Jeanne Callegari

CAIO FERNANDO ABREU
inventário de um escritor irremediável

CD
SEOMAN

  http://groups.google.com.br/group/digitalsource 

Esta  obra  foi  digitalizada  pelo  grupo  Digital  Source  para  proporcionar,  de  maneira  totalmente  gratuita,  o  benefício  de  sua  leitura àqueles que não podem comprá‐la ou àqueles que necessitam  de  meios  eletrônicos  para  ler.  Dessa  forma,  a  venda  deste  e‐book  ou  até  mesmo  a  sua  troca  por  qualquer  contraprestação  é  totalmente  condenável em qualquer circunstância. A generosidade e a humildade  é a marca da distribuição, portanto distribua este livro livremente.  Após sua leitura considere seriamente a possibilidade de adquirir  o original, pois assim você estará incentivando o autor e a publicação  de novas obras. 

 

Copyright © 2008, Editora Seoman Coordenação Editorial MANOEL LAUAND Capa e Revisão HENRIQUE MINATOGAWA Projeto Gráfico GABRIELA GUENTHER Foto da Capa e da Abertura do livro ADRIANA FRANCIOSI/AGÊNCIA RBS Checagem CLARA YWATA

Dados Internacionais de Catalogação Brasileira do Livro, SP, Brasil)

na

Publicação

(CIP)

(Câmara

Callegari, Jeanne Caio Fernando Abreu: inventário de um escritor irremediável / Jeanne Callegari. — São Paulo: Seoman, 2008. ISBN 978-85-98903-10-1 1. Abreu, Caio Fernando 2. Escritores brasileiros — Biografia I. Título 08-05638 CDD — 928.699 índices para catálogo sistemático: 1. Escritores brasileiros : Biografia 928.699 EDITORA SEOMAN Rua Pamplona, 1465 — cj. 72 — Jd. Paulista São Paulo — SP — Cep 01405-002 Fone: 11 3057-3502 info@seoman.com.br www.seoman.com.br Todos os direitos reservados e protegidos pela Lei 9.610/98. É proibida a reprodução total ou parcial sem a expressa anuência da editora. Foi feito depósito legal.

nos mostra Jeanne. mas decisivos da infância. de atração pelo risco mas também de fascínio pela beleza. com sua alma efervescente. pêlos nos lugares errados. desde cedo. Esta tendência logo se revela uma disposição para a fermentação interior. Nem mesmo a prática do jornalismo. pisa devagar sobre a matéria ardente. pelo apoio. Jeanne começa imitando os romances clássicos. com amor. PREFÁCIO O perfil de Caio Fernando Abreu escrito por Jeanne Callegari pode ser lido como um romance. e para Eduardo Nasi. diz. para temas ameaçadores como o erotismo. Ela parte dos extratos remotos. que também viveu como se sua vida não passasse de um romance. cheios de tristeza e de revolta. Um delicado romance que.Para Caio F. movimento que o arrastou. uma voz que desafinava igual a um pato. que se apóia no concreto e na objetividade. pela paixão. um terrível retrato de si. Caio Fernando Abreu tenha sido um eterno adolescente — e o livro . "Pernas e braços demais. Viver é não só suportar. através de um jovem ai ter ego e por vias tortas. Para Jonas Lopes. a fraqueza e o risco de morte. um desses romances tensos. A estratégia narrativa de Jeanne combina com a estratégia existencial de Caio. eu queria me esconder de todos". Em um conto como Pequeno monstro. Talvez se possa pensar que. mas sobretudo lutar contra o que se é. a formação difícil do escritor. o menino Caio demonstrou uma inclinação para a arte". "Desde muito pequeno. lhe serviu para abrandar as turbulências íntimas. de Os dragões não conhecem o paraíso. em cujas páginas avançamos com o coração na mão. cheio de paixão mas também de pudor. para acompanhar. Caio já rascunha. das primeiras descobertas e dos primeiros sustos. à distância.

e que o ajudou a delimitar. no início da década de 1970. . se o jovem rebelde persistia. mais afunda na dor. Pode-se dizer que foi na chácara de Hilda. nos enche de argumentos a favor dessa idéia. para entender a sociedade. a figura de um sujeito à margem. Quando. datada do final dos anos 1960. Períodos fundamentais — como aquele em que. nos mostra Jeanne. Mas Jeanne nos mostra também que. pois. havia desde logo um poeta (pela postura. nunca publicou). na Suécia. de vez. rompendo de vez os limites de uma vida burguesa. Leva então uma existência precária. quanto mais Caio se liberta e expande seus horizontes. lava pratos. e não porque escrevesse versos. ele se escondeu no sítio da escritora Hilda Hilst. faz bicos. segundo quem. Mas. mas avança. mas de incorporar como fundamento de sua existência. fugindo da perseguição da ditadura militar. grudado a ele. A bissexualidade se abre. perderse na esperança de. escoltado por ela — como uma parteira que de um corpo arrancasse não outro corpo. enfim. na Inglaterra. um rebelde. como um duplo. "Escrevo por uma espécie de incompatibilidade de gênios com a vida. Mesmo amparando-se no recurso mais didático da ordem cronológica. se os escrevia. sobrevive como pode. de um desviante. Caio escreve em uma carta aos pais. é preciso primeiro dela se afastar. mas um espírito — que o escritor adulto veio a nascer. nem assim a autora consegue organizar e domar a atmosfera de inconstância e de desamparo que cercou a vida do escritor. já é um homem que deseja abraçar o mundo. Hilda seguia a idéia do escritor grego Nikos Kazantzakis. Um homem que nunca desconheceu o peso do caminho que lhe coube atravessar. vai para a Europa. se achar. na Holanda. Lição que o jovem Caio tratou logo não só de imitar. por vezes. na periferia de Campinas — ajudam a fixar traços mais firmes. "As vezes que tentei morrer foi por não suportar a maravilha de estar vivo e de ter escolhido ser eu mesmo". Em sua chácara.de Jeanne Callegari.

pela primeira vez. de ignorância e preconceito. E aqui se deve entender o irremediável em dois sentidos: como uma condenação (algo que não tem remédio). se agiganta. nunca desiste de recomeçar. Caio menciona o terror da aids — que naquela época. um lirismo seco e doloroso. fisga quase toda a alma de Caio Fernando Abreu. depois de muita luta interior. é convertido por Caio em algo positivo mesmo. que comunica. Paulo. mesmo rápida. mais especificamente na novela Pela noite. em uma série de crônicas publicadas no jornal O Estado de S. muitas vezes. Mesmo cheio de terrores. De volta a São Paulo. que se acentua na atitude pessoal — que cultiva com esmero — de um bruxo. elegantes". Sua escrita está cada vez mais impregnada de lirismo. ainda era chamada. portanto. apesar da sensibilidade extrema e da volúpia de viver sempre frustrada. ela resume. É também o momento em que. Dedica-se cada vez mais a ler poesia — sobretudo Adélia Prado. escrevo para organizar o caos. gestos finos. aos 30 anos. É o momento da virada — em que o positivo que indica a doença. negativo. e como um destino (algo em que ele se lança para a vida e com grande vigor). Dor e escrita se conectam de modo fatal. termina por cometer suicídio — é uma síntese desses sentimentos. recebe a notícia de que é soro-positivo. "O ser todo exalava algo de sexual. e também de um misticismo vago. O anjo negro chega ao extremo até que ele mesmo. ele mesmo descreve em uma crônica da época. Fato. Um sujeito que. mas . A relação de amor e tensão que tem com a poeta Ana Cristina César — que. para não enlouquecer de impotência. A vida lhe abre uma nova face. em O triângulo das águas. do desastre. Jeanne reencontra Caio. em uma descrição que. "de calça de couro. O medo da loucura. de "câncer gay". do fracasso. Caio avança. encostado em um carro. jaqueta. Fraco. para re-fazer". e de solitário também".escrevo para reinventar. Fernando Pessoa e Mario Quintana. e é nesse nó que Jeanne Callegari puxa o fio de "um escritor irremediável". depois de uma doença longa e estranha. de modo frontal.

porque sabe que aventurar-se na vida e na obra de Caio Fernando Abreu guarda sempre um grande risco. quieto entre suas flores domésticas. dos mergulhos negativos. Jeanne se contém sempre. ainda. apegado ao prazer de cuidar dos próprios espinhos. e se dedica a rever seus livros. procurando extrair. mas também o encantamento das cartas de amor e. sentidos novos e vitais. A morte o pega quando vivia como um romântico jardineiro. é mergulhar no veneno terno da imperfeição. no sul. É nesse andar das coisas pequenas que Jeanne o persegue até o fim.cheio de coragem. Seu livro tem a objetividade dos relatórios científicos. ele volta a morar com os pais. a reserva temerosa das grandes confissões. o mais que pode. José Castello .

camaleão. não foi a exceção da regra. sempre flores. desde o início condenada ao fracasso. queriam dividir sua visão do Caio. inquieto. Muitos. Com todos esses tive que lidar. mas apaixonado pela vida. a literatura. O Caio que usava as palavras como arma de sobrevivência quando batia a depressão. de aids. de um humor implacável e ácido. de retrato. nunca a ponto de perder o caminho de volta. a vontade de ficar sozinho. O amigo difícil de conviver. o Caio filosófico.INTRODUÇÃO: CEM MIL CAIOS Um. o Caio deprimido. nas noites mais perigosas. mas que passeava e pairava por todas elas. Costuma ser assim. que se recusava a fazer parte de movimentos. chás medicinais com whisky. que alternava fases macrobióticas com costelas gordas. pelo contrário. O título de Pirandello ronda as noites de quem se impõe a tarefa. O Caio obsessivo com o lado escuro de todas as coisas. Ele foi milhares. mas nunca a ponto de se perder. curioso e temerário. cigarro com jardins e flores. o desespero. como João e Maria da fábula. apaixonado sempre. gostava de andar no limite. que marcava. não com pedacinhos de pão ou pedrinhas. Achavam quase egoísmo . o Caio abobrinha. do banal. rosas. com quem. da leveza. em 1996. Avencas. de uma fidelidade canina com os amigos. oculto pela linha fina. o escritor admirado e cheio de seguidores. fácil de amar. herdeiros e viúvas. O Caio do equilíbrio sempre além do comum. O Caio erudito. e também com seus órfãos. o Caio pop. das flores. reservado para poucos olhos. nenhum e cem mil. dar entrevista. sempre em busca da luz. estrangeiro. em uma tentativa como essa. sempre algo fica de fora da moldura. mas com seus textos. O Caio simpático com os outsiders. todos aqueles que ficaram carentes quando ele se foi. de traduzir e dar unidade a todos os muitos que algum outro foi. O Caio inclassificável. girassóis. filosofias e seitas. Escrever sobre Caio Fernando Abreu. suas memórias. Muitos não queriam falar. do qual ele mesmo era um dos principais objetos. Tinham ciúme e zelo de tocar em memórias tão delicadas. O Caio F.

a importância como filho. aparecendo como em uma revelação fotográfica. e a todos agradeço a colaboração. Apesar dos tantos traços. por trás de frases ditas e registradas em cartas. É que esse relato não se pretende definitivo. em meio a suas rosas e a sua família. através de contos e romances. personagem e autor da própria vida. Sim. Sobre o que conversaríamos se ele estivesse aqui? Sobre a infância em Santiago. e que homem extraordinário era esse!. Se a importância como escritor era flagrante desde o início. detalhe. como o personagem de Pirandello: a unidade. cada nova nuance. emergia aquilo que eu buscava. amigo. jornalista e personalidade foi surgindo devagar. A triste e heróica caminhada para o fim. do contorno esboçado. Jeanne Callegari . teríamos sobre o que falar. uma biografia exaustiva. um recorte dessas milhares de faces. Muita gente para prosear a respeito. no Rio. é imperfeito.deixar a beleza de anedotas e palavras para trás. Por trás de depoimentos e histórias que marcaram. queriam que o mundo conhecesse o homem por trás do texto. Ainda há muito a dizer sobre Caio Fernando Abreu. Cansa reviver momentos tristes e a partida de alguém que se amou. Não há razão mais certa que a outra. Antes é um perfil. faltam ainda detalhes. Fiz algumas descobertas sobre esse jardineiroescritor marcante e apaixonado. pensavam. A vida adulta em São Paulo. Mais cem mil para serem estudados. Por definição. a delicadeza em retornar meus pedidos insistentes. a adolescência em Porto Alegre. buscar fatos muitas vezes esquecidos num cantinho das lembranças. Partindo daqui. Cansa forçar a memória. muitas fotografias para nos fazer lembrar. dá para ir apreciando o caminho. muitos arquivos a revirar. a boa vontade. Pois o ponto de chegada não existe. Fui achando que entendia Caio. me sentindo íntima dele.

faz parte do acervo da família e foi gentilmente cedida por ela. assim como algumas das cartas de Vera Antoun e os postais de Pedro Paulo de Sena Madureira. . A carta de Manuel Abreu para o filho Zaél nunca foi publicada.As cartas de Caio citadas no livro foram extraídas de Caio Fernando Abreu — Cartas. organizado por ítalo Moriconi e publicado pela editora Aeroplano em 2002.

Déa Martins e Gil se encontraram no elevador. o amigo Gil conversava. Nova. O Estado de S. menosprezava e era contra as pessoas que tinham a indelicadeza de se matar. Zero Hora. Folha de S. como IstoE. Como jornalista. Alemanha. apenas. pela segunda vez naquela noite. a situação poderia complicar para o seu lado. Itália e Holanda. O ano era 1994. Subiram. Para evitar que Caio fizesse uma besteira. deixando os amigos morrendo de saudades do lado de cá. que estava junto no apartamento. Inglaterra. se seria melhor interná-lo ou não. que se aproximava da janela e a abria. Gallery Around. Gil sabia que Caio o queria bem: não faria nada que pudesse prejudicar o amigo. Aos 45 anos. em São Paulo. Além disso. as coisas vão se complicar para mim. naquela segunda-feira.PRÓLOGO — Caio. e . Leia Livros. era considerado ícone de uma geração. tinha integrado a primeira equipe de reportagem da Veja. Caio ligara para os dois. A reação era. com a vaga intenção de se jogar. Paulo. Caio Fernando Abreu era um escritor consagrado. Viveu com intensidade as décadas de 1970 e 1980 e. POP. um reflexo da febre. ganhador de dois prêmios Jabuti. e depois disso passara por vários veículos. Há três dias. você vai fazer isso comigo? Se você se matar. o escritor tinha descoberto que era portador do vírus da aids. traduzido na França. Ele está ao lado da janela do andar de cima do duplex de um flat na Frei Caneca. viram que Caio não estava bem. Era também autor premiado de teatro. e ambos chegaram com garrafas na mão. Ele argumentava com o escritor Caio Fernando Abreu. Caio não era um suicida. Correio da Manhã. Paulo. Outras pessoas haviam passado por lá: no final da tarde. por ter retratado tão bem experiências e emoções de sua época. argumentando que se ele se jogasse lá embaixo. Mas Gil Veloso não pensava em nada disso quando foi socorrê-lo no flat. pedira para que levassem água. que estou aqui com você — grita Gil Veloso. conversaram sobre a situação.

Estava muito fraco. depois do fim de semana aparentemente sensato. Não eram poucos os amigos que Caio tinha perdido para a aids: Vicente Pereira. continuavam os delírios. Não era mais ficção. o que estava acontecendo. Luiz Roberto Galizia. Caio paralisou. Recitou coisas sem sentido. que estava com ele. em 1983. Deu um grito. não queria comer. olhou para Gil e compreendeu o absurdo do gesto. Na primeira vez que desceu as escadas para alcançar o telefone. Aids. Eram mais ou menos onze da noite. Da segunda vez. entrou no jogo. Então veio a febre. Gil ficou conversando. ouviu a janela se abrindo. acalmando o amigo até que pudesse descer novamente e pedir ajuda. pensou Caio. contando que estava com aids. teve alucinações. Aids! Estou com aids. Correu e pegou Caio. Déa foi embora e Gil ficou cuidando do Caio. e parecia natural que assim fosse. Gil decidiu ligar para uma médica. doença. A essa altura.combinaram de ir se falando. Mesmo assim. agora era de verdade. Lory Finocchiaro. Não houve jeito senão chamar uma ambulância e levá-lo para o hospital Emílio Ribas. como uma criança. e . como se digerisse a situação. Assustado. dando a notícia. os semsentidos que dizia. Agora era a sua vez. ele diria que sua primeira reação foi de naturalidade. e ele não se lembrava de mais nada. como se já esperasse: a doença o rondava fazia pelo menos dez anos. morte. delirou. Depois. conseguiu telefonar para alguns amigos e para a médica antes que Caio abrisse novamente a janela e ele precisasse argumentar para evitar novas tentativas. Mas. que se aproximava do parapeito. para assim tentar trazer o doente de volta à realidade. algo mudou: ele finalmente pareceu assimilar. Fim da linha. Gil. Paulo Yutaka. com toda a força. Cazuza. Caio estava já completamente nu. quando. Estava recluso. O escritor passara os últimos três dias ligando para os amigos. começaram a aparecer os primeiros casos no Brasil. fingia estar vendo as borboletas imaginárias.

porque Zaél já era homem feito. único responsável por seus atos. tinha sido no Rio Grande do Sul que tudo tinha começado. Era tempo de Caio realizar um sonho: voltar ao Rio Grande do Sul. Caio já estava em um quarto. Zaél fora morar em Itaqui. Segundo. amigos do copo e de mulheres bonitas. Os amigos foram visitá-lo e sua irmã Cláudia chegou de Porto Alegre. O comerciante Manuel Abreu. Voltar a Porto Alegre. No dia seguinte. de bebedeiras e namoricos. No hospital. Por isso. do contato com colegas farristas. O rapaz. senta-se para escrever uma carta ao filho Zaél. mesmo sem conhecer a moça em questão. emancipado e. tinha passado por uma fase boêmia. nascido em 1887. porque. que também morava em Itaqui. seu Manuel acreditava que o . transferido junto com o primeiro batalhão destacado para operar na cidade. por dois motivos. O médico disse a ele: — Você precisa agora é de qualidade de vida. quando. Coisa da idade. pequena cidade ao sul do Brasil. não havia leitos. para a casa dos pais. Gil já havia ligado para Déa. Plantar roseiras. pois os enfermeiros tinham medo da contaminação. portanto. Voltar às raízes. Caio ficou em uma maca enquanto aguardava que um quarto vagasse. normalmente tranqüilo.quem o vestiu e o colocou na ambulância foi Gil. no final de 1945. Primeiro. que também estava ali. Tendo escolhido a carreira militar. Não se lembrava de absolutamente nada. de 24 anos. ele não nega. UM É a década de 1940 em Santiago do Boqueirão. Afinal. ter uma vida tranqüila. seu Manuel recebe uma carta do filho pedindo autorização para se casar.

com pulso firme e determinação. Zaél e Nair se conheceram em Itaqui. dizendo que. "porque não é lícito também ficares noivo indefinidamente. a mãe começou a costurar para fora para pagar as contas e. Aproveitando para agradecer o lindo vidro de azeite que Otacílio e Jurema haviam mandado. o presidente. Manuel esperava que as qualidades da noiva de Zaél se confirmassem.casamento seria uma boa maneira de tranqüilizar a vida de Zaél. provavelmente cristãos-novos. Manuel Abreu". o jovem sossegou. Válter. Eram descendentes de portugueses. comandava a casa. Zaél Menezes Abreu e Nair Ferreira Loureiro se casaram. A carta. onde ela nascera. com boa vontade e energia. mãe dela. Nair insistia em estudar: viria a ser professora. três se tornaram donas de casa. A família de Nair era das mais distintas: Alcina Alves Ferreira. ele termina a carta. dando seu consentimento para a cerimônia. Das outras meninas. trazia também recomendações para que Zaél economizasse dinheiro a fim de poder se casar o mais rápido possível. "Por causa dos narizes". tranqüilo. o pai responde à carta. a situação financeira da família ficou complicada: com a morte do pai. Era ela que. No mais. Assim. brincaria anos mais tarde uma das netas de dona Alcina. assim. decidida. Nair era mulher forte. E Manuel deve ter gostado da nora que aprovara mesmo antes de conhecer. poder mandar as crianças para a escola. foi a única dos sete filhos a cursar faculdade. seria possível controlar a vida desregrada que o filho levara até ali. Quando Nair era pequena. com "saudades e abraços de todos. No dia 15 de dezembro. Itaqui tinha pouco mais de 18 mil habitantes na época e a base de sua economia era agropecuária. prejudicando o futuro de uma filha alheia". se tornou . e que ambos fossem dignos um do outro. do teu pai e amigo. Dois anos depois. Seria sempre conhecido como homem afável. Localizada na fronteira com a Argentina. era prima de Rodrigues Alves. porém. Depois da entrada dela na vida de Zaél. um dos rapazes.

contrariado. como Nair. Portanto. paixões nasciam e morriam. Nair se formou na Escola Normal: ser professora era uma das únicas profissões possíveis para uma mulher naqueles tempos. Seu humor. ele não teve dúvidas e disse: Zeferino. pois não havia dinheiro para isso — Zaél foi transferido para Santiago e Nair . Queria entrar fardado e a cavalo no clube. e ele não pôde sair. As mulheres andavam para um lado e os homens. com um Z gravado. Estava bêbado. Assim que se casaram — sem festa. Na troca de olhares. freqüentes na época. Depois da fazenda. Aos 16 anos. Marciano. a se tornar prefeitos de São Borja. era difícil achar quem acertasse. na Praça Central. fora inventado a partir de partes do nome de seus pais (ManuEL e AdeliZA). que. em Itaqui. foi sua irmã Flora. anos depois. Uma noite. quando Nair perguntou o significado do Z. ela iria a um baile no Clube Comercial de Itaqui. Ela perguntou o que significava aquela inicial. Nair foi para outra das pequenas cidades da região dar aula em uma escolinha. para o outro. ele usava um enorme anel de ouro. Provavelmente. Quando Nair conheceu Zaél. Aos 17. Zaél sossegou. assim como o de sua irmã Elza. jogador de futebol — chegou a fazer parte do Botafogo do Rio de Janeiro. Todo mundo confundia: Ismael. os três garotos viriam. Mais tarde. e assim foi até que conheceu Zaél. Israel. no entanto. e o outro. enquanto ainda eram noivos. Depois de casado. ela se mudou para uma fazenda em São Borja — a cidade dos presidentes Getúlio Vargas e João Goulart — para dar aulas para os filhos de um rico fazendeiro. mas os amigos do quartel o amarraram na cama. Resmungava sempre algo sobre isso. A confusão foi desfeita. permaneceria o mesmo: embora calado. ou na hora do footing. Zaél odiava profundamente o próprio nome. Zaél discutiu com Nair. de vez em quando soltava tiradas mordazes e engraçadas. e ele queria porque queria entrar na festa para buscá-la. mas a anedota ficou na memória da família.delegado de polícia. A única que também se tornou professora. Um a um. o encontro se deu em algum dos bailes.

no Rio Grande do Sul. Santiago viria a ser a inspiração para Caio criar o Passo da Guanxuma. Não pelo tamanho ou pela prosperidade. e a maioria dos homens que ali moravam era militar. O pai de Neltair era primo-irmão de Zaél. Em 1936 — dois anos antes de Santiago ser oficialmente promovida a "cidade" — o juiz eleitoral Moysés Vianna morreu abraçado a uma urna eleitoral. O Passo aparece em vários contos de Caio. uma cidade fictícia. que. Houve. regravado em inúmeras línguas. no entanto: houve um sambista. em um país apaixonado por futebol.arrumou um emprego como professora em uma escola local. Embora o texto inteiro jamais tenha sido feito. . que certamente possuía. enquanto era cravejado de balas. o heróico juiz virou medalha: a "Medalha do Mérito Eleitoral Moysés Vianna". Nem só de quartéis viveu Santiago. ou pelas belezas. quando Nair ficou grávida do primeiro filho: uma terra predominantemente militar. Achavam bonito. Por defender a lisura da eleição naquela localidade com a própria vida. batizado Neltair Rebés Abreu. como qualquer outra cidade. Lá nasceu também o cartunista Santiago. coletânea lançada no fim da vida do escritor. Túlio Piva. em 1948. que gostavam de namorar homens fardados. antiga São Tiago das Missões. concedida a todos aqueles que se destacassem pela atuação em matéria de Direito ou Justiça Eleitoral. também. tirou o apelido da cidade em que nasceu. E. Santiago era polvilhada de quartéis. pelo menos um herói. e ele ambicionava um dia escrever um grande romance sobre a cidade. se destacava das outras pequenas cidades da região. à maneira da Macondo de Garcia Márquez e da Santa Maria de Juan Carlos Onetti. também havia de existir um jogador vindo de Santiago: Anderson Polga. o capítulo introdutório aparece em Ovelhas negras. perto da fronteira com a Argentina. Sorte das mocinhas. autor do sucesso de verão Tem que ser mulata. seus costumes e lendas. com seus heróis e mártires. Santiago do Boqueirão. mas pela quantidade de quartéis. Assim era Santiago.

não todo completo: seu Zaél. são touceiras espessas de guanxuma. Caio seria o único dos cinco filhos de Nair a ter um álbum de bebê. De distúrbios estomacais. quase não incomoda". Esse é o bebê Caio: cútis branca. que o preenchia. [. Zaél. nem de pó acumulado. nunca pára de crescer. morre Getúlio Vargas. Na rua Pinheiro Machado. está anotado. o que se diz.]. calorão ou friagem. De tudo. que os ramos servem pra fazer vassouras capazes de assentar até mesmo a poeira daquele deserto próximo que sopra e sopra noite e dia sem parar e. que. sofre ou sofrerá o Passo.. mãe de Nair. O papai não vai enumerá-los por ser muito longo e estar com preguiça de escrever. algum tempo depois. na seção presentes: "Ganhou muitos presentes. As parteiras Julia Jacques e dona Alcina. com o passar dos anos. que chá de guanxuma é tiro e queda."Isso é o que se conta. olhos pretos. Nair de Abreu acabava de dar à luz pela primeira vez. por exemplo. 575. sem sinais particulares e "muito quietinho. o pai. confirmavam: é um menino. se tornara getulista convicto. sobre os cabelos da criança: "apesar de escassos. o que se vê e não se vê. dizem. No álbum do bebê. Ainda assim. anotaria... dizem tanto. O falecido presidente era natural de São Borja. no primeiro aniversário de Caio. Lia tudo que saía sobre Getúlio nos jornais e tinha uma foto dele . E um menino bem grande: Caio Fernando Loureiro de Abreu nasceu pesando notáveis quatro quilos. nem sempre tinha paciência de escrever tudo que acontecia. ai como dizem nesse Passo." Em 1954. Assim. de dois males jamais sofreu.. mas se imagina do Passo. como o pai de Caio." Eram oito e quinze da manhã do dia 12 de setembro de 1948. nota-se que serão castanhos". o mais real. salpicadas entre as quatro patas da aranha — no meio dos girassóis do leste. à beira dos lajeados ao sul. pelos descampados do norte e até mesmo entre os vãos mais sombrios das areias a oeste — o que mais tem em qualquer tempo de seca ou aguaceiro.

em sua casa. O colega Ruy Krebs. Desde então. na sua trajetória de escritor.pendurada na parede. também instigava os filhos a aprender. uma menina louquinha que queria fugir de casa. homem sofisticado. Zaél ficou arrasado. o Beco (pronuncia-se Beco). e não era só ele. quando Caio tinha uns sete anos. que eles assinavam. o menino Caio demonstrava uma inclinação para a arte que viria a desenvolver mais tarde. em um conto do livro O ovo apunhalado. Quando ele morreu. Aos poucos. de sobrancelhas grossas e bem desenhadas. quando estudaram na mesma turma. só havia livros ideológicos. pois seu pai era comunista e. O ambiente da casa dos pais era propício para isso: Zaél. embora ele mesmo nunca tivesse deixado seu país — enfeitavam as prateleiras da casa. ele. escreve seu primeiro texto. Com seis anos. vizinho e primo dos Abreu. a livros de Monteiro Lobato e a coleção chamada O mundo da criança. D. O quartel no fim da rua era o oásis: na frente da casa dos Abreu era onde o avião dos três garotos tinha caído. a história em quadrinhos de Lili Terremoto. Sendo professora. Desde muito pequeno. dividia a paixão por livros. Nair. Eles tinham que atravessar todo o deserto — o espaço entre a casa e o quartel — e conseguir víveres e peças para consertar o avião. se na política as coisas iam mal. a mãe. Mas. Machado de Assis. irmão de Caio. As coleções completas de Érico Veríssimo. como seria a vida toda. o menino. De vez em quando. do escritor de aventuras Karl May — um alemão cujas histórias se passavam no faroeste norte-americano. grande amigo do Gringo. lia muitas coisas quando ia visitar a casa deles. que seria um dos melhores amiguinhos do Caio a partir do primeiro ano ginasial. de muita cultura. as crianças podiam ler tudo. como Caio chamou a brincadeira anos depois. Luiz Carlos Moura. o garoto continuou escrevendo e criando. Nenhuma leitura era proibida em sua casa: de gibis de aventuras e revistas como O Cruzeiro. estava sempre com um livro na mão. já muito magro e muito alto. iam faltando as coisas: . em casa Zaél só tinha motivos para alegrias. ou oásis. Beco e Gringo brincavam de deserto.

As crianças chegaram da escola. Em um desses balanços. certa vez. por incrível que pareça. e a Etelvina tinha que balançar pra lá e pra cá. Anos depois. Caio encontra uma receita de massa para fantoches na antiga Revista do Globo. a Nairzinha. comida. de Porto Alegre. Montou toda a estrutura no galpão de casa. Caio morreria de rir sempre que se lembrasse dessa história. Uma delas era também Nair. Em poucos quarteirões. A sede era a garagem da casa do Sales Horácio.água. Nair ajudou a fazer o enxoval. Armaram no teto um trapézio. Naquela época. Houve também a Etelvina. a pobre caiu de cabeça no chão. Tinham que sentir. Ruy se lembra de que. então com dez anos. Caio resolveu brincar de circo. são os que gostam de brincar brincadeiras mais parecidas com as de que eles mesmos gostam. pobre Etelvina! Certa vez. tratada com carinho pelos pais de Caio. D. apesar do tombo feio. os meninos estavam cansados. Quando a moça se casou. atuar. de cabeça baixa. a turma percorria as obras em construção atrás dos sacos que embalavam o cimento para fazer os cenários. fingir que era tudo verdade. Quase sempre só os três: a maioria dos outros garotos não conseguia ir até o final. quem fazia os roteiros das peças que encenavam era ele. Caio. colega dos meninos. são jogos que eles mesmos inventam. Nada de jogar futebol ou vôlei: quando brincam de bola. Como a turma gostava muito dos circos e teatros mambembes que de vez em quando passavam pela cidade. que de vez em quando aparecia por lá. Certa vez. assim como inventam as brincadeiras de fantoche e de deserto. e Gringo. E os irmãos Abreu. e não o Caio. fazer um teatro. filho de camponeses. A noite. Não se machucou. Cobertores velhos faziam as vezes de cortinas. os empregados dormiam em casa. Na casa dos Abreu havia sempre uma empregada doméstica. decidiram. O único que às vezes participava da brincadeira era o negrinho Jorge. escrita por Glênio . São duas da tarde. E conseguiam. Ruy e Beco vão para a casa dos Abreu brincar. suados. decidiram fazer um teatrinho de fantoches.

e tão secreta que. mora ali. nos anos 80. sente o cheiro profundo de jasmins que vem do jardim lá fora — o cheiro era tão forte que às vezes a mãe sentia tonturas — e vê a casa da frente. diziam. que depois se tornaria artista plástico famoso. e inventam historinhas para as peças. ele se perguntaria mais tarde. às vezes. Na minha memória — já tão congestionada — e no meu coração — tão cheio de marcas e poços — você ocupa um dos lugares mais bonitos. escondida por plantas. Por agora. talvez você nunca tenha percebido. Uma casinha de madeira.Bianchetti. chegaria mesmo a pisar no palco como ator. E assim Caio descobriu que os poetas existiam. Mas isso seria muito tempo depois. a não ser brincar. adaptaria textos de outros escritores. Eles fabricam os bonequinhos. De vez em quando. Sem nunca ter trocado uma palavra com Oracy. Caio viria a escrever de verdade para o teatro. o fornecimento de luz elétrica é intermitente e não há qualquer preocupação na cabeça das crianças. organizado por Fátima Friedriczewski. Oracy Dornelles. anos e anos depois. escoava o som de música clássica. não há asfalto nas ruas. Da janela dele. Faria suas próprias peças. Que seria?. Froilan Oliveira e Júlio César Prates. Caio se lembraria da afinidade que sentira pelo vizinho. penso. Numa cidadezinha perdida. dois malditos que se reconhecem sem que seja necessário sequer falar sobre isso. porque tinha um telescópio para observar o céu. nunca nos olhamos. Uma cumplicidade muda. um coqueiro. Beethoven? Wagner? Caio dizia para Ruy que Oracy conversava com as estrelas. Ficou só aquela vibração de silêncio. poeta. em companhia da mãe. praticamente. Em carta escrita a Oracy. muito forte. em Porto Alegre. mesmo sem nunca ter conversado com ele. olha pela janela do quarto. as cabecinhas de papel machê. 'Nunca nos falamos. Era um poeta. Além dos textos. Caio. sentia com ele uma identificação. "A carta foi incluída no livro O que importa em Oracy. Não dava para imaginar que. a cidade é Santiago. Oracy fez pinturas e esculturas em fios de . são meados dos anos 50. Era um som novo para Caio. muito tempo depois. faziam também teatrinhos de sombra.

Caio e Ruy pegam cartolina e tinta nanquim. vestidos a rigor.cabelo e grãos de areia. No outro dia. tudo. fazendo uma algazarra. as vinte e poucas bonequinhas vão surgindo no papel. que também estão com seus bonequinhos. miss Minas Gerais. Que nem aquelas que vinham com as fotografias na revista O Cruzeiro. em que os membros se reuniam para ouvir concertos do compositor — nas noites de gala. as crianças se reúnem de novo para brincar. e ficaria famoso pelo circo de pulgas que mantinha. Beco sai de casa. Caio e Ruy chamam Gringo e Beco. Depois de meses de trabalho. que está lotado. Ruy pinta as modelos e desenha os trajes típicos. inventadas. Anos mais tarde. Os dois estão convocados: é hora do desfile das misses. Começa o filme. Enquanto Beco e Gringo jogam xadrez — Beco seria campeão amador da modalidade. as roupinhas. afinal Caio tinha esse jeito de impor sua vontade na hora das brincadeiras. Em determinada hora. pequeninas. Caio desenha as misses de maio. Quando as crianças eram mais novas. uma a uma. Depois que estão prontas. o mocinho começa a perseguir o bandido. aos berros: . com a diferença de que aquelas eram reais e essas. uma para cada estado do Brasil: miss Rio Grande do Sul. às quatro da tarde. quando crescesse —. Mesmo que não estivessem muito interessados. ou na sessão seguinte. miss São Paulo. desenhadas. Um divertimento que todos adoravam era ir ao cinema. e acabava sempre conseguindo o que queria. Vão ao cinema. o Cinema Imperial. os nomes. as medidas inventadas. de tarde. Pega seu boneco do "mocinho" e se encontra com Caio e Gringo. e os meninos esperavam ansiosos o dia de assistir aos "filmes de mocinho". E a senha para a comoção geral: o pessoal todo do cinema começa a bater os pés no chão. só podiam entrar no cinema na matinê de domingo. e eles vão ser os jurados. ele esclareceria: era Beethoven o som que Caio ouvia pela janela. Oracy foi um dos fundadores do Clube de Beethoven. Fã ardoroso do alemão. Havia apenas uma sala de projeção na cidade. lado a lado.

principalmente. No verão. porém. Por exemplo. com exceção dos filmes censurados para menores.— Aí. viram os desenhos de outro menino. Caio e Ruy se consideravam os melhores desenhistas da turma. Um dia. AA era Antônio Aguilar. Claudia Cardinale. perto de Santiago. feita de lajes de pedra. Caio e Ruy se impressionavam. e se espantaram. Os desenhos do Neltair. Neltair cresceria. Os dois passavam na calçada só para olhar os desenhos. Dessas praias. e seria cartunista famoso. ao mesmo tempo em que sacodem no ar seus bonequinhos de mocinho. mocinho! Aí. para anotar caso aparecesse um YY ou WW. usando as iniciais dos nomes de artistas. mocinho! Caio. como concursos de desenhos para os cartazes dos filmes da semana. Quando Caio cresce e seu companheiro passa a ser Ruy. Havia uma praia muito bonita no distrito de Ernesto Alves. Afinal. eles já podem ir ao cinema quase todos os dias. os jurados eram o Gringo. Doris Day e Diana Dors. Uma vez. como a maioria na cidade. KK era Kay Kendall. O problema surgiu quando chegaram as letras YeW: onde encontrar um nome cujas iniciais fossem essas letras dobradas? A questão obrigava os meninos a levar caderno e lápis para o cinema. assim como no concurso de misses. CC. primo de Caio. Ruy e Caio desenhavam os cartazes e. Marilyn Monroe e assim por diante. adotaria a alcunha de Santiago. dos bons. cidade vizinha. e também a praia de Jaguari. Caio pode ter tirado a descrição da . BB era Brigitte Bardot. Gringo e Beco também gritam e batem os pés. Era uma festa. por acaso. De tanto irem ao cinema. inventaram passatempos relacionados. as famílias gostavam de acampar na beira dos rios. um nome que acharam no elenco de filmes mexicanos. em homenagem à cidade. tiveram a idéia de fazer um alfabeto duplo. com os gladiadores greco-romanos. eram feitos com lascas de telha ou tijolo na calçada. MM. DD. o Beco e a empregada da casa do Caio. O julgamento artístico dos meninos era bom. pois assistiam a muitos filmes épicos e bíblicos no cinema.

Certa vez. pulavam. já perdidas no tempo. indecifráveis como elas. no entanto. até cair no chão. um pouco inspirado no Clube do Bolinha e da Luluzinha. Finalmente achei. Os garotos subiam na cama. um acontecimento. apropriando-me cada vez mais de sua natureza. . que comandava a casa. os fantoches. ali. que D. Pulavam. guardavam os brinquedos. A idéia era que fosse um lugar só deles. do livro Os dragões não conhecem o paraíso. As praias e fazendas próximas. misteriosas até hoje. e começavam a pular. Na casinha. Calei a descoberta. forneciam um contato com a natureza de que.praia do conto Uma praiazinha de areia bem clara. Inventário do irremediável: Chamá-las de alguma coisa seria dar um passo no caminho de seu conhecimento. Caio escreveu sobre isso no conto Corujas. de seu primeiro livro de contos. na beira da sanga. foi inventada por Caio: bailu. anos mais tarde. não permitiu mais que os garotos brincassem desse jeito. assim como seu nome. Houve uma brincadeira. Rasputin e Cassandra. jogavam cobertores sobre as cabeças. Apesar de divertido. goiabeiras. os gibis. e a mãe. como quando os garotos passavam o dia no enorme quintal da casa dos Abreu. Havia sempre um cachorrinho pela casa. onde havia todo tipo de árvore frutífera: bergamoteiras. Podiam passar a tarde chupando bergamotas ou brincando na casinha que Caio improvisara com uns compensados de madeira da embalagem de uma geladeira que haviam comprado. alguém trouxe duas corujas. A brincadeira. Caio sentiria falta. como se sutilmente as fosse amoldando à minha maneira de desejá-las. de amigos e parentes. Eram nomes de criaturas estranhas. Era uma novidade. O verde estava presente em muitas brincadeiras. ocultei o batizado. era muito perigoso. de modo a não enxergarem nada. embora inconscientemente soubesse da inutilidade de tudo. pitangueiras. Nair proibiu os filhos de fazer. morando nas metrópoles acinzentadas e sem verde. ou algum outro bicho.

A maioria dos meninos sobe. alguém fez em um jornal-mural uma caricatura do futuro escritor. que conseguem subir. é o Capitão Pely. velados. A subida era pelas laterais. certa feita. Anos depois. o outro menino começa a empurrar com força. Elza. desde pequeno. colega de Caio na 4a série. O jeito de Caio sempre fora um pouco diferente. o tímido e retraído Caio aprenderia a lidar com essas situações e seria mais enfrentativo. tinha traços ambíguos. talvez por ser cunhado de Zaél e se sentir na obrigação de despertar no aluno um comportamento viril. riem da cara do Caio. — Caio. debocha do menino. não gostava de futebol. A sociedade santiaguense da época não estava preparada. Os outros meninos. De vez em quando. Caio está no Círculo Militar. másculo. escrever. passavam umas projeções de filmes. O capitão insiste para com que Caio suba. e os meninos iam lá: Santiago. Afinal. o chama de cagão. Caio tem oito anos. implicando. Os alunos têm que subir em uma tábua suspensa. que viria a se tornar o cartunista Santiago. O capitão vivia implicando com ele. não balança que eu caio! — berrava o Caio Abreu lá do alto. que também dá aula de Matemática. Sabendo que Caio. aludindo à sua pretensa homossexualidade. também chamado Caio. o Abreu. embora não fosse bom nos esportes. Caio. preferia desenhar. onde. Ele tem medo. o irmão de Santiago. Está na aula de Educação Física. Sempre esse professor pegando no pé. o futuro escritor se senta no balanço. um clube da cidade. O primo Neltair. vem empurrar. era competitivo: sempre . que não consegue. cada vez com mais força. Era a época dos comentários maldosos. era mais frágil. de patinação. apavorado. E outro dia. Chegaria mesmo a se envolver em brigas. Caio não. Luiz Abreu. casado com a irmã do pai de Caio. Tem quadra de tênis. se lembra do preconceito contra o menino Caio na escola. que ficavam em um plano inclinado. O professor. balanços. Outro menino. Um dia.Mas nem tudo era brincadeira. comprida e estreita. exigindo.

como se fosse um fantasma ou aparição. alcançava Felipe e batia. nem sentir seu cheiro. desceu as escadas e foi até a cozinha pegar um copo de leite. que acordara com a movimentação do irmão. copo e bolachinhas voavam para todos os lados. mas tinham algum prestígio. na casa da família. nada. batia nele. Era noite. Caio adorava assustar as pessoas: talvez por tédio. ele saiu do quarto. E sapeca. porém. nasceu Luiz Felipe. não podia nem vê-las. Cerca de dois anos após o nascimento de Gringo. Anos depois. quando ele estava em casa sempre pegava as pessoas de surpresa pelos corredores e arrancava gritos de todo mundo. Felipe não disse nada: simplesmente estendeu os braços e colocou as mãos em cima das costas do irmão. mas o castigo não conseguia fazer com que o mais novo parasse. ao mesmo tempo em que leite. apavoradíssimo. A década de 50 está terminando. em Tramandaí. em 1961. menos o Caio. quando as irmãs caçulas Márcia e Cláudia já eram grandes. Felipe pegava algumas e arremessava nele. que ficava acordado até tarde escrevendo. e D. em 1957. Márcia nasce em 1960. mais velho. a família Abreu tem uma posição distinta na sociedade santiaguense. Caio ficava furioso: mais alto. Por essa época. as peças que Felipe e Caio costumavam pregar um no outro continuaram. Nair estava sempre cotada entre as dez mais . Nair teve mais um filho. Sabendo que o irmão mais velho odiava cebolas.representava o colégio nas disputas de conhecimento sobre Geografia e História. Cláudia. Luiz Felipe adorava provocar Caio. que cresceu saudável. por falta do que fazer. O grito de Caio. escondeu-se no vão da escada e esperou. Felipe. Mesmo com os garotos crescidos. Em dado momento. foram todos veranear na praia. quase todo mundo dormia. Valia a pena apanhar um pouquinho para ver a cara do irmão furioso. D. Uma vez. Zaél era integrante da maçonaria. acordou todo mundo na casa. Quando Caio voltou com um copo de leite e um prato de bolachinhas. Esse. Não eram ricos. morreu logo após o nascimento.

fotonovelas e melodramas mambembes do Circo-Teatro Serelepe. muito "adequados". que demonstrara uma personalidade forte e independente desde os primeiros anos. pois na sua ele e Ruy eram os responsáveis. O meu coração estava cheio de ódio por Fernando. mas talvez possa render algumas risadas". o professor promovia aos sábados as Horas de Leitura. o rapaz abraçou-a e deu-lhe um leve . George! — soluçou a moça. Para o concurso. A carreira de militar e a situação de professora conferiam certa diferenciação social na época. o filho mais velho. As meninas faziam fila para ler. e o casal era muito respeitado. como se lembraria o escritor anos mais tarde. a notoriedade de Zaél e Nair se estenderia a Caio. "E evidente que a história cheia de clichês. escreve ele. e criou os jornais-murais. eu só pensava em vingança. Assim termina a história de Adriana e de seu envolvimento com os SaintMarie. aqueles mesmos em que Caio seria ironizado por colegas de outra turma. Venceu. Caio brigou com Gringo por ter exposto o nome da família daquela maneira. Como posso estar feliz? Não mereço o seu amor. não presta. que foram assistir ao espetáculo de forma lícita. enfureceu-se com o irmão Gringo por ter entrado sem pagar no circo que estava na cidade. A idéia do concurso era do professor Cavalcanti. muito finos. Caio encheu um caderno inteiro com o pequeno romance A maldição dos Saint-Marie. inclusive de Caio e Beco. Tanto ela quanto Zaél eram muito vaidosos. Aos 13 anos de idade. Essa posição da família era estimada por Caio: uma vez.elegantes da cidade nos vários bailes e festas a que compareciam. figura importante nos primeiros anos do escritor: além de organizar os concursos literários. influenciada por radionovelas. donos de um suntuoso castelo na França: — Oh. pouco antes de morrer. Gringo foi apanhado e expulso do lugar à vista de todos. quando incluiu o texto na coletânea Ovelhas negras. Você me perdoa? Como resposta. Pela via da arte. em que os alunos liam textos e recitavam poemas. participou de um concurso literário na aula.

que morreu de leucemia aos 15 anos. um Caio diferente. Como prova de seu amor. A aurora já põe os dedos cor-de-rosa no puro azul do firma-mento. Ela era aluna de D. Caio roubou uma prova de História e entregou para a garota. Contra o horizonte destaca-se a outrora mansão dos Saint-Marie. Afinal. agora transformada em ruínas. parecendo uma promessa de esperança e fé no futuro. foi a Iara Nicola. Por isso é que. Talvez agora eles possam ser felizes. começaram a aparecer as primeiras namoradinhas. por exemplo. às vezes oposto ao que outros se recordam. ele seria não um. Lenita. filha de D. a precursora dos salões de beleza em Santiago. Caio. Depois de um tempo. O espanto acompanharia Caio pela vida afora. Lenita. De alguma maneira. ele mandava as meninas comprarem balas . a mãe dele descobriu. A irmã mais nova de Iara. o Caio mais sereno e maduro do fim da vida. a pérfida Amália não fará mal a mais ninguém. Os meninos iam crescendo. e Beco presenciou a cena em que ela passava a maior bronca no filho primogênito.beijo nos lábios. Mais atrás vê-se a silhueta de dois jovens abraçados. quando já tinha sua homossexualidade estabelecida. A primeira delas foi Tânia. Certa vez. o Caio enfrentativo e ousado da juventude. As duas estavam sempre por perto a pedido de D. Beco se espantou: só naquele momento é que ele ficou sabendo que o amigo tinha uma queda pela garota. era considerado avançado para a época. Caio se apaixonou por uma menina muito bonita que morava perto de sua casa. Valéria Nicola. Depois dela. Nair. Incapaz de se condicionar a algum rótulo. mas muitos: o Caio tímido da infância e da adolescência. Para cada pessoa que o conheceu. algumas das pessoas que conheceram o escritor mais tarde. e sua amiga Nádia Ahmad se lembram de como gostavam de escorregar nas longas pernas do Caio quando ele ia visitar Iara. com seus cabelos compridos. onde as senhoras iam fazer os penteados da época. que pedia que ficassem de olho no casal. se espantam de que tenha tido namoradas.

com febre e sozinho. seu primeiro romance: Eu gostaria de ir embora para uma cidade qualquer. mesmo que após um certo tempo eu voltasse derrotado.. Luiz Carlos Fava. e sabia que Santiago não poderia satisfazer seus anseios.] . que acabaria por se casar com outro santiaguense. No internato. Embora a mensalidade pesasse no orçamento dos Abreu. se elas são realmente fortes como imagino. E se não forem. Diz que esteve na enfermaria. Ele não se adapta. bem longe daqui. Confesso que tive vontade (e tenho) de morrer. cada riso de criança que vinha lá de fora eu julgava ser da Márcia ou da Cláudia. másculo. pedindo para irem buscá-lo. Onde eu pudesse experimentar por mim mesmo as minhas asas para descobrir. e que tem vontade de morrer. Ele queria conhecer novas coisas. onde ninguém me conhecesse. Nair concordava..para namorar Iara. [. onde não me tratassem com consideração apenas por eu ser "o filho de fulano" ou "o neto de beltrano". Caio fica doente e escreve uma carta medonha a seus pais. ferido. Caio muda-se para Porto Alegre para estudar no Instituto Porto Alegre (IPA). o filho queria. O colégio era caro e bom.. mesmo que quebrassem no primeiro vôo. e D. enfim.. um oposto de Caio em todos os sentidos: esportista. não consegue arrumar amigos. novos lugares. que ele tivesse a melhor educação possível. e até mesmo insistia. as coisas não começam bem para o primogênito de D. Caio tinha que seguir em frente.] Cada passo que ouvia no corredor pensava que era a senhora chegando. porém. Com 15 anos. Nair. Como escreveria depois em Limite branco. Afinal de contas. humilhado — mesmo assim restaria o consolo de ter descoberto que valho o que sou. jamais leria os livros do conterrâneo. "[. não entende as matérias.

e Antônio com o Carlos Renato. o amigo Ruy. no centro de Porto Alegre. Quando Zaél chegou. Caio vai para o Hotel Uruguay. A filha de Manoelito. D. Logo Manoelito conheceu também Caio e leu seus contos. os pais alarmaram-se e Zaél foi buscar o filho em Porto Alegre. morava no mesmo prédio o escritor Manoelito de Ornellas. eu não agüento mais! Veja se a senhora dá um jeito! Isso aqui é um verdadeiro inferno.[.. Agora é que descobri o quanto gosto disso daí.. Após receber a carta.. Maria. muda-se para a pensão de uma viúva. mãezinha.[. e ele acabou não voltando para Santiago. Finalmente. Ruy passou a dividir o quarto com Caio. No ano seguinte à sua vinda. de carro. Mas não é não! Os outros que chegaram junto comigo já estão adaptados. e seu irmão Antônio também foram morar na pensão.. espírita. que o impressionaram muito. como Érico Veríssimo. enxergava uma aura azul ao redor do Caio. ando sempre com olheiras e não como nada.] Por favor. [. Acho que até emagreci.] Pelo amor de Deus. Manoelito lhe deu muito apoio: apresentou outros escritores. que.. não me deixe só! Responda logo. que alugava quartos para estudantes. sempre muito extrovertido.] Há várias noites que não durmo e tenho pesadelos horríveis. foi logo se apresentando. No ano seguinte.A senhora vai dizer que isso é normal. que começou a freqüentar o apartamento do escritor nessa época. irmão de Beco. etc. Caio publica seu primeiro conto em . Gosto muito da senhora. o exagero. de Santiago. A crise depressiva tinha passado. Caio já estava muito melhor. Por coincidência.. mãe.. era tortuoso e demorado vencer a distância de mais ou menos 500 km que separa Santiago da capital. Na época. a teatralidade. que era amigo da família de Ruy. Foi por intermédio dele que Caio ingressaria no Jornalismo. E também a sua personalidade. Depois de morar no internato do IPA.. Ajude-me!" A carta dá a perceber uma faceta de Caio: o pendor para o dramático. de notórios altos e baixos.

humilde demais. Ela e Caio se correspondiam há algum tempo e. Afastaram-se logo. Bem. a dela hesitante. mas ela tem esperanças: compra um piano e o convida para lhe dar aulas. depois com compreensão. revista que inaugurou um novo estilo entre as revistas femininas da época. as quatro mãos. que passara em Educação Física. já é sintomático dos primeiros textos de Caio. ambas. Comemora o resultado na casa onde estava morando agora o amigo Ruy. quando ele enviou o conto para ver o que ela achava. depressivos. Ele está muito mais para sapo que para príncipe. textos mais sombrios. Teresa se apaixona pela história do Príncipe Sapo. A publicação foi uma surpresa de Carmen da Silva. de gente quase velha. O homenzinho apagado demais. depois. noutro dia suas mãos tocaram-se rápidas sobre o teclado. No dia seguinte buscaram-se discretamente. Em 1967. O conto. e por isso mesmo mais desprezível. psicóloga e editora da seção A arte de ser mulher da Claudia. nervosa. Caio entra para o curso de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Teresa. quase sem ilusões. A dele trêmula. Uma semana mais tarde olharam-se nos olhos. depois com simpatia. única de uma longa fila de irmãs a não ter conseguido casar. como consciente do desprezo que provocava. Mas ao cair de uma tarde. Caio acabaria por trancar a matrícula e freqüentar o curso de Arte . tristes. Teresa surpreendeu-se a olhá-lo com pena. tocando-se como que por acaso. e acaba encontrando Francisco.um veículo da grande circulação: O príncipe sapo. O conto é sobre uma mulher. Procurando consolo nos livros.. nada feliz. ela nada respondeu: preferiu manter segredo até que a revista saísse. No começo tinha nojo dele. Decide procurá-lo nos homens que passam nas ruas. na revista Claudia. sempre quieto. um professor de piano.. encabuladas. Olhos fatigados.

andava com eles o futuro escritor João Gilberto Noll. uma feira a céu aberto realizada em uma praça no centro da cidade. O escritor explora sua própria angústia para dar densidade aos personagens. o livro já continha muito do estilo que viria a caracterizar o escritor ao longo de sua carreira. discos. artista plástica. Tanto que já tinha até escrito Limite branco. em sua forma mais perversa — o suicídio. o adolescente em crise que protagoniza o texto. Nessa época. negra. que fosse só seu. o desejo de viver um grande amor. Caio era leitor voraz desde menino. Caio e Noll dividiam a paixão pelos livros: como não tinham dinheiro para comprá-los. Era capaz de discutir literatura como gente grande. volta e meia com tinta nos cabelos ou nas mãos. ela baixinha. Embora tivesse apenas 18 anos quando escreveu Limite branco. havia uma dose de humor na postura existencialista dos dois. Noll ainda não sabia se escreveria prosa ou poesia. como Clarice Lispector. sob a ótica . a existência de Deus. sua melhor amiga é Maria Lídia Magliani. De vez em quando. e começava a descobrir autores que viriam a marcá-lo por toda a vida. a morte. A descoberta do sexo. aproveitavam para roubálos na Feira do Livro de Porto Alegre. embora ainda se preocupasse em descobrir um estilo pessoal. a busca de uma identidade e o homoerotismo: vários temas que reapareceriam depois na obra do escritor são tratados no livro. Ambos vestidos de preto da cabeça aos pés. mas Caio. Nessa época. branquelo e magricela. livros. e do qual Noll foi um dos primeiros leitores. um romance de formação que só viria a ser publicado em 1971. Ela e Caio formavam uma dupla e tanto: ele alto.Dramática (CAD). Sentavam-se em um banco da praça em frente à universidade e conversavam sobre filmes. Não porque quisessem ser diferentes. principalmente a Maurício. parecia já ter definido desde muito cedo o que queria. A confusão de livros e pessoas nas barracas facilita que espertinhos ou estudantes sem dinheiro embolsem exemplares sem que ninguém perceba. que estavam preocupados mesmo é em ser fiéis aos rumos que haviam escolhido.

de Hilda Hilst. E do céu. pensou. usar drogas. A mãe de Maurício perde o bebê. definiam-se as roseiras em torno delas. Quando visita os pais em Santiago. sua turgidez. voltado quase exclusivamente para dentro". estar juntos. há sempre pequenas polêmicas. deixa o cabelo crescer. Ele afirma ainda que foi quase impossível reler o livro. de Virgínia Woolf. As coisas brancas são sempre meio enxovalhadas. sentindo-se confusamente feliz. simplesmente. A casa crescia à medida que se aproximava. ficou chocado com a inocência do personagem. Por mais introspectivo que fosse. A história se passa em meio ao turbulento final dos anos 60. Começou a caminhar em direção à mancha esbranquiçada do casarão. Parou. que parece ter sido inspirada em Magliani. discussões . ao ir estudar no IPA. O jovem do livro se muda para a capital. porém. como Nair perdera um dia. descobriu que aquela cor era quase a mesma das pétalas. Participa das discussões. como diz Caio. vinte e cinco anos depois. Marlene. De longe. as rosas pareciam palpitar com sua fartura. Assim como os livros de Clarice. porque os dois se conheceram depois que o livro já estava pronto. mas não podia ser. "o momento histórico em que se passa mal e mal aparece no livro: ele é intimista. experimenta drogas. sua beleza quase obscena. assim como Caio fez.do adolescente. Enquanto caminhava. mas que. quando o fez. em prefácio para a uma reedição. A história de Maurício tem vários pontos em comum com a de Caio. comportamental e política. Ele tem uma amiga pintora. A época era de ebulição cultural. Ficava mais nítido o verde das janelas. ouvir música. alguns jovens se reuniam para discutir um futuro melhor. enfim. Caio não poderia fugir da época. repetiu a frase ao inverso: as coisas enxovalhadas são sempre meio brancas. comentar autores proibidos pelo regime. Em plena ditadura militar.

por trás das roupas vermelhas. a vivência de experiências como busca de um significado maior na vida. E é desses conflitos e angústias que Caio tira material para Limite branco. ainda incipientes. Fizeram o . Em pouco tempo. de Guimarães Rosa. Magliani. futuro diretor teatral e um dos grandes amigos de Caio. nos autores. Luiz estava ensaiando uma peça no teatro da universidade quando chegam Caio e Magliani com o presente. que era a amiga mais próxima. anos depois. Um desses jovens era Luiz Arthur Nunes. Nair estava crescendo e. muito magro e desajeitado. a busca de uma identidade. para o curso de Direção Teatral do Centro de Arte Dramática (CAD). em agosto de 1967. Ele e o restante do grupo introduziram o escritor no universo do palco. mas que viriam a caracterizar o escritor ao longo de sua vida: o enfrentamento. um pessoal novo que seria importante para a renovação da arte no Rio Grande do Sul. estava todo mundo na delegacia: Caio. que dava aula de inglês no Yázigi e tinha Caio como aluno. mesmo que todo mundo o reconhecesse. Irene o apresentara a toda a turma do teatro. assim como para muitos de seus primeiros contos. Caio não pensou duas vezes e se jogou para cima dele. embora os pais não o proibissem de fazer nada. Ele entrara nesse universo através de Irene Brietzke. O tal rapaz. talvez os pais sentissem saudade do tempo em que queria apenas brincar de fantoches com os amigos ou insistia em ser o Papai Noel no Natal. O filhinho de D. era informante da ditadura. E Caio foi o responsável pelas emoções no aniversário de Luiz Arthur. Luiz Arthur.políticas. Caio se aproximou bastante da turma do teatro da universidade. que formariam em 1969. nessa hora. fez comentários racistas. todo o elenco da peça e o diretor do curso de Arte Dramática. como aliás todos já desconfiavam. Estavam os dois no foyer quando um integrante do elenco passou e ofendeu Magliani. Gerd Bornheim. com o grupo Província. Além da Magliani. já se podia perceber alguns comportamentos. o livro Tutaméia. talvez. nas peças. Tanto que acabaria entrando.

colérica. de pé. jornalista gaúcha. Em 1967. Em 1968. Era um texto sobre a recém-morta Marilyn Monroe. Em dado momento. quando a revista começou . sem se preocupar se aquilo iria acabar com suas chances de trabalhar na Veja. Vera Spolidoro. publicou um anúncio convocando os interessados a fazer os testes para participar de uma revista nova. o jornalista perguntou a Caio sua opinião a respeito do grupo Abril. a revista Realidade. falou que a Abril era ligada ao grupo TimeLife. foi pego na rua e levou uma surra. e. e parecia achar que Porto Alegre era uma província. de conhecimento específico. Caio participou do exaustivo processo de seleção. Embora não fosse formado em Jornalismo. e que ele era contra a colonização cultural a que os Estados Unidos submetiam os outros países. Quando perguntaram a ela qual fora a peça mais recente a que tinha assistido. O jornalista que entrevistava o grupo vinha de São Paulo. ela respondeu Depois da queda. que incluía testes de conhecimento geral. O escritor levantou-se. Por medo de represálias. discursando. conheceu Caio na entrevista conjunta. Caio foi passar uns tempos com Luiz Arthur na casa dos pais dele. mas. ninguém ficou preso. Chegou a chamar a editora de entreguista. fez um fervoroso discurso antiimperialista. ex-vice-reitor da universidade. a Veja. graças a um tio influente de Luiz Arthur. e aí então seriam definidos os nomes dos contratados. Umas duas semanas depois. e o entrevistador parecia não acreditar em uma peça que ainda não havia sido encenada em São Paulo tivesse sido montada em Porto Alegre. Vera notou um certo ar de desdém em seu rosto. entrevista individual. que começaria a circular no ano seguinte. entrevista conjunta com os outros candidatos. Vera nunca se esqueceu da figura magra. da editora Abril. Quem passasse pela fase da entrevista conjunta iria a São Paulo fazer um curso. depois de ambos passarem por todas as etapas. quando achou que já dava para voltar para casa. de Arthur Miller. Irado.boletim de ocorrência.

irritado. vindo dos rincões gaúchos para trabalhar na primeira equipe da revista Veja. Caio estava entre eles. Nem mesmo o céu escapava do cinza. sem coragem de sair de casa. A voz de criança. Alguma coisa aconteceu no coração de Caio Fernando Abreu quando ele se mudou para São Paulo. Era uma de suas fases depressivas: durante a vida toda. chegou a ficar doente. a quem ele dedicaria sua obra de maior sucesso — o livro Morangos mofados. Sem costume de acordar cedo e batalhar de sol a sol. longe. o humor de Caio oscilaria entre picos de euforia e . de adolescente. as árvores? Onde. com gripe.a funcionar e os profissionais que iriam trabalhar na revista já estavam definidos. DOIS Grande demais. ídolo de Caio. Demoraria muito para o jovem escritor entender a poesia concreta das esquinas de São Paulo. Caio gramou durante os meses em que trabalhou na Veja. os bichos? Tudo era cinza. O escritor. das oito da manhã às seis da tarde. longe. Era preciso trabalhar. não se adaptou de início à cidade grande. perdeu ainda mais peso. Ele. Anos mais tarde. Caio diria que toda sua literatura seria fruto do choque. Onde. São Paulo era grande demais. do contraste entre a vida interiorana em Santiago do Boqueirão e a vertigem causada pela velocidade da capital paulista. como o fora também para Caetano Veloso. fina. Ficava nervoso. de 1982. dava até pra ficar na dúvida: São Paulo tinha céu? E a velocidade de tudo. uma sensação de desprotegimento. e. feia. de desamparo. E ainda por cima aquela voz. não parecia agradável. os amigos. desafinada. trabalhar o dia todo. fosse o que fosse. asfalto por todos os lados. que sempre fora muito magro. E o asfalto. vertigem. Trabalho de segunda a sexta. Os parentes. Um difícil começo.

Esganiçada. ele tinha vergonha de falar com as pessoas. em conseqüência. pode ter inspirado alguns contos do escritor em que os personagens se sentem feios. e aumentar seu isolamento e sua aversão às sociabilidades. . ele podia se recusar a ver qualquer pessoa ou mesmo a sair do quarto por dias seguidos. como a magreza excessiva. nessa época: parecia arrogante. A voz só fazia piorar a timidez do escritor. A voz de Caio. A timidez. pequeno monstro. aliadas a um certo senso de superioridade comum entre jovens intelectuais fazia de Caio uma figura não muito simpática. Só tardezinha saía de casa. caríssimo. mais a vergonha da voz. Caio não tinha condições de bancar. Consultara um médico. O tratamento. a voz de Caio era um tormento para ele. infantil. para piorar tudo.fundos-do-poço de melancolias insuportáveis. na hora que as empregadas domésticas — as dosas. E. odiosa. irascível. eu queria me esconder de todos. havia a voz. uma voz que desafinava igual de pato. conto de Os dragões não conhecem o paraíso: Pernas e braços demais. ninguém te quer. inadequados. pelo menos à primeira vista. pêlos nos lugares errados. de Limite branco. E há o garoto de Pequeno monstro. o Pai dizia — estavam voltando da praia. Então caminhava quilômetros na beira do mar. junto com outras preocupações típicas da adolescência. Há o personagem Maurício. até monstruosos. Muita gente tinha receio dele. me rolava na areia. que anseia poder olhar-se no espelho um dia sem ter vontade de desviar os olhos. distante. Ele costumava dizer sobre o choque que foi trabalhar como jornalista em São Paulo: — Me estupraram até o último hímen. Nessas ocasiões. Com vinte anos de idade. que dissera que suas cordas vocais estavam viciadas no falar infantil. vezenquando chorava e repetia: pequeno monstro. não se desenvolvera.

mesmo. . Muitos deles de forma simbólica. Com eles. com o decreto do Ato Institucional n°5 (AI-5). leve. Estou ouvindo o rumor do ovo se aproximando cada vez mais. Depois da descoberta do que o aprisiona. cifrada. a rigidez e o sufocamento agravados quando não se pode sequer mencionar o assunto. Caio viria a escrever vários contos sobre o clima asfixiante instaurado pela ditadura. a vela está quase apagando. veio a repressão. Tão perto que ninguém vai-me ouvir se eu gritar. A paixão pela figura do ovo. lá. tudo sobre o qual não se tem controle. representa tudo que aprisiona. metafórica. Tenho tanto medo. Um de seus livros chegaria. os militares haviam instaurado a ditadura no país. Quase como um suspiro de gente cansada. nós vamos ser todos esmagados por ele. não há como escapar: Eu não sei. Seria muito fácil. a ter o objeto no título: O ovo apunhalado. como metáfora e como objeto em si. É um barulho leve. Estou esperando. Não sei por que os homens não se armam de paus e pedras para furar a parede. Vou deitar. como em O ovo. Só ontem cheguei à conclusão de que se trata de um enorme ovo. e a censura aos organismos de mídia. Que estamos todos dentro dele. que aumentou em 1968. Caio herdou de Clarice Lispector. em 1964. Mas é um ovo que diminui cada vez mais. conto de Inventário do irremediável. Cinco anos antes.Se internamente Caio tinha problemas. O ovo. Está muito perto. cada vez mais. cansei de escrever. no exterior as coisas não estavam melhores. a casca de um ovo é tão frágil.

em Campinas. levantar bandeiras de qualquer tipo ou causa. na época da poesia populista. Politicamente. foi símbolo das mudanças culturais por que o Brasil passava na década de 60. belíssimas. dizendo que oficiais da DOPS estavam procurando por ele. Com Caio não foi diferente: ele afirmou ter recebido um telefonema da redação da Veja. Além disso. sem levar o credo político às últimas conseqüências. contudo. Caio chegou a freqüentar passeatas e reuniões de oposição à ditadura. Até porque. e fez parte da turma que achava que "festa" e "subversão" podiam estar ligadas. e que a revolução era individual. Ele ia mais aos encontros contra a ditadura pela festa que se fazia. ambígua e debochada de protestar. como Gil e Caetano — que ele sempre fez questão de afirmar que adorava — que de qualquer outro movimento cultural esquerdista do país. mesmo participações ocasionais eram suficientes para que o serviço de segurança do regime marcasse e perseguisse uma pessoa. sumir por uns tempos.Novato em São Paulo. — Para ver Norma Bengell vestida de Paço Rabanne — diria anos mais tarde. Zaél — se encaixava perfeitamente com a proposta dos tropicalistas. mas sempre sem se comprometer demais. sítio da amiga Hilda Hilst. pela celebração. o notório senso de humor — herdado do pai. Caio ainda era um adolescente. que surge no mesmo ano em que ingressa na universidade. Ele preferia a maneira irônica. Decidiu. . Em tempos de AI-5. cursando o ginásio. morando em Porto Alegre sem os pais. Sua tomada de consciência se dá em um período em que já existia o Tropicalismo. de comportamento. pela oportunidade de ver pessoas. de se engajar. e aquilo já não era pouco: Bengell foi uma atriz de intermináveis pernas. então. engajada. e foi se esconder na Casa do Sol. sua influência era muito mais dos tropicalistas. Essa forma mais leve combinava com seu temperamento: Caio nunca foi muito de assumir compromissos.

Ana escreveria um livro sobre ela). enviada da outra casa de Hilda Hilst. Teria ido para a casa de Hilda por não ter conseguido emprego. de Nikos Kazantzakis. mas com o tempo ganhou intimidade e ia direto para a Casa do Sol. sua colega na primeira equipe da Veja.Em carta aos pais. cinema. Caio conhecera Hilda por intermédio de Ana Lúcia Vasconcelos. na companhia de seus noventa cachorros. Hilda. e de fotografias de escritores espalhadas pelas paredes. ele conta história diferente. Uma vez foram juntos a uma palestra de Léo Gilson Ribeiro sobre crítica literária. uma das mulheres mais bonitas de seu tempo. Diz que Veja está dando prejuízos enormes. Hilda. que namorara Vinicius de Moraes e fora cortejada por Carlos Drummond de Andrade. muitos livros. de livros. Caio voltaria muitas e muitas vezes. Na Fazenda São José. decidiu abandonar a agitada capital paulista e se isolar no interior para escrever. março de 1969. em 2005. Quando souberam disso. Nello e Léo ficaram entusiasmados: pediram a Ana que os apresentasse. teria sido necessário demitir bastante gente. que teria perambulado quase um mês pela cidade atrás de oportunidades sem conseguir nada. Aos 33 anos de idade. Ana Lúcia e Nello Pedra Gândara eram os grandes amigos de Caio na redação. inclusive ele mesmo. e ela acabou levando todo mundo para conhecer a Casa do Sol. iam a teatro. A revista vende pouco. . tinha abandonado uma movimentada vida social para ir morar na fazenda que pertencera à sua mãe. onde viveria até a morte. Hilda construiria a Casa do Sol. atriz. Ela nascera em Campinas. ficaria hospedado na casa de Ana. em 2004. a onze quilômetros de Campinas. shows. dramaturga e jornalista. com o objetivo único de construir uma obra literária. Nas primeiras. Para a editora inteira não fechar. Caio. onde a escritora morava. e as duas tinham se tornado muito amigas (décadas depois. os anunciantes não querem saber de comprar espaço. Ao ler Carta a El Greco. que defende a idéia de que para entender a sociedade é preciso afastar-se dela. Ana perguntou a Léo o que achava de Hilda.

inquietos. em sua maioria. para ser. a sensação era de que tudo já estava escrito. suas copas entrelaçadas fazem uma sombra boa. dracenas. Inseguro. quase uma obsessão. E. a centenas de quilômetros dali — é um rapaz tímido. lendo-a. Ali o casal recebia os amigos. . que ele teve que se proibir de ler Clarice. como Caio. de vez em quando. fazer daquela massa informe uma obra coerente. republicado depois como Inventário do irremediável. Hilda e Dante já estão oficialmente casados. na época a escritora favorita de Caio. tudo que pudesse. quase sempre. um bom escritor. ele também. pois. em Santiago. Tinha já alguns contos escritos: faltava agora organizá-los. por temporadas inteiras. Hilda passou a viver. com o escultor Dante Casarini. às vezes. palmeiras. em 1966. muito amedrontado também. que ficavam. do conhecimento e do talento dela. o calor os deixa assim. quando ele vai para a Casa do Sol. Bedecilda. Queria aprender com Hilda tudo que pudesse. O silêncio pesado é quebrado somente pelo latido das dezenas de cães que moram no sítio. Dali sairia com um livro praticamente pronto: o Inventário do irremediável. entusiasmado por ser hóspede daquela que ele considera uma das grandes escritoras do país e. A coisa chegou a um ponto. calado. durante a pequena temporada que passou na Casa do Sol. por quem sempre foi obcecada. na verdade. O Caio que entra na propriedade — imponente e tranqüila como a casa grande e antiga em que morou um dia. exatamente por isso. que ajuda a amenizar o calor que faz. naquela região do interior paulista.além das fotos do pai. Em 1968. desanimava. como dizia. No alto. por imposição da mãe dela. irremediavelmente influenciado por Clarice Lispector. Vira-latas. e nada mais havia por fazer na literatura. queria sugar dela. E foi isso que fez. revisá-los. Na Casa do Sol. Algumas das árvores que circundam a Casa do Sol têm mais de cem anos: figueiras. Deprimia-se. seus semblantes estão agitados. só lia os livros dela escondido de si mesmo.

sua precocidade na literatura. nos anos 80 e 90. disciplina. que. como muita gente que viveu o sonho hippie. era a dos metâmeros. reescritos. O inefável. é claro. Teorizava bastante a respeito dos assuntos. estudavam juntos o movimento dos astros. sobre o processo de criar. ritmo. Circulava pelas várias crenças. sempre. Procurava. Caio. a influência de Hilda foi. estudava com afinco algumas delas e inclusive as utilizava na arquitetura de seus textos. não tinha responsabilidade. Falavam muito sobre literatura. e isso explica. com nenhum desses credos. também. nos anos 70. candomblé. tudo que dizia respeito ao texto literário. Nessa relação com o divino. fosse na forma. jamais se esqueceu da teoria. por exemplo. de minúcias como pontuação ao uso de certas palavras. com menos de 20 anos de idade. revisou e reescreveu a maior parte de sua obra. Caio funcionava também como uma espécie de secretário de Hilda: ela escrevia. fosse na temática. Numa viagem ao sítio de Hilda. ela diria. O termo vem da biologia: . Não era só o divino que Caio discutia com Hilda. o que fosse. como se nota em seus textos. lapidados. ajudou Caio a olhar o mundo buscando sempre algo mais. conversado com os mortos e recebido em seu sítio a visita de discos voadores. sempre burilados. / Ching. maravilhado. Uma de suas teorias.Enquanto inventariava seus contos irremediáveis. Gostava de trabalhar a língua. No resto do tempo. quiromancia. Ela. Tanto que. De Deus. Caio a explicaria ao escritor Júlio César Monteiro Martins. além das aparências. Caio era capaz de discutir problemas de texto por horas a fio. coisas do tipo. que dizia ter visto anjos. em parte. flertava com as várias filosofias. inovar: fosse na estrutura. fundamental. O escritor discorria sobre o assunto sempre que encontrava interlocutores. era um rapaz espiritualizado: acreditava em astrologia. ele datilografava. paciência ou vontade para tanto. Não se comprometia. a literatura de Hilda foi sempre uma busca do inefável. ter escrito e publicado ainda jovem. até hoje dá entrevistas explicando do que se trata.

As sombras que crescem devagar sobre o asfalto quente do verão passado. mas sem ele agora — uma tarde. contemplar a sacada daquele décimo andar onde costumávamos nos debruçar abraçados para olhar aquela rua lá embaixo sendo aos poucos coberta pelas sombras da tarde furando a copatúnel das árvores. se quisesse. E mesmo sem querer. depois voltei caminhando pela rua cheia de árvores tão altas que suas copas se encontram e se misturam no alto. se uma pessoa come carne contaminada com um cisticercó. As sombras. a pensar coisas que nem lembro mais. de um conto ou de um romance. espio sempre a outra rua por trás da igreja. publicar uma coletânea desses metâmeros. uma espécie de verme. Ou então. ampliá-lo. irregular. penso se não deveria retomá-la — essa rua. simplesmente. lembro daquela tarde em que fui visitá-lo pela última vez. . Ele seleciona dois esboços que lhe parecem melhores e introduz sua teoria aos leitores. ele virá a se multiplicar e formar um animal completo. Quando passo por lá assim rapidamente. anotações soltas sobre ambiente. onde nem mora mais. formar um conto completo ou um romance. que é o que Caio viria a fazer em Ovelhas negras. metâmero era um esboço. um desses anéis. que continha informações a respeito dos personagens. essa caminhada. como um túnel redondo. ou tênia. numa tarde como a de ontem ou outras iguais destes tantos meses passados. e o escritor poderia retomá-lo um dia e. Na literatura. trama. O texto permaneceria em estado de latência literária. Esse anel contém informações sobre o verme inteiro.metâmero é um anel da solitária. enfim. sem perceber claro o que sinto. O primeiro deles se chama A perda e foi escrito em 1985: Quando passo às vezes por aquela esquina. estilo. noite ou manhã quaisquer para refazer o percurso inverso até a casa dele. E parado naquela esquina feito espião.

teria preferido ficar em Santiago. sóbrios. Caio achou que era hora de voltar a Porto Alegre. a faculdade de Letras esperando por ele. mas os argumentos da esposa foram mais fortes. voltar a Porto Alegre foi uma beleza: o céu azul. A família de Caio estava morando em Porto Alegre desde 1969. então. a volta para casa e a intenção de retornar à universidade. quando estivesse de diploma na mão. Não trabalhava mais na Abril. nem sair de casa para comer. não conseguira emprego em outros lugares. os morros. As pessoas doces. porém. era a Casa da Lua. calmas. quando Nair insistiu em ir. de lá ter visto. a idéia de voltar para a faculdade. Caio acompanhou Hilda e Dante à praia. por carta. os irmãos pequenos vêem televisão na sala. supostamente. já militar reformado. onde era alguém de posição. mentora literária e espiritual. afinal. que por enquanto ainda não estava bem das pernas. E o melhor: não ter que levantar cedo para trabalhar. e havia. escreveu aos pais comunicando a saída da Abril. sua principal interlocutora. a faculdade de Filosofia. o ambiente convida a escrever — ele conta. que ele só abandonara pela perspectiva de integrar a primeira equipe de jornalistas de uma nova revista. Ele amou Porto Alegre em tudo que ela era diferente de São Paulo: sem asfalto. o verde das árvores. Era uma opção. De lá. Ela mesma cursaria. ela concordou que o melhor seria voltar para a casa dos pais. Decisão tomada. o sotaque familiar: o "tu". O quarto de Caio é cor-de-rosa. sem loucuras. discutido muita literatura e organizado o material de seu primeiro livro de contos. Caio mantém sua decisão de escrever enquanto está na casa dos pais. ele poderia voltar e tentar viver em São Paulo de novo. Zaél. . Conversou com Hilda. A mãe faz pós-graduação em Filosofia. o pai lê romances de Norman Mailer. em Massaguaçu. discos voadores. Não há.Depois de passar algum tempo no sítio de Hilda. sequer. os móveis são convencionais. a Hilda. para que os outros filhos também pudessem estudar com facilidade. Para Caio. sem porralouquismos também. segundo refúgio da escritora. um OVNI.

da mesma linhagem literária de Virginia Woolf e Clarice. nem os amigos. uma afeição por ela. com problemas de relacionamento com os colegas . com cuja obra a de Caio tinha alguns pontos de ligação — Lúcio. ele era só um rapaz vindo do Boqueirão. a horários fixos: ele não consegue parar quieto. E. verdadeiramente. sim. na inabilidade do escritor em se adaptar a um currículo. Além do que. Caio queria estar no olho do furacão. Há pouco tempo. Como ele foi parar ali? — se pergunta. no Brasil de 1969. e o fato de ele achar uma tolice as cartas em que Maria Helena falava dos "passarinhos que cantam nos galhos das árvores" e das "sombras de outono" não significa que ele não nutrisse. irmã do já então falecido escritor Lúcio Cardoso. onde as coisas aconteciam. E também. introspectiva. Lá estavam os escritores que Caio queria conhecer: Clarice Lispector. e sim da sua degradação. o Rio de Janeiro era um lugar onde as coisas aconteciam. Caio se comove: é o quarto que fora de Lúcio Cardoso. a língua ferina de Caio não poupava ninguém. fora um escritor que se rebelara contra a tradição do romance regionalista. Maria Alice Barroso. O apartamento de Maria Helena fica em Ipanema. apenas quatro meses depois de ter voltado para a casa dos pais. Walmir Ayala. da degradação de suas tradições. ou a admirasse como escritora. Nélida Piñon. mas não de sua glória. ele escrevera de forma intimista. de modo algum. falando de personagens mineiros. cheia de cores. Caio aceitou o convite de Maria Helena. A capital gaúcha podia ser bonita o quanto quisesse. Assim. principalmente em Porto Alegre. Caio faz uma visita à cidade sempre maravilhosa. Havia sido convidado algumas vezes por Maria Helena Cardoso. principalmente. verdes árvores e céus azuis inigualáveis. suficiente. como alguns críticos o chamam. Mas isso não era. No auge desse estilo de texto. a oportunidade era muito boa para ser desperdiçada. o Dostoiévski mineiro. Quando vê o quarto onde ficará hospedado. mesmo achando-a um pouco "fora da realidade" e "liriguelha demais".morre nas dificuldades burocráticas que há para reabrir a matrícula.

Tão estranho carregar uma vida inteira no corpo. teatros. Há também Carmen da Silva. Francisco e Carmen mostram os contos de Caio para outras pessoas. muita gente ao seu redor. Agora. belíssima. ele é inteligente. o Boroca. "As vezes que tentei morrer foi por não suportar a maravilha de estar vivo e de ter escolhido ser eu mesmo e fazer aquilo que gosto — mesmo que muitos não compreendam ou não aceitem. Caio viaja novamente para Campinas. em alguns minutos. me acham parecido com Cristo. sendo tratado a pão-de-ló por uma velhinha pequenina e ágil que. ele estava no quarto de um dos maiores escritores brasileiros. autor de Crônica da casa assassinada. das quedas. em uma cidade verdadeiramente esplendorosa. E ela não é a única a tratá-lo bem: há Francisco Bittencourt. dizem que tenho olhos lindos!). Caio vai sair. primo do pai de Caio. acho muita graça. cinemas. que eu era tímido e agressivo. na revista Claudia. e ninguém suspeitar dos traumas. modesta. "— escreve aos pais. uma flor de pessoa. "E as pessoas que passam por mim não saberão jamais que nasci em Santiago do Boqueirão e um dia fui estudar em Porto Alegre. a editora que publicara o primeiro conto de Caio. . O príncipe sapo. não aceita ser chamada de uma das melhores escritoras do país — ao lado de Ia Lispector. e além disso é um dos críticos de literatura mais respeitados do Rio e conhece todo mundo. no dia 21 de agosto. " Cerca de um mês depois de sua chegada ao Rio. Acho graça. querem pintar retratos. Toda essa celebração em torno de Caio o deixa feliz. orgulhoso. junto com Hilda e Dante.e que crescera rápido demais. a noite o espera: bares. dos choros. prometem arranjar editoras que publiquem seus livros. quando ele tinha 16 anos. porque me achava horroroso com aquele bigodinho precoce (hoje. povoada por pessoas bondosas e simpáticas. estão entusiasmados com 0 trabalho dele. enquanto Maria Helena assiste a uma novela na sala. sério. dos medos.

tinha outros desígnios. sairia aquele vozeirão. O momento era de inquietude. a admiração por Hilda beirava a reverência. duravam um ou dois meses. uma notícia maravilhosa. no final de outubro de 1969. resolvera mudar de repente. A partir dali. Na verdade. Caio mencionaria sua amizade com Hilda. aconteceu uma coisa misteriosa e impressionante. uma Boa Notícia. melhorado. brincaria com a situação: — Meu Deus. Chegava sempre o momento em que a escritora tinha que chegar para ele e dizer: Caio. ou para o Rio. sempre que ele abrisse a boca. exigente. finalmente. marcante e inexplicável. Além disso. e com ele pôs-se a fazer exercícios e a gravar a voz. charmosa. Suas temporadas em Campinas eram intermitentes. ou para onde fosse. ao encenar uma de suas peças. que conheceria Caio na década de 1980. e passaria a se assumir como adulto. assim como teimara até ali em ser uma voz normal. A história começou quando ele ganhou um gravador de Hilda e Dante. pensando em melhorar pouco a pouco. Mas ele ainda estava na Casa do Sol quando. E então ele ia embora. e mudara não para ser uma voz comum. A partir daquele momento. . vindo não se sabe de que parte do corpo magricela do escritor. e em seguida Caio seguia de volta para Porto Alegre. precisa ficar de pé para ouvir você ou posso ficar sentado mesmo? Ao longo dos anos. de viagens. A voz nova de Caio era grave. Caio não chegou a ficar tanto tempo lá. Só que a voz. do nada. sua hora chegou. A voz de Caio. a presença de Caio na casa era muito intensa. embora visitasse bastante a Casa do Sol. ele deixaria de ser o jovem tímido. bonita. Hilda teria dito ao escritor: "Cainho. porém. dizendo que chegara a morar um ano em sua casa. Havia uma figueira no terreno da chácara. envergonhado de falar com os outros. tinha. Caio e Hilda contariam a história da figueira para explicar a mudança da voz. com maiúsculas. de descobertas. sua amizade. muito cheia de personalidade.que tinham ido passar uma temporada na capital fluminense. como as outras. O ator Gilberto Gawronski. Ao longo de sua vida.

esganiçada. até os vinte anos. Caio teve uma voz infantil. Os três pedidos acabariam realizados: Caio voltou para o Rio. e considerava a hipótese de ficar por ali. ela se tornou grave e lânguida e bela. e ela resolve". Há até quem diga. onde estava decidido a morar. os empregos formais não apareciam. Caio voltou ao Rio. obra a que dera forma final ali mesmo. no terceiro verso. O escritor José Mora Fuentes. ele estava de volta a Porto .essa figueira é mágica. Há outras versões: a de que ele teria feito três pedidos à figueira: para que a voz melhorasse. que a voz não mudou de repente coisa nenhuma. Mas a versão mais próxima da realidade é também de Caio. Em dezembro. estava lá. já de voz nova e sensual. Quando a gente tem um problema muito grave. Caio teria se sentado na área da casa e olhado a Lua. mudou aos poucos. aos vinte e um. conheceu alguns hippies em uma praça de Ipanema. na Casa do Sol. como o irmão do escritor. a voz teria mudado. fez amizade. De todas as versões. Três dias depois. e para ganhar um concurso literário de que estava participando. Em um texto. Hilda afirma que o pedido não era para a mudança de voz. em carta aos pais logo que a mudança se opera. então ele teria sentido que podia fazer três pedidos que eles se realizariam. Era uma noite de lua cheia. e lá soube que ganhara o Prêmio Fernando Chinaglia por Inventário do irremediável. Tanto ela quanto Caio diriam que o terceiro pedido era. trabalhando com artesanato. a voz mudou. mas para Caio deixar de ser tímido. para voltar logo ao Rio. fala com ela. em vez de voltar ao Rio. belíssima. amigo de Hilda que até hoje vive na Casa do Sol. porém. Então ele teria abraçado a figueira e pedido para a voz mudar. Os outros pedidos — tanto o prêmio literário quanto a viagem ao Rio — também logo se realizaram. De volta ao quarto. teria pegado um livro de Fernando Pessoa e começado a ler em voz alta. mas Caio preferia acreditar na versão romântica e mágica da figueira. o que importa é que. decidido a se estabelecer por lá. Felipe Abreu. conseguir ir logo para a Europa.

escreveria a Hilda. que nada tinham de trágicas ou de rodrigueanas. assim como não concluíra o de Letras. Caio passaria todo o ano de 1970 na capital gaúcha. e o assunto da briga foi deixado de lado. até segunda ordem".Alegre. depois de rodar o país e parar de novo em Porto Alegre. Descobriu. estavam Serafim fim fim. "Decidi aceitar meu ser nômade. no Centro de Artes Dramáticas (CAD). já na década de 80. Isso mudaria alguns anos depois. somada à que lhe era própria e mais uma espécie de certeza de que não havia nada de errado em sua condição. o papel era de Batman. não se abalou demais: com a arrogância própria da idade. Mas se divertiu aprendendo algumas coisas. tamanha agressividade. Não chegou a terminar o curso. anos depois. E por aí afora. The black grove e The last moment. prestou exames para o curso de Direção Teatral. e sabe-se lá o que este aprontara para causar tamanha reação. que era exigente demais com os textos a serem encenados. em The black grove. Desde criança. Alguns amigos leais dizem que Caio era bom ator. agora. Caio. Em Serafim. Caio gostava de teatro. no entanto. quando sua participação no teatro se restringia a escrever as peças. Ali. sobre o moralismo e a decadência da sociedade. A carta não era das mais fáceis de escrever: era a primeira depois de uma briga que tivera na fazenda com Dante. Logo depois. Entre algumas das que participou no período. por exemplo. A coisa foi feia: as palavras "veado" e "doente" foram das mais leves que o escultor usou para caracterizar Caio no meio do entrevero. ele podia desenvolver mais seriamente essa paixão. claro. ele chegou mesmo a visitar Caio e sua família em Porto Alegre. vestira-se de mulher. pairava. dizendo que era péssimo. a amizade com Dante foi retomada. em 1973. ele se sentia acima dos preconceitos burgueses. de inventar e encenar historinhas com seus bonequinhos de papel machê. mas ele mesmo costumava brincar. superior. quando. Caio ainda acredita que pode . Caio participou como ator de algumas peças. o resto achava descartável. Mas estamos em 1970. Só queria saber de tragédias gregas e de Nelson Rodrigues.

e a descoberta que os cavalos representam pode ser lida como qualquer descoberta. Nesse momento. embora tivesse ganhado. essas revelações acabam por trazer a morte dos protagonistas. não fora o primeiro a ser escrito: limite branco veio antes. o que causou o maior rebuliço. em vez de deixarem o escritor feliz. era um passo no sentido de Caio se firmar como escritor. O livro é dividido em quatro partes. Caio manifesta sua carência. Em alguns contos do Inventário." A publicação do primeiro livro. Mas essas experiências. foram muitos os convites para entrevistas. ou quatro . repense sua vida. E houve também um livro de contos chamado Três tempos mortos. Os cavalos brancos de Napoleão. desbundou por completo: experimentou mescalina. deprimiam-no ainda mais. Menção Honrosa no Prêmio José Lins do Rego. badalada ou não. que ficaria para sempre inédito. Assim como ela. como no conto que abre o livro. é no Inventário que a influência de Clarice Lispector se mostra maior e mais clara. orgiásticas. inclusive a do homossexualismo. Como o escritor ainda tateasse seus próprios caminhos. A história da mescalina foi descoberta pelos pais. A única área em que as coisas iam bem era a profissional: Inventário do irremediável foi lançado com estardalhaço. e um escritor amado pela literatura que fazia. Nesse conto. começou a participar de festas malucas. em carta a Hilda Hilst: "Queria tanto que alguém me amasse por alguma coisa que eu escrevi. regadas a maconha e drogas mais pesadas.completar o curso de Direção Teatral e mora com os pais em Porto Alegre. Mas embora Inventário do irremediável tenha sido o primeiro livro do escritor a ser publicado. a morte é quase uma libertação. no fim da noite. algo que faz com que a pessoa mude. as bacanais faziam Caio se sentir um lixo. e reafirma sua determinação de ser escritor. Caio trabalha muitas vezes com o conceito de epifania: uma revelação mágica no meio do cotidiano. em 1968.

voltou recuperado. Para espantar a tristeza. composto de um único conto: o Inventário do irremediável. enlaçam os joelhos. Junto com a carta. e do livro. Caio não cabia em si de tanta satisfação e orgulho. Clarice fascinara leitores e críticos desde o primeiro livro. Está sentado na cama. bem. que há muito não lhe escrevia. vai-se curvando para si mesmo. Deu certo: depois de refletir muito sobre a vida. O final do conto. o texto de Caio. a cabeça afunda entre as pernas. como que para coroar esse novo estado de espírito. E a última frase define. vozes veladas. A atenção fixa em si mesma. a ação ocorre sempre na cabeça dos personagens. Sua literatura diferente. a maré começa. resolveu ir para a praia com alguns amigos. Quando o jornalista . palavras não formuladas. o cigarro esquecido queima. costas curvas. corpo nu. Um fino fio de fumaça sobe aos poucos indeciso.inventários: da morte. cheio de carências e inseguranças. do amor e do espanto. vendo apenas para dentro. Dobra os ombros. a soprar a favor de Caio. porém. No cinzeiro. como se chorasse. sobre sua relação com os amigos. A lâmina vibra entre os dedos. estranha. Joga a lâmina pela janela. Moderna. Na mesma noite. misteriosa. é marcada por sensações. Sem compreender. Escreveu uma exultante e empolgada carta a Hilda. temas recorrentes na obra do escritor. traz uma esperança: a escolha pela vida. Nenhum pensamento. adensando o ar que se enche de olhos. No fim do ano. Como um cego. um exemplar de Fluxo-floema. com a novela Lázaro dedicada a ele. Perto do coração selvagem. e a sua personalidade. mais uma vez. Caio conheceu Clarice Lispector. Só espera. da solidão. de mãos. Os braços se cruzam. Personalidade magnética. e. ele chegou em casa e encontrou uma carta de Hilda. de gestos incompletos. pés descalços. vaga entre a fumaça e tomba. Há também um quinto inventário. E não corta. Ele passara um ano ruim. Por continuar. aconteceu algo que o faria retomar a carta e escrever mais um pouco. revolucionou a linguagem. Não chora sequer. de bem consigo mesmo.

José Castello perguntou a Otto Lara Resende sobre ela. parecido com Cristo. e lê que Clarice Lispector herselfestaria autografando seus livros em uma estação de TV. um presságio. um escritor que estava por ali decidiu apresentá-lo direito. mas de bruxaria".. Ê lenta e quase não fala. " Caio chegou perto. porém. Falam de Nélida Piñon. "Tive 33 orgasmos consecutivos. pede para ligar quando for ao Rio. Caio vai embora meio aparvalhado e. Pega o jornal para dar uma olhada. toda de preto. Ela lhe dá seu telefone. Vi uma mulher linda e estranhíssima num canto. escreve a Hilda contando o episódio. por acaso. Caio aproveita o interesse dela e lhe entrega um exemplar sobres-salente do Fluxo-floema que. falou. com um clima de tristeza e santidade ao mesmo tempo. "Ela é exatamente como os seus livros: transmite uma sensação estranha." . Engole o jantar que lhe oferecem e sai chispando feito um foguete para a televisão. conversam um pouco. Quando ia saindo. nesse estado de êxtase e perturbação." Conversam mais. De repente ela pára. Clarice chega até a porta e chama: — Fica comigo. que está sozinha e numa altura tal que ninguém jamais conseguiria alcançála. E a gente sente que ela não espera mais nada de nada nem de ninguém. absolutamente incrível.] Sinto que as coisas vão mudar radicalmente para mim — teu livro e Clarice Lispector num mesmo dia são. ele tinha na bolsa. à noite. Era ela. antes que vá muito longe. Ele fica. quase diabólicos. Tem olhos hipnóticos. Caio termina de escrever para Hilda. entregou um exemplar de seu livro recém-publicado para ela. de uma sabedoria e de uma amargura impressionantes.[. Caio fica nervoso. fora de dúvida. diz que acha ele muito bonito. "Não se trata de literatura. lógico. de Hilda. sai para o corredor. Otto pediu a ele que tomasse cuidado com Clarice. "Cheguei lá timidíssimo..

Começa a perceber que a individualidade. Nascido na fronteira com a Argentina. na utopia. mescalina ou chá de cogumelos —. bem de acordo com o sonho paz-e-amor da juventude da época. A vida na comunidade não dá certo: ele e seus amigos se desentendem. Em 1971. utilizando ao máximo as visões que tem em suas viagens — de LSD. E. Caio volta ao Rio. Surgem assim alguns dos contos de O ovo apunhalado. Para piorar um pouco mais as coisas. Carlos Fuentes. A estada no Rio é o começo do fim do sonho da contracultura para Caio. aluga uma tranqüila casa em Botafogo. escreve a Hilda Hilst. Apanha da polícia e . O ano novo chegava. Ele acredita que tudo pode dar certo. Garcia Márquez. é claro — e que certas coisas funcionam melhor na teoria. Caio namora o realismo fantástico dos autores latino-americanos como Cortázar. Caio aprecia autores como Ernesto Sábato. ele decide tentar um modo de vida diferente. Quanto ao seu trabalho. que na prática. que o ser humano é egoísta — ele incluso. e muito do material publicado. escreve textos fundindo o fantástico. que morar em comuna é a melhor maneira de se viver. em março.Era o dia 29 de dezembro de 1970. obra que só viria a ser publicada em 1975. tudo vai bem: Caio está feliz à beca com os novos textos que anda produzindo. inclusive em livros. ele sai da casa. é mais importante que a coletividade. cabelos longos e túnicas indianas compridas. Ricardo Piglia. "Não sei se isso é auto-elogio. Totalmente imerso na cultura hippie. Flagrante falso de maconha. ele é preso." Nessa fase de sua escrita. às vezes. Várias histórias desse livro podem ser entendidas como crítica à sufocante situação por que o país passava na esfera política. a ditadura está em sua fase mais dura. ficção científica e elementos da cultura pop. só sai sob censura. Com três garotas e um rapaz. mas acho que sou o único cara no Brasil que está fazendo literatura pop MESMO'. em comunidade. e falando bem o espanhol. "Acho que finalmente achei a minha forma".

É a sexualidade em conflito: ele. primeiro romance do escritor. com direito a sonhos pequeno-burgueses de casamento. foi visitá-la no Rio algumas vezes. Só de ida. um lar. nem tudo eram flores. um apartamento com vista para o mar e estaria preocupado em pagar as prestações e a mensalidade da escola das crianças. sai pela tangente. uma família. seu trabalho. Era o lançamento de Limite branco. ele encontra abrigo. mais que por benevolência. Caio gostou muito de Vera. E esse quadro não combinava com a idéia da vida que um escritor devia levar. Caio é demitido. depois de horas com ela. dono da editora em que ele trabalhava. e foi por isso. e até mais que isso: surgiu um clima. E a vida de escritor. O que viria em seguida?. ele teria um carro do ano. a única . Ficaram amigos. ainda por cima. ele pula fora. Chega mesmo a considerar a hipótese de se assentar. Vinha sempre em primeiro lugar. em que havia uma boneca inspirada na garota. de forma tão profunda. ter filhos. pelo menos na imaginação romântica de Caio. carinho e amizade na casa de dois quase desconhecidos. Enfim. forjada em plena década de 60. junto com a mãe e o irmão Henrique. casar. Solto. levou-a. era tudo que importava. sua carreira. No entanto. escreveu uma peça infantil. os irmãos Vera e Henrique Antoun. pronto desde 1968. Dali a pouco. se divertindo e conversando e montando um clima apaixonado. Mas Caio tem sorte. na revista Manchete. que já havia meio que definido que gostava de rapazes. ele pode ter pensado. A comunidade do arco-íris. em 1971. que o tirou da prisão e pagou a passagem de Caio para Porto Alegre. Vera tinha quatorze anos quando conheceu Caio. a coisa não vai pra frente: quando está com Verinha. se afasta sem maiores explicações. Bloch queria distância de confusão. para Porto Alegre. Entre a saída dele da comunidade e a volta envergonhada para Porto Alegre. intercede por ele.só sai da prisão porque Adolpho Bloch. Caio às vezes se torna esquivo. ficava assustado com a possibilidade de se envolver com uma garota e. escrevia-lhe cartas amorosas. uma espécie de paixão entre os dois.

Está reconciliado consigo mesmo. Aí Caio passou a evitá-las de novo. em Santa Teresa. não por incapacidade de contato. mas. de mostrar um equilíbrio que não possuíam. a relação com Vera não engrenou. Caio estava em uma de suas fases ruins. tão distanciada. através da visão de paisagens antigas. No início de 1973. ouvir música e passear na beira do rio. Ele havia participado de algumas cerimônias de chá alucinógeno com ela. de fazer comentários espertos. no entanto.coisa à qual Caio foi sempre fiel durante a vida. Assim. e não se arrepende de nada. deprimido. no entanto. Preferia ver um filme antigo. sem movimento. Caio escrevia a Vera contando de suas experiências com ácidos e demais drogas lisérgicas. Assustou-se. . Caio reencontrou-se. morena como uma princesa raptada por beduínos no deserto? Vezenquando baixa uma saudade. tão silenciosa? Em que nova galáxia posso te encontrar outra vez. sem carros. quase sempre clara como tem sido o ar verde-azulado desse verão. quando ainda morava com a comunidade hippie que montara naquele bairro. não queria sair de casa nem ver ninguém. onde moravam seus avós. começou a procurar alguns amigos." De Porto Alegre. e lhe escreve: "Verinha-maravilha. em uma viagem a Itaqui. com o que chamaria de "vampirização" das pessoas: todo mundo só querendo saber de falar e falar. Em Porto Alegre. No entanto. tudo muito parado. e fico sentindo falta do teu jeito lento de chegar pisando em nuvens. sempre azul. Pensava constantemente em suicídio. dessa vez. ele voltou a ficar bem: ele sempre recuperava sua força através do contato com a terra de sua infância. e sim por escolha. O ano de 1972 foi todo dedicado a essas experiências. gente que tinha evitado durante o período em que sentia só escuridão dentro de peito. por onde anda você. Caio ainda estava na fase de amor e empolgação pela garota. Pessoas sentadas na calçada. olhando as estrelas. sem televisão.

O prefácio. quando a serviço de uma técnica rica de recursos. mas estou aprendendo a respirar o ar das montanhas. também não tenho muito. gostando de viver. Lygia o chama de "escritor da paixão". toda a intelectualidade de Porto Alegre estava concorrendo. Caio escrevera o livro de contos O ovo apunhalado.] Quando nos seminários de literatura os teóricos pedantes acabam por condenar a palavra. assinado por Lygia Fagundes Telles. Emoção esta que é vertida para uma linguagem que em alguns momentos atinge a rara plenitude próxima de um estado de graça. O ovo é um livro que fala de violência.. futura astróloga." Assim feliz. Provar-lhes a atualidade da desacreditada palavra com a própria palavra. mas a comissão julgadora atribuiu o prêmio apenas a ele. Entre as horas de trabalho que passava no jornal. Essa vitória foi motivo de muito orgulho para Caio: segundo ele conta. minha vontade simplesmente é mostrar-lhes um livro como este. a influência do realismo mágico dos latinos se faz notar em alguns textos. Além disso. também não quero muito. e diz: "Caio Fernando Abreu assume a emoção. por achar que nenhum dos outros trabalhos tinha nível. mostra o quanto o escritor já era estimado e admirado nos altos meios literários do país. de loucura.. com o intuito de juntar dinheiro para viajar. que o conhecia havia cerca de quatro anos e seria uma das melhores amigas de Caio até o fim. Caio começa a trabalhar no jornal Zero Hora como copidesque. Caio planejava sua viagem e continuava a escrever.como escreve a Vera: "Nada é errado. voltava de uma temporada na Europa e insistia que ele devia ir também: a atmosfera política e cultural no Brasil estava insuportável. como no próprio conto-título. Graça Medeiros. O conto Visita ganhou um prêmio do Instituto Estadual do Livro (IEL) em 1973. [. . em carta a Hilda Hilst. Aliada a uma imaginação cintilante". já liberto — de certa forma — da influência de Clarice Lispector. " Ou ainda: "Não sei muito. quando o erro faz parte de uma procura ou de um processo de conhecimento.

Juarez Fonseca. discos. não chegou a conhecer Caio: ele e Magliani formavam uma dupla quase hermética. um gay espalhafatoso de quem Caio gostava muito. Nessa época. O que os seres dizem é um atestado da maneira como Caio levava sua vida. a turma de Caio em Porto Alegre era composta por Maria Lídia Magliani. já de volta a Porto Alegre depois de suas andanças por São Paulo e Rio. O que eles deixaram foram estes três postulados: importa é a luz. livros. enquanto Caio cursava — ou tentava cursar — Letras. iam a bares. uma bela prosa poética. Juarez era da equipe do jornal do centro acadêmico. Augusto Rigo. a cinza é mais digna que a matéria intacta e a salvação pertence apenas àqueles que aceitarem a loucura escorrendo em suas veias. Juarez Fonseca lembra de ouvi-lo comentar: — Todo homem com mais de trinta anos é um canalha. alguém de fora surge e promete a salvação. Jaime Gargioni. Juarez . os salvadores. onde Juarez já trabalhava. Juarez fazia Jornalismo. e um dos poucos a conversar com eles de vez em quando era João Gilberto Noll. E os mártires. Conversavam sobre os assuntos da época: filmes. Oferecem para quem quiser compreendê-los. Juarez Fonseca freqüentara a universidade na mesma época de Caio. mesmo quando consome. O coruja. As pessoas saíam juntas. sofrem. por exemplo. Falavam mal da ditadura.Alguns contos de Caio falam da esperança de redenção. Na faculdade. Havia também Lucrécia. foi contratado pelo Zero Hora. quem aparece para mudar a rotina são seres de outro mundo. Sandra Laporta. Nessa época. Caio era muito crítico. uma dupla estranha. porém as pessoas têm medo do novo. Apenas uns poucos escolhidos se salvam. muito ácido. só que seu curso era outro. fumavam maconha. No conto Eles. e Graça Medeiros. mas vencem no final. a mudança. Os dois se conheceram quando Caio. Em um mundo comum e medíocre. no entanto.

Márcio. Cada um em um país — a dupla de tropicalistas na Inglaterra. Caio. como os dele. o clima era de paranóia. No aeroporto do Galeão. Augusto Rigo. principalmente. foi muito bom encontrar os amigos. no Rio de Janeiro. ainda entusiasmado com o encontro: dizia que Vera tinha olhos de vaca jérsei. e se encontrariam todos na Suécia. Sônia Azambuja. que já estava chegando. casados desde 1971. Caio escreveria aos dois. como diagramadora. a efervescência de uma geração que não agüentava a ditadura. Cada um iria por um trajeto diferente. Caio. Augusto e Ana. " Antes de partir. a repressão nas ruas aumentava. A amiga Graça Medeiros já fora e voltara. que haviam decidido fazer o percurso . influenciado por O Pasquim. e cabelos pretos e lisos de índio. Chico Buarque também. o destino. Não havia tempo a perder. pela revista Bondinbo. Caio está exultante. Sandra na Suécia —. que também trabalhava no jornal. que contestasse.tinha se tornado amigo de Magliani. e que se casariam na Finlândia e teriam sete filhos com olhos de vaca jérsei. dizia ter pressentido que ele tinha QI de gênio. Chico na Itália. em maio. E saíram. Vera e Henrique foram vê-lo antes da viagem e. estava lá. Aninha. Caio começou a colaborar nos projetos de que Juarez fazia parte. Sandra Laporta. como o jornal Exemplar. e a turma de Porto Alegre escolheu a Suécia. Juarez e sua esposa. na cabeça dos brasileiros loucos para saltar fora. mais ou menos na época em que a temporada de trabalho começaria. O dia é 28 de abril de 1973. O pessoal queria mais era sair fora. Parecia que no Brasil não havia lugar para gente assim. era um só: Europa. Era a efervescência da imprensa nanica. Os ídolos Caetano Veloso e Gilberto Gil já tinham ido em 1969. Do avião. De Henrique. de medo. Era um grupo de seis pessoas. Veja — na época ainda considerada inovadora — e. embora um vidro os separasse. além de se encontrarem com os irmãos. "GRRRR: vontade de comer vocês dois com molho de chocolate. também amiga. como os dela. A questão era só escolher por onde começar.

qualquer cozinheira conhece seu segredo. era cheia de detalhes do fantástico. A obra do pintor holandês nascido em 1450 tinha alguns pontos de contato com a do escritor. Lembremos que a própria literatura que Caio fazia. estava impregnada desses elementos. Como no conto O ovo apunhalado. mas se fosse Beirute. Quando tornei a me voltar.] Mas ele não se move. mas nada aconteceu: os carros passavam por cima da minha imagem refletida nas vidraças. em que um ovo sai de uma moldura e persegue o personagem: Ele saiu da moldura e veio caminhando em minha direção.. quase ternura. Ana e Augusto não vão direto para a Suécia. bem. A escala é em Madri. Está parado à minha frente e volta-se devagar para que eu fique cara a cara com o punhal cravado em suas costas. Brincavam que o avião tinha sido seqüestrado e que eles estavam em Beirute. Disselhe isso — mas ele não parou -. [. com que retratava a vida de pecados do ser humano. escrevem do aeroporto do Galeão um telegrama a Graça Medeiros. Caio quer tirar carteira internacional de estudante e ver Bosch no Museu do Prado. a arte. Era assim que aquele trio se sentia. Olhei para o outro lado. que viria a influenciar os surrealistas mais tarde. humilde. não importava. e não tenho medo. os carros corriam e a minha imagem mordia o lábio inferior. poupe-me. as linhas mansas de seu contorno: um ovo. tenro.. onde planejam ficar umas duas semanas. Caio. Então estendo os meus muitos braços coloridos e toco no cabo de bronze do . nesse momento.juntos. abrevie-me. você não vê que não tem a menor originalidade — e ele não parou -. ele continuava ali. todos já disseram tudo sobre você. Por acaso o destino final era a Suécia. e sinto pena dele. Agora é um ovo delicado. logo antes de deixar o Brasil rumo a aventuras desconhecidas. cheios de boas expectativas e esperanças. mordi o lábio inferior. "maravilhosos". Além do humor cáustico. É quando julgo perceber nele uma espécie de súplica: socorra-me. a casca branca. e da dificuldade de salvação.

firme. depois empurro lento. Foram tomar um café. . E sinto uma lâmina penetrando fundo em minhas costas. Caio e Juarez ainda não eram íntimos. Vejo minha casca clara partir-se inteira em cacos brilhantes que ficam cintilando pelo chão do banheiro. e não se viram mais. trabalhavam no mesmo local. as pessoas eram fechadas. rígidas. mas não trocavam confidencias e coisas do gênero. Uma breve hesitação. Em Madri. também estou no céu com diamantes. Se hospedaram em um hotel na esquina da casa onde morou Picasso. mas é tarde demais. Nessa época. Juarez Fonseca e sua mulher. Amsterdã ou mesmo Estocolmo prometiam ser. 0 sangue escorre e eu. por acaso. minhas pálpebras grades. cheio de repressões. Augusto e Ana foram a Barcelona. Sônia. Caio. no dia 29 de abril: "Caio muito louco caminhando pelas ruas. andavam na mesma turma em Porto Alegre. as ruas de Barcelona eram sujas e poluídas. Era ainda época de ditadura no país. com catedrais com mais de 500 anos e casas de 300. Meus olhos são janelas. Caio não achou mesmo muita graça na Espanha: a comida era horrorosa. Todo mundo olhando. e de lá para Madri de trem. Sua figura chamava a atenção: a Espanha é um país católico. mas fecho os olhos no mesmo momento em que meus dedos se cerram em torno do punhal.punhal. Hesito um pouco." De Madri. e se ouviam relatos de torturas e fuzilamentos. agora. Sobre o encontro casual com o grupo de Caio. moralistas. perdidos entre espáduas. Estavam numa esquina da cidade quando viram passar Caio e os amigos que tinham ido com ele. O casal tinha ido até Lisboa de navio. Juarez escreveu no diário que estava fazendo da viagem. até o encontro combinado na Suécia. Lúcia grita. meus dedos ferro. Caio encontra. e nesse sentido estava longe de ser o paraíso dos costumes que Londres. minhas mãos tentáculos. Bonito mesmo Caio só achou o bairro gótico. até o pesado cabo de bronze onde dedos comprimem com força. A sua casca está manchada pelo fio de sangue coagulado.

todos iriam se estabelecer. de cultura. de outra forma. Passear pela capital francesa era como andar sobre séculos de história. em outro lugar. com todos os cortes de cabelo e roupas que se possa imaginar. requintadas. e Sandra Laporta em outro restaurante. Sandra também se saiu bem — roubava camarões do hotel onde trabalhava e trazia para casa. na fronteira do Rio Grande do Sul com a Argentina. e os estrangeiros se hospedavam no que usualmente eram seus alojamentos. e a impressão que a capital francesa deixou foi de puro deslumbre. quando eu for grande. e depois se mudaram para outra. ele vira para o avô Aparício Medeiros e diz: — Um dia. Augusto se revelou um exímio ladrão de supermercados: vestia seu macacão Lee e enchia os bolsos de enlatados. O avô. . o grupo seguiu para Paris. todos iriam se ajeitando e conseguindo moradias individuais ou em duplas. Sônia arrumaria emprego em um hotel. Os estudantes estavam de férias. é claro. Caio Fernando Abreu tinha nove anos de idade e estava passando uns dias na casa de seus avós. Bares charmosos. Ficaram uns seis dias nessa residência. mulheres elegantes. Aos poucos.De lá. Todo mundo se deliciava com os camarões que. Qual seria a cara dele agora. morreu de rir. Pisar nas ruas francesas era como "pisar no coração do mundo". fosse na "casa" de um ou de outro. jamais poderiam comer. Caio também iria lavar pratos. um pouco maior. Era noite em Itaqui. também. os grupos se juntaram e foram todos morar numa residência estudantil minúscula. fazer comida. arrumar empregos: Juarez iria trabalhar no restaurante Catelin. diria Caio. onde grupos de pessoas se reuniam para tomar vinho. Encontravam-se depois dos respectivos trabalhos e iam beber. porém. vou morar na Suécia. conversar. de civilização. gente variada. Harekrishnas andando sossegados pelas ruas. Era o paraíso. que Caio estava mesmo indo morar em Estocolmo? Na Suécia. Em dado momento. O grupo estava sempre junto. Era uma festa. Aos poucos.

E era um desses adoráveis quadradinhos mágicos que fez Juarez anotar em seu diário. esquilos passeando tranqüilos. meia palavra basta. A primavera sueca está relativamente quente: dá pra sair de manga curta tranqüilamente. embaixo de um pequeno barranco. de ácido. No dia seguinte. Os brasileiros reunidos em Estocolmo vão fazer um piquenique num bosque no bairro de Kungshara. com medo de que aquilo fosse manifestação de alguma bad trip: — Corta essa.. digamos. Uma beleza de bosque: jardins cheios de amores-perfeitos e tulipas. e embarcaram numa viagem incrível. com a cabeça em órbitas insondáveis. extasiado: — Puxa.caríssimos que eram. o Caio parece o Jesus Cristo! Sandra corre para a frente da máquina e diz. Entre um delito e outro. Era medroso demais e não conseguia levar um roubo até o final. para viver o sonho lisérgico de uma geração. numa boa. o pessoal arrumava tempo também. andando por debaixo das árvores. na verdade. de conto de fadas. olha pelo visor da máquina fotográfica. que logo começaram os planos para outra dessas excursões. junto com ovelhas e cervos. até o efeito passar. Juarez pára de entender o que está . de haxixe. nas horas vagas. A coisa foi tão boa. Juarez nunca pegou nada. com sol e tempo bom. Caio também tinha medo. Caio está vestido todo de branco. mas pegou uma coisinha aqui e outra ali. Juarez. Uma caixa de TV está jogada no lixo. Nesse momento. Os ácidos tomados às duas e meia da tarde nada mais fizeram que realçar a magia natural do parque.. Juarez pegou carona. Esse tem um insight e grita. cara. "Para bom entendedor. coloridas. e ficaram todos pirando cor-de-rosa. O dia 27 de maio caiu num sábado bonito. Atmosfera mágica. Era época de maconha. Caio e Augusto tomaram o tal pink. no dia 24 de maio. três ligeiras palavras: "Pintou um pink. Caio vai até lá e passa na frente do visor de Juarez.

no Rio. e tinha passado por umas terríveis em Porto Alegre. Ele e Augusto rodaram vários dias até encontrarem colocações. em uma imitação malsucedida de comunidade hippie. e Caio se dedicou a ficar oito horas de pé por dia. as coisas pareciam possíveis. num país distante. bandejas. com seu temperamento depressivo. Augusto foi parar numa fábrica. Cat Stevens. sua postura . lavando pratos. Era em um bar. com luvas de borracha até o cotovelo. cara. O detergente lavava também toda a arrogância que Caio pudesse sentir. Novos Baianos. quando ele encontrou o primeiro emprego. o bosque. Até mesmo utopias que tinham escorrido pelo ralo por causa da dureza da realidade pareciam mais fáceis de acontecer naquele país. Comeram xis-búrgueres com batatas fritas. junto com os outros. no centro de Estocolmo. Ali. o grupo foi para a casa de um português ouvir discos.acontecendo. O mundo à sua volta. o disco Chico & Caetano. Jorge Ben. Caio falava e falava. Ele mesmo era muito sujeito a badtrips. ele não era melhor que ninguém. os textos que escrevera e publicara. Depois de sete horas. naquela cozinha onde todo mundo falava uma língua que ele não entendia. Não tinha sido fácil. passa logo. analisando a viagem do amigo. Na volta à terra. panelas. copos. Assim como parecia distante o tempo em que tinha morado em Santa Teresa. onde os jovens se deitavam seminus nos parques para tomar sol. E também garfos. Mas ali. facas. Os livros que lera. Ali. E passou mesmo. longe da cidade. tudo. as descobertas de si mesmo e dos outros por que Juarez tinha passado. possíveis significados. A idéia de paraíso na terra deve ter desmoronado para Caio mais ou menos dois dias depois do piquenique no parque. tudo de forma muito pura. aquele de lavar pratos. vai consolá-lo: — Isso não é nada. o fiorde ali do lado com o castelo do rei Gustavo Adolfo. tudo perde o significado. junto aos amigos. sem maldades ou malícias. Caio. longe do Brasil. essas lembranças ruins pareciam distantes. A viagem ruim começa pra valer.

isso não importava. que ele tanto ansiava em ver. Fora assim com São Paulo. Estava sendo assim com Estocolmo e provavelmente seria assim com Londres. quando aquela vontade de viver novas experiências passasse. Ali. e passado o impacto e a fascinação dos primeiros dias. Sentia-se um estrangeiro onde quer que fosse. com o Rio de Janeiro. talvez. o gay negro. porém. Caio foi se despedir deles. Caio não se sentiria triste. Claro que. Juarez e Sônia foram embora. mas de quem ninguém debochava. sem maiores preocupações. Que seu livro O ovo apunhalado tivesse ganhado Menção Honrosa em um concurso no Brasil. por enquanto. lavando louça. nada disso o distinguia de David. Juarez estava triste. o momento parecia duro demais para enfrentar. com Porto Alegre. Saudade de ficar com Augusto e outros malucos na praça. Fora assim com Madri. talvez. bem ao seu estilo. enquanto eles vendiam colares e um francês tocava violão. na cozinha de um bar no centro de Estocolmo. a Suécia era para ele o paraíso. antes de chegar à Suécia. Chegaria também sua vez de partir."avançada". sem possibilidade de cura. Mas não. cujo único exercício físico era o levantamento de copo. pois era forte demais e seria capaz de pendurar pelo pescoço qualquer um daqueles intelectuais. Sentiria falta. Uma vez lá. que debochava de todo mundo. até dos guardas que vinham expulsá-los sempre que começava a sessão de violão. enfrentativo. e ele também. Caio poderia voltar para a casa dos pais e viver uma vida de odalisca outra vez. ou do engraçado africano que trabalhavam com ele. Esse era Caio: sempre achava um jeito de colocar defeito no lugar onde estava. como todos sabiam —. E Caio. No dia 18 de julho. ou dos dois japoneses. inteligente e bem informado. dramaticamente. Mas. . ele começaria a achar a cidade um horror. Falta de Nega Lu. e a temporada chegasse ao fim — e chegaria. ele era um lavador de pratos que não falava sueco. Ponto. o boliviano. decidiria que o menino cheio de esperanças que ele fora um dia morrera ali. se sentisse triste.

não viria a ser o grande amor da vida de Caio. incapaz de se comprometer. finalmente. de Nelson. logo ele já estaria achando a cidade fria demais. A cidade parecia saída de um livro de Virgínia Woolf. parques lindíssimos. Nesse ponto. só duraria o tempo suficiente para que Caio escrevesse meia dúzia de cartas para os pais e amigos. em Londres. interessantes. Depois de meses sozinho. roupas dos anos 30. soltando farpas para todo lado. Caio estava. qualquer ameaça à sua liberdade. Trocaram cartas amorosas. Caio arrumara uma paixão que o fazia suspirar pelos cantos e cantar canções do Roberto Carlos (lembrem-se que o ano é 74. bem diferente da dura Estocolmo. sem ninguém olhar nem comentar. não era isso que os livros tinham prometido. Fazer faxinas em casas de atores. E aquela história de não ter dinheiro para nada e trabalhar em subempregos para sobreviver não era nenhuma maravilha. uma chateação. Todo o deslumbramento. ninguém seria. claro. em que ele contava suas experiências e suas mudanças de humor. como. Falava. Mas Nelson. A primeira impressão foi de êxtase: cabelos coloridos andando pelas ruas. trabalhar de modelo vivo em escolas de Belas-Artes. ele saltava fora. A relação com Vera. cinzenta demais. um dançarino cubano que ele estava meio que namorando. com todas aquelas odes às mulheres pequenas-gordinhas-deóculos). onde as pessoas eram fechadas demais. por exemplo. Chuva a todo momento. era defensivo. Durante todo o tempo em que esteve viajando.Depois de ter dado um pulo na Holanda e na Bélgica. e a fase brega do rei ainda não tinha começado. aliás. embora tenha tido seu momento. por exemplo. e era maravilhosa. Ele era individualista ao extremo e não deixaria que alguém entrasse em seu mundo. horas na mesma posição para que os alunos o desenhassem. pessoas gentis. foi esfriando à medida que chegava a hora de voltar ao Brasil e encará-la frente a . Não era isso que ele tinha sonhado. Caio e Vera Antoun continuaram se correspondendo.

E terceiro. não era preciso papel nenhum para afirmar isso. tanto sobre relações hetero como homossexuais. Quarto: ele estava ficando careca. que se duas pessoas se gostavam. A seu modo. sozinho. Caio escreveu muitos textos sobre o relacionamento entre duas pessoas. não do jeito que vivia. Além disso. Mas não deixava que ninguém entrasse demais em sua intimidade. era uma mudança e tanto. Para uma avenca partindo: — Olha. Me pergunto sempre se você não teceu em volta de mim uma porção de coisas irreais — se você não está projetando em mim qualquer coisa como um príncipe encantado — esperando a minha volta como quem espera a salvação. sem comicidade. comum entre pessoas que se gostam. Ele. uma paixão avassaladora. o cabelo lindo e escorrido de índio estava indo embora. vendendo o almoço para comprar cigarros. mas acho que sim. foi explorada em um texto de O ovo apunhalado.frente. não é bem assim. sempre sem dinheiro. experimentou de tudo. Assim. já estava dizendo: opa. acabava. Será que ela ia querer alguém assim ao seu lado? Em abril de 1974: "Tenho medo de te ferir. exatamente aquilo que ele estava tentando evitar. Desculpe. que falara em casamento e filhotes com olhos de vaca-jérsei. A incomunicabilidade. antes do ônibus partir eu tenho uma porção de . estava branquelo demais de tanto não-sol que fazia em Londres. quase sempre. disse que casar não tinha nada a ver. Essa sempre foi uma de suas principais preocupações: sempre quis viver um grande amor. Mas acho que precisamos 'falar seriamente'. só teria certeza disso se estivesse com ela ao vivo e em cores. ele não podia mais dizer que a amava." Para quem queria comer a garota com molho de chocolate. entradas enormes na cabeça. sem fantasia. ele não tinha condição de pôr um filho no mundo. Segundo. Primeiro.

eu ainda não disse tudo. olha. depois você arruma as malas e as bolsas. sabe. e se eu não te disser agora talvez não diga nunca mais.... no mais fundo. mas é que a gente tem tanto medo de penetrar naquilo que não se sabe se terá coragem de viver.... compreende? olha...] está bem.... eu espero aqui do lado da janela. não.. eu vou escrever... antes do ônibus partir eu quero te dizer uma porção de coisas. não é isso que eu quero dizer.. eu não vou escrever. é isso mesmo.... As lojas grandes de onde roubavam nem sentiriam o prejuízo.. espera um pouco mais. você está acompanhando meu raciocínio? [. Além de arrebentar esperanças e se engraçar com rapazes cubanos.coisas pra te dizer.. porque tanto eu como você sentiremos uma falta enorme de todas essas coisas.. você vai... Coisa pequena... dessas coisas tão difíceis de serem ditas que geralmente ficam caladas.. dessas coisas assim que não se dizem costumeira-mente. não me entenda mal....... não fecha a janela.. na estrada... é muito importante... eu quero dizer... continuaremos conversando enquanto o ônibus não sai.. está tudo definido aqui dentro.. esse velho não vai incomodar você... e a culpa é única e exclusivamente sua. não. depois. olha..... por que você fica sempre me interrompendo e me fazendo suspeitar que você não passa mesmo duma simples avenca? Eu preciso de muito silêncio e de muita concentração para dizer todas as coisas que eu tinha pra te dizer... é melhor mesmo você subir.. será que vai dar tempo? Escuta. olha. mas é bom você botar um casaco.. indevassável... porque elas não foram existidas completamente.sim. fica tranqüila.. está esfriando tanto. porque nunca se sabe nem como serão ditas nem como serão ouvidas. e se elas não chegarem a ser ditas nem eu nem você nos sentiremos satisfeitos com tudo que existimos....... é só uma coisa. porque as vivemos apenas naquela dimensão em que é permitido viver... sei. falta muito pouco tempo.. antes de você ir embora eu quero te dizer quê.. entende... as maçãs ficam comigo.. Mas a Inglaterra é um país onde o shopliting é punido de forma mais severa . espera. não existe um dimensão permitida e uma outra proibida.. vou dizer tudo numa só frase. Caio continuou em Londres com os pequenos roubos em lojas.] [....

com a abertura começando a se esboçar. o Plastic Ono Band. mas não é pecado. entraram em uma livraria. Por causa dos dois volumes de uma biografia imensa sobre Virgínia Woolf. e o mundo devia seguir em frente sem eles. mas também não precisa virar pesadelo. Elvis ou Beatles. TRÊS — Tá certo que o sonho acabou. embora amenizado. que também morava no apartamento que ele dividia com Marisa e Augusto. como diz Garcia Márquez. roubaram livros e foram vistos. ele percebia o quando tinha reclamado de barriga cheia enquanto estava viajando. Os besouros musicais já não existiam. Era mais do que Caio ganhava por semana na escola de Belas-Artes. dava para pagar. what can I say?" A música era God. os seguranças e policiais não queriam nem saber de conversa. quando Caio e o amigo Homero. estava na hora de voltar para casa. O . não houve meio de convencer os guardas de que. do primeiro ábum de Lennon sem os Beatles.que no Brasil. Os dias de Caio na Europa também. o sonho acabara. O clima claustrofóbico da ditadura continuava. Ching. Assim. Buda. não é? A frase foi escrita por Caio Fernando Abreu no espelho de seu quarto em Porto Alegre. É. Cinco anos antes. Ele só acreditava nele mesmo e em Yoko Ono. Caio e Homero passaram a noite na cadeia e foram condenados a pagar 30 libras de multa. "The dream is over. ao cantar que não acreditava mais em coisa alguma: mágica. Prisão num país estranho e 500 contos a menos: era até onde o amor à literatura tinha feito Caio chegar. O ano de 1968 ia longe. John Lennon anunciara o fim do sonho de toda uma geração. De volta ao Brasil. Jesus. em julho de 1975. roubar livros é errado. mas apertando aqui e ali.

Caio se virava para sobreviver em Porto Alegre. e não era só para os Beatles. coisas assim. e a necessidade de sobreviver maior que a de curar caraminholas da cabeça. elas também não sabiam nada das experiências por que ele passara. Ele ia por um lado mais zen. Ninguém se entendia. como em Londres ou Amsterdã. se o dinheiro não fosse tão curto. um antipsiquiatra.Suplemento Literário de Minas Gerais. Não se podia andar pela rua com cabelos compridos e batas indianas sem chamar a atenção. internações em clínicas. mas que no geral só servia para reforçar aquilo que ele considerava o grande problema do ser humano: o ego. O clima estava ficando pesado também no quesito drogas: muita gente estava começando a pirar. acreditava numa forma de conhecimento mais holística. Enquanto o enterro não vinha. não adiantaria nada: o milagre estava com os dias contados. no momento. na verdade. porque estivera fora. E. de pagar suas consultas. Caio poderia consultar um psiquiatra amigo seu. Acreditava que a psicanálise tradicional tinha algumas vantagens. Caio gostava muito de Bono. junto com o jornalista Luiz Carlos Maciel. Readaptar-se era difícil. É. Por que mesmo ele tinha decidido voltar? A depressão veio pesada. mais de desapego. avisou que só poderia publicar um conto dele se as palavras "merda" e "tesão" caíssem fora. mas algum trabalho ele . as referências eram outras. em que Caio colaborava desde antes de viajar. O sonho estava acabando. As pessoas em Porto Alegre estavam mudadas: tinham feito coisas das quais ele nada sabia. Não precisava fazer faxina nem posar em escolas de Belas-Artes. como não chegara para a maioria dos brasileiros. mesmo que tivesse. Ernesto Bono. Só faltava aprontar o enterro. mas não tinha condições. falava em macrobiótica e. queria fazer de Porto Alegre um centro de irradiação da contracultura para todo o Brasil. O milagre econômico dos militares não tinha chegado até a casa da família Abreu. era o Brasil. Bono era um psiquiatra diferente dos outros: era.

. um luxo. A imprensa nanica. sem dinheiro nem para as anti-consultas com Bono. porém. como a chamara João Antônio nas páginas de O Pasquim. por exemplo. Eram jornais que. o Jornalismo. em que Caio Fernando Abreu chegou a colaborar algumas vezes. sem idéias. que duraria apenas quatro números. ainda não totalmente recuperado da experiência européia. na metade da década de 1970. ele colaborou em quase tudo que era nanico: Opinião. e a saída era. Inéditos. era colaborar com a imprensa alternativa. tendo em comum apenas a condição de nanicos. O jeito foi então escrever uma crônica falando exatamente desses sentimentos escuros que ele sentia. Versus. Dois meses antes da revista sair. Findo o prazo. Movimento. aliás. comandado por Juarez Fonseca. Tirando O Pasquim. ele esperou que alguma idéia aparecesse. Opinião. poderia escrever o que quisesse. o jornal Exemplar. traduções e revisões para editoras. justamente por serem independentes.tinha que ter. Movimento. estética e política. Caio compraria uma boa briga no final de 1976. alguma coisa bonita para oferecer aos leitores. pois havia veículos para todos os gostos. qualquer coisa que pudesse garantir algum dinheiro no fim do mês enquanto ele escrevia seus livros. Por dois meses. Juarez começou outro projeto que teria a participação de Caio: a revista Paralelo. Mas Caio estava deprimido. Escrita. ele não estava melhor que antes. não era privilégio de paulistas e cariocas. No eixo Rio-São Paulo. Escrever na imprensa era parte daquilo que ele chamava de "biscates culturais": resenhas e críticas para jornais. Bondinho: cada um com sua opção formal. Entre 1967 e 1973 existiu. Ele teria uma página só para ele. sem esconder nem maquiar nada. ficaram famosos veículos como O Pasquim. como sempre. e nem as inspirações brotavam com mais facilidade. E uma das coisas que havia para se fazer em Porto Alegre. com quem. oficinas de criação literária para alunos com ou sem talento. podiam se dar ao luxo de dar espaço a críticas e inovações. Juarez pediu a Caio que entregasse uma crônica para o primeiro número da revista. Ficção. Em 1976.

simplesmente não consigo pensar organizadamente (?) ou ter idéias claras ou/e precisas sobre as coisas. Cobra dos outros. quaisquer que sejam. escrevo para reinventar. talvez) no meio da noite. mas nunca está em casa. cita Mario Quintana e Adélia Prado. Nas cartas que tenho escrito ou nos meus rabiscos solitários (e vis. pessoas talentosas. por uma série de razões demasiado pessoais para serem trazidas ao baile (trata-se de um baile?) ando com uma autocrítica violentíssima e não consigo. DÓI PRA CACETE. Eu disse: quaisquer." A crônica segue e Caio menciona amigos. Mas no momento. "Acontece que não sou [porta-voz] e não quero assumir esse papel. Mas não pense que não sei do inútil disso. essa era uma responsabilidade grande demais para ele. parece que alguma peça importante para o meu funcionamento simplesmente quebrou. meu irmão. como uma nevralgia psico-espiritual (!). descobriu que muita gente tinha gostado de entrevistas que ele tinha dado. de certa forma. ele acabou se tornando mesmo. para não enlouquecer de impotência. só não estou mais afim de fingir que tudo-bem. Sérgio Caparelli. e eu não sei o que fazer. referindo-se à previsão de Bono e de Luiz Carlos Maciel de que a Bahia já era e o novo pólo de irradiação da . reclama que as grandes sacanagens sociais continuam acontecendo. você me entende?. Fala de uma coisa e outra. esse "ter nascido me estragou a saúde"ambulante e crônico. Viam nele uma espécie de porta-voz da geração dos anos 70. porque — estou usando o máximo de. Nos últimos tempos tenho me movimentado com dificuldade dentro dos meus escombros-de-dentro. tudo dói. " Fala também em revolução sexual e de alguém que ele queria encontrar. e é isso mesmo que eu sou. de forma não-planejada. acabo sempre caindo na mais lamentável das auto-lamentações: dói. "apesar das nossas ficções": "Escrevo por uma espécie de incompatibilidade-de-gênios com a vida. sinceridade — não sirvo nem pra porta-voz de mim mesmo. desculpem. o que. todas mais aptas a escrever a página que ele: Tânia Faillace. e tenho consciência de quanto isso parece ridículo e juvenil. entrevistas veementes em que Caio assumia suas posições peculiares com firmeza. para refazer. para organizar o caos.Depois de consultar o amigo Giba Rocha. Luiz Fernando Emediato.

a pessoa em quem realmente estavam de olho. um pouco era por causa da economia em crise. chamou o garçom (seria o Isaac?) e pediu outra. uma crônica estava pronta. Queriam que ele depusesse contra Graça. num bar: "Um dia alguém precisa virar a mesa ao invés de só pedir outra Brahma.contracultura no Brasil seria o Rio Grande do Sul: "como é que é? não era um lugar altamente esotérico? Não aconteceriam coisas incríveis por aqui?" O texto termina: "Alguém me disse. Na ocasião.. alguém apontou para eles: — Olha lá! Minutos depois. em parte a culpa era dele. era por causa das drogas. Se havia bad trips. talvez estivesse procurando nos lugares errados. muito dignamente. Se ele não conseguia encontrar um único e belo amor. Dessa vez. no Rio de Janeiro. Caio apanhou muito. como gostava de dizer. daquelas de matar filósofos. e das brabas. eram dez ou quinze pessoas. ela de biquíni. Bem. Tocavam flauta. na cidade. por questões políticas. Mas a taça destinada à sua geração nem sempre tinha só champagne. se recusasse a falar. Se Caio estava mal. quando foi preso em Garopaba. ele de calção. estavam presos. Se a ditadura existia. No caminho. a ditadura era uma das coisas sobre as quais Caio não tinha controle algum. soltaram-no. Ele já havia sido preso em 1971. Caio. conversavam. Caio provou desse veneno em 1975. entravam no mar. que era o verdadeiro alvo. já faz tempo. Caio e Graça foram até a padaria. Estava bebendo de sua taça. riam. Era uma dose amarga que sua geração tinha que engolir sem reclamar.. Graça foi presa e condenada em um flagrante ." E voilá. Se não havia dinheiro. mas também porque Caio nunca se sujeitou a um emprego comum por muito tempo. era porque. Como Caio. Jaime. Em dado momento. em um falso flagrante de drogas. de vez em quando era cicuta. entre elas Graça Medeiros. ora. "Arrotou. no litoral catarinense.

O responsável pela prisão era o delegado Elói Gonçalves. E não só: à fugitiva Graça Medeiros.) — Conta. (Bofetada na face direita. assim como Graça. escritor catarinense. Mastigamos em silêncio as chicotadas sobre nossas costas. Quando o conto foi publicado em livro. mistura de fatos com altas doses de invenção e fantasia. em Pedras de Calcutá. é claro. Depois de ter sido preso e solto na despedida de Jaime. — Conta. que. -Não sei. A epígrafe do texto é um trecho do conto Garopaba meu amor. (Bofetada na face esquerda. em Florianópolis. publicado pela primeira vez na revista Ficção. a dedicatória foi suprimida. O . Evitamos nos encarar — por que sentimos vergonha ou piedade ou uma compreensão sangrenta do que somos e do que tudo é? —. um ano depois. Cão batido. -Não sei. Caio passou uns tempos na casa de Emanuel. E os corações de vidro pintado estalam ainda mais alto que as ondas quebrando contra as pedras. de modo que Caio acabou nunca mais dedicando texto algum a ela.) Antes do episódio em Garopaba. Graça tinha dado um jeito de escapar da clínica. armado na delegacia de Florianópolis dois dias depois de ter sido presa em Garopaba. Graça tinha sido uma das responsáveis pela publicação de O ovo apunhalado. rabo entre as pernas. Gil e Chiquinho. (Pontapé nas costas. são de criança assustada esses olhos. Nessa ocasião. foram condenados a passar um tempo em clínicas psiquiátricas. de Emanuel Medeiros Vieira. mas. — Não sei. em Garopaba. o mesmo que ficaria famoso.falso de porte de maconha. às vésperas de um show dos Doces Bárbaros. E a quem o boca-grande do Caio dedica o conto? A Graça Medeiros. quando os olhos de um esbarram nos olhos do outro. ficou furiosa. por prender Gilberto Gil e Chiquinho Azevedo por porte de maconha. e estava escondida. Essa história serviu de inspiração a Caio para escrever o conto Garopaba mon amour.) — Conta.

primeira de várias parcerias da dupla.. era a continuação do trabalho com teatro que Caio vinha fazendo desde que voltara da Europa. o outro mais uma. de onde Caio só sairia para a famosa casa da rua Chile. em 1976. sabiamente. logo depois. retocava. que o sol ainda brilha e o mundo está a salvo. fluía. em 1973. que mais tarde. Premiada. Caio receberia o Prêmio Leitura do Serviço Nacional de Teatro (SNT) pela peça Uma visita ao fim do mundo. além de publicar O ovo. por enquanto. Em 1975. .. Em 1974. e só viria a ser encenada em 1983. Graça era assessora de Paulo Amorim no Departamento Cultural da Secretaria de Educação e Cultura do Rio Grande do Sul. Ao amanhecer do dia seguinte. e assim sempre. tinha trabalhado com o grupo Província na peça Sarau das 9 às 11. enquanto aguardam o fim do mundo chegar. Os dois chegaram a morar juntos por um ano. Em Pode ser que seja só o leiteiro lá fora. e Caio escreveu alguns diálogos curtos. ao qual o Instituto Estadual do Livro (IEL) era vinculado. A parceria com Luizar — como Caio o chamava — era boa. O leiteiro. pelo Instituto Estadual do Livro. e fora escrita a quatro mãos por Caio e por Luiz Arthur Nunes. precisava de alguns textos. Aquela era uma peça de esquetes. Ou então cada um escrevia uma cena. e o outro mexia. na maior facilidade. alguns amigos se escondem em uma casa abandonada.. descobrem que não há nuvens de radioatividade. em parceria com a editora Globo..livro tinha ganhado. e com contos suprimidos pela censura. foi proibida.. teria seu nome trocado para Pode ser que seja só o leiteiro lá fora. e intercedeu junto a ele para que o livro saísse. menção honrosa do Prêmio Nacional de Ficção. Um escrevia uma frase. porém. foi repetida em 1977: Luiz Arthur ia fazer um espetáculo de esquetes. a peça foi indicada para leituras em várias partes do país. Na época. Como a experiência desse certo com o Sarau. no apartamento de Luiz na rua Jerônimo Coelho. mas só seria publicado dois anos depois.

escrevendo em jornais sobre os escritores que admirava. Na época. trocavam informações. já mais velha. com aquela pele toda verde.JOÃO (Sem emoção.. como qualquer pornografia.. Mais de uma vez. ninguém lia Hilda Hilst. e nisso Caio não desapontou os amigos. ALICE — Piração. que passou a chamá-la de velha safada. além disso. trazendo ouro. e nem só do grande. apodrecendo e caindo. tentavam ajudar uns aos outros dentro de suas capacidades. principalmente através do conto. BABY— Ou Mona. A escritora se magoava com isso. um escritor reconhecido. Outro em quem Caio deu um empurrão foi o poeta Nei . tudo piração: pode ser que seja só o leiteiro lá fora. Nós tínhamos o direito de sobreviver ao fim do mundo. e que quase ninguém conhecia. Os monstros. Ilusão. ele era um dos integrantes do chamado boom literário dos anos 70: uma turma nova que fazia ficção. principalmente em Porto Alegre. coisas assim. piração. decidiu que iria escrever livros eróticos para ver se venderia mais. aclamada por um certo ramo da crítica mas desconhecida do público. Com três livros publicados. escrevendo resenhas positivas em jornais e revistas. tanto que. perdeu o respeito de uma parte da crítica. CARLINHA — Eu acho que são os sobreviventes da explosão. Caio já era. Esses escritores se correspondiam. mostrando o texto dos amigos para outras pessoas. ROSINHA — Devem ser os três reis magos que vêm visitar o menino. de certa forma consagrado. e ela não vendeu nem meio exemplar a mais por isso. LEO — É a polícia. deu provas de sua fidelidade. Quem sabe é Mona com os extraterrestres? Eles vêm nos buscar também.) — Estão batendo na porta. incenso e mirra. Eles vêm nos matar porque nós sobrevivemos. impressões. ANGEL — Puede ser algun vecino. metade dos anos 70. Ou os quatro cavaleiros do Apocalipse. claro: a pornografia de Hilda não era como outras pornografias. Tenho certeza que é a polícia. Por essa época. como a própria Hilda Hilst. O espírito da época era de solidariedade com os colegas.

o livro garimpado na papelada de Nei. Tanto que aceitou fazer o prefácio do livro seguinte de Nei. Nei seguiu o conselho e nomeou o poema Mario Quintana. iria na casa de Nei e o ajudaria a editar o livro Outubro. Caio leu um poema do qual gostou muito. e em geral estava certo: Nei acatava sua sugestão por achar que tinha ficado melhor. porém. Quando entrara na faculdade. gaúcho de Uruguaiana e radicado na capital. Antes de Mario Quintana ver o poema. Muitos dos autores publicados nessa época pelo IEL. anos depois. como Caio. no geral. Estava em dúvida. Caio usou de sua influência no IEL para conseguir a publicação de Outubro. ele era um autor marginal. mas. organizaram o livro. nem tinha nada publicado em lugar nenhum. Caio sugeriu a troca de algumas palavras. a não ser em jornais mimeografados. Nei era jornalista. em plena ditadura. Os outros poetas podiam pensar: ei. foi um acontecimento: afinal. Eles eram amigos de conversar sobre literatura. Alguns conheciam sua poesia de vê-la declamada nos encontros de estudantes. Caio o aconselhou a arriscar. — No Mario Quintana — disse Nei. Ele deu um parecer favorável à publicação do livro. E seria Juarez também que. Os três separaram os poemas por tema. eu também posso. Então Caio sugeriu que ele colocasse o Mario Quintana no título do poema. e perguntou em quem o poeta estava pensando quando escreveu. Quintana adorou o poema. Será?. e foi ele que. Não se arrependeria: quando o livro saiu. Vê-lo publicado com capricho pelo governo do estado. o livro tinha que ser publicado. Caio inclusive. Juarez Fonseca ainda andava por lá. chamou-o a um canto e explicou tudo: o movimento estudantil é assim e assado. tinham muito a agradecer à diretora do . cinema. perguntou o poeta. junto com Caio. se o Nei pode.Duelos. Nada teria a perder. na primeira reunião de estudantes a que o calouro Nei compareceu. Nei não era ainda conhecido. era algo para se comentar. Quando o livro saiu.

bom jornalista. ambas de 1976. porém. que. E justo aquela que lhe daria mais visibilidade: a antologia publicada pela Codecri. Caio participou de várias. para combater a política conservadora das editoras. Uma dessas antologias. também participaria da antologia. O mineiro Luiz Fernando Emediato era jornalista e . que dificilmente conseguiriam espaço em outras editoras. Pouco tempo antes. ela não podia dar conta de toda a cena literária do Rio Grande do Sul. Era uma maneira de divulgar a novíssima literatura do país: muita gente estava escrevendo coisa boa. com 21 anos e uma arrogância típica da idade. Com uma visão aberta e democrática do que devia ser a literatura.instituto. entre elas Teia & Assim escrevem os gaúchos. viria uma antologia de doze contos de autores novíssimos. Em segundo. iria causar a Caio uma enorme dor de cabeça. Lígia Averbuck. o nanico mais influente do país tinha decidido criar uma editora. desconhecidos. poeta de 22 anos que dava seus primeiros passos na ficção. o mais velho da turma. Domingos Pellegrini. mas como se tornar conhecido se não aceitavam publicá-los? Apesar do heroísmo de Lígia Averbuck. algumas pagas do próprio bolso. com 28 anos (Caio tinha 27). o carioca Júlio César Monteiro Martins. a ser dirigida por Jeferson Ribeiro de Andrade. Mais coisas precisavam ser feitas. e era preciso desovar essa produção de algum jeito. Entre os seis autores escolhidos estava Caio. O primeiro livro que ele quis publicar foi uma história policial de Otávio Ribeiro. ela trouxe para o instituto e conseguiu publicar muitos autores considerados malditos. Os outros eram o próprio Jeferson. gente que vinha se destacando pelo talento precoce. Era aquela velha história: quem não fosse conhecido não seria publicado. Assim. mas escritor "sem grande brilho". Antônio Barreto. como escreveu em uma reportagem Luiz Fernando Emediato. editora de O Pasquim. aos 25 anos. e muitos autores simplesmente novos. os autores começaram a se unir e a produzir antologias.

que logo foi fechada pela polícia. todos se revoltavam contra alguma coisa. "Jéferson era naturalmente revoltado. enorme. Um desses escritores era Caio Fernando Abreu. Emediato. em 1977. escrevia seus romances e contos. diria que talvez Flávio tivesse razão. revoltava-se naturalmente contra a trágica condição humana. tinha ganhado o prêmio Revelação de Autor e. revoltava-se contra o fato de. antes de retomar as atividades de escritor. eles continuaram a se corresponder. aos 21 anos. as coisas tinham tudo para dar certo. Aos 19 anos. ainda que derramando sangue. foram convidados para fazer parte da antologia Histórias de um novo tempo. e ruim à medida que fosse ficando mais velho. Caio mandou. Isso até que o crítico Flávio Moreira da Costa o chamasse de Shirley Temple: surpreendente enquanto jovem. todos amavam a literatura. por causa do mau humor. escreveria Emediato. Havia muitas coisas na visão de arte dos . da Codecri. infeliz. cujo talento tinha o mesmo tamanho. se correspondia com outros autores. Essas diferenças. E.editava as revistas Silêncio. iriam se agravar com o tempo. um burguês liberal. através de suplementos literários diversos. ficaram amigos. embora as semelhanças parassem aí. no entanto. e Júlio César. numa bela definição dos envolvidos na antologia. A princípio. Anos mais tarde. e Inéditos. da vaidade juvenil. por causa disso. fora considerado por muita gente uma espécie de garoto-prodígio da literatura brasileira. ainda não ser considerado o maior gênio da literatura brasileira de todos os tempos". Luiz gostara de um livro de Caio. que fundaria décadas depois. na reportagem que fez para a revista Geração. ele editava suas revistas. Os autores da antologia se correspondiam. Pellegrini e eu éramos marxistas e queríamos derrubar a ditadura a qualquer custo. da editora Geração Editorial. Naquela época. e escreveu a ele pedindo um texto para a Inéditos. O ovo apunhalado. Os dois vinham lendo os textos um do outro há algum tempo. Caio. trocavam impressões. Barreto.

Agora ele estava melhor. A própria idéia de um manifesto. criado pelo grupo para dizer ao mundo o que eles pensavam sobre literatura. por exemplo. e assim podia pagar as consultas) e. Caio ansiava pelo momento de conhecê-lo . sempre independente. muito dono do próprio nariz. Caio usou de muito tato. escrevia os tais contos. Os seis eram os "paladinos do Oeste". com isso. de um conjunto de regras — ou diretrizes. por engano. duas vezes a segunda página do manifesto. como os chamaria na dedicatória de um livro anos depois Emediato. pouco preocupado com o que pudessem pensar. como se queira chamar. uma das primeiras coisas que Caio leu do documento foi a frase: "contra O individualismo". E esse era apenas o começo da confusão. O mineiro tinha escrito alguns contos de temática homossexual. Caio lera alguns desses textos. ele não era de forma alguma contra o individualismo. Virgínia Woolf. mas graças a quê? A analisar o ego. Além disso. e servira para mostrar que não era aquilo que ele queria. para dar a entender a Emediato que não assinaria o manifesto. Emediato enviaria a ele uma cópia do Manifesto Neo-Realista. Afinal. Em março de 1977. Suas influências literárias só falavam do indivíduo: Clarice Lispector. embora fosse casado e hetero convicto. ou opiniões. o preferido de Caio. Sua única experiência com um homem fora na adolescência. Emediato tinha mandado. Ora. e nenhuma da primeira. Ali parecia estar uma alma-irmã da sua. em carta. lentamente. o indivíduo. Imagina. Assim. emergia da depressão pós-Europa. e achou que havia esperança. com a mesma sensibilidade. ser contra o individualismo. mas que no final viram regras mesmo — a serem seguidas não podia ser agradável para Caio. Mesmo assim. fazia um ano que ele estava fazendo análise (tinha conseguido um emprego na Folha da Manhã como crítico de teatro. O eu. aliás. Mareei Proust.companheiros com que Caio não concordava. ainda gostava muito do pessoal que sairia na antologia. Que idéia.

toda a parte em que ele falava de homossexualismo teria ficado de fora. O plano era visitar Caio em Porto Alegre — a relação entre eles sobrevivera aos entreveros com os demais paladinos e com O Pasquim — e depois ir até Buenos Ares ver Eduardo Gudino Kieffer e Jorge Luis Borges. Nada de mal até aí. com trechos cortados. Na sua cabeça. Quatro deles — Barreto e Pellegrini não puderam ir —. de 20 mil exemplares. Os autores foram entrevistados pelo tablóide.pessoalmente. Nessa época. mandava ele lamber sabão ou catar coquinho. sob todos os pontos de vista. puderam se apertar as mãos e se olhar nos olhos. e acabaram logo. Agora faltava encontrar o resto do grupo. a amizade se fortaleceu. O filho de oito meses ficou com a avó. Só que Caio não gostou nem um pouco da tal edição. Mais dez mil exemplares saíram. . no Rio de Janeiro. O encontro com os outros paladinos aconteceu no lançamento da antologia. Foi visitar Emediato em sua casa. em quem não perdoava a vaidade juvenil. E a resposta o deixou ainda mais irado: O Pasquim. escreveu uma carta ao jornal. por exemplo. Implicou. com Júlio César. por exemplo. com um pátio bem grande. manifestando toda a sua raiva. no cara-a-cara. e o texto saiu. A grana era boa. Histórias de um novo tempo teve sua primeira edição. Luiz Fernando Emediato ganhou um prêmio literário da revista Status. Caio morava na casa da rua Chile. como todos os textos. No final de 1977. Intempestivo. coisas do gênero. para que coubesse no jornal. e ele decidiu viajar com a esposa Sylvia. um chalé de madeira agradável. que uns dos outros só conheciam palavras escritas. esgotada em quinze dias. E saiu editado. só trechos dos seus depoimentos tinham sido cortados. Tudo correu bem. Depois disso. em Belo Horizonte. em Minas. poderia ver se suas expectativas se confirmavam ou não. A coletânea era um sucesso. A confusão aconteceu mesmo quando os quatro foram dar entrevista a O Pasquim. Os moradores amigos se sucediam. mas ela mesma não ficou tanto tempo lá. bem ao seu feitio. a relação do grupo foi se esfacelando mais e mais. A casa estava alugada no nome de Graça Medeiros.

e sempre tinha gente visitando. por favor POR FAVOR: crave seus dentes na minha polpa . teria sua tradução literária em vários contos. do livro Pedras de Calcutá. como Emediato e Sylvia. Caio disse a Luiz Fernando que o amava. Sylvia na cozinha. cinco-seis-sete-oito: por favor. esperando o quê? esperando quem? Aqui-e-agora.como Caio e Sandra Laporta. Caio decepcionado. como fizera a Emediato. Emediato ficou constrangido. que o aconselhou a não arrastar uma relação moribunda. mas pegou suas mãos.. não consigo mais ler essa porcaria. de garantir desde o começo que não daria certo. aqui-e-agora. Sua mania de se apaixonar por homens obviamente heterossexuais talvez fosse uma forma de defesa. claro. Um exemplo é Até oito. Densidades Inimagináveis. O que Emediato não sabia é que o amigo estava advogando em causa própria: em Porto Alegre. espástica. proparoxítona é que tem acento na antepenúltima? o pôster de Burt Reynolds. de auto-sabotagem. em 1973. que fora com ele para a Europa. dizer propriamente não disse. Bem. O suficiente para que Emediato entendesse a mensagem. já na beira dos trinta anos. O mito do artista sofredor parecia calar fundo no coração do escritor. nem lembro mais. que levaria Caio a se apaixonar e se declarar várias vezes na vida. na casa da rua Chile. O personagem é uma mulher. e é claro: sofrendo bastante. Teria assunto. A relação entre Sylvia e Emediato não ia muito bem já há algum tempo. vivendo e sangrando e amando. Ele mencionara o assunto em carta para Caio. para que assim sua liberdade e individualidade fossem mantidas intactas. venha comigo. Caio teria vivência para escrever. aqui-e-agora..] tomar banho e ficar na sacada sem olhar os pêlos molhados do suor do peito do moço da construção em frente. que vontade. sequiosa de amor: [. esses pássaros idiotas sobrevoando essa ilha de loucos. A coisa não deu certo. es-pás-ti-ca. a minha polpa macia. o olhou nos olhos. A sede de amor. então.. Ah..

Carlos Emílio Corrêa Lima. Caio estava entre os convidados. Coletânea talvez não seja a palavra correta. Instalou-se a confusão. Emediato e Carlos Emílio se lembram que Caio. Lygia Fagundes Telles. Além das confusões com tablóides. Ney Matogrosso. se retirou do jantar junto com os amigos. Mas em 1977. Não o perdoaria por não ser louco como ele e seus ídolos: Cazuza.maciaaaaaaaaaaaah. Quando o grupo tentou entrar no tal jantar. onde trabalharia com Emediato e o veria quase todos os dias. Caio e Emediato continuaram amigos. tanto temática quanto formal. Mas aí as coisas estariam mudadas: ele passaria a considerar Emediato careta demais. declarações de amores impossíveis e congressos com escritores superestrelas. Foram juntos a um congresso de escritores em São Paulo. Raduan Nassar. A nata da nata da literatura brasileira estava lá: Rubem Fonseca. Edla havia organizado um jantar fechado. terceira coletânea de contos de Caio. Júlio César Monteiro Martins. Pelo menos era essa a sensação que Emediato teria. Caio e Emediato ainda estavam muito ligados. Caio sempre buscou em seus livros de contos uma unidade. Caetano Veloso. entre vários outros. o bate-boca. Foi nesse encontro que Caio teve um bate-boca com Edla van Steen. certinho demais para ser seu amigo. Edla vetou. a escritora. na época esposa de Flávio Moreira da Costa e uma das organizadoras do congresso. Mesmo depois da declaração de amor não ser exatamente bem recebida. Caio iria morar novamente em São Paulo. do qual participariam apenas alguns escritores. Seus . era um dos oficialmente inscritos no evento. 1977 foi o ano do lançamento de Pedras de Calcutá. Ferreira Gullar. Nos anos 80. Mas a maioria de seus amigos estava lá de farra: Emediato. muito indignado com o que ele considerava uma discriminação. se escrevendo por vários anos.

por não se adequarem à proposta da obra que estivesse trabalhando no momento. para manter essa coerência. o sonho acabou. Pensei que talvez o sol. não nos olharemos dentro dos olhos. e assim. talvez a mente de todos: creio que quando esta última chama apagar um de nós terá de jogar-se ao fogo. nos ideais esfacelados. se jogará ao fogo. diz um verso bem bonito. em geral. aquecerá os outros por mais alguns momentos. Cada livro tem uma lógica própria. Eu tentei pensar em Deus. com textos escritos dos 14 aos 46 anos de idade. com o calor. Mas eles não voltarão. O mundo está esfacelado. Pedras de Calcutá talvez seja o livro que marca o amadurecimento de Caio como escritor. O indivíduo continua um estrangeiro em busca de um modo de estar no mundo. o calor e Deus pudessem voltar de repente.. Apenas já não somos crianças e desaprendemos a cantar. diz adeus e vai embora. As cartas continuam queimando. depois se tornará cinza. Uma ciranda. no momento exato em que a última chama se desfizer e alguém esboçar o primeiro gesto. [. quando Caio organizaria a — aí. O conteúdo do livro segue fazendo a biografia de uma geração: já não se acredita mais na revolução. A relação com a palavra aproxima-se da dos poetas. como no conto Holocausto. É o domínio da palavra escrita. Muitos desses textos seriam lançados mais tarde. Talvez se tenha ido junto com o sol. . Caio se sairá cada vez melhor nesse aspecto. artesãos. Apenas um de nós treze fará o primeiro movimento. lapidando e burilando. buscando sempre o termo exato. no mundo que estava tão diferente nos últimos tempos. Como um ritual. e outro mais. e depois mais um. de Pedras de Calcutá: Há bem pouco um pensamento cruzou minha mente. cada qual tratando de determinado tema ou enfocando os assuntos sob perspectivas específicas. na década de 90. daquelas em que uma criança entra dentro dessa roda. sim — coletânea Ovelhas negras.. são divididos em partes. muitos textos considerados bons pelo autor ficaram de fora.livros. Mas Deus morreu faz muito tempo. A partir desse livro.] Não nos falaremos.

Talvez o centro. e de solitário também. Em alguma brincadeira cujas origens se perderam na história. os dois começaram a se chamar de . não havia quem não a notasse. viveram um apaixonado caso. Em Porto Alegre. mais tarde. e notava sua calça de couro preta. estar no olho do furacão. mas intenso — queriam engolir um ao outro. incapaz de viver nela. era Celso Curi. Ainda assim. que ninguém era de ferro. Era. E quem o via pela primeira vez. aonde quer que fosse. logo que se conheceram. hora de levantar vôo. escrevia suas coisas para teatro. QUATRO Encostado no carro. gestos finos. faltava algo. O ser todo exalava algo de sexual. No meio de tanta paixão. Estranho estrangeiro. jaqueta. muito magro. sem paz fora da própria terra. pronto para partir corações e ter o seu partido outras tantas vezes. como se podia dizer sempre das relações de Caio. se cheirar. encostado no carro. O rapaz. jornalista e agitador cultural. pois os dois. Caio não podia esperar mais tempo.Seria bonito. encontrava alguns amigos. se tocar. mais uma vez. que estava de volta a São Paulo. Caio se sentia um estrangeiro eterno. havia lugar para o humor. irremediável. como se uma tristeza infinita houvesse por trás dos olhos. uma nuvem de melancolia. ele tinha emprego no jornal. como disse Celso. que não era exatamente um rapaz. Como seus personagens. Um breve caso. Caio não deve ter ficado menos impressionado com os cabelos louros e os modos doces de Celso. Uma nuvem preta o acompanhava. cabelos escuros. mas um homem de trinta anos de idade. Alto. era Caio Fernando Abreu. elegantes. A presença do rapaz era forte. estava aquele rapaz de calça de couro. e as coisas bonitas já não acontecem mais.

amigo e colega de trabalho de Caio em Porto Alegre. escrevendo. Valdir e Caio agora repetiam a dose. podia ser utilizada por Caio no dia seguinte. Duran. Maria Rosa fora esposa de Valdir Zwetsch. por exemplo. Caio chamava. e depois ligavam dizendo: — Ei. junto com Vânia Toledo. — Alô. ou Anthea. e aí era Marilene falando com Marilene. uma loucura. morou em primeiro lugar com a amiga Maria Rosa Fonseca. palavras inventadas por Caio e por seus amigos que acabavam virando termos correntes no vocabulários desses grupos. . — Olá. por exemplo. forte. mais uma vez. Ela se lembra dele ouvindo Velvet Underground o dia todo. Em São Paulo. "Lasanha" é aquele homem bonitão. Permeando a obra e a vida de Caio. trabalhando na revista POP. Porto Alegre. Okky de Souza. "Jacira". Uma expressão surgida na noite. digamos. se divertiam. os dois magros que nem papel. tinha se tornado insuportável. é sinônimo de bicha. Caio e Maria Rosa se tornaram muito amigos. em um conto ou crônica. e as atrizes.Fraser e Gomide. a amiga Jacqueline Cantore de Marilene. "rodenir" eqüivale a coisa brega. que se traduz em signos. em alguma festa ou bar. pequena demais. Havia verdadeiros códigos. como Marilene mesmo. Os amigos liam aquilo. uma espécie de humor próprio dos gays. por causa das atrizes Etty Fraser e Geórgia Gomide. no bairro de Pinheiros. J. há o humor queer. brincadeiras e palavras próprias.R. Mas a brincadeira pegou. vou cobrar direito autoral. massudo. cheinhas. Fraser. na rua Capote Valente. Ele mesmo podia assumir um nome feminino. E essas brincadeiras com as palavras não existiam só na maneira de chamar as pessoas. bebendo baldes de café e escrevendo. Caio tinha voltado a morar em São Paulo em meados de 1978. Semelhança menor não podia haver. como vai? Essa brincadeira de nomes não era exclusividade da relação de Caio e Celso. ou MVlen. Gomide — ligava Caio.

e quem ficasse no caminho levava chumbo. três dias trancado no quarto. Caio ajudaria a dar o primeiro banho. Caio ficava dois.escrevendo todos os dias. Tinha um gênio dos diabos. é preciso que se diga. Por que não chamar Caio para morar com ele? Chamou. uma qualquer-coisa que de repente lhe subia e ele não conseguia medir palavras. vira-lata com rabinho entre as pernas. fino. a dificuldade com coisas práticas. mas nunca se lembrava de uma conta para pagar. e Fraser e Gomide correram perigo. E havia aquela estranha necessidade de ficar sozinho de vez em quando. que viria a ser um tormento a vida toda para quem dividisse casa com ele. De vez em quando saíam para jantar. havia um quarto sobrando. Celso morava sozinho em um apartamento na Cristiano Vianna. um gentleman. O mau humor. nascesse. quando Laura. arrumado. No começo da estada. ele e Celso já haviam se tornado grandes amigos. e ela ia apresentando algumas pessoas. Continuavam encantados. a filha de Maria Rosa. Depois batia-lhe o arrependimento. um temperamento explosivo. pedindo mil desculpas. murchinho. Era mesmo difícil não se desentender com ele. sem botar a cabeça para fora para . gostava de tudo no lugar. E aí ele era elegante. Caio não era uma pessoa fácil de conviver. tarefas simples. Caio topou na hora. Por que. Mas quando o mau humor resolvia dar as caras. Em 1984. sanitária. mas a paixão havia passado. Cheio de manias. tiradas mordazes e irônicas. era infinita. digamos. era melhor manter uma distância saudável dele. no dia-adia. era absolutamente impossível prever seu comportamento. todos se divertiam. Ele tanto podia aparecer com flores ou mandando as pessoas para aquele lugar. Lady Laura. sem rancores. Uma distância. Quando estava bem-humorado. mil perdões. com a organização — dizem — típica dos virginianos. sua capacidade de fazer rir. Quando Caio decidiu sair da casa de Maria Rosa. ele a chamava. E foi aí que o encanto quase se desfez. ligava. Caio não conhecia tanta gente na cidade.

Você nunca vai enlouquecer. vinte e cinco dias por mês o pessoal não fazia absolutamente nada. O trabalho lá era uma delícia: na descrição de Caio. Fraser e Gomide a vida inteira. falar de astrologia. e abriu seu teatro. Uma das primeiras interpretações que Gilberto Gawronski fez de Dama da noite. Mesmo assim. porque não podiam entrar no quarto e limpar. se estava morto. Uma vez Caio botou as cartas para Celso. chorava. Quase um ano depois de ir morar com Celso. e depois dele outros ainda. dormia. Caio saiu do apartamento. eram momentos apreensivos. Celso não sabia. Para Celso. destinado a apresentações ainda mais experimentais que as do palco normal. se precisava de alguma coisa. em um palquinho de lxlm. da editora Abril. como que lamentando. já dava para ver que os dois. Nada que o passar do tempo não resolvesse. com quem calhasse. Foi aquela choradeira. e tudo ficaria bem até que a montanha-russa desse mais uma volta e ele ficasse down outra vez. e os de fora sem saber se estava vivo. de Caio. a coisa não funcionava. foi a vez de Rofran Fernandes. As faxineiras enlouqueciam. Depois de Celso. só se divertia. o Espaço OFF. Mexeu com a cabeça. morando juntos. pediam pizza por telefone e fechavam a revista. se escrevia. Celso devendo alguma coisa a Caio. Aí Caio podia contar piadas. e comentou: — Tenho uma pena de você. se mudavam para a redação. não davam certo. Caio continuava o trabalho na POP. botar o taro. Mas quando ele resolvia sair. Celso também se mudou. o bom humor nas alturas. logo os dois estavam amigos de novo. Fraser e Gomide saíam com ele. A diversão era tanta que a turma da revista acabou virando a . foi no OFF. Na última semana. O que Caio fazia lá dentro. E aí era legal de novo conviver com o Caio.nem dar um olá. E Caio prosseguiu sua vida nômade. E houve tensão também: problemas de dinheiro que ficaram mal resolvidos. um lugar para apresentações mais alternativas. morando onde desse.

de coisas leves. Paula era mais certinha. que também trabalhou na POP por uns tempos. Tempos depois. que vai fazer um aborto. e gostou do que leu: disse à amiga que ela tinha muito talento. está entediado com a ligação da mulher. No meio de uma conversa aparentemente banal. e eles conversavam. escreveu o conto Pela passagem de uma grande dor. dramaturga e autora de novelas. quando estavam mal. pelo menos. ela optou por fazer um aborto. pesava 42 quilos. onde ficava a POP. onde trabalhava Maria Adelaide. não viam o tempo passar. em 1987. quando tudo melhorava. Levinha. o homem. Lawrence Durrell. Contou a história ao Caio. e ele acabaria sendo muito protetor em relação a ela. e demais escritores que amavam ou que estivessem lendo no momento.turma de Caio em São Paulo por uns tempos. Outra amizade que veio daqueles tempos é com a jornalista Paula Dip. na Abril Cultural. na época. vizinha à POP. quando estavam bem. No terceiro andar do prédio da editora. que só viria a dar por terminado anos mais tarde. Tendo se descoberto grávida. de brincadeira. Lui. trabalhava Maria Adelaide Amaral. Discutindo Katherine Mansfield. Dedicado à Paula. A amizade perdurou mesmo depois que deixaram de ser vizinhos de emprego. do livro Morangos mofados. e o apelido ficou para sempre. menos porralouca que Caio e alguns de seus amigos. era levíssima. uma única vez. Levíssima. para o terceiro. Ela. Um dia. em que ele parece ansioso por desligar. Maria Adelaide ficou amicíssima de Caio. se divertiam. Uma vez por dia. A amizade seria selada por um episódio triste da vida de Paula. ela menciona. Maria Adelaide escrevia o romance Luísa (quase uma história de amor). o conto descreve uma conversa telefônica entre dois amigos. Caio se espantou: descobriu que ela não era magra. o sempre muito magro Caio resolveu pegar Adelaide no colo. . Apresentada por Celso Curi. Caio subia do segundo andar. que deu seu apoio. Proust. falavam de coisas pesadas. Caio foi um dos primeiros leitores. hoje conhecida escritora. Na época. que trabalhava na redação da revista Nova.

ou para edições . na verdade. Ele mesmo passaria pela situação duas vezes na vida. em crônicas e entrevistas. com a coletânea de 1977 que trazia músicas de grupos estrangeiros do novo gênero musical. Para ele. o medo da criança nascer deformada pelas substâncias era grande. em comum acordo com as garotas. em que todos usavam drogas. é que as gestações aconteceram em períodos loucos. Embora em determinado momento da vida Caio tenha aderido à estética punk. como o pessoal da redação costumava brincar na época. de vez em quando. Mas era preciso "costurar pra fora" para sobreviver. E para Caio. em geral ele não tinha muito em comum com os assuntos tratados na revista. haviam sido grandes dores. — Tá bom — ele repetiu. é incômodo e doloroso para Lui. — Abriu a mão e olhou as manchas branquicentas na palma. A revista POP apresenta o punk rock é o marco histórico do gênero no Brasil. Costurava também. para a revista Nova. optou pelo aborto. dos filhos que não teve. na verdade.— Tá bom — ela disse. — Vou tirar amanhã — ela falou de repente. E pensou que quando começavam a falar desse jeito era sempre um sinal tácito para alguém desligar. a "grande dor" do título: o assunto. também. — Não é essa que é boa para a pele? A aparente frieza esconde. e ele fazia o que podia. — Hein? — Nada. Caio falaria. de como seriam se tivessem nascido. A POP era a primeira revista brasileira voltada para a cultura jovem. ele. Vai fazer teu chá. A justificativa. — Tá bom. Até hoje é lembrada por ter introduzido no país o punk rock. Aqui diz que tem vitamina E. ele dizia. assim como fizera com a hippie anos antes. Mas não quis ser o primeiro. Nas duas ocasiões em que namoradas suas engravidaram. Embora hoje seja praticamente impossível achar o disquinho.

Sendo todas as revistas da mesma editora. aumentar as fotos. Sempre a contragosto. ou o que viesse. . em dias de fechamento. e muito bem. — E se você está a fim de colaborar com o processo de castração mental da juventude brasileira pós-64. O diretor chamou Caio de obsoleto. mas a questão dos horários. e dos prazos. O diretor marca a reunião para nove da manhã. A formação dele tinha sido feita antes de 1964. a parte desinteressante de qualquer emprego. então estavam indo muito mal. enfim. ou como cuidar de bebês. mais dolorosa ainda era para Caio. dizendo que a revista está péssima. se era chata de agüentar para qualquer um. ele tem uma pequena briga com o diretor da revista. — A gente não deve colaborar com a alienação. ou culinária. — O leitor não gosta de ler — justificou o diretor. se o chefe achava que cultura e leitura eram coisas obsoletas. Caio era contratado da POP. "emprestava-se" pessoal de outras redações. pessoal que estivesse com o horário mais folgado. melhorar o lado visual. Era preciso reduzir os textos.especiais. sobre a vida de John Travolta. eu não estou. que isso ele fazia com facilidade. As penas continuaram voando. Em fevereiro de 1979. Aquilo foi demais para Caio. havia grande rotatividade de jornalistas. o trabalho jornalístico era penoso para ele. mas só aparece às dez e meia. o diretor comentou que os títulos de Caio pareciam livro antigo de História. de certa forma. por exemplo. Caio não concordava. E já chega falando grosso. Não a parte de escrever. E disse mais. Tinha duas irmãs adolescentes. a parte prática e pragmática da coisa. mas fazia free-lances para vários outros veículos. e de lidar com chefes. E falou. a Abril. supostamente o público-alvo da revista. Em certo momento. o que bastou para que este estourasse e abrisse a torneirinha de indignações. e elas adoravam ler.

eu FUI até Olinda. olhar — olhar o quê. No fim. Andava cheio de idéias. José Márcio deve ter levado um susto.— Minha mãe é professora de História. assistir filmes como Iracema ou O Super-Macho ou A ilha das cangaceiras virgens (descobri que Helena Ramos dá de dez em qualquer Sônia Braga. eu estudei muita História e se a juventude de hoje não sabe nem quem foi Getúlio Vargas é porque não se estuda mais História. Estressava-se. Se esperava notícias do esturricante calor nordestino. percebi que não conhecia vivalma (ai esse português castiço!) na cidade. Aí rodei por lá um dia inteiro. olhar. jornalista mineiro radicado em São Paulo. Caio calou a boca. atravessar Capibaribe. passar o dedo com desgosto em cima do quilo de poeira dos móveis. me deu uma solidão tão grande que. descer rua. na Rua do Hospício —juro! Solucionados os problemas de acomodação. tropeçar em cantador. Ana Matos que me perdoe). sem encontrar lugar pra ficar. de belas praias e malemolências. em retirante. Uma semana depois de suas férias começarem. olhar. Talvez estivesse precisando de umas férias. olhar. louco para dar uns pontapés nas pessoas e dizer umas verdades. e não podia deixá-las morrer só por causa dos trabalhos jornalísticos. A literatura andava meio abandonada há um tempo. idéias ambiciosas. meu deus? Meu caro Garcia de Oliveira. onde me instalei num hotel de oitava: o Suíça Hotel. Logo no início. ele escreve uma carta ao amigo José Márcio Penido. E toca subir rua. cansado. ele concluiria em carta à mãe. menos de uma . mas não podia. depois de muito suar e gritar. olhando a briga. As férias vieram. comer tapioca. dessa coisa de ganhar a vida. voltar para o hotel. Caio estava nervoso. em que contava o episódio. onde teria a paz necessária para escrever. bonito. todo mundo em volta quieto. lugar calmo. "Afinal. Caio resolveu ir a Olinda. como na fábula do lobo e do cordeiro: contra a força não há argumentos". Caio explica a mudança de planos: "O que aconteceu? Bem. Nada de Olinda: a carta vinha de Porto Alegre mesmo. Acabei indo pra Recife. e ele ia aproveitar o período de folga para retomála.

o que aprender. Zé escreve uma carta triste para ele. Mas essa concepção era fruto da cabeça romântica de Caio. dúvidas. porque José Márcio. Peguei as lãs e peles e vim pra cá. quando Caio volta a Porto Alegre para mais um período de férias. mas nem disso está tão certo. Não há o que ensinar. o amigo José Márcio Penido também passava por suas próprias crises. Caio. ele e Caio eram muito próximos. Ele está deprimido. Caio a chamaria sempre de Ana Matos por causa do personagem Júlia Matos. ninguém absolutamente que se importasse com ele. Ao final do ano. Caio pegou uma gripe violentíssima — resultado da mudança brusca de temperatura. Cita um poeta: "Caminante. " (Ana Matos era Ana Braga. José Márcio de Cambuquira. a família tinha se mudado para Belo Horizonte. foi procurar suprir essas carências na cidade mais que conhecida. na verdade. a situação era diferente da de Caio." Fala da dor que é escrever. Pero se hace camino ai andar. a amada e odiada Porto Alegre. ele diz querer escrever. Passei uma noite lá. arrumei tudo e voltei pra Sampa. Ele cresceu com asfalto nas veias. a cabeça de Caio não está legal. irmã da Sônia Braga. depois disso. Saiu do Recife porque não havia ninguém lá. da dor que precisa ser mexida e remexida. só morara em Cambuquira até os três anos de idade. entre outros questionamentos. Caio achava que se entendiam porque eram ambos de cidades do interior: ele de Santiago. Mais que a doença física. no hay caminos. Em São Paulo. mas nem lá as coisas pareciam melhores. cheia de interrogações. amiga de Caio e de José Márcio Penido. Caio volta à vida de jornalista em São Paulo. Nordeste a 30 graus e Rio Grande a 2 graus negativos. interpretado por Sônia em Dancin Days. de volta da praia. responde como pode. que tinha morado em Santiago até ficar adolescente. Sente-se solitário. o mineiro funcionava como uma "referência viva" de São Paulo para o gaúcho. e visitava a cidade sempre que podia.) Em Porto Alegre. Depois das férias.semana depois. Na época. do .

mergulhado nas palavras. nenhuma pitanga madura. Corre um pouco: três. Às dez da manhã. Então. Era um paradoxo: Caio não estava ensinando ninguém. dedicado a José Márcio Penido e que daria título ao próximo livro de Caio: o conto Morangos mofados: Na parede a natureza-morta com secas uvas brancas.quanto é preciso sangrar se se quiser produzir algo bom. passeia um pouco. " São sete da manhã. A vocação para guru. na época na Brasiliense. Um morango mofado — e esse gosto. "A única recompensa é aquilo que Laing diz que é a única coisa que pode nos salvar da loucura. às vezes falando sozinho. sua maneira de encarar a arte com seriedade. mas as pessoas aprendiam com ele. O dia todo submerso. para poder terminá-lo. nenhuma manga molhada. Essa expressão ê fundamental na minha vida. que come com calma. até que Luiz Schwarcz. estava em Caio. nenhum morango sangrento. macilentas maçãs verdes. vai à praia. onde trabalhava. . descansa um pouco. enquanto terminava de escrever o livro. somente então. Depois da refeição. na gaveta. da auto-anulação: um sentimento de glória interior. e ele não podia fugir dela. E o resultado dessa jornada é um texto. um belo texto. essa situação atingiu seu auge. Caio acorda. Caio já era. senhor. sempre presente em minha boca? Antes da publicação de Morangos mofados. E depois de pronto. Está na hora de cozinhar o arroz. de certa forma. do suicídio. Em 1981. o danado ainda custou a sair: ficou dois anos na Nova Fronteira. quatro quilômetros. Aprendiam sua maneira de ver o mundo. e de transformar grandes dores em grandes textos. interveio: se o contrato fosse cancelado. Com Morangos mofados. embora involuntária. volta para casa. começará a escrever. de forma espiritual e ao mesmo tempo intensa. Nenhuma melancia escancarada. Caio pediu demissão da Nova. Faz mais alguns exercícios. peras pálidas. considerado um guru de sua geração.

Sargento Garcia. Sim. não toma essa posição. 0 gosto mofado de morangos tinha desaparecido. que finalmente o lançou. era hora de olhar para trás e rever o momento que passara. Sim. apesar das ilusões perdidas. Tinha cinco anos mais que trinta. e tomar uma posição a respeito dele. num giro de cento e oitenta graus sobre os próprios pés. aquele escrito na praia. termina com uma esperança. Apesar dos pesares. Morangos mofados. E agora que uma nova década começava. é hora de começar de novo: Poderia talvez ser internado no próximo minuto. mas era realmente um pouco assim como se ouvisse as notas iniciais de A sagração da primavera. que vira a revolução acabar antes mesmo de ter qualquer chance de dar certo. o último conto. Achava que sim. em 1982. em seu livro. Caio pediu para rasgar o contrato e entregou o texto à Brasiliense. procurar algum lugar em outro lugar? Frescos morangos vivos vermelhos. Um dos contos mais marcantes do livro.em um mês ele publicaria o livro. é um atestado de que o mundo pode dar certo. deixa apenas fotografadas. Absolutamente calmo. por mais melancólico. supondo que setenta fosse sua conta. o livro virou clássico instantâneo: oito edições tiradas em seqüência. por mais triste. Como uma dor de cabeça. teria sido inspirado na primeira experiência . Ele deixa as coisas em aberto. observando os canteiros de cimento: será possível plantar morangos aqui? Ou se não aqui. as emoções de uma época. entre caminhadas ao sol e porções de arroz integral. Que sim. de repente. as mãos postas sobre o sexo. Mas era um homem recém-nascido quando voltou-se devagar. no ar. Publicado. Mas seu livro. absolutamente só enquanto considerava atento. absolutamente claro. E sempre aquele rótulo ajudando o livro a vender: o retrato de uma geração. Caio. sucesso de vendas e de crítica. para deslizar as costas pela sacada até ficar de joelhos sobre os ladrilhos escuros. Abriu os dedos. Estava na metade. do desencanto de uma geração.

porque devia ficar enjaulada amordaçada ali no fundo pantanoso de mim. o sargento Hermes. como uma língua estrangeira. "Me fez segurar o pau dele e eu saí correndo". alguém gritando alguma coisa. porém. travesti de Porto Alegre que mantinha uma casa de prostituição. Mesmo sem saber direito o que iria acontecer. para sempre e sempre assim. sem conseguir juntar os sons em palavras. é possível que o lugar a que o escritor se refere seja a casa dela. Caio foi. o escolhido para viver o sargento seria o ator Marcos Breda. num domingo à noite. O homem o levou a um lugar horrível. completamente sem romantismo". o vidro rachado. ou dolorida: . uma vez desperta. que nenhum ofuscamento se fizesse outra vez.. o portão azul. A revelação. Quando Tutti Gregianin decidiu filmar o conto. a mulher que aparece no conto. nojento. e Isadora. como os reflexos escondidos. não voltaria a dormir.] barulho de copos na cozinha. ele foi seguido por um homem. a madeira descascada da porta. nada tem de perigosa. conta Caio. em 1995.homossexual de Caio. No conto. Caio transforma o tal homem em um sargento. tentando apanhar um farrapo de voz na plataforma da estação cada vez mais recuada. entre grades e ferrugens quieta domada fera esquecida da própria ferocidade. porém. O conto traz em si a história dessa descoberta: [. em Porto Alegre. em 1998. tão longe como se eu estivesse na janela de um trem em movimento. feito bicho numa jaula fedida. morrendo de curiosidade. "Me jogou em cima da cama. mas longe. Como o conto é dedicado à Luiza Felpuda. Ao menos foi isso que ele contou em entrevista à Marie Claire. os quatro degraus de cimento. no centro da cidade.. Quando tinha 16 anos. com lençóis sujos e um rolo de papel higiênico na cabeceira. Embora eu soubesse que. que não devia abrir os olhos nem sentir cheiros para sempre surda cega muda naquele mais de dentro de mim. como uma língua molhada nervosa entrando rápida pelo mais secreto de mim para acordar alguma coisa que não devia acordar nunca. O tal puxou papo com ele e marcou encontro para três dias depois. a própria Luiza.

Em 1980. ela é que chamava. Tinham se conhecido no início da década de 80. Caio dava um grito do quintal. que tem horror às rodinhas literárias. Caio circula bastante por essa época. As vezes. amiga de tempos antigos. vieram morar Orlando Bernardes. a libertação. como escritor respeitado. repeti sem entender. Cida ia bastante a Porto Alegre nos anos 70. uma forma de viver. ao ficar fascinada com o conto Eles. Pedi passagem. Eu nunca o tinha visto em toda a minha vida. fã de Caio. Embora paulista. ainda que maldita: Queria dançar sobre os canteiros. Às vezes. Como guru involuntário de uma geração e. quando ela. O que é descoberto é um caminho. decidi. Porque ninguém esquece uma mulher como Isadora. Embora diga aos amigos que prefere se resguardar. Era assim. Ela era uma garota jovem. meu caminho não cabe nos trilhos de um bonde.ela traz. De seu quintal. Uma vez desperta não voltará a dormir. Escritores. cheio de uma alegria tão maldita que os passantes jamais compreenderiam. podia enxergar o apartamento de Cida Moreira. olhando as casas e os verdes do Bonfim. todos querem ser seus amigos. Na casinha da Melo Alves. na verdade. escrevera uma carta e entregara junto com . mudando de emprego e de casa como quem troca de par de meia. sucesso de crítica e público. Caio fora morar numa casinha de vila na Melo Alves. qualquer coisa assim. Meu caminho. sem esperar que parasse. Em São Paulo. chamando Cida para almoçar. por causa do relacionamento que mantinha com uma pessoa de lá. Subi correndo no primeiro bonde. também. sentei. amanhã sem falta começo a fumar. de O ovo apunhalado. sem saber para onde ia. Ele já rodava bastante antes mesmo do livro sair. Amanhã. por exemplo. e depois Jacquéline Cantore. artistas. então. Morangos mofados consagra Caio. atores. cantora. pensei confuso. estiquei as pernas. ou bater papo. Ficou sozinho por um tempo. E ninguém me conhecia. 0 bonde guinchou na curva. Eu não o conhecia. Mas não sentia nada. debruçado na janela aberta.

As tentativas de suicídio de Caio nunca foram levadas muito a sério por seus amigos mais antigos. então. do teatro que Caio montava ao redor de si mesmo. Ficaram um ano e meio na casa. Caio não chegava perto do volante. muito menos. o pai o deixava dirigir seu carro de vez em quando. sempre que tivesse platéia. fizera dois anos de psicoterapia com Mário Bertoni. teatralmente. Em novembro de 1981. suplemento literário publicado pela editora Brasiliense. ou caminhar. . Em São Paulo. então. Intensamente.um presente na casa dos pais de Caio. Caio ficou muito abalado. chamavam o lugar de O Inconsciente. Caio retomou a psicoterapia. talvez. em Santiago do Boqueirão. que adoravam. pois foi exatamente no final de 1977 que ele voltou para o Sudeste para trabalhar na POP. quando podia pagá-los. Ele ligou para agradecer e desde então começaram a se corresponder e ficaram amigos. Talvez essa perda tenha apressado a ida de Caio para São Paulo. em Porto Alegre. e fazia o que podia para se sentir bem. Gostava de dançar. Caio preferia táxis. Não que ele gostasse de estar deprimido. Mas era assim que ele gostava de viver. guardavam cartas. E isso muitas vezes o levava àquelas depressões intermináveis. Ônibus. Mesmo a moto. Caio. por causa disso. Em São Paulo. da cena. aprontava: ameaçava se matar. Em Porto Alegre. e depois a substituiu por dança. Chegou a aprender. Embaixo da escada. inteiro. Mas. ou mais íntimos: era parte do show. As aulas ajudavam-no a sobreviver. Na época da casa da Melo Alves. em Porto Alegre. Ele não dirigia carros. Caio então é chamado para substituí-lo e aceita. Só que em 1977 Bertoni morreu em um acidente de carro. Uma verdadeira drama queen. ele odiava. Caio tinha também uma moto. porém. e ele sempre se frustrava. Caio Túlio Costa sai da edição do Leia livros. papéis. jornais. Ele sofria muito. ficava muito tempo sem ser utilizada. se trancava no quarto dias e dias. e é claro que suas idealizações iam muito além da realidade. às vezes. O escritor criava expectativas em torno das pessoas e das situações. se sentia bem.

Ana era bela. que por sua vez era grande amiga de Caio. belíssima. Mesmo assim. Nessa época. Caio decide se mudar para o Rio de Janeiro. aos 31 anos. e quer repertir a dose. que não só saiu da editora. e é um sucesso. Ela era muito amiga de Graça Medeiros. para estar perto. grande ensaísta e poeta. . Seu livro A teus pés foi um sucesso. Uma vez nelas. Em maio de 1983. quando o livro estoura. Pede a Caio: — Ei. vê ali um nicho interessante. da Brasiliense. ele podia — e devia — voltar ao trabalho jornalístico. Tão ofendido ficou. uma vez longe delas. ele tentou. como escreveu um livro totalmente diferente de Morangos mofados. passou a ser uma maldição. Imagina se ele ia se entregar desse jeito ao mercado. mas não conseguia morar lá por muito tempo. ele amava. sentia falta de tudo — dos amigos.Morangos mofados já estava terminado. Caio conta que. drogas e rock'n'roll. estavam interessadas no personagem Ana C. A beleza. o livro que pouca gente entendeu. mais que interessadas nos poemas. na deusa. e assim o círculo se completou. Ana Cristina está deprimida. Caio se muda para o Rio para ajudar a cuidar. por que você não escreve outro livro na linha sexo. Mas ainda é maio. mais uma vez. das coisas a se fazer. Em entrevista ao Estadão. Caio ficou ofendidíssimo. Ele tinha essa relação de amor e ódio. violentíssima. na beldade. sabendo que a situação de Ana é delicada. que sabia o quanto era sedutora. São Paulo estava cansando. Caio Graco. Além de muito culta. E esse pode ter sido um dos motivos que contribuíram para a depressão. ou de ódio e dependência. que a levou a se jogar da janela de seu quarto em outubro de 1983. não as suportava. Graça cuida dela. Era o Triângulo das águas. Todos se deixavam hipnotizar por ela. das folhas dos plátanos. da qual Ana era muito consciente. O Rio de Janeiro. com São Paulo e Porto Alegre. Caio estava muito próximo da poeta Ana Cristina César. de novo. mas as pessoas.

relatado por Caio em carta a Jacqueline Cantore.. Caio às vezes gostava de falar. Com toda minha gripe. Caio vai à festa. come uma costela gorda. a situação entre os dois não era sempre um soneto de amor e paz. por mais natural e integral e macrobiótico que Caio pudesse tentar ser. . certo dia. no hotel em Santa Teresa que Caio escolhe como moradia — um hotelzinho hippie. somos mais por uma terapia bageense. zombando de si mesmo: — Fala grosso. eu era um poço de saúde ao lado dela. por vezes.. prenda. Se houvesse um whisky pra completar. consumida. ia mais ou menos nessa linha: ". dá pra entender? Recomendei uma brahma na esquina com uma coxinha e um dreherpra rebater. Põe mal nisso. mas troppo morbo. Não sei contar direito. melhor ainda. Há pelo menos um outro. E esse não seria o único estremecimento entre os dois. Nunca vi ninguém tão frágil. dança uma chula. mas é bem possível. e em seguida passa-lhe uma descompostura. tipo te fresqueia. Imagina uma alface (ela) ao lado de uma costela gorda (eu). ele adorava um bom churrasco. Ainda que amasse muito Ana Cristina.." A terapia Fala Grosso Veado. Magra. em crise. têm uma idéia de terapia para Ana C. E lúcida. trêmula. Something like that.] Parece Isabelle Adjani em Nosferatu. naturalmente. MAL. é algo a se conjecturar. Porque tá uma crise sensível demais. Ele descreve o encontro em carta a Jacqueline Cantore. onde moraram Rita Lee e Raul Seixas. linda. Caio se irritava. Era aniversário de Ana Cristina." Caio e Graça Medeiros conversam. e estivesse no Rio em parte para ajudar a cuidar dela. veado! E a terapia que ele imaginava para Ana C. corre uma história em que ela. Se ele a usava para sair de suas próprias depressões. toma uns mates. sempre irônico. ameaça se jogar da janela. te joga nua no açude na hora da sesta. chorosa. depois que começa a ser sugada. "Ana C.. uma tirana do lenço. Caio a segura. como os amigos sabiam.Ana vai visitá-lo.[. com as depressões de Ana.

T. mas vou mesmo. — Sinto muito. Graça Medeiros leva Ana até o hotel em Santa Teresa. o Caio. Três horas de conversa.. As pessoas em volta olham. Outras pessoas aparecem no hotel. para ver se os dois voltam a se entender. amigos do Rio. Caio engata uma conversa animadíssima com o tal T. Não se importando muito com a longevidade da relação. desconfiadas.: — T. Não é a última vez que os dois se vêem. No ouvido de Caio. só isso. retire-se imediatamente. está na festa com o namorado. No aniversário de Caio. A situação se ameniza. T. Caio vai ao banheiro. — Não vá a esse encontro.. — O que está acontecendo entre você e T. — Então tchau e feliz aniversário. há QUATRO anos? — Sei. — Me permite um conselho? — Pode ser. sem ressentimentos. De repente chega L. Como a atriz Kate Lyra. Ana Cristina vem falar com ele. vamos embora? Eu não estou gostando nada disso — disso sendo. no livro de cartas. com quem vive há quatro anos. obviamente.onde conhece um rapaz — identificado apenas pela inicial T. em setembro. — Você sabe que ele vive com L. ele me disse. — Então. que ficou famosa em programas humorísticos na TV pelo bordão "Brasileiro é tão bonzinho!". — Estou. Além de Graça e Ana. Caio tem muitos amigos no Rio. na época esposa do compositor Carlos Lyra. Ela achava o máximo que ele tivesse se mudado para um hotel para . por favor. — Vocês vão se ver mais? — Marcamos um encontro amanhã. Na volta. L. É o último encontro dos dois..? — Achei ele ótimo. se despede com uma bomba: "te encontro amanhã às quatro no Amarelinho". — Você está me expulsando.

Proust também. achava muito fútil todo aquele ambiente de coluna social. Mais que editor. e ele adorava o jeito dela. companheiro de Pedro Paulo. Flaubert. Tanto que Mário Prata e Caio. Conversavam de literatura — o lado pop escondia a conhecimento profundo que Caio tinha dos clássicos. que vinha de família tradicional e endinheirada. que conhecera o escritor por indicação de Lygia Fagundes Telles. Maru. Machado de Assis. Ficaram amigos imediatamente. Madame Bovary era frívola. este respondeu: — Caio. Outra amizade importante é o editor Pedro Paulo de Sena Madureira. Ele gostava de criticar os amigos que começavam a ganhar dinheiro: dizia que tinham se vendido ao sistema capitalista. a mesma falta de cisão que havia em sua própria personalidade: a biografia de Caio não era separada da obra. governanta. mas a amizade perdurou. entre outras coisas. e. praticamente da família. criaram um papel só para ela. Era louco por D. engraçado. Não era futilidade. Um dos aspectos do ambiente que permitira que Pedro Paulo. No caso de Pedro Paulo. o próprio. além de linda. organizadíssimo. ele e seu texto eram uma coisa só. A novela acabou não se concretizando. editou os livros de Caio na Nova Fronteira.escrever. de alta sociedade. quando foram chamados para escrever uma novela com José Wilker. Pedro Paulo. porém. que ao saber da visita do escritor já preparava o conhaquinho que ele adorava. Havia muitas afinidades entre os dois. de uma cantora de rock russa. E é claro que o editor não levava . E Pedro Paulo. Caio não inventou um personagem. adquirisse tanta cultura. que nunca tinha dado grande atenção aos beatniks. era amigo de Caio. se interessava por filosofia. espontâneo. começou a lê-los por causa do Caio. Kate era inteligente. e Caio adorava visitar Pedro Paulo em seu apartamento no Leme. via nele a mesma unicidade. Em uma das ocasiões que questionou esse lado de Pedro Paulo. era frivolidade. Proust. que adorava ironizar a origem do amigo. é claro. por literatura. nem parece que você leu Proust. Aí Caio entendeu. Stendhal. Adorava também Carlos Henrique.

por exemplo. como é que não tem título? Chove nas três histórias. a situação melhorou: o livro ganhou o Prêmio Jabuti. além de prestígio. são contos. O marinheiro. Só faltava o título. e no Triângulo. é uma escolha de Caio: ele busca esse jorro de água. sobre os arquétipos dos três signos do elemento água. o livro estava pronto.a sério toda aquela mise-en-scène. — São três? Triângulo. Um título estava pronto. mas como ainda não havia. O triângulo das águas difere em tudo de Morangos mofados. São três signos de água. A primeira novela. em contraste com os contos mais diretos de Morangos. Caio era um escritor que não dava trabalho aos editores: entregava o texto praticamente pronto. sabia o que estava fazendo. um dos mais prestigiados do país. ele ficou mais que feliz com sua estatueta. Dodecaedro. na época. Hoje em dia. confere uma quantia em dinheiro aos ganhadores. Dodecaedro. Tinha grande domínio e preocupação com a forma. Levou o material para Pedro Paulo. o prêmio. que disse: — Caio. Por todas essas diferenças. até por ser um livro construído sobre uma estrutura astrológica. Caio teria ficado muito feliz em receber uma quantia assim. a começar pelo tipo de texto. O excesso de palavras do livro. Mas assim que o livro foi sendo absorvido. se refere ao signo de Peixes. Morangos tem um realismo que as novelas do Triângulo não buscam. a segunda. três novelas. em Morangos. O triângulo das águas causou estranheza. a Escorpião. — São os textos das águas — emendou Caio. — Triângulo das águas — completou Caio. narra a . esse fluxo de palavras. A primeira das três novelas. Pela noite. e as comparações com Morangos sendo deixadas de lado. Quando Caio entregou O triângulo das águas. A terceira. a Câncer.

[. enquanto Santiago. solitário. para fugir das dores e paixões do mundo. uma mensagem. através da vida do homem que decidiu se encerrar em casa.história de doze amigos juntos em uma casa. A segunda novela. por causa de um personagem de Cortázar. esse vagar. Combinam de se ver de novo. durante todos os dias de muitos meses e anos. na novela Pela noite. Seus olhos tinham a cor do mar. em que ele é Pérsio. Dois amigos de infância. e as emoções que atravessam em determinada noite: as paixões e tendências e medos de cada um vão se desvendando aos poucos. O triângulo das águas foi também o primeiro livro de Caio a mencionar a aids. Tocou de leve na minha mão estendida. e que em certo dia recebe a visita de um marinheiro. aborda também o tema da solidão. Ele vive uma tumultuada vida amorosa. todas as horas. mesmo cercado de amigos. que vem como um profeta. e o outro é Santiago.. enquanto ouvia. Conquistara esse verde.] Não estava triste. vindos do Passo da Guanxuma — muito parecida com Santiago. depois de ter sido noivo de uma mulher por seis anos. O marinheiro. foi para São . sem parceiro fixo. também. o aviso guardado para sempre na memória das paredes: — Abraça tua loucura. como a Macondo de Garcia Márquez — se reencontram anos e anos depois. em uma sauna gay. Pérsio fala e fala. o ser humano está sempre sozinho. imóvel. inquieto. suas palavras jorram incessantemente. suas inseguranças. E provavelmente foi também o primeiro texto de um autor brasileiro a falar da doença. era a cidade fictícia a que Caio sempre se referia. olhou detidamente o mar.. mesmo assim recomecei a chorar. um jogo em que eles assumem outras identidades. revelando suas culpas. Tinham a cor exata de quem. O dono do apartamento onde ocorre o encontro arma um jogo de sedução. em São Paulo. por causa do personagem de Garcia Márquez. E se foi. conta-se como. E ao contar-se a história de cada um. antes que seja tarde demais. para lhe trazer a boa nova. outra vez. seus medos. por muito tempo.

as drogas. Como a única coisa em comum que as primeiras vítimas tinham era o fato de serem homossexuais. Aqueles que tinham experimentado o amor livre. A aids parecia castigo divino.Paulo e ficou dez anos junto de um homem. Cheio de culpas e medos. e sobre como ele agia no organismo. e talvez a inveje. suspense derivado. o estrago já estava feito. ninguém podendo entrar nem sair do hotel. duas ou três vezes. aos drogados. embora ainda envoltas em suspense. Caio estava no hotelzinho em Santa Teresa. A vida do pessoal egresso da contracultura estava mudada para sempre. a década de 70 chegava. ele não a entende. E no Brasil. Três anos depois de acabar. a aids. uma doença devastadora que só atingia homossexuais. ao seu final. Ele e outros hóspedes ficavam bebendo e conversando. mas também pela abertura política e pelo desvanecimento dos sonhos da contracultura. realmente. E contaminados estavam todos. a partir do momento em que se diagnosticou o vírus. Essa estabilidade. começou-se a achar que a doença tinha algo a ver com esse "comportamento" ou com essa "identidade" homossexual. lamentando a morte do estilista. tudo a que tinham direito. a todos que levavam uma vida libertária. Quando mais pesquisas foram feitas e se descobriu que a contaminação também podia atingir heterossexuais. pelo medo. a paranóia só aumentou. a vida em comunidades. Pérsio não a tem. . uma chuva abundante caindo. essa tranqüilidade em lidar com a própria identidade sexual. estavam agora condenados a viver sob a paranóia da contaminação. já se ouviam rumores sobre o que a mídia passou a chamar de "câncer gay". Desde o início da década de 80. A partir daí. castigo aos gays. Quando soube da morte dele. na verdade. de certa forma. marcada não só pela doença. As notícias chegavam rápido ao Brasil. para a qual não havia cura. da ignorância: pouco se sabia sobre as formas de contágio. o marco da chegada da aids foi a morte do estilista Markito. é ele que menciona. sobre o vírus causador da doença.

Cazuza. por exemplo. do fim da década de 70. porém. que volta do exílio exibindo sunga de crochê nas praias do Rio. Como se Ana não aceitasse. A feira.Em seu perfil de Ana Cristina César. para algumas pessoas. Caio também escolheu mudar. Além de reunir muitos escritores. que vão lançar suas obras e autografá-las para o público. e Caio foi a Porto Alegre lançá-lo na Feira do Livro. parecido com Jesus Cristo. congelando sua Imagem nos doces anos em que se podia pensar em mudar o mundo. e um orgulho de seus habitantes. Estava ligado no seu tempo. é a grande oportunidade de comprar livros a preços mais baixos que no resto do ano. o escritor assemelhava-se mais a um punk. Infelizmente. ítalo Moriconi escreveu que a morte de Ana foi um marco. Há muito já não era o hippie de cabelos longos. Em outubro de 1983. A maioria escolheu mudar. e todos os anos a escolha do patrono da feira causa grande expectativa na imprensa e nos círculos literários locais. O sangue de uma poeta. também. Porque era mais ou menos isso: mudar ou morrer. o medo dela era tão parte dos anos 80 quanto qualquer música da Legião Urbana. como Fernando Gabeira. a música. dos Titãs. nos novos acontecimentos. A escritora Clarice Lispector o chamara de Quixote. ela ficava sussurrando para ele: você é Quixote! Você é Quixote! Agora. Muitas editoras organizam seus lançamentos em função do evento em Porto Alegre. E do grupo teatral Asdrúbal Trouxe o Trombone. Acompanhava o teatro. roupas sempre escuras. Era fã. madrinha da noite. calça e jaquetas de couro. O triângulo das águas já tinha sido publicado. por exemplo. Ele viveu os anos 80 com a mesma intensidade com que vivera os 70. ou a um dark. em barracas ao ar livre na praça. Ao lado de Caio no lançamento de um de seus livros. . é uma tradição em Porto Alegre. era entusiasta das novas manifestações. ou não pudesse aceitar a mudança. havia a aids. ela se matou. por causa de sua barbinha. Adorava Marina Lima.

— Bruna. Ao menos na versão que Caio contou para o jornalista Eduardo Sterzi. mas quem? Os amigos em comum com Ana Cristina estavam todos no Rio. mágica". no sétimo andar. dos quais Caio gostara muito. O estado emocional de Ana. ele diria ainda. ele parecia ser meio bruxo. quando se trata de histórias envolvendo o Caio. Então Caio se lembrou de Bruna Lombardi. passear. "Tinha um toldo. e aquela coisa estranha no ar. a dor que ela sentia. na entrevista.Um dia depois de lançado o livro. Mas talvez Caio não imaginasse que a poeta chegaria ao ponto extremo da dor. Às vezes. meio mago. e o Mario Quintana lindo. Caio resolveu procurar Bruna. levava-a para sair. Ele conhecia . mas. Precisava dividir o sentimento com alguém. ao mesmo tempo. o jornalista José Castello viajaria para a Europa no mesmo avião de Caio. Sempre que Caio estava em Porto Alegre e ela aparecia na cidade. chorou convulsivamente. eu vim aqui te contar que a Ana se matou. feita na semana anterior. A atriz tinha escrito alguns livros. você tem que ler esse livro' — e puxou da bolsa um exemplar de A teus pés. Bruna abriu a bolsa e disse: — Olha que estranho: quando eu estava saindo de casa para pegar o avião. A "mágica" da lembrança não aparece aqui por acaso. e a Bruna linda. meio mágico. Talvez não imaginasse que ela conseguiria. a presença de um toque estranho. quando o próprio Caio viria a ser o patrono da Feira do Livro. pela ingestão de remédios. e desde então tinham se tornado grandes amigos. ao gesto máximo do desespero. Não é incomum. todo mundo transpirando. que o entrevistaria anos depois. E assim a notícia foi dada a Bruna. de coincidências inexplicáveis. Quando o viu. Caio ficou desnorteado. que estava na feira acompanhando Mario Quintana. De qualquer modo. jantar. o livro de poemas de Ana C. você me veio na cabeça dizendo 'Bruna. Nos anos 90. Caio chorou. E uma lembrança triste. Caio recebe um telefonema: Ana Cristina César está morta. ele a buscava no aeroporto. não era surpresa para ninguém. Jogou-se da janela da casa dos pais. onde se recuperava de outra tentativa de suicídio.

de Rimbaud. E foi esse lado que. como os góticos. se alojava em seu lado escuro. de certa forma. Ficou apenas observando. e assim se desculpava antecipadamente por eventuais mentiras ou fantasias. com tanto ódio quanto freqüência. Ecos de Edgar Allan Poe e sua literatura sombria. certa raiva. E se apaixonou. calava fundo em Caio. era uma obsessão. Por mais que ele insistisse na vida. suas macrobióticas. Uma verdade incontestável. coisa que pouca gente tem. Quando ela morreu. Tímido incurável. em seus incensos. enquanto Caio botava o taro para as garotas sentadas a seu lado. desde o começo. Talvez herança do romantismo." A imagem da morte perseguia Caio. que tinha uma arma para sobreviver — a literatura —. ou mesmo de outros autores. parada à beira de uma janela. junto com o amor. Essa idéia de morte romântica. muito misterioso. A medida que o tempo passa. ele escreveu a Jacqueline: "E não conseguir dormir: na minha cabeça. negra. poetas amados por Caio. que tanto apelo tem junto a certos tribos urbanas. Dizia-se um hedonista. apenas para passar em frente ao escritor e poder dar uma boa olhada nele. e ao banheiro mais distante da sua poltrona. pela aids. com que direito ela fez isso? Logo ela. havia um lado seu que era obcecado pela morte. depois amigos de amigos. Castello não se atreveu a cumprimentar Caio. que o interessava. Deus. no entanto. Castello ficou fascinado pela figura do escritor: parecia um mago. também. que o tocava profundamente. é que a morte de Ana Cristina foi um fantasma que o perseguiu por muitos anos. por fim os . se atormentou pelo fantasma de Ana C. Caio falava e falava nela. Depois do choque. Com que direito. Nem sempre é possível separar suas versões da verdade. a obsessão fica mais forte: pessoas de quem só ouvimos falar começam a morrer.o escritor de vista. para quem a morte foi sempre o grande tema. Ana C. poetas malditos. algo que o inquietava. mas ia ao banheiro com freqüência. da poesia de Baudelaire. Um bruxo. Pensamentos mórbidos: o que ela teria sentido um segundo antes de se jogar no espaço. o Caio.

Chegou a sustentar três ou quatro casos ao mesmo tempo. e se revolta contra ela. A beira dos 35 anos.Também porque aconteceu uma coisa que. as pessoas com quem dividimos casa e comida. se aproximando. era ator. Caio chegou a namorar sério . ". e tinha uns olhos que mudavam de cor. loucamente apaixonado. Porque quem ele queria gostava de homens também. Ele se apaixonava muito. e por isso às vezes acabava escolhendo algum que não era homossexual. fala sobre ela. eu pensava que não existia. Algo assim. Porque quem ele queria gostava de homens. e Caio estava perdidamente apaixonado. Caio sente essa sombra se aproximando. eu estava certo de que não existia. mas não queria compromisso sério. Atendia pelo nome de Ivan Mattos. como um ladrão.] Eu pensava que não existia.. Por várias pessoas ao mesmo tempo. Gays mais espalhafatosos. Sofria de rejeição. Touro ascendente Capricórnio. Sofria de paixão. ao se apaixonar. Porque tudo que vivi e senti antes me parece agora bobagem. não era para mim". começam a ficar doentes. Imagino que isso que chamamos de amor. ronda. [. em graus de comprometimento variados. Ou que. em geral não muito alto — o que não quer dizer que não estivesse perdidamente. além de lançar seu O triângulo das águas na feira do livro. Caio sofria. muitas vezes — porque quem ele queria não o queria. escreve a Maria Adelaide Amaral. Caio preferia os homens mais másculos.. na noite. sim. a única coisa que não pode fazer é ignorá-la. como Deus. brincadeira. esperando o momento certo de entrar na casa. Havia mulheres. sofria de amor. mas só de vez em quando. mas para ficar. E mulheres. gays mais sóbrios. O motivo tinha vinte e poucos anos de idade. Caio tinha um motivo a mais para ir a Porto Alegre em outubro. e sempre. às vezes. A doença espreita. a odeia. se existia.próprios amigos. o motivo. mais viris. sofria. para se divertir. Não que Caio não se apaixonasse muito antes de conhecer Ivan. Há quem diga que.... Caio ficava com vários tipos de caras. Porque quem ele escolhia só gostava de mulheres.

contou o escritor. Houve mulheres. sempre construindo castelos em cima de nuvens. Uma amiga veio até sua casa num domingo chuvoso." Em muitas entrevistas. em que o protagonista vai até a casa de alguém. paixão que aconteceu mais por carta que pessoalmente. ansioso. "Foi ótimo. Maria Clara Jorge. Ele tinha 19 anos. que a apresentou ao escritor. pensara em se casar e ter filhos. a Cacaia. debaixo de chuva. inclusive. Houve uma arquiteta. em 1995. Caio sempre repetiu que não acreditava em homossexualidade OU heterossexualidade: acreditava. cujo apelido era Pifa. Houve Maria Emilia Bender. são dedicados a alguém. Pessoas se apaixonam por pessoas. ele dedica o livro Morangos mofados. e solidão. Caio vivia seu caso com Cacaia. houve algumas mulheres de quem gostou. levando cigarros e conhaque. Na época em que escreveu Morangos mofados. Ele chega. já morava em São Paulo. isso sim. Houve também Vera Antoun. ou simplesmente uma forma de expressar carinho. Esse tipo de homenagem era constante na literatura de Caio: todos os seus livros. de Morangos mofados. que sua primeira experiência sexual teria sido com uma mulher. Cacaia era amiga de Graça Medeiros. Um exemplo é o conto Além do ponto. nada mais natural que o livro fosse dedicado também a ela. como ele escreveu em vários textos. ou do amigo com quem viveu fatos muito parecidos. Houve homens. Para uma delas. e bate na porta. Houve paixões. e a maior parte dos seus contos. e com quem o escritor. desde o início dos anos 70 até o final da vida. . não por rótulos. sem que nada no conteúdo do texto justificasse aquela dedicatória específica. "Me jogou na cama e me estuprou". Podia ser uma lembrança da pessoa que o inspirou a escrever a história. mas ela não o deixou falar uma palavra. E decepções.algumas delas. em sexualidade. Caio abriu a porta. Ele contaria em entrevista à Marie Claire. Embora ele tenha tido clara preferência por homens a maior parte da vida.

mas no final as diferenças — de idade. depois do ponto. água de chuva e lama e conhaque no meu corpo sujo gasto exausto batendo feito louco naquela porta que não abria. outra ação. se é que alguma vez o soube. porque é mais ou menos nesse período. de temperamento — venceram. isso tudo não fascinava Ivan. eu só estava parado naquela porta fazia muito tempo. dirigida por Luciano Alabarse. A peça estava sendo encenada dez anos depois de ter sido proibida pela censura dos militares. O jovem ator — na época com vinte anos — participava da montagem da peça Pode ser que seja só o leiteiro lá fora. em que Caio mora no Rio de Janeiro. tudo ficara muito confuso. era tudo um engano. e bati outra vez. de Caio. e tornei a bater. que conhecia desde os tempos em que freqüentava o Centro de Artes Dramáticas (CAD). e o afastava de Caio. nem tentar outra coisa. e continuei batendo sem me importar que as pessoas na rua parassem para olhar. ficou alguns meses com ele. eu quis chamá-lo. se é que ele o teve um dia. e Caio voltou à sua desastrosa vida afetiva de sempre. tão escuro agora que eu não conseguiria nunca mais encontrar o caminho de volta. as depressões de Caio eram um fardo pesado demais a carregar. Os dois se separaram. que ele convive com Cacaia. pelo meio da cidade. E em 1983 a paixão principal — não se pode afirmar que fosse a única. mas o assustava. talvez eu tivesse febre. O lado escuro. em Porto Alegre. os dois se apaixonaram. ele acompanhou a montagem do amigo Luciano. os poços profundos onde ninguém entrava. Ele viajou com o escritor para o Rio.E bati. Foi uma das mais longas relações de Caio de que se tem notícia — durou pouco mais de um ano — e mesmo assim não foi uma relação fácil. por exemplo — é Ivan. mas eu não ia mais indo por dentro da chuva. tremores. Não sem antes pedir de volta a Ivan as . Caio conheceu Ivan. e nas idas de Caio a Porto Alegre. mas tinha esquecido seu nome. outro gesto além de continuar batendo batendo batendo batendo batendo batendo batendo batendo batendo batendo batendo batendo batendo batendo nesta porta que não abre nunca. Para a juventude de Ivan. idéias misturadas. eu continuava batendo e continuava chovendo sem parar.

Entre os atores escolhidos para atuar em Reunião de família. Nas cartas. claro. estava. Caio aproveitou para tentar uma coisa nova em seu trabalho: a adaptação do texto de outra pessoa. às vezes. Cada . de Lya Luft.. Todas tinham grande apreço por ele e respeito por sua obra. pelas similaridades existentes entre seu universo e o de Lya Luft. A adaptação de Caio foi muito bem-sucedida. Caio escrevia três. quatro cartas por dia. de que aquilo pudesse ser usado contra ele de alguma forma. escrito pelos jornalistas Horst Rieck e Kai Hermann. principalmente com a de Hilda. 13 anos. em que ele se expunha muito. O texto era Reunião de família. prostituída. que já dirigira a montagem de O leiteiro. cuja história é contada no livro Eu. assim como outras escritoras de renome. talvez. era discreto. de questionamentos sobre a existência. como Lygia Fagundes Telles e Hilda Hilst. mais solto. como Caio F.. com medo. um universo cheio de brumas. porque assim tinha mais gente com quem trocar correspondência. E ele era compulsivo em relação a escrever cartas: adorava conhecer pessoas novas. drogada. em 1984. Na pequena temporada que passou em Porto Alegre. já sabendo quem seriam os atores de antemão — Luciano os havia escolhido — Caio podia escrever o papel de cada um pensando nas características de cada ator. tímido e arredio. com direção de Luciano Alabarse. muitas vezes. era mais engraçado. de mistérios. Christiane F. um pouco. A literatura de Caio tinha vários pontos em comum com a delas. Assinava. ele e Caio ainda namoravam quando o escritor começa a adaptar a obra. nas cartas. de várias páginas. talvez.apaixonadas cartas que tinha escrito a ele. e eram cartas longas. frágil e aberto que pessoalmente. Lya era amiga de Caio. embora já não estivessem mais juntos quando o texto foi levado ao palco. Caio era sempre muito mais sensível. Ao vivo. mais derramado. que seria levado ao palco no ano seguinte. Ivan. numa referência à adolescente alemã Christiane F.. Ajudou também o fato de que.

todo o lado escuro que. alude a acontecimentos de sua vida. "Encurralado entre o salto pela janela de Ana Cristina César. aos poucos.] Nas noites. a fascinação pela morte. todas as horas a morte rondava.. do receio que teve a princípio.. é a ele que se refere. que poucas vezes tinham a chance de fazer um papel que se ajustasse plenamente às suas características e potencialidades. Decidi trocar este árido Porto pela . No texto. mas a confiança que tinha em Caio venceu. a fuga incompreensível de Carlinhos Hartlieb. [. de volta ao quarto de onde saí para a estrada. no ano seguinte. Embora não cite o nome de Ivan. além de serem uma oportunidade rara para os atores de teatro. era pensada para aquele ator específico. Lígia e Ana C. Mas. Lya ficou mais que feliz com o resultado: "Nos diálogos. sozinho num verão escaldante. embora não fosse o único lado do escritor. a partida súbita de Lígia Averbuck. em muitas coisas. Fala do mergulho que deu numa história de amor tão linda que era como se fosse a primeira. alguns de forma direta. outros em linguagem cifrada. emboscada entre objetos familiares de muitas gerações. no sobrado de meus pais. depois de anos. elogiando o trabalho de Caio. assim." Caio também escreve um pequeno texto para o livreto. Os papéis escritos sob medida. No livrinho que acompanhou a apresentação da peça. nem por isso. e a autorização foi dada. numa cidade deserta. ajudaram no sucesso da peça. mas nossas — minhas e de Caio Fernando Abreu — adquiriam uma nova vida. foram deixando de assombrar. mais expressiva ainda que o livro. Acho que Caio conseguiu uma coisa rara: uma adaptação que me pareceu. uma nova dimensão. deixavam de ser aquelas figuras torturadas que habitavam o livro original. Carlinhos. a vida e a dimensão das figuras de teatro. agora já não unicamente minhas. Nele. há textos de Lya Luft. Ivan alega não ter conseguido suportar. no Menino Deus. Ela fala do medo que tinha de alguém mexer em um texto seu. senti que aquelas personagens. No final. Caio mostra algumas de suas obsessões.fala.

Cheio de culpas e amarguras. Carlinhos viajou para a Praia do Rosa.louca Sampa. sucesso." Os cachinhos do arcanjo são os cachos de Ivan. era Repressão sexual. ainda somos capazes de fazer. quando coordenava o IEL. nem sempre Caio estava 100% feliz com sua sexualidade. autor de Por favor. Um dos donos da Gallery era José Pascowitch. Risco no céu. que Caio leu por essa época. Se a vida amorosa era o desastre de sempre. assumindo minha carajá muito mais paulistana que fronteiriça. Logo depois de gravar seu primeiro disco individual. Descobri dolorido que aquele amor não era especial nem para sempre: trocamos em miúdos pobres as juras de eternidade que. com grupos desconhecidos. house-organ da casa noturna Gallery. Carlinhos Hartlieb era um importante cantor e compositor gaúcho. Lígia Averbuck era a protetora dos escritores gaúchos. o amor que não era para sempre. nas sextasfeiras. irmão de Joyce Pascowitch. E vim à tona com o livro de Marilena Chauí embaixo do braço. que. por acreditarmos em encontros. em Porto Alegre. se tornou um dos veículos mais . fazia uns lances para a Gallery Around. lançara O ovo apunhalado de Caio em plena ditadura. seu corpo foi encontrado na casinha de madeira que construíra. Era a morte. uma das primeiras do local. a morte que ele teve que enfrentar para lidar com os demônios do texto de Lya. No dia 3 de fevereiro de 1984. Enquanto ganhava a vida trabalhando na IstoÉ. com o trabalho de Paula Dip e Antônio Bivar. a profissional estava indo melhor que nunca. E o livro de Marilena Chauí. Nunca se soube exatamente do que ele morreu. Então colei os cabelos eriçados do punk sobre os cachinhos do arcanjo. na época editada por Zuenir Ventura. e que ficou também conhecido por organizar as famosas Rodas de Som: espetáculos à meia-noite. no litoral de Santa Catarina. no Teatro de Arena. Tão juvenis — graças a Deus. Ele chamou a irmã para cuidar da revista. provavelmente. Ela também morreu em 1984.

A Gallery Around faria escola com seu estilo elegante e sofisticado. Caio ganhou várias de amigos ao longo da vida. porque assim eram chamadas em sua infância. já que muitas novas surgiram em seu galinheiro depois da publicação do livro. em 1987. . ligado nas tendências. pequenos enfeites de geladeira. Assim. Caio terminava o roteiro de um longa 35 mm que seria baseado em um conto seu. e tinha no elenco Pedro Wayne. e Caio deu uma força na produção. que ele só conseguia chamar de frangas. que tinha uma paixão também enorme por galinhas — e ovos — e escreveu vários textos a respeito. revelando talentos como Barbara Gancia e José Simão. O filme. teve pré-estréia em Gramado. Mas isso era o ganha-pão. O livro era também uma forma de homenagear Clarice Lispector. E ele se preparava ainda para lançar o livro infantil As frangas. em Santiago. Morangos mofados também estava sendo levado aos palcos. ia melhor ainda. era escrever a continuação das frangas. no teatro Cacilda Becker. que morava na geladeira do Caio. Caio começou como colaborador. o livro deveria se chamar Frangas 2 — a missão. O livro é a história desse galinheiro. homônimo. no Rio de Janeiro. foi dirigido por Sérgio Amon.interessantes da época. Além disso. antes de morrer. da adaptação de Pode ser que seja só o leiteiro lá fora. o filme foi o único brasileiro a concorrer ao 11º Festival de Cinema Gay e Lésbico em San Francisco (EUA). que aos poucos foi inventando personalidades para cada uma delas. A história surgiu da coleção que Caio tinha de galinhas pequeninas. Além do lançamento do Triângulo. e com muita ironia. A parte que interessava. Aqueles dois. As frangas é um livro de que Caio gostava muito. Caio não teve tempo. cada franguinha do livro é baseada em uma franga de verdade. do sucesso pós-Morangos mofados. a literatura. Filmado em Porto Alegre. depois se tornou redator da revista. em 1986. Um dos projetos de Caio. Beto Ruas e Suzana Saldanha. Apaixonado pelas galinhazinhas. Muito premiado. Em uma referência a Rambo.

Com a educação impecável que recebera no Rio Grande do Sul. uma série sobre São Paulo com Bruna Lombardi e Carlos Alberto Riccelli. E revisão de originais para a Brasiliense. em carta a Luiz Arthur Nunes). que faz a música de abertura da série. no momento. ao mesmo tempo. Detalhe singelo. se a pessoa fosse interessante. Caio tinha o português ótimo e era um grande revisor. Caio. Vai morar em uma casa alugada do ator Ricardo Blat. bêbado. travesti paulista. diz. diz Caio. com uma roseira no pátio. em uma ocasião. Ele agora quer ficar ali por um bom tempo. Caio volta a São Paulo. Assim. Os dois chegam a sair juntos. Ele a conheceu na noite e adorava conversar com ela sobre a vida. sempre fã de Caetano. de concluir essa história. Além do trabalho com a TV. mas não pouco importante: Caio era apaixonado por rosas. convidando os leitores a assistir ao seu show. Nos jornais. Ela faz a série Joana. já um pouco esquecido da loucura que é viver na cidade. Caio está envolvido agora com alguns projetos para televisão. Caio faz uns free-lances de crítica teatral para a IstoÉ. Está cercado de estrelas. Quando começou a escrever crônicas para o Estadão. agora convive com pessoas que o conhecem. . não importava se era famosa ou não. e do fim da relação com Ivan. Caio era amigo de Regina Duarte e Lygia Fagundes Telles. diretores. Na casa nova. Um dos livros que revisou foi Feliz ano velho. Caio chegou a falar de Claudia e seu trabalho. de quem se aproxima nessa época. analisado e blasé". adorava Claudia Wonder. Apesar de tudo. Trabalha em um roteiro para Ronda. Nas editoras. uma bela casa de dois quartos. tenta se manter mais reservado. escritores.entretanto. era bom copidesque. Era apaixonado por jardins e flores. vão a um show de Caetano Veloso ("lindo. não quer virar "moda besta". Depois da morte de Ana C. revisava livros. duas mulheres respeitadas e famosas. que manteria anos depois uma coluna na revista G Magazine. atrizes. começa a trabalhar. Faz também dois roteiros para Regina Duarte. decadentíssimo. Ele não se deslumbra com as estrelas que estão a seu lado.

quer mexer no texto. que já lançara anteriormente o livro pela Salamandra. atualizá-lo. um escritor. mas é preciso aparar algumas arestas. Aos 36 anos. que a história era um exagero. Feliz ano velho era seu primeiro livro. e o revisa todo. Grace Gianoukas. publicado no mesmo ano de seu Morangos mofados. Reedições de seus primeiros livros. atriz gaúcha. como Luiz Fernando Emediato. aos 20 anos de idade. desde que faça modificações. e só foi escrito para contar a história do acidente que. corrigir erros. O ovo apunhalado era um livro que já tinha história e fãs ferrenhos. O próprio Caio. que foram publicados de forma quase artesanal quando ele ainda era adolescente. A base fica a mesma. ele apenas poliu o texto de Marcelo. Uma de que gosta muito é a de Sonhos de Bunker Hill. É uma fase de intenso trabalho para Caio. melhorar o estilo. de tantas modificações que foi obrigado a fazer. em 1984. Perfeccionista. Caio concorda em reeditar. leu o livro em 1982 e se apaixonou imediatamente. era um rapaz muito novo e inexperiente. ele retoma o livro escrito uma década antes. só sairá em 1988. Ele é. Além das revisões de livros. autor que admira. afinal. pela boca de defensores fiéis de Caio. deixara o rapaz para sempre paralítico. que. definitivamente. fazia Artes Cênicas no CAD. no entanto. Os dragões não conhecem o paraíso. Corre a história. O primeiro que o fez chorar em muito tempo. dizia. Caio já pode olhar para trás e ver que construiu uma obra. E um escritor com público cada vez mais fiel. para uma nova edição de O ovo apunhalado. começam a ser pedidas pelas editoras. de John Fante.de Marcelo Rubens Paiva. Ela estudava em Porto Alegre. e morava com mais dois . A edição sai pela Siciliano. e ele praticamente teria reescrito o livro. tanto que a literatura fica meio em segundo plano: seu próximo livro de contos. teria contado a amigos. onde trabalha agora o editor Pedro Paulo de Sena Madureira. Marcelo teria entregado uns rascunhos toscos para Caio. Então. faz também traduções. que na verdade ele é que teria escrito o livro.

pelas coisas que ele dizia. e desde então se tornaram grandes amigos. Quando leu. tipo faroeste. ela achou interessante. arrastou Grace pelo braço e a levou até a mesa. lendo e relendo o livro. e lá foi ela dar um jeito de abraçar o Caio. Mesmo assim. e ela deu de cara com o Caio sentado em uma das mesas. eles conversaram um pouco. Adorei o espetáculo de vocês. meu ídolo. Grace trabalhava em um restaurante de comida natural. ai ai ai! Shell. só para ver o Caio. agradeciam a presença. os pratos na mão. conversaram de verdade. Grace convidou-o para assistir ao seu espetáculo O Acre vai à Rússia. Grace não tinha dinheiro para comprar o livro. Já estava tudo escuro. Era do Caio. Um dia ela vinha caminhando. o Caio! O Caio tá aqui. Em 1984. o Caio tá aí. Daí a pouco. Passou a semana de visita deitada na cama. saíam juntos. Mas foi em frente. No final. Caio ia a festas na sua casa. muito blasé... Na época. e numa das visitas que faria à família. pelo autor. Ele passa. Ele foi muito correto. mas foi ótimo etc etc. Caio vai ao espetáculo. ai meu Deus. Meu Deus. os atores abraçavam o público. Tempos depois. irmã de Augusto Rigo. foi como uma bofetada: apaixonou-se pelo estilo. meu ídolo. entrou na fila de autógrafos. e também trabalhava no restaurante. Voltou imediatamente. Em 1983. pela primeira vez. mas Grace o viu entrar. não fui ao camarim porque sou muito tímido. que estava sendo muito elogiado na época. de vanguarda. Um dos amigos que moravam com ela lhe mostrou O ovo. apresentou-a ao Caio. mas não lhe deu muita atenção.amigos do curso de Letras. de verdade mesmo. Ai meu deus. ela estava sem nada para ler. Grace recebe um bilhete. Dias depois. o amigo de Santiago que fora com Caio para a Suécia. Mas Grace era natural de Rio Grande. quando Caio foi lançar O triângulo das águas na Feira do Livro. quando Caio está morando na casa onde . encontram-se por acaso num bar. cumprimenta. um espetáculo moderno. cidade que fica a quatro horas e meia de viagem de Porto. quando abriram-se as portas vai-e-vem. Aí foi aquela festa: Grace foi para a mesa dele.

apresentava-a a amigos. ofereceu sua casa. mas só entrava em greve. Com Caio. Grace disse para voltarem à noite. que adorava sua companhia. disse que Porto Alegre era pequena demais. já empurrando os senhores porta afora. sempre em greve. Airton. Numa tarde. era garçonete. vamos indo embora — responde Caio. .antes morava Ricardo Blat. Grace vem morar com ele. Um dos homens pediu um copo d'água. Grace era ainda uma menina. Clarice Lispector. Orlando tinha um show-room de moda. Grace viu os olhos de Caio transformarem-se em fúrias. mostrava livros que deveria ler. quando Caio estivesse em casa. — Aham. Um dia. Disse que Ricardo não morava mais ali. Por essa época. Ezra Pound. ela viria a conhecer seu lado agressivo. trabalhava no show-room.. com quem ele morara na casa da Melo Alves. que se mudara para o Rio de Janeiro. pois ele é que conhecia o rapaz. onde Grace passou a trabalhar. porém. — Eu também sou Abreu. ainda sorrindo. querendo falar com Ricardo Blat. aos vinte e um anos de idade. Caio foi crucial nesse momento: insistiu para que ela viesse. A faculdade ainda não terminara. bem humorado. a grossura com que Caio tratara os oficiais. Quando voltaram. em que se hospedaram na casa de Caio. Grace decidiu vir morar de vez. Tudo bem. O Brasil inteiro é Abreu. A noite. apareceram dois homens alegando ser oficiais de Justiça. Todo mundo é Abreu. Depois de uma visita a São Paulo junto com o irmão. Grace não sabia onde se esconder de vergonha. Caio foi gentil.. E vamos indo. Então Caio se justificou. Quando pediram para ir ao banheiro. Caio também apresentou Grace a Orlando. De dia. Ele começou a mudar. Aos olhos de Caio. Grace só conhecia o lado meigo do Caio. — O senhor é Abreu? — perguntou um dos homens. Os dois se sentaram no sofá. Grace conheceu James Joyce. Ele a protegia de todas as formas: lhe dava conselhos. o lado gentleman. Caio deixou entrar. para alegria do escritor. Principalmente Clarice Lispector.

Gostava do que era bom: quando podia. Na maior parte das vezes. No final de agosto de 1984. eram de alguma polícia. quando decidia dormir. a pilha de papéis em branco. Tac-tac tac-tac. Caio está fazendo café: é hora de escrever. Usava. Anfetaminas. Comprimidos para dormir. Do outro. na noite. mas usava. E assim por horas e horas a fio. Caio começa a trabalhar fixo na Around. sim. plantar drogas para um possível flagrante. a pilha de textos escritos. Ao alcance da mão. Caio quis mandá-los logo embora. a pequena máquina de escrever. nas festas. gostava de ir ao Ritz. Ao final. o isqueiro e os cigarros. Quando há uma ou duas bitucas no cinzeiro. pelo mesmo motivo. Caio bebe um gole de café. Às vezes cocaína. ela está intacta. não tinha nenhuma droga de sua preferência. Não era viciado. às vezes. Maconha. Quando percebeu isso. sem uma ponta fora do lugar. De um lado. Ele arruma a mesa. Um bom whisky. sabe-se lá por quê. Gato escaldado. jogando as cinzas no lixo. Apesar dos gritinhos da mulherada e do ambiente . um bar moderninho de São Paulo. substitui o café por Jack Daniels. ele o limpa. o cinzeiro. cinza. chegava bem cedo ao bar. ele bate à máquina. e ficava horas escrevendo. Um strega flambado. As vezes.Para ele. Não que ele não usasse drogas. escrevia em casa mesmo. até os amigos começarem a chegar. No meio. Se anoitece. a garrafa e a xícara de café. e estavam ali para plantar alguma coisa contra o Ricardo. não via muitos motivos para confiar na polícia brasileira. uma cervejinha. às vezes. Caio tinha antecedentes: por duas vezes. o montinho de papéis da esquerda vai diminuindo. impecável. e pedir um whisky doze anos. quando deixa a mesa. à esquerda. tac-tac-tac. aqueles homens não eram oficiais coisíssima nenhuma. Paranóia ou verdade. exceto pela pilha maior do lado dos papéis escritos. não usava todo dia. Álcool: sempre. ele tinha sido preso por flagrante falso de drogas. para ficar acordado. fuma um cigarro. o da direita aumentando. de vez em quando.

E a voz dizendo que vem a São Paulo daqui a uma. E achou que tinha aprendido algo com a experiência: ficado realmente adulto.. e ele costumava visitar a moça no apartamento que dividia com Ruy Fontana Lopes e Reinaldo Moraes. Caio e Maria Emilia foram namorados por algum tempo. "A alma? Pode ser.". a última imagem foi a ponta do dedo indicador dele acariciando a ponta do meu dedo indicador através das grades da janelinha do elevador.]. Esse homem é ou não é um romântico incurável? Um sonhador. depois de uma noite linda com Pedrinho. como o lançamento de livros e seminários. O escritor Mário Prata morava no mesmo prédio. Antes que pudesse colocar a carta a Luciano no correio. seu ídolo. autor dos romances Tanto faz e Abacaxis e amigo de Caio. No Rio. por exemplo. foi visitar a mãe e encontrou-a morta. Logo ele. De vez em quando. que morava perto de sua casa e morrera há pouco tempo. ele era filho único. Porta do elevador fecha enquanto sobem os créditos.. enterro. Os amigos é que foram dar uma força." Caio conhecera Reinaldo em 1981. vendo que a fila era . Não havia quem o ajudasse: o pai já havia morrido. exceto a cantora Elis Regina. no bairro de Higienópolis. através de Maria Emilia Bender. que nunca tinha visto ninguém morto. entretanto. acontece uma coisa que deixa Caio muito impressionado. Ficou impressionadíssimo. O escritor Reinaldo Moraes. esse é um trabalho que ele gosta de fazer: dá a oportunidade a ele. de ir ao Rio de Janeiro entrevistar Ney Matogrosso.. em Porto Alegre. tão obcecado pela idéia de morte. Certa vez. por mais ironia que tente imprimir às palavras. Alguma coisa já não estava lá. escreve a Luciano Alabarse. Reinaldo e Caio participavam de eventos literários juntos. surge também um novo amor: Pedrinho. no corpo morto da mulher. que trabalhava junto com ele na Brasiliense. inclusive Caio. quem sabe duas ou três semanas. [. estava ajudando a vestir a morta. providenciar caixão. Cena de cinema. falou no assunto por semanas. muito mais velho.. com pessoas cool entrando e saindo a todo momento.metido a chique. Ele. caída no chão da cozinha. ".

Caio chamou os amigos e parentes de lado e dizia para irem. e Caio estava acompanhado. pé ante pé. trombava em alguma coisa. disse ele a Grace e às amigas que dividiriam com ela a casa. No início de 1985. Situações engraçadas aconteceram no curto período da quitinete: às vezes. cineasta. na verdade uma quitinete.grande na frente da sua mesa. conversa vem. decide ir para uma pensão. mas pelo menos era um presidente . Caio. Nessas ocasiões. havia um clima de alívio: em janeiro daquele ano. porém. mas era divertido mesmo assim. tarde da noite. E as mudanças não aconteciam apenas na vida de Caio e Grace. Tancredo Neves fora eleito presidente do Brasil por um Colégio Eleitoral. em que a idéia era histórias que se passassem no bar de Antônio Maschi. e mais ainda em relação a Grace. Conversa vai. Caio muda novamente de endereço. deitar-se no espaço mínimo entre a geladeira e a pia e a mesinha e o fogão. em 1983. para quem chegou a escrever alguns roteiros. como a maioria pedia. Se esticasse o braço. que Reinaldo era ótimo. para discutir a literatura dos anos 80. na rua Augusta — chegaram mesmo a participar da coletânea Contos Pirandellianos — 7 autores à procura de um bar. e lá ia ela. Ele pedia para que ela fosse dormir na cozinha. Antes de mudar para lá. Ele decide ir morar com Sérgio Bianchi. As eleições não foram diretas. amigo. ele fica num apartamento pequenino. Os dois compartilhavam a porra-louquice e iam aos mesmos bares. Caio terminou a noite com o menino e Reinaldo com a garota. foram juntos a um evento em uma universidade em Londrina. mas que não havia ninguém na mesa do Reinaldo. Uma vez. que morava com ele. No plano político. Grace chegava do trabalho. no hotel. mas Caio era leal com os amigos. Grace. Não queria fazer "república". já que o dono da casa não a alugaria para três garotas. como o Pirandello. chegou um casal de namorados que era fã dos dois. porém. chama Grace para ficar com ele na quitinete até surgir alguma coisa. Na sessão de autógrafos. O espaço era exíguo. a farra era grande. por pouco mais de um mês.

ousadíssima. E foi: o tal namorado de Caio. . quando eis senão que sente um odor estranho vindo das bandas do dito fogão. Era o mês de março. quebrou o pé dançando na festa de vitória do Tancredo. foi internado. Caio tem umas pequenas doenças. Ela estava. isso já era algo a ser comemorado. que não se decide a parir (vão ser arianos. sas?) Então me viro (observe a mudança espontânea & natural da tercêra para a primêra pessoa) e eis que. Depois de mais de vinte anos de militares no poder. incêndio causado por ele mesmo. mui lépida. aí chamei o Sergião que telefonava da sala (Sergião disse: "Agora tenho que desligar porque minha casa tá pegando fogo". diretor. esta Marilene aqui QUASE MORREU QUEIMADA? Estava ela no fogão. atrás do fogão. A paranóia aumenta um ponto. segunda. mas os médicos dizem que não é nada. uma pessoa de quem Caio gostava. eu esperava pêxes de Pêxes. observando aquela pêxa grávida no aquário. no entanto: o presidente morreu antes de tomar posse. Enquanto isso. mas apoiara os militares até quase o final da ditadura. Como se a possibilidade de doença não bastasse. aftas na boca. bem natural). Sarney também era civil. jornalista. Caio ainda quase morre queimado num incêndio em seu apartamento. "Sas que ontem. aos gritos de "Vai explodir! Vai explodir! Não joga água que é pior!". Joguei água. A alegria durou pouco. queria avançar entre as chamas para DESLIGAR O FORNO (ela não tinha grana para comer e sua maior preocupação era que as coxas ficassem inutilizadas.civil. infecções. embora nunca tivesse tido a chance de se aproximar muito. Em carta a Jacqueline Cantore. e Caio já estava morando com Sérgio Bianchi. Seu vice José Sarney assumiu. e ele começou a me puxar pra fora da cozinha. mui poeticamente. assando umas coxas de franga. os demônios. o escritor descreve o episódio. Pedrinho. Luiz Roberto Galizia. Marilene. aos 34 anos de idade. a aids vai chegando mais perto de Caio. autor de poesia. vejo CHAMAS ENORMES ATÉ QUASE O TETO. de costas para o fogão.

falar asneiras. faniquitos. Que medo!" O episódio terminou bem. ele vinha sempre com o trecho de um poema de Drummond: "Perdeste o melhor amigo. Mandou várias em cartas para amigos. que é simplesmente falar bobagem. Enfim. Ai. não tens sequer um cão . mas e o humourt" Afinal. essas coisas. Bueno. principalmente. & LABAREDAS CADA VEZ MAIS ALTAS. Seu Antônio. "apaguem os cigarros!" (Marilene correu para seu quartinho e. apagou a vela de sete dias. Marilene foi espiar se a pêxa tinha abortado: raçuda. Era adepto da "cultura das abobrinhas". Fernando Pessoa. ela — continua grávida. carbonizadas). ele pensava. o melhor é rir. Uma das velhinhas começa a desmaiar. gemidos. saiam depressa que vai explodir tudo!". que escreveu em fevereiro de 1974 e enviou a Vera Antoun: Estavam ali as portas . juro). Mario Quintana. Fumaça. Hilda Hilst. Drummond. cheiro de gás. Como essa. Duas velhinhas saíam do elevador. assim como Ana Cristina César. Adorava a poeta Ledusha. vem com um extintor de incêndio. Caio também escrevia poesia: escrevia em seus diários. Sergião: "Corram. Quando não há jeito. sussurros.. que manteve por boa parte da vida. poesia também era muito importante na vida de Caio.. Justificando essa maneira leve de ver a vida. ao longo da vida. Todos eles eram influências tão grandes para sua prosa quanto os ficcionistas que ele amava. corremos para o corredor do prédio. Junta gente na porta do prédio. Bom. Gritos.isso é. e. Ver filme cinemão de Hollywood. num sopro. e Caio o contou da maneira que sabia: com humor. paulista de alma carioca que era sua amiga. o zelador. a tremedeira. Ele lia Adélia Prado. o extintor apagou tudo: espuma branca por toda a cozinha e toda a sala.

Estavam ali Na fronteira do olhar Onde o de dentro encontra Justamente Com o de fora. Nesse ponto exato Elas estavam: Bastava um gesto. Estar parado Estar vivo: A mesma incompreensão E medo Entre mim E aquele estar das coisas. E me retorno Ali No imóvel do gesto que não fiz. Revejo a dura consistência da porta Cerrando seu segredo.Janelas e varandas. Estar ali Como nunca ter chegado. Mas o meu estar parado Era maior que eu. Como se pudesse Agora Escancarar portas e janelas . Ah Relembro a amplidão dessas varandas intocadas Os pequenos raios de luz Nos vidros coloridos das janelas. Estar ali Por estar ali E além de mim 0 que eu não ousava.

as neves. amigo. Ou esse. As quedas de estrelas e Bastilhas. Aqueles espaços Permanecem mortos dentro de mim. Não cantes. infante. Brincava com . Boa negra Voltada para as estrelas Pés de chumbo cravados na lama: O canhão E sua escandalosa metafísica Caio nunca publicou em livro seus poemas. Como um corpo que se ama E não se toca.Para sair nu pelas varandas Desvairado e nu Profeta. talvez não os levasse a sério. de 2005. Os outros por bebedeira Não saúdes A morte em literatura. louco. Sair para o vento O sol. reunido entre os dispersos publicados no livro Caio 3D — o essencial da década de 1980. sem data. as tempestades. O cheiro de jasmins Entontecendo os quintais. como eu. manhãs perdidas como tudo que não fui) Mas continuo Ali. (pudesse retomar manhãs. Talvez não os achasse bons.

teatro. pouco metódica. Como era bom poder tocar um instrumento. tudo ia fermentando. a idéia para Onde andará Dulce Veiga. amadurecendo. era de fato inegável. certa vez. às vezes tentava apanhar no texto o ritmo daquela música. Era só sentar e escrever. disse em uma entrevista. E o instrumento estava afinado. Rolling Stones. Mas as coisas não eram bem assim com Caio. Sonhos. Como ele gostava de escrever com música.Mário Prata que poesia era coisa para quem não conseguia chegar ao fim da linha. no lirismo. frases-ímã. ter essa arma para lutar contra as agruras do mundo. o nãoliterário". coisas do dia-a-dia. "Isso deve ser insuportável. Mas a importância de ter lido os poetas. ele anotava sempre em caderninhos. em seus textos. então na Brasiliense. Até cachê adiantado estava recebendo: Luiz Schwarcz. música. e tinha seu público. Caio chegou a dizer. cujo verso "como é bom poder tocar um instrumento" Caio estava sempre repetindo. tudo podia influenciar um texto. que devia ser insuportável para Academia. ele . propôs um adiantamento a Caio para que ele escrevesse um romance. redonda. pensava. e aparece na preocupação com a forma. E as influências para seus textos não vinham só da literatura: cinema. Angela Ro Ro. até que surgia uma história inteira. Muitos de seus contos vêm com o aviso: para ler ao som de. disse. lidar com um escritor que confessava que o trabalho do Cazuza e da Rita Lee foram influências muito maiores que Graciliano Ramos. De forma intuitiva. E Caetano Veloso. Ele adorava essa frase. como era bom poder escrever. na exatidão do uso das palavras. coisas que magicamente as pessoas vão te dizendo". E eu gosto de incorporar o chulo. Fosse o que fosse que o inspirasse. Caio já ruminava a idéia há três anos. Você compreende? Isso não é literário. fazer uma "coreografia verbal" para ela. e também para a crítica. "Eu vou magnetizando coisas no inconsciente. sempre. Pode ser Keith Jarrett.

uma certa carência por trás de suas brincadeiras. mas pelo menos as aftas sararam. o motor pifou. amigos começam a ligar. mas dava para perceber uma certa tristeza. já então pela Companhia das Letras. Caio se sentia saudável. as pessoas morriam muito rápido. Sempre com muito humor. do outro lado da calçada. um ator gaúcho. fez quando viu o Caio Fernando Abreu? Gritou: — Jaburú-ú!" . o texto viria quando tivesse que vir. depois de anos enrolando. E como má notícia sempre anda de mãos dadas. se estou aqui? Abobrinha 2b. Muitos escritores afirmam que o que fazem é captar uma idéia e escrevê-la. E ser gay ainda era sinônimo da peste. Para piorar um pouco mais. preocupados. E a relação que durara nove meses acabava assim. e os boatos eram infundados — ao menos aparentemente.tinha seu próprio ritmo. Galizia já tinha ido. mas o pneu furou. brigam. Estava rolando o boato de que ele também estaria com aids. parecia saudável. Em carta a Jacqueline: "Abobrinha 2 (somente para iniciados): Abobrinha 2a. que por sua vez era ditado pelo ritmo do texto. Por mais que Caio trabalhasse duro. e isso só foi acontecer em 1990. os gânglios que tinham aparecido diminuíram. diferenças saltam à tona. são simples canais de transmissão da arte. Enquanto não escreve Dulce Veiga para a Brasiliense. quando. escreveu o livro em dois meses e o publicou. Caio sofre mais uma decepção. mas lá discutem muito. Queriam ir embora. tudo errado. S'as o que o Jaburu. Viaja a São Tome das Letras com Pedrinho. quase uma entidade independente. Baixo astral total. As informações ainda eram poucas. S'as o que o Caio Fernando Abreu disse quando viu o Jaburu do outro lado da calçada? — Como é que estou do outro lado. a deixar recados na secretária eletrônica. Ruim mesmo era a falta de auto-estima que às vezes aparecia. Caio sabe da morte de Fernando Zimpeck.

A peça é inspirada no texto que Caio escrevera. Como era um caderno de cultura em geral. O Caderno 2 não era fácil de se editar. quando achasse necessário. Emediato e Caio. Para ele. Emediato. pela primeira vez. agora dividia a redação com ele. de cumprir deadlines. paladino do Oeste. Caio abandona a Around — que agora não se chama mais Around. aos 13 anos de . E quando cobrava resultados de Caio. sempre tão bemhumorado. E Caio estava sempre pronto a defender seus amigos. Vai fazer o que sabe: crítica cultural. se mortificava. Caio tinha sua turma: José Márcio Penido. que tinham perdido contato. Por essa época. Caio não gostava de receber ordens. da literatura. começam a se ver todo dia. o suplemento de cultura. frio. Emediato precisava fazer tudo isso. que adorava o grupo. uma palhaçadinha. ele dava um jeito de enfiar os Titãs no meio e fazer uma brincadeira. Paulo. Caio trabalha também na peça A maldição do vale negro. E mesmo que não fossem amigos: ele rodava a baiana sempre que achava que alguém estava sendo injusto.Em 1986. e sim A-Z — e vai trabalhar em O Estado de S. cinema. não tinha humor nenhum nessas questões. amigo de muito tempo. Em qualquer crônica ou texto. Emediato tinha se entregado. mas naquela incômoda posição de chefe e subordinado. o sisudo diário recebia jovens para fazer um caderno do tipo. junto com Luiz Arthur Nunes. Por quê?. por exemplo. se vendido ao sistema. É a época da criação do Caderno 2. Havia outros. literatura. Caio. gostava de implicar com o grupo de rock Titãs. levava a sério demais a defesa do trabalho e da arte das pessoas que admirava. precisava botar o jornal na rua. da música. música. de se preocupar com horários de fechamento. Por que essa implicância com os Titãs? Ele. talvez. era o chefe engravatado e careta. uma alfinetada de leve. Ninguém se misturava muito. havia vários grupinhos: o pessoal do teatro. mesmo os que não trabalhavam no jornal. e o editor é Luiz Fernando Emediato. perguntava. amigo dos tempos de ditadura e jornais nanicos. o pessoal do cinema. mal-humorado. este era seco.

. artistas plásticos. que ganharia o Prêmio Molière de teatro. finalmente. talvez com certo exagero. escritores. Uma amiga em comum lhe pedira que acomodasse Caio por uns tempos.. onde fica. em Ovelhas negras. ele se importava. Fã de sua obra. além da Lua e Saturno e Urano sabe lá onde. mãe-de-santo. porém. mas era só. Caio começara a dar uma de astrólogo e falar do mapa astral de Antônio. O escritor e Sérgio. lésbicas. Na verdade. Vai morar com Antônio Neto. dona de boate". disse que. O rapaz entrou na brincadeira. conta Antônio. O escritor vai então para um apartamento na Haddock Lobo. ele tinha a mãe na zona. travesti. garçonete. muito louco. dirigido por Sérgio Bianchi. Inventou que o Antônio tinha trígono na quarta casa da Lua em Saturno. mas quando soube que era o Caio. mas que topara dividir apartamento com ele. o meio do céu em trígono em Urano. um rapaz que não conhecia. Não sabia as outras coisas.idade. alcoólatras anônimos. pai-de-santo. Caio e Luiz Arthur passaram todo o Carnaval de 1986 trabalhando e brincando com a idéia de melodrama. e mais um monte de coisas sem sentido. A idéia para a história surgiu em uma noitada que Caio. já tinham desistido de morar juntos. veados. porteiro de boate. a coisa mudou de figura. guarda-costas. poetas. em 1989. achou o máximo ver o desfile de pessoas que se tornou comum no apartamento depois da vinda de Caio: "atores. e Antônio disse que não se importava. na introdução de seu livro Mãe na zona. alcoólatras famosos. e os três passaram . atrizes. muito intenso. por vários anos. que foi publicado mais tarde. gente famosa. Cazuza e ele passaram em um bar. e Caio também não era uma pessoa muito fácil. gente anônima. Nesse período. Foi quando Cazuza interveio e começou a brincar. Escreveram o texto e Luiz Arthur dirigiu a peça. Sabia que o rapaz era ariano e que seu ascendente era Libra. às vezes. para o concurso de redação em sua escola — A maldição dos Saint-Marie. Caio escreve também o roteiro do longametragem Romance. vagabundos. A expressão pegou. Sérgio era. Antônio era gaúcho e tinha morado no mesmo bairro do escritor em Porto Alegre.

Assim. o talco continuava intacto. O ator também se preocupava com os sumiços de Caio. E. dirigida por Jorge Takla. começar tudo de novo. baseado na obra de Marcelo Rubens Paiva. e funcionaria com qualquer outra pessoa. Apenas 19 anos depois. ele viu saírem da máquina de escrever vários dos contos do livro Os Dragões não conhecem o paraíso. Caio convivia bem com a heterossexualidade convicta de Breda. O estratagema do ator era bom. e apenas queria ficar sozinho. Breda. podia saber se Caio estava vivo ou morto: bastava ver se havia pegadas. Ele então bolou um estratagema: espalhou talco no chão entre o quarto de Caio e o banheiro.a noite toda discutindo o que era ter a mãe na zona. trancado no quarto. Caio insistia para que o rapaz escrevesse um livro: ele lhe daria toda força. O ator. Dois dias depois. ou à cozinha. que seria publicado em 1988. se foder. Antônio escreveu. porém. durante seis meses. Ali. para fazer uma montagem da Electra de Sófocles. início de 1987. que conhecera Caio uns dois anos antes. no entanto. Breda voltaria a São Paulo no ano seguinte. Lá de dentro. de Porto Alegre. que era também gaúcho. chorar e se arrepender profundamente. Exatamente do mesmo jeito. o conto Mãe na zona saiu na A-Z e fez muito sucesso. afinal. era porque estava vivo. Antônio tomou coragem e escreveu o livro. uma voz cavernosa respondeu: Bom dia. Se o amigo havia saído para ir ao banheiro. e foi então que dividiu o apartamento com Caio. o ator tomou coragem e bateu na porta. em uma festa na casa da atriz Imara Reis. três dias sem aparecer. "mãe na zona é errar. quando voltasse da rua. o que é ter a mãe na zona? Segundo as primeiras frases do conto de Antônio." Outro que morou com Caio nesse período. e por fim Caio sugeriu que o rapaz escrevesse um conto ou crônica que ele publicaria. No terceiro dia. O apartamento era mais movimentado por causa das . Depois. dois. foi o ator Marcos Breda. estava em São Paulo para participar do filme Feliz ano velho. O problema era que Caio tomava comprimidos para dormir e ficava dois dias literalmente apagado.

namoradas que o ator levava que pelos casos de Caio. Por acaso, muitas das meninas que Breda namorava na época eram bissexuais; Caio gostava de brincar com o amigo, dizendo que essa era sua forma de exercitar sua bichice sem culpa. Um dia, os dois vão a uma festa. Chega um amigo de Caio, que começa a dar em cima de Breda. Caio, sarcástico, enterra as esperanças do amigo: — Desista, meu amor. Todas nós já tentamos. É por influência de Caio também que Breda vai morar no Rio de Janeiro, na metade de 1987. Mário Prata estava escrevendo a novela Helena na Manchete e precisavam de alguns atores para certos papéis. Caio, que estava trabalhando com Prata em uma novela de José Wilker que acabou não se concretizando, indicou Breda, e lá foi ele. O ator foi para o Rio e não saiu mais. Representou em adaptações de algumas obras de Caio, como O homem e a mancha, no teatro, e Sargento Garcia, um curta. Em 2004, viria a participar, dessa vez como ator e também co-produtor, junto com Camila Pitanga, da remontagem da peçav4 maldição do vale negro, com direção de Luiz Arthur Nunes. O livro que Breda viu nascer enquanto morava com Caio, Os dragões não conhecem o paraíso, é provavelmente o melhor trabalho do escritor. Os contos apresentam uma unidade temática, segundo Caio nos diz, em uma pequena introdução. É um livro sobre amor. São treze contos, e não à toa — treze é um número cheio de significados místicos, mágicos, para quem acredita nessas coisas, e ele acreditava. Já na primeira história, Linda, uma história horrível, ele aborda o tema que o afligia: a aids. Sempre usando elipses, sem citar o nome da doença ou do vírus que a causa, ele fala dos sinais, da degradação do corpo. Um homem vai visitar a mãe. Doente, e pressentindo, talvez, seu fim, ele chega sem avisar, e encontra a mãe envelhecida, junto com a cadela também idosa, Linda.

— Mas vai tudo bem? -Tudo, mãe. -Trabalho? Ele fez que sim. Ela acariciou as orelhas sem pêlo da cadela. Depois olhou outra vez direto pra ele: — Saúde? Disque tem umas doenças novas aí, vi na tevê. Umas pestes. — Graças a Deus — ele cortou. Acendeu outro cigarro, as mãos tremiam um pouco. — E a dona Alzira, firme? Um por um, foi abrindo os botões. Acendeu a luz do abajur, para que a sala ficasse mais clara quando, sem camisa, começou a acariciar as manchas púrpura, da cor antiga do tapete na escada-agora, que cor? -, espalhadas embaixo dos pêlos do peito. Na ponta dos dedos, tocou o pescoço. Do lado direito, inclinando a cabeça, como se apalpasse uma semente no escuro. Depois foi dobrando os joelhos até o chão. Deus, pensou, antes de estender a outra mão para tocar no pêlo da cadela quase cega, cheia de manchas rosadas. Iguais às do tapete gasto da escada, iguais às da pele do seu peito, embaixo dos pêlos. Crespos, escuros, macios. — Linda — sussurrou. — Linda, você é tão linda, Linda.

Em todos os contos, o escritor aborda seus temas preferidos: o estranhamento, a solidão, a dor. Seus personagens vão envelhecendo com ele. Sempre jovens em Inventário do irremediável, agora há homens de 40 anos — como o próprio escritor. O estranhamento que sentiam em relação à cidade grande, muito forte em seus primeiros contos, agora já é aceito pelos personagens, que, mesmo solitários, vislumbram esperanças. O texto do escritor está em sua melhor forma, e isso foi reconhecido: Caio ganha seu segundo Jabuti por Os dragões. A repercussão do livro ultrapassa as fronteiras continentais e chega à Inglaterra, onde John Gledson, o maior especialista inglês em literatura brasileira, escreve uma crítica muito elogiosa para o Times, de Londres. Essa crítica abre portas para Caio: tradutoras e agentes foram procurá-lo; há interesse em publicar Os dragões em francês, em italiano, em alemão. A carreira internacional de Caio começa aí, e ele

não vai perder nenhuma chance de conseguir dar certo lá fora. Até porque isso significa viajar: Inglaterra, França, Alemanha... Dar uma descansada do Brasil. As possibilidades são imensas, mas não assim, imediatas — Levaria tempo até que as coisas se ajeitassem, contratos, ajustes: Caio só viaja para a Europa no final de 1990. Enquanto a viagem não chega, ele acerta algumas contas consigo mesmo; depois de cinco anos de espera, é a hora, finalmente, de se descobrir Onde andará Dulce Veiga.

CINCO

— Eu deveria cantar. Caio está numa fila de banco, esperando sua vez. De repente, lhe ocorre a frase: Eu deveria cantar. Ele corre para casa, excitado. O começo! Ele tem o começo. E todo o resto. A idéia, dele e do cineasta Guilherme de Almeida Prado, já existia há uns dez anos, os rascunhos já tinham uns seis, o quase-adiantamento para escrever já datava de uns quatro anos. A idéia inicial era inscrever o roteiro do filme em um concurso e depois escrever o romance. No entanto, apesar do roteiro estar terminado, Dulce Veiga não saía. Recusava-se. Os dragões desistiram de esperar, furaram a fila e foram publicados antes dela. Mas a idéia para a primeira frase — a singela "eu deveria cantar" — detonou o processo criativo. Tudo aquilo que Caio vinha maturando há anos resolveu sair à tona, com várias mudanças em relação ao roteiro feito a quatro mãos com Guilherme. Em dois meses, terminou o livro: escrevia dez, doze horas por dia. Das duas mil páginas que tinha escrito, no total, tirou umas duzentas. Escrevia, escrevia, escrevia. Resultado: um belo desvio na coluna. Além do livro pronto.

sem papas na língua. Os anos 70 foram todos dedicados ao conto. cercada de anõezinhos.O processo é o mesmo que acontece a uma amiga escritora. algo mais trabalhado. Ele era a mulher dos sapatos vermelhos. alto. com Limite branco. cercada de homens por todos os lados. Enquanto Caio escreveu Sapatinhos vermelhos. uma aventura no terreno do romance. Eram amigos. Nos anos 80. a Diana caçadora de seus contos. Ela era a Branca de Neve. não era coincidência. mais pragmaticamente. Ambos belos: Caio com seu jeito de Quixote. mas a maioria dos escritores brasileiros da época — estarem decididos. Enquanto ele escrevia Dulce Veiga. rosto de boneca. que ele só praticara uma vez. Márcia e Caio. também de dez a doze horas por dia. era uma exigência do mercado mesmo. por mais que os pés doessem. ficaram amigos. loucos. que os publicavam. que conseguiu conquistar três homens com seus sapatos. E. Ambos precoces. a preferida de Paulo Francis. e ela o escreveu em pé. numa tentativa de não engordar demais. ambos com aquele quê de malditos. O fato de os dois — e não só eles. ela também se arriscava a um texto maior. A mulher com pinta de fatal. depois de tantos anos escrevendo contos. que realmente eram lidos. Márcia Denser. a fabricar romances. Márcia era amiga de Caio desde os anos 70. com o impulso para o nocaute que um conto deve ter. Talvez houvesse uma necessidade de provar que se conseguia fazer algo de maior fôlego. que circulavam. uma questão da época. Beldades perversas. muitos deles nanicos. escrito mais com a cabeça e menos com o coração. quando se trombaram em algum lançamento de livro pela cidade. Havia revistas e jornais literários. loira fatal. aos 18 anos de idade. cabelos lisos. ela loira. apadrinhados desde cedo por grandes nomes: ele por Hilda Hilst. Alter ego literário: Diana Marini. a devoradora de homens. Márcia escrevia sua versão da Branca de Neve. com . o infantil A ponte das estrelas. por Paulo Francis. ela estava sempre no apartamento dele. Clarice Lispector e Lygia Fagundes Telles: ela. uma releitura para adultos do conto de Andersen.

Dão a ele a tarefa de encontrar Dulce Veiga. que aliás é personagem do livro. afinal a primeira entrevista que fez quando chegou na cidade grande. acabam os nanicos. como ele. na gravação de Billie Holiday. não era uma invenção de Caio. Entremeando a história. um amor do narrador. Os enigmas vão se resolvendo. cantora muito popular que desaparecera vinte anos antes. Caio homenageia não só Marques Rebelo. Rubem Fonseca. viessem os acordes iniciais de Crazy. um a um. tantos anos atrás. de Dulce Veiga. A busca de Dulce Veiga significa mais para o narrador que um simples trabalho. que foi amiga de Caio. Sophisticated lady ou qualquer outra dessas canções roucas. Márcia Felácio. A busca de seu passado. O filme é estrelado por Betty Faria e Odete Lara. tão aplicado. Em 1974. um amor que foi embora. naquele . como personagem. há as menções a Pedro. O narrador de Onde andará Dulce Veiga é um jornalista. Naquele tempo eu não as conhecia. foi com Dulce. mas estou certo de que nessa ou na outra vez perguntei quem era e ela disse que era Billie. e poderia ser também Glad to be unhappy.o fim da ditadura. um escritor urbano. agora sim. Quem a criou foi o escritor Marques Rebelo. grande contista. e eu anotei. que nos anos 30 escreveu A estrela sobe. ainda chamada Dulce Rodrigues. Bruno Barreto faz a versão do romance para o cinema. nem todos com o mesmo sucesso de crítica que seus livros anteriores de textos curtos. Dulce Veiga. com Dulce. Assim. porque o leitor médio está mais acostumado com eles. Ele segue as pistas. por exemplo. ao escrever sobre Dulce Veiga. a cantora. uma boa matéria: é a busca de si mesmo. conhece a filha dela. As editoras começam a preferir romances. e assim um veículo por onde escoar tanto texto curto. Não estou absolutamente seguro que. he calls me. de algum lugar no interior do apartamento. publica vários romances nessa época. vocalista de uma banda punk. mas também Odete Lara. e rebatiza a cantora. Tudo isso que agora parece clichê banal. gemidas.

e se compreende. feito seta. finalmente. quando se descobrisse. para viver de acordo com os preceitos da seita Santo Daime. o gatinho chamado Cazuza. eu nem suspeitava das marcas pelo caminho. E começa a cantar. Ela o faz encarar seus gânglios. Não há mistério: ela apenas se tinha recolhido a uma cidade do interior. Afirmo que havia música. pois mesmo que não houvesse nada e o silêncio do apartamento fosse cortado apenas pelo ruído dos carros na avenida São João. afinal. a mão fechada. pois ainda não sabia que estava doente. e por isso foi embora. lá embaixo — mesmo que não. mas a possibilidade de um novo começo. Finalmente se aceita. Uma arara pousou na árvore perto dela. ao lado do cachorro. Sem querer. Ele faz. soropositivo: descoberta da possibilidade de vida. sem medo de mentir. A doença não é o fim. O encontro com Dulce. Pisquei. seus sinais. que ficou como se tivesse sido. Caio intui em Dulce Veiga o que seria a sua postura. Depois gritou qualquer coisa que se esfiapou no ar da manhã. Parecia meu nome. O narrador começa a cantar. e cita a doença nominalmente. repito: seria tão perfeito se fosse exatamente assim como penso que lembro. enfim. Ela ergueu o braço direito para o céu. acontece. porque é belo e mágico na sua melancolia: naquele tempo — tudo era novo. assim como tem Márcia. apenas o indicador apontado para o alto. Os primeiros raios do sol faziam brilhar aquela estranha coroa -tiara. ofuscado. a jovem cantora. Ela lhe dá um gatinho de presente. e ele vai embora. assim como Pedro teve. Dulce Veiga estava parada na porta da casa. mas não é nada do que se esperava. A busca de Pedro é a busca de aceitação do presente. há um choque. O narrador tem aids. E ela que dá nome aos bois. tantos anos depois.tempo — repito e não me canso. que nada e nunca. diadema — que tinha entre os cabelos louros. o que deveria ter feito no começo. no final. . Toda de branco.

Vários artistas e intelectuais elaboraram e assinaram um manifesto contra a revista. e foi um dos mais indignados com a capa da Veja que expunha uma foto de um magro e pequenino. Eles se gostavam. citaria o cantor. porém altivo. do travesti Andreia de Maio. Iam juntos a bares trash. Cazuza e Caio foram amigos. A tal manchete foi uma confusão. Caio ainda não teve coragem de fazer o que ele chamava de O Teste. em um show. O bar era o que se podia chamar de barra pesada: tiroteios. sempre que fosse falar de aids. Viajou até o Rio para o enterro. que ficou todo orgulhoso. Uma das perdas mais sofridas. No final do show. Certa vez. Muita gente não encarava. A jornalista que fez a entrevista se demitiu. odiava boates e saunas exclusivamente gays. Ele via seus amigos sofrerem. Caio odiava esses guetos. em que se desmerecia o trabalho do cantor. afirmando que escrevera uma matéria equilibrada. a admiração que sentia pela forma . tráfico de drogas. foi Cazuza. esse é o nome do gatinho com que Dulce presenteia o narrador no livro. Não em vão. dizendo que ele não era gênio coisíssima nenhuma. chorando. mais choradas. e o final da matéria também. era meu nome. se admiravam. e da maneira de lidar com ela. Desde então. o final e a manchete problemática seriam responsabilidade dos editores. Cazuza. como Vai Improviso. Cazuza dedicou Só as mães são felizes a Caio. com a manchete: "Cazuza: Uma vítima da aids agoniza em praça pública". e ficou em seu canto.Bonito. Tiveram até um pequeno rolo. Apareceu com uma coroa de flores enorme. namorico. Mas estamos em 1989. Quando Cazuza morreu. Caio chorou potes. vai até o camarim e dá uns bons amassos no amigo. chorando. agarramentos de bastidores. Caio sofreu muito ao acompanhar a decadência física do cantor. perdeu muitos deles. E eu comecei a cantar. mas Caio preferia esse bar aos chamados guetos gays.

freqüentados por personagens do maior submundo da noite. uma programação da TV Gazeta. Em 1989. Afora as tristezas. arrogante. Na conversa de bar. respondia Campão. pronto para qualquer coisa. organizada por Regina Zilberman. No teatro. dirigida por Fernando Meirelles. depois de passarem a noite bebendo) ? Vamos. mas estava sempre com o grupo. em 1983. fechada. Luciano Alabarse também fizera a sua. séria. é que Renato descobriu quão engraçado Caio podia ser. De um humor negro. Renato não atuava na peça. em Porto Alegre. feita por Paulo Yutaka. que ainda não era o aclamado diretor de cinema. Vamos. Antes dessa época. com ele não havia tempo ruim. uma estudiosa da obra do autor. Foi mais uma das grandes perdas quç assombrariam Caio até o fim de seus dias. como o fora a perda de Ana Cristina César. mas tinha um certo medo dele: o comentário geral era que o escritor era uma pessoa extremamente intelectual. Caio ia tocando a vida. dizia Caio. anos depois. saiu uma coletânea de seus contos chamada Mel & girassóis. Renato descobriu também o lado temerário de Caio. Vamos beber? Vamos pegar um michê? Vamos comer churrasquinho (às sete da manhã. Vamos pegar pó?. amigo querido que também viria a morrer de aids. mas engraçado. para dizer em uma palavra. um programa de crítica literária na TVMix. Era isso que Caio apreciava nele: sua disposição . Era nessas aventuras que Renato o acompanhava. novas adaptações de Morangos mofados: já tinha havido a primeira. Renato já cruzara com Caio pela noite de Porto Alegre. os amigos continuavam a aparecer. negríssimo.como ele encarara a doença -aberta. o lado que gostava de ir a bares barra pesada. E agora era montada uma na Bahia. Na literatura. Apresentou. No apartamento da Haddock Lobo. tentando eliminar os preconceitos. andou pelo apartamento de Caio o ator gaúcho Renato dei Campão. por uns tempos. que já conhecia o escritor desde a primeira montagem de O leiteiro. dizia Campão. pela editora Mercado Aberto.

Ele e o escritor estariam conversando animadamente no balcão. Muitas meninas e meninos o assediavam. o lugar lotado. bêbado. mas nada aconteceu a Caio. Renato presenciou algumas cenas em que Caio. ele viraria de novo: tu não vai sair daqui? Ela nada. Caio gesticulava e falava alto. e continuava encostando em Caio. e menos de um ano depois de ter saído de Porto Alegre. prometendo arrumar um emprego na capital paulista para ele. A agressividade de Caio vinha à tona. ele convidara o ator para se hospedar em seu apartamento em São Paulo. que não sabia manter o próprio traseiro no lugar. o emprego para Campão nunca veio. Em 89. e em certo momento virado para a mulher e dito: sai daqui. talvez com medo de uma atitude ainda mais agressiva. e ela nada fez em represália. até na relação com os fãs. enquanto conversava com Campão. armava barracos escandalosíssimos. Nessa época. havia uma mulher de cabelos compridos. Algum tempo depois. que volta e meia batia sem querer a bunda em Caio. uma garota veio dizer que . empolgado com o assunto que discutia. Ele diz ter presenciado uma cena. me liga. Renato voltou. Caio se enrolou. mergulhou em uma de suas muitas crises depressivas. levantou-o atrás da cabeça e ateou fogo nos longos cabelos da inconseqüente figura. de vez em quando. Por ser amigo mais de farras noturnas. e a secretária eletrônica com os recados mais ilustres: Caio. de vez em quando o mau humor o dominava. o escritor acendeu o isqueiro. Mais uma vez: tu não vai sair daqui? Como a mulher não saía. o apartamento de Caio era um lugar agitado: visitas a toda hora. A mulher se pôs a gritar.para aventuras. e vinham falar com ele. aqui é a Regina Duarte. Ele continuou tranqüilamente a conversa. Uma vez. no bar Líder. O escritor teria se irritado com aquilo. Por mais que adorasse ser lido. em 1987. admiravam sua obra. Ela não deu bola. ele decidiu. uma vez em Porto Alegre. Mesmo com tantos contatos. Calmamente. em Porto Alegre. Atrás dele. amigos vindos de todas as partes.

Os amigos afirmam. Caio deu um tabefe em Ivan. ele estava sempre se apaixonando de novo. Também. E quebrando a cara. era preciso mesmo um pronto-socorro emocional de vez em quando. Caio chegou bêbado em casa. uma pessoa conhecida que viveu na Suécia. apaixonado por alguém. dessa vez para sempre. . apenas — até que o gênio de Caio e o temperamento de Ivan se trombassem de vez e os dois brigassem feio. uma produtora de eventos também gaúcha. de vez em quando tinha uns surtos de galinhagem. quero amantes. embora fosse recatado a maior parte do tempo. namorado do início dos anos 80. Houve alguns casos até duradouros. ele e a amiga Déa Martins. em outro período. e que morrera em 1989 em decorrência da síndrome. A resposta veio rápida e ríspida: — Não quero fãs. ele não se descuidou mais. por causa da menção do escritor de chamar um michê pelo telefone. sofrendo uma desilusão amorosa por semana.era fã de Caio. Moraram juntos por alguns meses — agora bons amigos. Ivan estava no apartamento. e ele e o amigo Luciano Alabarse saíam do cinema. que ele conhecera poucos anos antes. que era impossível saber como Caio contraíra a doença. afirma Caio na entrevista. sem dar mais notícias. Ronaldo Pamplona. bem. de novo. Fazia um frio enorme. como dizia. às vezes. Em 1989. enquanto o escritor se corroia em culpa. Déa era divertidíssima. porque. e os dois se juntavam sempre para falar bobagens. na loucura. o ator. também foi morar com Caio por uns tempos Ivan Mattos. no entanto. Um bailarino. como sendo a provável pessoa de quem ele pegara aids. Déa presenciou a briga de Caio e Ivan. Todos esses conflitos Caio discutia com seu terapeuta. E na noite. A terapia o ajudava demais. E de novo. que ficou magoadíssimo e foi embora no outro dia. Desde então. numa entrevista à Marie Claire. Porque por mais que dissesse que aquele tal era o último amor. e também para fazer loucuras. inclusive um que ele mencionaria mais tarde. adorava Caio.

de uma certa forma: o mesmo humor. ele chegou a freqüentar também o Santo Daime. bem. uma infecção nos ouvidos que não sarava nunca. Uma das pessoas que influenciou Caio a tentar o Santo Dai-me foi Vicente Pereira. Enfim. pela beleza do ritual. Eram almas gêmeas. era uma forma de tentar contatar a divindade. depois. crença em algo maior. ficava paranóico sempre que aparecia alguma pequena doença. seu grande colega. Além da terapia. As pessoas diziam que era paranóia dele. O jornalismo até que servia para alguma coisa. Falava sempre com sua mãe-de-santo. amigo e parceiro de trabalho de Mauro Rasi. Quando Vicente morreu. Caio diria que sua ausência era a mais dolorida. Jogava taro. ligado ao movimento do teatro besteirol que surgiria depois. em torno da qual se formou uma seita na Amazônia. / Ching. Quem participou do ritual original afirma que o que se fazia no Rio era uma imitação tosca do que acontecia nas selvas amazônicas. não por acaso. através dos rituais mais variados. de aids. Caio continuava a manter sua espiritualidade viva. E assim. Ele e Caio foram grandes amigos. O Santo Daime está presente em Onde andará Dulce Veiga. que aquilo era apenas seu corpo colocando as inseguranças para fora. a mesma forma de encarar a vida.bêbado. A beleza dos rituais o fascinava. O Daime é uma substância alucinógena. que virou moda entre os intelectuais e artistas do Rio e de São Paulo no final dos anos 80. é difícil afirmar que ele se protegia sempre. Sônia. cantora e amiga de Caio. Vicente foi um dos autores do famoso programa de humor TV Pirata. Primeiro. dramaturgo. talvez mais que a fé. anos depois. Vicente tinha uma forma de encarar as coisas . no Rio de Janeiro. e usou essas informações no livro. um herpes-zóster. e Caio tentava. a mesma espiritualidade. D. Embora não fizesse o teste. os melhores que se pode haver. afinal. Era seu melhor amigo. Caio a entrevistou exaustivamente para saber como era tudo. que participara dos rituais originais na Amazônia. e assim ele seguia vivendo. o livro é dedicado a Cida Moreira.

se adorariam. Caio. dois meses depois. uma pintura. quando menos se esperava. já estava comandando as reuniões. isso era triste: lhe dava uma solidão . que muita gente chega a achar que é dele: "Quando duas ou mais pessoas estiverem reunidas em nome de Deus. um apartamento. talvez não de forma consciente. fazia copidesques. José Márcio fez a ponte. Era só o Vicente entrar em alguma seita. Generoso. Estava sempre trabalhando. também ligado ao teatro. você precisa conhecer o Caio. Não poderiam deixar de ser amigos. filosofia ou religião e. e estava sempre sem dinheiro. no minuto em que se encontrassem. acumular bens. mais retornaria a ele. quando o conheceu. religiões. A semelhança era tão óbvia que as pessoas em volta percebiam. um livro. Sacerdote. e sempre sem dinheiro. você precisa conhecer o Vicente. talvez não como filosofia de vida. traduções." Caio brincava com Vicente. Era assim que ele era. sacerdotisa. A relação de Caio com essas coisas era sempre mais descompromissada.voltada ao desapego: não acumulava coisas. free-lances. Por um lado. credo. por muito tempo. dizia que ele era a sacerdotisa do Daime. entre os dois. empregos. tão repetida por Caio. dava constantemente presentes aos amigos. Muito antes de Caio e Vicente se conhecerem pessoalmente. dava oficinas de criação literária. eles já se conheciam dos relatos dos outros. mas era assim que ele era: não conseguia juntar nada. Sabia que. influenciou pelo menos mais uma pessoa: Miguel Falabella. Mas sempre com um decote bem profundo. comprar um carro. Amigos até o fim. estava sempre como visitante. Era um sucesso como escritor. Com essa filosofia. E Vicente também. José Márcio Penido dizia: Caio. ele podia virar e se oferecer para pagar a conta de todo mundo no bar. vivia esse desapego. como turista. um anel. E ao Vicente: Vicente. eu estarei no meio delas. Ele não assumia que fazia parte da seita. com algum cargo ou posto importante. acreditava que quanto mais desse. Há uma frase de Vicente. E assim foi. Não fazia parte de seu temperamento se comprometer a fundo com as coisas — namoros.

.] — Você é o escolhido. a liberdade que tinha lhe permitia ir aonde fosse sem dar satisfações a ninguém. E curvando-se mais: — Pense bem. Falava de um menino. um ruivo. E num movimento mais brusco explodiu dentro dele. como sempre. Os tempos aqui. em Ovelhas negras. [. em afirmar: era ofensivo. E como Caio queria ir para a Europa. sim. você quer? Ele voltou a cabeça até mergulhar os olhos no verde sem limites dos olhos dos outro. Márcio Souza escreveria o de Lula. Aquele mesmo que. O texto era um conto. sairia por sua boca escolhida . Dentes agudos picaram seu pescoço. quando Caio decidiu ir para a Europa. mas a direção do JB acertou. Collor tinha ganhado as eleições. o Jornal do Brasil pediu a Caio que escrevesse um perfil de Collor. os caras-pintadas.. meu bem-amado — o menino ruivo gemeu. foi considerado ofensivo demais pela direção do jornal. — Daqui a trinta anos. Antes do segundo turno da eleição. E assim foi. e Caio o republicou. para lançar seus livros. em 1990.tremenda. Aquilo desanimava Caio. E aceitou: — Quero. Vou perguntar pela última vez. que tinha um encontro com um outro menino. Quase como se adivinhasse o que viria depois: a roubalheira. Tudo isso. não dá para dizer. trinta anos mais tarde. em 1989.. Caio escreveu o texto. diria Caio. Fernando. — Para possuir todos. anos mais tarde. E tinha que ser. Fernando. Por outro. você foi o escolhido — o menino disse. Segundo o escritor. enchendo-o de ouro líquido. mas ele nunca chegou a sair. às vezes. Foi publicado depois pelo jornal alternativo Verve. — Mais fundo-pediu. Fernando. se pudesse. ao menos. com todas as características de ser o demônio. o impeachment. e muita gente também. não eram fáceis. O menino Fernando faria um acordo com o diabo para dominar a todos.. Se fez bem ou não em não publicar o texto.

uma tradução inglesa. de lealdade e busca de um mundo melhor. para a rádio BBC. e também na maneira trôpega de lutar por eles. um príncipe. Vai a Londres lançar a tradução inglesa de Os dragões não conhecem o paraíso — Dragons dont go to heaven — em uma feira de cultura brasileira. Caio foi correr atrás de lugar para morar e emprego. combatia moinhos de vento. até o lançamento da edição francesa do livro. para o jornal The Independent. que primeiro lhe deu o apelido (você é Quixote! Você é Quixote!. e provavelmente pensando em sua aparência. ao seu lado. ideais nobres. em março. nem imaginava o quanto o termo colaria em Caio. que só aconteceria dali a quatro meses. desajeitada. ele não tinha dinheiro nenhum. Se . para conseguir passar mais um tempo na Europa. enquanto ele autografava livros. Em novembro de 1990. Caio finalmente viaja à Europa. Às vezes.para chover sobre as cabeças e corpos de todos aqueles homens e mulheres que o aplaudiriam como o cavaleiro andante. Clarice lhe sussurrava no ouvido. Clarice Lispector. nove livros publicados. em algum lançamento). Quarenta e dois anos de idade. e a chance de sucesso parecia ser zero. Na ida à Europa. Só imaginou. Depois de divulgar seu livro. O quixotismo dele estava presente em seus ideais. 0 menino ruivo tinha desaparecido ao sol do meio-dia em ponto. dia de Exu. lhe assentaria bem como uma roupa feita sob medida. Molhou as pedras num jato prolongado de prazer-o primeiro. Quixote de La Mancha. Foi notícia por lá: deu entrevista para a revista Time. imaginou ouvir. — Como é seu nome? — perguntou então. um rei. viajou com a passagem que havia ganhado do prêmio Molière pela peça A maldição do vale negro. a maneira errada. quase dezembro de uma segunda-feira. Um deus coroado pelo lado mais negro de todas as coisas. Astaroth. para a Time Out. sua barbinha. mas ele continuava lutando. Por essas e outras é que a figura de Caio é tão associada a de D. nas pedras do Arpoador. e lá estava o Caio procurando emprego de garçom.

Não sei para onde. seu editor na Inglaterra. essa ele chamou de Dorothy. ele fez alguns free-lances para jornais no Brasil e. já que. uma negrona grita o tempo todo fuck you little devil! I’ll kill you. mas me soam mais para David Lynch do que para T. mora num bairro negro. uma espécie de Harlem londrino. No fim das contas. quando voltar ao Brasil. o Brixton. Isso é FUNDAMENTAL. assim. um subemprego qualquer. ele sonha. em março de 1991. onde ela se matou. a única diferença é que na Inglaterra as pessoas sofrem a crise com mais estilo. um irlandês. que tudo é perigoso. o lançamento da edição francesa de Os dragões. não tinha nenhum dinheiro guardado para segurar a barra nessa hora. queria demais começar a providenciar uma mudança de São Paulo. além de ver muitos filmes e ler muitos livros — seu inglês vai se soltando mais e mais — Caio fica na espera dos compromissos que tem a cumprir: algumas leituras e palestras na Inglaterra. Caio fica uns tempos na casa de Ray.S. teria que batalhar um emprego. Quero porque . Em Londres. um casacão de soldado alemão no mercado de Camden. Comprou um casaco.quisesse ficar lá. Seguindo o costume de dar nomes às suas máquinas de escrever. ". escreve a Jacqueline Cantore. Comprou uma máquina de escrever usada. pegou uma pedrinha do jardim dela. Ele sente que os tempos são difíceis. como Caio o descreve. Ray. quixotescamente. Caio estava feliz: visitou a casa onde morou Virgínia Woolf. Escreve a Magliani: "Depois desta. sempre sem acentos — o teclado era britânico. Eliot. Grita mais coisas que não entendo. Enquanto isso. com a qual passou a escrever cartas aos amigos. fez sua carreira internacional. bastard: para nigrinhos. depois. foi até o rio Ouse. uma SmithCorona. com sua inabilidade em lidar com questões materiais. por uma pechincha. Algum lugar onde eu possa plantar rosas. "Em cima. Em Londres. como São Paulo era. que seria seu companheiro por anos.

Em São Paulo. nunca saí de Santiago do Boqueirão". a violência. a Magliani. ele jamais deixaria de ser um gaúcho. Com todas as crises e dores e terceiro-mundismos. em São Paulo ou Londres. O livro viria a ser publicado." Nessa carta. E o descreve muito bem. quando se achava que tudo estaria bem. e Caio começou a perceber que ele seria. quando o livro for lançado lá: o retrato de um Brasil urbano. talvez. Assim que aceita sua condição de eterno estrangeiro. um estrangeiro. estendi . finalmente. ele desistiu depois de comentar que ia cair a maior água. pela Companhia das Letras. com o título — já modificado por Caio — de Estranhos estrangeiros. era a Europa. a poluição. o seu Brasil. Assim. Sobretudo ama. mas no mundo. das grandes cidades. sentia que a cidade o sufocava. a confusão está é nele mesmo. Porque ele era. dos clichês que se costuma apregoar do país. postumamente e incompleto. afinal. mas respondi com um grunhido. acima de tudo. ele achava tudo frio demais. afinal. apesar de todos os pesares. Mesmo aprendendo a gostar do Brasil. um homem sem lugar. E é isso que encantará os franceses. em que a metrópole é o pano de fundo para suas lembranças: O motorista japonês tentou puxar conversa. Em Londres. Como no trecho seguinte. um estrangeiro. violento. não estão em Santiago. escreve. E é assim que Caio começa. Caio pode parar e olhar ao redor e ver que os problemas. o Brasil urbano. "No fundo. não agüentava o moralismo das pessoas. diferente. em Porto Alegre. Caio ama e odeia o Brasil. ele conta ainda à amiga que planeja escrever um livro chamada Histórias estrangeiras. mas também poético. sempre. a amar o Brasil.quero cultivar roseiras. na mesma carta. Afastei o banco para trás. e não só em outras cidades. Em Porto Alegre. apesar de todos os defeitos. em Onde andará Dulce Veiga. um gaúcho da fronteira. Havia sempre um motivo para não gostar do lugar. pode aprender a amar o lugar onde está. Seriam histórias sobre a condição de ser um estrangeiro.

e era muito. muito maluca. Laura. e se algum diretor francês se interessa e resolve comprar os direitos? E se o Almodóvar se interessa. e muito amiga do Caio. Laura é uma das três irmãs Finocchiaro. Laura fez a música. a pilha de laudas virando pasta entre meus dedos. musicar uma letra que ele fez. e por quase um segundo. lá na Espanha? Caio está brincando quanto a isso. veloz feito uma mariposa que cruza subitamente o ar nas noites de verão. a Lory E Band. a camisa molhada. à procura de luz acesa para girar em torno. Vai trocar de estação. tive certeza. gaúchas. sobre o asfalto em brasa. finalmente. abri mais o vidro. Com trinta e poucos . mas ele não trocou. tão oriental. Com o sucesso do livro na Europa. talvez budista. muito rapidamente. A outra irmã. como quem de repente suspira ou pisca e segue em frente. como quem apaga ou acende uma dessas luzes para perceber no quarto vazio apenas a vibração de asas que restou no ar. eu queria ver no escuro do mundo. afinal de contas. mas ele brinca principalmente para convencer o amigo Guilherme de Almeida Prado. Débora é atriz. Caio começa a sonhar alto. enquanto o carro rastejava pelo trânsito difícil. De repente a voz rouca de Cazuza começou a cantar. cineasta. não o inseto que já foi embora. anos depois. cantora. Lory E. dentro do táxi que descia em direção ao Ibirapuera. rezei para que não sintonizasse num daqueles programas com descrições hiper-realistas de velhinhas estupradas. Laura Finocchiaro. era roqueira. O livro. vermes dentro de sanduíches. lembrei então de Pedro. tinha a sua banda. a fazer o filme. secando o suor. todas artistas.as pernas. Ele ligou o rádio. e a gravou. no fundo turvo do pensamento. Chama-se Poltrona verde. claro. surgiu da idéia dos dois para um filme. Isso me fez gostar um pouco dele. por quase um segundo. o vento soprava na minha cara. e pedi que aumentasse por favor o volume. outra vez. Dulce Veiga é uma história supercinematográfica. Caio chegou a pedir para uma amiga cantora. fechei os olhos. deitei a cabeça no encosto de plástico pegajoso e por quase um segundo. chacinas em orfanatos. sem querer nem provocar ou conduzir.

contando de suas experiências. Adriana escreveria mais tarde a canção Alegre. apenas de farra. atriz paulistana." Em homenagem a Caio. Adriana Calcanhoto. seria uma das únicas fitinhas que ele levaria para ouvir no walk-man. Cida Moreira. Cida ou Marina Lima. asfalto nas veias. faria sucesso com o espetáculo Terça insana. Escreveu releases para discos de Laura e de Cida. sem cobrar por isso. morreu de aids. Grace Gianoukas. gravada por Vânia Bastos. . ele admirava demais. em 1980. O teatro besteirol fazia crônicas sobre o cotidiano. besteira. surgiria uma nova tropa de atores e autores de teatro inspirados no movimento. e sempre fazendo referências ao álbum Senhas. filha de Dulce Veiga. Em uma de suas viagens à Europa. tinha o humor contundente e criticava a sociedade. Diziam que era bobagem. o espetáculo entraria no quinto ano de apresentações. O personagem Márcia Felácio. A Adriana Calcanhoto. é um pouco inspirada em Lory. escrita por Vicente Pereira e Mauro Rasi. Era a peça As 1001 encarnações de Pompeu Loredo. porque Londres em 1990 era apenas o começo — escreveu algumas cartas a ela. Caio amou o álbum. era um dos melhores amigos. sempre com mais e mais fãs. nas outras vezes em que esteve na Europa — sim. que fez sucesso com a canção Doida demais. como Adriana. Vinte anos depois.. e foi aí que surgiu o nome "besteirol". no entanto. O público e a crítica estariam prontos. Inspiração. prestando atenção em cores.anos. e homenagem. Caio adorava cantoras. como atriz. não assimilava. Chorava sempre na parte do "eu ando pelo mundo. Nenhuma das duas tinha qualquer ligação com o interior ou com a música caipira. comédia de costumes. Stella participou. vocalista da banda Vaginas dentatas. A crítica. do primeiro besteirol da história dos besteiróis. e a ouvia sem parar.. Em 2006. "deusa". da cantora. fez a dupla com a cantora Katia Bronstein. amiga de Caio. E Caio não gostava apenas de cantoras sérias. De Cida. Stella Miranda. ele levou a fita da dupla pop-humorístico-sertaneja Xicotinho & Salto Alto. Era amigo de muitas delas: Laura.

O projeto só foi iniciado em 2005. e depois de passear também pela França. como Dulce Veiga era um projeto dos dois. E. agora sim. com todo apoio das leis culturais. as dificuldades de se fazer cinema no Brasil eram imensas. suficientes para fazer litros de chá quando voltasse a Sampa. Foi só na volta a São Paulo que seu organismo começou a dar problemas. com umas pequenas infecções. Depois que voltou da Europa. Caio inveja a vida que Magliani conseguiu montar para si. decide visitar Maria Lídia Magliani. Caio fez uma pequena ponta no filme Perfume de gardênia. no frio. Quando ele volta a São Paulo. ambos de Guilherme. Lá. Seis meses depois de ter deixado o Brasil. do projeto de Dulce Veiga. cheia de belos morrinhos. na neve. pode cultivar uma horta. uma otite. lenta. Caio não viu Dulce Veiga virar filme. Depois. não havia dinheiro. Minas. ainda que muitos anos depois. feridas em dois dedos da mão esquerda e um da direita. era natural que o amigo filmasse a história. numa cidade pequena. Ali Magliani. e com vários atores consagrados nos papéis principais: Maitê Proença como Dulce Veiga. que é artista plástica. em Tiradentes. no filme se chama Caio — uma singela homenagem ao amigo — e é vivido pelo ator Eriberto Leão. histórica. no entanto. Apesar da sua amizade com as cantoras. Guilherme de Almeida Prado não conseguiu filmá-lo naquela época. A relação de Caio com o cinema de Guilherme vem antes. e também leu dois textos em off — com aquela bela. e com Laura. Ele colhe várias ervas. e de até a música estar pronta. Vai acompanhado da amiga escritora Sônia Coutinho. longe das capitais. A tranqüilidade da cidade. pode pintar e desenhar com tranqüilidade. 15 graus negativos. cheia e grossa voz — no filme A dama do Cine Xangai.finalmente. que Caio acha maravilhosa. ele estava bem. para esse tipo de humor. A médica chamou a infecção de . Caio está de volta. não impede que Caio fique doente. Carolina Dieckmann como Márcia E O narrador. porém. Primeiro. que no livro não tem nome. Renovado. elas pioram ainda mais. além disso. Caio está com a saúde meio arrebentada.

que o conheceu na oficina Anatomia do Conto. mas nem por isso deixava de fazer o trabalho bem feito. Um dos alunos de Caio foi o gaúcho João Batista. seu primeiro romance. nas viagens à Europa que fez. Escreve. como o pôster de uma peça de teatro baseado em Clarice Lispector: La passion selon G. Quem fez oficina com ele conta: Caio era um professor atencioso. não era motivo para fazer O Teste. sempre fazem de Caio um pouquinho mais feliz. Além de Curitiba para a oficina literária. principalmente. crítica literária para a Playboy. Entre uma viagem e outra. Para a Playboy. escrito aos 18 anos. ministrada pelo escritor na Casa de Cultura Mário de Andrade. dava textos de Clarice Lispector. pela Siciliano. A segunda edição do livro sai em 1994. Caio passeia por São Luís do Maranhão e passa o Natal de 1991 em Porto Alegre. lia o que a turma escrevia com carinho. Caio escreve ainda um ensaio sobre a atriz gaúcha Luciene Adami. A experiência de ter aula com ele foi marcante para muita gente. Ele fazia pelo dinheiro. João e Caio se tornaram amigos. necessariamente. depois mais laboratórios de criação literária. que atuou na novela Pantanal. Ele volta preparado para enfrentar o passado e reescrever Limite branco. o escritor acaba perdendo o . e os discutia depois. um contato com as raízes. Como sempre. em Curitiba. Dá palestras em várias cidades de São Paulo. em São Paulo.estreptococcia e achava que não. mesmo que não tenham nascido daí. aliás.H. amiga sua e de Ivan Mattos. escritores de renome. e às vezes comentava que preferia se dedicar somente à sua literatura. para os alunos lerem. também. que estava em cartaz na França. como o conto Tentação. sugeria mudanças. Caio não consegue parar quieto. volta renovado: uma viagem aos pampas. com a família. Mesmo com as infecções e os namoricos que eventualmente aparecem. Caio mandava sempre um postal ou trazia uma lembrança para ele.

uma frase de Camille Claudel numa carta a Rodin: "Il y a toujours quelque chose d'absente qui me tourmente. no décimo andar de um prédio defronte ao mar. sua única obrigação era deixar um texto pronto. mais uma pequena mesada de 1500 dólares. autor de Dinheiro queimado. na verdade. bem acompanhado. com tudo pago: ele era convidado da Maison des Ecrivains Etrangers (Casa dos Escritores Estrangeiros). Dessa vez. Assim à vontade. ele continuou morando no apartamento. O aluguel subira demais e ele não tinha como pagar. afinal. Caio rumou para SaintNazaire. Sem se preocupar demais. ficou apenas três dias: tinha medo de se jogar da janela do apartamento — que ficava num décimo andar — e foi embora. em Nova York. anos depois. por dois meses. uma pequena novela chamada Bem longe de Marienbad. no póstumo Estranhos estrangeiros. Funcionava assim: ele ficava dois meses num apartamento todo montado. inclusive com faxineira. Foi uma época de glória para ele: bem tratado. e o chileno Reinaldo Arenas. mesmo assim. Caio escreve um ótimo texto. Arenas. bem alimentado. um conto de fadas para escritores. uma pequena cidade portuária. entre outros. que fica em Saint-Nazaire. Seis meses mais tarde. Depois de dez dias em Paris. publicada na França e. ele realmente se atirou de uma janela e morreu. no final de 1992 já estava de viagem marcada para a Europa de novo." "Há sempre alguma coisa de ausente que me . enquanto a causa rolava na Justiça. Caio viveu. para ser publicado pela editora Arcane XVII. ao sair. na França.apartamento onde mora. e vales para ir ao cinema e teatro e bares de graça. Antes dele. passaram pela Maison o escritor argentino Ricardo Piglia. no Brasil. para uma bolsa de dois meses. O texto gira em torno de uma frase que perseguia o escritor há anos.

olho para fora enquanto o trem dispara sobre os trilhos. Desvio o rosto. de literatura. rue du Port —. mas pelo horror imóvel das enguias em sua jaula de vidro associado ao outro horror também imóvel daquela palavra. Não pelo quarto. em primeira pessoa. Caio grava um pequeno documentário para a Maison. e ela insiste. Preciso ficar sempre atento. que me soa romântico com seus erres rascantes ditos pela loura cinqüentona da portaria. Originalmente. com imagens dele andando pela cidade. de . Aumento o som da canção. Mais difícil. Wertheimer. O texto. pela comida ou qualquer desses outros detalhes dos hotéis." A novela. vai a seu apartamento. e promete. em um francês bastante razoável. Ele segue as pistas do homem. igualmente imóvel. madame. seria explicar por que me vou sem sequer passar uma noite aqui. ao final. Caio chamou a novela de O leopardo dos mares. mesmo insignificante. permeado de referências a Arenas e à canção de Barbara e F. em que se entremeiam passagens de sua narração de Bem longe de Marienbad em off. e por fim descobre a si mesmo. é a história de um homem que chega a uma pequena cidade na França para procurar um amor. congelado em inúteis delicadezas enquanto tudo ou nada ou apenas qualquer coisa. a possibilidade do reencontro e da harmonia. com certeza madame não compreenderia tanta ânsia tropical. no frio e nas brumas. pelo perigo de eu mesmo permanecer para sempre aqui. não devo me deter tempo demais em meus próprios olhos. e alguns dizem que há castelos pelo caminho. s'ilvous plaft.atormenta. Na temporada que passa em Saint-Nazaire. o que só se descobre ao final. com seu capotão inseparável. sendo o leopardo o próprio narrador da história. É fácil descobrir o endereço — dix-sept. em que ele fala de suas influências. em português. Ainda não anoiteceu. bien sür. descobre a busca do outro por si. madame. é delicado e belo. e uma entrevista. Marienbad. se agita e move e se perde em outro lugar. Pelo risco da imobilidade eterna.

Enquanto não está escrevendo. a filha de nove anos de idade de seu editor na Arcane XVII. Faz também amizade com Marina. com sua carteirinha de convidado. a realização de um ideal: todo escritor deveria ter aquelas condições para escrever. Quem cuida de tudo. pensava Caio. escreveu peças lindíssimas. a astrologia é importante para ele na criação dos personagens de seus textos. e uma dramaturga tcheca. só que todas girando em torno do tema HIV/aids. Ele perdeu mesmo a causa judicial do seu apartamento. começa a afrouxar. O documentário é muito bem feito. que. sempre pensa: onde está a câmera agora? Ele pensa o texto de uma forma cinematográfica. fade-ins e fade-outs. Ouve o álbum Senhas. Ele. com seus zooms. cortes e mudanças de perspectiva. Caminha na praia.cinema. SaintNazaire. De vez em quando. em sua ausência. Conversa também com Isabelle. Tudo na mais absoluta paz. e não tem mais onde morar quando voltar. que nunca teve muita paciência para crianças. e a personalidade bem formulada. diz que. enfim. é Gil Veloso. quando se descobrisse doente. ele seria chamado para muitas entrevistas. Caio aproveita esse momento da melhor maneira que pode. É nesse documentário que Caio fala que. e aquilo muito o chatearia. de poesia. independentemente de se acreditar ou não. era um pequeno sonho. de astrologia. quando está escrevendo. de Adriana Calcanhoto. cada um tem seu mapa astral desenhado antes da escrita. segundo ele afirma em carta. e dá a chance a Caio de falar de sua obra. uma turma da Estônia. lê. Letônia e Lituânia. porque no Brasil as coisas estão feias. de seus processos de criação. ele vai ao cinema várias vezes. alguns anos depois. Fala também da importância do cinema em seus textos. As pessoas costumam se referir a Gil como secretário de . repetidamente. Marina sabe tudo sobre Van Gogh e Caio adora conversar com ela. a gaivota que mora na janela da cozinha. participa de jantares e eventos com os outros escritores convidados da Maison. Daniella.

Amsterdã. Em seu estudo. Em 1993. foi Gil que desmontou o apartamento da Haddock Lobo e deu um jeito de guardar as coisas do amigo em sua própria casa. depois Kõln e Frankfurt. Tinha edições de obras do escritor que o próprio não tinha. O luxo na Maison acabara. pagava contas. Gil era fã da obra de Caio. porque ele exercia esse papel: ia na padaria. entre os quais estava Caio. embora não vestisse a camisa e saísse gritando palavras de ordem. sem nenhuma segunda intenção. isso não existia. vai para a Holanda. Em esquemas mais econômicos. Gil nunca recebeu um centavo para cuidar do Caio. Os dois se conheceram na metade dos anos 80. até se tornar uma espécie de secretário. ele viaja para divulgar seus livros. E foi ajudando. Gil brincava: anjo da guarda porque eu guardo suas coisas. Visitando Caio. o amigo Sappe Grootendorst vai buscá-lo de carro. Em seu caso. bancos. mistura de Gilberto Gil com Caetano Veloso. O escritor dizia sempre que Gil era um anjo da guarda enviado pelos céus para cuidar dele. Eles eram amigos. Tudo que fazia — nisso os amigos são unânimes em afirmar — era sem esperar nada em troca. por exemplo. papéis. Os dois foram sobretudo amigos. Ficaram amigos. para a qual entrevistou 18 autores brasileiros. Em janeiro. Para Caio. que acabavam ficando para ele. ele escreveu alguns contos cujos . porque ele deveria ser chamado de escritor gay. Gil percebeu a dificuldade do escritor em lidar com as coisas práticas da vida. fazia de tudo para o escritor. mas nem por isso Caio deixou de voltar à Europa. Graciliano Ramos não era chamado de escritor hetero. Para Amsterdã. Sappe constatou que os escritores brasileiros não gostavam muito que chamassem o que faziam de "literatura gay". fazer leituras e palestras. é isso? Afinal. ele tem carona. Sappe havia defendido uma tese sobre a literatura gay no Brasil.Caio. o que nem sempre era fácil: era preciso paciência para lidar com o Caio. Caio achou aquele nome ótimo: Gil Veloso. ajudando. às vezes. verificava contratos. convivendo com ele. a explicação é que. contas. Na verdade.

personagens eram gays ou em que havia sugestões de homoerotismo. Nada panfletário, mas em algumas situações os personagens apanhavam, eram criticados, se davam mal por sua condição. Saíam feridos, mas moralmente vitoriosos. Um exemplo é o conto Aqueles dois, de Morangos mofados. Dois rapazes, Saul e Raul, se conhecem ao serem contratados para trabalhar na mesma firma. A amizade dos dois irrita o pessoal da empresa e ambos acabam demitidos. Saul e Raul saem juntos, altivos. A derrota fica reservada para os que desaprovavam a amizade dos dois:
Pelas tardes poeirentas daquele resto de janeiro, quando o sol parecia a gema de um enorme ovo frito no azul sem nuvens do céu, ninguém mais conseguiu trabalhar em paz na repartição. Quase todos ali dentro tinham a nítida sensação de que seriam infelizes para sempre. E foram.

Caio odiava o rótulo de escritor gay, assim como odiava quaisquer rótulos que pretendessem dar conta de sua literatura em uma palavra. Escritor introspectivo, escritor de geração, escritor marginal, quais fossem. Ele não gostava, como em geral nenhum escritor gosta. Fosse como fosse, Sappe entrevistou Caio para seu trabalho, e anos depois traduziu alguns contos dele para o holandês. Agora ele ia buscá-lo para irem até a Holanda. Entre uma leitura e outra, Sappe e Caio arrumam tempo para se apaixonarem um pelo outro e viverem uma breve, porém bonita, história de amor. Fazem juntos, e à mão, um livrinho com um conto de Caio traduzido por Sappe, e vendem em várias livrarias gays. Nessa viagem, Caio vai ainda à França e à Alemanha, para cumprir compromissos relativos à sua carreira lá fora. Depois volta ao Brasil. Sem a ajuda que esperava receber dos amigos, já que estava sem casa e sem dinheiro, segue direto para Porto Alegre, para fazer um tratamento dentário com sua irmã Cláudia, que é dentista. Em junho Caio volta à Europa: Alemanha, para o Interlit

— o Congresso Internacional de Escritores do III Mundo —, depois Itália, para fazer o lançamento da tradução italiana de Dulce Veiga em Milão, Gênova e Veneza. Alegria, alegria: um dos sonhos de Caio é conhecer Veneza. Depois ainda, Berlim. Entre um compromisso e outro, Caio escreve aos amigos. Cartões para Adriana Calcanhoto, Luciano Alabarse. Um cartão rápido, escrito a quatro mãos por Caio e Gerd Hilger, seu tradutor na Alemanha, para Gilberto Gawronski. No cartão, Caio conta a Gilberto das leituras de Dama da noite que ele e Gerd estavam fazendo Alemanha afora. Depois Caio diria a Gilberto, a respeito de sua performance: — Acho que você teria orgulho de mim. Dama da noite é um conto de Caio, que Gilberto Gawronski, gaúcho, ator, adaptou para teatro e representou inúmeras vezes. A primeira apresentação da peça foi em 1988, no teatro Crepúsculo de Cubatão, no Rio de Janeiro. Depois, a peça foi para o Espaço OFF, de Celso Curi, em São Paulo. Ao longo dos anos, Gawronski a interpretaria ainda em Porto Alegre, Londres e no Rio. Em 1996, o ator a representou também na França, em Lyon. Gawronski dirigiu, montou e atuou tantas vezes nesse espetáculo que é difícil imaginar uma apresentação de Dama da noite sem o envolvimento dele; por isso é que Caio disse a Gilberto que ele teria orgulho dele. O escritor considerava o personagem tanto do ator quanto dele mesmo, que a tinha escrito. O posto de musa inspiradora do conto é reivindicado por várias amigas de Caio. Várias delas acreditam ter sido a fonte de inspiração para a mulher do conto, a dama da noite que conversa com um garoto, que ela chama de boy, e conta a ele sua história, que é a história, na verdade, de todo outsider, de todos os que vivem à margem da sociedade. O mais provável, contudo, é que a personagem seja um compósito, um amálgama da personalidade de todos essas amigas, como Claudia Wonder, Márcia Denser — a quem o conto é dedicado — e mais ainda um toque da imaginação do escritor.
Como se eu estivesse por fora do movimento da vida.

A vida rolando por aí feito roda-gigante, com todo mundo dentro, e eu aqui parada, pateta, sentada no bar. Sem fazer nada, como se tivesse desaprendido a linguagem dos outros. A linguagem que eles usam pra se comunicar quando rodam assim e assim por diante nessa rodagigante. Você tem um passe para a roda-gigante, uma senha, um código, sei lá. Você fala qualquer coisa tipo bá, por exemplo, então o cara deixa você entrar, sentar e rodar junto com os outros. Mas eu fico sempre do lado de fora. Aqui parada, sem saber a palavra certa, sem conseguir adivinhar. Olhando de fora, a cara cheia, louca de vontade de estar lá — tá me entendendo, garotão? Eu sou a dama da noite que vai te contaminar com seu perfume venenoso e mortal. Eu sou a flor carnívora e noturna que vai te entontecer e te arrastar para o fundo do seu jardim pestilento. Eu sou a dama maldita que, sem nenhuma piedade, vai te poluir com todos os líquidos, contaminar seu sangue com todos os vírus. Cuidado comigo: eu sou a dama que mata, boy.

.

e toda a troupe da Sabará. vai minha última foto. Te gusta?" .Verso do postal: "Com votos de Novo Ano LINDO p/ você.

.

O homem. Paulista até o Ritz. mas custa a achar um advogado que pegue o caso. escreve a Gerd Hilger. É um pouco caro. assistido no cinema. ela é experiente. encontra um advogado homofóbico — vivido por Denzel Washington —. Caio diz: — Uma vodka pura. embora precise dessa platéia. a peruca vermelha e os longuíssimos cílios e faz o monólogo sem parar. Uma das cenas clássicas era a de Tom Hanks ouvindo Maria Callas e dançando. fica hospedado na casa de Gil Veloso. embora Laika. um ser ambíguo. que no entanto acha injusta a demissão de Hanks pela empresa. mas logo arruma um lugar para morar. uma pessoa com uma postura mais agressiva que a do conto. Foi com Gilberto Gawronski que Caio assistiu no cinema ao filme Filadélfia. e bebem duas doses. Por fim. vivido por Tom Hanks. coloca a pesada jaqueta de couro negra. Enquanto corre o processo. Pronto: agora podem conversar de novo. andando pelo bar. Caio está de volta a São Paulo. segurando a aparelhagem do soro. a dama da noite vira Dana de Avalon. No final de julho. mais que uma drag queen. pode-se ver a decadência física do personagem. né. demitido da firma onde trabalhava por estar doente. decide processar a firma. Gawronski se equilibra sobre saltos plataforma de 14 centímetros. que retrata a história de um homem com aids. de 1993. Preciso ter uma ilusão de segundo mundo — você sabe que. com o choque do filme amortecido pela bebida. ela sabe o que faz. Nos primeiros dias. um flat na Frei Caneca. tenho uma alminha três chie". Caio e Gilberto saem para a rua. que fala apenas de uma quarentona que vive pelos bares à caça de homens. mas o escritor faz questão de um mínimo de conforto. Ao final do filme. Dana está sempre no controle. em silêncio.Na adaptação teatral. um PS: "Falei com Zulmira . Caminham pela Av. subindo nas mesas ou correndo. De chorar potes de lágrimas. Ao final da carta. do boy que a escute.

que era seu parente. muito amigo de seu marido. Naquele dia. De vez em quando. em certa época. Quando ela fala da propriedade que tem no Nordeste. que chamava de caudilhos. ela responde que vai lhe mandar o gibi com as notícias. ele se dá o direito de discordar. a autora nega. em julho de 1991. Embora Caio não faça muitas perguntas. e o apresentador.. Rachel era contra João Goulart e Brizola. Ele continua. ele pergunta: — Mas você não tinha noção das torturas? Rachel afirma que ela apoiou o golpe do Castello Branco.Ribeiro Tavares. Começa o bombardeio: — Mas você apoiou o golpe. da qual ela fazia parte. da TV Cultura. ele ironiza: — Quem sabe não convidam o Collor para a Academia. E pergunta do Collor: . na época um programa bastante influente. mas depois apoiara o golpe militar de 1964. Rachel? — à resposta afirmativa dela. Já no começo do programa.. pois Rachel colaborara com os trotskistas. Jorge Escosteguy. ao vivo. Quando a escritora defende a presença de José Sarney na Academia Brasileira de Letras. os entrevistadores questionam a escritora sobre suas posições políticas. Um desastre! Você acredita que ela me acusou de ter sido injusto com a Raquel (sic) de Queiroz? Manda MATAR (as duas)!" O episódio a que ele se refere é uma briga que teve na televisão. Quando ela fala que o PT continua o que o Brizola e os caudilhistas tinham de pior. Pergunta o que os membros realmente FAZEM na Academia. quando as faz. só os que vieram depois. A essa altura. Castello não torturara ninguém. O programa segue. ele pergunta se o latifúndio é produtivo ou improdutivo. Caio era chamado para ser um dos entrevistadores do Roda Viva. são provocativas. o embate entre os dois é claro. com a escritora Rachel de Queiroz. a entrevistada era Rachel. Caio pergunta sobre literatura. Segundo ela. se ela acha que a literatura brasileira é muito desprezada. Caio já começa perguntando se ela é reacionária ou comunista.

estou sendo exigida de me pronunciar sobre . Caio diz que ainda está aprendendo. erramos. eu só queria dizer isso. o apresentador intervém. coisa e tal. — Eu gostaria de responder a você que nós estamos num país democrático. — Eu respeito. e eu não vou me tornar constrangedor. — Mas é o mínimo. ele retruca. — Quero falar uma última coisa. todos nós somos humanos. Mas eu estou me sentindo extremamente constrangido de estar na posição de render homenagem ao tipo de ideologia que eu profundamente desprezo. O programa segue. — . mas antes que continue. Compreendo.. insiste. eu respeito suas posições e espero que você respeite as minhas... — Não é o mínimo. no meu ponto de vista. que você ajudou? Ela diz que só ajudou o golpe do Castello. eu acho também as suas muito constrangedoras para mim. a mais polêmica. — Tenho 42 anos e estive preso em 68! — Então você não aprendeu com o tempo. não. você tem que fazer perguntas. — diz Rachel.— Você não acha que o Collor tá dando continuidade ao que havia de mais lamentável no golpe militar de 64.. Por várias coisas que você falou. Estou me sentido muito constrangido de estar aqui. É a última coisa. e não render homenagens. Realmente. É porque você é muito jovem e não passou os tempos piores. nos equivocamos. desculpe — intervém Escosteguy. eu concluo que você colaborou para coisas muito negativas nesse país. — Se você tá perguntando isso em uma televisão oficial. porque passamos tempos muito piores. — Desde o Sarney que nós temos essa liberdade. quer dizer que há um grau de liberdade muito maior — diz Rachel. eu não tenho mais perguntas a fazer — diz Caio. — Não. tanto que calo — interrompe Caio. se as minhas posições são constrangedoras para você. até que Caio faça sua última manifestação. — Caio.

de criar. escreve a Gerd Hilger. Alheio a tudo isso. havia quem criticasse e quem defendesse sua posição. meu bem. Caio segurava o turbante. Cazuza. depois de acertado o lugar para morar. possivelmente. "Laika é laika. não se pode desistir de amar. parafraseando alguma atriz de cinema. O escritor se lembra de outros que foram: Orlando. de discutir isso com você. e sente o ritmo". lançar os livros. que se recusa a sarar." .esses temas que eu não gostaria de me pronunciar. Galizia. Ele então faz trabalhos como revisar traduções — mal-feitíssimas. sempre será". mas o dinheiro é insuficiente para Caio se manter. na opinião dele — feita por catedráticos da USP O pagamento? Um terço do que o tradutor original ganha. Mesmo quando se cura. é proibido — verbotten. triste. Caio não fala mais nada. agora. mas sente alívio pelo amigo. A performance de Caio no programa suscitaria debates sobre o papel do entrevistador e do jornalista na entrevista. Não se pode: é pecado. Ele passa o mês praticamente de cama. Ele fica triste. Caio. Depois uma otite crônica. sem querer sair de casa. De forma que é recíproca nossa posição. como escreve a Gerd Hilger: "Não se pode ser infeliz. e é preciso sobreviver. depois de lutar contra a aids por meses. não é assim em German? Não é possível adiar a vida. Afinal. O dinheiro que sobrou da Europa vai acabando aos poucos. Em setembro de 1993. batalha serviços. doente. fica deprimido. daí a pouco é hora de ir para a França de novo. morre Vicente Pereira. não se pode morrer em vida. Em janeiro de 1994. A coluna faz bastante sucesso. Mas tem que se levantar logo: afinal. o melhor amigo de Caio. O programa continua. em paz. só olha para o papel e rabisca. que o anima um pouco: "Segura o turbante. Já faz algum tempo que ele publica uma crônica quinzenal no Estadão. que dividiu apartamento com ele. Caio pega uma gripe que leva três semanas para ir embora. sentia o ritmo e ia vivendo. Mas se lembra também de uma frase que Vicente repetia.

Caio sempre arruma um tempinho para ir ao cinema.Em março de 1994. que ele odiou. que premia o autor e o tradutor do melhor romance estrangeiro traduzido no ano. e . enlouqueceu: ele tinha sido amigo íntimo dela. comprou os três livros e deu vários outros de presente aos amigos. comparado por Caio ao Programa do Jô. Vai até Lisboa. Por conta dessas e outras. também comparado ao Jô daqui.. comparou Dulce Veiga à cantora Maysa. o Cercle de Minuit. dirigido por Robert Altman e baseado no livro de Raymond Carver.. e ele vai divulgá-los em um programa de TV sobre literatura. Tendo assistido ao filme Kika. Tudo isso ele conta em carta a Maria Lídia Magliani. foto em cores em Telérama. Enfim. perfil em Les Inrockuptibles. para um garoto francês que viu a entrevista na TV. aqui no Brasil. mas só a nomeação já deixou o brasileiro orgulhoso. E há mais: sai matéria sobre ele na LExpress. em que os outros convidados do dia são Isabella Rossellini e Jeff Bridges. do diretor espanhol Pedro Almodóvar. depois volta à capital francesa. chamado Jamais sans mon livre (Jamais sem meu livro). Dessa vez. Está feliz: até autógrafo na rua ele deu. Caio chega à conclusão de que o Altman é um "Almodóvar COM substância". da Maison des Écrivains Etrangers. E coincidência das coincidências: quando Caio. Depois de dois meses na França. que está curioso por conhecer. Caio passa uns tempos em Paris. o Jayme Monjardim. Caio volta a Paris. John Updike acaba vencendo o prêmio em 1994. depois uma semana em Saint-Nazaire. um chileno "gordimenso". Ele faz também outro programa de TV. o diretor do programa. Não deixava de ser engraçado. com o ego nas alturas. Caio resolve dar uma passeada. que continua em Tiradentes. ele vende seu peixe. e os franceses estão comprando: Dulce Veiga é indicado para o Prêmio Laure-Bataillon. Apesar de muito requisitado para entrevistas. se apaixona por Short cuts. Seus livros vão indo bem no país. a gravação do programa foi engraçadíssima. Trocara fraldas do filho. na entrevista.

" Depois de Lisboa e Noruega. visitar Augusto. que. Aí se tirariam as dúvidas. não resisto". Na época. o envelope já aberto. se desse negativo. "Ambos me convidam para a colheita de narcisos da primavera. bactéria. Parece mesmo o melhor a fazer. Falava e falava disso com os amigos. Caio volta ao Brasil. mandariam fazer camisetas com EU SOU NEGATIVO! escrito bem grande. A frescura é tanta. . e não consegue melhorar. com medo da aids. E ele tem trabalho a fazer. "Se alguém perguntar por mim. claro.para a Noruega. Caio aceita a idéia. Caio estava apavorado. perdeu mais oito quilos. Uma semana de angústia. o que fosse — não o largava de jeito nenhum. já que as infecções não o abandonam. Já faz quase dois meses que voltou da Europa. Casou-se com um norueguês. achou que era melhor fazer O Teste logo. tem que voltar à Alemanha em outubro. Pediu para Graça buscar para ele. Até que Graça Medeiros. escreve a Luciano Alabarse. Chegou em casa. Magro do jeito que era. os resultados do exame demoravam uma semana para sair. de papel passado e tudo. sempre decidida. apreensão. mas a danada da doença — o vírus. diga que estou noivo de Isabelle Adjani — mas não fiquei metido e mando beijos. ele tem que se livrar dessa dúvida. eles fariam a maior festa. e por lá ficou. o amigo de infância que foi para a Europa e não mais voltou. e Caio poderia respirar aliviado. Caio perguntou: — E aí? — Não vai dar para fazer camiseta — respondeu ela. Não. Nesse caso. E na hora de buscar o resultado. de uma vez por todas. Caio não quis ir. em junho. Ela foi. e sairiam pelas ruas jogando confete. para a França de novo em novembro. Dá-lhe antibióticos e mais antibióticos. E foi só pisar em terras brasileiras para cair doente.

[. Alguma coisa tão estranha que ainda não aprendi o jeito de falar claramente sobre ela. Caio ainda não entendeu direito o que está acontecendo. Fazia sentido ele estar com aids: metade de seus amigos morrera em decorrência da doença. Dói muito.. e não à toa. essa coisa estranha. Em Carson McCullers doía fisicamente. publicada em 21 de agosto de 1994. Ele apenas diz que dói.SEIS Alguma coisa aconteceu comigo. Então serei claro. cheias de fios e tubos plásticos ligados a agulhas enfiadas nas veias para dentro das quais escorrem líquidos que. prometo.] Assim Caio começa a contar ao seus leitores de O Estado de S. É com terrível esforço que te escrevo. Para você. tudo é ainda muito turvo. chama-se Primeira carta para além do muro. Paulo que estava doente. feito Pessoa. saberei também esse jeito. Mas por enquanto. com suas veias inchadas. Como sempre tentei ser. está sob efeito de remédios. os braços cheios de agulhas espetadas. dói fisicamente escrever. vão me salvar. no corpo feito de carne e veia e músculos. e por favor. dizem. feridas. A crônica. A princípio. Quando souber finalmente o que foi. muito explícita sobre o mal que o acomete. Nestas duas mãos que você não vê sobre o teclado. outros tantos ainda lutavam contra ela. ainda. Ele se encaixava perfeitamente naqueles grupos e comportamentos "de risco". para mim mesmo. embora . tente entender o que tento dizer. mas eu não vou parar.. deitado numa maça de hospital. E isso agora não é mais apenas uma maneira literária de dizer que escrever significa mexer com funduras — como Clarice. Ele passara mais de uma década com medo de estar contaminado. e não é. ele encara a coisa toda bastante bem. Pois é no corpo que escrever me dói agora.

Graça ficou preocupada. Os médicos dão a isso o nome de "quadro de dissociação mental". O organismo não agüentou. todo o absoluto que estava contido no resultado positivo do exame. caíra a ficha: toda a irreversibilidade de sua doença. Pegou o telefone e calmamente ligou para os amigos. Gil resolve que era melhor correr com ele para o hospital. parecia descer sobre sua cabeça e esmagá-la como um trator. Vou morrer. Ele não falava coisa com coisa. O choque de saber-se condenado. e Gil logo percebeu. Tentou se atirar da janela. Graça. todo o significado. era demais. Vou morrer. doentes. Voltaria na segunda. ela não conseguiu voltar na segunda. Porém as coisas atrasaram. Foi o que aconteceu ao Caio. finalmente. A doença era a cara dele. se matar. pensou ele. tenho aids. Caio pensou. e não só ela. viram que estava sereno. ao telefone. não necessariamente promíscuos. não necessariamente drogados. o choque da descoberta. enfim. e ligou para ele. francês. Nada incomum em casos assim: grandes traumas podem levar as pessoas a ficarem temporariamente perturbadas. não necessariamente gays. Era peso demais. Não se assustou. teve que voltar ao Rio para cumprir um compromisso de trabalho. delirantes. Era como se já soubesse. De repente. Foram para o Emílio Ribas. e rumaram para o apartamento do Caio. Déa Martins e Gil Veloso também ficaram. Ligou para mais gente. Ele tivera. não se lembraria de nada.já se soubesse que o vírus não era exclusivista e atingia gente de todo tipo. veio a febre. Não era intenção de Caio. contando a notícia: Cida Moreira. acabou. Alguns amigos foram visitá-lo. Durante o final de semana inteiro — pegara o resultado numa sexta-feira — ficou bem. conversaram. Custaram a arrumar . de ser soropositivo. Muito alta. sua mãe. provavelmente. No dia seguinte. Lygia Fagundes Telles. Gil segurou-o a tempo. Ele não sabia o que estava fazendo. a febre levou ao delírio. que estava cuidando dele. recitava em alemão. Caio não estava nada bem.

sua irmã. por favor. brincou. A Maria Callas era o aparato do soro. "Bem-vindo a Filadélfia". talvez eu apenas não tenha compreendido ainda a maneira como eles são. o trauma. que Caio e Gilberto haviam assistido juntos. exatamente como na cena de Filadélfia. Ela dizia que não. ele escreveu a Primeira carta para além do muro. ele se agarrava à única coisa que podia ajudá-lo a viver: a literatura. Outros amigos iam visitá-lo. que ele levava dançando. incomunicável. já fazendo referência velada à doença.um leito no hospital lotado. Talvez não sejam maus. ele ia descobrindo um jeito de lidar com a doença. veio de Porto Alegre. diz: — Bem-vindo à Filadélfia! O médico vira para Gilberto. discretamente: — Eu não disse? Aí Gilberto relaxou. E termina o texto. cantou. Gilberto entra no quarto com o coração apertado. vegetativo. era apenas o susto. Mas como o médico podia saber disso? Ele pensou que o Caio achava estar. Antes de ter descoberto esse jeito. Graça Medeiros também já estava na cidade. Graça também teve uma discussão com o médico: ele dizia que Caio estava maluco. na Filadélfia. porém. Na crônica. assim: Tenho medo é desses outros que querem abrir minhas veias. Ele ia para os exames e pedia aos amigos: segura a Maria Callas pra mim. claro. era uma referência ao filme de Tom Hanks. Periga o teu amigo não te reconhecer. No dia seguinte. O médico insistia em dizer que Caio estava mentalmente muito perturbado — provavelmente com um tumor no cérebro. esperando ver o amigo totalmente abalado. a maneira . já muita gente tinha sido avisada: Cláudia Abreu. Quando Gilberto Gawronski apareceu para visitá-lo. como também o seu humor. E o humor do Caio não parava. Quando abre a porta e Caio o reconhece. realmente. Ele compôs raps para o AZT. Logo ele voltaria ao normal. Depois do susto inicial. Não só a memória de Caio estava intacta. o médico alertou: — Se prepara.

como tudo é ou tornou-se, inclusive eu mesmo, depois da imensa Turvação. A única coisa que posso fazer é escrever — essa é a certeza que te envio, se conseguir passar essa carta para além dos muros. Escuta bem, vou repetir no teu ouvido, muitas vezes: a única coisa que posso fazer é escrever, a única coisa que posso fazer é escrever.

Depois da primeira, vieram ainda uma segunda e uma terceira cartas. A segunda é um pouco mais clara que a primeira, e fala dos anjos que Caio encontrara em sua descida ao inferno: anjos de branco, funcionários do hospital; os anjos de negro, seus amigos que lhe trazem presentes e carinho. E os outros anjos, os que já foram.
Noite alta, meio farto de asas ruflando, liras, rendas e clarins, despenco no sono plástico dos tubos enfiados em meu peito. E ainda assim eles insistem, chegados desse Outro Lado de Todas as Coisas. Reconheço um por um. Contra o fundo blue de Derek Jarman, ao som de uma canção de Freddy Mercury, coreografados por Nureiev, identifico os passos bailarinos-nô de Paulo Yutaka. Com Galizia, Alex Vallauri espia rindo atrás da Rainha do Frango Assado e ah como quero abraçar Vicente Pereira, e outro Daime com Strazzer e mais uma viagem ao Rio com Nelson Pujol Yamamoto. Wagner Serra pedala bicicleta ao lado de Cyril Collard, enquanto Wilson Barras esbraveja contra Peter Greenaway, apoiado por Nelson Perlongher. Ao som de Lóri Finokiaro, Hervé Guilbert continua sua interminável carta para o amigo que não lhe salvou a vida. Reina Ido Arenas passa a mão devagar em seus cabelos claros. Tantos, meu Deus, os que se foram. Acordo com a voz safada de Cazuza repetindo em minha orelha fria: "Quem tem um sonho não dança, meu amor."

A terceira crônica é muito mais clara que as outras duas. Nela, Caio conta o que lhe tinha acontecido, detalhe por detalhe. O Teste, o resultado, as ligações para os amigos, depois a febre e o delírio, e o hospital. Caio ficou 27 dias internado no Emílio Ribas. Lá aconteceu uma coisa inesperada: ele recebeu tanto carinho das pessoas, tantas

vibrações positivas, como comentaria sempre em entrevistas dali adiante, que ele foi, serenamente, começando a aceitar. E que mais ele podia fazer? A doença era irreversível demais para que se pudesse lutar contra; era preciso aceitar. E ele aceitava todo dia, como escreveu na Ultima carta para além dos muros.
[...] O que importa é a Senhora Dona Vida, coberta de ouro e prata e sangue e musgo do Tempo e creme chantilly às vezes e confetes de algum carnaval, descobrindo pouco a pouco seu rosto horrendo e deslumbrante. Precisamos suportar. E beijá-la na boca. De alguma forma absurda, nunca estive tão bem.

A terceira crônica foi escrita já em Porto Alegre. O médico recomendara a ele: você precisa agora é de qualidade de vida. Então Caio decidiu: adeus, São Paulo. Fez uma festa de despedida na boate A Loca, na qual cantou Laura Finocchiaro e compareceram muitos amigos, como Paula Dip e o marido. Mário Prata se lembra de ter visto Caio pela última vez nessa festa. Muitas luzes vermelhas, verdes, azuis, muita fumaça. Prata estava sentado em uma escada quando Caio passou a mão em sua cabeça e subiu os degraus, leve, incorpóreo, parecendo, por causa das luzes coloridas, uma figura sobrenatural, um anjo. Caio voltou, então, ao Rio Grande do Sul, para morar com seus pais já tão idosos, no sobrado colonial espanhol no bairro Menino Deus. Há roseiras no jardim, como ele sempre sonhara em ter. E ele se dedica, então, a cuidar de si, de suas flores, de sua obra. Nunca foi tão fácil conviver com o Caio — alguma coisa nele meio que serenou. O mau humor de antes, as alfinetadas, o gênio difícil, tudo isso foi substituído por uma espécie de paz, de aceitação. Ele vivera os últimos anos em constante aceleração, viajando de cá para lá, ParisBerlim-Londres-São-Paulo, e agora era obrigado a parar. Ele sempre quisera desacelerar; invejava a amiga Magliani e sua horta, lá em Tiradentes. Agora era a hora. Não haveria outra, ele pensava. A vida não era mais adiável.

Ele descobriu o que já sabia ainda com mais força: amava a vida. Acalentava o sonho de fazer parte da primeira geração de sobreviventes, os primeiros a driblar o vírus da aids. Não a cura, que isso parecia impossível, mas alguma maneira de estabilizar a doença, deixá-la tipo a diabetes, algo crônico, porém não letal. Ele achava que, se conseguisse sobreviver mais um ou dois ou três anos, essa "cura" podia aparecer, e então ele poderia viver muitos anos mais. E estava certo: quando ele morreu, em 1996, já existiam os remédios que comporiam o famoso coquetel. Ainda não se sabia como dosá-los, e administrá-los nas doses certas para manter a doença em níveis controlados, mas já existiam. Em Porto Alegre, a rotina de Caio era simples: acordava cedo, tomava café, ia cuidar das roseiras. Escrevia um pouco: crônicas para O Estado de S. Paulo e agora também para a Zero Hora, de Porto Alegre. No Estadão, Caio escrevera crônicas de 1986 a 1989; depois de uma pausa de três anos, retomara seu espaço em 1992, e escreveu até dezembro de 1995. Uma seleção de suas crônicas para publicação em livro foi elaborada por Gil Veloso, quando Caio já estava doente. Pequenas epifanias foi publicado em maio de 1996, alguns meses depois da morte de Caio. A rotina leve na casa dos pais e as doses de AZT pareciam estar funcionando. Caio ganhara peso, os exames de sangue apontavam bons resultados de plaquetas, leucócitos e linfócitos. Quando precisou de um remédio mais caro, americano, que custava 4 mil dólares o grama, Lucinha Araújo, a mãe de Cazuza, e Scarlet Moon, esposa do Lulu Santos, conseguiram de graça para ele, conta Graça Medeiros. As coisas pareciam bem, e Caio decidiu que iria, sim, cumprir seus compromissos na Europa. Primeiro, a Alemanha. Em 1994, a Feira de Frankfurt foi dedicada ao Brasil; Caio foi participar da feira e depois seguiu por várias cidades alemãs, fazendo leituras e palestras. Ele iria ainda à França, passar duas semanas em Aries, numa mini-bolsa para escritores, mas não deu. Um teimoso

escreveu crônicas contando de seu novo Robocop. E também não queria aprender. o imunologista. Era lindo. É um dos estágios mais adiantados da doença. imprimia tudo. Ah. dando soquinhos em sua perna. De volta a Porto Alegre. Caio recebeu um presente inesperado. falou em cartas aos amigos que agora era um homem informatizado. Amigos de São Paulo — Celso Curi. E Caio ficou apaixonado por ele. Mas na ponta do nariz era demais. o médico. mandando ele parar. O sarcoma é uma espécie de câncer de pele.sarcoma de Kaposi resolveu brotar em Caio. Era. ou pelo menos assim parecia. ao lado dele. Não sabia salvar os arquivos. Caio antecipou a volta ao Brasil. uma calça clara. Lasanha. ele e Caio saíram juntos para o teatro. meio a sério. Celso Curi foi eleito para ir a Porto Alegre entregar o presente. o nome do imunologista. Quando Celso esteve em Porto Alegre para entregar o computador. e. Assim que terminava de escrever. E corrigia as provas à mão. E Caio. como sempre fizera. Além do laptop levado por Celso. segundo os cálculos dos médicos. por exemplo. apaixonado assim meio de brincadeira. provavelmente. Eduardo Sprinz. e brotar bem na ponta do nariz. Tratara de Lory Finocchiaro e de mais tantos positivos que havia em Porto Alegre. Maria Adelaide Amaral. Caio já devia estar contaminado há pelo menos uns dez anos. Chorava de molhar a calça. pensando no amigo que ia perder. uma lesão arroxeada que acomete as pessoas contaminadas com HIV. porque estava incomodando. Celso chorava o tempo todo. quando a lesão apareceu. a última vez que se veriam. Belíssimo. e o motivo era revelado agora: conhecer o . portanto. achando que havia um motivo pelo qual ele pegara a doença. Informatizado em termos: Caio não sabia muito bem mexer no computador. Celso estava muito mais triste que Caio. outras alegrias esperavam Caio: seu novo imunologista. Não foi surpresa. Vânia Toledo e mais alguns — fizeram uma vaquinha e compraram um laptop para ele. Caio adorou.

Claro que estou achando que tudo era fatal. e Laura. Ele passava o dia brincando com seus sobrinhos: Rodrigo. desenhando. e gostava muito de Frida Kahlo — queria sempre ver a foto daquela "mulher de bigode". filhos de Cláudia e Jorge. de um ano e meio. Rodrigo.. oeste. a quem Caio dedicou alguns contos. E Caio descobriu um remédio que. filho de Luiz Felipe. o Felipinho. não . quem lhe dava a promessa de vida. Cecília Niesemblat. tanto faz) onde seremos felizes para sempre — e o senhor Não será convidado a nos visitar. desenhando. estava mais próximo dele agora. Caio escreve a Gerd Hilger: "Gerd Alberto da Silva Hilger. ele se apaixonava pelo imunologista. eu recém comecei a pegar amizade. um clichê até justificável: se muita gente se apaixonava pelo analista. e que movido pelo amor descobrirá algum medicamento fantástico que me salvará a vida e certamente logo depois iremos viver em alguma ilha do Pacífico Sul (ou norte. virginiano como o Caio.. ou leste. que adorava desenhar. como o senhor é guloso! Já pedindo foto da MINHA lasanha completamente pelado(a). a não ser que leve o Valdir junto.médico. honey. afinal. Além da medicina clássica. Caio comprou uma caixa de lápis de cor enorme para a Laura.. e que natural e inevitavelmente ele também vai se apaixonar por mim. no entanto. E pelo médico. o tratava com florais de Bach. e o mais novo. quem o tocava. Para seu governo. Caio não estava disposto a apostar todas as suas fichas num número só. ele se tratava também com propólis e lama de Araxá. segundo ele. uma amiga antiga.. Felipinho. o Caio. o mais novo. era mais curativo que AZT: crianças. de onze anos. Sempre apaixonado. era incrivelmente louco por frangas. Via uma e começava a gritar: gangá-gangá! E o mais velho. E passava tardes inteiras sentado com ela. tinha o temperamento do tio: às vezes se isolava. de quatro. OK?" Por mais lindo que fosse o médico. que era quem. ontem foi apenas a segunda vez que nos encontramos! Mas falando sério — God! — que homem GOSTOSERRIMO. e que fiquei doente apenas para conhecê-lo.

nas crônicas. Ao contrário do tio. ou o inverno rigoroso que secava as plantas. ou a flor do girassol pesada demais para seu próprio caule — "como se não suportasse o peso da própria beleza que engendrou" — . Podia também ver o pôr-do-sol na usina do Gasômetro. Chegou a colocar na filha o nome de Itália. vivo. E Caio gostava de viver assim. artista plástico. Horas e horas ele passava no jardim. onde tirou algumas das fotos mais famosas de sua vida. cuidando. A sua principal preocupação era o jardim. era muito informático. De vez em quando. descendente de italianos. Ela vira cada casa ser construída. e sabia a história de cada morador. como Irineu Garcia. octogenária. D. mexendo na terra. sua vizinha. onde Caio passava a maior parte do tempo. Adorava conversar com Caio: ele lhe contava as histórias da Europa. Caio brincava: estava pensando em trocar suas credenciais de "jornalista e escritor" para "escritor e jardineiro". Junto com o marido. o escritor pegava a bicicleta e ia dar longos passeios no parque da Marinha. alguns deles loucos por jardinagem. que todos os dias passava em frente ao jardim. sabia lidar com computadores. Eram caramujos canibais querendo devorar as flores. Caio ficava encantado em conversar com ela. tranqüilo. Anita. ele falava sempre das dificuldades que tinha em manter o jardim. ou ervas daninhas de todo tipo. Conversava com D. mesmo nome de uma sua irmã falecida. era difícil manter o jardim vivo. principalmente em festas ou reuniões familiares. . Era calmo. Nas cartas aos amigos. vizinho da casa ao lado. ou Felipe. cuja casa ficava em frente à do Caio. lindo. porém. esforço. Anita fora a primeira moradora da Oscar Bittencourt. D. Anita era fascinada pelo continente. Havia as rosas. enfim.queria saber de ninguém. Conversava com os vizinhos. Caio estava ficando obsoleto. como queria. Era preciso trabalho. E bonito. as roseiras que ele amava — algumas das quais estão de pé até hoje. ou as formigas querendo devorar as angélicas. impressoras e tecnologias. para ir à fisioterapia. com quem o escritor trocava sementes e dicas e truques. rua onde os Abreu agora residiam.

nos últimos anos. Os dois tinham algo em comum: assim como Graça Medeiros. o bairro onde morava. para homenagear os moradores e o escritor. para ficar mais bonitinho. Caio e Amanda foram alunos de astrologia de D. nos anos 70. o chileno Carlos Aguirre Sepúlveda abriu uma pastelaria no bairro e. ele precisava de uma caixinha de isopor para guardar os remédios. Escreveu em uma crônica. fez uma faixa com a frase. Como Amanda Costa. com o casaco preto enorme. Emma de Mascheville. trabalhava na editora L&PM. uma alemã que influenciou várias gerações de astrólogos em Porto Alegre. Foi um sucesso. do qual Porto Alegre é apenas o que há em volta".Caio quase não saía do Menino Deus. Mesmo isolado. Emy. como a chamavam. de uma geração mais nova que a do Caio. certa vez: "moro no Menino Deus. na Jornada Literária de Passo Fundo. Caio estava lá para falar como escritor e ela. Agora vou forrar com papel de oncinha. Caio não perdia o contato com os amigos. compartilhava seus interesses literários e astrológicos. Em 1995. Caio dedica alguns textos a D. A tradução ter sido feita por Caio. aparecia. Amanda. novela da ensaísta americana Susan Sontag que descreve as reações de um grupo de amigos quando um deles contrai aids. Fez a tradução de Assim vivemos agora. Anos depois de sua morte. foram comer camarões no Tirol. Caio se sai com essa: — Obrigado. escrevia. emocionou . Sempre alguém ligava. Amanda levou a tal caixinha em um almoço. Os dois se conheceram em agosto de 1985. portador do vírus. sempre perguntava se ela não achava que as mudanças astrológicas não poderiam trazer a cura da doença. Trocavam cálculos astrais e confidencias nas cartas. um restaurante de que ele gostava muito. e se deram bem de imediato. Além das crônicas. que já era fã e se lembrava de vê-lo na rua. astróloga e amiga. Os moradores do Menino Deus consideram Caio uma espécie de patrimônio local. Caio continuava trabalhando em outras coisas.

uma espécie de autobiografia ficcional. contando as circunstâncias em que escreveu o texto. de vários livros contendo inéditos e dispersos. Ele se referia à publicação. a todo vapor: revisou Morangos mofados. Maurício Stycer. por exemplo. Paulo. no Rio de Janeiro. parece. Repetia sempre: — Não quero que façam comigo o que fizeram com Ana Cristina César. O livro traz desde A maldição dos Saint-Marie. Tanto que doou à Fundação Casa de Rui Barbosa." Caio trabalha também na literatura. depois da morte de Ana C. em 1995. O resultado foi o livro Ovelhas negras. comentários gerais. Pelo menos aquelas trocadas com outros escritores e artistas. escrita aos 13 anos de idade para um concurso escolar. "Sei e isso me emocionou muito. esse medo de Caio referia-se à sua ficção. escritos já em Porto Alegre. E mexeu em todos os seus guardados. que jamais teriam sido publicados com o crivo da poeta. o que gosta ou o que não gosta nele. que conteria textos de todas as fases de sua vida. em novembro de 1995. No entanto. O fato de essa história significar algo para o Caio e que vai significar algo para outras pessoas porque ele fez a tradução me deixa muito feliz e agradecida a ele. Cada texto publicado na obra vem precedido de uma pequena explicação do escritor. mas porque ele leu a história há algum tempo e sugeriu a sua publicação. Ele estava selecionando seus inéditos para que ninguém o fizesse depois de sua morte. pergunta em entrevista se ela sabia que o tradutor tinha aids. papéis antigos: selecionava textos para uma antologia. enfim. está muito boa. que saiu em nova edição pela Companhia das Letras. Quando o livro foi publicado. porque não entrou em nenhum livro. à publicação de suas cartas. Ovelhas negras era considerado por Caio um livro prépóstumo. que saiu pela editora Sulina. ele não fazia restrição. poemas inacabados. até textos mais atuais. uma parte de sua correspondência . da Folha de S. Não só porque ele é um conhecido escritor e a tradução.a autora.

E a minha herança para você. no entanto. se perdeu num incêndio.. muitas vezes era irascível e calado. são suas. embora a estrutura permanecesse a mesma. infelizmente.) De qualquer forma. Ao vivo. Não teve. Assim como não . alguns nomes substituídos por iniciais. Os trechos mais pessoais. Além de organizar Ovelhas negras. Caio esperava ter tempo de escrever também a volta das frangas e Estranhos estrangeiros. e assim o livro saiu. de 2002. escritora e amiga. A publicação da obra gerou polêmica: alguns amigos de Caio não quiseram dar as suas cartas. circulando. e animado. E o título passou a ser Inventário do irremediável. uma idéia — após minha morte. publicado em 1970. se você as tem. Inventário do irremediável. Se você guardou. Vamos que eu me torne um mito literário (melancolicamente póstumo. foram suprimidos. por ele achá-los repetitivos demais. que pessoalmente. e a língua ferina de Caio não costumava perdoar ninguém. Fez algumas mudanças na pontuação. e falava de sentimentos que não teria coragem de dizer cara a cara. em fevereiro de 1995: "Nós nos escrevemos dezenas de cartas. ganhou mudanças drásticas. E ele escreve a Lucienne Samôr. para diminuir o caráter definitivo do título original.. Caio revisou outros de seus livros. por considerarem a publicação prematura. nas cartas." Grande parte das cartas de Caio para Lucienne. Muita gente citada nas cartas ainda estava viva. e fazia piadas. e leve. correções. segundo o autor. Oito contos foram excluídos. Vários amigos e leitores foram pegos de surpresa: é que nas cartas Caio era muito mais engraçado. podia falar mais livremente. Não sei se você guardou as minhas como eu guardei as suas. Não era a pessoa deprimida que se poderia apreender de seus contos.passiva. melhorias nas frases. Algumas das que sobraram foram publicadas no livro organizado por Ítalo Moriconi Caio Fernando Abreu: Cartas. claro — é você publicá-las.

foi constrangedora. Ao final. a obra foi lançada depois da morte do escritor. Mas agora. . Ao que consta. Anos antes. pois ele queria ver o texto encenado. que é. chateado. Ele pedia aos amigos que se apressassem. de Lya Luft. O homem e a mancha. nasce o personagem obcecado com a mancha — uma alusão à aids. para acompanhá-lo na leitura para Moreno e Fábio Namatame. Era uma peça complexa: de dentro de um personagem. ninguém diz uma palavra. porém. De um ator procurando um personagem. num interessante jogo de personalidades. e desse nasce o Cavaleiro da Triste Figura. mas ele nunca chegou a encená-la. com sua formação de ator e sua voz. Ele resolveu. brincar com isso. e também à cidade do personagem de Cervantes. Organizada por Luiz Arthur Nunes. nem então e nem depois.assistiu à montagem de um texto de teatro seu. uma releitura de D. mas também a qualquer espécie de paranóia ou obsessão. La Mancha — e dele nasce D. e assim os personagens se alternam. como os bonecos de madeira russos. aliás. que estava em São Paulo. então. finalmente. Luiz começa a falar compulsivamente para preencher o silêncio. Caio faz uma bela leitura. Caio ficou arrasado. saía outro — na comparação do autor. O monólogo foi incluído no livro Teatro completo. Breda e Luiz Arthur iam montar a peça. também não pagou um centavo pelo texto que encomendara. O personagem o perseguia desde que Clarice Lispector resolvera apelidá-lo. em que um vai saindo de dentro do outro. que reúne todas as peças de Caio. Assim ele construiu O homem e a mancha. Quixote. inclusive a adaptação que ele fez de Reunião de família. A peça tinha sido escrita por encomenda de Carlos Moreno — o garoto-propaganda do Bombril —. que faria a cenografia. mas Moreno não disse absolutamente nada. um monólogo dirigido por Luiz Arthur Nunes e representado por Marcos Breda. A cena da apresentação da peça para ele. os baboushkas. Quixote. Caio chamou Luiz Arthur. na verdade.

A ironia da situação. E ele . Todo mundo tinha um exemplar em casa. Jô lhe pergunta se ele não pensava em escrever algum livro tratando da doença. por exemplo. livrosímbolo de uma geração. com a desculpa de lançar Ovelhas negras e a reedição de Morangos mofados. e ninguém pode imaginar o quanto estar ali significa para Caio. Já desde os anos 70 ele tinha seus fãs fiéis. portanto. a aids já aparecia em alguns textos seus: Onde andará Dulce Veiga é uma história de amor entre dois contaminados. que Caio fosse ignorado pela imprensa até 1994. Depois ele explicou que. Vai que eu não morro. muito popular em alguns meios. Ele sempre foi um autor procurado. Quem dirige o programa é o amigo de longa data José Márcio Penido. Caio aparece também em um Globo Repórter sobre aids. Ele foi convidado para ir ao programa do Jô Soares. Caio responde: — Não. porém. Quem o ouvisse falar. Ele tem planos. coisas a fazer. a partir de Morangos mofados. brincou. conversou com Jô. De fato. na verdade. Caio decidira viver uma vida mais tranqüila em Porto Alegre. os pedidos de entrevista aumentaram. antes. com que cara eu vou ficar? Risadas. Paradoxalmente. seu nome se tornou mais popular. porque ele tinha tentado. Caio se sentia desconfortável com essa situação. foi aí que a mídia começou a dar mais atenção a ele: choviam pedidos de entrevistas. risadas. Caio diz que não tem tempo para morrer.Desde a descoberta da aids. Na maior simpatia. mas fora vetado "por estar fora da mídia". respeitado. no entanto. o queriam. Em dado momento. Agora. muitas delas motivadas pela questão da doença. ir ao programa divulgar algum de seus livros. o protagonista e Márcia E A conversa segue. pensaria que a mídia jamais lhe dera qualquer atenção até o dia em que descobriram que ele tinha aids. o que não era verdade. E achava aquilo a ironia das ironias. E ele foi. depois que a aids já tinha sido citada. embora reclamasse exagerada-mente. Não se pode dizer. Em um depoimento muito bonito. fez piada.

a aids era uma doença cheia de estigmas. Caio expõe sua teoria de que. que morrera por causa da doença. E também a nós mesmos: embora. sim. ele não queria mais maltratar o corpo. Na visão do escritor. não tenha desistido do cigarro. ele falava. e os debatedores do outro — um deles era o dr. que é a sexualidade. se curará o ser humano. junto com a jornalista Regina Echeverria. os únicos que não eram médicos no evento. Diz que faz parte de uma geração muito colonizada. Falar da doença era a melhor forma de combatê-la. Caio estava lá para dar seu testemunho. um pouco. o desconhecimento da doença. muito mais letal que o HIV. não se envergonhar. mesmo sabendo que o interesse maior não era em sua obra. Os dois. e todos serão felizes para sempre. ficavam sentados de um lado do palco. se nada for feito — era a época em que se soube do vírus Ébola. E por isso era preciso desmistificar. e que portanto sempre acredita que vai haver um beijo da Doris Day com Rock Hudson no final. em São Paulo. Participa. na verdade.acredita na possibilidade de cura. de um simpósio sobre aids. assim como Regina. a Terra começou a reagir. Mas na época não se sabia disso. O escritor falou do que se passava física e emocionalmente com ele. os clichês associados aos soropositivos. das dores e dos humores. até o fim. no teatro do Maksoud Plaza. Mas é claro que a aids não era como o Ébola. beber. Assim que se curar o planeta. e havia medo. convencido de que era preciso mudar a maneira de tratar o planeta. . e sim na doença. Na entrevista. em 1994. Dráuzio Varella. e principalmente de combater os preconceitos ligados a ela. que cresceu assistindo ao cinema americano. Ele vê coisas piores que a aids vindo por aí. um dos primeiros médicos a combater a aids no país. e Caio estava. Por isso. ele dava entrevistas. que fora falar da história de seu marido. o planeta é que está doente: maltratada. mais do que nunca. que talha o ser humano no que ele tem de mais delicado. Comoveu a platéia e ajudou a diminuir. se drogar. por exemplo.

Seu ponto de táxi fica no Menino Deus. e preferia ser chamado de padrinho da feira. o escritor olhou seu nome no alto. ele desconfiou. como Mario Quintana. Quando o escritor ia para o hospital Moinhos de Vento fazer radioterapia. e muita gente legal já tinha aceitado antes. quando convidaram o escritor. um pé do outro lado e outro aqui. talvez. o taxista fã de literatura começou a escrever. ele relaxou e aceitou. sem descer do carro. depois. contando "causos" da vida de motorista. por ser.Por estar de volta a Porto Alegre. o médico avisou a Caio que ele . um escritor reconhecido. sobre acharem que ele já estava morto. ter outra chance. e um pouco. fã de literatura. insistiu para que assim fosse: a nomeação de Caio não era uma unanimidade. Mauro comentou com Caio que tinha visto o ou-tdoor de seu livro Pequenas epifanias em uma rua. Mas isso não é coisa para gente morta?. Influenciado por Caio. por ele estar doente e não poder. porém. o taxista. realmente. taxista. Caio foi convidado para ser patrono de Feira do Livro de 1995. Comentou algo sobre oportunismo. Caio pediu que o levasse até lá. a dois quarteirões da casa da família Abreu. E não deve ter gostado do que viu. dizendo que achava solene demais a palavra patrono. dizia. que merecia a homenagem. Brincava. estava mais é para padroeiro. E pediu para irem embora. Júlio Zanotta Vieiras na época presidente da Câmara Rio-grandense do Livro. Os argumentos de Júlio venceram. De início. pois ficou em silêncio a maior parte do caminho. Por essa época. Um dia. E faz sucesso. Por uns cinco minutos. Caio preferia ir sem ninguém da família para essas sessões no hospital. e Caio foi escolhido. hoje escreve colunas para o jornal Diário Gaúcho. para o câncer de pele. Quando esclareceram que não. acompanhava as crônicas de Caio no jornal. perguntou. Foram. Mauro. se bem que. Mauro Castro. costumava caminhar até o ponto de táxi e chamar Mauro para levá-lo. o patrono tinha que estar bem vivo. é claro. viu a capa do seu livro. No final de 1995.

muito sensível. Estavam os dois muito mal: ela saindo de um relacionamento. doente. Não é esse filme. perguntou: que flor é essa? Foi o suficiente para Caio se irritar. significativo. Chegando lá.precisaria extrair a vesícula. Gawronski discutiu com ele. que estava morando em Porto Alegre na época. Estava muito abalado. Com cinco minutos de filme. Quando foi ao cinema com Gilberto Gawronski. muito doente. A mãe não poderia ir com ele: com 71 anos. ele não tinha tempo a perder. Mas Caio decidiu adiar a cirurgia. Pegaram carona de carro com duas garotas amigas da família e foram. então. O pai. Tinha porque tinha que ver aquele filme. algo marcante. Déa olhou. não é isso que eu pensava. que ele adorava. que flor é essa? Então você não sabe o que é um hibisco? Ficou irado. havia um hibisco. foram. A companheira de viagem de Caio foi. de passagem pela cidade. escreveu uma crônica para Zero Hora contando da viagem. Era urgente. Gilberto pegou o carro. Ele iria à Praia do Rosa. Na pousada onde ficaram. Quando voltou. de três horas. da emoção que era voltar ao lugar onde nascera. Não ia lá há muitos anos. recebendo o título de santiaguense ilustre. Relembrou a infância. Caio decidiu fazer outra viagem. Ele queria ver O Filme. Caio queria ir embora. Como assim. Pediu a seu irmão Felipe que o levasse de carro até Santiago do Boqueirão. principalmente tia Elcy Abreu. não abandonaria a esposa em casa. buscou-o. Caio e Déa tiveram algumas briguinhas. desde que fora homenageado. Os irmãos tinham ocupações. descansou. Déa Martins. por exemplo. já tinha sofrido duas isquemias cerebrais e não tinha saúde. Ele tinha a sensação de que tudo que ia fazer seria pela última vez. às vezes era difícil lidar com Caio. mas não teve jeito: teve que levá- . Zaél. em Santa Catarina. ele. Queria despedir-se da cidade. A temporada na terra natal foi ótima: Caio conversou muito com as tias. Embora estivesse sereno a maior parte do tempo. escolheu um filme longuíssimo. aquela flor símbolo dos surfistas. Fez as pazes com essa parte do seu passado. deprimida. Depois de retirar a vesícula.

Mais ou menos na mesma hora. Quando voltou ao Brasil e soube da morte do . voltava do hospital e chorava.lo embora. Era um domingo. brigava com ela. a pensar nele. quero alguma coisa mais ou menos assim: Caio F. e ele. mas Caio mandava ele ficar quieto: você está mais deprimido que eu. pensar nele. a mãe. e Caio implicava com ela. recebeu uma proposta de trabalho no Rio e voltou para lá. ela tão velhinha e ele fazendo malcriação. céus. Os amigos o visitavam. No dia 25 de fevereiro. um dos poucos que acompanhou sua doença de perto até o fim. Ele explodia. Depois se arrependia. e ele lhes dizia: estou cansado. entrevistara Caio algumas vezes. Dizia que ela o atordoava. O pai. Quando chegou em casa. Ela o desgastava. Anos antes. 74 anos. 71. Quando chegou em São Paulo. pegou pneumonia. Parecia mais o hospital Abreu do que a casa da família. Déa teve que partir mais cedo da praia. estou muito cansado. sentiu uma tristeza. pensar nele. Caio faleceu. o jornalista José Castello. em 1984. Poucas semanas depois. Em casa. lhe dava nos nervos. do nada. Caio também antecipou sua volta a Porto Alegre: estava doente." Depois de vinte dias internado. ao passar por Porto Alegre. Reinaldo Moraes voltava de Buenos Aires de avião. a situação não era mais fácil. superada a timidez. soube da morte do Caio. Luciano. ele doente até o osso. Amanda Costa estava almoçando em um restaurante árabe com uma amiga e começou. o corpo do escritor não agüentaria a pressão. brincava o escritor. Mas no dia seguinte brigava de novo. uma e meia da tarde. se sentiu muito mal. Chorava no hospital mesmo. que. no Egito. não o deixava em paz. bem. uma dor no peito inexplicável. que muito amou. ouviu no rádio que tinha morrido. Caio tinha escrito ao amigo: "Na minha lápide. O amigo Luciano Alabarse. estava sempre atrás dele contando histórias intermináveis. Do outro lado do mundo. Era como se ele já não coubesse mais em seu corpo. A mãe doente.

foi a vez de seu Zaél. onde quer que estivesse. quem administra a obra dele é a família. depois de sua morte. fusos horários e tal. Seu Zaél sério. À sua maneira. quatro meses depois. Quando chega a parte de Gawronski. Na carta. Gilberto Gawronski da de cinema e audiovisual. para ser lida pelo seu pai. os restos mortais dos três foram transferidos para o Cemitério Ecumênico João XXIII. A vontade de Caio não foi cumprida. Dias antes de morrer. Escrevera. e viu que Caio morrera exatamente na hora em que ele tivera a sensação estranha no Egito. apenas. os amigos se reuniram para a leitura da carta. sete dias depois da morte. você vai ficar rica! Caio. claro: não registrara nada em cartório. na Casa do Sol. ele lê. Um ano depois. emocionado. As dez da noite do domingo. Fora se despedir. Queria que Marcos Breda ficasse responsável e recebesse os direitos de sua obra teatral. Pesando menos de 40 quilos. Caio foi enterrado no cemitério São Miguel e Almas.escritor. estava dando risadas. morreu. sem saber que isso ia acontecer. na missa. ele fazia pequenos legados. Um ano e dez meses depois dela. uma carta. Em três anos. se o Spielberg quiser filmar Dulce Veiga. Sua mãe ficou inconsolável. . filho. teve um acidente vascular cerebral (AVC) e não levantou mais da cama. onde ocupam o número 4352 07. Caio fizera seu testamento. Gil Veloso da literária. Hilda Hilst alega ter visto Caio. mãe e pai tinham falecido. ele tem que ler: — Betinho. Mas. fez as contas. Usava um cachecol com uma fita vermelha: os dois teriam combinado que vermelho significava que estaria tudo bem. em Campinas. Alguns anos depois da morte de Zaél.

EPÍLOGO Na praia do Rosa. Ia conseguir. com Déa. chuviscava. entrou no mar. . Mergulhou. foi andando até o mar. Pediu ao deus das águas que o curasse. cara. E voltou. Era sua caminhada. debaixo dos finos pingos de chuva. Pois bem. você vai pegar uma pneumonia. Atravessou a faixa de areia. Ele iria sozinho. mas satisfeito. Desde que chegara na pousada. tá louco? Caio insistiu. Lentamente. Lentamente. O céu estava nublado. em dezembro de 1995. e Caio teimou que ia entrar no mar. nem o galho ele queria. — Não entra. fez festa. ele estava usando um galho que catara na estrada como bengala. Jogou água para cima.

Pedras de Calcutá. 1988. Companhia das Letras. Agir. Agir. 2a ed. São Paulo: 3a ed. Companhia das Letras. Porto Alegre: Globo. Os dragões não conhecem o paraíso. Rio de Janeiro: 2a ed. Agir. 1988. 1988. Rio de Janeiro: 4a ed. Porto Alegre: Movimento. 2005. Salamandra. Rio de Janeiro: 3a ed. 1983. Siciliano. 2a ed. 2008. 1993. Porto Alegre: IEL/RS (Instituto Estadual do Livro). Morangos mofados. A Maldição do Vale Negro. São Paulo: Companhia das Letras. Porto Alegre: Mercado Aberto. Porto Alegre: 3a ed. 1984. 2007. São Paulo: 2a ed. Rio de Janeiro: Globo. Rio de Janeiro: 4a ed. 1995. Rio de Janeiro: Expressão e Cultura. 1995 (com o título alterado para Inventário do irremediável). 2a ed. 1992. 1995. O ovo apunhalado. Sulina. Agir. Limite branco. 1975.Obras de Caio Fernando Abreu publicadas no Brasil Inventário do irremediável. São Paulo: 3a ed. As frangas. 1992. 1984. Siciliano. Salamandra. 1971. Siciliano. 2a ed. Rio de Janeiro: 3a ed. São Paulo: Alfa-Omega. 1982. 1970. São Paulo: Brasiliense. 2005. 2007. . 1988. 1977. L&PM. Mel e girassóis. Triângulo das águas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.

1990. São Paulo: Global Editora. Estranhos estrangeiros. 2006. 1997. 2008. 2002. Rio de Janeiro: Aeroplano. 1997. 1995. Caio 3D: o essencial da década de 1990. Org. . 2006. 2006. Melhores contos de Caio Fernando Abreu. Teatro completo. 2003. Rio de Janeiro: Agir. Porto Alegre: L&PM. Rio de Janeiro: Agir. 2a ed. Fragmentos. Rio de Janeiro: 2a ed. 2a ed. Planeta De Agostini. Rio de Janeiro: Agir. Ovelhas negras. Porto Alegre: Sulina. 2007. 1996. Girassóis. São Paulo: Companhia das Letras. Porto Alegre: Sulina. Agir. Caio 3D: o essencial da década de 1970. 1996.: ítalo Moriconi. 2002. Caio 3D: o essencial da década de 1980. L&PM. Agir. São Paulo: Global Editora. Rio de Janeiro: 3a ed. Porto Alegre: Sulina/IEL.Onde andará Dulce Veiga? São Paulo: Companhia das Letras. Pequenas epifanias. Caio Fernando Abreu: Cartas. 2005. 2002.

pela generosidade com que compartilharam histórias. pelos conhecimentos sobre o Caio. por conseguir material ao qual eu não teria acesso de outra forma. A Evandro e Leandro Martins. Liliane. A Diógenes Fischer. e me contarem o que eles mesmos andam fazendo. por me ouvirem falar do trabalho. A Wendel. não só pelo abrigo. A Luís Francisco Wasilewski. por primeiro ter me apresentado à obra de Caio F. por ter me levado pra lá e pra cá em seu táxi quando eu precisava. pelo papel importante em apoiar e ouvir. A Paulo Camossa. a seu irmão. pelos mesmos motivos. vídeos. que aliás não devolvi — nem pretendo. Maria Aldina. mas por tudo. agradeço as dicas e idéias. Aos professores Ricardo Barreto. e a sua mãe. A Luiz Alberto Scotto e Carlos Locatelli. Agradeço também a Alex Werner. Clóvis Geyer e Tânia Rodrigues. e sempre. pelas fontes que me passaram. A Upiara Boschi. Tadeu e Romeu Martins. A Jorge Cabral. A Fábio Bianchini. Esse livro começou a nascer na Universidade Federal de Santa Catarina. por ter sido um bom e divertido cicerone. A Mauro Castro. por rodar Porto Alegre inteira de bicicleta para me entregar um vídeo com entrevistas do Caio. por existir. A Marina . agradeço por terem me ouvido falar e falar sobre o livro. A Jacques. eu sei. a Juliano. A Beatriz Tironi Sanson.OBRIGADOS A Cláudia. A todos. agradeço a minha irmã. darem palpites. os grandes planos e sugestões. grande amigo. e a seu pai e a sua madrasta. A Edirê Ferreira e Paulo Vaz de Arruda. livros e documentos relativos ao irmão. pela ajuda em Porto Alegre. Felipe e Márcia Abreu. sobretudo por gostar e me incentivar. por terem sido tão bons anfitriões no Rio de Janeiro. fotografias. Bruno Werner. por ler o texto e opinar. Agradeço à Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis (PRAE) pelo apoio dado. cunhado. Foram quatro anos monotemáticos. Em São Paulo. apenas. por fazer o contato com uma das fontes. emprestando-me seu Morangos mofados. e a Fábio Fabretti.

agradeço demais. Guilherme de Almeida Prado. Celso Curi. João Batista. Regina Echeverria. Pelo mesmo motivo. José Castello. Itália). Gilberto Gawronski. Ana Lúcia Vasconcelos. Luiz Carlos Fava. Por isso. Laura Finocchiaro. Déa Martins. Nei Duelos. Emanuel Medeiros Vieira. José Márcio Penido. Maria Rosa Fonseca. Cida Moreira. pelas batatas fritas e sukitas. . Stella Miranda. Fernanda. A minha família. Quero agradecer. meu obrigada a Carpinejar. Luiz Fernando Emediato. pela paciência. Jacqueline Cantore. agradeço aos dois. A meu editor. Santiago. a Ricardo Stefanelli e à equipe do jornal Zero Hora. Claudia Wonder. Jaime Gargioni. Pedro Paulo de Sena Madureira. Agradeço a Adriana Franciosi. Luiz Carlos Moura. Grace Gianoukas. Anna Gioconda Homem (D. Paula Dip. Maria Lídia Magliani. por estar sempre disponível. Luiz Abreu. Carlos Aguirre Sepúlveda. Vera Antoun. Ana Braga. Mário Prata. Ruy Krebs. Anita). Juarez Fonseca. Luiz Arthur Nunes. Por acreditar. E a Regina Carvalho. Graça Medeiros. por ler os textos assim que eu os mandava. pelo apoio. Marcos Breda.Darmaros. Carlos Emílio Corrêa Lima. por trocar figurinhas e contatos. Manoel. Gil Veloso e Luciano Alabarse cuidam com zelo da memória de Caio. especialmente tia Laura e minha mãe. Leide. José Mora Fuentes. Luiz Schwarcz. Antônio Neto. Rafael Franco e ao pessoal da revista Crescer. Kate Lyra. Reinaldo Moraes. por me ensinar sobre disciplina. Maria Adelaide Amaral. também. Marisa. por terem gentilmente cedido fotografias importantes para este livro. Agradeço a todos os entrevistados. Cada um a seu modo. que não é pouco. Júlio César Monteiro Martins. Irineu Garcia. À sua família. Márcia Denser. Ivan Mattos. pela fé no livro. João: pelo apoio. Itália Homem Ledur (D. pelo grande conhecimento de todos os assuntos e pela amizade. que me cederam seu tempo e suas memórias: Adriana Calcanhoto. Renato Campão. Ricardo Lombardi. a Jonas Lopes. Amanda Costa. Sônia Azambuja. Bruna Lombardi. Vera Spolidoro. sempre.

o melhor marido.br/group/digitalsource  http://groups. companheiro. me apoiaram: seria longo citar todos os nomes. Sempre. não teria conseguido terminar o livro. A todos que me ajudaram de alguma forma.com/group/expresso_literario    . mas obrigada. querido.google. finalmente. quero agradecer a Eduardo Nasi.com. Te amo. Sem você.Obrigada mesmo. E.   http://groups. amigo.google.

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful