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COMO APLICAR O DIREITO? : PARA UMA CRÍTICA AO MODELO SILOGÍSTICO

HOW TO APPLY LAW? : FOR A CRITIQUE TO THE SYLLOGISTICAL MODEL Flávio Alves de
HOW TO APPLY LAW? : FOR A CRITIQUE TO THE SYLLOGISTICAL MODEL
Flávio Alves de Paula Lima
Marco Antônio Sousa Alves
RESUMO
O objetivo do presente trabalho consiste em analisar, a partir da teoria da argumentação de
Chaïm Perelman, a natureza do raciocínio jurídico e em verificar em que medida o mesmo
pode ser compreendido como a realização de um silogismo. Partindo da reflexão aristotélica
acerca da demonstração lógica, a tradição jurídica tendeu a conceber o processo de aplicação
do direito segundo um modelo formal, no qual a descrição do caso conflituoso seria
subsumida à norma geral de modo a se obter, por dedução, a conclusão necessária na forma
de uma sentença ou decisão jurídica stricto sensu. Tendo por base a releitura de Aristóteles
realizada por Perelman, em particular do raciocínio dialético e da chamada dimensão retórica
da argumentação prática, pretendemos indicar os limites da utilização desse modelo
silogístico ao direito e a necessidade de repensarmos a aplicação judicial sobre novas bases.
PALAVRAS-CHAVE: APLICAÇÃO DO DIREITO; RACIOCÍNIO JURÍDICO;
SILOGISMO JURÍDICO; PERELMAN.
ABSTRACT
This work aims to analyze, having Chaïm Perelman’s theory of argumentation as a starting
point, the nature of juridical reasoning and to verify how it can be understood as the
concretization of a syllogism. From Aristotle’s reflection concerning logical demonstration,
legal tradition tended to conceive the process of law application in accordance to a formal
model, in which the description of the dispute would be subsumed to the general rule in order
to obtain, by deduction, the necessary conclusion in the form of a judicial sentence or juridical
decision stricto sensu. According to Perelman’s reinterpretation of Aristotle, especially
concerning the dialectical ratiocination and the so called rhetorical dimension of practical
argumentation, we aim to point out the boundaries of this syllogistic model’s use in law and
the need to rethink the judicial application on new bases.
KEYWORDS: LAW APPLICATION; LEGAL REASONING; LEGAL SYLLOGISM;
PERELMAN.
Introdução
É comum ensinar-se nas faculdades de direito brasileiras, na ocasião do ensino de Teoria

Geral do Processo e na elaboração de peças processuais, que o raciocínio jurídico pode ser entendido como uma subsunção da norma ao fato. Por subsunção entende-se o "encaixe" da

* Trabalho publicado nos Anais do XX Encontro Nacional do CONPEDI realizado em Belo Horizonte - MG nos dias 22, 23, 24 e 25 de Junho de 2011

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situação fática ao molde previsto na lei. Em outras palavras, o que usualmente se leciona é que a função do operador do direito é a de, conhecendo o ordenamento jurídico, identificar em qual norma se enquadra determinado acontecimento ocorrido no mundo fático para, em seguida, saber se haverá uma consequência jurídica para tal conduta e qual será esta consequência. Se A mata B, A comete o crime de homicídio, incidindo, então, o art. 121 do Código Penal, que prevê a pena de reclusão de seis a vinte anos.

A operação descrita no parágrafo acima pode parecer muito correta e plausível para qualquer

operador do direito ou mesmo estudante que já tenha algum tempo de curso. Provavelmente, nenhum destes dois personagens hipotéticos relutaria em compará-la ao mesmo método aplicado à química, à física ou à matemática. E não seria demais dizer que tanto o operador quanto o estudante e, provavelmente, qualquer outra pessoa com um grau mínimo de instrução, diria que essa é uma operação lógica. Isso ocorre porque, de fato, a operação demonstrada nada mais é do que um autêntico exercício de inferência lógica tal como vemos nas ciências formais ou necessárias, ou seja, as ciências cujas atividades essenciais não incluem especulações ou argumentações sem caráter conclusivo ou passível de comprovação.

Como já se disse, não há dúvidas de que a subsunção da norma ao fato é uma operação lógica.

O que se pretende explicar neste trabalho, porém, é que esta não é a lógica utilizada pelos

juízes ou advogados enquanto tais. Não é, e nem deveria ser. Não corresponde, portanto, a uma constatação fática e nem a uma regra lógica com valor normativo para o raciocínio jurídico.

Muito embora seja costumeiro falar-se em apenas uma lógica (a que supostamente rege todas

as deduções, ilações, inferências e conclusões válidas para todo e qualquer exercício mental),

o desenvolvimento da Teoria da Argumentação mostrou que tal afirmação está longe de ser simples e evidente. Na verdade, é até possível falar em uma lógica, desde que esta seja entendida num sentido amplo e não seja identificada à lógica formal ou demonstrativa. Diferentes áreas do saber humano se valem de diferentes tipos de raciocínio para produzir seus resultados, o que torna legítimo falar em diversas lógicas, ou em diferentes maneiras de ser racional, de usar validamente a razão. Tentar-se-á expor neste trabalho como o conceito de lógica abarca (ou pode abarcar) diferentes tipos de raciocínio, e qual seria a maneira mais adequada de compreender o raciocínio jurídico, entendido como aquele que se manifesta no processo judiciário e, em particular, nas motivações dos juízes.

Em suma, o que se pretende mostrar com o presente trabalho é que o raciocínio jurídico não

se resume à mera subsunção da norma abstrata ao caso concreto. Com efeito, o que se espera do operador do direito é que este seja capaz de identificar a que normas determinadas

condutas estão relacionadas e quais são essas relações, além de suas consequências. Entretanto, esta é apenas uma das últimas etapas do longo processo do pensar jurídico e não representa senão uma parcela muito pequena deste. Somente após uma longa argumentação e

a tomada de uma decisão para orientar a ação é que se pode transformar em silogismo (subsunção) o raciocínio que chegou àquela conclusão.

A rigor, antes mesmo da tomada da decisão já se poderia estruturar um silogismo. Ocorre,

contudo, que nesta fase são tantos os silogismos possíveis que não há nenhuma garantia de

que aquele em especial (que levou àquela decisão em particular) será o aplicado ao caso concreto. Muitos silogismos são apresentados e, dentre eles, um será escolhido por ser considerado melhor, mais plausível, etc.

Para o bom desenvolvimento de nossa argumentação, propomos um percurso em três momentos ou partes. Em primeiro lugar, apresentaremos o modelo formal de aplicação do

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direito ou o chamado silogismo jurídico. Em seguida, analisaremos a concepção de Perelman

do raciocínio jurídico, indicando como a nova retórica proposta por ele se afasta do modelo

formal anteriormente apresentado. Por fim, procuraremos mostrar os limites da utilização do modelo silogístico ao direito e a necessidade de repensarmos a aplicação judicial sob novas bases.

•1.

O modelo formal de aplicação do direito: o silogismo jurídico

O

modelo formal de aplicação do direito na forma silogística tem sua origem e seu

fundamento na teoria do silogismo de Aristóteles e, em particular, no silogismo analítico ou demonstrativo, que conclui necessariamente a partir de proposições (premissas) consideradas evidentes ou verdadeiras (os princípios ou axiomas). Procede-se a seguir, então, a uma rápida apresentação da concepção aristotélica para, em seguida, chegarmos à sua aplicação ao direito.

Em sua concepção clássica aristotélica, a lógica é concebida como a reflexão acerca das

regras do pensamento válido. A lógica pretende servir como um instrumento (organon) para

se pensar corretamente, tendo assim uma função propedêutica, ou seja, introdutória ou

preparatória para toda e qualquer investigação. Nosso pensamento é concebido como uma complexa rede que conecta juízos. Um juízo é expresso linguisticamente na forma de uma proposição (S é P), que une um sujeito a um predicado. O encadeamento de juízos constitui o raciocínio, ou seja, nosso modo de usar a razão, de pensar.

A teoria do silogismo apresentada por Aristóteles nos Analíticos Anteriores (um dos livros que compõe o tratado do Organon) pretende ser a expressão lógica dessa conexão de proposições, ou seja, uma teoria do raciocínio como inferência, como a passagem de um conjunto de proposições (as premissas) para outras proposições (as conclusões). A palavra mesma silogismo significa, em grego, conexão de idéias ou raciocínio. Cabe à teoria do silogismo descrever como se dá esse processo e como ele deve ocorrer para ser válido, ou seja, para que as conclusões sejam legítimas, decorrentes necessariamente das premissas.

Tomemos por base o clássico exemplo:

Todos os homens são mortais;

Sócrates é homem;

Logo, Sócrates é mortal.

Vê-se aí um claro exemplo de silogismo. Enunciadas algumas premissas, chegou-se a uma conclusão. Como se trata de um silogismo analítico, a passagem das premissas à conclusão é necessária, ou seja: sendo as premissas verdadeiras, a conclusão também será necessariamente

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verdadeira e não se poderá chegar a nenhuma outra conclusão senão aquela. Pode-se dizer, ainda, que a conclusão não é nova, uma vez que já está contida nas premissas. Ao enunciarmos que todos os homens são mortais e que Sócrates é homem, nós já estamos, ao mesmo tempo, dizendo que Sócrates é mortal. Explicitar essa conclusão não é mais do que expressar o óbvio. Como assevera Atienza:

se quiséssemos representar também a informação da conclusão, perceberíamos que não precisaríamos acrescentar nada: a informação da conclusão

já estava incluída nas premissas, o que explica termos podido dizer que a passagem de umas para a outra é necessária; ou seja, não é possível que as premissas sejam verdadeiras e a conclusão não seja. (ATIENZA, 2006, p.25).

] [

No exemplo apresentado, é fácil perceber porque estamos diante de uma dedução: o primeiro enunciado é a premissa maior, dotada de maior generalidade, em que um elemento médio (homens) é incluído em um elemento mais genérico (mortalidade): "todos os homens são mortais"; o segundo enunciado é a premissa menor, que se encontra logicamente inserida na maior e na qual um elemento específico novo (Sócrates) é incluído dentro do elemento médio da premissa maior (homem): "Sócrates é homem". Finalmente, na conclusão se reconhece que, como o elemento mais genérico (mortalidade) contém o elemento médio (homens), e este último contém um terceiro elemento, que é o mais específico de todos (Sócrates), então é óbvio que o elemento mais específico (Sócrates) esteja contido no mais abrangente de todos (mortal): "Sócrates é mortal".

Graficamente, temos:

" Sócrates é mortal ". Graficamente, temos: Também é importante salientar que no silogismo analítico

Também é importante salientar que no silogismo analítico do exemplo acima, não é necessário adicionar mais nenhuma premissa para que a conclusão seja verdadeira. As duas premissas utilizadas já encerram em si a idéia final. Isso não significa, contudo, que todo silogismo analítico tenha apenas duas premissas; é possível que existam tantas quantas sejam necessárias para se expressar determinada idéia - quanto mais complexo o raciocínio, mais premissas podem ser usadas.

A título de ilustração, vejamos como seria um silogismo formalmente incorreto, valendo-nos de outro exemplo clássico:

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Todas as galinhas têm dois pés;

Sócrates tem dois pés;

Logo, Sócrates é uma galinha.

O silogismo aparentemente analítico acima, obviamente equivocado, peca por incluir Sócrates dentro de um grupo ao qual não pertence (o das galinhas), unicamente por ter com ele uma característica em comum (o fato de ter dois pés). Perceba que, ao contrário do exemplo anterior, aqui não há elemento médio para conectar o elemento genérico (seres com dois pés) ao específico (Sócrates). O que se tem, na verdade, são um elemento genérico (seres com dois pés) e dois elementos específicos (galinhas e Sócrates), muito embora se tenha a impressão de que as galinhas, por constituírem um grupo, possam representar o elemento médio em que Sócrates estaria contido. Salta aos olhos, contudo, a impropriedade de tal afirmação.

Surge então um equívoco formal neste silogismo quando se inclui Sócrates (elemento mais específico) no elemento mais genérico da proposição (seres que têm dois pés), por meio do elemento constituído pelo grupo das galinhas. Graficamente, o silogismo acima seria representado assim:

Graficamente, o silogismo acima seria representado assim: Quando a representação correta do raciocínio seria esta:

Quando a representação correta do raciocínio seria esta:

Quando a representação correta do raciocínio seria esta: * Trabalho publicado nos Anais do XX Encontro

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Passando para o domínio do direito, percebemos no pensamento jurídico moderno e, sobretudo, no positivismo jurídico do século XIX, uma tendência a fazer do direito uma ciência rigorosa, o que implicava uma postura de neutralidade por parte do juiz e impunha ao processo decisório a realização de um raciocínio objetivamente válido e logicamente constringente, que não desse mais margem ao arbítrio. A sentença deveria ser uma espécie de

conclusão, ou seja, o resultado de um cálculo, de um raciocínio lógico, e não um simples juízo

de valor e de preferência baseado no senso de justiça do juiz. Assim como a ordem jurídica se

tornava pretensamente sistemática e completa com a forma codificada, a prestação

jurisdicional, seguindo o mesmo movimento cientificista e logicista, passava a ser concebida

de

forma objetiva, como a realização de um silogismo que tem uma conclusão necessária.

O

silogismo serve de modelo para a teoria dogmática da aplicação do direito, que tem por

finalidade oferecer uma resposta ao problema da decisão, ou seja, de como devemos raciocinar no momento de aplicar o direito, de solucionar um conflito. Segundo a construção dogmática, devemos diferenciar o problema hermenêutico, relacionado ao verdadeiro sentido das normas legais, do problema de aplicação do direito. A hermenêutica envolveria o

momento de interpretação da norma e de identificação de seu sentido (concebido assim abstratamente, independentemente dos casos concretos). Já a aplicação do direito corresponderia ao procedimento seguinte, no qual a norma é aplicada ao caso concreto, ou seja, quando se deve determinar aquilo que se subsume nos conceitos que formam a norma. Temos assim dois momentos: a interpretação (questio juris) e a aplicação (questia facti).

Essa correlação é expressa na forma de um silogismo, como exemplificado mais acima. Tomemos por base o seguinte exemplo (cf. COELHO, 2004, p.72):

O empregado despedido sem justa causa deve ser remunerado pelas férias não gozadas;

Ora, João é empregado despedido sem justa causa;

Logo, João deve ser remunerado pelas férias não gozadas.

Na premissa maior do raciocínio jurídico temos a norma geral, a norma em sua essência,

conteúdo e alcance (o enunciado de dever-ser contido na norma). No exemplo acima, refere-

se aos artigos 146 e 147 da CLT. A premissa menor desse raciocínio corresponde à descrição

do caso conflituoso, do caso concreto, ou seja, ao enunciado de realidade sobre um fato. Por fim, no ato decisório stricto sensu, operamos uma adaptação do preceito à hipótese em apreço,

ou seja, a subsunção do caso à norma.

Vemos assim que, no direito, o silogismo assume uma forma própria. Embora a premissa maior mantenha seu maior grau de generalidade (presente na norma), trata-se de um enunciado normativo, deôntico, de dever-ser. O mesmo ocorre com a conclusão do raciocínio jurídico, que se expressa de forma normativa, como um dever-ser.[1]

•2.

A natureza do raciocínio jurídico segundo Perelman

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Chaïm Perelman, importante lógico e jurista do século XX, tem seu nome associado especialmente à teoria da argumentação e à retórica, sendo seu Tratado da Argumentação: a nova retórica (Traité de l'Argumentation: La nouvelle rhétorique), escrito conjuntamente com Lucie Olbrechts-Tyteca e publicado originalmente em 1958, uma referência indiscutível nesse domínio (cf. PERELMAN & OLBRECHTS-TYTECA, 1970).

A partir dos anos sessenta do século XX, Perelman desenvolveu também um consistente

estudo sobre a argumentação moral e jurídica, que consistiu em uma espécie de aplicação da nova retórica ao domínio da argumentação prática. O resultado desse trabalho infelizmente não recebeu uma forma mais sistemática (como observamos no Tratado da Argumentação) e está publicado em diversos artigos fragmentários e, em grande medida, repetitivos. Uma boa parte desse material foi incluída na obra póstuma intitulada Ética e Direito (cf. PERELMAN, 1996). Outra importante fonte para estudar sua concepção acerca da argumentação jurídica, que será a base principal de nossas considerações a seguir, são as notas de curso publicadas originalmente por Perelman em 1979 sob o título de Lógica Jurídica (cf. PERELMAN, 2004).

Perelman, ao abordar o raciocínio jurídico e sua especificidade, voltada para a justificação de uma decisão, situa o campo da argumentação jurídica em um espaço intermediário entre o determinismo legalista e o arbítrio decisionista. Para o decisionista, as decisões jurídicas decorrem de puros atos de vontade dos juízes, sendo impossível qualquer justificação racional

de escolhas que envolvam juízos de valor. Já para o legalista determinista, a decisão jurídica é

o resultado de simples aplicações de normas gerais procedentes de uma autoridade legítima, ou seja, a decisão decorre silogisticamente das leis, de forma lógica e necessária, como foi apresentado acima. Em nenhum desses casos há espaço para a argumentação, para a justificação razoável, posto que ou a decisão é considerada cientificamente determinada e necessária, ou é tomada por arbitrária e meramente volitiva.

A argumentação jurídica não deve limitar-se ao texto legal, nem confiar apenas no senso de

justiça do juiz. Ao invés disso, deve acolher em suas discussões justificações formais ou

internas (decorrentes da lei e do sistema jurídico em vigor) e também justificações materiais ou externas (assentadas naquilo que é socialmente aceitável e razoável). O direito é um instrumento flexível e capaz de se adaptar aos valores sociais de seu tempo, sendo sua missão conciliar esses valores com as leis e instituições estabelecidas. Como deixa bem claro

Perelman:

O direito se desenvolve equilibrando uma dupla exigência, uma de ordem sistemática, a elaboração de uma ordem jurídica coerente, a outra, de ordem pragmática, a busca de soluções aceitáveis pelo meio, porque conformes ao que lhe parece justo e razoável. (PERELMAN, 2004, p.238).

Levando adiante uma típica abordagem retórica, Perelman se pergunta sobre qual é o auditório visado pela argumentação jurídica. Para determinar o alcance e a qualidade dos argumentos empregados no direito, é preciso saber qual o conjunto daqueles a quem se quer convencer ou persuadir. Perelman entende que ao motivar ou fundamentar uma tomada de decisão jurídica, o juiz oferece razões que pretendem ser convincentes para as partes em litígio, para os juristas ou profissionais do direito, e também para a sociedade em geral ou

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opinião pública. Uma decisão aceitável apenas para as partes pode ser juridicamente e socialmente inaceitável. Uma decisão que é apenas juridicamente e tecnicamente fundamentada pode ser socialmente inaceitável e ineficaz para as partes. E uma decisão que conta com a aceitação social e o apoio da opinião pública pode ser juridicamente insustentável.

Em suma, cabe ao juiz a tarefa de realizar uma ponderação, um equilíbrio, sendo capaz de elaborar uma argumentação que cumpra com diversas exigências, ou seja, ele deve tomar uma decisão em nome do que considera o direito (o sistema de regras) e a justiça (o senso de equidade). O direito está condenado a uma atualização incessante (na busca de soluções viáveis e adaptadas às circunstâncias), sendo assim preciso conceder ao juiz um poder criativo e normativo complementar, que deve, contudo, ser utilizado de forma justificada, socialmente e juridicamente convincente. Só assim afastamos o fantasma do arbítrio, como diz Perelman:

] [

motivar é justificar a decisão tomada, fornecendo uma argumentação convincente, indicando a legitimidade das escolhas feitas pelo juiz. É esta

justificação [

]

que deve convencer as partes de que a sentença não resulta de uma tomada de posição arbitrária. (PERELMAN, 2004, p.222).

Ao assumir essa abordagem retórica da decisão jurídica, Perelman rejeita enfaticamente o modelo formal de aplicação do direito conhecido como teoria do silogismo jurídico. Esse modelo camuflaria o papel do juiz, fazendo crer que sua função é meramente lógica e consiste simplesmente em demonstrar como a sentença decorre dos axiomas estabelecidos (as leis em vigor). Como assevera Perelman:

Será suficiente, para motivar, apresentar o silogismo judiciário, que abrange a regra aplicada, a constatação dos fatos subsumidos sob a regra e a

conclusão que daí resulta? Evidentemente, se nem a escolha e a interpretação da regra, nem o estabelecimento e a qualificação dos fatos são contestados, esse procedimento de raciocínio está ao abrigo de toda crítica. Mas, se fosse esse o caso, não haveria litígio. O conflito surge quando um

consiste em indicar as razões que guiaram a Corte nas opções que julgou preferíveis.

ou vários desses elementos são contestados, e a motivação [ (PERELMAN, 2004, p.214).

]

Como podemos perceber da passagem acima, Perelman não rejeita a possibilidade de darmos uma forma silogística ao raciocínio jurídico, mas tal apresentação não corresponderia à maneira como de fato raciocinamos nesse domínio e serviria apenas para ocultar o processo eminentemente dialético do raciocínio jurídico, que procede a partir de diferentes pontos de vista (premissas não evidentes, mas consideradas suficientemente aceitáveis e plausíveis para fundamentar uma argumentação) e que não conclui necessariamente, mas pondera os prós e contras das diferentes possibilidades antes de justificar uma tomada de decisão. Voltando à teoria do silogismo de Aristóteles, Perelman esclarece:

Em que os raciocínios dialéticos diferem dos raciocínios analíticos e do silogismo dialético, chamado entimema, do silogismo rigoroso da lógica formal? Aristóteles nos diz que no entimema não são enunciadas todas as premissas - subentende-se que são conhecidas ou aceitas pelo auditório - e aquelas em que nos fundamentamos seriam apenas verossímeis ou plausíveis: a estrutura do raciocínio dialético seria, quanto ao resto, a do silogismo. (PERELMAN, 2004, p.2).

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Assim, no raciocínio jurídico (tomado como um caso de silogismo dialético ou entimema, nos termos aristotélicos) seria impossível enunciar absolutamente todas as premissas relevantes para se chegar à conclusão, qualquer que seja ela. Este problema não é enfrentado, contudo, quando se trata de um silogismo analítico ou demonstrativo, uma vez que as conclusões decorrem necessariamente das premissas, que são suficientes para a demonstração da validade da conclusão.

Em suma, Perelman condena a visão legalista e logicista por ela ignorar o elemento retórico presente na argumentação jurídica, ou seja, a busca da aceitação social da decisão. Perelman sustenta que a razoabilidade ou aceitabilidade social é um valor muito mais importante para o direito do que a verdade ou a coerência lógica. De que serve um sistema jurídico completo e coerente, com sentenças logicamente consistentes e válidas, se ao final somos conduzidos a decisões socialmente inaceitáveis e desarrazoadas? Resumindo, Perelman ressalta a necessidade de se chegar a uma solução aceitável aos conflitos, por razões de bom senso, equidade e interesse geral. Contudo, a paz judicial só se restabelece quando a solução mais aceitável socialmente é acompanhada de uma argumentação jurídica suficientemente sólida. Este deve ser o esforço da doutrina e da jurisprudência.

•3.

Os limites da aplicação do modelo silogístico ao direito

Como foi dito acima, Perelman não nega que o raciocínio que conduz a uma decisão jurídica possa ser expresso de forma silogística. Mas a apresentação do raciocínio jurídico como um silogismo é uma espécie de maquilagem, que esconde a especificidade de como pensamos no direito e faz parecer que aplicamos o direito como se calculássemos e concluíssemos necessariamente a partir das leis. O modelo silogístico de aplicação do direito deve então, seguindo a concepção de Perelman, ser abandonado em favor de um modelo mais adequado, baseado naquilo que Aristóteles chamou de raciocínio dialético.

Nesta última parte do artigo, procuraremos indicar os limites que o modelo silogístico encontra ao ser empregado no direito, indicando também como o modelo do raciocínio prático proposto por Perelman (baseando-se nos raciocínios dialéticos de Aristóteles) permitiria uma outra percepção do modo como pensamos no direito, mais fiel com a prática jurídica e mais condizente com aquilo que esperamos de uma decisão jurídica.

Um dos primeiros problemas que o modelo formal de aplicação do direito encontra ao ser utilizado no direito é o fato de que, nesse domínio, a justificação da decisão não se contenta com a validade formal do raciocínio, posto que a decisão deve ser, sobretudo, materialmente válida, ou seja, aceitável. Um raciocínio pode ser formalmente válido, mas isso não o torna automaticamente aceitável do ponto de vista do conteúdo de suas afirmações, como afirma Atienza:

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a lógica dedutiva só nos oferece critérios de correção formais, mas não se ocupa das questões materiais ou de conteúdo que, claramente, são relevantes quando se argumenta em contextos que não sejam os das ciências formais (lógica e matemática). (ATIENZA, 2006, p.28).

[

]

É o caso, por exemplo, do seguinte silogismo:

Meninos nunca devem chorar;

João é um menino;

Logo, João nunca deve chorar.

Do ponto de vista formal, o silogismo acima é perfeitamente correto (pelos mesmos motivos expostos no silogismo da mortalidade de Sócrates), e isto basta para a lógica formal, que o consideraria válido. Se os meninos de fato nunca devem chorar e se João é um menino, então não se pode chegar a outra conclusão senão a de que ele nunca deve chorar. Porém, o mesmo não pode ser dito do conteúdo de suas proposições. A própria premissa maior encerra uma afirmativa altamente questionável (ou mesmo falsa) e resulta, inevitavelmente, numa conclusão igualmente questionável.[2]

Apesar de ser continuar sendo uma ferramenta útil, a lógica formal não pode garantir que qualquer uma das proposições seja verdadeira ou plausível, e, no caso do direito, somente a praxis, a prática dialética e discursiva pode fazer isso. O que a lógica formal tem a oferecer às ciências argumentativas, como o direito, é uma ferramenta que só faz metade do trabalho de que estas necessitam, já que ela só é capaz de dizer se uma conclusão é válida (formalmente), não se ela é verdadeira.

Para exemplificar o que foi exposto até aqui sobre a correção formal e correção material das proposições, vejamos o seguinte silogismo:

José deve cumprir todas as suas promessas;

José prometeu ajudar seu amigo Pedro a assaltar uma loja;

Logo, José deve ajudar Pedro a assaltar uma loja.

Para saber se a conclusão deste silogismo é válida, basta-nos a lógica formal, que afirma ser a mesma perfeitamente correta, mas só do ponto de vista formal. Para saber se ela é verdadeira, contudo, seria necessário usar a lógica dialética, pela qual se argumentaria e se discutiria sobre o caso até que a melhor conclusão vencesse. Ainda assim, só se seria capaz de dizer se a conclusão alcançada é plausível ou não, dada a incapacidade do silogismo dialético de enunciar verdades incontestáveis. Se alguém estivesse numa situação em que lhe fosse exigida alguma ação perante este caso, esta pessoa teria, então, que tomar uma decisão e concluir que José ajudou Pedro a assaltar a loja; ou, havendo mais premissas que alterem a situação, concluir que José não foi cúmplice de Pedro por tais e tais motivos.[3]

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Se Pedro de fato tivesse assaltado a loja do exemplo e se o caso estivesse sendo analisado por

um julgador que não conhecesse nada além da lógica formal, o magistrado não teria dúvidas em considerar José como coautor do crime, sem nem mesmo ouvir qualquer das partes. Por outro lado, um julgador consciente da insuficiência do modelo analítico-silogístico para a análise do caso promoveria um debate (julgamento) para que cada um dos interessados expusesse suas razões pelas quais acredita que a conclusão do silogismo é esta ou aquela. Desnecessário dizer que, ao longo do debate, inúmeras outras premissas seriam acrescentadas ao silogismo, resultando num raciocínio mais complexo. O julgador, selecionando aquelas que julgasse pertinentes, criaria seu próprio silogismo e chegaria, então, a uma conclusão, uma decisão tomada frente ao caso concreto para resolver a questão que lhe é posta. O fato de esta decisão poder ser representada por um silogismo não lhe retira o caráter de decisão, fruto do esforço argumentativo empreendido por todos os envolvidos na questão, muito menos confere à decisão o caráter dedutivo que tantos parecem querer lhe emprestar.

Quando apreciamos ou avaliamos positivamente uma decisão jurídica, dificilmente o fazemos por considerá-la verdadeira ou necessária, mas sim em razão de sua razoabilidade ou aceitabilidade social. Uma decisão justa, correta, adequada, é uma decisão com a qual aderimos, a qual damos o nosso assentimento e da qual somos convencidos por sua justificação.

Outro ponto importante que convém desenvolver, diz respeito à quantidade de premissas

exigíveis no raciocínio prático ou dialético, como ocorre no direito. No raciocínio jurídico, é praticamente impossível enunciar absolutamente todas as premissas relevantes para se chegar à conclusão, qualquer que seja ela. Com efeito, seria demasiadamente trabalhoso evidenciar todas as premissas que tenham alguma pertinência com a conclusão a que se pretende chegar,

já que geralmente elas são inúmeras e se afiguraria um trabalho hercúleo e absurdo reunir

todas num só raciocínio.

Vejamos um exemplo de entimema ou silogismo prático, com suas diversas premissas:

A indústria X possui máquinas que funcionam 24 horas por dia;

As máquinas da indústria X produzem barulho ensurdecedor enquanto ligadas;

A indústria X fica localizada em zona residencial de determinada cidade;

Os vizinhos da indústria X se sentem muito incomodados com o barulho;

Logo, a indústria X deve ser desativada.

A estrutura geral deste silogismo é a mesma daquela usada no silogismo analítico (várias

premissas levam a uma conclusão). Entretanto, há algumas diferenças. A primeira delas é que no silogismo dialético ou prático geralmente há mais premissas do que no analítico (embora esta não seja uma regra); a segunda é que nenhuma das premissas é dotada de veracidade absoluta, ou seja, nenhuma delas pode ser considerada absolutamente verdadeira em qualquer situação (não geram convicção por si próprias); a terceira é que não se pode estabelecer uma correlação de elementos, contidos uns nos outros, em que um deles é genérico, outro médio e outro específico, como foi demonstrado no silogismo da mortalidade de Sócrates; a quarta diferença, e talvez a mais importante, é que, ao contrário do que ocorre com o silogismo analítico (em que Sócrates é obrigatoriamente mortal), a conclusão a que se chegou neste

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entimema não decorre automaticamente das premissas enunciadas (não é obrigatória). Nas palavras de Perelman:

Enquanto no silogismo [analítico] a passagem das premissas à conclusão é obrigatória, o mesmo não acontece quando se trata de passar dos argumentos à decisão: tal passagem não é de modo algum obrigatória, pois se o fosse não estaríamos diante de uma decisão, que supõe sempre a possibilidade quer de decidir de outro modo, quer de não decidir de modo algum. (PERELMAN, 2004, p.3).

Vê-se, com isso, que o entimema ou silogismo prático não é dotado da obrigatoriedade que permeia os raciocínios dedutivos. A decisão (e não a conclusão) de desativar a indústria X pode ser sensata, plausível ou desejável, mas nunca será logicamente obrigatória. Ainda que a indústria X, localizada em zona residencial, tenha maquinários funcionando 24 horas por dia, produzindo barulho ensurdecedor e que isso incomode muito todos os vizinhos, não se pode concluir com absoluta certeza que este quadro levará, inexoravelmente, à desativação da indústria, como foi concluído no exemplo. Muitas outras decisões podem ser tomadas: a indústria pode mudar de endereço, o período de funcionamento dos maquinários pode ser reduzido ao horário comercial, máquinas menos ruidosas podem substituir as que atualmente são empregadas, etc. Seria até mesmo factível que nenhuma providência fosse tomada diante da situação, permanecendo o incômodo dos vizinhos. Como resume Atienza:

o argumento não tem caráter dedutivo, pois a passagem das premissas à conclusão não é necessária, embora altamente provável. Se se aceita a verdade das premissas, então existe uma razão forte para aceitar também a conclusão, embora, é claro, não possa haver certeza absoluta [ ] (ATIENZA, 2006, p.25).

[

]

Em outro exemplo narrado por Atienza, fica ainda mais claro o modo de aplicação do entimema ou silogismo prático:

Vejamos este exemplo, extraído de uma sentença recente da Audiência Provincial de Alicante (n. 477/89). A e B são acusados do delito de tráfico de drogas tipificado no art. 433 do Código Penal, com a concorrência da circunstância agravante do art. 344 rep. a) 3.º, pois a quantidade de heroína apreendida com eles (mais de 122 gramas de heroína pura) é considerada - de acordo com a jurisprudência do Supremo Tribunal - de "notória importância". A droga tinha sido encontrada pela polícia numa bolsa, escondida no travesseiro de uma cama de casal, situada no quarto de um apartamento onde - quando a polícia entrou para efetuar a verificação - estavam A e B (um homem e uma mulher respectivamente). Na audiência o advogado de defesa e os acusados, A e B, sustentaram que, embora os dois últimos vivessem juntos no mesmo apartamento, eles não mantinham mais que uma relação de amizade, dormiam em quartos diferentes e, concretamente, B não tinha conhecimento da existência da droga. Em decorrência disso, o advogado de defesa, em suas conclusões definitivas, solicitou a absolvição de B. Entretanto a sentença, num de seus "antecedentes do fato", considerou "fato provado" que A e B compartilhavam o quarto referido e que, conseqüentemente, B tinha conhecimento e havia participado da atividade de tráfico de drogas, da qual ambos eram acusados. (ATIENZA, 2006, p. 32-33).

Atienza (2006, p.33) esquematiza da seguinte forma os argumentos que fundamentaram a sentença do caso:

Havia apenas uma cama desfeita na casa.

Eram 6 horas da manhã quando ocorreu a verificação.

Toda a roupa e os objetos pessoais de A e B estavam na mesma habitação em que se encontrava a cama.

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Meses depois, A se refere a B como "minha mulher".

Logo, na época em que se realizou a verificação, A e B mantinham relações íntimas (e, conseqüentemente, B sabia da existência da droga).

Mas Atienza também trata de fazer as devidas ressalvas, para que não se exclua a possibilidade de as premissas terem estado equivocadas, o que poderia ter levado a uma decisão igualmente equivocada:

] [

pensava em fazer uma limpeza em regra nos armários, e que, depois da detenção de ambos, a amizade existente entre eles tivesse se convertido numa relação mais íntima. (ATIENZA, 2006, p. 33)

teoricamente é possível que B tivesse acabado de chegar em casa às 6 da manhã, que seus objetos pessoais estivessem na casa de A porque ele

Não obstante, mesmo que algumas das premissas fossem falsas, isso não implicaria automaticamente na falsidade da conclusão, pois esta seria apenas menos plausível do que quando todas as premissas eram verdadeiras ou verossímeis. Analisando as consequências de se raciocinar com silogismos incorretos do ponto de vista formal, afirma Atienza:

a partir de premissas falsas pode-se argumentar corretamente do ponto de vista lógico; e, por outro lado, é possível que um argumento seja

incorreto do ponto de vista lógico, embora a conclusão e as premissas sejam verdadeiras, ou pelo menos altamente plausíveis. Em alguns casos a lógica aparece como um instrumento necessário, mas insuficiente, para o controle dos argumentos (um bom argumento deve sê-lo tanto do ponto de

] [

vista formal quanto do material). Em outros casos é possível que a lógica (lógica dedutiva) não permita nem sequer estabelecer requisitos necessários

com relação ao que deve ser um bom argumento; [ (ATIENZA, 2006, p. 28)

um argumento não lógico - no sentido de não dedutivo - pode ser, contudo, um bom argumento.

]

Assim é que qualquer silogismo materialmente incorreto é inútil para o direito, mas não para a lógica formal, desde que seja formalmente válido. Já um silogismo analítico formalmente incorreto, se analisado pela ótica dialética, ainda pode ser aproveitado pelas ciências argumentativas, caso suas premissas e conclusão sejam dotadas de alguma plausibilidade. É o que ocorre, por exemplo, no caso das ficções jurisprudenciais, tema que foi muito explorado por Perelman e que deixa claro como, para o direito, a justiça e a razoabilidade prevalecem sobre a verdade e a validade lógica.

Tem-se, assim, que os dois tipos de silogismo se prestam a diferentes resultados e devem ser usados e interpretados conforme a natureza da situação em questão. Reiterando a posição de Atienza (2006, p.32): "há muitas ocasiões em que nos deparamos com a necessidade de argumentar, sem que, no entanto, seja possível utilizar argumentos dedutivos" (grifou-se), conclui-se que não podemos escolher quando empregar raciocínios dedutivos: a natureza da questão sendo analisada é que dita qual tipo de raciocínio pode ser utilizado. Fica claro assim como a lógica dedutiva formal (que, como o próprio nome já diz, só cuida do aspecto formal das afirmações) é um instrumento insatisfatório para o direito, que se ocupa principalmente da análise do conteúdo das proposições.

Como já ficou consignado, verifica-se que o esforço empreendido na atividade de argumentação jurídica consiste na apresentação de silogismos, pelas partes envolvidas, cujas conclusões lhes sejam favoráveis. Cada parte pode apresentar perante o juiz diversos

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silogismos, mas cabe ao julgador rejeitar aqueles que lhe pareçam incorretos, inoportunos ou descabidos, e aceitar os que se lhe mostrarem plausíveis.

É evidente que o magistrado não é obrigado a aceitar ou rejeitar silogismos inteiros. Ele pode escolher somente as premissas que julgar aproveitáveis de determinados silogismos, da mesma maneira que pode aceitar a mesma conclusão apresentada por uma parte, mas decorrente de premissas diferentes daquelas originalmente enunciadas. Deste modo, o juiz constrói seu próprio silogismo, utilizando somente as premissas que considerar serem pertinentes ao caso (e, por exigência legal, fundamentando os motivos que o levaram a rejeitar as outras premissas e conclusões). Em geral, as conclusões apresentadas pelas partes se transformarão em algumas das premissas do silogismo elaborado pelo juiz, cuja conclusão (mais corretamente chamada de decisão) será a parte dispositiva da sentença.

Uma vez proferida a sentença, esta pode, é bem verdade, ser estruturada de modo silogístico. Mas como já foi abordado anteriormente, não é pelo simples fato de esta premissa poder ser estruturada como um silogismo formalmente válido que ela terá caráter de inferência dedutiva, no sentido de que não haveria outra conclusão possível para aquele caso. Aquela conclusão, em particular, nada mais é do que a decisão à qual o juiz daquela causa chegou, uma dentre muitas outras que poderia ter alcançado.

Complementando estas observações, Perelman (2004, p.3) afirma que "há sempre um meio de transformar uma argumentação qualquer em um silogismo, acrescentando-se uma ou várias premissas suplementares". Da mesma opinião é Atienza (2006, p. 36), para quem "todo argumento indutivo pode se converter em dedutivo se se acrescentam as premissas adequadas". Deste modo, depois de proferida a sentença, fica fácil estruturá-la como um raciocínio com aparência de silogismo analítico, acrescentando-se mais premissas, como afirmam Perelman e Atienza nas citações acima. Estas premissas suplementares têm o papel de "fechar" a interpretação do raciocínio, guiando o intérprete pelas demais premissas e fornecendo cada vez mais elementos para convencê-lo de que aquela decisão é a mais prudente ou acertada para o caso em questão.

É certo, contudo, que por mais premissas que sejam acrescentadas ao silogismo da sentença, este nunca será um silogismo dedutivo. Só poderá ser considerado como tal se as próprias proposições (consideradas em si mesmas) lhe conferirem caráter de evidência. A inclusão de premissas visa conferir uma validade formal ao raciocínio, mas este não pode ser considerado dedutivo, posto que se parte da decisão para construir as premissas. Esse é um ponto importante que distingue o raciocínio jurídico do analítico: é o fato de que no direito se raciocina a partir das consequências, ou seja, daquilo que é considerado plausível e razoável, e daí se escolhem as premissas, invertendo a direção da dedução (do universal para o particular).

Além disso, é difícil, por mais premissas que sejam incluídas, chegarmos a uma situação na qual a decisão se segue necessariamente, como uma conclusão, pois o máximo que teremos será, para usar a expressão de Kelsen, uma moldura maior ao menor, ou seja, uma maior ou menor margem de apreciação por parte de quem tem o poder para decidir. A sentença é, assim, uma solução possível a partir da lei ou das premissas e não a única solução possível. Por mais formalizado que seja o raciocínio jurídico, ele nunca poderá ser tido por um raciocínio que conduz necessariamente a determinada conclusão, por mais premissas que sejam incluídas. É só a forma silogística que é atingida, mas não a mesma força de inferência (soundness ou conclusividade do raciocínio). A decisão jurídica não pode assim ser equiparada a uma proposição apodítica, demonstrável.

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É forçoso reconhecer que, por mais premissas suplementares que possam ser acrescentadas ao

silogismo, esta operação nunca vai alterar a natureza das premissas. A inclusão de premissas, mesmo que possa conferir uma certa correção formal à decisão, não permite obviamente

conferir correção material às proposições utilizadas (premissas e conclusão). Em suma, a atribuição de validade formal ao raciocínio não altera o valor de verdade das proposições.

Aqui, chega-se a um ponto fulcral para o entendimento do funcionamento do raciocínio jurídico, que é a presunção de veracidade das premissas. Ora, é preciso reconhecer que esta presunção também tem parcela de contribuição para que se possa considerar, com base na lógica formal, que um silogismo jurídico tenha caráter de inferência necessária. Isso ocorre porque a lógica formal moderna (não para Aristóteles) não se preocupa em analisar o conteúdo das proposições, mas limita-se a enunciar, por exemplo, que se determinadas proposições forem verdadeiras, então outras tantas também serão. Se uma das proposições for uma norma jurídica, há então certa presunção de que ela seja correta e que ela levará, necessariamente a determinada conclusão.

Entretanto, esta presunção de veracidade absoluta da norma jurídica é apenas fictícia, pois não se pode, obviamente, pretender que uma norma seja absolutamente livre de erros e perfeitamente aplicável em todas as situações. Há diversos casos em que uma norma entra em conflito com outras do mesmo sistema, ou mesmo que a norma que foi aplicada a um caso não seja admitida em outro, em virtude de divergências jurisprudenciais entre os juízes das duas causas. Além disso, a norma em questão pode ser um princípio que, como é sabido, admite derrogação em um caso sem que por isso seja considerado inválido em caráter absoluto. Assim, temos que, apesar de a norma gerar convicção por si própria, tal se dá apenas por uma ficção jurídica que pode ser combatida a qualquer tempo pela atividade do operador do direito (no caso, o advogado), privando o silogismo jurídico, assim, do suposto caráter de evidência (dedutividade) que frequentemente lhe é atribuído.

Ainda é interessante notar que, em juízo, a análise dos silogismos constituídos de uma ou mais normas, em não raras vezes, nos leva a nos questionarmos não se eles são formalmente

válidos, mas sim se o conteúdo das proposições ali enunciadas é materialmente correto. Assim

é que o advogado quase sempre é chamado a discutir se o grau de certeza atribuído a

determinada premissa (norma) é ou não legítimo, plausível ou prudente, e não se daquelas premissas se chega àquela conclusão (cuja resposta é obviamente positiva, graças à certeza fictícia que se emprestou às premissas). Desnecessário dizer que o trabalho do advogado, portanto, é buscar premissas diversas daquelas apresentadas pela outra parte (ou pelo juiz, no caso de instância recursal), mas igualmente obrigatórias, que levem a uma conclusão favorável ao seu cliente.

É-nos lícito, portanto, afirmar que a incidência de determinado artigo do Código Penal, por exemplo, não é de modo algum óbvia, pois não decorre apenas da razão. O fato de o legislador ter um dia decidido que quem mata deve cumprir de seis a vinte anos de prisão em regime de reclusão não é uma consequência necessária para todos os casos em que esta premissa tenha sido enunciada, mas sim uma decisão que pode ser tomada pelo juiz em determinados casos, observadas determinadas circunstâncias. Tal argumento é reforçado pelo fato de que muitas vezes não há sequer obrigação (necessidade) de se concluir pela aplicação

de determinada norma a determinado caso (fulano matou, mas agiu em estado de necessidade), que se dirá da obrigatoriedade de uma decisão judicial em algum sentido (como, por exemplo, condenando fulano a uma pena que pode variar de seis a vinte anos de reclusão).

A prática de um ato pode levar à aplicação de determinada norma, dentre muitas existentes, e

a escolha de uma norma aplicável pode levar a outro leque de decisões (sentenças) possíveis

para o caso em análise.

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Levando em conta que a aplicação do direito deve ser eminentemente pautada pela justiça, não pode o magistrado se esquecer que sua atividade não pode se resumir à mera aplicação da lei (subsunção), porquanto esta mesma aplicação pode se tornar injusta e frustrar o próprio objetivo da norma e da atividade judicante. Aliás, mais do que uma questão de justiça, trata-se de uma questão de clareza, de transparência, e mesmo de democracia e abertura. O silogismo jurídico é um modelo que, além de conduzir a decisões possivelmente injustas, mascara o raciocínio efetivamente realizado no direito e confere uma pretensa justificação formal e uma aura lógica que não condiz com o modo de ser dialético e retórico que caracteriza o raciocínio jurídico. E ao ocultar o modo de raciocinar próprio ao direito, esse modelo abre uma brecha para que o dogmatismo e o arbítrio reinem nesse domínio.

Conclusão

Esperamos, com as análises realizadas neste trabalho, ter jogado alguma luz no sombrio problema do raciocínio jurídico e ter mostrado porque o modelo formal de aplicação do direito baseado no silogismo analítico ou demonstrativo, amplamente ensinado nas Faculdades de Direito brasileiras, é inadequado para a complexidade do pensamento jurídico e do raciocínio prático em geral.

A permanência do modelo silogístico no direito pode ser explicada tanto como uma herança

do jusnaturalismo quanto pelo fato de as proposições de caráter originalmente argumentativo serem frequentemente privadas desta qualidade a partir do momento em que são normatizadas ou legisladas (ganhando a forma de uma norma, de uma lei, de um enunciado de dever-ser). O fato de determinado assunto ser regulado por uma lei de observação obrigatória não faz com que estas premissas percam seu caráter dialético, problemático, passível de dúvida e discussão. É papel do operador do direito (principalmente do advogado) discutir e debater as normas postas com relação ao seu conteúdo. Essa postura argumentativa nos afastaria do habitus dogmaticus que permeia a prática jurídica brasileira e resgataria uma importante característica zetética inerente aos debates judiciais.

É justamente para o aspecto dialético e argumentativo da atividade jurídica que a Teoria da

Argumentação chama a atenção. O desfecho de uma determinada questão levada aos tribunais não é alcançado porque há uma lei apontando aquela conclusão para o caso, mas sim porque existem várias premissas aplicáveis ao caso concreto e, depois de concedida a chance de argumentação aos envolvidos, o julgador tomou a decisão de aplicar determinados dispositivos por entender e justificar que são os mais adequados à situação. Não há como, portanto, pretender-se abordar este tipo de situação, eminentemente prática, com um viés puramente teórico e formal.

Partindo da teoria da argumentação proposta por Perelman, e de sua análise do raciocínio jurídico, acreditamos que o direito pode rever seus procedimentos e modelos e pensar a aplicação judicial sob novas bases, que permitam maior clareza e justiça.

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Referências

ARISTÓTELES. Órganon. 1ª edição. Tradução de Edson Bini. Bauru: Edipro, 2005.

ATIENZA, Manuel. As Razões do Direito. 3ª edição. São Paulo: Landy Editora, 2006.

COELHO, Fábio Ulhoa. Roteiro de Lógica Jurídica. 5 a ed. São Paulo: Saraiva, 2004.

KELSEN, Hans. Teoria pura do direito. 6 a ed. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

PERELMAN, Chaïm. Ética e Direito. 1ª edição. Tradução de Maria Ermantina Galvão. São Paulo: Martins Fontes, 1996.

Lógica Jurídica. 2ª edição. Tradução de Vergínia K. Pupi. São Paulo: Martins Fontes,

2004.

PERELMAN, Chaïm; OLBRECHTS-TYTECA, Lucie. Traité de l'Argumentation: La nouvelle rhétorique. 2 ª ed. Bruxelles: Editions de l'Institut de Sociologie, 1970.

[1] Saindo do domínio dos juízos de fato ou das afirmações de realidade (o domínio do ser e da necessidade), muitos juristas e lógicos viram nessa especificidade uma impossibilidade de tratar logicamente o direito e a decisão jurídica (como fez Kelsen, por exemplo, ao adotar uma postura voluntarista e decisionista no último capítulo da Teoria Pura do Direito).

[2] No que tange aos silogismos analíticos e correção formal, faz-se necessário evidenciar uma distinção muito importante entre duas espécies diferentes deste mesmo silogismo. Há uma diferença entre aquilo que Aristóteles chama de raciocínio analítico ou de demonstração e aquilo que será objeto de estudo da lógica formal moderna, que reside justamente na natureza das premissas. Segundo Aristóteles, a demonstração parte de premissas necessariamente verdadeiras e universalmente aceitas como tal; já a lógica formal moderna é indiferente à verdade das premissas e se preocupa apenas com a validade da inferência (se das premissas, sendo elas verdadeiras ou não, decorre a conclusão). Em outras palavras, ela diz que "se estas proposições forem verdadeiras, então aquelas outras também serão, por inferência lógica". Para a lógica formal, a escolha das premissas pode até mesmo ser arbitrária. Conclui-se com isso que, para o filósofo estagirita, só se pode efetivamente falar em demonstração quando não só o silogismo é formalmente correto, mas também quando suas premissas são universal e logicamente verdadeiras.

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[3] Conforme a posição que se adote quanto ao silogismo analítico, pode-se dizer que o exemplo acima é um silogismo analítico ou dialético. Assumindo a posição de Aristóteles, para quem um silogismo evidente é aquele que conta com premissas de antemão admitidas como verdadeiras e que geram convicção por si mesmas, então aquele silogismo é dialético, pois José não deve, necessariamente, cumprir todas as suas promessas. Se, por outro lado, se assume a posição da lógica formal moderna, então o silogismo é analítico, pois a conclusão decorre logicamente das premissas, independentemente de serem estas verdadeiras ou não.

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