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Caio Fernando Abreu - inventário de um escritor irremediável (pdf) (rev)

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Jeanne Callegari

CAIO FERNANDO ABREU
inventário de um escritor irremediável

CD
SEOMAN

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Esta  obra  foi  digitalizada  pelo  grupo  Digital  Source  para  proporcionar,  de  maneira  totalmente  gratuita,  o  benefício  de  sua  leitura àqueles que não podem comprá‐la ou àqueles que necessitam  de  meios  eletrônicos  para  ler.  Dessa  forma,  a  venda  deste  e‐book  ou  até  mesmo  a  sua  troca  por  qualquer  contraprestação  é  totalmente  condenável em qualquer circunstância. A generosidade e a humildade  é a marca da distribuição, portanto distribua este livro livremente.  Após sua leitura considere seriamente a possibilidade de adquirir  o original, pois assim você estará incentivando o autor e a publicação  de novas obras. 

 

Copyright © 2008, Editora Seoman Coordenação Editorial MANOEL LAUAND Capa e Revisão HENRIQUE MINATOGAWA Projeto Gráfico GABRIELA GUENTHER Foto da Capa e da Abertura do livro ADRIANA FRANCIOSI/AGÊNCIA RBS Checagem CLARA YWATA

Dados Internacionais de Catalogação Brasileira do Livro, SP, Brasil)

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Callegari, Jeanne Caio Fernando Abreu: inventário de um escritor irremediável / Jeanne Callegari. — São Paulo: Seoman, 2008. ISBN 978-85-98903-10-1 1. Abreu, Caio Fernando 2. Escritores brasileiros — Biografia I. Título 08-05638 CDD — 928.699 índices para catálogo sistemático: 1. Escritores brasileiros : Biografia 928.699 EDITORA SEOMAN Rua Pamplona, 1465 — cj. 72 — Jd. Paulista São Paulo — SP — Cep 01405-002 Fone: 11 3057-3502 info@seoman.com.br www.seoman.com.br Todos os direitos reservados e protegidos pela Lei 9.610/98. É proibida a reprodução total ou parcial sem a expressa anuência da editora. Foi feito depósito legal.

Em um conto como Pequeno monstro. através de um jovem ai ter ego e por vias tortas. Caio Fernando Abreu tenha sido um eterno adolescente — e o livro . desde cedo. com amor. com sua alma efervescente. Ela parte dos extratos remotos. de atração pelo risco mas também de fascínio pela beleza. a formação difícil do escritor. Viver é não só suportar. Para Jonas Lopes. Um delicado romance que. uma voz que desafinava igual a um pato. "Pernas e braços demais. pisa devagar sobre a matéria ardente. de Os dragões não conhecem o paraíso. cheio de paixão mas também de pudor. para acompanhar. um terrível retrato de si. Caio já rascunha. eu queria me esconder de todos". em cujas páginas avançamos com o coração na mão. mas sobretudo lutar contra o que se é. um desses romances tensos. a fraqueza e o risco de morte. Esta tendência logo se revela uma disposição para a fermentação interior. que também viveu como se sua vida não passasse de um romance. nos mostra Jeanne. pêlos nos lugares errados. PREFÁCIO O perfil de Caio Fernando Abreu escrito por Jeanne Callegari pode ser lido como um romance.Para Caio F. A estratégia narrativa de Jeanne combina com a estratégia existencial de Caio. movimento que o arrastou. Nem mesmo a prática do jornalismo. o menino Caio demonstrou uma inclinação para a arte". que se apóia no concreto e na objetividade. e para Eduardo Nasi. Jeanne começa imitando os romances clássicos. cheios de tristeza e de revolta. mas decisivos da infância. à distância. lhe serviu para abrandar as turbulências íntimas. "Desde muito pequeno. das primeiras descobertas e dos primeiros sustos. pelo apoio. Talvez se possa pensar que. diz. pela paixão. para temas ameaçadores como o erotismo.

Períodos fundamentais — como aquele em que. faz bicos. grudado a ele. e que o ajudou a delimitar. havia desde logo um poeta (pela postura. na periferia de Campinas — ajudam a fixar traços mais firmes. perderse na esperança de. se o jovem rebelde persistia. Hilda seguia a idéia do escritor grego Nikos Kazantzakis. ele se escondeu no sítio da escritora Hilda Hilst. quanto mais Caio se liberta e expande seus horizontes.de Jeanne Callegari. nos enche de argumentos a favor dessa idéia. "As vezes que tentei morrer foi por não suportar a maravilha de estar vivo e de ter escolhido ser eu mesmo". no início da década de 1970. de vez. rompendo de vez os limites de uma vida burguesa. mas um espírito — que o escritor adulto veio a nascer. Mesmo amparando-se no recurso mais didático da ordem cronológica. pois. nunca publicou). fugindo da perseguição da ditadura militar. como um duplo. mas avança. se os escrevia. Em sua chácara. nem assim a autora consegue organizar e domar a atmosfera de inconstância e de desamparo que cercou a vida do escritor. de um desviante. Mas Jeanne nos mostra também que. segundo quem. vai para a Europa. e não porque escrevesse versos. . datada do final dos anos 1960. a figura de um sujeito à margem. é preciso primeiro dela se afastar. Mas. enfim. escoltado por ela — como uma parteira que de um corpo arrancasse não outro corpo. na Holanda. Leva então uma existência precária. já é um homem que deseja abraçar o mundo. Caio escreve em uma carta aos pais. um rebelde. se achar. Pode-se dizer que foi na chácara de Hilda. mais afunda na dor. na Inglaterra. A bissexualidade se abre. Um homem que nunca desconheceu o peso do caminho que lhe coube atravessar. "Escrevo por uma espécie de incompatibilidade de gênios com a vida. para entender a sociedade. Lição que o jovem Caio tratou logo não só de imitar. Quando. mas de incorporar como fundamento de sua existência. na Suécia. sobrevive como pode. nos mostra Jeanne. por vezes. lava pratos.

Sua escrita está cada vez mais impregnada de lirismo. um lirismo seco e doloroso. Fraco. negativo. mas . em O triângulo das águas. e é nesse nó que Jeanne Callegari puxa o fio de "um escritor irremediável". de modo frontal. E aqui se deve entender o irremediável em dois sentidos: como uma condenação (algo que não tem remédio). e de solitário também". Jeanne reencontra Caio. É também o momento em que. "de calça de couro. escrevo para organizar o caos. Dedica-se cada vez mais a ler poesia — sobretudo Adélia Prado. para re-fazer". do fracasso. A relação de amor e tensão que tem com a poeta Ana Cristina César — que. ela resume. que comunica. O medo da loucura. ele mesmo descreve em uma crônica da época. ainda era chamada. recebe a notícia de que é soro-positivo. depois de uma doença longa e estranha. elegantes". jaqueta. De volta a São Paulo. "O ser todo exalava algo de sexual. aos 30 anos. Fernando Pessoa e Mario Quintana. Caio avança. e também de um misticismo vago. pela primeira vez. Fato. O anjo negro chega ao extremo até que ele mesmo. Um sujeito que. mesmo rápida. termina por cometer suicídio — é uma síntese desses sentimentos. se agiganta. de ignorância e preconceito. portanto. Mesmo cheio de terrores. mais especificamente na novela Pela noite. depois de muita luta interior. para não enlouquecer de impotência. gestos finos. em uma descrição que. de "câncer gay". em uma série de crônicas publicadas no jornal O Estado de S. é convertido por Caio em algo positivo mesmo. É o momento da virada — em que o positivo que indica a doença. Caio menciona o terror da aids — que naquela época. e como um destino (algo em que ele se lança para a vida e com grande vigor).escrevo para reinventar. A vida lhe abre uma nova face. encostado em um carro. fisga quase toda a alma de Caio Fernando Abreu. Paulo. apesar da sensibilidade extrema e da volúpia de viver sempre frustrada. muitas vezes. que se acentua na atitude pessoal — que cultiva com esmero — de um bruxo. do desastre. nunca desiste de recomeçar. Dor e escrita se conectam de modo fatal.

dos mergulhos negativos. mas também o encantamento das cartas de amor e. a reserva temerosa das grandes confissões. José Castello . A morte o pega quando vivia como um romântico jardineiro. Seu livro tem a objetividade dos relatórios científicos.cheio de coragem. É nesse andar das coisas pequenas que Jeanne o persegue até o fim. sentidos novos e vitais. quieto entre suas flores domésticas. é mergulhar no veneno terno da imperfeição. Jeanne se contém sempre. e se dedica a rever seus livros. o mais que pode. procurando extrair. apegado ao prazer de cuidar dos próprios espinhos. porque sabe que aventurar-se na vida e na obra de Caio Fernando Abreu guarda sempre um grande risco. no sul. ainda. ele volta a morar com os pais.

camaleão. herdeiros e viúvas. em uma tentativa como essa. O Caio obsessivo com o lado escuro de todas as coisas. O Caio do equilíbrio sempre além do comum. nas noites mais perigosas. a vontade de ficar sozinho. todos aqueles que ficaram carentes quando ele se foi. em 1996. desde o início condenada ao fracasso. o desespero. O Caio simpático com os outsiders. o escritor admirado e cheio de seguidores. fácil de amar. da leveza. sempre algo fica de fora da moldura. Tinham ciúme e zelo de tocar em memórias tão delicadas. do qual ele mesmo era um dos principais objetos. que alternava fases macrobióticas com costelas gordas. Muitos. estrangeiro. Muitos não queriam falar. apaixonado sempre. o Caio filosófico. mas com seus textos. Com todos esses tive que lidar. gostava de andar no limite. nunca a ponto de perder o caminho de volta. com quem. sempre flores. girassóis. filosofias e seitas. Ele foi milhares. rosas. que marcava. O Caio F. do banal. de um humor implacável e ácido.INTRODUÇÃO: CEM MIL CAIOS Um. inquieto. de retrato. Avencas. não foi a exceção da regra. chás medicinais com whisky. a literatura. nenhum e cem mil. de aids. o Caio pop. reservado para poucos olhos. mas que passeava e pairava por todas elas. o Caio deprimido. e também com seus órfãos. O título de Pirandello ronda as noites de quem se impõe a tarefa. sempre em busca da luz. das flores. O Caio que usava as palavras como arma de sobrevivência quando batia a depressão. que se recusava a fazer parte de movimentos. cigarro com jardins e flores. O Caio erudito. o Caio abobrinha. curioso e temerário. Achavam quase egoísmo . oculto pela linha fina. Costuma ser assim. dar entrevista. pelo contrário. O Caio inclassificável. não com pedacinhos de pão ou pedrinhas. de traduzir e dar unidade a todos os muitos que algum outro foi. suas memórias. queriam dividir sua visão do Caio. como João e Maria da fábula. O amigo difícil de conviver. de uma fidelidade canina com os amigos. mas nunca a ponto de se perder. Escrever sobre Caio Fernando Abreu. mas apaixonado pela vida.

buscar fatos muitas vezes esquecidos num cantinho das lembranças. uma biografia exaustiva. por trás de frases ditas e registradas em cartas. muitos arquivos a revirar. teríamos sobre o que falar. um recorte dessas milhares de faces. Cansa forçar a memória. emergia aquilo que eu buscava. Ainda há muito a dizer sobre Caio Fernando Abreu. muitas fotografias para nos fazer lembrar. Não há razão mais certa que a outra. aparecendo como em uma revelação fotográfica.deixar a beleza de anedotas e palavras para trás. e que homem extraordinário era esse!. amigo. em meio a suas rosas e a sua família. a boa vontade. Mais cem mil para serem estudados. a adolescência em Porto Alegre. Se a importância como escritor era flagrante desde o início. É que esse relato não se pretende definitivo. queriam que o mundo conhecesse o homem por trás do texto. no Rio. através de contos e romances. faltam ainda detalhes. Por definição. Sim. jornalista e personalidade foi surgindo devagar. e a todos agradeço a colaboração. A vida adulta em São Paulo. Partindo daqui. dá para ir apreciando o caminho. Fiz algumas descobertas sobre esse jardineiroescritor marcante e apaixonado. Muita gente para prosear a respeito. a delicadeza em retornar meus pedidos insistentes. Cansa reviver momentos tristes e a partida de alguém que se amou. Sobre o que conversaríamos se ele estivesse aqui? Sobre a infância em Santiago. Apesar dos tantos traços. personagem e autor da própria vida. a importância como filho. Antes é um perfil. como o personagem de Pirandello: a unidade. Jeanne Callegari . Por trás de depoimentos e histórias que marcaram. Fui achando que entendia Caio. cada nova nuance. Pois o ponto de chegada não existe. pensavam. do contorno esboçado. é imperfeito. me sentindo íntima dele. detalhe. A triste e heróica caminhada para o fim.

organizado por ítalo Moriconi e publicado pela editora Aeroplano em 2002. A carta de Manuel Abreu para o filho Zaél nunca foi publicada. assim como algumas das cartas de Vera Antoun e os postais de Pedro Paulo de Sena Madureira. . faz parte do acervo da família e foi gentilmente cedida por ela.As cartas de Caio citadas no livro foram extraídas de Caio Fernando Abreu — Cartas.

Outras pessoas haviam passado por lá: no final da tarde. Como jornalista. que estava junto no apartamento. conversaram sobre a situação. apenas. Gallery Around. um reflexo da febre. Caio não era um suicida. o amigo Gil conversava. e ambos chegaram com garrafas na mão. pela segunda vez naquela noite. menosprezava e era contra as pessoas que tinham a indelicadeza de se matar. que estou aqui com você — grita Gil Veloso. você vai fazer isso comigo? Se você se matar. naquela segunda-feira. Além disso. Era também autor premiado de teatro. Caio Fernando Abreu era um escritor consagrado. Ele argumentava com o escritor Caio Fernando Abreu. tinha integrado a primeira equipe de reportagem da Veja. Subiram. A reação era. Viveu com intensidade as décadas de 1970 e 1980 e. era considerado ícone de uma geração. deixando os amigos morrendo de saudades do lado de cá. Paulo. em São Paulo. Ele está ao lado da janela do andar de cima do duplex de um flat na Frei Caneca. por ter retratado tão bem experiências e emoções de sua época. O Estado de S. Para evitar que Caio fizesse uma besteira. se seria melhor interná-lo ou não. ganhador de dois prêmios Jabuti. Paulo. como IstoE. argumentando que se ele se jogasse lá embaixo. Nova. viram que Caio não estava bem. Inglaterra. o escritor tinha descoberto que era portador do vírus da aids. POP. O ano era 1994. Aos 45 anos. Há três dias. que se aproximava da janela e a abria. Mas Gil Veloso não pensava em nada disso quando foi socorrê-lo no flat. Alemanha. Déa Martins e Gil se encontraram no elevador. traduzido na França. e depois disso passara por vários veículos. Folha de S. com a vaga intenção de se jogar. Leia Livros. as coisas vão se complicar para mim. Caio ligara para os dois. Zero Hora. Itália e Holanda. Correio da Manhã. e . pedira para que levassem água. a situação poderia complicar para o seu lado.PRÓLOGO — Caio. Gil sabia que Caio o queria bem: não faria nada que pudesse prejudicar o amigo.

Agora era a sua vez. Aids. fingia estar vendo as borboletas imaginárias. agora era de verdade. com toda a força. Não eram poucos os amigos que Caio tinha perdido para a aids: Vicente Pereira. morte. Não houve jeito senão chamar uma ambulância e levá-lo para o hospital Emílio Ribas. Caio estava já completamente nu. Luiz Roberto Galizia. como se digerisse a situação. teve alucinações. Caio paralisou. os semsentidos que dizia. Lory Finocchiaro. Então veio a febre. doença. e . Não era mais ficção. Recitou coisas sem sentido. pensou Caio. contando que estava com aids. Gil decidiu ligar para uma médica. Depois. Déa foi embora e Gil ficou cuidando do Caio. como se já esperasse: a doença o rondava fazia pelo menos dez anos. entrou no jogo. acalmando o amigo até que pudesse descer novamente e pedir ajuda. Mas. Na primeira vez que desceu as escadas para alcançar o telefone. Aids! Estou com aids. que estava com ele. ouviu a janela se abrindo. delirou. em 1983.combinaram de ir se falando. Paulo Yutaka. para assim tentar trazer o doente de volta à realidade. não queria comer. começaram a aparecer os primeiros casos no Brasil. Deu um grito. o que estava acontecendo. algo mudou: ele finalmente pareceu assimilar. Eram mais ou menos onze da noite. dando a notícia. Gil. Gil ficou conversando. Da segunda vez. Cazuza. Estava recluso. Mesmo assim. quando. Assustado. e ele não se lembrava de mais nada. depois do fim de semana aparentemente sensato. A essa altura. Fim da linha. Correu e pegou Caio. ele diria que sua primeira reação foi de naturalidade. O escritor passara os últimos três dias ligando para os amigos. e parecia natural que assim fosse. conseguiu telefonar para alguns amigos e para a médica antes que Caio abrisse novamente a janela e ele precisasse argumentar para evitar novas tentativas. como uma criança. que se aproximava do parapeito. continuavam os delírios. Estava muito fraco. olhou para Gil e compreendeu o absurdo do gesto.

Plantar roseiras. para a casa dos pais. Primeiro. porque. de bebedeiras e namoricos. único responsável por seus atos. no final de 1945. por dois motivos. seu Manuel acreditava que o . O comerciante Manuel Abreu. Gil já havia ligado para Déa. Os amigos foram visitá-lo e sua irmã Cláudia chegou de Porto Alegre. ter uma vida tranqüila. Por isso. Coisa da idade. amigos do copo e de mulheres bonitas. Tendo escolhido a carreira militar. seu Manuel recebe uma carta do filho pedindo autorização para se casar. tinha passado por uma fase boêmia. No dia seguinte. Não se lembrava de absolutamente nada. Era tempo de Caio realizar um sonho: voltar ao Rio Grande do Sul. ele não nega. Caio ficou em uma maca enquanto aguardava que um quarto vagasse. transferido junto com o primeiro batalhão destacado para operar na cidade. Voltar a Porto Alegre. mesmo sem conhecer a moça em questão. nascido em 1887. Segundo. UM É a década de 1940 em Santiago do Boqueirão. Caio já estava em um quarto. não havia leitos. emancipado e. Voltar às raízes. portanto. O médico disse a ele: — Você precisa agora é de qualidade de vida. que também morava em Itaqui. pois os enfermeiros tinham medo da contaminação. porque Zaél já era homem feito. que também estava ali. do contato com colegas farristas. No hospital. tinha sido no Rio Grande do Sul que tudo tinha começado. senta-se para escrever uma carta ao filho Zaél.quem o vestiu e o colocou na ambulância foi Gil. normalmente tranqüilo. de 24 anos. pequena cidade ao sul do Brasil. quando. O rapaz. Afinal. Zaél fora morar em Itaqui.

Localizada na fronteira com a Argentina. um dos rapazes. o jovem sossegou. o pai responde à carta. Assim. Aproveitando para agradecer o lindo vidro de azeite que Otacílio e Jurema haviam mandado. e que ambos fossem dignos um do outro. comandava a casa. Dois anos depois. dando seu consentimento para a cerimônia. seria possível controlar a vida desregrada que o filho levara até ali. Zaél Menezes Abreu e Nair Ferreira Loureiro se casaram. ele termina a carta. Era ela que. dizendo que. se tornou . E Manuel deve ter gostado da nora que aprovara mesmo antes de conhecer. foi a única dos sete filhos a cursar faculdade. Quando Nair era pequena. Seria sempre conhecido como homem afável. Nair era mulher forte. trazia também recomendações para que Zaél economizasse dinheiro a fim de poder se casar o mais rápido possível. brincaria anos mais tarde uma das netas de dona Alcina. com boa vontade e energia. A carta. prejudicando o futuro de uma filha alheia". Manuel esperava que as qualidades da noiva de Zaél se confirmassem. a situação financeira da família ficou complicada: com a morte do pai. "porque não é lícito também ficares noivo indefinidamente. decidida. o presidente. Eram descendentes de portugueses. Válter. mãe dela. a mãe começou a costurar para fora para pagar as contas e. A família de Nair era das mais distintas: Alcina Alves Ferreira. poder mandar as crianças para a escola. Nair insistia em estudar: viria a ser professora. porém.casamento seria uma boa maneira de tranqüilizar a vida de Zaél. do teu pai e amigo. três se tornaram donas de casa. No mais. com pulso firme e determinação. provavelmente cristãos-novos. Depois da entrada dela na vida de Zaél. Zaél e Nair se conheceram em Itaqui. era prima de Rodrigues Alves. Manuel Abreu". tranqüilo. Itaqui tinha pouco mais de 18 mil habitantes na época e a base de sua economia era agropecuária. "Por causa dos narizes". Das outras meninas. No dia 15 de dezembro. assim. onde ela nascera. com "saudades e abraços de todos.

para o outro. Nair foi para outra das pequenas cidades da região dar aula em uma escolinha. Zaél sossegou. mas a anedota ficou na memória da família. Ela perguntou o que significava aquela inicial. Mais tarde. Zaél odiava profundamente o próprio nome. Assim que se casaram — sem festa. contrariado. e ele queria porque queria entrar na festa para buscá-la. e ele não pôde sair. A confusão foi desfeita. Quando Nair conheceu Zaél. Nair se formou na Escola Normal: ser professora era uma das únicas profissões possíveis para uma mulher naqueles tempos. Aos 17. de vez em quando soltava tiradas mordazes e engraçadas. como Nair. ela se mudou para uma fazenda em São Borja — a cidade dos presidentes Getúlio Vargas e João Goulart — para dar aulas para os filhos de um rico fazendeiro. ou na hora do footing. permaneceria o mesmo: embora calado. foi sua irmã Flora. anos depois. a se tornar prefeitos de São Borja. pois não havia dinheiro para isso — Zaél foi transferido para Santiago e Nair . que. Estava bêbado. ele não teve dúvidas e disse: Zeferino. e o outro. o encontro se deu em algum dos bailes. Um a um. os três garotos viriam. ele usava um enorme anel de ouro. Queria entrar fardado e a cavalo no clube. e assim foi até que conheceu Zaél. Na troca de olhares. mas os amigos do quartel o amarraram na cama. assim como o de sua irmã Elza. fora inventado a partir de partes do nome de seus pais (ManuEL e AdeliZA). freqüentes na época. quando Nair perguntou o significado do Z. Zaél discutiu com Nair. Depois da fazenda. Marciano. era difícil achar quem acertasse. Provavelmente. Aos 16 anos. Uma noite. Resmungava sempre algo sobre isso. Portanto. no entanto. em Itaqui. A única que também se tornou professora. Depois de casado.delegado de polícia. enquanto ainda eram noivos. paixões nasciam e morriam. As mulheres andavam para um lado e os homens. Seu humor. jogador de futebol — chegou a fazer parte do Botafogo do Rio de Janeiro. Israel. Todo mundo confundia: Ismael. na Praça Central. ela iria a um baile no Clube Comercial de Itaqui. com um Z gravado.

Achavam bonito. Nem só de quartéis viveu Santiago. que gostavam de namorar homens fardados. . quando Nair ficou grávida do primeiro filho: uma terra predominantemente militar. antiga São Tiago das Missões. Não pelo tamanho ou pela prosperidade. se destacava das outras pequenas cidades da região. regravado em inúmeras línguas.arrumou um emprego como professora em uma escola local. Em 1936 — dois anos antes de Santiago ser oficialmente promovida a "cidade" — o juiz eleitoral Moysés Vianna morreu abraçado a uma urna eleitoral. que. também. à maneira da Macondo de Garcia Márquez e da Santa Maria de Juan Carlos Onetti. o heróico juiz virou medalha: a "Medalha do Mérito Eleitoral Moysés Vianna". seus costumes e lendas. batizado Neltair Rebés Abreu. no entanto: houve um sambista. concedida a todos aqueles que se destacassem pela atuação em matéria de Direito ou Justiça Eleitoral. com seus heróis e mártires. que certamente possuía. Santiago era polvilhada de quartéis. pelo menos um herói. perto da fronteira com a Argentina. e ele ambicionava um dia escrever um grande romance sobre a cidade. tirou o apelido da cidade em que nasceu. também havia de existir um jogador vindo de Santiago: Anderson Polga. como qualquer outra cidade. Santiago viria a ser a inspiração para Caio criar o Passo da Guanxuma. o capítulo introdutório aparece em Ovelhas negras. em um país apaixonado por futebol. Assim era Santiago. Sorte das mocinhas. Houve. Túlio Piva. Santiago do Boqueirão. coletânea lançada no fim da vida do escritor. uma cidade fictícia. Por defender a lisura da eleição naquela localidade com a própria vida. ou pelas belezas. Lá nasceu também o cartunista Santiago. O Passo aparece em vários contos de Caio. enquanto era cravejado de balas. E. autor do sucesso de verão Tem que ser mulata. Embora o texto inteiro jamais tenha sido feito. no Rio Grande do Sul. O pai de Neltair era primo-irmão de Zaél. e a maioria dos homens que ali moravam era militar. em 1948. mas pela quantidade de quartéis.

não todo completo: seu Zaél. como o pai de Caio. dizem. Esse é o bebê Caio: cútis branca. nunca pára de crescer. que. sobre os cabelos da criança: "apesar de escassos. são touceiras espessas de guanxuma. o pai. está anotado. mas se imagina do Passo. nota-se que serão castanhos". Ainda assim. dizem tanto." Em 1954. que chá de guanxuma é tiro e queda. E um menino bem grande: Caio Fernando Loureiro de Abreu nasceu pesando notáveis quatro quilos. calorão ou friagem. [. nem sempre tinha paciência de escrever tudo que acontecia. que os ramos servem pra fazer vassouras capazes de assentar até mesmo a poeira daquele deserto próximo que sopra e sopra noite e dia sem parar e. O falecido presidente era natural de São Borja. quase não incomoda". O papai não vai enumerá-los por ser muito longo e estar com preguiça de escrever. anotaria. salpicadas entre as quatro patas da aranha — no meio dos girassóis do leste.. nem de pó acumulado. morre Getúlio Vargas. por exemplo. algum tempo depois." Eram oito e quinze da manhã do dia 12 de setembro de 1948."Isso é o que se conta. sofre ou sofrerá o Passo. o que se diz. De distúrbios estomacais. Lia tudo que saía sobre Getúlio nos jornais e tinha uma foto dele . De tudo.. No álbum do bebê. Nair de Abreu acabava de dar à luz pela primeira vez. de dois males jamais sofreu. Na rua Pinheiro Machado. pelos descampados do norte e até mesmo entre os vãos mais sombrios das areias a oeste — o que mais tem em qualquer tempo de seca ou aguaceiro. o que se vê e não se vê. Assim. Caio seria o único dos cinco filhos de Nair a ter um álbum de bebê... no primeiro aniversário de Caio. olhos pretos. à beira dos lajeados ao sul. 575. sem sinais particulares e "muito quietinho. As parteiras Julia Jacques e dona Alcina. o mais real. que o preenchia. mãe de Nair. se tornara getulista convicto. ai como dizem nesse Passo.]. com o passar dos anos. Zaél. confirmavam: é um menino. na seção presentes: "Ganhou muitos presentes.

Beco e Gringo brincavam de deserto.pendurada na parede. de sobrancelhas grossas e bem desenhadas. D. a mãe. Sendo professora. ou oásis. de muita cultura. se na política as coisas iam mal. Desde então. Quando ele morreu. só havia livros ideológicos. vizinho e primo dos Abreu. o menino. Nair. Zaél ficou arrasado. quando Caio tinha uns sete anos. O ambiente da casa dos pais era propício para isso: Zaél. escreve seu primeiro texto. homem sofisticado. ele. as crianças podiam ler tudo. que eles assinavam. grande amigo do Gringo. embora ele mesmo nunca tivesse deixado seu país — enfeitavam as prateleiras da casa. em um conto do livro O ovo apunhalado. o Beco (pronuncia-se Beco). também instigava os filhos a aprender. Aos poucos. Mas. Eles tinham que atravessar todo o deserto — o espaço entre a casa e o quartel — e conseguir víveres e peças para consertar o avião. o garoto continuou escrevendo e criando. pois seu pai era comunista e. em sua casa. e não era só ele. em casa Zaél só tinha motivos para alegrias. o menino Caio demonstrava uma inclinação para a arte que viria a desenvolver mais tarde. estava sempre com um livro na mão. Machado de Assis. lia muitas coisas quando ia visitar a casa deles. Desde muito pequeno. Luiz Carlos Moura. que seria um dos melhores amiguinhos do Caio a partir do primeiro ano ginasial. do escritor de aventuras Karl May — um alemão cujas histórias se passavam no faroeste norte-americano. na sua trajetória de escritor. iam faltando as coisas: . dividia a paixão por livros. O colega Ruy Krebs. como Caio chamou a brincadeira anos depois. O quartel no fim da rua era o oásis: na frente da casa dos Abreu era onde o avião dos três garotos tinha caído. irmão de Caio. a livros de Monteiro Lobato e a coleção chamada O mundo da criança. a história em quadrinhos de Lili Terremoto. como seria a vida toda. já muito magro e muito alto. Com seis anos. quando estudaram na mesma turma. uma menina louquinha que queria fugir de casa. As coleções completas de Érico Veríssimo. De vez em quando. Nenhuma leitura era proibida em sua casa: de gibis de aventuras e revistas como O Cruzeiro.

a Nairzinha. assim como inventam as brincadeiras de fantoche e de deserto. que de vez em quando aparecia por lá. e não o Caio. Armaram no teto um trapézio. Tinham que sentir. As crianças chegaram da escola. Caio morreria de rir sempre que se lembrasse dessa história. Certa vez. Caio encontra uma receita de massa para fantoches na antiga Revista do Globo. decidiram. e a Etelvina tinha que balançar pra lá e pra cá. então com dez anos. de Porto Alegre. filho de camponeses. Ruy se lembra de que. Não se machucou. Na casa dos Abreu havia sempre uma empregada doméstica. Em um desses balanços. suados. A sede era a garagem da casa do Sales Horácio. certa vez. Naquela época. fingir que era tudo verdade. Nada de jogar futebol ou vôlei: quando brincam de bola. Uma delas era também Nair. de cabeça baixa. Quando a moça se casou. Anos depois. E os irmãos Abreu. atuar. O único que às vezes participava da brincadeira era o negrinho Jorge. apesar do tombo feio. quem fazia os roteiros das peças que encenavam era ele. comida. Quase sempre só os três: a maioria dos outros garotos não conseguia ir até o final. a turma percorria as obras em construção atrás dos sacos que embalavam o cimento para fazer os cenários. escrita por Glênio . Houve também a Etelvina. a pobre caiu de cabeça no chão. Como a turma gostava muito dos circos e teatros mambembes que de vez em quando passavam pela cidade. colega dos meninos. os meninos estavam cansados. D. Caio. Em poucos quarteirões. Montou toda a estrutura no galpão de casa. pobre Etelvina! Certa vez. Cobertores velhos faziam as vezes de cortinas. por incrível que pareça.água. São duas da tarde. são jogos que eles mesmos inventam. os empregados dormiam em casa. fazer um teatro. E conseguiam. Ruy e Beco vão para a casa dos Abreu brincar. decidiram fazer um teatrinho de fantoches. tratada com carinho pelos pais de Caio. e Gringo. Caio resolveu brincar de circo. são os que gostam de brincar brincadeiras mais parecidas com as de que eles mesmos gostam. A noite. Nair ajudou a fazer o enxoval.

Numa cidadezinha perdida. o fornecimento de luz elétrica é intermitente e não há qualquer preocupação na cabeça das crianças. em Porto Alegre. não há asfalto nas ruas. nunca nos olhamos. E assim Caio descobriu que os poetas existiam. Na minha memória — já tão congestionada — e no meu coração — tão cheio de marcas e poços — você ocupa um dos lugares mais bonitos. dois malditos que se reconhecem sem que seja necessário sequer falar sobre isso. e inventam historinhas para as peças. escoava o som de música clássica. Da janela dele. Por agora. Eles fabricam os bonequinhos.Bianchetti. Oracy fez pinturas e esculturas em fios de . faziam também teatrinhos de sombra. Froilan Oliveira e Júlio César Prates. Que seria?. Mas isso seria muito tempo depois. a cidade é Santiago. talvez você nunca tenha percebido. Caio. as cabecinhas de papel machê. nos anos 80. "A carta foi incluída no livro O que importa em Oracy. adaptaria textos de outros escritores. Era um poeta. De vez em quando. Caio viria a escrever de verdade para o teatro. Além dos textos. Em carta escrita a Oracy. Faria suas próprias peças. Beethoven? Wagner? Caio dizia para Ruy que Oracy conversava com as estrelas. sentia com ele uma identificação. porque tinha um telescópio para observar o céu. praticamente. mesmo sem nunca ter conversado com ele. ele se perguntaria mais tarde. diziam. poeta. mora ali. penso. Uma cumplicidade muda. e tão secreta que. Sem nunca ter trocado uma palavra com Oracy. Caio se lembraria da afinidade que sentira pelo vizinho. Não dava para imaginar que. olha pela janela do quarto. em companhia da mãe. um coqueiro. muito forte. escondida por plantas. 'Nunca nos falamos. Oracy Dornelles. muito tempo depois. são meados dos anos 50. anos e anos depois. a não ser brincar. que depois se tornaria artista plástico famoso. Ficou só aquela vibração de silêncio. Uma casinha de madeira. Era um som novo para Caio. às vezes. sente o cheiro profundo de jasmins que vem do jardim lá fora — o cheiro era tão forte que às vezes a mãe sentia tonturas — e vê a casa da frente. chegaria mesmo a pisar no palco como ator. organizado por Fátima Friedriczewski.

que também estão com seus bonequinhos. e os meninos esperavam ansiosos o dia de assistir aos "filmes de mocinho". desenhadas. fazendo uma algazarra. uma a uma. lado a lado. quando crescesse —. Anos mais tarde. Um divertimento que todos adoravam era ir ao cinema. tudo. afinal Caio tinha esse jeito de impor sua vontade na hora das brincadeiras. as medidas inventadas. Depois de meses de trabalho. que está lotado. Ruy pinta as modelos e desenha os trajes típicos. só podiam entrar no cinema na matinê de domingo. Caio e Ruy pegam cartolina e tinta nanquim.cabelo e grãos de areia. Caio desenha as misses de maio. Vão ao cinema. as roupinhas. às quatro da tarde. Oracy foi um dos fundadores do Clube de Beethoven. Os dois estão convocados: é hora do desfile das misses. pequeninas. de tarde. Mesmo que não estivessem muito interessados. Quando as crianças eram mais novas. ele esclareceria: era Beethoven o som que Caio ouvia pela janela. Depois que estão prontas. e acabava sempre conseguindo o que queria. os nomes. aos berros: . com a diferença de que aquelas eram reais e essas. o Cinema Imperial. Em determinada hora. o mocinho começa a perseguir o bandido. uma para cada estado do Brasil: miss Rio Grande do Sul. Havia apenas uma sala de projeção na cidade. ou na sessão seguinte. as vinte e poucas bonequinhas vão surgindo no papel. Beco sai de casa. E a senha para a comoção geral: o pessoal todo do cinema começa a bater os pés no chão. miss São Paulo. em que os membros se reuniam para ouvir concertos do compositor — nas noites de gala. as crianças se reúnem de novo para brincar. Começa o filme. vestidos a rigor. Caio e Ruy chamam Gringo e Beco. miss Minas Gerais. Enquanto Beco e Gringo jogam xadrez — Beco seria campeão amador da modalidade. e eles vão ser os jurados. No outro dia. inventadas. Fã ardoroso do alemão. Que nem aquelas que vinham com as fotografias na revista O Cruzeiro. Pega seu boneco do "mocinho" e se encontra com Caio e Gringo. e ficaria famoso pelo circo de pulgas que mantinha.

eles já podem ir ao cinema quase todos os dias. Afinal. eram feitos com lascas de telha ou tijolo na calçada. o Beco e a empregada da casa do Caio. Um dia. AA era Antônio Aguilar. No verão. De tanto irem ao cinema. como concursos de desenhos para os cartazes dos filmes da semana. e também a praia de Jaguari. primo de Caio. Dessas praias. DD. pois assistiam a muitos filmes épicos e bíblicos no cinema. Uma vez. um nome que acharam no elenco de filmes mexicanos. Gringo e Beco também gritam e batem os pés. usando as iniciais dos nomes de artistas. em homenagem à cidade. mocinho! Aí. para anotar caso aparecesse um YY ou WW. O problema surgiu quando chegaram as letras YeW: onde encontrar um nome cujas iniciais fossem essas letras dobradas? A questão obrigava os meninos a levar caderno e lápis para o cinema. tiveram a idéia de fazer um alfabeto duplo. os jurados eram o Gringo. as famílias gostavam de acampar na beira dos rios. Ruy e Caio desenhavam os cartazes e. mocinho! Caio. Caio e Ruy se impressionavam. ao mesmo tempo em que sacodem no ar seus bonequinhos de mocinho. Havia uma praia muito bonita no distrito de Ernesto Alves. viram os desenhos de outro menino. feita de lajes de pedra. cidade vizinha. com os gladiadores greco-romanos. Por exemplo. dos bons. assim como no concurso de misses.— Aí. Doris Day e Diana Dors. e seria cartunista famoso. Caio pode ter tirado a descrição da . Os desenhos do Neltair. Claudia Cardinale. por acaso. principalmente. adotaria a alcunha de Santiago. perto de Santiago. MM. BB era Brigitte Bardot. O julgamento artístico dos meninos era bom. Caio e Ruy se consideravam os melhores desenhistas da turma. Era uma festa. Neltair cresceria. Marilyn Monroe e assim por diante. como a maioria na cidade. KK era Kay Kendall. com exceção dos filmes censurados para menores. Quando Caio cresce e seu companheiro passa a ser Ruy. Os dois passavam na calçada só para olhar os desenhos. inventaram passatempos relacionados. porém. e se espantaram. CC.

Certa vez. de amigos e parentes. ocultei o batizado. um acontecimento. Os garotos subiam na cama. como quando os garotos passavam o dia no enorme quintal da casa dos Abreu. Finalmente achei. era muito perigoso. A idéia era que fosse um lugar só deles. pitangueiras. na beira da sanga. Apesar de divertido. onde havia todo tipo de árvore frutífera: bergamoteiras. até cair no chão. indecifráveis como elas. Havia sempre um cachorrinho pela casa. de seu primeiro livro de contos. Eram nomes de criaturas estranhas. apropriando-me cada vez mais de sua natureza. que D. e começavam a pular. jogavam cobertores sobre as cabeças. no entanto.praia do conto Uma praiazinha de areia bem clara. e a mãe. Houve uma brincadeira. forneciam um contato com a natureza de que. pulavam. foi inventada por Caio: bailu. embora inconscientemente soubesse da inutilidade de tudo. não permitiu mais que os garotos brincassem desse jeito. Caio escreveu sobre isso no conto Corujas. Era uma novidade. que comandava a casa. O verde estava presente em muitas brincadeiras. A brincadeira. os gibis. Rasputin e Cassandra. goiabeiras. já perdidas no tempo. . assim como seu nome. Podiam passar a tarde chupando bergamotas ou brincando na casinha que Caio improvisara com uns compensados de madeira da embalagem de uma geladeira que haviam comprado. As praias e fazendas próximas. Pulavam. Calei a descoberta. misteriosas até hoje. os fantoches. ali. como se sutilmente as fosse amoldando à minha maneira de desejá-las. anos mais tarde. um pouco inspirado no Clube do Bolinha e da Luluzinha. alguém trouxe duas corujas. guardavam os brinquedos. de modo a não enxergarem nada. morando nas metrópoles acinzentadas e sem verde. Caio sentiria falta. Nair proibiu os filhos de fazer. Inventário do irremediável: Chamá-las de alguma coisa seria dar um passo no caminho de seu conhecimento. do livro Os dragões não conhecem o paraíso. ou algum outro bicho. Na casinha.

também chamado Caio. Ele tem medo. era mais frágil. Sabendo que Caio. Um dia. e os meninos iam lá: Santiago. balanços. A sociedade santiaguense da época não estava preparada. velados. tinha traços ambíguos. onde. Luiz Abreu. O capitão insiste para com que Caio suba. o irmão de Santiago. Chegaria mesmo a se envolver em brigas. De vez em quando. comprida e estreita. O professor. colega de Caio na 4a série. debocha do menino. escrever. — Caio. preferia desenhar. de patinação. Os outros meninos. o Abreu. Tem quadra de tênis. que ficavam em um plano inclinado.Mas nem tudo era brincadeira. riem da cara do Caio. A subida era pelas laterais. que não consegue. Caio está no Círculo Militar. um clube da cidade. aludindo à sua pretensa homossexualidade. Anos depois. que viria a se tornar o cartunista Santiago. Caio tem oito anos. exigindo. talvez por ser cunhado de Zaél e se sentir na obrigação de despertar no aluno um comportamento viril. Afinal. O capitão vivia implicando com ele. casado com a irmã do pai de Caio. másculo. Está na aula de Educação Física. se lembra do preconceito contra o menino Caio na escola. embora não fosse bom nos esportes. o outro menino começa a empurrar com força. o chama de cagão. Os alunos têm que subir em uma tábua suspensa. era competitivo: sempre . Caio não. que também dá aula de Matemática. Elza. Caio. cada vez com mais força. vem empurrar. não gostava de futebol. O jeito de Caio sempre fora um pouco diferente. desde pequeno. é o Capitão Pely. alguém fez em um jornal-mural uma caricatura do futuro escritor. o futuro escritor se senta no balanço. o tímido e retraído Caio aprenderia a lidar com essas situações e seria mais enfrentativo. O primo Neltair. apavorado. A maioria dos meninos sobe. não balança que eu caio! — berrava o Caio Abreu lá do alto. Era a época dos comentários maldosos. Outro menino. E outro dia. Sempre esse professor pegando no pé. passavam umas projeções de filmes. implicando. certa feita. que conseguem subir.

E sapeca. Nair estava sempre cotada entre as dez mais . quando as irmãs caçulas Márcia e Cláudia já eram grandes. não podia nem vê-las. mais velho.representava o colégio nas disputas de conhecimento sobre Geografia e História. mas tinham algum prestígio. Sabendo que o irmão mais velho odiava cebolas. que ficava acordado até tarde escrevendo. que acordara com a movimentação do irmão. foram todos veranear na praia. Uma vez. Valia a pena apanhar um pouquinho para ver a cara do irmão furioso. em 1957. Felipe não disse nada: simplesmente estendeu os braços e colocou as mãos em cima das costas do irmão. nasceu Luiz Felipe. Cláudia. por falta do que fazer. Luiz Felipe adorava provocar Caio. a família Abreu tem uma posição distinta na sociedade santiaguense. Caio adorava assustar as pessoas: talvez por tédio. Zaél era integrante da maçonaria. O grito de Caio. quando ele estava em casa sempre pegava as pessoas de surpresa pelos corredores e arrancava gritos de todo mundo. alcançava Felipe e batia. Caio ficava furioso: mais alto. Por essa época. Felipe pegava algumas e arremessava nele. nada. as peças que Felipe e Caio costumavam pregar um no outro continuaram. apavoradíssimo. Quando Caio voltou com um copo de leite e um prato de bolachinhas. batia nele. em Tramandaí. Esse. Não eram ricos. Mesmo com os garotos crescidos. acordou todo mundo na casa. Felipe. morreu logo após o nascimento. nem sentir seu cheiro. porém. Márcia nasce em 1960. copo e bolachinhas voavam para todos os lados. D. mas o castigo não conseguia fazer com que o mais novo parasse. quase todo mundo dormia. ao mesmo tempo em que leite. Em dado momento. desceu as escadas e foi até a cozinha pegar um copo de leite. Anos depois. como se fosse um fantasma ou aparição. que cresceu saudável. ele saiu do quarto. escondeu-se no vão da escada e esperou. em 1961. Cerca de dois anos após o nascimento de Gringo. menos o Caio. A década de 50 está terminando. Era noite. Nair teve mais um filho. na casa da família. e D.

Gringo foi apanhado e expulso do lugar à vista de todos. em que os alunos liam textos e recitavam poemas. George! — soluçou a moça. como se lembraria o escritor anos mais tarde. Como posso estar feliz? Não mereço o seu amor. Essa posição da família era estimada por Caio: uma vez. eu só pensava em vingança. e o casal era muito respeitado. Assim termina a história de Adriana e de seu envolvimento com os SaintMarie. muito "adequados". Caio brigou com Gringo por ter exposto o nome da família daquela maneira.elegantes da cidade nos vários bailes e festas a que compareciam. Caio encheu um caderno inteiro com o pequeno romance A maldição dos Saint-Marie. Venceu. Aos 13 anos de idade. "E evidente que a história cheia de clichês. pouco antes de morrer. A carreira de militar e a situação de professora conferiam certa diferenciação social na época. As meninas faziam fila para ler. mas talvez possa render algumas risadas". o rapaz abraçou-a e deu-lhe um leve . O meu coração estava cheio de ódio por Fernando. Para o concurso. participou de um concurso literário na aula. a notoriedade de Zaél e Nair se estenderia a Caio. A idéia do concurso era do professor Cavalcanti. enfureceu-se com o irmão Gringo por ter entrado sem pagar no circo que estava na cidade. quando incluiu o texto na coletânea Ovelhas negras. o filho mais velho. Você me perdoa? Como resposta. figura importante nos primeiros anos do escritor: além de organizar os concursos literários. donos de um suntuoso castelo na França: — Oh. inclusive de Caio e Beco. pois na sua ele e Ruy eram os responsáveis. e criou os jornais-murais. Pela via da arte. aqueles mesmos em que Caio seria ironizado por colegas de outra turma. que foram assistir ao espetáculo de forma lícita. fotonovelas e melodramas mambembes do Circo-Teatro Serelepe. Tanto ela quanto Zaél eram muito vaidosos. influenciada por radionovelas. muito finos. não presta. escreve ele. que demonstrara uma personalidade forte e independente desde os primeiros anos. o professor promovia aos sábados as Horas de Leitura.

Como prova de seu amor. Lenita. foi a Iara Nicola. algumas das pessoas que conheceram o escritor mais tarde. e sua amiga Nádia Ahmad se lembram de como gostavam de escorregar nas longas pernas do Caio quando ele ia visitar Iara. Contra o horizonte destaca-se a outrora mansão dos Saint-Marie. Caio se apaixonou por uma menina muito bonita que morava perto de sua casa. era considerado avançado para a época. a mãe dele descobriu. Caio roubou uma prova de História e entregou para a garota. Os meninos iam crescendo. e Beco presenciou a cena em que ela passava a maior bronca no filho primogênito. ele mandava as meninas comprarem balas . Mais atrás vê-se a silhueta de dois jovens abraçados. mas muitos: o Caio tímido da infância e da adolescência. quando já tinha sua homossexualidade estabelecida. Valéria Nicola. Nair. Por isso é que. Caio. onde as senhoras iam fazer os penteados da época. As duas estavam sempre por perto a pedido de D. A irmã mais nova de Iara. Afinal. Para cada pessoa que o conheceu. a pérfida Amália não fará mal a mais ninguém. A primeira delas foi Tânia. o Caio mais sereno e maduro do fim da vida. filha de D. que pedia que ficassem de olho no casal. Lenita. Incapaz de se condicionar a algum rótulo. com seus cabelos compridos. o Caio enfrentativo e ousado da juventude. se espantam de que tenha tido namoradas. por exemplo. A aurora já põe os dedos cor-de-rosa no puro azul do firma-mento. parecendo uma promessa de esperança e fé no futuro. começaram a aparecer as primeiras namoradinhas. que morreu de leucemia aos 15 anos.beijo nos lábios. De alguma maneira. Depois dela. Beco se espantou: só naquele momento é que ele ficou sabendo que o amigo tinha uma queda pela garota. Certa vez. Ela era aluna de D. Talvez agora eles possam ser felizes. um Caio diferente. agora transformada em ruínas. ele seria não um. Depois de um tempo. a precursora dos salões de beleza em Santiago. O espanto acompanharia Caio pela vida afora. às vezes oposto ao que outros se recordam.

bem longe daqui. e que tem vontade de morrer. Onde eu pudesse experimentar por mim mesmo as minhas asas para descobrir. não entende as matérias. E se não forem. Nair concordava. Com 15 anos. Confesso que tive vontade (e tenho) de morrer. cada riso de criança que vinha lá de fora eu julgava ser da Márcia ou da Cláudia.] Cada passo que ouvia no corredor pensava que era a senhora chegando. onde ninguém me conhecesse. Luiz Carlos Fava. mesmo que quebrassem no primeiro vôo. e até mesmo insistia. as coisas não começam bem para o primogênito de D. e sabia que Santiago não poderia satisfazer seus anseios.. Caio fica doente e escreve uma carta medonha a seus pais. com febre e sozinho. ferido.. seu primeiro romance: Eu gostaria de ir embora para uma cidade qualquer. Diz que esteve na enfermaria. não consegue arrumar amigos. O colégio era caro e bom. se elas são realmente fortes como imagino.para namorar Iara. Embora a mensalidade pesasse no orçamento dos Abreu.] . porém. enfim. que acabaria por se casar com outro santiaguense. Como escreveria depois em Limite branco. Afinal de contas. Ele não se adapta. e D. um oposto de Caio em todos os sentidos: esportista. [. novos lugares. Caio tinha que seguir em frente. másculo.. o filho queria.. No internato. humilhado — mesmo assim restaria o consolo de ter descoberto que valho o que sou. Ele queria conhecer novas coisas. mesmo que após um certo tempo eu voltasse derrotado. "[. pedindo para irem buscá-lo. Nair. Caio muda-se para Porto Alegre para estudar no Instituto Porto Alegre (IPA). onde não me tratassem com consideração apenas por eu ser "o filho de fulano" ou "o neto de beltrano". jamais leria os livros do conterrâneo. que ele tivesse a melhor educação possível.

. de notórios altos e baixos. Mas não é não! Os outros que chegaram junto comigo já estão adaptados. irmão de Beco. que. eu não agüento mais! Veja se a senhora dá um jeito! Isso aqui é um verdadeiro inferno. Finalmente. A crise depressiva tinha passado. etc. que começou a freqüentar o apartamento do escritor nessa época. No ano seguinte. D.. espírita. não me deixe só! Responda logo. [. Foi por intermédio dele que Caio ingressaria no Jornalismo. Ruy passou a dividir o quarto com Caio. sempre muito extrovertido.. muda-se para a pensão de uma viúva. e seu irmão Antônio também foram morar na pensão. Ajude-me!" A carta dá a perceber uma faceta de Caio: o pendor para o dramático.. Caio vai para o Hotel Uruguay..] Pelo amor de Deus. A filha de Manoelito. o exagero. enxergava uma aura azul ao redor do Caio. Manoelito lhe deu muito apoio: apresentou outros escritores.] Há várias noites que não durmo e tenho pesadelos horríveis. que era amigo da família de Ruy. Logo Manoelito conheceu também Caio e leu seus contos. Por coincidência. de Santiago.[. Caio publica seu primeiro conto em . e ele acabou não voltando para Santiago. Quando Zaél chegou. Maria. Caio já estava muito melhor. era tortuoso e demorado vencer a distância de mais ou menos 500 km que separa Santiago da capital. que o impressionaram muito. Agora é que descobri o quanto gosto disso daí. ando sempre com olheiras e não como nada. como Érico Veríssimo. Após receber a carta. no centro de Porto Alegre. mãe.] Por favor. E também a sua personalidade. e Antônio com o Carlos Renato.. mãezinha. No ano seguinte à sua vinda..A senhora vai dizer que isso é normal. foi logo se apresentando. Na época.[. Gosto muito da senhora. de carro. Depois de morar no internato do IPA. que alugava quartos para estudantes. o amigo Ruy. a teatralidade.. Acho que até emagreci. morava no mesmo prédio o escritor Manoelito de Ornellas. os pais alarmaram-se e Zaél foi buscar o filho em Porto Alegre.

noutro dia suas mãos tocaram-se rápidas sobre o teclado. humilde demais. sempre quieto. Teresa. textos mais sombrios. na revista Claudia. Ela e Caio se correspondiam há algum tempo e. de gente quase velha. mas ela tem esperanças: compra um piano e o convida para lhe dar aulas. a dela hesitante. Afastaram-se logo. Em 1967. ela nada respondeu: preferiu manter segredo até que a revista saísse. e por isso mesmo mais desprezível. como consciente do desprezo que provocava. nervosa. Mas ao cair de uma tarde. Ele está muito mais para sapo que para príncipe.. ambas. e acaba encontrando Francisco. tocando-se como que por acaso. Teresa se apaixona pela história do Príncipe Sapo. O homenzinho apagado demais. nada feliz. Caio acabaria por trancar a matrícula e freqüentar o curso de Arte . O conto é sobre uma mulher. Caio entra para o curso de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). No dia seguinte buscaram-se discretamente. depois. O conto. que passara em Educação Física. A dele trêmula. quando ele enviou o conto para ver o que ela achava. Procurando consolo nos livros. encabuladas. A publicação foi uma surpresa de Carmen da Silva. quase sem ilusões. No começo tinha nojo dele. Uma semana mais tarde olharam-se nos olhos. Decide procurá-lo nos homens que passam nas ruas. Olhos fatigados. depois com simpatia. única de uma longa fila de irmãs a não ter conseguido casar. Bem. depressivos. tristes. revista que inaugurou um novo estilo entre as revistas femininas da época. já é sintomático dos primeiros textos de Caio. Teresa surpreendeu-se a olhá-lo com pena. depois com compreensão. as quatro mãos. um professor de piano.um veículo da grande circulação: O príncipe sapo. psicóloga e editora da seção A arte de ser mulher da Claudia. Comemora o resultado na casa onde estava morando agora o amigo Ruy..

a busca de uma identidade e o homoerotismo: vários temas que reapareceriam depois na obra do escritor são tratados no livro.Dramática (CAD). sob a ótica . Caio e Noll dividiam a paixão pelos livros: como não tinham dinheiro para comprá-los. em sua forma mais perversa — o suicídio. branquelo e magricela. Embora tivesse apenas 18 anos quando escreveu Limite branco. parecia já ter definido desde muito cedo o que queria. e começava a descobrir autores que viriam a marcá-lo por toda a vida. o adolescente em crise que protagoniza o texto. Sentavam-se em um banco da praça em frente à universidade e conversavam sobre filmes. como Clarice Lispector. a morte. que estavam preocupados mesmo é em ser fiéis aos rumos que haviam escolhido. Noll ainda não sabia se escreveria prosa ou poesia. livros. artista plástica. A confusão de livros e pessoas nas barracas facilita que espertinhos ou estudantes sem dinheiro embolsem exemplares sem que ninguém perceba. principalmente a Maurício. havia uma dose de humor na postura existencialista dos dois. A descoberta do sexo. a existência de Deus. o livro já continha muito do estilo que viria a caracterizar o escritor ao longo de sua carreira. que fosse só seu. O escritor explora sua própria angústia para dar densidade aos personagens. Tanto que já tinha até escrito Limite branco. discos. negra. Ela e Caio formavam uma dupla e tanto: ele alto. Não porque quisessem ser diferentes. volta e meia com tinta nos cabelos ou nas mãos. embora ainda se preocupasse em descobrir um estilo pessoal. sua melhor amiga é Maria Lídia Magliani. o desejo de viver um grande amor. e do qual Noll foi um dos primeiros leitores. De vez em quando. Nessa época. um romance de formação que só viria a ser publicado em 1971. aproveitavam para roubálos na Feira do Livro de Porto Alegre. Era capaz de discutir literatura como gente grande. uma feira a céu aberto realizada em uma praça no centro da cidade. ela baixinha. Ambos vestidos de preto da cabeça aos pés. andava com eles o futuro escritor João Gilberto Noll. Nessa época. Caio era leitor voraz desde menino. mas Caio.

alguns jovens se reuniam para discutir um futuro melhor. que parece ter sido inspirada em Magliani. há sempre pequenas polêmicas. Começou a caminhar em direção à mancha esbranquiçada do casarão. Enquanto caminhava. sua beleza quase obscena. porque os dois se conheceram depois que o livro já estava pronto. ouvir música. A história de Maurício tem vários pontos em comum com a de Caio. simplesmente. de Hilda Hilst. estar juntos. repetiu a frase ao inverso: as coisas enxovalhadas são sempre meio brancas. como Nair perdera um dia. em prefácio para a uma reedição. As coisas brancas são sempre meio enxovalhadas. comentar autores proibidos pelo regime. Quando visita os pais em Santiago. E do céu. mas que. Em plena ditadura militar. A história se passa em meio ao turbulento final dos anos 60. deixa o cabelo crescer. sua turgidez.do adolescente. Ele tem uma amiga pintora. A casa crescia à medida que se aproximava. porém. assim como Caio fez. Ficava mais nítido o verde das janelas. Parou. enfim. "o momento histórico em que se passa mal e mal aparece no livro: ele é intimista. Ele afirma ainda que foi quase impossível reler o livro. O jovem do livro se muda para a capital. A mãe de Maurício perde o bebê. discussões . Por mais introspectivo que fosse. experimenta drogas. como diz Caio. Participa das discussões. vinte e cinco anos depois. Caio não poderia fugir da época. usar drogas. definiam-se as roseiras em torno delas. Marlene. quando o fez. de Virgínia Woolf. ficou chocado com a inocência do personagem. sentindo-se confusamente feliz. A época era de ebulição cultural. comportamental e política. Assim como os livros de Clarice. ao ir estudar no IPA. as rosas pareciam palpitar com sua fartura. descobriu que aquela cor era quase a mesma das pétalas. mas não podia ser. De longe. pensou. voltado quase exclusivamente para dentro".

Fizeram o . E é desses conflitos e angústias que Caio tira material para Limite branco. nessa hora. ainda incipientes. talvez os pais sentissem saudade do tempo em que queria apenas brincar de fantoches com os amigos ou insistia em ser o Papai Noel no Natal. de Guimarães Rosa. mesmo que todo mundo o reconhecesse. a vivência de experiências como busca de um significado maior na vida. nos autores. Magliani. Caio se aproximou bastante da turma do teatro da universidade. como aliás todos já desconfiavam. Nair estava crescendo e. um pessoal novo que seria importante para a renovação da arte no Rio Grande do Sul. era informante da ditadura. Gerd Bornheim. Em pouco tempo. Tanto que acabaria entrando.políticas. Caio não pensou duas vezes e se jogou para cima dele. mas que viriam a caracterizar o escritor ao longo de sua vida: o enfrentamento. E Caio foi o responsável pelas emoções no aniversário de Luiz Arthur. talvez. que dava aula de inglês no Yázigi e tinha Caio como aluno. Irene o apresentara a toda a turma do teatro. futuro diretor teatral e um dos grandes amigos de Caio. anos depois. todo o elenco da peça e o diretor do curso de Arte Dramática. que formariam em 1969. O filhinho de D. Ele entrara nesse universo através de Irene Brietzke. para o curso de Direção Teatral do Centro de Arte Dramática (CAD). embora os pais não o proibissem de fazer nada. nas peças. Ele e o restante do grupo introduziram o escritor no universo do palco. em agosto de 1967. a busca de uma identidade. com o grupo Província. Luiz estava ensaiando uma peça no teatro da universidade quando chegam Caio e Magliani com o presente. Um desses jovens era Luiz Arthur Nunes. Estavam os dois no foyer quando um integrante do elenco passou e ofendeu Magliani. o livro Tutaméia. estava todo mundo na delegacia: Caio. O tal rapaz. Luiz Arthur. fez comentários racistas. muito magro e desajeitado. que era a amiga mais próxima. por trás das roupas vermelhas. assim como para muitos de seus primeiros contos. já se podia perceber alguns comportamentos. Além da Magliani.

O escritor levantou-se. Vera nunca se esqueceu da figura magra. Vera Spolidoro. depois de ambos passarem por todas as etapas. Vera notou um certo ar de desdém em seu rosto. a revista Realidade. que incluía testes de conhecimento geral. e aí então seriam definidos os nomes dos contratados. ex-vice-reitor da universidade. publicou um anúncio convocando os interessados a fazer os testes para participar de uma revista nova. Irado. Por medo de represálias. Chegou a chamar a editora de entreguista. de pé. discursando. Quando perguntaram a ela qual fora a peça mais recente a que tinha assistido. da editora Abril. Em 1967. que começaria a circular no ano seguinte. e o entrevistador parecia não acreditar em uma peça que ainda não havia sido encenada em São Paulo tivesse sido montada em Porto Alegre. graças a um tio influente de Luiz Arthur. entrevista individual. entrevista conjunta com os outros candidatos. quando a revista começou . de conhecimento específico. foi pego na rua e levou uma surra.boletim de ocorrência. o jornalista perguntou a Caio sua opinião a respeito do grupo Abril. ela respondeu Depois da queda. Embora não fosse formado em Jornalismo. colérica. Quem passasse pela fase da entrevista conjunta iria a São Paulo fazer um curso. O jornalista que entrevistava o grupo vinha de São Paulo. Em 1968. Caio participou do exaustivo processo de seleção. Caio foi passar uns tempos com Luiz Arthur na casa dos pais dele. e que ele era contra a colonização cultural a que os Estados Unidos submetiam os outros países. mas. fez um fervoroso discurso antiimperialista. Em dado momento. Era um texto sobre a recém-morta Marilyn Monroe. ninguém ficou preso. falou que a Abril era ligada ao grupo TimeLife. sem se preocupar se aquilo iria acabar com suas chances de trabalhar na Veja. quando achou que já dava para voltar para casa. e parecia achar que Porto Alegre era uma província. e. jornalista gaúcha. conheceu Caio na entrevista conjunta. a Veja. Umas duas semanas depois. de Arthur Miller.

com gripe. dava até pra ficar na dúvida: São Paulo tinha céu? E a velocidade de tudo. vertigem. e. Ele. das oito da manhã às seis da tarde. a quem ele dedicaria sua obra de maior sucesso — o livro Morangos mofados. O escritor. Um difícil começo. Caio diria que toda sua literatura seria fruto do choque. trabalhar o dia todo. Sem costume de acordar cedo e batalhar de sol a sol. Alguma coisa aconteceu no coração de Caio Fernando Abreu quando ele se mudou para São Paulo. de 1982. Era uma de suas fases depressivas: durante a vida toda. longe. desafinada. feia. fina. fosse o que fosse. uma sensação de desprotegimento. longe. o humor de Caio oscilaria entre picos de euforia e . Anos mais tarde. DOIS Grande demais. irritado. Caio estava entre eles. que sempre fora muito magro. as árvores? Onde. Era preciso trabalhar. Os parentes. Ficava nervoso. E o asfalto. de desamparo. os bichos? Tudo era cinza. sem coragem de sair de casa. Caio gramou durante os meses em que trabalhou na Veja. perdeu ainda mais peso. Trabalho de segunda a sexta. asfalto por todos os lados. do contraste entre a vida interiorana em Santiago do Boqueirão e a vertigem causada pela velocidade da capital paulista. Nem mesmo o céu escapava do cinza. ídolo de Caio. São Paulo era grande demais. A voz de criança. vindo dos rincões gaúchos para trabalhar na primeira equipe da revista Veja. não parecia agradável. Demoraria muito para o jovem escritor entender a poesia concreta das esquinas de São Paulo. de adolescente.a funcionar e os profissionais que iriam trabalhar na revista já estavam definidos. os amigos. E ainda por cima aquela voz. chegou a ficar doente. não se adaptou de início à cidade grande. como o fora também para Caetano Veloso. Onde.

Caio não tinha condições de bancar. pode ter inspirado alguns contos do escritor em que os personagens se sentem feios. me rolava na areia. ele tinha vergonha de falar com as pessoas. A voz de Caio. Esganiçada. E. ninguém te quer. A timidez. aliadas a um certo senso de superioridade comum entre jovens intelectuais fazia de Caio uma figura não muito simpática. inadequados. como a magreza excessiva. distante. de Limite branco. O tratamento. Então caminhava quilômetros na beira do mar. nessa época: parecia arrogante. infantil. Consultara um médico. Nessas ocasiões. o Pai dizia — estavam voltando da praia. junto com outras preocupações típicas da adolescência. eu queria me esconder de todos. A voz só fazia piorar a timidez do escritor. conto de Os dragões não conhecem o paraíso: Pernas e braços demais. que dissera que suas cordas vocais estavam viciadas no falar infantil. Há o personagem Maurício. . Só tardezinha saía de casa. irascível. não se desenvolvera. em conseqüência. Com vinte anos de idade. Muita gente tinha receio dele. pelo menos à primeira vista. havia a voz. pequeno monstro. para piorar tudo. odiosa. que anseia poder olhar-se no espelho um dia sem ter vontade de desviar os olhos. pêlos nos lugares errados. mais a vergonha da voz. na hora que as empregadas domésticas — as dosas. caríssimo. ele podia se recusar a ver qualquer pessoa ou mesmo a sair do quarto por dias seguidos. e aumentar seu isolamento e sua aversão às sociabilidades. a voz de Caio era um tormento para ele. vezenquando chorava e repetia: pequeno monstro. até monstruosos. E há o garoto de Pequeno monstro.fundos-do-poço de melancolias insuportáveis. uma voz que desafinava igual de pato. Ele costumava dizer sobre o choque que foi trabalhar como jornalista em São Paulo: — Me estupraram até o último hímen.

Seria muito fácil. conto de Inventário do irremediável. representa tudo que aprisiona. e a censura aos organismos de mídia. como em O ovo. a rigidez e o sufocamento agravados quando não se pode sequer mencionar o assunto. que aumentou em 1968. cada vez mais. Que estamos todos dentro dele. leve. Estou ouvindo o rumor do ovo se aproximando cada vez mais. Estou esperando. não há como escapar: Eu não sei. lá. Muitos deles de forma simbólica. Caio herdou de Clarice Lispector. É um barulho leve.Se internamente Caio tinha problemas. a vela está quase apagando. Mas é um ovo que diminui cada vez mais. como metáfora e como objeto em si. em 1964. . Tenho tanto medo. Vou deitar. cifrada. mesmo. no exterior as coisas não estavam melhores. Não sei por que os homens não se armam de paus e pedras para furar a parede. veio a repressão. a casca de um ovo é tão frágil. nós vamos ser todos esmagados por ele. metafórica. O ovo. Cinco anos antes. Tão perto que ninguém vai-me ouvir se eu gritar. os militares haviam instaurado a ditadura no país. a ter o objeto no título: O ovo apunhalado. Está muito perto. Só ontem cheguei à conclusão de que se trata de um enorme ovo. com o decreto do Ato Institucional n°5 (AI-5). Com eles. A paixão pela figura do ovo. tudo sobre o qual não se tem controle. Caio viria a escrever vários contos sobre o clima asfixiante instaurado pela ditadura. Um de seus livros chegaria. cansei de escrever. Depois da descoberta do que o aprisiona. Quase como um suspiro de gente cansada.

. e que a revolução era individual. o notório senso de humor — herdado do pai. Até porque. então. mesmo participações ocasionais eram suficientes para que o serviço de segurança do regime marcasse e perseguisse uma pessoa. e fez parte da turma que achava que "festa" e "subversão" podiam estar ligadas. — Para ver Norma Bengell vestida de Paço Rabanne — diria anos mais tarde. Caio chegou a freqüentar passeatas e reuniões de oposição à ditadura. Essa forma mais leve combinava com seu temperamento: Caio nunca foi muito de assumir compromissos. Ele ia mais aos encontros contra a ditadura pela festa que se fazia. engajada. Sua tomada de consciência se dá em um período em que já existia o Tropicalismo. e aquilo já não era pouco: Bengell foi uma atriz de intermináveis pernas. que surge no mesmo ano em que ingressa na universidade. Em tempos de AI-5. pela celebração. sua influência era muito mais dos tropicalistas. levantar bandeiras de qualquer tipo ou causa. de comportamento. pela oportunidade de ver pessoas. sem levar o credo político às últimas conseqüências. cursando o ginásio. sítio da amiga Hilda Hilst. de se engajar. morando em Porto Alegre sem os pais. Caio ainda era um adolescente. Zaél — se encaixava perfeitamente com a proposta dos tropicalistas. Com Caio não foi diferente: ele afirmou ter recebido um telefonema da redação da Veja. em Campinas. na época da poesia populista. sumir por uns tempos. como Gil e Caetano — que ele sempre fez questão de afirmar que adorava — que de qualquer outro movimento cultural esquerdista do país. e foi se esconder na Casa do Sol. dizendo que oficiais da DOPS estavam procurando por ele. mas sempre sem se comprometer demais. Politicamente. Além disso. contudo.Novato em São Paulo. Decidiu. ambígua e debochada de protestar. foi símbolo das mudanças culturais por que o Brasil passava na década de 60. belíssimas. Ele preferia a maneira irônica.

Caio. decidiu abandonar a agitada capital paulista e se isolar no interior para escrever. e ela acabou levando todo mundo para conhecer a Casa do Sol. março de 1969. Ela nascera em Campinas. mas com o tempo ganhou intimidade e ia direto para a Casa do Sol. Ao ler Carta a El Greco. uma das mulheres mais bonitas de seu tempo. . tinha abandonado uma movimentada vida social para ir morar na fazenda que pertencera à sua mãe. Na Fazenda São José. Nello e Léo ficaram entusiasmados: pediram a Ana que os apresentasse. Diz que Veja está dando prejuízos enormes. Hilda. e de fotografias de escritores espalhadas pelas paredes. que defende a idéia de que para entender a sociedade é preciso afastar-se dela. Hilda construiria a Casa do Sol. enviada da outra casa de Hilda Hilst. de livros. sua colega na primeira equipe da Veja. a onze quilômetros de Campinas. onde viveria até a morte. Teria ido para a casa de Hilda por não ter conseguido emprego. de Nikos Kazantzakis. inclusive ele mesmo. Ana escreveria um livro sobre ela). que teria perambulado quase um mês pela cidade atrás de oportunidades sem conseguir nada. ele conta história diferente. cinema. teria sido necessário demitir bastante gente. que namorara Vinicius de Moraes e fora cortejada por Carlos Drummond de Andrade.Em carta aos pais. Caio voltaria muitas e muitas vezes. Nas primeiras. iam a teatro. muitos livros. os anunciantes não querem saber de comprar espaço. Caio conhecera Hilda por intermédio de Ana Lúcia Vasconcelos. atriz. em 2005. em 2004. A revista vende pouco. onde a escritora morava. Uma vez foram juntos a uma palestra de Léo Gilson Ribeiro sobre crítica literária. Aos 33 anos de idade. Para a editora inteira não fechar. com o objetivo único de construir uma obra literária. Quando souberam disso. Ana perguntou a Léo o que achava de Hilda. e as duas tinham se tornado muito amigas (décadas depois. shows. ficaria hospedado na casa de Ana. Ana Lúcia e Nello Pedra Gândara eram os grandes amigos de Caio na redação. na companhia de seus noventa cachorros. Hilda. dramaturga e jornalista.

Em 1968. No alto. Inseguro. um bom escritor. Bedecilda. revisá-los. Deprimia-se. quando ele vai para a Casa do Sol. só lia os livros dela escondido de si mesmo. O silêncio pesado é quebrado somente pelo latido das dezenas de cães que moram no sítio. queria sugar dela. na época a escritora favorita de Caio. Hilda passou a viver. em 1966. que ele teve que se proibir de ler Clarice. palmeiras. a sensação era de que tudo já estava escrito. Dali sairia com um livro praticamente pronto: o Inventário do irremediável. naquela região do interior paulista. Ali o casal recebia os amigos. . Vira-latas. E. na verdade. Hilda e Dante já estão oficialmente casados. por imposição da mãe dela. seus semblantes estão agitados. irremediavelmente influenciado por Clarice Lispector. a centenas de quilômetros dali — é um rapaz tímido. durante a pequena temporada que passou na Casa do Sol. do conhecimento e do talento dela. tudo que pudesse. como Caio. E foi isso que fez. o calor os deixa assim. A coisa chegou a um ponto. quase sempre. Na Casa do Sol. por temporadas inteiras. suas copas entrelaçadas fazem uma sombra boa. às vezes. como dizia. desanimava. fazer daquela massa informe uma obra coerente. pois. que ajuda a amenizar o calor que faz. lendo-a. exatamente por isso. quase uma obsessão. ele também. em sua maioria. Tinha já alguns contos escritos: faltava agora organizá-los. entusiasmado por ser hóspede daquela que ele considera uma das grandes escritoras do país e. em Santiago. republicado depois como Inventário do irremediável. Algumas das árvores que circundam a Casa do Sol têm mais de cem anos: figueiras. O Caio que entra na propriedade — imponente e tranqüila como a casa grande e antiga em que morou um dia. de vez em quando. por quem sempre foi obcecada.além das fotos do pai. dracenas. que ficavam. muito amedrontado também. para ser. com o escultor Dante Casarini. calado. e nada mais havia por fazer na literatura. inquietos. Queria aprender com Hilda tudo que pudesse.

Circulava pelas várias crenças. Numa viagem ao sítio de Hilda. sobre o processo de criar. flertava com as várias filosofias. Caio funcionava também como uma espécie de secretário de Hilda: ela escrevia. fosse na temática. / Ching. reescritos. estudava com afinco algumas delas e inclusive as utilizava na arquitetura de seus textos. com nenhum desses credos. conversado com os mortos e recebido em seu sítio a visita de discos voadores. Ela. além das aparências. de minúcias como pontuação ao uso de certas palavras. Não era só o divino que Caio discutia com Hilda. coisas do tipo. fundamental. também. sempre burilados. nos anos 70. sempre. Nessa relação com o divino. tudo que dizia respeito ao texto literário. Gostava de trabalhar a língua. como muita gente que viveu o sonho hippie. O escritor discorria sobre o assunto sempre que encontrava interlocutores. por exemplo. Caio. a literatura de Hilda foi sempre uma busca do inefável. quiromancia. a influência de Hilda foi. Procurava. o que fosse. que. Falavam muito sobre literatura. até hoje dá entrevistas explicando do que se trata. sua precocidade na literatura. era a dos metâmeros. De Deus. era um rapaz espiritualizado: acreditava em astrologia. Caio era capaz de discutir problemas de texto por horas a fio. não tinha responsabilidade. estudavam juntos o movimento dos astros. candomblé. O inefável. paciência ou vontade para tanto. lapidados. Caio a explicaria ao escritor Júlio César Monteiro Martins. e isso explica. disciplina. revisou e reescreveu a maior parte de sua obra. O termo vem da biologia: . Teorizava bastante a respeito dos assuntos. maravilhado. jamais se esqueceu da teoria. que dizia ter visto anjos. ritmo. inovar: fosse na estrutura. Não se comprometia. com menos de 20 anos de idade. ter escrito e publicado ainda jovem. fosse na forma.Enquanto inventariava seus contos irremediáveis. No resto do tempo. ele datilografava. Tanto que. como se nota em seus textos. ajudou Caio a olhar o mundo buscando sempre algo mais. em parte. é claro. nos anos 80 e 90. Uma de suas teorias. ela diria.

. O primeiro deles se chama A perda e foi escrito em 1985: Quando passo às vezes por aquela esquina. trama. E parado naquela esquina feito espião. Quando passo por lá assim rapidamente. ou tênia. Esse anel contém informações sobre o verme inteiro. As sombras que crescem devagar sobre o asfalto quente do verão passado. essa caminhada. que continha informações a respeito dos personagens. Na literatura. publicar uma coletânea desses metâmeros. contemplar a sacada daquele décimo andar onde costumávamos nos debruçar abraçados para olhar aquela rua lá embaixo sendo aos poucos coberta pelas sombras da tarde furando a copatúnel das árvores. que é o que Caio viria a fazer em Ovelhas negras. espio sempre a outra rua por trás da igreja. ampliá-lo. de um conto ou de um romance. O texto permaneceria em estado de latência literária. lembro daquela tarde em que fui visitá-lo pela última vez. metâmero era um esboço. simplesmente. formar um conto completo ou um romance. estilo. um desses anéis. depois voltei caminhando pela rua cheia de árvores tão altas que suas copas se encontram e se misturam no alto. se uma pessoa come carne contaminada com um cisticercó. onde nem mora mais. e o escritor poderia retomá-lo um dia e. Ou então. se quisesse. E mesmo sem querer. irregular. anotações soltas sobre ambiente. sem perceber claro o que sinto. a pensar coisas que nem lembro mais.metâmero é um anel da solitária. Ele seleciona dois esboços que lhe parecem melhores e introduz sua teoria aos leitores. numa tarde como a de ontem ou outras iguais destes tantos meses passados. ele virá a se multiplicar e formar um animal completo. uma espécie de verme. enfim. mas sem ele agora — uma tarde. As sombras. noite ou manhã quaisquer para refazer o percurso inverso até a casa dele. como um túnel redondo. penso se não deveria retomá-la — essa rua.

discos voadores. Não trabalhava mais na Abril. E o melhor: não ter que levantar cedo para trabalhar. onde era alguém de posição.Depois de passar algum tempo no sítio de Hilda. em Massaguaçu. Não há. O quarto de Caio é cor-de-rosa. a faculdade de Letras esperando por ele. e havia. sequer. Caio mantém sua decisão de escrever enquanto está na casa dos pais. supostamente. o pai lê romances de Norman Mailer. voltar a Porto Alegre foi uma beleza: o céu azul. Decisão tomada. os morros. o ambiente convida a escrever — ele conta. ela concordou que o melhor seria voltar para a casa dos pais. segundo refúgio da escritora. a Hilda. que por enquanto ainda não estava bem das pernas. os móveis são convencionais. A família de Caio estava morando em Porto Alegre desde 1969. As pessoas doces. escreveu aos pais comunicando a saída da Abril. ele poderia voltar e tentar viver em São Paulo de novo. a faculdade de Filosofia. não conseguira emprego em outros lugares. Ele amou Porto Alegre em tudo que ela era diferente de São Paulo: sem asfalto. . quando Nair insistiu em ir. Caio acompanhou Hilda e Dante à praia. a volta para casa e a intenção de retornar à universidade. era a Casa da Lua. A mãe faz pós-graduação em Filosofia. um OVNI. quando estivesse de diploma na mão. Conversou com Hilda. Era uma opção. sem loucuras. afinal. sóbrios. o verde das árvores. discutido muita literatura e organizado o material de seu primeiro livro de contos. por carta. mentora literária e espiritual. sua principal interlocutora. então. teria preferido ficar em Santiago. porém. Zaél. Para Caio. mas os argumentos da esposa foram mais fortes. sem porralouquismos também. que ele só abandonara pela perspectiva de integrar a primeira equipe de jornalistas de uma nova revista. a idéia de voltar para a faculdade. para que os outros filhos também pudessem estudar com facilidade. já militar reformado. os irmãos pequenos vêem televisão na sala. Caio achou que era hora de voltar a Porto Alegre. o sotaque familiar: o "tu". nem sair de casa para comer. De lá. Ela mesma cursaria. calmas. de lá ter visto.

e sim da sua degradação. No auge desse estilo de texto. irmã do já então falecido escritor Lúcio Cardoso. suficiente. ele escrevera de forma intimista. Walmir Ayala. sim. principalmente em Porto Alegre. o Rio de Janeiro era um lugar onde as coisas aconteciam. como alguns críticos o chamam. a língua ferina de Caio não poupava ninguém. com cuja obra a de Caio tinha alguns pontos de ligação — Lúcio. Mas isso não era. Quando vê o quarto onde ficará hospedado. Assim. com problemas de relacionamento com os colegas . Como ele foi parar ali? — se pergunta. ou a admirasse como escritora. nem os amigos. da degradação de suas tradições. Caio aceitou o convite de Maria Helena. Lá estavam os escritores que Caio queria conhecer: Clarice Lispector. Havia sido convidado algumas vezes por Maria Helena Cardoso. na inabilidade do escritor em se adaptar a um currículo. E. fora um escritor que se rebelara contra a tradição do romance regionalista. Nélida Piñon. mesmo achando-a um pouco "fora da realidade" e "liriguelha demais". Caio faz uma visita à cidade sempre maravilhosa. cheia de cores. A capital gaúcha podia ser bonita o quanto quisesse.morre nas dificuldades burocráticas que há para reabrir a matrícula. Há pouco tempo. ele era só um rapaz vindo do Boqueirão. uma afeição por ela. onde as coisas aconteciam. Caio queria estar no olho do furacão. verdadeiramente. principalmente. E também. da mesma linhagem literária de Virginia Woolf e Clarice. O apartamento de Maria Helena fica em Ipanema. Caio se comove: é o quarto que fora de Lúcio Cardoso. mas não de sua glória. de modo algum. a horários fixos: ele não consegue parar quieto. a oportunidade era muito boa para ser desperdiçada. introspectiva. Além do que. no Brasil de 1969. apenas quatro meses depois de ter voltado para a casa dos pais. Maria Alice Barroso. o Dostoiévski mineiro. verdes árvores e céus azuis inigualáveis. e o fato de ele achar uma tolice as cartas em que Maria Helena falava dos "passarinhos que cantam nos galhos das árvores" e das "sombras de outono" não significa que ele não nutrisse. falando de personagens mineiros.

uma flor de pessoa. autor de Crônica da casa assassinada. sério. enquanto Maria Helena assiste a uma novela na sala. me acham parecido com Cristo. dos medos. querem pintar retratos. "— escreve aos pais. . modesta. orgulhoso. cinemas. porque me achava horroroso com aquele bigodinho precoce (hoje. sendo tratado a pão-de-ló por uma velhinha pequenina e ágil que. E ela não é a única a tratá-lo bem: há Francisco Bittencourt. junto com Hilda e Dante. a noite o espera: bares. teatros. "As vezes que tentei morrer foi por não suportar a maravilha de estar vivo e de ter escolhido ser eu mesmo e fazer aquilo que gosto — mesmo que muitos não compreendam ou não aceitem. Caio vai sair. Acho graça. Francisco e Carmen mostram os contos de Caio para outras pessoas. povoada por pessoas bondosas e simpáticas. estão entusiasmados com 0 trabalho dele. belíssima. prometem arranjar editoras que publiquem seus livros. acho muita graça. no dia 21 de agosto. Agora. O príncipe sapo. dos choros. na revista Claudia. não aceita ser chamada de uma das melhores escritoras do país — ao lado de Ia Lispector. e ninguém suspeitar dos traumas. que eu era tímido e agressivo. Caio viaja novamente para Campinas. a editora que publicara o primeiro conto de Caio. e além disso é um dos críticos de literatura mais respeitados do Rio e conhece todo mundo. em uma cidade verdadeiramente esplendorosa. quando ele tinha 16 anos. ele estava no quarto de um dos maiores escritores brasileiros. muita gente ao seu redor. das quedas.e que crescera rápido demais. Há também Carmen da Silva. ele é inteligente. em alguns minutos. dizem que tenho olhos lindos!). "E as pessoas que passam por mim não saberão jamais que nasci em Santiago do Boqueirão e um dia fui estudar em Porto Alegre. Toda essa celebração em torno de Caio o deixa feliz. Tão estranho carregar uma vida inteira no corpo. " Cerca de um mês depois de sua chegada ao Rio. primo do pai de Caio. o Boroca.

A voz nova de Caio era grave. Caio e Hilda contariam a história da figueira para explicar a mudança da voz. ao encenar uma de suas peças. vindo não se sabe de que parte do corpo magricela do escritor. ou para o Rio. muito cheia de personalidade. como as outras. precisa ficar de pé para ouvir você ou posso ficar sentado mesmo? Ao longo dos anos. marcante e inexplicável. Havia uma figueira no terreno da chácara. e em seguida Caio seguia de volta para Porto Alegre. Suas temporadas em Campinas eram intermitentes. porém. bonita. finalmente. Chegava sempre o momento em que a escritora tinha que chegar para ele e dizer: Caio. e com ele pôs-se a fazer exercícios e a gravar a voz. uma notícia maravilhosa. exigente. brincaria com a situação: — Meu Deus. charmosa. A história começou quando ele ganhou um gravador de Hilda e Dante. ou para onde fosse. Caio mencionaria sua amizade com Hilda. O momento era de inquietude. tinha outros desígnios. Mas ele ainda estava na Casa do Sol quando. a admiração por Hilda beirava a reverência. tinha. envergonhado de falar com os outros. de viagens. que conheceria Caio na década de 1980. Além disso. sairia aquele vozeirão. Na verdade. resolvera mudar de repente. a presença de Caio na casa era muito intensa. com maiúsculas. melhorado. assim como teimara até ali em ser uma voz normal.que tinham ido passar uma temporada na capital fluminense. Caio não chegou a ficar tanto tempo lá. duravam um ou dois meses. sempre que ele abrisse a boca. embora visitasse bastante a Casa do Sol. no final de outubro de 1969. pensando em melhorar pouco a pouco. e mudara não para ser uma voz comum. aconteceu uma coisa misteriosa e impressionante. sua hora chegou. Hilda teria dito ao escritor: "Cainho. A partir daquele momento. Ao longo de sua vida. do nada. de descobertas. E então ele ia embora. sua amizade. ele deixaria de ser o jovem tímido. O ator Gilberto Gawronski. . Só que a voz. uma Boa Notícia. e passaria a se assumir como adulto. A voz de Caio. dizendo que chegara a morar um ano em sua casa. A partir dali.

para voltar logo ao Rio. mas para Caio deixar de ser tímido. conseguir ir logo para a Europa. o que importa é que. Três dias depois. Quando a gente tem um problema muito grave. Hilda afirma que o pedido não era para a mudança de voz. Mas a versão mais próxima da realidade é também de Caio. teria pegado um livro de Fernando Pessoa e começado a ler em voz alta. Há até quem diga. em carta aos pais logo que a mudança se opera. até os vinte anos. e considerava a hipótese de ficar por ali. De volta ao quarto. mudou aos poucos. Os outros pedidos — tanto o prêmio literário quanto a viagem ao Rio — também logo se realizaram.essa figueira é mágica. belíssima. Caio voltou ao Rio. que a voz não mudou de repente coisa nenhuma. Há outras versões: a de que ele teria feito três pedidos à figueira: para que a voz melhorasse. O escritor José Mora Fuentes. esganiçada. amigo de Hilda que até hoje vive na Casa do Sol. já de voz nova e sensual. Caio teria se sentado na área da casa e olhado a Lua. obra a que dera forma final ali mesmo. então ele teria sentido que podia fazer três pedidos que eles se realizariam. Caio teve uma voz infantil. Felipe Abreu. a voz teria mudado. ela se tornou grave e lânguida e bela. decidido a se estabelecer por lá. porém. e ela resolve". como o irmão do escritor. no terceiro verso. De todas as versões. trabalhando com artesanato. fez amizade. e lá soube que ganhara o Prêmio Fernando Chinaglia por Inventário do irremediável. na Casa do Sol. aos vinte e um. fala com ela. ele estava de volta a Porto . Era uma noite de lua cheia. onde estava decidido a morar. mas Caio preferia acreditar na versão romântica e mágica da figueira. a voz mudou. conheceu alguns hippies em uma praça de Ipanema. em vez de voltar ao Rio. Os três pedidos acabariam realizados: Caio voltou para o Rio. Em dezembro. os empregos formais não apareciam. estava lá. Então ele teria abraçado a figueira e pedido para a voz mudar. Em um texto. Tanto ela quanto Caio diriam que o terceiro pedido era. e para ganhar um concurso literário de que estava participando.

"Decidi aceitar meu ser nômade. Descobriu. anos depois. agora. claro. dizendo que era péssimo. em The black grove. sobre o moralismo e a decadência da sociedade. assim como não concluíra o de Letras. Isso mudaria alguns anos depois. The black grove e The last moment. o papel era de Batman. Caio passaria todo o ano de 1970 na capital gaúcha. Ali. não se abalou demais: com a arrogância própria da idade. Caio participou como ator de algumas peças. E por aí afora.Alegre. em 1973. Alguns amigos leais dizem que Caio era bom ator. escreveria a Hilda. Mas estamos em 1970. Caio gostava de teatro. o resto achava descartável. e sabe-se lá o que este aprontara para causar tamanha reação. A coisa foi feia: as palavras "veado" e "doente" foram das mais leves que o escultor usou para caracterizar Caio no meio do entrevero. que nada tinham de trágicas ou de rodrigueanas. Não chegou a terminar o curso. A carta não era das mais fáceis de escrever: era a primeira depois de uma briga que tivera na fazenda com Dante. quando. superior. ele chegou mesmo a visitar Caio e sua família em Porto Alegre. Em Serafim. Caio. somada à que lhe era própria e mais uma espécie de certeza de que não havia nada de errado em sua condição. vestira-se de mulher. no entanto. quando sua participação no teatro se restringia a escrever as peças. pairava. estavam Serafim fim fim. e o assunto da briga foi deixado de lado. que era exigente demais com os textos a serem encenados. Só queria saber de tragédias gregas e de Nelson Rodrigues. por exemplo. tamanha agressividade. no Centro de Artes Dramáticas (CAD). Entre algumas das que participou no período. prestou exames para o curso de Direção Teatral. Caio ainda acredita que pode . ele se sentia acima dos preconceitos burgueses. já na década de 80. a amizade com Dante foi retomada. ele podia desenvolver mais seriamente essa paixão. mas ele mesmo costumava brincar. Logo depois. até segunda ordem". Mas se divertiu aprendendo algumas coisas. de inventar e encenar historinhas com seus bonequinhos de papel machê. depois de rodar o país e parar de novo em Porto Alegre. Desde criança.

inclusive a do homossexualismo. Nesse conto. em 1968. algo que faz com que a pessoa mude. a morte é quase uma libertação. que ficaria para sempre inédito. em vez de deixarem o escritor feliz. no fim da noite. badalada ou não. em carta a Hilda Hilst: "Queria tanto que alguém me amasse por alguma coisa que eu escrevi. Caio trabalha muitas vezes com o conceito de epifania: uma revelação mágica no meio do cotidiano. Mas embora Inventário do irremediável tenha sido o primeiro livro do escritor a ser publicado. e reafirma sua determinação de ser escritor. as bacanais faziam Caio se sentir um lixo. Caio manifesta sua carência. Menção Honrosa no Prêmio José Lins do Rego. e um escritor amado pela literatura que fazia. Como o escritor ainda tateasse seus próprios caminhos. como no conto que abre o livro. embora tivesse ganhado. começou a participar de festas malucas. regadas a maconha e drogas mais pesadas. Os cavalos brancos de Napoleão. orgiásticas. repense sua vida. E houve também um livro de contos chamado Três tempos mortos. A única área em que as coisas iam bem era a profissional: Inventário do irremediável foi lançado com estardalhaço." A publicação do primeiro livro. não fora o primeiro a ser escrito: limite branco veio antes. desbundou por completo: experimentou mescalina. deprimiam-no ainda mais. e a descoberta que os cavalos representam pode ser lida como qualquer descoberta. A história da mescalina foi descoberta pelos pais.completar o curso de Direção Teatral e mora com os pais em Porto Alegre. Assim como ela. é no Inventário que a influência de Clarice Lispector se mostra maior e mais clara. foram muitos os convites para entrevistas. O livro é dividido em quatro partes. Em alguns contos do Inventário. era um passo no sentido de Caio se firmar como escritor. ou quatro . Mas essas experiências. essas revelações acabam por trazer a morte dos protagonistas. Nesse momento. o que causou o maior rebuliço.

Para espantar a tristeza. sobre sua relação com os amigos. costas curvas. Não chora sequer. Joga a lâmina pela janela. a cabeça afunda entre as pernas. pés descalços. aconteceu algo que o faria retomar a carta e escrever mais um pouco. temas recorrentes na obra do escritor. traz uma esperança: a escolha pela vida. Os braços se cruzam. a maré começa. um exemplar de Fluxo-floema. Como um cego. o cigarro esquecido queima. adensando o ar que se enche de olhos. porém. Caio conheceu Clarice Lispector. voltou recuperado. No fim do ano. e do livro. com a novela Lázaro dedicada a ele. estranha. e a sua personalidade. Nenhum pensamento. e. vendo apenas para dentro. de mãos. o texto de Caio. Na mesma noite. resolveu ir para a praia com alguns amigos. A atenção fixa em si mesma. Escreveu uma exultante e empolgada carta a Hilda. Caio não cabia em si de tanta satisfação e orgulho. Clarice fascinara leitores e críticos desde o primeiro livro. que há muito não lhe escrevia. cheio de carências e inseguranças. de bem consigo mesmo. misteriosa. Está sentado na cama. corpo nu. como que para coroar esse novo estado de espírito. Ele passara um ano ruim. revolucionou a linguagem. Há também um quinto inventário. vozes veladas. Um fino fio de fumaça sobe aos poucos indeciso. No cinzeiro. mais uma vez. O final do conto. Personalidade magnética. E não corta. a soprar a favor de Caio. Perto do coração selvagem. é marcada por sensações. da solidão. Quando o jornalista . Por continuar. Dobra os ombros. E a última frase define. do amor e do espanto. bem. Só espera. enlaçam os joelhos. Deu certo: depois de refletir muito sobre a vida. Sem compreender. vaga entre a fumaça e tomba. composto de um único conto: o Inventário do irremediável. palavras não formuladas. A lâmina vibra entre os dedos. vai-se curvando para si mesmo. de gestos incompletos. ele chegou em casa e encontrou uma carta de Hilda.inventários: da morte. a ação ocorre sempre na cabeça dos personagens. Moderna. Sua literatura diferente. como se chorasse. Junto com a carta.

" . ele tinha na bolsa. lógico. conversam um pouco. E a gente sente que ela não espera mais nada de nada nem de ninguém. Falam de Nélida Piñon.[. Otto pediu a ele que tomasse cuidado com Clarice. "Tive 33 orgasmos consecutivos. De repente ela pára. Ele fica. um escritor que estava por ali decidiu apresentá-lo direito. que está sozinha e numa altura tal que ninguém jamais conseguiria alcançála. pede para ligar quando for ao Rio.. sai para o corredor. "Cheguei lá timidíssimo. com um clima de tristeza e santidade ao mesmo tempo. "Não se trata de literatura. de Hilda. por acaso.. e lê que Clarice Lispector herselfestaria autografando seus livros em uma estação de TV. entregou um exemplar de seu livro recém-publicado para ela. Clarice chega até a porta e chama: — Fica comigo. à noite. antes que vá muito longe. Ê lenta e quase não fala. Engole o jantar que lhe oferecem e sai chispando feito um foguete para a televisão. Era ela. Vi uma mulher linda e estranhíssima num canto. um presságio. absolutamente incrível. diz que acha ele muito bonito. Pega o jornal para dar uma olhada. mas de bruxaria". Tem olhos hipnóticos. fora de dúvida. quase diabólicos. de uma sabedoria e de uma amargura impressionantes. porém. escreve a Hilda contando o episódio. Caio fica nervoso.] Sinto que as coisas vão mudar radicalmente para mim — teu livro e Clarice Lispector num mesmo dia são. parecido com Cristo. nesse estado de êxtase e perturbação. falou. Ela lhe dá seu telefone. Quando ia saindo. " Caio chegou perto. Caio aproveita o interesse dela e lhe entrega um exemplar sobres-salente do Fluxo-floema que. toda de preto." Conversam mais. Caio termina de escrever para Hilda.José Castello perguntou a Otto Lara Resende sobre ela. "Ela é exatamente como os seus livros: transmite uma sensação estranha. Caio vai embora meio aparvalhado e.

e muito do material publicado. Começa a perceber que a individualidade. inclusive em livros. que o ser humano é egoísta — ele incluso. A vida na comunidade não dá certo: ele e seus amigos se desentendem. Totalmente imerso na cultura hippie. Caio aprecia autores como Ernesto Sábato. E. tudo vai bem: Caio está feliz à beca com os novos textos que anda produzindo. mescalina ou chá de cogumelos —. utilizando ao máximo as visões que tem em suas viagens — de LSD. e falando bem o espanhol. cabelos longos e túnicas indianas compridas. às vezes. "Acho que finalmente achei a minha forma". obra que só viria a ser publicada em 1975. que morar em comuna é a melhor maneira de se viver. escreve textos fundindo o fantástico.Era o dia 29 de dezembro de 1970. escreve a Hilda Hilst. Caio volta ao Rio. O ano novo chegava. mas acho que sou o único cara no Brasil que está fazendo literatura pop MESMO'. ele é preso. na utopia. a ditadura está em sua fase mais dura. Nascido na fronteira com a Argentina. Surgem assim alguns dos contos de O ovo apunhalado. só sai sob censura. que na prática. Várias histórias desse livro podem ser entendidas como crítica à sufocante situação por que o país passava na esfera política. Ricardo Piglia. "Não sei se isso é auto-elogio." Nessa fase de sua escrita. em março. ficção científica e elementos da cultura pop. Quanto ao seu trabalho. Carlos Fuentes. Ele acredita que tudo pode dar certo. ele decide tentar um modo de vida diferente. Flagrante falso de maconha. A estada no Rio é o começo do fim do sonho da contracultura para Caio. aluga uma tranqüila casa em Botafogo. Caio namora o realismo fantástico dos autores latino-americanos como Cortázar. Apanha da polícia e . bem de acordo com o sonho paz-e-amor da juventude da época. é mais importante que a coletividade. Para piorar um pouco mais as coisas. é claro — e que certas coisas funcionam melhor na teoria. em comunidade. ele sai da casa. Em 1971. Com três garotas e um rapaz. Garcia Márquez.

casar. se afasta sem maiores explicações. ele pode ter pensado. a coisa não vai pra frente: quando está com Verinha. intercede por ele. Era o lançamento de Limite branco. E esse quadro não combinava com a idéia da vida que um escritor devia levar. seu trabalho. É a sexualidade em conflito: ele. dono da editora em que ele trabalhava. Dali a pouco. com direito a sonhos pequeno-burgueses de casamento. um apartamento com vista para o mar e estaria preocupado em pagar as prestações e a mensalidade da escola das crianças. Caio é demitido. escreveu uma peça infantil. E a vida de escritor. levou-a. Chega mesmo a considerar a hipótese de se assentar. os irmãos Vera e Henrique Antoun. pelo menos na imaginação romântica de Caio. ele pula fora. junto com a mãe e o irmão Henrique. Caio às vezes se torna esquivo. na revista Manchete. era tudo que importava. de forma tão profunda. A comunidade do arco-íris. em que havia uma boneca inspirada na garota. um lar. Mas Caio tem sorte. uma família. Ficaram amigos. uma espécie de paixão entre os dois. a única . Solto. e até mais que isso: surgiu um clima. No entanto. que já havia meio que definido que gostava de rapazes. sua carreira. sai pela tangente. forjada em plena década de 60. ter filhos. e foi por isso. O que viria em seguida?. Vera tinha quatorze anos quando conheceu Caio.só sai da prisão porque Adolpho Bloch. Vinha sempre em primeiro lugar. Só de ida. ele encontra abrigo. pronto desde 1968. depois de horas com ela. para Porto Alegre. se divertindo e conversando e montando um clima apaixonado. em 1971. primeiro romance do escritor. ainda por cima. foi visitá-la no Rio algumas vezes. ele teria um carro do ano. ficava assustado com a possibilidade de se envolver com uma garota e. que o tirou da prisão e pagou a passagem de Caio para Porto Alegre. Caio gostou muito de Vera. Enfim. mais que por benevolência. carinho e amizade na casa de dois quase desconhecidos. escrevia-lhe cartas amorosas. Entre a saída dele da comunidade e a volta envergonhada para Porto Alegre. Bloch queria distância de confusão. nem tudo eram flores.

" De Porto Alegre. tudo muito parado. Assustou-se. dessa vez. por onde anda você. Ele havia participado de algumas cerimônias de chá alucinógeno com ela. olhando as estrelas. Pessoas sentadas na calçada. a relação com Vera não engrenou. Aí Caio passou a evitá-las de novo. ouvir música e passear na beira do rio. onde moravam seus avós. no entanto. não queria sair de casa nem ver ninguém. em Santa Teresa. No entanto. sem televisão. mas. morena como uma princesa raptada por beduínos no deserto? Vezenquando baixa uma saudade. ele voltou a ficar bem: ele sempre recuperava sua força através do contato com a terra de sua infância. Caio reencontrou-se. quase sempre clara como tem sido o ar verde-azulado desse verão. Assim. Em Porto Alegre. Caio ainda estava na fase de amor e empolgação pela garota. no entanto. não por incapacidade de contato. O ano de 1972 foi todo dedicado a essas experiências. No início de 1973. com o que chamaria de "vampirização" das pessoas: todo mundo só querendo saber de falar e falar. Caio escrevia a Vera contando de suas experiências com ácidos e demais drogas lisérgicas. deprimido. Caio estava em uma de suas fases ruins.coisa à qual Caio foi sempre fiel durante a vida. Preferia ver um filme antigo. Está reconciliado consigo mesmo. . e sim por escolha. e fico sentindo falta do teu jeito lento de chegar pisando em nuvens. sem carros. através da visão de paisagens antigas. tão distanciada. começou a procurar alguns amigos. Pensava constantemente em suicídio. e não se arrepende de nada. sempre azul. gente que tinha evitado durante o período em que sentia só escuridão dentro de peito. de fazer comentários espertos. em uma viagem a Itaqui. quando ainda morava com a comunidade hippie que montara naquele bairro. e lhe escreve: "Verinha-maravilha. sem movimento. de mostrar um equilíbrio que não possuíam. tão silenciosa? Em que nova galáxia posso te encontrar outra vez.

e diz: "Caio Fernando Abreu assume a emoção. Caio começa a trabalhar no jornal Zero Hora como copidesque. O ovo é um livro que fala de violência. O prefácio. [. Lygia o chama de "escritor da paixão". já liberto — de certa forma — da influência de Clarice Lispector. Caio escrevera o livro de contos O ovo apunhalado. toda a intelectualidade de Porto Alegre estava concorrendo. que o conhecia havia cerca de quatro anos e seria uma das melhores amigas de Caio até o fim. . Graça Medeiros. Além disso. Aliada a uma imaginação cintilante". Emoção esta que é vertida para uma linguagem que em alguns momentos atinge a rara plenitude próxima de um estado de graça. também não tenho muito. quando o erro faz parte de uma procura ou de um processo de conhecimento. gostando de viver. quando a serviço de uma técnica rica de recursos. Caio planejava sua viagem e continuava a escrever. " Ou ainda: "Não sei muito. voltava de uma temporada na Europa e insistia que ele devia ir também: a atmosfera política e cultural no Brasil estava insuportável. assinado por Lygia Fagundes Telles. Entre as horas de trabalho que passava no jornal. mas a comissão julgadora atribuiu o prêmio apenas a ele. em carta a Hilda Hilst. Essa vitória foi motivo de muito orgulho para Caio: segundo ele conta. minha vontade simplesmente é mostrar-lhes um livro como este. de loucura.." Assim feliz. O conto Visita ganhou um prêmio do Instituto Estadual do Livro (IEL) em 1973. por achar que nenhum dos outros trabalhos tinha nível.] Quando nos seminários de literatura os teóricos pedantes acabam por condenar a palavra. mostra o quanto o escritor já era estimado e admirado nos altos meios literários do país. futura astróloga. como no próprio conto-título..como escreve a Vera: "Nada é errado. a influência do realismo mágico dos latinos se faz notar em alguns textos. também não quero muito. Provar-lhes a atualidade da desacreditada palavra com a própria palavra. com o intuito de juntar dinheiro para viajar. mas estou aprendendo a respirar o ar das montanhas.

discos. Caio era muito crítico. só que seu curso era outro. As pessoas saíam juntas. mesmo quando consome. O que os seres dizem é um atestado da maneira como Caio levava sua vida. Augusto Rigo. Juarez Fonseca lembra de ouvi-lo comentar: — Todo homem com mais de trinta anos é um canalha. Juarez Fonseca freqüentara a universidade na mesma época de Caio. fumavam maconha. O coruja. mas vencem no final. não chegou a conhecer Caio: ele e Magliani formavam uma dupla quase hermética. Apenas uns poucos escolhidos se salvam. quem aparece para mudar a rotina são seres de outro mundo. já de volta a Porto Alegre depois de suas andanças por São Paulo e Rio. Juarez era da equipe do jornal do centro acadêmico. Em um mundo comum e medíocre.Alguns contos de Caio falam da esperança de redenção. E os mártires. um gay espalhafatoso de quem Caio gostava muito. e um dos poucos a conversar com eles de vez em quando era João Gilberto Noll. por exemplo. Juarez Fonseca. No conto Eles. livros. a turma de Caio em Porto Alegre era composta por Maria Lídia Magliani. Falavam mal da ditadura. os salvadores. sofrem. Havia também Lucrécia. muito ácido. Jaime Gargioni. O que eles deixaram foram estes três postulados: importa é a luz. Nessa época. Nessa época. iam a bares. e Graça Medeiros. Oferecem para quem quiser compreendê-los. Os dois se conheceram quando Caio. onde Juarez já trabalhava. uma bela prosa poética. uma dupla estranha. Na faculdade. a mudança. Juarez . a cinza é mais digna que a matéria intacta e a salvação pertence apenas àqueles que aceitarem a loucura escorrendo em suas veias. Sandra Laporta. enquanto Caio cursava — ou tentava cursar — Letras. alguém de fora surge e promete a salvação. porém as pessoas têm medo do novo. foi contratado pelo Zero Hora. Juarez fazia Jornalismo. Conversavam sobre os assuntos da época: filmes. no entanto.

o destino. era um só: Europa. como diagramadora. além de se encontrarem com os irmãos. a efervescência de uma geração que não agüentava a ditadura. "GRRRR: vontade de comer vocês dois com molho de chocolate. Cada um iria por um trajeto diferente. e cabelos pretos e lisos de índio. como os dele. Era um grupo de seis pessoas. principalmente. como o jornal Exemplar. Aninha. dizia ter pressentido que ele tinha QI de gênio. Chico Buarque também. Chico na Itália. casados desde 1971. estava lá. Vera e Henrique foram vê-lo antes da viagem e. A amiga Graça Medeiros já fora e voltara. e se encontrariam todos na Suécia. Caio começou a colaborar nos projetos de que Juarez fazia parte. e a turma de Porto Alegre escolheu a Suécia. em maio.tinha se tornado amigo de Magliani. Sônia Azambuja. Cada um em um país — a dupla de tropicalistas na Inglaterra. Augusto e Ana. mais ou menos na época em que a temporada de trabalho começaria. O pessoal queria mais era sair fora. Caio. de medo. como os dela. Augusto Rigo. Sandra Laporta. que contestasse. pela revista Bondinbo. que também trabalhava no jornal. Veja — na época ainda considerada inovadora — e. no Rio de Janeiro. A questão era só escolher por onde começar. que já estava chegando. foi muito bom encontrar os amigos. que haviam decidido fazer o percurso . ainda entusiasmado com o encontro: dizia que Vera tinha olhos de vaca jérsei. o clima era de paranóia. embora um vidro os separasse. Parecia que no Brasil não havia lugar para gente assim. Era a efervescência da imprensa nanica. E saíram. e que se casariam na Finlândia e teriam sete filhos com olhos de vaca jérsei. a repressão nas ruas aumentava. Os ídolos Caetano Veloso e Gilberto Gil já tinham ido em 1969. também amiga. Caio está exultante. O dia é 28 de abril de 1973. Do avião. Caio. influenciado por O Pasquim. Juarez e sua esposa. No aeroporto do Galeão. Sandra na Suécia —. Caio escreveria aos dois. De Henrique. na cabeça dos brasileiros loucos para saltar fora. Márcio. Não havia tempo a perder. " Antes de partir.

em que um ovo sai de uma moldura e persegue o personagem: Ele saiu da moldura e veio caminhando em minha direção. era cheia de detalhes do fantástico. Agora é um ovo delicado. A obra do pintor holandês nascido em 1450 tinha alguns pontos de contato com a do escritor. Olhei para o outro lado. a casca branca. [. É quando julgo perceber nele uma espécie de súplica: socorra-me.] Mas ele não se move. A escala é em Madri. os carros corriam e a minha imagem mordia o lábio inferior. Lembremos que a própria literatura que Caio fazia. não importava. poupe-me. Então estendo os meus muitos braços coloridos e toco no cabo de bronze do . abrevie-me. você não vê que não tem a menor originalidade — e ele não parou -. onde planejam ficar umas duas semanas. ele continuava ali. Era assim que aquele trio se sentia. e não tenho medo. a arte. e sinto pena dele. bem. estava impregnada desses elementos.. todos já disseram tudo sobre você. escrevem do aeroporto do Galeão um telegrama a Graça Medeiros. Está parado à minha frente e volta-se devagar para que eu fique cara a cara com o punhal cravado em suas costas. que viria a influenciar os surrealistas mais tarde. Brincavam que o avião tinha sido seqüestrado e que eles estavam em Beirute. Além do humor cáustico. Quando tornei a me voltar. as linhas mansas de seu contorno: um ovo. nesse momento. tenro. Caio. cheios de boas expectativas e esperanças. quase ternura. qualquer cozinheira conhece seu segredo. "maravilhosos".juntos. mas se fosse Beirute. Por acaso o destino final era a Suécia. e da dificuldade de salvação. Como no conto O ovo apunhalado. Caio quer tirar carteira internacional de estudante e ver Bosch no Museu do Prado. Disselhe isso — mas ele não parou -. com que retratava a vida de pecados do ser humano. Ana e Augusto não vão direto para a Suécia. logo antes de deixar o Brasil rumo a aventuras desconhecidas. mas nada aconteceu: os carros passavam por cima da minha imagem refletida nas vidraças. humilde. mordi o lábio inferior..

Em Madri. Sua figura chamava a atenção: a Espanha é um país católico. Sônia. Meus olhos são janelas. as pessoas eram fechadas." De Madri. até o pesado cabo de bronze onde dedos comprimem com força. Lúcia grita. rígidas. com catedrais com mais de 500 anos e casas de 300. depois empurro lento. firme. cheio de repressões. Estavam numa esquina da cidade quando viram passar Caio e os amigos que tinham ido com ele. Juarez escreveu no diário que estava fazendo da viagem. E sinto uma lâmina penetrando fundo em minhas costas. andavam na mesma turma em Porto Alegre. . Nessa época. Amsterdã ou mesmo Estocolmo prometiam ser. A sua casca está manchada pelo fio de sangue coagulado. por acaso. no dia 29 de abril: "Caio muito louco caminhando pelas ruas. Caio não achou mesmo muita graça na Espanha: a comida era horrorosa. Sobre o encontro casual com o grupo de Caio.punhal. Caio. mas é tarde demais. Vejo minha casca clara partir-se inteira em cacos brilhantes que ficam cintilando pelo chão do banheiro. Uma breve hesitação. Hesito um pouco. as ruas de Barcelona eram sujas e poluídas. minhas pálpebras grades. Era ainda época de ditadura no país. minhas mãos tentáculos. meus dedos ferro. Caio e Juarez ainda não eram íntimos. Todo mundo olhando. perdidos entre espáduas. e nesse sentido estava longe de ser o paraíso dos costumes que Londres. e se ouviam relatos de torturas e fuzilamentos. moralistas. O casal tinha ido até Lisboa de navio. Se hospedaram em um hotel na esquina da casa onde morou Picasso. Augusto e Ana foram a Barcelona. e não se viram mais. Caio encontra. trabalhavam no mesmo local. e de lá para Madri de trem. mas fecho os olhos no mesmo momento em que meus dedos se cerram em torno do punhal. até o encontro combinado na Suécia. Juarez Fonseca e sua mulher. agora. 0 sangue escorre e eu. Foram tomar um café. Bonito mesmo Caio só achou o bairro gótico. mas não trocavam confidencias e coisas do gênero. também estou no céu com diamantes.

De lá. O avô. também. Caio também iria lavar pratos. Passear pela capital francesa era como andar sobre séculos de história. fazer comida. jamais poderiam comer. onde grupos de pessoas se reuniam para tomar vinho. e depois se mudaram para outra. todos iriam se estabelecer. Harekrishnas andando sossegados pelas ruas. é claro. Sônia arrumaria emprego em um hotel. O grupo estava sempre junto. Era uma festa. . Sandra também se saiu bem — roubava camarões do hotel onde trabalhava e trazia para casa. que Caio estava mesmo indo morar em Estocolmo? Na Suécia. de outra forma. Aos poucos. Em dado momento. Os estudantes estavam de férias. vou morar na Suécia. um pouco maior. e os estrangeiros se hospedavam no que usualmente eram seus alojamentos. Augusto se revelou um exímio ladrão de supermercados: vestia seu macacão Lee e enchia os bolsos de enlatados. fosse na "casa" de um ou de outro. requintadas. Todo mundo se deliciava com os camarões que. Ficaram uns seis dias nessa residência. o grupo seguiu para Paris. conversar. Encontravam-se depois dos respectivos trabalhos e iam beber. Bares charmosos. os grupos se juntaram e foram todos morar numa residência estudantil minúscula. e Sandra Laporta em outro restaurante. Aos poucos. morreu de rir. Qual seria a cara dele agora. Era o paraíso. com todos os cortes de cabelo e roupas que se possa imaginar. arrumar empregos: Juarez iria trabalhar no restaurante Catelin. diria Caio. Caio Fernando Abreu tinha nove anos de idade e estava passando uns dias na casa de seus avós. quando eu for grande. gente variada. todos iriam se ajeitando e conseguindo moradias individuais ou em duplas. porém. ele vira para o avô Aparício Medeiros e diz: — Um dia. na fronteira do Rio Grande do Sul com a Argentina. Era noite em Itaqui. de cultura. em outro lugar. mulheres elegantes. de civilização. Pisar nas ruas francesas era como "pisar no coração do mundo". e a impressão que a capital francesa deixou foi de puro deslumbre.

A coisa foi tão boa. embaixo de um pequeno barranco. de haxixe. Caio também tinha medo. de conto de fadas. A primavera sueca está relativamente quente: dá pra sair de manga curta tranqüilamente. Uma caixa de TV está jogada no lixo.caríssimos que eram. Juarez. o Caio parece o Jesus Cristo! Sandra corre para a frente da máquina e diz. Esse tem um insight e grita. nas horas vagas. de ácido. e ficaram todos pirando cor-de-rosa. junto com ovelhas e cervos. no dia 24 de maio. "Para bom entendedor. Era época de maconha. meia palavra basta. o pessoal arrumava tempo também. Juarez pára de entender o que está . digamos. Caio vai até lá e passa na frente do visor de Juarez. O dia 27 de maio caiu num sábado bonito. até o efeito passar. extasiado: — Puxa. três ligeiras palavras: "Pintou um pink. numa boa. na verdade. andando por debaixo das árvores. Caio está vestido todo de branco. No dia seguinte. coloridas. Atmosfera mágica.. com medo de que aquilo fosse manifestação de alguma bad trip: — Corta essa. que logo começaram os planos para outra dessas excursões.. com a cabeça em órbitas insondáveis. para viver o sonho lisérgico de uma geração. Os brasileiros reunidos em Estocolmo vão fazer um piquenique num bosque no bairro de Kungshara. esquilos passeando tranqüilos. Uma beleza de bosque: jardins cheios de amores-perfeitos e tulipas. Entre um delito e outro. Caio e Augusto tomaram o tal pink. com sol e tempo bom. Os ácidos tomados às duas e meia da tarde nada mais fizeram que realçar a magia natural do parque. mas pegou uma coisinha aqui e outra ali. Era medroso demais e não conseguia levar um roubo até o final. Juarez pegou carona. e embarcaram numa viagem incrível. Nesse momento. cara. olha pelo visor da máquina fotográfica. E era um desses adoráveis quadradinhos mágicos que fez Juarez anotar em seu diário. Juarez nunca pegou nada.

O detergente lavava também toda a arrogância que Caio pudesse sentir. bandejas. com luvas de borracha até o cotovelo. aquele de lavar pratos. Novos Baianos. sem maldades ou malícias. analisando a viagem do amigo. A viagem ruim começa pra valer. Ali. Não tinha sido fácil. Assim como parecia distante o tempo em que tinha morado em Santa Teresa. em uma imitação malsucedida de comunidade hippie. lavando pratos. o disco Chico & Caetano. Na volta à terra. tudo. ele não era melhor que ninguém. passa logo. o fiorde ali do lado com o castelo do rei Gustavo Adolfo. O mundo à sua volta.acontecendo. quando ele encontrou o primeiro emprego. e Caio se dedicou a ficar oito horas de pé por dia. longe da cidade. essas lembranças ruins pareciam distantes. as descobertas de si mesmo e dos outros por que Juarez tinha passado. longe do Brasil. Jorge Ben. tudo de forma muito pura. no Rio. Depois de sete horas. Mas ali. A idéia de paraíso na terra deve ter desmoronado para Caio mais ou menos dois dias depois do piquenique no parque. Os livros que lera. Ali. o bosque. Comeram xis-búrgueres com batatas fritas. copos. junto com os outros. junto aos amigos. Augusto foi parar numa fábrica. sua postura . E passou mesmo. E também garfos. o grupo foi para a casa de um português ouvir discos. Caio. naquela cozinha onde todo mundo falava uma língua que ele não entendia. num país distante. Até mesmo utopias que tinham escorrido pelo ralo por causa da dureza da realidade pareciam mais fáceis de acontecer naquele país. cara. e tinha passado por umas terríveis em Porto Alegre. os textos que escrevera e publicara. facas. vai consolá-lo: — Isso não é nada. panelas. as coisas pareciam possíveis. Ele mesmo era muito sujeito a badtrips. Era em um bar. Caio falava e falava. onde os jovens se deitavam seminus nos parques para tomar sol. no centro de Estocolmo. com seu temperamento depressivo. Ele e Augusto rodaram vários dias até encontrarem colocações. possíveis significados. Cat Stevens. tudo perde o significado.

ou do engraçado africano que trabalhavam com ele. Juarez estava triste. a Suécia era para ele o paraíso. sem maiores preocupações. ele era um lavador de pratos que não falava sueco. por enquanto. Sentiria falta. na cozinha de um bar no centro de Estocolmo. cujo único exercício físico era o levantamento de copo. nada disso o distinguia de David. Estava sendo assim com Estocolmo e provavelmente seria assim com Londres. que debochava de todo mundo. Ali. lavando louça. inteligente e bem informado. No dia 18 de julho. o boliviano. isso não importava. e passado o impacto e a fascinação dos primeiros dias. E Caio. o momento parecia duro demais para enfrentar. ele começaria a achar a cidade um horror."avançada". que ele tanto ansiava em ver. Claro que. antes de chegar à Suécia. se sentisse triste. Ponto. com o Rio de Janeiro. como todos sabiam —. decidiria que o menino cheio de esperanças que ele fora um dia morrera ali. com Porto Alegre. o gay negro. até dos guardas que vinham expulsá-los sempre que começava a sessão de violão. . Falta de Nega Lu. Mas. e a temporada chegasse ao fim — e chegaria. Uma vez lá. Chegaria também sua vez de partir. pois era forte demais e seria capaz de pendurar pelo pescoço qualquer um daqueles intelectuais. talvez. bem ao seu estilo. Que seu livro O ovo apunhalado tivesse ganhado Menção Honrosa em um concurso no Brasil. ou dos dois japoneses. Fora assim com São Paulo. sem possibilidade de cura. Caio não se sentiria triste. Mas não. quando aquela vontade de viver novas experiências passasse. e ele também. Caio foi se despedir deles. porém. Juarez e Sônia foram embora. Fora assim com Madri. mas de quem ninguém debochava. enquanto eles vendiam colares e um francês tocava violão. talvez. Sentia-se um estrangeiro onde quer que fosse. Saudade de ficar com Augusto e outros malucos na praça. enfrentativo. Esse era Caio: sempre achava um jeito de colocar defeito no lugar onde estava. Caio poderia voltar para a casa dos pais e viver uma vida de odalisca outra vez. dramaticamente.

Mas Nelson. onde as pessoas eram fechadas demais. incapaz de se comprometer. claro. Chuva a todo momento. Trocaram cartas amorosas. A cidade parecia saída de um livro de Virgínia Woolf. Todo o deslumbramento. trabalhar de modelo vivo em escolas de Belas-Artes. foi esfriando à medida que chegava a hora de voltar ao Brasil e encará-la frente a . A primeira impressão foi de êxtase: cabelos coloridos andando pelas ruas. era defensivo. finalmente. Caio estava. Ele era individualista ao extremo e não deixaria que alguém entrasse em seu mundo. Caio e Vera Antoun continuaram se correspondendo. em Londres. Durante todo o tempo em que esteve viajando. Fazer faxinas em casas de atores. cinzenta demais. não era isso que os livros tinham prometido. uma chateação. horas na mesma posição para que os alunos o desenhassem. interessantes. logo ele já estaria achando a cidade fria demais. por exemplo. um dançarino cubano que ele estava meio que namorando. roupas dos anos 30. aliás. com todas aquelas odes às mulheres pequenas-gordinhas-deóculos). ele saltava fora. sem ninguém olhar nem comentar. embora tenha tido seu momento. ninguém seria. não viria a ser o grande amor da vida de Caio. Falava. Nesse ponto. bem diferente da dura Estocolmo. e era maravilhosa. Não era isso que ele tinha sonhado. só duraria o tempo suficiente para que Caio escrevesse meia dúzia de cartas para os pais e amigos. qualquer ameaça à sua liberdade. E aquela história de não ter dinheiro para nada e trabalhar em subempregos para sobreviver não era nenhuma maravilha. parques lindíssimos. Depois de meses sozinho. Caio arrumara uma paixão que o fazia suspirar pelos cantos e cantar canções do Roberto Carlos (lembrem-se que o ano é 74. em que ele contava suas experiências e suas mudanças de humor.Depois de ter dado um pulo na Holanda e na Bélgica. soltando farpas para todo lado. e a fase brega do rei ainda não tinha começado. pessoas gentis. A relação com Vera. como. por exemplo. de Nelson.

entradas enormes na cabeça. disse que casar não tinha nada a ver. sempre sem dinheiro. Será que ela ia querer alguém assim ao seu lado? Em abril de 1974: "Tenho medo de te ferir. ele não tinha condição de pôr um filho no mundo. acabava. quase sempre. Além disso. não é bem assim. Me pergunto sempre se você não teceu em volta de mim uma porção de coisas irreais — se você não está projetando em mim qualquer coisa como um príncipe encantado — esperando a minha volta como quem espera a salvação. uma paixão avassaladora. que falara em casamento e filhotes com olhos de vaca-jérsei.frente. Desculpe. Caio escreveu muitos textos sobre o relacionamento entre duas pessoas. sozinho. já estava dizendo: opa. exatamente aquilo que ele estava tentando evitar. Para uma avenca partindo: — Olha. o cabelo lindo e escorrido de índio estava indo embora. vendendo o almoço para comprar cigarros. Mas não deixava que ninguém entrasse demais em sua intimidade. Ele. A incomunicabilidade. sem fantasia. estava branquelo demais de tanto não-sol que fazia em Londres. tanto sobre relações hetero como homossexuais. experimentou de tudo. só teria certeza disso se estivesse com ela ao vivo e em cores. Quarto: ele estava ficando careca. Primeiro. comum entre pessoas que se gostam. antes do ônibus partir eu tenho uma porção de . Assim. não do jeito que vivia. E terceiro. sem comicidade. A seu modo. Essa sempre foi uma de suas principais preocupações: sempre quis viver um grande amor. ele não podia mais dizer que a amava. Mas acho que precisamos 'falar seriamente'. era uma mudança e tanto." Para quem queria comer a garota com molho de chocolate. mas acho que sim. Segundo. que se duas pessoas se gostavam. foi explorada em um texto de O ovo apunhalado. não era preciso papel nenhum para afirmar isso.

será que vai dar tempo? Escuta... sabe. está esfriando tanto.... espera um pouco mais. e a culpa é única e exclusivamente sua.. continuaremos conversando enquanto o ônibus não sai... antes do ônibus partir eu quero te dizer uma porção de coisas........ antes de você ir embora eu quero te dizer quê. é isso mesmo.. eu vou escrever.. mas é que a gente tem tanto medo de penetrar naquilo que não se sabe se terá coragem de viver. sei. não fecha a janela. porque as vivemos apenas naquela dimensão em que é permitido viver. Mas a Inglaterra é um país onde o shopliting é punido de forma mais severa .... eu espero aqui do lado da janela. vou dizer tudo numa só frase.. as maçãs ficam comigo.] [.. é muito importante..... indevassável... é só uma coisa. esse velho não vai incomodar você. olha. porque tanto eu como você sentiremos uma falta enorme de todas essas coisas.. depois. eu ainda não disse tudo. As lojas grandes de onde roubavam nem sentiriam o prejuízo.. você vai....coisas pra te dizer.. está tudo definido aqui dentro. por que você fica sempre me interrompendo e me fazendo suspeitar que você não passa mesmo duma simples avenca? Eu preciso de muito silêncio e de muita concentração para dizer todas as coisas que eu tinha pra te dizer. dessas coisas assim que não se dizem costumeira-mente. é melhor mesmo você subir. olha. não existe um dimensão permitida e uma outra proibida.. dessas coisas tão difíceis de serem ditas que geralmente ficam caladas.. no mais fundo. depois você arruma as malas e as bolsas. Além de arrebentar esperanças e se engraçar com rapazes cubanos.. não é isso que eu quero dizer. eu quero dizer... porque elas não foram existidas completamente. não me entenda mal.. olha.. não.... mas é bom você botar um casaco.] está bem... entende.... na estrada.sim. e se elas não chegarem a ser ditas nem eu nem você nos sentiremos satisfeitos com tudo que existimos. fica tranqüila... falta muito pouco tempo. não.. Caio continuou em Londres com os pequenos roubos em lojas.... e se eu não te disser agora talvez não diga nunca mais... eu não vou escrever.......... porque nunca se sabe nem como serão ditas nem como serão ouvidas. espera. compreende? olha...... você está acompanhando meu raciocínio? [. Coisa pequena.

em julho de 1975. John Lennon anunciara o fim do sonho de toda uma geração. Era mais do que Caio ganhava por semana na escola de Belas-Artes. Os dias de Caio na Europa também. roubar livros é errado. embora amenizado. o sonho acabara. O . os seguranças e policiais não queriam nem saber de conversa. Prisão num país estranho e 500 contos a menos: era até onde o amor à literatura tinha feito Caio chegar. não é? A frase foi escrita por Caio Fernando Abreu no espelho de seu quarto em Porto Alegre. mas apertando aqui e ali. com a abertura começando a se esboçar. roubaram livros e foram vistos. quando Caio e o amigo Homero. Ele só acreditava nele mesmo e em Yoko Ono. do primeiro ábum de Lennon sem os Beatles. entraram em uma livraria. Assim. dava para pagar. Cinco anos antes. Por causa dos dois volumes de uma biografia imensa sobre Virgínia Woolf. what can I say?" A música era God. o Plastic Ono Band. Ching. Os besouros musicais já não existiam.que no Brasil. mas não é pecado. e o mundo devia seguir em frente sem eles. Jesus. ele percebia o quando tinha reclamado de barriga cheia enquanto estava viajando. "The dream is over. O clima claustrofóbico da ditadura continuava. como diz Garcia Márquez. não houve meio de convencer os guardas de que. estava na hora de voltar para casa. O ano de 1968 ia longe. De volta ao Brasil. ao cantar que não acreditava mais em coisa alguma: mágica. que também morava no apartamento que ele dividia com Marisa e Augusto. TRÊS — Tá certo que o sonho acabou. É. Buda. Caio e Homero passaram a noite na cadeia e foram condenados a pagar 30 libras de multa. Elvis ou Beatles. mas também não precisa virar pesadelo.

no momento. Bono era um psiquiatra diferente dos outros: era. junto com o jornalista Luiz Carlos Maciel. Só faltava aprontar o enterro.Suplemento Literário de Minas Gerais. mas que no geral só servia para reforçar aquilo que ele considerava o grande problema do ser humano: o ego. de pagar suas consultas. avisou que só poderia publicar um conto dele se as palavras "merda" e "tesão" caíssem fora. internações em clínicas. Ninguém se entendia. É. O milagre econômico dos militares não tinha chegado até a casa da família Abreu. Acreditava que a psicanálise tradicional tinha algumas vantagens. Caio se virava para sobreviver em Porto Alegre. como não chegara para a maioria dos brasileiros. falava em macrobiótica e. e a necessidade de sobreviver maior que a de curar caraminholas da cabeça. Ele ia por um lado mais zen. Não precisava fazer faxina nem posar em escolas de Belas-Artes. mais de desapego. como em Londres ou Amsterdã. era o Brasil. as referências eram outras. um antipsiquiatra. Readaptar-se era difícil. porque estivera fora. acreditava numa forma de conhecimento mais holística. se o dinheiro não fosse tão curto. mas algum trabalho ele . O sonho estava acabando. queria fazer de Porto Alegre um centro de irradiação da contracultura para todo o Brasil. Caio gostava muito de Bono. e não era só para os Beatles. Caio poderia consultar um psiquiatra amigo seu. Enquanto o enterro não vinha. Não se podia andar pela rua com cabelos compridos e batas indianas sem chamar a atenção. coisas assim. não adiantaria nada: o milagre estava com os dias contados. mas não tinha condições. em que Caio colaborava desde antes de viajar. E. As pessoas em Porto Alegre estavam mudadas: tinham feito coisas das quais ele nada sabia. Por que mesmo ele tinha decidido voltar? A depressão veio pesada. na verdade. Ernesto Bono. mesmo que tivesse. O clima estava ficando pesado também no quesito drogas: muita gente estava começando a pirar. elas também não sabiam nada das experiências por que ele passara.

Por dois meses. oficinas de criação literária para alunos com ou sem talento. ele não estava melhor que antes. por exemplo. com quem. sem dinheiro nem para as anti-consultas com Bono. Bondinho: cada um com sua opção formal. ficaram famosos veículos como O Pasquim. como a chamara João Antônio nas páginas de O Pasquim. comandado por Juarez Fonseca. na metade da década de 1970. porém. ele colaborou em quase tudo que era nanico: Opinião. poderia escrever o que quisesse. Eram jornais que. sem esconder nem maquiar nada. traduções e revisões para editoras. . Findo o prazo. Entre 1967 e 1973 existiu. E uma das coisas que havia para se fazer em Porto Alegre. justamente por serem independentes. ainda não totalmente recuperado da experiência européia. O jeito foi então escrever uma crônica falando exatamente desses sentimentos escuros que ele sentia. Escrita. podiam se dar ao luxo de dar espaço a críticas e inovações. não era privilégio de paulistas e cariocas. Dois meses antes da revista sair. Juarez começou outro projeto que teria a participação de Caio: a revista Paralelo. No eixo Rio-São Paulo. Tirando O Pasquim. Movimento. Juarez pediu a Caio que entregasse uma crônica para o primeiro número da revista. Escrever na imprensa era parte daquilo que ele chamava de "biscates culturais": resenhas e críticas para jornais. Opinião. era colaborar com a imprensa alternativa. como sempre. em que Caio Fernando Abreu chegou a colaborar algumas vezes. tendo em comum apenas a condição de nanicos. e nem as inspirações brotavam com mais facilidade. sem idéias. aliás. estética e política. Ele teria uma página só para ele. ele esperou que alguma idéia aparecesse.tinha que ter. Versus. que duraria apenas quatro números. e a saída era. Em 1976. alguma coisa bonita para oferecer aos leitores. Movimento. o jornal Exemplar. o Jornalismo. Mas Caio estava deprimido. pois havia veículos para todos os gostos. A imprensa nanica. qualquer coisa que pudesse garantir algum dinheiro no fim do mês enquanto ele escrevia seus livros. Inéditos. Ficção. um luxo. Caio compraria uma boa briga no final de 1976.

e tenho consciência de quanto isso parece ridículo e juvenil. para refazer. essa era uma responsabilidade grande demais para ele. como uma nevralgia psico-espiritual (!). para organizar o caos.Depois de consultar o amigo Giba Rocha. simplesmente não consigo pensar organizadamente (?) ou ter idéias claras ou/e precisas sobre as coisas. porque — estou usando o máximo de. sinceridade — não sirvo nem pra porta-voz de mim mesmo. DÓI PRA CACETE. desculpem. o que. "apesar das nossas ficções": "Escrevo por uma espécie de incompatibilidade-de-gênios com a vida. cita Mario Quintana e Adélia Prado. " Fala também em revolução sexual e de alguém que ele queria encontrar. Fala de uma coisa e outra. tudo dói. Sérgio Caparelli. todas mais aptas a escrever a página que ele: Tânia Faillace. escrevo para reinventar. Viam nele uma espécie de porta-voz da geração dos anos 70. você me entende?. meu irmão. e eu não sei o que fazer. e é isso mesmo que eu sou. para não enlouquecer de impotência. Nos últimos tempos tenho me movimentado com dificuldade dentro dos meus escombros-de-dentro. por uma série de razões demasiado pessoais para serem trazidas ao baile (trata-se de um baile?) ando com uma autocrítica violentíssima e não consigo. Mas no momento. descobriu que muita gente tinha gostado de entrevistas que ele tinha dado." A crônica segue e Caio menciona amigos. Eu disse: quaisquer. ele acabou se tornando mesmo. de certa forma. Nas cartas que tenho escrito ou nos meus rabiscos solitários (e vis. entrevistas veementes em que Caio assumia suas posições peculiares com firmeza. de forma não-planejada. reclama que as grandes sacanagens sociais continuam acontecendo. talvez) no meio da noite. quaisquer que sejam. Mas não pense que não sei do inútil disso. parece que alguma peça importante para o meu funcionamento simplesmente quebrou. esse "ter nascido me estragou a saúde"ambulante e crônico. "Acontece que não sou [porta-voz] e não quero assumir esse papel. referindo-se à previsão de Bono e de Luiz Carlos Maciel de que a Bahia já era e o novo pólo de irradiação da . Cobra dos outros. Luiz Fernando Emediato. pessoas talentosas. acabo sempre caindo na mais lamentável das auto-lamentações: dói. mas nunca está em casa. só não estou mais afim de fingir que tudo-bem.

Em dado momento. conversavam. quando foi preso em Garopaba. entre elas Graça Medeiros. já faz tempo. Mas a taça destinada à sua geração nem sempre tinha só champagne. um pouco era por causa da economia em crise. Caio e Graça foram até a padaria. Jaime." E voilá. Na ocasião. e das brabas. chamou o garçom (seria o Isaac?) e pediu outra. soltaram-no. Se a ditadura existia. Caio. Ele já havia sido preso em 1971. Se Caio estava mal. Tocavam flauta. na cidade. a ditadura era uma das coisas sobre as quais Caio não tinha controle algum. num bar: "Um dia alguém precisa virar a mesa ao invés de só pedir outra Brahma. como gostava de dizer. Se ele não conseguia encontrar um único e belo amor. em um falso flagrante de drogas. era por causa das drogas.. Estava bebendo de sua taça. se recusasse a falar. de vez em quando era cicuta. eram dez ou quinze pessoas. "Arrotou.contracultura no Brasil seria o Rio Grande do Sul: "como é que é? não era um lugar altamente esotérico? Não aconteceriam coisas incríveis por aqui?" O texto termina: "Alguém me disse. ora. que era o verdadeiro alvo. Se não havia dinheiro. Se havia bad trips. riam. estavam presos. talvez estivesse procurando nos lugares errados. Era uma dose amarga que sua geração tinha que engolir sem reclamar. muito dignamente. Queriam que ele depusesse contra Graça. Caio provou desse veneno em 1975. Graça foi presa e condenada em um flagrante . em parte a culpa era dele. Caio apanhou muito. no litoral catarinense. Dessa vez. ela de biquíni.. alguém apontou para eles: — Olha lá! Minutos depois. era porque. daquelas de matar filósofos. Como Caio. Bem. a pessoa em quem realmente estavam de olho. por questões políticas. entravam no mar. no Rio de Janeiro. uma crônica estava pronta. ele de calção. No caminho. mas também porque Caio nunca se sujeitou a um emprego comum por muito tempo.

rabo entre as pernas. Caio passou uns tempos na casa de Emanuel. — Conta. mistura de fatos com altas doses de invenção e fantasia. a dedicatória foi suprimida. mas. Depois de ter sido preso e solto na despedida de Jaime. um ano depois.) — Conta. ficou furiosa. foram condenados a passar um tempo em clínicas psiquiátricas. às vésperas de um show dos Doces Bárbaros. que. O responsável pela prisão era o delegado Elói Gonçalves. Cão batido. em Pedras de Calcutá. Essa história serviu de inspiração a Caio para escrever o conto Garopaba mon amour. (Pontapé nas costas. por prender Gilberto Gil e Chiquinho Azevedo por porte de maconha. Quando o conto foi publicado em livro. em Garopaba. publicado pela primeira vez na revista Ficção. E não só: à fugitiva Graça Medeiros. de Emanuel Medeiros Vieira. Nessa ocasião. (Bofetada na face esquerda. Graça tinha sido uma das responsáveis pela publicação de O ovo apunhalado. escritor catarinense. de modo que Caio acabou nunca mais dedicando texto algum a ela. e estava escondida. Evitamos nos encarar — por que sentimos vergonha ou piedade ou uma compreensão sangrenta do que somos e do que tudo é? —.) Antes do episódio em Garopaba. O . Mastigamos em silêncio as chicotadas sobre nossas costas. — Não sei. quando os olhos de um esbarram nos olhos do outro. E os corações de vidro pintado estalam ainda mais alto que as ondas quebrando contra as pedras. o mesmo que ficaria famoso. assim como Graça. são de criança assustada esses olhos. em Florianópolis. armado na delegacia de Florianópolis dois dias depois de ter sido presa em Garopaba. é claro. A epígrafe do texto é um trecho do conto Garopaba meu amor. E a quem o boca-grande do Caio dedica o conto? A Graça Medeiros.) — Conta. -Não sei. -Não sei. Graça tinha dado um jeito de escapar da clínica.falso de porte de maconha. (Bofetada na face direita. Gil e Chiquinho.

Graça era assessora de Paulo Amorim no Departamento Cultural da Secretaria de Educação e Cultura do Rio Grande do Sul. menção honrosa do Prêmio Nacional de Ficção. . Como a experiência desse certo com o Sarau. porém. O leiteiro. era a continuação do trabalho com teatro que Caio vinha fazendo desde que voltara da Europa. enquanto aguardam o fim do mundo chegar. Ao amanhecer do dia seguinte. o outro mais uma. primeira de várias parcerias da dupla. em 1973. e fora escrita a quatro mãos por Caio e por Luiz Arthur Nunes. pelo Instituto Estadual do Livro. além de publicar O ovo.. e Caio escreveu alguns diálogos curtos. Na época.. ao qual o Instituto Estadual do Livro (IEL) era vinculado. a peça foi indicada para leituras em várias partes do país. na maior facilidade. em 1976. no apartamento de Luiz na rua Jerônimo Coelho. foi repetida em 1977: Luiz Arthur ia fazer um espetáculo de esquetes. Em 1974. que mais tarde. Aquela era uma peça de esquetes. e intercedeu junto a ele para que o livro saísse. Em 1975. teria seu nome trocado para Pode ser que seja só o leiteiro lá fora. Os dois chegaram a morar juntos por um ano. e com contos suprimidos pela censura. e assim sempre. de onde Caio só sairia para a famosa casa da rua Chile. e o outro mexia. sabiamente. Caio receberia o Prêmio Leitura do Serviço Nacional de Teatro (SNT) pela peça Uma visita ao fim do mundo.. alguns amigos se escondem em uma casa abandonada. mas só seria publicado dois anos depois. precisava de alguns textos. logo depois. tinha trabalhado com o grupo Província na peça Sarau das 9 às 11. foi proibida. fluía. Um escrevia uma frase.. Premiada.. Ou então cada um escrevia uma cena. em parceria com a editora Globo. retocava. que o sol ainda brilha e o mundo está a salvo. por enquanto. A parceria com Luizar — como Caio o chamava — era boa. descobrem que não há nuvens de radioatividade.livro tinha ganhado. Em Pode ser que seja só o leiteiro lá fora. e só viria a ser encenada em 1983.

coisas assim. de certa forma consagrado. Por essa época. tanto que. perdeu o respeito de uma parte da crítica. aclamada por um certo ramo da crítica mas desconhecida do público. Ou os quatro cavaleiros do Apocalipse. Outro em quem Caio deu um empurrão foi o poeta Nei . claro: a pornografia de Hilda não era como outras pornografias.. como qualquer pornografia. trazendo ouro. Quem sabe é Mona com os extraterrestres? Eles vêm nos buscar também. deu provas de sua fidelidade. Eles vêm nos matar porque nós sobrevivemos. como a própria Hilda Hilst. A escritora se magoava com isso. tudo piração: pode ser que seja só o leiteiro lá fora. Ilusão. apodrecendo e caindo. Esses escritores se correspondiam. com aquela pele toda verde. CARLINHA — Eu acho que são os sobreviventes da explosão. já mais velha. ninguém lia Hilda Hilst. impressões. LEO — É a polícia. Tenho certeza que é a polícia. Caio já era. tentavam ajudar uns aos outros dentro de suas capacidades. principalmente através do conto. ANGEL — Puede ser algun vecino. e nisso Caio não desapontou os amigos. O espírito da época era de solidariedade com os colegas. decidiu que iria escrever livros eróticos para ver se venderia mais. e que quase ninguém conhecia. e ela não vendeu nem meio exemplar a mais por isso.) — Estão batendo na porta. além disso. e nem só do grande. ROSINHA — Devem ser os três reis magos que vêm visitar o menino. Os monstros. ele era um dos integrantes do chamado boom literário dos anos 70: uma turma nova que fazia ficção. Na época. Com três livros publicados.. Mais de uma vez. principalmente em Porto Alegre. escrevendo em jornais sobre os escritores que admirava. trocavam informações. ALICE — Piração. incenso e mirra. Nós tínhamos o direito de sobreviver ao fim do mundo. piração. metade dos anos 70. escrevendo resenhas positivas em jornais e revistas. que passou a chamá-la de velha safada.JOÃO (Sem emoção. um escritor reconhecido. BABY— Ou Mona. mostrando o texto dos amigos para outras pessoas.

gaúcho de Uruguaiana e radicado na capital. e perguntou em quem o poeta estava pensando quando escreveu. Os três separaram os poemas por tema. Será?. Caio inclusive. Quintana adorou o poema. iria na casa de Nei e o ajudaria a editar o livro Outubro. Estava em dúvida. Quando o livro saiu. Vê-lo publicado com capricho pelo governo do estado. a não ser em jornais mimeografados. E seria Juarez também que.Duelos. Então Caio sugeriu que ele colocasse o Mario Quintana no título do poema. anos depois. Juarez Fonseca ainda andava por lá. perguntou o poeta. Nei seguiu o conselho e nomeou o poema Mario Quintana. como Caio. Caio usou de sua influência no IEL para conseguir a publicação de Outubro. o livro garimpado na papelada de Nei. Quando entrara na faculdade. no geral. organizaram o livro. se o Nei pode. nem tinha nada publicado em lugar nenhum. Os outros poetas podiam pensar: ei. Nei era jornalista. e foi ele que. eu também posso. Alguns conheciam sua poesia de vê-la declamada nos encontros de estudantes. e em geral estava certo: Nei acatava sua sugestão por achar que tinha ficado melhor. porém. tinham muito a agradecer à diretora do . — No Mario Quintana — disse Nei. Tanto que aceitou fazer o prefácio do livro seguinte de Nei. Antes de Mario Quintana ver o poema. o livro tinha que ser publicado. Caio o aconselhou a arriscar. chamou-o a um canto e explicou tudo: o movimento estudantil é assim e assado. Eles eram amigos de conversar sobre literatura. era algo para se comentar. Nei não era ainda conhecido. na primeira reunião de estudantes a que o calouro Nei compareceu. mas. cinema. Caio sugeriu a troca de algumas palavras. Caio leu um poema do qual gostou muito. ele era um autor marginal. em plena ditadura. junto com Caio. Não se arrependeria: quando o livro saiu. Muitos dos autores publicados nessa época pelo IEL. Ele deu um parecer favorável à publicação do livro. Nada teria a perder. foi um acontecimento: afinal.

porém. Com uma visão aberta e democrática do que devia ser a literatura. Entre os seis autores escolhidos estava Caio. mas escritor "sem grande brilho". gente que vinha se destacando pelo talento precoce. O mineiro Luiz Fernando Emediato era jornalista e . Em segundo. também participaria da antologia. como escreveu em uma reportagem Luiz Fernando Emediato. Uma dessas antologias. o carioca Júlio César Monteiro Martins. e era preciso desovar essa produção de algum jeito. com 21 anos e uma arrogância típica da idade. mas como se tornar conhecido se não aceitavam publicá-los? Apesar do heroísmo de Lígia Averbuck. para combater a política conservadora das editoras. ela não podia dar conta de toda a cena literária do Rio Grande do Sul. o mais velho da turma. bom jornalista. com 28 anos (Caio tinha 27). Assim. Caio participou de várias. Era uma maneira de divulgar a novíssima literatura do país: muita gente estava escrevendo coisa boa. Mais coisas precisavam ser feitas. Era aquela velha história: quem não fosse conhecido não seria publicado. que. e muitos autores simplesmente novos. Domingos Pellegrini. desconhecidos. ela trouxe para o instituto e conseguiu publicar muitos autores considerados malditos. iria causar a Caio uma enorme dor de cabeça. Antônio Barreto.instituto. os autores começaram a se unir e a produzir antologias. ambas de 1976. viria uma antologia de doze contos de autores novíssimos. Lígia Averbuck. Pouco tempo antes. algumas pagas do próprio bolso. poeta de 22 anos que dava seus primeiros passos na ficção. O primeiro livro que ele quis publicar foi uma história policial de Otávio Ribeiro. Os outros eram o próprio Jeferson. a ser dirigida por Jeferson Ribeiro de Andrade. entre elas Teia & Assim escrevem os gaúchos. aos 25 anos. que dificilmente conseguiriam espaço em outras editoras. editora de O Pasquim. E justo aquela que lhe daria mais visibilidade: a antologia publicada pela Codecri. o nanico mais influente do país tinha decidido criar uma editora.

no entanto. A princípio. Barreto. E. que fundaria décadas depois. Anos mais tarde. e escreveu a ele pedindo um texto para a Inéditos. ele editava suas revistas. e Júlio César. todos se revoltavam contra alguma coisa. Os autores da antologia se correspondiam. por causa do mau humor. e Inéditos. escreveria Emediato. na reportagem que fez para a revista Geração. "Jéferson era naturalmente revoltado. eles continuaram a se corresponder. ficaram amigos. todos amavam a literatura. Um desses escritores era Caio Fernando Abreu. antes de retomar as atividades de escritor. ainda não ser considerado o maior gênio da literatura brasileira de todos os tempos". em 1977. e ruim à medida que fosse ficando mais velho. por causa disso. Luiz gostara de um livro de Caio. se correspondia com outros autores. infeliz. Pellegrini e eu éramos marxistas e queríamos derrubar a ditadura a qualquer custo. Os dois vinham lendo os textos um do outro há algum tempo. trocavam impressões. as coisas tinham tudo para dar certo. Aos 19 anos. Isso até que o crítico Flávio Moreira da Costa o chamasse de Shirley Temple: surpreendente enquanto jovem. escrevia seus romances e contos. foram convidados para fazer parte da antologia Histórias de um novo tempo. O ovo apunhalado. da vaidade juvenil. embora as semelhanças parassem aí. diria que talvez Flávio tivesse razão. Caio. cujo talento tinha o mesmo tamanho.editava as revistas Silêncio. Naquela época. da Codecri. numa bela definição dos envolvidos na antologia. ainda que derramando sangue. um burguês liberal. Caio mandou. Essas diferenças. revoltava-se naturalmente contra a trágica condição humana. revoltava-se contra o fato de. iriam se agravar com o tempo. aos 21 anos. fora considerado por muita gente uma espécie de garoto-prodígio da literatura brasileira. que logo foi fechada pela polícia. tinha ganhado o prêmio Revelação de Autor e. através de suplementos literários diversos. enorme. da editora Geração Editorial. Havia muitas coisas na visão de arte dos . Emediato.

pouco preocupado com o que pudessem pensar. sempre independente. como os chamaria na dedicatória de um livro anos depois Emediato. Os seis eram os "paladinos do Oeste". Emediato enviaria a ele uma cópia do Manifesto Neo-Realista. Ali parecia estar uma alma-irmã da sua. Afinal. em carta. O mineiro tinha escrito alguns contos de temática homossexual. ele não era de forma alguma contra o individualismo. com isso. e assim podia pagar as consultas) e. ou opiniões. Mareei Proust. Virgínia Woolf. aliás. muito dono do próprio nariz. uma das primeiras coisas que Caio leu do documento foi a frase: "contra O individualismo". e nenhuma da primeira. o indivíduo. E esse era apenas o começo da confusão. Imagina. ainda gostava muito do pessoal que sairia na antologia. embora fosse casado e hetero convicto. mas que no final viram regras mesmo — a serem seguidas não podia ser agradável para Caio. o preferido de Caio. e servira para mostrar que não era aquilo que ele queria. Sua única experiência com um homem fora na adolescência. fazia um ano que ele estava fazendo análise (tinha conseguido um emprego na Folha da Manhã como crítico de teatro. mas graças a quê? A analisar o ego. emergia da depressão pós-Europa. Assim. Caio lera alguns desses textos. por exemplo. Em março de 1977. como se queira chamar. Além disso. Caio ansiava pelo momento de conhecê-lo . Mesmo assim. duas vezes a segunda página do manifesto. lentamente. Caio usou de muito tato. e achou que havia esperança. Suas influências literárias só falavam do indivíduo: Clarice Lispector.companheiros com que Caio não concordava. para dar a entender a Emediato que não assinaria o manifesto. ser contra o individualismo. Que idéia. Agora ele estava melhor. por engano. A própria idéia de um manifesto. O eu. de um conjunto de regras — ou diretrizes. escrevia os tais contos. Ora. criado pelo grupo para dizer ao mundo o que eles pensavam sobre literatura. com a mesma sensibilidade. Emediato tinha mandado.

E saiu editado. O filho de oito meses ficou com a avó. coisas do gênero. e ele decidiu viajar com a esposa Sylvia. Mais dez mil exemplares saíram. poderia ver se suas expectativas se confirmavam ou não. Na sua cabeça. por exemplo. em quem não perdoava a vaidade juvenil. Foi visitar Emediato em sua casa. mandava ele lamber sabão ou catar coquinho. Implicou. puderam se apertar as mãos e se olhar nos olhos. mas ela mesma não ficou tanto tempo lá. Agora faltava encontrar o resto do grupo. sob todos os pontos de vista. manifestando toda a sua raiva. por exemplo. A grana era boa. E a resposta o deixou ainda mais irado: O Pasquim. e acabaram logo. com Júlio César. Nessa época. Os moradores amigos se sucediam. Quatro deles — Barreto e Pellegrini não puderam ir —. em Belo Horizonte. escreveu uma carta ao jornal. Os autores foram entrevistados pelo tablóide. de 20 mil exemplares. Caio morava na casa da rua Chile. . em Minas. com trechos cortados. e o texto saiu. toda a parte em que ele falava de homossexualismo teria ficado de fora. Só que Caio não gostou nem um pouco da tal edição. Histórias de um novo tempo teve sua primeira edição. Tudo correu bem. no cara-a-cara. com um pátio bem grande. Intempestivo. Luiz Fernando Emediato ganhou um prêmio literário da revista Status. a relação do grupo foi se esfacelando mais e mais. no Rio de Janeiro. para que coubesse no jornal.pessoalmente. a amizade se fortaleceu. um chalé de madeira agradável. A coletânea era um sucesso. O encontro com os outros paladinos aconteceu no lançamento da antologia. A confusão aconteceu mesmo quando os quatro foram dar entrevista a O Pasquim. A casa estava alugada no nome de Graça Medeiros. só trechos dos seus depoimentos tinham sido cortados. esgotada em quinze dias. No final de 1977. bem ao seu feitio. que uns dos outros só conheciam palavras escritas. como todos os textos. O plano era visitar Caio em Porto Alegre — a relação entre eles sobrevivera aos entreveros com os demais paladinos e com O Pasquim — e depois ir até Buenos Ares ver Eduardo Gudino Kieffer e Jorge Luis Borges. Depois disso. Nada de mal até aí.

aqui-e-agora. Caio disse a Luiz Fernando que o amava.. O mito do artista sofredor parecia calar fundo no coração do escritor. que o aconselhou a não arrastar uma relação moribunda. nem lembro mais. e sempre tinha gente visitando. por favor POR FAVOR: crave seus dentes na minha polpa . vivendo e sangrando e amando. teria sua tradução literária em vários contos. Densidades Inimagináveis. não consigo mais ler essa porcaria.. Sua mania de se apaixonar por homens obviamente heterossexuais talvez fosse uma forma de defesa. de garantir desde o começo que não daria certo. esses pássaros idiotas sobrevoando essa ilha de loucos. de auto-sabotagem. claro. Caio decepcionado. A relação entre Sylvia e Emediato não ia muito bem já há algum tempo. que levaria Caio a se apaixonar e se declarar várias vezes na vida.como Caio e Sandra Laporta. es-pás-ti-ca. em 1973.. Ele mencionara o assunto em carta para Caio. aqui-e-agora. O personagem é uma mulher. Um exemplo é Até oito. Ah. A sede de amor. cinco-seis-sete-oito: por favor. sequiosa de amor: [. Teria assunto. para que assim sua liberdade e individualidade fossem mantidas intactas. como fizera a Emediato. na casa da rua Chile. proparoxítona é que tem acento na antepenúltima? o pôster de Burt Reynolds. mas pegou suas mãos. A coisa não deu certo. Emediato ficou constrangido. do livro Pedras de Calcutá. como Emediato e Sylvia. a minha polpa macia. esperando o quê? esperando quem? Aqui-e-agora. dizer propriamente não disse. venha comigo.] tomar banho e ficar na sacada sem olhar os pêlos molhados do suor do peito do moço da construção em frente. Caio teria vivência para escrever. Sylvia na cozinha. já na beira dos trinta anos. então. espástica. e é claro: sofrendo bastante. Bem.. O suficiente para que Emediato entendesse a mensagem. que vontade. o olhou nos olhos. que fora com ele para a Europa. O que Emediato não sabia é que o amigo estava advogando em causa própria: em Porto Alegre.

Caio iria morar novamente em São Paulo. Caio e Emediato ainda estavam muito ligados. muito indignado com o que ele considerava uma discriminação. o bate-boca. Ferreira Gullar. tanto temática quanto formal. certinho demais para ser seu amigo. Raduan Nassar. Emediato e Carlos Emílio se lembram que Caio. Mas aí as coisas estariam mudadas: ele passaria a considerar Emediato careta demais. Além das confusões com tablóides. Júlio César Monteiro Martins. Foi nesse encontro que Caio teve um bate-boca com Edla van Steen. Coletânea talvez não seja a palavra correta. 1977 foi o ano do lançamento de Pedras de Calcutá. se escrevendo por vários anos. Caio e Emediato continuaram amigos. Instalou-se a confusão.maciaaaaaaaaaaaah. Seus . Pelo menos era essa a sensação que Emediato teria. Ney Matogrosso. Mas a maioria de seus amigos estava lá de farra: Emediato. Nos anos 80. entre vários outros. Edla vetou. Caetano Veloso. Mesmo depois da declaração de amor não ser exatamente bem recebida. Carlos Emílio Corrêa Lima. A nata da nata da literatura brasileira estava lá: Rubem Fonseca. declarações de amores impossíveis e congressos com escritores superestrelas. Lygia Fagundes Telles. Não o perdoaria por não ser louco como ele e seus ídolos: Cazuza. onde trabalharia com Emediato e o veria quase todos os dias. a escritora. terceira coletânea de contos de Caio. se retirou do jantar junto com os amigos. do qual participariam apenas alguns escritores. Mas em 1977. Quando o grupo tentou entrar no tal jantar. na época esposa de Flávio Moreira da Costa e uma das organizadoras do congresso. Caio estava entre os convidados. era um dos oficialmente inscritos no evento. Foram juntos a um congresso de escritores em São Paulo. Edla havia organizado um jantar fechado. Caio sempre buscou em seus livros de contos uma unidade.

com textos escritos dos 14 aos 46 anos de idade. Como um ritual. para manter essa coerência. Pensei que talvez o sol. e depois mais um. diz um verso bem bonito. É o domínio da palavra escrita. e outro mais. diz adeus e vai embora. buscando sempre o termo exato. de Pedras de Calcutá: Há bem pouco um pensamento cruzou minha mente. o calor e Deus pudessem voltar de repente. se jogará ao fogo. O mundo está esfacelado. Mas Deus morreu faz muito tempo. aquecerá os outros por mais alguns momentos. por não se adequarem à proposta da obra que estivesse trabalhando no momento. Muitos desses textos seriam lançados mais tarde. sim — coletânea Ovelhas negras. cada qual tratando de determinado tema ou enfocando os assuntos sob perspectivas específicas. no momento exato em que a última chama se desfizer e alguém esboçar o primeiro gesto. A relação com a palavra aproxima-se da dos poetas. ..livros. na década de 90. muitos textos considerados bons pelo autor ficaram de fora. não nos olharemos dentro dos olhos. As cartas continuam queimando. Uma ciranda. com o calor. talvez a mente de todos: creio que quando esta última chama apagar um de nós terá de jogar-se ao fogo. O conteúdo do livro segue fazendo a biografia de uma geração: já não se acredita mais na revolução. Cada livro tem uma lógica própria. A partir desse livro. lapidando e burilando. daquelas em que uma criança entra dentro dessa roda. quando Caio organizaria a — aí. Eu tentei pensar em Deus. artesãos.] Não nos falaremos.. [. Pedras de Calcutá talvez seja o livro que marca o amadurecimento de Caio como escritor. Apenas já não somos crianças e desaprendemos a cantar. Talvez se tenha ido junto com o sol. e assim. Apenas um de nós treze fará o primeiro movimento. Caio se sairá cada vez melhor nesse aspecto. são divididos em partes. no mundo que estava tão diferente nos últimos tempos. o sonho acabou. depois se tornará cinza. nos ideais esfacelados. Mas eles não voltarão. O indivíduo continua um estrangeiro em busca de um modo de estar no mundo. em geral. como no conto Holocausto.

estava aquele rapaz de calça de couro. Estranho estrangeiro. mais uma vez. encostado no carro. como se podia dizer sempre das relações de Caio. E quem o via pela primeira vez. irremediável. Caio não deve ter ficado menos impressionado com os cabelos louros e os modos doces de Celso. incapaz de viver nela. Ainda assim. Era. No meio de tanta paixão. era Celso Curi. Em alguma brincadeira cujas origens se perderam na história. os dois começaram a se chamar de . sem paz fora da própria terra. era Caio Fernando Abreu. mas intenso — queriam engolir um ao outro. e as coisas bonitas já não acontecem mais. como se uma tristeza infinita houvesse por trás dos olhos. ele tinha emprego no jornal. muito magro. Alto. O rapaz. como disse Celso. Um breve caso. se cheirar. encontrava alguns amigos. e de solitário também. Caio se sentia um estrangeiro eterno.Seria bonito. jaqueta. havia lugar para o humor. jornalista e agitador cultural. hora de levantar vôo. aonde quer que fosse. mas um homem de trinta anos de idade. elegantes. que ninguém era de ferro. A presença do rapaz era forte. cabelos escuros. Caio não podia esperar mais tempo. O ser todo exalava algo de sexual. que não era exatamente um rapaz. faltava algo. que estava de volta a São Paulo. logo que se conheceram. se tocar. QUATRO Encostado no carro. viveram um apaixonado caso. mais tarde. pois os dois. pronto para partir corações e ter o seu partido outras tantas vezes. não havia quem não a notasse. Como seus personagens. gestos finos. Talvez o centro. estar no olho do furacão. e notava sua calça de couro preta. Em Porto Alegre. uma nuvem de melancolia. escrevia suas coisas para teatro. Uma nuvem preta o acompanhava.

morou em primeiro lugar com a amiga Maria Rosa Fonseca. Havia verdadeiros códigos. ou Anthea. Duran. Mas a brincadeira pegou. e aí era Marilene falando com Marilene.Fraser e Gomide. Valdir e Caio agora repetiam a dose. Okky de Souza. pequena demais. trabalhando na revista POP. Permeando a obra e a vida de Caio. "Lasanha" é aquele homem bonitão. junto com Vânia Toledo. cheinhas. Caio chamava. — Alô. "Jacira". — Olá. uma loucura. . ou MVlen. e depois ligavam dizendo: — Ei. "rodenir" eqüivale a coisa brega. na rua Capote Valente. se divertiam. palavras inventadas por Caio e por seus amigos que acabavam virando termos correntes no vocabulários desses grupos. amigo e colega de trabalho de Caio em Porto Alegre. Em São Paulo. vou cobrar direito autoral. por exemplo. Gomide — ligava Caio. e as atrizes. os dois magros que nem papel. mais uma vez. podia ser utilizada por Caio no dia seguinte. por causa das atrizes Etty Fraser e Geórgia Gomide. Caio e Maria Rosa se tornaram muito amigos. escrevendo. a amiga Jacqueline Cantore de Marilene. Ela se lembra dele ouvindo Velvet Underground o dia todo. que se traduz em signos. Caio tinha voltado a morar em São Paulo em meados de 1978. E essas brincadeiras com as palavras não existiam só na maneira de chamar as pessoas. é sinônimo de bicha. tinha se tornado insuportável. como Marilene mesmo. Uma expressão surgida na noite. bebendo baldes de café e escrevendo. Porto Alegre. J. Maria Rosa fora esposa de Valdir Zwetsch. há o humor queer. como vai? Essa brincadeira de nomes não era exclusividade da relação de Caio e Celso. forte. Os amigos liam aquilo. brincadeiras e palavras próprias. Ele mesmo podia assumir um nome feminino. em alguma festa ou bar. em um conto ou crônica. Fraser.R. digamos. por exemplo. Semelhança menor não podia haver. no bairro de Pinheiros. uma espécie de humor próprio dos gays. massudo.

tarefas simples. Em 1984. Uma distância. quando Laura. e Fraser e Gomide correram perigo. nascesse. Caio não era uma pessoa fácil de conviver. mas nunca se lembrava de uma conta para pagar. três dias trancado no quarto. Por que. no dia-adia. sem rancores. havia um quarto sobrando. mil perdões. ligava. era absolutamente impossível prever seu comportamento. Ele tanto podia aparecer com flores ou mandando as pessoas para aquele lugar. é preciso que se diga. arrumado. E foi aí que o encanto quase se desfez. com a organização — dizem — típica dos virginianos. Caio topou na hora. um temperamento explosivo. pedindo mil desculpas. murchinho. Continuavam encantados. sanitária. ele e Celso já haviam se tornado grandes amigos. um gentleman. Celso morava sozinho em um apartamento na Cristiano Vianna. era infinita. Caio não conhecia tanta gente na cidade. tiradas mordazes e irônicas. ele a chamava. digamos.escrevendo todos os dias. fino. que viria a ser um tormento a vida toda para quem dividisse casa com ele. Caio ajudaria a dar o primeiro banho. todos se divertiam. Caio ficava dois. Quando Caio decidiu sair da casa de Maria Rosa. a dificuldade com coisas práticas. Depois batia-lhe o arrependimento. uma qualquer-coisa que de repente lhe subia e ele não conseguia medir palavras. e quem ficasse no caminho levava chumbo. Tinha um gênio dos diabos. era melhor manter uma distância saudável dele. Era mesmo difícil não se desentender com ele. E havia aquela estranha necessidade de ficar sozinho de vez em quando. e ela ia apresentando algumas pessoas. De vez em quando saíam para jantar. sua capacidade de fazer rir. E aí ele era elegante. Cheio de manias. No começo da estada. sem botar a cabeça para fora para . gostava de tudo no lugar. Mas quando o mau humor resolvia dar as caras. mas a paixão havia passado. O mau humor. Lady Laura. Quando estava bem-humorado. vira-lata com rabinho entre as pernas. a filha de Maria Rosa. Por que não chamar Caio para morar com ele? Chamou.

morando juntos. chorava. e abriu seu teatro. foi no OFF. Aí Caio podia contar piadas. morando onde desse. se precisava de alguma coisa. E Caio prosseguiu sua vida nômade. O trabalho lá era uma delícia: na descrição de Caio. de Caio. e tudo ficaria bem até que a montanha-russa desse mais uma volta e ele ficasse down outra vez. Na última semana. vinte e cinco dias por mês o pessoal não fazia absolutamente nada. pediam pizza por telefone e fechavam a revista. Celso devendo alguma coisa a Caio. com quem calhasse. já dava para ver que os dois. o bom humor nas alturas. A diversão era tanta que a turma da revista acabou virando a . botar o taro. Uma das primeiras interpretações que Gilberto Gawronski fez de Dama da noite. da editora Abril. não davam certo. destinado a apresentações ainda mais experimentais que as do palco normal. As faxineiras enlouqueciam. se escrevia. o Espaço OFF. Caio saiu do apartamento. O que Caio fazia lá dentro. Quase um ano depois de ir morar com Celso. Fraser e Gomide a vida inteira. a coisa não funcionava. eram momentos apreensivos. foi a vez de Rofran Fernandes. Mexeu com a cabeça. logo os dois estavam amigos de novo. se estava morto.nem dar um olá. e os de fora sem saber se estava vivo. Fraser e Gomide saíam com ele. E aí era legal de novo conviver com o Caio. Para Celso. dormia. um lugar para apresentações mais alternativas. em um palquinho de lxlm. Depois de Celso. e depois dele outros ainda. E houve tensão também: problemas de dinheiro que ficaram mal resolvidos. Nada que o passar do tempo não resolvesse. Mesmo assim. como que lamentando. e comentou: — Tenho uma pena de você. se mudavam para a redação. falar de astrologia. Foi aquela choradeira. Uma vez Caio botou as cartas para Celso. Você nunca vai enlouquecer. porque não podiam entrar no quarto e limpar. Mas quando ele resolvia sair. só se divertia. Celso também se mudou. Caio continuava o trabalho na POP. Celso não sabia.

e eles conversavam. quando estavam bem. que trabalhava na redação da revista Nova. e demais escritores que amavam ou que estivessem lendo no momento. Outra amizade que veio daqueles tempos é com a jornalista Paula Dip. hoje conhecida escritora. Tempos depois. Dedicado à Paula. Caio subia do segundo andar. do livro Morangos mofados. que só viria a dar por terminado anos mais tarde. pesava 42 quilos. que deu seu apoio. uma única vez. Levinha. não viam o tempo passar. de brincadeira. na época. Um dia. falavam de coisas pesadas. No meio de uma conversa aparentemente banal. Caio foi um dos primeiros leitores. Tendo se descoberto grávida. onde trabalhava Maria Adelaide. Apresentada por Celso Curi. que também trabalhou na POP por uns tempos. o homem. e gostou do que leu: disse à amiga que ela tinha muito talento. No terceiro andar do prédio da editora. o sempre muito magro Caio resolveu pegar Adelaide no colo. pelo menos. ela optou por fazer um aborto. A amizade seria selada por um episódio triste da vida de Paula. dramaturga e autora de novelas. Caio se espantou: descobriu que ela não era magra. . em 1987. Maria Adelaide escrevia o romance Luísa (quase uma história de amor). Proust. e ele acabaria sendo muito protetor em relação a ela. onde ficava a POP. Ela. Na época. está entediado com a ligação da mulher. se divertiam. quando estavam mal. Lui. Lawrence Durrell. Levíssima. vizinha à POP. era levíssima. de coisas leves. Contou a história ao Caio. escreveu o conto Pela passagem de uma grande dor. trabalhava Maria Adelaide Amaral. para o terceiro. Discutindo Katherine Mansfield. e o apelido ficou para sempre. em que ele parece ansioso por desligar. que vai fazer um aborto. Maria Adelaide ficou amicíssima de Caio. Uma vez por dia. ela menciona. o conto descreve uma conversa telefônica entre dois amigos. Paula era mais certinha. quando tudo melhorava. A amizade perdurou mesmo depois que deixaram de ser vizinhos de emprego. menos porralouca que Caio e alguns de seus amigos.turma de Caio em São Paulo por uns tempos. na Abril Cultural.

para a revista Nova. ele. é incômodo e doloroso para Lui. — Abriu a mão e olhou as manchas branquicentas na palma. assim como fizera com a hippie anos antes. em que todos usavam drogas. Embora hoje seja praticamente impossível achar o disquinho. a "grande dor" do título: o assunto. Ele mesmo passaria pela situação duas vezes na vida. dos filhos que não teve. haviam sido grandes dores. ou para edições .— Tá bom — ela disse. E para Caio. ele dizia. como o pessoal da redação costumava brincar na época. E pensou que quando começavam a falar desse jeito era sempre um sinal tácito para alguém desligar. Aqui diz que tem vitamina E. o medo da criança nascer deformada pelas substâncias era grande. Para ele. — Tá bom. Embora em determinado momento da vida Caio tenha aderido à estética punk. e ele fazia o que podia. em geral ele não tinha muito em comum com os assuntos tratados na revista. também. de vez em quando. na verdade. — Vou tirar amanhã — ela falou de repente. em crônicas e entrevistas. Caio falaria. — Hein? — Nada. A revista POP apresenta o punk rock é o marco histórico do gênero no Brasil. Mas não quis ser o primeiro. de como seriam se tivessem nascido. em comum acordo com as garotas. A POP era a primeira revista brasileira voltada para a cultura jovem. optou pelo aborto. Até hoje é lembrada por ter introduzido no país o punk rock. — Não é essa que é boa para a pele? A aparente frieza esconde. na verdade. Vai fazer teu chá. Mas era preciso "costurar pra fora" para sobreviver. Nas duas ocasiões em que namoradas suas engravidaram. é que as gestações aconteceram em períodos loucos. Costurava também. — Tá bom — ele repetiu. com a coletânea de 1977 que trazia músicas de grupos estrangeiros do novo gênero musical. A justificativa.

Sendo todas as revistas da mesma editora. aumentar as fotos. ou como cuidar de bebês. então estavam indo muito mal. dizendo que a revista está péssima. de certa forma. o que bastou para que este estourasse e abrisse a torneirinha de indignações. havia grande rotatividade de jornalistas. mas a questão dos horários. E disse mais. ou o que viesse. eu não estou. Aquilo foi demais para Caio. enfim. a parte prática e pragmática da coisa. — A gente não deve colaborar com a alienação. pessoal que estivesse com o horário mais folgado. "emprestava-se" pessoal de outras redações.especiais. em dias de fechamento. supostamente o público-alvo da revista. Era preciso reduzir os textos. ele tem uma pequena briga com o diretor da revista. se era chata de agüentar para qualquer um. mais dolorosa ainda era para Caio. Caio não concordava. . Em certo momento. o trabalho jornalístico era penoso para ele. O diretor marca a reunião para nove da manhã. e dos prazos. — O leitor não gosta de ler — justificou o diretor. por exemplo. mas só aparece às dez e meia. E falou. As penas continuaram voando. melhorar o lado visual. — E se você está a fim de colaborar com o processo de castração mental da juventude brasileira pós-64. mas fazia free-lances para vários outros veículos. Caio era contratado da POP. ou culinária. e muito bem. A formação dele tinha sido feita antes de 1964. a parte desinteressante de qualquer emprego. Não a parte de escrever. e elas adoravam ler. a Abril. O diretor chamou Caio de obsoleto. o diretor comentou que os títulos de Caio pareciam livro antigo de História. E já chega falando grosso. se o chefe achava que cultura e leitura eram coisas obsoletas. Em fevereiro de 1979. Tinha duas irmãs adolescentes. Sempre a contragosto. e de lidar com chefes. que isso ele fazia com facilidade. sobre a vida de John Travolta.

Se esperava notícias do esturricante calor nordestino. descer rua. Estressava-se. percebi que não conhecia vivalma (ai esse português castiço!) na cidade. e ele ia aproveitar o período de folga para retomála. cansado. ele concluiria em carta à mãe. A literatura andava meio abandonada há um tempo. olhar — olhar o quê. lugar calmo. e não podia deixá-las morrer só por causa dos trabalhos jornalísticos. atravessar Capibaribe. todo mundo em volta quieto. Logo no início. Talvez estivesse precisando de umas férias. Nada de Olinda: a carta vinha de Porto Alegre mesmo. Aí rodei por lá um dia inteiro. No fim. assistir filmes como Iracema ou O Super-Macho ou A ilha das cangaceiras virgens (descobri que Helena Ramos dá de dez em qualquer Sônia Braga. na Rua do Hospício —juro! Solucionados os problemas de acomodação. eu FUI até Olinda. Caio resolveu ir a Olinda. comer tapioca. Uma semana depois de suas férias começarem. Caio explica a mudança de planos: "O que aconteceu? Bem. onde me instalei num hotel de oitava: o Suíça Hotel. ele escreve uma carta ao amigo José Márcio Penido. bonito. louco para dar uns pontapés nas pessoas e dizer umas verdades. menos de uma . olhar. As férias vieram. olhar. onde teria a paz necessária para escrever. Caio estava nervoso. meu deus? Meu caro Garcia de Oliveira. como na fábula do lobo e do cordeiro: contra a força não há argumentos". voltar para o hotel. "Afinal. eu estudei muita História e se a juventude de hoje não sabe nem quem foi Getúlio Vargas é porque não se estuda mais História. Andava cheio de idéias. idéias ambiciosas. de belas praias e malemolências. depois de muito suar e gritar. passar o dedo com desgosto em cima do quilo de poeira dos móveis. Acabei indo pra Recife. em que contava o episódio. dessa coisa de ganhar a vida. José Márcio deve ter levado um susto. E toca subir rua.— Minha mãe é professora de História. em retirante. mas não podia. Ana Matos que me perdoe). olhar. tropeçar em cantador. jornalista mineiro radicado em São Paulo. me deu uma solidão tão grande que. sem encontrar lugar pra ficar. olhando a briga. Caio calou a boca.

Mais que a doença física. no hay caminos. o que aprender. Ele está deprimido. que tinha morado em Santiago até ficar adolescente. do . Na época. da dor que precisa ser mexida e remexida. o mineiro funcionava como uma "referência viva" de São Paulo para o gaúcho. Ao final do ano. Cita um poeta: "Caminante. ninguém absolutamente que se importasse com ele. a amada e odiada Porto Alegre. " (Ana Matos era Ana Braga. mas nem disso está tão certo. José Márcio de Cambuquira. a cabeça de Caio não está legal. porque José Márcio. Saiu do Recife porque não havia ninguém lá. Não há o que ensinar. arrumei tudo e voltei pra Sampa. Caio pegou uma gripe violentíssima — resultado da mudança brusca de temperatura. entre outros questionamentos. cheia de interrogações. Zé escreve uma carta triste para ele. amiga de Caio e de José Márcio Penido. Mas essa concepção era fruto da cabeça romântica de Caio. Caio a chamaria sempre de Ana Matos por causa do personagem Júlia Matos. Passei uma noite lá. Caio achava que se entendiam porque eram ambos de cidades do interior: ele de Santiago. dúvidas. e visitava a cidade sempre que podia. irmã da Sônia Braga. mas nem lá as coisas pareciam melhores. Caio. interpretado por Sônia em Dancin Days. depois disso. só morara em Cambuquira até os três anos de idade. Nordeste a 30 graus e Rio Grande a 2 graus negativos. Depois das férias. ele e Caio eram muito próximos. Em São Paulo. de volta da praia. Pero se hace camino ai andar. Sente-se solitário. o amigo José Márcio Penido também passava por suas próprias crises. ele diz querer escrever. a situação era diferente da de Caio. quando Caio volta a Porto Alegre para mais um período de férias.) Em Porto Alegre. Caio volta à vida de jornalista em São Paulo. responde como pode." Fala da dor que é escrever. foi procurar suprir essas carências na cidade mais que conhecida.semana depois. na verdade. Peguei as lãs e peles e vim pra cá. a família tinha se mudado para Belo Horizonte. Ele cresceu com asfalto nas veias.

da auto-anulação: um sentimento de glória interior. volta para casa. dedicado a José Márcio Penido e que daria título ao próximo livro de Caio: o conto Morangos mofados: Na parede a natureza-morta com secas uvas brancas. A vocação para guru. peras pálidas. Com Morangos mofados. Era um paradoxo: Caio não estava ensinando ninguém. Caio já era. "A única recompensa é aquilo que Laing diz que é a única coisa que pode nos salvar da loucura. mergulhado nas palavras. Às dez da manhã. nenhuma pitanga madura. até que Luiz Schwarcz. descansa um pouco. Caio acorda. na época na Brasiliense. mas as pessoas aprendiam com ele. o danado ainda custou a sair: ficou dois anos na Nova Fronteira. Nenhuma melancia escancarada. Essa expressão ê fundamental na minha vida. quatro quilômetros. senhor. passeia um pouco. de forma espiritual e ao mesmo tempo intensa. E o resultado dessa jornada é um texto. Corre um pouco: três. Faz mais alguns exercícios. Então. na gaveta. considerado um guru de sua geração. interveio: se o contrato fosse cancelado. Em 1981. enquanto terminava de escrever o livro.quanto é preciso sangrar se se quiser produzir algo bom. vai à praia. para poder terminá-lo. embora involuntária. Está na hora de cozinhar o arroz. do suicídio. . Depois da refeição. onde trabalhava. estava em Caio. Caio pediu demissão da Nova. às vezes falando sozinho. sempre presente em minha boca? Antes da publicação de Morangos mofados. que come com calma. essa situação atingiu seu auge. O dia todo submerso. E depois de pronto. somente então. começará a escrever. um belo texto. Um morango mofado — e esse gosto. de certa forma. nenhuma manga molhada. e ele não podia fugir dela. sua maneira de encarar a arte com seriedade. macilentas maçãs verdes. " São sete da manhã. e de transformar grandes dores em grandes textos. nenhum morango sangrento. Aprendiam sua maneira de ver o mundo.

que vira a revolução acabar antes mesmo de ter qualquer chance de dar certo. para deslizar as costas pela sacada até ficar de joelhos sobre os ladrilhos escuros. Estava na metade. Achava que sim. aquele escrito na praia. deixa apenas fotografadas. o último conto. o livro virou clássico instantâneo: oito edições tiradas em seqüência. Morangos mofados. Caio. Tinha cinco anos mais que trinta. num giro de cento e oitenta graus sobre os próprios pés. Abriu os dedos. observando os canteiros de cimento: será possível plantar morangos aqui? Ou se não aqui. do desencanto de uma geração. teria sido inspirado na primeira experiência . Publicado. Sargento Garcia. as mãos postas sobre o sexo. em seu livro. absolutamente só enquanto considerava atento.em um mês ele publicaria o livro. Mas era um homem recém-nascido quando voltou-se devagar. de repente. 0 gosto mofado de morangos tinha desaparecido. apesar das ilusões perdidas. e tomar uma posição a respeito dele. sucesso de vendas e de crítica. supondo que setenta fosse sua conta. Ele deixa as coisas em aberto. termina com uma esperança. Mas seu livro. as emoções de uma época. Absolutamente calmo. que finalmente o lançou. em 1982. Sim. Caio pediu para rasgar o contrato e entregou o texto à Brasiliense. Um dos contos mais marcantes do livro. por mais melancólico. no ar. E sempre aquele rótulo ajudando o livro a vender: o retrato de uma geração. não toma essa posição. Como uma dor de cabeça. mas era realmente um pouco assim como se ouvisse as notas iniciais de A sagração da primavera. procurar algum lugar em outro lugar? Frescos morangos vivos vermelhos. Sim. é hora de começar de novo: Poderia talvez ser internado no próximo minuto. entre caminhadas ao sol e porções de arroz integral. é um atestado de que o mundo pode dar certo. E agora que uma nova década começava. absolutamente claro. Que sim. por mais triste. era hora de olhar para trás e rever o momento que passara. Apesar dos pesares.

. A revelação. travesti de Porto Alegre que mantinha uma casa de prostituição. feito bicho numa jaula fedida.homossexual de Caio. entre grades e ferrugens quieta domada fera esquecida da própria ferocidade. nojento. conta Caio. no centro da cidade. a mulher que aparece no conto. "Me jogou em cima da cama. mas longe. num domingo à noite. com lençóis sujos e um rolo de papel higiênico na cabeceira. Ao menos foi isso que ele contou em entrevista à Marie Claire. como os reflexos escondidos. Caio foi.. ou dolorida: . o portão azul. como uma língua estrangeira. No conto. o escolhido para viver o sargento seria o ator Marcos Breda. ele foi seguido por um homem. o vidro rachado. sem conseguir juntar os sons em palavras. porém. alguém gritando alguma coisa. que não devia abrir os olhos nem sentir cheiros para sempre surda cega muda naquele mais de dentro de mim. Mesmo sem saber direito o que iria acontecer. "Me fez segurar o pau dele e eu saí correndo". os quatro degraus de cimento.] barulho de copos na cozinha. completamente sem romantismo". em 1995. a própria Luiza. Caio transforma o tal homem em um sargento. a madeira descascada da porta. Embora eu soubesse que. nada tem de perigosa. que nenhum ofuscamento se fizesse outra vez. em Porto Alegre. como uma língua molhada nervosa entrando rápida pelo mais secreto de mim para acordar alguma coisa que não devia acordar nunca. morrendo de curiosidade. e Isadora. Quando Tutti Gregianin decidiu filmar o conto. tentando apanhar um farrapo de voz na plataforma da estação cada vez mais recuada. Quando tinha 16 anos. O tal puxou papo com ele e marcou encontro para três dias depois. uma vez desperta. é possível que o lugar a que o escritor se refere seja a casa dela. Como o conto é dedicado à Luiza Felpuda. porém. o sargento Hermes. O homem o levou a um lugar horrível. porque devia ficar enjaulada amordaçada ali no fundo pantanoso de mim. tão longe como se eu estivesse na janela de um trem em movimento. O conto traz em si a história dessa descoberta: [. não voltaria a dormir. em 1998. para sempre e sempre assim.

Cida ia bastante a Porto Alegre nos anos 70. debruçado na janela aberta. Escritores. cantora. Embora paulista. amiga de tempos antigos. por exemplo. Caio dava um grito do quintal. sucesso de crítica e público. amanhã sem falta começo a fumar. sem esperar que parasse. que tem horror às rodinhas literárias. Ela era uma garota jovem. como escritor respeitado. Era assim. de O ovo apunhalado. De seu quintal. ainda que maldita: Queria dançar sobre os canteiros. vieram morar Orlando Bernardes. ou bater papo. na verdade. ao ficar fascinada com o conto Eles. Ficou sozinho por um tempo.ela traz. e depois Jacquéline Cantore. Meu caminho. também. qualquer coisa assim. Amanhã. repeti sem entender. sem saber para onde ia. uma forma de viver. Pedi passagem. a libertação. por causa do relacionamento que mantinha com uma pessoa de lá. Morangos mofados consagra Caio. Caio circula bastante por essa época. Eu nunca o tinha visto em toda a minha vida. estiquei as pernas. cheio de uma alegria tão maldita que os passantes jamais compreenderiam. podia enxergar o apartamento de Cida Moreira. pensei confuso. então. Porque ninguém esquece uma mulher como Isadora. Mas não sentia nada. Na casinha da Melo Alves. As vezes. artistas. olhando as casas e os verdes do Bonfim. O que é descoberto é um caminho. Em 1980. Subi correndo no primeiro bonde. ela é que chamava. 0 bonde guinchou na curva. meu caminho não cabe nos trilhos de um bonde. Às vezes. E ninguém me conhecia. escrevera uma carta e entregara junto com . Tinham se conhecido no início da década de 80. Embora diga aos amigos que prefere se resguardar. Ele já rodava bastante antes mesmo do livro sair. decidi. todos querem ser seus amigos. Em São Paulo. quando ela. Caio fora morar numa casinha de vila na Melo Alves. Uma vez desperta não voltará a dormir. fã de Caio. sentei. mudando de emprego e de casa como quem troca de par de meia. Como guru involuntário de uma geração e. Eu não o conhecia. chamando Cida para almoçar. atores.

sempre que tivesse platéia. Caio preferia táxis. Mas. Na época da casa da Melo Alves. muito menos. fizera dois anos de psicoterapia com Mário Bertoni. As tentativas de suicídio de Caio nunca foram levadas muito a sério por seus amigos mais antigos. Caio então é chamado para substituí-lo e aceita. Uma verdadeira drama queen. ficava muito tempo sem ser utilizada. Ele não dirigia carros. Em novembro de 1981. e é claro que suas idealizações iam muito além da realidade. O escritor criava expectativas em torno das pessoas e das situações. guardavam cartas. teatralmente. . Em Porto Alegre. Talvez essa perda tenha apressado a ida de Caio para São Paulo. Caio não chegava perto do volante. Caio. chamavam o lugar de O Inconsciente. por causa disso. ou mais íntimos: era parte do show. porém. Mesmo a moto. Chegou a aprender. em Porto Alegre. e ele sempre se frustrava. Caio Túlio Costa sai da edição do Leia livros. Mas era assim que ele gostava de viver. se trancava no quarto dias e dias. jornais. E isso muitas vezes o levava àquelas depressões intermináveis. às vezes. inteiro. da cena. Caio ficou muito abalado. Não que ele gostasse de estar deprimido. Ele ligou para agradecer e desde então começaram a se corresponder e ficaram amigos. Caio retomou a psicoterapia. Ônibus. quando podia pagá-los. em Porto Alegre. Em São Paulo. Só que em 1977 Bertoni morreu em um acidente de carro. então. então. Em São Paulo. e depois a substituiu por dança. pois foi exatamente no final de 1977 que ele voltou para o Sudeste para trabalhar na POP. papéis. Ficaram um ano e meio na casa. se sentia bem. Ele sofria muito. em Santiago do Boqueirão. do teatro que Caio montava ao redor de si mesmo. o pai o deixava dirigir seu carro de vez em quando. talvez. ou caminhar. aprontava: ameaçava se matar. ele odiava. suplemento literário publicado pela editora Brasiliense. As aulas ajudavam-no a sobreviver. Intensamente. e fazia o que podia para se sentir bem. que adoravam. Embaixo da escada.um presente na casa dos pais de Caio. Gostava de dançar. Caio tinha também uma moto.

Caio decide se mudar para o Rio de Janeiro. Mas ainda é maio. mas as pessoas. mais uma vez. e quer repertir a dose. ou de ódio e dependência. Mesmo assim. uma vez longe delas. estavam interessadas no personagem Ana C. vê ali um nicho interessante. Além de muito culta. O Rio de Janeiro. Caio conta que. quando o livro estoura. mais que interessadas nos poemas. Todos se deixavam hipnotizar por ela. violentíssima. da qual Ana era muito consciente. e é um sucesso. que sabia o quanto era sedutora. Caio se muda para o Rio para ajudar a cuidar. Nessa época. drogas e rock'n'roll. Ana era bela. Caio Graco. ele podia — e devia — voltar ao trabalho jornalístico. passou a ser uma maldição.Morangos mofados já estava terminado. com São Paulo e Porto Alegre. e assim o círculo se completou. sentia falta de tudo — dos amigos. Seu livro A teus pés foi um sucesso. Em entrevista ao Estadão. das coisas a se fazer. grande ensaísta e poeta. Imagina se ele ia se entregar desse jeito ao mercado. Ana Cristina está deprimida. E esse pode ter sido um dos motivos que contribuíram para a depressão. A beleza. Caio ficou ofendidíssimo. que a levou a se jogar da janela de seu quarto em outubro de 1983. na beldade. ele amava. não as suportava. Tão ofendido ficou. de novo. Graça cuida dela. na deusa. ele tentou. Era o Triângulo das águas. que não só saiu da editora. o livro que pouca gente entendeu. Ela era muito amiga de Graça Medeiros. Caio estava muito próximo da poeta Ana Cristina César. aos 31 anos. para estar perto. Ele tinha essa relação de amor e ódio. das folhas dos plátanos. da Brasiliense. mas não conseguia morar lá por muito tempo. São Paulo estava cansando. belíssima. . como escreveu um livro totalmente diferente de Morangos mofados. sabendo que a situação de Ana é delicada. Pede a Caio: — Ei. Em maio de 1983. Uma vez nelas. por que você não escreve outro livro na linha sexo. que por sua vez era grande amiga de Caio.

[. tipo te fresqueia. melhor ainda. ia mais ou menos nessa linha: ". Há pelo menos um outro. trêmula. Era aniversário de Ana Cristina. por mais natural e integral e macrobiótico que Caio pudesse tentar ser. e estivesse no Rio em parte para ajudar a cuidar dela. naturalmente. no hotel em Santa Teresa que Caio escolhe como moradia — um hotelzinho hippie. Caio às vezes gostava de falar. toma uns mates. Imagina uma alface (ela) ao lado de uma costela gorda (eu). Caio vai à festa. como os amigos sabiam. em crise. Não sei contar direito. é algo a se conjecturar.. onde moraram Rita Lee e Raul Seixas." A terapia Fala Grosso Veado. chorosa.. . consumida. Porque tá uma crise sensível demais. mas troppo morbo.] Parece Isabelle Adjani em Nosferatu. por vezes. ameaça se jogar da janela. eu era um poço de saúde ao lado dela. E lúcida. "Ana C. dança uma chula. relatado por Caio em carta a Jacqueline Cantore. veado! E a terapia que ele imaginava para Ana C. E esse não seria o único estremecimento entre os dois. zombando de si mesmo: — Fala grosso. Se ele a usava para sair de suas próprias depressões. linda. come uma costela gorda. Ele descreve o encontro em carta a Jacqueline Cantore. Ainda que amasse muito Ana Cristina. e em seguida passa-lhe uma descompostura. com as depressões de Ana. corre uma história em que ela. Com toda minha gripe. Nunca vi ninguém tão frágil. te joga nua no açude na hora da sesta. certo dia.Ana vai visitá-lo." Caio e Graça Medeiros conversam. Caio se irritava.. uma tirana do lenço. Something like that. Magra. têm uma idéia de terapia para Ana C. Se houvesse um whisky pra completar. Caio a segura. Põe mal nisso. sempre irônico.. MAL. ele adorava um bom churrasco. mas é bem possível. depois que começa a ser sugada. prenda. dá pra entender? Recomendei uma brahma na esquina com uma coxinha e um dreherpra rebater. somos mais por uma terapia bageense. a situação entre os dois não era sempre um soneto de amor e paz.

No ouvido de Caio. — O que está acontecendo entre você e T. por favor. mas vou mesmo. Além de Graça e Ana. T. As pessoas em volta olham. — Você está me expulsando. Caio engata uma conversa animadíssima com o tal T. sem ressentimentos. em setembro. De repente chega L. — Então tchau e feliz aniversário. Três horas de conversa. o Caio.. Não se importando muito com a longevidade da relação. no livro de cartas. há QUATRO anos? — Sei. L. amigos do Rio. está na festa com o namorado. Como a atriz Kate Lyra. Ana Cristina vem falar com ele. — Sinto muito. Na volta. obviamente. — Não vá a esse encontro. — Vocês vão se ver mais? — Marcamos um encontro amanhã.? — Achei ele ótimo. com quem vive há quatro anos. — Você sabe que ele vive com L. retire-se imediatamente. ele me disse. — Então. Outras pessoas aparecem no hotel. É o último encontro dos dois. que ficou famosa em programas humorísticos na TV pelo bordão "Brasileiro é tão bonzinho!". Caio vai ao banheiro. T. — Estou. na época esposa do compositor Carlos Lyra. se despede com uma bomba: "te encontro amanhã às quatro no Amarelinho". vamos embora? Eu não estou gostando nada disso — disso sendo.: — T. Não é a última vez que os dois se vêem. desconfiadas. No aniversário de Caio. Graça Medeiros leva Ana até o hotel em Santa Teresa.onde conhece um rapaz — identificado apenas pela inicial T. só isso. — Me permite um conselho? — Pode ser.. A situação se ameniza.. Caio tem muitos amigos no Rio. Ela achava o máximo que ele tivesse se mudado para um hotel para . para ver se os dois voltam a se entender.

criaram um papel só para ela. Havia muitas afinidades entre os dois. começou a lê-los por causa do Caio. Maru. e Caio adorava visitar Pedro Paulo em seu apartamento no Leme. quando foram chamados para escrever uma novela com José Wilker. Outra amizade importante é o editor Pedro Paulo de Sena Madureira. Tanto que Mário Prata e Caio. Kate era inteligente. que adorava ironizar a origem do amigo. Stendhal. porém. e. No caso de Pedro Paulo. além de linda. Ficaram amigos imediatamente. que ao saber da visita do escritor já preparava o conhaquinho que ele adorava. Era louco por D. Flaubert. Mais que editor. Proust também. entre outras coisas.escrever. Um dos aspectos do ambiente que permitira que Pedro Paulo. era frivolidade. Ele gostava de criticar os amigos que começavam a ganhar dinheiro: dizia que tinham se vendido ao sistema capitalista. editou os livros de Caio na Nova Fronteira. este respondeu: — Caio. E é claro que o editor não levava . de uma cantora de rock russa. Machado de Assis. Aí Caio entendeu. espontâneo. praticamente da família. o próprio. nem parece que você leu Proust. a mesma falta de cisão que havia em sua própria personalidade: a biografia de Caio não era separada da obra. Não era futilidade. de alta sociedade. que conhecera o escritor por indicação de Lygia Fagundes Telles. Em uma das ocasiões que questionou esse lado de Pedro Paulo. que vinha de família tradicional e endinheirada. Adorava também Carlos Henrique. achava muito fútil todo aquele ambiente de coluna social. engraçado. se interessava por filosofia. mas a amizade perdurou. era amigo de Caio. Conversavam de literatura — o lado pop escondia a conhecimento profundo que Caio tinha dos clássicos. companheiro de Pedro Paulo. e ele adorava o jeito dela. Madame Bovary era frívola. Caio não inventou um personagem. adquirisse tanta cultura. é claro. Proust. ele e seu texto eram uma coisa só. Pedro Paulo. organizadíssimo. A novela acabou não se concretizando. E Pedro Paulo. por literatura. que nunca tinha dado grande atenção aos beatniks. governanta. via nele a mesma unicidade.

— São os textos das águas — emendou Caio. ele ficou mais que feliz com sua estatueta. A primeira novela. Por todas essas diferenças. Quando Caio entregou O triângulo das águas. Morangos tem um realismo que as novelas do Triângulo não buscam. O excesso de palavras do livro. A primeira das três novelas. três novelas. e as comparações com Morangos sendo deixadas de lado. Pela noite. Hoje em dia. São três signos de água. confere uma quantia em dinheiro aos ganhadores. Só faltava o título. o prêmio. Caio era um escritor que não dava trabalho aos editores: entregava o texto praticamente pronto. como é que não tem título? Chove nas três histórias. Caio teria ficado muito feliz em receber uma quantia assim. além de prestígio. a situação melhorou: o livro ganhou o Prêmio Jabuti. esse fluxo de palavras. O marinheiro. em contraste com os contos mais diretos de Morangos. se refere ao signo de Peixes. até por ser um livro construído sobre uma estrutura astrológica. Dodecaedro. a Escorpião. Mas assim que o livro foi sendo absorvido. um dos mais prestigiados do país. narra a . Um título estava pronto. O triângulo das águas causou estranheza. na época. que disse: — Caio. Dodecaedro. sabia o que estava fazendo. é uma escolha de Caio: ele busca esse jorro de água. a Câncer. — Triângulo das águas — completou Caio. o livro estava pronto. — São três? Triângulo. A terceira. a começar pelo tipo de texto. por exemplo. e no Triângulo. Tinha grande domínio e preocupação com a forma. sobre os arquétipos dos três signos do elemento água. em Morangos. O triângulo das águas difere em tudo de Morangos mofados.a sério toda aquela mise-en-scène. mas como ainda não havia. Levou o material para Pedro Paulo. são contos. a segunda.

outra vez. suas inseguranças. depois de ter sido noivo de uma mulher por seis anos. imóvel. [. era a cidade fictícia a que Caio sempre se referia. olhou detidamente o mar. E se foi. A segunda novela. durante todos os dias de muitos meses e anos. mesmo assim recomecei a chorar. Ele vive uma tumultuada vida amorosa. para lhe trazer a boa nova. todas as horas. por causa de um personagem de Cortázar. em que ele é Pérsio. Combinam de se ver de novo. seus medos. por muito tempo. mesmo cercado de amigos. O marinheiro.. e que em certo dia recebe a visita de um marinheiro. esse vagar. para fugir das dores e paixões do mundo. solitário. Pérsio fala e fala. O triângulo das águas foi também o primeiro livro de Caio a mencionar a aids. o ser humano está sempre sozinho. enquanto Santiago. conta-se como. uma mensagem. Tocou de leve na minha mão estendida. O dono do apartamento onde ocorre o encontro arma um jogo de sedução. vindos do Passo da Guanxuma — muito parecida com Santiago. suas palavras jorram incessantemente. aborda também o tema da solidão. sem parceiro fixo. enquanto ouvia.. Tinham a cor exata de quem. e as emoções que atravessam em determinada noite: as paixões e tendências e medos de cada um vão se desvendando aos poucos.] Não estava triste. também. um jogo em que eles assumem outras identidades. Conquistara esse verde. E provavelmente foi também o primeiro texto de um autor brasileiro a falar da doença. na novela Pela noite. E ao contar-se a história de cada um. através da vida do homem que decidiu se encerrar em casa. em uma sauna gay. por causa do personagem de Garcia Márquez. inquieto. foi para São . em São Paulo. Dois amigos de infância. antes que seja tarde demais. revelando suas culpas.história de doze amigos juntos em uma casa. e o outro é Santiago. que vem como um profeta. Seus olhos tinham a cor do mar. como a Macondo de Garcia Márquez — se reencontram anos e anos depois. o aviso guardado para sempre na memória das paredes: — Abraça tua loucura.

ninguém podendo entrar nem sair do hotel. ao seu final. Cheio de culpas e medos.Paulo e ficou dez anos junto de um homem. é ele que menciona. a aids. a todos que levavam uma vida libertária. essa tranqüilidade em lidar com a própria identidade sexual. sobre o vírus causador da doença. para a qual não havia cura. o estrago já estava feito. castigo aos gays. marcada não só pela doença. mas também pela abertura política e pelo desvanecimento dos sonhos da contracultura. Como a única coisa em comum que as primeiras vítimas tinham era o fato de serem homossexuais. a década de 70 chegava. de certa forma. Caio estava no hotelzinho em Santa Teresa. e talvez a inveje. na verdade. estavam agora condenados a viver sob a paranóia da contaminação. a partir do momento em que se diagnosticou o vírus. pelo medo. A partir daí. Essa estabilidade. Desde o início da década de 80. Quando soube da morte dele. ele não a entende. uma doença devastadora que só atingia homossexuais. tudo a que tinham direito. Quando mais pesquisas foram feitas e se descobriu que a contaminação também podia atingir heterossexuais. . a vida em comunidades. começou-se a achar que a doença tinha algo a ver com esse "comportamento" ou com essa "identidade" homossexual. duas ou três vezes. realmente. aos drogados. o marco da chegada da aids foi a morte do estilista Markito. E contaminados estavam todos. e sobre como ele agia no organismo. suspense derivado. Pérsio não a tem. Três anos depois de acabar. embora ainda envoltas em suspense. Aqueles que tinham experimentado o amor livre. A aids parecia castigo divino. A vida do pessoal egresso da contracultura estava mudada para sempre. da ignorância: pouco se sabia sobre as formas de contágio. Ele e outros hóspedes ficavam bebendo e conversando. uma chuva abundante caindo. E no Brasil. as drogas. As notícias chegavam rápido ao Brasil. a paranóia só aumentou. já se ouviam rumores sobre o que a mídia passou a chamar de "câncer gay". lamentando a morte do estilista.

Ele viveu os anos 80 com a mesma intensidade com que vivera os 70. Cazuza. dos Titãs. Além de reunir muitos escritores. o escritor assemelhava-se mais a um punk. por causa de sua barbinha. A feira. A escritora Clarice Lispector o chamara de Quixote. A maioria escolheu mudar. roupas sempre escuras. Há muito já não era o hippie de cabelos longos. e um orgulho de seus habitantes. que vão lançar suas obras e autografá-las para o público. também. Infelizmente. para algumas pessoas. Ao lado de Caio no lançamento de um de seus livros. era entusiasta das novas manifestações. Acompanhava o teatro. O triângulo das águas já tinha sido publicado. ou não pudesse aceitar a mudança. Adorava Marina Lima. e Caio foi a Porto Alegre lançá-lo na Feira do Livro. o medo dela era tão parte dos anos 80 quanto qualquer música da Legião Urbana. por exemplo. como Fernando Gabeira. é a grande oportunidade de comprar livros a preços mais baixos que no resto do ano. porém. Muitas editoras organizam seus lançamentos em função do evento em Porto Alegre. madrinha da noite. havia a aids. ítalo Moriconi escreveu que a morte de Ana foi um marco. nos novos acontecimentos.Em seu perfil de Ana Cristina César. Caio também escolheu mudar. do fim da década de 70. congelando sua Imagem nos doces anos em que se podia pensar em mudar o mundo. . Porque era mais ou menos isso: mudar ou morrer. por exemplo. e todos os anos a escolha do patrono da feira causa grande expectativa na imprensa e nos círculos literários locais. é uma tradição em Porto Alegre. em barracas ao ar livre na praça. que volta do exílio exibindo sunga de crochê nas praias do Rio. Como se Ana não aceitasse. parecido com Jesus Cristo. Era fã. Estava ligado no seu tempo. Em outubro de 1983. ela se matou. a música. ela ficava sussurrando para ele: você é Quixote! Você é Quixote! Agora. O sangue de uma poeta. E do grupo teatral Asdrúbal Trouxe o Trombone. ou a um dark. calça e jaquetas de couro.

Caio resolveu procurar Bruna. meio mago. meio mágico. o jornalista José Castello viajaria para a Europa no mesmo avião de Caio. O estado emocional de Ana. E uma lembrança triste. que estava na feira acompanhando Mario Quintana. ele parecia ser meio bruxo. quando se trata de histórias envolvendo o Caio. A "mágica" da lembrança não aparece aqui por acaso. mas quem? Os amigos em comum com Ana Cristina estavam todos no Rio. Sempre que Caio estava em Porto Alegre e ela aparecia na cidade. Mas talvez Caio não imaginasse que a poeta chegaria ao ponto extremo da dor. dos quais Caio gostara muito. todo mundo transpirando. feita na semana anterior. Ao menos na versão que Caio contou para o jornalista Eduardo Sterzi. que o entrevistaria anos depois. mágica". na entrevista. Ele conhecia . De qualquer modo. Bruna abriu a bolsa e disse: — Olha que estranho: quando eu estava saindo de casa para pegar o avião. — Bruna. ele diria ainda. E assim a notícia foi dada a Bruna. de coincidências inexplicáveis. no sétimo andar. Caio chorou. você me veio na cabeça dizendo 'Bruna. Caio ficou desnorteado. "Tinha um toldo. não era surpresa para ninguém. levava-a para sair. pela ingestão de remédios. ao mesmo tempo. e desde então tinham se tornado grandes amigos. Quando o viu. Nos anos 90. ao gesto máximo do desespero. ele a buscava no aeroporto.Um dia depois de lançado o livro. quando o próprio Caio viria a ser o patrono da Feira do Livro. e aquela coisa estranha no ar. e a Bruna linda. você tem que ler esse livro' — e puxou da bolsa um exemplar de A teus pés. Caio recebe um telefonema: Ana Cristina César está morta. Não é incomum. o livro de poemas de Ana C. chorou convulsivamente. eu vim aqui te contar que a Ana se matou. a presença de um toque estranho. mas. e o Mario Quintana lindo. A atriz tinha escrito alguns livros. jantar. a dor que ela sentia. onde se recuperava de outra tentativa de suicídio. passear. Jogou-se da janela da casa dos pais. Então Caio se lembrou de Bruna Lombardi. Às vezes. Talvez não imaginasse que ela conseguiria. Precisava dividir o sentimento com alguém.

calava fundo em Caio. que tanto apelo tem junto a certos tribos urbanas. mas ia ao banheiro com freqüência. o Caio. era uma obsessão. como os góticos. que o interessava." A imagem da morte perseguia Caio. Quando ela morreu. Castello não se atreveu a cumprimentar Caio. é que a morte de Ana Cristina foi um fantasma que o perseguiu por muitos anos. se alojava em seu lado escuro. poetas amados por Caio. Tímido incurável.o escritor de vista. coisa que pouca gente tem. Com que direito. Por mais que ele insistisse na vida. de Rimbaud. Uma verdade incontestável. com que direito ela fez isso? Logo ela. da poesia de Baudelaire. Ecos de Edgar Allan Poe e sua literatura sombria. ele escreveu a Jacqueline: "E não conseguir dormir: na minha cabeça. de certa forma. e ao banheiro mais distante da sua poltrona. também. certa raiva. com tanto ódio quanto freqüência. Talvez herança do romantismo. Pensamentos mórbidos: o que ela teria sentido um segundo antes de se jogar no espaço. desde o começo. a obsessão fica mais forte: pessoas de quem só ouvimos falar começam a morrer. E se apaixonou. no entanto. pela aids. suas macrobióticas. negra. Ficou apenas observando. Nem sempre é possível separar suas versões da verdade. se atormentou pelo fantasma de Ana C. Deus. algo que o inquietava. por fim os . Depois do choque. E foi esse lado que. apenas para passar em frente ao escritor e poder dar uma boa olhada nele. parada à beira de uma janela. que tinha uma arma para sobreviver — a literatura —. Essa idéia de morte romântica. junto com o amor. Ana C. depois amigos de amigos. para quem a morte foi sempre o grande tema. e assim se desculpava antecipadamente por eventuais mentiras ou fantasias. Um bruxo. em seus incensos. Dizia-se um hedonista. havia um lado seu que era obcecado pela morte. Caio falava e falava nela. ou mesmo de outros autores. que o tocava profundamente. Castello ficou fascinado pela figura do escritor: parecia um mago. poetas malditos. enquanto Caio botava o taro para as garotas sentadas a seu lado. muito misterioso. A medida que o tempo passa.

na noite. sofria de amor. eu estava certo de que não existia. Ou que.. Chegou a sustentar três ou quatro casos ao mesmo tempo. loucamente apaixonado. Atendia pelo nome de Ivan Mattos. mas não queria compromisso sério. Caio chegou a namorar sério . Porque quem ele queria gostava de homens também. era ator. ronda. e tinha uns olhos que mudavam de cor. Porque tudo que vivi e senti antes me parece agora bobagem. Caio ficava com vários tipos de caras. às vezes. ao se apaixonar. o motivo. mas para ficar. mas só de vez em quando... e se revolta contra ela. não era para mim". e sempre. começam a ficar doentes. ". A doença espreita. Sofria de rejeição. para se divertir. as pessoas com quem dividimos casa e comida. gays mais sóbrios. Gays mais espalhafatosos. e Caio estava perdidamente apaixonado.. em geral não muito alto — o que não quer dizer que não estivesse perdidamente.próprios amigos. [. muitas vezes — porque quem ele queria não o queria. Não que Caio não se apaixonasse muito antes de conhecer Ivan. O motivo tinha vinte e poucos anos de idade. sofria. Ele se apaixonava muito. Caio tinha um motivo a mais para ir a Porto Alegre em outubro. Havia mulheres. sim. E mulheres. Porque quem ele escolhia só gostava de mulheres. a única coisa que não pode fazer é ignorá-la. brincadeira. esperando o momento certo de entrar na casa. A beira dos 35 anos. fala sobre ela. mais viris. Caio sente essa sombra se aproximando. Caio preferia os homens mais másculos. como um ladrão. além de lançar seu O triângulo das águas na feira do livro. como Deus.Também porque aconteceu uma coisa que. Touro ascendente Capricórnio. se aproximando.] Eu pensava que não existia. Imagino que isso que chamamos de amor. Por várias pessoas ao mesmo tempo. Algo assim. a odeia. Caio sofria.. se existia. Porque quem ele queria gostava de homens. Há quem diga que. e por isso às vezes acabava escolhendo algum que não era homossexual. escreve a Maria Adelaide Amaral. eu pensava que não existia. Sofria de paixão. em graus de comprometimento variados.

Caio sempre repetiu que não acreditava em homossexualidade OU heterossexualidade: acreditava. Houve paixões. sem que nada no conteúdo do texto justificasse aquela dedicatória específica. em 1995. que a apresentou ao escritor. sempre construindo castelos em cima de nuvens. e bate na porta. em sexualidade. Podia ser uma lembrança da pessoa que o inspirou a escrever a história. paixão que aconteceu mais por carta que pessoalmente. Maria Clara Jorge. Embora ele tenha tido clara preferência por homens a maior parte da vida. Ele chega. Houve mulheres. e solidão. . já morava em São Paulo. ele dedica o livro Morangos mofados. Houve uma arquiteta. houve algumas mulheres de quem gostou. ou do amigo com quem viveu fatos muito parecidos. desde o início dos anos 70 até o final da vida. Uma amiga veio até sua casa num domingo chuvoso." Em muitas entrevistas. mas ela não o deixou falar uma palavra. Para uma delas. E decepções. Na época em que escreveu Morangos mofados. a Cacaia. debaixo de chuva. de Morangos mofados. Esse tipo de homenagem era constante na literatura de Caio: todos os seus livros. não por rótulos. Houve Maria Emilia Bender. em que o protagonista vai até a casa de alguém. isso sim. Cacaia era amiga de Graça Medeiros. "Me jogou na cama e me estuprou". que sua primeira experiência sexual teria sido com uma mulher. levando cigarros e conhaque. Pessoas se apaixonam por pessoas. nada mais natural que o livro fosse dedicado também a ela. inclusive. e a maior parte dos seus contos. Houve também Vera Antoun. Ele tinha 19 anos. Um exemplo é o conto Além do ponto. pensara em se casar e ter filhos. Houve homens. "Foi ótimo. Caio vivia seu caso com Cacaia.algumas delas. ou simplesmente uma forma de expressar carinho. Ele contaria em entrevista à Marie Claire. Caio abriu a porta. ansioso. como ele escreveu em vários textos. contou o escritor. são dedicados a alguém. cujo apelido era Pifa. e com quem o escritor.

em que Caio mora no Rio de Janeiro. por exemplo — é Ivan. de Caio. E em 1983 a paixão principal — não se pode afirmar que fosse a única. água de chuva e lama e conhaque no meu corpo sujo gasto exausto batendo feito louco naquela porta que não abria. que ele convive com Cacaia. tudo ficara muito confuso. e bati outra vez. tremores. mas no final as diferenças — de idade. eu quis chamá-lo. isso tudo não fascinava Ivan. nem tentar outra coisa. talvez eu tivesse febre. mas o assustava. se é que ele o teve um dia. O jovem ator — na época com vinte anos — participava da montagem da peça Pode ser que seja só o leiteiro lá fora. idéias misturadas. Caio conheceu Ivan. A peça estava sendo encenada dez anos depois de ter sido proibida pela censura dos militares. Para a juventude de Ivan. pelo meio da cidade. outro gesto além de continuar batendo batendo batendo batendo batendo batendo batendo batendo batendo batendo batendo batendo batendo batendo nesta porta que não abre nunca. eu só estava parado naquela porta fazia muito tempo. as depressões de Caio eram um fardo pesado demais a carregar. depois do ponto. tão escuro agora que eu não conseguiria nunca mais encontrar o caminho de volta. ele acompanhou a montagem do amigo Luciano. dirigida por Luciano Alabarse.E bati. mas eu não ia mais indo por dentro da chuva. que conhecia desde os tempos em que freqüentava o Centro de Artes Dramáticas (CAD). os dois se apaixonaram. eu continuava batendo e continuava chovendo sem parar. os poços profundos onde ninguém entrava. O lado escuro. Ele viajou com o escritor para o Rio. ficou alguns meses com ele. Não sem antes pedir de volta a Ivan as . mas tinha esquecido seu nome. e tornei a bater. e o afastava de Caio. Foi uma das mais longas relações de Caio de que se tem notícia — durou pouco mais de um ano — e mesmo assim não foi uma relação fácil. se é que alguma vez o soube. Os dois se separaram. em Porto Alegre. porque é mais ou menos nesse período. era tudo um engano. e nas idas de Caio a Porto Alegre. outra ação. de temperamento — venceram. e continuei batendo sem me importar que as pessoas na rua parassem para olhar. e Caio voltou à sua desastrosa vida afetiva de sempre.

ele e Caio ainda namoravam quando o escritor começa a adaptar a obra.apaixonadas cartas que tinha escrito a ele. Lya era amiga de Caio. talvez. Nas cartas. muitas vezes. de várias páginas. com medo. Christiane F. pelas similaridades existentes entre seu universo e o de Lya Luft. O texto era Reunião de família. Na pequena temporada que passou em Porto Alegre. de mistérios. Ivan. já sabendo quem seriam os atores de antemão — Luciano os havia escolhido — Caio podia escrever o papel de cada um pensando nas características de cada ator. Caio aproveitou para tentar uma coisa nova em seu trabalho: a adaptação do texto de outra pessoa. quatro cartas por dia. cuja história é contada no livro Eu. mais solto. numa referência à adolescente alemã Christiane F. um universo cheio de brumas. como Lygia Fagundes Telles e Hilda Hilst. que seria levado ao palco no ano seguinte. era mais engraçado. Caio escrevia três. de que aquilo pudesse ser usado contra ele de alguma forma. era discreto. claro. em 1984. prostituída. drogada.. tímido e arredio. estava. frágil e aberto que pessoalmente. Entre os atores escolhidos para atuar em Reunião de família. E ele era compulsivo em relação a escrever cartas: adorava conhecer pessoas novas. mais derramado. A adaptação de Caio foi muito bem-sucedida. porque assim tinha mais gente com quem trocar correspondência. de questionamentos sobre a existência. com direção de Luciano Alabarse. de Lya Luft.. Ao vivo.. principalmente com a de Hilda. que já dirigira a montagem de O leiteiro. escrito pelos jornalistas Horst Rieck e Kai Hermann. um pouco. e eram cartas longas. Assinava. talvez. às vezes. como Caio F. embora já não estivessem mais juntos quando o texto foi levado ao palco. nas cartas. em que ele se expunha muito. Todas tinham grande apreço por ele e respeito por sua obra. Ajudou também o fato de que. assim como outras escritoras de renome. A literatura de Caio tinha vários pontos em comum com a delas. Cada . 13 anos. Caio era sempre muito mais sensível.

a vida e a dimensão das figuras de teatro. Nele. Acho que Caio conseguiu uma coisa rara: uma adaptação que me pareceu.] Nas noites. elogiando o trabalho de Caio. "Encurralado entre o salto pela janela de Ana Cristina César. aos poucos. em muitas coisas. agora já não unicamente minhas. a fascinação pela morte. a fuga incompreensível de Carlinhos Hartlieb. a partida súbita de Lígia Averbuck. do receio que teve a princípio. Fala do mergulho que deu numa história de amor tão linda que era como se fosse a primeira. era pensada para aquele ator específico. Carlinhos.fala. sozinho num verão escaldante. todas as horas a morte rondava. Embora não cite o nome de Ivan. Decidi trocar este árido Porto pela . Caio mostra algumas de suas obsessões. numa cidade deserta. no ano seguinte. No final. todo o lado escuro que. e a autorização foi dada. senti que aquelas personagens. [. outros em linguagem cifrada.. Lígia e Ana C." Caio também escreve um pequeno texto para o livreto. alude a acontecimentos de sua vida. nem por isso. mas nossas — minhas e de Caio Fernando Abreu — adquiriam uma nova vida. Lya ficou mais que feliz com o resultado: "Nos diálogos. Os papéis escritos sob medida. assim. é a ele que se refere. no sobrado de meus pais. deixavam de ser aquelas figuras torturadas que habitavam o livro original. de volta ao quarto de onde saí para a estrada. Mas. Ela fala do medo que tinha de alguém mexer em um texto seu. ajudaram no sucesso da peça. há textos de Lya Luft. que poucas vezes tinham a chance de fazer um papel que se ajustasse plenamente às suas características e potencialidades. Ivan alega não ter conseguido suportar. embora não fosse o único lado do escritor. No livrinho que acompanhou a apresentação da peça. mas a confiança que tinha em Caio venceu. uma nova dimensão. depois de anos. foram deixando de assombrar. emboscada entre objetos familiares de muitas gerações. além de serem uma oportunidade rara para os atores de teatro. no Menino Deus.. mais expressiva ainda que o livro. No texto. alguns de forma direta.

nas sextasfeiras. com grupos desconhecidos. Então colei os cabelos eriçados do punk sobre os cachinhos do arcanjo." Os cachinhos do arcanjo são os cachos de Ivan. ainda somos capazes de fazer. que Caio leu por essa época. fazia uns lances para a Gallery Around. na época editada por Zuenir Ventura. nem sempre Caio estava 100% feliz com sua sexualidade.louca Sampa. Carlinhos Hartlieb era um importante cantor e compositor gaúcho. Ela também morreu em 1984. E o livro de Marilena Chauí. Descobri dolorido que aquele amor não era especial nem para sempre: trocamos em miúdos pobres as juras de eternidade que. e que ficou também conhecido por organizar as famosas Rodas de Som: espetáculos à meia-noite. a morte que ele teve que enfrentar para lidar com os demônios do texto de Lya. no Teatro de Arena. quando coordenava o IEL. por acreditarmos em encontros. Cheio de culpas e amarguras. seu corpo foi encontrado na casinha de madeira que construíra. autor de Por favor. com o trabalho de Paula Dip e Antônio Bivar. que. o amor que não era para sempre. provavelmente. Carlinhos viajou para a Praia do Rosa. em Porto Alegre. Um dos donos da Gallery era José Pascowitch. E vim à tona com o livro de Marilena Chauí embaixo do braço. se tornou um dos veículos mais . a profissional estava indo melhor que nunca. Risco no céu. No dia 3 de fevereiro de 1984. Ele chamou a irmã para cuidar da revista. Se a vida amorosa era o desastre de sempre. assumindo minha carajá muito mais paulistana que fronteiriça. sucesso. era Repressão sexual. lançara O ovo apunhalado de Caio em plena ditadura. Tão juvenis — graças a Deus. Nunca se soube exatamente do que ele morreu. uma das primeiras do local. no litoral de Santa Catarina. Enquanto ganhava a vida trabalhando na IstoÉ. house-organ da casa noturna Gallery. Lígia Averbuck era a protetora dos escritores gaúchos. Era a morte. Logo depois de gravar seu primeiro disco individual. irmão de Joyce Pascowitch.

Mas isso era o ganha-pão. Filmado em Porto Alegre. . Um dos projetos de Caio. e tinha no elenco Pedro Wayne. A Gallery Around faria escola com seu estilo elegante e sofisticado. teve pré-estréia em Gramado. o livro deveria se chamar Frangas 2 — a missão. pequenos enfeites de geladeira. Muito premiado. no Rio de Janeiro. revelando talentos como Barbara Gancia e José Simão. e Caio deu uma força na produção. no teatro Cacilda Becker. Caio terminava o roteiro de um longa 35 mm que seria baseado em um conto seu. homônimo. do sucesso pós-Morangos mofados. Beto Ruas e Suzana Saldanha. era escrever a continuação das frangas. Caio ganhou várias de amigos ao longo da vida. Apaixonado pelas galinhazinhas. O livro é a história desse galinheiro. Em uma referência a Rambo. foi dirigido por Sérgio Amon. Morangos mofados também estava sendo levado aos palcos. A parte que interessava. depois se tornou redator da revista. antes de morrer. Caio não teve tempo. porque assim eram chamadas em sua infância. A história surgiu da coleção que Caio tinha de galinhas pequeninas. cada franguinha do livro é baseada em uma franga de verdade. ligado nas tendências. já que muitas novas surgiram em seu galinheiro depois da publicação do livro. em 1986. da adaptação de Pode ser que seja só o leiteiro lá fora. Além do lançamento do Triângulo. O livro era também uma forma de homenagear Clarice Lispector. o filme foi o único brasileiro a concorrer ao 11º Festival de Cinema Gay e Lésbico em San Francisco (EUA). Aqueles dois. Assim. em Santiago. em 1987. que ele só conseguia chamar de frangas. Além disso. que morava na geladeira do Caio. a literatura. E ele se preparava ainda para lançar o livro infantil As frangas. ia melhor ainda. O filme. que aos poucos foi inventando personalidades para cada uma delas. e com muita ironia. As frangas é um livro de que Caio gostava muito.interessantes da época. que tinha uma paixão também enorme por galinhas — e ovos — e escreveu vários textos a respeito. Caio começou como colaborador.

sempre fã de Caetano. Com a educação impecável que recebera no Rio Grande do Sul. Era apaixonado por jardins e flores. Nas editoras. Ele não se deslumbra com as estrelas que estão a seu lado. em uma ocasião.entretanto. Na casa nova. atrizes. Caio era amigo de Regina Duarte e Lygia Fagundes Telles. Detalhe singelo. era bom copidesque. que manteria anos depois uma coluna na revista G Magazine. Vai morar em uma casa alugada do ator Ricardo Blat. uma bela casa de dois quartos. vão a um show de Caetano Veloso ("lindo. convidando os leitores a assistir ao seu show. Caio faz uns free-lances de crítica teatral para a IstoÉ. de quem se aproxima nessa época. Está cercado de estrelas. ao mesmo tempo. analisado e blasé". Caio está envolvido agora com alguns projetos para televisão. Um dos livros que revisou foi Feliz ano velho. E revisão de originais para a Brasiliense. Caio chegou a falar de Claudia e seu trabalho. no momento. diz Caio. uma série sobre São Paulo com Bruna Lombardi e Carlos Alberto Riccelli. adorava Claudia Wonder. Ela faz a série Joana. Quando começou a escrever crônicas para o Estadão. Os dois chegam a sair juntos. mas não pouco importante: Caio era apaixonado por rosas. bêbado. e do fim da relação com Ivan. Além do trabalho com a TV. em carta a Luiz Arthur Nunes). diz. não importava se era famosa ou não. Assim. Depois da morte de Ana C. travesti paulista. Caio volta a São Paulo. revisava livros. Ele agora quer ficar ali por um bom tempo. Caio. Trabalha em um roteiro para Ronda. Apesar de tudo. começa a trabalhar. agora convive com pessoas que o conhecem. não quer virar "moda besta". Nos jornais. Caio tinha o português ótimo e era um grande revisor. que faz a música de abertura da série. duas mulheres respeitadas e famosas. tenta se manter mais reservado. já um pouco esquecido da loucura que é viver na cidade. . escritores. de concluir essa história. diretores. Faz também dois roteiros para Regina Duarte. se a pessoa fosse interessante. decadentíssimo. com uma roseira no pátio. Ele a conheceu na noite e adorava conversar com ela sobre a vida.

Além das revisões de livros. começam a ser pedidas pelas editoras. Reedições de seus primeiros livros. publicado no mesmo ano de seu Morangos mofados. teria contado a amigos. O próprio Caio. de tantas modificações que foi obrigado a fazer. e ele praticamente teria reescrito o livro. Ele é. faz também traduções. mas é preciso aparar algumas arestas. e só foi escrito para contar a história do acidente que. Grace Gianoukas. afinal. que foram publicados de forma quase artesanal quando ele ainda era adolescente. que na verdade ele é que teria escrito o livro. aos 20 anos de idade. em 1984. dizia. O primeiro que o fez chorar em muito tempo. Uma de que gosta muito é a de Sonhos de Bunker Hill. Então. Caio concorda em reeditar. como Luiz Fernando Emediato. É uma fase de intenso trabalho para Caio. Corre a história. Aos 36 anos. um escritor. A edição sai pela Siciliano. A base fica a mesma. para uma nova edição de O ovo apunhalado. quer mexer no texto. e morava com mais dois . Marcelo teria entregado uns rascunhos toscos para Caio. e o revisa todo. E um escritor com público cada vez mais fiel. que a história era um exagero. no entanto. ele retoma o livro escrito uma década antes. Perfeccionista. deixara o rapaz para sempre paralítico. Feliz ano velho era seu primeiro livro. O ovo apunhalado era um livro que já tinha história e fãs ferrenhos. pela boca de defensores fiéis de Caio. melhorar o estilo. atualizá-lo. fazia Artes Cênicas no CAD. definitivamente. leu o livro em 1982 e se apaixonou imediatamente. Caio já pode olhar para trás e ver que construiu uma obra. de John Fante. que. atriz gaúcha. corrigir erros. que já lançara anteriormente o livro pela Salamandra. tanto que a literatura fica meio em segundo plano: seu próximo livro de contos. ele apenas poliu o texto de Marcelo. autor que admira. era um rapaz muito novo e inexperiente.de Marcelo Rubens Paiva. onde trabalha agora o editor Pedro Paulo de Sena Madureira. Ela estudava em Porto Alegre. desde que faça modificações. só sairá em 1988. Os dragões não conhecem o paraíso.

de vanguarda. Grace não tinha dinheiro para comprar o livro. quando Caio está morando na casa onde . foi como uma bofetada: apaixonou-se pelo estilo. quando abriram-se as portas vai-e-vem. ai ai ai! Shell. que estava sendo muito elogiado na época. cumprimenta. mas Grace o viu entrar. de verdade mesmo. Um dos amigos que moravam com ela lhe mostrou O ovo. irmã de Augusto Rigo.. meu ídolo. Grace recebe um bilhete. e desde então se tornaram grandes amigos. ai meu Deus. Caio ia a festas na sua casa. só para ver o Caio. Era do Caio. Na época. quando Caio foi lançar O triângulo das águas na Feira do Livro. e também trabalhava no restaurante. Caio vai ao espetáculo. Meu Deus. lendo e relendo o livro. encontram-se por acaso num bar. Grace trabalhava em um restaurante de comida natural. Passou a semana de visita deitada na cama. cidade que fica a quatro horas e meia de viagem de Porto. o Caio! O Caio tá aqui. pelo autor. e ela deu de cara com o Caio sentado em uma das mesas. o Caio tá aí. Em 1984. Daí a pouco. Em 1983.. Tempos depois. pelas coisas que ele dizia. Já estava tudo escuro. e numa das visitas que faria à família. o amigo de Santiago que fora com Caio para a Suécia. No final. Mas Grace era natural de Rio Grande. não fui ao camarim porque sou muito tímido. arrastou Grace pelo braço e a levou até a mesa.amigos do curso de Letras. conversaram de verdade. um espetáculo moderno. Ele foi muito correto. tipo faroeste. pela primeira vez. os pratos na mão. meu ídolo. Ai meu deus. Quando leu. Ele passa. entrou na fila de autógrafos. Dias depois. ela estava sem nada para ler. muito blasé. Grace convidou-o para assistir ao seu espetáculo O Acre vai à Rússia. eles conversaram um pouco. mas foi ótimo etc etc. os atores abraçavam o público. Voltou imediatamente. Mas foi em frente. e lá foi ela dar um jeito de abraçar o Caio. saíam juntos. apresentou-a ao Caio. Um dia ela vinha caminhando. ela achou interessante. agradeciam a presença. Adorei o espetáculo de vocês. Mesmo assim. Aí foi aquela festa: Grace foi para a mesa dele. mas não lhe deu muita atenção.

. Ele a protegia de todas as formas: lhe dava conselhos. . Grace não sabia onde se esconder de vergonha. O Brasil inteiro é Abreu. E vamos indo.antes morava Ricardo Blat. Grace decidiu vir morar de vez. que se mudara para o Rio de Janeiro. Numa tarde. De dia. porém. em que se hospedaram na casa de Caio. Airton. Caio também apresentou Grace a Orlando. Grace conheceu James Joyce. Orlando tinha um show-room de moda. Ele começou a mudar. Por essa época. querendo falar com Ricardo Blat. aos vinte e um anos de idade. Grace viu os olhos de Caio transformarem-se em fúrias. Então Caio se justificou. Grace era ainda uma menina. a grossura com que Caio tratara os oficiais. Caio foi gentil. Clarice Lispector. A noite. Aos olhos de Caio. Os dois se sentaram no sofá. era garçonete. vamos indo embora — responde Caio. onde Grace passou a trabalhar. Grace vem morar com ele. Disse que Ricardo não morava mais ali. Com Caio. Principalmente Clarice Lispector. para alegria do escritor. ofereceu sua casa. — O senhor é Abreu? — perguntou um dos homens. apareceram dois homens alegando ser oficiais de Justiça. ela viria a conhecer seu lado agressivo. Grace só conhecia o lado meigo do Caio. disse que Porto Alegre era pequena demais. já empurrando os senhores porta afora. que adorava sua companhia. pois ele é que conhecia o rapaz. Caio deixou entrar. A faculdade ainda não terminara. Depois de uma visita a São Paulo junto com o irmão.. Tudo bem. apresentava-a a amigos. Quando voltaram. ainda sorrindo. Caio foi crucial nesse momento: insistiu para que ela viesse. Todo mundo é Abreu. Um dia. Quando pediram para ir ao banheiro. mas só entrava em greve. quando Caio estivesse em casa. — Aham. bem humorado. com quem ele morara na casa da Melo Alves. sempre em greve. Ezra Pound. mostrava livros que deveria ler. — Eu também sou Abreu. o lado gentleman. Grace disse para voltarem à noite. trabalhava no show-room. Um dos homens pediu um copo d'água.

o isqueiro e os cigarros. escrevia em casa mesmo. não usava todo dia. Se anoitece. Quando há uma ou duas bitucas no cinzeiro. a pilha de papéis em branco. substitui o café por Jack Daniels. a garrafa e a xícara de café. chegava bem cedo ao bar. exceto pela pilha maior do lado dos papéis escritos. sabe-se lá por quê. mas usava.Para ele. ela está intacta. a pequena máquina de escrever. Caio começa a trabalhar fixo na Around. Caio quis mandá-los logo embora. o da direita aumentando. para ficar acordado. No meio. não tinha nenhuma droga de sua preferência. Gostava do que era bom: quando podia. E assim por horas e horas a fio. nas festas. às vezes. a pilha de textos escritos. e estavam ali para plantar alguma coisa contra o Ricardo. Caio está fazendo café: é hora de escrever. Ao alcance da mão. até os amigos começarem a chegar. um bar moderninho de São Paulo. uma cervejinha. sem uma ponta fora do lugar. Usava. cinza. na noite. fuma um cigarro. quando deixa a mesa. Apesar dos gritinhos da mulherada e do ambiente . pelo mesmo motivo. quando decidia dormir. Não era viciado. às vezes. As vezes. Ao final. o montinho de papéis da esquerda vai diminuindo. eram de alguma polícia. No final de agosto de 1984. Na maior parte das vezes. Comprimidos para dormir. não via muitos motivos para confiar na polícia brasileira. plantar drogas para um possível flagrante. sim. Gato escaldado. Caio tinha antecedentes: por duas vezes. Caio bebe um gole de café. Paranóia ou verdade. Tac-tac tac-tac. tac-tac-tac. e ficava horas escrevendo. Às vezes cocaína. Anfetaminas. o cinzeiro. impecável. jogando as cinzas no lixo. e pedir um whisky doze anos. Não que ele não usasse drogas. gostava de ir ao Ritz. ele tinha sido preso por flagrante falso de drogas. De um lado. Ele arruma a mesa. Do outro. ele o limpa. de vez em quando. Um bom whisky. Um strega flambado. Maconha. ele bate à máquina. Álcool: sempre. à esquerda. aqueles homens não eram oficiais coisíssima nenhuma. Quando percebeu isso.

[. ". que trabalhava junto com ele na Brasiliense. entretanto. seu ídolo. enterro. surge também um novo amor: Pedrinho.. vendo que a fila era . acontece uma coisa que deixa Caio muito impressionado. autor dos romances Tanto faz e Abacaxis e amigo de Caio. Esse homem é ou não é um romântico incurável? Um sonhador. Porta do elevador fecha enquanto sobem os créditos. através de Maria Emilia Bender.". Antes que pudesse colocar a carta a Luciano no correio. Os amigos é que foram dar uma força. E a voz dizendo que vem a São Paulo daqui a uma. Caio e Maria Emilia foram namorados por algum tempo. ele era filho único. inclusive Caio. e ele costumava visitar a moça no apartamento que dividia com Ruy Fontana Lopes e Reinaldo Moraes. escreve a Luciano Alabarse. com pessoas cool entrando e saindo a todo momento.]. Cena de cinema.. Certa vez. esse é um trabalho que ele gosta de fazer: dá a oportunidade a ele. que nunca tinha visto ninguém morto. muito mais velho. foi visitar a mãe e encontrou-a morta. "A alma? Pode ser. no bairro de Higienópolis.metido a chique. que morava perto de sua casa e morrera há pouco tempo. O escritor Mário Prata morava no mesmo prédio. O escritor Reinaldo Moraes. caída no chão da cozinha. Ele. quem sabe duas ou três semanas. por mais ironia que tente imprimir às palavras. falou no assunto por semanas.. tão obcecado pela idéia de morte. De vez em quando. No Rio. Logo ele. providenciar caixão. Ficou impressionadíssimo. em Porto Alegre. no corpo morto da mulher. Não havia quem o ajudasse: o pai já havia morrido. exceto a cantora Elis Regina.. por exemplo. a última imagem foi a ponta do dedo indicador dele acariciando a ponta do meu dedo indicador através das grades da janelinha do elevador. E achou que tinha aprendido algo com a experiência: ficado realmente adulto. Alguma coisa já não estava lá. depois de uma noite linda com Pedrinho. de ir ao Rio de Janeiro entrevistar Ney Matogrosso. como o lançamento de livros e seminários. Reinaldo e Caio participavam de eventos literários juntos. estava ajudando a vestir a morta." Caio conhecera Reinaldo em 1981.

Grace. já que o dono da casa não a alugaria para três garotas. Se esticasse o braço. Caio chamou os amigos e parentes de lado e dizia para irem. trombava em alguma coisa. e mais ainda em relação a Grace. Conversa vai. para quem chegou a escrever alguns roteiros. As eleições não foram diretas. cineasta. e Caio estava acompanhado. Não queria fazer "república". por pouco mais de um mês. havia um clima de alívio: em janeiro daquele ano. porém. Uma vez. disse ele a Grace e às amigas que dividiriam com ela a casa.grande na frente da sua mesa. Grace chegava do trabalho. em que a idéia era histórias que se passassem no bar de Antônio Maschi. Nessas ocasiões. amigo. ele fica num apartamento pequenino. Na sessão de autógrafos. No plano político. Caio muda novamente de endereço. mas era divertido mesmo assim. que Reinaldo era ótimo. mas que não havia ninguém na mesa do Reinaldo. como o Pirandello. O espaço era exíguo. chama Grace para ficar com ele na quitinete até surgir alguma coisa. tarde da noite. Os dois compartilhavam a porra-louquice e iam aos mesmos bares. chegou um casal de namorados que era fã dos dois. foram juntos a um evento em uma universidade em Londrina. mas pelo menos era um presidente . porém. pé ante pé. e lá ia ela. E as mudanças não aconteciam apenas na vida de Caio e Grace. Situações engraçadas aconteceram no curto período da quitinete: às vezes. deitar-se no espaço mínimo entre a geladeira e a pia e a mesinha e o fogão. Caio. no hotel. conversa vem. para discutir a literatura dos anos 80. No início de 1985. decide ir para uma pensão. Tancredo Neves fora eleito presidente do Brasil por um Colégio Eleitoral. na rua Augusta — chegaram mesmo a participar da coletânea Contos Pirandellianos — 7 autores à procura de um bar. mas Caio era leal com os amigos. Antes de mudar para lá. em 1983. Caio terminou a noite com o menino e Reinaldo com a garota. Ele pedia para que ela fosse dormir na cozinha. que morava com ele. Ele decide ir morar com Sérgio Bianchi. a farra era grande. como a maioria pedia. na verdade uma quitinete.

atrás do fogão. o escritor descreve o episódio. Joguei água. ousadíssima. isso já era algo a ser comemorado. Seu vice José Sarney assumiu. observando aquela pêxa grávida no aquário. sas?) Então me viro (observe a mudança espontânea & natural da tercêra para a primêra pessoa) e eis que. segunda. vejo CHAMAS ENORMES ATÉ QUASE O TETO. e Caio já estava morando com Sérgio Bianchi. a aids vai chegando mais perto de Caio. que não se decide a parir (vão ser arianos. A paranóia aumenta um ponto. no entanto: o presidente morreu antes de tomar posse.civil. embora nunca tivesse tido a chance de se aproximar muito. Caio tem umas pequenas doenças. Como se a possibilidade de doença não bastasse. Depois de mais de vinte anos de militares no poder. Luiz Roberto Galizia. aftas na boca. diretor. Pedrinho. de costas para o fogão. mas apoiara os militares até quase o final da ditadura. . mui lépida. os demônios. jornalista. A alegria durou pouco. mas os médicos dizem que não é nada. aos 34 anos de idade. E foi: o tal namorado de Caio. incêndio causado por ele mesmo. Caio ainda quase morre queimado num incêndio em seu apartamento. aos gritos de "Vai explodir! Vai explodir! Não joga água que é pior!". quando eis senão que sente um odor estranho vindo das bandas do dito fogão. Enquanto isso. eu esperava pêxes de Pêxes. Em carta a Jacqueline Cantore. assando umas coxas de franga. "Sas que ontem. foi internado. infecções. Ela estava. e ele começou a me puxar pra fora da cozinha. aí chamei o Sergião que telefonava da sala (Sergião disse: "Agora tenho que desligar porque minha casa tá pegando fogo". esta Marilene aqui QUASE MORREU QUEIMADA? Estava ela no fogão. autor de poesia. Marilene. queria avançar entre as chamas para DESLIGAR O FORNO (ela não tinha grana para comer e sua maior preocupação era que as coxas ficassem inutilizadas. Era o mês de março. bem natural). uma pessoa de quem Caio gostava. Sarney também era civil. quebrou o pé dançando na festa de vitória do Tancredo. mui poeticamente.

Bom. gemidos. Seu Antônio. o zelador. mas e o humourt" Afinal. Mandou várias em cartas para amigos. Drummond. "apaguem os cigarros!" (Marilene correu para seu quartinho e. Todos eles eram influências tão grandes para sua prosa quanto os ficcionistas que ele amava. ao longo da vida. corremos para o corredor do prédio. falar asneiras. sussurros. o melhor é rir. Era adepto da "cultura das abobrinhas". ele vinha sempre com o trecho de um poema de Drummond: "Perdeste o melhor amigo. Fernando Pessoa. principalmente. Bueno. Marilene foi espiar se a pêxa tinha abortado: raçuda. faniquitos. & LABAREDAS CADA VEZ MAIS ALTAS. paulista de alma carioca que era sua amiga. Adorava a poeta Ledusha.isso é.. Ver filme cinemão de Hollywood. Hilda Hilst. saiam depressa que vai explodir tudo!". essas coisas. assim como Ana Cristina César. poesia também era muito importante na vida de Caio. ele pensava. Como essa. Junta gente na porta do prédio. Mario Quintana. ela — continua grávida. Quando não há jeito. e.. Justificando essa maneira leve de ver a vida. que escreveu em fevereiro de 1974 e enviou a Vera Antoun: Estavam ali as portas . juro). que manteve por boa parte da vida. carbonizadas). Uma das velhinhas começa a desmaiar. Ele lia Adélia Prado. o extintor apagou tudo: espuma branca por toda a cozinha e toda a sala. Gritos. Que medo!" O episódio terminou bem. Caio também escrevia poesia: escrevia em seus diários. Enfim. a tremedeira. Fumaça. num sopro. Duas velhinhas saíam do elevador. apagou a vela de sete dias. cheiro de gás. vem com um extintor de incêndio. não tens sequer um cão . que é simplesmente falar bobagem. Sergião: "Corram. Ai. e Caio o contou da maneira que sabia: com humor.

Estar ali Por estar ali E além de mim 0 que eu não ousava. Mas o meu estar parado Era maior que eu. Revejo a dura consistência da porta Cerrando seu segredo. E me retorno Ali No imóvel do gesto que não fiz. Nesse ponto exato Elas estavam: Bastava um gesto. Ah Relembro a amplidão dessas varandas intocadas Os pequenos raios de luz Nos vidros coloridos das janelas. Estar ali Como nunca ter chegado. Estavam ali Na fronteira do olhar Onde o de dentro encontra Justamente Com o de fora. Estar parado Estar vivo: A mesma incompreensão E medo Entre mim E aquele estar das coisas.Janelas e varandas. Como se pudesse Agora Escancarar portas e janelas .

As quedas de estrelas e Bastilhas. louco. Os outros por bebedeira Não saúdes A morte em literatura. como eu. Aqueles espaços Permanecem mortos dentro de mim. Como um corpo que se ama E não se toca. Sair para o vento O sol. Boa negra Voltada para as estrelas Pés de chumbo cravados na lama: O canhão E sua escandalosa metafísica Caio nunca publicou em livro seus poemas. talvez não os levasse a sério. amigo. Não cantes. de 2005. infante. Brincava com .Para sair nu pelas varandas Desvairado e nu Profeta. O cheiro de jasmins Entontecendo os quintais. (pudesse retomar manhãs. Talvez não os achasse bons. as tempestades. manhãs perdidas como tudo que não fui) Mas continuo Ali. sem data. as neves. Ou esse. reunido entre os dispersos publicados no livro Caio 3D — o essencial da década de 1980.

e tinha seu público. Angela Ro Ro. disse. até que surgia uma história inteira. Como era bom poder tocar um instrumento. pensava. De forma intuitiva. teatro. e aparece na preocupação com a forma. tudo podia influenciar um texto. Rolling Stones. a idéia para Onde andará Dulce Veiga. como era bom poder escrever. lidar com um escritor que confessava que o trabalho do Cazuza e da Rita Lee foram influências muito maiores que Graciliano Ramos. Ele adorava essa frase. ter essa arma para lutar contra as agruras do mundo. sempre. frases-ímã. propôs um adiantamento a Caio para que ele escrevesse um romance. o nãoliterário". no lirismo. Como ele gostava de escrever com música. tudo ia fermentando. pouco metódica. certa vez. em seus textos. redonda. Você compreende? Isso não é literário. e também para a crítica. cujo verso "como é bom poder tocar um instrumento" Caio estava sempre repetindo. Caio chegou a dizer. Sonhos.Mário Prata que poesia era coisa para quem não conseguia chegar ao fim da linha. Até cachê adiantado estava recebendo: Luiz Schwarcz. era de fato inegável. Mas a importância de ter lido os poetas. então na Brasiliense. E eu gosto de incorporar o chulo. Era só sentar e escrever. Fosse o que fosse que o inspirasse. coisas que magicamente as pessoas vão te dizendo". "Eu vou magnetizando coisas no inconsciente. música. ele anotava sempre em caderninhos. E as influências para seus textos não vinham só da literatura: cinema. E Caetano Veloso. Mas as coisas não eram bem assim com Caio. Caio já ruminava a idéia há três anos. "Isso deve ser insuportável. E o instrumento estava afinado. ele . Muitos de seus contos vêm com o aviso: para ler ao som de. coisas do dia-a-dia. às vezes tentava apanhar no texto o ritmo daquela música. Pode ser Keith Jarrett. na exatidão do uso das palavras. que devia ser insuportável para Academia. fazer uma "coreografia verbal" para ela. amadurecendo. disse em uma entrevista.

preocupados. mas pelo menos as aftas sararam. quase uma entidade independente. um ator gaúcho. As informações ainda eram poucas. Queriam ir embora. Para piorar um pouco mais. fez quando viu o Caio Fernando Abreu? Gritou: — Jaburú-ú!" . as pessoas morriam muito rápido. e isso só foi acontecer em 1990. e os boatos eram infundados — ao menos aparentemente. depois de anos enrolando. do outro lado da calçada. Em carta a Jacqueline: "Abobrinha 2 (somente para iniciados): Abobrinha 2a. brigam. os gânglios que tinham aparecido diminuíram. Baixo astral total. o motor pifou. são simples canais de transmissão da arte. Caio se sentia saudável. mas dava para perceber uma certa tristeza. Estava rolando o boato de que ele também estaria com aids. Por mais que Caio trabalhasse duro. E como má notícia sempre anda de mãos dadas. S'as o que o Jaburu. Caio sabe da morte de Fernando Zimpeck. quando. tudo errado. amigos começam a ligar. Enquanto não escreve Dulce Veiga para a Brasiliense. se estou aqui? Abobrinha 2b.tinha seu próprio ritmo. uma certa carência por trás de suas brincadeiras. escreveu o livro em dois meses e o publicou. E ser gay ainda era sinônimo da peste. Ruim mesmo era a falta de auto-estima que às vezes aparecia. Caio sofre mais uma decepção. S'as o que o Caio Fernando Abreu disse quando viu o Jaburu do outro lado da calçada? — Como é que estou do outro lado. diferenças saltam à tona. parecia saudável. E a relação que durara nove meses acabava assim. mas lá discutem muito. Sempre com muito humor. que por sua vez era ditado pelo ritmo do texto. Galizia já tinha ido. já então pela Companhia das Letras. o texto viria quando tivesse que vir. Viaja a São Tome das Letras com Pedrinho. Muitos escritores afirmam que o que fazem é captar uma idéia e escrevê-la. mas o pneu furou. a deixar recados na secretária eletrônica.

agora dividia a redação com ele. Havia outros. Por quê?. de cumprir deadlines. cinema. Caio. Caio abandona a Around — que agora não se chama mais Around. Como era um caderno de cultura em geral. gostava de implicar com o grupo de rock Titãs. mal-humorado. amigo dos tempos de ditadura e jornais nanicos. ele dava um jeito de enfiar os Titãs no meio e fazer uma brincadeira. Emediato. mesmo os que não trabalhavam no jornal. uma alfinetada de leve. que tinham perdido contato. amigo de muito tempo. quando achasse necessário. Emediato e Caio. Para ele. Caio trabalha também na peça A maldição do vale negro. não tinha humor nenhum nessas questões. talvez. frio. aos 13 anos de . Por essa época. precisava botar o jornal na rua. perguntava. Paulo. Caio não gostava de receber ordens. O Caderno 2 não era fácil de se editar. A peça é inspirada no texto que Caio escrevera. junto com Luiz Arthur Nunes. Emediato precisava fazer tudo isso. o sisudo diário recebia jovens para fazer um caderno do tipo. se mortificava. da música. era o chefe engravatado e careta. E quando cobrava resultados de Caio. este era seco. por exemplo. uma palhaçadinha. da literatura. o suplemento de cultura. sempre tão bemhumorado. de se preocupar com horários de fechamento. música. levava a sério demais a defesa do trabalho e da arte das pessoas que admirava. E mesmo que não fossem amigos: ele rodava a baiana sempre que achava que alguém estava sendo injusto. havia vários grupinhos: o pessoal do teatro. que adorava o grupo. Emediato tinha se entregado. E Caio estava sempre pronto a defender seus amigos. e sim A-Z — e vai trabalhar em O Estado de S. É a época da criação do Caderno 2. mas naquela incômoda posição de chefe e subordinado. Ninguém se misturava muito. começam a se ver todo dia. literatura. Em qualquer crônica ou texto. paladino do Oeste. e o editor é Luiz Fernando Emediato. o pessoal do cinema. se vendido ao sistema. Vai fazer o que sabe: crítica cultural. pela primeira vez. Caio tinha sua turma: José Márcio Penido. Por que essa implicância com os Titãs? Ele.Em 1986.

o meio do céu em trígono em Urano. um rapaz que não conhecia. dirigido por Sérgio Bianchi. Não sabia as outras coisas. garçonete. ele se importava. Vai morar com Antônio Neto. para o concurso de redação em sua escola — A maldição dos Saint-Marie. A expressão pegou. e mais um monte de coisas sem sentido. gente famosa. talvez com certo exagero. e Antônio disse que não se importava.. Fã de sua obra. porém. dona de boate". que ganharia o Prêmio Molière de teatro. Cazuza e ele passaram em um bar. que foi publicado mais tarde. disse que. atrizes. mãe-de-santo. na introdução de seu livro Mãe na zona. mas quando soube que era o Caio. Nesse período. veados. Caio escreve também o roteiro do longametragem Romance. O escritor vai então para um apartamento na Haddock Lobo. além da Lua e Saturno e Urano sabe lá onde. Escreveram o texto e Luiz Arthur dirigiu a peça. A idéia para a história surgiu em uma noitada que Caio. mas era só. vagabundos. em Ovelhas negras. lésbicas. guarda-costas. às vezes. O rapaz entrou na brincadeira. muito louco. travesti. Caio e Luiz Arthur passaram todo o Carnaval de 1986 trabalhando e brincando com a idéia de melodrama. Caio começara a dar uma de astrólogo e falar do mapa astral de Antônio. e os três passaram . gente anônima. Uma amiga em comum lhe pedira que acomodasse Caio por uns tempos. finalmente. poetas. Sérgio era. ele tinha a mãe na zona. por vários anos. já tinham desistido de morar juntos.. achou o máximo ver o desfile de pessoas que se tornou comum no apartamento depois da vinda de Caio: "atores. O escritor e Sérgio. em 1989. Foi quando Cazuza interveio e começou a brincar. escritores. onde fica. a coisa mudou de figura. Na verdade. artistas plásticos. Inventou que o Antônio tinha trígono na quarta casa da Lua em Saturno. muito intenso. conta Antônio. e Caio também não era uma pessoa muito fácil. alcoólatras famosos. porteiro de boate.idade. alcoólatras anônimos. mas que topara dividir apartamento com ele. Sabia que o rapaz era ariano e que seu ascendente era Libra. pai-de-santo. Antônio era gaúcho e tinha morado no mesmo bairro do escritor em Porto Alegre.

e foi então que dividiu o apartamento com Caio. para fazer uma montagem da Electra de Sófocles. Ali. Se o amigo havia saído para ir ao banheiro. O ator também se preocupava com os sumiços de Caio. Lá de dentro. dirigida por Jorge Takla. baseado na obra de Marcelo Rubens Paiva. O apartamento era mais movimentado por causa das . o que é ter a mãe na zona? Segundo as primeiras frases do conto de Antônio. o ator tomou coragem e bateu na porta. podia saber se Caio estava vivo ou morto: bastava ver se havia pegadas.a noite toda discutindo o que era ter a mãe na zona. início de 1987. no entanto. que seria publicado em 1988. O ator. que era também gaúcho. foi o ator Marcos Breda. durante seis meses. trancado no quarto. O problema era que Caio tomava comprimidos para dormir e ficava dois dias literalmente apagado. Depois. o talco continuava intacto. Caio insistia para que o rapaz escrevesse um livro: ele lhe daria toda força. Antônio tomou coragem e escreveu o livro. e funcionaria com qualquer outra pessoa. Dois dias depois. era porque estava vivo. E. Ele então bolou um estratagema: espalhou talco no chão entre o quarto de Caio e o banheiro. Exatamente do mesmo jeito. ou à cozinha." Outro que morou com Caio nesse período. Apenas 19 anos depois. "mãe na zona é errar. quando voltasse da rua. afinal. uma voz cavernosa respondeu: Bom dia. Caio convivia bem com a heterossexualidade convicta de Breda. e por fim Caio sugeriu que o rapaz escrevesse um conto ou crônica que ele publicaria. dois. chorar e se arrepender profundamente. começar tudo de novo. de Porto Alegre. Breda. Breda voltaria a São Paulo no ano seguinte. se foder. estava em São Paulo para participar do filme Feliz ano velho. porém. e apenas queria ficar sozinho. ele viu saírem da máquina de escrever vários dos contos do livro Os Dragões não conhecem o paraíso. No terceiro dia. Assim. o conto Mãe na zona saiu na A-Z e fez muito sucesso. Antônio escreveu. em uma festa na casa da atriz Imara Reis. O estratagema do ator era bom. três dias sem aparecer. que conhecera Caio uns dois anos antes.

namoradas que o ator levava que pelos casos de Caio. Por acaso, muitas das meninas que Breda namorava na época eram bissexuais; Caio gostava de brincar com o amigo, dizendo que essa era sua forma de exercitar sua bichice sem culpa. Um dia, os dois vão a uma festa. Chega um amigo de Caio, que começa a dar em cima de Breda. Caio, sarcástico, enterra as esperanças do amigo: — Desista, meu amor. Todas nós já tentamos. É por influência de Caio também que Breda vai morar no Rio de Janeiro, na metade de 1987. Mário Prata estava escrevendo a novela Helena na Manchete e precisavam de alguns atores para certos papéis. Caio, que estava trabalhando com Prata em uma novela de José Wilker que acabou não se concretizando, indicou Breda, e lá foi ele. O ator foi para o Rio e não saiu mais. Representou em adaptações de algumas obras de Caio, como O homem e a mancha, no teatro, e Sargento Garcia, um curta. Em 2004, viria a participar, dessa vez como ator e também co-produtor, junto com Camila Pitanga, da remontagem da peçav4 maldição do vale negro, com direção de Luiz Arthur Nunes. O livro que Breda viu nascer enquanto morava com Caio, Os dragões não conhecem o paraíso, é provavelmente o melhor trabalho do escritor. Os contos apresentam uma unidade temática, segundo Caio nos diz, em uma pequena introdução. É um livro sobre amor. São treze contos, e não à toa — treze é um número cheio de significados místicos, mágicos, para quem acredita nessas coisas, e ele acreditava. Já na primeira história, Linda, uma história horrível, ele aborda o tema que o afligia: a aids. Sempre usando elipses, sem citar o nome da doença ou do vírus que a causa, ele fala dos sinais, da degradação do corpo. Um homem vai visitar a mãe. Doente, e pressentindo, talvez, seu fim, ele chega sem avisar, e encontra a mãe envelhecida, junto com a cadela também idosa, Linda.

— Mas vai tudo bem? -Tudo, mãe. -Trabalho? Ele fez que sim. Ela acariciou as orelhas sem pêlo da cadela. Depois olhou outra vez direto pra ele: — Saúde? Disque tem umas doenças novas aí, vi na tevê. Umas pestes. — Graças a Deus — ele cortou. Acendeu outro cigarro, as mãos tremiam um pouco. — E a dona Alzira, firme? Um por um, foi abrindo os botões. Acendeu a luz do abajur, para que a sala ficasse mais clara quando, sem camisa, começou a acariciar as manchas púrpura, da cor antiga do tapete na escada-agora, que cor? -, espalhadas embaixo dos pêlos do peito. Na ponta dos dedos, tocou o pescoço. Do lado direito, inclinando a cabeça, como se apalpasse uma semente no escuro. Depois foi dobrando os joelhos até o chão. Deus, pensou, antes de estender a outra mão para tocar no pêlo da cadela quase cega, cheia de manchas rosadas. Iguais às do tapete gasto da escada, iguais às da pele do seu peito, embaixo dos pêlos. Crespos, escuros, macios. — Linda — sussurrou. — Linda, você é tão linda, Linda.

Em todos os contos, o escritor aborda seus temas preferidos: o estranhamento, a solidão, a dor. Seus personagens vão envelhecendo com ele. Sempre jovens em Inventário do irremediável, agora há homens de 40 anos — como o próprio escritor. O estranhamento que sentiam em relação à cidade grande, muito forte em seus primeiros contos, agora já é aceito pelos personagens, que, mesmo solitários, vislumbram esperanças. O texto do escritor está em sua melhor forma, e isso foi reconhecido: Caio ganha seu segundo Jabuti por Os dragões. A repercussão do livro ultrapassa as fronteiras continentais e chega à Inglaterra, onde John Gledson, o maior especialista inglês em literatura brasileira, escreve uma crítica muito elogiosa para o Times, de Londres. Essa crítica abre portas para Caio: tradutoras e agentes foram procurá-lo; há interesse em publicar Os dragões em francês, em italiano, em alemão. A carreira internacional de Caio começa aí, e ele

não vai perder nenhuma chance de conseguir dar certo lá fora. Até porque isso significa viajar: Inglaterra, França, Alemanha... Dar uma descansada do Brasil. As possibilidades são imensas, mas não assim, imediatas — Levaria tempo até que as coisas se ajeitassem, contratos, ajustes: Caio só viaja para a Europa no final de 1990. Enquanto a viagem não chega, ele acerta algumas contas consigo mesmo; depois de cinco anos de espera, é a hora, finalmente, de se descobrir Onde andará Dulce Veiga.

CINCO

— Eu deveria cantar. Caio está numa fila de banco, esperando sua vez. De repente, lhe ocorre a frase: Eu deveria cantar. Ele corre para casa, excitado. O começo! Ele tem o começo. E todo o resto. A idéia, dele e do cineasta Guilherme de Almeida Prado, já existia há uns dez anos, os rascunhos já tinham uns seis, o quase-adiantamento para escrever já datava de uns quatro anos. A idéia inicial era inscrever o roteiro do filme em um concurso e depois escrever o romance. No entanto, apesar do roteiro estar terminado, Dulce Veiga não saía. Recusava-se. Os dragões desistiram de esperar, furaram a fila e foram publicados antes dela. Mas a idéia para a primeira frase — a singela "eu deveria cantar" — detonou o processo criativo. Tudo aquilo que Caio vinha maturando há anos resolveu sair à tona, com várias mudanças em relação ao roteiro feito a quatro mãos com Guilherme. Em dois meses, terminou o livro: escrevia dez, doze horas por dia. Das duas mil páginas que tinha escrito, no total, tirou umas duzentas. Escrevia, escrevia, escrevia. Resultado: um belo desvio na coluna. Além do livro pronto.

ficaram amigos. O fato de os dois — e não só eles. Márcia e Caio. Beldades perversas. rosto de boneca. Ela era a Branca de Neve. cercada de anõezinhos. loucos. não era coincidência. Clarice Lispector e Lygia Fagundes Telles: ela. sem papas na língua. por Paulo Francis.O processo é o mesmo que acontece a uma amiga escritora. mais pragmaticamente. aos 18 anos de idade. cabelos lisos. era uma exigência do mercado mesmo. a devoradora de homens. Talvez houvesse uma necessidade de provar que se conseguia fazer algo de maior fôlego. algo mais trabalhado. Ele era a mulher dos sapatos vermelhos. ambos com aquele quê de malditos. Enquanto Caio escreveu Sapatinhos vermelhos. também de dez a doze horas por dia. a fabricar romances. numa tentativa de não engordar demais. com o impulso para o nocaute que um conto deve ter. a preferida de Paulo Francis. Márcia Denser. Márcia era amiga de Caio desde os anos 70. com . A mulher com pinta de fatal. ela loira. Eram amigos. cercada de homens por todos os lados. uma questão da época. o infantil A ponte das estrelas. escrito mais com a cabeça e menos com o coração. ela estava sempre no apartamento dele. Alter ego literário: Diana Marini. apadrinhados desde cedo por grandes nomes: ele por Hilda Hilst. Enquanto ele escrevia Dulce Veiga. loira fatal. e ela o escreveu em pé. E. que circulavam. Ambos precoces. Os anos 70 foram todos dedicados ao conto. que realmente eram lidos. que conseguiu conquistar três homens com seus sapatos. Márcia escrevia sua versão da Branca de Neve. com Limite branco. que os publicavam. uma releitura para adultos do conto de Andersen. uma aventura no terreno do romance. ela também se arriscava a um texto maior. a Diana caçadora de seus contos. Ambos belos: Caio com seu jeito de Quixote. Nos anos 80. alto. por mais que os pés doessem. que ele só praticara uma vez. quando se trombaram em algum lançamento de livro pela cidade. muitos deles nanicos. Havia revistas e jornais literários. mas a maioria dos escritores brasileiros da época — estarem decididos. depois de tantos anos escrevendo contos.

de Dulce Veiga. Dão a ele a tarefa de encontrar Dulce Veiga. há as menções a Pedro. Márcia Felácio. nem todos com o mesmo sucesso de crítica que seus livros anteriores de textos curtos. Em 1974. gemidas. que nos anos 30 escreveu A estrela sobe. tão aplicado. mas estou certo de que nessa ou na outra vez perguntei quem era e ela disse que era Billie. um a um. O filme é estrelado por Betty Faria e Odete Lara. vocalista de uma banda punk. não era uma invenção de Caio. Ele segue as pistas. Caio homenageia não só Marques Rebelo. um escritor urbano. e assim um veículo por onde escoar tanto texto curto. conhece a filha dela. Quem a criou foi o escritor Marques Rebelo. e rebatiza a cantora. como personagem. mas também Odete Lara. um amor que foi embora. que foi amiga de Caio. um amor do narrador. Bruno Barreto faz a versão do romance para o cinema. de algum lugar no interior do apartamento. ao escrever sobre Dulce Veiga. com Dulce. A busca de Dulce Veiga significa mais para o narrador que um simples trabalho. As editoras começam a preferir romances. e poderia ser também Glad to be unhappy. Não estou absolutamente seguro que. uma boa matéria: é a busca de si mesmo. he calls me. cantora muito popular que desaparecera vinte anos antes. foi com Dulce. na gravação de Billie Holiday. afinal a primeira entrevista que fez quando chegou na cidade grande.o fim da ditadura. Tudo isso que agora parece clichê banal. e eu anotei. tantos anos atrás. que aliás é personagem do livro. Sophisticated lady ou qualquer outra dessas canções roucas. grande contista. Dulce Veiga. A busca de seu passado. Rubem Fonseca. Naquele tempo eu não as conhecia. O narrador de Onde andará Dulce Veiga é um jornalista. Os enigmas vão se resolvendo. Assim. Entremeando a história. viessem os acordes iniciais de Crazy. como ele. por exemplo. acabam os nanicos. porque o leitor médio está mais acostumado com eles. a cantora. agora sim. publica vários romances nessa época. ainda chamada Dulce Rodrigues. naquele .

assim como tem Márcia. Ela o faz encarar seus gânglios. repito: seria tão perfeito se fosse exatamente assim como penso que lembro. e se compreende. feito seta. O narrador tem aids. Os primeiros raios do sol faziam brilhar aquela estranha coroa -tiara. a mão fechada. soropositivo: descoberta da possibilidade de vida. e ele vai embora. Ele faz. E começa a cantar. Finalmente se aceita. E ela que dá nome aos bois. que ficou como se tivesse sido. quando se descobrisse. Parecia meu nome. O narrador começa a cantar. Afirmo que havia música. seus sinais. finalmente. diadema — que tinha entre os cabelos louros. e por isso foi embora.tempo — repito e não me canso. ofuscado. sem medo de mentir. Caio intui em Dulce Veiga o que seria a sua postura. o gatinho chamado Cazuza. pois mesmo que não houvesse nada e o silêncio do apartamento fosse cortado apenas pelo ruído dos carros na avenida São João. Pisquei. Não há mistério: ela apenas se tinha recolhido a uma cidade do interior. ao lado do cachorro. A doença não é o fim. mas não é nada do que se esperava. Sem querer. apenas o indicador apontado para o alto. mas a possibilidade de um novo começo. acontece. . assim como Pedro teve. e cita a doença nominalmente. Depois gritou qualquer coisa que se esfiapou no ar da manhã. eu nem suspeitava das marcas pelo caminho. o que deveria ter feito no começo. para viver de acordo com os preceitos da seita Santo Daime. afinal. enfim. Uma arara pousou na árvore perto dela. que nada e nunca. a jovem cantora. Toda de branco. Ela ergueu o braço direito para o céu. O encontro com Dulce. Ela lhe dá um gatinho de presente. Dulce Veiga estava parada na porta da casa. no final. A busca de Pedro é a busca de aceitação do presente. pois ainda não sabia que estava doente. há um choque. lá embaixo — mesmo que não. porque é belo e mágico na sua melancolia: naquele tempo — tudo era novo. tantos anos depois.

Tiveram até um pequeno rolo. E eu comecei a cantar. era meu nome. dizendo que ele não era gênio coisíssima nenhuma. Caio chorou potes. foi Cazuza. que ficou todo orgulhoso. Desde então. Ele via seus amigos sofrerem. Caio ainda não teve coragem de fazer o que ele chamava de O Teste. Caio odiava esses guetos. como Vai Improviso. Eles se gostavam. A jornalista que fez a entrevista se demitiu. Muita gente não encarava. Mas estamos em 1989. Caio sofreu muito ao acompanhar a decadência física do cantor. O bar era o que se podia chamar de barra pesada: tiroteios. citaria o cantor. namorico. esse é o nome do gatinho com que Dulce presenteia o narrador no livro. Iam juntos a bares trash. em um show. e da maneira de lidar com ela. Cazuza e Caio foram amigos. afirmando que escrevera uma matéria equilibrada. Apareceu com uma coroa de flores enorme. com a manchete: "Cazuza: Uma vítima da aids agoniza em praça pública". sempre que fosse falar de aids. tráfico de drogas. Cazuza dedicou Só as mães são felizes a Caio. e foi um dos mais indignados com a capa da Veja que expunha uma foto de um magro e pequenino. Uma das perdas mais sofridas. agarramentos de bastidores. chorando. Viajou até o Rio para o enterro. perdeu muitos deles. No final do show. e ficou em seu canto. A tal manchete foi uma confusão. vai até o camarim e dá uns bons amassos no amigo. porém altivo. e o final da matéria também. em que se desmerecia o trabalho do cantor. Certa vez. odiava boates e saunas exclusivamente gays. do travesti Andreia de Maio. se admiravam. Quando Cazuza morreu. Não em vão.Bonito. a admiração que sentia pela forma . mas Caio preferia esse bar aos chamados guetos gays. Vários artistas e intelectuais elaboraram e assinaram um manifesto contra a revista. o final e a manchete problemática seriam responsabilidade dos editores. chorando. Cazuza. mais choradas.

tentando eliminar os preconceitos. fechada. novas adaptações de Morangos mofados: já tinha havido a primeira. um programa de crítica literária na TVMix. depois de passarem a noite bebendo) ? Vamos. séria. De um humor negro. Caio ia tocando a vida. mas engraçado. Antes dessa época. o lado que gostava de ir a bares barra pesada. mas tinha um certo medo dele: o comentário geral era que o escritor era uma pessoa extremamente intelectual. No teatro. dizia Caio. Luciano Alabarse também fizera a sua. em 1983. amigo querido que também viria a morrer de aids. os amigos continuavam a aparecer. negríssimo. que ainda não era o aclamado diretor de cinema. com ele não havia tempo ruim. Renato não atuava na peça. saiu uma coletânea de seus contos chamada Mel & girassóis. organizada por Regina Zilberman. Afora as tristezas. andou pelo apartamento de Caio o ator gaúcho Renato dei Campão. dirigida por Fernando Meirelles. Vamos beber? Vamos pegar um michê? Vamos comer churrasquinho (às sete da manhã. em Porto Alegre. Vamos pegar pó?.como ele encarara a doença -aberta. para dizer em uma palavra. Vamos. é que Renato descobriu quão engraçado Caio podia ser. Na literatura. Renato descobriu também o lado temerário de Caio. arrogante. por uns tempos. Na conversa de bar. Era isso que Caio apreciava nele: sua disposição . respondia Campão. Era nessas aventuras que Renato o acompanhava. pronto para qualquer coisa. que já conhecia o escritor desde a primeira montagem de O leiteiro. Renato já cruzara com Caio pela noite de Porto Alegre. Foi mais uma das grandes perdas quç assombrariam Caio até o fim de seus dias. uma estudiosa da obra do autor. E agora era montada uma na Bahia. Apresentou. feita por Paulo Yutaka. dizia Campão. anos depois. uma programação da TV Gazeta. como o fora a perda de Ana Cristina César. freqüentados por personagens do maior submundo da noite. mas estava sempre com o grupo. No apartamento da Haddock Lobo. pela editora Mercado Aberto. Em 1989.

ele viraria de novo: tu não vai sair daqui? Ela nada. o emprego para Campão nunca veio. o lugar lotado. Ele continuou tranqüilamente a conversa. admiravam sua obra. Por mais que adorasse ser lido.para aventuras. aqui é a Regina Duarte. Ele e o escritor estariam conversando animadamente no balcão. Renato voltou. levantou-o atrás da cabeça e ateou fogo nos longos cabelos da inconseqüente figura. de vez em quando. no bar Líder. A agressividade de Caio vinha à tona. me liga. Muitas meninas e meninos o assediavam. uma garota veio dizer que . bêbado. e a secretária eletrônica com os recados mais ilustres: Caio. Mesmo com tantos contatos. mergulhou em uma de suas muitas crises depressivas. em Porto Alegre. Em 89. Calmamente. mas nada aconteceu a Caio. talvez com medo de uma atitude ainda mais agressiva. e continuava encostando em Caio. Por ser amigo mais de farras noturnas. e vinham falar com ele. A mulher se pôs a gritar. O escritor teria se irritado com aquilo. de vez em quando o mau humor o dominava. uma vez em Porto Alegre. e ela nada fez em represália. em 1987. Caio gesticulava e falava alto. que não sabia manter o próprio traseiro no lugar. Atrás dele. ele convidara o ator para se hospedar em seu apartamento em São Paulo. havia uma mulher de cabelos compridos. amigos vindos de todas as partes. empolgado com o assunto que discutia. Mais uma vez: tu não vai sair daqui? Como a mulher não saía. ele decidiu. até na relação com os fãs. que volta e meia batia sem querer a bunda em Caio. Renato presenciou algumas cenas em que Caio. enquanto conversava com Campão. Algum tempo depois. Caio se enrolou. e em certo momento virado para a mulher e dito: sai daqui. o apartamento de Caio era um lugar agitado: visitas a toda hora. Nessa época. Ele diz ter presenciado uma cena. e menos de um ano depois de ter saído de Porto Alegre. armava barracos escandalosíssimos. prometendo arrumar um emprego na capital paulista para ele. Ela não deu bola. o escritor acendeu o isqueiro. Uma vez.

enquanto o escritor se corroia em culpa. e também para fazer loucuras. de vez em quando tinha uns surtos de galinhagem. afirma Caio na entrevista. na loucura. dessa vez para sempre. como sendo a provável pessoa de quem ele pegara aids. Déa presenciou a briga de Caio e Ivan. às vezes. e os dois se juntavam sempre para falar bobagens. bem. ele não se descuidou mais. Desde então. sem dar mais notícias. também foi morar com Caio por uns tempos Ivan Mattos. apenas — até que o gênio de Caio e o temperamento de Ivan se trombassem de vez e os dois brigassem feio. no entanto. por causa da menção do escritor de chamar um michê pelo telefone. que era impossível saber como Caio contraíra a doença. E quebrando a cara. Déa era divertidíssima. Caio deu um tabefe em Ivan. Porque por mais que dissesse que aquele tal era o último amor. Ivan estava no apartamento. Em 1989. Um bailarino. porque. A resposta veio rápida e ríspida: — Não quero fãs.era fã de Caio. de novo. uma pessoa conhecida que viveu na Suécia. . Também. que ficou magoadíssimo e foi embora no outro dia. A terapia o ajudava demais. namorado do início dos anos 80. sofrendo uma desilusão amorosa por semana. e que morrera em 1989 em decorrência da síndrome. em outro período. quero amantes. ele estava sempre se apaixonando de novo. Todos esses conflitos Caio discutia com seu terapeuta. apaixonado por alguém. como dizia. numa entrevista à Marie Claire. Ronaldo Pamplona. e ele e o amigo Luciano Alabarse saíam do cinema. adorava Caio. Os amigos afirmam. era preciso mesmo um pronto-socorro emocional de vez em quando. Fazia um frio enorme. Caio chegou bêbado em casa. o ator. Houve alguns casos até duradouros. que ele conhecera poucos anos antes. inclusive um que ele mencionaria mais tarde. E de novo. embora fosse recatado a maior parte do tempo. ele e a amiga Déa Martins. uma produtora de eventos também gaúcha. E na noite. Moraram juntos por alguns meses — agora bons amigos.

e Caio tentava. o livro é dedicado a Cida Moreira. bem. Caio diria que sua ausência era a mais dolorida. dramaturgo. os melhores que se pode haver. Primeiro. pela beleza do ritual. Ele e Caio foram grandes amigos. Caio a entrevistou exaustivamente para saber como era tudo. ele chegou a freqüentar também o Santo Daime. através dos rituais mais variados. Caio continuava a manter sua espiritualidade viva. talvez mais que a fé. crença em algo maior. a mesma forma de encarar a vida. ligado ao movimento do teatro besteirol que surgiria depois. Vicente tinha uma forma de encarar as coisas . O jornalismo até que servia para alguma coisa. era uma forma de tentar contatar a divindade. As pessoas diziam que era paranóia dele. um herpes-zóster. anos depois. O Daime é uma substância alucinógena. que virou moda entre os intelectuais e artistas do Rio e de São Paulo no final dos anos 80. uma infecção nos ouvidos que não sarava nunca. Falava sempre com sua mãe-de-santo. Eram almas gêmeas. depois. Embora não fizesse o teste. Sônia. afinal. não por acaso. de uma certa forma: o mesmo humor. que participara dos rituais originais na Amazônia. Era seu melhor amigo.bêbado. amigo e parceiro de trabalho de Mauro Rasi. seu grande colega. O Santo Daime está presente em Onde andará Dulce Veiga. ficava paranóico sempre que aparecia alguma pequena doença. no Rio de Janeiro. A beleza dos rituais o fascinava. Vicente foi um dos autores do famoso programa de humor TV Pirata. é difícil afirmar que ele se protegia sempre. D. Uma das pessoas que influenciou Caio a tentar o Santo Dai-me foi Vicente Pereira. em torno da qual se formou uma seita na Amazônia. e usou essas informações no livro. a mesma espiritualidade. Quando Vicente morreu. Além da terapia. Enfim. que aquilo era apenas seu corpo colocando as inseguranças para fora. / Ching. cantora e amiga de Caio. Jogava taro. E assim. de aids. e assim ele seguia vivendo. Quem participou do ritual original afirma que o que se fazia no Rio era uma imitação tosca do que acontecia nas selvas amazônicas.

Mas sempre com um decote bem profundo. uma pintura. isso era triste: lhe dava uma solidão . empregos. traduções. estava sempre como visitante. A semelhança era tão óbvia que as pessoas em volta percebiam. um livro. Estava sempre trabalhando. como turista. Muito antes de Caio e Vicente se conhecerem pessoalmente. Era assim que ele era. Por um lado. E Vicente também. você precisa conhecer o Caio. Não fazia parte de seu temperamento se comprometer a fundo com as coisas — namoros. Ele não assumia que fazia parte da seita. filosofia ou religião e. quando o conheceu. Generoso. A relação de Caio com essas coisas era sempre mais descompromissada. dava oficinas de criação literária. você precisa conhecer o Vicente. e estava sempre sem dinheiro. Caio. e sempre sem dinheiro. que muita gente chega a achar que é dele: "Quando duas ou mais pessoas estiverem reunidas em nome de Deus. sacerdotisa. dois meses depois. Sacerdote. eu estarei no meio delas. no minuto em que se encontrassem. fazia copidesques. José Márcio Penido dizia: Caio. com algum cargo ou posto importante. se adorariam. tão repetida por Caio. free-lances. Era um sucesso como escritor. um anel. Com essa filosofia. influenciou pelo menos mais uma pessoa: Miguel Falabella. Há uma frase de Vicente. talvez não como filosofia de vida. acreditava que quanto mais desse. mas era assim que ele era: não conseguia juntar nada. Era só o Vicente entrar em alguma seita. talvez não de forma consciente. quando menos se esperava. também ligado ao teatro. entre os dois. credo. religiões. dizia que ele era a sacerdotisa do Daime." Caio brincava com Vicente.voltada ao desapego: não acumulava coisas. um apartamento. E ao Vicente: Vicente. já estava comandando as reuniões. Amigos até o fim. eles já se conheciam dos relatos dos outros. mais retornaria a ele. ele podia virar e se oferecer para pagar a conta de todo mundo no bar. por muito tempo. vivia esse desapego. comprar um carro. Sabia que. Não poderiam deixar de ser amigos. José Márcio fez a ponte. dava constantemente presentes aos amigos. E assim foi. acumular bens.

— Para possuir todos. Dentes agudos picaram seu pescoço. sim..tremenda. Márcio Souza escreveria o de Lula. Se fez bem ou não em não publicar o texto. o Jornal do Brasil pediu a Caio que escrevesse um perfil de Collor. você foi o escolhido — o menino disse. Foi publicado depois pelo jornal alternativo Verve. Vou perguntar pela última vez. O texto era um conto. Collor tinha ganhado as eleições. para lançar seus livros.] — Você é o escolhido. O menino Fernando faria um acordo com o diabo para dominar a todos. os caras-pintadas. E assim foi. diria Caio. E curvando-se mais: — Pense bem. Tudo isso. enchendo-o de ouro líquido. E como Caio queria ir para a Europa. — Daqui a trinta anos. e Caio o republicou.. — Mais fundo-pediu. E tinha que ser. não eram fáceis. às vezes. Os tempos aqui. a liberdade que tinha lhe permitia ir aonde fosse sem dar satisfações a ninguém. em Ovelhas negras. Por outro. mas a direção do JB acertou. em afirmar: era ofensivo. meu bem-amado — o menino ruivo gemeu. Caio escreveu o texto. Antes do segundo turno da eleição. Aquilo desanimava Caio. o impeachment. se pudesse.. Segundo o escritor. um ruivo. E aceitou: — Quero. quando Caio decidiu ir para a Europa. que tinha um encontro com um outro menino. em 1989. ao menos. não dá para dizer. sairia por sua boca escolhida . Fernando. E num movimento mais brusco explodiu dentro dele. Falava de um menino. você quer? Ele voltou a cabeça até mergulhar os olhos no verde sem limites dos olhos dos outro. Fernando. Quase como se adivinhasse o que viria depois: a roubalheira. em 1990. foi considerado ofensivo demais pela direção do jornal. Fernando. como sempre. e muita gente também. mas ele nunca chegou a sair. anos mais tarde. trinta anos mais tarde. [. Aquele mesmo que. com todas as características de ser o demônio..

e lá estava o Caio procurando emprego de garçom. viajou com a passagem que havia ganhado do prêmio Molière pela peça A maldição do vale negro. até o lançamento da edição francesa do livro. Caio foi correr atrás de lugar para morar e emprego. nas pedras do Arpoador. uma tradução inglesa. para a rádio BBC. Vai a Londres lançar a tradução inglesa de Os dragões não conhecem o paraíso — Dragons dont go to heaven — em uma feira de cultura brasileira. imaginou ouvir. ele não tinha dinheiro nenhum. mas ele continuava lutando. nove livros publicados. Às vezes. Em novembro de 1990. e também na maneira trôpega de lutar por eles. para a Time Out. desajeitada. e provavelmente pensando em sua aparência. de lealdade e busca de um mundo melhor. Por essas e outras é que a figura de Caio é tão associada a de D. Na ida à Europa. que só aconteceria dali a quatro meses. um rei. enquanto ele autografava livros. Depois de divulgar seu livro. para conseguir passar mais um tempo na Europa. nem imaginava o quanto o termo colaria em Caio. sua barbinha. em algum lançamento). a maneira errada. Molhou as pedras num jato prolongado de prazer-o primeiro. para o jornal The Independent. ao seu lado. quase dezembro de uma segunda-feira. Astaroth. combatia moinhos de vento. dia de Exu. Foi notícia por lá: deu entrevista para a revista Time. e a chance de sucesso parecia ser zero. Só imaginou. em março. Clarice Lispector. Quixote de La Mancha. Caio finalmente viaja à Europa.para chover sobre as cabeças e corpos de todos aqueles homens e mulheres que o aplaudiriam como o cavaleiro andante. ideais nobres. um príncipe. Um deus coroado pelo lado mais negro de todas as coisas. Quarenta e dois anos de idade. lhe assentaria bem como uma roupa feita sob medida. Se . Clarice lhe sussurrava no ouvido. O quixotismo dele estava presente em seus ideais. — Como é seu nome? — perguntou então. que primeiro lhe deu o apelido (você é Quixote! Você é Quixote!. 0 menino ruivo tinha desaparecido ao sol do meio-dia em ponto.

fez sua carreira internacional. depois. Quero porque . um irlandês. assim. bastard: para nigrinhos. foi até o rio Ouse. com a qual passou a escrever cartas aos amigos. ele sonha. Não sei para onde.S. um subemprego qualquer. ele fez alguns free-lances para jornais no Brasil e. teria que batalhar um emprego. Ele sente que os tempos são difíceis. mas me soam mais para David Lynch do que para T. já que. como São Paulo era. mora num bairro negro. quando voltar ao Brasil. um casacão de soldado alemão no mercado de Camden. Escreve a Magliani: "Depois desta. Comprou uma máquina de escrever usada. "Em cima. ". não tinha nenhum dinheiro guardado para segurar a barra nessa hora. quixotescamente. uma espécie de Harlem londrino. em março de 1991. Eliot.quisesse ficar lá. seu editor na Inglaterra. o lançamento da edição francesa de Os dragões. uma negrona grita o tempo todo fuck you little devil! I’ll kill you. Seguindo o costume de dar nomes às suas máquinas de escrever. Em Londres. escreve a Jacqueline Cantore. sempre sem acentos — o teclado era britânico. Grita mais coisas que não entendo. o Brixton. Ray. Em Londres. que tudo é perigoso. Caio fica uns tempos na casa de Ray. Enquanto isso. com sua inabilidade em lidar com questões materiais. essa ele chamou de Dorothy. Caio estava feliz: visitou a casa onde morou Virgínia Woolf. que seria seu companheiro por anos. além de ver muitos filmes e ler muitos livros — seu inglês vai se soltando mais e mais — Caio fica na espera dos compromissos que tem a cumprir: algumas leituras e palestras na Inglaterra. onde ela se matou. uma SmithCorona. queria demais começar a providenciar uma mudança de São Paulo. a única diferença é que na Inglaterra as pessoas sofrem a crise com mais estilo. Comprou um casaco. No fim das contas. Isso é FUNDAMENTAL. pegou uma pedrinha do jardim dela. Algum lugar onde eu possa plantar rosas. por uma pechincha. como Caio o descreve.

mas respondi com um grunhido. o seu Brasil. em Onde andará Dulce Veiga. das grandes cidades. na mesma carta. E é isso que encantará os franceses. afinal. E o descreve muito bem. finalmente. ele desistiu depois de comentar que ia cair a maior água. Em Londres. ele jamais deixaria de ser um gaúcho. em São Paulo ou Londres. um homem sem lugar. um estrangeiro. quando o livro for lançado lá: o retrato de um Brasil urbano. apesar de todos os defeitos. Mesmo aprendendo a gostar do Brasil. violento. em que a metrópole é o pano de fundo para suas lembranças: O motorista japonês tentou puxar conversa. mas também poético. O livro viria a ser publicado. e Caio começou a perceber que ele seria. Em São Paulo. Seriam histórias sobre a condição de ser um estrangeiro. Em Porto Alegre. o Brasil urbano. a poluição. talvez. Como no trecho seguinte. Caio pode parar e olhar ao redor e ver que os problemas. Havia sempre um motivo para não gostar do lugar. E é assim que Caio começa. ele achava tudo frio demais. com o título — já modificado por Caio — de Estranhos estrangeiros. Com todas as crises e dores e terceiro-mundismos.quero cultivar roseiras. ele conta ainda à amiga que planeja escrever um livro chamada Histórias estrangeiras. Porque ele era. sentia que a cidade o sufocava. a amar o Brasil. apesar de todos os pesares. um gaúcho da fronteira. era a Europa. afinal. quando se achava que tudo estaria bem. postumamente e incompleto. um estrangeiro. Afastei o banco para trás. pela Companhia das Letras. em Porto Alegre. "No fundo. estendi . Assim. Caio ama e odeia o Brasil. e não só em outras cidades. Assim que aceita sua condição de eterno estrangeiro. não agüentava o moralismo das pessoas. dos clichês que se costuma apregoar do país. a Magliani. diferente. mas no mundo. acima de tudo. pode aprender a amar o lugar onde está. Sobretudo ama. escreve. a confusão está é nele mesmo." Nessa carta. sempre. nunca saí de Santiago do Boqueirão". não estão em Santiago. a violência.

como quem apaga ou acende uma dessas luzes para perceber no quarto vazio apenas a vibração de asas que restou no ar. veloz feito uma mariposa que cruza subitamente o ar nas noites de verão. vermes dentro de sanduíches. Caio chegou a pedir para uma amiga cantora. muito rapidamente. Com o sucesso do livro na Europa. Isso me fez gostar um pouco dele. Com trinta e poucos . a Lory E Band. Laura fez a música. tive certeza. Caio começa a sonhar alto. Chama-se Poltrona verde. era roqueira. fechei os olhos. e pedi que aumentasse por favor o volume.as pernas. mas ele brinca principalmente para convencer o amigo Guilherme de Almeida Prado. e por quase um segundo. Vai trocar de estação. deitei a cabeça no encosto de plástico pegajoso e por quase um segundo. todas artistas. dentro do táxi que descia em direção ao Ibirapuera. muito maluca. secando o suor. como quem de repente suspira ou pisca e segue em frente. e muito amiga do Caio. abri mais o vidro. finalmente. e se algum diretor francês se interessa e resolve comprar os direitos? E se o Almodóvar se interessa. claro. De repente a voz rouca de Cazuza começou a cantar. anos depois. Dulce Veiga é uma história supercinematográfica. enquanto o carro rastejava pelo trânsito difícil. a pilha de laudas virando pasta entre meus dedos. o vento soprava na minha cara. A outra irmã. gaúchas. Ele ligou o rádio. Débora é atriz. lá na Espanha? Caio está brincando quanto a isso. eu queria ver no escuro do mundo. Laura é uma das três irmãs Finocchiaro. cantora. no fundo turvo do pensamento. sem querer nem provocar ou conduzir. e a gravou. tinha a sua banda. talvez budista. Laura Finocchiaro. Lory E. rezei para que não sintonizasse num daqueles programas com descrições hiper-realistas de velhinhas estupradas. outra vez. Laura. e era muito. chacinas em orfanatos. a camisa molhada. afinal de contas. por quase um segundo. tão oriental. sobre o asfalto em brasa. lembrei então de Pedro. à procura de luz acesa para girar em torno. surgiu da idéia dos dois para um filme. mas ele não trocou. não o inseto que já foi embora. a fazer o filme. cineasta. O livro. musicar uma letra que ele fez.

Cida Moreira. nas outras vezes em que esteve na Europa — sim. comédia de costumes. A crítica. Caio adorava cantoras. . porque Londres em 1990 era apenas o começo — escreveu algumas cartas a ela. como Adriana. que fez sucesso com a canção Doida demais.. e homenagem. ele admirava demais. faria sucesso com o espetáculo Terça insana. morreu de aids. sem cobrar por isso. e a ouvia sem parar. asfalto nas veias.anos. O público e a crítica estariam prontos. Nenhuma das duas tinha qualquer ligação com o interior ou com a música caipira. De Cida. vocalista da banda Vaginas dentatas. Stella participou. apenas de farra. escrita por Vicente Pereira e Mauro Rasi. como atriz. fez a dupla com a cantora Katia Bronstein. Caio amou o álbum. Cida ou Marina Lima. no entanto. O teatro besteirol fazia crônicas sobre o cotidiano. "deusa". era um dos melhores amigos. seria uma das únicas fitinhas que ele levaria para ouvir no walk-man. e sempre fazendo referências ao álbum Senhas. contando de suas experiências. ele levou a fita da dupla pop-humorístico-sertaneja Xicotinho & Salto Alto. da cantora. Stella Miranda. Chorava sempre na parte do "eu ando pelo mundo. tinha o humor contundente e criticava a sociedade. Grace Gianoukas. Em 2006. Inspiração. Adriana escreveria mais tarde a canção Alegre. não assimilava. Era amigo de muitas delas: Laura. E Caio não gostava apenas de cantoras sérias. o espetáculo entraria no quinto ano de apresentações. Diziam que era bobagem. Em uma de suas viagens à Europa. atriz paulistana. besteira. em 1980. amiga de Caio. do primeiro besteirol da história dos besteiróis. O personagem Márcia Felácio. gravada por Vânia Bastos. Era a peça As 1001 encarnações de Pompeu Loredo. é um pouco inspirada em Lory. e foi aí que surgiu o nome "besteirol". sempre com mais e mais fãs.. A Adriana Calcanhoto." Em homenagem a Caio. Vinte anos depois. Adriana Calcanhoto. filha de Dulce Veiga. prestando atenção em cores. Escreveu releases para discos de Laura e de Cida. surgiria uma nova tropa de atores e autores de teatro inspirados no movimento.

que é artista plástica. Guilherme de Almeida Prado não conseguiu filmá-lo naquela época. numa cidade pequena. Caio não viu Dulce Veiga virar filme.finalmente. Apesar da sua amizade com as cantoras. com todo apoio das leis culturais. Minas. e de até a música estar pronta. uma otite. Carolina Dieckmann como Márcia E O narrador. era natural que o amigo filmasse a história. do projeto de Dulce Veiga. ele estava bem. para esse tipo de humor. que Caio acha maravilhosa. que no livro não tem nome. O projeto só foi iniciado em 2005. e também leu dois textos em off — com aquela bela. além disso. Seis meses depois de ter deixado o Brasil. cheia e grossa voz — no filme A dama do Cine Xangai. pode pintar e desenhar com tranqüilidade. Quando ele volta a São Paulo. e com Laura. longe das capitais. e depois de passear também pela França. na neve. no filme se chama Caio — uma singela homenagem ao amigo — e é vivido pelo ator Eriberto Leão. feridas em dois dedos da mão esquerda e um da direita. Vai acompanhado da amiga escritora Sônia Coutinho. Lá. lenta. cheia de belos morrinhos. A médica chamou a infecção de . no frio. ambos de Guilherme. 15 graus negativos. Primeiro. não impede que Caio fique doente. Caio está de volta. Caio está com a saúde meio arrebentada. Caio inveja a vida que Magliani conseguiu montar para si. porém. decide visitar Maria Lídia Magliani. as dificuldades de se fazer cinema no Brasil eram imensas. Depois que voltou da Europa. E. Renovado. suficientes para fazer litros de chá quando voltasse a Sampa. A tranqüilidade da cidade. Ali Magliani. não havia dinheiro. no entanto. como Dulce Veiga era um projeto dos dois. Depois. e com vários atores consagrados nos papéis principais: Maitê Proença como Dulce Veiga. em Tiradentes. Foi só na volta a São Paulo que seu organismo começou a dar problemas. histórica. A relação de Caio com o cinema de Guilherme vem antes. Ele colhe várias ervas. ainda que muitos anos depois. agora sim. pode cultivar uma horta. elas pioram ainda mais. com umas pequenas infecções. Caio fez uma pequena ponta no filme Perfume de gardênia.

Caio passeia por São Luís do Maranhão e passa o Natal de 1991 em Porto Alegre. também. Caio escreve ainda um ensaio sobre a atriz gaúcha Luciene Adami. não era motivo para fazer O Teste. que estava em cartaz na França. pela Siciliano. Para a Playboy. em São Paulo. nas viagens à Europa que fez. com a família. A segunda edição do livro sai em 1994. Caio mandava sempre um postal ou trazia uma lembrança para ele. o escritor acaba perdendo o . Escreve. que atuou na novela Pantanal. escritores de renome. crítica literária para a Playboy. necessariamente. Caio não consegue parar quieto. Ele volta preparado para enfrentar o passado e reescrever Limite branco. um contato com as raízes. aliás. Quem fez oficina com ele conta: Caio era um professor atencioso. sempre fazem de Caio um pouquinho mais feliz. em Curitiba. ministrada pelo escritor na Casa de Cultura Mário de Andrade. Mesmo com as infecções e os namoricos que eventualmente aparecem. Como sempre. João e Caio se tornaram amigos.estreptococcia e achava que não. Ele fazia pelo dinheiro. como o conto Tentação. principalmente. para os alunos lerem. volta renovado: uma viagem aos pampas. A experiência de ter aula com ele foi marcante para muita gente. e os discutia depois. amiga sua e de Ivan Mattos. escrito aos 18 anos. Entre uma viagem e outra. que o conheceu na oficina Anatomia do Conto. mesmo que não tenham nascido daí. dava textos de Clarice Lispector.H. sugeria mudanças. mas nem por isso deixava de fazer o trabalho bem feito. Um dos alunos de Caio foi o gaúcho João Batista. Dá palestras em várias cidades de São Paulo. e às vezes comentava que preferia se dedicar somente à sua literatura. lia o que a turma escrevia com carinho. depois mais laboratórios de criação literária. como o pôster de uma peça de teatro baseado em Clarice Lispector: La passion selon G. seu primeiro romance. Além de Curitiba para a oficina literária.

no póstumo Estranhos estrangeiros. Sem se preocupar demais.apartamento onde mora. e o chileno Reinaldo Arenas. no décimo andar de um prédio defronte ao mar. que fica em Saint-Nazaire. ficou apenas três dias: tinha medo de se jogar da janela do apartamento — que ficava num décimo andar — e foi embora. anos depois. mesmo assim. publicada na França e. sua única obrigação era deixar um texto pronto. Arenas. ele continuou morando no apartamento. entre outros. bem acompanhado. afinal. Assim à vontade. autor de Dinheiro queimado. uma pequena novela chamada Bem longe de Marienbad. Caio viveu. Antes dele. Dessa vez. por dois meses. com tudo pago: ele era convidado da Maison des Ecrivains Etrangers (Casa dos Escritores Estrangeiros). para ser publicado pela editora Arcane XVII. bem alimentado. Depois de dez dias em Paris. no final de 1992 já estava de viagem marcada para a Europa de novo. O aluguel subira demais e ele não tinha como pagar. mais uma pequena mesada de 1500 dólares. enquanto a causa rolava na Justiça. e vales para ir ao cinema e teatro e bares de graça. uma frase de Camille Claudel numa carta a Rodin: "Il y a toujours quelque chose d'absente qui me tourmente. Funcionava assim: ele ficava dois meses num apartamento todo montado. um conto de fadas para escritores. Caio escreve um ótimo texto." "Há sempre alguma coisa de ausente que me . para uma bolsa de dois meses. passaram pela Maison o escritor argentino Ricardo Piglia. Foi uma época de glória para ele: bem tratado. ele realmente se atirou de uma janela e morreu. no Brasil. ao sair. O texto gira em torno de uma frase que perseguia o escritor há anos. na verdade. em Nova York. uma pequena cidade portuária. Seis meses mais tarde. Caio rumou para SaintNazaire. inclusive com faxineira. na França.

e alguns dizem que há castelos pelo caminho. madame. descobre a busca do outro por si. Originalmente. em português. Não pelo quarto. pela comida ou qualquer desses outros detalhes dos hotéis. Desvio o rosto. seria explicar por que me vou sem sequer passar uma noite aqui. em que se entremeiam passagens de sua narração de Bem longe de Marienbad em off. em que ele fala de suas influências. bien sür. a possibilidade do reencontro e da harmonia. é a história de um homem que chega a uma pequena cidade na França para procurar um amor. em um francês bastante razoável. e uma entrevista. Aumento o som da canção.atormenta. e por fim descobre a si mesmo. se agita e move e se perde em outro lugar. Marienbad. em primeira pessoa. olho para fora enquanto o trem dispara sobre os trilhos. de literatura. madame. O texto. rue du Port —. com certeza madame não compreenderia tanta ânsia tropical. com imagens dele andando pela cidade. igualmente imóvel. Pelo risco da imobilidade eterna. s'ilvous plaft. Caio grava um pequeno documentário para a Maison. que me soa romântico com seus erres rascantes ditos pela loura cinqüentona da portaria. e ela insiste. com seu capotão inseparável. ao final. Preciso ficar sempre atento. Ainda não anoiteceu. congelado em inúteis delicadezas enquanto tudo ou nada ou apenas qualquer coisa. mas pelo horror imóvel das enguias em sua jaula de vidro associado ao outro horror também imóvel daquela palavra. vai a seu apartamento. é delicado e belo. permeado de referências a Arenas e à canção de Barbara e F. mesmo insignificante. Ele segue as pistas do homem. Caio chamou a novela de O leopardo dos mares. e promete. no frio e nas brumas. Wertheimer. não devo me deter tempo demais em meus próprios olhos. Na temporada que passa em Saint-Nazaire. pelo perigo de eu mesmo permanecer para sempre aqui. o que só se descobre ao final. sendo o leopardo o próprio narrador da história." A novela. É fácil descobrir o endereço — dix-sept. de . Mais difícil.

O documentário é muito bem feito. em sua ausência. a astrologia é importante para ele na criação dos personagens de seus textos. quando está escrevendo. Caio aproveita esse momento da melhor maneira que pode. a filha de nove anos de idade de seu editor na Arcane XVII. de poesia. Conversa também com Isabelle. repetidamente. só que todas girando em torno do tema HIV/aids. diz que. cortes e mudanças de perspectiva. e uma dramaturga tcheca. de astrologia. SaintNazaire. de seus processos de criação. Fala também da importância do cinema em seus textos. Ele. Letônia e Lituânia. enfim. Daniella. ele seria chamado para muitas entrevistas. alguns anos depois. e não tem mais onde morar quando voltar. Marina sabe tudo sobre Van Gogh e Caio adora conversar com ela. que nunca teve muita paciência para crianças. Ouve o álbum Senhas. com seus zooms. pensava Caio. quando se descobrisse doente. escreveu peças lindíssimas. é Gil Veloso. fade-ins e fade-outs. É nesse documentário que Caio fala que. De vez em quando. segundo ele afirma em carta. Ele perdeu mesmo a causa judicial do seu apartamento. que. Enquanto não está escrevendo.cinema. começa a afrouxar. era um pequeno sonho. Faz também amizade com Marina. independentemente de se acreditar ou não. a realização de um ideal: todo escritor deveria ter aquelas condições para escrever. participa de jantares e eventos com os outros escritores convidados da Maison. Quem cuida de tudo. sempre pensa: onde está a câmera agora? Ele pensa o texto de uma forma cinematográfica. e a personalidade bem formulada. uma turma da Estônia. de Adriana Calcanhoto. porque no Brasil as coisas estão feias. lê. a gaivota que mora na janela da cozinha. As pessoas costumam se referir a Gil como secretário de . e aquilo muito o chatearia. com sua carteirinha de convidado. Tudo na mais absoluta paz. cada um tem seu mapa astral desenhado antes da escrita. Caminha na praia. ele vai ao cinema várias vezes. e dá a chance a Caio de falar de sua obra.

Para Amsterdã. vai para a Holanda.Caio. Em seu caso. que acabavam ficando para ele. contas. embora não vestisse a camisa e saísse gritando palavras de ordem. O luxo na Maison acabara. para a qual entrevistou 18 autores brasileiros. Gil percebeu a dificuldade do escritor em lidar com as coisas práticas da vida. o amigo Sappe Grootendorst vai buscá-lo de carro. Tudo que fazia — nisso os amigos são unânimes em afirmar — era sem esperar nada em troca. Ficaram amigos. a explicação é que. Graciliano Ramos não era chamado de escritor hetero. Gil nunca recebeu um centavo para cuidar do Caio. ele viaja para divulgar seus livros. porque ele exercia esse papel: ia na padaria. sem nenhuma segunda intenção. Os dois se conheceram na metade dos anos 80. Os dois foram sobretudo amigos. verificava contratos. entre os quais estava Caio. às vezes. Em 1993. é isso? Afinal. E foi ajudando. Sappe constatou que os escritores brasileiros não gostavam muito que chamassem o que faziam de "literatura gay". até se tornar uma espécie de secretário. depois Kõln e Frankfurt. ele tem carona. Gil brincava: anjo da guarda porque eu guardo suas coisas. Em janeiro. foi Gil que desmontou o apartamento da Haddock Lobo e deu um jeito de guardar as coisas do amigo em sua própria casa. Para Caio. Sappe havia defendido uma tese sobre a literatura gay no Brasil. fazia de tudo para o escritor. Visitando Caio. pagava contas. mistura de Gilberto Gil com Caetano Veloso. fazer leituras e palestras. ajudando. o que nem sempre era fácil: era preciso paciência para lidar com o Caio. convivendo com ele. mas nem por isso Caio deixou de voltar à Europa. Amsterdã. Gil era fã da obra de Caio. porque ele deveria ser chamado de escritor gay. isso não existia. por exemplo. papéis. Na verdade. Eles eram amigos. Caio achou aquele nome ótimo: Gil Veloso. O escritor dizia sempre que Gil era um anjo da guarda enviado pelos céus para cuidar dele. Em esquemas mais econômicos. ele escreveu alguns contos cujos . bancos. Em seu estudo. Tinha edições de obras do escritor que o próprio não tinha.

personagens eram gays ou em que havia sugestões de homoerotismo. Nada panfletário, mas em algumas situações os personagens apanhavam, eram criticados, se davam mal por sua condição. Saíam feridos, mas moralmente vitoriosos. Um exemplo é o conto Aqueles dois, de Morangos mofados. Dois rapazes, Saul e Raul, se conhecem ao serem contratados para trabalhar na mesma firma. A amizade dos dois irrita o pessoal da empresa e ambos acabam demitidos. Saul e Raul saem juntos, altivos. A derrota fica reservada para os que desaprovavam a amizade dos dois:
Pelas tardes poeirentas daquele resto de janeiro, quando o sol parecia a gema de um enorme ovo frito no azul sem nuvens do céu, ninguém mais conseguiu trabalhar em paz na repartição. Quase todos ali dentro tinham a nítida sensação de que seriam infelizes para sempre. E foram.

Caio odiava o rótulo de escritor gay, assim como odiava quaisquer rótulos que pretendessem dar conta de sua literatura em uma palavra. Escritor introspectivo, escritor de geração, escritor marginal, quais fossem. Ele não gostava, como em geral nenhum escritor gosta. Fosse como fosse, Sappe entrevistou Caio para seu trabalho, e anos depois traduziu alguns contos dele para o holandês. Agora ele ia buscá-lo para irem até a Holanda. Entre uma leitura e outra, Sappe e Caio arrumam tempo para se apaixonarem um pelo outro e viverem uma breve, porém bonita, história de amor. Fazem juntos, e à mão, um livrinho com um conto de Caio traduzido por Sappe, e vendem em várias livrarias gays. Nessa viagem, Caio vai ainda à França e à Alemanha, para cumprir compromissos relativos à sua carreira lá fora. Depois volta ao Brasil. Sem a ajuda que esperava receber dos amigos, já que estava sem casa e sem dinheiro, segue direto para Porto Alegre, para fazer um tratamento dentário com sua irmã Cláudia, que é dentista. Em junho Caio volta à Europa: Alemanha, para o Interlit

— o Congresso Internacional de Escritores do III Mundo —, depois Itália, para fazer o lançamento da tradução italiana de Dulce Veiga em Milão, Gênova e Veneza. Alegria, alegria: um dos sonhos de Caio é conhecer Veneza. Depois ainda, Berlim. Entre um compromisso e outro, Caio escreve aos amigos. Cartões para Adriana Calcanhoto, Luciano Alabarse. Um cartão rápido, escrito a quatro mãos por Caio e Gerd Hilger, seu tradutor na Alemanha, para Gilberto Gawronski. No cartão, Caio conta a Gilberto das leituras de Dama da noite que ele e Gerd estavam fazendo Alemanha afora. Depois Caio diria a Gilberto, a respeito de sua performance: — Acho que você teria orgulho de mim. Dama da noite é um conto de Caio, que Gilberto Gawronski, gaúcho, ator, adaptou para teatro e representou inúmeras vezes. A primeira apresentação da peça foi em 1988, no teatro Crepúsculo de Cubatão, no Rio de Janeiro. Depois, a peça foi para o Espaço OFF, de Celso Curi, em São Paulo. Ao longo dos anos, Gawronski a interpretaria ainda em Porto Alegre, Londres e no Rio. Em 1996, o ator a representou também na França, em Lyon. Gawronski dirigiu, montou e atuou tantas vezes nesse espetáculo que é difícil imaginar uma apresentação de Dama da noite sem o envolvimento dele; por isso é que Caio disse a Gilberto que ele teria orgulho dele. O escritor considerava o personagem tanto do ator quanto dele mesmo, que a tinha escrito. O posto de musa inspiradora do conto é reivindicado por várias amigas de Caio. Várias delas acreditam ter sido a fonte de inspiração para a mulher do conto, a dama da noite que conversa com um garoto, que ela chama de boy, e conta a ele sua história, que é a história, na verdade, de todo outsider, de todos os que vivem à margem da sociedade. O mais provável, contudo, é que a personagem seja um compósito, um amálgama da personalidade de todos essas amigas, como Claudia Wonder, Márcia Denser — a quem o conto é dedicado — e mais ainda um toque da imaginação do escritor.
Como se eu estivesse por fora do movimento da vida.

A vida rolando por aí feito roda-gigante, com todo mundo dentro, e eu aqui parada, pateta, sentada no bar. Sem fazer nada, como se tivesse desaprendido a linguagem dos outros. A linguagem que eles usam pra se comunicar quando rodam assim e assim por diante nessa rodagigante. Você tem um passe para a roda-gigante, uma senha, um código, sei lá. Você fala qualquer coisa tipo bá, por exemplo, então o cara deixa você entrar, sentar e rodar junto com os outros. Mas eu fico sempre do lado de fora. Aqui parada, sem saber a palavra certa, sem conseguir adivinhar. Olhando de fora, a cara cheia, louca de vontade de estar lá — tá me entendendo, garotão? Eu sou a dama da noite que vai te contaminar com seu perfume venenoso e mortal. Eu sou a flor carnívora e noturna que vai te entontecer e te arrastar para o fundo do seu jardim pestilento. Eu sou a dama maldita que, sem nenhuma piedade, vai te poluir com todos os líquidos, contaminar seu sangue com todos os vírus. Cuidado comigo: eu sou a dama que mata, boy.

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Te gusta?" .Verso do postal: "Com votos de Novo Ano LINDO p/ você. vai minha última foto. e toda a troupe da Sabará.

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Gawronski se equilibra sobre saltos plataforma de 14 centímetros. um flat na Frei Caneca. Caio está de volta a São Paulo. uma pessoa com uma postura mais agressiva que a do conto. fica hospedado na casa de Gil Veloso. Pronto: agora podem conversar de novo. ela é experiente. Preciso ter uma ilusão de segundo mundo — você sabe que. ela sabe o que faz. De chorar potes de lágrimas. Ao final do filme. vivido por Tom Hanks. mais que uma drag queen. Enquanto corre o processo. No final de julho. Caio e Gilberto saem para a rua. mas o escritor faz questão de um mínimo de conforto. mas custa a achar um advogado que pegue o caso. a dama da noite vira Dana de Avalon. encontra um advogado homofóbico — vivido por Denzel Washington —. com o choque do filme amortecido pela bebida. subindo nas mesas ou correndo. mas logo arruma um lugar para morar. É um pouco caro. né. O homem. Nos primeiros dias. Uma das cenas clássicas era a de Tom Hanks ouvindo Maria Callas e dançando. Caio diz: — Uma vodka pura. que no entanto acha injusta a demissão de Hanks pela empresa. do boy que a escute. decide processar a firma. Dana está sempre no controle. de 1993. a peruca vermelha e os longuíssimos cílios e faz o monólogo sem parar. e bebem duas doses. coloca a pesada jaqueta de couro negra. Paulista até o Ritz. pode-se ver a decadência física do personagem. embora precise dessa platéia. que fala apenas de uma quarentona que vive pelos bares à caça de homens. um ser ambíguo. que retrata a história de um homem com aids. demitido da firma onde trabalhava por estar doente.Na adaptação teatral. embora Laika. Foi com Gilberto Gawronski que Caio assistiu no cinema ao filme Filadélfia. escreve a Gerd Hilger. segurando a aparelhagem do soro. Caminham pela Av. Ao final da carta. tenho uma alminha três chie". andando pelo bar. assistido no cinema. Por fim. em silêncio. um PS: "Falei com Zulmira .

com a escritora Rachel de Queiroz. quando as faz. A essa altura. em julho de 1991. se ela acha que a literatura brasileira é muito desprezada. são provocativas. na época um programa bastante influente. Segundo ela. Já no começo do programa. Pergunta o que os membros realmente FAZEM na Academia. ele se dá o direito de discordar. Jorge Escosteguy. Naquele dia. ele pergunta: — Mas você não tinha noção das torturas? Rachel afirma que ela apoiou o golpe do Castello Branco. em certa época. Caio pergunta sobre literatura. Embora Caio não faça muitas perguntas. Quando ela fala da propriedade que tem no Nordeste. a entrevistada era Rachel. Caio já começa perguntando se ela é reacionária ou comunista. que era seu parente. De vez em quando. pois Rachel colaborara com os trotskistas. e o apresentador. Um desastre! Você acredita que ela me acusou de ter sido injusto com a Raquel (sic) de Queiroz? Manda MATAR (as duas)!" O episódio a que ele se refere é uma briga que teve na televisão. mas depois apoiara o golpe militar de 1964. O programa segue. só os que vieram depois. da TV Cultura. Caio era chamado para ser um dos entrevistadores do Roda Viva.Ribeiro Tavares. os entrevistadores questionam a escritora sobre suas posições políticas. o embate entre os dois é claro. Castello não torturara ninguém. Quando a escritora defende a presença de José Sarney na Academia Brasileira de Letras. Rachel? — à resposta afirmativa dela. E pergunta do Collor: . Quando ela fala que o PT continua o que o Brizola e os caudilhistas tinham de pior. Ele continua.. Rachel era contra João Goulart e Brizola. que chamava de caudilhos. ele ironiza: — Quem sabe não convidam o Collor para a Academia. ao vivo. muito amigo de seu marido.. Começa o bombardeio: — Mas você apoiou o golpe. ele pergunta se o latifúndio é produtivo ou improdutivo. ela responde que vai lhe mandar o gibi com as notícias. da qual ela fazia parte. a autora nega.

no meu ponto de vista. todos nós somos humanos. você tem que fazer perguntas. tanto que calo — interrompe Caio. — Caio. nos equivocamos.. se as minhas posições são constrangedoras para você. erramos. — . Mas eu estou me sentindo extremamente constrangido de estar na posição de render homenagem ao tipo de ideologia que eu profundamente desprezo. mas antes que continue. É porque você é muito jovem e não passou os tempos piores. É a última coisa. a mais polêmica. e eu não vou me tornar constrangedor.. estou sendo exigida de me pronunciar sobre . — Desde o Sarney que nós temos essa liberdade. eu só queria dizer isso. Por várias coisas que você falou. quer dizer que há um grau de liberdade muito maior — diz Rachel.. eu acho também as suas muito constrangedoras para mim.— Você não acha que o Collor tá dando continuidade ao que havia de mais lamentável no golpe militar de 64. não. — Não. — Tenho 42 anos e estive preso em 68! — Então você não aprendeu com o tempo. eu respeito suas posições e espero que você respeite as minhas. — Quero falar uma última coisa. que você ajudou? Ela diz que só ajudou o golpe do Castello.. Realmente. ele retruca. eu concluo que você colaborou para coisas muito negativas nesse país. — Eu gostaria de responder a você que nós estamos num país democrático. desculpe — intervém Escosteguy. — diz Rachel. Estou me sentido muito constrangido de estar aqui. — Se você tá perguntando isso em uma televisão oficial. Caio diz que ainda está aprendendo. — Mas é o mínimo. — Não é o mínimo. Compreendo. coisa e tal. porque passamos tempos muito piores. insiste. eu não tenho mais perguntas a fazer — diz Caio. até que Caio faça sua última manifestação. e não render homenagens. O programa segue. o apresentador intervém. — Eu respeito.

sentia o ritmo e ia vivendo. Mas tem que se levantar logo: afinal. O programa continua. fica deprimido. agora." . depois de acertado o lugar para morar. Caio pega uma gripe que leva três semanas para ir embora. que o anima um pouco: "Segura o turbante. de criar. Em janeiro de 1994. Cazuza. havia quem criticasse e quem defendesse sua posição. Afinal. sempre será". de discutir isso com você. na opinião dele — feita por catedráticos da USP O pagamento? Um terço do que o tradutor original ganha. e é preciso sobreviver. mas o dinheiro é insuficiente para Caio se manter. mas sente alívio pelo amigo. meu bem. Alheio a tudo isso. escreve a Gerd Hilger. possivelmente. Galizia. lançar os livros. daí a pouco é hora de ir para a França de novo. Mesmo quando se cura. não é assim em German? Não é possível adiar a vida. Caio. De forma que é recíproca nossa posição. Em setembro de 1993. o melhor amigo de Caio. é proibido — verbotten. que se recusa a sarar. doente. O escritor se lembra de outros que foram: Orlando. sem querer sair de casa. morre Vicente Pereira. Mas se lembra também de uma frase que Vicente repetia. Ele passa o mês praticamente de cama. Caio segurava o turbante. triste. como escreve a Gerd Hilger: "Não se pode ser infeliz. não se pode desistir de amar. não se pode morrer em vida. "Laika é laika.esses temas que eu não gostaria de me pronunciar. Já faz algum tempo que ele publica uma crônica quinzenal no Estadão. parafraseando alguma atriz de cinema. só olha para o papel e rabisca. e sente o ritmo". depois de lutar contra a aids por meses. Depois uma otite crônica. A coluna faz bastante sucesso. Não se pode: é pecado. batalha serviços. A performance de Caio no programa suscitaria debates sobre o papel do entrevistador e do jornalista na entrevista. Ele então faz trabalhos como revisar traduções — mal-feitíssimas. O dinheiro que sobrou da Europa vai acabando aos poucos. Ele fica triste. Caio não fala mais nada. em paz. que dividiu apartamento com ele.

do diretor espanhol Pedro Almodóvar. ele vende seu peixe. mas só a nomeação já deixou o brasileiro orgulhoso. E há mais: sai matéria sobre ele na LExpress. Apesar de muito requisitado para entrevistas. Caio passa uns tempos em Paris. comparou Dulce Veiga à cantora Maysa. Tudo isso ele conta em carta a Maria Lídia Magliani. o Jayme Monjardim. aqui no Brasil.. um chileno "gordimenso". que continua em Tiradentes.Em março de 1994. dirigido por Robert Altman e baseado no livro de Raymond Carver. para um garoto francês que viu a entrevista na TV. e ele vai divulgá-los em um programa de TV sobre literatura. enlouqueceu: ele tinha sido amigo íntimo dela. que está curioso por conhecer. Ele faz também outro programa de TV. Caio resolve dar uma passeada. Dessa vez. comprou os três livros e deu vários outros de presente aos amigos. Enfim. o Cercle de Minuit. chamado Jamais sans mon livre (Jamais sem meu livro). John Updike acaba vencendo o prêmio em 1994. em que os outros convidados do dia são Isabella Rossellini e Jeff Bridges. a gravação do programa foi engraçadíssima. Por conta dessas e outras. Caio volta a Paris. se apaixona por Short cuts. depois uma semana em Saint-Nazaire. na entrevista. Tendo assistido ao filme Kika.. foto em cores em Telérama. Caio chega à conclusão de que o Altman é um "Almodóvar COM substância". com o ego nas alturas. perfil em Les Inrockuptibles. também comparado ao Jô daqui. Depois de dois meses na França. Trocara fraldas do filho. e os franceses estão comprando: Dulce Veiga é indicado para o Prêmio Laure-Bataillon. o diretor do programa. Vai até Lisboa. Caio sempre arruma um tempinho para ir ao cinema. da Maison des Écrivains Etrangers. Seus livros vão indo bem no país. e . Está feliz: até autógrafo na rua ele deu. Não deixava de ser engraçado. comparado por Caio ao Programa do Jô. que premia o autor e o tradutor do melhor romance estrangeiro traduzido no ano. que ele odiou. depois volta à capital francesa. E coincidência das coincidências: quando Caio.

Dá-lhe antibióticos e mais antibióticos. Caio volta ao Brasil. de uma vez por todas. e não consegue melhorar. Na época. E na hora de buscar o resultado. bactéria. "Se alguém perguntar por mim. Até que Graça Medeiros. sempre decidida. ele tem que se livrar dessa dúvida. não resisto". e sairiam pelas ruas jogando confete. se desse negativo. para a França de novo em novembro. em junho. já que as infecções não o abandonam." Depois de Lisboa e Noruega. "Ambos me convidam para a colheita de narcisos da primavera. que. tem que voltar à Alemanha em outubro. e Caio poderia respirar aliviado. o amigo de infância que foi para a Europa e não mais voltou. Falava e falava disso com os amigos. Caio aceita a idéia. mandariam fazer camisetas com EU SOU NEGATIVO! escrito bem grande. de papel passado e tudo. Parece mesmo o melhor a fazer. Não. Já faz quase dois meses que voltou da Europa. Magro do jeito que era. claro. Aí se tirariam as dúvidas. Caio não quis ir. Caio estava apavorado. com medo da aids. . Chegou em casa. Casou-se com um norueguês. o envelope já aberto. e por lá ficou.para a Noruega. visitar Augusto. Caio perguntou: — E aí? — Não vai dar para fazer camiseta — respondeu ela. Uma semana de angústia. E foi só pisar em terras brasileiras para cair doente. E ele tem trabalho a fazer. eles fariam a maior festa. Pediu para Graça buscar para ele. escreve a Luciano Alabarse. mas a danada da doença — o vírus. achou que era melhor fazer O Teste logo. A frescura é tanta. apreensão. Ela foi. perdeu mais oito quilos. os resultados do exame demoravam uma semana para sair. o que fosse — não o largava de jeito nenhum. diga que estou noivo de Isabelle Adjani — mas não fiquei metido e mando beijos. Nesse caso.

ele encara a coisa toda bastante bem. dói fisicamente escrever. cheias de fios e tubos plásticos ligados a agulhas enfiadas nas veias para dentro das quais escorrem líquidos que. está sob efeito de remédios. feito Pessoa. E isso agora não é mais apenas uma maneira literária de dizer que escrever significa mexer com funduras — como Clarice. tente entender o que tento dizer. feridas. dizem. Ele passara mais de uma década com medo de estar contaminado. Em Carson McCullers doía fisicamente. Ele se encaixava perfeitamente naqueles grupos e comportamentos "de risco". prometo. essa coisa estranha. tudo é ainda muito turvo. Então serei claro. A crônica.SEIS Alguma coisa aconteceu comigo. Quando souber finalmente o que foi. embora . ainda. Como sempre tentei ser. os braços cheios de agulhas espetadas. Para você. com suas veias inchadas. para mim mesmo. Paulo que estava doente. no corpo feito de carne e veia e músculos. A princípio. Mas por enquanto. e por favor. Caio ainda não entendeu direito o que está acontecendo. Dói muito.. outros tantos ainda lutavam contra ela. e não é. Nestas duas mãos que você não vê sobre o teclado.. Fazia sentido ele estar com aids: metade de seus amigos morrera em decorrência da doença. e não à toa. publicada em 21 de agosto de 1994. saberei também esse jeito. mas eu não vou parar. É com terrível esforço que te escrevo. Pois é no corpo que escrever me dói agora.] Assim Caio começa a contar ao seus leitores de O Estado de S. [. Alguma coisa tão estranha que ainda não aprendi o jeito de falar claramente sobre ela. vão me salvar. muito explícita sobre o mal que o acomete. deitado numa maça de hospital. Ele apenas diz que dói. chama-se Primeira carta para além do muro.

era demais. No dia seguinte. Era como se já soubesse. Tentou se atirar da janela. Pegou o telefone e calmamente ligou para os amigos. Déa Martins e Gil Veloso também ficaram. Gil resolve que era melhor correr com ele para o hospital. ela não conseguiu voltar na segunda.já se soubesse que o vírus não era exclusivista e atingia gente de todo tipo. O organismo não agüentou. Não se assustou. Custaram a arrumar . acabou. recitava em alemão. o choque da descoberta. Porém as coisas atrasaram. enfim. delirantes. parecia descer sobre sua cabeça e esmagá-la como um trator. se matar. Foram para o Emílio Ribas. Vou morrer. Ligou para mais gente. e rumaram para o apartamento do Caio. Gil segurou-o a tempo. caíra a ficha: toda a irreversibilidade de sua doença. Lygia Fagundes Telles. Era peso demais. Ele tivera. viram que estava sereno. de ser soropositivo. Foi o que aconteceu ao Caio. O choque de saber-se condenado. Caio pensou. Graça ficou preocupada. Os médicos dão a isso o nome de "quadro de dissociação mental". Caio não estava nada bem. Alguns amigos foram visitá-lo. tenho aids. Nada incomum em casos assim: grandes traumas podem levar as pessoas a ficarem temporariamente perturbadas. teve que voltar ao Rio para cumprir um compromisso de trabalho. não necessariamente drogados. não se lembraria de nada. e não só ela. a febre levou ao delírio. provavelmente. Muito alta. que estava cuidando dele. não necessariamente gays. sua mãe. Não era intenção de Caio. doentes. todo o absoluto que estava contido no resultado positivo do exame. De repente. finalmente. e ligou para ele. francês. Vou morrer. contando a notícia: Cida Moreira. ao telefone. Ele não sabia o que estava fazendo. pensou ele. todo o significado. A doença era a cara dele. e Gil logo percebeu. Voltaria na segunda. veio a febre. Durante o final de semana inteiro — pegara o resultado numa sexta-feira — ficou bem. Ele não falava coisa com coisa. Graça. conversaram. não necessariamente promíscuos.

por favor. cantou. Ela dizia que não. era apenas o susto. como também o seu humor. porém. já muita gente tinha sido avisada: Cláudia Abreu. Ele compôs raps para o AZT.um leito no hospital lotado. "Bem-vindo a Filadélfia". já fazendo referência velada à doença. Talvez não sejam maus. realmente. Mas como o médico podia saber disso? Ele pensou que o Caio achava estar. o trauma. o médico alertou: — Se prepara. E o humor do Caio não parava. diz: — Bem-vindo à Filadélfia! O médico vira para Gilberto. Ele ia para os exames e pedia aos amigos: segura a Maria Callas pra mim. Não só a memória de Caio estava intacta. veio de Porto Alegre. ele escreveu a Primeira carta para além do muro. Depois do susto inicial. Graça Medeiros também já estava na cidade. Graça também teve uma discussão com o médico: ele dizia que Caio estava maluco. a maneira . na Filadélfia. era uma referência ao filme de Tom Hanks. incomunicável. Quando abre a porta e Caio o reconhece. O médico insistia em dizer que Caio estava mentalmente muito perturbado — provavelmente com um tumor no cérebro. ele ia descobrindo um jeito de lidar com a doença. Logo ele voltaria ao normal. talvez eu apenas não tenha compreendido ainda a maneira como eles são. Periga o teu amigo não te reconhecer. Outros amigos iam visitá-lo. Quando Gilberto Gawronski apareceu para visitá-lo. Na crônica. claro. No dia seguinte. Gilberto entra no quarto com o coração apertado. ele se agarrava à única coisa que podia ajudá-lo a viver: a literatura. vegetativo. esperando ver o amigo totalmente abalado. brincou. discretamente: — Eu não disse? Aí Gilberto relaxou. E termina o texto. Antes de ter descoberto esse jeito. que Caio e Gilberto haviam assistido juntos. assim: Tenho medo é desses outros que querem abrir minhas veias. que ele levava dançando. A Maria Callas era o aparato do soro. exatamente como na cena de Filadélfia. sua irmã.

como tudo é ou tornou-se, inclusive eu mesmo, depois da imensa Turvação. A única coisa que posso fazer é escrever — essa é a certeza que te envio, se conseguir passar essa carta para além dos muros. Escuta bem, vou repetir no teu ouvido, muitas vezes: a única coisa que posso fazer é escrever, a única coisa que posso fazer é escrever.

Depois da primeira, vieram ainda uma segunda e uma terceira cartas. A segunda é um pouco mais clara que a primeira, e fala dos anjos que Caio encontrara em sua descida ao inferno: anjos de branco, funcionários do hospital; os anjos de negro, seus amigos que lhe trazem presentes e carinho. E os outros anjos, os que já foram.
Noite alta, meio farto de asas ruflando, liras, rendas e clarins, despenco no sono plástico dos tubos enfiados em meu peito. E ainda assim eles insistem, chegados desse Outro Lado de Todas as Coisas. Reconheço um por um. Contra o fundo blue de Derek Jarman, ao som de uma canção de Freddy Mercury, coreografados por Nureiev, identifico os passos bailarinos-nô de Paulo Yutaka. Com Galizia, Alex Vallauri espia rindo atrás da Rainha do Frango Assado e ah como quero abraçar Vicente Pereira, e outro Daime com Strazzer e mais uma viagem ao Rio com Nelson Pujol Yamamoto. Wagner Serra pedala bicicleta ao lado de Cyril Collard, enquanto Wilson Barras esbraveja contra Peter Greenaway, apoiado por Nelson Perlongher. Ao som de Lóri Finokiaro, Hervé Guilbert continua sua interminável carta para o amigo que não lhe salvou a vida. Reina Ido Arenas passa a mão devagar em seus cabelos claros. Tantos, meu Deus, os que se foram. Acordo com a voz safada de Cazuza repetindo em minha orelha fria: "Quem tem um sonho não dança, meu amor."

A terceira crônica é muito mais clara que as outras duas. Nela, Caio conta o que lhe tinha acontecido, detalhe por detalhe. O Teste, o resultado, as ligações para os amigos, depois a febre e o delírio, e o hospital. Caio ficou 27 dias internado no Emílio Ribas. Lá aconteceu uma coisa inesperada: ele recebeu tanto carinho das pessoas, tantas

vibrações positivas, como comentaria sempre em entrevistas dali adiante, que ele foi, serenamente, começando a aceitar. E que mais ele podia fazer? A doença era irreversível demais para que se pudesse lutar contra; era preciso aceitar. E ele aceitava todo dia, como escreveu na Ultima carta para além dos muros.
[...] O que importa é a Senhora Dona Vida, coberta de ouro e prata e sangue e musgo do Tempo e creme chantilly às vezes e confetes de algum carnaval, descobrindo pouco a pouco seu rosto horrendo e deslumbrante. Precisamos suportar. E beijá-la na boca. De alguma forma absurda, nunca estive tão bem.

A terceira crônica foi escrita já em Porto Alegre. O médico recomendara a ele: você precisa agora é de qualidade de vida. Então Caio decidiu: adeus, São Paulo. Fez uma festa de despedida na boate A Loca, na qual cantou Laura Finocchiaro e compareceram muitos amigos, como Paula Dip e o marido. Mário Prata se lembra de ter visto Caio pela última vez nessa festa. Muitas luzes vermelhas, verdes, azuis, muita fumaça. Prata estava sentado em uma escada quando Caio passou a mão em sua cabeça e subiu os degraus, leve, incorpóreo, parecendo, por causa das luzes coloridas, uma figura sobrenatural, um anjo. Caio voltou, então, ao Rio Grande do Sul, para morar com seus pais já tão idosos, no sobrado colonial espanhol no bairro Menino Deus. Há roseiras no jardim, como ele sempre sonhara em ter. E ele se dedica, então, a cuidar de si, de suas flores, de sua obra. Nunca foi tão fácil conviver com o Caio — alguma coisa nele meio que serenou. O mau humor de antes, as alfinetadas, o gênio difícil, tudo isso foi substituído por uma espécie de paz, de aceitação. Ele vivera os últimos anos em constante aceleração, viajando de cá para lá, ParisBerlim-Londres-São-Paulo, e agora era obrigado a parar. Ele sempre quisera desacelerar; invejava a amiga Magliani e sua horta, lá em Tiradentes. Agora era a hora. Não haveria outra, ele pensava. A vida não era mais adiável.

Ele descobriu o que já sabia ainda com mais força: amava a vida. Acalentava o sonho de fazer parte da primeira geração de sobreviventes, os primeiros a driblar o vírus da aids. Não a cura, que isso parecia impossível, mas alguma maneira de estabilizar a doença, deixá-la tipo a diabetes, algo crônico, porém não letal. Ele achava que, se conseguisse sobreviver mais um ou dois ou três anos, essa "cura" podia aparecer, e então ele poderia viver muitos anos mais. E estava certo: quando ele morreu, em 1996, já existiam os remédios que comporiam o famoso coquetel. Ainda não se sabia como dosá-los, e administrá-los nas doses certas para manter a doença em níveis controlados, mas já existiam. Em Porto Alegre, a rotina de Caio era simples: acordava cedo, tomava café, ia cuidar das roseiras. Escrevia um pouco: crônicas para O Estado de S. Paulo e agora também para a Zero Hora, de Porto Alegre. No Estadão, Caio escrevera crônicas de 1986 a 1989; depois de uma pausa de três anos, retomara seu espaço em 1992, e escreveu até dezembro de 1995. Uma seleção de suas crônicas para publicação em livro foi elaborada por Gil Veloso, quando Caio já estava doente. Pequenas epifanias foi publicado em maio de 1996, alguns meses depois da morte de Caio. A rotina leve na casa dos pais e as doses de AZT pareciam estar funcionando. Caio ganhara peso, os exames de sangue apontavam bons resultados de plaquetas, leucócitos e linfócitos. Quando precisou de um remédio mais caro, americano, que custava 4 mil dólares o grama, Lucinha Araújo, a mãe de Cazuza, e Scarlet Moon, esposa do Lulu Santos, conseguiram de graça para ele, conta Graça Medeiros. As coisas pareciam bem, e Caio decidiu que iria, sim, cumprir seus compromissos na Europa. Primeiro, a Alemanha. Em 1994, a Feira de Frankfurt foi dedicada ao Brasil; Caio foi participar da feira e depois seguiu por várias cidades alemãs, fazendo leituras e palestras. Ele iria ainda à França, passar duas semanas em Aries, numa mini-bolsa para escritores, mas não deu. Um teimoso

Vânia Toledo e mais alguns — fizeram uma vaquinha e compraram um laptop para ele. falou em cartas aos amigos que agora era um homem informatizado.sarcoma de Kaposi resolveu brotar em Caio. Maria Adelaide Amaral. Chorava de molhar a calça. como sempre fizera. apaixonado assim meio de brincadeira. Quando Celso esteve em Porto Alegre para entregar o computador. a última vez que se veriam. Era lindo. Caio já devia estar contaminado há pelo menos uns dez anos. E também não queria aprender. segundo os cálculos dos médicos. e. achando que havia um motivo pelo qual ele pegara a doença. outras alegrias esperavam Caio: seu novo imunologista. escreveu crônicas contando de seu novo Robocop. Caio adorou. O sarcoma é uma espécie de câncer de pele. ao lado dele. uma calça clara. Belíssimo. De volta a Porto Alegre. e o motivo era revelado agora: conhecer o . E corrigia as provas à mão. quando a lesão apareceu. Celso chorava o tempo todo. o nome do imunologista. Tratara de Lory Finocchiaro e de mais tantos positivos que havia em Porto Alegre. Mas na ponta do nariz era demais. portanto. Caio recebeu um presente inesperado. ou pelo menos assim parecia. meio a sério. Assim que terminava de escrever. porque estava incomodando. É um dos estágios mais adiantados da doença. Eduardo Sprinz. Ah. provavelmente. E Caio ficou apaixonado por ele. Celso estava muito mais triste que Caio. dando soquinhos em sua perna. pensando no amigo que ia perder. por exemplo. o imunologista. Amigos de São Paulo — Celso Curi. Além do laptop levado por Celso. E Caio. Celso Curi foi eleito para ir a Porto Alegre entregar o presente. uma lesão arroxeada que acomete as pessoas contaminadas com HIV. Não sabia salvar os arquivos. Caio antecipou a volta ao Brasil. ele e Caio saíram juntos para o teatro. Não foi surpresa. Lasanha. imprimia tudo. o médico. Informatizado em termos: Caio não sabia muito bem mexer no computador. e brotar bem na ponta do nariz. Era. mandando ele parar.

o tratava com florais de Bach. o Caio. e Laura. tanto faz) onde seremos felizes para sempre — e o senhor Não será convidado a nos visitar. e que natural e inevitavelmente ele também vai se apaixonar por mim. de um ano e meio. Cecília Niesemblat. oeste. quem o tocava. desenhando. eu recém comecei a pegar amizade. segundo ele. que era quem. ele se tratava também com propólis e lama de Araxá. no entanto.médico. e o mais novo. Caio escreve a Gerd Hilger: "Gerd Alberto da Silva Hilger. o mais novo. Caio não estava disposto a apostar todas as suas fichas num número só. filho de Luiz Felipe. OK?" Por mais lindo que fosse o médico.. Sempre apaixonado. virginiano como o Caio. tinha o temperamento do tio: às vezes se isolava. como o senhor é guloso! Já pedindo foto da MINHA lasanha completamente pelado(a). ele se apaixonava pelo imunologista. Via uma e começava a gritar: gangá-gangá! E o mais velho. e que movido pelo amor descobrirá algum medicamento fantástico que me salvará a vida e certamente logo depois iremos viver em alguma ilha do Pacífico Sul (ou norte. Ele passava o dia brincando com seus sobrinhos: Rodrigo. era incrivelmente louco por frangas. um clichê até justificável: se muita gente se apaixonava pelo analista. afinal. Além da medicina clássica. não . E pelo médico. honey. ou leste. e gostava muito de Frida Kahlo — queria sempre ver a foto daquela "mulher de bigode"... uma amiga antiga. E passava tardes inteiras sentado com ela. estava mais próximo dele agora. Para seu governo. de quatro. quem lhe dava a promessa de vida. Rodrigo. e que fiquei doente apenas para conhecê-lo. a não ser que leve o Valdir junto. Claro que estou achando que tudo era fatal. de onze anos. que adorava desenhar. ontem foi apenas a segunda vez que nos encontramos! Mas falando sério — God! — que homem GOSTOSERRIMO. o Felipinho. Felipinho. filhos de Cláudia e Jorge. Caio comprou uma caixa de lápis de cor enorme para a Laura. desenhando. E Caio descobriu um remédio que. era mais curativo que AZT: crianças.. a quem Caio dedicou alguns contos.

impressoras e tecnologias. E bonito. mesmo nome de uma sua irmã falecida. Anita. Caio brincava: estava pensando em trocar suas credenciais de "jornalista e escritor" para "escritor e jardineiro". era difícil manter o jardim vivo. Eram caramujos canibais querendo devorar as flores. ou o inverno rigoroso que secava as plantas. o escritor pegava a bicicleta e ia dar longos passeios no parque da Marinha. ou Felipe. como queria. sabia lidar com computadores. para ir à fisioterapia. porém. mexendo na terra. com quem o escritor trocava sementes e dicas e truques. que todos os dias passava em frente ao jardim. Adorava conversar com Caio: ele lhe contava as histórias da Europa. De vez em quando. as roseiras que ele amava — algumas das quais estão de pé até hoje. E Caio gostava de viver assim. Era calmo. Caio ficava encantado em conversar com ela. vivo. enfim. D. octogenária. Anita fora a primeira moradora da Oscar Bittencourt. tranqüilo. A sua principal preocupação era o jardim. cuja casa ficava em frente à do Caio. como Irineu Garcia.queria saber de ninguém. era muito informático. nas crônicas. D. Horas e horas ele passava no jardim. descendente de italianos. Era preciso trabalho. e sabia a história de cada morador. sua vizinha. . cuidando. onde tirou algumas das fotos mais famosas de sua vida. rua onde os Abreu agora residiam. Conversava com D. ou a flor do girassol pesada demais para seu próprio caule — "como se não suportasse o peso da própria beleza que engendrou" — . artista plástico. Caio estava ficando obsoleto. Junto com o marido. ou ervas daninhas de todo tipo. lindo. Ela vira cada casa ser construída. vizinho da casa ao lado. Nas cartas aos amigos. Conversava com os vizinhos. Anita era fascinada pelo continente. Chegou a colocar na filha o nome de Itália. esforço. Ao contrário do tio. ele falava sempre das dificuldades que tinha em manter o jardim. principalmente em festas ou reuniões familiares. onde Caio passava a maior parte do tempo. Havia as rosas. alguns deles loucos por jardinagem. Podia também ver o pôr-do-sol na usina do Gasômetro. ou as formigas querendo devorar as angélicas.

Escreveu em uma crônica. ele precisava de uma caixinha de isopor para guardar os remédios. Trocavam cálculos astrais e confidencias nas cartas. o bairro onde morava. Anos depois de sua morte. aparecia. Caio não perdia o contato com os amigos. uma alemã que influenciou várias gerações de astrólogos em Porto Alegre. Foi um sucesso. como a chamavam. Como Amanda Costa. o chileno Carlos Aguirre Sepúlveda abriu uma pastelaria no bairro e. trabalhava na editora L&PM. escrevia. Emma de Mascheville. na Jornada Literária de Passo Fundo. Fez a tradução de Assim vivemos agora. de uma geração mais nova que a do Caio. compartilhava seus interesses literários e astrológicos. foram comer camarões no Tirol. Emy. Amanda. emocionou . Caio dedica alguns textos a D. Caio estava lá para falar como escritor e ela. para homenagear os moradores e o escritor. Sempre alguém ligava. do qual Porto Alegre é apenas o que há em volta". Mesmo isolado. Além das crônicas. e se deram bem de imediato. certa vez: "moro no Menino Deus. para ficar mais bonitinho. astróloga e amiga. Os moradores do Menino Deus consideram Caio uma espécie de patrimônio local. Os dois tinham algo em comum: assim como Graça Medeiros. Em 1995. fez uma faixa com a frase. que já era fã e se lembrava de vê-lo na rua. Amanda levou a tal caixinha em um almoço.Caio quase não saía do Menino Deus. portador do vírus. Caio se sai com essa: — Obrigado. Agora vou forrar com papel de oncinha. nos últimos anos. novela da ensaísta americana Susan Sontag que descreve as reações de um grupo de amigos quando um deles contrai aids. A tradução ter sido feita por Caio. Caio e Amanda foram alunos de astrologia de D. um restaurante de que ele gostava muito. com o casaco preto enorme. Caio continuava trabalhando em outras coisas. Os dois se conheceram em agosto de 1985. sempre perguntava se ela não achava que as mudanças astrológicas não poderiam trazer a cura da doença. nos anos 70.

enfim. porque não entrou em nenhum livro. Ovelhas negras era considerado por Caio um livro prépóstumo. o que gosta ou o que não gosta nele. que conteria textos de todas as fases de sua vida." Caio trabalha também na literatura. E mexeu em todos os seus guardados. Maurício Stycer. depois da morte de Ana C. por exemplo. Ele se referia à publicação. comentários gerais. uma espécie de autobiografia ficcional. em 1995. Não só porque ele é um conhecido escritor e a tradução. de vários livros contendo inéditos e dispersos. está muito boa. Tanto que doou à Fundação Casa de Rui Barbosa. papéis antigos: selecionava textos para uma antologia. poemas inacabados. que saiu em nova edição pela Companhia das Letras. Quando o livro foi publicado. no Rio de Janeiro. Cada texto publicado na obra vem precedido de uma pequena explicação do escritor. mas porque ele leu a história há algum tempo e sugeriu a sua publicação. escritos já em Porto Alegre. parece. ele não fazia restrição. que saiu pela editora Sulina. pergunta em entrevista se ela sabia que o tradutor tinha aids. até textos mais atuais. uma parte de sua correspondência . da Folha de S. esse medo de Caio referia-se à sua ficção. O livro traz desde A maldição dos Saint-Marie.a autora. em novembro de 1995. No entanto. contando as circunstâncias em que escreveu o texto. a todo vapor: revisou Morangos mofados. Ele estava selecionando seus inéditos para que ninguém o fizesse depois de sua morte. O fato de essa história significar algo para o Caio e que vai significar algo para outras pessoas porque ele fez a tradução me deixa muito feliz e agradecida a ele. à publicação de suas cartas. O resultado foi o livro Ovelhas negras. que jamais teriam sido publicados com o crivo da poeta. Pelo menos aquelas trocadas com outros escritores e artistas. "Sei e isso me emocionou muito. escrita aos 13 anos de idade para um concurso escolar. Repetia sempre: — Não quero que façam comigo o que fizeram com Ana Cristina César. Paulo.

embora a estrutura permanecesse a mesma. por considerarem a publicação prematura. por ele achá-los repetitivos demais. e assim o livro saiu.passiva.. e a língua ferina de Caio não costumava perdoar ninguém. ganhou mudanças drásticas. uma idéia — após minha morte. Além de organizar Ovelhas negras. Caio esperava ter tempo de escrever também a volta das frangas e Estranhos estrangeiros. E a minha herança para você. circulando. Oito contos foram excluídos. Fez algumas mudanças na pontuação. publicado em 1970. Vários amigos e leitores foram pegos de surpresa: é que nas cartas Caio era muito mais engraçado.) De qualquer forma. infelizmente. segundo o autor. Se você guardou. Algumas das que sobraram foram publicadas no livro organizado por Ítalo Moriconi Caio Fernando Abreu: Cartas. e falava de sentimentos que não teria coragem de dizer cara a cara. para diminuir o caráter definitivo do título original. Não era a pessoa deprimida que se poderia apreender de seus contos. melhorias nas frases. Muita gente citada nas cartas ainda estava viva. são suas. Não sei se você guardou as minhas como eu guardei as suas. de 2002. se você as tem. Assim como não . se perdeu num incêndio. Inventário do irremediável. Não teve. no entanto. e leve. Vamos que eu me torne um mito literário (melancolicamente póstumo. Os trechos mais pessoais. e fazia piadas.. em fevereiro de 1995: "Nós nos escrevemos dezenas de cartas. muitas vezes era irascível e calado. E o título passou a ser Inventário do irremediável. escritora e amiga. podia falar mais livremente. alguns nomes substituídos por iniciais. A publicação da obra gerou polêmica: alguns amigos de Caio não quiseram dar as suas cartas. nas cartas. Caio revisou outros de seus livros." Grande parte das cartas de Caio para Lucienne. claro — é você publicá-las. correções. Ao vivo. e animado. E ele escreve a Lucienne Samôr. que pessoalmente. foram suprimidos.

assistiu à montagem de um texto de teatro seu. Organizada por Luiz Arthur Nunes. um monólogo dirigido por Luiz Arthur Nunes e representado por Marcos Breda. mas também a qualquer espécie de paranóia ou obsessão. porém. mas Moreno não disse absolutamente nada. Caio ficou arrasado. como os bonecos de madeira russos. os baboushkas. O homem e a mancha. Ao final. pois ele queria ver o texto encenado. Ao que consta. finalmente. brincar com isso. Ele resolveu. O monólogo foi incluído no livro Teatro completo. uma releitura de D. que estava em São Paulo. A cena da apresentação da peça para ele. com sua formação de ator e sua voz. mas ele nunca chegou a encená-la. e assim os personagens se alternam. que reúne todas as peças de Caio. . La Mancha — e dele nasce D. Assim ele construiu O homem e a mancha. a obra foi lançada depois da morte do escritor. Quixote. ninguém diz uma palavra. Caio chamou Luiz Arthur. Breda e Luiz Arthur iam montar a peça. chateado. num interessante jogo de personalidades. nasce o personagem obcecado com a mancha — uma alusão à aids. então. Luiz começa a falar compulsivamente para preencher o silêncio. O personagem o perseguia desde que Clarice Lispector resolvera apelidá-lo. que é. em que um vai saindo de dentro do outro. Mas agora. Caio faz uma bela leitura. A peça tinha sido escrita por encomenda de Carlos Moreno — o garoto-propaganda do Bombril —. De um ator procurando um personagem. de Lya Luft. e também à cidade do personagem de Cervantes. para acompanhá-lo na leitura para Moreno e Fábio Namatame. inclusive a adaptação que ele fez de Reunião de família. Quixote. que faria a cenografia. saía outro — na comparação do autor. Era uma peça complexa: de dentro de um personagem. aliás. Ele pedia aos amigos que se apressassem. Anos antes. também não pagou um centavo pelo texto que encomendara. e desse nasce o Cavaleiro da Triste Figura. nem então e nem depois. foi constrangedora. na verdade.

Quem dirige o programa é o amigo de longa data José Márcio Penido. que Caio fosse ignorado pela imprensa até 1994. porém. com que cara eu vou ficar? Risadas. risadas. E achava aquilo a ironia das ironias. brincou. mas fora vetado "por estar fora da mídia". fez piada. respeitado. Paradoxalmente. Jô lhe pergunta se ele não pensava em escrever algum livro tratando da doença. Ele foi convidado para ir ao programa do Jô Soares. Caio responde: — Não. Na maior simpatia. no entanto. a partir de Morangos mofados.Desde a descoberta da aids. muitas delas motivadas pela questão da doença. Vai que eu não morro. os pedidos de entrevista aumentaram. o que não era verdade. Depois ele explicou que. Em dado momento. Em um depoimento muito bonito. Caio decidira viver uma vida mais tranqüila em Porto Alegre. ir ao programa divulgar algum de seus livros. Não se pode dizer. por exemplo. E ele . Quem o ouvisse falar. foi aí que a mídia começou a dar mais atenção a ele: choviam pedidos de entrevistas. seu nome se tornou mais popular. coisas a fazer. com a desculpa de lançar Ovelhas negras e a reedição de Morangos mofados. E ele foi. Agora. portanto. embora reclamasse exagerada-mente. o protagonista e Márcia E A conversa segue. Ele tem planos. Todo mundo tinha um exemplar em casa. Caio diz que não tem tempo para morrer. Caio aparece também em um Globo Repórter sobre aids. muito popular em alguns meios. o queriam. porque ele tinha tentado. e ninguém pode imaginar o quanto estar ali significa para Caio. livrosímbolo de uma geração. De fato. Já desde os anos 70 ele tinha seus fãs fiéis. pensaria que a mídia jamais lhe dera qualquer atenção até o dia em que descobriram que ele tinha aids. depois que a aids já tinha sido citada. na verdade. Caio se sentia desconfortável com essa situação. Ele sempre foi um autor procurado. antes. conversou com Jô. a aids já aparecia em alguns textos seus: Onde andará Dulce Veiga é uma história de amor entre dois contaminados. A ironia da situação.

e todos serão felizes para sempre. não se envergonhar. . não tenha desistido do cigarro. mais do que nunca. O escritor falou do que se passava física e emocionalmente com ele. Caio expõe sua teoria de que. os clichês associados aos soropositivos. Falar da doença era a melhor forma de combatê-la. mesmo sabendo que o interesse maior não era em sua obra. em 1994. Os dois. que fora falar da história de seu marido. Dráuzio Varella. ele dava entrevistas. E também a nós mesmos: embora. Mas é claro que a aids não era como o Ébola. no teatro do Maksoud Plaza. de um simpósio sobre aids. Na visão do escritor. a aids era uma doença cheia de estigmas. a Terra começou a reagir. que morrera por causa da doença. ficavam sentados de um lado do palco. muito mais letal que o HIV. e havia medo. Ele vê coisas piores que a aids vindo por aí. e que portanto sempre acredita que vai haver um beijo da Doris Day com Rock Hudson no final. que é a sexualidade. o planeta é que está doente: maltratada. Mas na época não se sabia disso. e Caio estava. e principalmente de combater os preconceitos ligados a ela. E por isso era preciso desmistificar. Diz que faz parte de uma geração muito colonizada. até o fim. junto com a jornalista Regina Echeverria. que talha o ser humano no que ele tem de mais delicado. o desconhecimento da doença. Caio estava lá para dar seu testemunho. sim. Por isso. por exemplo. beber. Comoveu a platéia e ajudou a diminuir. na verdade. Na entrevista. ele não queria mais maltratar o corpo. e os debatedores do outro — um deles era o dr. os únicos que não eram médicos no evento. em São Paulo. Assim que se curar o planeta. se drogar. se nada for feito — era a época em que se soube do vírus Ébola.acredita na possibilidade de cura. e sim na doença. assim como Regina. convencido de que era preciso mudar a maneira de tratar o planeta. que cresceu assistindo ao cinema americano. se curará o ser humano. um pouco. ele falava. um dos primeiros médicos a combater a aids no país. Participa. das dores e dos humores.

e muita gente legal já tinha aceitado antes. como Mario Quintana. Foram. o taxista fã de literatura começou a escrever. e Caio foi escolhido. E faz sucesso. Por uns cinco minutos. realmente. Comentou algo sobre oportunismo. sem descer do carro. perguntou. fã de literatura. por ser. dizendo que achava solene demais a palavra patrono. Mauro. dizia. um escritor reconhecido. o taxista. Mauro comentou com Caio que tinha visto o ou-tdoor de seu livro Pequenas epifanias em uma rua.Por estar de volta a Porto Alegre. o médico avisou a Caio que ele . o patrono tinha que estar bem vivo. hoje escreve colunas para o jornal Diário Gaúcho. o escritor olhou seu nome no alto. pois ficou em silêncio a maior parte do caminho. contando "causos" da vida de motorista. Caio foi convidado para ser patrono de Feira do Livro de 1995. No final de 1995. talvez. Influenciado por Caio. De início. Brincava. Quando esclareceram que não. E não deve ter gostado do que viu. Seu ponto de táxi fica no Menino Deus. ter outra chance. viu a capa do seu livro. ele relaxou e aceitou. se bem que. insistiu para que assim fosse: a nomeação de Caio não era uma unanimidade. Caio preferia ir sem ninguém da família para essas sessões no hospital. acompanhava as crônicas de Caio no jornal. um pé do outro lado e outro aqui. E pediu para irem embora. taxista. Mas isso não é coisa para gente morta?. Por essa época. e preferia ser chamado de padrinho da feira. porém. que merecia a homenagem. Os argumentos de Júlio venceram. e um pouco. Mauro Castro. estava mais é para padroeiro. ele desconfiou. para o câncer de pele. quando convidaram o escritor. é claro. costumava caminhar até o ponto de táxi e chamar Mauro para levá-lo. Quando o escritor ia para o hospital Moinhos de Vento fazer radioterapia. por ele estar doente e não poder. Júlio Zanotta Vieiras na época presidente da Câmara Rio-grandense do Livro. sobre acharem que ele já estava morto. Caio pediu que o levasse até lá. Um dia. depois. a dois quarteirões da casa da família Abreu.

muito sensível. A mãe não poderia ir com ele: com 71 anos. Mas Caio decidiu adiar a cirurgia. ele não tinha tempo a perder. já tinha sofrido duas isquemias cerebrais e não tinha saúde. Relembrou a infância. Déa olhou. Não ia lá há muitos anos. de passagem pela cidade. em Santa Catarina. Na pousada onde ficaram. por exemplo. da emoção que era voltar ao lugar onde nascera. muito doente. Não é esse filme. A companheira de viagem de Caio foi. Déa Martins. deprimida. de três horas. Era urgente. algo marcante. Com cinco minutos de filme. A temporada na terra natal foi ótima: Caio conversou muito com as tias. recebendo o título de santiaguense ilustre. que flor é essa? Então você não sabe o que é um hibisco? Ficou irado. Estava muito abalado. Gawronski discutiu com ele. perguntou: que flor é essa? Foi o suficiente para Caio se irritar. então. descansou. Caio queria ir embora. não é isso que eu pensava. Ele tinha a sensação de que tudo que ia fazer seria pela última vez. aquela flor símbolo dos surfistas. Chegando lá. foram. Estavam os dois muito mal: ela saindo de um relacionamento. mas não teve jeito: teve que levá- . que ele adorava. doente. Zaél. Pegaram carona de carro com duas garotas amigas da família e foram. buscou-o. desde que fora homenageado. Caio e Déa tiveram algumas briguinhas. Ele queria ver O Filme. Embora estivesse sereno a maior parte do tempo. O pai. Quando foi ao cinema com Gilberto Gawronski. Fez as pazes com essa parte do seu passado. Quando voltou. Caio decidiu fazer outra viagem.precisaria extrair a vesícula. Os irmãos tinham ocupações. Queria despedir-se da cidade. Depois de retirar a vesícula. principalmente tia Elcy Abreu. às vezes era difícil lidar com Caio. significativo. Como assim. Gilberto pegou o carro. escreveu uma crônica para Zero Hora contando da viagem. escolheu um filme longuíssimo. não abandonaria a esposa em casa. Pediu a seu irmão Felipe que o levasse de carro até Santiago do Boqueirão. Tinha porque tinha que ver aquele filme. que estava morando em Porto Alegre na época. Ele iria à Praia do Rosa. ele. havia um hibisco.

" Depois de vinte dias internado. Caio faleceu. do nada. em 1984. sentiu uma tristeza. ele doente até o osso. Os amigos o visitavam. a pensar nele. Em casa. Quando chegou em São Paulo. superada a timidez. estou muito cansado. Caio tinha escrito ao amigo: "Na minha lápide. Anos antes. ela tão velhinha e ele fazendo malcriação. se sentiu muito mal. a mãe. lhe dava nos nervos. céus. no Egito. 74 anos. O pai. uma dor no peito inexplicável. um dos poucos que acompanhou sua doença de perto até o fim. brincava o escritor. Parecia mais o hospital Abreu do que a casa da família. pegou pneumonia. Do outro lado do mundo. uma e meia da tarde. Reinaldo Moraes voltava de Buenos Aires de avião. Chorava no hospital mesmo. Amanda Costa estava almoçando em um restaurante árabe com uma amiga e começou. que muito amou. a situação não era mais fácil. No dia 25 de fevereiro. Quando voltou ao Brasil e soube da morte do . Ele explodia. pensar nele. o corpo do escritor não agüentaria a pressão. Déa teve que partir mais cedo da praia. entrevistara Caio algumas vezes. Luciano. ouviu no rádio que tinha morrido. Caio também antecipou sua volta a Porto Alegre: estava doente. e Caio implicava com ela. Poucas semanas depois. ao passar por Porto Alegre. O amigo Luciano Alabarse. 71. Mas no dia seguinte brigava de novo. que. recebeu uma proposta de trabalho no Rio e voltou para lá. quero alguma coisa mais ou menos assim: Caio F. brigava com ela. e ele. A mãe doente. bem. Mais ou menos na mesma hora. mas Caio mandava ele ficar quieto: você está mais deprimido que eu. Ela o desgastava.lo embora. estava sempre atrás dele contando histórias intermináveis. soube da morte do Caio. o jornalista José Castello. Dizia que ela o atordoava. pensar nele. Era um domingo. Quando chegou em casa. não o deixava em paz. voltava do hospital e chorava. Depois se arrependia. e ele lhes dizia: estou cansado. Era como se ele já não coubesse mais em seu corpo.

A vontade de Caio não foi cumprida. onde ocupam o número 4352 07. Sua mãe ficou inconsolável. você vai ficar rica! Caio. se o Spielberg quiser filmar Dulce Veiga. Alguns anos depois da morte de Zaél. ele lê. Caio foi enterrado no cemitério São Miguel e Almas. estava dando risadas. morreu. emocionado. Mas. fusos horários e tal. Escrevera. na missa. Na carta. foi a vez de seu Zaél. em Campinas. Um ano depois. ele fazia pequenos legados. teve um acidente vascular cerebral (AVC) e não levantou mais da cama. onde quer que estivesse. fez as contas. Quando chega a parte de Gawronski. Pesando menos de 40 quilos. quatro meses depois. depois de sua morte. Fora se despedir. claro: não registrara nada em cartório. apenas. Queria que Marcos Breda ficasse responsável e recebesse os direitos de sua obra teatral. e viu que Caio morrera exatamente na hora em que ele tivera a sensação estranha no Egito. . os amigos se reuniram para a leitura da carta. filho. quem administra a obra dele é a família. sete dias depois da morte. uma carta. Caio fizera seu testamento. os restos mortais dos três foram transferidos para o Cemitério Ecumênico João XXIII. Um ano e dez meses depois dela. Hilda Hilst alega ter visto Caio. Em três anos. À sua maneira. Gil Veloso da literária. para ser lida pelo seu pai. mãe e pai tinham falecido. na Casa do Sol. Seu Zaél sério.escritor. ele tem que ler: — Betinho. sem saber que isso ia acontecer. Gilberto Gawronski da de cinema e audiovisual. Usava um cachecol com uma fita vermelha: os dois teriam combinado que vermelho significava que estaria tudo bem. Dias antes de morrer. As dez da noite do domingo.

mas satisfeito. fez festa. entrou no mar. nem o galho ele queria. Lentamente. Ia conseguir. Pediu ao deus das águas que o curasse. O céu estava nublado. em dezembro de 1995. Jogou água para cima. você vai pegar uma pneumonia. Atravessou a faixa de areia.EPÍLOGO Na praia do Rosa. Pois bem. E voltou. Era sua caminhada. Ele iria sozinho. cara. Lentamente. Mergulhou. ele estava usando um galho que catara na estrada como bengala. debaixo dos finos pingos de chuva. . — Não entra. tá louco? Caio insistiu. Desde que chegara na pousada. com Déa. foi andando até o mar. chuviscava. e Caio teimou que ia entrar no mar.

2a ed. O ovo apunhalado. Rio de Janeiro: 2a ed. 1995 (com o título alterado para Inventário do irremediável). 1971. Porto Alegre: Mercado Aberto. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. 1988. Rio de Janeiro: 3a ed. Os dragões não conhecem o paraíso. Agir. 2a ed. 1995. 1970. 2a ed. Siciliano. Rio de Janeiro: Globo. 1992.Obras de Caio Fernando Abreu publicadas no Brasil Inventário do irremediável. Morangos mofados. Rio de Janeiro: 3a ed. Salamandra. Siciliano. Limite branco. Porto Alegre: Globo. São Paulo: Alfa-Omega. L&PM. 1984. 1975. As frangas. São Paulo: Companhia das Letras. Companhia das Letras. Triângulo das águas. Salamandra. São Paulo: 2a ed. 2005. 2a ed. 1995. 2008. São Paulo: Brasiliense. 1984. Agir. Agir. 1993. 1982. São Paulo: 3a ed. 1988. Agir. A Maldição do Vale Negro. Porto Alegre: Movimento. Pedras de Calcutá. 1988. Siciliano. Porto Alegre: IEL/RS (Instituto Estadual do Livro). 1988. Rio de Janeiro: Expressão e Cultura. São Paulo: 3a ed. Rio de Janeiro: 4a ed. 1977. 2007. Rio de Janeiro: 4a ed. Sulina. 1992. 2005. 2007. Porto Alegre: 3a ed. . Companhia das Letras. Mel e girassóis. 1983.

Melhores contos de Caio Fernando Abreu. 2002. Rio de Janeiro: 2a ed. 2006. 1990. Rio de Janeiro: Agir. 1996. Caio Fernando Abreu: Cartas. L&PM. Porto Alegre: Sulina. São Paulo: Global Editora. Porto Alegre: Sulina. São Paulo: Companhia das Letras. 2a ed. Teatro completo. Porto Alegre: Sulina/IEL. 2006. Caio 3D: o essencial da década de 1990. 1995. 2002. Porto Alegre: L&PM. 2a ed. Agir. Rio de Janeiro: 3a ed. Ovelhas negras. 2008. Caio 3D: o essencial da década de 1970. Rio de Janeiro: Aeroplano. Caio 3D: o essencial da década de 1980.: ítalo Moriconi. 1996. 1997. 2003. 2002. Org. . Rio de Janeiro: Agir. 1997. Planeta De Agostini. Agir. 2006. Fragmentos. Rio de Janeiro: Agir. 2007. 2005. Girassóis.Onde andará Dulce Veiga? São Paulo: Companhia das Letras. Pequenas epifanias. Estranhos estrangeiros. São Paulo: Global Editora.

Maria Aldina. por conseguir material ao qual eu não teria acesso de outra forma. e a Fábio Fabretti. cunhado. A Jorge Cabral. pelo papel importante em apoiar e ouvir. A Evandro e Leandro Martins. pela ajuda em Porto Alegre. agradeço as dicas e idéias. A Luís Francisco Wasilewski. A Luiz Alberto Scotto e Carlos Locatelli. A todos. por terem sido tão bons anfitriões no Rio de Janeiro. por fazer o contato com uma das fontes. pelos conhecimentos sobre o Caio. pelos mesmos motivos. A Edirê Ferreira e Paulo Vaz de Arruda. por ter sido um bom e divertido cicerone. livros e documentos relativos ao irmão. vídeos. Aos professores Ricardo Barreto. eu sei. os grandes planos e sugestões. grande amigo. A Beatriz Tironi Sanson. e a seu pai e a sua madrasta. agradeço a minha irmã. emprestando-me seu Morangos mofados. Agradeço também a Alex Werner. Agradeço à Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis (PRAE) pelo apoio dado. por existir. A Paulo Camossa. darem palpites. agradeço por terem me ouvido falar e falar sobre o livro.OBRIGADOS A Cláudia. apenas. a Juliano. e sempre. Tadeu e Romeu Martins. A Upiara Boschi. sobretudo por gostar e me incentivar. A Wendel. pela generosidade com que compartilharam histórias. que aliás não devolvi — nem pretendo. Liliane. Foram quatro anos monotemáticos. Felipe e Márcia Abreu. mas por tudo. por ter me levado pra lá e pra cá em seu táxi quando eu precisava. Em São Paulo. por ler o texto e opinar. pelas fontes que me passaram. Bruno Werner. por primeiro ter me apresentado à obra de Caio F. A Marina . Clóvis Geyer e Tânia Rodrigues. fotografias. e a sua mãe. e me contarem o que eles mesmos andam fazendo. a seu irmão. A Mauro Castro. A Diógenes Fischer. por me ouvirem falar do trabalho. não só pelo abrigo. A Fábio Bianchini. A Jacques. Esse livro começou a nascer na Universidade Federal de Santa Catarina. por rodar Porto Alegre inteira de bicicleta para me entregar um vídeo com entrevistas do Caio.

Déa Martins. Ivan Mattos. Maria Adelaide Amaral. sempre. José Mora Fuentes. Guilherme de Almeida Prado. Paula Dip.Darmaros. Júlio César Monteiro Martins. João: pelo apoio. Cada um a seu modo. meu obrigada a Carpinejar. Vera Spolidoro. Anna Gioconda Homem (D. que me cederam seu tempo e suas memórias: Adriana Calcanhoto. pelas batatas fritas e sukitas. pela paciência. Ana Braga. Bruna Lombardi. A meu editor. Ricardo Lombardi. Por isso. por me ensinar sobre disciplina. Luiz Arthur Nunes. Luiz Carlos Fava. José Castello. Luiz Abreu. agradeço demais. por trocar figurinhas e contatos. Reinaldo Moraes. por ler os textos assim que eu os mandava. João Batista. Celso Curi. À sua família. pelo apoio. Luiz Carlos Moura. Agradeço a Adriana Franciosi. Sônia Azambuja. Santiago. José Márcio Penido. Maria Lídia Magliani. Ruy Krebs. Laura Finocchiaro. Stella Miranda. Renato Campão. Manoel. Por acreditar. Marcos Breda. Carlos Emílio Corrêa Lima. pela fé no livro. Agradeço a todos os entrevistados. Gil Veloso e Luciano Alabarse cuidam com zelo da memória de Caio. Itália). Irineu Garcia. . Pelo mesmo motivo. Rafael Franco e ao pessoal da revista Crescer. Emanuel Medeiros Vieira. Jaime Gargioni. Grace Gianoukas. Claudia Wonder. Marisa. Regina Echeverria. Leide. Márcia Denser. Kate Lyra. Anita). Luiz Fernando Emediato. Cida Moreira. especialmente tia Laura e minha mãe. Itália Homem Ledur (D. Gilberto Gawronski. A minha família. Carlos Aguirre Sepúlveda. E a Regina Carvalho. Maria Rosa Fonseca. Pedro Paulo de Sena Madureira. a Jonas Lopes. Vera Antoun. também. Quero agradecer. Mário Prata. a Ricardo Stefanelli e à equipe do jornal Zero Hora. Juarez Fonseca. agradeço aos dois. Ana Lúcia Vasconcelos. por terem gentilmente cedido fotografias importantes para este livro. Jacqueline Cantore. Nei Duelos. por estar sempre disponível. Graça Medeiros. Amanda Costa. Luiz Schwarcz. que não é pouco. Antônio Neto. pelo grande conhecimento de todos os assuntos e pela amizade. Fernanda.

me apoiaram: seria longo citar todos os nomes. amigo. Sempre.br/group/digitalsource  http://groups. finalmente.Obrigada mesmo. Sem você.google. o melhor marido. companheiro. mas obrigada. quero agradecer a Eduardo Nasi.com. A todos que me ajudaram de alguma forma.com/group/expresso_literario    . E. Te amo. querido.   http://groups.google. não teria conseguido terminar o livro.

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