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SEGURIDADE SOCIAL

UNIVERSIDADE DE UBERABA

ROTEIRO DE ESTUDOS 02

A questão social e o desenvolvimento do sistema brasileiro de proteção social

Ruteléia Cândida de Souza Silva Adriana Estela Custódio Carletto

Introdução

Extrapolando a leitura clássica em torno das feições assumidas pela questão social, este capítulo faz uma incursão teórica sobre seus principais marcos históricos, identificando os condicionantes de ordem econômica e política que incidem na emergência e no desenvolvimento do sistema brasileiro de proteção social.

desenvolvimento do sistema brasileiro de proteção social. Para dar sustentação a nossa diretriz analítica, partimos

Para dar sustentação a nossa diretriz analítica, partimos do pressuposto de que o perfil atual assumido pela questão social no Brasil e pelo sistema de proteção social é indissociável da intervenção do Estado na esfera financeira, dos modos de dominação ideológica e da intensificação das desigualdades sociais, desigualdades essas marcadas, sobretudo, pelos altos índices de desemprego, pela precariedade das relações de trabalho e pela regressão dos direitos sociais e trabalhistas arduamente conquistados.

Demarcando o percurso histórico que vai desde a década de 1930 até os dias atuais, nosso estudo apresenta algumas interpretações de como se espraiou a hegemonia das relações sociais capitalistas na formação social brasileira. Levando em conta suas contradições e especificidades, procuramos demarcar as particularidades que envolvem o passado e o presente do nosso país, articulando a Seguridade Social pública com os aspectos econômicos e políticos no âmbito das classes sociais e segmentos de classe que impedem a estruturação de um sistema de proteção social capaz de captar o caráter multidimensional, a diversidade e a complexidade das desigualdades que marcam a nossa sociedade.

Por isso, você aluno precisa ficar atento e evitar conclusões apriorísticas ao examinar a trajetória do desenvolvimento do sistema brasileiro de proteção social. Precisa, antes de tudo, redimensionar o seu significado no jogo das forças sociais, apreendendo sua totalidade, seus condicionantes e sua lógica dominante.

Objetivos

Este capítulo tem como finalidade oferecer instrumental analítico básico para a compreensão da questão social e do sistema brasileiro de proteção social em seus principais marcos históricos: populismo, ditadura militar e período pós-década de 1990. As leituras e atividades propostas visam oferecer, a você, substratos teóricos necessários que lhe permitam:

analisar a questão social e o sistema brasileiro de proteção social em seus principais marcos históricos;

identificar os condicionantes de ordem econômica e política que incidem na emergência e no desenvolvimento do sistema brasileiro de proteção social.

Submetido a um processo de atualização histórica, este capítulo foi elaborado numa abordagem que, além de privilegiar a apreensão das múltiplas questões que envolvem os processos sociais, também privilegia sua processualidade histórica. E isso significa considerar que o rol de determinações que envolvem a temática em questão é perpassada por condições objetivas e subjetivas que se inscrevem no bojo de um processo de reordenamento do capital. Esperamos que você tenha bons estudos!!!

Esquema

1º momento: Discussões em torno da questão social:

alguns elementos para debate

2º momento: O desenvolvimento do sistema brasileiro de proteção social 3º momento: Um breve resgate
2º momento: O desenvolvimento do sistema brasileiro de
proteção social
3º momento: Um breve resgate do período que vai da
década de 1930 até a ditadura militar
4º momento: Do golpe de 1964 à redemocratização
5º momento: O Brasil pós-década de 1990

1. Discussões em torno da questão social: alguns elementos para debate

O capitalismo vem experimentando profundas modificações no seu ordenamento e sua dinâmica, o que vai incidir diretamente

na estrutura social e nas instâncias políticas da sociedade. Em

um processo contínuo de recriação e de negação, reproduz e perpetua as condições de exploração sobre o trabalho, intensificando ainda mais o sistema totalizante de contradições existente entre as distintas classes sociais. Em suas manifestações sociopolíticas, essas contradições permeiam e penetram todos os passos de sua dinâmica.

Sob essas condições, as refrações da questão social tornam- se, ou melhor, puderam tornar-se objeto de uma intervenção estatal contínua e sistemática. É somente com a concretização de um conjunto de acontecimentos econômicos, sociais e políticos que as políticas sociais se colocam como uma importante estratégia no enfrentamento à questão social.

importante estratégia no enfrentamento à questão social. Relembrando “Por „questão social‟, no sentido

Relembrando

“Por „questão social‟, no sentido universal do termo, queremos significar o conjunto de problemas políticos, sociais e econômicos que o surgimento da classe operária impôs no curso da constituição da sociedade capitalista.

Assim, a „questão social‟ está fundamentalmente vinculada ao conflito entre o capital e o trabalho” (CERQUEIRA FILHO, 1982, p. 21). Ou, nas palavras

de Iamamoto e Carvalho (2007), “[

expressões do processo de formação e desenvolvimento da classe operária

e de seu ingresso no cenário político da sociedade, exigindo seu

a questão social não é senão as

]

reconhecimento como classe por parte do empresariado e do Estado. É a manifestação, no cotidiano da vida social, da contradição entre o

proletariado e a burguesia [

]”

(IAMAMOTO; CARVALHO, 2007, p. 77).

Ao mesmo tempo em que respondem às requisições das classes subalternas, essas políticas são refuncionalizadas para atender o interesse direto e/ou indireto da maximização dos lucros, núcleo irradiador do capitalismo monopolista e do sistema de poder político utilizado por esses monopólios.

A avidez pelos superlucros coloca sob novas bases as

contradições existentes na relação capital-trabalho, tornando-

as mais complexas, mas sem conseguir superá-las. Ao longo

das últimas décadas, por exemplo, a adoção das orientações neoliberais altera significativamente a dinâmica de toda a sociedade, sobretudo, com o crescimento exponencial das desigualdades e do contingente de destituídos de direitos civis, políticos e sociais, o que traz consigo a necessidade de redefinir os modos de regulação econômicos e sociais.

Capitalismo Monopolista: período em que ganha “[ ] corpo a dominação dos monopólios e do capital financeiro, [adquire] marcada importância a exportação de capitais, [começa] a partilha do mundo pelos trusts internacionais e [termina] a partilha de toda a terra entre os países capitalistas mais importantes” (LÊNIN, 1977, p. 642).

Apresentando-se como único caminho para a retomada do crescimento econômico, o neoliberalismo captura os Estados nacionais e intensifica ainda mais os níveis de exploração sobre o conjunto dos trabalhadores. Surgem novos mecanismos de consenso e parâmetros morais subordinados aos limites dos gastos sociais públicos.

Fase concorrencial:

esse é o segundo estágio de desenvolvimento capitalista que perdurou desde 1780 até o último terço do século XIX. Durante esse período, o capitalismo foi se consolidando nos principais países da Europa Ocidental e, além de erradicar ou subordinar à sua dinâmica as relações econômicas e sociais pré-capitalistas, também revelou as suas principais características estruturais. A caracterização desse estágio como concorrencial explica- se em virtude das amplas possibilidades de negócios que se abriram aos pequenos e médios capitalistas. (NETTO; BRAZ, 2006).

Além de despolitizar a questão social, o capital também passa a minimizar as tensões sociais resultantes, em sua maioria, pelo não atendimento das demandas sociais coletivas por meio do atendimento a questões meramente erráticas e pontuais.

Em meio a um contexto marcado pelo aumento do endividamento dos Estados nacionais e seus reflexos sobre a questão social e sobre o aumento da pobreza, são observadas profundas transformações no mundo do trabalho e nas relações laborais e de assalariamento.

Se durante a fase concorrencial, a questão social era, por

regra, objeto de intervenção do Estado, na fase atual devido às características presentes no novo ordenamento econômico,

a consolidação política do movimento operário e as

necessidades de legitimação política do Estado burguês , ela

se internaliza na ordem econômico-política. Assim,

não é apenas o acrescido excedente

que chega ao exército industrial de reserva que deve ter a sua manutenção „socializada‟; não é somente a preservação de um patamar aquisitivo mínimo para as categorias afastadas do mundo do consumo que se põe como imperiosa; não são apenas os mecanismos que devem ser criados para que se dê a distribuição, pelo conjunto da sociedade, dos ônus que asseguram os lucros monopolistas é tudo isto que, caindo no âmbito das condições gerais para a produção capitalista

] [

monopolista (condições externas e internas, técnicas, econômicas e sociais), articula o

enlace

políticas do Estado burguês capturado pelo

capital monopolista, com a efetivação dessas funções se realizando ao mesmo tempo em que o Estado continua ocultando a sua essência de classe (NETTO, 2005, p. 30, grifos do autor).

[

]

das funções econômicas e

Por detrás de todas essas nuances, as respostas dadas à questão social pelo Estado têm um caráter, e não poderia ser de outro modo, fragmentado, parcializado, compensatório, seletivo e temporário.

parcializado, compensatório, seletivo e temporário. E não poderia ser de outro modo por quê? 4 CURSO

E não poderia ser de outro modo por quê?

Porque apreender a questão social como uma problemática resultante de uma determinada totalidade processual é o mesmo que remetê-la concretamente à relação conflituosa existente entre capital e trabalho, o que significa, pelo menos em tese, contestar a ordem burguesa vigente (NETTO, 2005).

Medularmente determinada pelo traço próprio e peculiar da contradição capital/ trabalho, as refrações da questão social, ao invés de serem apreendidas a partir de uma totalidade processual específica, são recortadas como problemáticas individuais e são assim enfrentadas (NETTO, 2005).

Mas a intervenção sistemática do Estado sobre as refrações da questão social, Como uma possibilidade objetiva posta pela ordem monopólica, está longe de ser homogênea. Sua instrumentalização em beneficio do capital monopolista no interior da sociedade burguesa constituída não se efetiva de forma imediata nem tampouco, diretamente.

Sua processualidade nos revela a existência de conquistas parciais e significativas de suma importância para a classe operária e para o conjunto dos trabalhadores. Da mesma maneira, a maturidade política do operariado e de suas organizações de classe tem como um dos seus referenciais a compreensão do potencial contraditório presente no âmbito das políticas sociais (NETTO, 2005).

Nesse movimento dialético, a função do Estado de acordo com o pensamento liberal é uma espécie de mal necessário, limitando-se a oferecer a base legal para que o mercado tenha melhores condições de maximizar os “benefícios aos homens”. Sua intervenção deve se limitar à regulação das relações sociais, garantindo a liberdade individual, a propriedade privada e o livre mercado.

Observamos que com o predomínio desses princípios impetuosamente defendidos pelos liberais e adotados, sem restrições, pelo Estado capitalista as respostas dadas no enfrentamento à questão social, no final do século XIX foram, em grande parte, repressivas. Contemplaram apenas algumas demandas dos trabalhadores, transformando-as em leis que estabeleciam melhorias tímidas nas condições de vida desses trabalhadores, mas sem com isso, atingir o cerne da questão social.

E se cronologicamente o atual contexto capitalista “[

diferente daquele que despontava na segunda metade do século XX, [e] dele nos separam pouco mais de três décadas, do ponto de vista societário a impressão que se tem é a de que experimentamos um „mundo novo‟” (NETTO; BRAZ, 2006, p.

] é muito

235).

As incidências inclusivas dessas alterações constituem novas formas de domínio que pressupõem além da socialização de valores políticos, sociais e éticos, a instituição de padrões de comportamento compatíveis com as necessidades de mudança que se processam no âmbito da produção e da reprodução

Baluartes: localidade onde se entrincheiram os defensores de uma ideia ou de um partido. Sustentáculo

social. Eis que agora, a direção dos processos políticos e a produção do consentimento de classe com o objetivo de empreender mudanças , transformam-se nos atuais baluartes

da ação das classes dominantes (MOTA; AMARAL, 2006).

Acoplado a esse processo, tem-se uma mudança profunda nas relações entre o Estado e a sociedade civil, sintetizada na “reforma do Estado”, reforma essa em total consonância com as orientações impostas pelos organismos internacionais às economias periféricas. A partir daí, vivenciamos um período marcado pela agudização das múltiplas expressões da questão social, como um dos reflexos mais expressivos da adoção dessas políticas de concentração de capital, renda e poder. Precarizam-se as condições de vida de setores majoritários da população, agravada com a retração do Estado em suas responsabilidades sociais (IAMAMOTO, 2003).

E essas transformações societárias atingem o conjunto da vida

social incidindo, diretamente, sobre a operacionalização das políticas sociais. Como reflexo desse processo, a questão social ganha novos contornos, tanto para suas múltiplas expressões quanto para o seu enfrentamento por parte das classes sociais e do Estado.

No trato da questão social, as políticas sociais são privatizadas

e os bens e serviços públicos se deslocam para a esfera

privada em total articulação com o processo de acumulação capitalista, tema esse já devidamente trabalhado no capítulo anterior. E tal mudança se justifica sob a alegação neoliberal da existência de uma suposta crise fiscal do Estado, o que exige o desfinanciamento das políticas sociais.

E se por um lado, a existência dessa suposta crise e da

escassez de recursos são utilizadas para justificar tanto a

retração estatal no campo social quanto a expansão das atividades desenvolvidas num suposto “terceiro setor”, de outro

lado,

num suposto “terceiro setor”, de outro lado, a recorrente afirmação de que existiria hoje uma „nova

a recorrente afirmação de que existiria

hoje uma „nova questão social‟ tem, no fundo, o claro, porém implícito, objetivo de justificar um novo trato à „questão social‟; assim, se há uma nova „questão social‟,

seria justo pensar na necessidade de uma nova forma de intervenção nela, supostamente mais adequada às questões atuais (MONTAÑO, 2005, p. 187, grifos do autor).

] [

Mas para você existe uma nova questão social?

Na verdade, a questão social continua inalterada, o que se observa é o surgimento e a alteração de suas expressões. Nos

dias atuais, o tema recorrente entre alguns autores é a pretensa defesa de que existe uma “nova questão social” e isso nos remete, por exemplo, aos estudos realizados por Pierre Rosanvallon (1998).

aos estudos realizados por Pierre Rosanvallon (1998). Importante! Esse autor defende que desde os primeiros anos

Importante!

Esse autor defende que desde os primeiros anos da década de 1980, o aumento gradual do desemprego e o surgimento de novas formas de pobreza parecem, de forma muito contraditória, conduzir-nos há tempos atrás. Parte do pressuposto de que se compararmos os problemas congênitos da sociedade burguesa, como àqueles relativos ao desemprego, à pobreza e à exclusão social, veremos que ao longo dos anos de 1970 e 1980 os índices sobretudo nos países da Europa e nos Estados Unidos – são muito maiores do que aqueles alcançados nos “anos de ouro” do capital.

Tendo como base essa ideia, Rosanvallon (1998) defende a existência de uma “nova questão social” que se traduz na inadaptação dos antigos métodos de gestão social, que vieram à tona com a crise do Estado Providência. Em suas análises, a ênfase é dada à diferença entre a “nova” e a “velha” questão social, sendo enfático ao afirmar que o período pós-industrial, ao mesmo tempo em que provoca uma ruptura também traz elementos de superação da antiga sociedade capitalista industrial e dos principais problemas que dela emergem. É justamente aí que reside a fundamentação que explica a ruptura entre o antes e o agora da questão social, ponto chave da tese defendida por esse autor.

O autor sugere que para enfrentar as expressões da questão social, o Estado precisa assumir a forma de Estado Providência ativo, produtor de “civismo”, totalmente atrelado ao desenvolvimento da cidadania. O Estado Providência, para ser justo, não pode se limitar àquelas ações que o colocam como um mero redistribuidor de subsídios e um administrador de regras universais. Antes disso, precisa se transformar em um Estado de serviço, cujo objetivo consiste em oferecer a cada um os meios necessários para alterar o curso de sua vida, superar uma ruptura e antever um problema, mas é claro, sem questionar a ordem instituída.

Daí resultaria a capacidade de se estabelecer uma melhor distribuição ou uma distribuição menos desigual da riqueza, mas sempre com um cariz redistributivo. Pensando assim, a intervenção estatal se coloca como um mecanismo de coesão social, responsável por naturalizar as mudanças processadas na esfera produtiva, mudanças essas reguladas por leis imutáveis e análogas àquelas que regem os fenômenos naturais. Trata-se de uma nova visão do sistema de proteção social, não limitada apenas a uma "técnica de seguridade", mas, ao contrário, articulada com uma versão ampliada do modo de produção da solidariedade social.

Para Rosanvallon (1998), a saída para enfrentar os problemas sociais contemporâneos envolve, inevitavelmente, o engajamento pessoal dos beneficiários; a combinação entre indenização e inserção social; e a possibilidade de articular direito e contrato na condução das políticas contra a pobreza. Além disso, a construção de uma cidadania ativa que garanta direito ao trabalho está atrelada à existência de uma contrapartida por parte dos indivíduos de acordo com as suas capacidades.

Fica claro, portanto, que a grande preocupação desse pensador é manter ao invés de transformar as relações sociais existentes, à medida que a solução apresentada para a crise do Estado Providência e para o problema da exclusão principal indício da existência de uma suposta “nova” questão social em nenhum momento questiona a ordem estabelecida. Pelo contrário, sua tese defende, de forma incisiva, a construção de um Estado Providência ativo, vinculado ao desenvolvimento de uma nova cidadania social baseada no sentimento cívico da solidariedade.

Diante do posicionamento a-crítico do autor à lógica que movimenta a sociabilidade burguesa, observamos que sua proposta se aproxima daqueles argumentos neoliberais que defendem um Estado mínimo, articulando-se, coerentemente, com as proposições que advogam em favor o terceiro setor e com o projeto de desresponsabilização do Estado no processo de garantia de direitos.

Aporia: na filosofia significa dificuldade lógica, sem solução.

Conjurar: desviar,

evitar

Rompendo com essa lógica dualista – “antiga”/“nova” questão social defendida por Rosanvallon (1998), outros autores, como Robert Castel (1998), partem do princípio de que a

questão social sempre existiu. Esse último pensador define a

uma aporia fundamental sobre a qual

uma sociedade experimenta o enigma de sua coesão e tenta

(CASTEL, 1998, p. 30).

Apresenta-se como um desafio que interroga e coloca em

existir

como um conjunto ligado por relações de interdependência” (CASTEL, 1998, p. 30).

Partindo da idéia de que com o decorrer do tempo a questão social foi se redefinindo e se metamorfoseando de forma contínua, Castel (1998) se interessa em analisar o que há de diferente e comum nas diferentes situações de vulnerabilidade social que marca a sociedade desde o século XIV até o século XX. Assegura que as profundas metamorfoses da questão social indicam a presença de uma nova problemática, no entanto, essa nova problemática não significa a existência de outra problematização.

xeque a capacidade que uma sociedade tem de “[

conjurar o risco de sua fratura [

questão social como “[

]

]”

]

Para o autor, a problematização expressa a existência de um conjunto unificado de questões que emergem em um determinado contexto histórico que se precisa datar , e que se reformulam continuamente através das crises, agregando dados novos, sendo necessário periodizar tais transformações.

Numa perspectiva diacrônica, Castel (1998) realiza um estudo para apresentar o estatuto da precariedade e dos meios adotados no seu enfrentamento. Seu estudo remonta às sociedades do Antigo Regime aquele alicerçado no absolutismo , por acreditar que essa problematização relativa à coesão e aos riscos de decomposição dos vínculos sociais surge com maior expressividade a partir do segundo quartel do século XIV, com a propagação da vagabundagem e da indigência, problemática vista pelo autor como uma “questão social assistencial”.

Diacrônica:

dos fenômenos ou fatos, especialmente linguísticos, estudados do ponto de vista da sua evolução no tempo.

Centrando a sua atenção no fato de que “questão social” reformula-se através das crises, Castel (1998) afirma que o surgimento do capitalismo não indica uma ruptura nesse continuum de problemas sociais, problemas esses que sempre existiram e estão em constante transformação. Para o autor, o século XIX é palco do surgimento da “questão social operária” que, embora não apresente as mesmas nuances das problemáticas anteriores, atua sobre essas bases, modelando sua transformação e agregando novas particularidades.

Sua atenção volta-se para mostrar que a questão social, propriamente dita, tem sua emergência no século XIX a partir do processo de industrialização crescente e das consequências sociais daí decorrentes. A despeito disso, entende que no nos dias atuais não estamos diante de uma “nova questão social”, mas, muito pelo contrário, vivenciamos um período marcado por uma “nova” versão da questão social que, desde a sua gênese vem se apresentando sob diferentes clivagens e versões, recolocando-se e recompondo-se constantemente. Ao avaliar a questão social hoje, seu estudo apresenta três “situações-síntese”:

desestabilização dos estáveis

instalação na precariedade

redescoberta dos sobrantes

instalação na precariedade redescoberta dos sobrantes se trabalhadores – que antes se encontravam em uma
instalação na precariedade redescoberta dos sobrantes se trabalhadores – que antes se encontravam em uma
instalação na precariedade redescoberta dos sobrantes se trabalhadores – que antes se encontravam em uma

se

trabalhadores que antes se encontravam em uma posição estável na divisão do trabalho das linhas produtivas.

dos

constitui

na

expulsão

seus

frequentemente, os jovens, que passam a alternar períodos de atividades, de desemprego, de trabalho temporário e de auxílio social.

atingem,

reflexos

aqueles que são excluídos da sociedade e aqueles que não são integrados e que talvez não tenham condições de ser integrados. Esses seriam os indivíduos que foram invalidados, nas últimas décadas, pela nova dinâmica econômica e social.

Sociedade salarial:

não é somente aquela em que a maioria da população trabalhadora

é assalariada, ainda

que isso seja verdade,

"[

sociedade na qual a maioria dos sujeitos sociais tem sua inserção social relacionada ao lugar que ocupa no salariado, ou seja, não somente sua renda, mas também, seu status, sua proteção, sua identidade [ ]” (CASTEL, 1997, p.

169).

].

Mas, uma

Fundamentação durkheimiana do laço social: o conceito de laço social está

intrinsecamente relacionado ao conceito de solidariedade orgânica, aquela que implica uma maior autonomia, com uma consciência individual mais livre e que tem como princípio a diversidade de papéis sociais. Formulada por Durkheim, esse tipo de solidariedade envolve o encontro de interesses complementares, criando um laço social, com moral própria e que fornece as bases para a conformação de uma nova organização social, cujo fundamento

é a diversidade.

Diante de tais situações, ninguém pode substituir o Estado no direcionamento de suas ações. E para “salvar” a sociedade salarial e, em definitivo, a sociedade capitalista não resta

alternativa senão propor algumas mudanças na intervenção do Estado.

Ao invés de centrarem-se nas políticas de integração – destinadas a todos os “cidadãos”, buscando restabelecer o equilíbrio social, homogeneizar a sociedade e reduzir as desigualdades sociais , as estratégias adotadas devem focar- se nas políticas de inserção, numa lógica de discriminação positiva que direciona os programas sociais para aqueles setores mais vulneráveis da população.

Assumindo uma postura bem direfente de Rosanvallon (1998), Castel (1997) defende que, atualmente, as antigas formas de solidariedade passam por um período de esgotamento, exigindo uma nova modalidade de intervenção por parte do Estado.

E isso não significa nem menos Estado, nem mais Estado, mas

a presença de um Estado estrategista, protetor, à medida que

sem proteção social não é possível alcançar a coesão social. Encontramos aí a fundamentação durkheimiana do laço social e da integração, fundamentação essa que não pode, de

modo algum, ser chamada de nova e muito menos de inovadora.

Enquanto Rosavanllon (1998) tem suas atenções voltadas em explicitar o que há de “novo” em torno da questão social – entre a “antiga” e a “nova” e entre o antes e o agora –, Castel (1998) vem justamente criticar essa visão dualística, tentando comprovar que essa separação dicotômica na realidade não existe.

No entanto, apesar da crítica empreendida por Castel (1998), a análise desse autor, ao se limitar apenas a uma crônica ou uma descrição cronológica da questão social, desconsidera a processualidade e as contradições inerentes ao movimento do real.

Em nossa opinião é somente a partir da apreensão da

processualidade que envolve a questão social que reunimos substratos teóricos indispensáveis à análise de sua emergência política, adentrando no interior dos processos e mecanismos que permitem que essa problemática ganhe força pública e se integre à cena política. Dar conta dessa processualidade significa dar voz àqueles sujeitos que colocam a questão social na cena política os trabalhadores , o que, em nossa acepção, não ocorre nos estudos de Castel (1998) e nem de Rosanvallon (1998).

Partem, portanto, de uma análise a-histórica, a-política e des- economizada da questão social que nega a existência da luta de classes e dos sujeitos políticos envolvidos. Naturalizam, assim, as desigualdades sociais e a própria questão social, restringindo suas análises a uma mera crise do vínculo social e

deixando de lado problemas cruciais, como aqueles relacionados à participação política e à redistribuição da riqueza socialmente produzida.

Naturalizam ainda o próprio movimento do real ou, na melhor

das hipóteses, limitam-no a “[

institucionais que pouco ou nada tem a ver com sujeitos

em definitivo com as

classes e a socialização da política conquistada pelas classes

trabalhadoras [

políticos, mobilizados, organizados [

um conjunto de práticas

]

],

]”

(PASTORINI, 2004, p. 98).

um conjunto de práticas ] ], ]” (PASTORINI, 2004, p. 98). Importante! As análises de Pastorini

Importante!

As análises de Pastorini (2004) nos mostram que nas interpretações apresentadas por Castel (1998) e Rosanvallon (1998) há um distanciamento da explicação marxista. Tanto Castel (1998) quanto Rosanvallon (1998) entendem que a explicação da questão social e suas mais variadas expressões, como por exemplo, a pobreza, a exclusão , sustentada na idéia do confronto de interesses de classes não dá conta da realidade atual, onde a integração pela via do trabalho não é mais o elemento principal para pensar a noção de pertencimento dos sujeitos à sociedade. A partir de agora assume lugar prioritário a inserção por meio das redes de sociabilidade.

Partindo das análises desses autores, torna-se totalmente inviável analisar a questão social sob um prisma político, econômico, social e ideológico, aquele que nos remete à

existência de uma correlação de forças entre diferentes classes

e frações de classe, inscrita em um contexto mais amplo do

movimento social de luta pela hegemonia (PASTORINI, 2004).

É

bem verdade que, nos dias atuais, existem novos elementos

e

novos indicadores que podem nos induzir a pensar em uma

suposta “nova” questão social. No entanto, se apropriar dessa referência nos leva a conclusões totalmente equivocadas, uma vez que é de nosso conhecimento que não se trata de uma “nova” questão social, mas sim de novas e múltiplas manifestações da mesma questão. Seus contornos marcantes presentes desde a sua gênese ainda não foram superados, mas permanecem vigentes, articulados a uma série de problemas ligados à produção de mercadorias e mais-valia e à reprodução das relações sociais capitalistas.

Relaciona-se organicamente com a divisão da sociedade em

classes antagônicas e com a apropriação desigual da riqueza

do caráter coletivo da

produção contraposto à apropriação privada da própria atividade humana o trabalho , das condições necessárias à

socialmente produzida, resultando “[

]

sua realização, assim como de seus frutos [ 2007, p.156).

]”

(IAMAMOTO,

Dessa forma, está atrelada ao surgimento do “trabalhador livre” que depende, unicamente, da venda de sua força de trabalho

para satisfazer suas necessidades de subsistência. Desde então, a problemática em torno

da „questão social‟, reformulada e

redefinida nos diferentes estágios capitalistas, persiste substantivamente sendo a mesma. Sua estrutura tem três pilares centrais: em primeiro lugar, podemos

afirmar que a „questão social‟ propriamente dita remete à relação capital/trabalho (exploração), seja vinculada diretamente com o trabalho assalariado ou com o „não- trabalho‟; em segundo, que o atendimento da „questão social‟ vincula-se diretamente àqueles problemas e grupos sociais que podem colocar em xeque a ordem socialmente estabelecida (preocupação com a coesão social); e, finalmente, que ela é expressão das manifestações das desigualdades e antagonismos ancorados nas contradições próprias da sociedade capitalista (PASTORINI, 2004, p. 110-111, grifos do autor).

] [

Mas afirmar que os traços essenciais da questão social continuam vigentes até os dias atuais não quer dizer que a questão social no capitalismo se apresenta de forma unívoca, manifestando-se da mesma forma em todas as sociedades capitalistas e em todos os períodos históricos. A questão social, na verdade, assume características bem particulares que vão depender justamente das especificidades de cada formação social e do modo como cada país se inseriu na ordem capitalista mundial, como é exemplo o Brasil (PASTORINI, 2004).

E isto quer dizer que a nossa herança colonial e patrimonialista, ao atualizar marcas históricas persistentes, imprime uma dinâmica própria aos processos contemporâneos,

atribuindo particularidades à formação social do país. Tais particularidades conferem um ritmo peculiar a esses processos,

num movimento em que se tem “[

estruturas sociais do passado” (MARTINS, 1994, p. 14).

a presença viva e ativa de

]

Sendo assim, o que há de “novo” se restringe à forma que a questão social assume face às transformações processadas no mundo capitalista, principalmente, a partir da década de 1980. Tais mudanças, além de produzir um aumento exponencial da pobreza e uma desestabilização daqueles trabalhadores que antes se encontravam estáveis, também produzem em decorrência disso, uma significativa perda dos padrões de proteção social (PASTORINI, 2004).

O ataque à Seguridade Social, por exemplo, tornou-se um elemento decisivo às reformas implementadas na década de 1990 pela política de abertura econômica. Na tentativa de reduzir o “custo Brasil”, todos os esforços são envidados no sentido de reduzir ainda mais o custo direto e indireto da força de trabalho, facilitando, assim, a instalação de unidades produtivas transnacionais no país. Vê-se, então, fortemente

tensionada a possibilidade de construção de um padrão público universal de proteção social, transformando-o em ações pontuais, fragmentadas e compensatórias.

Tanto é assim que grande parte dos direitos arduamente conquistados no texto constitucional foram submetidos à lógica do ajuste fiscal, mantendo inalterada mais uma vez a defasagem entre o que é direito e o que é realmente implementado. Instaura-se um quadro de retrocesso social em que a feição que assume a questão social, sob novas condições históricas, expressa uma agudização dos determinantes de sua origem, aqueles vínculos à lei geral de acumulação capitalista. Como um fenômeno indissociável da sociedade capitalista e das configurações assumidas pelo trabalho e pelo Estado no movimento de expansão do capital, a questão social condensa, dessa forma, o conjunto das desigualdades e lutas sociais que são produzidas e reproduzidas no interior do movimento contraditório das relações sociais (IAMAMOTO, 2007).

E em tempo de capital fetiche, suas manifestações e nuances

alcançam total plenitude, integrando determinantes históricos objetivos que condicionam a vida dos sujeitos sociais , e dimensões subjetivas produto da ação desses sujeitos na

construção da história. A questão social revela, antes de tudo,

a existência de uma arena de lutas políticas e culturais em

torno da disputa entre diferentes projetos societários, mediatizados por distintos interesses de classe na condução das políticas econômicas e sociais (IAMAMOTO, 2007).

das políticas econômicas e sociais (IAMAMOTO, 2007). Relembrando “O fetichismo é o mecanismo regulador das

Relembrando

“O fetichismo é o mecanismo regulador das relações sociais na sociedade capitalista; permite o funcionamento e a regulação indireta do processo de produção, da distribuição e da apropriação por meio do mercado. Além disso, é um fenômeno indispensável na preservação da ordem capitalista. Por meio dele, o conjunto dos seres humanos, em particular os subalternos, acredita que o mundo é regido por determinações naturais, por leis naturais e imutáveis, e que, portanto, nada podem fazer contra isso. Acreditando-se dominados por forças naturais, tais seres (e todos eles, mas especialmente os subalternos) convertem-se em escravos: „o mundo sempre foi assim e nada há a fazer‟. Sua impotência, auto-atribuída, torna-se real, concretiza- se. É verdade que, em cada indivíduo, o fetichismo aparece como uma relação subjetiva, e de subordinação, dele com as coisas, com a mercadoria, com o dinheiro, com o capital. No entanto, isso é um puro reflexo das determinações sociais no ser individual; do fato de que as relações mercantis capitalistas pressupõem e determinam a existência do fetiche” (CARCANHOLO, s/d, p. 10).

Estamos convencidos, portanto, que uma das características centrais do capital em seu movimento contemporâneo é, nada mais nada menos, do que a agudização da questão social que, do mesmo modo que o desemprego, também é naturalizada por aqueles que advogam em prol da burguesia. E o que nos

“anos de ouro” do capital parecia estar sob controle, alcança, nos dias de hoje, patamares nunca vistos, trazendo à tona algumas manifestações que antes não se mostravam tão alarmantes.

Os processos de precarização e de informalização das relações de trabalho, por exemplo, vão colocar em cena antigas formas de exploração: aumento da jornada de trabalho; trabalho infantil; diferença salarial entre homens e mulheres e, até mesmo, o trabalho semi-escravo ou escravo. Mas estão completamente equivocados aqueles que pensam que os efeitos perversos da ofensiva do capital, nas últimas décadas, têm vitimado apenas a massa trabalhadora das regiões periféricas, muito pelo contrário, nos países cêntricos a lei geral da acumulação capitalista também tem revelado sua face destrutiva.

Falacioso: enganador. Ação de enganar com má intenção.

Sabemos que esse processo depende da particularidade histórica de cada região ou país e de como se deu sua inserção na dinâmica capitalista. Inclusive, seria completamente precipitado e falacioso transpor diretamente a realidade vivenciada nos países centrais para os da periferia, sem antes, contudo, fazer as devidas mediações entre a formação econômica, política, social e cultural de cada região.

2.

proteção social

O

desenvolvimento

do

sistema

brasileiro

de

Em nosso meio, a socialização da política ainda é um processo inconcluso e, até mesmo, naqueles momentos mais efervescentes da história, diante da menor possibilidade de socialização do poder político, os setores hegemônicos das classes dominantes logo criam estratégias e meios para neutralizá-lo.

Lançando mão de dispositivos sinuosos e mecanismos de

coerção aberta, esses setores conseguem “[

condutor [costure] a constituição da história brasileira: a exclusão da massa do povo no direcionamento da vida social”

(NETTO, 2007, p. 18).

fio

]

que um

Funcionando como um espaço social de confluência dos processos acima mencionados, a atuação específica do Estado na sociedade brasileira desestrutura quer pela incorporação desfiguradora, quer pela repressão aqueles segmentos que sinalizam qualquer comprometimento com os interesses das classes subalternas.

Heteronômico: que está subordinado à vontade de outrem ou a uma lei exterior.

Num movimento em que as relações sociais capitalistas impregnam e determinam o espaço nacional, o desenvolvimento tardio do capitalismo em nosso país o torna, ao mesmo tempo, “heteronômico” e excludente. Todos os processos decisórios são decididos “pelo alto”, de maneira especial, mas não de forma unívoca, por segmentos atrelados à estrutura estatal, o que vai ditar, em larga medida, a particularidade da formação social e política do Brasil.

A transformação capitalista em nosso país se processa

justamente a partir de acordos firmados entre diversos segmentos da classe economicamente dominante; da exclusão forçada das massas populares; e da utilização constante dos aparelhos repressivos e de intervenção econômica do Estado.

Todas as alternativas adotadas, direta ou indiretamente ligadas

à transição do capitalismo que vai desde a Independência

política ao golpe de 64, passando pela Proclamação da República e pela “Revolução” de 1930 – tem como marca um caráter elitista e antipopular, com todas as decisões definidas “pelo alto” (COUTINHO, 1989).

Até o início da Segunda Grande Guerra, as grandes corporações que atuavam aqui diretamente ou por meio de filiais exercem um controle segmentar sobre um conjunto de setores da produção, fazendo uso de um espaço econômico

que elas conseguiram “conquistar”. Assim, parte do excedente econômico é transferido para fora do país, dinamizando a expansão do capitalismo monopolista nas economias centrais.

Já após a década de 1950, a economia brasileira além de

vitalizar o crescimento monopolista no exterior, também começa a se incorporar a esse crescimento, apresentando-se, desde então, como um dos pólos dinâmicos do capitalismo monopolista na periferia (FERNANDES, 1987).

Em nosso país, a expansão monopolista mantém, ao mesmo tempo, a dominação imperialista e a desigualdade interna imanente ao próprio desenvolvimento da sociedade nacional.

Aprofunda-se a partir daí as disparidades econômicas, sociais

e regionais, o que contribui para a concentração social, regional e racial de renda, prestígio e poder.

Constrói-se um novo padrão típico de dominação política e de

um

papel decisivo não só na unificação dos interesses das frações

e classes burguesas, como na imposição e irradiação de seus

interesses, valores e ideologias para o conjunto da sociedade. O Estado é capturado historicamente pelo bloco do poder, por meio da violência ou de cooptação de interesses [ ]” (IAMAMOTO, 2007, p. 132). Como resultado temos, nos termos

de Ianni (1981), um divórcio crescente entre Estado e classes

subalternas.

cariz contra-revolucionário, em que o Estado assume “[

]

Para visualizar um pouco melhor como essas questões incidem sobre o desenvolvimento do sistema brasileiro de proteção social, nossa discussão centrar-se-á, a partir de agora, em três momentos históricos: o período que se estende dos anos de 1930 aos anos de 1960; o período que vai do golpe militar à redemocratização e, por último, o período pós década de 1990.

As elaborações apresentadas a seguir têm como objetivo reunir

elementos para que você possa visualizar algumas das particularidades que marcaram a sociedade brasileira no período que vai da década de 1930 até a ditadura militar.

2.1 Um breve resgate do período que vai da década de 1930 até a ditadura militar

De cunho fortemente estatal e nacionalista, o primeiro salto que

o Brasil dá em direção à industrialização ocorre justamente na década de 1930, após a ascensão de Getúlio Vargas ao poder. Até esse momento, a inserção do país como agroexportador na

] a expansão da

divisão internacional do trabalho condiciona “[

cafeicultura ao capitalismo estrangeiro e, conseqüentemente, a industrialização se [processa] sob uma dupla subordinação: do

capital internacional e do cafeeiro [

223).

(ARIAS NETO, 2003, p.

]”

Responsável por alterar substancialmente a vida dos trabalhadores, a prática industrial modifica o tratamento dispensado ao trabalho assalariado, tornando-o uma categoria central na consolidação do processo de industrialização no Brasil. Mas no seu reverso, crescem os níveis de exploração, as desigualdades e as insatisfações e resistências, ainda que embrionárias e carentes de maior organicidade e densidade política.

Na tentativa fazer frente à exploração, às desigualdades e à exclusão social e política das classes subalternas, segmentos mais organizados do movimento operário começam a priorizar a luta por direitos sociais, transformando-os em interesses coletivos que passam a se sobrepor aos interesses individuais

e corporativistas.

a se sobrepor aos interesses individuais e corporativistas. Importante! Os trabalhadores dão os primeiros passos em

Importante!

Os trabalhadores dão os primeiros passos em direção de uma consciência de classe para si, com o fortalecimento de sua organização política, especialmente após 1907, quando é reconhecido o direito de livre organização sindical que, até então, possuía total autonomia em relação ao Estado.

O movimento operário surge, a partir daí, como uma realidade histórica, não como o resultado mecânico da industrialização e da abolição da escravidão,

um processo conflituoso, marcado por avanços e

recuos, pelo fazer-se e pelo desfazer-se da classe, que surge na

organização, na ação coletiva, em toda manifestação que afirma seu caráter

mas sim como “[

]

de classe [

]”

(BATALHA, 2003, p. 173).

E se por um lado há uma expansão considerável da indústria,

por outro, os trabalhadores começam a questionar a dura realidade a que eram submetidos, realidade essa marcada por alto custo de vida, baixos salários, longa jornada de trabalho, desemprego, acidentes de trabalho, dentre outros.

Esse movimento organizativo teve uma importante conquista por meio da criação, em 1905, da primeira organização estadual de trabalhadores, a Federação Operária de São Paulo.

Nesse momento, a indústria brasileira caracterizava-se pela produção de bens de consumo voltada para um mercado interno em acelerado crescimento, sendo que a primeira acumulação industrial teve como base o comércio importador e exportador. Ainda nesse período, a burguesia comercial estabeleceu laços familiares com a grande burguesia cafeeira, facilitando a fusão de capitais e dando origem a burguesia industrial (ARIAS NETO, 2003).

Na área social, o Estado praticamente não exercia sua função reguladora, transferindo esta responsabilidade para o mercado que atendia a preferências e demandas individuais ; para a iniciativa privada que apresentava respostas pontuais e informais às reivindicações dos trabalhadores e dos setores populacionais empobrecidos e para a polícia, que controlava, de forma repressiva, a questão social.

As ações desenvolvidas pelo Estado limitavam-se a respostas pontuais, emergenciais e fragmentadas às reivindicações sociais. Mesmo que de modo limitado e precário, o trabalho e a previdência foram os setores que receberam maior atenção.

Em 1923, foram criados os Departamentos Nacionais do Trabalho e da Saúde e instituídos o Código Sanitário, a Lei Eloy Chaves referente à previdência social e uma legislação direcionada para a regulação e o atendimento de demandas relacionadas ao trabalho, como acidentes, férias, trabalho infantil e da mulher, velhice, invalidez, morte, doença e maternidade. A Lei Eloy Chaves ficou responsável por criar as Caixas de Aposentadorias e Pensões CAPS, que eram organizadas por empresas e financiadas pelos empregados, empregadores e, por vezes, pela União.

Mas é somente com a ascensão de Getúlio Vargas ao poder que tem início a intervenção direta do Estado nas questões que envolvem o mundo do trabalho, com o fim da autonomia do movimento sindical e a vinculação sistemática dos organismos sindicais ao governo, subordinando-os ao Estado (D‟ARAÚJO,

2003).

ao governo, subordinando- os ao Estado (D‟ARAÚJO, 2003). Importante! Esse novo governo, ao mesmo tempo em

Importante!

Esse novo governo, ao mesmo tempo em que adota medidas repressivas

para conter componentes mais radicais do movimento operário emergente,

articula muito bem suas ações à “[

regulamentação das relações de trabalho no país, buscando transformar a luta de classes em colaboração de classes, e o impulso à construção do Estado social, em sintonia com os processos internacionais, mas com nossas mediações internas particulares” (BEHRING; BOSCHETTI, 2007, p.

uma forte iniciativa política: a

]

106).

Assume paulatinamente uma organização corporativa que traz para sua órbita aqueles interesses divergentes, fruto das contradições entre as diversas frações dominantes e as reivindicações populares. Sob a pretensa alegação da harmonia social e da colaboração entre as classes, busca repolitizar e disciplinar essas classes populares, transformando-se num poderoso instrumento de expansão e acumulação capitalista (IAMAMOTO; CARVALHO, 2007).

Estado acima das classes: o Estado aparece como benfeitor e suas ações estão voltadas, principalmente, para o bem estar dos cidadãos. Apresenta-se ainda como guardião da justiça social e da paz social e como detentor de uma ética e de uma vontade supraclasses, representando os interesses gerais da sociedade. Além disso, o Estado, tecnicamente armado, administra os conflitos e problemas sociais, a serviço do povo (IAMAMOTO; CARVALHO, 2007).

Apropriando-se de uma forte ofensiva ideológica, o governo getulista não mede esforços para isolar o movimento dos

trabalhadores de sua vanguarda organizada e consolidar o mito

do Estado benfeitor, “[

trabalho, o mito do Estado acima das classes e representativo dos interesses gerais da sociedade e da harmonia social” (IAMAMOTO; CARVALHO, 2007, p. 153).

da outorga da legislação protetora do

]

2007, p. 153). da outorga da legislação protetora do ] Importante! O discurso de proteção ao

Importante!

O discurso de proteção ao trabalhador, da justiça social e da ordem social é amplamente utilizado durante o governo Vargas no sentido de estabelecer a harmonia social, incentivar o trabalho e aumentar a produção.

Sua intenção era controlar e subordinar o movimento operário e expandir a acumulação por meio da intensificação da exploração da força de trabalho (IAMAMOTO; CARVALHO, 2007).

Ponto axial da política de massas e da ideologia da outorga, a noção fetichizada dos direitos, amplamente disseminada na era Vargas, obscurece, para a classe operária, a outra face da legislação social, impedindo-a de perceber de que esta legislação representa um elo a mais na cadeia que acorrenta o trabalho ao capital, legitimando sua dominação (IAMAMOTO; CARVALHO, 2007).

Nesse momento, é amplamente difundida, entre as classes populares, a ideologia populista que além de incorporar a classe operária e o campesinato, também atribui ao Estado,

entidade supostamente neutra e acima das classes, “[

função de agir em nome das classes populares, organizando uma política global que dê forma às aspirações difusas dos trabalhadores anestesiados pelo populismo. À burocracia civil e militar do Estado é atribuída a função de substituir a organização partidária dos trabalhadores” (BOITO JUNIOR, 1991, p. 87-88).

a

]

No ano de 1943 é aprovada a Consolidação das Leis Trabalhistas CLT, legislação responsável por reafirmar os direitos trabalhistas. Representando o principal código normativo e regulador das relações de trabalho, a CLT vai agrupar e sistematizar o conjunto das Leis formuladas no decorrer das décadas de 1920 e 1930.

Importante! Será justamente a CLT responsável por definir e normatizar um amplo conjunto de questões

Importante!

Será justamente a CLT responsável por definir e normatizar um amplo conjunto de questões relacionadas às condições de trabalho e salários, à estabilidade, à organização dos trabalhadores em associações e aos conflitos entre empregados e empregadores. Sua proposta parte do reconhecimento, por parte do Estado, das categorias de trabalhadores, atrelando a sua organização sindical ao Ministério do Trabalho.

Representa um avanço expressivo para o mercado de trabalho e, ao favorecer o fortalecimento do papel do Estado, substitui a regulação privada pela regulação pública do trabalho. Mas apesar de ser considerada um avanço, a CLT vai, na verdade, selar o modelo corporativista e fragmentado do reconhecimento dos direitos no Brasil, representando nada mais nada

a estratificação de um processo deformado, de uma

legislação arbitrária e antioperária. Se ela tem caráter paternalista, de um

menos do que “[

]

lado, tem do outro caráter antioperário, limitativo dos direitos mínimos dos trabalhadores e assegura a exploração de classe” (LIMA, 1998, p. 15).

Uma das principais características do período 1930-1945 centrava-se no caráter corporativo e fragmentado das medidas adotadas pelo governo, o que distanciava, ainda mais, o modelo nacional da proposta de universalização defendida pelo modelo beveridgiano de seguridade social. Portanto, o modelo de proteção social proposto por Getúlio Vargas apresentava-se de forma limitada e desigual, sendo utilizado, sobretudo, como um instrumento de controle social das classes trabalhadoras.

O período compreendido entre os anos de 1946 a 1964 foi caracterizado por uma intensa disputa de projetos e pelo aprofundamento da luta de classes. A burguesia brasileira passava por um processo de fragmentação, principalmente, em suas organizações político-partidárias. A reorganização das forças políticas e das classes, bem como a intensa disputa de projetos confrontavam-se com uma base material também em efervescência e com o desenvolvimentismo, cuja estratégia principal era a substituição das importações (BEHRING; BOSCHETTI, 2007).

substituição das importações (BEHRING; BOSCHETTI, 2007). Importante! “O proces so de substituição de

Importante!

“O processo de substituição de importações implica passar a produzir internamente aquilo que era importante, constituindo dessa forma um mercado interno de trabalho, de meios de produção e de consumo. Esse processo se deu a partir de decisões internas de restrição de importações. Para tanto, o Brasil aproveitou bem a liquidez de capitais dos anos de ouro, por meio dessa estratégia desenvolvimentista” (BEHRING; BOSCHETTI, 2007, p. 110).

A

ideologia desenvolvimentista, em seu aspecto mais aparente

e

geral, envolveu a proposta de crescimento econômico no

sentido de viabilizar a prosperidade, riqueza, grandeza

Modelo beveridgiano no relatório proposto por William Beveridge, em 1943, são definidas as bases do sistema de proteção social inglês. Esse sistema de proteção social visa garantir um rendimento que possa substituir os salários quando interrompidos pelo desemprego, por doença ou acidente. Visa também assegurar a aposentadoria na velhice, socorrer aqueles que perderam o sustento por causa da morte de outrem e atender a determinadas despesas extraordinárias, como as decorrentes do nascimento, da morte e do casamento. O termo segurança social, nesse relatório, é empregado no sentido de assegurar um rendimento mínimo, mas que deve estar associado a providências capazes de fazer cessar, o mais rápido possível, a interrupção dos salários. O Plano Beveridge supõe, na verdade, a conformação de um sistema complexo e completo de proteção social face à ausência do salário que deve ser fruto do pleno emprego (FALEIROS, 2000).

CURSO DE SERVIÇO SOCIAL

19

material, soberania, em um ambiente de paz política, social e

de segurança. Todo o esforço de formulação de política

econômica e trabalho foi requerido para eliminar o pauperismo e a miséria, elevando o nível de vida da população como consequência do crescimento econômico.

O problema central a resolver seria a superação do estágio

transitório de subdesenvolvimento e de atraso que colocava o Brasil em uma posição secundária ou marginal dentro do sistema capitalista. A ideologia desenvolvimentista se fundamentou a partir dos pressupostos defendidos pela Comissão Econômica para a América Latina CEPAL e visava uma integração mais dinâmica do Brasil no sistema capitalista (CARVALHO, 2006; IAMAMOTO; CARVALHO, 1996).

A maior expressão desse período desenvolvimentista foi o

Plano de Metas adotado pelo governo de Juscelino Kubitschek.

O objetivo desse Plano era fazer o país crescer 50 anos em 5.

No entanto, essa proposta acirrou ainda mais a luta de classes,

à medida que acarretou “[

concentração da classe trabalhadora, com suas conseqüências

em termos de maior organização política e consciência de

(BEHRING; BOSCHETTI, 2007, p. 110). No campo,

os conflitos também se intensificaram com a organização das

Ligas Camponesas, devido à inexistência de uma reforma agrária consistente e da grande concentração de terra.

classe [

o aumento numérico e a

]

]”

A partir da década de 1950, as modificações processadas na

estrutura econômica e social do país se intensificam em decorrência da estruturação de alguns setores econômicos, da rápida urbanização, do acelerado crescimento econômico e do

processo de industrialização.

O Estado mostra-se como um agente capaz de investir

vultuosamente em infra-estrutura e naquelas indústrias de base que estavam sob sua responsabilidade, ficando a seu cargo

estabelecer as bases da associação com a grande

empresa oligopólica estrangeira, definindo, claramente, um esquema de acumulação e lhe concedendo generosos favores” (CARDOSO DE MELLO, 1986, p. 118). Além de favorecer o capital estrangeiro, ao Estado também caberia garantir as condições necessárias para que o capital industrial nacional alcançasse ganhos bastante expressivos.

“[

]

Mas embora apresente tais características, o padrão de desenvolvimento continua marcado pela heterogeneidade e

pela desigualdade social. É um período em que a crescente

de mão-de-obra [coloca] o trabalhador numa

oferta

posição desfavorável diante do empregador na venda de sua

força de trabalho. Ao lado da questão da baixa qualificação

(MORETTO, 2001, p. 6) um fator preponderante

esse será [

não apenas para a conformação do mercado de trabalho, mas

na própria dinâmica da sociedade brasileira, dinâmica essa

marcada pela desigualdade social, pela concentração de renda e pela disseminação expressiva de uma “nova pobreza”, tanto

nas áreas rurais quanto urbanas.

“[

]

]”

Importante! Durante o governo de João Goulart, entre os anos de 1961 a 1964, as

Importante!

Durante o governo de João Goulart, entre os anos de 1961 a 1964, as requisições contrárias à exploração imperialista e latifundista e as reivindicações em torno de uma maior participação cívico-política sinalizam para a necessidade de uma ampla reestruturação do padrão de desenvolvimento econômico e uma profunda democratização da sociedade e do Estado (NETTO, 2007).

No ano de 1963 tem início uma agitação sociopolítica, visando encontrar uma solução para os dilemas vivenciados pela burguesia nacional. Gradativamente, as forças que sustentavam João Goulart no poder vão perdendo a sua relativa autonomia política face às exigências que a dinâmica econômica impõe.

Enquanto o plano democrático é clivado por divisões, a direita, que já se articulava em um longo processo conspirativo, vai reunindo força, sobretudo, com a utilização maciça do aparato estatal aquele que se encontrava sob o seu controle e com as posições que possuía e que foram, progressivamente, ampliando junto à sociedade civil (NETTO, 2007).

Pela via da violência militar, o desfecho de abril de 1964 vai justamente por fim ao dilema entre o projeto nacional- desenvolvimentista e o projeto de desenvolvimento associado

ao capital externo, notadamente aquele defendido pelos norte-

americanos.

Instaura-se no país um período ditatorial que se estende por vinte anos, impulsionando um novo momento de modernização, extremamente conservador, que traz consigo importantes implicações para a política social, o que você verá detalhadamente a seguir.

2.2 Do golpe de 1964 à redemocratização

O regime militar implantado no Brasil, em 1964, vai buscar

legitimidade por meio da violência policial, silenciando e reprimindo qualquer tentativa de oposição ao regime. A articulação político-social que estrutura o Estado após esse período aprofunda ainda mais a heteronomia e a exclusão já existentes no país. Marcado pelo terrorismo de Estado, esse novo regime lança mão de mecanismos de repressão e controle, consolidando a sua forma mais brutal de atuação, agora, em dimensões e intensidade nunca vistos na história do país.

Importante! De modo muito mais intenso, a dinâmica interna do padrão de acumulação industrial aprofunda

Importante!

De modo muito mais intenso, a dinâmica interna do padrão de acumulação industrial aprofunda a superexploração da força de trabalho, articulando baixos salários, jornada de trabalho prolongada e com ritmos intensos. O governo, sob forte autoritarismo, implementa reformas liberais no mercado de trabalho, tornando-o cada vez mais flexível, sobretudo, com o fim da estabilidade no emprego, direito garantido aqueles trabalhadores com mais de dez anos de trabalho na mesma empresa. Desde então, essa estabilidade é substituída pelo Fundo de Garantia por Tempo de Serviço FGTS, o que permite as empresas demitir o trabalhador a qualquer momento (MORETTO, 2007).

“A criação do FGTS em 1966 foi um instrumento implementado como forma de facilitar a demissão do trabalhador pela empresa, ainda que sob o argumento de protegê-lo na demissão sem justa causa mediante a formação de uma conta vinculada ao contrato de trabalho. Sua implementação deu origem a duas formas de regime jurídico para o problema do tempo de serviço: a estabilidade e o FGTS.

Assim, os trabalhadores tiveram que optar entre a estabilidade após dez anos de trabalho na mesma empresa, ou o fundo, que seria independente da empresa onde o trabalhador estivesse empregado. O FGTS funcionaria, desta maneira, como uma espécie de seguro-desemprego, e era apresentado como um mecanismo que facilitava a mobilidade do trabalhador entre as empresas, ao permitir que o mesmo carregasse com ele o valor da conta vinculada quando ele se demitisse para empregar-se num emprego melhor.

Na prática, este instrumento serviu como uma política anti-trabalho, pois acabou com o instituto da estabilidade no emprego, ao colocar à disposição do empregador um mecanismo de rescisão contratual que estimulou o aumento da rotatividade de mão-de-obra” (MORETTO, 2007, p. 146-147).

A instituição do FGTS, mesmo se apresentando como uma inovação na legislação trabalhista veio, na verdade, facilitar a exploração capitalista no uso predatório da força de trabalho. Alimentando ideologicamente uma noção de cooperação de classe fundada no direito do trabalho, esse Fundo é um mecanismo que amplia o poder de demissão das empresas aliado às práticas autoritárias e repressivas de gestão e à proibição das greves , e fortalece o grau de submissão dos trabalhadores aos interesses do capital.

Até o final da década de 1960, os governos militares para legitimar suas ações, tentam disseminar a imagem de um Estado social, ao mesmo tempo em que colocam em prática uma política que preservava e fortalecia as relações de dependência com os países hegemônicos. Funcionalizando a política social, buscavam quebrar a resistência organizada da sociedade, obtendo o consenso passivo e legitimador do regime.

As requisições impostas pelo processo de acumulação capitalista e a necessidade de suprimir os movimentos das classes subalternas fazem com que o Estado promova mudanças no âmbito das políticas sociais. E ao atender algumas demandas das classes reprimidas pelo governo ditatorial, o regime militar procura, atender, na verdade, a sua própria necessidade de legitimação política.

Na década seguinte, há uma relativa ampliação no modelo de Seguridade Social brasileira, como é o caso do Fundo de Assistência e Previdência do Trabalhador Rural FUNRURAL; da renda vitalícia para os idosos; do aumento do teto do beneficio mínimo; abertura da previdência social para os trabalhadores autônomos e empregados domésticos e ampliação da assistência médico social. Em contrapartida à expansão das políticas sociais, ocorre a privatização de alguns serviços de saúde, educação e habitação.

de alguns serviços de saúde, educação e habitação. Sintetizando O período em questão foi marcado por

Sintetizando

O período em questão foi marcado por um modelo

repressivo centralizado, autoritário e desigual que, gradativamente, implantou um complexo assistencial- industrial-tecnocrático-militar. Esse complexo, controlado pela gestão tecnocrática, não se constituiu em um

projeto universal de cidadania, visto que representava a continuidade de um modelo fragmentado e desigual de

em

estratos de acesso, conforme os arranjos do bloco no poder, para favorecer grupos privados ou particulares, conquistar clientelas, impulsionar certos setores economicamente influentes, obter lealdades e, é claro, dinamizar a acumulação” (FALEIROS, 2000, p. 48).

incorporação social das camadas populares “[

]

Baseando-se em um forte autoritarismo, a gestão da força de trabalho, nesse período, se caracterizou por uma extrema divisão de tarefas, pelo uso extensivo de mão de obra não qualificada, pelos elevados índices de rotatividade, pela utilização de complexas estruturas de cargos e salários, cujo objetivo consistia em fragmentar a classe operária e exercer o controle sobre os trabalhadores. Tais características se apoiavam na legislação trabalhista baseada no contrato individual de trabalho e na conjuntura política de autoritarismo vivenciada no país (LEITE, 1994).

Em 1974, em virtude dos impactos da economia internacional no país que restringiam o fluxo de capitais e os limites internos começam a surgir os primeiros sinais de enfraquecimento do complexo

assistencial-industrial-tecnocrático-militar. Os anos subseqüentes foram marcados pela distensão e pela abertura lenta e gradual do regime militar, num processo

de redemocratização que favoreceu a adesão do Brasil

às orientações conservadoras neoliberais, que já se

encontravam em andamento no cenário mundial, evidenciando, assim, o caráter tardio da adesão

brasileira

BOSCHETTI, 2007).

aos

pressupostos

neoliberais

(BEHRING;

BOSCHETTI, 2007). aos pressupostos neoliberais (BEHRING; Marcado pelo conservadorismo, pelo autoritarismo e pelo

Marcado pelo conservadorismo, pelo autoritarismo e pelo corporativismo, o Estado Nacional, nesse processo, conservou um padrão de intervenção social com baixos resultados e com efeitos compensatórios ou distributivos. Dessa forma, o Estado brasileiro priorizou o desenvolvimento econômico, restringindo sua atuação na área social e na distribuição de renda (MATTOSO,

1995).

Importante!

Desde então, a sociedade brasileira retoma os rumos da democracia

política e o regime ditatorial vai sendo conduzido, de derrota em derrota, a um processo de negociação que acaba por acelerar o fim de seu ciclo desastroso. Mas ainda que tenha início esse movimento de redemocratização, as classes dominantes adotam uma nova estratégia

o consentimento ativo da maioria da

política, cujo objetivo é conquistar “[

população em torno do seu projeto específico de sociedade, o que lhes permite ser não apenas classe dominante, mas também classe dirigente” (MOTA, 2005, p. 114-115).

]

A partir da década de 1980, em um contexto de intensa

desaceleração do ritmo de crescimento econômico e de uma oscilação dos níveis de emprego, o Brasil passa a vivenciar um período de degradação nas condições gerais do mercado de trabalho urbano, acompanhado do agravamento da situação social e da intensificação da pobreza e das desigualdades de renda. Apesar do desempenho do mercado de trabalho não ter

apresentado a mesma tendência de estruturação que marcou o período pós-guerra, se compararmos com a década subsequente, a precarização do mercado de trabalho urbano brasileiro ainda não havia se consolidado totalmente.

Em um movimento paralelo, as manifestações da questão social se tornam mais visíveis e a resistência democrática se

amplia “[

antes vinculados ao movimento golpista ou por ele neutralizados, levando o regime à defensiva, a concessões e, no limite, a negociar as vias de transição a outras formas de dominação” (NETTO, 2007, p. 34).

e se aprofunda, atraindo setores e protagonistas

]

A inexistência de um sistema de proteção da renda dos

trabalhadores desempregados obrigava-os a buscar alternativas de sobrevivência em ocupações precárias no setor informal, o que, segundo Moretto (2007), deixou parte dos desempregados fora das estatísticas de desemprego. No decorrer dessa década, principalmente, nas áreas urbanas, há um aumento das atividades por conta própria e sem registro em carteira, deixando o trabalhador à margem da legislação trabalhista e inserido-o na informalidade. Será justamente a

participação dos trabalhadores no setor informal e a

recuperação do emprego a partir de 1984 fatores decisivos para que o desemprego não alcance os mesmos patamares da década seguinte.

Ao mesmo tempo, o processo de redemocratização vai favorecer a adesão do Brasil às orientações conservadoras neoliberais, orientações essas já em curso no cenário internacional, o que evidencia o caráter tardio da adesão do país ao ideário neoliberal. E essa mesma conjuntura provoca ainda um estrangulamento gradual da capacidade de gasto governamental, precipitando o fim da ditadura militar.

Ocorre ainda a chamada “crise fiscal” do Estado que, na concepção dos agentes governamentais, é fruto da expansão das políticas sociais, à medida que passam a afirmar que a arrecadação estatal é totalmente incompatível com os gastos sociais oriundos das políticas sociais, o que vai justificar a transferência de responsabilidade à sociedade civil e a implementação de reformas. Eis aqui o alicerce para a elaboração da Constituição Federal de 1988.

Assim, em meio à luta pela redemocratização do país e por melhores salários, alguns avanços políticos e sociais ainda que inexpressivos passam a fazer parte da pauta do sistema de proteção social brasileiro, de modo especial, com a instituição, em março de 1986, do seguro-desemprego e com a promulgação da Carta Magna de 1988 quando são reafirmados e estabelecidos novos direitos sociais.

Incentivados pela pressão exercida pelos movimentos sociais, o Estatuto da Criança e do Adolescente ECRIAD, a Lei Orgânica da Assistência Social LOAS e outras modificações como o Sistema Único de Saúde SUS passam a ter o devido amparo legal. E será justamente com a promulgação da Constituição de 1988, que a Política de Proteção Social no Brasil vai se consubstanciar no formato de Seguridade Social, fixando um conjunto de necessidades que são consideradas básicas em uma sociedade.

Vai articular uma série de ações de iniciativa dos poderes públicos e da sociedade, destinadas a assegurar os direitos relativos à saúde, à previdência e à assistência social, como indica o Capítulo II, artigos 194 a 204 que tratam do Sistema de Seguridade Social. Mas apesar dos avanços, várias conquistas foram suprimidas durante o processo de definição da legislação infraconstitucional.

de definição da legislação infraconstitucional . No caso brasileiro, os princípios do modelo de seguros

No caso brasileiro, os princípios do modelo de seguros predominam na previdência social modelo bismarckiano e os do modelo assistencial não contributivo, de inspiração beveridgiana, orientam o sistema público de saúde e a política de assistência social

Legislação

infraconstitucional:

termo utilizado para se referir à legislação que regulamenta um dispositivo constitucional.

E para viabilizar as inovações propostas e permitir a implantação de um Sistema de Seguridade Social no Brasil, o texto constitucional traz algumas diretrizes que permitem a

ampliação das bases de financiamento para além da folha de pagamento que, agora, passa a contar com os impostos pagos pela sociedade e por contribuições sociais vinculadas. Por lei, o financiamento da Seguridade Social compreende os recursos advindos das contribuições previdenciárias e dos recursos orçamentários destinados a este fim e condensados em um único orçamento.

Superávit primário: é a diferença, que pode ser positiva ou negativa,

entre as receitas não- financeiras arrecadadas no exercício fiscal e as despesas não- financeiras, arrecadadas no mesmo período. As não-financeiras são aquelas que incluem, sobretudo, os tributos, as contribuições sociais

e econômicas, as

receitas diretamente

arrecadadas por órgãos

e entidades da

administração indireta, as receitas patrimoniais, dentre outros. Já as

despesas não- financeiras estão ligadas ao conjunto de gastos com pessoal,

previdência, políticas sociais, manutenção da máquina administrativa

e investimentos. Se o

saldo for positivo, temos um superávit primário; se negativo, haverá um déficit primário. Isso é claro, excluídas, as receitas provenientes do recebimento de juros; e

o pagamento de

encargos da dívida pública.

Os recursos que compõem as fontes de financiamento da Seguridade passam a desempenhar um papel relevante na política econômica e social no período pós-1994. Parcelas significativas dos recursos destinados às políticas de saúde, previdência e assistência social que poderiam ampliar a sua abrangência são retidas pelo Orçamento Fiscal da União e canalizadas para o superávit primário.

da União e canalizadas para o superávit primário . Saiba mais A Constituição Federal, no seu

Saiba mais

A Constituição Federal, no seu Título VIII, que trata da ordem social, dedicou o Capítulo II à Seguridade Social. O art. 194 estabelece que a Seguridade Social compreende um conjunto integrado de ações de

iniciativa dos Poderes Públicos e da sociedade, destinadas a assegurar os direitos relativos à saúde, à previdência e à assistência social. Diz respeito a um conjunto de princípios, normas e instituições destinado a estabelecer um sistema de proteção social aos indivíduos contra contingências que os impeçam de prover as suas necessidades pessoais básicas e de suas famílias, integrado por iniciativa dos poderes públicos e da sociedade, visando assegurar os direitos relativos às políticas que compõem o tripé da Seguridade Social.

Cabe ao Poder Público organizar a Seguridade Social com os seguintes

objetivos: i) universalidade da cobertura e do atendimento; ii) uniformidade e equivalência dos benefícios e serviços às populações urbanas e rurais; iii) seletividade e distributividade na prestação dos benefícios e serviços; iv) irredutibilidade do valor dos benefícios; v) eqüidade na forma de participação no custeio; vi) diversidade da base de financiamento; e vii) caráter democrático e descentralizado da administração, mediante gestão quadripartite, com participação dos trabalhadores, dos empregadores, dos

aposentados e do Governo nos órgãos colegiados.

dos aposentados e do Governo nos órgãos colegiados. E o que aconteceu no período pós Constituição

E o que aconteceu no período pós Constituição de 1988?

Desde o final da década de 1980, o país passa a trilhar um

caminho marcado “[

sistema global do capital, redesenhando uma particularidade brasileira que pouco a pouco foi se diferenciando da anterior, inicialmente em alguns aspectos e, posteriormente, em muitos de seus traços essenciais” (ANTUNES, 2006, p. 17).

pelos emergentes traços universais do

]

Ainda que na década anterior tenham sido observadas algumas mudanças tecnológicas e no processo produtivo embora muito incipientes , é somente a partir da década de 1990, inicialmente com Fernando Collor de Mello e, em

26 CURSO DE SERVIÇO SOCIAL

seguida, com Fernando Henrique Cardoso FHC e Luiz Inácio Lula da Silva, que esse processo se intensifica, tornando mais visíveis os impactos das transformações capitalistas sobre a realidade do país, o que será melhor trabalhado no próximo item.

Vejamos agora o que têm a dizer alguns intérpretes sobre a realidade brasileira no período pós década de 1990. Isso é claro sem perder de vista a relação existente entre as mudanças processadas no país e que ainda estão em curso com os processos históricos e estruturais que se engendram em âmbito mundial.

2.3 O Brasil pós-década de 1990

Apesar do avanço proposto pela Constituição de 1988 às políticas sociais, a década de 1990 não se configurou num ambiente propício à ampliação dos direitos sociais. As medidas adotadas pelo governo visavam, antes de tudo, modernizar a sociedade e a economia brasileira a partir da inserção competitiva do país no mercado global. Na verdade, as reformas estruturais adotadas redesenham a intervenção do Estado na economia e na sociedade, favorecendo o processo de privatizações e a entrada do capital estrangeiro no país, inclusive do capital especulativo parasitário.

Ao fortalecer um processo de auto-regulação via mercado, o Estado deixa de atuar como promotor e articulador do desenvolvimento econômico e social, passando a atuar diretamente como agente estimulador do capital. Nesse processo de mudanças surgem várias iniciativas e proposições com a finalidade de ajustar o sistema de relações de trabalho à nova realidade, o que tornou a regulação social do trabalho ainda mais frágil e fortaleceu profundamente a regulação privada.

Temos um período marcado pela intensa precarização das relações de trabalho de um contingente expressivo de trabalhadores; desestruturação do mercado de trabalho; exigência de maior qualificação profissional; e aumento significativo do desemprego, da terceirização, do trabalho informal e do trabalho sem registro em carteira. Tal realidade está associada às políticas de reordenamento econômico e de redefinição do papel do Estado praticadas, principalmente, após a eleição de Fernando Collor de Mello e Fernando Henrique Cardoso FHC, quando foram implementadas medidas pontuais que aprofundaram ainda mais a desregulamentação das leis trabalhistas e a flexibilização das relações de trabalho.

Capital especulativo parasitário: resulta da conversão da forma autonomizada do capital a juros ou capital portador de juros, ou mais precisamente do capital fictício, quando este ultrapassa os limites do que é necessário para o funcionamento normal do capital industrial. Sua lógica especulativa própria chega a contaminar inclusive as empresas ou corporações dedicadas especialmente a funções produtivas e, assim, o que constituía capital industrial converte-se em capital especulativo. Este, como síntese dialética do movimento de suas formas funcionais, tem o capital especulativo parasitário como pólo dominante (CARCANHOLO; NAKATANI, 1999, p.

265).

Capital especulativo Consenso de Washington:

refere-se às conclusões e recomendações extraídas em reunião entre funcionários do governo norte-americano e dos organismos multilaterais (como o Fundo Monetário Internacional FMI, o Banco Mundial e o Banco Interamericano de Desenvolvimento BID), após uma avaliação das reformas econômicas empreendidas na América Latina. Essas conclusões e recomendações estavam concentradas em dez áreas específicas: disciplina fiscal; priorização dos gastos públicos; reforma tributária; liberalização financeira; regime cambial; liberalização comercial; investimento direto estrangeiro; privatização; desregulação e propriedade intelectual. As propostas apresentadas articulavam, conjuntamente, a redução do tamanho do Estado e a abertura da economia, sendo que cada país deveria orientar sua política econômica em função da soberania do mercado autorregulável nas suas relações econômicas internas e externas (TEIXEIRA,

1998).

Heterodoxos: diz-se de doutrinas, livros, teses, contrários a algum padrão ou dogma.

livros, teses, contrários a algum padrão ou dogma. Importante! Adaptando-se mais uma vez às requisições

Importante!

Adaptando-se mais uma vez às requisições impostas pelo capitalismo mundial, o Brasil adentra num movimento marcado por uma nova ofensiva burguesa. Trata-se, pois, de um momento histórico com traços bem peculiares, diferentes daqueles vivenciados no pós-1964. Seguramente esse movimento representou uma iniciativa de contrareforma social e moral, visando recompor a hegemonia burguesa no país (MOTA, 2005).

A partir das deliberações extraídas do Consenso de Washington, o Brasil intensifica o processo de reestruturação produtiva e de implementação do ideário neoliberal, processo esse que assume formas diferenciadas, constituindo-se em uma realidade envolta por elementos de ruptura e continuidade, isso se compararmos às etapas anteriores.

É com Fernando Collor de Mello que tem início uma etapa decisiva para a vitória do projeto neoliberal no interior das classes dominantes. Em um período de forte crise de hegemonia que decorre, principalmente, da intensa participação dos trabalhadores na cena política, o governo Collor foi a solução momentaneamente encontrada pelas frações dominantes do capital, no seu embate contra a esquerda e o conjunto dos trabalhadores (OLIVEIRA, 1990).

Se comparado aos outros planos de estabilização heterodoxos, o programa adotado por esse governo consubstanciado no Plano Collor , pela primeira vez não se limitava apenas a combater a inflação. Foram adotadas reformas estruturais do Estado e de suas relações com o setor privado e das relações do capital com o trabalho, isso é claro nos moldes da doutrina neoliberal.

o trabalho, isso é claro nos moldes da doutrina neoliberal. Saiba mais Mesmo que o termo

Saiba mais

Mesmo que o termo reforma tenha sido amplamente utilizado pelo projeto em curso no país nos anos de 1990 para se auto-referenciar, Behring e Boschetti (2007) partem do pressuposto de que se esteve diante de uma apropriação indevida e fortemente ideológica da idéia reformista, que acabou sendo destituída de seu teor progressista e submetida ao uso pragmático, como se qualquer mudança não importando seu sentido, sua conseqüência social e sua direção sócio-histórica representasse uma reforma. O termo reforma ganhou sentido no interior do movimento operário socialista sempre tendo como foco melhores condições de vida e de trabalho para a maioria da população. Para as autoras, o reformismo ainda que não concordem com suas estratégias e considerem importante, inclusive, criticá-lo, como o fizeram revolucionários de períodos diferentes como, por exemplo, Rosa Luxemburgo e Ernest Mandel, dentre outros é um patrimônio da esquerda.

Torna-se inconteste o êxito inicial do governo Collor na implementação do ideário neoliberal, sendo exemplos contundentes a privatização de empresas públicas; a efetivação das medidas liberalizantes do comércio exterior e, o mais importante, colocar na defensiva os movimentos sociais e sindical. No entanto, pouco a pouco, o governo Collor foi perdendo legitimidade junto à classe dominante, principalmente, em função de sua estratégia de estabilização dos preços, que culminou em uma forte recessão econômica. Soma-se a tudo isso, a sua própria incapacidade em conciliar os distintos interesses das diversas frações do capital (FILGUEIRAS, 2005).

No momento em que surge a crise política deflagrada por denúncias de corrupção generalizada, a partir da retomada dos movimentos sociais aqueles derrotados na eleição de 1989 e das manifestações políticas de massa que exigem o impeachment, o isolamento político de Collor, na sociedade, foi praticamente total e pôs fim precocemente ao seu governo (FILGUEIRAS, 2005). Com o apoio massivo dos meios de comunicação que viam seus interesses ameaçados pela política adotada por Collor , os estudantes, os conhecidos “caras pintadas”, vão tomar as ruas, exigindo a saída do então presidente.

Embora tenha tido uma expressiva redução no seu ritmo, a implementação do projeto neoliberal não sofreu nenhuma interrupção com a destituição política de Collor, o que vem reforçar a tese de que sua implementação não é produto apenas do voluntarismo de Collor e, muito menos, da vontade de seus tecnocratas. Seu programa econômico, nesse momento, já tinha uma grande aceitação no interior das classes dominantes (FILGUEIRAS, 2005).

Logo após o impeachment e em meio a um período de descompasso entre as reivindicações da sociedade e as respostas dadas pelo Estado e de mal-estar institucional, econômico e social, assume o governo, Itamar Franco, vice de Collor. No decorrer de seu curto mandato 1992 a 1994 articula-se uma coalizão conservadora de poder em torno do então Ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso potencial candidato à Presidência da República. Com FHC à frente desse Ministério foi formulado o plano de estabilização monetária protagonizado pela nova moeda, o real (BEHRING,

2003).

Carro chefe da campanha presidencial do ano de 1994, a implementação desse plano vai impulsionar a adoção da automação microeletrônica nos principais pólos industriais e acelerar a inserção subordinada do Brasil ao sistema de crédito internacional, aumentando ainda mais a dependência da economia brasileira aos interesses do capital especulativo.

A hegemonia restrita do projeto neoliberal encontra, agora, solo fértil para sua franca expansão e afirmação no interior do bloco dominante, o que vai favorecer a eleição de FHC, como Chefe do Executivo Nacional. Valendo-se de uma candidatura que contava com o total apoio das diversas frações da burguesia e com o apoio de segmentos da classe média e da intelectualidade, o bloco dominante trilha, mais uma vez, o caminho para derrotar a esquerda e os trabalhadores (FILGUEIRAS, 2005).

No primeiro mandato de FHC, de 1995 a 1998, são adotadas medidas de estabilização monetária consubstanciadas no Plano Real ; desregulamentação e abertura comercial e financeira; privatização; desregulação do mercado de trabalho, reforma administrativa do Estado e da Previdência Social. Há, portanto, uma continuidade do programa adotado pelo governo Collor, ainda que em meio a atritos entre as distintas frações do capital e certa resistência por parte de setores organizados dos trabalhadores.

por parte de setores organizados dos trabalhadores. Figura 1 – A receita neoliberal para privatização da

Figura 1 A receita neoliberal para privatização da Previdência

Fonte: SSREDE (2010). Disponível em:

<http://www.ssrede.pro.br/mercadoria.doc>. Acesso em: mar. 2010.

Num primeiro momento, a estabilização monetária até produz

alguns ganhos salariais para o conjunto dos trabalhadores, sobretudo, para aqueles cuja renda não estava indexada.

Entretanto, “[

reverter o longo processo de concentração da renda e da riqueza no Brasil, mantendo o Brasil no topo do ranking dentre

(NAKATANI,

esses ganhos não foram suficientes para

]

os países com pior distribuição de renda [ 2000, p. 233).

]”

Já em outro momento, a forma como se processa a inserção do país no movimento de “globalização” – totalmente subordinada e dependente favorece o crescimento contínuo da taxa de desemprego e a redução dos salários reais e do rendimento do trabalho. Tem-se, por outro lado, um aumento da precarização do trabalho em função do crescimento da informalidade e da rotatividade do emprego (NAKATANI, 2000).

30 CURSO DE SERVIÇO SOCIAL

Para fazer frente às condições sociais de reprodução da força

de trabalho, limita-se a intervenção e os gastos do Estado,

efetivando aquele “Estado mínimo para o social e máximo para o capital”. De forma prática e ideológica, os defensores desse “Estado mínimo” – que é denominado de “Estado social-liberal” pelos neoconservadores , alegam, num discurso falacioso, de que este Estado continua sendo social porque além de proteger os direitos sociais também continua provendo o desenvolvimento econômico.

Também é “[

de mercado e menos os controles administrativos, porque realizará seus serviços sociais e científicos principalmente através de organizações públicas não-estatais, competitivas

]” [

social-liberal” tornará o mercado de trabalho muito mais

flexível, promovendo a capacitação dos seus recursos humanos e de suas empresas, visando a inovação e a competição em âmbito mundial (BRESSER-PEREIRA, 1997).

(BRESSER-PEREIRA, 1997, p. 10). Esse mesmo “Estado

liberal porque o fará usando mais os controles

]

Contudo, as bases que servem de sustentação para essa

matriz neoconservadora revelam, de forma bastante clara, não

a defesa dos direitos sociais, mas, sim, a sua total

mercantilização. Revelam ainda um verdadeiro processo de retração do Estado de direito conquistado a partir da luta das forças democráticas brasileiras ; a defesa incondicional da racionalidade econômica em detrimento à instrumentalização dos direitos e um retrocesso tanto na construção democrática quanto no exercício da cidadania (SIMIONATO, 2003).

Quando o Estado começa a incorporar a racionalidade do mercado e promover reformas que restringem a proteção social estatal, deflagra-se um processo de mercantilização de grande parte dos serviços sociais. Instaura-se, portanto, uma dicotomia de direitos entre aqueles que podem pagar pelos serviços sociais e aqueles que não possuem condições de adquirir esses serviços no mercado (LIRA, 2006).

Anos mais tarde, durante o segundo mandato do Presidente FHC, entre 1999 a 2002 e o primeiro governo do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva de 2003 a 2006 , o modelo neoliberal passa por uma etapa de aperfeiçoamento e de ajuste, com a expansão e a consolidação da hegemonia do capital financeiro no interior do bloco dominante.

Da herança deixada por FHC ao governo Lula, dois indicadores

vão comprovar os resultados calamitosos de seu governo. De acordo com dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada IPEA, no ano de 2001 33,3% de brasileiros estavam abaixo da linha de pobreza aí incluídos os 14,3% que se encontravam abaixo da linha de indigência.

Agora, se tomarmos como base o coeficiente de Gini aquele que mensura a distribuição da renda , os dados revelam que

no ano de 2000 esse coeficiente girava em torno em 0.609,

superior aos 0.587 registrados em 1981 (IPEA, 2006). E isso

significa que os mais ricos continuavam abarcando grande parte da riqueza social. É essa alta concentração de renda que leva o historiador Hobsbawn (1997) a caracterizar o nosso país como “monumento da injustiça social”.

O governo FHC, em face à lógica político-econômica adotada, consegue transformar substancialmente o Estado brasileiro, consolidando o que Behring (2003) muito acertadamente denominou de contrarreforma do Estado. Diante dessa contrarreforma, o país passa a vivenciar um período de inegável minimização dos princípios garantidos com a Constituição de 1988, especialmente, daqueles que tratam das políticas de Seguridade Social.

Durante o governo Lula, dá-se continuidade a contrarreforma do Estado em nome do equilíbrio fiscal e à reforma da Previdência que, nesse governo, chega a um patamar não alcançado pelo governo anterior. A reforma administrativa também favorece a criação de mecanismos de demissão e contratação de funcionários para além dos concursos, o que flexibiliza as relações trabalhistas no âmbito do setor público, redefine as regras de aposentadoria, reduz benefícios e direitos e abre caminho para a atuação dos fundos de pensão privados (FILGUEIRAS, 2005).

A cooptação material e político-ideológica de um número

bastante significativo de lideranças sindicais e partidárias e a

adoção de políticas sociais focalizadas, vai dar a tônica do momento, tornando-se uma estratégia amplamente utilizada no controle e manipulação política. Entretanto, essas estratégias não conseguem estabelecer um consenso no interior da sociedade brasileira.

O governo Lula também não inovou na implementação da

política social, seguindo a mesma linha adotada durante o governo FHC, só que agora, com muito mais competência. Adota uma política social focalizada totalmente ao estilo liberal e em consonância com as diretrizes do FMI e do

Banco Mundial.

O carro chefe dessa política é o programa Bolsa Família,

programa esse dotado de um cariz visivelmente assistencialista, manipulado politicamente e que, nas palavras de Oliveira (2006), apenas funcionaliza a pobreza. O mais

interessante, segundo Filgueiras (2007), é que as verdadeiras políticas sociais as de Estado, como aquelas vinculadas à Previdência e à Assistência Social, e não as de governo mesmo sendo mais eficientes e não fisiológicas, não têm a mesma visibilidade.

O que fica claro é que a combinação do modelo liberal

periférico com a política social focalizada ao mesmo tempo em que revela a renúncia expressa do governo Lula em pôr fim à pobreza, também busca anular o conflito político e legitimar o

bloco de poder dominante.

Explicando melhor Se realizarmos uma análise retrospectiva desse modelo – liberal periférico – implementado no

Explicando melhor

Se realizarmos uma análise retrospectiva desse modelo liberal periférico

implementado no Brasil, veremos que ele teve início no governo Collor, aprofundou-se no primeiro governo FHC, ajustou-se a partir de seu segundo mandato e consolidou-se no governo Lula. Todo o conjunto de mudanças estruturais implementadas fragilizaram ainda mais a regulação social, fortalecendo profundamente a regulação privada do trabalho.

A ênfase atribuída aos programas de transferências de renda, em

detrimento de investimentos produtivos e de geração de empregos formais, vai incidir diretamente na restrição de acesso aos direitos do trabalho, direitos esses estabelecidos na Seguridade Social e que revelam uma tendência das políticas sociais de atenuar os índices de pobreza e indigência, compensando sua incapacidade de reduzir desigualdades com políticas estruturais.

de reduzir desigualdades com políticas estruturais. Saiba mais Saiba um pouco mais sobre a implementação das

Saiba mais

Saiba um pouco mais sobre a implementação das políticas de Seguridade Social

Na implementação das políticas de Seguridade Social, os direitos assegurados, mesmo tendo como princípio a universalidade, têm sua implementação limitada quanto ao acesso dos trabalhadores. Com exceção da saúde, as demais políticas que compõem o tripé da Seguridade Previdência e Assistência Social possuem uma vinculação direta com o trabalho.

A Assistência de caráter não

contributivo tem sua atenção voltada às pessoas com deficiência, aos idosos, às crianças e aos adolescentes, ou seja, aqueles incapacitados ao trabalho; e a

Previdência tem caráter contributivo e

de filiação obrigatória daqueles que

possuem vínculo formal de trabalho.

Resumo

As tendências aqui esboçadas nos revelam um cenário de nítido cariz conservador, que tende a aniquilar cada vez mais as conquistas históricas dos trabalhadores. E na contramão desse processo, as mudanças nas condições sociais e de vida da população exigem a ampliação das políticas de Seguridade Social, como política pública e universal, rompendo, assim, com aquela lógica de perpetuação da ideologia do favor, da benemerência em detrimento do direito.

Resultado de um processo de mobilização sem precedentes na história do país, o texto constitucional de 1988 inova ao idealizar a construção de um padrão público universal de proteção social. No entanto, as características excludentes do mercado de trabalho, o nível de pauperização de grande parcela da população brasileira, o elevado índice de concentração de renda e as fragilidades do processo de publicização do Estado, nos levam a afirmar que no Brasil a adoção da concepção de Seguridade Social está longe de se concretizar, objetivamente, numa universalização do acesso aos benefícios sociais (MOTTA, 2006).

Desde a década de 1990, a política social, submetida aos imperativos da política econômica, é redimensionada face às tendências de privatização, redução dos gastos públicos com programas sociais, o que amplia as necessidades não atendidas da maioria da população. Ao mesmo tempo, a questão social se metamorfoseia, assumindo novas roupagens de acordo com a particularidade histórica de nossa sociedade, condensando o conjunto das desigualdades e lutas sociais. Produzida e reproduzida no interior de um movimento contraditório, a questão social se reproduz na cena contemporânea sob novas mediações históricas e sob formas inéditas que se espraiam em todas as dimensões da vida em sociedade.

Hoje não se vincula apenas a uma mera distinção entre ricos e pobres, trata-se de um fenômeno complexo e multifacetado, historicamente produzido e que assume novas configurações e determinações no contexto atual de reestruturação da economia mundial. E isto quer dizer que problematizar a questão social requer inscrevê-la no interior da dinâmica histórica das relações sociais capitalistas, em que sua (re) produção, formas de permanência e metamorfoses devem ser pensadas a partir das novas configurações e mediações sociopolíticas, tanto nacionais quanto internacionais, próprias da sociedade contemporânea.

É claro que muitos outros seriam os aspectos a serem destacados na discussão em torno da questão social e do desenvolvimento do sistema brasileiro de proteção social, mas chegamos ao final deste capítulo compartilhando algumas considerações decisivas, para que você possa desvelar alguns aspectos importantes nesta discussão. O caminho trilhado nos permite ir além de uma análise superficial, à medida que muito

mais do que uma descrição cronológica, o escopo deste capítulo traz elementos centrais na análise do Sistema de Seguridade Social brasileiro.

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