SEGURIDADE SOCIAL ROTEIRO DE ESTUDOS 02

A questão social e o desenvolvimento do sistema brasileiro de proteção social
Ruteléia Cândida de Souza Silva Adriana Estela Custódio Carletto

UNIVERSIDADE DE UBERABA

Introdução
Extrapolando a leitura clássica em torno das feições assumidas pela questão social, este capítulo faz uma incursão teórica sobre seus principais marcos históricos, identificando os condicionantes de ordem econômica e política que incidem na emergência e no desenvolvimento do sistema brasileiro de proteção social. Para dar sustentação a nossa diretriz analítica, partimos do pressuposto de que o perfil atual assumido pela questão social no Brasil e pelo sistema de proteção social é indissociável da intervenção do Estado na esfera financeira, dos modos de dominação ideológica e da intensificação das desigualdades sociais, desigualdades essas marcadas, sobretudo, pelos altos índices de desemprego, pela precariedade das relações de trabalho e pela regressão dos direitos sociais e trabalhistas arduamente conquistados. Demarcando o percurso histórico que vai desde a década de 1930 até os dias atuais, nosso estudo apresenta algumas interpretações de como se espraiou a hegemonia das relações sociais capitalistas na formação social brasileira. Levando em conta suas contradições e especificidades, procuramos demarcar as particularidades que envolvem o passado e o presente do nosso país, articulando a Seguridade Social pública com os aspectos econômicos e políticos – no âmbito das classes sociais e segmentos de classe – que impedem a estruturação de um sistema de proteção social capaz de captar o caráter multidimensional, a diversidade e a complexidade das desigualdades que marcam a nossa sociedade. Por isso, você aluno precisa ficar atento e evitar conclusões apriorísticas ao examinar a trajetória do desenvolvimento do sistema brasileiro de proteção social. Precisa, antes de tudo, redimensionar o seu significado no jogo das forças sociais, apreendendo sua totalidade, seus condicionantes e sua lógica dominante.

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Objetivos
Este capítulo tem como finalidade oferecer instrumental analítico básico para a compreensão da questão social e do sistema brasileiro de proteção social em seus principais marcos históricos: populismo, ditadura militar e período pós-década de 1990. As leituras e atividades propostas visam oferecer, a você, substratos teóricos necessários que lhe permitam:   analisar a questão social e o sistema brasileiro de proteção social em seus principais marcos históricos; identificar os condicionantes de ordem econômica e política que incidem na emergência e no desenvolvimento do sistema brasileiro de proteção social.

Submetido a um processo de atualização histórica, este capítulo foi elaborado numa abordagem que, além de privilegiar a apreensão das múltiplas questões que envolvem os processos sociais, também privilegia sua processualidade histórica. E isso significa considerar que o rol de determinações que envolvem a temática em questão é perpassada por condições objetivas e subjetivas que se inscrevem no bojo de um processo de reordenamento do capital. Esperamos que você tenha bons estudos!!!

Esquema

1º momento: Discussões em torno da questão social:

alguns elementos para debate

2º momento: O desenvolvimento do sistema brasileiro de

proteção social

3º momento: Um breve resgate do período que vai da

década de 1930 até a ditadura militar

4º momento: Do golpe de 1964 à redemocratização

5º momento: O Brasil pós-década de 1990

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1. Discussões em torno da questão social: alguns elementos para debate
O capitalismo vem experimentando profundas modificações no seu ordenamento e sua dinâmica, o que vai incidir diretamente na estrutura social e nas instâncias políticas da sociedade. Em um processo contínuo de recriação e de negação, reproduz e perpetua as condições de exploração sobre o trabalho, intensificando ainda mais o sistema totalizante de contradições existente entre as distintas classes sociais. Em suas manifestações sociopolíticas, essas contradições permeiam e penetram todos os passos de sua dinâmica. Sob essas condições, as refrações da questão social tornamse, ou melhor, puderam tornar-se objeto de uma intervenção estatal contínua e sistemática. É somente com a concretização de um conjunto de acontecimentos econômicos, sociais e políticos que as políticas sociais se colocam como uma importante estratégia no enfrentamento à questão social.

Relembrando
“Por „questão social‟, no sentido universal do termo, queremos significar o conjunto de problemas políticos, sociais e econômicos que o surgimento da classe operária impôs no curso da constituição da sociedade capitalista. Assim, a „questão social‟ está fundamentalmente vinculada ao conflito entre o capital e o trabalho” (CERQUEIRA FILHO, 1982, p. 21). Ou, nas palavras de Iamamoto e Carvalho (2007), “[...] a questão social não é senão as expressões do processo de formação e desenvolvimento da classe operária e de seu ingresso no cenário político da sociedade, exigindo seu reconhecimento como classe por parte do empresariado e do Estado. É a manifestação, no cotidiano da vida social, da contradição entre o proletariado e a burguesia [...]” (IAMAMOTO; CARVALHO, 2007, p. 77).

Ao mesmo tempo em que respondem às requisições das classes subalternas, essas políticas são refuncionalizadas para atender o interesse direto e/ou indireto da maximização dos lucros, núcleo irradiador do capitalismo monopolista e do sistema de poder político utilizado por esses monopólios. A avidez pelos superlucros coloca sob novas bases as contradições existentes na relação capital-trabalho, tornandoas mais complexas, mas sem conseguir superá-las. Ao longo das últimas décadas, por exemplo, a adoção das orientações neoliberais altera significativamente a dinâmica de toda a sociedade, sobretudo, com o crescimento exponencial das desigualdades e do contingente de destituídos de direitos civis, políticos e sociais, o que traz consigo a necessidade de redefinir os modos de regulação econômicos e sociais.

Capitalismo Monopolista: período em que ganha “[..] corpo a dominação dos monopólios e do capital financeiro, [adquire] marcada importância a exportação de capitais, [começa] a partilha do mundo pelos trusts internacionais e [termina] a partilha de toda a terra entre os países capitalistas mais importantes” (LÊNIN, 1977, p. 642).

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articula o enlace [. fragmentado.. compensatório. ela se internaliza na ordem econômico-política. dos ônus que asseguram os lucros monopolistas – é tudo isto que. grifos do autor). parcializado. Surgem novos mecanismos de consenso e parâmetros morais subordinados aos limites dos gastos sociais públicos. são observadas profundas transformações no mundo do trabalho e nas relações laborais e de assalariamento. econômicas e sociais). com a efetivação dessas funções se realizando ao mesmo tempo em que o Estado continua ocultando a sua essência de classe (NETTO. Fase concorrencial: esse é o segundo estágio de desenvolvimento capitalista que perdurou desde 1780 até o último terço do século XIX. seletivo e temporário. pelo conjunto da sociedade. p. em sua maioria. 30.Apresentando-se como único caminho para a retomada do crescimento econômico. Por detrás de todas essas nuances. além de erradicar ou subordinar à sua dinâmica as relações econômicas e sociais pré-capitalistas. a questão social era. Durante esse período. as respostas dadas à questão social pelo Estado têm um caráter. Assim. o capitalismo foi se consolidando nos principais países da Europa Ocidental e. objeto de intervenção do Estado. o neoliberalismo captura os Estados nacionais e intensifica ainda mais os níveis de exploração sobre o conjunto dos trabalhadores. pelo não atendimento das demandas sociais coletivas – por meio do atendimento a questões meramente erráticas e pontuais. também revelou as suas principais características estruturais. o capital também passa a minimizar as tensões sociais – resultantes.. Se durante a fase concorrencial. a consolidação política do movimento operário e as necessidades de legitimação política do Estado burguês –. Em meio a um contexto marcado pelo aumento do endividamento dos Estados nacionais e seus reflexos sobre a questão social e sobre o aumento da pobreza. A caracterização desse estágio como concorrencial explicase em virtude das amplas possibilidades de negócios que se abriram aos pequenos e médios capitalistas. não é somente a preservação de um patamar aquisitivo mínimo para as categorias afastadas do mundo do consumo que se põe como imperiosa. (NETTO. caindo no âmbito das condições gerais para a produção capitalista monopolista (condições externas e internas. e não poderia ser de outro modo. [. BRAZ. 2005.. 2006).] das funções econômicas e políticas do Estado burguês capturado pelo capital monopolista. técnicas. Além de despolitizar a questão social. por regra. na fase atual – devido às características presentes no novo ordenamento econômico. E não poderia ser de outro modo por quê? 4 CURSO DE SERVIÇO SOCIAL .] não é apenas o acrescido excedente que chega ao exército industrial de reserva que deve ter a sua manutenção „socializada‟.. não são apenas os mecanismos que devem ser criados para que se dê a distribuição.

são recortadas como problemáticas individuais e são assim enfrentadas (NETTO. 2005).. está longe de ser homogênea. 2005). sociais e éticos. o que significa. em grande parte. Sua instrumentalização em beneficio do capital monopolista – no interior da sociedade burguesa constituída – não se efetiva de forma imediata nem tampouco. diretamente. ao invés de serem apreendidas a partir de uma totalidade processual específica. garantindo a liberdade individual. Nesse movimento dialético. Sua intervenção deve se limitar à regulação das relações sociais. 2005).. sem restrições. BRAZ. a propriedade privada e o livre mercado. 2006. transformando-as em leis que estabeleciam melhorias tímidas nas condições de vida desses trabalhadores. Sua processualidade nos revela a existência de conquistas parciais e significativas de suma importância para a classe operária e para o conjunto dos trabalhadores. limitando-se a oferecer a base legal para que o mercado tenha melhores condições de maximizar os “benefícios aos homens”. Contemplaram apenas algumas demandas dos trabalhadores. Mas a intervenção sistemática do Estado sobre as refrações da questão social. mas sem com isso. Medularmente determinada pelo traço próprio e peculiar da contradição capital/ trabalho. pelo menos em tese.Porque apreender a questão social como uma problemática resultante de uma determinada totalidade processual é o mesmo que remetê-la concretamente à relação conflituosa existente entre capital e trabalho. a função do Estado – de acordo com o pensamento liberal – é uma espécie de mal necessário. atingir o cerne da questão social. E se cronologicamente o atual contexto capitalista “[. a maturidade política do operariado e de suas organizações de classe tem como um dos seus referenciais a compreensão do potencial contraditório presente no âmbito das políticas sociais (NETTO. Observamos que com o predomínio desses princípios – impetuosamente defendidos pelos liberais e adotados. 235). repressivas. do ponto de vista societário a impressão que se tem é a de que experimentamos um „mundo novo‟” (NETTO. As incidências inclusivas dessas alterações constituem novas formas de domínio que pressupõem além da socialização de valores políticos. Como uma possibilidade objetiva posta pela ordem monopólica. as refrações da questão social. contestar a ordem burguesa vigente (NETTO. [e] dele nos separam pouco mais de três décadas. Da mesma maneira.] é muito diferente daquele que despontava na segunda metade do século XX. pelo Estado capitalista – as respostas dadas no enfrentamento à questão social. no final do século XIX foram. a instituição de padrões de comportamento compatíveis com as necessidades de mudança que se processam no âmbito da produção e da reprodução CURSO DE SERVIÇO SOCIAL 5 . p.

o claro.] a recorrente afirmação de que existiria hoje uma „nova questão social‟ tem. tema esse já devidamente trabalhado no capítulo anterior. Mas para você existe uma nova questão social? Na verdade. E essas transformações societárias atingem o conjunto da vida social incidindo. reforma essa em total consonância com as orientações impostas pelos organismos internacionais às economias periféricas. 2006). o que exige o desfinanciamento das políticas sociais. como um dos reflexos mais expressivos da adoção dessas políticas de concentração de capital.. [. se há uma nova „questão social‟.. a existência dessa suposta crise e da escassez de recursos são utilizadas para justificar tanto a retração estatal no campo social quanto a expansão das atividades desenvolvidas num suposto “terceiro setor”. a direção dos processos políticos e a produção do consentimento de classe – com o objetivo de empreender mudanças –. Precarizam-se as condições de vida de setores majoritários da população. porém implícito. renda e poder. seria justo pensar na necessidade de uma nova forma de intervenção nela. AMARAL. Sustentáculo. objetivo de justificar um novo trato à „questão social‟. Eis que agora. tanto para suas múltiplas expressões quanto para o seu enfrentamento por parte das classes sociais e do Estado. social. agravada com a retração do Estado em suas responsabilidades sociais (IAMAMOTO. 2003). diretamente. sintetizada na “reforma do Estado”. 2005. Acoplado a esse processo. A partir daí. E se por um lado. No trato da questão social. E tal mudança se justifica sob a alegação neoliberal da existência de uma suposta crise fiscal do Estado. tem-se uma mudança profunda nas relações entre o Estado e a sociedade civil. a questão social ganha novos contornos. Como reflexo desse processo. as políticas sociais são privatizadas e os bens e serviços públicos se deslocam para a esfera privada em total articulação com o processo de acumulação capitalista. p. a questão social continua inalterada. transformam-se nos atuais baluartes da ação das classes dominantes (MOTA. assim. 187. o que se observa é o surgimento e a alteração de suas expressões. no fundo. sobre a operacionalização das políticas sociais. vivenciamos um período marcado pela agudização das múltiplas expressões da questão social. supostamente mais adequada às questões atuais (MONTAÑO. grifos do autor). de outro lado. Nos 6 CURSO DE SERVIÇO SOCIAL .Baluartes: localidade onde se entrincheiram os defensores de uma ideia ou de um partido.

Rosanvallon (1998) defende a existência de uma “nova questão social” que se traduz na inadaptação dos antigos métodos de gestão social. Em suas análises. veremos que ao longo dos anos de 1970 e 1980 os índices – sobretudo nos países da Europa e nos Estados Unidos – são muito maiores do que aqueles alcançados nos “anos de ouro” do capital. Parte do pressuposto de que se compararmos os problemas congênitos da sociedade burguesa. ao contrário. a intervenção estatal se coloca como um mecanismo de coesão social. totalmente atrelado ao desenvolvimento da cidadania. CURSO DE SERVIÇO SOCIAL 7 . a ênfase é dada à diferença entre a “nova” e a “velha” questão social. à pobreza e à exclusão social. o aumento gradual do desemprego e o surgimento de novas formas de pobreza parecem.dias atuais. Tendo como base essa ideia. O autor sugere que para enfrentar as expressões da questão social. como àqueles relativos ao desemprego. É justamente aí que reside a fundamentação que explica a ruptura entre o antes e o agora da questão social. ao mesmo tempo em que provoca uma ruptura também traz elementos de superação da antiga sociedade capitalista industrial e dos principais problemas que dela emergem. Antes disso. precisa se transformar em um Estado de serviço. o tema recorrente entre alguns autores é a pretensa defesa de que existe uma “nova questão social” e isso nos remete. mas é claro. sem questionar a ordem instituída. mas sempre com um cariz redistributivo. articulada com uma versão ampliada do modo de produção da solidariedade social. aos estudos realizados por Pierre Rosanvallon (1998). sendo enfático ao afirmar que o período pós-industrial. de forma muito contraditória. não pode se limitar àquelas ações que o colocam como um mero redistribuidor de subsídios e um administrador de regras universais. Importante! Esse autor defende que desde os primeiros anos da década de 1980. produtor de “civismo”. conduzir-nos há tempos atrás. que vieram à tona com a crise do Estado Providência. não limitada apenas a uma "técnica de seguridade". por exemplo. cujo objetivo consiste em oferecer a cada um os meios necessários para alterar o curso de sua vida. O Estado Providência. para ser justo. superar uma ruptura e antever um problema. Daí resultaria a capacidade de se estabelecer uma melhor distribuição ou uma distribuição menos desigual da riqueza. mas. mudanças essas reguladas por leis imutáveis e análogas àquelas que regem os fenômenos naturais. responsável por naturalizar as mudanças processadas na esfera produtiva. Trata-se de uma nova visão do sistema de proteção social. o Estado precisa assumir a forma de Estado Providência ativo. Pensando assim. ponto chave da tese defendida por esse autor.

o engajamento pessoal dos beneficiários. 8 Aporia: na filosofia significa dificuldade lógica.. Diante do posicionamento a-crítico do autor à lógica que movimenta a sociabilidade burguesa. p. Castel (1998) se interessa em analisar o que há de diferente e comum nas diferentes situações de vulnerabilidade social que marca a sociedade desde o século XIV até o século XX.]” (CASTEL. e que se reformulam continuamente através das crises. que a grande preocupação desse pensador é manter ao invés de transformar as relações sociais existentes. Rompendo com essa lógica dualista – “antiga”/“nova” questão social – defendida por Rosanvallon (1998).. com as proposições que advogam em favor o terceiro setor e com o projeto de desresponsabilização do Estado no processo de garantia de direitos. observamos que sua proposta se aproxima daqueles argumentos neoliberais que defendem um Estado mínimo. sendo necessário periodizar tais transformações. e a possibilidade de articular direito e contrato na condução das políticas contra a pobreza.Para Rosanvallon (1998). 30). sua tese defende.. Conjurar: desviar. portanto. Pelo contrário. 1998. agregando dados novos. no entanto. Além disso.] uma aporia fundamental sobre a qual uma sociedade experimenta o enigma de sua coesão e tenta conjurar o risco de sua fratura [. como Robert Castel (1998). outros autores. à medida que a solução apresentada para a crise do Estado Providência e para o problema da exclusão – principal indício da existência de uma suposta “nova” questão social – em nenhum momento questiona a ordem estabelecida. a combinação entre indenização e inserção social. Apresenta-se como um desafio que interroga e coloca em xeque a capacidade que uma sociedade tem de “[. a saída para enfrentar os problemas sociais contemporâneos envolve.] existir como um conjunto ligado por relações de interdependência” (CASTEL. de forma incisiva. Para o autor. sem solução.. articulando-se. Partindo da idéia de que com o decorrer do tempo a questão social foi se redefinindo e se metamorfoseando de forma contínua. Esse último pensador define a questão social como “[. a construção de um Estado Providência ativo. essa nova problemática não significa a existência de outra problematização. p. a construção de uma cidadania ativa que garanta direito ao trabalho está atrelada à existência de uma contrapartida por parte dos indivíduos de acordo com as suas capacidades. a problematização expressa a existência de um conjunto unificado de questões que emergem em um determinado contexto histórico – que se precisa datar –. vinculado ao desenvolvimento de uma nova cidadania social baseada no sentimento cívico da solidariedade. coerentemente. partem do princípio de que a questão social sempre existiu. 30). Fica claro. 1998.. inevitavelmente. Assegura que as profundas metamorfoses da questão social indicam a presença de uma nova problemática. evitar CURSO DE SERVIÇO SOCIAL ..

Castel (1998) realiza um estudo para apresentar o estatuto da precariedade e dos meios adotados no seu enfrentamento. problemática vista pelo autor como uma “questão social assistencial”. embora não apresente as mesmas nuances das problemáticas anteriores. frequentemente. estudados do ponto de vista da sua evolução no tempo. Castel (1998) afirma que o surgimento do capitalismo não indica uma ruptura nesse continuum de problemas sociais. recolocando-se e recompondo-se constantemente. seus reflexos atingem. vivenciamos um período marcado por uma “nova” versão da questão social que. Para o autor. Ao avaliar a questão social hoje. Seu estudo remonta às sociedades do Antigo Regime – aquele alicerçado no absolutismo –. nas últimas décadas. propriamente dita. por acreditar que essa problematização – relativa à coesão e aos riscos de decomposição dos vínculos sociais – surge com maior expressividade a partir do segundo quartel do século XIV. que passam a alternar períodos de atividades. especialmente linguísticos. A despeito disso. instalação na precariedade redescoberta dos sobrantes CURSO DE SERVIÇO SOCIAL 9 . Centrando a sua atenção no fato de que “questão social” reformula-se através das crises. tem sua emergência no século XIX a partir do processo de industrialização crescente e das consequências sociais daí decorrentes. desde a sua gênese vem se apresentando sob diferentes clivagens e versões. aqueles que são excluídos da sociedade e aqueles que não são integrados e que talvez não tenham condições de ser integrados. Esses seriam os indivíduos que foram invalidados. de desemprego. atua sobre essas bases. pela nova dinâmica econômica e social. com a propagação da vagabundagem e da indigência. mas. problemas esses que sempre existiram e estão em constante transformação. o século XIX é palco do surgimento da “questão social operária” que. muito pelo contrário. Sua atenção volta-se para mostrar que a questão social. os jovens. modelando sua transformação e agregando novas particularidades.Numa perspectiva diacrônica. desestabilização dos estáveis se constitui na expulsão dos trabalhadores – que antes se encontravam em uma posição estável na divisão do trabalho – das linhas produtivas. seu estudo apresenta três “situações-síntese”: Diacrônica: dos fenômenos ou fatos. de trabalho temporário e de auxílio social. entende que no nos dias atuais não estamos diante de uma “nova questão social”.

restringindo suas análises a uma mera crise do vínculo social e Fundamentação durkheimiana do laço social: o conceito de laço social está intrinsecamente relacionado ao conceito de solidariedade orgânica. Encontramos aí a fundamentação durkheimiana do laço social e da integração. Dar conta dessa processualidade significa dar voz àqueles sujeitos que colocam a questão social na cena política – os trabalhadores –. 10 CURSO DE SERVIÇO SOCIAL . exigindo uma nova modalidade de intervenção por parte do Estado. Em nossa opinião é somente a partir da apreensão da processualidade que envolve a questão social que reunimos substratos teóricos indispensáveis à análise de sua emergência política. fundamentação essa que não pode. uma sociedade na qual a maioria dos sujeitos sociais tem sua inserção social relacionada ao lugar que ocupa no salariado. protetor. Ao invés de centrarem-se nas políticas de integração – destinadas a todos os “cidadãos”. tentando comprovar que essa separação dicotômica na realidade não existe.].]” (CASTEL.. a-política e deseconomizada da questão social que nega a existência da luta de classes e dos sujeitos políticos envolvidos. atualmente. Enquanto Rosavanllon (1998) tem suas atenções voltadas em explicitar o que há de “novo” em torno da questão social – entre a “antiga” e a “nova” e entre o antes e o agora –.Sociedade salarial: não é somente aquela em que a maioria da população trabalhadora é assalariada. a sociedade capitalista – não resta alternativa senão propor algumas mudanças na intervenção do Estado. mas também. as desigualdades sociais e a própria questão social. numa lógica de discriminação positiva que direciona os programas sociais para aqueles setores mais vulneráveis da população. as estratégias adotadas devem focarse nas políticas de inserção. nem mais Estado. assim. apesar da crítica empreendida por Castel (1998). portanto.. em nossa acepção. Diante de tais situações. sua identidade [. sua proteção. ser chamada de nova e muito menos de inovadora. Mas. Castel (1998) vem justamente criticar essa visão dualística. com uma consciência individual mais livre e que tem como princípio a diversidade de papéis sociais.. criando um laço social. as antigas formas de solidariedade passam por um período de esgotamento. o que. de uma análise a-histórica. Castel (1997) defende que. não ocorre nos estudos de Castel (1998) e nem de Rosanvallon (1998). adentrando no interior dos processos e mecanismos que permitem que essa problemática ganhe força pública e se integre à cena política. 169). Partem. de modo algum.. p. homogeneizar a sociedade e reduzir as desigualdades sociais –. aquela que implica uma maior autonomia. ou seja. "[. buscando restabelecer o equilíbrio social. desconsidera a processualidade e as contradições inerentes ao movimento do real. 1997. Formulada por Durkheim. No entanto. esse tipo de solidariedade envolve o encontro de interesses complementares. em definitivo. ninguém pode substituir o Estado no direcionamento de suas ações. com moral própria e que fornece as bases para a conformação de uma nova organização social. não somente sua renda. seu status. Assumindo uma postura bem direfente de Rosanvallon (1998). E para “salvar” a sociedade salarial – e. E isso não significa nem menos Estado. cujo fundamento é a diversidade. à medida que sem proteção social não é possível alcançar a coesão social. mas a presença de um Estado estrategista. ao se limitar apenas a uma crônica ou uma descrição cronológica da questão social. Naturalizam. ainda que isso seja verdade. a análise desse autor.

a exclusão –. unicamente.156). Relaciona-se organicamente com a divisão da sociedade em classes antagônicas e com a apropriação desigual da riqueza socialmente produzida. sustentada na idéia do confronto de interesses de classes não dá conta da realidade atual... onde a integração pela via do trabalho não é mais o elemento principal para pensar a noção de pertencimento dos sujeitos à sociedade. das condições necessárias à sua realização. 2004. a pobreza. resultando “[. econômico. p. Importante! As análises de Pastorini (2004) nos mostram que nas interpretações apresentadas por Castel (1998) e Rosanvallon (1998) há um distanciamento da explicação marxista. É bem verdade que. aquele que nos remete à existência de uma correlação de forças entre diferentes classes e frações de classe. nos dias atuais..]. mobilizados. articulados a uma série de problemas ligados à produção de mercadorias e mais-valia e à reprodução das relações sociais capitalistas.] um conjunto de práticas institucionais que pouco ou nada tem a ver com sujeitos políticos. limitam-no a “[. torna-se totalmente inviável analisar a questão social sob um prisma político. assim como de seus frutos [. uma vez que é de nosso conhecimento que não se trata de uma “nova” questão social. na melhor das hipóteses. Tanto Castel (1998) quanto Rosanvallon (1998) entendem que a explicação da questão social – e suas mais variadas expressões.] do caráter coletivo da produção contraposto à apropriação privada da própria atividade humana – o trabalho –. Dessa forma. organizados [.. mas sim de novas e múltiplas manifestações da mesma questão. A partir de agora assume lugar prioritário a inserção por meio das redes de sociabilidade.deixando de lado problemas cruciais.. está atrelada ao surgimento do “trabalhador livre” que depende. em definitivo com as classes e a socialização da política conquistada pelas classes trabalhadoras [.. social e ideológico. se apropriar dessa referência nos leva a conclusões totalmente equivocadas. existem novos elementos e novos indicadores que podem nos induzir a pensar em uma suposta “nova” questão social. No entanto.. Naturalizam ainda o próprio movimento do real ou. 98).. 2004).]” (PASTORINI. inscrita em um contexto mais amplo do movimento social de luta pela hegemonia (PASTORINI. como aqueles relacionados à participação política e à redistribuição da riqueza socialmente produzida. Seus contornos marcantes – presentes desde a sua gênese – ainda não foram superados. 2007.. como por exemplo. mas permanecem vigentes. da venda de sua força de trabalho CURSO DE SERVIÇO SOCIAL 11 . Partindo das análises desses autores..]” (IAMAMOTO. p.

na verdade. Na tentativa de reduzir o “custo Brasil”. A questão social. Vê-se. 2004).] a presença viva e ativa de estruturas sociais do passado” (MARTINS. 110-111. p. 1994.. manifestando-se da mesma forma em todas as sociedades capitalistas e em todos os períodos históricos. 2004. persiste substantivamente sendo a mesma. Tais particularidades conferem um ritmo peculiar a esses processos. todos os esforços são envidados no sentido de reduzir ainda mais o custo direto e indireto da força de trabalho. finalmente. 14). fortemente 12 CURSO DE SERVIÇO SOCIAL . reformulada e redefinida nos diferentes estágios capitalistas. a problemática em torno [. que o atendimento da „questão social‟ vincula-se diretamente àqueles problemas e grupos sociais que podem colocar em xeque a ordem socialmente estabelecida (preocupação com a coesão social). facilitando. Sua estrutura tem três pilares centrais: em primeiro lugar. principalmente. grifos do autor).. num movimento em que se tem “[. que ela é expressão das manifestações das desigualdades e antagonismos ancorados nas contradições próprias da sociedade capitalista (PASTORINI. por exemplo. atribuindo particularidades à formação social do país. em segundo. assim. o que há de “novo” se restringe à forma que a questão social assume face às transformações processadas no mundo capitalista. e. E isto quer dizer que a nossa herança colonial e patrimonialista. seja vinculada diretamente com o trabalho assalariado ou com o „nãotrabalho‟. então.. Desde então. Mas afirmar que os traços essenciais da questão social continuam vigentes até os dias atuais não quer dizer que a questão social no capitalismo se apresenta de forma unívoca. uma significativa perda dos padrões de proteção social (PASTORINI. Sendo assim. 2004). a partir da década de 1980.. assume características bem particulares que vão depender justamente das especificidades de cada formação social e do modo como cada país se inseriu na ordem capitalista mundial. podemos afirmar que a „questão social‟ propriamente dita remete à relação capital/trabalho (exploração). O ataque à Seguridade Social. imprime uma dinâmica própria aos processos contemporâneos.para satisfazer suas necessidades de subsistência. além de produzir um aumento exponencial da pobreza e uma desestabilização daqueles trabalhadores que antes se encontravam estáveis.] da „questão social‟. a instalação de unidades produtivas transnacionais no país. p. tornou-se um elemento decisivo às reformas implementadas na década de 1990 pela política de abertura econômica. também produzem em decorrência disso. como é exemplo o Brasil (PASTORINI. ao atualizar marcas históricas persistentes. Tais mudanças.

concretizase. Acreditando-se dominados por forças naturais. e dimensões subjetivas – produto da ação desses sujeitos na construção da história. em cada indivíduo. Instaura-se um quadro de retrocesso social em que a feição que assume a questão social. sob novas condições históricas. É verdade que. Além disso. dessa forma. portanto. tais seres (e todos eles. do fato de que as relações mercantis capitalistas pressupõem e determinam a existência do fetiche” (CARCANHOLO. nada mais nada menos. s/d. com o dinheiro. antes de tudo. por leis naturais e imutáveis. 10). Como um fenômeno indissociável da sociedade capitalista e das configurações assumidas pelo trabalho e pelo Estado no movimento de expansão do capital. torna-se real. com o capital. a existência de uma arena de lutas políticas e culturais em torno da disputa entre diferentes projetos societários. portanto. auto-atribuída. a questão social condensa. permite o funcionamento e a regulação indireta do processo de produção. o conjunto das desigualdades e lutas sociais que são produzidas e reproduzidas no interior do movimento contraditório das relações sociais (IAMAMOTO. que uma das características centrais do capital em seu movimento contemporâneo é. A questão social revela. acredita que o mundo é regido por determinações naturais. suas manifestações e nuances alcançam total plenitude. Relembrando “O fetichismo é o mecanismo regulador das relações sociais na sociedade capitalista. dele com as coisas. da distribuição e da apropriação por meio do mercado. e de subordinação. o conjunto dos seres humanos. 2007). integrando determinantes históricos objetivos – que condicionam a vida dos sujeitos sociais –. Por meio dele. expressa uma agudização dos determinantes de sua origem. Sua impotência. em particular os subalternos. mediatizados por distintos interesses de classe na condução das políticas econômicas e sociais (IAMAMOTO. fragmentadas e compensatórias. Tanto é assim que grande parte dos direitos arduamente conquistados no texto constitucional foram submetidos à lógica do ajuste fiscal. também é naturalizada por aqueles que advogam em prol da burguesia. e que. E o que nos CURSO DE SERVIÇO SOCIAL 13 .tensionada a possibilidade de construção de um padrão público universal de proteção social. aqueles vínculos à lei geral de acumulação capitalista. nada podem fazer contra isso. No entanto. isso é um puro reflexo das determinações sociais no ser individual. o fetichismo aparece como uma relação subjetiva. do que a agudização da questão social que. Estamos convencidos. mas especialmente os subalternos) convertem-se em escravos: „o mundo sempre foi assim e nada há a fazer‟. p. é um fenômeno indispensável na preservação da ordem capitalista. 2007). com a mercadoria. do mesmo modo que o desemprego. E em tempo de capital fetiche. mantendo inalterada – mais uma vez – a defasagem entre o que é direito e o que é realmente implementado. transformando-o em ações pontuais.

diferença salarial entre homens e mulheres e. mas não de forma unívoca. esses setores conseguem “[. nas últimas décadas. por exemplo. Inclusive. contudo. a atuação específica do Estado na sociedade brasileira desestrutura – quer pela incorporação desfiguradora.“anos de ouro” do capital parecia estar sob controle. 2. vão colocar em cena antigas formas de exploração: aumento da jornada de trabalho. o desenvolvimento tardio do capitalismo em nosso país o torna. alcança. diante da menor possibilidade de socialização do poder político. têm vitimado apenas a massa trabalhadora das regiões periféricas. patamares nunca vistos. Num movimento em que as relações sociais capitalistas impregnam e determinam o espaço nacional. Ação de enganar com má intenção. social e cultural de cada região. seria completamente precipitado e falacioso transpor diretamente a realidade vivenciada nos países centrais para os da periferia. 18). ao mesmo tempo. nos dias de hoje. a socialização da política ainda é um processo inconcluso e. Funcionando como um espaço social de confluência dos processos acima mencionados. os setores hegemônicos das classes dominantes logo criam estratégias e meios para neutralizá-lo. o que vai ditar. em larga medida. muito pelo contrário. nos países cêntricos a lei geral da acumulação capitalista também tem revelado sua face destrutiva. Todos os processos decisórios são decididos “pelo alto”. p. de maneira especial. política. trabalho infantil. O desenvolvimento do sistema brasileiro de proteção social Em nosso meio. naqueles momentos mais efervescentes da história. sem antes. fazer as devidas mediações entre a formação econômica. Os processos de precarização e de informalização das relações de trabalho.] que um fio condutor [costure] a constituição da história brasileira: a exclusão da massa do povo no direcionamento da vida social” (NETTO... até mesmo. até mesmo. a particularidade da formação social e política do Brasil. 14 CURSO DE SERVIÇO SOCIAL . trazendo à tona algumas manifestações que antes não se mostravam tão alarmantes. “heteronômico” e excludente. Mas estão completamente equivocados aqueles que pensam que os efeitos perversos da ofensiva do capital. quer pela repressão – aqueles segmentos que sinalizam qualquer comprometimento com os interesses das classes subalternas. 2007. Heteronômico: que está subordinado à vontade de outrem ou a uma lei exterior. Lançando mão de dispositivos sinuosos e mecanismos de coerção aberta. o trabalho semi-escravo ou escravo. Sabemos que esse processo depende da particularidade histórica de cada região ou país e de como se deu sua inserção na dinâmica capitalista. por segmentos atrelados à estrutura estatal. Falacioso: enganador.

por meio da violência ou de cooptação de interesses [. parte do excedente econômico é transferido para fora do país. o que contribui para a concentração social. p. dinamizando a expansão do capitalismo monopolista nas economias centrais.]” (IAMAMOTO. com todas as decisões definidas “pelo alto” (COUTINHO. ao mesmo tempo. em que o Estado assume “[. regional e racial de renda. 2007. o período pós década de 1990. Até o início da Segunda Grande Guerra. a partir de agora. desde então. e da utilização constante dos aparelhos repressivos e de intervenção econômica do Estado. Todas as alternativas adotadas. prestígio e poder. da exclusão forçada das massas populares. nos termos de Ianni (1981). As elaborações apresentadas a seguir têm como objetivo reunir elementos para que você possa visualizar algumas das particularidades que marcaram a sociedade brasileira no período que vai da década de 1930 até a ditadura militar. 1989). Para visualizar um pouco melhor como essas questões incidem sobre o desenvolvimento do sistema brasileiro de proteção social. passando pela Proclamação da República e pela “Revolução” de 1930 – tem como marca um caráter elitista e antipopular. o período que vai do golpe militar à redemocratização e. Como resultado temos. sociais e regionais. nossa discussão centrar-se-á.. por último. como um dos pólos dinâmicos do capitalismo monopolista na periferia (FERNANDES.A transformação capitalista em nosso país se processa justamente a partir de acordos firmados entre diversos segmentos da classe economicamente dominante. fazendo uso de um espaço econômico que elas conseguiram “conquistar”. a expansão monopolista mantém... as grandes corporações – que atuavam aqui diretamente ou por meio de filiais – exercem um controle segmentar sobre um conjunto de setores da produção. direta ou indiretamente ligadas à transição do capitalismo – que vai desde a Independência política ao golpe de 64. 132). 1987). apresentando-se. CURSO DE SERVIÇO SOCIAL 15 . valores e ideologias para o conjunto da sociedade. Aprofunda-se a partir daí as disparidades econômicas. Assim. O Estado é capturado historicamente pelo bloco do poder. um divórcio crescente entre Estado e classes subalternas. Já após a década de 1950. também começa a se incorporar a esse crescimento.] um papel decisivo não só na unificação dos interesses das frações e classes burguesas. Em nosso país. a dominação imperialista e a desigualdade interna imanente ao próprio desenvolvimento da sociedade nacional. em três momentos históricos: o período que se estende dos anos de 1930 aos anos de 1960. como na imposição e irradiação de seus interesses.. Constrói-se um novo padrão típico de dominação política e de cariz contra-revolucionário. a economia brasileira além de vitalizar o crescimento monopolista no exterior.

quando é reconhecido o direito de livre organização sindical que.1 Um breve resgate do período que vai da década de 1930 até a ditadura militar De cunho fortemente estatal e nacionalista. dentre outros.] um processo conflituoso. Responsável por alterar substancialmente a vida dos trabalhadores. tornando-o uma categoria central na consolidação do processo de industrialização no Brasil. em 1905. crescem os níveis de exploração. mas sim como “[.. Importante! Os trabalhadores dão os primeiros passos em direção de uma consciência de classe para si.. O movimento operário surge.2. longa jornada de trabalho. E se por um lado há uma expansão considerável da indústria. marcado por avanços e recuos. da primeira organização estadual de trabalhadores. até então. possuía total autonomia em relação ao Estado. após a ascensão de Getúlio Vargas ao poder. Esse movimento organizativo teve uma importante conquista por meio da criação. especialmente após 1907. na ação coletiva.]” (ARIAS NETO. às desigualdades e à exclusão social e política das classes subalternas. baixos salários. os trabalhadores começam a questionar a dura realidade a que eram submetidos. não como o resultado mecânico da industrialização e da abolição da escravidão. Na tentativa fazer frente à exploração. 2003. a partir daí. ainda que embrionárias e carentes de maior organicidade e densidade política. acidentes de trabalho. 223). as desigualdades e as insatisfações e resistências. p. a inserção do país como agroexportador na divisão internacional do trabalho condiciona “[. Mas no seu reverso. Até esse momento. pelo fazer-se e pelo desfazer-se da classe. com o fortalecimento de sua organização política. conseqüentemente... o primeiro salto que o Brasil dá em direção à industrialização ocorre justamente na década de 1930. a industrialização se [processa] sob uma dupla subordinação: do capital internacional e do cafeeiro [.. 173).. 16 CURSO DE SERVIÇO SOCIAL . por outro. transformando-os em interesses coletivos que passam a se sobrepor aos interesses individuais e corporativistas.]” (BATALHA. desemprego.. 2003. em toda manifestação que afirma seu caráter de classe [.] a expansão da cafeicultura ao capitalismo estrangeiro e. como uma realidade histórica. segmentos mais organizados do movimento operário começam a priorizar a luta por direitos sociais. a prática industrial modifica o tratamento dispensado ao trabalho assalariado. que surge na organização. p. realidade essa marcada por alto custo de vida. a Federação Operária de São Paulo..

o trabalho e a previdência foram os setores que receberam maior atenção. o Estado praticamente não exercia sua função reguladora. que controlava. e o impulso à construção do Estado social. foram criados os Departamentos Nacionais do Trabalho e da Saúde e instituídos o Código Sanitário. transformando-se num poderoso instrumento de expansão e acumulação capitalista (IAMAMOTO. Mesmo que de modo limitado e precário. subordinando-os ao Estado (D‟ARAÚJO. férias. articula muito bem suas ações à “[.. trabalho infantil e da mulher. pela União. a burguesia comercial estabeleceu laços familiares com a grande burguesia cafeeira. 2003). Ainda nesse período. 2003). a questão social. CURSO DE SERVIÇO SOCIAL 17 . empregadores e. As ações desenvolvidas pelo Estado limitavam-se a respostas pontuais.. morte. A Lei Eloy Chaves ficou responsável por criar as Caixas de Aposentadorias e Pensões – CAPS. CARVALHO. facilitando a fusão de capitais e dando origem a burguesia industrial (ARIAS NETO. doença e maternidade. p. a indústria brasileira caracterizava-se pela produção de bens de consumo voltada para um mercado interno em acelerado crescimento. mas com nossas mediações internas particulares” (BEHRING. busca repolitizar e disciplinar essas classes populares. 106). sendo que a primeira acumulação industrial teve como base o comércio importador e exportador. Mas é somente com a ascensão de Getúlio Vargas ao poder que tem início a intervenção direta do Estado nas questões que envolvem o mundo do trabalho. que eram organizadas por empresas e financiadas pelos empregados. fruto das contradições entre as diversas frações dominantes e as reivindicações populares. por vezes. velhice. invalidez. Assume paulatinamente uma organização corporativa que traz para sua órbita aqueles interesses divergentes. com o fim da autonomia do movimento sindical e a vinculação sistemática dos organismos sindicais ao governo. Importante! Esse novo governo. 2007). BOSCHETTI. transferindo esta responsabilidade para o mercado – que atendia a preferências e demandas individuais –. Sob a pretensa alegação da harmonia social e da colaboração entre as classes. Na área social.Nesse momento. ao mesmo tempo em que adota medidas repressivas para conter componentes mais radicais do movimento operário emergente. de forma repressiva. Em 1923. a Lei Eloy Chaves – referente à previdência social – e uma legislação direcionada para a regulação e o atendimento de demandas relacionadas ao trabalho.] uma forte iniciativa política: a regulamentação das relações de trabalho no país. como acidentes. buscando transformar a luta de classes em colaboração de classes. para a iniciativa privada – que apresentava respostas pontuais e informais às reivindicações dos trabalhadores e dos setores populacionais empobrecidos – e para a polícia. emergenciais e fragmentadas às reivindicações sociais. em sintonia com os processos internacionais. 2007.

legitimando sua dominação (IAMAMOTO. entre as classes populares. p. organizando uma política global que dê forma às aspirações difusas dos trabalhadores anestesiados pelo populismo. 2007). também atribui ao Estado. Além disso. Importante! O discurso de proteção ao trabalhador. 2007). CARVALHO. “[. a outra face da legislação social.. Apropriando-se de uma forte ofensiva ideológica. CARVALHO. 2007). CARVALHO. Nesse momento. o Estado. 153). tecnicamente armado. Apresenta-se ainda como guardião da justiça social e da paz social e como detentor de uma ética e de uma vontade supraclasses. a noção fetichizada dos direitos. o governo getulista não mede esforços para isolar o movimento dos trabalhadores de sua vanguarda organizada e consolidar o mito do Estado benfeitor. é amplamente difundida. Representando o principal código normativo e regulador das relações de trabalho.] a função de agir em nome das classes populares. 1991. Ponto axial da política de massas e da ideologia da outorga. da justiça social e da ordem social é amplamente utilizado durante o governo Vargas no sentido de estabelecer a harmonia social. administra os conflitos e problemas sociais. CARVALHO. p. entidade supostamente neutra e acima das classes. a CLT vai agrupar e sistematizar o conjunto das Leis formuladas no decorrer das décadas de 1920 e 1930. No ano de 1943 é aprovada a Consolidação das Leis Trabalhistas – CLT. 18 CURSO DE SERVIÇO SOCIAL . impedindo-a de perceber de que esta legislação representa um elo a mais na cadeia que acorrenta o trabalho ao capital. 2007. obscurece. incentivar o trabalho e aumentar a produção. À burocracia civil e militar do Estado é atribuída a função de substituir a organização partidária dos trabalhadores” (BOITO JUNIOR.. Sua intenção era controlar e subordinar o movimento operário e expandir a acumulação por meio da intensificação da exploração da força de trabalho (IAMAMOTO. legislação responsável por reafirmar os direitos trabalhistas. o mito do Estado acima das classes e representativo dos interesses gerais da sociedade e da harmonia social” (IAMAMOTO. a serviço do povo (IAMAMOTO. representando os interesses gerais da sociedade. 87-88).. principalmente. para o bem estar dos cidadãos. para a classe operária.Estado acima das classes: o Estado aparece como benfeitor e suas ações estão voltadas. amplamente disseminada na era Vargas.] da outorga da legislação protetora do trabalho. “[. a ideologia populista que além de incorporar a classe operária e o campesinato..

110). 2000). são definidas as bases do sistema de proteção social inglês. 15). 2007). cuja estratégia principal era a substituição das importações (BEHRING. Portanto. Para tanto. de meios de produção e de consumo. na verdade. substitui a regulação privada pela regulação pública do trabalho. socorrer aqueles que perderam o sustento por causa da morte de outrem e atender a determinadas despesas extraordinárias. envolveu a proposta de crescimento econômico no sentido de viabilizar a prosperidade. por doença ou acidente. ao favorecer o fortalecimento do papel do Estado. ainda mais. em suas organizações político-partidárias.] a estratificação de um processo deformado. à organização dos trabalhadores em associações e aos conflitos entre empregados e empregadores. BOSCHETTI. 1998. riqueza. em 1943. o que distanciava.Importante! Será justamente a CLT responsável por definir e normatizar um amplo conjunto de questões relacionadas às condições de trabalho e salários. mas que deve estar associado a providências capazes de fazer cessar. Uma das principais características do período 1930-1945 centrava-se no caráter corporativo e fragmentado das medidas adotadas pelo governo. por parte do Estado. p. de um lado. BOSCHETTI. Esse processo se deu a partir de decisões internas de restrição de importações. O Plano Beveridge supõe. em seu aspecto mais aparente e geral. como um instrumento de controle social das classes trabalhadoras. Visa também assegurar a aposentadoria na velhice. o modelo nacional da proposta de universalização defendida pelo modelo beveridgiano de seguridade social. da morte e do casamento. o modelo de proteção social proposto por Getúlio Vargas apresentava-se de forma limitada e desigual. na verdade. A ideologia desenvolvimentista. O período compreendido entre os anos de 1946 a 1964 foi caracterizado por uma intensa disputa de projetos e pelo aprofundamento da luta de classes. 2007. tem do outro caráter antioperário. o Brasil aproveitou bem a liquidez de capitais dos anos de ouro. limitativo dos direitos mínimos dos trabalhadores e assegura a exploração de classe” (LIMA. Importante! “O processo de substituição de importações implica passar a produzir internamente aquilo que era importante. é empregado no sentido de assegurar um rendimento mínimo. O termo segurança social. sendo utilizado. constituindo dessa forma um mercado interno de trabalho. sobretudo. A reorganização das forças políticas e das classes. Mas apesar de ser considerada um avanço. Se ela tem caráter paternalista. a interrupção dos salários. p. bem como a intensa disputa de projetos confrontavam-se com uma base material também em efervescência e com o desenvolvimentismo. Representa um avanço expressivo para o mercado de trabalho e. Sua proposta parte do reconhecimento. A burguesia brasileira passava por um processo de fragmentação. como as decorrentes do nascimento. a CLT vai. das categorias de trabalhadores. nesse relatório. o mais rápido possível.. à estabilidade. a conformação de um sistema complexo e completo de proteção social face à ausência do salário que deve ser fruto do pleno emprego (FALEIROS. por meio dessa estratégia desenvolvimentista” (BEHRING. de uma legislação arbitrária e antioperária.. grandeza Modelo beveridgiano no relatório proposto por William Beveridge. CURSO DE SERVIÇO SOCIAL 19 . principalmente. atrelando a sua organização sindical ao Ministério do Trabalho. representando nada mais nada menos do que “[. Esse sistema de proteção social visa garantir um rendimento que possa substituir os salários quando interrompidos pelo desemprego. selar o modelo corporativista e fragmentado do reconhecimento dos direitos no Brasil.

] de mão-de-obra [coloca] o trabalhador numa posição desfavorável diante do empregador na venda de sua força de trabalho. O Estado mostra-se como um agente capaz de investir vultuosamente em infra-estrutura e naquelas indústrias de base que estavam sob sua responsabilidade. tanto nas áreas rurais quanto urbanas. No campo. CARVALHO. p.]” (MORETTO. à medida que acarretou “[. 6) um fator preponderante não apenas para a conformação do mercado de trabalho. 2006. p. Mas embora apresente tais características. definindo. devido à inexistência de uma reforma agrária consistente e da grande concentração de terra. 1996). soberania.. em um ambiente de paz política. O objetivo desse Plano era fazer o país crescer 50 anos em 5. um esquema de acumulação e lhe concedendo generosos favores” (CARDOSO DE MELLO. 110). com suas conseqüências em termos de maior organização política e consciência de classe [..material. A ideologia desenvolvimentista se fundamentou a partir dos pressupostos defendidos pela Comissão Econômica para a América Latina – CEPAL e visava uma integração mais dinâmica do Brasil no sistema capitalista (CARVALHO. o padrão de desenvolvimento continua marcado pela heterogeneidade e pela desigualdade social. 2007. essa proposta acirrou ainda mais a luta de classes... 2001. Todo o esforço de formulação de política – econômica – e trabalho foi requerido para eliminar o pauperismo e a miséria..] o aumento numérico e a concentração da classe trabalhadora.. dinâmica essa marcada pela desigualdade social. IAMAMOTO.. as modificações processadas na estrutura econômica e social do país se intensificam em decorrência da estruturação de alguns setores econômicos. A maior expressão desse período desenvolvimentista foi o Plano de Metas adotado pelo governo de Juscelino Kubitschek. claramente. ficando a seu cargo “[. elevando o nível de vida da população como consequência do crescimento econômico. BOSCHETTI.. 20 CURSO DE SERVIÇO SOCIAL . do acelerado crescimento econômico e do processo de industrialização. O problema central a resolver seria a superação do estágio transitório de subdesenvolvimento e de atraso que colocava o Brasil em uma posição secundária ou marginal dentro do sistema capitalista. os conflitos também se intensificaram com a organização das Ligas Camponesas. 118). p.] estabelecer as bases da associação com a grande empresa oligopólica estrangeira. ao Estado também caberia garantir as condições necessárias para que o capital industrial nacional alcançasse ganhos bastante expressivos. 1986. Ao lado da questão da baixa qualificação esse será [. Além de favorecer o capital estrangeiro. mas na própria dinâmica da sociedade brasileira. A partir da década de 1950.. No entanto.]” (BEHRING.. social e de segurança. É um período em que a crescente oferta “[. pela concentração de renda e pela disseminação expressiva de uma “nova pobreza”. da rápida urbanização.

a direita. CURSO DE SERVIÇO SOCIAL 21 . Pela via da violência militar.Importante! Durante o governo de João Goulart. extremamente conservador. o que você verá detalhadamente a seguir. sobretudo. Gradativamente. progressivamente. entre os anos de 1961 a 1964. silenciando e reprimindo qualquer tentativa de oposição ao regime. 2007). em dimensões e intensidade nunca vistos na história do país. consolidando a sua forma mais brutal de atuação. as forças que sustentavam João Goulart no poder vão perdendo a sua relativa autonomia política face às exigências que a dinâmica econômica impõe. o desfecho de abril de 1964 vai justamente por fim ao dilema entre o projeto nacionaldesenvolvimentista e o projeto de desenvolvimento associado ao capital externo. ampliando junto à sociedade civil (NETTO. as requisições contrárias à exploração imperialista e latifundista e as reivindicações em torno de uma maior participação cívico-política sinalizam para a necessidade de uma ampla reestruturação do padrão de desenvolvimento econômico e uma profunda democratização da sociedade e do Estado (NETTO.2 Do golpe de 1964 à redemocratização O regime militar implantado no Brasil. 2. agora. A articulação político-social que estrutura o Estado após esse período aprofunda ainda mais a heteronomia e a exclusão já existentes no país. visando encontrar uma solução para os dilemas vivenciados pela burguesia nacional. que traz consigo importantes implicações para a política social. vai reunindo força. vai buscar legitimidade por meio da violência policial. Instaura-se no país um período ditatorial que se estende por vinte anos. No ano de 1963 tem início uma agitação sociopolítica. com a utilização maciça do aparato estatal – aquele que se encontrava sob o seu controle – e com as posições que possuía e que foram. em 1964. notadamente aquele defendido pelos norteamericanos. que já se articulava em um longo processo conspirativo. Marcado pelo terrorismo de Estado. Enquanto o plano democrático é clivado por divisões. 2007). esse novo regime lança mão de mecanismos de repressão e controle. impulsionando um novo momento de modernização.

esse Fundo é um mecanismo que amplia o poder de demissão das empresas – aliado às práticas autoritárias e repressivas de gestão e à proibição das greves –. a dinâmica interna do padrão de acumulação industrial aprofunda a superexploração da força de trabalho. que seria independente da empresa onde o trabalhador estivesse empregado. essa estabilidade é substituída pelo Fundo de Garantia por Tempo de Serviço – FGTS. Na prática. 22 CURSO DE SERVIÇO SOCIAL . como uma espécie de seguro-desemprego. com o fim da estabilidade no emprego. Alimentando ideologicamente uma noção de cooperação de classe fundada no direito do trabalho. O FGTS funcionaria. 2007. jornada de trabalho prolongada e com ritmos intensos. os trabalhadores tiveram que optar entre a estabilidade após dez anos de trabalho na mesma empresa. na verdade. e fortalece o grau de submissão dos trabalhadores aos interesses do capital. e era apresentado como um mecanismo que facilitava a mobilidade do trabalhador entre as empresas. obtendo o consenso passivo e legitimador do regime. O governo. “A criação do FGTS em 1966 foi um instrumento implementado como forma de facilitar a demissão do trabalhador pela empresa. Até o final da década de 1960. implementa reformas liberais no mercado de trabalho. 2007). este instrumento serviu como uma política anti-trabalho. mesmo se apresentando como uma inovação na legislação trabalhista veio. ao mesmo tempo em que colocam em prática uma política que preservava e fortalecia as relações de dependência com os países hegemônicos. Assim. desta maneira. o que permite as empresas demitir o trabalhador a qualquer momento (MORETTO. pois acabou com o instituto da estabilidade no emprego. articulando baixos salários. direito garantido aqueles trabalhadores com mais de dez anos de trabalho na mesma empresa. Sua implementação deu origem a duas formas de regime jurídico para o problema do tempo de serviço: a estabilidade e o FGTS. ao permitir que o mesmo carregasse com ele o valor da conta vinculada quando ele se demitisse para empregar-se num emprego melhor. ou o fundo. p. Desde então. Funcionalizando a política social. tornando-o cada vez mais flexível.Importante! De modo muito mais intenso. os governos militares para legitimar suas ações. tentam disseminar a imagem de um Estado social. ainda que sob o argumento de protegê-lo na demissão sem justa causa mediante a formação de uma conta vinculada ao contrato de trabalho. sob forte autoritarismo. buscavam quebrar a resistência organizada da sociedade. 146-147). A instituição do FGTS. sobretudo. ao colocar à disposição do empregador um mecanismo de rescisão contratual que estimulou o aumento da rotatividade de mão-de-obra” (MORETTO. facilitar a exploração capitalista no uso predatório da força de trabalho.

] em estratos de acesso. o caráter tardio da adesão CURSO DE SERVIÇO SOCIAL 23 . em virtude dos impactos da economia internacional no país – que restringiam o fluxo de capitais e os limites internos – começam a surgir os primeiros sinais de enfraquecimento do complexo assistencial-industrial-tecnocrático-militar. num processo de redemocratização que favoreceu a adesão do Brasil às orientações conservadoras neoliberais. se caracterizou por uma extrema divisão de tarefas. nesse período. implantou um complexo assistencialindustrial-tecnocrático-militar. Em contrapartida à expansão das políticas sociais. Tais características se apoiavam na legislação trabalhista – baseada no contrato individual de trabalho – e na conjuntura política de autoritarismo vivenciada no país (LEITE. que já se encontravam em andamento no cenário mundial. pela utilização de complexas estruturas de cargos e salários. obter lealdades e. para favorecer grupos privados ou particulares. Sintetizando. 2000.. do aumento do teto do beneficio mínimo. não se constituiu em um projeto universal de cidadania. pelo uso extensivo de mão de obra não qualificada. abertura da previdência social para os trabalhadores autônomos e empregados domésticos e ampliação da assistência médico social. Esse complexo. impulsionar certos setores economicamente influentes. Os anos subseqüentes foram marcados pela distensão e pela abertura lenta e gradual do regime militar. na verdade. a gestão da força de trabalho. Na década seguinte. educação e habitação.. 1994). como é o caso do Fundo de Assistência e Previdência do Trabalhador Rural – FUNRURAL.. autoritário e desigual que. a sua própria necessidade de legitimação política. há uma relativa ampliação no modelo de Seguridade Social brasileira. 48). cujo objetivo consistia em fragmentar a classe operária e exercer o controle sobre os trabalhadores. atender. dinamizar a acumulação” (FALEIROS.. evidenciando. assim. p. da renda vitalícia para os idosos. E ao atender algumas demandas das classes reprimidas pelo governo ditatorial. O período em questão foi marcado por um modelo repressivo centralizado. Baseando-se em um forte autoritarismo. visto que representava a continuidade de um modelo fragmentado e desigual de incorporação social das camadas populares “[. conquistar clientelas. pelos elevados índices de rotatividade. ocorre a privatização de alguns serviços de saúde.As requisições impostas pelo processo de acumulação capitalista e a necessidade de suprimir os movimentos das classes subalternas fazem com que o Estado promova mudanças no âmbito das políticas sociais. o regime militar procura. Em 1974. conforme os arranjos do bloco no poder. é claro. controlado pela gestão tecnocrática. gradativamente.

Marcado pelo conservadorismo.. no limite. em um contexto de intensa desaceleração do ritmo de crescimento econômico e de uma oscilação dos níveis de emprego. há um aumento das atividades por conta própria e sem registro em carteira.] e se aprofunda. o que lhes permite ser não apenas classe dominante. a precarização do mercado de trabalho urbano brasileiro ainda não havia se consolidado totalmente. A inexistência de um sistema de proteção da renda dos trabalhadores desempregados obrigava-os a buscar alternativas de sobrevivência em ocupações precárias no setor informal. nesse processo. atraindo setores e protagonistas antes vinculados ao movimento golpista ou por ele neutralizados. o Brasil passa a vivenciar um período de degradação nas condições gerais do mercado de trabalho urbano. BOSCHETTI. a sociedade brasileira retoma os rumos da democracia política e o regime ditatorial vai sendo conduzido. acompanhado do agravamento da situação social e da intensificação da pobreza e das desigualdades de renda. o Estado Nacional. deixando o trabalhador à margem da legislação trabalhista e inserido-o na informalidade. Apesar do desempenho do mercado de trabalho não ter apresentado a mesma tendência de estruturação que marcou o período pós-guerra. a concessões e. mas também classe dirigente” (MOTA. 2007. 2005. No decorrer dessa década.. 34). o que. Importante! Desde então.] o consentimento ativo da maioria da população em torno do seu projeto específico de sociedade. segundo Moretto (2007). a um processo de negociação que acaba por acelerar o fim de seu ciclo desastroso. 114-115). levando o regime à defensiva. Dessa forma. as classes dominantes adotam uma nova estratégia política. A partir da década de 1980. nas áreas urbanas. Mas ainda que tenha início esse movimento de redemocratização. se compararmos com a década subsequente. p. restringindo sua atuação na área social e na distribuição de renda (MATTOSO. p. 1995). deixou parte dos desempregados fora das estatísticas de desemprego. Será justamente a participação dos trabalhadores no setor informal e a 24 CURSO DE SERVIÇO SOCIAL . 2007).brasileira aos pressupostos neoliberais (BEHRING.. cujo objetivo é conquistar “[. principalmente. o Estado brasileiro priorizou o desenvolvimento econômico. a negociar as vias de transição a outras formas de dominação” (NETTO. conservou um padrão de intervenção social com baixos resultados e com efeitos compensatórios ou distributivos. as manifestações da questão social se tornam mais visíveis e a resistência democrática se amplia “[. de derrota em derrota.. pelo autoritarismo e pelo corporativismo. Em um movimento paralelo.

Mas apesar dos avanços. Ao mesmo tempo. do seguro-desemprego e com a promulgação da Carta Magna de 1988 – quando são reafirmados e estabelecidos novos direitos sociais. como indica o Capítulo II. à medida que passam a afirmar que a arrecadação estatal é totalmente incompatível com os gastos sociais oriundos das políticas sociais. o que evidencia o caráter tardio da adesão do país ao ideário neoliberal. à previdência e à assistência social. 25 . orientações essas já em curso no cenário internacional. fixando um conjunto de necessidades que são consideradas básicas em uma sociedade. Assim. de modo especial. alguns avanços políticos e sociais – ainda que inexpressivos – passam a fazer parte da pauta do sistema de proteção social brasileiro. é fruto da expansão das políticas sociais. o processo de redemocratização vai favorecer a adesão do Brasil às orientações conservadoras neoliberais. No caso brasileiro. o texto constitucional traz algumas diretrizes que permitem a CURSO DE SERVIÇO SOCIAL Legislação infraconstitucional: termo utilizado para se referir à legislação que regulamenta um dispositivo constitucional. o que vai justificar a transferência de responsabilidade à sociedade civil e a implementação de reformas. Eis aqui o alicerce para a elaboração da Constituição Federal de 1988. artigos 194 a 204 que tratam do Sistema de Seguridade Social. na concepção dos agentes governamentais. precipitando o fim da ditadura militar. que a Política de Proteção Social no Brasil vai se consubstanciar no formato de Seguridade Social. Vai articular uma série de ações de iniciativa dos poderes públicos e da sociedade. em meio à luta pela redemocratização do país e por melhores salários. várias conquistas foram suprimidas durante o processo de definição da legislação infraconstitucional. o Estatuto da Criança e do Adolescente – ECRIAD. os princípios do modelo de seguros predominam na previdência social – modelo bismarckiano – e os do modelo assistencial não contributivo. em março de 1986. com a instituição. Ocorre ainda a chamada “crise fiscal” do Estado que. E será justamente com a promulgação da Constituição de 1988. de inspiração beveridgiana. destinadas a assegurar os direitos relativos à saúde. orientam o sistema público de saúde e a política de assistência social E para viabilizar as inovações propostas e permitir a implantação de um Sistema de Seguridade Social no Brasil. Incentivados pela pressão exercida pelos movimentos sociais. E essa mesma conjuntura provoca ainda um estrangulamento gradual da capacidade de gasto governamental.recuperação do emprego a partir de 1984 fatores decisivos para que o desemprego não alcance os mesmos patamares da década seguinte. a Lei Orgânica da Assistência Social – LOAS e outras modificações como o Sistema Único de Saúde – SUS passam a ter o devido amparo legal.

os tributos. no seu Título VIII. v) eqüidade na forma de participação no custeio.. inicialmente com Fernando Collor de Mello e. que trata da ordem social. mediante gestão quadripartite. p. à previdência e à assistência social. Os recursos que compõem as fontes de financiamento da Seguridade passam a desempenhar um papel relevante na política econômica e social no período pós-1994. em 26 CURSO DE SERVIÇO SOCIAL . dentre outros. visando assegurar os direitos relativos às políticas que compõem o tripé da Seguridade Social. Saiba mais A Constituição Federal. Cabe ao Poder Público organizar a Seguridade Social com os seguintes objetivos: i) universalidade da cobertura e do atendimento.ampliação das bases de financiamento para além da folha de pagamento que. as receitas patrimoniais. é somente a partir da década de 1990. em muitos de seus traços essenciais” (ANTUNES. ii) uniformidade e equivalência dos benefícios e serviços às populações urbanas e rurais. Já as despesas nãofinanceiras estão ligadas ao conjunto de gastos com pessoal. passa a contar com os impostos pagos pela sociedade e por contribuições sociais vinculadas. sobretudo. haverá um déficit primário. Por lei. e o pagamento de encargos da dívida pública. dos empregadores. arrecadadas no mesmo período. dos aposentados e do Governo nos órgãos colegiados. inicialmente em alguns aspectos e. agora. destinadas a assegurar os direitos relativos à saúde. iv) irredutibilidade do valor dos benefícios. Isso é claro. que pode ser positiva ou negativa. Diz respeito a um conjunto de princípios. manutenção da máquina administrativa e investimentos. se negativo. Se o saldo for positivo. políticas sociais. O art. vi) diversidade da base de financiamento. excluídas. previdência e assistência social – que poderiam ampliar a sua abrangência – são retidas pelo Orçamento Fiscal da União e canalizadas para o superávit primário. As não-financeiras são aquelas que incluem. temos um superávit primário. 2006. iii) seletividade e distributividade na prestação dos benefícios e serviços. Superávit primário: é a diferença. posteriormente. normas e instituições destinado a estabelecer um sistema de proteção social aos indivíduos contra contingências que os impeçam de prover as suas necessidades pessoais básicas e de suas famílias. com participação dos trabalhadores. E o que aconteceu no período pós Constituição de 1988? Desde o final da década de 1980. o financiamento da Seguridade Social compreende os recursos advindos das contribuições previdenciárias e dos recursos orçamentários destinados a este fim e condensados em um único orçamento. redesenhando uma particularidade brasileira que pouco a pouco foi se diferenciando da anterior. as contribuições sociais e econômicas. 17). 194 estabelece que a Seguridade Social compreende um conjunto integrado de ações de iniciativa dos Poderes Públicos e da sociedade. entre as receitas nãofinanceiras arrecadadas no exercício fiscal e as despesas nãofinanceiras. e vii) caráter democrático e descentralizado da administração.. o país passa a trilhar um caminho marcado “[. previdência. as receitas diretamente arrecadadas por órgãos e entidades da administração indireta. Ainda que na década anterior tenham sido observadas algumas mudanças tecnológicas e no processo produtivo – embora muito incipientes –.] pelos emergentes traços universais do sistema global do capital. Parcelas significativas dos recursos destinados às políticas de saúde. dedicou o Capítulo II à Seguridade Social. as receitas provenientes do recebimento de juros. integrado por iniciativa dos poderes públicos e da sociedade.

Na verdade. passando a atuar diretamente como agente estimulador do capital. Sua lógica especulativa própria chega a contaminar inclusive as empresas ou corporações dedicadas especialmente a funções produtivas e. Vejamos agora o que têm a dizer alguns intérpretes sobre a realidade brasileira no período pós década de 1990. p. o que constituía capital industrial converte-se em capital especulativo. o que será melhor trabalhado no próximo item. CURSO DE SERVIÇO SOCIAL 27 . assim. quando este ultrapassa os limites do que é necessário para o funcionamento normal do capital industrial.seguida. modernizar a sociedade e a economia brasileira a partir da inserção competitiva do país no mercado global. favorecendo o processo de privatizações e a entrada do capital estrangeiro no país. as reformas estruturais adotadas redesenham a intervenção do Estado na economia e na sociedade. 265). inclusive do capital especulativo parasitário. o que tornou a regulação social do trabalho ainda mais frágil e fortaleceu profundamente a regulação privada. Capital especulativo parasitário: resulta da conversão da forma autonomizada do capital a juros ou capital portador de juros. quando foram implementadas medidas pontuais que aprofundaram ainda mais a desregulamentação das leis trabalhistas e a flexibilização das relações de trabalho. Tal realidade está associada às políticas de reordenamento econômico e de redefinição do papel do Estado praticadas. 1999. principalmente. como síntese dialética do movimento de suas formas funcionais. Isso é claro sem perder de vista a relação existente entre as mudanças processadas no país – e que ainda estão em curso – com os processos históricos e estruturais que se engendram em âmbito mundial. após a eleição de Fernando Collor de Mello e Fernando Henrique Cardoso – FHC. NAKATANI. As medidas adotadas pelo governo visavam. antes de tudo. Ao fortalecer um processo de auto-regulação via mercado. exigência de maior qualificação profissional. ou mais precisamente do capital fictício. da terceirização. e aumento significativo do desemprego. a década de 1990 não se configurou num ambiente propício à ampliação dos direitos sociais.3 O Brasil pós-década de 1990 Apesar do avanço proposto pela Constituição de 1988 às políticas sociais. tornando mais visíveis os impactos das transformações capitalistas sobre a realidade do país. desestruturação do mercado de trabalho. tem o capital especulativo parasitário como pólo dominante (CARCANHOLO. com Fernando Henrique Cardoso – FHC e Luiz Inácio Lula da Silva. Este. 2. do trabalho informal e do trabalho sem registro em carteira. o Estado deixa de atuar como promotor e articulador do desenvolvimento econômico e social. Temos um período marcado pela intensa precarização das relações de trabalho de um contingente expressivo de trabalhadores. Nesse processo de mudanças surgem várias iniciativas e proposições com a finalidade de ajustar o sistema de relações de trabalho à nova realidade. que esse processo se intensifica.

Heterodoxos: diz-se de doutrinas. Trata-se. Rosa Luxemburgo e Ernest Mandel. pela primeira vez não se limitava apenas a combater a inflação. Se comparado aos outros planos de estabilização heterodoxos. O termo reforma ganhou sentido no interior do movimento operário socialista sempre tendo como foco melhores condições de vida e de trabalho para a maioria da população.Importante! Capital especulativo Consenso de Washington: refere-se às conclusões e recomendações extraídas em reunião entre funcionários do governo norte-americano e dos organismos multilaterais (como o Fundo Monetário Internacional – FMI. Para as autoras. É com Fernando Collor de Mello que tem início uma etapa decisiva para a vitória do projeto neoliberal no interior das classes dominantes. privatização. visando recompor a hegemonia burguesa no país (MOTA. por exemplo. isso se compararmos às etapas anteriores. conjuntamente. o Brasil adentra num movimento marcado por uma nova ofensiva burguesa. diferentes daqueles vivenciados no pós-1964. A partir das deliberações extraídas do Consenso de Washington. a redução do tamanho do Estado e a abertura da economia. As propostas apresentadas articulavam. investimento direto estrangeiro. pois. liberalização comercial. Adaptando-se mais uma vez às requisições impostas pelo capitalismo mundial. Em um período de forte crise de hegemonia que decorre. como se qualquer mudança – não importando seu sentido. inclusive. 2005). Seguramente esse movimento representou uma iniciativa de contrareforma social e moral. livros. 28 CURSO DE SERVIÇO SOCIAL . sua conseqüência social e sua direção sócio-histórica – representasse uma reforma. liberalização financeira. da intensa participação dos trabalhadores na cena política. teses. processo esse que assume formas diferenciadas. 1990). no seu embate contra a esquerda e o conjunto dos trabalhadores (OLIVEIRA. Behring e Boschetti (2007) partem do pressuposto de que se esteve diante de uma apropriação indevida e fortemente ideológica da idéia reformista. isso é claro nos moldes da doutrina neoliberal. Essas conclusões e recomendações estavam concentradas em dez áreas específicas: disciplina fiscal. criticá-lo. priorização dos gastos públicos. o Banco Mundial e o Banco Interamericano de Desenvolvimento – BID). constituindo-se em uma realidade envolta por elementos de ruptura e continuidade. o reformismo – ainda que não concordem com suas estratégias e considerem importante. o programa adotado por esse governo – consubstanciado no Plano Collor –. Saiba mais Mesmo que o termo reforma tenha sido amplamente utilizado pelo projeto em curso no país nos anos de 1990 para se auto-referenciar. de um momento histórico com traços bem peculiares. 1998). o governo Collor foi a solução momentaneamente encontrada pelas frações dominantes do capital. principalmente. regime cambial. que acabou sendo destituída de seu teor progressista e submetida ao uso pragmático. Foram adotadas reformas estruturais do Estado e de suas relações com o setor privado e das relações do capital com o trabalho. o Brasil intensifica o processo de reestruturação produtiva e de implementação do ideário neoliberal. reforma tributária. após uma avaliação das reformas econômicas empreendidas na América Latina. contrários a algum padrão ou dogma. sendo que cada país deveria orientar sua política econômica em função da soberania do mercado autorregulável nas suas relações econômicas internas e externas (TEIXEIRA. como o fizeram revolucionários de períodos diferentes como. desregulação e propriedade intelectual. dentre outros – é um patrimônio da esquerda.

o isolamento político de Collor. que culminou em uma forte recessão econômica. já tinha uma grande aceitação no interior das classes dominantes (FILGUEIRAS. Logo após o impeachment e em meio a um período de descompasso entre as reivindicações da sociedade e as respostas dadas pelo Estado e de mal-estar institucional. a efetivação das medidas liberalizantes do comércio exterior e. Seu programa econômico. No decorrer de seu curto mandato – 1992 a 1994 – articula-se uma coalizão conservadora de poder em torno do então Ministro da Fazenda. No entanto. da vontade de seus tecnocratas. 2003). aumentando ainda mais a dependência da economia brasileira aos interesses do capital especulativo. Soma-se a tudo isso. Itamar Franco. o mais importante. a implementação do projeto neoliberal não sofreu nenhuma interrupção com a destituição política de Collor. o real (BEHRING. foi praticamente total e pôs fim precocemente ao seu governo (FILGUEIRAS. nesse momento. sendo exemplos contundentes a privatização de empresas públicas. 2005). exigindo a saída do então presidente. CURSO DE SERVIÇO SOCIAL 29 . em função de sua estratégia de estabilização dos preços. muito menos. vão tomar as ruas. principalmente. econômico e social. vice de Collor. Fernando Henrique Cardoso – potencial candidato à Presidência da República. Com o apoio massivo dos meios de comunicação – que viam seus interesses ameaçados pela política adotada por Collor –. 2005). a sua própria incapacidade em conciliar os distintos interesses das diversas frações do capital (FILGUEIRAS.Torna-se inconteste o êxito inicial do governo Collor na implementação do ideário neoliberal. colocar na defensiva os movimentos sociais e sindical. os estudantes. Embora tenha tido uma expressiva redução no seu ritmo. na sociedade. o governo Collor foi perdendo legitimidade junto à classe dominante. 2005). Com FHC à frente desse Ministério foi formulado o plano de estabilização monetária protagonizado pela nova moeda. No momento em que surge a crise política deflagrada por denúncias de corrupção generalizada. assume o governo. os conhecidos “caras pintadas”. a partir da retomada dos movimentos sociais – aqueles derrotados na eleição de 1989 – e das manifestações políticas de massa que exigem o impeachment. o que vem reforçar a tese de que sua implementação não é produto apenas do voluntarismo de Collor e. a implementação desse plano vai impulsionar a adoção da automação microeletrônica nos principais pólos industriais e acelerar a inserção subordinada do Brasil ao sistema de crédito internacional. Carro chefe da campanha presidencial do ano de 1994. pouco a pouco.

um aumento da precarização do trabalho em função do crescimento da informalidade e da rotatividade do emprego (NAKATANI. para aqueles cuja renda não estava indexada.ssrede.. 2010. o caminho para derrotar a esquerda e os trabalhadores (FILGUEIRAS.A hegemonia restrita do projeto neoliberal encontra. 2000. privatização. desregulamentação e abertura comercial e financeira. a estabilização monetária até produz alguns ganhos salariais para o conjunto dos trabalhadores. agora. a forma como se processa a inserção do país no movimento de “globalização” – totalmente subordinada e dependente – favorece o crescimento contínuo da taxa de desemprego e a redução dos salários reais e do rendimento do trabalho. uma continuidade do programa adotado pelo governo Collor. de 1995 a 1998. sobretudo. Acesso em: mar. Entretanto. Já em outro momento.]” (NAKATANI. o bloco dominante trilha.. como Chefe do Executivo Nacional. “[. Disponível em: <http://www. o que vai favorecer a eleição de FHC.] esses ganhos não foram suficientes para reverter o longo processo de concentração da renda e da riqueza no Brasil.doc>. são adotadas medidas de estabilização monetária – consubstanciadas no Plano Real –. desregulação do mercado de trabalho. mais uma vez.. No primeiro mandato de FHC. 233). p. solo fértil para sua franca expansão e afirmação no interior do bloco dominante.. por outro lado.pro. ainda que em meio a atritos entre as distintas frações do capital e certa resistência por parte de setores organizados dos trabalhadores. reforma administrativa do Estado e da Previdência Social. mantendo o Brasil no topo do ranking dentre os países com pior distribuição de renda [. 2000). Há.br/mercadoria. Figura 1 – A receita neoliberal para privatização da Previdência Fonte: SSREDE (2010). Num primeiro momento. portanto. 30 CURSO DE SERVIÇO SOCIAL . 2005). Valendo-se de uma candidatura que contava com o total apoio das diversas frações da burguesia e com o apoio de segmentos da classe média e da intelectualidade. Tem-se.

2003). De acordo com dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – IPEA. entre 1999 a 2002 – e o primeiro governo do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva – de 2003 a 2006 –. Agora. p. superior aos 0. limita-se a intervenção e os gastos do Estado.] liberal porque o fará usando mais os controles de mercado e menos os controles administrativos. dois indicadores vão comprovar os resultados calamitosos de seu governo. mas. os defensores desse “Estado mínimo” – que é denominado de “Estado social-liberal” pelos neoconservadores –. visando a inovação e a competição em âmbito mundial (BRESSER-PEREIRA. a sua total mercantilização. a defesa incondicional da racionalidade econômica em detrimento à instrumentalização dos direitos e um retrocesso tanto na construção democrática quanto no exercício da cidadania (SIMIONATO. Revelam ainda um verdadeiro processo de retração do Estado de direito – conquistado a partir da luta das forças democráticas brasileiras –. Contudo. os dados revelam que no ano de 2000 esse coeficiente girava em torno em 0..]” (BRESSER-PEREIRA. E isso CURSO DE SERVIÇO SOCIAL 31 .587 registrados em 1981 (IPEA. de forma bastante clara. competitivas [. Quando o Estado começa a incorporar a racionalidade do mercado e promover reformas que restringem a proteção social estatal. efetivando aquele “Estado mínimo para o social e máximo para o capital”.3% que se encontravam abaixo da linha de indigência. portanto. o modelo neoliberal passa por uma etapa de aperfeiçoamento e de ajuste.3% de brasileiros estavam abaixo da linha de pobreza – aí incluídos os 14. alegam.. Esse mesmo “Estado social-liberal” tornará o mercado de trabalho muito mais flexível..Para fazer frente às condições sociais de reprodução da força de trabalho. promovendo a capacitação dos seus recursos humanos e de suas empresas. 1997. as bases que servem de sustentação para essa matriz neoconservadora revelam. sim. num discurso falacioso. Anos mais tarde. 2006). 10).. se tomarmos como base o coeficiente de Gini – aquele que mensura a distribuição da renda –. com a expansão e a consolidação da hegemonia do capital financeiro no interior do bloco dominante. De forma prática e ideológica. Instaura-se. durante o segundo mandato do Presidente FHC. deflagra-se um processo de mercantilização de grande parte dos serviços sociais. uma dicotomia de direitos entre aqueles que podem pagar pelos serviços sociais e aqueles que não possuem condições de adquirir esses serviços no mercado (LIRA. de que este Estado continua sendo social porque além de proteger os direitos sociais também continua provendo o desenvolvimento econômico. Também é “[.609. 2006). Da herança deixada por FHC ao governo Lula. 1997). porque realizará seus serviços sociais e científicos principalmente através de organizações públicas não-estatais. não a defesa dos direitos sociais. no ano de 2001 33.

reduz benefícios e direitos e abre caminho para a atuação dos fundos de pensão privados (FILGUEIRAS. só que agora. consolidando o que Behring (2003) muito acertadamente denominou de contrarreforma do Estado. A reforma administrativa também favorece a criação de mecanismos de demissão e contratação de funcionários para além dos concursos. Diante dessa contrarreforma. O governo FHC. chega a um patamar não alcançado pelo governo anterior. segundo Filgueiras (2007). Durante o governo Lula.significa que os mais ricos continuavam abarcando grande parte da riqueza social. O carro chefe dessa política é o programa Bolsa Família. também busca anular o conflito político e legitimar o bloco de poder dominante. Adota uma política social focalizada – totalmente ao estilo liberal – e em consonância com as diretrizes do FMI e do Banco Mundial. o que flexibiliza as relações trabalhistas no âmbito do setor público. essas estratégias não conseguem estabelecer um consenso no interior da sociedade brasileira. nas palavras de Oliveira (2006). com muito mais competência. é que as verdadeiras políticas sociais – as de Estado. o país passa a vivenciar um período de inegável minimização dos princípios garantidos com a Constituição de 1988. Entretanto. consegue transformar substancialmente o Estado brasileiro. redefine as regras de aposentadoria. O mais interessante. e não as de governo – mesmo sendo mais eficientes e não fisiológicas. não têm a mesma visibilidade. O que fica claro é que a combinação do modelo liberal periférico com a política social focalizada ao mesmo tempo em que revela a renúncia expressa do governo Lula em pôr fim à pobreza. seguindo a mesma linha adotada durante o governo FHC. tornando-se uma estratégia amplamente utilizada no controle e manipulação política. em face à lógica político-econômica adotada. como aquelas vinculadas à Previdência e à Assistência Social. dá-se continuidade a contrarreforma do Estado – em nome do equilíbrio fiscal – e à reforma da Previdência que. daqueles que tratam das políticas de Seguridade Social. A cooptação material e político-ideológica de um número bastante significativo de lideranças sindicais e partidárias e a adoção de políticas sociais focalizadas. programa esse dotado de um cariz visivelmente assistencialista. nesse governo. É essa alta concentração de renda que leva o historiador Hobsbawn (1997) a caracterizar o nosso país como “monumento da injustiça social”. O governo Lula também não inovou na implementação da política social. vai dar a tônica do momento. especialmente. apenas funcionaliza a pobreza. 2005). manipulado politicamente e que. 32 CURSO DE SERVIÇO SOCIAL .

as demais políticas que compõem o tripé da Seguridade – Previdência e Assistência Social – possuem uma vinculação direta com o trabalho. veremos que ele teve início no governo Collor. aqueles incapacitados ao trabalho. A ênfase atribuída aos programas de transferências de renda. os direitos assegurados. ajustou-se a partir de seu segundo mandato e consolidou-se no governo Lula. e a Previdência tem caráter contributivo e de filiação obrigatória daqueles que possuem vínculo formal de trabalho. fortalecendo profundamente a regulação privada do trabalho. Na implementação das políticas de Seguridade Social. em detrimento de investimentos produtivos e de geração de empregos formais. Com exceção da saúde. às crianças e aos adolescentes. compensando sua incapacidade de reduzir desigualdades com políticas estruturais. têm sua implementação limitada quanto ao acesso dos trabalhadores. aos idosos. Saiba mais Saiba um pouco mais sobre a implementação das políticas de Seguridade Social . CURSO DE SERVIÇO SOCIAL 33 .Explicando melhor Se realizarmos uma análise retrospectiva desse modelo – liberal periférico – implementado no Brasil. ou seja. mesmo tendo como princípio a universalidade. A Assistência – de caráter não contributivo – tem sua atenção voltada às pessoas com deficiência. Todo o conjunto de mudanças estruturais implementadas fragilizaram ainda mais a regulação social.. direitos esses estabelecidos na Seguridade Social e que revelam uma tendência das políticas sociais de atenuar os índices de pobreza e indigência. aprofundou-se no primeiro governo FHC. vai incidir diretamente na restrição de acesso aos direitos do trabalho..

É claro que muitos outros seriam os aspectos a serem destacados na discussão em torno da questão social e do desenvolvimento do sistema brasileiro de proteção social. as mudanças nas condições sociais e de vida da população exigem a ampliação das políticas de Seguridade Social. E isto quer dizer que problematizar a questão social requer inscrevê-la no interior da dinâmica histórica das relações sociais capitalistas. assim. em que sua (re) produção. condensando o conjunto das desigualdades e lutas sociais. Desde a década de 1990. a política social. a questão social se reproduz na cena contemporânea sob novas mediações históricas e sob formas inéditas que se espraiam em todas as dimensões da vida em sociedade. trata-se de um fenômeno complexo e multifacetado. formas de permanência e metamorfoses devem ser pensadas a partir das novas configurações e mediações sociopolíticas. rompendo. historicamente produzido e que assume novas configurações e determinações no contexto atual de reestruturação da economia mundial. o que amplia as necessidades não atendidas da maioria da população. E na contramão desse processo. Ao mesmo tempo. é redimensionada face às tendências de privatização. com aquela lógica de perpetuação da ideologia do favor. as características excludentes do mercado de trabalho. tanto nacionais quanto internacionais. que tende a aniquilar cada vez mais as conquistas históricas dos trabalhadores. nos levam a afirmar que no Brasil a adoção da concepção de Seguridade Social está longe de se concretizar. à medida que muito 34 CURSO DE SERVIÇO SOCIAL . numa universalização do acesso aos benefícios sociais (MOTTA. Produzida e reproduzida no interior de um movimento contraditório.Resumo As tendências aqui esboçadas nos revelam um cenário de nítido cariz conservador. O caminho trilhado nos permite ir além de uma análise superficial. o nível de pauperização de grande parcela da população brasileira. o texto constitucional de 1988 inova ao idealizar a construção de um padrão público universal de proteção social. Resultado de um processo de mobilização sem precedentes na história do país. como política pública e universal. submetida aos imperativos da política econômica. próprias da sociedade contemporânea. da benemerência em detrimento do direito. mas chegamos ao final deste capítulo compartilhando algumas considerações decisivas. a questão social se metamorfoseia. Hoje não se vincula apenas a uma mera distinção entre ricos e pobres. o elevado índice de concentração de renda e as fragilidades do processo de publicização do Estado. para que você possa desvelar alguns aspectos importantes nesta discussão. objetivamente. No entanto. assumindo novas roupagens de acordo com a particularidade histórica de nossa sociedade. redução dos gastos públicos com programas sociais. 2006).

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