletânea de 1977 que trazia músicas de grupos estrangeiros do novo gênero musical.

— A gente não deve colaborar com a alienação. o que bastou para que este estourasse e abrisse a torneirinha de indignações. ou culinária. eu não estou. melhorar o lado visual. O diretor marca a reunião para nove da manhã. por exemplo. Caio era contratado da POP. — O leitor não gosta de ler — justificou o diretor. e muito bem. que isso ele fazia com facilidade. Era preciso reduzir os textos. a parte desinteressante de qualquer emprego. ele tem uma pequena briga com o diretor da revista. então estavam indo muito mal. e elas adoravam ler. aumentar as fotos. Sempre a contragosto. mas fazia free-lances para vários outros veículos. em dias de fechamento. e de lidar com chefes. Em fevereiro de 1979. ou como cuidar de bebês. Em certo momento. mais dolorosa ainda era para Caio. se o chefe achava que cultura e leitura eram coisas obsoletas. havia grande rotatividade de jornalistas. se era chata de agüentar para qualquer um. ou o que viesse. mas a questão dos horários. Tinha duas irmãs adolescentes. E já chega falando grosso. Sendo todas as revistas da mesma editora.especiais. dizendo que a revista está péssima. o diretor comentou que os títulos de Caio pareciam livro antigo de História. E falou. . sobre a vida de John Travolta. de certa forma. Não a parte de escrever. enfim. "emprestava-se" pessoal de outras redações. pessoal que estivesse com o horário mais folgado. A formação dele tinha sido feita antes de 1964. a parte prática e pragmática da coisa. Caio não concordava. supostamente o público-alvo da revista. o trabalho jornalístico era penoso para ele. — E se você está a fim de colaborar com o processo de castração mental da juventude brasileira pós-64. mas só aparece às dez e meia. O diretor chamou Caio de obsoleto. As penas continuaram voando. a Abril. Aquilo foi demais para Caio. E disse mais. e dos prazos.

Uma semana depois de suas férias começarem. dessa coisa de ganhar a vida. Estressava-se. cansado. em que contava o episódio. mas não podia. No fim. Logo no início. passar o dedo com desgosto em cima do quilo de poeira dos móveis. assistir filmes como Iracema ou O Super-Macho ou A ilha das cangaceiras virgens (descobri que Helena Ramos dá de dez em qualquer Sônia Braga. olhar — olhar o quê. bonito. olhar. como na fábula do lobo e do cordeiro: contra a força não há argumentos". As férias vieram. lugar calmo. Caio calou a boca. sem encontrar lugar pra ficar. percebi que não conhecia vivalma (ai esse português castiço!) na cidade. depois de muito suar e gritar. de belas praias e malemolências. olhando a briga. ele escreve uma carta ao amigo José Márcio Penido. Aí rodei por lá um dia inteiro. Talvez estivesse precisando de umas férias. Ana Matos que me perdoe). comer tapioca. olhar. onde teria a paz necessária para escrever. olhar. E toca subir rua. em retirante. Andava cheio de idéias. "Afinal. Se esperava notícias do esturricante calor nordestino. e não podia deixá-las morrer só por causa dos trabalhos jornalísticos.— Minha mãe é professora de História. e ele ia aproveitar o período de folga para retomála. meu deus? Meu caro Garcia de Oliveira. descer rua. todo mundo em volta quieto. atravessar Capibaribe. na Rua do Hospício —juro! Solucionados os problemas de acomodação. jornalista mineiro radicado em São Paulo. Caio estava nervoso. Caio explica a mudança de planos: "O que aconteceu? Bem. idéias ambiciosas. louco para dar uns pontapés nas pessoas e dizer umas verdades. ele concluiria em carta à mãe. eu estudei muita História e se a juventude de hoje não sabe nem quem foi Getúlio Vargas é porque não se estuda mais História. Acabei indo pra Recife. onde me instalei num hotel de oitava: o Suíça Hotel. José Márcio deve ter levado um susto. me deu uma solidão tão grande que. Nada de Olinda: a carta vinha de Porto Alegre mesmo. A literatura andava meio abandonada há um tempo. tropeçar em cantador. voltar para o hotel. eu FUI até Olinda. Caio resolveu ir a Olinda. menos de uma .

Ele cresceu com asfalto nas veias. Ao final do ano. do ." Fala da dor que é escrever. ele e Caio eram muito próximos. porque José Márcio. Caio volta à vida de jornalista em São Paulo. o amigo José Márcio Penido também passava por suas próprias crises. entre outros questionamentos. " (Ana Matos era Ana Braga. Depois das férias. só morara em Cambuquira até os três anos de idade. no hay caminos. arrumei tudo e voltei pra Sampa. dúvidas. Caio a chamaria sempre de Ana Matos por causa do personagem Júlia Matos. mas nem disso está tão certo. Caio pegou uma gripe violentíssima — resultado da mudança brusca de temperatura. Pero se hace camino ai andar. interpretado por Sônia em Dancin Days.) Em Porto Alegre. na verdade. o mineiro funcionava como uma "referência viva" de São Paulo para o gaúcho. Passei uma noite lá. Cita um poeta: "Caminante. irmã da Sônia Braga. Na época. foi procurar suprir essas carências na cidade mais que conhecida. Em São Paulo. Ele está deprimido. amiga de Caio e de José Márcio Penido. a cabeça de Caio não está legal. cheia de interrogações. Não há o que ensinar. de volta da praia. Caio. Zé escreve uma carta triste para ele. Mais que a doença física. Saiu do Recife porque não havia ninguém lá. que tinha morado em Santiago até ficar adolescente. responde como pode. Caio achava que se entendiam porque eram ambos de cidades do interior: ele de Santiago. Mas essa concepção era fruto da cabeça romântica de Caio. Peguei as lãs e peles e vim pra cá. José Márcio de Cambuquira. Sente-se solitário. e visitava a cidade sempre que podia. da dor que precisa ser mexida e remexida. o que aprender. depois disso. a amada e odiada Porto Alegre. ele diz querer escrever. ninguém absolutamente que se importasse com ele.semana depois. quando Caio volta a Porto Alegre para mais um período de férias. a família tinha se mudado para Belo Horizonte. Nordeste a 30 graus e Rio Grande a 2 graus negativos. a situação era diferente da de Caio. mas nem lá as coisas pareciam melhores.

Nenhuma melancia escancarada. Era um paradoxo: Caio não estava ensinando ninguém. Corre um pouco: três. . Faz mais alguns exercícios. Caio acorda. da auto-anulação: um sentimento de glória interior. nenhuma pitanga madura. senhor. que come com calma. interveio: se o contrato fosse cancelado. mas as pessoas aprendiam com ele.quanto é preciso sangrar se se quiser produzir algo bom. " São sete da manhã. Caio já era. Essa expressão ê fundamental na minha vida. embora involuntária. começará a escrever. um belo texto. E o resultado dessa jornada é um texto. nenhuma manga molhada. e ele não podia fugir dela. Então. Depois da refeição. dedicado a José Márcio Penido e que daria título ao próximo livro de Caio: o conto Morangos mofados: Na parede a natureza-morta com secas uvas brancas. estava em Caio. macilentas maçãs verdes. de forma espiritual e ao mesmo tempo intensa. e de transformar grandes dores em grandes textos. o danado ainda custou a sair: ficou dois anos na Nova Fronteira. mergulhado nas palavras. Às dez da manhã. considerado um guru de sua geração. Aprendiam sua maneira de ver o mundo. para poder terminá-lo. Caio pediu demissão da Nova. enquanto terminava de escrever o livro. na época na Brasiliense. onde trabalhava. quatro quilômetros. Com Morangos mofados. peras pálidas. A vocação para guru. na gaveta. sua maneira de encarar a arte com seriedade. nenhum morango sangrento. "A única recompensa é aquilo que Laing diz que é a única coisa que pode nos salvar da loucura. do suicídio. Está na hora de cozinhar o arroz. Um morango mofado — e esse gosto. O dia todo submerso. somente então. até que Luiz Schwarcz. essa situação atingiu seu auge. descansa um pouco. volta para casa. sempre presente em minha boca? Antes da publicação de Morangos mofados. passeia um pouco. Em 1981. às vezes falando sozinho. de certa forma. E depois de pronto. vai à praia.

deixa apenas fotografadas.em um mês ele publicaria o livro. apesar das ilusões perdidas. observando os canteiros de cimento: será possível plantar morangos aqui? Ou se não aqui. é um atestado de que o mundo pode dar certo. é hora de começar de novo: Poderia talvez ser internado no próximo minuto. Caio. num giro de cento e oitenta graus sobre os próprios pés. Tinha cinco anos mais que trinta. Um dos contos mais marcantes do livro. Absolutamente calmo. Abriu os dedos. 0 gosto mofado de morangos tinha desaparecido. em 1982. supondo que setenta fosse sua conta. Caio pediu para rasgar o contrato e entregou o texto à Brasiliense. em seu livro. E agora que uma nova década começava. as emoções de uma época. Publicado. no ar. Ele deixa as coisas em aberto. que vira a revolução acabar antes mesmo de ter qualquer chance de dar certo. Sim. por mais melancólico. aquele escrito na praia. do desencanto de uma geração. teria sido inspirado na primeira experiência . o último conto. absolutamente só enquanto considerava atento. Mas seu livro. era hora de olhar para trás e rever o momento que passara. as mãos postas sobre o sexo. entre caminhadas ao sol e porções de arroz integral. Que sim. Morangos mofados. que finalmente o lançou. Estava na metade. Mas era um homem recém-nascido quando voltou-se devagar. procurar algum lugar em outro lugar? Frescos morangos vivos vermelhos. Sargento Garcia. por mais triste. sucesso de vendas e de crítica. Achava que sim. mas era realmente um pouco assim como se ouvisse as notas iniciais de A sagração da primavera. Apesar dos pesares. o livro virou clássico instantâneo: oito edições tiradas em seqüência. não toma essa posição. e tomar uma posição a respeito dele. Sim. termina com uma esperança. Como uma dor de cabeça. absolutamente claro. para deslizar as costas pela sacada até ficar de joelhos sobre os ladrilhos escuros. de repente. E sempre aquele rótulo ajudando o livro a vender: o retrato de uma geração.

e Isadora. é possível que o lugar a que o escritor se refere seja a casa dela. alguém gritando alguma coisa. que não devia abrir os olhos nem sentir cheiros para sempre surda cega muda naquele mais de dentro de mim. tentando apanhar um farrapo de voz na plataforma da estação cada vez mais recuada. Embora eu soubesse que. num domingo à noite. para sempre e sempre assim. Quando Tutti Gregianin decidiu filmar o conto. sem conseguir juntar os sons em palavras. porém. o escolhido para viver o sargento seria o ator Marcos Breda. "Me fez segurar o pau dele e eu saí correndo". em 1998. a madeira descascada da porta. A revelação.] barulho de copos na cozinha. como uma língua estrangeira. Quando tinha 16 anos. ele foi seguido por um homem. tão longe como se eu estivesse na janela de um trem em movimento. o vidro rachado. entre grades e ferrugens quieta domada fera esquecida da própria ferocidade. em Porto Alegre. com lençóis sujos e um rolo de papel higiênico na cabeceira. nada tem de perigosa. O tal puxou papo com ele e marcou encontro para três dias depois.. travesti de Porto Alegre que mantinha uma casa de prostituição. "Me jogou em cima da cama. conta Caio. feito bicho numa jaula fedida. Mesmo sem saber direito o que iria acontecer. a mulher que aparece no conto. Ao menos foi isso que ele contou em entrevista à Marie Claire. Como o conto é dedicado à Luiza Felpuda. O conto traz em si a história dessa descoberta: [. o sargento Hermes. uma vez desperta.homossexual de Caio. que nenhum ofuscamento se fizesse outra vez. como uma língua molhada nervosa entrando rápida pelo mais secreto de mim para acordar alguma coisa que não devia acordar nunca. mas longe. porém. em 1995. o portão azul. O homem o levou a um lugar horrível. Caio transforma o tal homem em um sargento. a própria Luiza. completamente sem romantismo". não voltaria a dormir. ou dolorida: . os quatro degraus de cimento. nojento. no centro da cidade. porque devia ficar enjaulada amordaçada ali no fundo pantanoso de mim. morrendo de curiosidade. No conto. Caio foi.. como os reflexos escondidos.

Cida ia bastante a Porto Alegre nos anos 70. Às vezes. ou bater papo. Caio fora morar numa casinha de vila na Melo Alves. na verdade. Caio dava um grito do quintal. escrevera uma carta e entregara junto com . sucesso de crítica e público. Subi correndo no primeiro bonde. Caio circula bastante por essa época. 0 bonde guinchou na curva. O que é descoberto é um caminho. Ele já rodava bastante antes mesmo do livro sair. repeti sem entender. Eu nunca o tinha visto em toda a minha vida. e depois Jacquéline Cantore. Em São Paulo. que tem horror às rodinhas literárias. De seu quintal. cheio de uma alegria tão maldita que os passantes jamais compreenderiam. todos querem ser seus amigos. por exemplo. Meu caminho. Mas não sentia nada. qualquer coisa assim. Ficou sozinho por um tempo. Uma vez desperta não voltará a dormir. amanhã sem falta começo a fumar. ela é que chamava. sem esperar que parasse. também. sentei. Na casinha da Melo Alves. Embora paulista. Morangos mofados consagra Caio. Em 1980. mudando de emprego e de casa como quem troca de par de meia. Eu não o conhecia. Porque ninguém esquece uma mulher como Isadora. atores. pensei confuso. debruçado na janela aberta. fã de Caio. amiga de tempos antigos. ao ficar fascinada com o conto Eles. Escritores. vieram morar Orlando Bernardes. podia enxergar o apartamento de Cida Moreira. artistas. então. como escritor respeitado. de O ovo apunhalado.ela traz. por causa do relacionamento que mantinha com uma pessoa de lá. As vezes. uma forma de viver. decidi. Pedi passagem. E ninguém me conhecia. cantora. estiquei as pernas. Era assim. Amanhã. a libertação. Tinham se conhecido no início da década de 80. quando ela. Ela era uma garota jovem. meu caminho não cabe nos trilhos de um bonde. Embora diga aos amigos que prefere se resguardar. sem saber para onde ia. Como guru involuntário de uma geração e. ainda que maldita: Queria dançar sobre os canteiros. olhando as casas e os verdes do Bonfim. chamando Cida para almoçar.

Caio Túlio Costa sai da edição do Leia livros. aprontava: ameaçava se matar. Só que em 1977 Bertoni morreu em um acidente de carro. Intensamente. Mesmo a moto. Caio ficou muito abalado. . por causa disso. Ele sofria muito. jornais. fizera dois anos de psicoterapia com Mário Bertoni. E isso muitas vezes o levava àquelas depressões intermináveis.um presente na casa dos pais de Caio. Em São Paulo. da cena. Não que ele gostasse de estar deprimido. Caio não chegava perto do volante. e ele sempre se frustrava. guardavam cartas. Na época da casa da Melo Alves. se trancava no quarto dias e dias. então. Ele ligou para agradecer e desde então começaram a se corresponder e ficaram amigos. Ele não dirigia carros. quando podia pagá-los. Ficaram um ano e meio na casa. chamavam o lugar de O Inconsciente. Caio. Caio tinha também uma moto. às vezes. Gostava de dançar. As aulas ajudavam-no a sobreviver. Em São Paulo. Ônibus. Em novembro de 1981. O escritor criava expectativas em torno das pessoas e das situações. se sentia bem. o pai o deixava dirigir seu carro de vez em quando. e depois a substituiu por dança. Embaixo da escada. Talvez essa perda tenha apressado a ida de Caio para São Paulo. suplemento literário publicado pela editora Brasiliense. Em Porto Alegre. ou mais íntimos: era parte do show. porém. teatralmente. papéis. ele odiava. ficava muito tempo sem ser utilizada. Mas. Caio retomou a psicoterapia. em Porto Alegre. Uma verdadeira drama queen. Chegou a aprender. em Porto Alegre. muito menos. Caio então é chamado para substituí-lo e aceita. pois foi exatamente no final de 1977 que ele voltou para o Sudeste para trabalhar na POP. talvez. do teatro que Caio montava ao redor de si mesmo. em Santiago do Boqueirão. e fazia o que podia para se sentir bem. e é claro que suas idealizações iam muito além da realidade. As tentativas de suicídio de Caio nunca foram levadas muito a sério por seus amigos mais antigos. Mas era assim que ele gostava de viver. inteiro. ou caminhar. Caio preferia táxis. então. que adoravam. sempre que tivesse platéia.

vê ali um nicho interessante. mais uma vez. . Mas ainda é maio. que sabia o quanto era sedutora. com São Paulo e Porto Alegre. para estar perto. Ana era bela. Caio decide se mudar para o Rio de Janeiro. Imagina se ele ia se entregar desse jeito ao mercado. uma vez longe delas. Mesmo assim. que por sua vez era grande amiga de Caio. das coisas a se fazer. e quer repertir a dose. como escreveu um livro totalmente diferente de Morangos mofados. belíssima. ele podia — e devia — voltar ao trabalho jornalístico. O Rio de Janeiro. sabendo que a situação de Ana é delicada. ele amava. da Brasiliense. da qual Ana era muito consciente. quando o livro estoura. e assim o círculo se completou. São Paulo estava cansando. que a levou a se jogar da janela de seu quarto em outubro de 1983. Ela era muito amiga de Graça Medeiros. Além de muito culta. A beleza. por que você não escreve outro livro na linha sexo. passou a ser uma maldição. mas não conseguia morar lá por muito tempo. Caio se muda para o Rio para ajudar a cuidar. Caio ficou ofendidíssimo. sentia falta de tudo — dos amigos. Seu livro A teus pés foi um sucesso. Todos se deixavam hipnotizar por ela. Nessa época.Morangos mofados já estava terminado. mais que interessadas nos poemas. ou de ódio e dependência. Caio Graco. Em entrevista ao Estadão. Caio estava muito próximo da poeta Ana Cristina César. ele tentou. na deusa. Graça cuida dela. drogas e rock'n'roll. o livro que pouca gente entendeu. E esse pode ter sido um dos motivos que contribuíram para a depressão. Tão ofendido ficou. aos 31 anos. mas as pessoas. Pede a Caio: — Ei. Ana Cristina está deprimida. grande ensaísta e poeta. de novo. Caio conta que. e é um sucesso. estavam interessadas no personagem Ana C. que não só saiu da editora. na beldade. Ele tinha essa relação de amor e ódio. não as suportava. violentíssima. das folhas dos plátanos. Uma vez nelas. Era o Triângulo das águas. Em maio de 1983.

sempre irônico." A terapia Fala Grosso Veado. . certo dia. ia mais ou menos nessa linha: ". Imagina uma alface (ela) ao lado de uma costela gorda (eu). zombando de si mesmo: — Fala grosso. Há pelo menos um outro. toma uns mates." Caio e Graça Medeiros conversam. por mais natural e integral e macrobiótico que Caio pudesse tentar ser. mas troppo morbo.] Parece Isabelle Adjani em Nosferatu. corre uma história em que ela. têm uma idéia de terapia para Ana C. dança uma chula. com as depressões de Ana. "Ana C. trêmula. uma tirana do lenço. a situação entre os dois não era sempre um soneto de amor e paz.. melhor ainda. onde moraram Rita Lee e Raul Seixas. dá pra entender? Recomendei uma brahma na esquina com uma coxinha e um dreherpra rebater.. relatado por Caio em carta a Jacqueline Cantore. naturalmente. Something like that. Se houvesse um whisky pra completar. Com toda minha gripe. Porque tá uma crise sensível demais. como os amigos sabiam. MAL. Caio às vezes gostava de falar. somos mais por uma terapia bageense. prenda. come uma costela gorda. ameaça se jogar da janela.. te joga nua no açude na hora da sesta.. Caio vai à festa. Ainda que amasse muito Ana Cristina. ele adorava um bom churrasco. Caio a segura. Põe mal nisso. Ele descreve o encontro em carta a Jacqueline Cantore. Era aniversário de Ana Cristina.Ana vai visitá-lo.[. e em seguida passa-lhe uma descompostura. tipo te fresqueia. chorosa. é algo a se conjecturar. e estivesse no Rio em parte para ajudar a cuidar dela. E esse não seria o único estremecimento entre os dois. Se ele a usava para sair de suas próprias depressões. linda. Nunca vi ninguém tão frágil. por vezes. Caio se irritava. Não sei contar direito. veado! E a terapia que ele imaginava para Ana C. mas é bem possível. eu era um poço de saúde ao lado dela. depois que começa a ser sugada. em crise. Magra. E lúcida. consumida. no hotel em Santa Teresa que Caio escolhe como moradia — um hotelzinho hippie.

ele me disse. para ver se os dois voltam a se entender. vamos embora? Eu não estou gostando nada disso — disso sendo. — Não vá a esse encontro. o Caio. T. No aniversário de Caio. Três horas de conversa. desconfiadas.. Caio vai ao banheiro.. As pessoas em volta olham. Graça Medeiros leva Ana até o hotel em Santa Teresa. há QUATRO anos? — Sei. Ela achava o máximo que ele tivesse se mudado para um hotel para . — Sinto muito.? — Achei ele ótimo.onde conhece um rapaz — identificado apenas pela inicial T. retire-se imediatamente. em setembro. mas vou mesmo. Ana Cristina vem falar com ele. — Você está me expulsando. — Você sabe que ele vive com L. no livro de cartas. amigos do Rio.. só isso. com quem vive há quatro anos. L. sem ressentimentos. Outras pessoas aparecem no hotel. está na festa com o namorado. Caio tem muitos amigos no Rio. Caio engata uma conversa animadíssima com o tal T. — Então tchau e feliz aniversário. Como a atriz Kate Lyra. que ficou famosa em programas humorísticos na TV pelo bordão "Brasileiro é tão bonzinho!". É o último encontro dos dois. na época esposa do compositor Carlos Lyra. No ouvido de Caio. Não se importando muito com a longevidade da relação. A situação se ameniza. Além de Graça e Ana. Na volta. — Vocês vão se ver mais? — Marcamos um encontro amanhã. — Então. se despede com uma bomba: "te encontro amanhã às quatro no Amarelinho". — Estou. — O que está acontecendo entre você e T. De repente chega L. obviamente.: — T. T. Não é a última vez que os dois se vêem. por favor. — Me permite um conselho? — Pode ser.

Caio não inventou um personagem. companheiro de Pedro Paulo. Não era futilidade. e Caio adorava visitar Pedro Paulo em seu apartamento no Leme. praticamente da família. é claro. Stendhal. e. quando foram chamados para escrever uma novela com José Wilker. Flaubert. Conversavam de literatura — o lado pop escondia a conhecimento profundo que Caio tinha dos clássicos. se interessava por filosofia. Proust. Maru.escrever. Kate era inteligente. o próprio. E Pedro Paulo. ele e seu texto eram uma coisa só. Tanto que Mário Prata e Caio. A novela acabou não se concretizando. que nunca tinha dado grande atenção aos beatniks. Aí Caio entendeu. No caso de Pedro Paulo. e ele adorava o jeito dela. Mais que editor. Pedro Paulo. de uma cantora de rock russa. Machado de Assis. Havia muitas afinidades entre os dois. Adorava também Carlos Henrique. adquirisse tanta cultura. via nele a mesma unicidade. organizadíssimo. E é claro que o editor não levava . criaram um papel só para ela. editou os livros de Caio na Nova Fronteira. este respondeu: — Caio. que vinha de família tradicional e endinheirada. mas a amizade perdurou. que ao saber da visita do escritor já preparava o conhaquinho que ele adorava. começou a lê-los por causa do Caio. Em uma das ocasiões que questionou esse lado de Pedro Paulo. porém. Um dos aspectos do ambiente que permitira que Pedro Paulo. era amigo de Caio. nem parece que você leu Proust. de alta sociedade. espontâneo. Proust também. que conhecera o escritor por indicação de Lygia Fagundes Telles. Ficaram amigos imediatamente. Outra amizade importante é o editor Pedro Paulo de Sena Madureira. entre outras coisas. por literatura. achava muito fútil todo aquele ambiente de coluna social. Ele gostava de criticar os amigos que começavam a ganhar dinheiro: dizia que tinham se vendido ao sistema capitalista. além de linda. engraçado. governanta. Era louco por D. que adorava ironizar a origem do amigo. a mesma falta de cisão que havia em sua própria personalidade: a biografia de Caio não era separada da obra. era frivolidade. Madame Bovary era frívola.

em Morangos. além de prestígio. sobre os arquétipos dos três signos do elemento água. Hoje em dia. a Câncer. Por todas essas diferenças. narra a . A primeira novela. a começar pelo tipo de texto. — São três? Triângulo. Mas assim que o livro foi sendo absorvido. a situação melhorou: o livro ganhou o Prêmio Jabuti.a sério toda aquela mise-en-scène. a Escorpião. O triângulo das águas difere em tudo de Morangos mofados. O marinheiro. A primeira das três novelas. Quando Caio entregou O triângulo das águas. Só faltava o título. Caio teria ficado muito feliz em receber uma quantia assim. na época. que disse: — Caio. três novelas. sabia o que estava fazendo. ele ficou mais que feliz com sua estatueta. Um título estava pronto. São três signos de água. e no Triângulo. Tinha grande domínio e preocupação com a forma. são contos. e as comparações com Morangos sendo deixadas de lado. por exemplo. mas como ainda não havia. Pela noite. — Triângulo das águas — completou Caio. O excesso de palavras do livro. Dodecaedro. O triângulo das águas causou estranheza. a segunda. um dos mais prestigiados do país. se refere ao signo de Peixes. Levou o material para Pedro Paulo. Morangos tem um realismo que as novelas do Triângulo não buscam. — São os textos das águas — emendou Caio. Caio era um escritor que não dava trabalho aos editores: entregava o texto praticamente pronto. é uma escolha de Caio: ele busca esse jorro de água. o prêmio. A terceira. Dodecaedro. o livro estava pronto. em contraste com os contos mais diretos de Morangos. esse fluxo de palavras. confere uma quantia em dinheiro aos ganhadores. até por ser um livro construído sobre uma estrutura astrológica. como é que não tem título? Chove nas três histórias.

A segunda novela. Conquistara esse verde. Combinam de se ver de novo. olhou detidamente o mar. Seus olhos tinham a cor do mar. antes que seja tarde demais. em São Paulo. inquieto. aborda também o tema da solidão. suas inseguranças. por muito tempo. o ser humano está sempre sozinho. enquanto Santiago. enquanto ouvia. em uma sauna gay. por causa de um personagem de Cortázar. era a cidade fictícia a que Caio sempre se referia.. Pérsio fala e fala. Tinham a cor exata de quem. suas palavras jorram incessantemente.] Não estava triste. depois de ter sido noivo de uma mulher por seis anos. sem parceiro fixo. para fugir das dores e paixões do mundo. uma mensagem. um jogo em que eles assumem outras identidades. seus medos. que vem como um profeta. para lhe trazer a boa nova. E se foi. o aviso guardado para sempre na memória das paredes: — Abraça tua loucura. também. outra vez. O triângulo das águas foi também o primeiro livro de Caio a mencionar a aids. O marinheiro. vindos do Passo da Guanxuma — muito parecida com Santiago. e o outro é Santiago. conta-se como. na novela Pela noite. esse vagar.história de doze amigos juntos em uma casa. mesmo cercado de amigos. solitário. foi para São . como a Macondo de Garcia Márquez — se reencontram anos e anos depois.. por causa do personagem de Garcia Márquez. e as emoções que atravessam em determinada noite: as paixões e tendências e medos de cada um vão se desvendando aos poucos. revelando suas culpas. todas as horas. através da vida do homem que decidiu se encerrar em casa. E ao contar-se a história de cada um. O dono do apartamento onde ocorre o encontro arma um jogo de sedução. Tocou de leve na minha mão estendida. durante todos os dias de muitos meses e anos. e que em certo dia recebe a visita de um marinheiro. imóvel. [. mesmo assim recomecei a chorar. E provavelmente foi também o primeiro texto de um autor brasileiro a falar da doença. Dois amigos de infância. Ele vive uma tumultuada vida amorosa. em que ele é Pérsio.

a todos que levavam uma vida libertária. Caio estava no hotelzinho em Santa Teresa. E no Brasil. a década de 70 chegava. as drogas. pelo medo. a vida em comunidades. ele não a entende. embora ainda envoltas em suspense. Cheio de culpas e medos. Quando mais pesquisas foram feitas e se descobriu que a contaminação também podia atingir heterossexuais. aos drogados. Essa estabilidade. começou-se a achar que a doença tinha algo a ver com esse "comportamento" ou com essa "identidade" homossexual. ninguém podendo entrar nem sair do hotel. Quando soube da morte dele. o marco da chegada da aids foi a morte do estilista Markito. mas também pela abertura política e pelo desvanecimento dos sonhos da contracultura. Como a única coisa em comum que as primeiras vítimas tinham era o fato de serem homossexuais. e sobre como ele agia no organismo. lamentando a morte do estilista. castigo aos gays. duas ou três vezes. Desde o início da década de 80. o estrago já estava feito. já se ouviam rumores sobre o que a mídia passou a chamar de "câncer gay". A partir daí. a paranóia só aumentou. tudo a que tinham direito. para a qual não havia cura. E contaminados estavam todos. sobre o vírus causador da doença. essa tranqüilidade em lidar com a própria identidade sexual. As notícias chegavam rápido ao Brasil. de certa forma. . suspense derivado. é ele que menciona. na verdade. uma chuva abundante caindo. marcada não só pela doença. uma doença devastadora que só atingia homossexuais. Pérsio não a tem.Paulo e ficou dez anos junto de um homem. A aids parecia castigo divino. a aids. Ele e outros hóspedes ficavam bebendo e conversando. a partir do momento em que se diagnosticou o vírus. Aqueles que tinham experimentado o amor livre. da ignorância: pouco se sabia sobre as formas de contágio. Três anos depois de acabar. e talvez a inveje. realmente. A vida do pessoal egresso da contracultura estava mudada para sempre. estavam agora condenados a viver sob a paranóia da contaminação. ao seu final.

que volta do exílio exibindo sunga de crochê nas praias do Rio. Caio também escolheu mudar. Ele viveu os anos 80 com a mesma intensidade com que vivera os 70. era entusiasta das novas manifestações. ou não pudesse aceitar a mudança. Cazuza. Muitas editoras organizam seus lançamentos em função do evento em Porto Alegre. A maioria escolheu mudar. havia a aids. Acompanhava o teatro. que vão lançar suas obras e autografá-las para o público. madrinha da noite. ou a um dark. porém. Estava ligado no seu tempo. calça e jaquetas de couro. para algumas pessoas. congelando sua Imagem nos doces anos em que se podia pensar em mudar o mundo. Infelizmente. Como se Ana não aceitasse. e um orgulho de seus habitantes. do fim da década de 70. Porque era mais ou menos isso: mudar ou morrer. parecido com Jesus Cristo. dos Titãs. e todos os anos a escolha do patrono da feira causa grande expectativa na imprensa e nos círculos literários locais.Em seu perfil de Ana Cristina César. por exemplo. em barracas ao ar livre na praça. Há muito já não era o hippie de cabelos longos. ela se matou. ítalo Moriconi escreveu que a morte de Ana foi um marco. é a grande oportunidade de comprar livros a preços mais baixos que no resto do ano. como Fernando Gabeira. também. a música. . Adorava Marina Lima. Era fã. A feira. Em outubro de 1983. o medo dela era tão parte dos anos 80 quanto qualquer música da Legião Urbana. Ao lado de Caio no lançamento de um de seus livros. A escritora Clarice Lispector o chamara de Quixote. O sangue de uma poeta. por causa de sua barbinha. roupas sempre escuras. nos novos acontecimentos. O triângulo das águas já tinha sido publicado. o escritor assemelhava-se mais a um punk. E do grupo teatral Asdrúbal Trouxe o Trombone. ela ficava sussurrando para ele: você é Quixote! Você é Quixote! Agora. por exemplo. e Caio foi a Porto Alegre lançá-lo na Feira do Livro. é uma tradição em Porto Alegre. Além de reunir muitos escritores.

a dor que ela sentia. Bruna abriu a bolsa e disse: — Olha que estranho: quando eu estava saindo de casa para pegar o avião. — Bruna. A atriz tinha escrito alguns livros. e aquela coisa estranha no ar. levava-a para sair. E uma lembrança triste. Nos anos 90. Caio ficou desnorteado. meio mágico. chorou convulsivamente. Mas talvez Caio não imaginasse que a poeta chegaria ao ponto extremo da dor. ao gesto máximo do desespero. "Tinha um toldo. a presença de um toque estranho. meio mago. Às vezes. você me veio na cabeça dizendo 'Bruna. que o entrevistaria anos depois. mas. o jornalista José Castello viajaria para a Europa no mesmo avião de Caio. Caio chorou. feita na semana anterior. A "mágica" da lembrança não aparece aqui por acaso. Ao menos na versão que Caio contou para o jornalista Eduardo Sterzi. Então Caio se lembrou de Bruna Lombardi. no sétimo andar. ele parecia ser meio bruxo. pela ingestão de remédios. na entrevista. Não é incomum. Sempre que Caio estava em Porto Alegre e ela aparecia na cidade. E assim a notícia foi dada a Bruna. ao mesmo tempo. Quando o viu. mas quem? Os amigos em comum com Ana Cristina estavam todos no Rio. O estado emocional de Ana. e o Mario Quintana lindo. quando o próprio Caio viria a ser o patrono da Feira do Livro. e a Bruna linda. Jogou-se da janela da casa dos pais. Precisava dividir o sentimento com alguém. mágica". quando se trata de histórias envolvendo o Caio. não era surpresa para ninguém. Caio recebe um telefonema: Ana Cristina César está morta. De qualquer modo. dos quais Caio gostara muito. ele a buscava no aeroporto.Um dia depois de lançado o livro. Talvez não imaginasse que ela conseguiria. todo mundo transpirando. ele diria ainda. que estava na feira acompanhando Mario Quintana. você tem que ler esse livro' — e puxou da bolsa um exemplar de A teus pés. onde se recuperava de outra tentativa de suicídio. e desde então tinham se tornado grandes amigos. de coincidências inexplicáveis. passear. jantar. eu vim aqui te contar que a Ana se matou. Ele conhecia . Caio resolveu procurar Bruna. o livro de poemas de Ana C.

que tanto apelo tem junto a certos tribos urbanas. Pensamentos mórbidos: o que ela teria sentido um segundo antes de se jogar no espaço. Caio falava e falava nela. parada à beira de uma janela. mas ia ao banheiro com freqüência. era uma obsessão. é que a morte de Ana Cristina foi um fantasma que o perseguiu por muitos anos. em seus incensos. A medida que o tempo passa. Depois do choque. Tímido incurável. coisa que pouca gente tem. também. se atormentou pelo fantasma de Ana C. junto com o amor. Por mais que ele insistisse na vida. Essa idéia de morte romântica. Um bruxo. desde o começo. por fim os . de certa forma." A imagem da morte perseguia Caio. Dizia-se um hedonista. e assim se desculpava antecipadamente por eventuais mentiras ou fantasias. como os góticos. Deus. E se apaixonou. poetas malditos. que o tocava profundamente. que tinha uma arma para sobreviver — a literatura —. Ana C. a obsessão fica mais forte: pessoas de quem só ouvimos falar começam a morrer. poetas amados por Caio. negra. Ficou apenas observando. ou mesmo de outros autores. Talvez herança do romantismo. enquanto Caio botava o taro para as garotas sentadas a seu lado. Nem sempre é possível separar suas versões da verdade. com que direito ela fez isso? Logo ela.o escritor de vista. havia um lado seu que era obcecado pela morte. Ecos de Edgar Allan Poe e sua literatura sombria. e ao banheiro mais distante da sua poltrona. com tanto ódio quanto freqüência. Com que direito. calava fundo em Caio. ele escreveu a Jacqueline: "E não conseguir dormir: na minha cabeça. o Caio. pela aids. algo que o inquietava. depois amigos de amigos. E foi esse lado que. suas macrobióticas. certa raiva. Castello não se atreveu a cumprimentar Caio. que o interessava. apenas para passar em frente ao escritor e poder dar uma boa olhada nele. Uma verdade incontestável. muito misterioso. se alojava em seu lado escuro. para quem a morte foi sempre o grande tema. da poesia de Baudelaire. Castello ficou fascinado pela figura do escritor: parecia um mago. de Rimbaud. Quando ela morreu. no entanto.

. eu pensava que não existia. sofria. era ator. Há quem diga que. como um ladrão. loucamente apaixonado. Atendia pelo nome de Ivan Mattos. a única coisa que não pode fazer é ignorá-la. Caio preferia os homens mais másculos. muitas vezes — porque quem ele queria não o queria. A beira dos 35 anos. Ou que. Não que Caio não se apaixonasse muito antes de conhecer Ivan. Imagino que isso que chamamos de amor. Caio sente essa sombra se aproximando. sofria de amor. não era para mim". mas só de vez em quando. a odeia. Chegou a sustentar três ou quatro casos ao mesmo tempo. Algo assim. gays mais sóbrios. [. começam a ficar doentes. eu estava certo de que não existia. em geral não muito alto — o que não quer dizer que não estivesse perdidamente. Por várias pessoas ao mesmo tempo. em graus de comprometimento variados. além de lançar seu O triângulo das águas na feira do livro.] Eu pensava que não existia. Ele se apaixonava muito. o motivo. Caio tinha um motivo a mais para ir a Porto Alegre em outubro. ". Porque tudo que vivi e senti antes me parece agora bobagem. Caio ficava com vários tipos de caras. esperando o momento certo de entrar na casa.. para se divertir. como Deus. se aproximando. brincadeira. e Caio estava perdidamente apaixonado. ronda. Gays mais espalhafatosos. e tinha uns olhos que mudavam de cor.. escreve a Maria Adelaide Amaral.próprios amigos. e sempre. fala sobre ela. Sofria de paixão. e se revolta contra ela. na noite. e por isso às vezes acabava escolhendo algum que não era homossexual. Sofria de rejeição. ao se apaixonar. Porque quem ele queria gostava de homens. se existia. Porque quem ele queria gostava de homens também. Caio sofria. O motivo tinha vinte e poucos anos de idade. A doença espreita. Havia mulheres. sim. mas não queria compromisso sério. Porque quem ele escolhia só gostava de mulheres. mas para ficar.. às vezes.Também porque aconteceu uma coisa que.. mais viris. as pessoas com quem dividimos casa e comida. E mulheres. Touro ascendente Capricórnio. Caio chegou a namorar sério .

houve algumas mulheres de quem gostou.algumas delas. Caio vivia seu caso com Cacaia. e solidão. Maria Clara Jorge. Houve Maria Emilia Bender." Em muitas entrevistas. em sexualidade. em que o protagonista vai até a casa de alguém. sempre construindo castelos em cima de nuvens. Podia ser uma lembrança da pessoa que o inspirou a escrever a história. já morava em São Paulo. Para uma delas. Houve também Vera Antoun. E decepções. cujo apelido era Pifa. Na época em que escreveu Morangos mofados. e com quem o escritor. Um exemplo é o conto Além do ponto. e a maior parte dos seus contos. Caio sempre repetiu que não acreditava em homossexualidade OU heterossexualidade: acreditava. isso sim. "Me jogou na cama e me estuprou". levando cigarros e conhaque. . ou simplesmente uma forma de expressar carinho. que sua primeira experiência sexual teria sido com uma mulher. Houve paixões. Ele tinha 19 anos. Pessoas se apaixonam por pessoas. Houve homens. pensara em se casar e ter filhos. debaixo de chuva. não por rótulos. mas ela não o deixou falar uma palavra. ansioso. Cacaia era amiga de Graça Medeiros. Ele chega. contou o escritor. que a apresentou ao escritor. ou do amigo com quem viveu fatos muito parecidos. Ele contaria em entrevista à Marie Claire. e bate na porta. ele dedica o livro Morangos mofados. sem que nada no conteúdo do texto justificasse aquela dedicatória específica. desde o início dos anos 70 até o final da vida. Esse tipo de homenagem era constante na literatura de Caio: todos os seus livros. Caio abriu a porta. Embora ele tenha tido clara preferência por homens a maior parte da vida. em 1995. Uma amiga veio até sua casa num domingo chuvoso. são dedicados a alguém. "Foi ótimo. de Morangos mofados. nada mais natural que o livro fosse dedicado também a ela. paixão que aconteceu mais por carta que pessoalmente. Houve mulheres. inclusive. como ele escreveu em vários textos. Houve uma arquiteta. a Cacaia.

mas eu não ia mais indo por dentro da chuva. idéias misturadas. e nas idas de Caio a Porto Alegre. Não sem antes pedir de volta a Ivan as . tão escuro agora que eu não conseguiria nunca mais encontrar o caminho de volta. isso tudo não fascinava Ivan. Foi uma das mais longas relações de Caio de que se tem notícia — durou pouco mais de um ano — e mesmo assim não foi uma relação fácil. eu quis chamá-lo. O lado escuro. de Caio. A peça estava sendo encenada dez anos depois de ter sido proibida pela censura dos militares. os dois se apaixonaram. outra ação. nem tentar outra coisa. que conhecia desde os tempos em que freqüentava o Centro de Artes Dramáticas (CAD). talvez eu tivesse febre. e Caio voltou à sua desastrosa vida afetiva de sempre. Caio conheceu Ivan. se é que ele o teve um dia. mas no final as diferenças — de idade. mas o assustava. e o afastava de Caio. por exemplo — é Ivan. se é que alguma vez o soube. Ele viajou com o escritor para o Rio. E em 1983 a paixão principal — não se pode afirmar que fosse a única. pelo meio da cidade. outro gesto além de continuar batendo batendo batendo batendo batendo batendo batendo batendo batendo batendo batendo batendo batendo batendo nesta porta que não abre nunca. dirigida por Luciano Alabarse. de temperamento — venceram. água de chuva e lama e conhaque no meu corpo sujo gasto exausto batendo feito louco naquela porta que não abria. eu continuava batendo e continuava chovendo sem parar. em que Caio mora no Rio de Janeiro. e tornei a bater. e continuei batendo sem me importar que as pessoas na rua parassem para olhar. porque é mais ou menos nesse período. Para a juventude de Ivan. era tudo um engano. depois do ponto. em Porto Alegre. e bati outra vez. Os dois se separaram. tremores. que ele convive com Cacaia. ele acompanhou a montagem do amigo Luciano. mas tinha esquecido seu nome. tudo ficara muito confuso. ficou alguns meses com ele. os poços profundos onde ninguém entrava. O jovem ator — na época com vinte anos — participava da montagem da peça Pode ser que seja só o leiteiro lá fora.E bati. as depressões de Caio eram um fardo pesado demais a carregar. eu só estava parado naquela porta fazia muito tempo.

com direção de Luciano Alabarse. 13 anos. principalmente com a de Hilda.. frágil e aberto que pessoalmente. ele e Caio ainda namoravam quando o escritor começa a adaptar a obra. Caio era sempre muito mais sensível. como Caio F. às vezes.. Ajudou também o fato de que. de Lya Luft. drogada. estava. Entre os atores escolhidos para atuar em Reunião de família. que já dirigira a montagem de O leiteiro. prostituída. assim como outras escritoras de renome. já sabendo quem seriam os atores de antemão — Luciano os havia escolhido — Caio podia escrever o papel de cada um pensando nas características de cada ator. Caio aproveitou para tentar uma coisa nova em seu trabalho: a adaptação do texto de outra pessoa. nas cartas. um universo cheio de brumas. em 1984. porque assim tinha mais gente com quem trocar correspondência. mais solto. escrito pelos jornalistas Horst Rieck e Kai Hermann. um pouco. era mais engraçado. tímido e arredio. mais derramado. de questionamentos sobre a existência. Christiane F. era discreto.apaixonadas cartas que tinha escrito a ele. de várias páginas. muitas vezes. Ivan. Lya era amiga de Caio. A literatura de Caio tinha vários pontos em comum com a delas. que seria levado ao palco no ano seguinte. em que ele se expunha muito. talvez. como Lygia Fagundes Telles e Hilda Hilst. com medo. Cada . O texto era Reunião de família. talvez. de que aquilo pudesse ser usado contra ele de alguma forma.. Ao vivo. Todas tinham grande apreço por ele e respeito por sua obra. de mistérios. claro. e eram cartas longas. E ele era compulsivo em relação a escrever cartas: adorava conhecer pessoas novas. Nas cartas. Na pequena temporada que passou em Porto Alegre. numa referência à adolescente alemã Christiane F. embora já não estivessem mais juntos quando o texto foi levado ao palco. pelas similaridades existentes entre seu universo e o de Lya Luft. Assinava. Caio escrevia três. A adaptação de Caio foi muito bem-sucedida. cuja história é contada no livro Eu. quatro cartas por dia.

sozinho num verão escaldante. do receio que teve a princípio.. depois de anos. no ano seguinte. todo o lado escuro que. há textos de Lya Luft. é a ele que se refere. a fuga incompreensível de Carlinhos Hartlieb. foram deixando de assombrar." Caio também escreve um pequeno texto para o livreto. assim. mas nossas — minhas e de Caio Fernando Abreu — adquiriam uma nova vida. agora já não unicamente minhas. de volta ao quarto de onde saí para a estrada. mais expressiva ainda que o livro. Mas. nem por isso. a partida súbita de Lígia Averbuck. uma nova dimensão. Embora não cite o nome de Ivan. alude a acontecimentos de sua vida. era pensada para aquele ator específico. senti que aquelas personagens. deixavam de ser aquelas figuras torturadas que habitavam o livro original. No final. Ela fala do medo que tinha de alguém mexer em um texto seu. elogiando o trabalho de Caio.. Decidi trocar este árido Porto pela . Lígia e Ana C. No texto. Acho que Caio conseguiu uma coisa rara: uma adaptação que me pareceu. e a autorização foi dada.] Nas noites. [. ajudaram no sucesso da peça. "Encurralado entre o salto pela janela de Ana Cristina César. todas as horas a morte rondava. Carlinhos. aos poucos. alguns de forma direta. no sobrado de meus pais. outros em linguagem cifrada. em muitas coisas. Os papéis escritos sob medida. Fala do mergulho que deu numa história de amor tão linda que era como se fosse a primeira. além de serem uma oportunidade rara para os atores de teatro. a vida e a dimensão das figuras de teatro. emboscada entre objetos familiares de muitas gerações. numa cidade deserta. Nele. que poucas vezes tinham a chance de fazer um papel que se ajustasse plenamente às suas características e potencialidades. No livrinho que acompanhou a apresentação da peça.fala. Caio mostra algumas de suas obsessões. mas a confiança que tinha em Caio venceu. embora não fosse o único lado do escritor. a fascinação pela morte. no Menino Deus. Lya ficou mais que feliz com o resultado: "Nos diálogos. Ivan alega não ter conseguido suportar.

era Repressão sexual. E o livro de Marilena Chauí. Então colei os cabelos eriçados do punk sobre os cachinhos do arcanjo. E vim à tona com o livro de Marilena Chauí embaixo do braço. que. sucesso. Carlinhos Hartlieb era um importante cantor e compositor gaúcho." Os cachinhos do arcanjo são os cachos de Ivan. Lígia Averbuck era a protetora dos escritores gaúchos. com grupos desconhecidos. Ele chamou a irmã para cuidar da revista. Se a vida amorosa era o desastre de sempre. assumindo minha carajá muito mais paulistana que fronteiriça. autor de Por favor. na época editada por Zuenir Ventura. Carlinhos viajou para a Praia do Rosa. Era a morte. Ela também morreu em 1984.louca Sampa. ainda somos capazes de fazer. com o trabalho de Paula Dip e Antônio Bivar. Um dos donos da Gallery era José Pascowitch. a profissional estava indo melhor que nunca. nas sextasfeiras. que Caio leu por essa época. No dia 3 de fevereiro de 1984. lançara O ovo apunhalado de Caio em plena ditadura. a morte que ele teve que enfrentar para lidar com os demônios do texto de Lya. quando coordenava o IEL. o amor que não era para sempre. Cheio de culpas e amarguras. Descobri dolorido que aquele amor não era especial nem para sempre: trocamos em miúdos pobres as juras de eternidade que. Risco no céu. uma das primeiras do local. no Teatro de Arena. no litoral de Santa Catarina. provavelmente. Nunca se soube exatamente do que ele morreu. Logo depois de gravar seu primeiro disco individual. e que ficou também conhecido por organizar as famosas Rodas de Som: espetáculos à meia-noite. se tornou um dos veículos mais . por acreditarmos em encontros. fazia uns lances para a Gallery Around. Tão juvenis — graças a Deus. Enquanto ganhava a vida trabalhando na IstoÉ. irmão de Joyce Pascowitch. seu corpo foi encontrado na casinha de madeira que construíra. nem sempre Caio estava 100% feliz com sua sexualidade. em Porto Alegre. house-organ da casa noturna Gallery.

O livro era também uma forma de homenagear Clarice Lispector. As frangas é um livro de que Caio gostava muito. que tinha uma paixão também enorme por galinhas — e ovos — e escreveu vários textos a respeito. Caio ganhou várias de amigos ao longo da vida. Caio terminava o roteiro de um longa 35 mm que seria baseado em um conto seu. era escrever a continuação das frangas. A parte que interessava. Apaixonado pelas galinhazinhas. Muito premiado. Além do lançamento do Triângulo. . que ele só conseguia chamar de frangas. ia melhor ainda. o livro deveria se chamar Frangas 2 — a missão. e Caio deu uma força na produção. e tinha no elenco Pedro Wayne. Aqueles dois. O filme. Em uma referência a Rambo. E ele se preparava ainda para lançar o livro infantil As frangas. que morava na geladeira do Caio. foi dirigido por Sérgio Amon. porque assim eram chamadas em sua infância. Beto Ruas e Suzana Saldanha. ligado nas tendências.interessantes da época. depois se tornou redator da revista. Mas isso era o ganha-pão. Filmado em Porto Alegre. e com muita ironia. A história surgiu da coleção que Caio tinha de galinhas pequeninas. cada franguinha do livro é baseada em uma franga de verdade. Assim. antes de morrer. revelando talentos como Barbara Gancia e José Simão. o filme foi o único brasileiro a concorrer ao 11º Festival de Cinema Gay e Lésbico em San Francisco (EUA). em 1986. que aos poucos foi inventando personalidades para cada uma delas. homônimo. no Rio de Janeiro. do sucesso pós-Morangos mofados. no teatro Cacilda Becker. Um dos projetos de Caio. a literatura. Caio começou como colaborador. Caio não teve tempo. pequenos enfeites de geladeira. Além disso. Morangos mofados também estava sendo levado aos palcos. O livro é a história desse galinheiro. em Santiago. da adaptação de Pode ser que seja só o leiteiro lá fora. já que muitas novas surgiram em seu galinheiro depois da publicação do livro. teve pré-estréia em Gramado. A Gallery Around faria escola com seu estilo elegante e sofisticado. em 1987.

ao mesmo tempo. de concluir essa história. revisava livros. Caio volta a São Paulo. Ele a conheceu na noite e adorava conversar com ela sobre a vida. bêbado. escritores. diretores. mas não pouco importante: Caio era apaixonado por rosas. Era apaixonado por jardins e flores. e do fim da relação com Ivan. convidando os leitores a assistir ao seu show. Nas editoras. Caio faz uns free-lances de crítica teatral para a IstoÉ. Apesar de tudo. . Faz também dois roteiros para Regina Duarte. tenta se manter mais reservado. diz Caio. E revisão de originais para a Brasiliense. com uma roseira no pátio. Os dois chegam a sair juntos. duas mulheres respeitadas e famosas. Assim. Quando começou a escrever crônicas para o Estadão. Caio tinha o português ótimo e era um grande revisor. Ele agora quer ficar ali por um bom tempo. Caio era amigo de Regina Duarte e Lygia Fagundes Telles. Caio. decadentíssimo. sempre fã de Caetano. não importava se era famosa ou não. vão a um show de Caetano Veloso ("lindo. Trabalha em um roteiro para Ronda. Caio está envolvido agora com alguns projetos para televisão. de quem se aproxima nessa época. Depois da morte de Ana C. Além do trabalho com a TV. Está cercado de estrelas. que faz a música de abertura da série. que manteria anos depois uma coluna na revista G Magazine. analisado e blasé". Um dos livros que revisou foi Feliz ano velho. começa a trabalhar. Ele não se deslumbra com as estrelas que estão a seu lado. era bom copidesque. adorava Claudia Wonder. diz. no momento. em uma ocasião. em carta a Luiz Arthur Nunes). Detalhe singelo. Ela faz a série Joana. não quer virar "moda besta". travesti paulista. Na casa nova. se a pessoa fosse interessante. Caio chegou a falar de Claudia e seu trabalho. Com a educação impecável que recebera no Rio Grande do Sul. Nos jornais. já um pouco esquecido da loucura que é viver na cidade. agora convive com pessoas que o conhecem. atrizes.entretanto. uma bela casa de dois quartos. uma série sobre São Paulo com Bruna Lombardi e Carlos Alberto Riccelli. Vai morar em uma casa alugada do ator Ricardo Blat.

Então. Uma de que gosta muito é a de Sonhos de Bunker Hill. era um rapaz muito novo e inexperiente. Perfeccionista. Grace Gianoukas. atriz gaúcha. e só foi escrito para contar a história do acidente que. atualizá-lo. Ele é. Feliz ano velho era seu primeiro livro. e ele praticamente teria reescrito o livro. e morava com mais dois . Caio concorda em reeditar. O próprio Caio. e o revisa todo. faz também traduções. um escritor. Corre a história. desde que faça modificações. que foram publicados de forma quase artesanal quando ele ainda era adolescente. A edição sai pela Siciliano. que a história era um exagero. leu o livro em 1982 e se apaixonou imediatamente. para uma nova edição de O ovo apunhalado. só sairá em 1988. publicado no mesmo ano de seu Morangos mofados. ele apenas poliu o texto de Marcelo. Os dragões não conhecem o paraíso. Reedições de seus primeiros livros. fazia Artes Cênicas no CAD. teria contado a amigos. O ovo apunhalado era um livro que já tinha história e fãs ferrenhos. em 1984. começam a ser pedidas pelas editoras. que na verdade ele é que teria escrito o livro. dizia. no entanto. tanto que a literatura fica meio em segundo plano: seu próximo livro de contos. quer mexer no texto. deixara o rapaz para sempre paralítico. que já lançara anteriormente o livro pela Salamandra. ele retoma o livro escrito uma década antes.de Marcelo Rubens Paiva. definitivamente. E um escritor com público cada vez mais fiel. de tantas modificações que foi obrigado a fazer. como Luiz Fernando Emediato. É uma fase de intenso trabalho para Caio. A base fica a mesma. mas é preciso aparar algumas arestas. Caio já pode olhar para trás e ver que construiu uma obra. O primeiro que o fez chorar em muito tempo. de John Fante. corrigir erros. Além das revisões de livros. que. onde trabalha agora o editor Pedro Paulo de Sena Madureira. melhorar o estilo. Aos 36 anos. afinal. Marcelo teria entregado uns rascunhos toscos para Caio. aos 20 anos de idade. autor que admira. Ela estudava em Porto Alegre. pela boca de defensores fiéis de Caio.

Grace não tinha dinheiro para comprar o livro. os atores abraçavam o público. Era do Caio. Ai meu deus. Grace convidou-o para assistir ao seu espetáculo O Acre vai à Rússia... Ele foi muito correto. ela estava sem nada para ler. pelo autor. só para ver o Caio. que estava sendo muito elogiado na época. Meu Deus. Caio vai ao espetáculo. pela primeira vez. mas Grace o viu entrar. apresentou-a ao Caio. No final. Mas Grace era natural de Rio Grande. Já estava tudo escuro. e lá foi ela dar um jeito de abraçar o Caio. mas não lhe deu muita atenção. Um dos amigos que moravam com ela lhe mostrou O ovo. Grace trabalhava em um restaurante de comida natural. lendo e relendo o livro. Em 1984. e numa das visitas que faria à família. os pratos na mão. um espetáculo moderno. quando Caio está morando na casa onde . Passou a semana de visita deitada na cama. Mas foi em frente. Voltou imediatamente. o Caio! O Caio tá aqui. o Caio tá aí. Mesmo assim.amigos do curso de Letras. Um dia ela vinha caminhando. Daí a pouco. entrou na fila de autógrafos. e também trabalhava no restaurante. e ela deu de cara com o Caio sentado em uma das mesas. Caio ia a festas na sua casa. quando abriram-se as portas vai-e-vem. cidade que fica a quatro horas e meia de viagem de Porto. Adorei o espetáculo de vocês. Na época. e desde então se tornaram grandes amigos. o amigo de Santiago que fora com Caio para a Suécia. Grace recebe um bilhete. meu ídolo. encontram-se por acaso num bar. Aí foi aquela festa: Grace foi para a mesa dele. tipo faroeste. ai ai ai! Shell. agradeciam a presença. ai meu Deus. cumprimenta. foi como uma bofetada: apaixonou-se pelo estilo. ela achou interessante. meu ídolo. pelas coisas que ele dizia. de verdade mesmo. Ele passa. não fui ao camarim porque sou muito tímido. irmã de Augusto Rigo. de vanguarda. Tempos depois. eles conversaram um pouco. arrastou Grace pelo braço e a levou até a mesa. mas foi ótimo etc etc. saíam juntos. Em 1983. Quando leu. quando Caio foi lançar O triângulo das águas na Feira do Livro. Dias depois. muito blasé. conversaram de verdade.

Então Caio se justificou. Grace era ainda uma menina. vamos indo embora — responde Caio. Caio deixou entrar. que se mudara para o Rio de Janeiro. já empurrando os senhores porta afora. o lado gentleman. trabalhava no show-room. Todo mundo é Abreu.. onde Grace passou a trabalhar. era garçonete. Caio foi gentil. Tudo bem. Grace disse para voltarem à noite. Clarice Lispector. Disse que Ricardo não morava mais ali. apresentava-a a amigos. Numa tarde. sempre em greve. — Eu também sou Abreu. O Brasil inteiro é Abreu. Um dos homens pediu um copo d'água. Grace decidiu vir morar de vez. Grace não sabia onde se esconder de vergonha. ofereceu sua casa. Quando voltaram.. Aos olhos de Caio. Por essa época. Ezra Pound. Caio foi crucial nesse momento: insistiu para que ela viesse. Grace conheceu James Joyce. Grace só conhecia o lado meigo do Caio. . bem humorado. Orlando tinha um show-room de moda. Os dois se sentaram no sofá. Ele a protegia de todas as formas: lhe dava conselhos. pois ele é que conhecia o rapaz. querendo falar com Ricardo Blat. — O senhor é Abreu? — perguntou um dos homens. a grossura com que Caio tratara os oficiais. Principalmente Clarice Lispector. — Aham. Airton. De dia. em que se hospedaram na casa de Caio. Quando pediram para ir ao banheiro. Depois de uma visita a São Paulo junto com o irmão. Um dia. Ele começou a mudar. A noite. Grace viu os olhos de Caio transformarem-se em fúrias. quando Caio estivesse em casa. A faculdade ainda não terminara. Caio também apresentou Grace a Orlando. apareceram dois homens alegando ser oficiais de Justiça.antes morava Ricardo Blat. disse que Porto Alegre era pequena demais. ela viria a conhecer seu lado agressivo. com quem ele morara na casa da Melo Alves. porém. ainda sorrindo. E vamos indo. mostrava livros que deveria ler. Com Caio. aos vinte e um anos de idade. que adorava sua companhia. mas só entrava em greve. para alegria do escritor. Grace vem morar com ele.

E assim por horas e horas a fio. Paranóia ou verdade. Se anoitece. Comprimidos para dormir. e pedir um whisky doze anos. Um bom whisky. Quando há uma ou duas bitucas no cinzeiro. quando deixa a mesa. Ao alcance da mão. Caio começa a trabalhar fixo na Around. aqueles homens não eram oficiais coisíssima nenhuma. mas usava. plantar drogas para um possível flagrante. pelo mesmo motivo. até os amigos começarem a chegar.Para ele. nas festas. Gostava do que era bom: quando podia. o isqueiro e os cigarros. à esquerda. um bar moderninho de São Paulo. exceto pela pilha maior do lado dos papéis escritos. Caio está fazendo café: é hora de escrever. Um strega flambado. a pequena máquina de escrever. As vezes. ele bate à máquina. Álcool: sempre. impecável. chegava bem cedo ao bar. às vezes. De um lado. sabe-se lá por quê. não usava todo dia. para ficar acordado. quando decidia dormir. o cinzeiro. Caio tinha antecedentes: por duas vezes. Apesar dos gritinhos da mulherada e do ambiente . jogando as cinzas no lixo. No final de agosto de 1984. Tac-tac tac-tac. não via muitos motivos para confiar na polícia brasileira. Às vezes cocaína. substitui o café por Jack Daniels. Não era viciado. Ao final. o da direita aumentando. ele o limpa. ele tinha sido preso por flagrante falso de drogas. escrevia em casa mesmo. de vez em quando. na noite. uma cervejinha. ela está intacta. Gato escaldado. sim. às vezes. Anfetaminas. gostava de ir ao Ritz. Do outro. o montinho de papéis da esquerda vai diminuindo. não tinha nenhuma droga de sua preferência. Usava. a garrafa e a xícara de café. a pilha de textos escritos. Na maior parte das vezes. Ele arruma a mesa. Caio quis mandá-los logo embora. a pilha de papéis em branco. Quando percebeu isso. cinza. sem uma ponta fora do lugar. Caio bebe um gole de café. eram de alguma polícia. Maconha. No meio. fuma um cigarro. e estavam ali para plantar alguma coisa contra o Ricardo. tac-tac-tac. e ficava horas escrevendo. Não que ele não usasse drogas.

com pessoas cool entrando e saindo a todo momento. Esse homem é ou não é um romântico incurável? Um sonhador. através de Maria Emilia Bender. Logo ele. Os amigos é que foram dar uma força.. E achou que tinha aprendido algo com a experiência: ficado realmente adulto. inclusive Caio. seu ídolo. depois de uma noite linda com Pedrinho. e ele costumava visitar a moça no apartamento que dividia com Ruy Fontana Lopes e Reinaldo Moraes.". muito mais velho. em Porto Alegre. falou no assunto por semanas. a última imagem foi a ponta do dedo indicador dele acariciando a ponta do meu dedo indicador através das grades da janelinha do elevador. Não havia quem o ajudasse: o pai já havia morrido. [. estava ajudando a vestir a morta.metido a chique. ele era filho único." Caio conhecera Reinaldo em 1981. de ir ao Rio de Janeiro entrevistar Ney Matogrosso. Ficou impressionadíssimo. ". esse é um trabalho que ele gosta de fazer: dá a oportunidade a ele. no bairro de Higienópolis. De vez em quando. que trabalhava junto com ele na Brasiliense. por mais ironia que tente imprimir às palavras. "A alma? Pode ser.. por exemplo. tão obcecado pela idéia de morte. enterro. O escritor Mário Prata morava no mesmo prédio. Alguma coisa já não estava lá. Reinaldo e Caio participavam de eventos literários juntos. vendo que a fila era . Certa vez. caída no chão da cozinha. Ele. escreve a Luciano Alabarse. que morava perto de sua casa e morrera há pouco tempo. E a voz dizendo que vem a São Paulo daqui a uma. exceto a cantora Elis Regina. quem sabe duas ou três semanas. O escritor Reinaldo Moraes.. como o lançamento de livros e seminários. entretanto. Antes que pudesse colocar a carta a Luciano no correio. Porta do elevador fecha enquanto sobem os créditos. no corpo morto da mulher.. acontece uma coisa que deixa Caio muito impressionado. Cena de cinema. foi visitar a mãe e encontrou-a morta. Caio e Maria Emilia foram namorados por algum tempo. No Rio. que nunca tinha visto ninguém morto. surge também um novo amor: Pedrinho. providenciar caixão.]. autor dos romances Tanto faz e Abacaxis e amigo de Caio.

que morava com ele. para quem chegou a escrever alguns roteiros. deitar-se no espaço mínimo entre a geladeira e a pia e a mesinha e o fogão. mas era divertido mesmo assim. Tancredo Neves fora eleito presidente do Brasil por um Colégio Eleitoral. Ele decide ir morar com Sérgio Bianchi. para discutir a literatura dos anos 80. Conversa vai. na verdade uma quitinete. mas pelo menos era um presidente .grande na frente da sua mesa. mas que não havia ninguém na mesa do Reinaldo. que Reinaldo era ótimo. conversa vem. chegou um casal de namorados que era fã dos dois. tarde da noite. havia um clima de alívio: em janeiro daquele ano. As eleições não foram diretas. No início de 1985. decide ir para uma pensão. mas Caio era leal com os amigos. Se esticasse o braço. porém. e Caio estava acompanhado. ele fica num apartamento pequenino. na rua Augusta — chegaram mesmo a participar da coletânea Contos Pirandellianos — 7 autores à procura de um bar. Os dois compartilhavam a porra-louquice e iam aos mesmos bares. foram juntos a um evento em uma universidade em Londrina. em que a idéia era histórias que se passassem no bar de Antônio Maschi. Na sessão de autógrafos. cineasta. por pouco mais de um mês. chama Grace para ficar com ele na quitinete até surgir alguma coisa. Não queria fazer "república". trombava em alguma coisa. e lá ia ela. Situações engraçadas aconteceram no curto período da quitinete: às vezes. já que o dono da casa não a alugaria para três garotas. Caio. O espaço era exíguo. e mais ainda em relação a Grace. E as mudanças não aconteciam apenas na vida de Caio e Grace. disse ele a Grace e às amigas que dividiriam com ela a casa. pé ante pé. amigo. Antes de mudar para lá. Uma vez. Grace. a farra era grande. Ele pedia para que ela fosse dormir na cozinha. porém. no hotel. No plano político. em 1983. Caio terminou a noite com o menino e Reinaldo com a garota. Caio muda novamente de endereço. Grace chegava do trabalho. Nessas ocasiões. como a maioria pedia. como o Pirandello. Caio chamou os amigos e parentes de lado e dizia para irem.

bem natural). a aids vai chegando mais perto de Caio. Seu vice José Sarney assumiu. foi internado. aí chamei o Sergião que telefonava da sala (Sergião disse: "Agora tenho que desligar porque minha casa tá pegando fogo". Luiz Roberto Galizia. o escritor descreve o episódio. quebrou o pé dançando na festa de vitória do Tancredo. e ele começou a me puxar pra fora da cozinha. observando aquela pêxa grávida no aquário. vejo CHAMAS ENORMES ATÉ QUASE O TETO. Como se a possibilidade de doença não bastasse. mas apoiara os militares até quase o final da ditadura. diretor. queria avançar entre as chamas para DESLIGAR O FORNO (ela não tinha grana para comer e sua maior preocupação era que as coxas ficassem inutilizadas. uma pessoa de quem Caio gostava. ousadíssima. Depois de mais de vinte anos de militares no poder. os demônios. eu esperava pêxes de Pêxes. aos 34 anos de idade. "Sas que ontem. Sarney também era civil. de costas para o fogão. mas os médicos dizem que não é nada. aos gritos de "Vai explodir! Vai explodir! Não joga água que é pior!". Pedrinho. E foi: o tal namorado de Caio. incêndio causado por ele mesmo. Ela estava. no entanto: o presidente morreu antes de tomar posse. isso já era algo a ser comemorado. e Caio já estava morando com Sérgio Bianchi. assando umas coxas de franga. embora nunca tivesse tido a chance de se aproximar muito. Enquanto isso. A paranóia aumenta um ponto. quando eis senão que sente um odor estranho vindo das bandas do dito fogão. autor de poesia. infecções. A alegria durou pouco. mui poeticamente. Caio ainda quase morre queimado num incêndio em seu apartamento. . sas?) Então me viro (observe a mudança espontânea & natural da tercêra para a primêra pessoa) e eis que. Joguei água. Marilene. aftas na boca. atrás do fogão. mui lépida. que não se decide a parir (vão ser arianos. Caio tem umas pequenas doenças. segunda. jornalista. esta Marilene aqui QUASE MORREU QUEIMADA? Estava ela no fogão.civil. Em carta a Jacqueline Cantore. Era o mês de março.

que é simplesmente falar bobagem. Todos eles eram influências tão grandes para sua prosa quanto os ficcionistas que ele amava. principalmente. gemidos. falar asneiras. ele pensava. saiam depressa que vai explodir tudo!". que manteve por boa parte da vida. apagou a vela de sete dias. paulista de alma carioca que era sua amiga. o melhor é rir. poesia também era muito importante na vida de Caio. Bueno.. que escreveu em fevereiro de 1974 e enviou a Vera Antoun: Estavam ali as portas . cheiro de gás. a tremedeira. Marilene foi espiar se a pêxa tinha abortado: raçuda. Que medo!" O episódio terminou bem. mas e o humourt" Afinal. Bom. corremos para o corredor do prédio. Ver filme cinemão de Hollywood. "apaguem os cigarros!" (Marilene correu para seu quartinho e. ao longo da vida. carbonizadas). Adorava a poeta Ledusha. vem com um extintor de incêndio. Duas velhinhas saíam do elevador. Mandou várias em cartas para amigos. ela — continua grávida. Mario Quintana. juro). & LABAREDAS CADA VEZ MAIS ALTAS. o zelador. não tens sequer um cão . Hilda Hilst. Quando não há jeito. Caio também escrevia poesia: escrevia em seus diários. ele vinha sempre com o trecho de um poema de Drummond: "Perdeste o melhor amigo. Junta gente na porta do prédio. e. Uma das velhinhas começa a desmaiar. Justificando essa maneira leve de ver a vida. Enfim. Ele lia Adélia Prado. Como essa. Seu Antônio. Era adepto da "cultura das abobrinhas". Fernando Pessoa. assim como Ana Cristina César. Sergião: "Corram. o extintor apagou tudo: espuma branca por toda a cozinha e toda a sala. sussurros.. Gritos. num sopro. essas coisas. Fumaça.isso é. e Caio o contou da maneira que sabia: com humor. Drummond. Ai. faniquitos.

Estar parado Estar vivo: A mesma incompreensão E medo Entre mim E aquele estar das coisas.Janelas e varandas. Ah Relembro a amplidão dessas varandas intocadas Os pequenos raios de luz Nos vidros coloridos das janelas. E me retorno Ali No imóvel do gesto que não fiz. Estar ali Por estar ali E além de mim 0 que eu não ousava. Como se pudesse Agora Escancarar portas e janelas . Revejo a dura consistência da porta Cerrando seu segredo. Estavam ali Na fronteira do olhar Onde o de dentro encontra Justamente Com o de fora. Nesse ponto exato Elas estavam: Bastava um gesto. Mas o meu estar parado Era maior que eu. Estar ali Como nunca ter chegado.

como eu. manhãs perdidas como tudo que não fui) Mas continuo Ali. Aqueles espaços Permanecem mortos dentro de mim. louco. (pudesse retomar manhãs. Os outros por bebedeira Não saúdes A morte em literatura. Boa negra Voltada para as estrelas Pés de chumbo cravados na lama: O canhão E sua escandalosa metafísica Caio nunca publicou em livro seus poemas. amigo. sem data. infante.Para sair nu pelas varandas Desvairado e nu Profeta. Ou esse. Sair para o vento O sol. Como um corpo que se ama E não se toca. talvez não os levasse a sério. as tempestades. O cheiro de jasmins Entontecendo os quintais. as neves. de 2005. Brincava com . reunido entre os dispersos publicados no livro Caio 3D — o essencial da década de 1980. Talvez não os achasse bons. Não cantes. As quedas de estrelas e Bastilhas.

pensava. Angela Ro Ro. disse em uma entrevista. Fosse o que fosse que o inspirasse. teatro. fazer uma "coreografia verbal" para ela. ele . cujo verso "como é bom poder tocar um instrumento" Caio estava sempre repetindo. música.Mário Prata que poesia era coisa para quem não conseguia chegar ao fim da linha. era de fato inegável. Pode ser Keith Jarrett. Sonhos. ter essa arma para lutar contra as agruras do mundo. disse. Era só sentar e escrever. tudo ia fermentando. até que surgia uma história inteira. Caio chegou a dizer. tudo podia influenciar um texto. "Isso deve ser insuportável. às vezes tentava apanhar no texto o ritmo daquela música. Rolling Stones. Até cachê adiantado estava recebendo: Luiz Schwarcz. Mas a importância de ter lido os poetas. E eu gosto de incorporar o chulo. ele anotava sempre em caderninhos. coisas do dia-a-dia. propôs um adiantamento a Caio para que ele escrevesse um romance. e também para a crítica. e tinha seu público. E o instrumento estava afinado. Como ele gostava de escrever com música. no lirismo. em seus textos. e aparece na preocupação com a forma. Você compreende? Isso não é literário. na exatidão do uso das palavras. E Caetano Veloso. sempre. a idéia para Onde andará Dulce Veiga. Ele adorava essa frase. certa vez. Como era bom poder tocar um instrumento. redonda. E as influências para seus textos não vinham só da literatura: cinema. lidar com um escritor que confessava que o trabalho do Cazuza e da Rita Lee foram influências muito maiores que Graciliano Ramos. Caio já ruminava a idéia há três anos. coisas que magicamente as pessoas vão te dizendo". pouco metódica. amadurecendo. que devia ser insuportável para Academia. frases-ímã. o nãoliterário". Mas as coisas não eram bem assim com Caio. então na Brasiliense. "Eu vou magnetizando coisas no inconsciente. como era bom poder escrever. De forma intuitiva. Muitos de seus contos vêm com o aviso: para ler ao som de.

Galizia já tinha ido. fez quando viu o Caio Fernando Abreu? Gritou: — Jaburú-ú!" . Caio sofre mais uma decepção. os gânglios que tinham aparecido diminuíram. o motor pifou. Ruim mesmo era a falta de auto-estima que às vezes aparecia. S'as o que o Jaburu. Em carta a Jacqueline: "Abobrinha 2 (somente para iniciados): Abobrinha 2a. depois de anos enrolando. As informações ainda eram poucas. Muitos escritores afirmam que o que fazem é captar uma idéia e escrevê-la. do outro lado da calçada. Caio se sentia saudável. a deixar recados na secretária eletrônica. Enquanto não escreve Dulce Veiga para a Brasiliense.tinha seu próprio ritmo. diferenças saltam à tona. Viaja a São Tome das Letras com Pedrinho. Sempre com muito humor. E ser gay ainda era sinônimo da peste. mas lá discutem muito. são simples canais de transmissão da arte. parecia saudável. amigos começam a ligar. preocupados. Queriam ir embora. mas o pneu furou. já então pela Companhia das Letras. Para piorar um pouco mais. E como má notícia sempre anda de mãos dadas. se estou aqui? Abobrinha 2b. e isso só foi acontecer em 1990. Por mais que Caio trabalhasse duro. o texto viria quando tivesse que vir. as pessoas morriam muito rápido. S'as o que o Caio Fernando Abreu disse quando viu o Jaburu do outro lado da calçada? — Como é que estou do outro lado. Baixo astral total. quando. quase uma entidade independente. um ator gaúcho. que por sua vez era ditado pelo ritmo do texto. e os boatos eram infundados — ao menos aparentemente. Caio sabe da morte de Fernando Zimpeck. brigam. mas dava para perceber uma certa tristeza. uma certa carência por trás de suas brincadeiras. escreveu o livro em dois meses e o publicou. mas pelo menos as aftas sararam. Estava rolando o boato de que ele também estaria com aids. tudo errado. E a relação que durara nove meses acabava assim.

Caio abandona a Around — que agora não se chama mais Around. mesmo os que não trabalhavam no jornal. E mesmo que não fossem amigos: ele rodava a baiana sempre que achava que alguém estava sendo injusto. Caio trabalha também na peça A maldição do vale negro. por exemplo. gostava de implicar com o grupo de rock Titãs. Emediato. E Caio estava sempre pronto a defender seus amigos. paladino do Oeste. da literatura. perguntava.Em 1986. havia vários grupinhos: o pessoal do teatro. precisava botar o jornal na rua. Como era um caderno de cultura em geral. Por essa época. era o chefe engravatado e careta. Caio não gostava de receber ordens. Por que essa implicância com os Titãs? Ele. da música. começam a se ver todo dia. O Caderno 2 não era fácil de se editar. mas naquela incômoda posição de chefe e subordinado. Por quê?. talvez. uma alfinetada de leve. que tinham perdido contato. mal-humorado. este era seco. cinema. e sim A-Z — e vai trabalhar em O Estado de S. que adorava o grupo. Havia outros. Emediato tinha se entregado. quando achasse necessário. de se preocupar com horários de fechamento. ele dava um jeito de enfiar os Titãs no meio e fazer uma brincadeira. Paulo. frio. se vendido ao sistema. de cumprir deadlines. pela primeira vez. sempre tão bemhumorado. Vai fazer o que sabe: crítica cultural. o sisudo diário recebia jovens para fazer um caderno do tipo. aos 13 anos de . levava a sério demais a defesa do trabalho e da arte das pessoas que admirava. A peça é inspirada no texto que Caio escrevera. amigo dos tempos de ditadura e jornais nanicos. Em qualquer crônica ou texto. amigo de muito tempo. Emediato e Caio. e o editor é Luiz Fernando Emediato. o suplemento de cultura. uma palhaçadinha. não tinha humor nenhum nessas questões. Emediato precisava fazer tudo isso. agora dividia a redação com ele. Para ele. o pessoal do cinema. se mortificava. É a época da criação do Caderno 2. Caio. junto com Luiz Arthur Nunes. música. Caio tinha sua turma: José Márcio Penido. Ninguém se misturava muito. E quando cobrava resultados de Caio. literatura.

veados. O rapaz entrou na brincadeira. Uma amiga em comum lhe pedira que acomodasse Caio por uns tempos. Escreveram o texto e Luiz Arthur dirigiu a peça. Fã de sua obra. escritores. disse que. a coisa mudou de figura. lésbicas. dirigido por Sérgio Bianchi. Na verdade. Sérgio era.. gente famosa. ele se importava. que foi publicado mais tarde. ele tinha a mãe na zona. mas que topara dividir apartamento com ele. A expressão pegou. Caio e Luiz Arthur passaram todo o Carnaval de 1986 trabalhando e brincando com a idéia de melodrama. Antônio era gaúcho e tinha morado no mesmo bairro do escritor em Porto Alegre. mas quando soube que era o Caio. O escritor e Sérgio. alcoólatras anônimos. às vezes. porém. um rapaz que não conhecia. na introdução de seu livro Mãe na zona. gente anônima. Nesse período. muito intenso. alcoólatras famosos. e mais um monte de coisas sem sentido. Cazuza e ele passaram em um bar. garçonete. travesti. atrizes. porteiro de boate.. e Antônio disse que não se importava. o meio do céu em trígono em Urano. em Ovelhas negras. dona de boate". Foi quando Cazuza interveio e começou a brincar. Caio começara a dar uma de astrólogo e falar do mapa astral de Antônio. em 1989. que ganharia o Prêmio Molière de teatro. mãe-de-santo. Caio escreve também o roteiro do longametragem Romance. Inventou que o Antônio tinha trígono na quarta casa da Lua em Saturno. A idéia para a história surgiu em uma noitada que Caio. para o concurso de redação em sua escola — A maldição dos Saint-Marie. pai-de-santo. Sabia que o rapaz era ariano e que seu ascendente era Libra. onde fica. por vários anos.idade. e Caio também não era uma pessoa muito fácil. finalmente. Vai morar com Antônio Neto. talvez com certo exagero. mas era só. e os três passaram . conta Antônio. O escritor vai então para um apartamento na Haddock Lobo. muito louco. artistas plásticos. guarda-costas. poetas. além da Lua e Saturno e Urano sabe lá onde. vagabundos. achou o máximo ver o desfile de pessoas que se tornou comum no apartamento depois da vinda de Caio: "atores. já tinham desistido de morar juntos. Não sabia as outras coisas.

Breda. e por fim Caio sugeriu que o rapaz escrevesse um conto ou crônica que ele publicaria. Se o amigo havia saído para ir ao banheiro. foi o ator Marcos Breda. três dias sem aparecer. Depois. em uma festa na casa da atriz Imara Reis. porém. "mãe na zona é errar. uma voz cavernosa respondeu: Bom dia. Caio insistia para que o rapaz escrevesse um livro: ele lhe daria toda força. era porque estava vivo. quando voltasse da rua. Ele então bolou um estratagema: espalhou talco no chão entre o quarto de Caio e o banheiro. início de 1987." Outro que morou com Caio nesse período. O problema era que Caio tomava comprimidos para dormir e ficava dois dias literalmente apagado. o que é ter a mãe na zona? Segundo as primeiras frases do conto de Antônio. que era também gaúcho. começar tudo de novo. baseado na obra de Marcelo Rubens Paiva. trancado no quarto. O apartamento era mais movimentado por causa das . No terceiro dia. o conto Mãe na zona saiu na A-Z e fez muito sucesso. chorar e se arrepender profundamente. para fazer uma montagem da Electra de Sófocles.a noite toda discutindo o que era ter a mãe na zona. de Porto Alegre. Antônio tomou coragem e escreveu o livro. que conhecera Caio uns dois anos antes. e foi então que dividiu o apartamento com Caio. e apenas queria ficar sozinho. durante seis meses. O estratagema do ator era bom. dirigida por Jorge Takla. Breda voltaria a São Paulo no ano seguinte. e funcionaria com qualquer outra pessoa. Dois dias depois. ele viu saírem da máquina de escrever vários dos contos do livro Os Dragões não conhecem o paraíso. Exatamente do mesmo jeito. Lá de dentro. o ator tomou coragem e bateu na porta. ou à cozinha. dois. afinal. que seria publicado em 1988. se foder. Ali. podia saber se Caio estava vivo ou morto: bastava ver se havia pegadas. Apenas 19 anos depois. Caio convivia bem com a heterossexualidade convicta de Breda. o talco continuava intacto. Assim. Antônio escreveu. estava em São Paulo para participar do filme Feliz ano velho. E. O ator. O ator também se preocupava com os sumiços de Caio. no entanto.

namoradas que o ator levava que pelos casos de Caio. Por acaso, muitas das meninas que Breda namorava na época eram bissexuais; Caio gostava de brincar com o amigo, dizendo que essa era sua forma de exercitar sua bichice sem culpa. Um dia, os dois vão a uma festa. Chega um amigo de Caio, que começa a dar em cima de Breda. Caio, sarcástico, enterra as esperanças do amigo: — Desista, meu amor. Todas nós já tentamos. É por influência de Caio também que Breda vai morar no Rio de Janeiro, na metade de 1987. Mário Prata estava escrevendo a novela Helena na Manchete e precisavam de alguns atores para certos papéis. Caio, que estava trabalhando com Prata em uma novela de José Wilker que acabou não se concretizando, indicou Breda, e lá foi ele. O ator foi para o Rio e não saiu mais. Representou em adaptações de algumas obras de Caio, como O homem e a mancha, no teatro, e Sargento Garcia, um curta. Em 2004, viria a participar, dessa vez como ator e também co-produtor, junto com Camila Pitanga, da remontagem da peçav4 maldição do vale negro, com direção de Luiz Arthur Nunes. O livro que Breda viu nascer enquanto morava com Caio, Os dragões não conhecem o paraíso, é provavelmente o melhor trabalho do escritor. Os contos apresentam uma unidade temática, segundo Caio nos diz, em uma pequena introdução. É um livro sobre amor. São treze contos, e não à toa — treze é um número cheio de significados místicos, mágicos, para quem acredita nessas coisas, e ele acreditava. Já na primeira história, Linda, uma história horrível, ele aborda o tema que o afligia: a aids. Sempre usando elipses, sem citar o nome da doença ou do vírus que a causa, ele fala dos sinais, da degradação do corpo. Um homem vai visitar a mãe. Doente, e pressentindo, talvez, seu fim, ele chega sem avisar, e encontra a mãe envelhecida, junto com a cadela também idosa, Linda.

— Mas vai tudo bem? -Tudo, mãe. -Trabalho? Ele fez que sim. Ela acariciou as orelhas sem pêlo da cadela. Depois olhou outra vez direto pra ele: — Saúde? Disque tem umas doenças novas aí, vi na tevê. Umas pestes. — Graças a Deus — ele cortou. Acendeu outro cigarro, as mãos tremiam um pouco. — E a dona Alzira, firme? Um por um, foi abrindo os botões. Acendeu a luz do abajur, para que a sala ficasse mais clara quando, sem camisa, começou a acariciar as manchas púrpura, da cor antiga do tapete na escada-agora, que cor? -, espalhadas embaixo dos pêlos do peito. Na ponta dos dedos, tocou o pescoço. Do lado direito, inclinando a cabeça, como se apalpasse uma semente no escuro. Depois foi dobrando os joelhos até o chão. Deus, pensou, antes de estender a outra mão para tocar no pêlo da cadela quase cega, cheia de manchas rosadas. Iguais às do tapete gasto da escada, iguais às da pele do seu peito, embaixo dos pêlos. Crespos, escuros, macios. — Linda — sussurrou. — Linda, você é tão linda, Linda.

Em todos os contos, o escritor aborda seus temas preferidos: o estranhamento, a solidão, a dor. Seus personagens vão envelhecendo com ele. Sempre jovens em Inventário do irremediável, agora há homens de 40 anos — como o próprio escritor. O estranhamento que sentiam em relação à cidade grande, muito forte em seus primeiros contos, agora já é aceito pelos personagens, que, mesmo solitários, vislumbram esperanças. O texto do escritor está em sua melhor forma, e isso foi reconhecido: Caio ganha seu segundo Jabuti por Os dragões. A repercussão do livro ultrapassa as fronteiras continentais e chega à Inglaterra, onde John Gledson, o maior especialista inglês em literatura brasileira, escreve uma crítica muito elogiosa para o Times, de Londres. Essa crítica abre portas para Caio: tradutoras e agentes foram procurá-lo; há interesse em publicar Os dragões em francês, em italiano, em alemão. A carreira internacional de Caio começa aí, e ele

não vai perder nenhuma chance de conseguir dar certo lá fora. Até porque isso significa viajar: Inglaterra, França, Alemanha... Dar uma descansada do Brasil. As possibilidades são imensas, mas não assim, imediatas — Levaria tempo até que as coisas se ajeitassem, contratos, ajustes: Caio só viaja para a Europa no final de 1990. Enquanto a viagem não chega, ele acerta algumas contas consigo mesmo; depois de cinco anos de espera, é a hora, finalmente, de se descobrir Onde andará Dulce Veiga.

CINCO

— Eu deveria cantar. Caio está numa fila de banco, esperando sua vez. De repente, lhe ocorre a frase: Eu deveria cantar. Ele corre para casa, excitado. O começo! Ele tem o começo. E todo o resto. A idéia, dele e do cineasta Guilherme de Almeida Prado, já existia há uns dez anos, os rascunhos já tinham uns seis, o quase-adiantamento para escrever já datava de uns quatro anos. A idéia inicial era inscrever o roteiro do filme em um concurso e depois escrever o romance. No entanto, apesar do roteiro estar terminado, Dulce Veiga não saía. Recusava-se. Os dragões desistiram de esperar, furaram a fila e foram publicados antes dela. Mas a idéia para a primeira frase — a singela "eu deveria cantar" — detonou o processo criativo. Tudo aquilo que Caio vinha maturando há anos resolveu sair à tona, com várias mudanças em relação ao roteiro feito a quatro mãos com Guilherme. Em dois meses, terminou o livro: escrevia dez, doze horas por dia. Das duas mil páginas que tinha escrito, no total, tirou umas duzentas. Escrevia, escrevia, escrevia. Resultado: um belo desvio na coluna. Além do livro pronto.

por mais que os pés doessem. Ele era a mulher dos sapatos vermelhos. Os anos 70 foram todos dedicados ao conto. cercada de homens por todos os lados. Márcia escrevia sua versão da Branca de Neve. Enquanto ele escrevia Dulce Veiga. a fabricar romances.O processo é o mesmo que acontece a uma amiga escritora. loucos. não era coincidência. Ambos precoces. cabelos lisos. que os publicavam. uma aventura no terreno do romance. com o impulso para o nocaute que um conto deve ter. algo mais trabalhado. Alter ego literário: Diana Marini. ela loira. ela também se arriscava a um texto maior. Havia revistas e jornais literários. Beldades perversas. que circulavam. alto. que realmente eram lidos. por Paulo Francis. era uma exigência do mercado mesmo. Talvez houvesse uma necessidade de provar que se conseguia fazer algo de maior fôlego. depois de tantos anos escrevendo contos. Clarice Lispector e Lygia Fagundes Telles: ela. que ele só praticara uma vez. a devoradora de homens. Nos anos 80. quando se trombaram em algum lançamento de livro pela cidade. rosto de boneca. também de dez a doze horas por dia. Eram amigos. mais pragmaticamente. loira fatal. A mulher com pinta de fatal. com Limite branco. Ela era a Branca de Neve. escrito mais com a cabeça e menos com o coração. Ambos belos: Caio com seu jeito de Quixote. Márcia Denser. aos 18 anos de idade. a preferida de Paulo Francis. cercada de anõezinhos. que conseguiu conquistar três homens com seus sapatos. Márcia era amiga de Caio desde os anos 70. mas a maioria dos escritores brasileiros da época — estarem decididos. ambos com aquele quê de malditos. Enquanto Caio escreveu Sapatinhos vermelhos. a Diana caçadora de seus contos. E. sem papas na língua. com . uma questão da época. apadrinhados desde cedo por grandes nomes: ele por Hilda Hilst. ficaram amigos. e ela o escreveu em pé. o infantil A ponte das estrelas. O fato de os dois — e não só eles. ela estava sempre no apartamento dele. muitos deles nanicos. numa tentativa de não engordar demais. uma releitura para adultos do conto de Andersen. Márcia e Caio.

de Dulce Veiga. de algum lugar no interior do apartamento. um escritor urbano. vocalista de uma banda punk. cantora muito popular que desaparecera vinte anos antes. O filme é estrelado por Betty Faria e Odete Lara. O narrador de Onde andará Dulce Veiga é um jornalista. tantos anos atrás. Dão a ele a tarefa de encontrar Dulce Veiga. um a um. As editoras começam a preferir romances. e rebatiza a cantora. Entremeando a história. Dulce Veiga. foi com Dulce. Márcia Felácio. mas também Odete Lara. com Dulce. mas estou certo de que nessa ou na outra vez perguntei quem era e ela disse que era Billie. conhece a filha dela. não era uma invenção de Caio. A busca de Dulce Veiga significa mais para o narrador que um simples trabalho. agora sim. acabam os nanicos. por exemplo. A busca de seu passado. Em 1974. na gravação de Billie Holiday. um amor que foi embora. que foi amiga de Caio. e poderia ser também Glad to be unhappy. nem todos com o mesmo sucesso de crítica que seus livros anteriores de textos curtos. Caio homenageia não só Marques Rebelo. uma boa matéria: é a busca de si mesmo. e assim um veículo por onde escoar tanto texto curto. que nos anos 30 escreveu A estrela sobe. porque o leitor médio está mais acostumado com eles. Naquele tempo eu não as conhecia. Ele segue as pistas. Tudo isso que agora parece clichê banal. Assim. he calls me. Rubem Fonseca. grande contista. e eu anotei. ainda chamada Dulce Rodrigues. a cantora. há as menções a Pedro. Os enigmas vão se resolvendo. ao escrever sobre Dulce Veiga. Quem a criou foi o escritor Marques Rebelo. naquele . que aliás é personagem do livro. Sophisticated lady ou qualquer outra dessas canções roucas. como ele. Bruno Barreto faz a versão do romance para o cinema. como personagem. viessem os acordes iniciais de Crazy. tão aplicado. gemidas.o fim da ditadura. um amor do narrador. afinal a primeira entrevista que fez quando chegou na cidade grande. Não estou absolutamente seguro que. publica vários romances nessa época.

assim como Pedro teve. Depois gritou qualquer coisa que se esfiapou no ar da manhã. apenas o indicador apontado para o alto. no final. O narrador começa a cantar. e por isso foi embora. acontece. feito seta.tempo — repito e não me canso. que ficou como se tivesse sido. Ela o faz encarar seus gânglios. e se compreende. diadema — que tinha entre os cabelos louros. Uma arara pousou na árvore perto dela. Ela ergueu o braço direito para o céu. E começa a cantar. A busca de Pedro é a busca de aceitação do presente. Dulce Veiga estava parada na porta da casa. eu nem suspeitava das marcas pelo caminho. Ele faz. Pisquei. para viver de acordo com os preceitos da seita Santo Daime. quando se descobrisse. O encontro com Dulce. ao lado do cachorro. O narrador tem aids. pois ainda não sabia que estava doente. pois mesmo que não houvesse nada e o silêncio do apartamento fosse cortado apenas pelo ruído dos carros na avenida São João. e cita a doença nominalmente. porque é belo e mágico na sua melancolia: naquele tempo — tudo era novo. Afirmo que havia música. E ela que dá nome aos bois. mas a possibilidade de um novo começo. a mão fechada. e ele vai embora. tantos anos depois. ofuscado. mas não é nada do que se esperava. Ela lhe dá um gatinho de presente. Finalmente se aceita. A doença não é o fim. a jovem cantora. . Caio intui em Dulce Veiga o que seria a sua postura. Parecia meu nome. Os primeiros raios do sol faziam brilhar aquela estranha coroa -tiara. soropositivo: descoberta da possibilidade de vida. repito: seria tão perfeito se fosse exatamente assim como penso que lembro. seus sinais. finalmente. que nada e nunca. assim como tem Márcia. Sem querer. afinal. há um choque. Toda de branco. o que deveria ter feito no começo. Não há mistério: ela apenas se tinha recolhido a uma cidade do interior. sem medo de mentir. enfim. lá embaixo — mesmo que não. o gatinho chamado Cazuza.

e foi um dos mais indignados com a capa da Veja que expunha uma foto de um magro e pequenino. como Vai Improviso. perdeu muitos deles. odiava boates e saunas exclusivamente gays. em que se desmerecia o trabalho do cantor. foi Cazuza. A tal manchete foi uma confusão. sempre que fosse falar de aids. o final e a manchete problemática seriam responsabilidade dos editores. se admiravam.Bonito. afirmando que escrevera uma matéria equilibrada. com a manchete: "Cazuza: Uma vítima da aids agoniza em praça pública". Iam juntos a bares trash. mas Caio preferia esse bar aos chamados guetos gays. Muita gente não encarava. e ficou em seu canto. a admiração que sentia pela forma . porém altivo. Cazuza dedicou Só as mães são felizes a Caio. O bar era o que se podia chamar de barra pesada: tiroteios. vai até o camarim e dá uns bons amassos no amigo. do travesti Andreia de Maio. Viajou até o Rio para o enterro. Caio chorou potes. e da maneira de lidar com ela. esse é o nome do gatinho com que Dulce presenteia o narrador no livro. chorando. mais choradas. Desde então. agarramentos de bastidores. Apareceu com uma coroa de flores enorme. E eu comecei a cantar. Cazuza. chorando. Vários artistas e intelectuais elaboraram e assinaram um manifesto contra a revista. citaria o cantor. era meu nome. Quando Cazuza morreu. que ficou todo orgulhoso. Mas estamos em 1989. Caio odiava esses guetos. e o final da matéria também. No final do show. Caio ainda não teve coragem de fazer o que ele chamava de O Teste. dizendo que ele não era gênio coisíssima nenhuma. em um show. Uma das perdas mais sofridas. Ele via seus amigos sofrerem. A jornalista que fez a entrevista se demitiu. Cazuza e Caio foram amigos. Certa vez. Tiveram até um pequeno rolo. Não em vão. namorico. Eles se gostavam. tráfico de drogas. Caio sofreu muito ao acompanhar a decadência física do cantor.

Renato já cruzara com Caio pela noite de Porto Alegre. arrogante. por uns tempos. saiu uma coletânea de seus contos chamada Mel & girassóis. Na conversa de bar. que ainda não era o aclamado diretor de cinema. novas adaptações de Morangos mofados: já tinha havido a primeira. De um humor negro. com ele não havia tempo ruim. Antes dessa época. dizia Caio. mas engraçado. anos depois. amigo querido que também viria a morrer de aids. em 1983. depois de passarem a noite bebendo) ? Vamos. Vamos beber? Vamos pegar um michê? Vamos comer churrasquinho (às sete da manhã. para dizer em uma palavra. séria. andou pelo apartamento de Caio o ator gaúcho Renato dei Campão. Caio ia tocando a vida. Renato descobriu também o lado temerário de Caio. um programa de crítica literária na TVMix. dirigida por Fernando Meirelles. Renato não atuava na peça. Foi mais uma das grandes perdas quç assombrariam Caio até o fim de seus dias. dizia Campão. E agora era montada uma na Bahia. que já conhecia o escritor desde a primeira montagem de O leiteiro. Apresentou. Afora as tristezas. Era isso que Caio apreciava nele: sua disposição . pela editora Mercado Aberto. mas estava sempre com o grupo. como o fora a perda de Ana Cristina César. No apartamento da Haddock Lobo. Era nessas aventuras que Renato o acompanhava. o lado que gostava de ir a bares barra pesada. Vamos. uma programação da TV Gazeta. fechada.como ele encarara a doença -aberta. em Porto Alegre. respondia Campão. feita por Paulo Yutaka. freqüentados por personagens do maior submundo da noite. é que Renato descobriu quão engraçado Caio podia ser. os amigos continuavam a aparecer. No teatro. negríssimo. pronto para qualquer coisa. Vamos pegar pó?. Luciano Alabarse também fizera a sua. tentando eliminar os preconceitos. uma estudiosa da obra do autor. Na literatura. organizada por Regina Zilberman. mas tinha um certo medo dele: o comentário geral era que o escritor era uma pessoa extremamente intelectual. Em 1989.

até na relação com os fãs. e menos de um ano depois de ter saído de Porto Alegre. Renato voltou. o apartamento de Caio era um lugar agitado: visitas a toda hora. e a secretária eletrônica com os recados mais ilustres: Caio. Ele diz ter presenciado uma cena. e vinham falar com ele. ele convidara o ator para se hospedar em seu apartamento em São Paulo. prometendo arrumar um emprego na capital paulista para ele. e continuava encostando em Caio. de vez em quando o mau humor o dominava. Renato presenciou algumas cenas em que Caio. admiravam sua obra. enquanto conversava com Campão. amigos vindos de todas as partes. o lugar lotado. uma garota veio dizer que . bêbado. Uma vez. O escritor teria se irritado com aquilo. no bar Líder.para aventuras. Atrás dele. que não sabia manter o próprio traseiro no lugar. Ela não deu bola. Calmamente. Por mais que adorasse ser lido. Ele continuou tranqüilamente a conversa. levantou-o atrás da cabeça e ateou fogo nos longos cabelos da inconseqüente figura. A mulher se pôs a gritar. uma vez em Porto Alegre. o emprego para Campão nunca veio. mergulhou em uma de suas muitas crises depressivas. talvez com medo de uma atitude ainda mais agressiva. Mesmo com tantos contatos. empolgado com o assunto que discutia. havia uma mulher de cabelos compridos. Em 89. o escritor acendeu o isqueiro. me liga. Algum tempo depois. Caio gesticulava e falava alto. Nessa época. Muitas meninas e meninos o assediavam. em 1987. em Porto Alegre. mas nada aconteceu a Caio. Por ser amigo mais de farras noturnas. Ele e o escritor estariam conversando animadamente no balcão. e em certo momento virado para a mulher e dito: sai daqui. de vez em quando. ele decidiu. Caio se enrolou. A agressividade de Caio vinha à tona. aqui é a Regina Duarte. Mais uma vez: tu não vai sair daqui? Como a mulher não saía. que volta e meia batia sem querer a bunda em Caio. e ela nada fez em represália. armava barracos escandalosíssimos. ele viraria de novo: tu não vai sair daqui? Ela nada.

Déa era divertidíssima. no entanto. A resposta veio rápida e ríspida: — Não quero fãs. Déa presenciou a briga de Caio e Ivan. e os dois se juntavam sempre para falar bobagens. quero amantes. E na noite. Caio chegou bêbado em casa. em outro período. era preciso mesmo um pronto-socorro emocional de vez em quando. bem. Caio deu um tabefe em Ivan. e também para fazer loucuras. apaixonado por alguém. dessa vez para sempre. como dizia. enquanto o escritor se corroia em culpa. na loucura. adorava Caio. Todos esses conflitos Caio discutia com seu terapeuta. ele estava sempre se apaixonando de novo. de vez em quando tinha uns surtos de galinhagem. que ele conhecera poucos anos antes. Houve alguns casos até duradouros. e ele e o amigo Luciano Alabarse saíam do cinema. Moraram juntos por alguns meses — agora bons amigos. inclusive um que ele mencionaria mais tarde. Um bailarino. Também. uma produtora de eventos também gaúcha. que ficou magoadíssimo e foi embora no outro dia. apenas — até que o gênio de Caio e o temperamento de Ivan se trombassem de vez e os dois brigassem feio. que era impossível saber como Caio contraíra a doença. . afirma Caio na entrevista. Porque por mais que dissesse que aquele tal era o último amor. Os amigos afirmam. e que morrera em 1989 em decorrência da síndrome. de novo. ele não se descuidou mais. E quebrando a cara. também foi morar com Caio por uns tempos Ivan Mattos. sofrendo uma desilusão amorosa por semana. namorado do início dos anos 80. Fazia um frio enorme. Ivan estava no apartamento. Ronaldo Pamplona. por causa da menção do escritor de chamar um michê pelo telefone. porque. às vezes. E de novo.era fã de Caio. Em 1989. o ator. como sendo a provável pessoa de quem ele pegara aids. embora fosse recatado a maior parte do tempo. ele e a amiga Déa Martins. sem dar mais notícias. Desde então. numa entrevista à Marie Claire. A terapia o ajudava demais. uma pessoa conhecida que viveu na Suécia.

/ Ching. O jornalismo até que servia para alguma coisa. bem. ligado ao movimento do teatro besteirol que surgiria depois. Uma das pessoas que influenciou Caio a tentar o Santo Dai-me foi Vicente Pereira. talvez mais que a fé. Enfim. crença em algo maior. através dos rituais mais variados. Além da terapia. que virou moda entre os intelectuais e artistas do Rio e de São Paulo no final dos anos 80. Primeiro. Embora não fizesse o teste. era uma forma de tentar contatar a divindade. Falava sempre com sua mãe-de-santo. Caio continuava a manter sua espiritualidade viva. que participara dos rituais originais na Amazônia. de aids. anos depois. O Daime é uma substância alucinógena. afinal. ele chegou a freqüentar também o Santo Daime. depois. Era seu melhor amigo. A beleza dos rituais o fascinava. no Rio de Janeiro. pela beleza do ritual. não por acaso. que aquilo era apenas seu corpo colocando as inseguranças para fora. Sônia. um herpes-zóster. D. Caio a entrevistou exaustivamente para saber como era tudo. e usou essas informações no livro. O Santo Daime está presente em Onde andará Dulce Veiga.bêbado. dramaturgo. é difícil afirmar que ele se protegia sempre. e assim ele seguia vivendo. cantora e amiga de Caio. Vicente tinha uma forma de encarar as coisas . Quando Vicente morreu. os melhores que se pode haver. o livro é dedicado a Cida Moreira. E assim. de uma certa forma: o mesmo humor. amigo e parceiro de trabalho de Mauro Rasi. ficava paranóico sempre que aparecia alguma pequena doença. em torno da qual se formou uma seita na Amazônia. e Caio tentava. Vicente foi um dos autores do famoso programa de humor TV Pirata. Eram almas gêmeas. Quem participou do ritual original afirma que o que se fazia no Rio era uma imitação tosca do que acontecia nas selvas amazônicas. As pessoas diziam que era paranóia dele. Caio diria que sua ausência era a mais dolorida. seu grande colega. Jogava taro. Ele e Caio foram grandes amigos. a mesma espiritualidade. uma infecção nos ouvidos que não sarava nunca. a mesma forma de encarar a vida.

acreditava que quanto mais desse. José Márcio fez a ponte. vivia esse desapego. dizia que ele era a sacerdotisa do Daime. Não poderiam deixar de ser amigos. Sacerdote. Era só o Vicente entrar em alguma seita. Era assim que ele era. um anel. Caio. com algum cargo ou posto importante. Estava sempre trabalhando. filosofia ou religião e. você precisa conhecer o Vicente. como turista. acumular bens. eles já se conheciam dos relatos dos outros. credo. no minuto em que se encontrassem. dava constantemente presentes aos amigos. A relação de Caio com essas coisas era sempre mais descompromissada. E Vicente também. eu estarei no meio delas. por muito tempo. empregos. Há uma frase de Vicente. tão repetida por Caio. E assim foi. já estava comandando as reuniões. um livro. que muita gente chega a achar que é dele: "Quando duas ou mais pessoas estiverem reunidas em nome de Deus. quando menos se esperava. Amigos até o fim. Não fazia parte de seu temperamento se comprometer a fundo com as coisas — namoros. e sempre sem dinheiro. José Márcio Penido dizia: Caio. comprar um carro. uma pintura. ele podia virar e se oferecer para pagar a conta de todo mundo no bar. estava sempre como visitante. Mas sempre com um decote bem profundo. mais retornaria a ele. Por um lado. fazia copidesques. Ele não assumia que fazia parte da seita." Caio brincava com Vicente. free-lances. E ao Vicente: Vicente. um apartamento. também ligado ao teatro. dava oficinas de criação literária. sacerdotisa. se adorariam. Com essa filosofia. Era um sucesso como escritor. Sabia que. influenciou pelo menos mais uma pessoa: Miguel Falabella. quando o conheceu. e estava sempre sem dinheiro. dois meses depois. Generoso. mas era assim que ele era: não conseguia juntar nada.voltada ao desapego: não acumulava coisas. talvez não de forma consciente. você precisa conhecer o Caio. traduções. talvez não como filosofia de vida. entre os dois. religiões. A semelhança era tão óbvia que as pessoas em volta percebiam. Muito antes de Caio e Vicente se conhecerem pessoalmente. isso era triste: lhe dava uma solidão .

um ruivo. e muita gente também. mas a direção do JB acertou. trinta anos mais tarde. Vou perguntar pela última vez. Falava de um menino. Segundo o escritor. em 1990. E como Caio queria ir para a Europa. [. enchendo-o de ouro líquido. Quase como se adivinhasse o que viria depois: a roubalheira. sairia por sua boca escolhida . mas ele nunca chegou a sair. — Daqui a trinta anos. Aquilo desanimava Caio. Foi publicado depois pelo jornal alternativo Verve.tremenda.. o impeachment. O texto era um conto.. Se fez bem ou não em não publicar o texto. anos mais tarde. para lançar seus livros.. — Para possuir todos. quando Caio decidiu ir para a Europa.. E num movimento mais brusco explodiu dentro dele. — Mais fundo-pediu. Tudo isso. Fernando. meu bem-amado — o menino ruivo gemeu. e Caio o republicou. O menino Fernando faria um acordo com o diabo para dominar a todos. às vezes. Márcio Souza escreveria o de Lula. E assim foi. Collor tinha ganhado as eleições. Aquele mesmo que. Antes do segundo turno da eleição. o Jornal do Brasil pediu a Caio que escrevesse um perfil de Collor. como sempre. Fernando. que tinha um encontro com um outro menino. não eram fáceis. Dentes agudos picaram seu pescoço. em afirmar: era ofensivo. Os tempos aqui. E curvando-se mais: — Pense bem. você quer? Ele voltou a cabeça até mergulhar os olhos no verde sem limites dos olhos dos outro.] — Você é o escolhido. Fernando. Caio escreveu o texto. em 1989. Por outro. sim. não dá para dizer. você foi o escolhido — o menino disse. em Ovelhas negras. foi considerado ofensivo demais pela direção do jornal. com todas as características de ser o demônio. ao menos. os caras-pintadas. E tinha que ser. a liberdade que tinha lhe permitia ir aonde fosse sem dar satisfações a ninguém. se pudesse. E aceitou: — Quero. diria Caio.

Clarice lhe sussurrava no ouvido. em março. e lá estava o Caio procurando emprego de garçom. ele não tinha dinheiro nenhum. Quarenta e dois anos de idade. sua barbinha. Caio foi correr atrás de lugar para morar e emprego. para o jornal The Independent. até o lançamento da edição francesa do livro. O quixotismo dele estava presente em seus ideais. mas ele continuava lutando. Às vezes. combatia moinhos de vento. em algum lançamento). para conseguir passar mais um tempo na Europa. quase dezembro de uma segunda-feira. Foi notícia por lá: deu entrevista para a revista Time. Na ida à Europa. e também na maneira trôpega de lutar por eles. ideais nobres. Se . uma tradução inglesa. Clarice Lispector. nove livros publicados. que só aconteceria dali a quatro meses. Caio finalmente viaja à Europa. — Como é seu nome? — perguntou então. um rei. Em novembro de 1990. a maneira errada. Só imaginou. Quixote de La Mancha. Um deus coroado pelo lado mais negro de todas as coisas. Astaroth. e a chance de sucesso parecia ser zero. desajeitada. 0 menino ruivo tinha desaparecido ao sol do meio-dia em ponto. nem imaginava o quanto o termo colaria em Caio. Molhou as pedras num jato prolongado de prazer-o primeiro.para chover sobre as cabeças e corpos de todos aqueles homens e mulheres que o aplaudiriam como o cavaleiro andante. Vai a Londres lançar a tradução inglesa de Os dragões não conhecem o paraíso — Dragons dont go to heaven — em uma feira de cultura brasileira. Por essas e outras é que a figura de Caio é tão associada a de D. Depois de divulgar seu livro. para a rádio BBC. dia de Exu. que primeiro lhe deu o apelido (você é Quixote! Você é Quixote!. nas pedras do Arpoador. para a Time Out. e provavelmente pensando em sua aparência. imaginou ouvir. enquanto ele autografava livros. de lealdade e busca de um mundo melhor. lhe assentaria bem como uma roupa feita sob medida. ao seu lado. viajou com a passagem que havia ganhado do prêmio Molière pela peça A maldição do vale negro. um príncipe.

que tudo é perigoso. bastard: para nigrinhos. ". a única diferença é que na Inglaterra as pessoas sofrem a crise com mais estilo. com sua inabilidade em lidar com questões materiais. "Em cima. não tinha nenhum dinheiro guardado para segurar a barra nessa hora. foi até o rio Ouse. mora num bairro negro. Isso é FUNDAMENTAL. como Caio o descreve. Não sei para onde. Ele sente que os tempos são difíceis. Algum lugar onde eu possa plantar rosas. essa ele chamou de Dorothy. em março de 1991. Ray. assim. uma negrona grita o tempo todo fuck you little devil! I’ll kill you. onde ela se matou. uma SmithCorona. Eliot. Enquanto isso. quixotescamente. pegou uma pedrinha do jardim dela. depois. um subemprego qualquer. Caio estava feliz: visitou a casa onde morou Virgínia Woolf. sempre sem acentos — o teclado era britânico. Seguindo o costume de dar nomes às suas máquinas de escrever. por uma pechincha. queria demais começar a providenciar uma mudança de São Paulo. Quero porque . Escreve a Magliani: "Depois desta. ele fez alguns free-lances para jornais no Brasil e. teria que batalhar um emprego. quando voltar ao Brasil. como São Paulo era. Em Londres. além de ver muitos filmes e ler muitos livros — seu inglês vai se soltando mais e mais — Caio fica na espera dos compromissos que tem a cumprir: algumas leituras e palestras na Inglaterra. um casacão de soldado alemão no mercado de Camden.S. Caio fica uns tempos na casa de Ray. No fim das contas. escreve a Jacqueline Cantore. seu editor na Inglaterra. ele sonha. com a qual passou a escrever cartas aos amigos.quisesse ficar lá. Em Londres. mas me soam mais para David Lynch do que para T. o lançamento da edição francesa de Os dragões. Comprou um casaco. que seria seu companheiro por anos. fez sua carreira internacional. um irlandês. Grita mais coisas que não entendo. o Brixton. Comprou uma máquina de escrever usada. já que. uma espécie de Harlem londrino.

ele achava tudo frio demais. Caio pode parar e olhar ao redor e ver que os problemas. Em Londres. com o título — já modificado por Caio — de Estranhos estrangeiros. em Porto Alegre. E o descreve muito bem. finalmente. dos clichês que se costuma apregoar do país. um homem sem lugar. Com todas as crises e dores e terceiro-mundismos. Caio ama e odeia o Brasil. afinal. e não só em outras cidades. o Brasil urbano. Como no trecho seguinte. na mesma carta. diferente. Mesmo aprendendo a gostar do Brasil. acima de tudo. Porque ele era. um gaúcho da fronteira. postumamente e incompleto. o seu Brasil. violento. quando o livro for lançado lá: o retrato de um Brasil urbano. não estão em Santiago." Nessa carta. Assim que aceita sua condição de eterno estrangeiro. em São Paulo ou Londres. nunca saí de Santiago do Boqueirão". Em São Paulo. Assim. pode aprender a amar o lugar onde está. "No fundo. Seriam histórias sobre a condição de ser um estrangeiro. e Caio começou a perceber que ele seria. mas respondi com um grunhido. sentia que a cidade o sufocava. a amar o Brasil. O livro viria a ser publicado. ele conta ainda à amiga que planeja escrever um livro chamada Histórias estrangeiras. E é isso que encantará os franceses.quero cultivar roseiras. E é assim que Caio começa. Havia sempre um motivo para não gostar do lugar. era a Europa. não agüentava o moralismo das pessoas. a confusão está é nele mesmo. sempre. mas no mundo. apesar de todos os pesares. em Onde andará Dulce Veiga. a violência. em que a metrópole é o pano de fundo para suas lembranças: O motorista japonês tentou puxar conversa. um estrangeiro. apesar de todos os defeitos. das grandes cidades. um estrangeiro. Sobretudo ama. pela Companhia das Letras. quando se achava que tudo estaria bem. afinal. Em Porto Alegre. ele jamais deixaria de ser um gaúcho. talvez. ele desistiu depois de comentar que ia cair a maior água. a poluição. a Magliani. mas também poético. estendi . escreve. Afastei o banco para trás.

surgiu da idéia dos dois para um filme. rezei para que não sintonizasse num daqueles programas com descrições hiper-realistas de velhinhas estupradas. era roqueira. cineasta. Caio começa a sonhar alto. secando o suor. muito maluca. por quase um segundo. muito rapidamente. a fazer o filme. afinal de contas. dentro do táxi que descia em direção ao Ibirapuera. enquanto o carro rastejava pelo trânsito difícil. finalmente. mas ele não trocou. cantora. Laura é uma das três irmãs Finocchiaro. Lory E. fechei os olhos. lembrei então de Pedro. Chama-se Poltrona verde. gaúchas. lá na Espanha? Caio está brincando quanto a isso. O livro. abri mais o vidro. a pilha de laudas virando pasta entre meus dedos. eu queria ver no escuro do mundo. tinha a sua banda. todas artistas. e era muito. o vento soprava na minha cara. tive certeza. deitei a cabeça no encosto de plástico pegajoso e por quase um segundo. como quem de repente suspira ou pisca e segue em frente. musicar uma letra que ele fez. talvez budista. a Lory E Band. e pedi que aumentasse por favor o volume. A outra irmã. Vai trocar de estação. anos depois. veloz feito uma mariposa que cruza subitamente o ar nas noites de verão. e a gravou. no fundo turvo do pensamento. Caio chegou a pedir para uma amiga cantora. Dulce Veiga é uma história supercinematográfica. Laura Finocchiaro. à procura de luz acesa para girar em torno. Com o sucesso do livro na Europa. Com trinta e poucos . De repente a voz rouca de Cazuza começou a cantar. Laura. mas ele brinca principalmente para convencer o amigo Guilherme de Almeida Prado. como quem apaga ou acende uma dessas luzes para perceber no quarto vazio apenas a vibração de asas que restou no ar. e por quase um segundo. não o inseto que já foi embora. chacinas em orfanatos.as pernas. vermes dentro de sanduíches. outra vez. Débora é atriz. e se algum diretor francês se interessa e resolve comprar os direitos? E se o Almodóvar se interessa. sem querer nem provocar ou conduzir. tão oriental. claro. a camisa molhada. e muito amiga do Caio. sobre o asfalto em brasa. Laura fez a música. Ele ligou o rádio. Isso me fez gostar um pouco dele.

surgiria uma nova tropa de atores e autores de teatro inspirados no movimento. atriz paulistana. apenas de farra. ele admirava demais. no entanto. comédia de costumes. amiga de Caio. e homenagem. A crítica. Em uma de suas viagens à Europa. seria uma das únicas fitinhas que ele levaria para ouvir no walk-man. como Adriana. Stella participou. Era a peça As 1001 encarnações de Pompeu Loredo. asfalto nas veias. Caio amou o álbum. Escreveu releases para discos de Laura e de Cida. contando de suas experiências. Chorava sempre na parte do "eu ando pelo mundo. nas outras vezes em que esteve na Europa — sim. Grace Gianoukas. Adriana escreveria mais tarde a canção Alegre. é um pouco inspirada em Lory. escrita por Vicente Pereira e Mauro Rasi.. besteira.. não assimilava. Nenhuma das duas tinha qualquer ligação com o interior ou com a música caipira. e a ouvia sem parar. Cida ou Marina Lima. Em 2006. Diziam que era bobagem. Inspiração. vocalista da banda Vaginas dentatas. morreu de aids." Em homenagem a Caio. "deusa". Adriana Calcanhoto. fez a dupla com a cantora Katia Bronstein. do primeiro besteirol da história dos besteiróis. era um dos melhores amigos. Era amigo de muitas delas: Laura. faria sucesso com o espetáculo Terça insana. Vinte anos depois. E Caio não gostava apenas de cantoras sérias. O público e a crítica estariam prontos. A Adriana Calcanhoto.anos. O teatro besteirol fazia crônicas sobre o cotidiano. sem cobrar por isso. e foi aí que surgiu o nome "besteirol". que fez sucesso com a canção Doida demais. da cantora. . Cida Moreira. sempre com mais e mais fãs. e sempre fazendo referências ao álbum Senhas. tinha o humor contundente e criticava a sociedade. filha de Dulce Veiga. em 1980. porque Londres em 1990 era apenas o começo — escreveu algumas cartas a ela. Caio adorava cantoras. ele levou a fita da dupla pop-humorístico-sertaneja Xicotinho & Salto Alto. como atriz. prestando atenção em cores. gravada por Vânia Bastos. O personagem Márcia Felácio. Stella Miranda. o espetáculo entraria no quinto ano de apresentações. De Cida.

decide visitar Maria Lídia Magliani. além disso. Ali Magliani. ainda que muitos anos depois. no entanto. em Tiradentes. cheia e grossa voz — no filme A dama do Cine Xangai. com umas pequenas infecções. para esse tipo de humor. A médica chamou a infecção de . Primeiro. e com vários atores consagrados nos papéis principais: Maitê Proença como Dulce Veiga. Ele colhe várias ervas. Carolina Dieckmann como Márcia E O narrador. agora sim. Quando ele volta a São Paulo. Caio inveja a vida que Magliani conseguiu montar para si. Apesar da sua amizade com as cantoras. Foi só na volta a São Paulo que seu organismo começou a dar problemas. Depois que voltou da Europa. e também leu dois textos em off — com aquela bela. não impede que Caio fique doente. numa cidade pequena. na neve. Guilherme de Almeida Prado não conseguiu filmá-lo naquela época. O projeto só foi iniciado em 2005. que é artista plástica. Caio fez uma pequena ponta no filme Perfume de gardênia. feridas em dois dedos da mão esquerda e um da direita. Vai acompanhado da amiga escritora Sônia Coutinho. que Caio acha maravilhosa. Caio está com a saúde meio arrebentada. lenta. porém. as dificuldades de se fazer cinema no Brasil eram imensas. e de até a música estar pronta. E. no filme se chama Caio — uma singela homenagem ao amigo — e é vivido pelo ator Eriberto Leão. Seis meses depois de ter deixado o Brasil. Caio está de volta. com todo apoio das leis culturais.finalmente. 15 graus negativos. que no livro não tem nome. pode pintar e desenhar com tranqüilidade. histórica. Lá. Depois. A tranqüilidade da cidade. suficientes para fazer litros de chá quando voltasse a Sampa. uma otite. não havia dinheiro. cheia de belos morrinhos. no frio. Caio não viu Dulce Veiga virar filme. do projeto de Dulce Veiga. A relação de Caio com o cinema de Guilherme vem antes. e com Laura. como Dulce Veiga era um projeto dos dois. pode cultivar uma horta. ele estava bem. longe das capitais. elas pioram ainda mais. era natural que o amigo filmasse a história. ambos de Guilherme. Renovado. e depois de passear também pela França. Minas.

João e Caio se tornaram amigos. depois mais laboratórios de criação literária.H. Ele volta preparado para enfrentar o passado e reescrever Limite branco. mesmo que não tenham nascido daí. como o conto Tentação. não era motivo para fazer O Teste. em São Paulo. que o conheceu na oficina Anatomia do Conto. Dá palestras em várias cidades de São Paulo. sugeria mudanças. aliás. Caio mandava sempre um postal ou trazia uma lembrança para ele. que estava em cartaz na França. também.estreptococcia e achava que não. o escritor acaba perdendo o . Além de Curitiba para a oficina literária. nas viagens à Europa que fez. Um dos alunos de Caio foi o gaúcho João Batista. e às vezes comentava que preferia se dedicar somente à sua literatura. volta renovado: uma viagem aos pampas. Ele fazia pelo dinheiro. escrito aos 18 anos. em Curitiba. amiga sua e de Ivan Mattos. ministrada pelo escritor na Casa de Cultura Mário de Andrade. A experiência de ter aula com ele foi marcante para muita gente. pela Siciliano. Quem fez oficina com ele conta: Caio era um professor atencioso. como o pôster de uma peça de teatro baseado em Clarice Lispector: La passion selon G. crítica literária para a Playboy. Caio escreve ainda um ensaio sobre a atriz gaúcha Luciene Adami. Caio não consegue parar quieto. que atuou na novela Pantanal. seu primeiro romance. Mesmo com as infecções e os namoricos que eventualmente aparecem. Entre uma viagem e outra. com a família. um contato com as raízes. A segunda edição do livro sai em 1994. e os discutia depois. necessariamente. lia o que a turma escrevia com carinho. escritores de renome. Caio passeia por São Luís do Maranhão e passa o Natal de 1991 em Porto Alegre. mas nem por isso deixava de fazer o trabalho bem feito. Como sempre. sempre fazem de Caio um pouquinho mais feliz. Escreve. principalmente. para os alunos lerem. dava textos de Clarice Lispector. Para a Playboy.

uma pequena cidade portuária. inclusive com faxineira." "Há sempre alguma coisa de ausente que me .apartamento onde mora. Assim à vontade. Seis meses mais tarde. um conto de fadas para escritores. no Brasil. na França. que fica em Saint-Nazaire. e vales para ir ao cinema e teatro e bares de graça. publicada na França e. ficou apenas três dias: tinha medo de se jogar da janela do apartamento — que ficava num décimo andar — e foi embora. com tudo pago: ele era convidado da Maison des Ecrivains Etrangers (Casa dos Escritores Estrangeiros). por dois meses. Dessa vez. enquanto a causa rolava na Justiça. Arenas. uma pequena novela chamada Bem longe de Marienbad. passaram pela Maison o escritor argentino Ricardo Piglia. em Nova York. Caio viveu. entre outros. sua única obrigação era deixar um texto pronto. autor de Dinheiro queimado. bem acompanhado. ele continuou morando no apartamento. na verdade. no póstumo Estranhos estrangeiros. mesmo assim. e o chileno Reinaldo Arenas. no décimo andar de um prédio defronte ao mar. afinal. para uma bolsa de dois meses. ele realmente se atirou de uma janela e morreu. Sem se preocupar demais. Caio escreve um ótimo texto. O aluguel subira demais e ele não tinha como pagar. anos depois. mais uma pequena mesada de 1500 dólares. Antes dele. ao sair. Depois de dez dias em Paris. Funcionava assim: ele ficava dois meses num apartamento todo montado. para ser publicado pela editora Arcane XVII. uma frase de Camille Claudel numa carta a Rodin: "Il y a toujours quelque chose d'absente qui me tourmente. bem alimentado. O texto gira em torno de uma frase que perseguia o escritor há anos. Caio rumou para SaintNazaire. Foi uma época de glória para ele: bem tratado. no final de 1992 já estava de viagem marcada para a Europa de novo.

atormenta. o que só se descobre ao final. com seu capotão inseparável. em primeira pessoa. rue du Port —. em português. e alguns dizem que há castelos pelo caminho. Não pelo quarto. e por fim descobre a si mesmo. Ele segue as pistas do homem. olho para fora enquanto o trem dispara sobre os trilhos. Mais difícil. seria explicar por que me vou sem sequer passar uma noite aqui. se agita e move e se perde em outro lugar. Caio grava um pequeno documentário para a Maison." A novela. Desvio o rosto. vai a seu apartamento. Pelo risco da imobilidade eterna. Marienbad. ao final. O texto. é a história de um homem que chega a uma pequena cidade na França para procurar um amor. não devo me deter tempo demais em meus próprios olhos. de literatura. Na temporada que passa em Saint-Nazaire. em um francês bastante razoável. pela comida ou qualquer desses outros detalhes dos hotéis. com imagens dele andando pela cidade. madame. É fácil descobrir o endereço — dix-sept. que me soa romântico com seus erres rascantes ditos pela loura cinqüentona da portaria. e promete. a possibilidade do reencontro e da harmonia. sendo o leopardo o próprio narrador da história. em que ele fala de suas influências. congelado em inúteis delicadezas enquanto tudo ou nada ou apenas qualquer coisa. mesmo insignificante. Aumento o som da canção. Caio chamou a novela de O leopardo dos mares. de . com certeza madame não compreenderia tanta ânsia tropical. descobre a busca do outro por si. e uma entrevista. bien sür. Originalmente. igualmente imóvel. é delicado e belo. Ainda não anoiteceu. mas pelo horror imóvel das enguias em sua jaula de vidro associado ao outro horror também imóvel daquela palavra. e ela insiste. no frio e nas brumas. em que se entremeiam passagens de sua narração de Bem longe de Marienbad em off. Preciso ficar sempre atento. permeado de referências a Arenas e à canção de Barbara e F. madame. s'ilvous plaft. pelo perigo de eu mesmo permanecer para sempre aqui. Wertheimer.

a astrologia é importante para ele na criação dos personagens de seus textos. e aquilo muito o chatearia. Fala também da importância do cinema em seus textos. a filha de nove anos de idade de seu editor na Arcane XVII. sempre pensa: onde está a câmera agora? Ele pensa o texto de uma forma cinematográfica. As pessoas costumam se referir a Gil como secretário de . porque no Brasil as coisas estão feias. independentemente de se acreditar ou não. só que todas girando em torno do tema HIV/aids. participa de jantares e eventos com os outros escritores convidados da Maison. Ele perdeu mesmo a causa judicial do seu apartamento. O documentário é muito bem feito. que. ele seria chamado para muitas entrevistas. repetidamente. lê. Quem cuida de tudo. Tudo na mais absoluta paz. era um pequeno sonho. começa a afrouxar. Ouve o álbum Senhas. quando se descobrisse doente. quando está escrevendo. Caio aproveita esse momento da melhor maneira que pode. e uma dramaturga tcheca. de seus processos de criação. de Adriana Calcanhoto. a gaivota que mora na janela da cozinha. É nesse documentário que Caio fala que. uma turma da Estônia. com seus zooms. é Gil Veloso. pensava Caio. Letônia e Lituânia. enfim. fade-ins e fade-outs. ele vai ao cinema várias vezes. de astrologia. a realização de um ideal: todo escritor deveria ter aquelas condições para escrever. de poesia. Ele. cada um tem seu mapa astral desenhado antes da escrita. e a personalidade bem formulada. Conversa também com Isabelle. diz que. alguns anos depois. Caminha na praia.cinema. em sua ausência. Daniella. escreveu peças lindíssimas. cortes e mudanças de perspectiva. que nunca teve muita paciência para crianças. com sua carteirinha de convidado. e dá a chance a Caio de falar de sua obra. Faz também amizade com Marina. De vez em quando. Marina sabe tudo sobre Van Gogh e Caio adora conversar com ela. SaintNazaire. e não tem mais onde morar quando voltar. segundo ele afirma em carta. Enquanto não está escrevendo.

Os dois se conheceram na metade dos anos 80. Caio achou aquele nome ótimo: Gil Veloso. Tudo que fazia — nisso os amigos são unânimes em afirmar — era sem esperar nada em troca. mistura de Gilberto Gil com Caetano Veloso. Ficaram amigos. pagava contas. Os dois foram sobretudo amigos. Tinha edições de obras do escritor que o próprio não tinha. Em esquemas mais econômicos. que acabavam ficando para ele. Gil percebeu a dificuldade do escritor em lidar com as coisas práticas da vida. O escritor dizia sempre que Gil era um anjo da guarda enviado pelos céus para cuidar dele. a explicação é que.Caio. Amsterdã. Gil era fã da obra de Caio. verificava contratos. embora não vestisse a camisa e saísse gritando palavras de ordem. depois Kõln e Frankfurt. porque ele exercia esse papel: ia na padaria. Em 1993. Gil brincava: anjo da guarda porque eu guardo suas coisas. ajudando. mas nem por isso Caio deixou de voltar à Europa. E foi ajudando. Sappe havia defendido uma tese sobre a literatura gay no Brasil. ele escreveu alguns contos cujos . fazer leituras e palestras. bancos. isso não existia. contas. Gil nunca recebeu um centavo para cuidar do Caio. entre os quais estava Caio. até se tornar uma espécie de secretário. Sappe constatou que os escritores brasileiros não gostavam muito que chamassem o que faziam de "literatura gay". porque ele deveria ser chamado de escritor gay. Na verdade. vai para a Holanda. sem nenhuma segunda intenção. Para Caio. é isso? Afinal. às vezes. o amigo Sappe Grootendorst vai buscá-lo de carro. o que nem sempre era fácil: era preciso paciência para lidar com o Caio. Para Amsterdã. O luxo na Maison acabara. para a qual entrevistou 18 autores brasileiros. Em janeiro. Em seu estudo. fazia de tudo para o escritor. ele viaja para divulgar seus livros. Visitando Caio. Em seu caso. papéis. convivendo com ele. ele tem carona. foi Gil que desmontou o apartamento da Haddock Lobo e deu um jeito de guardar as coisas do amigo em sua própria casa. Graciliano Ramos não era chamado de escritor hetero. por exemplo. Eles eram amigos.

personagens eram gays ou em que havia sugestões de homoerotismo. Nada panfletário, mas em algumas situações os personagens apanhavam, eram criticados, se davam mal por sua condição. Saíam feridos, mas moralmente vitoriosos. Um exemplo é o conto Aqueles dois, de Morangos mofados. Dois rapazes, Saul e Raul, se conhecem ao serem contratados para trabalhar na mesma firma. A amizade dos dois irrita o pessoal da empresa e ambos acabam demitidos. Saul e Raul saem juntos, altivos. A derrota fica reservada para os que desaprovavam a amizade dos dois:
Pelas tardes poeirentas daquele resto de janeiro, quando o sol parecia a gema de um enorme ovo frito no azul sem nuvens do céu, ninguém mais conseguiu trabalhar em paz na repartição. Quase todos ali dentro tinham a nítida sensação de que seriam infelizes para sempre. E foram.

Caio odiava o rótulo de escritor gay, assim como odiava quaisquer rótulos que pretendessem dar conta de sua literatura em uma palavra. Escritor introspectivo, escritor de geração, escritor marginal, quais fossem. Ele não gostava, como em geral nenhum escritor gosta. Fosse como fosse, Sappe entrevistou Caio para seu trabalho, e anos depois traduziu alguns contos dele para o holandês. Agora ele ia buscá-lo para irem até a Holanda. Entre uma leitura e outra, Sappe e Caio arrumam tempo para se apaixonarem um pelo outro e viverem uma breve, porém bonita, história de amor. Fazem juntos, e à mão, um livrinho com um conto de Caio traduzido por Sappe, e vendem em várias livrarias gays. Nessa viagem, Caio vai ainda à França e à Alemanha, para cumprir compromissos relativos à sua carreira lá fora. Depois volta ao Brasil. Sem a ajuda que esperava receber dos amigos, já que estava sem casa e sem dinheiro, segue direto para Porto Alegre, para fazer um tratamento dentário com sua irmã Cláudia, que é dentista. Em junho Caio volta à Europa: Alemanha, para o Interlit

— o Congresso Internacional de Escritores do III Mundo —, depois Itália, para fazer o lançamento da tradução italiana de Dulce Veiga em Milão, Gênova e Veneza. Alegria, alegria: um dos sonhos de Caio é conhecer Veneza. Depois ainda, Berlim. Entre um compromisso e outro, Caio escreve aos amigos. Cartões para Adriana Calcanhoto, Luciano Alabarse. Um cartão rápido, escrito a quatro mãos por Caio e Gerd Hilger, seu tradutor na Alemanha, para Gilberto Gawronski. No cartão, Caio conta a Gilberto das leituras de Dama da noite que ele e Gerd estavam fazendo Alemanha afora. Depois Caio diria a Gilberto, a respeito de sua performance: — Acho que você teria orgulho de mim. Dama da noite é um conto de Caio, que Gilberto Gawronski, gaúcho, ator, adaptou para teatro e representou inúmeras vezes. A primeira apresentação da peça foi em 1988, no teatro Crepúsculo de Cubatão, no Rio de Janeiro. Depois, a peça foi para o Espaço OFF, de Celso Curi, em São Paulo. Ao longo dos anos, Gawronski a interpretaria ainda em Porto Alegre, Londres e no Rio. Em 1996, o ator a representou também na França, em Lyon. Gawronski dirigiu, montou e atuou tantas vezes nesse espetáculo que é difícil imaginar uma apresentação de Dama da noite sem o envolvimento dele; por isso é que Caio disse a Gilberto que ele teria orgulho dele. O escritor considerava o personagem tanto do ator quanto dele mesmo, que a tinha escrito. O posto de musa inspiradora do conto é reivindicado por várias amigas de Caio. Várias delas acreditam ter sido a fonte de inspiração para a mulher do conto, a dama da noite que conversa com um garoto, que ela chama de boy, e conta a ele sua história, que é a história, na verdade, de todo outsider, de todos os que vivem à margem da sociedade. O mais provável, contudo, é que a personagem seja um compósito, um amálgama da personalidade de todos essas amigas, como Claudia Wonder, Márcia Denser — a quem o conto é dedicado — e mais ainda um toque da imaginação do escritor.
Como se eu estivesse por fora do movimento da vida.

A vida rolando por aí feito roda-gigante, com todo mundo dentro, e eu aqui parada, pateta, sentada no bar. Sem fazer nada, como se tivesse desaprendido a linguagem dos outros. A linguagem que eles usam pra se comunicar quando rodam assim e assim por diante nessa rodagigante. Você tem um passe para a roda-gigante, uma senha, um código, sei lá. Você fala qualquer coisa tipo bá, por exemplo, então o cara deixa você entrar, sentar e rodar junto com os outros. Mas eu fico sempre do lado de fora. Aqui parada, sem saber a palavra certa, sem conseguir adivinhar. Olhando de fora, a cara cheia, louca de vontade de estar lá — tá me entendendo, garotão? Eu sou a dama da noite que vai te contaminar com seu perfume venenoso e mortal. Eu sou a flor carnívora e noturna que vai te entontecer e te arrastar para o fundo do seu jardim pestilento. Eu sou a dama maldita que, sem nenhuma piedade, vai te poluir com todos os líquidos, contaminar seu sangue com todos os vírus. Cuidado comigo: eu sou a dama que mata, boy.

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Te gusta?" . e toda a troupe da Sabará.Verso do postal: "Com votos de Novo Ano LINDO p/ você. vai minha última foto.

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embora Laika. Caio e Gilberto saem para a rua. embora precise dessa platéia. Por fim. com o choque do filme amortecido pela bebida. Uma das cenas clássicas era a de Tom Hanks ouvindo Maria Callas e dançando. um flat na Frei Caneca. assistido no cinema. uma pessoa com uma postura mais agressiva que a do conto. Enquanto corre o processo. que no entanto acha injusta a demissão de Hanks pela empresa. mas logo arruma um lugar para morar. escreve a Gerd Hilger. mais que uma drag queen. a dama da noite vira Dana de Avalon. ela sabe o que faz. um PS: "Falei com Zulmira . De chorar potes de lágrimas. Preciso ter uma ilusão de segundo mundo — você sabe que. né. É um pouco caro. Ao final do filme. do boy que a escute. um ser ambíguo. No final de julho. Ao final da carta. Dana está sempre no controle. e bebem duas doses. vivido por Tom Hanks. a peruca vermelha e os longuíssimos cílios e faz o monólogo sem parar. que fala apenas de uma quarentona que vive pelos bares à caça de homens. tenho uma alminha três chie". encontra um advogado homofóbico — vivido por Denzel Washington —. O homem. Caio está de volta a São Paulo. segurando a aparelhagem do soro. Paulista até o Ritz. de 1993. Nos primeiros dias.Na adaptação teatral. subindo nas mesas ou correndo. Pronto: agora podem conversar de novo. mas custa a achar um advogado que pegue o caso. decide processar a firma. pode-se ver a decadência física do personagem. que retrata a história de um homem com aids. Caio diz: — Uma vodka pura. Foi com Gilberto Gawronski que Caio assistiu no cinema ao filme Filadélfia. Gawronski se equilibra sobre saltos plataforma de 14 centímetros. demitido da firma onde trabalhava por estar doente. em silêncio. coloca a pesada jaqueta de couro negra. fica hospedado na casa de Gil Veloso. andando pelo bar. Caminham pela Av. ela é experiente. mas o escritor faz questão de um mínimo de conforto.

em julho de 1991. se ela acha que a literatura brasileira é muito desprezada. que chamava de caudilhos. ele pergunta: — Mas você não tinha noção das torturas? Rachel afirma que ela apoiou o golpe do Castello Branco. a autora nega. Jorge Escosteguy. Rachel? — à resposta afirmativa dela. e o apresentador.. ela responde que vai lhe mandar o gibi com as notícias. Já no começo do programa. Pergunta o que os membros realmente FAZEM na Academia. da TV Cultura. na época um programa bastante influente. os entrevistadores questionam a escritora sobre suas posições políticas. quando as faz. só os que vieram depois. que era seu parente. Caio já começa perguntando se ela é reacionária ou comunista. pois Rachel colaborara com os trotskistas. Segundo ela. em certa época.. da qual ela fazia parte. Naquele dia. E pergunta do Collor: . Começa o bombardeio: — Mas você apoiou o golpe. De vez em quando. a entrevistada era Rachel. Quando ela fala da propriedade que tem no Nordeste. Castello não torturara ninguém. Quando a escritora defende a presença de José Sarney na Academia Brasileira de Letras. o embate entre os dois é claro. ele ironiza: — Quem sabe não convidam o Collor para a Academia. Rachel era contra João Goulart e Brizola. O programa segue. mas depois apoiara o golpe militar de 1964. Ele continua. A essa altura. com a escritora Rachel de Queiroz.Ribeiro Tavares. Um desastre! Você acredita que ela me acusou de ter sido injusto com a Raquel (sic) de Queiroz? Manda MATAR (as duas)!" O episódio a que ele se refere é uma briga que teve na televisão. são provocativas. ele se dá o direito de discordar. muito amigo de seu marido. Quando ela fala que o PT continua o que o Brizola e os caudilhistas tinham de pior. ele pergunta se o latifúndio é produtivo ou improdutivo. Caio era chamado para ser um dos entrevistadores do Roda Viva. Caio pergunta sobre literatura. ao vivo. Embora Caio não faça muitas perguntas.

estou sendo exigida de me pronunciar sobre . que você ajudou? Ela diz que só ajudou o golpe do Castello. o apresentador intervém. Caio diz que ainda está aprendendo.— Você não acha que o Collor tá dando continuidade ao que havia de mais lamentável no golpe militar de 64. — Não é o mínimo. todos nós somos humanos. e eu não vou me tornar constrangedor. você tem que fazer perguntas. e não render homenagens. O programa segue. no meu ponto de vista. não.. — . eu só queria dizer isso. — Eu respeito. É a última coisa. erramos. Compreendo... — Eu gostaria de responder a você que nós estamos num país democrático. quer dizer que há um grau de liberdade muito maior — diz Rachel. — diz Rachel. coisa e tal.. — Desde o Sarney que nós temos essa liberdade. — Não. nos equivocamos. — Caio. tanto que calo — interrompe Caio. Realmente. Estou me sentido muito constrangido de estar aqui. porque passamos tempos muito piores. eu acho também as suas muito constrangedoras para mim. eu respeito suas posições e espero que você respeite as minhas. ele retruca. — Mas é o mínimo. — Tenho 42 anos e estive preso em 68! — Então você não aprendeu com o tempo. se as minhas posições são constrangedoras para você. até que Caio faça sua última manifestação. Mas eu estou me sentindo extremamente constrangido de estar na posição de render homenagem ao tipo de ideologia que eu profundamente desprezo. desculpe — intervém Escosteguy. — Quero falar uma última coisa. — Se você tá perguntando isso em uma televisão oficial. eu não tenho mais perguntas a fazer — diz Caio. a mais polêmica. É porque você é muito jovem e não passou os tempos piores. mas antes que continue. insiste. Por várias coisas que você falou. eu concluo que você colaborou para coisas muito negativas nesse país.

O programa continua. Mas tem que se levantar logo: afinal. é proibido — verbotten. não é assim em German? Não é possível adiar a vida. sem querer sair de casa. como escreve a Gerd Hilger: "Não se pode ser infeliz. Em janeiro de 1994.esses temas que eu não gostaria de me pronunciar. Alheio a tudo isso. parafraseando alguma atriz de cinema. que se recusa a sarar. doente. sentia o ritmo e ia vivendo." . só olha para o papel e rabisca. fica deprimido. morre Vicente Pereira. o melhor amigo de Caio. A performance de Caio no programa suscitaria debates sobre o papel do entrevistador e do jornalista na entrevista. escreve a Gerd Hilger. mas sente alívio pelo amigo. que dividiu apartamento com ele. Ele fica triste. O escritor se lembra de outros que foram: Orlando. mas o dinheiro é insuficiente para Caio se manter. em paz. Afinal. Caio segurava o turbante. Mas se lembra também de uma frase que Vicente repetia. na opinião dele — feita por catedráticos da USP O pagamento? Um terço do que o tradutor original ganha. lançar os livros. Ele então faz trabalhos como revisar traduções — mal-feitíssimas. Não se pode: é pecado. agora. meu bem. Ele passa o mês praticamente de cama. A coluna faz bastante sucesso. de criar. "Laika é laika. sempre será". Cazuza. triste. e é preciso sobreviver. Galizia. Caio não fala mais nada. possivelmente. que o anima um pouco: "Segura o turbante. O dinheiro que sobrou da Europa vai acabando aos poucos. Depois uma otite crônica. Caio. daí a pouco é hora de ir para a França de novo. não se pode desistir de amar. Em setembro de 1993. não se pode morrer em vida. de discutir isso com você. depois de acertado o lugar para morar. Caio pega uma gripe que leva três semanas para ir embora. Já faz algum tempo que ele publica uma crônica quinzenal no Estadão. Mesmo quando se cura. De forma que é recíproca nossa posição. e sente o ritmo". depois de lutar contra a aids por meses. havia quem criticasse e quem defendesse sua posição. batalha serviços.

foto em cores em Telérama.. Seus livros vão indo bem no país. Está feliz: até autógrafo na rua ele deu. Não deixava de ser engraçado. em que os outros convidados do dia são Isabella Rossellini e Jeff Bridges. dirigido por Robert Altman e baseado no livro de Raymond Carver. comparado por Caio ao Programa do Jô. e . Apesar de muito requisitado para entrevistas. que premia o autor e o tradutor do melhor romance estrangeiro traduzido no ano. Vai até Lisboa. que ele odiou. Tendo assistido ao filme Kika. da Maison des Écrivains Etrangers. E coincidência das coincidências: quando Caio. Caio resolve dar uma passeada. que está curioso por conhecer. Caio passa uns tempos em Paris. Tudo isso ele conta em carta a Maria Lídia Magliani. depois volta à capital francesa. enlouqueceu: ele tinha sido amigo íntimo dela. para um garoto francês que viu a entrevista na TV. se apaixona por Short cuts. na entrevista.. E há mais: sai matéria sobre ele na LExpress. o Cercle de Minuit. um chileno "gordimenso". ele vende seu peixe. que continua em Tiradentes. o Jayme Monjardim. mas só a nomeação já deixou o brasileiro orgulhoso. depois uma semana em Saint-Nazaire. a gravação do programa foi engraçadíssima. Caio chega à conclusão de que o Altman é um "Almodóvar COM substância". o diretor do programa.Em março de 1994. do diretor espanhol Pedro Almodóvar. Trocara fraldas do filho. John Updike acaba vencendo o prêmio em 1994. chamado Jamais sans mon livre (Jamais sem meu livro). comparou Dulce Veiga à cantora Maysa. Ele faz também outro programa de TV. Depois de dois meses na França. comprou os três livros e deu vários outros de presente aos amigos. também comparado ao Jô daqui. Caio sempre arruma um tempinho para ir ao cinema. Enfim. Dessa vez. Por conta dessas e outras. Caio volta a Paris. com o ego nas alturas. perfil em Les Inrockuptibles. e ele vai divulgá-los em um programa de TV sobre literatura. e os franceses estão comprando: Dulce Veiga é indicado para o Prêmio Laure-Bataillon. aqui no Brasil.

e Caio poderia respirar aliviado. E na hora de buscar o resultado. os resultados do exame demoravam uma semana para sair. e sairiam pelas ruas jogando confete. Caio estava apavorado. mandariam fazer camisetas com EU SOU NEGATIVO! escrito bem grande. Nesse caso.para a Noruega. Magro do jeito que era. diga que estou noivo de Isabelle Adjani — mas não fiquei metido e mando beijos. para a França de novo em novembro. sempre decidida. com medo da aids. já que as infecções não o abandonam. E ele tem trabalho a fazer. "Ambos me convidam para a colheita de narcisos da primavera. Caio aceita a idéia. que. e não consegue melhorar. Ela foi. Chegou em casa. escreve a Luciano Alabarse. A frescura é tanta. em junho. mas a danada da doença — o vírus. Até que Graça Medeiros. Casou-se com um norueguês. apreensão. Caio não quis ir. "Se alguém perguntar por mim. perdeu mais oito quilos. Caio volta ao Brasil. eles fariam a maior festa. de papel passado e tudo." Depois de Lisboa e Noruega. Caio perguntou: — E aí? — Não vai dar para fazer camiseta — respondeu ela. tem que voltar à Alemanha em outubro. Aí se tirariam as dúvidas. de uma vez por todas. Falava e falava disso com os amigos. Parece mesmo o melhor a fazer. Na época. o que fosse — não o largava de jeito nenhum. Já faz quase dois meses que voltou da Europa. o envelope já aberto. E foi só pisar em terras brasileiras para cair doente. Pediu para Graça buscar para ele. ele tem que se livrar dessa dúvida. visitar Augusto. Dá-lhe antibióticos e mais antibióticos. não resisto". claro. o amigo de infância que foi para a Europa e não mais voltou. Não. . se desse negativo. Uma semana de angústia. e por lá ficou. bactéria. achou que era melhor fazer O Teste logo.

Ele apenas diz que dói. feridas. Então serei claro. vão me salvar. deitado numa maça de hospital. dizem. Fazia sentido ele estar com aids: metade de seus amigos morrera em decorrência da doença. mas eu não vou parar. Ele se encaixava perfeitamente naqueles grupos e comportamentos "de risco". saberei também esse jeito. E isso agora não é mais apenas uma maneira literária de dizer que escrever significa mexer com funduras — como Clarice. tente entender o que tento dizer.. para mim mesmo. dói fisicamente escrever. A princípio.. ele encara a coisa toda bastante bem. outros tantos ainda lutavam contra ela. Alguma coisa tão estranha que ainda não aprendi o jeito de falar claramente sobre ela. embora . cheias de fios e tubos plásticos ligados a agulhas enfiadas nas veias para dentro das quais escorrem líquidos que. Pois é no corpo que escrever me dói agora. está sob efeito de remédios. Quando souber finalmente o que foi. Para você. Nestas duas mãos que você não vê sobre o teclado. e não é. [. muito explícita sobre o mal que o acomete. É com terrível esforço que te escrevo.SEIS Alguma coisa aconteceu comigo. Caio ainda não entendeu direito o que está acontecendo. feito Pessoa. Paulo que estava doente. tudo é ainda muito turvo.] Assim Caio começa a contar ao seus leitores de O Estado de S. ainda. Ele passara mais de uma década com medo de estar contaminado. A crônica. prometo. Em Carson McCullers doía fisicamente. Como sempre tentei ser. e não à toa. Mas por enquanto. essa coisa estranha. os braços cheios de agulhas espetadas. chama-se Primeira carta para além do muro. com suas veias inchadas. e por favor. Dói muito. no corpo feito de carne e veia e músculos. publicada em 21 de agosto de 1994.

Graça. e rumaram para o apartamento do Caio. O choque de saber-se condenado. contando a notícia: Cida Moreira. Foi o que aconteceu ao Caio. provavelmente. sua mãe. Alguns amigos foram visitá-lo. enfim. se matar. delirantes. Custaram a arrumar . Tentou se atirar da janela. A doença era a cara dele. todo o significado. Lygia Fagundes Telles. não necessariamente promíscuos. e não só ela. Pegou o telefone e calmamente ligou para os amigos. De repente. doentes. Ele não sabia o que estava fazendo. Gil resolve que era melhor correr com ele para o hospital. Gil segurou-o a tempo. e Gil logo percebeu. recitava em alemão. não se lembraria de nada. pensou ele. francês. Era como se já soubesse. parecia descer sobre sua cabeça e esmagá-la como um trator. O organismo não agüentou. Porém as coisas atrasaram. Graça ficou preocupada. não necessariamente drogados. Ele tivera. Ligou para mais gente. conversaram. finalmente. Voltaria na segunda. Durante o final de semana inteiro — pegara o resultado numa sexta-feira — ficou bem. Nada incomum em casos assim: grandes traumas podem levar as pessoas a ficarem temporariamente perturbadas.já se soubesse que o vírus não era exclusivista e atingia gente de todo tipo. Foram para o Emílio Ribas. ela não conseguiu voltar na segunda. o choque da descoberta. Caio não estava nada bem. Não era intenção de Caio. Caio pensou. Vou morrer. tenho aids. Vou morrer. não necessariamente gays. ao telefone. caíra a ficha: toda a irreversibilidade de sua doença. teve que voltar ao Rio para cumprir um compromisso de trabalho. Não se assustou. Os médicos dão a isso o nome de "quadro de dissociação mental". acabou. era demais. Muito alta. que estava cuidando dele. veio a febre. Era peso demais. Ele não falava coisa com coisa. Déa Martins e Gil Veloso também ficaram. No dia seguinte. a febre levou ao delírio. todo o absoluto que estava contido no resultado positivo do exame. e ligou para ele. viram que estava sereno. de ser soropositivo.

E termina o texto. já muita gente tinha sido avisada: Cláudia Abreu. por favor. realmente. veio de Porto Alegre. claro. era uma referência ao filme de Tom Hanks. esperando ver o amigo totalmente abalado. que Caio e Gilberto haviam assistido juntos. Ele compôs raps para o AZT. diz: — Bem-vindo à Filadélfia! O médico vira para Gilberto. A Maria Callas era o aparato do soro. porém. assim: Tenho medo é desses outros que querem abrir minhas veias. Talvez não sejam maus. No dia seguinte. o médico alertou: — Se prepara. incomunicável. Graça também teve uma discussão com o médico: ele dizia que Caio estava maluco. era apenas o susto. o trauma. E o humor do Caio não parava. Antes de ter descoberto esse jeito. já fazendo referência velada à doença. Quando Gilberto Gawronski apareceu para visitá-lo. exatamente como na cena de Filadélfia. talvez eu apenas não tenha compreendido ainda a maneira como eles são. na Filadélfia. a maneira . Gilberto entra no quarto com o coração apertado. Quando abre a porta e Caio o reconhece. Outros amigos iam visitá-lo. ele se agarrava à única coisa que podia ajudá-lo a viver: a literatura. discretamente: — Eu não disse? Aí Gilberto relaxou. como também o seu humor. "Bem-vindo a Filadélfia". Ela dizia que não. O médico insistia em dizer que Caio estava mentalmente muito perturbado — provavelmente com um tumor no cérebro. sua irmã. vegetativo. Graça Medeiros também já estava na cidade.um leito no hospital lotado. Logo ele voltaria ao normal. Na crônica. Não só a memória de Caio estava intacta. Ele ia para os exames e pedia aos amigos: segura a Maria Callas pra mim. Depois do susto inicial. cantou. Periga o teu amigo não te reconhecer. Mas como o médico podia saber disso? Ele pensou que o Caio achava estar. ele escreveu a Primeira carta para além do muro. ele ia descobrindo um jeito de lidar com a doença. que ele levava dançando. brincou.

como tudo é ou tornou-se, inclusive eu mesmo, depois da imensa Turvação. A única coisa que posso fazer é escrever — essa é a certeza que te envio, se conseguir passar essa carta para além dos muros. Escuta bem, vou repetir no teu ouvido, muitas vezes: a única coisa que posso fazer é escrever, a única coisa que posso fazer é escrever.

Depois da primeira, vieram ainda uma segunda e uma terceira cartas. A segunda é um pouco mais clara que a primeira, e fala dos anjos que Caio encontrara em sua descida ao inferno: anjos de branco, funcionários do hospital; os anjos de negro, seus amigos que lhe trazem presentes e carinho. E os outros anjos, os que já foram.
Noite alta, meio farto de asas ruflando, liras, rendas e clarins, despenco no sono plástico dos tubos enfiados em meu peito. E ainda assim eles insistem, chegados desse Outro Lado de Todas as Coisas. Reconheço um por um. Contra o fundo blue de Derek Jarman, ao som de uma canção de Freddy Mercury, coreografados por Nureiev, identifico os passos bailarinos-nô de Paulo Yutaka. Com Galizia, Alex Vallauri espia rindo atrás da Rainha do Frango Assado e ah como quero abraçar Vicente Pereira, e outro Daime com Strazzer e mais uma viagem ao Rio com Nelson Pujol Yamamoto. Wagner Serra pedala bicicleta ao lado de Cyril Collard, enquanto Wilson Barras esbraveja contra Peter Greenaway, apoiado por Nelson Perlongher. Ao som de Lóri Finokiaro, Hervé Guilbert continua sua interminável carta para o amigo que não lhe salvou a vida. Reina Ido Arenas passa a mão devagar em seus cabelos claros. Tantos, meu Deus, os que se foram. Acordo com a voz safada de Cazuza repetindo em minha orelha fria: "Quem tem um sonho não dança, meu amor."

A terceira crônica é muito mais clara que as outras duas. Nela, Caio conta o que lhe tinha acontecido, detalhe por detalhe. O Teste, o resultado, as ligações para os amigos, depois a febre e o delírio, e o hospital. Caio ficou 27 dias internado no Emílio Ribas. Lá aconteceu uma coisa inesperada: ele recebeu tanto carinho das pessoas, tantas

vibrações positivas, como comentaria sempre em entrevistas dali adiante, que ele foi, serenamente, começando a aceitar. E que mais ele podia fazer? A doença era irreversível demais para que se pudesse lutar contra; era preciso aceitar. E ele aceitava todo dia, como escreveu na Ultima carta para além dos muros.
[...] O que importa é a Senhora Dona Vida, coberta de ouro e prata e sangue e musgo do Tempo e creme chantilly às vezes e confetes de algum carnaval, descobrindo pouco a pouco seu rosto horrendo e deslumbrante. Precisamos suportar. E beijá-la na boca. De alguma forma absurda, nunca estive tão bem.

A terceira crônica foi escrita já em Porto Alegre. O médico recomendara a ele: você precisa agora é de qualidade de vida. Então Caio decidiu: adeus, São Paulo. Fez uma festa de despedida na boate A Loca, na qual cantou Laura Finocchiaro e compareceram muitos amigos, como Paula Dip e o marido. Mário Prata se lembra de ter visto Caio pela última vez nessa festa. Muitas luzes vermelhas, verdes, azuis, muita fumaça. Prata estava sentado em uma escada quando Caio passou a mão em sua cabeça e subiu os degraus, leve, incorpóreo, parecendo, por causa das luzes coloridas, uma figura sobrenatural, um anjo. Caio voltou, então, ao Rio Grande do Sul, para morar com seus pais já tão idosos, no sobrado colonial espanhol no bairro Menino Deus. Há roseiras no jardim, como ele sempre sonhara em ter. E ele se dedica, então, a cuidar de si, de suas flores, de sua obra. Nunca foi tão fácil conviver com o Caio — alguma coisa nele meio que serenou. O mau humor de antes, as alfinetadas, o gênio difícil, tudo isso foi substituído por uma espécie de paz, de aceitação. Ele vivera os últimos anos em constante aceleração, viajando de cá para lá, ParisBerlim-Londres-São-Paulo, e agora era obrigado a parar. Ele sempre quisera desacelerar; invejava a amiga Magliani e sua horta, lá em Tiradentes. Agora era a hora. Não haveria outra, ele pensava. A vida não era mais adiável.

Ele descobriu o que já sabia ainda com mais força: amava a vida. Acalentava o sonho de fazer parte da primeira geração de sobreviventes, os primeiros a driblar o vírus da aids. Não a cura, que isso parecia impossível, mas alguma maneira de estabilizar a doença, deixá-la tipo a diabetes, algo crônico, porém não letal. Ele achava que, se conseguisse sobreviver mais um ou dois ou três anos, essa "cura" podia aparecer, e então ele poderia viver muitos anos mais. E estava certo: quando ele morreu, em 1996, já existiam os remédios que comporiam o famoso coquetel. Ainda não se sabia como dosá-los, e administrá-los nas doses certas para manter a doença em níveis controlados, mas já existiam. Em Porto Alegre, a rotina de Caio era simples: acordava cedo, tomava café, ia cuidar das roseiras. Escrevia um pouco: crônicas para O Estado de S. Paulo e agora também para a Zero Hora, de Porto Alegre. No Estadão, Caio escrevera crônicas de 1986 a 1989; depois de uma pausa de três anos, retomara seu espaço em 1992, e escreveu até dezembro de 1995. Uma seleção de suas crônicas para publicação em livro foi elaborada por Gil Veloso, quando Caio já estava doente. Pequenas epifanias foi publicado em maio de 1996, alguns meses depois da morte de Caio. A rotina leve na casa dos pais e as doses de AZT pareciam estar funcionando. Caio ganhara peso, os exames de sangue apontavam bons resultados de plaquetas, leucócitos e linfócitos. Quando precisou de um remédio mais caro, americano, que custava 4 mil dólares o grama, Lucinha Araújo, a mãe de Cazuza, e Scarlet Moon, esposa do Lulu Santos, conseguiram de graça para ele, conta Graça Medeiros. As coisas pareciam bem, e Caio decidiu que iria, sim, cumprir seus compromissos na Europa. Primeiro, a Alemanha. Em 1994, a Feira de Frankfurt foi dedicada ao Brasil; Caio foi participar da feira e depois seguiu por várias cidades alemãs, fazendo leituras e palestras. Ele iria ainda à França, passar duas semanas em Aries, numa mini-bolsa para escritores, mas não deu. Um teimoso

porque estava incomodando. imprimia tudo. Ah. achando que havia um motivo pelo qual ele pegara a doença. Informatizado em termos: Caio não sabia muito bem mexer no computador. e o motivo era revelado agora: conhecer o . quando a lesão apareceu. como sempre fizera. Belíssimo. ele e Caio saíram juntos para o teatro. apaixonado assim meio de brincadeira. Era. E corrigia as provas à mão. Celso chorava o tempo todo. Amigos de São Paulo — Celso Curi. Caio adorou. e. Quando Celso esteve em Porto Alegre para entregar o computador. De volta a Porto Alegre. o médico. ao lado dele. E também não queria aprender. Celso estava muito mais triste que Caio. Caio recebeu um presente inesperado. Lasanha. Caio já devia estar contaminado há pelo menos uns dez anos. Assim que terminava de escrever. segundo os cálculos dos médicos. o nome do imunologista. Maria Adelaide Amaral. Tratara de Lory Finocchiaro e de mais tantos positivos que havia em Porto Alegre. E Caio ficou apaixonado por ele. É um dos estágios mais adiantados da doença. Mas na ponta do nariz era demais. meio a sério. Vânia Toledo e mais alguns — fizeram uma vaquinha e compraram um laptop para ele. a última vez que se veriam. Caio antecipou a volta ao Brasil. portanto. Não foi surpresa. provavelmente. ou pelo menos assim parecia. Além do laptop levado por Celso. o imunologista. uma lesão arroxeada que acomete as pessoas contaminadas com HIV. O sarcoma é uma espécie de câncer de pele. outras alegrias esperavam Caio: seu novo imunologista. Chorava de molhar a calça. escreveu crônicas contando de seu novo Robocop. falou em cartas aos amigos que agora era um homem informatizado.sarcoma de Kaposi resolveu brotar em Caio. mandando ele parar. Era lindo. por exemplo. e brotar bem na ponta do nariz. pensando no amigo que ia perder. uma calça clara. Eduardo Sprinz. dando soquinhos em sua perna. Celso Curi foi eleito para ir a Porto Alegre entregar o presente. Não sabia salvar os arquivos. E Caio.

o Felipinho.. e Laura. o tratava com florais de Bach. e o mais novo. eu recém comecei a pegar amizade. E passava tardes inteiras sentado com ela. que adorava desenhar. Via uma e começava a gritar: gangá-gangá! E o mais velho. honey. a não ser que leve o Valdir junto. ele se apaixonava pelo imunologista. Claro que estou achando que tudo era fatal. ele se tratava também com propólis e lama de Araxá. ontem foi apenas a segunda vez que nos encontramos! Mas falando sério — God! — que homem GOSTOSERRIMO. filho de Luiz Felipe. Para seu governo. estava mais próximo dele agora. não . Caio não estava disposto a apostar todas as suas fichas num número só. tinha o temperamento do tio: às vezes se isolava. Caio comprou uma caixa de lápis de cor enorme para a Laura. um clichê até justificável: se muita gente se apaixonava pelo analista. tanto faz) onde seremos felizes para sempre — e o senhor Não será convidado a nos visitar. quem lhe dava a promessa de vida. quem o tocava. Rodrigo. OK?" Por mais lindo que fosse o médico. e gostava muito de Frida Kahlo — queria sempre ver a foto daquela "mulher de bigode". Caio escreve a Gerd Hilger: "Gerd Alberto da Silva Hilger. era incrivelmente louco por frangas.médico. desenhando. E Caio descobriu um remédio que. Além da medicina clássica. como o senhor é guloso! Já pedindo foto da MINHA lasanha completamente pelado(a). ou leste. que era quem. de onze anos. de quatro.. e que natural e inevitavelmente ele também vai se apaixonar por mim.. o mais novo. de um ano e meio. e que movido pelo amor descobrirá algum medicamento fantástico que me salvará a vida e certamente logo depois iremos viver em alguma ilha do Pacífico Sul (ou norte. virginiano como o Caio. oeste. Ele passava o dia brincando com seus sobrinhos: Rodrigo. o Caio. Cecília Niesemblat.. no entanto. Felipinho. uma amiga antiga. afinal. a quem Caio dedicou alguns contos. Sempre apaixonado. segundo ele. era mais curativo que AZT: crianças. filhos de Cláudia e Jorge. desenhando. E pelo médico. e que fiquei doente apenas para conhecê-lo.

queria saber de ninguém. alguns deles loucos por jardinagem. Era preciso trabalho. vivo. rua onde os Abreu agora residiam. Conversava com os vizinhos. como queria. Eram caramujos canibais querendo devorar as flores. impressoras e tecnologias. principalmente em festas ou reuniões familiares. Havia as rosas. descendente de italianos. E Caio gostava de viver assim. Anita era fascinada pelo continente. Caio ficava encantado em conversar com ela. cuidando. vizinho da casa ao lado. Caio estava ficando obsoleto. . lindo. Chegou a colocar na filha o nome de Itália. ou a flor do girassol pesada demais para seu próprio caule — "como se não suportasse o peso da própria beleza que engendrou" — . Podia também ver o pôr-do-sol na usina do Gasômetro. porém. ou as formigas querendo devorar as angélicas. De vez em quando. Adorava conversar com Caio: ele lhe contava as histórias da Europa. para ir à fisioterapia. Ao contrário do tio. cuja casa ficava em frente à do Caio. Conversava com D. onde tirou algumas das fotos mais famosas de sua vida. D. sabia lidar com computadores. octogenária. artista plástico. Nas cartas aos amigos. Ela vira cada casa ser construída. ou o inverno rigoroso que secava as plantas. Caio brincava: estava pensando em trocar suas credenciais de "jornalista e escritor" para "escritor e jardineiro". como Irineu Garcia. esforço. Anita fora a primeira moradora da Oscar Bittencourt. E bonito. e sabia a história de cada morador. ele falava sempre das dificuldades que tinha em manter o jardim. nas crônicas. era difícil manter o jardim vivo. sua vizinha. o escritor pegava a bicicleta e ia dar longos passeios no parque da Marinha. era muito informático. ou Felipe. enfim. A sua principal preocupação era o jardim. Horas e horas ele passava no jardim. onde Caio passava a maior parte do tempo. as roseiras que ele amava — algumas das quais estão de pé até hoje. mesmo nome de uma sua irmã falecida. que todos os dias passava em frente ao jardim. Junto com o marido. D. Anita. ou ervas daninhas de todo tipo. mexendo na terra. tranqüilo. com quem o escritor trocava sementes e dicas e truques. Era calmo.

Emy. compartilhava seus interesses literários e astrológicos. Em 1995. Caio continuava trabalhando em outras coisas. Os moradores do Menino Deus consideram Caio uma espécie de patrimônio local. Mesmo isolado. Agora vou forrar com papel de oncinha. aparecia. para ficar mais bonitinho. para homenagear os moradores e o escritor. Caio estava lá para falar como escritor e ela. do qual Porto Alegre é apenas o que há em volta". Amanda levou a tal caixinha em um almoço. emocionou . Fez a tradução de Assim vivemos agora. sempre perguntava se ela não achava que as mudanças astrológicas não poderiam trazer a cura da doença. de uma geração mais nova que a do Caio. Como Amanda Costa. Amanda. fez uma faixa com a frase. ele precisava de uma caixinha de isopor para guardar os remédios. Escreveu em uma crônica. que já era fã e se lembrava de vê-lo na rua.Caio quase não saía do Menino Deus. uma alemã que influenciou várias gerações de astrólogos em Porto Alegre. Caio dedica alguns textos a D. novela da ensaísta americana Susan Sontag que descreve as reações de um grupo de amigos quando um deles contrai aids. na Jornada Literária de Passo Fundo. Anos depois de sua morte. o chileno Carlos Aguirre Sepúlveda abriu uma pastelaria no bairro e. Caio se sai com essa: — Obrigado. astróloga e amiga. Os dois se conheceram em agosto de 1985. Trocavam cálculos astrais e confidencias nas cartas. nos anos 70. Além das crônicas. Emma de Mascheville. Caio não perdia o contato com os amigos. Caio e Amanda foram alunos de astrologia de D. com o casaco preto enorme. certa vez: "moro no Menino Deus. nos últimos anos. Os dois tinham algo em comum: assim como Graça Medeiros. foram comer camarões no Tirol. escrevia. Sempre alguém ligava. portador do vírus. o bairro onde morava. como a chamavam. A tradução ter sido feita por Caio. um restaurante de que ele gostava muito. e se deram bem de imediato. Foi um sucesso. trabalhava na editora L&PM.

porque não entrou em nenhum livro. uma espécie de autobiografia ficcional. que saiu em nova edição pela Companhia das Letras. contando as circunstâncias em que escreveu o texto. uma parte de sua correspondência . papéis antigos: selecionava textos para uma antologia. em 1995. Ele estava selecionando seus inéditos para que ninguém o fizesse depois de sua morte. que jamais teriam sido publicados com o crivo da poeta. Ovelhas negras era considerado por Caio um livro prépóstumo. Não só porque ele é um conhecido escritor e a tradução. está muito boa. parece. por exemplo." Caio trabalha também na literatura. Tanto que doou à Fundação Casa de Rui Barbosa. à publicação de suas cartas. no Rio de Janeiro. comentários gerais. que conteria textos de todas as fases de sua vida. mas porque ele leu a história há algum tempo e sugeriu a sua publicação. enfim.a autora. E mexeu em todos os seus guardados. Repetia sempre: — Não quero que façam comigo o que fizeram com Ana Cristina César. "Sei e isso me emocionou muito. No entanto. O fato de essa história significar algo para o Caio e que vai significar algo para outras pessoas porque ele fez a tradução me deixa muito feliz e agradecida a ele. até textos mais atuais. pergunta em entrevista se ela sabia que o tradutor tinha aids. escritos já em Porto Alegre. o que gosta ou o que não gosta nele. O resultado foi o livro Ovelhas negras. escrita aos 13 anos de idade para um concurso escolar. esse medo de Caio referia-se à sua ficção. de vários livros contendo inéditos e dispersos. Maurício Stycer. Pelo menos aquelas trocadas com outros escritores e artistas. Paulo. da Folha de S. que saiu pela editora Sulina. em novembro de 1995. Quando o livro foi publicado. O livro traz desde A maldição dos Saint-Marie. a todo vapor: revisou Morangos mofados. poemas inacabados. Ele se referia à publicação. Cada texto publicado na obra vem precedido de uma pequena explicação do escritor. ele não fazia restrição. depois da morte de Ana C.

Não teve. Oito contos foram excluídos. ganhou mudanças drásticas. embora a estrutura permanecesse a mesma. que pessoalmente. nas cartas. Além de organizar Ovelhas negras. escritora e amiga. Algumas das que sobraram foram publicadas no livro organizado por Ítalo Moriconi Caio Fernando Abreu: Cartas. Se você guardou. podia falar mais livremente. e fazia piadas. Fez algumas mudanças na pontuação. segundo o autor. Não era a pessoa deprimida que se poderia apreender de seus contos. Ao vivo. Caio revisou outros de seus livros. muitas vezes era irascível e calado. melhorias nas frases.. são suas. se perdeu num incêndio. por ele achá-los repetitivos demais. e leve. Não sei se você guardou as minhas como eu guardei as suas. de 2002. correções. Os trechos mais pessoais. Vamos que eu me torne um mito literário (melancolicamente póstumo. e animado. Vários amigos e leitores foram pegos de surpresa: é que nas cartas Caio era muito mais engraçado. circulando. A publicação da obra gerou polêmica: alguns amigos de Caio não quiseram dar as suas cartas. e falava de sentimentos que não teria coragem de dizer cara a cara. Assim como não . por considerarem a publicação prematura." Grande parte das cartas de Caio para Lucienne. para diminuir o caráter definitivo do título original. Inventário do irremediável.) De qualquer forma. claro — é você publicá-las. em fevereiro de 1995: "Nós nos escrevemos dezenas de cartas. infelizmente. E o título passou a ser Inventário do irremediável.passiva. e a língua ferina de Caio não costumava perdoar ninguém. publicado em 1970. uma idéia — após minha morte. E ele escreve a Lucienne Samôr. no entanto. Caio esperava ter tempo de escrever também a volta das frangas e Estranhos estrangeiros. Muita gente citada nas cartas ainda estava viva. e assim o livro saiu.. alguns nomes substituídos por iniciais. E a minha herança para você. foram suprimidos. se você as tem.

De um ator procurando um personagem. mas ele nunca chegou a encená-la. Mas agora. também não pagou um centavo pelo texto que encomendara. que reúne todas as peças de Caio. os baboushkas. na verdade.assistiu à montagem de um texto de teatro seu. Ao final. ninguém diz uma palavra. nem então e nem depois. num interessante jogo de personalidades. Ao que consta. Breda e Luiz Arthur iam montar a peça. nasce o personagem obcecado com a mancha — uma alusão à aids. e desse nasce o Cavaleiro da Triste Figura. então. com sua formação de ator e sua voz. O personagem o perseguia desde que Clarice Lispector resolvera apelidá-lo. chateado. a obra foi lançada depois da morte do escritor. aliás. de Lya Luft. Caio chamou Luiz Arthur. foi constrangedora. finalmente. Ele pedia aos amigos que se apressassem. e assim os personagens se alternam. porém. em que um vai saindo de dentro do outro. A peça tinha sido escrita por encomenda de Carlos Moreno — o garoto-propaganda do Bombril —. Quixote. Caio faz uma bela leitura. pois ele queria ver o texto encenado. O homem e a mancha. Ele resolveu. Anos antes. A cena da apresentação da peça para ele. que faria a cenografia. Luiz começa a falar compulsivamente para preencher o silêncio. e também à cidade do personagem de Cervantes. inclusive a adaptação que ele fez de Reunião de família. Assim ele construiu O homem e a mancha. que estava em São Paulo. uma releitura de D. mas também a qualquer espécie de paranóia ou obsessão. La Mancha — e dele nasce D. saía outro — na comparação do autor. brincar com isso. . mas Moreno não disse absolutamente nada. para acompanhá-lo na leitura para Moreno e Fábio Namatame. que é. O monólogo foi incluído no livro Teatro completo. Quixote. como os bonecos de madeira russos. Caio ficou arrasado. Organizada por Luiz Arthur Nunes. um monólogo dirigido por Luiz Arthur Nunes e representado por Marcos Breda. Era uma peça complexa: de dentro de um personagem.

porque ele tinha tentado.Desde a descoberta da aids. De fato. portanto. na verdade. Jô lhe pergunta se ele não pensava em escrever algum livro tratando da doença. o protagonista e Márcia E A conversa segue. respeitado. pensaria que a mídia jamais lhe dera qualquer atenção até o dia em que descobriram que ele tinha aids. depois que a aids já tinha sido citada. Já desde os anos 70 ele tinha seus fãs fiéis. Em dado momento. A ironia da situação. a aids já aparecia em alguns textos seus: Onde andará Dulce Veiga é uma história de amor entre dois contaminados. o que não era verdade. ir ao programa divulgar algum de seus livros. Ele sempre foi um autor procurado. Caio se sentia desconfortável com essa situação. Ele tem planos. coisas a fazer. foi aí que a mídia começou a dar mais atenção a ele: choviam pedidos de entrevistas. Na maior simpatia. E ele . Caio diz que não tem tempo para morrer. Em um depoimento muito bonito. fez piada. livrosímbolo de uma geração. Caio responde: — Não. embora reclamasse exagerada-mente. conversou com Jô. porém. a partir de Morangos mofados. no entanto. E ele foi. com a desculpa de lançar Ovelhas negras e a reedição de Morangos mofados. Quem o ouvisse falar. Ele foi convidado para ir ao programa do Jô Soares. Caio decidira viver uma vida mais tranqüila em Porto Alegre. Paradoxalmente. Vai que eu não morro. por exemplo. Não se pode dizer. brincou. o queriam. risadas. muitas delas motivadas pela questão da doença. e ninguém pode imaginar o quanto estar ali significa para Caio. muito popular em alguns meios. com que cara eu vou ficar? Risadas. seu nome se tornou mais popular. antes. que Caio fosse ignorado pela imprensa até 1994. Agora. Todo mundo tinha um exemplar em casa. Depois ele explicou que. E achava aquilo a ironia das ironias. mas fora vetado "por estar fora da mídia". os pedidos de entrevista aumentaram. Caio aparece também em um Globo Repórter sobre aids. Quem dirige o programa é o amigo de longa data José Márcio Penido.

e sim na doença. e Caio estava. Assim que se curar o planeta. convencido de que era preciso mudar a maneira de tratar o planeta. das dores e dos humores. . muito mais letal que o HIV. Falar da doença era a melhor forma de combatê-la. ele falava. o planeta é que está doente: maltratada. por exemplo. um dos primeiros médicos a combater a aids no país. assim como Regina. Ele vê coisas piores que a aids vindo por aí. beber. Mas na época não se sabia disso. Participa. se nada for feito — era a época em que se soube do vírus Ébola. ficavam sentados de um lado do palco. E também a nós mesmos: embora. em São Paulo. de um simpósio sobre aids. sim.acredita na possibilidade de cura. não se envergonhar. e havia medo. E por isso era preciso desmistificar. e os debatedores do outro — um deles era o dr. Na visão do escritor. ele dava entrevistas. não tenha desistido do cigarro. os únicos que não eram médicos no evento. e que portanto sempre acredita que vai haver um beijo da Doris Day com Rock Hudson no final. Caio estava lá para dar seu testemunho. que morrera por causa da doença. se curará o ser humano. até o fim. que fora falar da história de seu marido. Dráuzio Varella. junto com a jornalista Regina Echeverria. ele não queria mais maltratar o corpo. Comoveu a platéia e ajudou a diminuir. Os dois. O escritor falou do que se passava física e emocionalmente com ele. mesmo sabendo que o interesse maior não era em sua obra. o desconhecimento da doença. que cresceu assistindo ao cinema americano. se drogar. mais do que nunca. a Terra começou a reagir. um pouco. Mas é claro que a aids não era como o Ébola. e principalmente de combater os preconceitos ligados a ela. a aids era uma doença cheia de estigmas. na verdade. no teatro do Maksoud Plaza. em 1994. Na entrevista. que talha o ser humano no que ele tem de mais delicado. e todos serão felizes para sempre. Caio expõe sua teoria de que. Por isso. que é a sexualidade. os clichês associados aos soropositivos. Diz que faz parte de uma geração muito colonizada.

Por essa época. perguntou. ele relaxou e aceitou. se bem que. De início. Mauro. o patrono tinha que estar bem vivo. o taxista. um escritor reconhecido. Caio pediu que o levasse até lá. como Mario Quintana. Seu ponto de táxi fica no Menino Deus. Quando esclareceram que não. talvez. costumava caminhar até o ponto de táxi e chamar Mauro para levá-lo. viu a capa do seu livro. dizia. ter outra chance. sobre acharem que ele já estava morto. Caio preferia ir sem ninguém da família para essas sessões no hospital. e muita gente legal já tinha aceitado antes. insistiu para que assim fosse: a nomeação de Caio não era uma unanimidade. Influenciado por Caio. a dois quarteirões da casa da família Abreu. E não deve ter gostado do que viu. estava mais é para padroeiro. dizendo que achava solene demais a palavra patrono. Um dia. hoje escreve colunas para o jornal Diário Gaúcho. e preferia ser chamado de padrinho da feira. Mas isso não é coisa para gente morta?. quando convidaram o escritor. fã de literatura. Mauro comentou com Caio que tinha visto o ou-tdoor de seu livro Pequenas epifanias em uma rua. Caio foi convidado para ser patrono de Feira do Livro de 1995. para o câncer de pele. Os argumentos de Júlio venceram. E faz sucesso. Júlio Zanotta Vieiras na época presidente da Câmara Rio-grandense do Livro. pois ficou em silêncio a maior parte do caminho. por ele estar doente e não poder. depois. No final de 1995. um pé do outro lado e outro aqui. porém.Por estar de volta a Porto Alegre. acompanhava as crônicas de Caio no jornal. Mauro Castro. e um pouco. que merecia a homenagem. taxista. realmente. sem descer do carro. e Caio foi escolhido. ele desconfiou. por ser. Brincava. Comentou algo sobre oportunismo. contando "causos" da vida de motorista. o médico avisou a Caio que ele . Foram. Por uns cinco minutos. o escritor olhou seu nome no alto. Quando o escritor ia para o hospital Moinhos de Vento fazer radioterapia. é claro. o taxista fã de literatura começou a escrever. E pediu para irem embora.

deprimida. aquela flor símbolo dos surfistas. mas não teve jeito: teve que levá- . Déa Martins. escreveu uma crônica para Zero Hora contando da viagem. às vezes era difícil lidar com Caio. recebendo o título de santiaguense ilustre. não abandonaria a esposa em casa. Não ia lá há muitos anos. Estavam os dois muito mal: ela saindo de um relacionamento. perguntou: que flor é essa? Foi o suficiente para Caio se irritar. da emoção que era voltar ao lugar onde nascera. foram. Gilberto pegou o carro. de três horas. que ele adorava. Zaél. Tinha porque tinha que ver aquele filme. algo marcante. então. Queria despedir-se da cidade. significativo. Relembrou a infância. Déa olhou. Era urgente. que estava morando em Porto Alegre na época. Não é esse filme. descansou. que flor é essa? Então você não sabe o que é um hibisco? Ficou irado. Gawronski discutiu com ele. de passagem pela cidade. O pai. ele. Caio e Déa tiveram algumas briguinhas. Como assim. buscou-o. já tinha sofrido duas isquemias cerebrais e não tinha saúde. Ele queria ver O Filme. havia um hibisco. Quando foi ao cinema com Gilberto Gawronski. Os irmãos tinham ocupações. desde que fora homenageado. por exemplo. Caio decidiu fazer outra viagem. A companheira de viagem de Caio foi. não é isso que eu pensava. Estava muito abalado. Fez as pazes com essa parte do seu passado. ele não tinha tempo a perder. A temporada na terra natal foi ótima: Caio conversou muito com as tias. Caio queria ir embora. Na pousada onde ficaram. doente. Ele iria à Praia do Rosa. Embora estivesse sereno a maior parte do tempo. muito sensível. Pegaram carona de carro com duas garotas amigas da família e foram. Quando voltou. Mas Caio decidiu adiar a cirurgia. principalmente tia Elcy Abreu. Chegando lá. A mãe não poderia ir com ele: com 71 anos. Com cinco minutos de filme. Pediu a seu irmão Felipe que o levasse de carro até Santiago do Boqueirão. muito doente. escolheu um filme longuíssimo. em Santa Catarina. Depois de retirar a vesícula. Ele tinha a sensação de que tudo que ia fazer seria pela última vez.precisaria extrair a vesícula.

voltava do hospital e chorava. Quando voltou ao Brasil e soube da morte do . 71. Ela o desgastava. e ele. No dia 25 de fevereiro. ela tão velhinha e ele fazendo malcriação. a pensar nele. Luciano. Mais ou menos na mesma hora. a situação não era mais fácil. mas Caio mandava ele ficar quieto: você está mais deprimido que eu. do nada. um dos poucos que acompanhou sua doença de perto até o fim. lhe dava nos nervos. estou muito cansado. ouviu no rádio que tinha morrido. e Caio implicava com ela. Caio tinha escrito ao amigo: "Na minha lápide. Depois se arrependia. entrevistara Caio algumas vezes. uma e meia da tarde. se sentiu muito mal. O amigo Luciano Alabarse. sentiu uma tristeza. céus. 74 anos. Parecia mais o hospital Abreu do que a casa da família. Poucas semanas depois. superada a timidez. bem. ele doente até o osso.lo embora. Caio faleceu. Amanda Costa estava almoçando em um restaurante árabe com uma amiga e começou. Chorava no hospital mesmo. uma dor no peito inexplicável. brigava com ela. O pai. ao passar por Porto Alegre. Caio também antecipou sua volta a Porto Alegre: estava doente. Os amigos o visitavam. Déa teve que partir mais cedo da praia. Do outro lado do mundo. pensar nele. recebeu uma proposta de trabalho no Rio e voltou para lá. não o deixava em paz. Quando chegou em São Paulo. brincava o escritor. Anos antes. Era um domingo. Mas no dia seguinte brigava de novo. o corpo do escritor não agüentaria a pressão. a mãe. Era como se ele já não coubesse mais em seu corpo. Quando chegou em casa. estava sempre atrás dele contando histórias intermináveis." Depois de vinte dias internado. Ele explodia. pegou pneumonia. Dizia que ela o atordoava. pensar nele. em 1984. no Egito. A mãe doente. Reinaldo Moraes voltava de Buenos Aires de avião. que muito amou. que. o jornalista José Castello. e ele lhes dizia: estou cansado. quero alguma coisa mais ou menos assim: Caio F. Em casa. soube da morte do Caio.

Sua mãe ficou inconsolável. ele tem que ler: — Betinho. A vontade de Caio não foi cumprida. onde quer que estivesse. Um ano e dez meses depois dela. Em três anos. os restos mortais dos três foram transferidos para o Cemitério Ecumênico João XXIII. Usava um cachecol com uma fita vermelha: os dois teriam combinado que vermelho significava que estaria tudo bem. Fora se despedir. e viu que Caio morrera exatamente na hora em que ele tivera a sensação estranha no Egito. foi a vez de seu Zaél. Alguns anos depois da morte de Zaél. quem administra a obra dele é a família. Gil Veloso da literária. Na carta. sem saber que isso ia acontecer. Escrevera. Gilberto Gawronski da de cinema e audiovisual. Hilda Hilst alega ter visto Caio. ele fazia pequenos legados. fez as contas. estava dando risadas. os amigos se reuniram para a leitura da carta. Caio fizera seu testamento. na Casa do Sol. depois de sua morte. emocionado. claro: não registrara nada em cartório. ele lê. mãe e pai tinham falecido. Caio foi enterrado no cemitério São Miguel e Almas. Mas. Queria que Marcos Breda ficasse responsável e recebesse os direitos de sua obra teatral. na missa. se o Spielberg quiser filmar Dulce Veiga. você vai ficar rica! Caio. filho. onde ocupam o número 4352 07. À sua maneira. morreu. apenas. As dez da noite do domingo. quatro meses depois. Seu Zaél sério. para ser lida pelo seu pai.escritor. teve um acidente vascular cerebral (AVC) e não levantou mais da cama. sete dias depois da morte. fusos horários e tal. Dias antes de morrer. . Quando chega a parte de Gawronski. Um ano depois. uma carta. Pesando menos de 40 quilos. em Campinas.

Pediu ao deus das águas que o curasse. Ele iria sozinho. Era sua caminhada. fez festa. — Não entra. e Caio teimou que ia entrar no mar. chuviscava. Atravessou a faixa de areia. foi andando até o mar. Lentamente. tá louco? Caio insistiu.EPÍLOGO Na praia do Rosa. E voltou. mas satisfeito. Mergulhou. nem o galho ele queria. Ia conseguir. ele estava usando um galho que catara na estrada como bengala. Pois bem. . Lentamente. em dezembro de 1995. entrou no mar. debaixo dos finos pingos de chuva. você vai pegar uma pneumonia. Desde que chegara na pousada. Jogou água para cima. cara. O céu estava nublado. com Déa.

1988. Siciliano. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. Os dragões não conhecem o paraíso. 1982. 1992. São Paulo: Companhia das Letras. Rio de Janeiro: Globo. 1984. 2a ed. 2007. Siciliano. Rio de Janeiro: 2a ed. Companhia das Letras. Porto Alegre: Globo. 2008. Agir. 1992. São Paulo: 3a ed. Porto Alegre: Mercado Aberto. Rio de Janeiro: 3a ed. 1984. Sulina. Siciliano. L&PM. Limite branco. Salamandra. São Paulo: 3a ed. 2005. Porto Alegre: IEL/RS (Instituto Estadual do Livro). 2a ed. Rio de Janeiro: Expressão e Cultura. Rio de Janeiro: 4a ed. Morangos mofados. Companhia das Letras. 2a ed. 1977. São Paulo: 2a ed. Salamandra. 1995. O ovo apunhalado. São Paulo: Brasiliense. Porto Alegre: 3a ed. 2a ed. Mel e girassóis. . 1988. Agir. Triângulo das águas. 1995. Porto Alegre: Movimento. Agir. Agir. 1988. 1970.Obras de Caio Fernando Abreu publicadas no Brasil Inventário do irremediável. As frangas. 1995 (com o título alterado para Inventário do irremediável). 2005. A Maldição do Vale Negro. São Paulo: Alfa-Omega. Rio de Janeiro: 4a ed. 1988. 1993. Rio de Janeiro: 3a ed. Pedras de Calcutá. 1971. 1983. 2007. 1975.

1996. Porto Alegre: Sulina.Onde andará Dulce Veiga? São Paulo: Companhia das Letras. 2003. 2002. São Paulo: Global Editora. 2002. 1990. Rio de Janeiro: 2a ed. . Pequenas epifanias. Girassóis. Agir. Porto Alegre: L&PM. Rio de Janeiro: Agir. Org. 2007. Agir. Teatro completo. Rio de Janeiro: Aeroplano. Fragmentos. Caio 3D: o essencial da década de 1990. Rio de Janeiro: 3a ed. Caio 3D: o essencial da década de 1970. Ovelhas negras. Porto Alegre: Sulina/IEL. 1995. São Paulo: Companhia das Letras. 2006.: ítalo Moriconi. Rio de Janeiro: Agir. Porto Alegre: Sulina. Melhores contos de Caio Fernando Abreu. São Paulo: Global Editora. 2006. 2a ed. Caio Fernando Abreu: Cartas. 2005. 2a ed. 1997. Estranhos estrangeiros. 1996. 2006. 2002. Planeta De Agostini. 1997. L&PM. Rio de Janeiro: Agir. Caio 3D: o essencial da década de 1980. 2008.

Maria Aldina. A Diógenes Fischer. por conseguir material ao qual eu não teria acesso de outra forma. a seu irmão. A Wendel. pelas fontes que me passaram. Agradeço à Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis (PRAE) pelo apoio dado. livros e documentos relativos ao irmão. pela generosidade com que compartilharam histórias. A Edirê Ferreira e Paulo Vaz de Arruda. A Jacques. pela ajuda em Porto Alegre. Aos professores Ricardo Barreto. fotografias. Liliane. agradeço as dicas e idéias. mas por tudo. cunhado. e sempre. pelo papel importante em apoiar e ouvir. A Paulo Camossa. por me ouvirem falar do trabalho. por ler o texto e opinar. Esse livro começou a nascer na Universidade Federal de Santa Catarina. Agradeço também a Alex Werner. Felipe e Márcia Abreu. agradeço por terem me ouvido falar e falar sobre o livro.OBRIGADOS A Cláudia. A Fábio Bianchini. Em São Paulo. apenas. por ter sido um bom e divertido cicerone. Foram quatro anos monotemáticos. que aliás não devolvi — nem pretendo. por primeiro ter me apresentado à obra de Caio F. A Marina . Bruno Werner. sobretudo por gostar e me incentivar. A todos. por rodar Porto Alegre inteira de bicicleta para me entregar um vídeo com entrevistas do Caio. grande amigo. pelos conhecimentos sobre o Caio. agradeço a minha irmã. A Mauro Castro. e a Fábio Fabretti. e me contarem o que eles mesmos andam fazendo. por ter me levado pra lá e pra cá em seu táxi quando eu precisava. A Jorge Cabral. eu sei. por terem sido tão bons anfitriões no Rio de Janeiro. e a seu pai e a sua madrasta. A Luiz Alberto Scotto e Carlos Locatelli. por existir. A Beatriz Tironi Sanson. por fazer o contato com uma das fontes. A Upiara Boschi. A Evandro e Leandro Martins. darem palpites. A Luís Francisco Wasilewski. Tadeu e Romeu Martins. não só pelo abrigo. pelos mesmos motivos. os grandes planos e sugestões. e a sua mãe. emprestando-me seu Morangos mofados. Clóvis Geyer e Tânia Rodrigues. vídeos. a Juliano.

João Batista. Pelo mesmo motivo. por me ensinar sobre disciplina. Antônio Neto. Laura Finocchiaro. por ler os textos assim que eu os mandava. Cada um a seu modo. pela fé no livro. a Ricardo Stefanelli e à equipe do jornal Zero Hora. Júlio César Monteiro Martins. pela paciência. Luiz Schwarcz. E a Regina Carvalho. Marcos Breda. Mário Prata. por estar sempre disponível. Gil Veloso e Luciano Alabarse cuidam com zelo da memória de Caio. Fernanda. Ivan Mattos. por terem gentilmente cedido fotografias importantes para este livro. Agradeço a Adriana Franciosi. Maria Adelaide Amaral. A meu editor. Grace Gianoukas. que não é pouco. Emanuel Medeiros Vieira. por trocar figurinhas e contatos. Leide. Luiz Arthur Nunes. Santiago. Carlos Emílio Corrêa Lima. Jaime Gargioni. Déa Martins. José Castello. Maria Lídia Magliani. Luiz Carlos Fava. Claudia Wonder. Paula Dip. João: pelo apoio. agradeço demais. Agradeço a todos os entrevistados. Irineu Garcia. Rafael Franco e ao pessoal da revista Crescer. Sônia Azambuja. Manoel. Stella Miranda. Juarez Fonseca. pelo grande conhecimento de todos os assuntos e pela amizade. Luiz Fernando Emediato. Por isso. Maria Rosa Fonseca. Anna Gioconda Homem (D. Cida Moreira. A minha família. também. a Jonas Lopes. pelo apoio. Graça Medeiros. pelas batatas fritas e sukitas. Márcia Denser. Gilberto Gawronski. Celso Curi. Itália). Bruna Lombardi. Pedro Paulo de Sena Madureira. Luiz Abreu. Guilherme de Almeida Prado. Kate Lyra. sempre. Ana Lúcia Vasconcelos. José Mora Fuentes. Itália Homem Ledur (D. que me cederam seu tempo e suas memórias: Adriana Calcanhoto.Darmaros. Quero agradecer. Amanda Costa. José Márcio Penido. Carlos Aguirre Sepúlveda. Reinaldo Moraes. Luiz Carlos Moura. Anita). . Por acreditar. Vera Antoun. Renato Campão. Jacqueline Cantore. Marisa. meu obrigada a Carpinejar. Vera Spolidoro. Ricardo Lombardi. Ana Braga. agradeço aos dois. Regina Echeverria. Nei Duelos. especialmente tia Laura e minha mãe. À sua família. Ruy Krebs.

  http://groups. Sempre.Obrigada mesmo. E.google. finalmente. amigo.br/group/digitalsource  http://groups.com/group/expresso_literario    . mas obrigada. A todos que me ajudaram de alguma forma. Sem você. Te amo. quero agradecer a Eduardo Nasi.com. não teria conseguido terminar o livro. companheiro.google. querido. o melhor marido. me apoiaram: seria longo citar todos os nomes.

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