O Chile pós-Pinochet é o mais longe que a globalização expansionista conseguiu chegar com sua espécie raivosa

e espumante de cauterização hipodérmica na América do Sul. E Santiago sorve somente a nata glamorosa dessa esquizofrenia masoquista e homogeneizante. Nada pessoal, mas isso estava começando a dar no saco. Eu vivia na capital chilena há pouco mais de um mês e meio e esse foi o tempo suficiente para a herança econômica dessa porra toda limpar meus bolsos até o último e doloroso peso furado. Objetivamente, isso significa que o mês de aluguel que eu pagara antecipadamente com minhas paupérrimas economias já havia terminado há 15 dias, e o dono da pensão não era, propriamente, um bom samaritano. Eu realmente precisava de um lugar barato, muito barato, pra morar. E com urgência. Pelas minhas contas, conseguiria bancar alimentação e transporte vendendo alguns artigos. O problema estava nos caraminguás extras com aluguel e cerveja. Foi então que, caminhando a esmo pela cidade, conheci o espaço Circulo: precinho bacana, pessoal muito bacana, localização nem tão bacana assim, ou seja, bem longe dos bacanas. É um bom lugar para se viver se você não for daqueles xiitas que se importam com as aulas de

circo, ioga e kalai a alguns passos do seu quarto. Eu não me importo, por isso resolvi juntar minhas tralhas numa mochila e partir para lá no mesmo dia. Algo me capturara quando pisei no Circulo; talvez fosse aquele clima flower power jubilado, a excitação aurática sempre flambando no ar, ou talvez eu estivesse encantado com a pequena plantação de maconha no quintal. Todo maconheiro gostaria de ter uma dessas, mesmo por uma temporada. Convencido, logo firmei contrato. Contrato verbal, poxa, aqui todo mundo é boapraça, e o modelo econômico mais popular é o escambo. Descolei um quartinho nos fundos, joguei a mochila num canto e já terminava de organizar as coisas quando reparei que alguém se contorcia como um macaco no galpão central. Larguei tudo para descobrir o que estava acontecendo. Era Domingo, um dos esporádicos moradores do Circulo, chileno, professor de kalai e dono da plantação de maconha. Dos 30 anos que leva, agora nos dreads compridos e no visual neo-hippie, foram 15 dedicados à ioga e três ao kalai. De imediato nos tornamos amigos: ele é um sujeito tão zen que não consegue sossegar; já eu sou um cara tão sossegado que não consigo ser zen.

Durante a primeira noite que passei no Circulo, Domingo resolveu enrolar uma mistura de maconha com salvia vinda diretamente de Oaxaca, no México, e me convidou para compartilhá-la enquanto contava a experiência que mudou sua vida: “Foi há três anos, eu resolvi subir a montanha e completei a primeira etapa”. Subir a montanha não é um desafio muscular de alpinismo e técnica, na verdade significa que ele passou pelo “ritual de purificação”, que consiste em quatro etapas, todas feitas no alto das montanhas. Na primeira parte deste ritual, e a única que Domingo pode suportar, a pessoa deve se manter por quatro dias sem comer nem beber absolutamente nada. A segunda etapa é para aqueles que resistiram, já que ao quinto dia leva-se uma pequena porção de frutas e uma garrafa de água com medicina, normalmente feita com peyote. A terceira fase é para aqueles que chegam ao sétimo dia, quando se pode ingerir mais uma mínima porção de frutas e milho, e se recebe duas garrafas com um total de dois litros de água pura. A quarta e última etapa começa com as esfoladas e persistentes almas que alcançaram o décimo dia, o momento de receber mais um tanto de frutas, milho e um pedaço irrisório de carne. O ritual termina no

décimo terceiro dia. ”O que você sentiu depois desses quatro dias?”, perguntei sugando a fumaça para a traquéia. ”A liberdade, irmão, a li-ber-da-de!”, respondeu com um sorriso afetado. “Acho que eu sentiria fome”, costurei já percebendo que a maconha, naquele cigarro, era apenas o calmante temperado para alguma espécie de alucinação arbitrária, potente, que chega flanando e te esmurra os miolos. “Na verdade, você sente sede. Você sente tanta, mas tanta sede que esquece a fome”, prosseguiu, “e é então que você percebe que a água é a coisa mais preciosa do mundo”. A Coisa Mais Preciosa Do Mundo é uma espécie de filosofia de boteco que Domingo leva realmente a sério. A diferença é que não é uma filosofia, mas um mantra empírico; além do mais, ele não é um botequeiro, mas um pequeno agricultor cheio de talento. Tudo começou há cinco anos, quando ele optou por doze meses de celibato voluntário e ortodoxo. Quando o acúmulo de sêmen começou a afetar sua sanidade e os hormônios já davam um barato maior que a heroína, ele começou a ver demônios nas mulheres, sua lacividade queria desviá-lo do caminho, aquelas curvas, a pele macia,

o beijo, o carinho, a foda e os arranhões e lambidas e demônios, demônios servindo seu desejo numa vagina úmida de perdição, numa gozada imparável de carne e provação. Quando elas venceram, afinal, elas sempre vencem, Domingo percebeu que as mulheres eram, na verdade, a coisa mais preciosa do mundo. Desafios parecidos aconteceram com seu tabaco com palo santo, que também é A Combinação Mais Preciosa do Mundo; e a maconha que viu crescer e que, agora, mesclada com salvia e aquelas notas esquisitas que soavam desde o rádio canções da Mongólia são A Coisa Mais Preciosa do Mundo. “Cara, eu vou pro meu quarto, não tô me sentindo nada bem vendo homenzinhos amarelos correndo de um lado pro outro e decolando cada vez que você acende a porra desse isqueiro”, eu já me resignara aos deliciosos maltratos da erva de Oaxaca que cutucava minhas têmporas como britadeira. Domingo sorriu e perguntou: “A primeira vez com salvia?”, mas nesse momento eu já cambaleava em direção a minha cama sem conseguir articular uma resposta sã. Era minha primeira vez com salvia, era minha primeira noite no Círculo. E foi uma madrugada difícil…

Na segunda noite, Domingo me apresentou outro morador do espaço, um rapaz equatoriano de nome Jorge, alto, moreno e suave. Ele me chamava de “compadre” e possuía um carisma místico encantador. Em menos de 20 minutos de conversa me convidou para participar do ritual “El Espíritu Del Contrario”. Não tinha idéia do que se tratava, apenas me senti lisonjeado e topei o convite ao ser interpelado pelas seguintes palavras: “experimentei em você uma confiança de irmão, compadre, gostaria de me acompanhar esta noite num ritual do meu povo?”. Domingo estava ao meu lado, abriu um largo sorriso ao escutar aquele chamado e assim que Jorge pediu licença para se preparar para o ritual, me carregou para um canto e disse: “Você precisa de equilíbrio espiritual para participar de uma celebração como essa, ela é muito importante e difícil, vou preparar um presente para você”. Então, pilou mais um enorme baseado como o da noite anterior. “Mas dessa vez com uma dose extra de salvia. Acredite, você vai precisar”. Aceitei aquele relaxamento arbitrário devido ao seu nobre propósito. Fumamos em silêncio, segundo Domingo, essa era a regra para que meu espírito cultivasse a calma e a

paciência necessárias para não colapsar numa hecatombe egoísta quando percebesse quão complexa era sua profundidade, e quão profunda era sua complexidade. Eu estava receoso, a madrugada anterior me trazia lembranças nada agradáveis dos efeitos da salvia, mas logo concluí que o melhor era relaxar e esperar pelo pior enquanto curtia a paisagem daquela esquizofrênica jornada por meus próprios devaneios.

Estamos no meio da montanha, em direção aos Andes, numa casinha de madeira decorada com temas indígenas cuspindo bênçãos clandestinas em Santiago. Havia umas 40 pessoas entre homens descontraídos e compadres, mulheres lindas e seus vestidos rodados e moletons de lã, quatro crianças e o bebê mais sossegado do hemisfério sul. Enquanto os iniciados preparavam a celebração, eu ajudava a ralar palo santo na roda dos fumantes. As 22h, Dom Arturo, o xamã, anuncia: “Todos ao círculo, por favor, a celebração vai começar”. Apesar de seu tom conciso e dos movimentos ensaiados, é um senhor moderno: da cintura para baixo jeans e All Star vermelho; da cintura para cima, um traje indígena típico com direito a longos cabelos e tranças adornadas em fitas coloridas. E uma cerveja gelada na mão, para preparar o fígado. Seguimos em direção leste pela escuridão, porém, por conta do baseado de Domingo, eu ainda me sentia bailando tango numa roda gigante. De repente, avistei algo-estranho-estranho-mesmo-eamarelo-fosforescente subindo a montanha, algoestranho-tão-estranho que me congelou. Cutuquei Loretto.

“Acho que são lhamas, Loretto, eu nunca vi uma lhama, por que essas são amarelas? E por que fosforescentes?”. “Lhamas não podem ser amarelas, muito menos fosforescentes”, explicou Loretto com a paciência expansiva dos remanescentes hippies. “Mas olha lá, lá em cima, é enorme!”, eu apontava para um bloco amarelado e dançante que a salvia de Domingo teimava em nublar no meu horizonte. Suspeitava que fossem novamente os homenzinhos amarelos da madrugada anterior, mas dessa vez eram fofos, incrivelmente fofos, e não aterrorizantes como aqueles gnomos incendiados. “Tenho a impressão de que é só a casa do vizinho, Junior”, afirmou acelerando o passo. “Loretto, você falou comigo? Loretto, era uma lhama, não era?!”, agarrei-a pelo ante-braço, era uma lhama, tinha que ser uma lhama, caralho, os gnomos incendiados me seguiram, era uma lhama, “Loretto, diz pra mim que era uma lhama! Por favor!! Era uma lhama, não era?!”. “Não, não era. Isso está ficando chato. Olha só, o caminho é por ali, por aquelas velas vermelhas”, resmungou perdendo a paciência que lhe é característica. “Eu te avisei pra ter cuidado com essas plantas do Domingo, ele nunca põe somente o que ele diz que põe nesses cigarros”.

Caminhamos pela escuridão até um circulo escarvado na terra, o mesmo que já foi palco de inúmeros rituais como este. No centro havia uma meia lua ornada a barro, pedras e flores. No seu útero, uma grande fogueira. “Obrigado por terem respondido o chamado. Eu sou Dom Arturo, Quéchua da Amazônia equatoriana. Viajamos pelas montanhas para trazer essas medicinas, essas bendições”, terminou a frase e virou o último gole de cerveja depositando a lata atrás do tronco onde estava sentado. Dom Arturo tinha um propósito maior para aquela celebração, algo que só descobriríamos nos últimos minutos, e esse foi o grande motivo para que ele corresse enormes riscos cruzando três fronteiras clandestinamente levando consigo todas aquelas medicinas proibidas em território chileno. Loretto sabia disso, ela conhecia Dom Arturo há muitos anos.

O espaço Circulo criou métodos de organização alternativos, libertários e muito eficientes graças a uma venezuelana conhecida como Loretto. Na experiência que conserva os quarentões, vive desde os 8 no Chile e aos 19 já era vegetariana. É a gerente do lugar, professora de ioga e motorista em casos de celebrações Quéchua. Ou quase isso, pois o carro não agüentou o tranco e tivemos que subir os maiores morros a pé. E empurrando aquele maldito calhambeque velho. Todos os dias às seis da manhã ela faz sua meditação em frente a uma pequena labareda acesa a fogo e ghee, combustível que prepara com carinho diariamente. E todos os dias a primeira coisa que me pergunta é: “você sentiu minha energia hoje de manhã?”. “Não, Loretto, senti sono”, é minha resposta matinal. Como Domingo, Loretto também fez o “ritual de purificação”, porém sozinha. Entocou-se no mato e viveu por 10 dias somente à base de chás e água: “não é muito, na verdade as pessoas normalmente ficam entre 20 e 30 dias. Ainda estou me preparando”.

O fogo não se apaga nem por um segundo, Jorge é responsável por mantê-lo queimando durante todo o ritual. É responsável também pela porta espiritual leste. São seis direções, quatro delas as conhecidas norte, sul, leste e oeste, todas guardadas por iniciados nos conhecimentos Quéchua. As outras duas são céu e terra, mantidas sempre devidamente abertas para o caso de algum “Abuelito” fazer uma visitinha esotérica sem prévio aviso. Antes de iniciar o ritual, Dom Arturo ajusta os pedidos aos tempos modernos: “Agora, um pouco de silêncio e, por favor, desliguem os celulares”, ele não carrega nenhuma seriedade sisuda no semblante, mas um respeito extrovertido de quem sabe o que vai acontecer. A celebração começa com quatro grandes pedaços de palha percorrendo cada quarto do circulo de participantes. Todos devem adicionar um pouco de tabaco, pronunciar algumas palavras em Quéchua e indicar seu propósito pessoal para estar ali naquela noite. A maioria apenas agradece a oportunidade de compartilhar momentos especiais como aquele ao

lado de irmãos, outros pedem a cura para uma enfermidade espiritual. Eu estava ali por que realmente não havia recebido proposta mais interessante que subir a montanha e endoidecer. E também pela delicadeza do convite de Jorge. “Busco equilíbrio, por isso estou aqui hoje”, proferi quando a palha chegou em minhas mãos. Após todos terminarem as falas, fumamos os tabacos. Mas apenas a metade. ”Irmãos, agora é hora da primeira medicina, nosso Abuelo Tabaco. Ele é muito gracioso, muito divertido. Aos que estão aqui pela primeira vez, não tenham medo, não resistam”, a cada palavara, Dom Arturo nos presenteava um sorriso medonhamente irônico. Todo o ritual é guiado pelo xamã, ele cadência as etapas como quem maneja o tempo a seus caprichos, e sai de cena somente quando há cânticos. Antes que o Abuelo Tabaco comece sua diversão, são distribuídos sacos plásticos e papel higiênico: “É que esse Abuelito é muito alegre, muito brincalhão”, explica o xamã num tom misterioso.

Abuelo Tabaco e Abuelita Aguacoia A primeira medicina consiste em tabaco líquido, chamado de “água de tabaco”. Através de uma seringa, o Abuelo Tabaco é injetado pelas narinas, uma de cada vez. À medida que o tabaco desliza pela garganta, a pressão escorre pelos pés. E o estômago explode pelas orelhas. O resultado é uma seção encantadora e convidativa de vômitos, arrotos, sacos plásticos abarrotados de excrementos, desmaios rápidos, tonturas, escarros, papel higiênico e gemidos. Abuelo Tabaco é realmente um brincalhão. “Trata de olhar o fogo, não fica reparando nas pessoas”, advertiu-me Loretto. “Mas eu tô olhando o fogo, já reparou que saem lombrigas de lá?”, eram as faíscas saltando da lenha e estalando no céu. “Você tava olhando a menina ali do lado”, falou em tom sério. “Mas ela tá quase vomitando o cérebro, eu to preocupado por que a gente bebeu a mesma coisa”, tentei explicar. “A gente não bebeu nada”. “Tá certo, a gente cheirou a mesma coisa”. “O quê?”, insistiu Loretto. “Nada não”, era melhor não abrir a boca.

“Fala!”, insistiu novamente. “Vomita aí, vai, e me deixa vomitar em paz”, repliquei rapidamente pois Jorge, que estava sentado ao meu lado, já me puxava para o canto e sussurrava para que eu tivesse paciência, o Abuelo Tabaco é um purificador do corpo e uma chave para a alma. Será que ele deixaria uma cópia?

“Tá pronto, Junior? A Loretto tá com o carro estacionado ali fora”, perguntou Jorge. “Tô sim”, respondi ainda com a pira esfumaçante da salvia maconheira impregnando minhas cognições em potência exponencial, “Domingo me ajudou a equilibrar o espírito”. “Que bom! Mas cuidado com essas plantas do Domingo, nem eu sei o que ele enfia nesses

baseados. De qualquer forma, é um excelente começo”. Jorge tem 27 anos, os dois últimos vividos no Circulo, quando retornou ao Chile para cursar EcoTurismo. Ele é o curandeiro da casa, já leva sete anos de aprendizado com seu padrinho Dom Arturo, dos Quéchuas equatorianos, e com a cultura do “Camino Rojo”, que engloba conhecimentos de tribos norte-americanas. Em 2004, completou as quatro etapas do “ritual de purificação” nas montanhas, desde então espera o momento de ser sagrado oficialmente como um xamã Quéchua.

Meus dedos apertavam o estômago na esperança de apartar a briga entre o fígado e o baço. A bílis cutucava a garganta, mas eu não conseguia vomitar. Agonizante, náusea é uma sinfonia que tocava no estômago. Já havia passado quase uma hora, as ervas de Domingo estavam baixando e levavam junto as agitações fanfarronas do Abuelo Tabaco. Eu voltava a sentir-me bem, sem tonturas nem alucinações, mas isso não duraria muito: chegara o momento da segunda medicina. Dom Arturo levanta-se calmamente, serve-se de uma garrafa e bebe o líquido verde espesso num pequeno copo de vidro antes de percorrer todo o círculo convidando um por um a saudar o fogo para então abeberar nossa sede espiritual com um copo de Abuelita Aguacoia, conhecida também como São Pedro. E a cada boca: dormência calma, sossegada, Abuela Aguacoia é amorosa, introspectiva, tão introspectiva que o silêncio torna-se toada que passa e berra para todos; neblina áspera com asas de borboleta, borboleta áspera com asas de neblina, não abra os olhos, compadre, flutuam longe, num feito piscante, picante, junto à velha cascata verde que surgiu como paisagem no horizonte há poucos palmos, calmos, equilibrando-se sobre minhas bolas.

São Pedro é quietude e turbulência, e talvez por isso começam os cânticos. Cada guardião entoa quatro cantos, muitos deles em português. Eles ninam a lonjura de alma, resgatam-nos da solidão compartilhada laçando cada um com suas cordas vocais, viajantes transcendentais rompem a quietude da Aguacoia com sua vozearia harmoniosa. Não há luz que não seja esfumaçada, desfocada, úmida. Tudo é mareio caudaloso, bruma porosa bailando por alvéolos astrais, os mesmos que respiram independentes relativizando o que já é subjetivo. Os cânticos cessam. A névoa ritmada e viajante, não. “Como tá se sentindo?”, perguntou Loretto um pouco atordoada. “Não tenho idéia”, comuniquei bastante atônito. “Não sente um tipo de paz?”. “Talvez”. “Você não parava de mexer a cabeça, o que aconteceu?”. “Você não disse que não deveríamos ficar reparando nas pessoas, eu me incluo nessa categoria”. “Larga mão de ser chato, gosto de saber como é para as pessoas esse primeiro contato com a Abuelita”, disse empolgada.

“Tudo bem, mas ainda não faz muito sentido”. “O que não faz sentido?”. “Era um sereno na carona de uma borboleta, eu era o sereno, de alguma forma eu era o sereno, mas a borboleta… aahhh, a borboleta… mas sabe, não foi um vôo estável como pode parecer quando o sereno pega carona num borboleta, tinha turbulência, muita turbulência”, tentava concatenar as sensações e visões entrelaçadas em palavras minimamente compreensíveis. “Aahhnn??”, grunhiu Loretto. Mas obviamente não tinha sucesso. “Não consigo pensar direito, organizar as idéias, entende? Entende? ENTENDE?!”. Antes que Loretto pudesse responder, Dom Arturo rompe novamente o silêncio. “Nós somos a herança de nosso povo. Da mãe terra, do grande mistério”: O Momento da Purificação Se você é uma pessoa fresca, daquelas que caçam bactérias com raio laser, é melhor esquecer essa parte. Mas se você é daqueles que usa pentelho crespo como fio dental, então, sem problemas. A purificação é simples, porém demorada, e seu resumo é um escarro. O xamã, ou um de seus iniciados, enche a boca com água ardente de ervas perfumadas e borrifa cada parte do corpo dos

participantes. Dom Arturo era mais profundo, usava a técnica dos perdigotos pirotécnicos. Ou seja, acendia em seu dedo uma pequena chama com a mistura, e com o líquido acumulado dentro das bochechas, cuspia sobre a pessoa uma imensa bola de fogo. Primeiramente, algumas rezas benzem uma pedra qualquer, que será umedecida com escarros do xamã e seus iniciados. Após um breve agradecimento ao fogo, a pedra deve ser deslizada por cada centímetro da pele, como um sabonete, à medida que se mentaliza os males que se quer retirar: tristezas, dores, a coceira no saco na hora da purificação, doenças, mágoas ou qualquer intranqüilidade do espírito. Depois, cada parte do seu corpo é borrifada por grandes cuspidas, ou imensas labaredas, no caso de Dom Arturo. Enquanto as purificações vão terminando, Dom Arturo traz a segunda dose de São Pedro. Saúde. Aguacoia é um cacto que cresce nas grandes alturas, uma folha que flana do barro até onde são selvagens os cerros dos pulmões, eleva suas raízes por ramificações caladas, quebra os ossos mansamente para que no silêncio o ar seja mais leve que o vento, lá onde os demônios entoam

mantras de bendicões. Alguns vomitam, outros calam: a Abuela Aguacoia transformou todos num introspectivo e homogêneo silêncio estático, cada um com sua fervorosa discussão interna, e Dom Arturo fez questão de nos manter assim por um bom tempo. Necessário. Então, ele levanta-se, apanha uma garrafa esverdeada e sem pronunciar uma única palavra, inicia a ingestão da terceira medicina. É o mesmo protocolo feito com o São Pedro. Individual, pessoal, ritualístico. Mas desta vez o sabor é muito, muito mais amargo e consistente. Abuelita Ayahuasca “Te prepara, irmão, essa é a abuelita ayahuasca”, revela Jorge depois que engoli o líquido. Conforme o acre da erva começa a refestelar-se ao redor da língua, a abuelita passa a comandar os movimentos: algo rasteja por dentro, goteja, percorre, escorre, a ayahuasca é uma serpente, a serpente da dualidade, convida seus demônios pra jogar xadrez com seus deuses, uma tropa desarmada de desejos corre de peito aberto e sangue nos olhos para a artilharia de medos, metralhando, metralhando, nada perto, pouco longe, nada, é uma serpente, só movimento e

confusão, nem terra, nem chão, não, mareio intenso, plenitude rastejando por alucinação, circula o fosso, “o que há no fosso?”, serpente sopra na areia, ao lado do rio, “o que há no fosso?”, não há fosso, responde a serpente, certa, não penso distâncias, só distorção, a serpente desliza no fosso, é de pedra, gelatina de gelo, “vê?”, não há fosso, dançante, a lonjura se dissolve no rastro da serpente, nada gira, baila, sim, baila, o sol já vai nascer, está escuro. A ayahuasca é uma serpente. “O que há irmão?”, pergunta Jorge. “Ela é uma serpente!”, disse surpreendido, espontâneo como quem se devolve à realidade num susto. “O símbolo da ayahuasca é uma serpente”. “Você tá me zoando?”, fitei-o bruscamente, amedrontado, tremendo. “Não, é a nossa abuelita. Por quê?”. “Eu odeio cobra, cara, eu tenho pavor de cobra”, e só então percebo que ela continua ali, a abuelita, circundando o fogo, atocaiando meus sonhos, ao lado de Jorge, analisando o negro, do azul ao vermelho, aperta, esmaga, ela é uma serpente e o bote é de desespero, suave, escoa pelo ventrículo esquerdo, embaixo da cama, me sorri boa noite.

A Casa da Mãe Pedra O sol já espreita o horizonte sem pressa, e a na mesma toada Dom Arturo nos convida para quarta e última medicina, o Temascal, a Casa da Mãe Pedra. Caminhamos alguns metros montanha abaixo até uma pequena construção de barro, como uma oca em miniatura. Outra meia lua escavada na terra queimando outro fogo que não se apagou por toda a noite. Eles enfeitam o quintal adiante. Homens de shorts, mulheres de biquíni. A ayahuasca é uma serpente. Ela ainda me segue, posso senti-la ajambrando a bote, avançando em açoites divertidos para ela, apavorantes para mim. Quarenta e duas pessoas engatinhando e devolvendo-se ao útero de uma natureza estranha, extraterrestre, compactadas dentro da oca somos células dividindo-se, lambuzando-se, despertando. No centro do Temascal há um novo círculo aquecendo nossa mitose nebulosa. Tudo absolutamente escuro e pelo escuro começam a entrar as primeiras abuelitas: sete pedras incandescentes que permaneceram no fogo por toda a madrugada, todo o ritual, estão derretendo como maquetes de vulcão, como breves erupções de vida aguardando água, transformação e morte. O líquido com ervas vem logo em seguida, tom

branco, um pouco espesso, cheiro forte de mato, de mata, de longe. Magia fora do protocolo, assim Dom Arturo faz todos calarem-se com um grito surdo e direto, e quase em sussurros revela a verdadeira razão de sua viagem, a grande motivação que o fez correr tantos riscos e promover aquele ritual clandestino em terras chilenas. Ele pousa as mãos sobre os ombros de Jorge e fala: “Eu sou as sete flechas nas suas costas. Dou a vida por ti. Teu período de aprendizagem chegou ao fim. Agora é um curandeiro Quéchua”. Jorge parecia tranquilo, pouco surpreso enquanto Dom Arturo acariciava seu rosto para então agarrar o balde e despejar toda a medicina sobre as pedras incandescentes cantando louvores inimagináveis que ricocheteavam no coração de todos e perfuravam a mirada de Jorge. Ele tornara-se, após sete anos de aprendizagem, um verdadeiro xamã. Foi assim que a água encontrou a temperatura das rochas vaporizando-se instantaneamente. O calor assusta, o vapor desintegra. Profundamente. Abuelita Ayahuasca ainda mareia, malandra, serpente pelando comigo, conosco, no ar quente, quente. Sufocante. Um transe imprescindível no embrião da terra, pouco oxigênio, apenas vapor cozinhando a pele, os miolos, as ideias que brotam como rosas

esquizofrênicas da medicina embranquecida em adubo de pedras pastosas, dilui os pulmões cada vez que se tenta respirar, viver, sobreviver àquilo tudo, ao mundo todo. E desfaz. Desfazendo-se. Melhor não pensar. Ao meu lado um homem começa a sentir-se mal. Implora para sair. O xamã não permite. Abre-se um espaço para que o homem ponha a cabeça na terra. Comprimem-se os braços, os troncos. Ele parece realmente mal. A porta se abre mais quatro vezes, de tempos em tempos, para que entrem todas as 28 pedras e a água preparada. Mas nenhuma lufada, nem uma brisa fresca. Não é uma sauna, mas um cozimento demorado. Eu estava longe, levado pelos cânticos, era melhor não pensar, mais seguro, o vapor umedece a garganta, expande-a, incha, arde, arromba os brônquios, melhor não pensar, o pânico cutuca com seus sonhos rápidos, violentos, aguenta, não dê ouvidos, não termina nunca, o que era terra agora é barro umedecido pelas impurezas que despencam por nossos corpos imundos, suados, na escuridão absoluta, cozinhando lentamente, estava viajando, absoluto devoto dos caprichos da Abuelita Ayahuasca, ela serpenteava, suava, escorria e escoava por meus poros, por nossos poros. O homem está a beira de um ataque psicótico. Ele precisa de ar. Eu também. É o fim do ritual.

Ele que espere. Eu também. Engatinhando, saímos como entramos, qual um nascimento, um resgate, outro recolhimento, em direção a luz, há luz mas o sol ainda se esconde. Preciso de um cigarro, de um respiro, de um tapa de vento gelado. Agora somos todos pele vermelha, e inchada, todos. O peito, os braços, as pernas, o corpo é vermelhidão dilatada, cozinhamos de fato, meiose de feto, e volteamo-nos. Não sei quanto tempo permanecemos lá dentro, dizem que por volta de duas horas. É possível. Não sei como, mas é possível. Quando o frio das montanhas se faz maior que o calor interno, a pele desincha como num assopro, num encanto. É hora de rumar novamente ao círculo para o fim da celebração, para o último ato após mais de treze horas do ritual “El Espíritu Del Contrario”. Esgotado. Esgotados fumamos a outra metade do grande tabaco, o mesmo do princípio do ritual. Arrebatador como a Ayahuasca, intenso como Aguacoia, assim o sentimento de gratidão varre uma gente unida por 13 horas compartilhando seus mais desconhecidos sonhos, medos, desejos, desesperos. O que posso fazer é abraçar Jorge e Loretto, despencar sobre eles algumas lágrimas e sorrir uma cicatriz agora eterna.

Ilustração: Pedro Pracchia

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