Desempregados não pagam dívidas

Respostas para a compreensão da conjuntura política portuguesa
José Ferreira http://falaferreira.wordpress.com

Como caracterizas o momento por que estamos a passar? Obviamente é uma crise cíclica do capitalismo. Podes explicar? Repara uma coisa. Todo a empresa busca o lucro. Mas de ano para ano é mais difícil obter lucro. Então o que fazem os capitalistas? Despedem trabalhadores. Ganham alguma coisa com isso? Não! Perdem apenas clientes. Podiam fazer diferente? Só se quisessem não ter lucro. Mas não podiam fechar a fábrica? Imagina um país com 10 fábricas, cada uma com 20 trabalhadores. Fechar uma fábrica é igual a despedir dois trabalhadores em cada fábrica. As duas formas de “despedir” trabalhadores acontecem na crise. Mas porque é que o lucro fica mais difícil de obter? Posso-te explicar com matemática?

Podes. Olha, é assim. O lucro (L) é igual à mais-valia (mv) a dividir capital investido (k). Certo? Ao mesmo tempo, a produção (P) é igual aos salários somado (S) à mais-valia. Então: (1) L = MV / k (2) P = MV + S Por outro lado, a produção é igual às vendas (V). Uma tonelada de laranjas não vendidas é igual a uma tonelada de laranjas podres. Cem caixas de sapatos não vendidos são cem caixas de sapatos a ganhar pó. O empresário só é pago pelo que conseguiu vender. Mas quem compra senão os trabalhadores?! Portanto: (3) P = V = S (4) MV + S = S Obviamente isso é impossível! MV + S não pode ser igual a S. Mas pode ser igual a S mais qualquer coisa. A questão é: o que é essa qualquer coisa? Numas alturas é os salários dos trabalhadores que constroem fábricas. Ou seja, esse “qualquer coisa” é o investimento (I). (5) MV + S = S + I (6) MV = I A mais-valia é igual ao investimento1. Ou seja, para haver lucro é necessário que a produção cresça continuamente. E, obviamente, a produção não pode crescer continuamente. Nesse momento as fábricas começam a falir ou a despedir trabalhadores. Estamos em crise. Pois sem investimento, o lucro é zero. E se o lucro é zero as empresas fecham. Quando falirem suficientes, os empresários voltam a investir. Não sem que antes toda a população tenha conhecido a miséria. Então é isso que está acontecer… Quase! Falta explicar a dívida. Keynes descobriu que “qualquer coisa” de que te falava também pode ser dívida. Quando, em 1970 os empresários deixaram de investir, o Estado começou a endividar-se, normalmente para construir estradas. E foi mais longe: na década de 1990 inventou o crédito bonificado à habitação. Nesse momento o “qualquer coisa” passou a ser a dívida (D). (5’) MV + S = S + D (6’) MV = D Assim, o ciclo económico tem duas fases. Num a economia cresce mais do que se endivida; na outra endivida-se mais do que cresce. Nós estamos a endividar-nos desde 1980 e, em especial, desde 2000. Em 2008, paramos de nos endividar e as empresas começaram a falir abruptamente. Explica-me duas coisas. Porque é que os empresários pararam de investir? E porque é que o Estado lhes fez o favor de endividar-se?

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Ver Michael Kaleci, “Teoria da dinâmica económica” – Keynes e Kalecki. São Paulo, Abril Cultural, 1978

Os empresários, quando investem, vão produzir mais. Só o farão se forem vender mais. E entre 1940 e 1970, os EUA importavam muito. O mundo exportava para enviar para lá. Em 1970, o mercado norte-americano atingiu o limite máximo da sua capacidade de consumo. Aquelas bocarras não conseguiam comer mais. Obviamente, nenhum governo quis assumir a crise económica. Assumir uma crise económica é enfrentar a calamidade social do desemprego. Então o que fizeram? Endividaram-se para adiar a crise. Arranjaram forma das pessoas se endividarem também – créditos à habitação; cartões de crédito, etc. E quando não puderam endividar-se mais… era o ano de 2008. Mas a China, o Brasil… Claro. As coisas são sempre mais complexas. Os empresários não podiam aumentar os lucros vendendo mais, tentaram produzir mais barato. Como? Produzindo fora dos países centrais. Assim, ao mesmo tempo que o crescimento mundial desacelerava, ele acelerou na China e no Brasil. Mas agora que a economia está a decrescer, esses países vão enfrentar problemas. Sabemos que o Brasil não vai crescer em 2012. Da China sabemos pouco. Mas sabemos que há nove meses que está a gastar um terço do carvão que gastava antes. E a corrupção? Qual o papel que joga nisto tudo? Obviamente, quando as coisas ficaram pretas, cada capitalista tentou safar-se como pôde. As coisas estavam mal desde 2004. Os bancos mentiram nas suas contas e ganharam mais quatro anos. A vida estava a ficar difícil para os governos já em 2000. Os burgueses subornaram os políticos para ele se continuarem a endividar. Por outro lado… Por outro lado… Olha! Por outro lado temo que o discurso da corrupção sirva para defender o capitalismo. O problema deixa de estar no sistema… Culpa-se Cavaco! Culpa-se Sócrates. Desculpa-se o capitalismo. Afinal, o que é o capitalismo? Ninguém parece saber. Às vezes parece-me que a corrupção é o bode expiatório do capitalismo. Critica-se fulano para não explicar as fórmulas que te expliquei acima. Essas fórmulas mostram que mesmo com os políticos mais honestos e os empresários mais responsáveis, o capitalismo entra sempre em crise. Qual deve ser o papel da esquerda actual? Deixa-me avisar-te! Vamos mudar de nível de análise. Até aqui temos falado sempre do nível global. Agora vou falar-te apenas de Portugal. Acho que não há uma resposta geral a essa questão. É preciso pensar de país para país… e mesmo saber, dentro de cada país, a que regiões dar prioridade. Certo... Agora, o que a esquerda deve fazer? Bom! Penso que a esquerda deve corrigir o modo como define a sua estratégia política. Como assim? Vê bem! Uns dizem que devemos sair do euro porque é um projecto imperialista da Alemanha? E de facto é. Até ao euro a Espanha e a Itália usavam a desvalorização da moeda para competir com as empresas alemãs. O euro travou isso. A Grécia e Portugal, sejamos francos, meteram-se porque quiseram ser importantes. Mas

também há outros que dizem que sair do euro é um suicídio. Importamos arroz, leite, pasta de dentes, batedeiras eléctricas, tudo. Com o regresso ao escudo, tudo o que importamos vai ficar quatro vezes mais caro! Então, para ti, qual é a solução? Não se trata de soluções. É uma forma equivocada de colocar a questão! Ãh!!! Deixa-me tentar explicar-me. Não é fácil. Jogamos sempre no terreno da burocracia burguesa. Perguntam-nos? Qual a solução para a crise e nós respondemos. E depois a esquerda diverge acerca se a solução é mais assim ou mais assado, quando essas coisas só podem ser vistas na prática. Como, fora do governo, não podemos pô-las em prática, passamos a vida a dizer: “eu sou mais radical que tu?”. Mas não achas que a esquerda devia ter uma solução para a crise? Já tem: a revolução socialista! Os pormenores serão somente definidos na prática. A questão agora é como fazê-la. Sim! A questão agora é como fazê-la. Não podemos somente esperar que aconteça. O Apocalipse anuncia-se. A Revolução prepara-se. Também por isso a questão está mal colocada. Em vez de andarmos a debater o que faríamos se estivéssemos no governo, deveríamos estar a discutir qual é o próximo passo na no caminho da revolução. E arriscamo-nos a concluir que é necessário recuar tacticamente. Marx e Lenine já diziam: não se pode ser revolucionário sem as massas. E se as massas não estão firmes para suportar um programa mais radical, é preciso que nós defendamos um programa mais atrasado. Mas somente um programa que ele conduza à radicalização das massas. Então, o que deve ser feito? Antes de mais, a análise da correlação de forças entre as classes. Mas vou mais longe. Já não podemos colocar a questão em termos de relações de classes. Temos de prestar muita atenção às relações entre fracções de classe. Sublinho: fracções de classe. Por isso te dizia que devíamos falar somente de Portugal. Pois. A adequação do marxismo-leninismo a cada país… A adequação do marxismo-leninismo a cada país não pode ser uma expressão vazia. Ela só tem sentido se assumirmos que a relação entre classes muda de país para país. E essas diferenças só se tornam visíveis se pensarmos em temos de fracções de classe. Os partidos actuais não estão a fazer isso? Não. Infelizmente essas análises são cada vez mais raras. Então? O que andam a fazer os partidos que se dizem de esquerda? Bom. Começo-te pelo mais fácil: o Bloco de Esquerda. E reconheço que é um partido de esquerda. As posições que tomam são de esquerda. Mas a forma como as propõem à sociedade não. Como é que os partidos de direita funcionam? Apagam um mau resultado com uma mudança que é só aparente. Elegem um novo líder que

defende o mesmo que o anterior. Com isso conseguem pequenas variações na distribuição de votos que permite o PS alternar com o PSD. Que está a fazer o BE? Compreendendo a sua incapacidade para opor-se à direita lança o Congresso das Esquerdas. Mas o que é o programa deste congresso senão o programa do BE? O diálogo pela unidade, a unidade pela unidade e objectivos pouco claros. Se não funcionou desde a fundação do BE, porque irá funcionar a partir de agora? E o PCP? Talvez a melhor forma de compreender a postura do PCP seja compará-la com a do MAS (o grupo trotskista que, recentemente, se desligou do BE). O MAS define a sua estratégia perguntando-se “o que quer a classe operária?”. A resposta só pode ser equivocada porque esta pergunta coloca a classe operária entre parêntesis. A classe operária nunca existe em-si, mas na relação com as outras. Uma classe entre parêntesis só existe na imaginação de quem faz a pergunta “o que quer essa classe?”. E as respostas são as que essa pessoa quer ouvir, a despeito da própria realidade. Ou seja, qualquer estratégia política que saia daqui só é correta por sorte. Ok. E o PCP? Já o PCP fala em democracia avançada. Trata-se de uma formulação de Álvaro Cunhal para conduzir o partido durante a Revolução de 1974. Uma aliança entre os operários e certos sectores da classe média. Em especial, os níveis intermédios do exército – por isso, a aliança povo-MFA. Mas incluía também os funcionários públicos e os profissionais liberais representados que foram a base do Partido Socialista nessa época. Não vou discutir se foi certo ou errado na época. Sei que 38 anos depois dificilmente continua pertinente. Aliás, deixa-me dizer-te, é uma posição que comete o mesmo erro do PCTP/MRPP. No 25 de Abril, o MRPP criticou Álvaro Cunhal dizendo que uma aliança verdadeiramente revolucionária teria de ser entre o proletariado e o campesinato pobre. Importavam para Portugal a fórmula de Lenine para a Rússia de 1917. Como é que se pode errar assim? Afinal a história avança. Não é uma desactualização. Isso é o discurso da direita sobre o PCP e o PCTP. Trata-se, antes, de um erro teórico. Ambos tomam a aliança de classes como um princípio, um valor do partido. Ora, isto não tem nada de marxista. A definição do motor da luta de classes, isto é, da aliança revolucionária, é o elo que liga a análise teórica à acção prática. Ao definir, como princípio, o motor da luta de classes, estes partidos deixam de reflectir sobre a realidade. Todas as análises que fazem são truncadas de modo a não mexer naquele princípio – deixa-me dizer-te – de fé! E qual é o motor da luta de classes na tua análise? Para isso temos que saber como a sociedade está organizada em termos de classes e fracções de classe. E, obviamente, eu terei de me concentrar apenas em Portugal. Já disse isto duas vezes e volto a dizer-te. Outro suposto: em Portugal, a relação de classes começou a mudar a partir de 2008. Volto ao que te disse lá trás. Desde a década de 1985 que o lucro dos empresários portugueses depende da divida do Estado. Vou ser mais preciso. Desde que Cavaco e Silva foi Primeiro-Ministro… Bom, como é que a sociedade portuguesa está organizada a partir de 2008? Vou começar pela classe burguesa, ok? A política de Cavaco privilegiou um sector que foi a construção civil. Isto tem toda a lógica – do ponto de vista capitalista, é claro – pois é o sector que gera mais emprego por cada

milhão investido. Obviamente, se o Estado se endividava, a banca estava envolvida nisto. Por outro lado, o turismo entrava neste esquema para tentar equilibrar a balança comercial. Importávamos tudo e não podíamos exportar estradas nem casas. Não é por acaso que se fizeram a Expo 98 e o Euro 2004. Deu para os três grupos: construtores, banqueiros e operadores turísticos. E o que aconteceu em 2008 Na verdade começou em 1999. As pessoas começaram a deixar de comprar casa. Logo, a estratégia começou a não dar certo. As estatísticas mostram que os empresários portugueses começam a deixar de investir em 2002. Ou seja, aí vivemos somente de dívida. Lembra-te da matemática lá trás. Entre 1983 e 2002, tivemos alguma dívida e algum investimento. A partir de 2004 muita dívida e quase nada de investimento. E em 2008 foi a crise da dívida… Sim. E foi a revolta daqueles que tinham ficado de fora. As grandes cadeias de supermercado. Lembra-te das críticas de Soares dos Santos a José Sócrates. Mas, como se tem visto agora, o sector da metalomecânica começou a ganhar voz e poder na política portuguesa. Para começar, as duas maiores empresas a laborar em Portugal são alemãs: a Wolksvagen e a Bosh. Foram estes sectores que ficaram de fora do governo entre 1985 e 2011 que derrubaram José Sócrates. Soares dos Santos liderou; a Comissão Europeia – o bom representante da banca franco-alemã – apoiou; e Passos Coelho recebeu o governo de bandeja. Não obstante, começa a sentir-se uma mudança. Estes tiveram de apoiar os bancos. Uma economia capitalista não funciona sem bancos. E estes tornaram-se os maiores aliados da banca internacional. Vê quem fala agora em austeridade? Fernando Ulrich do BPI… depois de afirmar que só em Março de 2011 achou necessário o FMI. Isto é, depois de defender Sócrates até já não dar mais. Os que derrubaram Sócrates começaram a ser passados para segundo plano. E o que fazem agora Soares dos Santos, a Wolksvagen e a Bosh? Wolksvagen, isto é, Autoeuropa… Soares dos Santos calou-se, ou foi-se embora. O sector da metalomecânica é quem tem apoiado Passos Coelho a garantir o bom-nome de Portugal na Alemanha. Vamos ver se pelo caminho não se zangam com os bancos. Foi isso, parece-me, que aconteceu na Grécia. Os industriais zangaram-se com a banca europeia e começaram a gritar que a austeridade não passava de um experimento alemão. Com isso estenderam o tapete vermelho ao Syriza. Mas eu acho difícil que isso aconteça em Portugal – embora o Louça roa as unhas por isso. Os “nossos” industriais são alemães. Já chega de falar dos burgueses. O que tens a dizer sobre os trabalhadores? Era preciso falar dos burgueses para falar dos trabalhadores. Na minha opinião, a forma como os burgueses estão à procura de soluções para a crise influencia muito a consciência dos trabalhadores. Afinal é disso que eles ouvem falar nas televisões. É verdade. Mas tu não disseste nada sobre isso. Como é que os burgueses estão a resolver a crise? Não estão a resolver. Mas já lá vamos. Acho que fica mais claro se te fizer um pequeno mapa das fracções da classe trabalhadora, assim como te fiz da classe burguesa.

Força. Saímos de Verão Quente com sindicatos organizados em todos os sectores. Mas as décadas de 1980 e 1990, boas para o capital – que pode melhorar a qualidade de vida das pessoas –, foram más para a luta. O Estado cresceu, contratou professores, médicos, juízes, etc. Os trabalhadores preferiram mandar os filhos estudar para ser doutor que manifestar-se por melhores salários. Por outro lado, no sector privado o trabalho foi reorganizado de modo a dificultar a actividade sindical. Explica isso melhor! Como é que os sindicatos foram prejudicados? Deixa-me dar-te um exemplo. Vou falar-te da Cimpor! Eu acompanhei o processo pelo meu pai. A primeira coisa que fizeram foi não manter as mesmas pessoas nas mesmas equipas durante muito tempo. Equipas de 10; a cada seis meses dois mudavam de equipa. Assim minaram as relações de solidariedade entre as equipas. Por exemplo, os jantares de Natal deixaram de fazer-se. E como é que isso mina o trabalho sindical? Se formos honestos, a unidade das equipas implica também a rivalidade entre equipas. Lembro-me do modo como os colegas do meu pai, antes dessa reorganização, falavam mal dos outros trabalhadores de outras equipas. Mas, para o sindicato, isso não é problema. Basta ter um homem de confiança em cada equipa e ele traz os outros. A partir do momento em que essa unidade se perde, torna-se necessário ir trabalhador por trabalhador. Entendi. Mas isso não é tudo. Depois demitiram trabalhadores e contrataram pequenas empresas que faziam o trabalho. Mantiveram um número mínimo de funcionários da empresa para os postos mais cruciais da linha de produção. Obviamente, os trabalhadores dessas pequenas empresas não protestavam nem eram sindicalizados. Finalmente, eles inventaram os prémios de produtividade que os sindicalistas não ganhavam. Quem queria ser delegado sindical assim? Ou os comunistas ou gente com problemas com o patrão. No segundo caso, a imagem do sindicato saía prejudicada. E finalmente começaram a arranjar problemas aos delegados sindicais. Ao mínimo descuido, levavam com um processo disciplinar em cima. E qual foi a consequência disso? A consequência é que hoje os sindicatos fortes estão na função pública ou em empresas públicas. O sindicato dos ferroviários; o STAL (trabalhadores das câmaras municipais) e o sindicato dos professores – a FENPROF. E então? Então tens a primeira fracção da classe trabalhadora a considerar: os trabalhadores do Estado. Esta é a escora onde assenta a CGTP. As outras? Quais são? A segunda fracção que devemos considerar são os que fizeram a manifestação de 12 de Março. São jovens, com licenciatura e sem emprego ou com um emprego num call center ou na caixa de um supermercado. Têm pouca vontade de ser organizar em algum sindicato de uma profissão que certamente detestam. Não é por acaso que a

manifestação se dá em 2011. Em 2010, o desemprego entre professores e formadores de formação profissional duplicou. E mais? E mais nada. O resto da massa trabalhadora é arrastado ou por um ou por outro grupo. É triste ver que, sendo a construção civil o sector mais afectado pela crise, não se vêm pedreiros a liderar algum protesto. Nem organizados em sindicatos; nem eclodindo num movimento espontâneo. E tu o que concluis de tudo isto? Concluo que a situação é favorável à burguesia. Respondo-te à pergunta que me fizeste há pouco. Qual é a solução que ela propõe, agora com Passos Coelho, para a crise? Reduzir a despesa do Estado; cortar salários e aumentar as exportações. Não é irracional de todo. Portugal produziu estradas e importou o resto. Como não dá para exportar estradas, endividou-se ao estrangeiro nos últimos 20 anos. É preciso pagar a conta. Como: comendo menos e exportando mais. E não é verdade? Ainda que se fosse verdade, não seria justo. Os trabalhadores é que estão a pagar pelos erros da burguesia. Já cortaram nas PPPs? Nas rendas da energia? Das fundações? Há um sentido de classe quando se define que deve “comer menos”. Mas, na tua opinião não é verdade?! Não. Nós sempre “comemos pouco”: o salário médio português é 60% do salário médio espanhol. O problema é que nunca houve indústria em Portugal. A pouca que houve no tempo de Salazar foi ajudada pelo Estado que impedia a importação. Com a adesão à Comunidade Europeia, o governo deixou de poder ajudar a indústria assim. E ela faliu! O problema é esse. A austeridade só agrava o problema. Então, para ti a austeridade não funciona? Não sou eu que o digo. É a realidade. O IVA aumentou de 21 para 23% e o Estado perdeu dinheiro. As lojas venderam menos ou fugiram mais aos impostos. Mas os trabalhadores não estão a protestar? Protesta-se menos que na Grécia ou em Espanha. Olha, sei pouco do que se passa nesses países. Mas posso dar-te a minha explicação sobre a “apatia” dos portugueses. A queda de Sócrates, para a qual toda a sociedade contribuiu, cimentou a ideia que o Estado gastou demais. O discurso de Passos Coelho foi aceite. A esquerda concordou com isso? Não! Obviamente que não. A CGTP já fez duas greves gerais. Mas qual é o efeito político – ou, mais exactamente, ideológico – de fazeres uma greve geral onde predominam os funcionários do Estado, quando toda a gente crê que o Estado gastou demais? Os funcionários públicos acabam apenas por merecer o escárnio dos trabalhadores do sector privado. O governo, e em especial Paulo Portas, tem sabido aproveitar-se disso. Afirmam: “Vêem porque o Estado gasta demais? Os funcionários públicos não trabalham”. Afinal, como te

disse, a CGTP representa apenas uma fracção da classe trabalhadora. É claro que está organizada em todos os outros sectores. Mas tem dificuldade em arrastá-los para as suas lutas, como se vê a cada greve geral. Qual é a solução? Abandonar esses sindicatos e fortalecer os do sector privado? Nem tanto. Isso é como saltar e um barco em alto mar sem ter outro ao lado donde cair. Mas podíamos usar os sindicatos que temos para ajudar a fortalecer os outros. Os jovens que fizeram o 12 de Março aparentam ser a fracção da classe trabalhadora mais disponível para radicalizar o processo de luta. Seria necessário organizá-los a partir dos sindicatos existentes. Como fazias isso? Antes de responder-te a essa questão, gostaria de abordar um aspecto importante deste grupo. Eles são jovens que pretendiam chegar à “aristocracia operária” e não conseguiram. Em resultado da crise, vêem-se jogados nas camadas baixas do proletariado. A maioria está desempregada; os outros estão em empregos que não gostam. Em suma, é uma fracção da classe trabalhadora em queda e desorganizada. A situação perfeita para o afloramento do fascismo. Se não conseguirmos organizá-los, o agravamento da crise pode levá-los a mobilizarem-se novamente a arrastar os trabalhadores em direcção ao fascismo. Mas o fascismo não é a ideologia da extrema-direita? Às vezes, a oposição entre direita e esquerda confunde-nos. Este é um caso desses. Nós tendemos a associar a oposição entre esquerda e direita à oposição entre trabalhadores e burgueses. Assim, se o liberalismo é a ideologia dos burgueses, o fascismo é a ideologia da alta burguesia. Não é bem assim. O fascismo é a ideologia das classes médias assustadas… Deixa-me interromper-te. A classe média é uma classe? Não. A classe média é a fracção da classe trabalhadora que, quando a vida corre bem ao capitalismo, consegue sair da sua condição miserável. Seja porque, obtendo um curso, obtém os melhores empregos – a “aristocracia operária”. Seja porque montam um pequeno negócio e formam uma nova classe, a pequena burguesia. E acabam por recusar ver-se como operários. O problema é que nas crises capitalistas eles são atirados de novo para o proletariado. Ficam desamparados e terrivelmente assustados. E uma pessoa assustada torna-se conservadora. Quer de volta o passado onde ele se sentia confortável. Começa a gritar que foi roubada, etc. São incapazes de compreender a causa da nova situação em que se encontram. Essa é a génese o fascismo. Estás a dizer que o fascismo não é uma ideologia burguesa? Não, não é. Embora a burguesia se aproveite dela. Numa situação em que a burguesia vê o seu poder ameaçado, não tem problema nenhum em apoiar-se no discurso fascista para chegar de novo ao poder. Olha o caso do PASOK na Grécia. Disseram “é preciso expulsar os estrangeiros para resolver a crise”. Acreditam nisso? Claro que não! Mas sabem que dá votos. Passos Coelho está a fazer o mesmo. Assim que viu que parecer-se com Salazar dá votos, começou a fingir parecer-se com ele. Mas a esquerda tem denunciado isso. Sim. A esquerda tem feito essa campanha a Passos Coelho.

Então o fascismo é uma ideologia dos trabalhadores assustados, que ficam à mercê da manipulação burguesa. Mas porque quiseste falar sobre isso? Porque aqueles que fizeram o 12 de Março são um movimento perigoso. Se os organizarmos serão um movimento perigoso para o capital. Se os deixarmos a si mesmos serão um movimento perigoso para nós, para a esquerda e para os trabalhadores. Podem arrastar o país no caminho do fascismo. E a esquerda não está a fazer nada sobre isso? Sim, mas muito timidamente. Parece-me que o PCP tem algum trabalho na zona do Grande Porto e ajudou a surgir o Movimento dos Trabalhadores Desempregados. Em Lisboa existe o Movimento Sem Emprego, dinamizado pelos trotskistas do MAS. A FENPROF quer organizar os professores desempregados. Mas são iniciativas demasiado pequenas para a urgência que existe em organizar esta fracção da classe trabalhadora. O que propões que se faça então? Como em tudo, pormenores, só podem ser decididos por quem anda no terreno. É preciso acelerar este processo. Obviamente, sem colocar em causa o trabalho já feito. A FENPROF não pode deixar de organizar os professores para organizar desempregados. Mas esses equilíbrios só podem ser feitos na prática. Eu não poderia dizer-te duas palavras sobre eles. A única coisa que posso falar-te é acerca da palavra de ordem. Palavra de ordem? Qual é a importância da palavra de ordem? Porque tem de traduzir a análise da realidade que fazemos. Explica-me isso melhor. Bom. Recorda o que te disse: o diagnóstico de Passos Coelho está é actualmente aceite; as coisas estão a correr bem à burguesia. Portanto, como o grupo que – segundo esta análise – é mais capaz de liderara luta de massas pode romper como aquele consenso? Como? DESEMPREGADOS NÃO PAGAM DÍVIDAS. Mas isso não é defender o pagamento da dívida? Gritar “não pagamos” e não fazer nada para unir os trabalhadores é a melhor forma defender o pagamento da dívida. Por vezes, para obter o que queremos, é preciso saber exigi-lo. Recuos tácticos são necessários. De qualquer modo: um recuo táctico não é fazer o jogo da burguesia? Não se, como te disse acima, for um recuo que tem como objectivo fazer a luta avançar. Obviamente, de boas intenções está o inferno cheio. Mas temos de assumir que não temos o mesmo acesso à comunicação social que a elite dominante. Temos de saber andar à boleia do discurso deles. Se Passos Coelho diz que os compromissos são para ser honrados, nós respondemos-lhes: desempregados não pagam dívidas. É a forma de colocar a nu a falácia do discurso dominante. Creio que esta estratégia terá o efeito contrário das greves gerais. Em vez de dividir a classe trabalhadora em funcionários do Estado e trabalhadores do sector privado, os unirá em torno do combate ao desemprego.