P. 1
RESENHA - Compreender - Pierre Bourdieu

RESENHA - Compreender - Pierre Bourdieu

|Views: 1.129|Likes:
Publicado porEverton Santana
Resenha elaborada por Everton Santana Capistrano, aluno do primeiro semestre do curso de Geografia da UNEB - Universidade do Estado da Bahia.
Resenha elaborada por Everton Santana Capistrano, aluno do primeiro semestre do curso de Geografia da UNEB - Universidade do Estado da Bahia.

More info:

Categories:Types, Reviews, Book
Published by: Everton Santana on Jan 19, 2012
Direitos Autorais:Attribution Non-commercial

Availability:

Read on Scribd mobile: iPhone, iPad and Android.
download as PDF, TXT or read online from Scribd
See more
See less

06/05/2013

pdf

text

original

RESENHA

Por Everton Santana Capistrano

BOURDIEU, Pierre. Compreender. A miséria do mundo. Petrópolis, RJ: Vozes, 1997 p.693-713.

Pierre Bourdieu foi um importante sociólogo Francês, nascido em 1 de Agosto de 1930, em Paris. De origem campesina, filósofo de formação, chegou a docente na École de Sociologie du Collège de France. Desenvolveu, ao longo de sua vida, diversos trabalhos abordando a questão da dominação e, é sem dúvida, um dos autores mais lidos em todo o mundo, nos campos da Antropologia e Sociologia, cuja contribuição alcança as mais variadas áreas do conhecimento humano, educação, cultura, literatura, arte, mídia, linguística e política. Em seu texto “Compreender”, Bourdieu aborda questões epistêmicas relacionadas à pesquisa científica, bem como a relação entre pesquisado-pesquisador, e o papel deste último como agente determinante na autenticidade dos resultados obtidos na investigação científica, sempre marcada por dificuldades de comunicação e interpretação, quando o pesquisador não dispõe de conhecimentos técnicos suficientes para reconhecer e controlar tais problemas. O autor se debruça principalmente no paradigma da pesquisa científica, que é a obtenção das condições ideais de pesquisa, onde o intento desta, está embasado na fidelidade ao objeto a ser estudado, é literalmente perseguir a verdade, e tê-la como princípio. “Só a reflexividade, que é sinônimo de método, mas uma reflexividade reflexa, baseada num ‘trabalho’, num ‘olho’ sociológico, permite perceber e controlar no campo, na própria condução da entrevista, os efeitos da estrutura na qual ela se realiza” p.694. Bourdieu propõe uma atitude de reflexão do sociólogo, um entendimento e domínio dos conhecimentos adquiridos das ciências sociais, para que possa, em campo, melhor conduzir a entrevista. É ele o agente condutor da situação, é ele quem precisa determinar as regras e “tentar saber o que se faz quando se inicia uma relação de entrevista, é em primeiro lugar tentar conhecer os efeitos que se podem produzir sem o saber por esta espécie de intrusão sempre um pouco arbitrária...” p.695. Nessa linha de raciocínio, o pesquisador precisa, não só procurar as condições ideais para realizar a pesquisa, mas também criar estas condições visando uma comunicação “não violenta”.

Bourdieu fala ainda da questão da proximidade social como estratégia para uma comunicação “não violenta”, onde as condições de proximidade amenizam os efeitos de distorções sobre o entrevistado, mas que nem sempre essa proximidade social é por si só, suficiente. O sociólogo pode recorrer também a estratégias de “representar papéis”, que consiste em ocupar uma determinada posição social com a intenção de neutralizar as imposições causadas sempre que o pesquisador ocupa uma posição mais alta na hierarquia, bem como diferenças de natureza intelectual e cultural. O autor exemplifica esse fato, “Enquanto um jovem físico interroga um outro jovem físico [...] como o qual ele compartilha a quase totalidade das características capazes de funcionar como fatores explicativos mais importantes de suas práticas e de suas representações, e ao qual ele está unido de profunda familiaridade, suas perguntas encontram sua origem em suas disposições objetivamente dadas às do pesquisado; as mais brutalmente objetivantes dentre elas não tem nenhuma razão de parecerem ameaçadoras ou agressivas porque seu interlocutor sabe perfeitamente que eles compartilham o essencial do que elas o levarão a dizer e, ao mesmo tempo, os riscos aos quais ele se expões ao declarar-se” P.698. Diante das dificuldades extremamente complexas de se alcançar um modelo ideal de investigação, só a reflexividade do sociólogo não asseguram o êxito nos resultados, visto quê o próprio pesquisado pode também, intervir consciente ou inconscientemente para tentar impor sua definição da situação no ato da investigação em seu proveito. Isto posto, muitas vezes é muito difícil para o pesquisador identificar a veracidade das declarações dadas pelo entrevistado. Desta forma, cada um enganase um pouco e um ao outro. O investigador na sua interpretação acredita haver achado as palavras chaves do discurso, e assim, considera autêntica a declaração obtida. Bourdieu considera, ainda, a entrevista como um “exercício espiritual” onde o pesquisador precisa agir de forma solidaria e atenciosa, esquecendo de si próprio e tomando como seus os problemas do entrevistado para que possa, assim, adquirir a capacidade de compreender os pressupostos do pesquisado tal como eles são. Mas não se trata de manter a neutralidade do pesquisador, trata-se de ter o pesquisado como sujeito principal da relação. Desta forma, o pesquisador abre espaço para que o pesquisado exprima-se sem os constrangimentos que pesam sobre as trocas cotidianas, que tem origem social. A entrevista torna-se uma oportunidade para que o pesquisado faça-se ouvir, revelando seus mal-estares, sua visão de mundo e suas necessidades que acabam fluindo naturalmente. “O pesquisador cria as condições para um discurso extraordinário, que poderia nunca ter tido e que, todavia, já estava lá, esperando suas condições de atualização” p.704.

A obra de Bourdieu aqui resenhada é de extrema importância para compreender-mos a estrutura das relações de pesquisa entre pesquisador e pesquisado e os métodos a serem aplicados na pesquisa científica para obtenção de resultados autênticos. Dá-nos uma visão ampla das possibilidades que temos para criar uma comunicação ideal e adverte-nos sobre os cuidados que devemos tomar no ato da investigação, como na conservação da opinião e identidade cultural do nosso objeto de estudo.

You're Reading a Free Preview

Descarregar
scribd
/*********** DO NOT ALTER ANYTHING BELOW THIS LINE ! ************/ var s_code=s.t();if(s_code)document.write(s_code)//-->