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Sobre Terras e Gente...

SOBRE TERRAS E GENTES


O Terceiro Eixo Ocupacional de Rio Branco
(1971 – 1982)
2 Reginâmio Bonifácio de Lima
Sobre Terras e Gente... 3

REGINÂMIO BONIFÁCIO DE LIMA

SOBRE TERRAS E GENTES


O Terceiro Eixo Ocupacional de Rio Branco
(1971 – 1982)

Idéia
João Pessoa
2006
4 Reginâmio Bonifácio de Lima

Todos os direitos e responsabilidades do autor.

Editoração Eletrônica/Capa
Magno Nicolau

__________________________________________
L732s Lima, Reginâmio Bonifácio de.
Sobre terras e gente: o terceiro eixo ocupacional de
Rio Branco / Reginâmio Bonifácio de Lima. João
Pessoa: Idéia, 2006.
157p.: il.

1. História – Desenvolvimento I. Título


CDU: 981(813.3)
______________________________________________________________

EDITORA LTDA.
(83) 3222-5986
www.ideiaeditora.com.br
ideiaeditora@uol.com.br

Foi feito o depósito legal


Impresso no Brasil
Sobre Terras e Gente... 5

Ao Deus Todo-Poderoso que me proporcionou


concluir este trabalho.
A quatro homens especiais: meu pai, Severino, por
me ensinar a amar o local estudado; e meus irmãos
Reginaldo, Regineison e Pedro por me auxiliarem na
pesquisa e constituição desta obra.
6 Reginâmio Bonifácio de Lima
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AGRADECIMENTOS

Ao Deus Eterno, que capacitou e permitiu este tra-


balho, dando ânimo em momentos de angústia,
cuidando de seu servo para que pudesse estar bem e
concluir esta obra;
A meu orientador, professor MsC Bento, por ter dado
crédito ao trabalho a ser desenvolvido e auxiliado na
constituição do mesmo;
A minha família que sempre me apoiou em todo o
tempo. Meus pais: Severino e Maria, cuidando de
mim, dando amor, afeto; e meus irmãos Reginaldo e
Regiglenis que, juntamente com minha cunhada,
Ana Íris, e, meus sobrinhos, Stive e Kelven, propor-
cionaram apoio moral, emocional, contribuíram dire-
ta e indiretamente para esta realização;
A meus irmãos Regineison, graduando em história,
e, Pedro, graduando em geografia, pela dedicação
na pesquisa e auxílio na correção desta obra;
A minha Musa Inspiradora, Iracilda Bonifácio, pela
correção da estrutura e compatibilização dos escritos
com a norma padrão vernácula;
A meus coletores de dados, Socorro, Maria Alzerina,
Samir e Luciana, por me auxiliarem na aplicação
dos questionários;
Aos professores Gerson Albuquerque e Jones Goettert
que muito contribuíram dando “palpites” sobre o
modo de ver o lugar e os sujeitos que nele vivem;
Aos funcionários da Biblioteca Pública do Acre por
tão prestativamente terem gastado seu tempo, auxi-
liando na pesquisa das referências;
8 Reginâmio Bonifácio de Lima

A Marco Antônio Otsubo e demais funcionários do


Setor de Georeferenciamento da Prefeitura Munici-
pal de Rio Branco;
A todos os entrevistados que muito contribuíram com
a pesquisa;
A todos os funcionários do Setor de Cadastro Muni-
cipal;
A assessoria jurídica da Câmara Municipal de Rio
Branco;
Aos amigos do CDIH e da Biblioteca da UFAC, por
tamanha presteza com que me acolheram.
Aos colegas da Pós-Graduação por suas idéias e su-
gestões dadas no decorrer da pesquisa teórica e
pratica;
A todos que direta ou indiretamente contribuíram
para a realização deste trabalho.
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Caminhando e cantando e seguindo a canção


Somos todos iguais braços dados ou não
Nas escolas nas ruas, campos, construções
Caminhando e cantando e seguindo a canção
(...)
Os amores na mente, as flores no chão
A certeza na frente, a história na mão
Caminhando e cantando e seguindo a canção
Aprendendo e ensinando uma nova lição

Vem, vamos embora, que esperar não é saber


Quem sabe faz a hora, não espera acontecer.

(Pra não dizer que não falei de flores)


Geraldo Vandré
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SUMÁRIO

Siglas e Abreviaturas .....................................................................07

INTRODUÇÃO ...............................................................................08

CAPÍTULO I: A OCUPAÇÃO AMAZÔNICA E A


CONSTITUIÇÃO DE RIO BRANCO
1 – As Relações de Poder ...............................................................13
2 – Ocupação recente da Amazônia ..............................................14
3 – Abertura e Definição da Fronteira Acreana ............................16
4 – Sudhevea e Probor....................................................................21
5 – Breve Histórico Riobranquense ...............................................22
6 – Demografia da Capital .............................................................28

CAPÍTULO II: AS POPULAÇÕES RURAIS EXPROPRIADAS


E A PERIFERIA ESTENDIDA
1 – A Expansão da Fronteira..........................................................31
2 – As Formações e Ampliações da Periferia ................................36
3 – Acerca de Governos e Jornais..................................................40
4 – A Igreja Católica e a Luta pela Terra.......................................46
5 – Conflitos no Campo e a Luta pela Sobrevivência...................48

CAPÍTULO III: O TERCEIRO EIXO OCUPACIONAL


DE RIO BRANCO
1 – Aspectos Gerais.............................................................................
2 – Saneamento Básico.......................................................................
2 – Localidades a Serem Consideradas.............................................
2.1 – Salgado Filho ......................................................................
2.2 – Sobral ...................................................................................
2.3 – Floresta Sul..........................................................................
3 – De Espaço Fronteiriço a Território Local ....................................
3.1 – Informações gerais ..............................................................
3.2 – Informações técnicas ..........................................................
3.2 – Informações sobre as edificações .......................................
3.3 – Serviços urbanos .................................................................
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4 – Habitantes e habitat.....................................................................
4.1 – Impressões iniciais .............................................................
4.2 – Ambiência ocupacional ......................................................
4.3 – Sujeito-identidade-lugar ....................................................
4.4 – Perspectivas das localidades..............................................
5 – Memória e História ......................................................................

REFERÊNCIAS..................................................................................
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Siglas e Abreviaturas

ARENA – Aliança Renovadora Nacional


BASA – Banco da Amazônia S.A.
BCI – Boletim de Cadastro Imobiliário
CEBs – Comunidades Eclesiais de Base.
CEDEPLAR – Centro de Desenvolvimento e Planejamento
Regional
CNBB – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil.
CONTAG – Confederação Nacional dos Trabalhadores da
Agricultura
CPI – Comissão Parlamentar de Inquérito
CPT – Comissão Pastoral da Terra.
DRT – Delegacia Regional do Trabalho
FMI – Fundo Monetário Internacional
FUMBESA – Fundação do Bem Estar Social
IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.
INCRA – Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária.
ONG – Organização Não Governamental
PECP – Projeto Especial Cidades de Porte Médio
PMRB – Prefeitura Municipal de Rio Branco
PND – Plano Nacional de Desenvolvimento
PROBOR – Programa de incentivos à produção de borracha
natural
SANACRE – Companhia de Saneamento do Acre
SEPLAM – Secretaria Municipal de Planejamento
SUCAM – Superintendência de Campanhas de Saúde Pública
SUDAM – Superintendência para o Desenvolvimento da
Amazônia
SUDHEVEA – Superintendência do Desenvolvimento da
Borracha
UFAC – Universidade Federal do Acre
UNICAMP – Universidade de Campinas
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INTRODUÇÃO

Este livro é fruto de dois anos de pesquisa na Pós-


Graduação em Cultura, Natureza e Movimentos Sociais na
Amazônia, pela UFAC, nele estão contidos os resultados
iniciais da pesquisa efetuada na área em que segue o
caminho em direção ao antigo Aeroporto, próximo à
Secretaria Estadual de Educação. Naquele local, hoje em
dia estão formados os quinze bairros que compõem a
terceira fase de expansão da cidade de Rio Branco. Nessa
localidade moram atualmente mais de 33.908 pessoas, de
acordo com o ultimo censo do IBGE.
Muito se ouve falar da Fazenda Sobral, PROBOR II,
Aeroporto Guiomard Santos, assassinato de João Eduardo,
“quatro bocas”, Palheiral, hospital distrital, mas pouco ou
quase nada se tem escrito a respeito.
Este livro tem a pretensão de falar de forma geral,
sem generalizações, como se deu o processo expansivo da
Capital acreana para aquela área, bem como de que forma
os moradores desenvolveram ali, suas identidades, culturas
e transformaram a ambiência ocupacional. É certo que
nesse primeiro momento nos concentraremos no viés
historiográfico social, contudo na continuação dos traba-
lhos, com a conclusão da segunda parte da pesquisa, desta
vez na área de linguagens e identidades, pelo Mestrado em
Letras da UFAC, pretendemos dar maior suporte para as
relações de memórias, culturas e interações da/na dinâmica
social.
Com o apoio da Secretaria de Planejamento Muni-
cipal que nos cedeu as fotos; do Setor de Georeferen-
ciamento, que reconheceu a área e demonstrou interesse
no setor; do Setor de Cadastro Imobiliário que forneceu os
croquis de todas as residências do local, no período de
16 Reginâmio Bonifácio de Lima

estudo cadastrado; da Prefeitura Municipal de Rio Branco


que abriu seus arquivos à pesquisa; da Assessoria Jurídica
da Câmara de Vereadores que cedeu as leis postas no
trabalho “texto”; bem como o auxílio da Procuradoria Geral
do Estado, que auxiliou diretamente no aparato político, e
aval jurídico concernente à jurisprudência e legalidade dos
documentos referentes à possíveis titulações públicas da-
quela área; conseguimos ampliar as pesquisas e chegar aos
resultados que se seguem no decorrer de todo o livro.
A ocupação desses locais já foi feita a mais de três
décadas, e não seria justo deixar que as histórias das rela-
ções sociais lá produzidas, bem como as modificações
antrópicas naquela ambiência sejam esquecida como
tantas outras, tão importantes quanto esta que se perderam
nas fissuras não lineares da geo-história riobranquense.
Não se intenta aqui ser “o salvador da pátria”: apenas
tornar público os traços e recortes das relações estabele-
cidas no Terceiro Eixo riobranquense. Relações estas nem
sempre harmônicas, nem sempre causais, nem sempre
intermitentes, mas sempre válidas, vívidas e bem vividas.
São homens e mulheres, gentes como você e eu, em busca
de melhores condições de vida, que habitam terras que
embora há anos existam leis que lhes garantam o direito de
titulação, muitos deles ainda são posseiros e moram numa
terra que segundo os governos não é sua, porque a sua...
essa foi tirada. Mas isso os governantes não viram.
Então, vamos lá.
Em nome de uma pretensa integração do Acre ao
espaço nacional de desenvolvimento capitalista, durante
fins da década de 1960 e início da seguinte, as terras
públicas foram vendidas, e, por conseguinte, as populações
nelas residentes foram obrigadas a sair – o que resultou
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num intenso fluxo migratório na direção campo-cidade1.


Com a emergência dos conflitos pela posse da terra, a
realidade urbana surgia como desdobramento da expansão
da fronteira agrícola. A trajetória dessa população no
contexto regional, tanto quanto os laços de vínculo com os
locais de onde migraram, torna clara a aglutinação de
famílias na periferia urbana.
O “cinturão de pobreza” formado como expansão da
periferia já existente não é um fenômeno exclusivo da
história recente do Acre, em vários locais do Brasil e
América Latina é perceptível a organização – ou falta de –
nos bairros periféricos. O ajustamento cultural dos migran-
tes vai constituir novos contingentes de trabalhadores, mas
também expor o sentimento de identificação com a terra
como meio de produção e constituição de laços inter-
nos de solidariedade e defesa2 – traços característicos ao
processo de formação, que em geral esses migrantes levam
consigo para as cidades.
Ao falar de Eixo Ocupacional em Rio Branco é
preciso ter em vista que “a compreensão do movimento de
formação e transformações da cidade, em sincronia com as
etapas e contradições da economia mercantil da borracha,
torna-se então uma das chaves para desvendar os proble-
mas e conflitos surgidos agora com a aceleração do cresci-
mento urbano”3.
Nesse aspecto, identifica-se a formação, ainda que
parcial, de uma localidade extensiva aos habitantes do que
se chama Terceiro Eixo Ocupacional de Rio Branco. Esse
se constituiu na área próxima ao Centro de Treinamento,
atual Secretaria de Educação, envolvendo os 08 bairros

1
O Termo aqui é utilizado no sentido de rural-urbano; de
colônias, seringais, colocações, chácaras à parte composta de
cidade e suas ampliações.
2
OLIVEIRA, Marilda Maia. 1983, p. 86.
3
OLIVEIRA, Luiz Antônio Pinto de. 1982, p. 32.
18 Reginâmio Bonifácio de Lima

formados a partir da expansão da cidade ocorrida na


década de 1970 e início de 1980. Quanto à temporalidade,
é certo que não tem uma data-marco de formação espe-
cífica, tampouco uma data final de andanças popula-
cionais. O que se percebe é que a área que compreende o
Terceiro Eixo teve o início de sua formação “urbana” apro-
ximadamente em 1971, e o desenvolvimento espacial com
uma definição básica próxima ao que é atualmente, por
volta de 1982, sendo composto pelos bairros Aeroporto
Velho, Palheiral, Bahia, Bahia Nova, Glória, Pista, João
Eduardo I e João Eduardo II. Ao mesmo tempo que se
observa, nesse mesmo território, uma pluralidade de iden-
tidades coletivas, envolvendo diversidades em relação a
origens, aspectos culturais, trajetórias de vida, que aproxi-
mam e distinguem grupos de indivíduos entre si.
As gentes do Terceiro Eixo, provenientes da zona
rural e de outros bairros periféricos da capital, tiveram na
cidade o mesmo descaso com o qual foram tratados ante-
riormente. Ao ocuparem terras que não lhes pertenciam, as
pessoas corriam o risco de serem expulsas, e assim ocorreu
com os moradores de locais como Palheiral, João Eduardo e
Bahia, sendo parte dessas terras utilizadas em benefício de
especuladores urbanos. O que se pode ver também, diante
do contexto histórico, no qual essas pessoas estavam inse-
ridas são as condições de vida, o excesso de mão-de-obra
“desprovida de qualificação” para a inserção no mercado
de trabalho e as incertezas pairantes rodeadas de miséria e
desagregação social.
Em 1982, em sua obra “O Sertanejo, o Brabo e o
Posseiro”, Oliveira citou o Terceiro Eixo, afirmando:

Um Terceiro Eixo de crescimento da cidade é aquele que


segue o caminho em direção ao antigo Aeroporto, desde o
núcleo central através da Rua Rio Grande do Sul, a qual
até 1970 era habitada só parcialmente, até o chamado
Centro de Treinamento. Esta parte, inclusive, se estendia
por uma grande superfície de áreas verdes naturais, as
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quais foram inteiramente derrubadas durante a década


passada. (...). Nessa área pontificam os bairros do
Aeroporto Velho, Terminal, Bahia e Palheiral, habitados
pela população pobre de origem rural e que já somam
[em 1982] mais de 15.000 pessoas. Todavia, a invasão e a
ocupação de áreas ainda prossegue nesse eixo e os novos
bairros vão se formando, como o bairro João Eduardo (...)
(Oliveira, 1982, p. 39).

A mobilidade é uma regra na atualidade, o movi-


mento sobrepõe-se ao repouso e quando o homem muda,
junto com ele mudam também as mercadorias, as imagens
e as idéias. Ao estudar a formação do Terceiro Eixo Ocupa-
cional de Rio Branco, envolto na perspectiva da dinâmica
das migrações, ou seja, da vida dos migrantes, chega-se à
compreensão de que sempre as mudanças fazem parte da
vida cotidiana, e essas afetam diretamente o ambiente com
transformações sócio-espaciais – enquanto causa ou efeito,
e, em grande parte, ambas correlatas – e que os fluxos
dessas gentes para o local não são fatos isolados, uma vez
que se inserem no contexto das migrações internas,
decorrentes da política nacional da Marcha para Oeste,
intensificada durante o período da Ditadura Militar.
As problemáticas levantadas buscam investigar a
forma como se deram as relações entre as gentes que ocu-
param as terras dando início à formação e ao crescimento
do Terceiro Eixo Ocupacional no período de 1971 a 1982,
desejando explicitar o processo de ocupação pelo qual pás-
saram os referidos bairros, bem como as modificações na-
tropicas efetuadas no ambiente receptor da migração.
Desta feita o presente trabalho tem como objetivo investi-
gar e analisar o processo de ocupação e formação do Ter-
ceiro Eixo Ocupacional da cidade de Rio Branco – que
compreende os bairros Palheiral, Bahia, Bahia Nova, Aero-
porto Velho, Glória, Pista, João Eduardo I e II –, desde
1971 até 1982. Especificamente objetiva perceber o Tercei-
ro Eixo de Ocupação como parte integrante do processo de
20 Reginâmio Bonifácio de Lima

expansão de Rio Branco; compreender o movimento de for-


mação e transformação da cidade, destacando a expansão
do Terceiro Eixo Ocupacional e seus conflitos; abordar a
luta pela sobrevivência das gentes expropriadas migrantes
para a periferia de Rio Branco, enquanto parte de um pro-
cesso macroeconômico e social; analisar as modificações
antrópicas efetuadas nas terras do ambiente receptor das
migrações rural e urbana.
A pesquisa foi feita dentro de uma perspectiva
historiográfica, tendo como apoio metodológico as formu-
lações e a discussão social da propagação da experiência
humana, como elemento fundante para construção de um
modo de vida comunitário, embasado no pensamento estru-
tural de Paul Thompson. A vivência dos ex-seringueiros,
ex-posseiros rurais e o quadro geral de seus movimentos
históricos constituem o foco de interesse do estudo, como
matéria de investigação pertinente à compreensão especí-
fica das características assumidas; a acentuação urbana,
devido à intensificação do êxodo rural, a luta pela terra e a
ocupação dos espaços tornados urbanos. A pesquisa não se
propôs a estudar a formação da periferia de Rio Branco a
partir de um viés economicista, vinculado unicamente à
expansão da frente capitalista na Amazônia, mas a caracte-
rizar as complexidades que o processo de urbanização de
Rio Branco apresenta no curso da sua história recente.
Num primeiro momento foram trabalhadas as biblio-
grafias existentes acerca da formação periférica da cidade
de Rio Branco, buscando fazer o enquadramento historio-
gráfico do objeto de pesquisa e dos sujeitos nele atuantes.
Segundamente, os referenciais teóricos, conceitos e con-
junturas sociais, foram estudados na pesquisa, com a devi-
da contextualização acerca da urbanização da cidade e do
processo expansivo. Para tanto, foram consultados autores
como Leandro Tocantins, Luiz Antônio Pinto de Oliveira,
Carlos Alberto Alves de Souza e Leila Gonçalves da Costa,
estudiosos das relações sociais ocorridas no Acre, especial-
Sobre Terras e Gente... 21

mente em Rio Branco, durante a segunda metade do século


XX. Em seguida foi aplicado um questionário sócio-
econômico e cultural com os moradores mais antigos dos
bairros, que lá habitam desde o período de formação, pro-
curando levantar informações sobre seu local de moradia e
suas relações de convivência.
Foram aplicados questionários nos oito bairros,
tendo como base os seguintes requisitos: os entrevistados
precisavam morar, ininterruptamente, no bairro há, pelo
menos, 23 anos, ou seja, desde 1982, ou antes dessa data;
ser o “chefe” ou um dos “chefes da casa” na atualidade; a
necessária cobertura e abrangência de toda a localidade,
com aplicação de maior quantidade de questionários nas
áreas que, segundo a Prefeitura4 e entrevistas orais com os
moradores, eram os locais com maior densidade demográ-
fica no período de formação.
É certo que o Terceiro Eixo não se formou a partir
de um planejamento territorial urbano, antes pelas migra-
ções e andanças populacionais o espaço foi se transforman-
do em lugar a partir da constituição da base territorial.
Assim sendo, percebe-se, ainda que, às vezes, indi-
retamente, que o poder público opera e coopera no orde-
namento territorial, através de ações de políticas públicas,
estratégias de mudança social e organização do território
ou falta delas. O espaço desconhecido, natural, incomen-
surável, foi e ainda é modificado, transformado e “reorde-
nado” pela diversidade nas inserções antrópicas que o
tornam um território de ordem cultural, conhecido aos que
lá se assentaram e mensurável às relações sócio-culturais
nele estabelecidas.
Essa transformação é ao mesmo tempo um assunto
técnico e político, não é o foco deste trabalho engajar-se
nos fatores de distanciamentos (por rupturas, fissuras e até

4
BCIs, Cadastro imobiliário, Plantas Oficiais da Cidade de 1979,
1980, 1981, 1982.
22 Reginâmio Bonifácio de Lima

mesmo no termo físico), tampouco de acessibilidades (no


viés geodésico). O que se busca é desenvolver a compre-
ensão de como as terras foram modificadas antropicamente
pelas gentes que produziram modificações, organizaram e
ocuparam o território do Terceiro Eixo desenvolvendo e
estruturando esse habitat humano a partir das diferentes
atividades e relações sociais estabelecidas.
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A OCUPAÇÃO AMAZÔNICA E A
CONSTITUIÇÃO DE RIO BRANCO

As Relações de Poder

O Brasil em seu subdesenvolvimento não galgou


espaços como as nações do Norte, chamadas de desen-
volvidas. A expansão do mercado no país teve nos mer-
cados financeiros modernos a base asseguradora da viabi-
lidade modelada pelos países desenvolvidos para que se
seguisse neste país. A produtividade e assimilação das
novas técnicas não conduziram à homogeneização social,
antes, a difusão das novas técnicas deu-se em certas áreas,
inicialmente quase que exclusivamente pela aquisição de
novos produtos via importação. Esse chamado processo
produtivo causou uma modernização no Brasil, mas não
conduziu à redistribuição dos bens, não houve a elevação
do nível de vida da população.
Nesse contexto de subdesenvolvimento surgiu a
industrialização tardia brasileira, que agiu com grande
rapidez para reestruturar o sistema produtivo, ainda emba-
sado no sistema substitutivo. A Amazônia trocava pelas de
borracha por dinheiro, que não enriqueceu os seringueiros,
mas formou grandes fortunas Brasil a fora. A modernização
tardia implementada pela “industrialização substitutiva”
levou o Estado a sustentar a sua modernidade com recursos
provenientes dos meios ditos atrasados.
As transições ocorridas na Amazônia, principal-
mente a partir dos anos 1960, foram “pelo alto”, onde o
governo agia procurando mecanismos explícitos de incen-
tivos empresariais para atrair capital e empreendedores de
diversos setores econômicos, enquanto as gentes que
migraram em direção a esse local, atraídas pela política de
24 Reginâmio Bonifácio de Lima

colonização, tiveram poucos recursos e o apoio do Estado


de forma reduzido. A tentativa de desenvolvimento econô-
mico deixa claro que há uma continuidade na formulação
da política, sendo priorizada a dinâmica econômica.
Altvater apud Heller (1999, p.138) afirma que “como ocorre
com o trabalho na indústria, a natureza também passa a ser
‘realmente subordinada’ ao capital, isto é, subjugada à
lógica da acumulação, de uma forma mais eficiente do que
nunca na história da humanidade”. Há uma fluência do
monetarismo que não respeita fronteiras, antes, a seu
interesse constrói nacionalidades e as destrói, desconside-
rando as territorialidades postas.
O desenvolvimento posto na Amazônia, fruto do
predomínio dos países industrializados, não é socialmente
justo, nem ecologicamente sustentável. A Amazônia está
inserida na lógica de dominação capitalista, onde esta
lógica rompe fronteiras, fomentada pelo crédito de incen-
tivos fiscais, que em meados do século XX moldou o pro-
cesso de desenvolvimento regional; como conseqüência
houve os conflitos pela posse da terra, contradições urba-
nas e rurais e continuação do estabelecimento de desigual-
dades na apropriação do espaço econômico, político e
sócio-ambiental da região. Nesse mesmo período, a ques-
tão ambiental estava internacionalizada com fomentos para
uma postura de desenvolvimento – ainda não sustentável –
onde se buscava construir cenários para a formação da
base necessária à atuação dos grupos ligados ao “progresso
humano” em detrimento da “barbárie” na região. Contudo,
esse desenvolvimento não chegava às classes trabalha-
doras, como forma de melhorias sociais, e ainda, “quando
ficou óbvio, por volta de 1970, que a corrida pelo desenvol-
vimento realmente intensificava a pobreza, inventou-se a
noção de ‘desenvolvimento eqüitativo’ para reconciliar o
irreconciliável: a criação da pobreza com a abolição da
pobreza” (SACHS, 2000, p. 121).
Sobre Terras e Gente... 25

Ocupação Recente da Amazônia

As políticas traçadas de expropriação e formação de


mercados de reserva se deram tardiamente na Amazônia
em relação ao restante do país. Contudo, os efeitos foram
vistos alardeadores das disparidades exercidas pela “dita-
dura do grande capital” e pelas práticas governamentais
voltadas aos interesses de uns poucos. As migrações da
zona rural para a urbana e dos pequenos centros para as
cidades fizeram ocorrer uma grande explosão demográfica
em alguns centros amazônicos, aumentando as periferias,
levando esses trabalhadores expropriados a viverem à
“margem” das cidades. Tudo isso, em grande parte, fruto
das políticas públicas e atividades capitalistas implemen-
tadas no campo.
A política econômica adotada a partir de 1964
favoreceu os Estados da Amazônia com uma participação
de forma mais efetiva na formação do capital e conse-
qüente integração à propaganda produzida pelo governo
federal no sentido de “ocupar para desenvolver” a região; a
construção de rodovias como Belém-Brasília, Cuiabá-San-
tarém, Brasília-Acre; e, pouco depois, no Acre, a especu-
lação fundiária, o crédito fácil e barato, as facilidades para
a expansão da pecuária, criaram um desequilíbrio social,
afetando diretamente as populações que passaram a ocu-
par as periferias das cidades, principalmente da capital.
A forma de ocupação implementada na região
acreana na primeira metade do século XX era extrativista
da borracha. Com a transferência das terras dos seringais
falidos aos compradores do Centro-Sul, viu-se um acele-
rado crescimento das pequenas propriedades, embora a
posse da terra tenha continuado extremamente concen-
trada.
Já nos últimos anos da década de 1960, é per-
ceptível uma ruptura no padrão de ocupação territorial nas
capitais amazônicas. As alterações produzidas dão conta de
26 Reginâmio Bonifácio de Lima

um redimensionamento do quadro urbano com o aumento


da migração contínua para as cidades. O principal fluxo
migratório se deu mais intensamente para a banda oriental,
com predominância de composição rural atingindo princi-
palmente as cidades de Macapá, Porto Velho e Rio Branco.
Uma temática a ser abordada concernente a esse
período específico da Ditadura Militar e seus projetos para
a Amazônia, é a compreensão do caráter transnacional da
região amazônica enquanto necessária aos interesses dos
países de economia desenvolvida, não apenas com o intuito
de uma economia predatória, mas também, pelas riquezas
da biodiversidade, descobertas científicas, a água potável
para um mundo que já sente a escassez deste produto, e, as
alterações climáticas que a destruição da Amazônia po-
deria causar nesses países. Por isso, o enfoque que deve ser
dado, além da visão que tinham os militares durante a dita-
dura, precisa incorporar temas emergentes e complexos
que superem a crise ecológica e ampliem o pensar reformu-
lante que já em fins da década de 1970 estava ocorrendo
dentro de uma atuação entre Estado, as forças do mercado
e a sociedade civil, numa questão de segurança interna-
cional.
Os movimentos políticos e econômicos que come-
çaram a surgir no final da década de 1960 davam margem
aos produtos de grupos e ONGs que buscavam “proteger”
a natureza para tornar em “meio ambiente” a localidade
implementando o “desenvolvimento sustentável”, a natu-
reza onde, por séculos os seus habitantes já viviam. Nesse
período, qualquer processo de transformação teria o apa-
rato estatal e o fundo público como pressupostos, além da
criação de empresas e agências estatais de desenvolvi-
mento, visando atrair grandes grupos de capitais privados.
O poder público dotou, ainda que parcialmente, de infra-
estrutura adequada, formulou políticas e incentivos fiscais
e de crédito.
Sobre Terras e Gente... 27

Como conseqüência dessa inicial atividade pública,


foram implantados grandes projetos agropecuários e dispo-
sitivos jurídicos excepcionais, como os mecanismos de
regulamentação adotados pelo Estado. Esse período foi o
que mais rápido convergiu terras públicas em propriedades
privadas. A expansão capitalista na Amazônia resultou, não
apenas na desregionalização da propriedade do capital,
mas também na predominância dos projetos agropecuários
sobre os industriais, nos ganhos especulativos com a terra,
na geração de violentos conflitos sociais decorrentes da
luta pela terra e na expulsão dos camponeses de sua terra,
acelerando o processo de destruição ambiental.
Em nome da integração nacional, e mais tarde, de
uma integração com o mercado externo, o ambiente social
foi modificado. As normatizações produzidas pelo jogo
monetário regulado pelo sistema financeiro internacional,
FMI e Banco Mundial, transformaram a dinâmica interna
das convivências intra-nacionais, regulando-as através do
controle estatal com políticas e ações coordenados por
invéstimentos setoriais e fomento às “práticas de desenvol-
vimentos” na região. As poucas regulamentações existentes
sobre a terra e sua exploração, que eram tão necessárias
em meados do século XX, embora na maioria dos casos não
saíssem do papel, tornaram-se carentes de modificações e
desregulamentação na década de 1980. As leis executadas
e a generosidade do poder público concederam ao grande
capital “salvo conduto” para agir na Amazônia. Mesmo
com a aprovação da política nacional de meio ambiente,
em 1981, o que se viu foram mecanismos que ajudaram aos
interesses estrangeiros em detrimento das populações
locais.
28 Reginâmio Bonifácio de Lima

Abertura e Definição da Fronteira Acreana

As terras do Acre por vários séculos foram tidas


como desconhecidas ou “terras não descobertas” e assim
permaneceram até meados do século XIX. O Tratado de
Madri firmado em 13 de janeiro de 1750, regularizou os
limites entre as terras portuguesas e espanholas, mas não
delimitou a área especificamente referente ao Acre; outros
tratados foram produzidos e, de mesma forma, não estabe-
leceram, no terreno, a linha fronteiriça que abrange do Rio
Madeira ao Javari.
A borracha amazônica5 era bem conhecida e utili-
zada pelos índios, eles faziam artefatos de borracha e brin-
quedos para os curumins, além de utilizá-la como imper-
meabilizante. Várias espécies de árvores que fornecem o
látex eram há muito utilizadas: como o caucho (castiloa
ulei), a balata (chrysophyllum balata), a sorva (couma
utilis), a mangaba (harnicornia speciosa) e a seringa (hevea
basiliensis).
É certo que em 1762, com o uso da terebintina,
houve um avanço na qualidade da consistência da borra-
cha e conseqüente avanço na produção. A Europa estava
vivenciando o início da Revolução Industrial, enviando
pesquisadores ao mundo inteiro em busca de novos pro-
dutos. O padre jesuíta João Daniel escreveu que "entre o
Rio Madeira e o Javari, por mais de 200 léguas não há
povoação nem de branco, nem de tapuias mansos ou

5
Desde o descobrimento da América se conhecia a borracha, o
próprio Cristóvão Colombo presenciou, em sua segunda via-
gem à América, o “jogo da bola”, no Haiti. Muitos viajantes
anunciaram essa “maravilha da América”, contudo, foi o pés-
quisador geógrafo e astrônomo francês Charles Marie de Lá
Condamine, estudando as selvas do Equador, que comunicou à
Academia de Ciências de Paris em 1736, notícia sobre a aplica-
bilidade da borracha.
Sobre Terras e Gente... 29

missões”6, isso em 1760, na época em que as missões esta-


vam se estabelecendo na Amazônia.
O mundo em industrialização estava querendo usu-
fruir as riquezas da Amazônia, várias foram as tentativas de
conquista do território nacional brasileiro. Em 06 de julho
de 1801 o Tratado de Badajós anulava o de Santo Idelfonso,
ficando definidas as fronteiras da América do Sul. As
Frentes de Expansão, muitas delas capitalistas, buscavam
demarcar o território brasileiro.
Após a descoberta do processo de vulcanização da
borracha em 1844, por Thomas Hancock, na Inglaterra, e
Charles Goodyear, nos Estados Unidos, foi possível dar
outras utilidades à borracha. Esta se tornou indispensável
para a civilização. O uso, que antes era restrito, mas que já
tinha mercado garantido em Boston, Nova York, Lisboa,
Viena, Londres e tantos outros lugares, foi expandido. O
preço do látex subiu consideravelmente e iniciou-se a
corrida para o Acre.
Serafim da Silva Salgado, Manuel Urbano, João
Cunha Correa, Willian Chandless e, mais tarde, Euclides
da Cunha, desbravaram o território acreano estabelecendo
marcos. Nessas áreas foram descobertas várias tribos
indígenas, grande quantidade de árvores para a coleta do
látex, rica fauna e flora.
Abre-se uma Frente pioneira no Rio Acre e pouco
depois no Purus, impulsionadas pelos interesses interna-
cionais em adquirir a riqueza proveniente da floresta.
Antes, o comércio das drogas do sertão havia impulsionado
o adentrar a floresta, agora a borracha fazia subir às
cabeceiras dos rios. A introdução de barcos a vapor em
1853, bem como a abertura do Rio Amazonas à navegação
internacional, fizeram com que a comercialização da
borracha aumentasse em muito, a ponto de ainda no século
XVIII superar a de cacau no porto do Pará.

6
Revista Interior: 1978, p. 06.
30 Reginâmio Bonifácio de Lima

A relação entre os seringais e a cidade de Manaus


era de compra da produção por parte desta, enquanto
subsidiava aqueles. O drama internacional começou a se
esboçar em virtude de os brasileiros transporem a fronteira
entre seu país e a Bolívia, iniciando um rudimentar
processo de “ocupação”. Os limites ainda não haviam sido
fixados, nem os marcos colocados, daí a dificuldade; nem a
Bolívia sabia que as terras lhe pertenciam. A linha limítrofe
leste-oeste só existia nos tratados internacionais. Os brasi-
leiros eram os únicos a explorar a borracha, atendendo uma
demanda existente desde 1839, mas que não havia sido
suprida até a grande seca do Nordeste em 1877, onde, sem
condições de vida, levas de imigrantes chegavam às terras
da Amazônia em busca de sobrevivência, formando os
seringais do Acre e seus primeiros núcleos populacionais,
em busca do ouro negro.

Casa Comercial da Vila Rio Branco, do Sr. Newtel Maia e Cia.


Armazéns dos Srs. Apolinário, Floguel e outros.
Sobre Terras e Gente... 31

Seringal Nova Empreza. Propriedade da firma Alves Braga e


Cia. do Pará.
Data: 1906 – 1907.
Fonte: FALCÃO, Emílio. “Álbum do Rio Acre”, pg. 99 e 113.
Acervo Digital: Memorial dos Autonomistas.

A terra desconhecida, paisagem totalmente isolada


do que se chama civilização, fora aos poucos sendo ocu-
pada. O ciclo se completara: terras novas, produção e pó-
pulação7; havia um fluxo de relação entre esses três. Então,
Brasil e Bolívia resolveram demarcar as fronteiras delimi-
tando a linha Cunha Gomes a 10’ 20” de latitude. Portanto,
o Acre pertencia oficialmente à Bolívia, no ano de 1897.
Um ano depois, foi dada ordem ao governo amazonense
para reconhecer essa linha. Contudo, pelo Tratado de Aya-
cucho, o artigo segundo reconhecia o “uti possidetis” para
fixar a fronteira entre o Brasil e a Bolívia.
Durante o período de 1890 a 1905, além do cresci-
mento da demanda de matéria-prima gumífera, o que se vê
é uma série de atividades acentuando as relações

7
REBORATTI. Carlos E. (1990, p. 21 e 22).
32 Reginâmio Bonifácio de Lima

envolventes da prática vigente na expansão fronteiriça do


Oeste. De um lado, o Brasil busca se afirmar com a insta-
lação do regime republicano, no intento de atingir o equilí-
brio de sua economia que, mesmo com a atuação do café,
ainda era instável; de outro, a Bolívia liderada por seu
representante advindo das frentes liberais, Manuel Pando,
procurava afirmar-se como Estado autônomo. Ao desen-
volver essa análise, percebe-se que o leite extraído da
hevea brasiliensis aparece como possibilidade concreta de
ambos os países alcançarem seus objetivos. Com a ascen-
são de Pando ao poder, a instabilidade política, a defi-
ciência econômica e a falta de unidade territorial na Bolívia
vão eclodir a “Questão do Acre”, e, mais tarde, o Bolivian
Sindicate.
Luiz Galvez, Plácido de Castro e tantos outros
“heróis anônimos” acreanos, entre lutas, batalhas, tratados
e diplomacia imputaram ao Acre status de pertencer ao
Brasil. A fronteira foi definida oficialmente no dia 17 de
novembro de 1903, com o Tratado de Petrópolis, anexando
as terras do Acre ao Brasil; um pagamento ao Bolivian
Sindicate de 110 mil libras esterlinas; e à Bolívia, de dois
milhões de libras esterlinas, além da construção da ferrovia
Madeira-Mamoré.
Definida a questão do Acre é necessário que se dê
continuidade ao estudo da abertura da fronteira: as neces-
sidades de excedente demográfico foram, em grande me-
dida, supridas pela corrente migratória para a Amazônia
ocorrida a partir da grande seca do nordeste. De acordo
com Lima a intensificação da migração nordestina para o
Acre inicialmente se deu no período de 1877 a 1900.
Nesses vinte e três anos, cerca de cento e sessenta mil
imigrantes se estabeleceram nos seringais situados na
bacia dos rios Madeira, Acre, Purus, Chandless e Juruá,
sendo possível traçar a concomitância da seca com o início
do período mencionado, e o auge da produção gumífera
com os últimos anos do século XIX.
Sobre Terras e Gente... 33

Essa expansão, aparentemente intensiva, não man-


teve seu fluxo proporcional ao aumento da produção do
látex. As novas terras utilizadas mantinham uma estreita
relação entre a atitude pioneira de “assentamento” e pro-
dução, e o modo de vida existente nas unidades produtivas.
Assim, a relação entre a terra da qual se retira a borracha (o
seringal), o responsável pelas terras, mantenedor do “modo
de vida” implementado em suas propriedades (o seringa-
lista) e o indivíduo diretamente responsável pela extração
do leite da seringa e sua transformação em pélas (o serin-
gueiro), se dá ora amistosamente ora em conflito.
É válido ressaltar que embora a relação vigente
fosse de exploração e que os seringueiros tenham sido
expropriados, gradativamente se endividando, era latente o
enriquecendo os donos dos seringais que muitos serin-
gueiros viam seus “patrões” como alguém que cuidava
deles, não como pesarosos ludibriantes. A relação tida na
penetração da fronteira, ainda que com momentos de con-
fusão, implementou marchas e contra-marchas, por conse-
guinte êxitos e fracassos, não necessariamente ligados às
forças de relações locais, mas prementes no âmbito do
mercado de produção e na valorização – ou falta dela – do
produto gumífero explorado.
Os seringueiros ficavam anos sem ter a paga pelo
fruto de seu penoso trabalho. As dívidas a eles imputadas
iam além do superfaturamento dos produtos; o patrão
colocava na nota itens que não chegavam até suas colo-
cações, aumentando ainda mais as dívidas dos serin-
gueiros. Estes, para não verem aumentadas suas dívidas,
pediam o estritamente necessário para a sobrevivência, e
muitas vezes, pediam menos que isso, ficando vulneráveis
a doenças e morrendo de desnutrição. Nessas relações
sociais os seringueiros criaram várias formas de resistência,
como colocar barro dentro das pelas, plantar grãos, fugir
das colocações, não pagar as dívidas por ter consciência de
que estavam maiores do que deveriam. Essas eram al-
34 Reginâmio Bonifácio de Lima

gumas das atividades consideradas ilegais, mas que ocor-


riam como forma de resistência dos seringueiros na luta
pela sobrevivência.
O seringal sempre foi uma empresa desvinculada da
terra, contendo em sua área as árvores necessárias para a
retirada do “leite”, colocações, “estradas de seringa” e
barracão. O seringalista monopolizava o acesso ao seringal,
praticando o “aviamento” dos produtos necessários aos
seringueiros. Estes, por sua vez, trabalhavam até catorze
horas por dia, moravam em tapiris, tudo o que consumiam
era-lhes imputado como débito no barracão e comumente
morriam de malária, febre amarela, ataques de índios ou de
animais selvagens.
As casas aviadoras situadas em Belém e Manaus
abasteciam os seringais, recebendo também os rolos de
borracha produzidos nestes e vendendo-os ao exterior. Elas
financiavam cem por cento da produção, vendendo os
víveres aos seringais por preços superfaturados e rece-
bendo as pélas que vendiam ora com lucro, ora com pre-
juízo, dependendo das estimativas e preços no mercado.
O sucesso de Henry Wickham ao embarcar setenta
mil sementes da hevea brasiliensis, em 1876, e conse-
qüente início da produção de borracha na colônia inglesa
do Ceilão (no sul da Índia), Malásia e Indonésia, fez com
que, por sua seleção, disposição de plantio e facilidade de
coleta, a borracha inglesa se tornasse mais barata e de
melhor qualidade que as plantações nativas. Com isso,
quebrou-se o monopólio da região amazônica. Em 1905, a
produção brasileira de borracha era de 35 mil toneladas e a
inglesa de apenas 145 toneladas (SOUZA, 2002). No ano
de 1913, a produção amazônica da goma elástica respondia
por apenas quarenta e cinco por cento da produção
mundial, menos de duas décadas depois, por apenas cinco
por cento. Era a decadência da borracha amazônica, mas
não da Amazônia. O capital estrangeiro foi embora, con-
tudo, viu-se um novo limiar de atividade nas terras
Sobre Terras e Gente... 35

acreanas. A interação com a sociedade central foi modifi-


cada e iniciou-se uma urbanização nas terras acreanas, não
na escala das migrações de outras áreas do Brasil para o
Acre, e sim, o fluxo interno das populações e a mudança de
sua relação com a terra.

Sudhevea e Probor

Com o aumento do consumo da borracha e o neces-


sário suprimento do mercado interno, a Superintendência
do Desenvolvimento da Borracha (SUDHEVEA) foi fortale-
cida pelas práticas políticas nacionais que, de acordo com o
superintendente da SUDHEVEA, José Cesário Mendes
Barros, em 1972, implantou “bases necessárias e irrever-
síveis para o total auto-abastecimento do país de borracha
natural. No mesmo ano deu-se início ao primeiro progra-
ma-piloto destinado a implantar, consolidar a lavoura
heveícola e modernizar a exploração da borracha nativa”8.
Para ele, o objetivo foi atingido a ponto de, em 1977, o Con-
selho Nacional da Borracha, lançar o segundo Programa de
incentivos à produção de borracha natural (PROBOR II),
tendo como fim principal a ampliação do primeiro, con-
cessão de crédito rural, operacionalizado pela superinten-
dência da borracha em ação coordenada com os agentes
financeiros básicos do Sistema Nacional de Crédito Rural
(Banco da Amazônia, no Norte e Centro-Oeste, e Banco do
Brasil, no sul da Bahia). Foi aprovado o plantio de serin-
gueiras, num total de 07 mil hectares. Sendo assumido pelo
superintendente, que, no caso acreano, a implantação
alcançou apenas um terço do planejado.
Em 1972 o Acre produziu cerca de seis mil tone-
ladas de borracha, e em 1976 produziu seis mil e oitocentas
toneladas. O Acre foi o maior produtor nacional de borra-

8
Revista Interior: 1978, p. 6.
36 Reginâmio Bonifácio de Lima

cha no período, seguido do Amazonas e do Pará. A produ-


ção brasileira de borracha natural, em 1978, representava
apenas um terço da demanda nacional, sendo que em 1974
a produção foi de dezoito mil e seiscentas toneladas, sendo
o país responsável por apenas 0,6% da produção mundial.
No mesmo período, a borracha natural brasileira represen-
tava apenas 10% do consumo nacional.
A produção não estava atendendo à demanda, o não
atendimento da necessidade de tempo e cuidado neces-
sários para a seringueira começar a produzir, a falta de
incentivos continuados e desacerto na política de imple-
mento dos seringais, foram alguns dos fatores que contri-
buíram para que os seringais cultivados não alcançassem o
pleno desenvolvimento.

Pelas de Borracha – hevea basiliensis.


FONTE: Acervo digital – IBGE.
Sobre Terras e Gente... 37

Breve Histórico Riobranquense

O local onde mais tarde seria a cidade de Rio Bran-


co era habitado por tribos Aquiris, Canamaris e Maneteris,
pertencentes à família dos Aruaques, que dominavam a
bacia do Purus. De acordo com Silva “os solos riobran-
quinos foram pisados por civilizados, pela primeira vez, em
1861, quando uma expedição de caráter exploratório,
chefiada por Manoel Urbano, sob os auspícios da Província
do Rio Negro, por ali passara...”9. Em 1882, aportou às
margens do Rio Acre, nas proximidades da gameleira, o
cearense Newtel Newton Maia, dando início ao estabe-
lecimento do seringal Empresa.
Rio Branco está localizada no Nordeste do Estado do
Acre, possui características geológicas e geomorfológicas
com singularidade predominantemente horizontais no
relevo, com grandes áreas de depósitos aluviais resultantes
da erosibilidade das águas sobre as margens dos rios que a
banham: rio Acre, rio Iquiri, rio São Francisco, rio
Antimari, rio Xipamamu e riozinho do Rôla, durante as
enchentes cíclicas anuais. A cidade de Rio Branco está
localizada às margens do rio Acre, sendo que o Rio São
Francisco também faz parte do ambiente urbano desta. O
clima riobranquense é classificado como equatorial, com
uma estação chuvosa do mês de junho a maio, e uma de
estio de junho a setembro. De acordo com o INMET/UFAC,
a temperatura média anual é de 25,5° C e a umidade
relativa tem valores médios que ficam em torno de 85%.

9
1981, p. 96.
38 Reginâmio Bonifácio de Lima

Seringal Empreza

Propriedade da firma comercial do Pará, Lopes de Brito e Cia, à


margem esquerda do rio Acre.
Data: 1906 – 1907. Este barracão serviu de hospital de sangue
durante o período revolucionário.
Fonte: FALCÃO, Emílio. “Álbum do Rio Acre”, p.103. Acervo
Digital: Memorial dos Autonomistas.

A partir do povoamento desse seringal surgiu o que


em 1904 seria elevada à categoria de Vila. Através do De-
creto nº. 5.188, de 07 de abril de 1904, o Território acreano
foi dividido em três Departamentos: Alto Acre, Alto Purus e
Alto Juruá, tornando-se Rio Branco sede do Departamento
do Alto Acre. Em 1908, várias mudanças significativas
foram implementadas pelo então prefeito, Gabino Bezouro;
como a transferência da sede do Departamento do Alto
Acre para a margem esquerda do Rio Acre, a instalação de
policiamento, justiça e fiscalização tributária, estruturação
da Vila Penápolis, realização de construções públicas e
Sobre Terras e Gente... 39

criação da Secretaria Geral do Departamento para fiscali-


zação da limpeza pública. Rio Branco teve sua constituição
legal em 13 de junho de 1909, como sede da prefeitura do
Departamento do Alto Acre, na época era chamada de
Penápolis. No ano de 1912 recebeu o nome que possui até
os dias atuais, em homenagem ao Barão do Rio Branco.

Em 1909, a cidade de Empresa recebeu o nome de Pená-


polis, em homenagem ao presidente do Brasil Afonso
Pena (...) em 1912 os lados direito e esquerdo do antigo
seringal Empresa foram chamados de cidade de Rio
Branco, em homenagem ao Barão do Rio Branco, tor-
nando-se capital do Acre em 1920 (SOUZA, 1999, p. 36).

Seguindo a prática de outras cidades amazônicas,


Rio Branco desenvolveu-se às margens do rio, com casas
de madeira e ruas de traçado irregulares10. Inicialmente,
era a sede do Departamento do Alto Acre, sua formação se
deu para atuar como entreposto comercial avançado da
economia mercantil da borracha. Ainda em 1909 planejou-
se e executou-se a construção de duas vias estruturais
importantes: a Avenida Ceará, na direção oeste-leste, e a
Avenida que mais tarde viria a ser chamada Getúlio
Vargas, na direção sudeste-noroeste.
O fato de Rio Branco se encontrar na Bacia Hidro-
gráfica do rio Acre, estando esta inserida na Bacia Sedi-
mentar do rio Amazonas, em função de sua topografia,
percebe-se a origem do rio Acre decorrente da precipitação
pluviométrica e do encontro das águas fluviais e pluviais
com o tenro relevo litológico, resultante da erosão natural
que esculpiu os rios da região e seus afluentes, bem como o
chamado “regime das águas”, onde há enchentes que
ocorrem em correlação estreitamente ligada à intensidade
das chuvas e à vazante no período de estio.

10
Todas as ruas do “centro” do Primeiro Distrito foram plane-
jadas, mas nem por isso têm seu traçado com paralelas e per-
pendiculares, antes, muitas delas seguem o delinear do curso
do Rio Acre.
40 Reginâmio Bonifácio de Lima

Durante as cheias, alguns locais são alagados e pro-


porcionam verdadeira calamidade às populações ribei-
rinhas que vivem nas margens próximas aos rios da região.
Milhares de famílias são desabrigadas nesse período, prin-
cipalmente as que vivem nos bairros Taquari, Seis de
Agosto, Baixa da Cadeia Velha e Airton Sena. Em contra-
partida, no período de estio, o lençol freático é rebaixado
pela ausência de precipitação pluviométrica, que ocorre em
proporção 80% menor que no período chuvoso.
O município conta atualmente com uma área terri-
torial de aproximadamente 883.143 hectares, e, de acordo
com o censo do ano dois mil, sua população é de 253.059.
Limita-se ao sul com os municípios de Capixaba, Xapuri e
Brasiléia; a leste com o município de Senador Guiomard; a
oeste com o município de Sena Madureira; e ao norte com
os municípios de Sena Madureira, Bujari e Porto Acre.

Cidade de Rio Branco em 2005. Com o Terceiro Eixo de Ocu-


pação em Destaque.
Fonte: Setor de Georeferenciamento. Secretaria de Planeja-
mento/PMRB.
Sobre Terras e Gente... 41

Apenas na década de 1920 foram erguidas as


primeiras construções em alvenaria e abertas ruas paralelas
às margens do rio Acre. Na margem direita, em Empreza,
foi aberta a rua Primeiro de Maio; na margem esquerda,
em Penápolis, foram abertas as ruas paralelas Epami-
nondas Jácome e Benjamim Constant; e perpendiculares
àquelas, Marechal Deodoro e Getúlio Vargas. Craveiro
Costa (1998), ao estudar a formação territorial do Acre,
afirma que Rio Branco no início era formada por duas
zonas distintas, separadas pelo rio Acre: Empreza, à mar-
gem direita, onde se situavam os principais hotéis, as
diversões e os negócios de beneficiamento e transporte de
produtos extrativos; e Penápolis, à margem esquerda, onde
se situavam as repartições públicas.
Com o passar dos anos, Penápolis teve melhor
constituição de ruas, praças, infra-estrutura em geral, não
somente pela função de ser sede da administração pública,
mas também pelo fato de as pessoas mais abastadas finan-
ceiramente se mudarem para lá, afastando-se da agitação
de Empreza. Em 1920, Rio Branco havia suplantado as
outras cidades. Com a extinção e unificação dos três
Departamentos existentes, através do Decreto nº. 14.383,
de 01 de outubro de 1920, Rio Branco foi elevada à cate-
goria de capital do Território Federal do Acre, nessa época
tiveram as primeiras construções em alvenaria, além de
planejamento e abertura das ruas.
Com a crise do sistema da borracha em 1920,
ocasionada pela queda do preço no mercado internacional
e diminuição da produção da borracha acreana, várias
foram as mudanças ocorridas na economia local. Houve um
redimensionamento da composição social urbana (Oliveira,
1983, p. 82), com a queda do preço da borracha parte do
grande contingente populacional ligado a essas atividades
abandonou o Território acreano. A população que ficou,
estabeleceu-se em função da administração pública, do
42 Reginâmio Bonifácio de Lima

comercio e, parte, em atividades de produção extrativa e de


beneficiamento.
As andanças das populações pelo território acreano
vão se configurar como fruto dessa “liberação”. O traba-
lhador começa a arcar com o próprio provimento de víveres
e custo de produção, através do cultivo de produtos agrí-
colas em redor de seu tapiri. As forças de trabalho não mais
eram represadas e direcionadas para a produção da bor-
racha. Dentre as alterações ocorridas nos seringais, desta-
cam-se a diversificação da produção e o ritmo imple-
mentado. O tempo de trabalho e sua liberdade de movi-
mento refletiram diretamente na migração para fora dos
seringais, um sinal de excedente populacional e mudança
das relações de força de trabalho entre os que ficaram no
seringal e os seringalistas.
Não há grandes alterações na economia acreana até
a década de 1940, quando as atividades orientada pelo
capital mercantil, em um novo esforço de produção extra-
tiva, retomaram a extração da borracha. Nesse período, Rio
Branco contava com cerca de onze mil e noventa e três
habitantes, ou seja, metade do contingente populacional
que havia nela na década de 1920.
A estrutura que antes era implementada de forma
social rural “coletora”, representada pelos coletores de
látex e castanha, no início do século XX, foi modificada
com o acréscimo da agricultura de subsistência, que não
conseguia suprir sequer um terço do mercado interno. A
partir de 1940, com a crescente urbanização, várias foram
as modificações ocasionadas pelas novas conjunturas
político-econômicas que eclodiram no Acre. Os problemas
do êxodo rural, a deficiência na assistência sanitária e so-
cial, a falta de crédito para o desenvolvimento das ativi-
dades extrativistas da borracha e da castanha foram fatores
importantes que influíram na modificação do ambiente
acreano e seus sistemas de fomento, o que refletiu dire-
tamente na Capital.
Sobre Terras e Gente... 43

Balsa de pélas de borracha da Casa Aviadora “A Limitada”.


Década de 1950.
Fonte: Acervo Digital: Memorial dos Autonomistas.

A luta pelo progresso levou o Brasil na década de


1960 a, teoricamente, caminhar para a reforma agrária na
Amazônia, onde pudesse haver um desenvolvimento das
relações e resolução das tensões suscitadas pela mudança
das estruturas industriais brasileiras e pelos equilíbrios
sociais decorrentes do desenvolvimento – o que não
ocorreu.
O crescimento de Rio Branco, que já vinha ali-
mentando-se do deslocamento populacional desde a dé-
cada de 1960, foi nutrido tanto pelas populações expro-
priadas dos seringais quanto pelas populações que, em
face às condições difíceis vividas nos seringais, precisavam
se deslocar de lá para sobreviver. Rio Branco tornou-se o
centro receptor dos contingentes populacionais recentes do
Acre, das gentes retirantes da zona rural que também
foram obrigadas a sair por circunstâncias como a inter-
rupção do aviamento, a desistência dos responsáveis pelos
44 Reginâmio Bonifácio de Lima

seringais, as pressões dos credores, a queda do preço da


borracha, dentre outros.
A reforma agrária teria um peso decisivo no modo
de atuação do governo e das relações com o mercado, con-
tudo, a política aplicada persistiu numa via de moderni-
zação mais conservadora, com a persistência do latifúndio
e a configuração de um sistema político mais autoritário. As
políticas propostas para o projeto de desenvolvimento
foram principalmente para exportação. O mercado e o
Estado buscaram compensar suas falhas pela intervenção
mútua, sendo que as intervenções públicas do Estado
foram no setor de comunicações, e rodovias, aparatos bási-
cos para a atuação do mercado gerador de lucros e
dividendos.
No caso acreano da reforma agrária, Nascimento
afirma que ela se deu ao contrário. Na década de 1980
havia maior quantidade de propriedades latifundiárias de
grande porte que nas décadas proximamente anteriores – o
que leva a pensar a estruturação do governo para a expan-
são do capital. Não foi diferente no restante da Amazônia, o
que houve foi uma subdivisão dos minifúndios em relação
às décadas anteriores.

Demografia da Capital

A população riobranquense atualmente representa


cerca de 46% da população total do Estado, sendo que,
desse contingente, 89,4% concentra-se na cidade. De acor-
do com o Censo Demográfico de 2000, a população total do
município é de 253.059 habitantes, o que representa um
crescimento populacional de 3,40% ao ano, no período de
1991 a 2000. Esse índice é muito elevado se comparado à
taxa de crescimento demográfico brasileira, que ficou em
torno de 1,3% ao ano no mesmo período; mas também é
representativo, quando comparado ao crescimento ocorrido
Sobre Terras e Gente... 45

na Capital durante a década de 1980, que era de 4,35% ao


ano.
Na década de 1970, 42,3% da população riobran-
quense residia na área urbana; na década de 1980, esse
percentual passou para 79,38%; e, da década de 1990, até
os dias atuais, as estimativas dão conta de que a população
urbana seja 89,4%. As justificativas apresentadas para esse
incremento populacional são as de que houve a incorpo-
ração na zona urbana de áreas que em censos anteriores
eram consideradas rurais; há um êxodo quase constante
em direção à cidade; e o próprio crescimento vegetativo
nas áreas urbanas de Rio Branco.

Populações de Rio Branco e do Acre – Censos de 1940 a 2000.

Ano Rio Branco Acre Participação de


Rio Branco em
Urbano Rural Total Urbano Rural Total relação à
população total
(%)
1940 4.945 11.093 16.038 14.138 65.630 79.768 20,09
1950 9.371 18.875 28.246 * * 114.755 24,61
1960 17.104 30.333 47.437 17.620 63.753 158.852 29,86
1970 35.578 48.399 83.977 59.307 155.992 215.299 39,00
1980 87.646 29.467 117.113 132.174 169.432 301.605 38,82
1991 167.882 19.287 187.169 258.520 159.198 417.718 44,81
1996 201.347 27.510 228.857 351.271 168.322 438.593 47,33
2000 226.298 26.761 253.059 370.672 187.259 557.931 45,36

Fonte: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE.


* Não foram encontrados dados precisos, então se optou pela
omissão.

Na década de 1970, a população riobranquense era


predominantemente jovem, seguindo a característica brasi-
leira da época, com altos índices de fecundidade. As crian-
ças e adolescentes (de 0 a 14 anos) representavam 44,82%
da população do município; a população jovem e adulta (de
15 anos acima) representava 55,18%.
46 Reginâmio Bonifácio de Lima

De acordo com o último Censo do IBGE, a popula-


ção de crianças e adolescentes era de 34,7%, enquanto a de
jovens e adultos representava 65,13%, o que representou
um aumento na parcela de jovens e adultos. A estabilização
e a diminuição de fecundidade levaram a um amadure-
cimento na população riobranquense.
Outro dado que não pode passar despercebido é a
relação por grupo de idade e sexo entre 1970 e 1991, o fato
do envelhecimento populacional estar intimamente ligado
ao fato de as mulheres também estarem vivendo mais. Com
exceção da faixa entre 60 anos ou mais, em todas as outras,
a quantidade de mulheres tornou-se maior em relação a
número de homens, na década de 1990; quadro invertido
se analisado e comparado em relação aos apresentados nas
décadas de 1970 e 1980 onde os homens eram a maioria
em todas as categorias.

População por grupo de idade e sexo – 1970/1991.

Grupo 1970 1980 1991


de
Idade Homem Mulher Total Homem Mulher Total Homem Mulher Total
0-19 26.018 23.551 49.569 32.337 32.247 65.584 47.379 48.480 95.859
20-59 16.456 14.586 31.042 23.823 23.495 47.318 40.052 41.896 81.948
60 e + 1.381 1.087 2.468 2.663 2.305 4.968 4.860 4.502 9.362
Total 43.855 39.224 83.079 58.954 58.149 117.713 92.291 94.878 187.169

Fonte: IBGE.

Durante todo o trabalho se falará em bairro e em


bairros, mas é certo que não existem bairros em Rio Bran-
co, ao menos de acordo com a conjuntura para constituição
legal dos mesmos, com necessidades de delimitação for-
mal, decreto de criação e formalização. Todavia, para que
não seja preciso “inventar” um nome ou outra designação
que não seja corriqueira ou acertada para a realidade
vigente, se falará de onde há habitações, convivências,
sociabilidades e, enfim, a transformação do espaço em local
como sendo o “bairro”, com a consciência de que, nas
palavras de Marco Antônio Otsubo:
Sobre Terras e Gente... 47

Rio Branco tem hoje uma particularidade, que não exis-


tem bairros na sua forma legal. Um bairro sob o ponto de
vista legal, tem que ter delimitações físicas, preferen-
cialmente, e que essas delimitações estejam embasadas
em algum documento. No caso de Rio Branco, a gente
não tem bairros definidos com seus limites físicos. O que
existe hoje dentro da cidade como um todo, são as defi-
nições populares convencionadas e criadas pelos próprios
moradores. A partir de uma criação de um loteamento,
seja ele oficial ou não, regular ou irregular. O morador
tende a tratar aquilo como seu bairro. Então, às vezes, um
loteamento que faria parte de um bairro, que é um con-
texto maior, uma região que tem característica seme-
lhante em torno, ele passa a ser considerado um bairro.
Dessa forma, Rio Branco tem esse número de bairros,
considerado absurdo para muitas capitais11.

Vista aérea da área central de Rio Branco – 1980.


Fonte: Acervo digital IBGE.

11
Otsubo, Marco Antônio. Engenheiro Civil. Técnico da Divisão
de Georeferenciamento da Secretaria de Planejamento da
Prefeitura de Rio Branco. Entrevista concedida dia 17/03/2005.
48 Reginâmio Bonifácio de Lima
Sobre Terras e Gente... 49

AS POPULAÇÕES RURAIS
EXPROPRIADAS E A
PERIFERIA ESTENDIDA

A Expansão da Fronteira12

A localidade está contida em um lugar maior e esse


passa por conjecturas políticas, econômicas, interesses
mercantis e projeções de analogias com fins, ora especu-
lativos, ora cognitivos, em grande parte, oscilando confor-
me os grupos que estão no controle. Deve-se ressaltar que
qualquer atividade conflituosa ou ainda, que conduza a um
êxodo, impelindo a uma migração afeta não apenas o local
de saída, mas também, o curso, o motivo, as circunstâncias
e o local de chegada.
As migrações constituem-se em marcos na vida dos
indivíduos, à medida que estabelecem mudanças que pro-
vocam rupturas e conflitos. Ao mesmo tempo, apontam
para a perspectiva de novos horizontes. É preciso estar
atento para o fato de que a mudança espacial implica
outras mudanças na vida das gentes migrantes, rela-

12
No sentido dado por Carlos E. Reboratti: Fronteira é “a área de
transição entre o território utilizado e povoado por uma socie-
dade e outro que, em um momento particular do desenvolver
dessa sociedade e de seu ponto de vista, não tenha sido
ocupado de forma estável, ainda que já tenha sido utilizado”
(REBORATTI, 1990, p. 04) e sua expansão se dá quando a ter-
ra, já quase totalmente ocupada, transforma-se de um simples
elemento de produção em mercadoria, e como uma das conse-
qüência aparece uma imigração que não apenas ocupa os
espaços vazios, como também “obriga” os pioneiros dessa área
a migrar (1990, p. 22).
50 Reginâmio Bonifácio de Lima

cionadas a novas dinâmicas sociais, diferenças culturais e


alteração de hábitos no cotidiano, mudanças que também
ocorrem na esfera das relações interpessoais, além das
rupturas, distanciamentos e traumas decorrentes de situa-
ções desse tipo.
Ao ter em comum situações de mudanças em suas
trajetórias de vida, essas pessoas passam por rupturas,
adaptações e resistência aos novos espaços e culturas, mo-
dificando no próprio processo de mudança espacial, im-
pregnado de rupturas, a reconstrução de sua identidade
individual e coletiva, formando-se gradativamente uma
memória social13. Todo este processo envolve laços afetivos,
alegrias, tristezas, conquistas, perdas e, sobretudo, vivên-
cias, não mais da mesma forma que dantes, mas em um
outro espaço, em um outro tempo, em uma outra
perspectiva, circunstanciados no desenvolver de afinidades
e divergências do que se faz no constituir do local.
Para os migrantes, a relação entre o passado e o pre-
sente remete a ganhos e perdas vivenciados em suas
trajetórias. O passado – que muitas vezes está associado em
parte a dificuldades, limitações, escassez e estagnação,
considerando o quadro cristalizado em seus locais de ori-
gem – também representa aspectos positivos, envolvendo
laços familiares, hábitos e práticas do cotidiano, tradições e
manifestações populares, a vida comunitária, o lazer e a
diversão, a riqueza da cultura local.
Há uma imensidão de postulações representativas
nas vozes desses homens e mulheres. De acordo com
Bakhtin, os discursos interagem entre si, ora por intertex-
tualidades, ora por interdiscursividade. E a tentativa de
fazer algum tipo de análise, por si só já leva o historiador a
mudar a si e ao conteúdo que se propõe a estudar porque,
segundo Paul Thompson:

13
FENTRESS, James & WICKHAM, Chris (1992).
Sobre Terras e Gente... 51

A natureza da memória coloca muitas armadilhas para os


incautos [...] oferece[m] também recompensas inespe-
radas para um historiador que esteja preparado para
apreciar a complexidade com que a realidade e o mito, o
"objetivo" e o "subjetivo", se mesclam inextricavelmente
em todas as percepções que o ser humano tem do mundo,
individual e coletivamente (THOMPSON, 1992, p. 179).

A expansão da fronteira acreana está intimamente


ligada ao aumento populacional e aos problemas por ele
produzidos; o nascente mercado de terras aos poucos foi se
estruturando. Essa expansão é problemática, envolta em
violência e dor; as áreas cultivadas pelos antes extratores e
agora colonos é apropriada pelos governantes para produ-
ção que tenha maior rendimento, uma vez que poucas
eram as pessoas que tinham o título das terras. Assim, não
apenas os “espaços vazios” são retomados e preenchidos,
mas há a expulsão dos velhos pioneiros que os obriga a
migrar. Com a presença do médio e grande capital
agropecuário no Acre, a população expulsa do interior, ou
que abandonava as terras ocupadas, procurava oportuni-
dades de emprego e negócios, indo para a periferia das
cidades. Para se ter em conta, segundo o Anuário Esta-
tístico Estadual de 1977, a renda produzida pela pecuária
superava a da borracha. Mesmo os seringais mais produ-
tivos sofriam as constantes pressões para serem transfor-
mados em fazendas de criação de gado.
Nas décadas que se seguiram ao pós-guerra são
vistas as muitas facetas dos interesses políticos e econô-
micos do Centro-Sul para com a Amazônia, e para com o
Acre especificamente. O sistema de comunicações foi
melhorado, as rodovias abertas, o Território Federal do
Acre foi transformado em Estado, no ano de 1962, o que
deu mais autonomia a ele. A própria política de colonização
oficial, na década de 1970, produziu impacto decisivo sobre
o isolamento em que o Acre ainda se encontrava, dando
52 Reginâmio Bonifácio de Lima

continuidade a uma política de integração, para beneficiar


o capital que estava se estabelecendo no Acre.
Grileiros, “paulistas14” e especuladores compraram
terras a um preço extremamente baixo. A expansão
territorial do Acre se deu de forma diferenciada entre os
Vales do Juruá e Purus. Enquanto neste as BR’s 364 e 317
favoreciam a intensificação do contato com frentes demo-
gráficas externas; naquele pairou o isolamento, falta de
estradas, e a inacessibilidade para imigrantes. Isso fez com
que o aumento populacional e a concentração de novas
fontes de produção permanecessem estreitamente agluti-
nadas no leste acreano.
O propagandeado futuro fator de desenvolvimento
do Acre, a pecuária extensiva, não alcançou seu objetivo, o
governador Wanderley Dantas e seus auxiliares não conse-
guiram enriquecer o Acre com o progresso e o desenvol-
vimento. Antes, a concentração de terras nas mãos de uns
poucos, a crescente derrubada das florestas para transfor-
mar em pastos, a venda das toras por madeireiras vindas ao
Acre e o êxodo rural, são mais visíveis como conseqüência
da política implementada e do capital especulativo, que do
alardeado progresso acreano. Por conseguinte, as gentes
foram migrando na direção campo-cidade, e assim vão se
firmando os “bolsões” populacionais ao redor das cidades e
às margens das rodovias.
Nas cidades, os comércios e as indústrias tiveram a
mão-de-obra necessária para produzir, embora não “quali-

14
O termo “paulistas” é utilizado nesta obra para designar os
migrantes do Centro-Sul do país que adquiriram grande parte
das terras acreanas para transformá-las em fazendas de criação
de gado. Quando das primeiras expulsões em algumas áreas,
ao perguntar aos entrevistados quem os retirara das terras,
estes respondiam que havia sido os paulistas. Com o passar do
tempo o termo “paulistas” passou a ser utilizado para designar
os migrantes envolvidos em conflitos nos seringais acreanos
durante a segunda metade do século XX.
Sobre Terras e Gente... 53

ficada”. É certo que durante a década de 1970 e início da


de 1980, houve um aumento substancial da quantidade de
indústrias e casas de comércio acreanas, além de o Estado
tornar-se o principal empregador. Rio Branco, Cruzeiro do
Sul, Sena Madureira, Xapuri e outras cidades, na década
de 1920 experimentaram uma urbanização por causa da
borracha, tiveram ao fim dos anos 1950 um aumento
considerável em suas populações e nos anos 1980, viram o
inchamento de suas periferias pelos que foram expulsos de
suas terras.
Analisando os dados do IBGE nos censos de 1960 e
1970, percebe-se que a população quase que dobrou se
comparada ao número de habitantes. Na década de 1960
eram 47. 437 habitantes, na década de 1970 a população
riobranquense era formada por 48. 399 habitantes na
zona rural e 35.578 habitantes na zona urbana, totalizando
83.977 habitantes.
Nesse período de andanças das populações amazô-
nicas, com cerca de 77% da população migrando, ocorreu
também um fluxo populacional para a capital acreana. De
acordo com estudos realizados pela SUDAM15, a migração
interna de Rio Branco nas décadas de 60/70 foi marcada
pela procedência regional e local, com cerca de 60% da
população migrante; e os outros 40% provenientes de
outras localidades do país, com predominância nordestina
– 14% provenientes do estado do Ceará.

15
SUDAM appud OLIVEIRA, 1983.
54 Reginâmio Bonifácio de Lima

MIGRAÇÕES EM RIO BRANCO -


1960/1970

40,20% 34,37% Intra regional


Intra estadual
Interregional
25,43%

Fonte: SUDAM

A população que foi atingida pela penetração do


capital sulista nos anos de 1970, já residia há várias dé-
cadas nas terras acreanas. Os dados obtidos em uma pes-
quisa efetuada pelo Centro de Desenvolvimento e Plane-
jamento Regional (CEDEPLAR) no ano de 1978, em Rio
Branco, revelaram que 45% dos chefes de família que
migraram para Rio Branco chegaram há menos de 10 anos,
sendo a intensidade do fluxo migratório expressa em
concomitância com as políticas públicas de acumulação de
capital. Ou seja, o próprio CEDEPLAR16 vincula a migração
dos chefes de família e as andanças populacionais às
políticas públicas implementadas no período.
De acordo com dados levantados pela SUCAM, a
relação entre a quantidade de bairros e número de
moradores fora do núcleo central nos anos de 1975 e 1979,
demonstra a expansão fronteiriça ocorrida em Rio Branco;
em 1975 existiam apenas 19 bairros fora do núcleo central,
e, quatro anos depois, em 1979, já se contabilizavaM 26
bairros. Quanto à população desses locais, o número era de
18.176 pessoas em 1975, e, em 1979, passou para 53.935, o

16
CEDEPLAR appud OLIVEIRA, 1983, P. 91.
Sobre Terras e Gente... 55

que totalizava um acréscimo de 296,7% em apenas quatro


anos.

Cidade de Rio Branco – Bairros e Número de Moradores

Bairros (fora do Núcleo Número de Moradores


Central) 1975 1979
Aeroporto 455 2.219
Abraão Alab 603 1.438
Aprendizado (Palheiral) 476 3.935
Bahia 1.240 3.059
Baixa da COHAB 473 1.093
Castelo Branco - 1.882
Cadeia Velha I - 547
Cidade Nova 2.055 5.245
Estação Experimental 435 1.227
Guiomard Santos 2.033 3.304
Iniciação II 460 1.073
Vila Ivonete 448 698
Jardim Tropical - 766
Jardim São Francisco - 385
Mascarenha de Moraes 511 1.551
Nemmaia - 427
Olaria João Vila 1.122 3.020
Quinze 1.707 4.055
Quarto Batalhão Especial de 220 1.089
Fronteira
Redenção 1.407 2.471
Santa Terezinha 1.393 4.043
Seis de Agosto 1.806 4.926
Santa Quitéria - 723
São Francisco 861 2.358
Triângulo 471 1.387
Oito Placas - 1.017

Fonte: Levantamento SUCAM/Acre, apud OLIVEIRA, 1983, p.90.

Em 1976, ao analisar o contingente e as condições


de existência da população urbana em Rio Branco, Fer-
nando Garcia de Oliveira, em 1978, registrou a existência
de oito bairros pobres, “que diferem dos demais bairros da
56 Reginâmio Bonifácio de Lima

cidade”. Para ele, o fluxo migratório contribuiu para o


crescimento da cidade. Afirma ainda que o incremento
desse fluxo foi grande se comparadas as proporções com
que se deu e os níveis populacionais amazônicos em espe-
cífico, uma vez que se a população riobranquense no perío-
do fosse de quinhentos mil habitantes não se teria sentido
de forma tão incisiva o fluxo migratório. Dentre os bairros
pobres citados encontram-se os loteamentos não totalmente
normalizados: Vila Redenção, Papouco, São Francisco e
Aeroporto Velho, além de quatro outros resultantes da
intervenção direta das populações chegantes à capital, que
são: Cadeia Velha, Cidade Nova, Bahia e Palheiral.
A cidade se distribuiu espacialmente nas diversas
direções e os bairros periféricos são parte desse processo de
alargamento do perímetro urbano.
As Colônias Agrícolas do Aviário e São Francisco
formaram-se a partir de bolsões pobres. Como eles, os
bairros mais antigos como Base e Papouco (Dom Giocondo)
tiveram um crescimento acelerado no número de seus
habitantes, bem como, o surgimento do bairro Cidade
Nova, na outra margem do rio, em terras pertencentes à
Marinha. Também, como uma espécie de continuação do
tradicional bairro Quinze, apareceram os bairros Triângulo
Velho e Triângulo Novo, junto com o Cidade Nova e
bairros adjacentes. O que na década de 1970 era um
alagado da Marinha, foi povoado e dado o nome de Cidade
Nova, este tornou-se o bairro mais populoso da cidade. É
provável que seu excepcional crescimento deva-se, em
parte, a sua localização próxima às rodovias que dão acesso
a Brasiléia, Xapuri, Porto Velho, localidades onde a expul-
são dos trabalhadores rurais foi crítica e incisiva.

As Formações e Ampliações da Periferia

O inchamento da cidade de Rio Branco se deu como


resultado da urbanização acentuada, intensificando as
ampliações dos bairros periféricos e os problemas sociais
Sobre Terras e Gente... 57

na área urbana. Como conseqüência do acelerado cresci-


mento, os problemas sociais se acumularam, já que Rio
Branco não teve suporte para absorver o contingente popu-
lacional que se deslocava da zona rural. Marginalidade,
desemprego, falta de moradia, dentre outros, foram consta-
tados como desdobramentos tão palpáveis quanto drama-
ticos da realidade urbana desencadeada pelas mudanças
sensíveis e características advindas a partir da penetração
capitalista.
Quando da desmobilização dos soldados da borra-
cha – nordestinos que atenderam ao chamamento do Go-
verno Federal precisando “escolher” entre ir à Europa para
lutar na Segunda Guerra Mundial ou vir para a Amazônia,
principalmente para os seringais do Acre, como soldados
extratores de látex. Os que para cá se deslocaram cum-
priam o propósito de extrair látex para os países aliados,
principalmente para os EUA; esses brasileiros agiam como
soldados da borracha no meio da selva amazônica – não
havia necessidade da produção que se tornava “excedente”
em relação às necessidades mercantis urbanas. As áreas
agrícolas não se expandiram; mais pareciam um processo
de assentamento da população mais pobre que não tinha
posse da terra onde permanecia. As áreas agrícolas mais
próximas do núcleo urbano, e pouco a pouco, as pessoas
nelas residentes, foram afastando-se do vínculo de trabalho
diretamente na terra.
Rio Branco que havia mantido certa “estabilidade
populacional” até meados da década de 1940, quando do
fim da Segunda Guerra Mundial, e criação dos núcleos
coloniais com o intuito de abastecimento das cidades e
fixação dos chamados “soldados da borracha”, na década
de 1950 contava com uma população urbana de 9.371
habitantes, dos 28.246 habitantes do município. Passou,
pouco depois, pelo que Antônio Teixeira Guerra chamou de
“zona ampliada”, para designar as novas áreas urbanas
implementadas no território riobranquense, com predo-
mínio de reassentamento na parte norte de Penápolis. A
58 Reginâmio Bonifácio de Lima

essa área Oliveira, ainda em 1982, vai chamar de Primeiro


Eixo de ampliação espacial.
Os habitantes desse eixo, em meados do século XX,
eram utilizados pela administração pública como mão-de-
obra auxiliar, intervindo a administração pública na organi-
zação espacial urbana, construindo obras em alvenaria,
numa progressiva expansão da fronteira urbana da capital.
A classe média, formada por comerciantes e funcio-
nários públicos, aos poucos teve modificações na edificação
estrutural de suas casas, que foram deixando de ser cons-
truídas de madeira para serem feitas de alvenaria. Ao
mesmo tempo, os moradores pobres residiam na parte
externa do núcleo central: a periferia. Guerra descreve que
as casas periféricas da primeira zona ampliada ou Primeiro
Eixo Ocupacional eram de madeira, cobertas de “palmeira
de ouricuri, zinco ou cavacas”.
De certa forma, os habitantes desse eixo ocupa-
cional estavam inseridos nas atividades de trabalho, sejam
ocasionais ou normais, e até o fim da década de 1960 esse
anel periférico se manteve em grande medida delineado,
uma vez que a estrutura interna da cidade havia se
consolidado no perímetro antigo de Penápolis, contendo o
centro comercial e administrativo. O que se pode observar
à primeira vista é a constituição esférica nuclear de Rio
Branco e o início do sobressalto de Penápolis em detri-
mento a Empreza.
É válido ressaltar que, embora a população urbana
estivesse crescendo em projeção geométrica, uma vez que
em 1960 era de 17.104, e, em 1970, era de 35.578, o nú-
mero de bairros das classes médias e bairros pobres ao re-
dor do “centro” eram pequenos, com um incremento contí-
nuo. A construção do espaço urbano de Rio Branco foi pro-
duzida a partir das modificações internas e transformação
do espaço ocupado nas diversas direções. As zonas amplia-
das, a formação e ampliação de alguns bairros em antigas
áreas de colônias formaram o Primeiro Eixo Ocupacional.
Sobre Terras e Gente... 59

Planta Funcional da Cidade de Rio Branco em 195317. Fonte:


Georeferenciamento. SEPLAM/PMRB.

17
A planta está dividida em 05 áreas distintas, de “A” até “E”,
com algumas áreas sem demarcação. A área intitulada “A”
60 Reginâmio Bonifácio de Lima

O Segundo Eixo Ocupacional se deu principalmente


a partir dos bairros pobres que já havia certo tempo ocupa-
vam a margem esquerda do rio Acre, na parte próxima ao
centro administrativo pertencente à Penápolis. Esses
bairros que ficam em Penápolis como Papouco, Base, Pre-
ventório, Estação Experimental, Aviário, Cerâmica, tiveram
um considerável aumento no número de seus moradores.
Também em áreas pertencentes à Empreza, alargaram-se
bairros que mais pareciam a continuação – sem infra-
estrutura – do bairro Quinze, como é o caso dos bairros
Cidade Nova, Triângulo I e Triângulo II.
A partir do momento que o Acre foi envolvido no
processo de expansão econômica, seguindo o modelo do
governo federal, suas terras ficaram a disposição do capital
oriundo do Centro-Sul, conseguiu-se apartar as terras dos
que nela habitavam, pela dificuldade de se adquirir docu-
mentação da terra; os posseiros, ocupantes, seringueiros,
moradores que nelas residiam, não tiveram acesso à lega-
lização do local onde habitavam; também não era de inte-
resse dos compradores das terras explorá-las produtiva-
mente naquele momento.
Como se pode constatar no mapa, a área comercial-
administrativa torna-se focal, rodeada pelos bairros de
classes médias e famílias mais tradicionais que usufruíam
de uma linha de proximidade e ligação direta com o “cen-
tro”, sendo, em terceiro plano, percebidos os bairros mais
pobres, onde residiam as classes trabalhadoras de mora-
dores pobres.
Dada a falência dos seringais, as dificuldades per-
meantes nos locais onde as populações rurais residiam, a
falta de estímulo, a desativação das colônias agrícolas e a

refere-se a “Zona ampliada”, descrita por Antônio Guerra; os


Espaços que rodeiam as áreas “A”, “B” e “E”, referem-se ao Se-
gundo Eixo, descrito por Luiz Oliveira; a parte Sudoeste do
mapa, onde está a pista de aviação, refere-se ao Terceiro Eixo,
descrito por Reginâmio Lima.
Sobre Terras e Gente... 61

incorporação de áreas antes rurais à zona urbana, muitas


das famílias foram expulsas das terras em que residiam há
décadas. O êxodo rural foi iminente.
Os nordestinos recrutados para trabalhar na coleta
extrativa eram homens e mulheres outrora oprimidos pelo
patrão, mas conseguiram vencer várias etapas, modificar a
interação com o trabalho, produzir na agricultura familiar e
sobreviver na floresta. Contudo, a expansão capitalista
obrigou a eles e a seus descendentes saírem das terras em
que habitavam, e esses vieram para a cidade. Muitos se
aglomeraram em áreas baixas e alagadiças, como Taquari e
Cidade Nova, ou adensaram ainda mais os bairros da Base,
Papouco, Quinze ou formaram novos bairros, como Oito
Placas, São Francisco, Baixada da Cohab, Vila Ivonete,
alargando as fronteiras periféricas dos bairros pobres.
Não só de bairros pobres foi formado o Segundo
Eixo Ocupacional, bairros como Jardim Tropical, Habitasa,
Floresta, COHAB do Bosque, Castelo Branco, Bela Vista,
dentre outros, configuram-se reduto da classe média emer-
gente, fruto do capital industrial, das relações com o poder
público ou de famílias tradicionais riobranquenses. A
estrutura urbana não apenas aumentou, mas também valo-
rizou altamente o solo, sendo mais valorizado o próximo ao
Hotel Chuí, atual Prefeitura de Rio Branco – no núcleo
central e desvalorizando-se à medida que distava deste.
O núcleo central da cidade já estava cheio de cons-
truções e com o solo valorizado. Havendo a demanda por
habitação para a nova classe média que surgia, o embrio-
nário capital imobiliário utilizava as áreas vazias próximas
ao centro ou expulsava a população de baixa renda desses
locais ocupados para erguer casas mais “sofisticadas”.
Frutos da “modernização” de algumas funções urba-
nas no Estado e das formas de ligação com o Centro-Sul,
surgiram os redutos de classe média. Os chamados novos
segmentos de classe média, recrutados entre negociantes,
técnicos e especialistas vindos do Centro-Sul e Nordeste; e
62 Reginâmio Bonifácio de Lima

elementos locais associados a velhas formas de dominação,


vão influir sobre o chamado mercado imobiliário.

Acerca de Governos e Jornais

Desde 1964, com a reorganização econômica pro-


porcionada pelo Governo, após o Golpe Militar, houve uma
visível política de transferência de seringais para empre-
sários do Centro-Sul. Procópio afirma que várias transações
aquisitivas de terras foram feitas, inclusive transações
fraudulentas de terras no país, a ponto de se instalar uma
Comissão Parlamentar de Inquérito, no ano de 1968, para
apurar as denúncias, tendo como resultado a verificação de
mais de 150.000 Km² de área de terra negociados para gru-
pos estrangeiros. O deputado Haroldo Veloso, da Aliança
Renovadora Nacional – ARENA – apresentou tais resulta-
dos em seu relatório.
O projeto de transformação da economia acreana
passou por um processo que contou com o apoio do gover-
no do Acre, quando o então governador Jorge Kalume
apoiou a “Operação Amazônia”, assinando junto com
outros governadores, políticos, intelectuais e empresários a
“Declaração da Amazônia”, de 11 de dezembro de 1966.
Essa declaração era fruto da reunião denominada “Investi-
dores da Amazônia”, ocorrida a bordo do navio Rosa da
Fonseca, no Rio Amazonas, em dezembro de 1966. Em um
dos itens da declaração acima citada lê-se: “que os índices
de evolução da economia regional, nos anos recentes, de-
monstram uma tendência espontânea à gradativa substitui-
ção do extrativismo, como setor principal por atividade
economicamente mais produtiva e socialmente mais evoluí-
da”.
Juntando-se a isso, no ano de 1971, o BASA suspen-
deu as linhas de financiamento aos seringalistas endivi-
dados, por considerá-los incapazes de saldar seus compro-
Sobre Terras e Gente... 63

missos, decorrentes de empréstimos feitos ao banco. No


mesmo ano, o novo governador acreano, professor Wan-
derley Dantas, indicado pelo presidente Garrastazu Medi-
ci, acreditou nessa política de modernização autoritária do
Governo Federal e facilitou a aquisição de terras por em-
presários de outros lugares.
Como vários estados pobres, que dependiam de
recursos federais para se manter, o Acre fez o que era para-
zível à política do “Brasil Grande Potência” e seu governa-
dor propagandeava as virtudes do solo e do clima acreano
por todo o Brasil, principalmente pelo Centro-Sul, com
slogans do tipo: “um nordeste sem secas”, “um Paraná sem
geadas”; “Acre, uma nova Canaã”; “Invista no Acre e
exporte pelo Pacífico”. Esse tipo de atitude foi visto e
produzido por vários Estados, ministérios e intendências.
No início dos anos 70, a reocupação das terras
acreanas, proveniente da corrida pela incorporação de
áreas de fronteira, fomentada pelo Governo Federal, se deu
pela inserção de grandes grupos econômicos, principal-
mente empresários paulistas.
Três militares estiveram no mais alto posto de co-
mando da nação durante o período de formação do Terceiro
Eixo, indicaram diretamente os governadores do Acre e
agiram na dinâmica – ainda que parcial – da escolha dos
prefeitos. Esses generais-presidentes governaram o país
durante um longo tempo e traçaram sua política para a
nação, sendo os generais: Emílio Garrastazu Médici, de
1969 a 1974; Ernesto Geisel, de 1974 a 1979; e João
Baptista Figueiredo, de 1979 a 1985.
Com a aprovação do primeiro Plano Nacional de
Desenvolvimento – PND –, em 1971, com abrangência de
1972 a 1974, durante o governo Médici, foi produzida uma
série de investimentos nos setores siderúrgico, petroquí-
mico, transportes e energia, foi criado o Mobral, iniciaram-
se grandes obras como a ponte Rio-Niterói e a rodovia
Transamazônica; era um tempo de entusiasmo e euforia no
64 Reginâmio Bonifácio de Lima

chamado período do “milagre brasileiro”. Houve o aumen-


to da produção industrial, crescimento das exportações e
acentuada utilização de capitais externos. Mas nem tudo
foi bonança, com a crise do petróleo de 1973, a conjuntura
favorável desapareceu, a inflação cresceu e também a
dívida externa. O governo montou um amplo esquema de
controle autoritário da sociedade e adotou uma rígida
política de arrocho salarial.
Geisel enfatizou a necessidade de crescimento e
expansão das indústrias, e pôs em vigor o segundo PND.
Figueiredo também pôs em prática o terceiro PND, de 1980
a 1985, onde exprimia o pensamento de desenvolver a
sociedade de forma livre, equilibrada e estável; assumindo
o compromisso histórico de promover o aumento da “aber-
tura política”, visando a democratização do Brasil. Nesse
período o que se viu foi o agravamento da crise econômica
influindo diretamente na dívida externa, inflação e no
desemprego.
Os diversos segmentos da sociedade se organizaram
e resistiram ao autoritarismo político, e aos poucos, foram
conquistando espaços através da diminuição progressiva
da censura, anistia a diversos condenados políticos, volta
do pluripartidarismo e das eleições diretas para governa-
dores de estado. Nesse período houve a “abertura consen-
tida”, a deflagração da campanha das “diretas”, que culmi-
nou com a retirada de cena dos militares e o governo voltou
a ser exercido por civis.
Quanto aos governos acreanos no período em
questão, pode-se dizer que o de Wanderley Dantas foi o
que abriu as fronteiras para o grande capital e aos empre-
sários do Centro-Sul, procurando não intervir nas questões
de conflitos de terra, e omitindo as políticas públicas de
proteção aos trabalhadores que eram expulsos de suas
terras. O governo Geraldo Mesquita tinha uma perspectiva
liberal do Estado, com ênfase no Estado de direito, em seu
governo houve uma abertura, ainda que pequena, da
Sobre Terras e Gente... 65

imprensa e dos órgãos oficiais às causas trabalhadoras. O


governo Joaquim Falcão Macedo mostrou-se omisso no
que tange às espúrias relações estabelecidas entre as forças
de segurança pública e os interesses privados, o que fez
com que os “donos da terra” retomassem a ofensiva,
procurando cessar a força e combatividade atingida pela
organização dos trabalhadores.
O governo Wanderley Dantas estabeleceu como
diretriz-marco de sua política a incorporação do Acre ao
mercado nacional. Com o objetivo de desenvolver o Acre e
“integrá-lo” ao Brasil, numa ocupação de “espaços vazios”,
ele apenas fazia a vontade do Poder Central, uma vez que,
a dinâmica utilizada foi o reflexo do “Projeto Oeste”, enfati-
zado por uma pretensa necessidade de segurança nacional.
Para atrair os empresários do Centro-Sul e garantir
sua instalação nas terras acreanas, conversou com diretores
do Banco da Amazônia sobre a necessidade de equacionar
os problemas de créditos concedidos aos produtores de
borracha, abriu estradas pioneiras, conservou e melhorou
outras, interligou cidades. Na visão de economia compe-
titiva, dinâmica e moderna, adotada pelo governo brasileiro
para o Acre, a vocação pecuária e de extração de madeira é
que lhe foi assentada, sempre na idéia de uma ligação
direta com o pacífico, para a exportação desses e outros
produtos.
O governo Geraldo Mesquita tinha consciência das
riquezas que ainda poderiam ser produzidas com o bom
aproveitamento do solo e dos recursos que se fazem pre-
sentes na região. O seu plano de governo convocava os
acreanos para a construção de um Estado pujante, rico e
forte, onde só com a ação integrada entre povo e Governo
se poderia ser “germinada a semente que plantaremos”.
Há a reafirmação do modelo de desenvolvimento proposto
pelo Governo Federal, onde o Acre, por sua localização
geográfica próxima ao Pacífico, funcionaria como um
“corredor” natural em sentido de mão dupla, colocando
66 Reginâmio Bonifácio de Lima

junto aos grandes mercados, as mercadorias brasileiras de


exportação e recebendo as necessárias ao consumo nacio-
nal.
O governo buscou valorizar as potencialidades
naturais da região e do homem da zona rural, frente à crise
pela qual passava a produção da borracha. No plano
político apresentado, o Governo tinha o objetivo de realizar
a “ocupação econômica” da parte central do Estado, na
tentativa de colonizar e integrar os dois principais vales
que dividem o Acre, bem como a implantação de um pólo
regional de desenvolvimento em Assis Brasil e projetos
agroindustriais.
O governo Joaquim Macedo tinha consciência da
formação de “bolsões” populacionais na periferia e da ne-
cessidade de uma política de terras voltada para a reso-
lução dos problemas rurais, contudo, não observou a forma
desorganizada em que estava a estrutura fundiária acrea-
na, tampouco abriu o acesso à terra para a maioria dos
trabalhadores do campo. Pelas políticas adotadas – ou falta
delas – o fluxo populacional, que havia diminuído no
governo de seu antecessor, voltou a crescer, impelindo as
populações, pela necessidade de sobrevivência, à periferia
dos centros urbanos, em grande medida, à periferia de Rio
Branco.
No âmbito municipal do período em questão, Rio
Branco passou por uma Intervenção Federal através do
Decreto Legislativo nº. 05/64 que durou até junho de 1977,
quando foi suspensa a Intervenção Federal do Município,
através do Decreto 79.890. Os prefeitos nomeados no
período foram os seguintes: Adauto Brito da Frota, de 1966
a 1971; Durval Wanderley Dantas, de 1971 a 1975. E os
interventores foram: Adauto Brito da Frota (que já houvera
sido nomeado), de 1975 a 1977; Fernando Inácio dos
Santos, de 1977 a 1983 (PMRB, 1983).
Os conflitos no campo se desencadeavam desde
1971, mas somente em 1976, as notícias que já corriam a
Sobre Terras e Gente... 67

boca pequena começaram a aparecer aos poucos no jornal


“O Rio Branco”. As matérias se sucederam com os seguin-
tes títulos:

‘Polícia Prende 4 posseiros’; ‘Colonos dizem porque inva-


diram o Seringal Catuaba’; ‘Posseiros de tocaia matam
capataz da fazenda’; ‘Família de seringueiro viveu noite
de terror’; ‘Posseiros atacaram peões na defesa de suas
terras’; ‘Polícia de Boca do Acre continua buscando pos-
seiros de tocaia’; ‘SUDAM: situação fundiária no estado
do Acre é problemática’ (COSTA SOBRINHO, 2000, 77).

Pelo que se pode ver, as notícias dão idéia de um


conflito no campo, mas a aparência que se tem é a de os
posseiros estarem ilegitimamente no lugar. É como se eles
buscassem algo que não era seu de direito, como se o lugar
estivesse lá há décadas e só naquele momento os posseiros
tentassem entrar, o que não é verdade. Os posseiros é que
residiam no local há décadas, seus pais morreram e foram
enterrados lá, aquelas terras eram deles por usucapião, mas
não tinham o Título Definitivo, que foi dado aos compra-
dores do Centro-Sul e grandes empresas capitalistas.
Domingues ao fazer sua monografia de conclusão
de curso sobre “Os 30 anos da História Oral do Jornal ‘O
Rio Branco’”, reflete em sua escrita o que mais parece uma
Ode ao jornal o Rio Branco, aparentemente demonstrando
que as idéias contidas neste acerca das “populações em
conflito por um lugar para morar” mais parecerem com as
suas próprias. O que deveria ser uma análise ou pelo
menos um estudo acerca do assunto, denota a forma como
alguns estudiosos vêem as gentes que se dirigiram para a
Capital durante as décadas de 1970 e 1980: percebem-nas
com “ar de inferioridade”.
Domingues (2002, p. 17) afirma que “a partir de
1972 de forma mais sistemática, iniciou-se a explosão
migratória populacional do campo para as periferias de Rio
Branco” e que esse “era o marco divisório entre o cresci-
68 Reginâmio Bonifácio de Lima

mento ordenado, lento e organizado de décadas anteriores


substituído pelo êxodo rural, causando o desordenado
inchaço das periferias da cidade...”. É sabido que não foi
assim que ocorreu. Rio Branco não passou por uma
sistemática explosão migratória, e sim, que esta se deu por
causa de fatores anteriores e alheios à vontade das gentes
tornadas migrantes. De mesma forma, não é certo dizer que
o início da década de 1970 foi o “marco divisório do
crescimento ordenado”, uma vez que Rio Branco não teve
uma ordenação estrutural em seu espaço, senão no início
de Penápolis e em alguns pontos isolados para o que se
chama de “conjuntos habitacionais”; tendo em vista os
poucos Planos Diretores efetuados nunca terem saído do
papel. Assim, não se deve imputar culpa às gentes que
vieram para a Capital inferindo a elas o “desordenado
inchaço das periferias da cidade”.
Em trabalhos como o supracitado está latente a
visão preconceituosa sobre o modo de vida nas periferias
riobranquenses, ao generalizar as formas de vida e neces-
sidade de sobrevivência dos “excluídos”. Mesmo que cerca
de um terço de seu trabalho seja formado por transcrições
de relatos orais, não há a aparência de compreensão do que
eles significam em seu contexto, há uma generalização e
“coisificação” das populações migrantes, não apenas tra-
tando os homens e mulheres adultos como relegados ao
caos e à “escória social”, mas também taxando seus filhos,
todos eles, com o selo de “prostitutas” e “assaltantes”, ao
afirmar literalmente que:

(...) Restou ao humilde seringueiro ser peão dos atuais


patrões ou perambular pelas ruas como picolozeiros
(sic), varredores, vendedores de “biriboute”, braçais, pe-
dreiros, camelôs e proprietários de barraquinhas onde se
vende doces e cigarros.
Como parte do legado seus filhos hoje são os novos
assaltantes, assassinos e freqüentadores de bares e
donos de boca-de-fumo da cidade que abastecem de
Sobre Terras e Gente... 69

drogas os filhos dos fazendeiros; suas filhas são as pros-


titutas, a maioria jovens adolescentes, que também
servem aos filhos dos fazendeiros, políticos e abastados
comerciantes nas noites quentes de Rio Branco (2002: 15
– grifo nosso).

Enquanto a imprensa local mantinha seu silêncio e


aos poucos foi abrindo espaço para constatar de forma
tímida o que era óbvio e latente, a situação já era vista e
denunciada através de jornais alternativos como “Vara-
douro”, “O Berração”, de boletins como “Terra” e “Nós
Irmãos”, de programas de rádio como “Somos Todos
Irmãos”, da Igreja Católica. No Sul do país a imprensa já
noticiava o assunto em jornais como “O Globo”, “Jornal do
Brasil”, “O Estado de São Paulo”, este último tinha inclu-
sive um correspondente local, o jornalista Élson Martins da
Silveira, que mesmo cobrindo tais fatos para enviar ao Sul
do país, não encontrava espaço para publicá-los nos jornais
locais.
70 Reginâmio Bonifácio de Lima

Jornal O Berração.

Fonte: Acervo Digital: Memorial dos Autonomistas.


Sobre Terras e Gente... 71

Jornal Varadouro, agosto de 1977 (à direita).

Fonte: Acervo Digital: Memorial dos Autonomistas.

A Igreja Católica e a Luta pela Terra

A terra estava ganhando ares de mercadoria. O novo


modelo de ocupação produzido pela pecuária retirava os
trabalhadores da floresta e lhes negava mínimas condições
de sobrevivência. As decisões da justiça estavam compro-
metidas com o modelo de desenvolvimento, a própria
imprensa e os meios de comunicação eram extensões do
72 Reginâmio Bonifácio de Lima

poder, omitindo-se acerca das questões agrárias e fazendo


absoluto silêncio sobre as contradições no meio rural.
A Igreja Católica que já não tinha o conserva-
dorismo como marca dominante em suas hostes, encon-
trava base de evidência na realidade econômica em curso,
como ocorreu em Medellín18. A prelazia acreana-puruense
percebeu esse problema e começou a agir, intervindo nas
questões por meio de informativos, integração e unificação
dos trabalhos das Comunidades Eclesiais de Base, uma vez
que o Estado, ávido pela “modernização”, deixava clara
sua ausência de neutralidade.
Em maio de 1971, mais precisamente entre os dias 1
e 14, foi realizada a Assembléia Geral da Prelazia no Paço
Episcopal, sob iniciativa do prelado Dom Giocondo. Nessa
que contou com 39 agentes da pastoral, padres, religiosos e
alguns voluntários, decidiu-se por uma “nova experiência
das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), e a formação
espiritual e pastoral de líderes leigos” (Diocese da Ordem
das Servas de Maria, 1986: 3). Com a seqüência dos fatos,
a chegada de novos padres, a morte de Dom Giocondo, a
instituição do boletim, a reorganização das CEBs e o
treinamento dos monitores, a Igreja se fez mais atuante,
valendo-se de sua legalidade-legitimidade espitirual, cultu-
ral e institucional, idealizando concepções opostas as do
poder do capital.
Em dezembro de 1971, foi lançado o primeiro
boletim informativo intitulado “Nós Irmãos”, que divulgava
a ação religiosa e orientava as CEBs sobre as formas de
trabalho e as notícias de várias comunidades, como o
exposto seguinte:

18
A Igreja Católica reunida em Melellín em 1968, definiu
algumas linhas pastorais a serem seguidas, onde primava pela
promoção humana e uma Igreja crítica embasada na realidade.
Sobre Terras e Gente... 73

Alô, gente. Aqui estamos fazendo de Nós Irmãos, a voz


de toda a prelazia. Num momento como este em que a
prelazia está embalada pastoralmente, este boletim vem a
ser um elo de união entre todas as comunidades. Notícias
das comunidades de Brasiléia, Sena, Quinari, Boca do
Acre, Leprosário, Xapuri, Experimental etc. serão conhe-
cidas em todos os cantos. Deixaremos de viver ilhados
(...) Momentos de dor como o desaparecimento do nosso
saudoso D. Giocondo, e momentos de alegria como o das
novas caminhadas pastorais (Boletim “Nós irmãos”, 1971,
ano I, nº. I).

A Igreja acreana tinha inserido em seu boletim


pastoral temas relacionados com os grupos e movimentos
sociais, e mesmo as temáticas religiosas eram tratadas
numa linha “progressista libertadora”.
Mais tarde, no período de 1973 a 1976, a Igreja
instituiu o programa radiofônico “Somos Todos Irmãos”,
veiculado pela Rádio Difusora Acreana, aos sábados às 6
horas e às 18 horas, no mesmo molde de orientação do
boletim “Nós Irmãos”. Na época o rádio era uma das
poucas fontes de informação do seringueiro e servia de
ligação deste com o exterior de onde morava.
A Igreja fortaleceu os laços com os seus membros,
foi visto também uma abertura nos trabalhos e conseqüente
expansão como se vê em dois boletins informativos que, ao
serem comparados, dão notícia de um crescimento intenso
e ampliação da cobertura pastoral. De acordo com os
Boletins “Nós Irmãos” de dezembro de 1972 e de agosto/
setembro de 1981, houve um aumento considerável no
número de monitores e CEBs. Em 1972 eram 215 monitores
e 06 CEBs na prelazia Acre-purús da Igreja Católica; em
1981, eram 1.200 monitores, 1.000 grupos de evangeli-
zação, e mais de 1.000 CEBs, pondo em prática sua ação
pastoral.
Com as constantes expulsões de seringueiros e
venda indiscriminada de terras, mais de 600 famílias xapu-
74 Reginâmio Bonifácio de Lima

rienses foram obrigadas a migrar para a Bolívia; Brasiléia,


Tarauacá e Feijó, tiveram grandes áreas vendidas a empre-
sários sulistas; foram muitas as ameaças de morte e os
conflitos no campo. Tudo isso fez com que a igreja tomasse
uma decisão. Entre os dias 17 e 21 de junho de 1974, foi
realizado o primeiro encontro do vicariato do Acre, em
Xapuri, onde as linhas pastorais da igreja do Acre e Purus
foram delineadas. Além de denunciar a violência contra
colonos e seringueiros, conclamando os agentes pastorais a
defender os trabalhadores rurais, esse documento ficou
conhecido como “Documento de Xapuri”, e dava orienta-
ção sobre o problema da terra. Esse documento foi assinado
por Dom Moacyr Grechi com outros doze padres e foi
veiculado em jornais, boletins e emissoras de rádio; embora
tenha sido desconsiderado pelos investidores que aqui se
instalaram, aos poucos os trabalhadores foram se conscien-
tizando de seus direitos.
Em 1975 houve um encontro em Goiânia, onde cris-
tãos, entre bispos, padres, religiosos e leigos se reuniram
entre os dias 16 e 22 de junho, discutiram as necessidades
e os problemas da terra que afligiam a Amazônia Legal e o
restante do país. No desfecho desse encontro, a Confe-
deração Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) instalou a
Comissão Pastoral da Terra (CPT), e o bispo acreano-
puruense que participara do encontro, Dom Moacyr
Grechi, foi eleito seu primeiro presidente.
A igreja auxiliou na formação dos sindicatos rurais,
deu apoio logístico, mobilizou as comunidades e atuou
diretamente na formação e transformação dos espaços so-
ciais e ambientes urbanizados, auxiliando as lideranças e
lutando por uma condição melhor de vida aos homens e
mulheres expulsos da zona rural que vieram para as
cidades em busca de melhores condições de vida.
Sobre Terras e Gente... 75

Conflitos no Campo e a Luta pela Sobrevivência

Com os seringais falidos e o capital mercantil


sujeitando com menor rigidez os trabalhadores, houve uma
cultura de produção de subsistência nas colocações, uma
pequena, mas existente, migração de volta ao Nordeste,
além do fluxo de andanças que se estabeleceu. Os serin-
gueiros já haviam constituído família e o conseqüente
aumento populacional em tempo de crise foi um dos moti-
vos para a modificação das formas de relações no ambiente
estabelecido.
As poucas estradas atendiam parcialmente o Vale
do Acre-Purus, enquanto o Juruá somente era atendido por
via fluvial ou os mantimentos eram trazidos no lombo de
animais. A relação de aviamento para os que ficavam nas
colocações foi sendo proporcionada pelos regatões, en-
quanto a agricultura familiar proporcionava parte dos vive-
res necessários para o mantimento.
Muitos dos homens e mulheres que habitavam as
regiões de Tarauacá e Feijó foram obrigados a se retirar das
terras em que viviam. É sabido que os migrantes do
Centro-Sul também instalaram-se em Tarauacá e Feijó,
principalmente próximo às BRs, nos casos em questão, da
BR-364. Assim, quanto à transformação de seringais em
fazendas, Sandra Basílio escreveu:

(...) os seringais foram pouco a pouco transformados em


grandes fazendas, chegando algumas delas a ter a
extensão de 1 milhão de hectares. Na região do Vale do
Rio Juruá. No município de Feijó, com uma área aproxi-
mada de 1 milhão e 900 mil hectares, dois grandes
grupos declaravam-se possuidores de 1 milhão e 100 mil
hectares. Tarauacá, também na região do Vale do Juruá,
com uma área aproximada de 2 milhões e 400 mil hecta-
res, um grande proprietário de seringais jactava-se de só
ele ter vendido 2 milhões e 200 mil hectares a fazendeiros
do sul do país (BASÍLIO, 2001, p. 77).
76 Reginâmio Bonifácio de Lima

Nos casos dos municípios do Vale do Acre e do


Purus, a ocupação foi mais extensa e predatória. A derru-
bada de árvores e queimadas mataram muitos animais,
portanto, a sobrevivência do homem da zona rural ficou
cada vez mais difícil com o cerceamento de víveres para a
coleta, a escassez da caça, as pressões dos grileiros e a
derrocada da “economia gumífera”.

Anos Km² % do Estado


1975 1.165,5 0,8
1978 2.464,5 1,6
1980 4.626,8 3,0
1975-1980 8.256,8 5,4

Desmatamentos no Acre entre 1975 e 1980.

FONTE: Banco Mundial apud BASÍLIO, 2001. p. 83.

Os desmatamentos foram tamanhos que, de acordo


com o Banco Mundial, entre 1975 e 1980, cerca de 5,4%
das terras acreanas foram desmatadas.
Seguindo sempre o traçado das BRs 364 e 317 e da
AC-40, a atividade de compra das terras se deu mais atuan-
te nos municípios de Plácido de Castro, Senador Guiomard,
Boca do Acre, Rio Branco, Sena Madureira, Assis Brasil,
Brasiléia e Xapuri.
Os seringueiros e os posseiros não faziam parte dos
planos dos compradores dos seringais, antes, eram vistos
como ameaça à propriedade da terra. Assim foram expulsos
índios, seringueiros e posseiros numa denominada “limpe-
za da área”, que contava com fazendeiros acompanhados
de jagunços, advogados, pistoleiros, indo até a colaboração
de policiais, oficiais de justiça, promotores e juízes, na
defesa desses ditos “cidadãos honrados”, que tantas vezes,
por suas atitudes, se confundiam com especuladores e
grileiros.
Sobre Terras e Gente... 77

A ocupação do espaço enquanto território local é


configurada como disseminação da propriedade privada da
terra. Contudo, ao mesmo tempo é um movimento de priva-
ção dos direitos costumeiros daqueles que imaginam tê-los.
Toda essa violência pela qual passaram os trabalhadores
rurais fez com que se deslocassem das terras ocupadas, em
troca de uma ínfima indenização, migrando para a área de
fronteira na Bolívia ou inchando os centros urbanos,
principalmente de Rio Branco, onde estendiam a fronteira
da periferia, formando uma paisagem de miséria e ambiên-
cia urbano-rural, como no caso da parte norte do bairro
Aeroporto Velho que foi formado por migrantes expulsos do
seringal Riozinho, na área do Riozinho do Rolla, município
de Rio Branco.
Quanto a essa violência motivada pela luta em
busca da posse da terra o Bispo Dom Moacyr Grechi, da
Prelazia do Acre-purus, no ano de 1977, na CPI da terra
afirmou:

Sendo que a terra é geralmente ocupada por famílias de


seringueiros e agricultores, um dos primeiros objetivos
dos fazendeiros é o de ‘limpar a área’, isto é, tirar das
terras moradores que nelas trabalham há 5, 10, 20 ou 40
anos, sem o menor respeito pelos direitos dessa gente.
Aproveitando-se do fato de os seringueiros e colonos não
conhecerem as leis agrárias e os direitos que elas lhe
garantem, ou por não ter como fazê-los respeitar é
comum a prática de expulsar posseiros através de meto-
dos como:
a) Não fornecimento de mercadorias para os seringuei-
ros, obstrução dos varadouros, proibição de desmatar
e fazer roçados;
b) Compra de posses e benfeitorias por preços irrisórios
ou quando muito, em troca de uma área bem inferior
ao módulo, que não permitirá ao posseiro trabalhar
ou progredir;
c) Atuação de pistoleiros que amedrontam os posseiros
numa guerra psicológica através de ameaças ou mes-
mo com espancamento e outras violências;
78 Reginâmio Bonifácio de Lima

d) Ameaças feitas por policiais a serviço de proprietá-


rios, prisões de posseiros por questões de terra sem
ordem judicial ou por ordem judicial sem que se
tenha movido ação competente (Diário do Congresso
Nacional – 28/09/1979: 310).

Ao analisarmos jornais do período de 1971 a 1982,


foram pouco mais de meia dúzia as inserções escritas que
falavam dos posseiros enquanto vítimas dos conflitos pela
terra nas áreas de ocupações. O que se vê nos jornais
oficiais é que essas populações estavam invadindo ou
ocupando uma área que não lhes pertencia – o que não é
verdade. Os seringueiros, posseiros e índios estavam lá há
muito tempo, estes desde há vários séculos, e aqueles,
desde a abertura e expansão da fronteira acreana. Um
estudo já citado do CEDEPLAR revelou que, de modo
geral, as práticas criminosas contra pequenos ocupantes
eram acobertadas pelas autoridades locais que conscien-
temente omitiam-se de tomar atitudes contra os agressores.
Também se pode dizer da Delegacia Regional do Trabalho,
instalada no Acre em 1969, somente em 1972 funcionou
com regularidade, mesmo que em condições precárias de
instalação. A Justiça do Trabalho, criada em 1970, somente
foi instalada três anos depois.
A partir da resistência dos posseiros e dos confrontos
armados, o clima de tensão ficou perturbador, os traba-
lhadores começaram a resistir à brutalidade dos “paulis-
tas”, dos jagunços e peões em Catuaba, Califórnia, Nova
Empreza, Guanabara, São Francisco, dentre outros locais.
Somente em 1974 a representação do INCRA no
Estado passou a ser uma Coordenadoria Regional da
Amazônia Ocidental, com jurisdição e autonomia no Acre e
Rondônia, para intervir na questão fundiária. A ação do
INCRA objetivava, a priori, evitar e/ou conter a violência
nos conflitos originados da luta pela terra e reconheceu
que os pequenos ocupantes de terras acreanas tinham
Sobre Terras e Gente... 79

direitos adquiridos pela ocupação das mesmas, embora não


tenha agido com essa propriedade por muito tempo.
Em 1975 foi instalada no Acre a Delegacia da
Confederação Nacional dos Trabalhadores da Agricultura
(CONTAG), que interferiu e orientou as ações de produ-
tores rurais, posseiros e seringueiros contra o intento dos
“novos donos da terra” de expulsá-los. Os conflitos pela
posse da terra estavam em vários lugares, embora a maior
concentração se desse em Xapuri. De acordo com Costa
Sobrinho, a CONTAG estabeleceu três linhas de ação
baseada no Estatuto da Terra e no Código Civil de 1917:

A primeira linha orientava que o trabalhador perma-


necesse na terra, resistindo a todas as pressões e não
aceitando indenizações, pois contavam com a Lei 4.504
do Estatuto da Terra, que assegurava a posse, após a
permanência na terra, por mais de um ano e um dia.
Recomendava também o plantio de bem de raiz, e até de
pastagem, se não tinha benfeitorias, pois no caso do
seringueiro a madeira já estava presente naturalmente na
floresta, podendo descaracterizar a posse, se não hou-
vesse documento comprobatório. A segunda linha orien-
tava o seringueiro a não pagar a renda, pois esse paga-
mento implicava no reconhecimento do dono da terra,
portanto podia negar a posse e revelar a condição de
arrendatário, criando assim dificuldades na justiça, quan-
do da defesa dos direitos, de acordo com a Lei avocada. A
terceira linha orientava o seringueiro a comprar merca-
doria a quem melhor lhe conviesse e vender a borracha
pelo melhor preço oferecido. A liberdade de comprar e
vender dava um golpe fatal no barracão. A segunda e a
terceira linhas de orientação decretava a morte do serin-
galista e do arrendatário dos seringais (COSTA
SOBRINHO, Op. Cit, p. 171).

Em Sena Madureira, no dia 20 de setembro de 1975,


no Colégio Santa Juliana, com 557 trabalhadores presentes
foi fundado o primeiro Sindicato dos Trabalhadores Rurais
80 Reginâmio Bonifácio de Lima

do Acre (pós-golpe de 1964). Sendo eleito para presidi-lo


Adelí Bento da Silva. No dia 21 de dezembro do mesmo
ano foi fundado o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de
Brasiléia, onde se reuniram 890 trabalhadores em assem-
bléia, sendo eleito Elias Rosendo de Oliveira para presi-
dente. Em ambos os sindicatos a maioria dos associados
eram seringueiros, e em Brasiléia, fizeram-se nomes de
destaque nacional e internacional, como Wilson de Souza
Pinheiro e Francisco Alves Mendes (Chico Mendes).
Desses sindicatos formados, pode-se dizer a prin-
cípio, que o presidente do Sindicato de Sena morreu
misteriosamente afogado; Wilson Pinheiro e Chico Mendes
foram assassinados. Contudo, a luta não cessou, das várias
formas de luta gestadas ali, o “empate” tornou-se símbolo
da resistência, da nova fase de luta dos seringueiros. Os
“empates” eram mutirões feitos para evitar os desmata-
mentos em áreas ameaçadas pelos fazendeiros. Quanto a
essa forma de luta Elder de Paula escreveu:

Há todo um processo de preparação dessas mobilizações,


que vai desde a denúncia da entrada dos peões numa
determinada área para iniciar os preparativos para o
desmatamento, até a convocação pela direção sindical,
dos seringueiros da zona atingida, com a finalidade de
tomar uma posição sobre o problema. Nessas reuniões via
de regra, os representantes sindicais passam as informa-
ções mais detalhadas sobre o desmatamento, tais como
dimensões da área, finalidade, proprietário mandante,
etc... Depois avalia-se o número de colocações que se-
riam atingidas direta ou indiretamente. A seguir, discute-
se a posição que os seringueiros devem tomar. A decisão
é sempre a de “empatar” o desmatamento, e então os
detalhes são combinados que irá participar, as estratégias
a serem adotadas, o horário de saída para o local do
acampamento dos peões, os líderes do grupo procuram o
responsável pela “empreita”, comunicam a decisão de
empatar o desmatamento, aconselhando-os a se retirar da
área. O clima é sempre demarcado por muita tensão
(PAULA, 1991, p. 45 e 46).
Sobre Terras e Gente... 81

Também Xapuri e Rio Branco tiveram seus Sindi-


catos de Trabalhadores Rurais, este formado em 23 de maio
de 1976, com 1.352 participantes em assembléia inicial; e
aquele em 09 de abril de 1977, com 302 trabalhadores em
sua assembléia inicial. Todos esses sindicatos associados
conseguiram o objetivo intentado de “empatar” as derruba-
das. No início, eram apenas homens a fazer parte dos
“empates”. Os fazendeiros para “proteger” os peões,
chamavam a polícia que efetuava várias prisões. Por outro
lado, os sindicatos acionavam os advogados para soltar os
seringueiros, alegando falta de provas aos delitos de que
foram acusados. Os empates aumentaram sua proporção, a
ponto de mulheres e crianças participarem para inibir a
violência policial.
82 Reginâmio Bonifácio de Lima
Sobre Terras e Gente... 83

O TERCEIRO EIXO
OCUPACIONAL DE RIO BRANCO

Aspectos Gerais

O Terceiro Eixo Ocupacional de Rio Branco se deu


na área que sai do núcleo central da cidade, que até o fim
da década de 1960 era habitado de forma intensiva somen-
te até a Secretaria de Estado de Educação – antigo Centro
de Treinamento – indo em direção ao Aeroporto Velho. Os
bairros pobres dessa área foram formados a partir de três
perspectivas: loteamentos, ainda que não totalmente estru-
turados, invasões e ocupações.
Quanto ao Terceiro Eixo Ocupacional de Rio Bran-
co, Oliveira escreveu:

Um Terceiro Eixo de crescimento da cidade é aquele que


segue o caminho em direção ao antigo Aeroporto, desde o
núcleo central através da Rua Rio Grande do Sul, a qual
até 1970 era habitada só parcialmente, até o chamado
Centro de Treinamento. Esta parte, inclusive, se estendia
por uma grande superfície de áreas verdes naturais, as
quais foram inteiramente derrubadas durante a década
passada. Uma das primeiras ocupações nesse eixo foi
aquela anteriormente descrita, que acabou sendo expulsa
em 1973, vindo a formar mais adiante o bairro do
Palheiral. Nessa área pontificam os bairros do Aeroporto
Velho, Terminal, Bahia e Palheiral, habitados pela popu-
lação pobre de origem rural e que já somam [em 1982]
mais de 15.000 pessoas. Todavia, a invasão e a ocupação
de áreas ainda prossegue nesse eixo e os novos bairros
vão se formando, como o bairro João Eduardo (...)
(Oliveira, 1982, p. 39).

O Terceiro Eixo limita-se ao norte com os bairros


Novo Horizonte, Castelo Branco e Volta Seca; a leste e a
84 Reginâmio Bonifácio de Lima

sul com o Rio Acre; a oeste e a sudoeste com a Estrada da


Floresta.
A Secretaria Municipal de Planejamento produziu
um mapa no ano de 1979, onde fazia o reconhecimento
viário de Rio Branco, com suas respectivas áreas consi-
deradas urbanas. A partir desse mapa, fazendo-se um
recorte de área, pode-se ter uma visão de como a Prefeitura
concebia o local onde estava se formando o Terceiro Eixo
Ocupacional de Rio Branco.
A área em formação que se dava nessa parte da
cidade não tinha um único registro efetuado pela
prefeitura. No ano de 1979, a Secretaria Municipal de
Planejamento e o Cadastro Imobiliário, produziram dois
mapas distintos sobre o mesmo local.

Recorte de Rio Branco/SEPLAM – 1979.

FONTE: Setor de Planejamento/PMRB – 1979 (Recortes do


Autor).
Sobre Terras e Gente... 85

Recorte de Rio Branco/Cadastro Imobiliário – 1979.

FONTE: Setor de Cadastro Imobiliário/PMRB – 1979 (Recortes


do Autor)

Comparando-se os mapas acima, ficam demonstra-


das duas idéias: a primeira é de como o setor de plane-
jamento da Prefeitura Municipal de Rio Branco via a área
no ano de 1979, uma vez que este foi recortado respeitando
fielmente o mapa da cidade de 1979, existente na Secre-
taria de Planejamento Municipal; a segunda é que não
havia uma constituição única de mapa ou convenção, uma
vez que o Setor de Cadastro Imobiliário apresenta no
mesmo ano e mesmo setor um outro mapa, em grande me-
dida, diferente do primeiro, não reconhecendo a existência
para cadastramento de imóveis nos bairros João Eduardo I
86 Reginâmio Bonifácio de Lima

e II19, mas já cadastrando as ocupações existentes nos


Bairros da Glória, Pista e Bahia Nova.
No que tange ao espaço analisado, pode-se afirmar
que a população total da área que se costuma chamar
“Baixada da Bahia” ou “Baixada da Sobral”, já em 1975,
era formada por pelo menos quatro bairros: Glória (formada
a partir da ocupação da área próxima à pista de pouso, em
frente ao bairro Aeroporto Velho), Aeroporto (Velho),
Aprendizado (Palheiral) e Bahia, com um total de aproxi-
madamente 2.171 habitantes, segundo a SUCAM. Oliveira,
em sua obra “O Sertanejo, o Brabo e o Posseiro”, fala de
um bairro chamado Terminal, cujas terras foram anexadas
ao Aeroporto Velho. Contudo, não há relatos, nem mesmo
dentre os moradores antigos do local, da existência de um
bairro chamado Terminal naquela área. O que existiu foi
um terminal de combustível da Petrobrás na área próxima à
IBRAL e os moradores que se instalaram na região próxima
chamaram a rua, que fica à margem do rio, nas terras do
Colégio Aprendizado, de rua do Terminal, se aglomerando
nesta e nas ruelas concorrentes, todas fazendo parte do
bairro Aeroporto Velho.
O bairro Aeroporto Velho foi formado na área
correspondente ao campo de pouso e decolagem de aviões
de pequeno e médio porte Francisco Salgado Filho. Nesse
local, em 1939 fora inaugurada a primeira pista para pouso
e decolagem de aviões de pequeno porte, com o primeiro
vôo partindo de Rio Branco para Xapuri. Em 1950, o então
governador do Território do Acre, senhor Guiomard dos
Santos reformou e ampliou a pista que tinha início nas
terras da atual escola Serafim da Silva Salgado, traçando

19
O Setor de Cadastro Imobiliário reconhece a existência de
imóveis na área oeste do que se configura o Salgado Filho
(João Eduardo I e parte do João Eduardo II), mas não tipifica
em seu mapa cadastral tendo em vista os referidos bairros se
encontrarem em área de litígio.
Sobre Terras e Gente... 87

uma reta até próximo à beira do rio, fazendo um paralelo


com a atual estrada da Sobral e perpendicular com a atual
rua Ari Rodrigues. Com a construção do Aeroporto Inter-
nacional Presidente Médice, no Segundo Distrito de Rio
Branco, o primeiro campo de pouso de aviões foi desa-
tivado.
Os bairros Bahia, Glória e Aprendizado (Palheiral)
tiveram suas áreas habitadas por populações em movi-
mento, sendo estes formados por moradores que em 1973
foram expulsos da área que ocupavam no limite da Rua Rio
Grande do Sul, para que fosse construído um dos primeiros
conjuntos habitacionais da cidade, o Castelo Branco; ante-
riormente, parte dessa população havia sido expulsa do
bairro Cadeia Velha, para que fosse erguido o Conjunto
Habitasa. O bairro Bahia ocupa área que antes era uma
colônia, sendo que sua área foi subdividida – o que antes
era tão somente Bahia, atualmente comporta os bairros
Bahia, parte do Bahia Nova, Pista, parte do João Eduardo I
e II – tendo o autor ciência da expansão posterior. Do outro
lado da Rua Rio Grande do Sul, em frete ao bairro Aero-
porto, surgiu um bairro no mesmo período da formação do
Bahia, que atualmente se chama Glória.
A área conhecida como Salgado Filho, que em 1980
aparece nos documentos oficiais como sendo um bairro, na
verdade é um misto de terras públicas e particulares,
pertencentes prioritariamente ao Estado, mas tendo outros
donos. O Projeto Especial Cidades de Porte Médio (PECP),
da Prefeitura de Rio Branco, que trata do perfil da cidade,
no ano de 1983, citou o bairro João Eduardo como fazendo
parte do bairro Salgado Filho, e demonstrou o descaso do
poder público na elaboração de políticas que deveriam
beneficiar milhares de pessoas que habitavam e ainda
habitam aquele local. Está descrito no PECP:
88 Reginâmio Bonifácio de Lima

A área denominada João Eduardo faz parte do bairro


[Salgado Filho] e está sem rede de água, energia elétrica,
esgoto, e o tráfego nos dias de chuvas, é difícil até para
pedestres.
(...)
Pelo Programa de Erradicação de Favelas – PROMORAR,
existe um projeto para atender a 1.436 famílias, na área
denominada ‘João Eduardo’, situada no bairro Salgado
Filho. A execução do projeto teve início em 1981, com
obras de terraplenagem, mas sem um trabalho social, o
que teve um impacto negativo na comunidade.
O projeto, para ser viabilizado, havia necessidade de re-
dução na testado (sic) dos lotes, já ocupados pela invasão,
de 10 metros para 7 metros. Os moradores não aceitaram
a alteração, e após várias reuniões, sem sucesso, entre
técnicos da COHAB, BNH e líderes do bairro, o projeto
foi paralisado; uma observação, que se faz necessário: o
projeto foi elaborado na cidade de Manaus. (PECP: 1983,
p. 281 e 192 – grifo do autor).

As primeiras habitações na localidade se deram por


volta de 1941, nas terras do Instituto Agronômico do Norte
– Colégio Aprendizado. No período da formação dos bairros
do local, por volta dos anos setentas, na área do aeroporto,
surgiram povoações com casas próximas umas das outras, e
que dividiam o local com o aeroporto, que estava em pleno
funcionamento na época. Aos poucos a parte norte do
bairro foi ocupada até o IMPA, contudo, a densidade
demográfica era muito pequena ainda. Somente a partir do
ano de 1977, pouco após a desativação do aeroporto, é que
houve uma “explosão demográfica” naquela região.
Sobre Terras e Gente... 89

Recorte de Rio Branco/Secretaria de Planejamento Municipal –


1982.

FONTE: Setor de Planejamento/PMRB – 1982 (Recortes do


Autor).

Dos cerca de 15 bairros que atualmente formam essa


área, o Aeroporto foi o único a receber intervenção direta
do Governo em sua formação, enquanto outros 14 são
resultado de subdivisão, expansão ou formação após o
período estudado. Vale ressaltar que no fim do ano de 1980
e parte de 1981, a Prefeitura fez a “abertura” parcial e
alargamento das ruas dos bairros Bahia, João Eduardo I e
II, já definidas pela comissão demarcadora dos lotes – que
havia sido constituída com a finalidade de organizar a
distribuição dos terrenos dos bairros João Eduardo, após
obtida a autorização do Gabinete do Governador, Joaquim
Falcão Macedo e apoio da Igreja Católica.
90 Reginâmio Bonifácio de Lima

Essas ocupações obedecem ao sentimento amazô-


nico de posse natural da terra. Ao falar das ocupações,
Oliveira escreve:

A estratégia da construção de casas e barracos segue a


prática de aproveitamento dos bens naturais (madeira,
paxiúba, etc.) e a localização dos sítios prevê a proximi-
dade de cursos de água (rios, ribeirões, etc.). A demar-
cação dos lotes é geralmente feita observando regras para
acordo e, com o passar do tempo, esses sentimentos de
decisão e ação solidária ganha ímpeto, através de
aberturas de ruas e construções de casas em conjunto, de
redivisão de lotes para permitir a construção de novas
casas para chegantes (caso típico nos bairros Cidade
Nova e Palheiral), da vinculação às comunidades de
base, da valorização de entidades locais (igreja, escola,
postos de serviço, locais para reuniões e festas, teatro e
formas de representação popular) e da multiplicação de
formas de associação comunitárias visando à conquista
de direitos sociais e serviços públicos (OLIVEIRA, 1982:
4).

Entre as grandes ocupações que houve aos arre-


dores da cidade de Rio Branco, uma imensa área sem
ocupação entre os bairros Bahia, Palheiral e Floresta pas-
sou a ser habitada por famílias desprovidas de moradia e
sem possibilidades econômicas para adquirir, frente ao seu
estado de pobreza.
A formação dos Bairros João Eduardo I e II deu-se
por volta de 1971 a 1982, sendo que já existiam fazendas e
colônias habitadas naquele local antes do período estu-
dado, contudo, pode-se dizer que o grande fluxo ocupa-
cional do João Eduardo I se deu entre 1974 a 1979, en-
quanto no João Eduardo II, esse fluxo se deu entre 1979 a
1982.
A faixa de terra compreendida entre as ruas “A” e
Campo Grande é onde se localiza o bairro João Eduardo I,
e, corresponde justamente a área ocupada nas terras da
Sobre Terras e Gente... 91

Amélia Araripe, onde houve conflitos e prélios judiciais


pela posse da terra. Na faixa que se inicia a partir da rua
Campo Grande (lado direito), corresponde ao João Eduardo
II, e, originou-se de uma ocupação nas terras do governo
que se destinava à construção de um estádio de futebol.
Os bairros João Eduardo I e II localizam-se entre os
bairros Floresta, Novo Horizonte, Castelo Branco, Palhei-
ral, Pista, Bahia e Floresta Sul. Seu nome é uma homena-
gem ao líder comunitário João Eduardo do Nascimento,
que foi assassinado, num conflito durante o processo de
demarcação e distribuição de lotes de terras.
Alguns pontos são perceptíveis quanto àquele local:
a migração da zona rural para a urbana, as andanças
populacionais para o local, a especulação urbana e os con-
flitos pela terra, muitos deles armados, dentre os quais um
deles veio acarretar a morte de João Eduardo, no dia 18 de
fevereiro de 1981, ocasionado por um projétil de espin-
garda calibre 20, desferido pelo lavrador Francisco Noguei-
ra Leite, conhecido por “Ventinha”.
No dia 06 de junho de 1983 a Associação de Mora-
dores do Bairro João Eduardo escreveu um documento
sobre a situação do Bairro em termos gerais de saúde,
educação, transporte, urbanização, posse da terra, e um
breve histórico sobre o bairro João Eduardo II:

Este bairro foi construído a partir de uma tomada de


posição dos moradores da Bahia, quando no final de 1979
acontecia a terceira vítima de violento assassinato em um
matagal que separava aquele bairro da cidade, sendo
desta vez a estudante Osana (sic) Cordeiro.
Preocupados com o problema os moradores decidiram
botar o mato abaixo, e, foi neste mutirão que surgiu a
idéia de se fazer casa para os que não tinham onde
morar. Desencadeiou-se (sic) aí uma verdadeira correria,
de pessoas de diversos bairros que viviam no aluguel. Era
uma ‘loucura’ centenas de pessoas procuravam a comis-
92 Reginâmio Bonifácio de Lima

são, construindo barracos de palha, de papelão, de


‘sarrafos’ e de madeira.
Em resumo em cinco meses aproximadamente estava
ocupada uma área de aproximadamente 2.000 lotes de
terra. Daí para a frente começou a luta pela legalização
das terras, por serviços de urbanização, de infra-estrutura
etc.20

A população dos bairros João Eduardo I e II


modificou-se muito desde o início de sua formação. Menos
de 10% dos moradores que fundaram o bairro permanecem
no local21. Muitas famílias se mudaram de lá e outras
permanecem através dos descendentes.
É sabido, no entanto, que o fluxo migratório em
direção à cidade dura até os dias atuais, tendo seu anda-
mento sido atenuado com descontinuidades por mais
alguns anos, atingindo, inclusive os bairros em questão.
Ainda hoje esses homens e mulheres que arduamente
lutaram em busca de um lugar onde morar, encontram
dificuldades, mesmo quando têm direitos adquiridos. Há
uma premissa do direito que diz: “A lei não socorre aos que
dormem”, mas será que de fato esses moradores estão
dormindo?! Porque não se luta sem estar acordado, e um
sonho coletivo de mais de vinte anos sem execução, seria
uma utopia. É fato que eles estão lá, homens, mulheres,
idosos e crianças, sociabilizando-se e “tocando a vida”,
contudo, em todo esse tempo de estadia no local, muitos
moradores não têm sequer o título definitivo de sua terra,

20
Associação de Moradores do Bairro João Eduardo. 06/06/1983.
(Vale lembrar que essa associação agia de forma extra-oficial,
tendo em vista sua fundação ser efetuada no dia 22/07/1984 e
oficializada no dia 17/09/1984 – conforme a Serventia de
Registro de Títulos e Documentos e Civis das pessoas jurídicas
da Comarca de Rio Branco, nº 460, fls 177v/178).
21
A afirmativa é válida considerando-se o período de 1971 a
1982.
Sobre Terras e Gente... 93

mesmo que já exista lei concedendo-lhes isso (Lei Muni-


cipal nº 1.424 de 04 de julho de 2001) que “Autoriza o
Poder Executivo Municipal a doar títulos definitivos para
ocupantes de imóveis pertencentes ao patrimônio munici-
pal localizados nos bairros Conquista, Geraldo Fleming,
Tancredo Neves, Raimundo Hermínio de Melo, João
Eduardo e Vila Acre e dá outras providências”.
Ao fazer uma comparação de Rio Branco em fins da
década de 1970, com a área que faz parte do Terceiro Eixo
Ocupacional de Rio Branco no mesmo período, chegamos a
algumas deferências após análise dos dados fornecidos
pela Prefeitura Municipal e estudos produzidos durante a
pesquisa. Assim sendo, deve-se mencionar que quanto ao
Boletim de Cadastro Imobiliário de Rio Branco – BCI,
produzido no segundo semestre do ano de 1979, que faz
referência aos bairros do Terceiro Eixo, precisam ser feitas
algumas considerações: a primeira é que essa foi a pri-
meira vez que os bairros daquela localidade foram cadas-
trados; a segunda, que consta no registro do Setor de
Cadastro da Prefeitura, já no ano de 1979, a existência e o
conhecimento das ocupações do Aeroporto, Bahia, Bahia
Nova, Glória, Palheiral, Pista, João Eduardo I e João
Eduardo II; terceira, não há referência a um bairro chama-
do Terminal, nessa localidade conforme houvera sido
descrito por Oliveira em 1982; quarta, algumas pastas com
dados acerca de quadras dos bairros Aeroporto, Bahia e
Glória não puderam ser encontradas, bem como a maior
parte absoluta dos dados estatísticos cadastrais acerca dos
bairros Bahia Nova, Pista, João Eduardo I e II, logo, não
puderam ser feitas as devidas análises – nesse sentido
acerca dos quatro últimos bairros mencionados.
A cidade de Rio Branco possui atualmente 154
localidades cadastradas pela Prefeitura – ainda que se fale
extra-oficialmente de 187 – que os moradores chamam de
bairros, embora haja a estimativa que o número dos
mesmos seja maior, visto as recentes áreas de ocupação em
94 Reginâmio Bonifácio de Lima

situação “irregular”. O IBGE ao fazer o mapa da malha


setorial riobranquense, dividiu a cidade em 83 setores
censitários para o recenseamento de 2000, sendo que as
invasões e ocupações de bairros novos foram contadas na
área dos já existentes em 1996, bem como, bairros próxi-
mos com o mesmo perfil foram contados como em um
mesmo grupo. A exemplo dos Conjuntos Universitários
que, em sendo três conjuntos, permaneceram num único
setor. Vários outros bairros e conjuntos tiveram o mesmo
tratamento ao serem correlacionados na malha censitária
riobranquense.
Os bairros que formam o Terceiro Eixo Ocupacional
de Rio Branco permaneceram agrupados em alguns seto-
res. Sabe-se que os bairros que atualmente formam a área
da “Baixada da Bahia” são frutos da expansão do Terceiro
Eixo que antes tinha apenas oito bairros, sendo eles: Pa-
lheiral, Bahia, Bahia Nova, Glória, Pista, Aeroporto Velho,
João Eduardo I e João Eduardo II. Segundo o Setor de
Georeferenciamento da PMRB, atualmente essa região tem
em sua área a quantidade de quinze bairros, sendo eles:
Palheiral, Pista, Bahia Velha, Bahia Nova, Aeroporto Velho,
Glória, João Eduardo I e João Eduardo II, Boa União,
Airton Sena, Sobral, João Paulo II, Plácido de Castro, Boa
Vista e Floresta Sul.
Sobre Terras e Gente... 95

Terceiro Eixo Ocupacional de Rio Branco – 2005.

Terceiro Eixo Ocupacional de Rio Branco – Foto aérea. A área


destacada em azul corresponde ao Terceiro Eixo em 1982, e a
área em vermelho corresponde ao Terceiro Eixo na atualidade
(Destaque do autor).
Fonte: Setor de Georeferenciamento. Secretaria de Planeja-
mento/PMRB.

De acordo com o IBGE, a área referente ao Terceiro


Eixo Expandido22 foi dividida em 09 setores censitários,

22
Nome dado a ampliação do local onde estão contidos os bairros
que formam o Terceiro Eixo Ocupacional de Rio Branco e
outros 07 bairros que foram dispostos logo após a formação do
Terceiro Eixo. A saber: Aeroporto Velho, Palheiral, Bahia
96 Reginâmio Bonifácio de Lima

sendo eles: João Eduardo, Palheiral, Bahia, Pista, Glória,


Aeroporto Velho, Ayrton Sena, Sobral e Plácido de Castro.
Na pesquisa foi constatada a quantidade de 33.908 pessoas
vivendo nesses locais, residindo e convivendo em 14.109
domicílios. Portanto, é certo dizer que o Terceiro Eixo
Ocupacional Expandido de Rio Branco representa na
atualidade 14,98% da população urbana riobranquense, e
comporta em sua área 17,14% dos domicílios riobran-
quenses. Assim sendo, é clara a super-povoação do local
em comparação com o restante da cidade. Uma área que
representa menos de 10% da extensão total urbana da
cidade de Rio Branco comporta quase um quinto de seus
domicílios, e um sétimo de sua população.

Estimativa da população dos bairros de acordo com os setores


censitários - IBGE/2000.

Bairros População Domicílios


João Eduardo 2.942 861

Palheiral 2.244 763


Bahia 4.031 4.297
Pista 2.989 907
Glória 3.048 1.135
Aeroporto Velho 4.934 1.702
Ayrton Sena 3.103 965
Sobral 8.320 2.738
Plácido de Castro 2.297 741
Total 33.908 14.109
Rio Branco 253.059 82.307
Representação do Terceiro 14,98% 17,14%
Eixo em termos percentuais

Fonte: IBGE/2000 apud Manual de Informações Socioeconô-


micas PMRB/2003.

Velha, Bahia Nova, Glória, Pista, João Eduardo I, João Eduar-


do II; e Boa União, Airton Sena, Sobral, João Paulo II, Plácido
de Castro, Boa Vista e Floresta Sul.
Sobre Terras e Gente... 97

Ao perceber essa associação direta com a Amazônia


e seus Estados, vê-se que no caso riobranquense, reflexo do
acreano, grande parte das pessoas que moravam na zona
rural e adjacências, com a política traçada pelos militares
no governo federal e pelos governadores Wanderley
Dantas, Geraldo Mesquita e Joaquim Macedo, no período
de 1971 a 1982, foram obrigadas a abandonar as terras
onde viviam e imigrar para a zona urbana em busca de
melhores condições de vida.
Como conseqüência de tudo que foi posto, está o
aumento populacional nos centros urbanos, inchaço nas
periferias da cidade. As populações rurais expropriadas
acabaram por não ter outra opção que não a de migrar, e
muitos desses migrantes chegaram à capital acreana. De
acordo com dados do IBGE, as periferias urbanas cresce-
ram de 37% em 1970, para 68% em 2000. O que ocasionou
a precarização das relações de trabalho e o aumento do
drama sócio-ambiental na região, com escassez de traba-
lho, falta de água, luz, esgoto e moradia.

Saneamento Básico

É perceptível, à luz do “Mapa do Setor de Cadastro


Imobiliário Municipal -1979”, a existência de ruas longas
em cujas margens se assentaram os ocupantes e abriram
trilhas, ruelas, ruas e becos, mesmo que estes não constem
no mapa oficial do Setor de Planejamento da Prefeitura. Na
foto aérea e nos mapas dos bairros em anos posteriores,
estes apareceram com maior propriedade. Também, no que
diz respeito ao abastecimento de água potável, esgoto,
coleta de lixo e fossas sépticas, esses se deram em maior
quantidade nas ruas principais desses bairros. Sendo no
caso do Aeroporto Velho, a rua Rio Grande do Sul, com
infra-estrutura projetada para o aeroporto internacional,
Bonal e Terminal Petroquímico, além da inicial urbaniza-
98 Reginâmio Bonifácio de Lima

ção do bairro; no caso do Glória, percebe-se que está


margeado pela Estrada da Sobral, local onde passa a
principal adutora de água da cidade, e passa pela também
pela rua Rio Grande do Sul, que faz limite com o bairro,
além da rua Rádio Farol que auxiliava no antigo aeroporto;
quanto ao Palheiral, a Estrada da Sobral, a rua Rio Grande
do Sul e a São Salvador são as principais vias que tornam
acessível o atendimento de suas necessidades; o bairro
Bahia é atendido basicamente pelas ruas São Salvador e
Mem de Sá.
Em 1979 os bairros Bahia Nova, Pista, João Eduardo
I e II, tinham apenas algumas ruas. Somente no ano
seguinte é que os antigos logradouros e outros novos foram
abertos, em sua maioria a mando da Prefeitura que enviou
máquinas para providenciar ruas, quando foi implemen-
tado em parceria com o Governo do Estado, o projeto de
limpeza e desobstrução urbana. Somente por volta de 1982,
os terrenos, as ruas, os becos e os locais como se conhece
atualmente foram definidos.
De acordo com o Anuário Estatístico do Acre, em
1979, o volume de captação de água dos mananciais em
Rio Branco era de 20.700 m³ dia com adutora estendida por
9.650 metros, tendo a rede total a extensão de 152.600
metros e a capacidade de reservação de 3.125 m³. Nisto,
dos 18.900 domicílios existentes, 7.792, ou seja, 41,22% do
total eram atendidos pelo abastecimento de água. Menos
da metade dos domicílios de Rio Branco contavam com
água encanada.
Fazendo uma relação desses dados com os coletados
pela Prefeitura em seu primeiro cadastramento domiciliar,
vê-se que nos bairros Aeroporto Velho, Bahia, Glória e
Palheiral o abastecimento de água potável não alcançava
essa proporção mesmo que a tubulação da principal adu-
tora da cidade passasse na Estrada da Sobral. Os referidos
domicílios estavam principalmente na área próxima à
referida estrada, que margeava quatro desses bairros.
Sobre Terras e Gente... 99

Nesse ano, 1979, a parte supracitada do Terceiro Eixo tinha


56% de seus logradouros, ou seja, as ruas principais, com
água e, cerca de 40% de seus domicílios atendidos. O
bairro Aeroporto Velho recebeu uma urbanização inicial, o
que elevou os índices da pesquisa. Contudo, ao fazer
referência a todo o Terceiro Eixo, é certo dizer que não
havia atendimento com água, esgoto e/ou coleta de lixo nos
bairros Bahia Nova, João Eduardo I e João Eduardo II;
sendo o bairro Pista atendido por esses serviços apenas na
área margeada pela Estrada da Sobral. Assim, a proporção
de atendimento público aumentava ou diminuía na relação
bairro a bairro.

Abastecimento de Água Potável – 1979

LOCAL DISTRIBUIÇÃO DOMICÍLIOS DOMICÍLIOS


LOGRADOURO % EXISTENTES ABASTECIDOS %
Rio Branco* 33,08 18.900 41,22
Glória 03 376 03
Palheiral 85 405 64
Terceiro 56 1778 40
Eixo**

FONTE: *Anuário Estatístico do Acre - 1979


** Setor de Cadastro – PMRB/ Valor parcial. Não inclui
os bairros do Terceiro Eixo não mencionados.

Ao se falar de água potável e sua distribuição pela


SANACRE, verificou-se que, já em 1980, de acordo com
Nunes, “cerca de 59,41% dos domicílios na cidade de Rio
Branco não são beneficiados pelos serviços [havendo com-
provadamente] 58,97% dos domicílios se abastecendo de
água de poço”. Quanto à origem da água consumida pela
população riobranquense, vê-se que a provisão era de
33,08% de água da SANACRE e 58,97% de água de poço.
O Terceiro Eixo dispunha de água potável distribuída pela
rede, esporadicamente, caminhões pipa, água de poços
100 Reginâmio Bonifácio de Lima

particulares e água de poço do vizinho. Sendo de maior


utilização a água da SANACRE e de poços, conforme a
seguinte tabela:

Utilização de água Potável – 1979

LOCAL SANACRE % POÇO %


Rio Branco* 33,08 58,97
Aeroporto 58 24
Bahia 35 24
Glória 03 55
Palheiral 64 34
Terceiro Eixo** 40 36

FONTE: *UNICAMP/SP – 1977 apud Nunes, 1981.


** Setor de Cadastro – PMRB/ Valor parcial. Não inclui
os bairros do Terceiro Eixo não mencionados.

Quanto aos esgotos, pode-se dizer que mesmo a


situação em Rio Branco sendo grave, no Terceiro Eixo era
muito pior. Vale lembrar que os quatro bairros escolhidos
para análise tinham aproximadamente sete anos de exis-
tência, enquanto área de ocupação urbana fruto da dinâ-
mica populacional23, havendo suas populações se instalado
no local ainda em fins da década de 1960, tendo, contudo,
a intensificação do avanço populacional sido propiciada a
partir de 1971. Dito isto, percebe-se que o Terceiro Eixo
tinha 01% de seus logradouros atendidos por rede de
esgoto, e 02% dos domicílios ligados a essa rede. Numa
comparação direta com Rio Branco, a partir da pesquisa de

23
“Do ponto de vista da dinâmica populacional, um núcleo
precocemente urbanizado seria aquele que, devido à fragili-
dade e singeleza de sua economia, conseguiria selecionar e
reter, basicamente, os grupos de pessoas menos capacitadas,
sem condições de competir a empregos mais ambiciosos em
mercados de trabalho de economias mais complexas” (SILVA,
1981, p. 95).
Sobre Terras e Gente... 101

orçamento familiar produzida pela Unicamp, percebe-se


que em 1977, cerca de 8,70% dos esgotos de Rio Branco
passavam por uma rede coletora, e 30,15% eram deposi-
tados em fossas sépticas.

DESPEJOS DOMÉSTICOS DE RIO


BRANCO - 1977

Rede de Esgoto
2,64
5,73 7,25 8,7
Fossa Séptica
1,28
30,15 Fossa Negra

Fossa Séptica e
negra
44,25 Córregos

FONTE: UNICAMP/SP 1977 apud Nunes, 1981.

Em se tratando de esgoto e fossa séptica na relação


Rio Branco, Terceiro Eixo e bairros, a perspectiva é de que
02% dos domicílios pesquisados do Terceiro Eixo eram
atendidos pela rede de esgoto e 06% utilizavam fossa
séptica. A maior parte dos domicílios utilizava-se de insta-
lação sanitária externa, sendo comum mais de uma família
e/ou residência utilizar a mesma “privada”, que geralmente
ficava no “fundo do quintal”.
102 Reginâmio Bonifácio de Lima

Esgoto e Fossa Séptica Domiciliar

LOCAL Esgoto Domiciliar % Fossa Séptica %


Rio Branco* 8,70 30,15
Aeroporto 04 04
Bahia 00 19
Glória 00 03
Palheiral 03 03
Terceiro Eixo** 02 06

FONTE: *UNICAMP – 1977 apud Nunes 1981.


** Setor de Cadastro – PMRB/ Valor parcial. Não inclui
os bairros do Terceiro Eixo não mencionados.

Quanto à coleta do lixo, ao comparar os dados da


Secretaria de Serviços Municipais da Prefeitura de Rio
Branco com os obtidos a partir das fichas de cadastro
imobiliário, de parte do Terceiro Eixo, é possível afirmar
que a quantidade de lixo coletada na área do referido eixo
era muito menor que a coletada no restante da cidade. A
coleta não era regular e intensa como é na atualidade,
posto que atualmente ocorrem três visitas de coleta por
semana na maior parte da cidade; e, diariamente no centro
e adjacências. Em 1979, a maior parte da coleta era
semanal, embora não ocorresse regularmente, com 87% da
população riobranquense atendida, ou seja, 81,50% das 45
toneladas de lixo produzidas diariamente eram coletadas24.
Comparado ao Terceiro Eixo Ocupacional percebe-se que
neste, apenas 11% dos domicílios eram atendidos pela
coleta de lixo.

24
Dados da Secretaria de Serviços Municipais da PMRB – 1979.
Sobre Terras e Gente... 103

Resíduos sólidos de Rio Branco – 1979

LOCAL Domicílios Atendidos com a Coleta %


Rio Branco* 81,50
Aeroporto 10
Bahia 15
Glória 00
Palheiral 18
Terceiro Eixo** 11

FONTE: *UNICAMP – 1977 apud Nunes 1981.


** Setor de Cadastro – PMRB/ Valor parcial. Não inclui
os bairros do Terceiro Eixo não mencionados.

Em 1982, o Terceiro Eixo contava com a ação das


Comunidades Eclesiais de Base, que atuaram diretamente
na luta pela terra em alguns bairros; essas comunidades
tinham seus representantes nas áreas dos bairros Palheiral,
Bahia, Pista e Aeroporto Velho. As comunidades desses
locais agiram diretamente na formação de outros três bair-
ros: João Eduardo I, João Eduardo II e Bahia Nova.
Há na Prefeitura o registro das atuações de grupos
organizados e semi-organizados em torno de uma associa-
ção de moradores de bairro. A primeira associação a ter sua
atuação reconhecida foi a do bairro Abraão Alab, fundada
em 24 de abril de 1980; em seguida a do conjunto Tangará,
em 13 de março de 1983; a associação dos moradores do
bairro João Eduardo só foi organizada em 22 de julho de
1984, contudo, teve sua atuação reconhecida pela Prefeitu-
ra desde 1980, onde reivindicava desde a desapropriação
da área para a construção da escola João Paulo I, até o
pedido para a demarcação oficial dos lotes, já no referido
ano.
104 Reginâmio Bonifácio de Lima

Localidades a Serem Observadas

Três localidades que fazem parte da área expandida


do Terceiro Eixo foram destacadas por suas peculiaridades
e constituições, sendo apresentadas aqui, a saber: Salgado
Filho, Sobral e Floresta Sul. O primeiro por não se confi-
gurar um bairro atualmente, embora o Governo e a Prefei-
tura tenham em seus documentos oficiais o nome dessa
área como sendo um bairro, em fins da década de 1970 e
início da seguinte; os bairros Sobral e Floresta Sul fazem
parte da expansão do Terceiro Eixo, embora durante o
período estudado de formação já existissem colônias e
chácaras nessas localidades.

Salgado Filho

Esse foi o nome dado pelos governantes de Rio


Branco à área onde se localizam os bairros Palheiral, Pista,
parte do João Eduardo, parte do Bahia, parte do Aeroporto
Velho.

“Em pesquisa realizada ‘in loco’ em alguns bairros


pobres como: Cidade Nova, Preventório e Salgado Filho
(Bahia, João Eduardo e Palheiral) constatou-se que em
algumas localidades nesses bairros a densidade bruta
atinge 540, 193 e 170 habitantes/hectare, respecti-
vamente... este bairro [Salgado Filho] está situado ao
longo da margem esquerda do Rio Acre a oeste da
cidade, com uma população estimada em 11.551 habi-
tantes e uma área de aproximadamente 233,13 hectares.
É composto por várias áreas residenciais, tais como,
Bahia, Palheiral, João Eduardo, Pista, Aeroporto Velho,
etc.” (PMRB, 1983: 32 e 281).

Pelo que se pode observar, o Projeto Especial Cida-


des de Porte Médio já nomeava áreas dentro do Salgado
Sobre Terras e Gente... 105

Filho, e cita todos os locais onde hoje são denominados os


oito bairros do Terceiro Eixo, não fazendo menção de
nomenclatura apenas ao bairro Bahia Nova, por estar
contido no Bahia e ao bairro da Glória, que estava em parte
contido no Aeroporto Velho e em parte no Bahia.

Vista do Aeroporto Santos Dumont.

Ano 1948. Duas décadas mais tarde, com a desativação do aero-


porto, a área denominada Salgado Filho, foi ocupada por gentes
que formaram o Terceiro Eixo Ocupacional de Rio Branco.
Fonte: Acervo digital – IBGE.
106 Reginâmio Bonifácio de Lima

Segundo a Prefeitura, em 198225, ao medir o grau de


ocupação em emprego e renda, constatou-se que apenas
31,1% dos moradores tinham um trabalho para o sustento
da família, taxa bem abaixo da média municipal no
período, 47,4%. Ao estudar esses 31,1% de trabalhadores,
percebe-se que 2% tira o sustento trabalhando na agrope-
cuária; 1% na indústria; 3% na construção civil; 9% no
comércio; 35% prestando serviços; 38% na administração
pública; e 12% no setor informal.
Quanto à moradia, de acordo com a Prefeitura de
Rio Branco, o déficit habitacional riobranquense era de
“apenas” 9.508 domicílios em 1982. Esse número apresen-
tado não condizia com a realidade, uma vez que as ocupa-
ções de áreas como Cidade Nova, Triângulo, Triângulo
Novo, Preventório, Abraão Alab, Cadeia Velha, dentre
vários outros bairros, como os do Terceiro Eixo, comprovam
um grande aumento populacional na cidade de Rio Branco
e conseqüente necessidade de moradia – somente as
populações dessas áreas de ocupações residiam em número
maior de “domicílios improvisados” que a quantia expressa
pela Prefeitura, referente a toda a Capital. Nesse período
de acordo com a CEAG/AC26, Rio Branco tinha cerca de
22.036 domicílios, sendo que destes 55% eram rústicos, 1%
improvisado e apenas 44% considerados duráveis. A madei-
ra era o material mais utilizado na construção de habita-
ções, totalizando 56% dos domicílios riobranquenses, con-
tra 38% de alvenaria e 5% mista, sendo 1% construídos com
algum outro tipo de material.
Quanto à propriedade dos domicílios, em Rio Branco
82% dos domicílios eram próprios, enquanto no bairro
Salgado Filho, apenas 73% dos domicílios eram próprios.
Embora houvesse um número elevado de construções,

25
Tabela 2.9 – Densidade e Ocupação por bairros. Rio Branco/
Projeto Especial Cidade de Porte Médio – 1983, p. 35.
26
PMRB, 1983, p. 189.
Sobre Terras e Gente... 107

aproximadamente 4/5 desses domicílios eram de madeira,


no assoalho e paredes, cobertas de alumínio, palha ou
cavaco. Essas construções tinham em média 34,9m² de
área, distribuídos em seis metros de comprimento por cinco
metros e oitenta centímetros de largura, com cobertura de
duas águas, sem divisórias internas, sendo construídas de
acordo com os costumes e tradições locais.

População e Habitat de Rio Branco e Salgado Filho – 1982.

Local Área Popula- Nº. de Nº. de Área Habitante


Resi- ção Famí- Domi- Média s
dencial lias cílios Construí por
em m² da por Domicílio
Família
Rio Branco 1.230.574 104.547 24.130 22.036 55.8 4.74
Salgado Filho 991.128 11.551 2.267 1.938 34.9 5.96

FONTE: CEAG/AC apud PMRB – 1983.

A população constituinte do bairro Salgado Filho era


essencialmente pobre. Não só em relação à de outros cen-
tros urbanos, mas também em relação à da própria cidade
de Rio Branco. De acordo com o resumo produzido pela
CPM/BIRD, para o projeto Especial Cidades de Porte
Médio, a análise feita acerca do bairro Salgado Filho é de
que a maioria de sua população era formada por crianças;
sendo a população total formada por 49% dos habitantes do
sexo masculino; na área, 2.267 famílias conviviam com 38%
de seus familiares trabalhando com renda, e, uma média de
proventos onde cerca de 70,5% dos trabalhadores recebiam
abaixo de 3 salários mínimos. No mesmo período, 57% das
residências eram ligadas à rede de água, embora isso não
signifique atendimento satisfatório, já que 43% das resi-
dências tinham poço; 87% não tinham nenhum tipo de
esgoto; a coleta de lixo atendia a 81% dos domicílios, mas
era irregular. Havia um hospital para pessoas com distúr-
bios mentais e um posto de saúde no local.
108 Reginâmio Bonifácio de Lima

Quanto à educação, em 1982 o Terceiro Eixo conta-


va com 04 escolas, sendo elas: Áurea Pires, Serafim da
Silva Salgado e Flaviano Flávio Batista, no Aeroporto
Velho; e, Frei Thiago Maria Mattioli, no Bahia.
De acordo com dados oficiais disponibilizados pela
Prefeitura, através do PECP, os habitantes do bairro Sal-
gado Filho representavam mais de 11% da população rio-
branquense, entretanto, contava com apenas um dos nove
hospitais da capital, o Hospital Distrital, que fica na Estra-
da da Sobral. No mesmo período, 1982, a rede de saúde da
capital contava com 09 hospitais – 04 públicos e 05
privados –, 01 consultório médico, instalado na FUMBESA,
e, 07 Centros de Saúde.

Sobral

A partir das ocupações da antiga Fazenda Sobral, no


ano de 1983, iniciou-se o processo de urbanização da
mesma, sendo que, já existiam algumas dezenas de famí-
lias lá residentes na área rural. E com o fluxo migratório
proveniente principalmente das proximidades do Colégio
Agrícola e rodovia Transacreana, algumas famílias se
fixaram no local próximo à estação de tratamento de água,
adutora de Rio Branco, o que mais tarde viria a se chamar
bairro Sobral.
Surgido a partir das colônias e áreas de terras rurais
que aos poucos foram se tornando urbanas, ora pela desa-
tivação dos seringais de plantio situados na área do Ter-
ceiro Eixo Expandido, ora, pelas populações rurais expro-
priadas, que em sua migração tomaram posse de áreas de
terra próximas a Rua da Sanacre e Estrada da Sobral, o
nome do referido bairro foi escolhido para se chamar
Sobral, de acordo com moradores do local, por causa da
área em que se situa, administrada por um nordestino
nascido na cidade de Sobral, Ceará, que cuidava de uma
fazenda na região supracitada. Uma outra versão é a de
Sobre Terras e Gente... 109

que a área foi nomeada por causa da Fazenda Sobral,


pertencente ao Governo do Estado.
Não foram encontrados indícios necessários para a
inclusão do bairro Sobral no Terceiro Eixo riobranquense,
embora não seja descartada a hipótese, mediante compro-
vação. Há no local a Escola João Paulo II, que funciona
desde o período em que o referido Eixo foi formado,
contudo, isso não é indício suficiente para uma inclusão do
local; havia também várias residências próximas, nas
colônias e colocações adjacentes; havia, sem dúvida
alguma, uma população no local, mas não se comprovou
uma forma de “vida urbana”, com terrenos próximos, ruas
demarcadas – ainda que se configurassem em estreitos
caminhos – e convivência no mesmo estilo, ou ao menos
parecido que nos outros locais próximos. Mapas da
Prefeitura de Rio Branco, do Cadastro Imobiliário, registros
censitários do IBGE e jornais configuram aquela área como
pertencente à Zona Rural, não cabendo aqui, conceituar
urbanidade ou falta dela, apenas destacar o fato de a
expansão da área seguir o mesmo “perfil” das do Terceiro
Eixo apenas algum tempo após o ano de 1982.

Sede da Fazenda Sobral


110 Reginâmio Bonifácio de Lima

Edificações na Fazenda Sobral

Fazenda Sobral – 1953. Propriedade do Governo Estadual, onde


se criava gado, suínos, aves; Sede da Fazenda (foto anterior) e
edificações diversas (foto acima).
Fonte: Acervo digital – IBGE.

O local onde atualmente se intitula bairro Sobral é


uma ocupação recente, por volta de 1984; a Fazenda
Sobral, de que tratam os jornais e documentos oficiais das
décadas anteriores a 1980, é a localidade que está contida
entre a rua Francisco José de Oliveira, que segue até a
Estação de Tratamento de Água de Rio Branco e adja-
cências, até o encontro da Estrada da Sobral. A essa
localidade acresceram-se ruas até a margem do rio Acre e
do outro lado da Estrada da Sobral, uma extensão de terra
entre os bairros João Paulo II e Boa União. Contudo, em
alguns jornais é possível ver o nome Bairro Sobral nos
noticiários de 1982 e 1983. No entanto, grande parte das
informações se referem à parte sul do bairro Aeroporto
Velho ou ao bairro da Glória.
As terras da Fazenda Sobral, foram ocupadas por
volta do fim de 1983, tendo sua formação sido continuada
Sobre Terras e Gente... 111

até os dias atuais, sendo que, em 1989 o bairro Sobral já


estava com a formação próxima ao que é atualmente, parte
de seu território foi desmembrado e seu nome foi mudado
para Bairro Boa Vista. Hoje, de acordo com a prefeitura,
existe um acréscimo do bairro Sobral, na margem esquerda
da Estrada da Sobral, contudo, sua formação inicial se deu
na margem direita, onde atualmente se situa a escola João
Paulo II, na faixa de terra pertencente ao Governo do
Estado, onde está localizada a estação adutora de trata-
mento de água da cidade.

Floresta Sul

Após a formação do Terceiro Eixo Ocupacional de


Rio Branco, ocorreu a urbanização da área intitulada Flo-
resta Sul, na mesma região do Terceiro Eixo. Entretanto, o
caso do bairro Floresta Sul é diferente dos demais por não
haver uma ligação terrestre direta com os demais bairros do
Terceiro Eixo, formando-se esse bairro a partir do bairro
Floresta, pertencente ao Segundo Eixo Ocupacional de Rio
Branco. Contudo, as populações, as moradias, a renda, a
escolaridade e a formação desse bairro se deu pouco depois
da formação do Terceiro Eixo, estando em uma área próxi-
ma aos bairros supracitados.
Doravante, dadas as exposições, toda a parte leste
da área de terra que constitui esse bairro, ou seja, a parte
oriental da Estrada da Floresta, será incluída na lista dos
pertencentes ao Terceiro Eixo Expandido até que outro
pesquisador comprove a necessidade de não inclusão do
mesmo – a parte ocidental da referida estrada começou a se
desenvolver há pouco mais de cinco anos. Antes de pôr fim
ao exposto, vale ressaltar que a existência de chácaras e
colônias rurais na região até o início da década de 1980
não implica uma inclusão do mesmo no Segundo Eixo
Ocupacional de Rio Branco, dada a necessidade de um
112 Reginâmio Bonifácio de Lima

contexto de sociabilização e urbanidade entre os moradores


– o que só ocorreu por volta de 1984.

De Espaço Fronteiriço a Território Local

Informações gerais

Durante o segundo semestre do ano de 1979 a Pre-


feitura de Rio Branco realizou o cadastramento dos domi-
cílios de vários locais da cidade, incluindo parte do
Terceiro Eixo. Esse cadastro efetuado com a aplicação de
um Boletim de Cadastro Imobiliário (BCI) é importante por
dar uma noção clara das áreas cadastradas, da localização
dos setores, ruas e “quarteirões” onde foram aplicados os
questionários.
O mapa que se segue foi produzido a partir do mapa
da Prefeitura de 1980, permanecendo todos os “quartei-
rões” cadastrados, e excluindo do mesmo todas as áreas
não constantes no BCI da planta básica planimétrica
urbana de Rio Branco de 1979, para que se possa ver com
maior propriedade os locais onde este foi aplicado. Vale
ressaltar que muitos dos logradouros contidos no mapa
referem-se a “caminhos”, “becos” ou “varadouros”, não
sendo o ensejo neste primeiro momento de tipificá-los.
Sobre Terras e Gente... 113

Recorte de Rio Branco/Cadastro Imobiliário – 1979.

FONTE: Setor de Cadastro/PMRB – 1979 (Recortes do Autor)

No cadastro produzido pela Prefeitura constam


dados como a inscrição cadastral, precisando quadra, lote e
unidade; o fator de localização, especificando a tipificação
em rua, avenida, beco, etc; o nome do logradouro, número
do domicílio e bairro; a identificação do proprietário ou
detentor é separada em pessoa física e/ou jurídica; também
consta o domicílio do proprietário ou detentor, para
preenchimento caso não seja residente no local; constam
ainda, os croquis da unidade e sua referente paciguste27.
Para esta pesquisa foram utilizados os itens refe-
rentes a informações gerais, informações sobre a edificação
e serviços urbanos, correspondendo aos itens 09, 10 e 11,

27
Termo técnico para designar um desenho de edificação, com
corte “tipo planta baixa”, dentro de uma determinada área.
114 Reginâmio Bonifácio de Lima

cada um deles tendo sua subdivisão28. A Prefeitura aplicou


esse Boletim Cadastral em vários bairros, dentre eles os
bairros Aeroporto Velho, Palheiral, Glória, Pista, Bahia
Velha e Bahia Nova. Embora existissem algumas centenas
de famílias nos bairros João Eduardo I e II, o BCI não foi
feito naquele local em 1979 por ser uma área que se
encontrava em litígio. Vinte e seis anos se passaram desde
a aplicação desses BCIs, os bairros muito se modificaram
desde então, também os arquivos do Cadastro Imobiliário
da Prefeitura de Rio Branco foram mudados de local várias
vezes, havendo perdas consideráveis de arquivos, inclusive
de Boletins Cadastrais. É importante fazer essas conside-
rações porque dos oito bairros constantes como parte
integrante do Terceiro Eixo, dois tiveram seus arquivos
“fora de localização”. Sendo eles: Pista, com apenas uma
quadra ainda existente e catalogada nos Arquivos do
Cadastro Geral do Município, ainda que a pesquisa tenha
sido feita em seis quadras; e Bahia Nova com duas quadras
constantes nos catálogos, acessíveis para pesquisa, sendo
que não foram catalogadas as quadras situadas na parte
noroeste, limítrofes ao bairro Bahia.
A Prefeitura catalogou a existência de 33 quadras
com 620 domicílios no bairro Aeroporto Velho29; 13 quadras
com 284 domicílios no bairro Bahia Velha30; 06 quadras
com 389 domicílios no Palheiral31; 13 quadras com 359

28
Para maiores informações consultar cópia do BCI, em anexo.
29
Quadras 202, 203, 204, 210, 217, 218, 219, 220, 221, 222, 223,
224, 225, 226, 227, 228, 229, 230, 231, 232, 233, 234, 235, 237,
238, 239, 240, 241, 246, 248, 255, 270, 361.
30
Quadras 173, 190, 191, 192, 193, 194, 195, 196, 197, 198, 199,
200, 231.
31
Quadras 108, 242, 243, 244, 248, 256.
Sobre Terras e Gente... 115

domicílios no bairro da Glória32; 02 quadras na Bahia


Nova33; e 06 quadras no bairro da Pista34.
Relacionados os números de quadras e de domi-
cílios, estes ainda que parcialmente, compete dizer que não
se enseja vislumbrar as ocupações bairro a bairro, tam-
pouco pormenorizar as informações sobre edificações ou
serviços urbanos. Contudo, deve-se destacar alguns pontos.
Primeiro, nesse período a maior densidade demográfica
estava contida na parte sul do Aeroporto Velho; no encon-
tro das ruas Mem de Sá e São Salvador, na Bahia Velha; e,
na rua “C” no Palheiral. Segundo, só havia uma linha de
ônibus para o local, que partia do centro pela Rua Rio
Brande do Sul, prosseguindo pela Estrada da Sobral, até
onde atualmente situa-se o bairro Boa União. Terceiro, o
abastecimento de água e luz dava-se, em grande parte, nas
vias principais, de onde, segundo os moradores, “puxavam
rabichos” para suas residências. Quarto, o poder público
pouco investiu nessa localidade, conforme as convenções
estabelecidas na planta da cidade de 1980, que enumera
no local a existência de apenas 02 dos 99 pontos “consi-
derados importantes”, sendo eles: o Ginásio Coberto e o
Hospital (Asilo), ambos no Aeroporto Velho.
O periódico “O Jornal”, escreveu sobre “A luta pela
sobrevivência” dos moradores da periferia de Rio Branco. O
recorte dado no jornal é sobre o bairro Palheiral e as
periferias adjacentes. Segundo o que foi escrito ainda em
1977, pode-se ter uma idéia de como era a situação das
pessoas que vinham para a cidade em busca de uma vida
melhor, e aqui se deparavam com a dura realidade:

32
Quadras 247, 249, 250, 251, 252, 253, 254, 255, 268, 269, 299,
312, 318.
33
Quadras 264, 273.
34
Quadras 198, 247, 260, 261, 262, 296.
116 Reginâmio Bonifácio de Lima

Um amontoado de casas humildes, erguidas desajeita-


damente em ruas estreitas, cheias de lama e água empos-
sada (sic) (...) é um pedaço da cidade ainda desarrumado,
sem infra-estrutura urbana, portanto sem água encanada
e esgoto, asfalto ou transporte regular para o centro (...) o
pessoal foi chegando e se amontoando na cidade, onde
coubesse, debaixo da ponte, em terrenos particulares ou
em áreas pertencentes ao governo, mas já reservadas a
outros fins. Muitas famílias construíram barracos em
áreas alagadiças, gerando um estado de calamidade
numa das enchentes passadas (...). (O Jornal, nº. 30, ano
IV, 20/12/1977).

As áreas referentes aos bairros João Eduardo I e II,


mesmo sendo ocupadas por algumas centenas de famílias,
ainda não contavam com ruas, eletricidade, água, luz,
telefone, nem esgotos, além disso, era uma área de ocupa-
ção em conflito, onde posseiros e donos de terra buscavam
cada um ter a propriedade sobre a terra; nesse período
também se expandiam as ocupações nos bairros Glória,
Pista e Bahia Nova.
Sobre o bairro da Pista, no início do ano de 1980, o
jornal O Rio Branco noticiou acerca de ocupações que se
intensificaram entre a Rua XV, Estrada da Sobral e Rua
São Salvador, pela descrição percebe-se não só a situação
em que se encontravam as pessoas que para lá se
dirigiram, como os conflitos existentes nas áreas próximas,
e também, a falta de infra-estrutura adequada nos locais de
onde os ocupantes são provenientes:

Cerca de 200 pessoas estão demarcando uma área de


terra localizada entre os bairros da Bahia e Palheiral,
próxima do Ginásio Coberto “Álvaro Dantas” ... armados
de enxadas, terçados e outras ferramentas usadas para
limpeza dos terrenos, os invasores afirmaram que “estão
prontos para brigar” ... a maioria alega que deixou suas
casas nos bairros da Bahia e Palheiral em virtude da onde
(sic) de assaltos, crimes e presença de pessoas dadas a
Sobre Terras e Gente... 117

valentias. “O Palheiral e Bahia – disse um dos invasores –


são bairros que não oferecem segurança para as famílias.
Não tem luz, água e nem ruas e se alguma coisa acontece
ali, somos obrigados a resolver nós mesmos, porque até o
acesso da polícia é difícil”. Outros estão demarcando
terrenos “porque não têm onde morar” (O Rio Branco, nº
856, ano X, 13/03/1980. p. 1).

Informações técnicas

O Cadastro Imobiliário de 1979 coletou informações


em 1.652 domicílios, nos bairros Aeroporto Velho, Bahia
Velha, Palheiral e Glória, além de Pista e Bahia Nova, que
tiveram quase todas as suas pastas “fora de localização”. A
partir desses dados, coletou-se uma amostra domiciliar de
268 domicílios, representando pouco mais de 16% dos
domicílios dos quatro primeiros bairros supracitados. Para
se chegar aos dados que se fazem presentes, utilizou-se a
escolha dos BCIs levando-se em conta as quadras e o
número de domicílios; a cada quadra se analisava um em
cada seis domicílios, respeitando essa seqüência “quartei-
rão” a “quarteirão”.
Os resultados a que se chegou foram de uma área
em intensa mudança, onde o ambiente que se está “urba-
nizando”, confunde-se com o rural, seja no modo de agir,
nas relações interpessoais, ou no próprio espaço, que vai se
constituindo em território local.
Quanto à pedologia do local, menos de 10% é local
inundável ou alagado, constando em sua topografia uma
área baixa, com predominância plana. Esse patrimônio que
corresponde em sua área a quatro quintos de domicílios
particulares, também conta com 18% de área pública. Os
imóveis são em sua imensa maioria de caráter próprio, já
que, apenas 3% dos domicílios são alugados ou cedidos por
parentes.
118 Reginâmio Bonifácio de Lima

As ocupações eram quase sempre construídas com


utilidade residencial, embora algumas áreas ainda esti-
vessem em construção ou sem uso, o que corresponde a 8%
do total. Essas construções eram dadas em terrenos que
faziam frente para a rua, sendo que, 17% dos domicílios
estavam contidos em esquinas, o que leva a crer num
grande número de vias e vielas perpendiculares entre si.
Mas nem todos os imóveis do local eram residen-
ciais ou públicos, havia também os imóveis que se consti-
tuíam em “casas de diversão” como bares, botecos e locais
de “festas”, onde se poderiam alugar quartos para “ficar
mais à vontade”. Vários entrevistados falaram desses locais
e citaram pelos menos quatro, um em cada bairro, sendo o
mais citado o “Bola Preta” que nas palavras do senhor
Rocha:

O Bola Preta surgiu como uma casa de diversão, de


mulher, era um motel, ali nunca foi bairro, nunca foi
bairro, era um motel, uma casa. Então era isso, era um
comércio, uma casa de morada, um motel, aí do lado tem
um lugar de sargento, não tem, da PM [atual Vila
Militar]?! Ali era a parte do motel, não tinha casa ali
não, aí depois foi invadido, era cheio de gente morando
ali, era invasão. Ai expulsaram pra fazer Cohab Castelo
Branco, e o povo correu para o Palheiral (Entrevista
realizada com o Senhor Rocha, dia 08/05/2005).

Informações sobre as edificações

Ao analisar os tipos de edificações, a caracterização


a que se chega é de 98% se configurar em casas ou sobra-
dos, normalmente construídos na parte frontal do terreno,
isoladamente, embora existam residências geminadas,
entre vizinhos. As estruturas apresentam-se em 99% de
construção produzidas em madeira. A madeira utilizada,
normalmente era a de tábuas de construção – madeira
Sobre Terras e Gente... 119

cerrada, não beneficiada – ou árvores que eram derrubadas


para a edificação de “tapiris”.
A maioria das casas não tinha revestimento externo,
enquanto as que tinham o revestimento era de madeira ou
caiação; o piso era feito de tábuas, em sua quase totali-
dade; a cobertura era de palha/zinco/cavaco, representando
96% da cobertura do local; o forro era inexistente, em
quatro quintos dos domicílios; a fachada era quase que
totalmente recuada; 45% dos domicílios não contavam com
instalação elétrica; em 17% dos domicílios inexistia insta-
lação sanitária, enquanto 78% era servido por instalação
sanitária externa.
Quanto ao estado de conservação das estruturas,
apenas 8% foi considerado novo/ótimo, 20% considerado
bom, e 69% considerada regular. De acordo com a Prefei-
tura, mesmo nessa situação lastimável, apenas 3% dos
domicílios do local estavam imunes/isentos do IPTU e do
TSU, “coincidentemente”, em sua maioria, imóveis públi-
cos.

Serviços urbanos

Percebe-se a grande carência dos serviços urbanos,


visto que, apenas 01% dos logradouros era atendido por
serviços de esgoto, recebendo o despejo de 02% dos domi-
cílios. A rede de água existente, sobretudo nas vias princi-
pais, atendia dois quintos dos domicílios, embora a água
não fosse distribuída com freqüência, visto que 36% dos
domicílios utilizavam água de poço, neste ultimo número
não está contido o fato de muitas pessoas coletarem água
no poço de seus vizinhos.
A energia/força elétrica, abrangia mais da metade
do setor, embora apenas 46% dos domicílios tivessem
acesso a ela. A coleta do lixo era feita nas ruas principais,
atendendo 10% dos logradouros e domicílios. A rede tele-
120 Reginâmio Bonifácio de Lima

fônica, restrita às ruas principais dos bairros, abrangia uma


área considerável em extensão, embora apenas 01% dos
domicílios fossem atendidos. As ruas, quase todas estavam
sem calçamento, pavimentação, guias, sarjetas e galeria
pluvial. Não havia rua em muitos lugares. Com a falta de
saneamento básico e infra-estrutura, as residências conta-
vam com “privadas” em sua grande maioria, e apenas 06%
possuía fossa séptica.

Atendimento de Serviços no Terceiro Eixo – 1979.

Serviços Logradouros Domicílios


atendidos (%) atendidos (%)
Esgoto 01 02
Rede de água 56 40
Água de poço __ 36
Energia/força elétrica 57 46
Coleta de lixo 10 11
Rede telefônica 09 01
Calçamento 02 __
Limpeza urbana 07 __
Galeria pluvial 02 __
Guias e sarjetas 02 __
Fossas sépticas __ 06

Fonte: Cadastro Imobiliário/PMRB – 1979.

Habitantes e Habitat

Impressões iniciais

Ao pensar os homens enquanto seres humanos, a


primeira idéia que se passa é: o que fazer, como refletir, a
partir de quê? Só então são feitos os “recortes” do que se
almeja, focalizando-os dentro de um “espaço”, num devido
tempo, uma vez que mesmo o viés da intemporalidade é
Sobre Terras e Gente... 121

cerceado pela conjuntura em que se apresenta. Logo, pode


ser intemporal dentro de determinado fluxo de tempo, e
territorial na relação intra-local, inter-local, local-global,
intra-global.
As várias concepções de pensamento que consti-
tuem a “práxis” acadêmica impelem a uma tipificação que
muitas vezes rotula quando apresenta definições. Talvez
esse rotular seja dado não apenas por tentar definir
conceitos “dicionarizantes” ou de análise estrutural das
palavras, mas por não se levar em conta que muitos vocá-
bulos são variáveis e podem significar algo em determi-
nadas situações, e ter significado diferente em outras.
Assim, não se vai tentar definir nada aqui, no sentido de
enunciar atributos específicos demarcativos e sentencian-
tes, mas conceituar, buscando representar os objetos
pensados e os sujeitos pensantes por meio de suas caracte-
rísticas gerais, globalizando-os em seu território, sem
generalizá-los.
As visões que ora se apresentam mostram-se como
partes que constituem as relações estabelecidas, sendo que
é certo o fato de ocorrerem imprevistos nas múltiplas
dimensões quando se vai apreciar parcialmente e buscar
identificar o processo reprodutivo onde são espelhadas as
ralações sociais intrínsecas às fronteiras do lugar. Porque
conforme Carlos, a poética subjetiva e sócio-econômica
reafirma o espaço desigualmente iluminado, cheio de
obstáculos, relacionando-se com o tempo que se comprime,
compacta-se e materializa-se, transformando-se mutua-
mente em território local.
O mundo apresentado de forma fragmentada nas
diversas formas do espaço, do indivíduo, da cultura é
preenchido pelo sentido do corpo que emerge na memória
constituída da cultura. Cultura esta que se estabelece em
meio a pressões e coações.
A necessidade de conceber as fragmentações e vi-
sões do território e tudo que nele está inserido se dá mais
122 Reginâmio Bonifácio de Lima

por uma proposição conjuntural que pela necessidade de


“ser verdadeiro”; porque o lugar visto de dentro é um, e
visto de fora é outro, ele não é uno, mas vários e variante
dentro do fluxo conjuntural com suas próprias tradições-
culturas - línguas - hábitos - práticas - analogias - relações
sociais; é o olhar que os diferencia como em um prisma
focando a luz. O lugar é chamado por Santos de: “quadro
de uma referência pragmática ao mundo, do qual lhe vêm
solicitações e ordens precisas de ações condicionadas, mas
é também o teatro insubstitutível das paixões humanas,
responsáveis, através da ação comunicativa, pelas mais
diversas manifestações da espontaneidade e da criativi-
dade”.
A imaturidade humana nos faz produzir uma leitura
assemelhada, mas não assimilada dessa lição que é a vida.
Uma escola onde se aprende do primeiro ao último dia e
não se diploma – a não ser pelo registro eventual de um
obituário. Bakhtin descreveu o diálogo entre os interlo-
cutores, enquanto princípio fundador da linguagem, na
relação entre sujeitos; e o diálogo entre discursos, com a
interpretação dos textos, significação das palavras e dos
próprios sujeitos.
A consciência possível do “outro” só se dá quando
se propõe a ler o que ele escreveu e compreender o que ele
quis fazer. A alteridade é marcante no ser humano, porque
a convivência com o “outro” é imprescindível para a consti-
tuição de suas relações sócio-territoriais, mesmo havendo
divergências e, às vezes, conflitos acerca dos valores. Há a
necessidade de interagir e dialogar com as outras pessoas,
sabendo-se que nessa interação, o historiador não é nulo,
tampouco seus escritos são livres de ideais ou discursi-
vidade, então, nessa correlação do “eu” com o “outro”
precisa ficar claro o verdadeiro objetivo de "revelar as
fontes de viés, mais do que pretender que elas possam ser
eliminadas (...), [na tentativa de] apresentar um desafio, e
Sobre Terras e Gente... 123

uma compreensão que ajude no sentido da mudança"


(THOMPSON, 1992, p. 158 e 42).
Assim sendo, os pontos que se põem na apreciação
identitária da memória cultural das gentes do Terceiro Eixo
estão ligados à questão local/espacial, sujeito/identidade,
território/fronteira. Um inexiste sem o outro, e sua comple-
tude só se dá nas diferenças e mediações intrínsecas aos
processos estabelecidos.

Ambiência ocupacional

Durante a segunda quinzena do mês de março de


2005, foi aplicado um questionário sócio-econômico nos
bairros que compõem o Terceiro Eixo Ocupacional desde a
época de sua formação. A proporcionalidade da quantia de
aplicação está embasada no número de habitantes cons-
tantes no Boletim de Cadastro Imobiliário de 1979 e na
quantidade de moradores da época da formação constantes
na localidade, de acordo com o censo de 1980 do IBGE.
Esses moradores do período de formação foram inquiridos
sobre suas vivências familiares, enquanto formadores
daquele território, e, como viam o local em que habitavam.
Os 08 bairros – Bahia Velha, Bahia Nova, João Eduardo I,
João Eduardo II, Glória, Pista, Aeroporto Velho e Palheiral
– foram divididos em subsetores para que os questionários
atingissem o bairro como um todo e a soma destes confi-
gurando o Terceiro Eixo.
Foram aplicados questionários nos oito bairros, o
menor número aplicado foi de 12 questionários na Bahia
Nova e o maior, de 28 no Aeroporto Velho, a soma de todos
os questionários aplicados nos bairros totalizaram a quantia
de 161. Para essa aplicação foram utilizados alguns requi-
sitos. Quanto aos entrevistados, precisavam morar inin-
terruptamente no bairro há, pelo menos, 23 anos, ou seja,
desde 1982 ou antes dessa data; ser o “chefe” ou um dos
124 Reginâmio Bonifácio de Lima

“chefes da casa” na atualidade. Quanto ao local havia


necessidade de cobertura de toda a localidade, com aplica-
ção de maior quantidade de questionários nas áreas que,
segundo a Prefeitura35 e entrevistas orais com os mora-
dores, eram os locais com maior densidade demográfica.
A percepção que se têm é que mesmo chegando ao
Terceiro Eixo as andanças populacionais continuaram, a
maioria das pessoas que nele chegaram ao período estu-
dado, retiraram-se para outros locais. Como nunca houve
um levantamento “oficial” sobre isso, o Cadastro Geral
Municipal, o IBGE, o CEDEPLAR e outros órgãos que pes-
quisaram o local não têm dados sobre o assunto, não é
possível chegar a uma contabilização das andanças. A
própria andança intra Terceiro Eixo é muito grande com
cerca de um terço dos entrevistados mudando-se de um
bairro para outro no mesmo setor36. As análises ora pro-
duzidas são embasadas nas falas dos moradores que
chegaram e permaneceram no local.
Algo que chama a atenção tanto quanto o lugar de
saída desses migrantes é o próprio fluxo migratório que
está em grande parte diretamente ligado com as ações e
políticas expostas no capítulo anterior.
Dona Raimunda mora no bairro Bahia desde 1974 e
conta algumas de suas vivências:

Eu nasci na Bolívia, perto do Peru, mais fui registrada


como filha de Xapuri. Cheguei aqui dia 28 de outubro de
1974. Porque o meu marido, quando agente namorava,
ele já morava aqui, eu quando vim pra cá, ele tinha 17
anos, ele já morava aqui pela Bahia, aí quando nóis

35
BCIs; Cadastro imobiliário; e Plantas Oficiais da Cidade de
1979, 1980, 1981, 1982.
36
Quanto a essas mudanças os entrevistados respondiam o quês-
tionário pelo local em que estavam morando, embora tecessem
observações e contribuições sobre o seu local de domicílio
anterior.
Sobre Terras e Gente... 125

casamo, ele tinha uma casa, aí nóis viemo morá aqui.


Porque era pra onde o meu marido pudia me trazê, né?!
Porque as condições dele só dava pra vim pra cá, não
tinha como ir pro centro. As pessoas disseram pra mim
que isso aqui era um seringal, mais eu não sei si era.
Esse lugar era tipo campo, mais aí, depois, em 1973, o
homem lotiou, aí o homem vendeu os lotes de terras. O
seu Nilo Pereira lotiou tudinho e vendeu, aí eu comprei
este lote pra mim [na Bahia]. Era só um varador, parecia
um varador de animal e todo mundo andava descalço,
pra poder chegar na rua Rio Grande do Sul, e lavava
roupa no rio porque não tinha água encanada, não tinha
luz, era difícil. Só tinha ônibus pro Aeroporto Velho,
descia na ladeira do Bola Preta, aí vinha de pé pra cá
(Entrevista realizada com a dona Raimunda, dia
27/05/05).

Histórias de vida como a de dona Raimunda se


repetem em dezenas de outros entrevistados. Portanto,
duas coisas precisam ficar explicitadas a princípio: o lugar
de nascimento desses homens e mulheres que vieram para
o local e o lugar onde moravam antes. Quase metade dos
migrantes nasceram em apenas três locais: Sena Madu-
reira (17,08%), Tarauacá (15,82%) e Rio Branco (15,18%).
Ao fazer um agrupamento quanto ao lugar de
nascimento dos migrantes para a capital e mais tarde para
o Terceiro Eixo, são perceptíveis algumas peculiaridades: a
naturalidade dos entrevistados coincide com a proximidade
da data de migração para a capital; entretanto, não se
desconsidera o fato de um fluxo inicial de migrantes
preceder a um auge, com grande fluxo migratório, e, um
fluxo menor, mas ainda existente, em período posterior.
Vieram para Rio Branco durante todo o período, contudo,
em certas épocas vieram mais pessoas de determinadas
localidades que de outras. Assim, percebe-se que vieram
primeiro os migrantes de Brasiléia/Xapuri/Assis Brasil
(15,18%), no início da década de 1970; seguidos pelos de
Sena Madureira/Manoel Urbano (19,61%), em meados da
126 Reginâmio Bonifácio de Lima

mesma década; e prosseguindo com Tarauacá/Feijó


(22,78%), no final da década de 1970 e início da de 1980.
As andanças para a cidade de Rio Branco trouxeram
pessoas naturais de várias localidades: 15,18% natural da
capital; 64,52% natural do interior do Acre; 19,37% natural
de outros Estados, sendo 8,21% procedente do Nordeste
(Estado do Ceará, 5,69%), e 10,11% do Norte (Estado do
Amazonas, 8,22%); além de 0,93% procedente de outros
países.

Local de nascimento e moradia proximamente anterior dos


habitantes do Terceiro Eixo.

LOCALIDADE LOCAL DE LOCAL DE MORADIA


NASCIMENTO ANTERIOR
(%) AO TERCEIRO EIXO (%).
Rio Branco 15,18 ___
Zonas Rural e Urbana
Rio Branco/Zona Rural ___ 18,49
Rio Branco/Zona Urbana ___ 38,58
Tarauacá 15,82 9,58
Sena Madureira 17,08 14,38
Feijó 6,96 4,10
Brasiléia/Xapuri/A. Brasil 15,18 2,05
Outros municípios acreanos 9,17 7,83
Estados da Região Norte 10,11 2,73
Estados da Região Nordeste 8,31 0,68
Outros Estados do Brasil 1,26 0,58
Outros Países 0,93 ___

Conforme a tabela exposta, apenas 18,49% dos


entrevistados disse ter vindo direto da Zona Rural de Rio
Branco37 para o Terceiro Eixo, enquanto 38,58% já morava
em alguma localidade dentro da cidade de Rio Branco
anteriormente. Outro ponto que se deve destacar é o fato

37
Esses número não incluem as localidades de Senador Guio-
mard, Plácido de Castro, Bujari e Campinas, uma vez que,
mesmo estando próximas à Capital, constituem-se em Municí-
pios distintos.
Sobre Terras e Gente... 127

de vários moradores terem saído de seus municípios de


origem direto para o lugar em que vivem. São 28,06% dos
habitantes, ou seja, mais de um quarto, que saíram de Sena
Madureira, Tarauacá e Feijó direto para o local onde
residem atualmente38.
É importante lembrar que eles não são “coita-
dinhos”. Foram vitimados pelas políticas públicas que não
os contemplaram, mas também agem dialogando com os
outros e fazendo seus próprios movimentos de resistência e
defesa da sobrevivência própria e dos familiares. Muitos
dos moradores têm noção dos embates, lutas e expropria-
ções que houve no “campo”, e das pelejas que ocorreram
nas interações conflituosas e dinâmicas ocorridas na “cida-
de”, conforme relata dona Ivete, uma das entrevistadas que
mora do João Eduardo II desde 1979:

As pessoas que vieram do seringal, vieram em busca de


uma melhoria, aí chegaram aqui sem ter nem onde
morar, e o que acontecia muito em todo lugar, as pessoas
saem de seu lugar, aí vai pra um outro lugar em busca de
melhoria pra vida, aí nem melhora, faz é piorar. Os coita-
dos que eram seringueiro, no seringal tava bem melhor,
comia, bebia, tinha o que comer, aí vem pra cidade
pensando que melhora, aí, chega aqui não tem emprego,
não tem nada, nem tem comida pra comprar, aí vão
passar necessidade, não tem onde morar. E sofrimento
pra essas pessoas. Depois de muito tempo tem muitas
pessoas que sofreram muito e que ainda sofrem porque

38
Se o período pesquisado fosse de 1971 a 1986 comprovaria-se a
percepção inicial do alto nível das andanças populacionais dos
feijoenses e tarauacaenses, principalmente nos bairros Pista,
Glória, João Eduardo II, Taquari e Tancredo Neves. Quando da
expansão do Terceiro Eixo, o maior número de migrantes veio
dessas duas localidades, a ponto de os tarauacaenses ultrapas-
sarem em quantidade o número dos naturais de Sena Madurei-
ra, enquanto o número dos feijoenses quase se igualar ao
destes.
128 Reginâmio Bonifácio de Lima

tem muitos deles ainda que saiu da colônia pra vir pra
cidade pensando em melhorar a situação. Quem tem sua
colônia que fique por lá mesmo, porque aqui na cidade só
quem tem estudo é quem tem emprego, já tem sua
sobrevivência, né?! Mais pra quem vem do mato pra cá,
sem ter estudo, sem ter nada, trabalhar aqui, de diarista,
pega um diazinho aqui, outro ali, aí vai passar fome, ele e
a família, não tem casa pra morar, não tem um emprego,
não tem nada, vai só sofrer, foi o que aconteceu com esse
pessoal, aí vamo invadir terra.
Muitas pessoas saíram do seringal por que eram obriga-
dos a sair, se não mataria eles, aí vinha pra cidade, aí
vamo sofrer, aconteceu isso mesmo porque os paulista
vinha e encontrava os seringais, tomava na marra, botava
fora mesmo. Porque que o Chico Mendes morreu?! Por
causa de terra, por causa que o pessoal invadia o seringal
e colocava as pessoas pra correr fora, os seringueiro de
noite dizia pra eles, tem tantas hora pra sair se não eu
mato, então, colocava as trôxa nas costas e saía pra deixar
a colocação pra eles. Eu sei que os seringueiros sofreram
muito, tanto sofreu os que ficaram lá pelo mato pela
pressão das pessoas que tomavam as suas colocação, os
que vieram pra cidade ficaram sem moradia, sem
emprego, sem nada, e aí acontecia isso, tem que invadir
mesmo, aonde não tem ninguém tem terra desocupada,
vamos invadir, invadiram a nossa, vamos invadir a dos
outros pra poder arrumar um lugazinho pra, pelo menos,
morar (Entrevista realizada com a Senhora Ivete, dia
26/03/2005).

Ao intentar saber quando os entrevistados chegaram


a Rio Branco e ao Bairro em que habitam, a resposta foi
que pouco mais de um terço veio antes de 1971 para a
Capital, enquanto quase metade chegou ao Terceiro Eixo
entre 1979 e 1982.
Sobre Terras e Gente... 129

ANO DE VINDA PARA RIO BRANCO

Antes de
1971
Entre 1979
35,02%
e 1982
16,42%

Entre 1975 Entre 1971


e 1978 e 1974
22,14% 26,42%

Ano da vinda das gentes para Rio Branco.

ANO DA VINDA PARA O TERCEIRO EIXO

Antes de
1971
8,52% Entre 1971
Entre 1979 e 1974
e 1982 15,52%
48,83%

Entre 1975
e 1978
27,13%

Ano da vinda para o bairro em que vivem.

Essas populações andantes, ao chegar à localidade


precisavam recomeçar, fazer derrubadas, cuidar da área,
construir o “tapiri”, trabalhar para alimentar a família
dentre tantos outros afazeres. Contudo, não eram homens
jovens, não em sua maioria; os “chefes de família”, a
maioria deles acompanhados por seus cônjuges, tinham os
filhos ainda pequenos, sendo que os filhos mais velhos os
“ajudavam na lida”. Para saber a idade desses homens e
mulheres tomou-se por base a idade atual, diminuindo-se o
130 Reginâmio Bonifácio de Lima

tempo que moram no local. Assim, quanto aos entrevis-


tados que chegaram ao local a maioria, ou seja, 60,55%
tinha entre 18 e 40 anos, enquanto 21,08%, ou seja, um
quinto, ao chegar ao local já estava com mais de 41 anos.

Idade dos moradores ao chegar ao Terceiro Eixo – 1982.

Local 0 – 17 18 – 40 41 – 50 Acima de 50
anos anos anos anos
Pista 30,76% 38,46% 7,69% 23,09%
Bahia Nova 19,50% 60,05% 20,45% 0,0%
Glória 30,43%* 43,49% 17,39% 8,69%
Bahia 10,52% 63,17% 26,31% 0,0%
Palheiral 11,53% 69,23% 15,38% 3,86%
João Eduardo I e II 15,16% 66,65% 12,13% 6,06%
Aeroporto Velho 17,39% 69,56% 4,36% 8,69%
Terceiro Eixo 18,36% 60,56% 14,28% 6,80%

* Passadas duas décadas, verificou-se que muitos dos pais


mudaram deixando os filhos no local.

O estado civil dos entrevistados modificou-se desde


a formação do Terceiro Eixo até os dias atuais. Atualmente
quatro sextos é casado, e um sexto viúvo, quando da
formação, 64% eram casados. Por mais que o perfil seja de
família nuclear quando da ocupação do local, é perceptível
a existência de “mães solteiras”, filhos nascidos “fora do
casamento” e a convivência de três, até quatro gerações
ocupando a mesma casa. As famílias eram grandes. O
“dono da casa” muitas vezes vivia acompanhado por seus
pais ou sogros, pela esposa, por quatro filhos em média e,
às vezes, por noras e netos. As famílias costumavam vir
para determinado local e afixar-se próximo a um parente,
sendo que, a maior parte dos entrevistados disse trazer
consigo seus parentes, ou eles vieram logo depois.
Normalmente ficavam sabendo do local para morar
através de um conhecido, ou em segundo plano, de um
Sobre Terras e Gente... 131

parente e mesmo sem saber de quem eram as terras iam se


instalando no local. A necessidade de ter onde morar e
abrigar a família era maior que o sentimento de posse do
que é alheiro ou ética de estar adentrando um setor que se
não lhe, pertencia. Funcionários públicos, domésticas, agri-
cultores, seringueiros, autônomos, biscateiros, eram ho-
mens e mulheres que saíram de suas localidades em busca
de melhores condições de vida, um lugar seu, casa própria,
almejantes de estudos para os filhos.
Mesmo na atualidade, ao comparar o local de che-
gada e o de saída numa interação da memória e cons-
trução das idéias, esses homens e mulheres consideram a
vida no local em que vivem, e conseqüentemente, no
Terceiro Eixo, melhor do que a que levavam no local onde
viviam antes, lá havia muito trabalho e pouca “chance de
melhoria”, havia “sofrimento e labuta diária”. A maioria
absoluta almejava uma vida melhor e uma casa para morar,
sonhos simples, com perspectivas plausíveis a todos os
seres humanos, mas que estes não tinham. Mesmo um
lugar sem infra-estrutura era melhor que morar de aluguel
ou ficar “amontoado” na casa de parentes na mesma ou em
outra periferia. Tanto que se criou uma situação de vínculo,
não apenas de sangue, mas sócio-cultural. Os parentes
acabaram por viver e convier nas proximidades, assim
também as populações migrantes que outrora moravam em
localidades próximas umas das outras, também, ao chegar
ao local buscaram aproximar-se para maior contato, talvez
uma forma de resistir às adversidades e encontrar forças no
que é conhecido para atuar no novo, vivenciá-lo e
modificá-lo.
Contudo, a convivência não foi fácil, se por um lado
consideravam e sentiam que a vida no interior e em outras
áreas urbanas era regular ou ruim para o que almejavam
enquanto melhorias, também no local de chegada havia
conflitos, brigas entre posseiros, às vezes vários donos no
mesmo pedaço de terra, a presença de grileiros, estes
132 Reginâmio Bonifácio de Lima

atuando principalmente na formação dos bairros João


Eduardo I, João Eduardo II e Bahia Nova.
Quando indagados sobre a existência de alguma
relação entre a saída forçada dos habitantes dos seringais e
a ocupação do bairro39 em que vivem, a maioria dos entre-
vistados disse que sim, com destaque para os habitantes do
bairro da Glória que disseram ser a maior parte dos
ocupantes provenientes diretamente de outros municípios e
da zona rural de Rio Branco.
Seu Isaías é um dos primeiros moradores da
Bahia, chegou ao local, próximo às “mangueiras”, no ano
de 1958. Ao falar do período de sua chegada ele faz uma
descrição do local, relembrando fatos e almejando a
concretude de alguns sonhos como a relação que faz de si
com sua mangueira, onde a tem por medida de longe-
vidade e testemunha de fatos narrados, discorrendo em
seguida sobre as áreas adjacentes à que mora:

De Feijó eu vim direto pra cá, pra Rio Branco, morei na


Estação [Experimental] depois vim pra cá pra Bahia em
1958. Já tinha oito morador que morava em suas fazenda
aqui perto. Isso aqui era um capinzal, o lugar aqui era só
capoeira, né?! Eu vim pra cá porque não tinha onde
morar, antes eu morava de aluguel, aí ganhei esse
terreno, e até hoje estou aqui, intendeu?! Olha essa
árvore aí, quando eu cheguei ela era dessa grossura [faz
referência a uma mangueira afirmando que era fina,
cerca de 20 cm de raio], já tá com esses anos tudinho, tem
mais de 50 anos, isso aí é uma testemunha, que eu vivo
conservando ela, olha [a referida mangueira encontra-se
com cerca de 80 cm de raio, quase da altura de um poste
de rede elétrica do local]. Ela vai completar um século e
eu tô [estarei] aqui ainda.

39
Entenda-se bairro como um dos 08 constituintes do Terceiro
Eixo; as entrevistas levaram em consideração o local, para, só
então, traçar-se o perfil do setor, respeitando a proporcio-
nalidade de habitantes e as peculiaridades de cada local.
Sobre Terras e Gente... 133

(...) Aqui houve uma época que tinha plantação de


seringueira, ali, ali pertinho da escola Tancredo Neves,
era como é que se chama?! Da Sudevi [SUDHEVEA]. O
viveiro era bem ali atrás onde hoje é a marcenaria [Rua
Santa Rita], era ali que plantava, um viveiro grande,
perto da escola [Tancredo Neves] tinha muita árvore
plantada, tinha seringueira também, tinha gado ali,
depois teve o Curral do Ribeiro, tudo era campo.
(...)
Aquele terreno da Sobral, o pessoal foram entrando
divagazim, o Turiba tinha uma parte e invadiram, como
era o nome do homem, meu Deus?! Tinha um velho que
era dono daquelas terras ali todinha, até aquela caixa
d’água. Aí o pessoal foram invadindo, foram invadindo e
foram invadindo, não tinha aquela escola lá, só tinha a
casa do governo, ali uma construção que criava porco,
gado, galinha. Aquela fazenda Sobral era do governo,
saia um, entrava outro, era grande a área, tinha um
açude (Entrevista realizada com o Sr. Isaías, dia
27/07/2005).

Quando se traça um perfil entre trabalho, serviço


ou ocupação remunerada antes de vir para o bairro, pri-
meira atuação nesse sentido após a chegada, e situação
atual de fonte de renda, tem-se o seguinte quadro: a
agricultura e coleta do látex responsáveis por metade da
ocupação, quando das vivências em outras localidades,
perdem espaço para os trabalhos, serviços e ocupações
“urbanos”, com o trabalho no setor público e na iniciativa
privada chegando a quase metade dos entrevistados,
embora a maior parte tenha acesso ao trabalho informal
como biscateiro, autônomo e/ou doméstica. Após 23 anos
de formação continuada do Terceiro Eixo, um terço dos
trabalhadores já se aposentaram, embora segundo eles
“faço algumas coisas pra passar o tempo” e na maior parte
dos casos, complementar a renda; o número de autôno-
mos/biscateiros diminuiu, embora tenha aumentado o
número dos que engressaram no serviço público.
134 Reginâmio Bonifácio de Lima

Um outro fato interessante, que não pode passar


despercebido é o fato de 40,25% dos entrevistados estar em
idade de se aposentar, tendo apenas 31,19% conseguido tal
feito até o presente momento. Aqui se está desconsi-
derando o tempo de serviço, se esse fosse considerado o
número de pessoas aptas à aposentadoria por ter traba-
lhado mais de 35 anos seria bem maior que os 40,25%;
outro fato é que o INSS não computa como somatória
válida para aposentadoria os anos de serviço rural e
urbano; também, muitos dos entrevistados atuaram por
anos na informalidade, ou não tinham seu tempo de serviço
reconhecido, já que, algumas empresas recolhiam o valor
relativo à Seguridade Social (INPS), mas não o repassavam
ao Tesouro Nacional, ficando com os dividendos para si,
enquanto os trabalhadores ou por perda da Carteira de
Trabalho, ou por não mais existência das “Firmas” perde-
ram anos de Seguridade Social; quanto ao Estado não foi
diferente, os “recibados” ou “contratados para prestar ser-
viço provisório” não tiveram incluídos em seus anos de
trabalho a quantificação proporcional da Seguridade So-
cial.
Sobre Terras e Gente... 135

Trabalho, Serviço, Ocupação remunerada

Trabalho, Serviço ou Antes de ir Logo após Situação


Ocupação para o ir atual
bairro para o 2005.
bairro
Seringueiro 19,79% ___ ___
Agricultor 30,20% ___ ___
Funcionário Público 18,75% 26,45% 32,11%
Doméstica 28,12% 23,93% *
Desempregado 3,14% ** 6,45%
Autônomo/Biscateiro * 28,20% 23,85%
Braçal * 4,36% 2,74%
Iniciativa Privada ___ 17,09% 3,66%
Aposentado ___ * 31,19%

* Embora no período em Rio Branco se apresentassem várias


pessoas nessa situação, nenhum dos entrevistados respondeu
positivamente a essa indagação.
** Buscava-se saber a primeira ocupação remunerada, nem que
para isso demorasse anos; não se teve o intuito de tipificar o
desemprego; para tal vide subcapítulo intitulado Salgado Filho.

Esses homens e mulheres sabem que há algo de


errado, mas não sabem o quê, nem a quem recorrer. Mais
da metade não concluiu o primário, que hoje corresponde
aos primeiro e segundo ciclos do Ensino Fundamental; um
quinto dos reassentados no período de formação nunca
estudou. Os que acreditam poder melhorar a situação de
vida engajam-se em associações de bairro e serviços nas
igrejas.
É certo que a situação atual dos moradores melho-
rou muito em relação ao período de formação. Naquela
época quase não existia liderança de bairro organizada, as
lideranças da Glória, Bahia, Palheiral e João Eduardo
agiram junto ao poder público por fins da década de 1970 e
início da década de 1980, ainda assim pouco se fez para
ajudá-los no início.
136 Reginâmio Bonifácio de Lima

Há uma transformação do espaço fronteiriço em


território-lugar, construído a partir das vivências e relações
sócio-culturais existentes e estabelecidas. Fica muito claro
isso quando se pergunta se o entrevistado teria continuado
no lugar onde morava antes de vir para o local. Dois terços
disse que não, que prefere o bairro onde está, e um terço
sente saudades de onde veio, das relações produzidas e
afirma que se a situação de vida lá fosse melhor teria
continuado no local de onde veio.
Há um apego ao lugar por parte dos moradores que
estão no bairro e se socializam nele, tanto que os filhos dos
entrevistados moram, a maioria absoluta, em um dos
bairros próximos à casa destes. Essa relação não é apenas
com a família, mas também reflete o ambiente próximo,
dado que quando se inquire sobre como era a relação com
os vizinhos durante a formação, 98,96% afirma que era
ótima ou boa.
Não havia muitas formas de diversão nos locais que
formam o Terceiro Eixo, aliás, não havia água, luz, esgoto –
pouca coisa havia. Mas ao perguntar o que faziam para se
divertir, algo diferente de trabalho, que servisse para lazer
e descontração, um terço afirmou ir para festas e comemo-
rações com vizinhos, enquanto outro terço afirmou não
fazer nada para obter divertimento.
Esses moradores encontraram um local com poucas
modificações antrópicas, e a partir de então, causaram mo-
dificações mais abrangentes e incisivas. Quando indagados
acerca de como gostariam de ter encontrado o bairro, a
maioria absoluta afirmou que gostaria de ter água, luz,
calçamento e esgoto, coisas essenciais para o suprimento
das necessidades sociais básicas.
Ao se inquirir sobre a atuação desses moradores na
tentativa de melhorar o local em que residem, a maioria
afirmou ter feito pouca coisa em âmbito coletivo, embora
cada um tente melhorar o espaço restrito de sua residência.
A percepção que se tem é que não há saudosismo ou
Sobre Terras e Gente... 137

nostalgia da época de formação, a não ser saudade pelas


pessoas queridas que se foram e pela tranqüilidade que
pairava no local.
São homens e mulheres que durante o período de
formação eram quase todos Católicos, atualmente apenas
56,25% se considera Católico, congregando nas igrejas e
congregações, em média, duas vezes ao mês; os Evangé-
licos totalizam 38,19%, com média de freqüência de oito
vezes ao mês.
Quase todos os entrevistados já saíram da “situação
de trânsito” e assumem o bairro em que vivem como seu
lugar, com uma relação direta entre o que ocorre no local e
sua vivência.
Ao ser indagados sobre por que não se mudaram de
bairro quando tiveram a chance, os homens e mulheres
afirmaram gostar do lugar: 11,97% disse ter se acostumado
com o local; e 64,78% disse querer permanecer nele até o
fim da vida. Como afirma dona Nena, moradora do Palhei-
ral:

Quando eu saí da Cadeia Velha eu disse pro Adoufo, meu


filho, eu vou pra lá, mas só saio de lá pro São João
Batista. Eu gosto daqui, já me acostumei. Fiquei viúva,
meus filho já casaram tudo e eu fui ficando, fui ficando, aí
eu nunca quis sair daqui, quando o pai dos meus filhos
faliceu, eu ainda tinha José comigo [um dos três filhos
que já morreram], eu sei que foi, foi, foi, lá morreu um
outro filho; ele [José] se formou [2º grau], já tava exer-
cendo profissão quando morreu. Aí eu fui ficando só, fui
ficando só, e fui ficando, fui ficando... aí quando ele fale-
ceu eu fui criando um neto, e foi preciso entregar ele pra
mãe dele, porque ele já tava com outro primo praticando
coisa ruim. Aí eu fiquei, aí parti pra ficar sozinha mesmo,
aí o Raimundo disse: “mãe vamos vender essa casa”. Não
é porque meu filho faleceu que eu vou vender. Aí eu
disse: “eu não vou sair, eu fico aqui”. Aí eu fiquei.
(Entrevista realizada com a dona Nena, dia 17/07/2005).
138 Reginâmio Bonifácio de Lima

Então se percebe que não é apenas a vizinhança, a


localidade, não são os bairros, tampouco os 2.795,21m² que
cobrem todo o setor. São as vivências, as práticas cotidia-
nas, as relações e interações entre esses homens e mulhe-
res não mais migrantes, mas ligados ao local, concebido,
constituído, construído e reconstruído, que permeiam as
relações estabelecidas de amor e desamor, querer e rene-
gar, estar e sair, inerentes aos seres humanos; e, nesse
caso, as andanças populacionais diminuíram considera-
velmente para dar lugar a um “fixar raízes” e viver num
espaço que se fez lugar, transformando-se o transformador
humano e a própria ambiência no que se pode chamar de
“melhores condições de vida”, “sonho de ter um lugar
propriamente seu” ou simplesmente “casa”.
Paul Thompson disse que "A construção e a nar-
ração da memória do passado, tanto coletiva quanto indi-
vidual, constitui um processo social ativo que exige ao
mesmo tempo engenho e arte, aprendizado com os outros e
vigor imaginativo", e isso fica muito claro na fala do Senhor
Zacarias, quando fala sobre como era a vida há décadas
atrás, há um ar de veracidade mesclada com sonhos,
sonhos que podem ser reais ou imaginários, mas que de
fato ocorreram, ainda que na memória dele. O senhor
Zacarias, chegou ao Aeroporto Velho no início da década
de 1970. Em sua fala estão presentes, não apenas o traba-
lho e o local onde mora, mas as “lembranças” das vivên-
cias:

Eu morava no seringal do Rio Novo, aí vim pro bairro


Bela Vista, aí me casei, fui trabalhar com meu sogro
numa colônia, depois de muito me mudar, aí meu
cunhado comprou esse terreno aqui de um vizinho que
morava aqui do lado, aí eu peguei e fiz essa casa. Aqui
não tinha rua, era caminho, só tinha uma estrada, que
carregava o carro com petróleo, óleo diesel, era um
atormento no inverno, era um atoleiro mais doido do
mundo. Do IMPA pra cá tinha dia do carro amanhecer
Sobre Terras e Gente... 139

adornado. Era tudo atijolado até o campo de aviação. Era


tudo na base do tijolo desde a Getúlio Vargas. A pista
começava na SEMSUR e ia até a beira do rio.
(...) aqui, quando eu cheguei, era uma vida tranqüila,
calma, aqui você podia anoitecer, dormir com as porta
aberta, que ninguém mexia em nada. Só existia uns 18
moradores nessa rua do Terminal e Rio Grande do Sul.
(...) quando eu trabalhava na Santa Clara, agente traba-
lhava até dez horas da noite, pra fazer hora extra, e daqui
tinha só eu; dez horas da noite eu saia de lá, e vinha ali
pela Rio Grande do Sul, que a rua era só aquela mesma,
eu vinha até aqui, e não via um rosto. A mulher ficava
sozinha com os meninos, os meninos brincavam até a
meia-noite, da Bahia até a Beira do rio, quando alagava a
gente ficava na praia, na lua, ia virar cangapé, nessa
areia, tomar banho no rio de madrugada, ninguém tinha
medo de nada. (Entrevista realizada com o Sr. Zacarias,
dia 26/07/2005).

Sujeito-identidade-lugar

Ao correlacionar as pessoas no/ao local de súbito se


é tentado a percorrer o viés reconstrutor das memórias e
relações que se perderam: e o problema está exatamente aí.
Procurar o que se perdeu em nada é melhor que a falta de
busca, porque mesmo que se pense encontrar e encontre o
perdido – o que é um sonho utópico, em grande medida –
ele já não se insere no novo contexto. Esse achado não se
encaixa nas conjunturas que se vão tecendo em meio à
dinâmica do processo atual; e nem o será no futuro porque
quando o futuro deixa de sê-lo, para tornar-se presente,
também este muda, se modifica e é modificado, não apenas
no tempo cronológico, mas também na memória, nas
lembranças e nas leituras dessas lembranças.
O foco não deve ser o de buscar o que se perdeu,
mas procurar o que pode renascer nesse novo presente. Às
vezes, o que parece mais fácil aos olhos é o “objetificar” as
140 Reginâmio Bonifácio de Lima

pessoas, torná-los congelados e fazer-se um jogo de cena


com um antes e um depois: dois momentos contrapostos
que mais parecem ao espectador meros objetos de curio-
sidade.
Na certeza de que a solidez das relações se dá
apenas enquanto ato, e, que, a abstração, quando muito,
chega à potência, pensa-se aqui numa abordagem em que
estão presentes as influências externas, os antagonismos,
culturas, memórias e identidades – sem querer especificar
ou negar nenhuma destas. Nesse ponto é necessário expli-
citar o sentido de identidade muito próximo ao de Loureiro,
pautada na consciência de si próprio, do outro e do valor de
ambos, num auto-reconhecimento inerente à auto-estima
dos reassentados. Tendo como disseminador da “cultura
cabocla” a própria situação de convívio análoga às relações
sociais e a marginalização a que esses reassentados foram
relegados. Nas palavras de Loureiro:

Os caboclos da Amazônia, mesmo nas cidades, mantém


na medida do possível, sua cultura. Esta, de um lado é
marginalizada ou ignorada pelos poderes públicos, toma-
da sob a condição de uma subcultura; de outro lado, a
interdição de participação nos âmbitos da cultura de ori-
gem européia e americana – considerada superior – pro-
porcionou a expansão da cultura cabocla entre os
segmentos mais pobres da população das cidades (1995,
p. 31).

Essas gentes que habitaram e habitam as terras do


Terceiro Eixo, como muitos outros homens viveram e vivem
suas vidas interdependendo dos outros. Eles saíram de
seus locais e vieram para o bairro, e esses em conjunto com
outros formam um local, setorizado em um eixo, numa
cidade, num estado, numa nação. É bem provável que não
tivessem idéia da dimensão da amplitude dos atos que
praticavam, ou pode ser que tivessem, porque na constru-
ção da memória o que se inscreve não é apenas o presente,
Sobre Terras e Gente... 141

mas também o representado. Essas imagens e vivências


que parecem turvas pelo tempo, calcificadas pela lem-
brança às vezes emerge dos “entulhos” da memória como
um resgate do que se viveu ou pensa que se viveu, ou foi
vivido, mas não exatamente daquela forma que se
explicita; embora essa forma explicitada no momento em
que se apresenta a memória parece mais prazerosa do que
realmente é, e por isso se quer ficar com ela. Então se
lembra da lembrança construída como um sabor adocicado,
mais gostoso que a vivência que se teve; e muitas vezes, se
tem noção do “real” e assume, veementemente, que a outra
lembrança “do mesmo fato” melhor satisfaz os anseios.
Quanto a isso Paul Thompson escreveu, “aquilo que as
pessoas imaginam que aconteceu, e também o que acredi-
tam que poderia ter acontecido – sua imaginação de um
passado alternativo e, pois, de um presente alternativo –,
pode ser tão fundamental quanto aquilo que de fato
aconteceu."
Daí um alerta a todos que se propõem a estudar
pessoas vivas em um local em construção. O dialogismo é
fato presente e as analogias estão presentemente atuantes
nos discursos e enunciações, ora por ligamentos, ora por
rupturas, ora por descontinuidades intemporais, mas terri-
torialmente tempolábil40. Ao esvaziar o território de seus
habitantes, também se o esvazia dos significantes, logo ele
é espaço – geodésico – quando muito cartográfico, por
rabiscos numa estrutura. De mesma forma, ao esvaziar os
homens de seu território cria-se um vácuo, não um vazio,
mas uma “falta que não pode ser preenchida”, porque, ao
se tirar o fator tempo-espaço de uma situação ela não se
sustenta em si mesma, podendo-se mais facilmente cair no
viés do simplismo, o que retira a concretude e lucidez dos
fatores envolvidos, só restando a vulgarização.

40
Que se altera com o tempo.
142 Reginâmio Bonifácio de Lima

Então se tem um aprofundamento na questão. Até


que ponto o lugar é territorializante ou desenraizante? Ele
é territorializante quando deixa de ser espaço ermo ou
fronteiriço para ser território local, onde se estabelecem as
fronteiras analógicas e dialógicas – no sentido baktiniano –
do convívio social; e desenraizante quando vetoriza a
banalização do cabedal estimativo intelectual, moral,
valorativo do migrante “em trânsito”, que necessita em
grande medida desvenciliar-se do que lhe é conhecido em
convívio, para constituir um estranhamento com a nova
realidade, num constante embate entre o tempo da ação e o
tempo da memória.

Eu morava no Seringal Baixa Verde, meu pai separou da


minha mãe, nós mudamos várias vezes, aí de tanto mudar
viemos pra Rio Branco, porque não era fácil a vida no
seringal, queria ter casado, construído família, estudado,
mas tinha que tomar de conta de meus irmãos, aí eu vim
pra cidade. Vim pra estudar, melhorar de vida.
Logo que eu cheguei aqui [no João Eduardo II] era
sacrificoso, porque não tinha rua, era só o matagal
mesmo, tinha que fazer varadozinho para sair pra cidade,
mas ao mesmo tempo era uma vida saudável, porque era
tranqüila, não tinha marginalização, a gente podia viver
tranqüilo e calmo, sabe? Nas casas eu, por exemplo,
quando cheguei aqui, a minha casinha logo que eu fiz, a
primeira era pequenininha, aí eu fui aumentar e fiz, mas
não tava nem fechada, só coberta e assoalhada, e eu só
com a minha filha de um ano, tranqüilo, a gente
amanhecia e anoitecia sem um pingo de medo, porque
não tinha essa violência que tem hoje, né? Antigamente
era muito bom, não tinha essa violência não, era um
bairro tranqüilo, calmo, só não tinha a estrutura de nada.
Logo quando eu cheguei era só mato mesmo, tinha que
bater terçado, tinha que bater machado pra cortar os
paus, e eu fiz tudo isso.
As ruas eram varador, a [rua] Campo Grande foi tendo
umas casinha pra vender alguma coisa né?! Casinha de
Sobre Terras e Gente... 143

comércio, mas era uma lama, cada buraco, só dava pra


andar a pé ou carregar as coisas na carroça de boi. A
lama no joelho, aqueles buracão, porque as rodas dos
carros iam passando ali e ia fazendo aquelas valas lisas,
escorregava, uma vez eu levei uma queda com minha
filha no braço, mais ou menos a essa hora [17 horas], eu
vinha ali pela frente, era uma vala doida, aí tinha um
caco de garrafa, quando eu cheguei em casa o sangoeiro
vinha descendo, minha nossa senhora, era horrível, mas
era bom, eu gostava, e gosto daqui, moro aqui, e gosto
daqui, mesmo assim eu gosto daqui, mesmo com toda a
violência. Aqui é o nosso local, eu ainda acho calmo, aqui
todo mundo se conhece, todo mundo se respeita, né?!
(Entrevista realizada com a Senhora Ivete, dia
26/03/2005).

A identidade desses amazônidas que estão em um


outro lugar que não o de nascimento/crescimento é vista
aqui, como Gilbert Durand, citado por Loureiro, afirmou e
que bem cabe nesta obra: “partimos de uma concepção
simbólica da imaginação, de uma concepção que postula o
semantismo das imagens, o fato de elas não serem signos,
mas sim conterem materialidade, de algum modo o seu
sentido”. O imaginário está no plano da consciência e
embasa a reprodução da vida na perspectiva do lugar pela
tríade habitante-identidade-habitat, ou sujeito-identidade-
lugar. Em ambas as formulações da mesma tríade perma-
nece a identidade que pode ser formulada como “auto-
conhecimento, auto-estima, consciência do próprio valor,
conjugados à consciência da própria inserção no conjunto
da sociedade nacional e, mais amplamente, na sociedade
dos homens” (Loureiro, 1995, p. 33).
Ainda sobre identidade Stuart Hall afirma:

(...) a identidade está profundamente envolvida no pro-


cesso de representação. Assim, a moldagem e remolda-
gem de relações espaço-tempo no interior de diferentes
sistemas de representação têm efeitos profundos sobre a
144 Reginâmio Bonifácio de Lima

forma como as identidades são localizadas e represen-


tadas. (...) Todas as identidades estão localizadas no
espaço e no tempo. (...) O “lugar” é específico, concreto,
conhecido, familiar, delimitado: o ponto de práticas
sociais específicas que nos moldaram e nos formaram e
com as quais nossas identidades estão estreitamente
ligadas (2004, p. 71 e 72).

Nessa relação de conteúdo e forma se expressa a


compilação de recortes como um filatelista que em sua
vasta coleção sempre lega destaque a uns poucos selos que
lhe dão mais prazer, embora nem sempre satisfatório.
A memória dessas gentes simples da periferia está
cheia de lembranças, eles venceram o desenraizamento e
prosseguiram a vida. No ato de evocar as lembranças,
histórias de vida são resgatadas, trazendo em seu bojo o
que de mais significativo permaneceu. Este processo envol-
ve laços afetivos, alegrias, tristezas, conquistas, perdas e,
sobretudo, vivências. Há uma inerência na relação memó-
ria-espaço. Afinal, a mudança espacial implica em desdo-
bramentos nas vidas das pessoas, alterando seu cotidiano,
mexendo em seus “quadros da memória” e reelaborando
uma dinâmica individual e coletiva. Em muitas situações
de deslocamentos podem ser vistas a aderência do grupo
ao seu lugar e a manifestação de resistência.

Perspectivas das localidades

Alguns dos entrevistados discorreram de forma geral


como era a região em volta do bairro onde moravam, e
outros, especificaram como era o bairro em si. Aqui estão
expostas algumas das vivências e lembranças expressas
através das entrevistas, começando por dona Nena e como
ela via o Palheiral no início da década de 1970:
Sobre Terras e Gente... 145

Antes de vim pra cá eu tava na Cadeia Velha, eu morava


na colonha, da colonha eu adoeci, aí esse meu filho
Adoufo trouxe eu pra rua, aí de lá eles pelejaram, até que
compraram esse canto aqui. Era uma casinha pequena, aí
eles venderam a égua, venderam um garrote, aí compra-
ram isso aqui, né. Aí eu vim morar aqui.
(...) Em 1970 as pessoas morava bem ali onde é o Bola
Preta.
(...) vixe, era uma coisa horrível, era umas casinhas que
tinha pracolá, tinha umas quatro casinha pracolá, feita de
tiarana. Aí eram uns toquinho assim, aí botava umas
palhinhas, fazia as pareides, era de papelão, e assim era.
O senhor me perdoi, mais eu não podia nem colocar a
cabeça na janela véia que tinha: com tanta briga, era
briga, era o pessoal com terçado, com pau, vixe. Aí eu
tinha duas menina, uma de criação e outra minha,
quando eu cheguei aqui, logo o pai delas foi atrás de um
trabalho pra elas lá no centro; aí arrumou pra Maria
Raimunda, aí arrumou pra outra, numa casa que era pra
impregada doméstica, aí ela saiu bem cedim, já levava
material de aula tudo. Aí trabalhava pur lá, aí de meio dia
pra tarde elas ia estudá, quando dava seis hora, elas
chegavam aqui. E a vida cansada era essa.
Aí pra saí, era uma lama, uma lama, uma lama, cada um
buraco de lama horrível. Minha casinha era simples de
04 por 06 [24 m²], nóis morava aqui né, e aqui na frente
era só mato, aqui pra trás só mato, tudo era mato, esse
João Eduardo, esse mei de mundo, tudo era mato.
As casinha eram feita com palha, com papelão, as parede
era assim, aí depois foram fazendo as casas. A nossa era
de madeira por fora, tinha a nossa, e a outra, passando
essa, na outra, aqui era do Raimundo. Quando nóis
cheguemo, televisão não existia, tinha a nossa, a nossa
que nóis já trussemo de lá da Cadeia Velha, quando dava
uma hora dessa [17:30 horas] tava pra derrubar minha
casa, era gente, era gente, nem eu assistia televisão. Aí
eu disse: Adoufo, eu não agüento, tira a televisão aí de
fora, que vão derrubar essa casa, a casa era só uma sa-
linha, isso aqui e isso aqui [a sala]; aí o quarto era outra
salinha, né?! E a cozinha, uma cozinha pequenininha
146 Reginâmio Bonifácio de Lima

que eles fizeram, era tudo apertadinho, aí foi indo, foi


indo, foi indo, e você sabe, a gente que tem os filho, os
filhos vão, né; Era o Adoufo, era o José, era Raimundo,
era Maria, era Auxiliadora, João Batista e eu.
Essa igreja [católica do Palheiral] quando eu cheguei
aqui não tinha, aí tinha a Rosa, uma que morava na
Estação, que ela vinha fazer reunião, ali na rua “A”, aí,
de lá ela arresolveu vim pra cá aí ela foi, o dono ali deu
esse terreno, e aí ela foi construir, era quatro toco, e os
banquinho assim, parecia banco de casinha de menino,
cubertim de alumínio. E aí, depois, vamos trabalhar pra
construir essa igreja, aí nóis fumo trabalhar pra construir
a igreja e fazer arraial, o mês todim, todo mundo traba-
lhava, era churrasco, era café, era nescau, era macaxeira,
ajuntamo o dinheiro e construímos a igrejinha (Entre-
vista realizada com a dona Nena, dia 28/07/2005).

Já o senhor Manuel, trata dos locais a partir de suas


terras, uma vez que possuía quatorze hectares de terra,
onde hoje é o sul do Aeroporto Velho. Ele chegou ao local
bem antes do fluxo de migração para o Terceiro Eixo se
intensificar, ou seja, antes de 1971. Em sua fala destaca sua
ida para o local, suas terras e a ocupação delas, e, a relação
de poder na Ditadura Militar:

Eu trabalhava na Guarda Territorial Federal, ali no


Aeroporto. Quando eu cheguei o aeroporto já existia. Eu
vim na época da revolução [Segunda Guerra Mundial],
eu morava no estado do Ceará, aí teve uma migração
para o Amazonas, e eu tinha vontade de vim porque
naquela época ou ia prum canto ou ia pro outro, aí todo
mundo era chamado, aí eu resolvi vou para o Amazonas.
Veio meu pai, minha mãe, meu irmão, veio também
depois o outro irmão, o outro morreu em Fortaleza. Eles
vieram aqui, e aqui se espalharam uns foram para o
seringal, outros para o Amazonas.
Cheguei aqui no dia 06 de janeiro de 1945, vim e fui
trabalhar no Instituto Agronômico do Norte – APRENDI-
ZADO, eles ensinavam tudo ali, tinha hora pra moer
Sobre Terras e Gente... 147

cana, pra fazer horta, também tinha tudo. O instituto era


pra plantio de seringa, nas mesmas terras do instituto,
nas terras da Bahia, tudo aqui ao lado [do Aeroporto
Velho] era do instituto, e ali naquele lado ali, perto
daquele grupo lá [Escola Tancredo Neves] ali pra lá tudo
era do instituto, foi plantado 55 mil pé de seringa, aí
depois foi extinto, aí eu fui pra Belém, transferido pra lá,
aí passei lá três meses, aí pedi demissão do serviço, já
tava com cinco anos que eu trabalhava, aí voltei pra cá,
cheguei aqui, entrei na Polícia, na qual me aposentei, ela
era federal, naquele tempo tudo era federal, o Território.
Eu me aposentei da União, trabalhei mais de 30 anos. Ali
pertinho da Escola Tancredo Neves, prali tinha uma terra
onde plantava eucalipto, era experimental também, era
uma colônia (Entrevista realizada com o Senhor Manuel,
dia 03/04/2005).

Segundo o Senhor Manuel, o Governo incentivou a


ocupação de suas terras e fez um acordo com ele. Porém, o
governo não cumpriu a parte que lhe cabia e as terras de
seu Manuel nunca foram indenizadas:

As pessoas começaram a chegar aqui nas minhas terras


[parte sul do Aeroporto Velho] por volta de 1977 mais ou
menos. Agora é cheio de gente. Vem gente aqui pra mim
assinar recibo, e digo, mas eu não te vendi nada. Dizem,
mas as terras não eram do senhor?! E eu digo, eu era
posseiro, dono não. Porque não me deram uma escritura,
nada, mas fiquei aqui pagando mais eu não vou assinar,
porque eu não te vendi nada, né?! Eu fiz negócio com o
governo, o problema foi dele, não foi com você. Não
tenho nada contra o povo, né?! Ele foi que distribuiu
terras pra fazer política.
Bom, eu queria falar sobre o motivo dessa terra aqui, era
uma pastagem até uns 20 anos atrás. O regime militar
colocou todo mundo “no bolso”, se você tinha uma
propriedade eles a invadiam e faziam o que queriam, né?
Então, eu vim pra cá na época e ganhei essas terras do
Departamento de Produção, e tenho um documento do
148 Reginâmio Bonifácio de Lima

INCRA que regulariza essas terras, são 14,8 hectares


cadastrados. Aí eu tive um aumento de terras e eu
cadastrei, já tinha mais terras, mas eles nunca me deram
o documento de cadastro, quem fez isso foi o Departa-
mento de Produção, aí depois que veio o INCRA, eu tive
de pagar pela terra. Aqui era minha colônia, onde criava
meu gado e plantava. Isso porque já tinham desativado o
Instituto Aprendizado (Entrevista realizada com o Senhor
Manuel, dia 03/04/2005).

Memória e História

Os vários migrantes reassentados no Terceiro Eixo


modificaram o espaço político-geográfico ao expandir a
fronteira limítrofe urbana, ao mesmo tempo em que
procuraram naquele local interagir com seus conhecidos,
com as pessoas a seu redor e com o território, havendo ou
não grau de parentesco, assim, modificaram também as
relações no espaço social, o que diretamente refletiu na
constituição de aspirações e mecanismos que expressassem
um conjunto de atividades sociais na cidade, ou seja, a
apropriação do espaço terrestre se processou como trans-
formação do espaço-lugar e dos próprios indivíduos, numa
interação contínua e dinâmica.
As andanças populacionais não cessaram com a
chegada ao Terceiro Eixo, muitas famílias retiraram-se
para outros locais. Entretanto, nunca houve um levanta-
mento “oficial” sobre isso. A própria andança intra Terceiro
Eixo é muito grande com cerca de um terço dos entrevis-
tados mudando-se de um bairro para outro no mesmo setor.
Ocupação e violência são elementos constitutivos do
processo de urbanização da cidade de Rio Branco. Na
medida em que vai ocorrendo o processo de ocupação
desse espaço, também ocorre a degradação do meio am-
biente, com a destruição da vegetação na limpeza do terre-
no para a construção “desordenada” de barracos, sem
Sobre Terras e Gente... 149

sistema de saneamentos básicos necessários a essa popu-


lação. A partir desse momento, o espaço sofre modificações
devido ao “alargamento” da fronteira que passa a contar
com a presença de pessoas que possuem costumes da zona
rural e que tentam adaptar-se a essa nova condição antró-
pica “urbana”.
As populações provenientes de distintas localidades
têm em comum o desenraizamento. As pessoas saíram de
seus locais e ficaram “em trânsito”, não reconhecendo seu
lugar de origem, nem conhecendo o de chegada. Por isso,
muitos resolveram morar perto de seus conterrâneos, daí a
grande quantidade de pessoas de mesma localidade, num
mesmo período ocupando determinado local. Mas não é só
isso, os parentes que se deslocaram depois, ao se dirigir ao
Terceiro Eixo procuraram ficar perto de seus conhecidos e
parentes. O que tinha em comum de forma ampla era a
busca de melhores condições de vida. O “reconhecer-se”
nos parentes e conterrâneos e a crença católica no mesmo
Deus.
As práticas produzidas trazem consigo expressões
simbólicas que perfiguravam o imaginário daqueles ho-
mens e mulheres que para vencer a alienação do desenrai-
zamento buscaram “estar juntos”, quebrando o isolamento.
Com isso foram sendo estendidas às raízes no novo solo
possível – o do espaço que se estava tornando território
local pela participação em atividades coletivas, sejam elas
de caráter religioso, associativo ou de comportamento.
A grande maioria das gentes que tiveram suas terras
expropriadas precisou aprender a viver em terrenos com
pouco mais de duzentos metros quadrados, trabalhar para
adquirir dinheiro e com ele comprar comida, uma vez que
já não se podia plantar para colher produtos para a
subsistência nessa pequena área. Assim como o homem
modifica o ambiente, este também o modifica na interação
mútua. Por isso, não se vêem grandes plantações nos lotes
do Terceiro Eixo, mas são comuns plantas, flores, árvores
150 Reginâmio Bonifácio de Lima

frutíferas e canteiros de hortaliças e leguminosas. Ao tempo


que o “ambiente rural” é “urbanizado” pelos reassentados,
o mesmo ambiente agora “urbano” – se é que se pode
chamar assim – é “ruralizado” pelas práticas, inserções e
modificações tipicamente dos ambientes rurais de onde os
migrantes são provenientes.
A codificação dos significados pelos sujeitos relem-
brantes não é livre em si, mas ancora a decodificação ao
conveniente, e o próprio pesquisador envolto na turbidez
do que está posto, por mais que se esforce, em sua
imperfeição, apenas sintetiza o que está posto, analisando,
conceituando, definindo, explicando, explicitando, enfim,
sem querer, congelando. Daí a necessidade de em muitos
dos casos deixar que o sujeito pesquisado fale por si
mesmo, porque mesmo uma fala retirada do seu habitat,
quando contextualizada, expressa, ainda que parcialmente,
o seu intento.
Todos os 161 entrevistados na pesquisa estão no que
se convencionou chamar “terceira idade”, sendo que dois
terços passam dos sessenta anos. Em todos eles percebeu-
se que esses idosos querem aprender coisas novas e an-
seiam por ensinar outras que já aprenderam, suas iden-
tidades estão vinculadas não apenas à memória cultural,
mas ao território local em que se vive e convive, a espe-
rança enraizou grande parte deles que relembram as festas
comunais e o trabalho laborioso que executavam com
braços outrora fortes e pernas já não tão firmes. A voz
cansada pelo tempo ainda faz surgir nos olhos as lágrimas
companheiras das lembranças de tempos nem sempre
ternos ou calmos, mas vividos com intensidade. Da
plataforma de suas cadeiras de balanço ou da sobriedade
de seus bancos “rústicos” de madeira de construção,
muitos sonham com um mundo onde não precisem ser
substituídos, mas possam interagir com o que é “novo e
belo”. Nas fotos amareladas pelo tempo, vêem-se corpos
reais, vivos, talvez nem tão vivos como agora, mas que
Sobre Terras e Gente... 151

despertam saudades; saudades de poderem ir à igreja sem


precisar “implorar” por companhia, de ter forças para
encher uma garrafa d’água. Saudades de serem respeitados
como seres humanos.
152 Reginâmio Bonifácio de Lima
Sobre Terras e Gente... 153

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Entidades:

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Biblioteca do Sesc
Biblioteca Pública Estadual
Câmara Municipal de Rio Branco
CDIH da UFAC
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