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Projeto

PERGUNTE
E
RESPONDEREMOS
ON-LINE

Apostolado Veritatis Spiendor


com autorizagáo de
Dom Estéváo Tavares Bettencourt, osb
(in memoríam)
APRESEIvfTAQÁO
DA EDI9ÁO ON-LINE
Diz Sao Pedro que devemos
estar preparados para dar a razáo da
nossa esperanca a todo aquele que no-la
pedir (1 Pedro 3,15).

Esta necessidade de darmos


conta da nossa esperanga e da nossa fé
hoje é mais premente do que outrora,
'.'■" visto que somos bombardeados por
numerosas correntes filosóficas e
religiosas contrarias á fé católica. Somos
assim incitados a procurar consolidar
nossa crenga católica mediante um
aprofundamento do nosso estudo.

Eis o que neste site Pergunte e


Responderemos propóe aos seus leitores:
aborda questóes da atualidade
controvertidas, elucidando-as do ponto de
_ vista cristáo a fim de que as dúvidas se
. dissipem e a vivencia católica se fortalega
" no Brasil e no mundo. Queira Deus
abengoar este trabal no assim como a
equipe de Veritatis Splendor que se
encarrega do respectivo site.

Rio de Janeiro, 30 de julho de 2003.

Pe. Esteváo Bettencourt, OSB

NOTA DO APOSTOLADO VERITATIS SPLENDOR

Celebramos convenio com d. Esteváo Bettencourt e


passamos a disponibilizar nesta área, o excelente e sempre atual
conteúdo da revista teológico - filosófica "Pergunte e
Responderemos", que conta com mais de 40 anos de publicagáo.
A d. Esteváo Bettencourt agradecemos a confiaga
depositada em nosso trabalho, bem como pela generosidade e
zelo pastoral assim demonstrados.
ANO VIII N? 92
ÍNDICE

L FILOSOFÍA £ BELIGIAO

1) "O ateísmo aparece como um sinal característico dos nos-


sos tempos. Haja vista, entre outros, o movimento 'Deus morreul'

O progresso da civüizacáo nao tende cada vez mais a apa


gar na mente dos komens a idéia de Deus f

Pódese fazer urna análise do ateísmo contemporáneo e dal


tirar algunas eondusóes prátieas ?" Sil

EL SAGRADA ESCRITURA

S) "Quantos profetas Isaías há? O livro dito 'de Isaías' tem


mais de um autor ? Como explicar a sua origem ?" SSS

m. DJREITO CANÓNICO

3) "N&o poderiam os biapos ser eleitos pelo povo crist&o,


em ves de ser nomeados diretamente pela Santa Sé?" Sil

IV. MORAL

i) "A obediencia tornou-se problema em nossos dias. Nao


repugna A dignidade da pessoa humana ?" 350

V. HISTORIA DO CRISTIANISMO

5; "Que significa a Rosa de Ouro que o S. Padre Paulo VI


oferecerá ao Brasü no dia 15 de agosto pf.?" 358

CORRESPONDENCIA MIÚDA 36U

COM APROVAQAO ECLESIÁSTICA


« PERGUNTE E RESPONDEREMOS»

Ano VIII — N« 92 — Agosto de 1967

I. FILOSOFÍA E RELIGIaO

BELMIRO (Rio de Janeiro):

1) «O ateísmo aparece como um sinal característico dos


nossos tempos. Haja vista, entre outros, o movimento T)eus
morren !*
O progresso da civilizacáo nao tende cada vez mais a apa
gar na mente dos homens a idéia de Deus ?
Pode-se fazer urna análise do ateísmo contemporáneo e
daí tirar algumas concliisoes práticas ?»

O ateísmo é, em poucas palavras, a atitude de quem nega


ou ignora a Deus. Tem-se díte que constituí o problema n* 1
da Igreja de nossos dias. Chegaremos a urna época de incredu-
lidade generalizada ?
O ateísmo apresenta-se, tanto ñas classes cultas como ñas
carnadas simples da sociedade, sob variadas formas, que dáo
a' tal fenómeno um caráter assaz complexo.
Assim o ateísmo repercute profundamente em diversos se-
tores da vida contemporánea, entre os quais o da Moral: desde
que se dissociem a Ética e a Religiáo, a Ética se torna vaci
lante; se nao se admite um Deus Autor das leis da moralidade,
estas passam a ser confeccionadas pelo próprio homem, de
acordó com o «bom senso» de cada individuo. Se o pecado
nao é urna ofensa a Deus, deixa de ser um mal sempre conde-
nável; pode mesmo haver ocasióes em que o homem classifique
o chamado «pecado» como um bem e, ao invés, a virtude
como um mal.

As conseqüéncias teóricas e práticas do ateísmo vém mais e mais


chamando a atencáo do mundo contemporáneo: ...
«O Criador está ausente das cidades, dos campos, das leis,... das
artes dos costumes. Está ausente da própria vida religiosa, no sentido
de que os que querem ser ainda os seus mais íntimos amigos, nao
sentem neeessidade de sua presenca» (Léon Bloy).
O Concilio do Vaticano II ocupou-se com o problema (cf.
Canst. «Sobre a Igreja no mundo moderno» P. I, c. 1, n» 20-21).

— 321 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 92/1967, qu. 1

A fim de orientar os Padres conciliares, o Secretariado da


Igreja destinado as relacSes com os incrédulos publicou urna
reflexáo sobre o ateísmo contemporáneo, da qual nos valére
mos ñas páginas que se seguem (cf. «La Documentation Ca-
tholique» LXHI, 19/VI/66, n' 1473, col. 1111-1130).

1. Sintonías e causas do ateísmo contemporáneo

Quem observa o fenómeno do ateísmo no decorrer da


historia e em nossos dias, pode verificar, entre os seus tragos
característicos, os seguintes :

1) Ateísmo, fenómeno pós-religioso

Os estudos recentes manifestam que o ateísmo (ao menos,


o ateísmo consciente) nao é um fenómeno primitivo da
humanidade, mas, sim, um fenómeno pós-religioso, ou seja,
um fenómeno que supóe a Kelígiáo e que se ergue contra ela,
á guisa de critica ou réplica.
Em outros termos : o ateísmo (a negagáo de Deus) nao
é urna manifestagáo espontánea da natureza humana; o homem
primitivo dá sinais de Religiáo; os ateus, quando aparecem,
constituem urna repulsa a conceitos religiosos grosseiros ou
erróneos professados pelos homens seus contemporáneos.
Em «P. R.» 39/1961, qu. 1; 54/1962, qu. 1, encontram-se
enunciados alguns fatos que atestam ser a Religiáo um fenó
meno espontáneo, arraigado no mais íntimo da natureza hu
mana. Foi mesmo a Religiáo quem incitou o homem a galgar
os grandes escalóes da civilizacáo; cf. «P. R.» 19/1959, qu. 1.

Aquí, a título de complemento, váo citados os testemunhos


de alguns antropólogos e historiadores:
«Alguns escritores, alegando exemplos de povos selvagens que se
diziam privados de idéias religiosas, pretenderam demonstrar a ialsi-
dade da proposicáo que afirma nao ter havido na historia urna época
sequer em que o homem nao tenha tido religiáo. NSo temos tntencao
de discutir éste ponto, porque sabem todos os antropólogos que é
controversia marta e sepultada. Autores que se ocuparam da questao
de diferentes pontos de vista, como Tyior, Max Mueller, A. de Quatre-
fages, Waitz, Gerland, Pesch, sao concordes em afirmar que nao há
tribo humana, por mais bárbara, privada da idéia religiosa» (Jevons,
«An Introduction to the History oí Religions>, pág. 7).
«A aítrmacao da existencia de povos ou trlbos sem religiao repousa
ou em observacOes inexatas ou numa confusao de idéias. Nunca se
encontrou tribo ou nacáo que nao acreditasse em seres superiores ;
os viajantes que aíirmaram o contrario, foram depols contraditados
pelos fatos» (Tiele, «Manuel de l'Histoire des Religions», pág. 12).

— 322 —
O ATEÍSMO CONTEMPORÁNEO

«Obrigado pelo meu magisterio a passar em revista todas as racas


humanas, procure! o ateísmo entre as mate degradadas e as mais ele
vadas. Nao o encontrei em lugar nenhum a nao ser no estado indi
vidual... O ateísmo só existe em estado errático. Tal o resultado de
urna investigiacáo que posso chamar conscienciosa e que comecei muito
antes de subir á cátedra de antropología» (A. de Quatrefages, «L'Es-
péce Humaine», 4* c. XXXV).

«Os povos sem Deus sao como os povos sem fogo e sem lingua-
gem; encontram-se em algum sistema... porque prestam servidos ;
mas na realidade estáo ainda por descobrir-se» (Chantepie de la
Saussaye, «Lehrbuch der Religionsgeschichte» pág. 13).

O ateísmo, quando surge, aparece como réplica á religio-


sidade decadente... É o que se verifica, por exemplo, no caso
de Sócrates (séc. V a. C), que foi tido como ateu pelo fato
de repelir as imagens grosseiras e ridiculas que seus concida-
dáos cultuavam. Tenha-se em vista também o que se dava
com os; primeiros cristáos: recusavam-se a oferecer incensó
aos ídolos; conseqüentemente, as multidóes bradavam á sua
presenca: «Morte aos ateus, morte aos sem-Deus !» (cf. a
Apología I de Sao Justino, filósofo cristáo martirizado em 165
aproximadamente).
Análogamente, pode-se dizer que o ateísmo contemporáneo
consiste em urna critica feita á vivencia religiosa dos homens
nos tempos modernos (cf. P. A. Liégé, «L'Athéisme, tentation
du monde, réveil des chrétiens ?» Paris 1963).
O ateísmo como total negac&o de Deus é fenómeno típicamente
ocidental (o que se explica pela Índole íortemente racionalista dos
homens ocidentais). No Oriente, principalmente na India, o ateísmo
nao é a negacáo de Deus como tal, mas a de tal ou tal conceito de
Deus (tenha-se em vista o testemunho do hindú Pannikar na obra
ácima citada, pág. 54).

Jacques Maritain, alias, fala de «pseudo-ateus», referindo-se a


numerosos pensadores ocidentais «que julgam nao crer em Deus,
mas que na verdade cróem inconscientemente nTSle, pois o Deus cuja
existencia éles negam, nao é Deus, mas algo de diverso» («La signiíi-
cation de l'athéisme contemporain», trad. ital., Brescia 1950, pág. 9).

E quais seriam os falsos conceitos de Deus que provocam


a crítica dos pensadores contemporáneos e, por conseguinte,
o seu ateísmo ?

Sao conceitos que pecam ora por excesso, ora por defici
encia :

a) a nogáo de um Deus demasiado humano ou de


um Deus concebido á semelhanga de um Homem Bonacháo, cul-
tuado de maneira sentimental ou infantil;

— 323 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 92/1967, qu. 1

um Deus concebido como o Grande Banqueiro, do qual obtém


favores e grasas aqueles que ]he procuram agradar e lhe pagam
juros. Tal é o Deus da relígiüo interesseira («Dou para que des») e,
mais ainda, da supersticáo e da magia; o homem se torna entáo um
cliente de Deus e vé na religiao um salvo-conduto para escapar de
desgracas e resolver seus problemas temporais ;

um Deus expresso com traeos humanos: anciáo de longas barbas,


bracos e máos poderosos...

b) a no£áo de um Deus demasiado desumano, ou seja,


de um Deus vingativo, tiránico, prestes a esmagar o homem.
É o que ocorre na «Religiáo do médo»; os que a praticam, sao
sufocados, e nao elevados, pela sua crenca; carregam a Religiáo
e seus preceitos como um jugo, um fardo esmagador, do qual,
porém, nao se ousam emancipar por receio de que algo de pior
íhes sobrevenha da parte de Deus.
Defrontando-se com táo imperfeitas nogóes de Deus, com-
preende-se que muitos pensadores proclamem: «Deus morreu !
Se é em tais termos que os homens religiosos concebem a Deus,
esvaneceu-se o conceito de Deus; Deus morreu na mente dos
que dizem professá-lo!»
Sob o titulo n' 2 déste artigo, consideraremos a resposta a dar
a tais posicoes.

Passemos a outra característica do ateísmo contemporáneo:

2) Ateísmo, fenómeno de «promocáo humana»

Em todos os tempos houve ateus por comodismo ou covar-


dia, isto é, pessoas que renegaram a Deus por levarem um
género de vida moral incompatível com as leis de Deus. É o
que do seu modo atesta Frangois Coppé, um ateu que voltou
a Deus:

«Muitos homens que estáo no meu caso, reconheceriam, se fóssem


sinceros, que o que os afastou inicialmente da Religiáo, foi a regra
severa que ela impSe'a todos no uso dos seus sentidos; sdmente mais
tarde é que foram buscar no raciocinio e na ciencia argumentos meta-
íisicos que tranqüilizassem a sua consciéncia. Comigo, ao menos, as
coisas se deram assim. A crise da adolescencia e a vergonha de con-
fessar certas coisas levaram-me a renunciar aos meus hábitos de
piedade» («La bonne souffranee», 1898, pág. 5s).

Em nossos dias, porém, numerosos ateus apoiam sua po-


sisáo sobre o desejo de promover o homem ou realizar um
auténtico humanismo, humanismo para o qual Deus e a Reli
giáo seriam entraves.

— 324 —
O ATEÍSMO CONTEMPORÁNEO

«O que é novo em nossos dias, é o aparecimento de urna parte


da humanidade — e ñáo alguns individuos apenas — que professa
o ateísmo, porque considera que o seu verdadeiro e único problema
é o problema da existencia do homem, da significacáo -do homem;
os interésses e os ideáis dessa humanidade consistem em dar ao
homem a sua auténtica promocao» (Liégé, ob. cit. 233s).

E como é concebido ésse humanismo do séc. XX ?

Toma varias formas, das quais eis as mais relevantes:

a) Humanismo racionalista. É a posigáo daqueles que


propugnam a plena autonomía da razáo ou o livre pensamento.
A Religiáo, apresentando-lhes o misterio de Deus, parece-lhes
derrogar aos direitos da razáo. É inadmissível, portante, a
idéia de Deus, para quem queira livremente usar da sua inte-
ligéhcia.

b) Humanismo científico-técnico. As conquistas do saber


e da técnica contemporáneos tornaram o homem moderno como
que ebrio...; em seus triunfos, ele está pronto a desafiar os
céus e os deuses, á semelhanga de Prometeu.

Prometeu é o herói da mitología grega que desafiou Júpiter, o


Pal dos deuses, em nome do homem que se erguía contra a Divindade
ou em nome da térra que se levantava contra o céu. Roubou o fogo
dos deuses, e o entregou aos homens. O mito de Prometeu representa
o papel do homem que arroga a si o poder de construir q mundo por
suas próprias fórgas, dando fogo (luz e calor, bem-estar) aos seus con
temporáneos, em vez de esperar ésses bens do Alto.

O homem, nos últimos tempos, subiu aos céus, e encon-


trou-os vazios de Deus. Isto parece sugerir a muitos de nossos
contemporáneos que, na verdade, o próprio homem é o senhor
absoluto do mundo.

c) Humanismo moral. Ná"o poucos sao os que experimen-


tam a revolta contra o mal no mundo. O sofrimento lhes parece
incompatível com a existencia de Deus, pois ou Deus seria
impotente diante do mal ou — pior ainda — seria cúmplice
do mal.

Há também os que consideram a Religiáo, com seus p're-


ceitos moráis, como urna redugáo ou um acovardamento da
personalidade humana. O homem de hoje deseja criar por si
mesmo seus valores moráis (sua bondade, sua honradez, sna
honestidade, sua coragem, sua gloria, sua iniciativa) e julga
que, para ser bom cidadáo déste mundo, nao é preciso crer em

— 325 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 92/1967, qu. 1

Deus nem esperar normas do Senhor. Em suma, o homem quer


ser seu legislador moral e ditar a sua própria ética.

d) Humanismo social (económico-político). É represen


tado por aqueles que tém a Religiáo na conta de alheamento
do homem em relagao ao mundo e á historia. Incutindo a
esperanza num futuro transcendente e alimentando a fé em
realidades invisíveis, a idéia de Deus seria nociva ao desen-
volvimento material da humanidade: tornar-se-ia pretexto pa
ra manter as classes humildes sob a opressáo de pequeño grupo
de poderosos capitalistas. — Tal é a posigáo do marxismo que,
classificando a Religiáo como «opio do povo», veio a ser a forma
suprema, a mais filosófica e militante, do ateísmo contempo
ráneo.

Mais um trago próprio da negagáo de Deus em nossos dias:

3) O ateísmo como postulado de base

Para muitos homens de hoje, o ateismo nao é própriamente


a conclusáo de raciocinios, mas um postulado de base, urna
posicáo tomada como ponto de partida da filosofía.
Nao pensam sequer em refutar as provas da existencia
de Deus, pois se desinteressam pelo assunto. Estáo convictos
de que Deus e homem fazem concorréncia um ao outro; é
preciso, pois, optar entre um e outro. Diante do dilema dáo a
preferencia ao homem, pois éste nao se poderia realizar plena
mente se ácima de si admitisse urna ordem de coisas divina.
O homem, portante, há de ser entendido e levado á consumagáo
sem Deus. Ao «senso de Deus» é assim substituido o «senso
do homem».

Eis, em grandes linhas, um esbóco do ateísmo contem


poráneo com as suas notas mais novas e típicas.
Tentemos agora delinear

2. A resposta crista

A resposta dos cristáos ao ateísmo contemporáneo pode ser dada


& margem das tres grandes características do fenómeno que acabam
de ser explicitadas.

1) Ateísmo, fenómeno pós-religioso

É muito importante a observacáo de que o ateismo, no


decorrer da historia, nao é um fenómeno primitivo, mas supóe

— 326 —
O ATEÍSMO CONTEMPORÁNEO

sempre a Religiáo (Religiáo mal apresentada ou vivida), á


qual ele é urna réplica.

É éste fato que mantém o otimismo dos cristáos de hoje e Ihes


permite crer que o ateísmo contemporáneo sup5e urna crise do pen-
aamento humano ; essa crise pederá ser debelada se os arautos de
Deus tomarem consciéncia da mensagem do ateísmo do séc. XX.

Expliquemo-nos melhor:

O ateísmo contemporáneo tem duplo significado: ele


implica em

a) urna crise do senso religioso da humanidade e

b) urna reagáo contra essa crise.

a) Urna crise do senso religioso da humanidade. Já que


o ateísmo de nossos dias é um fenómeno típicamente ocidental
e urna réplica ao Cristianismo, consideremos de maneira espe
cial o Ocidente e o Cristianismo nos últimos séculos.

Sabe-se que a Europa foi profundamente penetrada nos.


séc. XVIII/XDC pelo chamado Iluminismo ou Racionalismo.
Éste se infiltrou até mesmo dentro dos íntimos redutos do
Catolicismo (os Seminarios, sob D. José II da Austria, o Impe
rador Sacristáo, eram obrigados a adotar a filosofía de Kant).
Em conseqüéncia, a fé perdeu parte do seu vigor sobrenatural,
tomando-se, no povo cristáo, subnutrida ou nutrida por ali
mentos heterogéneos. Até nossos tempos, os cristáos tém-se
ressentido désse depauperamento espiritual. Em conseqüéncia,
nos séculos passados, e ainda nos últimos decenios, o conceito
de Deus foi muitas vézes mal entendido e apresentado, relegado
para a esfera do sentimentalismo, do tradicional, folclórico ou
infantil. Ao mesmo tempo, porém, a inteligencia humana foi-se
apurando e desenvolvendo. Era lógico entáo que, posta diante
da Religiáo mal formulada, a razáo do homem moderno se
recusasse a abragar a crenca em Deus, embora no seu íntimo
guardasse e guarde inextinguivel a consciéncia do Transcenden
te, do Infinito ou de Deus (mesmo os ateus modernos admitem,
explícita ou implícitamente, um Absoluto e um Messianismo,
confinados, porém, dentro dos limites déste mundo material).
b) Urna reacao contra a crise religiosa. Pode-se crer que,
no ateísmo de hoje, há um valor positivo latente. Ele é, sim,
o brado da alma que procura a Deus em torno de si e julga
nao O encontrar entre aqueles que dizem ter Religiáo. A decep-
cáo do homem moderno entáo se traduz num pseudo-revolta

— 327 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 92/1967, qu. 1

contra Deus; ésse homem que se ergue contra Deus, é um


homem a quem, em muitos casos, nunca foi dado tomar conhe-
cimento exato do que é Deus e ver a Religiáo auténticamente
vivida. Tal homem bem seria capaz de dar sua adesáo a Deus,
caso Éste Ihe fósse apresentado de maneira condizente com
o nivel da cultura de nossos tempos. Todo o potencial que o
ateu emprega para impugnar a Religiáo em torno de si ou em
seu íntimo, é, em última análise, um potencial religioso, dotado,
porém, de sinal negativo. Tem-se dito que o ateu, em particular
o marxista, é um santo as avessas; ele tem sua religiáo e sua
mística, centradas, porém, num anti-Deus.

Diante desta situagáo, compete naturalmente aos homens


religiosos e, em particular, aos cristáos, esmerar-se por apre-
sentar ao mundo de hoje urna noeáo de Deus e urna prática
religiosa translúcidas, tomando-se assim verdadeiros sinais do
Altíssimo no sáculo presente.

Para os cristáos, isto nao significa acomodar a fé as tendencias


do mundo moderno, dando-lhe dimensoes meramente humanas, mas,
sim, expó-la com tudo que ela tem de mais seu, de mais evangélico e
sobrenatural... Em última análise, é precisamente o genuino sobre
natural ou evangélico que os homens de hoje, consciente ou incons
cientemente, desejam ver.

Removam-se, portante, do pensamento dos católicos as


erróneas noyóes de um Deus Bonacháo, um Deus Banqueiro,
um Deus Tirano, na medida em que elas aínda existem. Na ver-
dade, Deus é transcendente e inefável, é o Ser por si mesmo ;
mas dignou-se comunicar-se ao homem, de modo a ser o Hos
pede de toda alma justa: «Superior summo meo, intimior intimo
meo. Deus é mais elevado do que o que concebo de mais
elevado, e me é mais íntimo do que o que tenho de mais
íntimo», dizia S. Agostinho.

Deus, ao criar, decretou elevar o homem ao consorcio da sua vida


eternamente feliz. Quem peca, contradiz a ésse designio divino ; o
Senhor porém, permite sejam os seus íilhos visitados pela Cruz a íim
de se puriíicarem de suas paixóes e chegarem finalmente ao seu su
premo Objetivo.

Destas eonsideracSes nao se segué que Religiáo seja «escola de


médo»; Deus nao esmaga as criaturas, mas, ao contrario, as quer
atrair a Si ¡ a grande miseria do homem consiste justamente em nao
querer voltar-se para o Criador, ainda que só tenha um coracáo con
trito e humilde a Lhe oferecer.

Em suma: do modo de pensar, falar e viver dos cristáos


em nossos dias, muito depende a futura sorte do ateísmo;

— 328 —
O ATEÍSMO CONTEMPORÁNEO

ele poderá, em conseqüéncia, recrudescer ou também apagar-se.


Haja vista a solene advertencia do Concilio do Vaticano II:

«Na verdade, os que deliberadamente tentam aíastar Deus de


seu coracao e evitar, os problemas religiosos, nao seguindo o ditame
da sua consciéncia, nao sao isentos de culpa. No entanto, os próprios
fiéis arcam sobre si militas vézes com alguma responsabilidade. Pois
o ateísmo, considerado no seu conjunto, nao é algo de inato, mas antes
originado de causas diversas, entre as quais se enumera a reacáo cri
tica contra as religióes e, em algumas regióes, sobretudo contra a
religiáo crista. Por esta razáo, na génese do ateísmo grande parte
podem ter os crentes ; negligenciando a educacáo da sua fé ou pro
pondo de maneira falaz a doutrina (da fé) ou cometendo faltas na
sua vida religiosa, moral e social, mais escondem do que manifestam
a face genuina dé Deus e da religiáo» (Constituicao «Gaudium et
Spes» n" 19).

2) Ateísmo, fenómeno de «promocáo humana»

A promogáo humana visada pelos ateus pode ser concebida se


gundo as quatro maneiras atrás recenseadas :

a) Humanismo racionalista. A razáo humana, lógicamente


utilizada, aponta ao homem a existencia de um Ser transcen
dente e absoluto, sem o qual nao existiriam os seres contingentes
e relativos. É, portanto, sumamente racional ou inteligente
admitir a existencia de Deus; ésse Senhor Deus, por definijáo,
há de ter seus misterios, pois o Infinito ultrapassa naturalmente
a finita compreensáo humana. Reconhecer ésses misterios e
prestar-lhes o obsequio da fé nao diminuí a dignidade da cria
tura humana, mas, ao contrario, confirma-a e preserva-a de
cair em erros.

b) Humanismo científico-técnico. Os cristáos empenham-


-se por mostrar ao mundo que o Evangelho nao se opóe as
descobertas da ciencia e da técnica. Para que os homens possam
conquistar o mundo e o espago cósmico, assujeitando a si as'
riquezas da materia, nao precisam de se divorciar da Religiáo;
éles nao fazem sombra ao Criador, mas, ao contrario, só re-
fletem a luz do Todo-poderoso. É mesmo na S. Escritura que
o homem encontra o convite de Deus para «crescer, multipli-
car-se e dominar a térra» (cf. Gen 1, 26s). Assim se exprime
o Concilio a respeito :

«Para os fiéis, é pacifico que a atividade humana individual e co-


letiva, ou aquéle empenho gigantesco no qual os homens se esforcam
no decorrer dos séculos para melhorar as suas condicóes de vida, con
siderado em si mesmo, corresponde ao plano de Deus. Com efeito, o
homem, criado á imagom de Deus, recebeu a ordem de dominar a

— 329 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 92/1967, qu. 1

térra, com tudo o que ela contém e de governar o mundo na justica e


na santidade, isto é, reconhecendo Deus como Criador de todas as
coisas...
Portanto, bem longe de julgar que as obras produzidas pelo ta
lento e a energía dos homens se opóem ao poder de Deus e de consi
derar a criatura racional em competicáo com o Criador, os cristáos
estüo antes convencidos de que as Vitorias do género humano sao um
sinal da magnitudc de Deus e fruto de seu inefável designio... Donde
aparece que a mensagem crista nao desvia os homens da construcáo
do mundo nem os leva a negligenciar o bem de seus semelhantes, mas,
antes, os obriga mais estritamente por dever a realizar tais coisas»
(Const. «Gaudium et Spes» n* 34).

Tenha-se em vista o grande número de sabios e cientistas que


em todos os tempos proíessaram a íé em Deus e foram almas ardente-
mente religiosas; cí. «P.R.» 73/1964, qu. 1.

c) Humanismo moral. O problema do sofrimento será


sempre um enigma para o homem desde que éste o queira
explicar sem Deus ou o julgue incompativel com a existencia
de Deus.

A última palavra do homem sem Deus frente ao mal é o exieten


cialismo de Sartre, que afirma a náusea de viver, o absurdo do próprio
eu e de todas as coisas.

Para o cristáo, o mal nao deixa de ser um enigma, mas


enigma envolvido em claráo e confianza. Com efeito, o cristáo,
baseando-se na própria razáo humana, assevera que o mal
nao é urna entidade, mas urna carencia de entidade, um nao-ser
(o que nao quer dizer que o mal ou a carencia nao sejam urna
realidade). O mal, por conseguinte, nao tem causa por si ou
direta ( o náo-ser nao tem causa direta); tem, sim, urna causa
indireta, a saber: a causa que produz um ser ou um efeito,
mas o produz incompleto ou carecente de alguma de suas per-
feicóes (assim o mal sobrevém, como carencia, a um ser bom,
o mal está sempre adérente ao bem, e supoe o bem). Ora a
causa que possa produzir um efeito incompleto ou carecente,
nao é Deus (Deus, por definigáo, é absoluto, é infalível); mas
é a criatura e, em primeiro lugar, a criatura humana. Donde
se vé que o mal tem origem nao em Deus, mas no homem
e ñas criaturas que o cercam; estas, sendo limitadas por defi-
nicáo, trazem em si a possibilidade de falhar e, de fato, falham.

Acrescenta a fé crista : o mal teve inicio no mundo quando o


primeiro homem se afastou de Deus, tomando diante do Senhor urna
atitude que carecía da devida ordem. Em conseqüencia déste mal
moral, os males físicos (as doencas, as calamidades e a morte) entra-
ram na historia ;' com efeito, urna vez rompida a harmonía do espirito
do homem com seu Criador, a carne se revolta contra o espirito dentro

— 330 —
O ATEÍSMO CONTEMPORÁNEO

do homem e, íora do homem, as criaturas inferiores deixam de servir


devidamente ao homem.
E qual a causa do primeiro mal ou da rebeliáo do homem contra
Deus ? — É a livre vontade do primeiro pai, que Deus nao quis cons-
tranger quando lhe pediu a sua opcáo consciente e livre (por Deus
ou contra Deus).

O mal, porém, nao diz a última palavra da historia, segundo a fé


crista. Deus mesmo íéz-se homem, tomando a si os sofrimentns e a
própria morte do homem; santificou-os, transíigurou-os, de modo que
atualmente pelo próprio sofrimento e pela morte o homem obtém a
sua redengáo.

Depreendese assim que o mal nao é incompativel com a existencia


de Deus; em última análise, ele se deve ao abuso que o homem fez
de sua liberdade. Note-se, porém: Deus nunca teria permitido que
se desencadeasse o mal no mundo se, em sua sabedoria, nao houvesse
decretado tirar do próprio mal um bem ainda maior. — Por certo,
esta explicacáo crista dada ao problema requer íé. Contudo o homem
sincero verifica que só pode entender a existencia do mal mediante a
fé, ou seja, admitindo a existencia de um Ser supremo capaz de suplan
tar o mal e dar um sentido á desgraca humana.

Ainda diante do humanismo moral, os cristáos háo de


excitar em si, e despertar nos seus semelhantes, a consciéncia
de que a Lei de Deus, tange de deprimir os valores humanos,
os suscita; as leis moráis que o Senhor incutiu aos homens,
nao sao normas arbitrarias, mas sao condigóes de vida e har
monía; sao o complemento da obra que Deus fez, quando deu
a cada ser a sua estrutura característica.
Nao se diga que o homem nao precisa de Deus para ser
bom cidadáo. A historia de todos os tempos, marcadamente a
de nossos dias, ensina que todo ser humano traz em si um tanto
de egoísmo, egoísmo que, cedo ou tarde, é capaz de solapar
as mais belas e altruistas iniciativas; sómente por amor a Deus
é que o homem ama retamente a si e ao próximo. Se a Religiáo
nao é o fundamento da uniáo dos homens entre si, estes difí
cilmente se entendem (é o que a Biblia ensina no episodio da
torre de Babel; cf. Gen 11).

d) Humanismo social. O Cristianismo, embora afirme a


primazia dos valores espirituais, nao dispensa seus seguidores
de se empenhar na construgáo da Cidade dos homens ou .ñas
tarefas de índole social, política, científica, técnica, que solicitam
o homem de hoje. Os cristáos se empenharáo, portanto, por
evitar certas expressóes de mística mal concebidas, como se
o Cristianismo apregoasse o individualismo ou a fuga diante
dos grandes apelos do mundo. As vocagóes ao eremitismo e á
vida enclausurada conservam o seu pleno valor, mesmo na
Igreja do séc. XX; exprimem o primado do espiritual sobre

— 331 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 92/1967, qu. \

o material, do eterno sobre o temporal; da fidelidade das almas


contemplativas Deus quer fazer depender a distribuicáo de suas
gracas e a solucáo dos grandes problemas com que se debate
a humanidade de hoje. Ao lado, porém, das yocagóes contem
plativas, Deus suscita as de vida ativa; principalmente aos
fiéis leigos compete a missáo de entrar ñas estruturas déste
mundo, de modo que por elas seja o Criador glorificado:

«A índole secular caracteriza especialmente os leigos... £ especi


fico dos leigos, por sua própria vocagáo, procurar o Reino de Deus exer-
cendo funcQes temporais e ordenando-as segundo Deus. Vivem no
sáculo, isto é, em todos e em cada um dos oficios e trabalhos do mundo.
Vivem ñas condicóes ordinarias da vida familiar e social, pelas quais
sua existencia é como que tecida. La sao chamados por Deus para que,
exercendo seu próprio oficio guiados pelo espirito evangélico, a modo
de fermento interior, contribuam para a santificacáo do mundo»
(Const. «Lumen Gentium» n' 31).

Resta ainda dizer urna palavra ao

3) Ateísmo como postulado

Deus e o homem nao fazem concorréncia um ao outro.


Sómente um Deus falsamente concebido pode parecer entravar
as nobres aspiragóes do homem; na verdade, tais aspiragóes
foram dadas á criatura pelo próprio Criador e só se realizam
verdaderamente na fiel adesáo do homem a Deus.

Ademáis note-se: basear-se em postulado gratuito é infra-lóglco,


é colocar-se em plano Inferior ao da razao humana.

3. A última palavra da fé

A Santa Igreja deseja ardentemente que seus filhos se


empenhem por dissipar os mal-entendidos que afastam da ver-
dadeira fé os homens contemporáneos.
Contudo nem sempre sao suficientes os argumentos da
inteligencia para fazer frente ao ateísmo contemporáneo, táo
complexo e variegado em seus matizes. O cristáo pode mesmo
sentir-se, por vézes, assustado pelas dimensóes do movimento
ateu. Pseudo-argumentos, aparato científico e campanhas anti-
-religiosas apresentam-se com tal requinte que o ateísmo pode
por vézes. parecer fadado a seduzir o mundo inteiro.
Que dizer entáo ?
O cristáo lembrar-se-á de que a fé é dom de Deus e de
que o próprio Deus é o Senhor do seu Reino. Em conseqüéncia,

■300
QUANTOS PROFETAS ISAÍAS HA ?

os discípulos de Cristo háo de recorrer ardorosamente aos meios


sobrenaturais a fim de que Deus se manifesté aos homens de
hoje. E ésses meios sobrenaturais sao :

a) a oragáo. É mediante a oragSo que os arautos de Deus obtém


luz e fdrca para íalar devidamente aos homens; é mediante a oracáo
que a gmca desee aos coragSes daqueles que estao afastados do Seiihor.
A oracüo é o grande recurso pana todas as horas e todos os problemas.
Desde toda a eternidade, Deus decretou dar as suas gracas mediante
a colaboracao dos homens, que se faz primariamente pela oracáo ;

b) o testemunho da vida Integra, coerente com o Evangelho até


as últimas conseqUéncias. É o que recomenda o Concilio do Vaticano II:

«O remedio a ser levado ao ateísmo deve-se esperar nao só de


urna adequada exposicao doutrinária. mas também da pureza de vida
da Igreja e de seus membros. Pois compete á Igreia tornar presente
e como aue visivel Deus Pai e seu Filho encarando, renovando-se e
purificando-se incessantemente, sob a direcáo do Espirito Santo. Isto
se obtém primeiramente oelo testemunho de urna fé viva e adulta
formada. caDaz de nerceber de modo lúcido as dificúldades e suoerá-
•las. Inúmeros mártires deram e dáo um testemunho preclaro desta
fé. Esta fé deve manifestar a sua fecundidade penetrando toda a
vida dos fiéis, também a profana. imDulsIonando-os á justica e ao
amor, sobretudo para com os necessitados. Para a m«mifestacao da
presonm de Deus contribuí eníim sob^emaneira a caridade fraterna
dos fiéis, que em espirito unánimes colaboram para a fé do Evangelho
e se apresentam como sinal de unidade» (Const. «Gaudium et Spes»
n' 21).

Em conclusáo: quem considera atentamente os grandes


traeos do atefsmo contemporáneo, verifica que ele contém urna
mensaeem (transmitida de maneira dura, mas assaz eloqüente)
e aguarda urna resposta dos cristáos; essa resposta, a S. Igreja
em seu recente Concilio acaba de esbocá-la, pedindo aos seus
filhos que a ponham fielmente em prática.

II. SAGRADA ESCRITURA

ARGEJVimO (Belo Horizonte):

2) «Quantos profetas Isaías há ? O Hvro dito 'de Isaías'


tem mais de um autor ?
Gomo explicar a sua origem ?»

As páginas que se seguem, esbogaráo, em primeiro lugar,


um breve histórico da questáo. A seguir, proporáo os principáis

— 333 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 92/1967, qu. 2

argumentos que evidenciam a acáo de varios autores na con-


feccáo do volume de Isaías.

1. Notas históricas

Isaías viveu de 770 até cérea de 687 a. C. Era filho de


ilustre familia de Jerusalém, dotado de notáveis predicados
intelectuais, erudito poeta e esmerado estilista. Foi um santo
conselheiro dos reis de Judá (Joatá, Acaz e Ezequias) numa
época em que a infidelidade religiosa e a imoralidade de costu-
mes grassavam na corte e no povo judeus; é, por isto, chamado
o «Tomás Moro» do Antigo Testamento. Apregoou com lirismo
a majestade de Deus e os seus direitos sobre todos os homens
e a térra inteira; proferiu também vaticinios muito vivos a
respeito do Messias, pelo que mereceu, entre os cristáos, o
título de «Evangelista do Antigo Testamento».
Até o séc. XII d. C, ninguém duvidava de que fósse o
único autor dos 66 capítulos do livro que traz o seu ¡nome. As
suspeitas contrarias surgiram entre os rabinos medievais, dos
quais se podem citar Aben Ezra (f 1167) e Isaque Abrabanel
(f 1508).
Nos tempos modernos, principalmente a partir do século
XVm, os críticos acatólicos comecaram a atribuir os capítulos
40-66 de Isaías a um autor desconhecido, dito «Déutero (Se
gundo)-Isaías», o qual teria escrito no fim do exilio na Babilonia
(587-536 a. C). Apoiavam-se sobre o fato de que Is 40-66
sup5e as condicóes do povo de Israel abatido e desolado como
na época do exilio.

No último decenio do século passado, os críticos, verifi


cando que os capítulos de Is 56-66 supóem o povo de Israel
já repatriado após o desterro, comecaram a sugerir a existencia
de um «Trito (Terceiro)-Isaias», autor de Is 56-66; o Déutero-
-Isaías teria redigido apenas a seceáo de Is 40-55.

Diante dessas teses, os exegetas católicos se mostraram


reservados, pois os estudiosos que as propunham, muitas vézes
intencionavam negar a existencia de verdadeiras profecías. O
Déutero e o Trito-Isaías teriam escrito na base de aconteci-
mentos que éles presenciavam nos séc. VI e V a. C. Os comen
tadores católicos, ao contrario,.nao hesitavam em admitir que
o profeta Isaías do séc. VIH tivesse tido a visáo dos fatos
posteriores e, conseqüentemente, houvesse escrito como se vi-
vesse no exilio com o povo deportado.

— 334 —
QUANTOS PROFETAS ISAÍAS HA ?

Dado que as novas teorías racionalistas sobre a origem de


Is afetavam o próprio conceito de profecía sobrenatural, a
Pontificia Comissáo Bíblica se lhes mostrou desfavorável em
um pronunciamento datado de 28/VI/1908. Tal pranunciamen-
to, porém, nao pretendía dirimir a questáo de maneira defini
tiva; as expressóes mesmas désse documento deixavam o cami-
nho aberto a ulteriores estudos, estudos que foram sendo feitos
pelos católicos no sentido da crítica, sem que a autoridade da
Igreja se lhes opusesse.

Aos poucos os estudiosos católicos foram percebendo que.


as teses referentes ao Déutero- e ao Trito-Isaías de modo
nenhum iniplicam em negar o dom sobrenatural da profecía.
Deus suscitou realmente profetas no decorrer da historia do
Antigo Testamento. Esta proposigáo permanece firme. Contudo
nao se deve crer que determinado livro ou texto seja profético,
quando há serios indicios de que se refere a acontecimentos
contemporáneos ao autor. Por conseguinte, perceberam os ca
tólicos que se pode e deve reformar a sentenca dos antigos
concennentes á origem do livro de Isaías na medida em que
o exija o estudo aprofundado désse escrito, de acordó com os
recursos das ciencias lingüisticas e históricas modernas.
Conseqüentemente, em nossos dias tanto os exegetas cató
licos como os náo-católicos admitem quase unánimemente a
divisáo do livro de Isaías em tres grandes seceóes, cada urna
das quais tem sua origem própria.

2. O livro de Is 1-39

Nesta seccáo, os quatro últimos capítulos (36-39) consti-


tuem um apéndice de índole histórica, que narra o céreo de
Jerusalém por parte do reí assírio Senaqueribe, o adoecimento
do monarca Ezequias de Judá e a embaixada do rei Merodaque
Balada da Babilonia a Ezequias. É um bloco literario transcrito
de 2 Rs 18,13-20,19 (com o acréscimo do canto de Ezequias,
Is 38,9-20). Julga-se que nao provém da pena do profeta Isaías,
pois se refere a acontecimentos provávelmente posteriores á
morte déste (por exemplo, em Is 37,38, a morte de Senaqueribe
ocorrida em 681); o respectivo estilo muito se assemelha' ao
do autor do livro dos Reis. A ordem cronológica dos fatos
exigiría a inversáo dos textos : os capítulos 38-39 deveriam
preceder 36-37.

O conjunto Is 1-35 supóe realmente as condigóes históricas


em que viveram o povo de Israel e o profeta Isaías no séc. VIH

— 335 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 92/1967, qu. 2

a. C, sob os reís Ozias, Joatá, Acás e Ezequias, cujos nomes


sao citados no título do livro (cf. Is 1,1). Consta de varias
colegóes de oráculos. A maior parte déstes deve ter sido redi-
gida pelo próprio profeta Isaías, como atestam Is 30,8; 8,1 e
os capítulos 6-8 (que contém tragos autobiográficos). Admi-
te-se, porém, que certas secgóes de Is 1-35 receberam sua forma
literaria definitiva por parte dos discípulos do profeta (os quais
sao mencionados em Is 8,16 como guardas dos vaticinios de
Isaías); no círculo désses discípulos, os discursos do mestre
eram confrontados entre si e reunidos em coletees de acordó
com o tema que abordavam. Os críticos admitem que essas
diversas colegóes só tenham sido coletadas em um volume após
o exilio ou cérea de 200 anos após a morte do Profeta. Por
ser urna antología dos sermóes mais significativos (mas nao
sempre consignados na íntegra) de Isaías, o bloco Is 1-35
apresenta bruscas mudanzas de tema e cenário histórico; os
diversos oráculos ai se acham concatenados sem estrito nexo
cronológico.
A secgáo Is 1-35 contém notáveis profecías messiánicas.
Apontando os grandes traeos do Messias, o Profeta o descreve
como «Pedra angular» (cf. 28,16s) e Arauto das novas dispo-
sigóes salvificas de Deus em relagáo aos homens; por isto, é
tido como «Admirável Conselheiro, Deus Forte, Pai do século
futuro, Príncipe da paz» (cf. 9,5). Possui a plenitude do Espi
rito do Senhor (cf. 11.2).

Descendo a pormenores, Isaías considera as circunstancias histó


ricas do seu tempo (séc. VIII a.C.) e, a partir délas, esboga algumas
notas características do Messias em tres notáveis seccóes :
Em 7,10-25, Jerusalém aparece ameacada por reis invasores, que
pretendan extinguir a dinastía de Davi (cf. 7,6). Sobre éste fundo de
cena, Isaías apresenta o nascimento de um Menino chamado «Emanuel
(= Deus conosco)», filho de urna donzela (que no texto grego dos
LXX é dita «virgem»). Ésse Menino será o sinal, dado por Deus, de
que o reino de Judá será libertado e a dinastía de Davi nao caira.
Em vista désse Rei messiánico, foi de íato preservado incólume o trono
de Davi nos tempos de Isaías.
Em 9,1-7, Isaías descreve a libertacjlo das regISes setentrionais da
Palestina, oprimidas pelos asslrios. Essa libertacao é pintada com táo
vivo colorido que lembra a criacao do mundo, quando, segundo Gen
1,1-5, as trevas é o caos cederam á luz. Tal libertacao inaugura tam-
bém urna paz semelhante á do paraíso, pols na verdade «nasceu para
nos» o Menino prometido em Is 7 ; com seus predicados divinos e
regios, £le corroborará para sempre o trono de Davi.

Em 11,1-9, aparece destruido o poder da Assíria, que pesava sobre


Jerusalém, de sorte que a dinastía de Davi floresce livremente. Ela
produz finalmente um rebento, que é o Messias. Éste faz descer sobre
a térra a plenitude do Espirito do Senhor e cumpre as promessas de

_ 336 —
QUANTOS PROFETAS ISAÍAS HA ?

restauracáo da natursza, restabelecendo a ordem violada entre as


criaturas.

É por estes vaticinios que Isaías se impóe como um dos


maiores profetas do Antigo Testamento.

3. O Déutero-Isaías (Is 40-55)

Os estudiosos asseveram que esta secgáo se deve a um


autor anónimo («Déutero ou Segundo Isaías»), que pregou e
escreveu na Babilonia, anunciando aos israelitas ai deportados
a iminente libertacjío e a volta á Térra Santa (séc. VI a. C).
a) A situa$áo histórica suposta por Is 40-55 difere notá-
velmente da do séc. VHI (Is 1-39) :

os reinos do Samaría e Judá já nao existem ; os seus cidadáos


íoram despojados, caturados e deportados, em castigo de suas infideli
dades ; cf. 42,18-25; 43, 5-7.26-28; 47, 6; 52,5;

Joru.salém e o templo cstáo destruidos e a sua restauracáo é pro


fetizada ; cf. 44, 26-28 ; 45,13 ; 49,15-17.19 ; 52,9 ;

a nacfio que retém os judeus cativos, é Babilonia, opulenta e


arrogante, mas prestes a cair em ruinas ; cf. 47, 5-9 ;

o rei Ciro da Pérsia parece conhecido aos leitores ; Javé o diri


girá contra a Babilonia ; cf. 46,1-13 ; 47,1-11;

os leitores sao estimulados á confianca e alegría, pois se aproxima


o fim do exilio ; cf. 40,10s.27 ; 41,10-13 ; 46,12s ; 48,20.

Dir-se-ia que o autor dos oráculos está físicamente presente


aos seus ouvintes, pois os interpela e exorta em tom vivo e
caloroso; cf. 40,21.26.28; 43,10; 48,8; 50,10s... É difícil admi
tir que Isaías, no século VH1, tenha, em visáo mental, assim
interpelado as geragóes do séc. VI; éste fato nao teria análogo
ñas Escrituras Sagradas; seria mesmo contrario ao método
habitual dos Profetas. Com efeito, estes costumavam dirigir-se
aos homens de sua própria época, usando de linguagem que
estivesse ao alcance dos mesmos. Pode-se notar que em Is 40-66
nao há alusáo alguma "as circunstancias do séc. VIH; o autor
parece viver plenamente ñas condicóes dos exilados que se
achavam na Babilonia.

b) O' estilo de Is 40-55 difere do de Is 1-39 pelo seu


grande número de imagens literarias, que se repetem freqüen-
temente, pela majestade de suas alocucóes e pela sua tendencia

— 337 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 92/1967, qu. 2

a argumentar. O tom lírico e dramático désses capítulos é


apto a atrair poderosamente o leitor.

Veriíiaa-se outrossim que o autor nunca dirige oráculos condena


torios contra Israel, mas apenas contra Babilonia; cf. 41,11-16; 42,14-17;
43,14s. Os vaticinios de consoló sao marcantes, predizendo o cumpri-
mento das antigás promessas messi&nicas do Senhor (cf. 41,25-29;
46,8-12), a libertacao do povo e a íeliz travessia pelo deserto em de
manda da Térra Santa (cf. 41,17-20; 43,1-7; 49,7-26), a gloria da futura
Jerusalém (cf. 51.17-52,2; 54,1-3.11-17), a conversao dos gentíos (cf.
(cf. 45,14-17.22-25; 55,3-5). Ocorrem belos hinos (cf. 41,14-20; 42,5-9;
43,1-7; 44,1-5.24-26), admoestagóes satíricas dirigidas aos babilonios ou
aos idólatras (cf. 46,ls. 6s ; 47,1-15), consideracdes sapiencials ou medi-
tacoes .religioso-filosóficas (cf. 48,17-19; 51,1.4.7; 55,1.3).

Por último, observe-se o seguinte : o fato de que Is 40-55


foi justaposto a Is 1-39 supóe que, por ocasiáo da aglutinagáo,
o livro do profeta Isaías já estava encerrado com seu apéndice
histórico (cf. 36-39); se nao, os oráculos da segunda parte do
livro (ce. 40-55) teriam sido acrescentados diretamente aos
da primeira (1-35) e o apéndice histórico (36-39) haveria
sido colocado no fim do bloco inteiro (após Is 55).
As considerares propostas em favor do Déutero-Isaías
parecem realmente comprovar a tese dos críticos. O fato de
que os oráculos de Is 40-55 foram escritos no séc. VI, e nao
no séc. Vin a. C, nao extingue a índole profética désses textos,
pois predizem acontecimentos futuros, como a eminente queda
de Babilonia e o regresso dos exilados á sua patria.
Inseridos nos vaticinios de Is 40-55, encontram-se os quatro
chamados «Cánticos do Servo de Javé», que constituem um
enigma exegético, assaz controvertido pelos estudiosos. A ex-
tensáo dessas pecas é diversamente assinalada pelos comenta
dores, sendo a mais provável a seguinte delimitacáo:

Is 42,1-4 : os predicados do Servo de Javé

49,1-6: a vocacáo do Servo de Javé

50,4-9: a ingrata missao do Servo de Javé


52,13-53,12: a morte e a glorif icacao do Servo de Javé

Ésses cánticos, por seu estilo e seu tema unitarios, parecem


ter origem independente do conjunto Is 40-55. Sao geralmente
atribuidos a um autor próprio, diverso do Déutero-Isaías.
— A interpretacáo désses belos poemas exige reflexóes que
fugiriam ao tema déste artigo e melhor se enquadrariam em
urna questáo á parte.

— 338 —
QUANTOS PROFETAS ISAÍAS HÁ ?

Passemos agora a

4. O Trito-Isaías (Is 56-66)

O conjunto ís 56-66 difere, por sua vez, de Is 1-39 e Is


40-55, tanto por seu fundo histórico e geográfico como por sua
temática e seu estilo. Em verdade, trata de consolar e exortar
os israelitas recentemente repatriados do exilio. Israel, de novo
na Térra Santa, constituí urna comunidade religiosa; parece,
porém, retardar a plenitude da Redensáo, pois é infiel ao culto
do Senhor e vive alheio á Lei de Deus; os próprios andaos e
maiorais se mostram indignos de suas funcóes. Nao obstante,
os vaticinios reafirmam as antigás promessas de Javé, princi
palmente as que concernem á nova Jerusalém, ponto de con
vergencia tanto dos israelitas fiéis como dos gentíos conver
tidos ao Senhor Deus na era messiánica.

Estas afirmacóes tém seu fundamento ñas observacóes


seguintes:

A siluacao histórica pressuposta por Is 56-66 já nao é a


do exilio (587-536), mas a que se seguiu a éste.

Com efeito, o povo já habita a montanhosa e acidentada regiáo


da Palestina (cf. 57,5-7), a qual contrasta com as planicies da Babilonia,
irrigadas por belos cañáis ;
Jerusalém se acha parcialmente povoada, mas ainda nao devida-
mente reconstruida ; cí. 60,10 ; 61,4 ;
as cidades menores da Térra Santa ainda se encontram devasta
das ; cf. 64,9 ;
o Templo Santo ainda está em ruinas (cf. 64,10s), embora já se
pense em reedificá-lo (cf. 66,1);
o povo vive angustiado nao por causa da opressüo de inimigos,
mas em virtude da inf idelidade dos próprios israelitas ; cf. 57,3-5 ;
59,9-12 ; 61,1-3 ; 63,18s ;
os chefes da comunidade ocupam-se mais consigo do que com o
povo ; cf. 56,10-12.
Contudo o Senhor Deus enviará sua salvacáo, mas nao por obra
de Ciro ou do Servo de Javé ; cf. 60,22 ; 61,1-3 ; 62,7s ; 66,12s ;
promete a rcconstrucáo do Templo (cf. 56,5-8; 58,2; 62,9; 66,6.20),
o qual será famoso centro do culto de Javé (cf. 60,7.13).

O Profeta, em Is 56-66, deixa de ser própriamente o


Consolador, para fazer as vézes de Pastor, Doutor e Salmista.
Lembra as severas exigencias do culto e da Lei do Senhor, em
particular o sábado (cf. 56,2. 4-6; 57,6-12; 58,13s; 65,1-6; 66,3s).

— 339 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 92/1967. qu. 2

Repreende os idólatras e infléis ('cf. 56, 8-57,13; 58,1-5; 66,17).


Recita profissóes de fé e de penitencia (cf. 59,1-14; 63,7- 64,11).
Transmite instrugóes a respeito do jejum e da oragáo (cf.
58,1-12).

É muito enfatizada a santidade de Deus (cf. 57,15; 59,19s;


60,9; 66,1)..., santidade participada por tudo e todos que tém
relagáo com o Senhor: assim as cidades santas (64,10), a
mansáo sagrada (63,15), o Templo Santo (cf. 64,11), a mon-
tanha santa (cf. 65,11; 66,20). A iniqüidade é o que mais separa
o povo de Israel do seu Deus (cf. 59,2;64,7). As interyengóes
de Javé na historia sao apresentadas como obras de Mediadores,
tais como o Espirito (cf. 63,10s), a Palavra (cf. 66,5), o Nome
(cf. 59,19), a Gloria (cf. 58,8), a Face (cf. 63,9). Tais Media
dores (note-se de passagem), no texto do Profeta, nao sao senáo
personificagóes literarias dos atributos de Deus; contudo já
prenuncian! o misterio da Encamagáo e a mediagáo realizada
pelo Messias. A mediacáo em Is 56-66 nao sufoca o vivo sentido
da proximidade ou mesmo da paternidade de Deus (cf. 63,19-
-64,12), o qual faz dos coragóes humildes a sua dileta mansáo
(cf. 57,15; 66,ls).

Verdade é que em Is 56-66 a salvacáo messiánica aínda é apresen-


tada com as características de urna salvacáo nacional do povo de
Israel, o qual há de ser libertado dos seus opressores pagaos (cf.
63,1-64,2; 65,17-25; 66,6.20). Contudo o Profeta inculca que a carne e
o sangue nao seráo motivo de discriminacáo entre os justos, mas, sim,
a observancia da Lei do Senhor (cf. 56,1-8), a humildade, a piedade e
a sincera procura de Deus (cf. 57,ls.l5; 65,10; 66,2-5).

O conjunto de tais indicios sugere que Is 56-66 tenha sido


realmente escrito em fins do séc. VI, quando os profetas pos
teriores ao exilio preparavam a grande restauragáo religiosa
e nacional realizada por Neemias e Esdras (séc. V e IV).

Segundo varios comentadores, o bloco Is 56-66 é urna antología


ou coletánea de oráculos devidos a diversos autores. Outros, talvez
com mais acertó, insistem na constancia de estilo e temas doutriná-
rios de Is 56-66, de modo que réconhecem um único escritor para esta
seccáo. Como quer que seja, o titulo «Trito-Isaias> designa mais pró-
priamente a terceira parte do livro de Isaías do que o seu respectivo
autor humano.

Os exegetas concordam em admitir que os blocos 40-55 e


56-66, embora nao provenham diretamente do Profeta Isaías
(séc. Vm a. C), se devem a circuios de discípulos do mesmo,
os quais receberam, desenvolverán! e transmitirán! consentá-
neamente a doutrina do Mestre. É éste fato que explica a

— 340 —
ELEICAO OU NOMEACAO DOS BISPOS ?

designacáo «Livro de Isaías Profeta» dada pela tradigáo judaica


e crista ao conjunto Is 1-66. Inegavelmente, diversas máos,
dentro de um espirito homogéneo, concorreram para confeccio
nar o livro de Isaías tal como ele hoje se encontra, sendo que
a derradeira redagáo do volume se deve aos tempos posteriores
ao exilio (até o. ano de 400 a. G, como conjeturam alguns
exegetas). O último ou os últimos redatores teráo efetuado ou
apenas confirmado a compilagáo de Is 1-39, 40-55 e 56-66,
dando ao conjunto a forma estilística e doutrinária que atual-
mente o caracteriza.
O Magisterio da Igreja nao se op5e a estas conclusóes dos
estudiosos. Vimos que elas nao cancelam o caráter profético
que sempre se atribuí a certas partes de Is. Nem excluem que
o livro dito «de Isaías» seja, todo inteiro, efeito da inspiragáo
bíblica. Em verdade, cada um dos autores que concorreu para
dar a configuragáo atual ou canónica ao texto do livro, só
o fez sob a iluminagáo ou a mogáo do próprio Deus; é o que
basta para salvar o conceito de inspirado bíblica em Is. A
inspiracáo sagrada e a canonicidade dos livros bíblicos ficam
incólumes, mesmo quando se discute qual ou quais tenham sido
os seus autores humanos.
Eis o que, de acordó com a exegese moderna, se pode atu-
almente dizer sobre a origem do livro de Isaías.

III. DIREITO CANÓNICO

MINEIRO (BELO HORIZONTE):

3) «Poderiam os bispos ser eleitos pelo povo cristáo, em


vez de ser nomeados diretamente pela Santa Sé ?»

A rigor, nao se poderia dar resposta negativa a esta ques-


táo, pois a historia da Igreja ensina que, em tempos passados,
os bispos eram, de certo modo, eleitos ou aclamados pelos fiéis..
Todavía a mesma historia mostra quais as vantagens e des-
vantagens de tal processo, assim como as razóes que sugeriram
a nomeagáo de preferencia á eleigáo.
Percorreremos, pois, sumariamente o histórico do tema,
acrescentando-lhe algumas reflexóes.

—. 341 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 92/1967, qu. 3

1. Esbdgo histórico

Distinguem-se cinco etapas na historia da escolha dos bispos :


1) até o séc. VI;

2) do séc. VI ao séc. X;
3) a Reforma gregoriana (séc. XI/XII) ;
4) as «reservas» (séc. XIII/XIV) ;
5) do séc. XV aos tempos atuais.

1) Até o séc. VI. Quando vivos, os Apostólos designavam


pessoalmente os bispos que Ihes sucederiam ñas diversas comu
nidades cristas.

Assim S. Paulo estabeleceu Timoteo em Éfeso, Tito em Creta


provávelmente Dionisio Areopagita em Atenas. Em Esmirna (Asia
Menor), S. Policarpo «foi constituido bispo pelos Apostólos» (cf Eu-
sébio, Hist ecles. IV, XIV 3). De modo geral, Clemente, bispo de
Roma no fim do séc. I, reíere que os Apostólos instituiam os bispos
e diáconos das comunidades cristas que éles iam fundando (cf. 1

O mesmo S. Clemente transmite o seguinte : os Apostólos,


tendo previsto dificuldades na escolha dos bispos, estabeleceram
que estes seriam eleitos pelos clérigos e propostos á aprovacáo
dos fiéis. Nao se pode determinar com precisáo se o consenti
miento do povo cristáo era decisivo ou nao para a eleigáo do
prelado.
Tal processo nao foi adotado em todas as dioceses dos
primeiros sáculos : os escritores antigos referem que, em mais
de um caso, determinado bispo, sentindo-se responsável pelo
bem da Igreja, interveio na sucessáo episcopal de diocese alheia,
nomeando o respectivo prelado. Referem-se também casos em
que a aclamagio de determinado candidato por parte dos fiéis
era suficiente para que os clérigos o considerassem eleito.

O Concilio de Laodicéia em 380 prescrevia que «nao se deixasse


& muItidSo a escolha dos futuros prelados» (can. 13). Por «multidáo»
parece que se entendía, no caso, a «gente tumultuada e excitada» que
por vezes intervém nos pleitos eleitorais. — Como quer que seja, éste
canon atesta que o processo de escolha era, nao raro, dificultado por
celeumas populares.

Aos poucos, outros fatóres foram entrando em cena e ga-


nhando importancia no sistema de provisáo dos bispados.

Note-se em primciro lugar que, a partir do séc III, se foram


formando provincias eclesiásticas, as quais ahrangiam varias dioceses,

— 342 —
ELEICAO OU NOMEACAO DOS BISPOS ?

tendo á frente um arcebispo metropolitano; ora os bispos da mesma


provincia se sentiam responsáveis pelo bom éxito de cada eleigao
episcopal. A partir do séc. IV, o Imperador convertido ao Cristianismo,
teye suas partes nesse processo. O bispo de Roma, por sua vez, exer-
ceu influencia indireta no sistema das eleigóes episcopais.

Em conseqüéncia, pode-se reconstituir nos seguintes termos


o trámite adotado no séc. V para se proceder á eleigáo de um
bispo:

Quando se tomava vacante urna diocese, o titular do bis-


pado mais próximo ou o bispo nomeado pelo metropolita ou
ainda os bispos da provincia iam ter 3. cidade-sede da diocese:
proviam aos funerais do falecido prelado, encarregavam-se da
administragáo espiritual e temporal da diocese e preparavam
a eleigáo do futuro pastor.
No dia estipulado para esta, o bispo metropolita, cercado
dos seus sufragáneos, presidia á eleigáo do novo titular: tres
elementos — o povo fiel, o clero local e o conjunto dos bispos
da provincia — desempenhavam cada qual urna fungáo no
empreendimento, que costumava interessar profundamente a
vida da cidade (o bispo era um pastor vitalicio que, além das
suas vastas atribuicóes religiosas, exercia certos encargos de
índole jurídica e civil em favor dos seus concidadáos). Os papéis,
no decorrer da eleic.áo, se distribuiam do seguinte modo :

a) O povo fiel. Aos fiéis competía pedir tal ou tal candidato,


atestar a dignidade dos candidatos, e dar seu consentimento ao eleito.
O Papa S. Leáo Magno (t 461) estipulou : «Nao se pode reconhecer
como bispo quem nao tenha sido solicitado pelo povo e eleito pelos
clérigos» (Decretáis, c. I, dist. LVII). A Lntervencao dos fiéis nao
deixava de ocasionar, por vézes, rixas e intrigas. De maneira geral,
porém, julgam os historiadores que o povo cristao apontava seus
candidatos de acordó com a idoneidade moral ou a santidade de vida
dos mesmos. No fim do séc. IV, em certas regióes eram os homens
de vida austera que mereciam a preferencia do povo ; em outras,
os fiéis receavam homens severos, preferindo pastares transigentes.

b) O clero. Os clérigos eram prdpriamente os eleitores ; toca-


va-lhes fazer a escolha do futuro bispo.

c) Os bispos da provincia. A eleigáo assim feita era submetida


ao julgamento do colegio provincial, arbitro do processo eleitoral e
da idoneidade do eleito. Essa instancia episcopal podia rejeitar o nome
sufragado, desde que o julgasse pouco apto ou averiguasse qualquer
irregularidade no trámite da eleicáo.
Caso se desse algum impasse na elelcao, o colegio episcopal devia
decidir em favor do candidato mais benemérito ; fazia-se entáo a
«collatio zeli ad zelum» («confronto de zélo com zélo»), operacáo esta
muito delicada, mas válida e aceitável segundo a mentalidade dos
antigos. Acontecía assim que os bispos da regiáo se tornavam os

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«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 92/1967, qu. 3

verdadeiros eleitores do futuro prelado ; ao clero e aos fiéis competía


receber dignamente o novo pastor da diocese.

A esta altura, vém muito a propósito as palavras do historiador


L. Duchesne : ■>
«Segundo a concepcáo crista das eleic5es eclesiásticas, o corpo
eleitoral nao coníere poder algum ao eleito; limita-se a designar a
pessoa a quem Dcus, representado pelas autoridades competentes,
confere o caráter sacerdotal ou diaconal e o direito de governar a
Igreja na medida que corresponde á sua posicáo. O bispo nao é o
representante da comunidade crista, mas o depositario da autoridade
que Deus tem sobre ela, autoridade que Ele comunicou. aos Apostólos
ei que estes transmitiram aos seus sucessores» («La succession de
Félix IV», em «Mélanges d'archéologie et d'histoire» III, 1893, 248).
d) O bispo de Roma. Como se vé, o bispo de Roma nao Ínter-
vinha diretamente em tais eleicfles. Contudo dava normas referentes
ao processo eleitoral e zelava pela observancia das mesmas ; exor-
tava os fiéis, o clero e os governantes civis a respeitarem o processo
candnico. Certos documentos revelam que o bispo de Roma vedava
aos bispos moribundos a escolha de seu sucessor — costume éste que
parece ter tido voga nos séc. IV e V.
Segundo E. Roland, «discreta, indireta, a intervenc.ao do bispo
de Roma na instituicáo dos bispos é real, inegável: constituí como
que um prolongamento do seu primado» («Élection df>s Évéques», em
«Dictionnaire de Théologie Catholique» IV 2261).
e) O Imperador. O poder imperial, com sede em Constantinopla,
nao ficava á margem do processo de instituicáo dos bispos.
Muitas vézes os Imperadores intervinham ñas eleicSes episcopais,
ora para apaziguar os ánimos divididos e exaltados, ora a pedido
mesmo dos eleitores (pois julgavam estes que a presenta do poder
imperial garantiría a boa ordem do pleito), ora também por inicia
tiva própria, ou seja, para atender a interésses políticos e pessoais
do Imperador; neste último caso, era tolhida a liberdade dos eleitores.
Sabe-se outrossim que, em 338 aproximadamente, o Imperador
Constancio depós o bispo Paulo de Constantinopla e transferíu Eu-
sébio de Nicomédia para esta sede. Depois que S. Atanásio, bispo de
Alexandria, foi exilado em 339, o mesmo monarca designou dois clé
rigos do seu palacio, Gregorio e Jorge, para a sé de Alexandria.
No Ocidente, aíastado da residencia imperial, as intervenedes do
Imperador eram muito mais raras.
Váo abaixo citados alguns episodios, colhidos entre varios outros,
os quais atestam que nao se pode pretender reconstituir com muita
rigidez o processo de escolha dos bispos na antigüidade.
Aos 17 de abril de 328, morreu o bispo S. Alexandre de Alexandria
(Egito). Aos 8 de junho do mesmo ano. foi sagrado seu sucessor S.
Atanásio. O historiador Sozómcno (séc. V) refere que Alexandre ago
nizante designou' seu sucessor; o povo cristáo o aprovou e os bispos
vizinhos o confirmaran!. — Por sua vez, Atanásio em 373, prestes a
morrer, designou ao povo e ao clero o seu sucessor : o presbítero
Gicon. Entrementes, porém, em 341 o Concilio de Antioquia (can. 23)
havia decretado o seguinte:
«Nao é licito a um bispo, <nem mesmo no termo de sua vida, ins
tituir e sagrar outro bispo (seu sucessor). Caso o faga, a designacáo

— 344 —
ELEICAO OU NOMEACAO DOS BISPOS ?

será nula. É preciso observar a lei eclesiástica segundo a qual um


bispo só pode ser instituido por conselho e alvitre dos bispos, os quais,
após a morte do predecessor, tém o dlreito de apresentar quem éles
julgarem dignos>.

Terá S. Atanásio em Alexandria ignorado éste canon, promulgado


em Antioquia ? Ou julgava S. Atanásio conformar-se a ele pelo fato
de nao nomear própriamente seu sucessor, mas apenas designá-lo
aos eleitores ?

Mais de urna vez, alias, se lé ñas Crónicas antigás que os bispos


designaram seus sucessores com o beneplácito do clero e dos fiéis ;
assim em 396 o bispo Valerio de Hipona (África) promoveu Agostinho
ao episcopado da cidade, com a aprovagáo dos demais bispos, do clero
e dos fiéis. Algo de análogo foi feito por S. Agostinho, que em 426
atribuiu ao presbítero Heráclio a sucessáo na sé de Hipona.

2) Do séc. VI ao séc X. A partir do séc. VI, na Franca,


os reis foram-se mais e mais imiscuindo na provisáo dos bis
pados. Já em meados désse século os respectivos direitos do
povo e do clero eram conculcados; o poder regio distribuía as
dioceses a seu bel-prazer, muitas vézes mesmo a troco de
dinheiro.
Os Concilios regionais levantaram protestos contra tal es
tado de coisas, condenando principalmente a simonia. Repri-
miam os abusos do poder civil na provisáo dos bispados; nao
excluiam, porém, toda e qualquer interven "áo do mesmo. Em
549, o Concilio de Orleáes (can. 10) reconheceu oficialmente
ao monarca o direito de ratificar a eleigáo.feita pelo clero e
o povo. Estipulou-se por essa época o seguinte trámite legal
para a instituicáo de um bispo:

a) eleicao pelo clero e o povo (nos termos mencionados


atrás); b) confirmacjío por parte do rei; c) sagreujüo episcopal
por parte do arcebispo metropolitano acompanhado dos bispos
provinciais.

Essa tentativa de satisfazer as pretensóes regias foi frus


trada, pois os monarcas foram cada vez mais exercendo sua
soberanía na provisáo das dioceses. No decorrer dos séc. VH
e VIH, mais de urna vez os sínodos regionais e o próprio Papa
pediram aos reis da Franca, respeitassem as leis canónicas;
firmavam-se acordos nesse sentido; em váo, porém. No séc.
VIII, os oficiáis do pago regio disputavam entre si os bispados,
como disputavam as brilhantes posigóes do reino; os mordomos
davam a seus subalternos as dioceses e as abadías como davam
vilas regias.

Carlos Martelo, por exemplo, doou a seu sobrinho Hugo as sés


de París, Bayeux e Ruáo; Milon, leigo, que estava de posse da sé

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«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 92/1967, qu. 3

de Tréviris, recebeu o bispado de Reims. As dioceses eram assim


acumuladas ñas mesmas máos, e máos de leigos !...

No séc. IX, as autoridades eclesiásticas reconheciam ao


rei o direito de. enviar um legado seu («missus dominicus»),
a fim de presidir as eleicóes episcopais (quando eram permi
tidas), reprimindo eventuais desordens. Aos poucos, porém,
desvirtuou-se a missáo désses legados, pois, em vez de garantir
simplesmente as eleicóes canónicas, passaram a promover os
candidatos favoritos da coroa.

O bispo Hincmaro, por exemplo, assim escrevia ao rei Luís III


(879-882);
«Ouvi dizer que, sempre que concedéis as eleigoes solicitadas, os
bispos, o clero e o povo sao obligados a escolher aquéle que Vos
queréis, aquéle que Vos impondes» (PL 126, 111).

Conseqüentemente, em fins do séc. IX, a situacáo era assaz


ambigua: em teoría eram o povo e o clero que elegiam os
bispos. Na prática, porém, os prelados eram escolhidos, direta
ou indiretamente, pelo alvitre do rei, que seguía criterios polí
ticos e pessoais.

A participaQáo dos bispos vizinhos na eleigáo dos prelados


extinguiu-se. Quanto á participacáo do clero, ela ainda era
reconhecida quando o rei concedía a realizado de eleicóes...
Reconhecida, porém, nos seguintes termos: os clérigos de zona
rural deixaram de ser convocados; e, dentre os de zona urbana,
apenas os da igreja catedral («canonici» ou cónegos) foram
sendo convocados. Assim a comunidade crista, que outrora in-
tervinha na escolha dos prelados, foi reduzida a pequeño grupo
de presbíteros, ao lado dos quais se assentavam alguns nobres
como eleitores; a essa diminuta assembléia o monarca podia
flacilmente manifestar suas preferencias e impor sua vontade.

Note-se ainda que no séc. EX, tendo entrado em vigor o


regime feudal na Europa, os senhores feudais desempenhavam,
ñas eleicóes dos bispos de seus territorios, o papel que os reís
exerciam outrora em todo o territorio nacional. O senhor se
cular conferia ao bispo a investidura com báculo e anel. isto é,
a posse da diocese. Tal estado de coisas, protraido por todo o
séc. X, ocasionou no séc. XI a

3) Reforma gregoriana (séc XI/XH). Nos séc. XI e


XII veriflcou-se enérgica luta dos Papas contra a investidura,
luta que terminou com o tratado de Worms (1122): os reis
e nobres renunciaram definitivamente a prover os bispados.

— 346 —
ELEICAO OU NOMEACAO DOS BISPOS ?

Conseqüentemente, no inicio do séc. XII a Igreja restau-


rou algo do antigo sistema eleitoral: numa grande assembléia
reuniam-se bispos, clérigos e nobres, frente aos quais o povo
fiel manifestava suas preferencias, postulava seu candidato e
aclamava o eleito.
Todavía muito efémera foi essa fase : os cónegos eram os
encarregados de pedir ao rei a licenga de proceder á eleigáo;
estipulavam o dia da eleicáo e convocayam os eleitores. Isto
os tornava os principáis fatóres da instituigáo do novo bispo.
Tal predominio transformou-se paulatinamente em monopolio:
a fim de evitar tumultos e rixas (as vézes, também a fim de
facilitar a promocáo de determinado candidato), os cónegos
foram deixando de convocar os demais membros das assem-
bléias eleitorais; assim os cabidos se tornaram os exclusivos
eleitores dos novos prelados. Houve protestos por parte dos
interessados ; mas os Papas foram fazendo concessóes que con-
firmaram ésse novo estado de coisas. No inicio do séc. Xiil,
o Concilio do Latráo IV (1215) reconheceu oficialmente aos
cónegos o privilegio de eleger os bispos.

Eis, porém, que também esta ordem de coisas teve breve


duragáo.

4) As «reservas» (séc. XIÜ/XIV). As divergencias sem-


pre possíveis em materia de eleigóes exigiam a intervengáo de
instancia superior nos cabidos das catedrais.

Um dos grandes motivos de impasses ñas eleicóes episcopais era


o criterio estabelecido pana se considerar um candidato eleito.
A votacáo nao era secreta. Quando os sufragios nao eram unáni
mes, nao se dava simplesmente ganho de causa á parte mais numerosa
dos eleitores, mas levavam-se em conta também as qualidades moráis
désses eleitores. O Direito exigía que a parte mais numerosa fósse
também a mais sadia ou idónea («pars sanior»). Caso a parte menor
fósse julgada moralmente mais sadia, criava-se urna situacao per-
plexa: certos juristas estipulavam que se lhe desse preferencia. —
Donde se vé que toda eleicáo nao unánime dava lugar a problema;
o júri tinha que confrontar nao sómente os sufragios, mas também
o zélo e os méritos dos eleitores.

Quando o arcebispo metropolitano tinha o direito de in-


tervir ñas eleigóes, competia-lhe fazer a arbitragem. Já, porém,
que ele perderá sua fungáo no decorrer dos séculos anteriores,
o bispo de Roma, exercendo sua antiga autoridade (cf.
pág. 344), passou a dirimir as contendas eleitorais; em muitos
casos, a fim de resolver urna situagáo embaragosa, o Sumo
Pontífice nomeava simplesmente o novo bispo. Esta praxe se
tornou ainda mais usual na segunda metade do séc. XIII, quando

— 347 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 92/1967, qu. 3

os Papas comesaram a reservar a si a provisáo dos bispados e


de outros cargos eclesiásticos. Sucessivamente, os Papas Cle
mente IV (1265-68), Gemente V (1305-14), Joáo XXH
(1316-34), Bento XH (1334-42), Urbano V (1362-70) corro-
boraram tal costume, estabelecendo finalmente, por lei, que
todas as sedes patriarcais, metropolitanas e episcopais teriam
seus titulares nomeados pelo Romano Pontífice.

5) Do séc. XV aos tempos atuais. A nomeacáo direta dos


bispos pelo Papa encontrou, por parte do poder regio, serios
obstáculos. No século XV, os reis na Europa tendiam a se
tornar cada vez mais absolutos ; o nacionalismo se afirmava
com insistencia crescente. Em conseqüénda, os monarcas viam
com certa amargura a intervengáo papal na provisáo das dio-
ceses e tudo faziam para entravá-la. Ñas cidades em que a
eleigáo do bispo competía aos cónegos da catedral, os reis nem
sempre concediam a necessária licenga de eleger o prelado ;
desaprovavam os candidatos eleitos que lhes fóssem desconhe-
cidos ou nao gratos; faziam saber a Roma o nome do candidato
«seguro e fiel», e lovantavam protestos contra as nomeacóes
feitas por Roma.
Consciente dos interésses dos monarcas no tocante á pro
visáo dos bispados, a Santa Sé no séc. XV assinou concordatas
com os reis da Franca, da Alemanha, da Italia, da Espanha e
da Inglaterra. Os soberanos civis preferiam á «reserva» papal
a eleigáo pelos cónegos, pois julgavam que mais fácilmente se
poderiam prevalecer desta . Assim é que as eleigóes pelo cabido
foram mantidas em varios lugares, as «reservas» papáis foram
diminuidas, e sistemas de mutuo acordó (em escala variada)
se estabeleceram entre o Papa e os reis. O Pontífice concedía
certos direitos ao poder civil, entre os quais o de indicar um
ou mais nomes de candidatos para cada bispado.

Tais concordatas se tornaram assaz freqüentes nos séc. XVIII e


XIX, abrangendo a Sardenha (1741), o Reino de Ñapóles (1818), a
Bavlera (1817), a Austria e a Hungría, Portugal, certos cantees da
Suica, a Rússia (1847), o Haiti (1861) o Equador (1862), o Perú.

No século XX a praxe se tornou a segulnte em alguns paises :


quando urna diocese se tornava vacante, o Chele de Estado apresen-
tava um candidato que satisfizesse As condicoes do Direito Canónico
(idade, estudos...); contudo nao era obrlgado a escolher o mais
digno. O candidato assim designado possuia doravante um verdadeiro
direito a ser nomeado bispo. A Santa Sé so lhe poderla recusar o
episcopado, caso tlvesse razOes canónicas para tanto. O Papa, por-
tanto, embora íósse solicitado, xiáo era obrigado a nomear quem lhe
parecesse indigno do cargo episcopal. A liberdade do Pontiíice, nesse
setor, fol geralmente reconhecida.

— 348 —
ELEICAO OU NOMEACAO DOS BISPOS ?

Em nossos dias, sao dois os sistemas adotados para a


provisáo dos bispados:

a) a eleigáo pelo cabido da catedral. Persiste esta praxe


em algumas poucas dioceses, entre as quais a de Salzburgo
(Austria). A eleigáo nao é definitiva antes que a Santa Sé
tenha aprovado o nome do eleito. Ñas dioceses de rito oriental
unidas a Roma, a eleigáo é feita pelo Sínodo diocesano e sub-
metida á aprovagáo da Santa Sé;

b) a nomeacao pelo Sumo Pontífice. Nos paises em que


há separagáo entre a Igreja e o Estado, a escolha feita pelo
Papa é livre de ingerencia do poder civil; após o Concilio do
Vaticano II, compete á Conferencia dos Bispos de cada nagáo
indicar á Santa Sé alguns nomes para a provisáo de cada
bispado.

Em certas paises vigoram concordatas segundo as quais o res


pectivo govérno civil tem o direito de apresentar á Santa Sé tres can
didatos de sua preferencia; o Sumo Pontífice, porém, pode escolher
fora de tal lista. Como Fe compreende, a Igreja tende a se emancipar
o mais possível de qualquer influencia meramente» política no sptor
das nomoagños do bispos.

2. Keflexao final

O breve percurso histórico que acaba de ser apresentado,


mostra que a eleigáo dos bispos nao é algo que destoe dos
principios e da praxe da Igreja.

Duas observagóes, porém, devem ser aquí consignadas:

1) nos casos em que as normas do Direito eram fielmente


aplicadas, nao era o povo cristáo quem própriamente elegía
seu bispo, mas, sim, o clero da diocese ou apenas os cónegos
da igreja catedral. Aos fiéis tocava indicar ou postular o seu
candidato e dar o consentimento ao nome do eleito. Verdade
é que freqüentemente a indicagáo feita pelo povo cristáo era
tida como sentenga decisiva ou como o alvitre do próprio Deus
(«vox populi, vox Dei», a voz do povo é a voz de Deus). Nem
o clero eleitor era o supremo arbitro na eleigáo : a sua es
colha devia ser confirmada pelos bispos vizinhos, que podiam
denegar aprovacáo e designar outro prelado para a diocese.
2) A partir do séc. VI, a ingerencia do poder civil oca-
sionou modificagóes profundas no sistema de escolha dos bis
pos : a cobiga e a simonía se verificaram, acarretando detri-

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«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 92/1967, qu. 4

mentó para o episcopado e o povo de Deus ; a liberdade de


eleger foi assim solapada ou extinta em numerosas dioceses.
Os Papas, a partir do séc. XI, tudo fizeram para recuperar a
liberdade da Igreja. Em conseqüéncia, passaram a vigorar a
chamada «reserva» e finalmente o sistema de momeagáo direta
dos bispos por parte do Pontífice Romano. Até o séc. XX,
porém, a Igreja teve que se acautelar contra as influencias
do poder civil na provisáo dos bispados.
Vé-se, pois, que foi o desenrolar mesmo da historia que
evidenciou a oportunidade de passar do sistema de eleicáo óu
aclamacáo para o de nomeacjio dos bispos. Como em varios
outros casos, também neste a historia se tomou mestra da
vida para a Igreja.
Do ponto de vista teológico, nada haveria a objetar contra
a restauragáo de certo sistema eleitoral para a provisáo dos
bispados. Dever-se-ia, porém, previamente ponderar: seria tal
passo realmente vantajoso para a Santa Igreja ? Seria lícito
passar por cima da ligáo dos séculos e proceder no século XX
como se procedía nos séculos IU./TV ?
Inegávelmente, a eleicáo dos bispos daría á S. Igreja urna
face acomodada á mentalidade de nossa época. Todavía os
inconvenientes acarretados aínda seriam de maior peso: os
perigos e males das campanhas eleitorais, as rixas e divisóes
daí decorrentes, a possivel praxe do subórno e da simonía, a
ingerencia de elementos náo-católicos, náo-religiosos ou mesmo
anta-religiosos nos pleitos eleitorais, a influencia de idéias
heterogéneas, políticas e interesseiras na escolha dos candi
datos, etc. E como se haveria de definir a lista dos eleitores,
de modo que só votassem as pessoas que realmente integram
o corpo visível da Igreja ?

IV. MORAL

BENEVENUTO (Belo Horizonte) :

4) «A obediencia tornou-se problema em nossos dias. Nao


repugna a dignidade da pessoa humana ?»

A ciencia e a cultura modernas valorizaram grandemente


a dignidade da pessoa humana. Em conseqüéncia, há quem
julgue que «obedecer» ou «submeter-se a ordem superior» equi
vale a degradar o homem. O menosprézo para com a obedién-

— 350 —
O SENTIDO DA OBEDIENCIA

cia é outrossim sugerido pelo fato de que vivemos numa época


de rápidas mudangas; em virtude destas, as ordens dos Su
periores nem sempre parecem levar em conta a situagáo con
creta em que vivem os súditos; daí o mal-estar que estes
experimentam quando intimados pela obediencia.

Abaixo procuraremos refletir sobre o problema, conside


rando : 1) a obediencia em geral; 2) a obediencia na Igreja ;
3) a obediencia na vida religiosa regular.

1. Ouvir a Deus

«Obedecer» vem do verbo latino oboedire, composto de


audire, ouvir.
Pela obediencia o homem ouve... Ouve o Criador. Pela
obediencia o homem reconhece que está envolvido numa ordem
de coisas, da qual nao é o autor nem o legislador,... ordem de
coisas instituida pelo Senhor Deus. Foi Deus quem dispós o
mundo e a existencia do homem na sociedade ; Ele houve por
bem fazer que os homens vivam uns com os outros, nao sim-
plesmente justapostos, mas postos em ordem harmoniosa, de
tal modo que Deus fala a uns mediante os outros. Conseqüen-
temente, o homem só se realiza se ele ausculta essa ordem
de coisas e lhe dá o seu pleno consentimento, o seu «sim»
voluntario e livre (= obediencia).
Recusar a obediencia, quando ela é exigida com justica, equivale
a encaminhar-se para o caos ; pois o caos tem origem quando o
homem se afasta de Deus e pretende emancipar-se do Criador.

Estas considerares levam a urna conclusáo de grande


importancia :

Obediencia só se entende plenamente sob a luz de Deus ou


por referencia ao Criador. Diz Sao Paulo: «Toda autoridade
(legitima) vem de Deus... Aquéle portante que se revolta
contra a autoridade, revolta-se contra a ordem estabelecida
por Deus... A autoridade é o ministro de Deus para o teu
bem» (Rom 13, ls.4).

«Obediencia leiga» é obediencia mal arquitetada; o homem' que


nao eré em Deus, será levado a indagar em certos casos por que deve
ouvir ura outro homem mais do que a si mesmo. A obediencia está
mesmo tao associada á idéia de Deus que é impossivel conceber crenca
em Deus sem obediencia.

O Senhor nao costuma falar aos homens diretamente


por Si. Manifesta as suas vias mediante a ordem da criagáo

— 351 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 92/1967, qu. 4

(ou as leis da natureza) e mediante as autoridades humanas


legítimamente constituidas.
Posta esta base geral, procuremos penetrar no ámbito da
obediencia religiosa crista.

?. Seguir o Cristo

1. A obediencia religiosa crista é a que se presta a Deus,


que na plenitude dos tempos falou aos homens por Jesús Cristo.
Cristo é a Palavra boa e definitiva do Pai Celeste. Ora
Cristo continua a viver e exprimir a sua mensagem na Igreja.
Esta nao é mero aglomerado de homens, mas é o Cristo vivo,
de tal modo que é impossível aceitar o Cristo sem aceitar a
Igreja. A Igreja é o Corpo de Cristo ou o Corpo da Palavra
de Deus (cf. Ef 1, 22 ; Col 1, 24). Conseqüentemente, o cristáo
sabe que, para ouvir a Deus, é preciso ouvir o Cristo e, para
ouvir o Cristo, é mister ouvir a Igreja.

Muito a propósito escreve o Pe. F. Durrwelh «A santidade crista


é urna santidade de obediencia,... nosso caminho de vida nao é sentó
urna ardente submissao a Deus na Igreja» («Saínteté chrétienne,
sainteté d'obéissance» em «Vic Spirituelle» 65 [1956] 259).

2. Esta afirmagáo pode ser ilustrada pela consideragáo


do que era o ideal de perfeigáo humana no mundo grego pré-
-cristáo.
Para o pagáo, a perfeigáo consistía nao em que o homem
se consagrasse á Divindade, mas em que procurasse atingir
de maneira autónoma o pleno desenvolvimento das suas facul-
dades mais nobres : a inteligencia e a yontade. Conseqüente
mente, dois eram os modelos de perfeigáo humana para os
gregos : o herói (lutador) e o sabio.

O hertfi era o homem que procurava tornar-se superior a todas


as adversidades; aspirava a ser impassivel, dentro de urna mentali-
dade auto-suficiente e soberba.
O sabio era aquéle que havia percebldo os grandes principios filo
sóficos que norteiam a vida humana e se esforcava por viver em
coníormidade com éles.
Ambos — o herói e o sabio — eram soberanamente livres ou
autónomos ; só obedeciam a si mesmos, ás aspiracSes que éles haviam
concebido e ás verdades que a sua razáo lhes dava a conhecer. Caso
o grego levasse o seu heroismo até padecer a morte, ¿le o fazia prin
cipalmente por fidelidade a si mesmo.

— 352 —
O SENTIDO DA OBEDIENCIA

Como se vé, o conceito cristáo de perfeicáo é nítidamente


diverso do conceito grego pagáo: o ideal do discípulo de Cristo
é «consagrar-se a Deus» e nao «fechar-se em sua autonomía».

3. Mais precisamente, o cristáo é chamado a ouvir a


Deus, imitando Cristo ou procurando identificar-se com Jesús
Cristo. Éste foi nao sómente o Portador da palavra do Pai,
mas também o perfeito Executor da mesma; Ele se fez obe
diente até a morte (cf. Flp 2,8), a fim de reparar, como Re
dentor ou segundo Adao, a obra do primeiro Adáo, que foi
desobediente a ponto de incorrer na morte.

«Ao entrar no mundo, disse Cristo : 'Eis que venho ó Deus


para fazer a Tua vontade'» (Hebr 10, 7).

Também afirmou Jesús : «O metí alimento é fazer a vontade da-


quele que me enviou, e realizar a sua obra» (Jo 4,34).

«Aquéle que me enviou, está comigo ; nao me deixou só porque


íaco sempre o que é do seu agrado» (Jo 8,29).

«Pai, se é do teu agrado, afasta de mim éste cálice. Faca-se, no


entanto, nao a mlnha vontade, mas a tua» (Le 22, 42).

O programa da vida de Cristo, resumido ñas palavras


ácima, há de ser o programa de todos os discípulos de Cristo;
a fidelidade que Jesús, como Homem ou como Irmáo mais
velho, tributou ao Pai Celeste, os cristáos procuram tributá-la
ao Senhor Jesús em sua Igreja.
Todavía a obediencia do cristáo á Igreja, pelo fato de
ser religiosa, nao é, por isto, urna obediencia mecánica, incons
ciente, ou um mero cumplimento de ordens. O discrpulo de
Cristo, obedecendo á Igreja, tem em vista entrar mais e mais
dentro da comunháo de vida e amor que o Corpo de Cristo
místico oferece; ele senté com a Igreja, vibra com Ela, a fim
de participar, táo largamente quanto possível, do Espirito que
a vivifica; ele sabe que a Igreja nao apenas mostra o caminho
da vida, mas dá participagáo na Vida, na vida eterna de Deus.
Em outros termos: o cristáo dedica á Igreja nao sómente
obediencia e respeito, mas também amor filial. A lei de Deus,
para o cristáo, deve aos poucos deixar de ser um roteiro ex
trínseco, para torjiar-se algo de inscrito em seu intimo; a
fidelidade a lei de Deus e da Igreja deve proceder da sua
alma como, no plano biológico, déla procedem os atos de res
pirar, comer, repousar. Estes sao obligatorios para quem quer
viver a sua vida natural; os homens, porém, nao os realizam
por serem obligatorios, mas porque desejam viver...

— 353 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 92/1967, qu. 4

Estas ponderales dáo a ver que o cristáo coerente com o seu


titulo religioso aceita generosamente a íé da S. Igreja, assim como
a sua orientacáo no tocante á explicacáo das verdades dogmáticas e
á exegese das Escrituras Sagradas. Guarda reserva perante propó-
sicóes novas que o Magisterio nao abone. O bom cristáo segué tam-
bém as normas da Igreja nos setores da Moral, da Liturgia, da Dou-
trina Social...

Deve-se dizer, numa lúcida visáo de íé, independentemente de


qualquer corrente de pensamento (tradicional ou progressista): mais
vivera de Cristo aquéle que mais se identificar com o espirito de
Cristo ou com a mente da Igreja (na qual Cristo vive). A casuística
e o minimalismo em materia de adesáo á Igreja sao verdadeiros can
cros da vida espiritual e da santificacáo das almas; sao incoeréncias
que impedem a expansáo da graca e a acáo do Espirito Santo no
intimo dos cristáos.

Nótese que o sentir com a Igreja assim proposto nao infantiliza


nem impede o uso da inteligencia e da vontade, como a própria fé
nao infantiliza; é um obsequio prestado a Deas, obsequio do qual se
pode dizer: «Servir a Deus é reinar». Ha ja vista o que no decorrer
das páginas seguintes ainda será dito.

4. Inegávelmente, a obediencia crista supóe humildade,


humildade, porém, que eleva e engrandece, conforme S.
Agostinho:

«A humildade dá ao coracáo urna direcáo que sobe. A exaltacáo


de si faz descer o coragáo. Parece contnaditório que o orgulho se
dirija para baixo e a humildade para o alto. A santa humildade ensina
a submissao Aquele que é mais alto. Ora ninguém é mais alto do que
Deus. Eis por que a humildade, que submete a Deus, elevas («De
civitate Dei» XV 13).

O homem, seguindo a Deus (ainda que seja o Deus encar


nado) só se pode elevar.

5. Os Superiores muito podem contribuir para que a obe


diencia dos súditos seja nobre e realmente digna do ser humano.
Lembrem-se de que dáo suas ordens a seres inteligentes, que
devem mobilizar sua inteligencia e sua vontade no ato de obe
decer; é oportuno, portanto, que motivem a obediencia, indi
cando, na medida do possível, as razóes de seus preceitos; pro-
curem despertar a compreensáo e a vontade dos súditos para
o programa a ser executado, de modo que estes o abracem de
maneira esclarecida e amorosa.

A fim de obter tal obediencia, pode ser útil o diálogo.


Nem sempre os Superiores podem estar exatamente a par
das situacóes em que se acham os súditos, e das dificuldades
por que passam ; é oportuno, portanto, que ougam os subal
ternos, permitindo que manifestem o que pensam. Os súditos,

— 354 —
O SENTIDO DA OBEDIENCIA

em espirito filial, proporáo seus problemas e suas experiencias,


tendo em vista o maior brilho do Reino de Deus. A obediencia
sem diálogo pode, em certos casos, redundar em servilismo;
reciprocamente, o diálogo sem obediencia resulta em violacjío
da ordém estabelecida por Deus e em rebeldia. Como se com-
preende, a última palavra do diálogo tocará ao Superior que,
segundo a fé, representa o próprio Cristo. A autoridade na
Igreja nao pode ser comparada á de urna democracia : os Su
periores eclesiásticos nao recebem dos fiéis o encargo de go-
vernar a Igreja, nao sao delegados do povo fiel, mas a sua
autoridade lhes vem diretamente de Deus (o que néio quer
dizer que possa ser arbitraria ou independente do modo de
pensar dos fiéis).

Deus pode, por meio da obediencia, pedir sacrificios como o de


Abraáo ; a éste Patriarca Javé mandou que imolasse seu único íilho
Isaque, dado por Deus em circunstancias extraordinarias. Para Isnque
convergiam todas as esperancas do velho pai; Abraáo terá sentido
a dor da renuncia, mas, consciente de que lhe falara o Senhor, a quem
nada se pode negar, dispós-se a executar fielmente a ordem; ele
sabia, diz o autor sagrado em Hebr 11,19, que Deus é capaz de sus
citar dos mortos os vivos. — A fé e a íidelidade de Abraáo se tor-
naram paradigma para todos os membros do povo de Deus.

Embora o súdito esteja certo de ter melhor alvitre do que


o Superior, a fé lhe pedirá que obedega (a menos que se trate
de urna ordem abertamente contraria á Lei de Deus). O valor-
da obediencia nao deve ser apreciado simplesmente segundo
criterios racionáis ou técnicos; a obediencia crista nao é um
mero meio de organizar os homens e assim obter maior pro-
dutividade no trabalho e nos empreendimentos. Ela é algo mais
do que isso: é a imitaeáo de Cristo, que pela cruz remiu o
mundo ; é iluminada pela fé ; pode ter algo da aparente «lou-
cura» que, conforme S. Paulo (1 Cor 3,18), marca a vida de
fé auténticamente vivida.

É claro, porém, que Superiores e súditos devem fazer todo


o possivel para que a obediencia nao acarrete conflitos e para
que as ordens dadas sejam consentáneas com a lógica e com
um plano de trabalho inteligente.

6. Dado que o súdito esteja colocado diante de urna or


dem evidentemente iniqua, o seu problema nao se formulará
nos termos: «Obedecer ou nao obedecer?» mas, sim, no dilema:
«Obedecer a Deus na pessoa dos Superiores ou obedecer a
vcntade manifesta de Deus resistindo á vontade desregrada
dos Superiores ?» Em verdade, «mais vale obedecer a Deus
do que aos homens» (At 5,29).

— 355 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 92/1967, qu. 4

O genuino espirito cristáo é outrossim avésso á crítica precon


cebida ou ao que se chamaría «a mania de criticar». A critica pode
ás vézes aparecer como a atitude mais esclarecida ou mais sabia;
criase entáo a moda de criticar, num ar saturado e envenenado, o
que é de todo contrario ao pensamento de Cristo.

Resta agora considerar

3. A obediencia regular

1. Entre as diversas vocacóes que Deus distribuí aos


homens, encontra-se a da vida religiosa regular. Nesta o cristáo
se destina a seguir nao sómente os mandamentos da Lei de
Deus, mas também os conselhos evangélicos (pobreza, casti-
dade e obediencia), a fim de imitar mais de perto o Cristo
Jesús.
Pela obediencia na vida religiosa, a criatura entrega a
Deus o que ela tem de mais precioso, isto é, a vontade própria.
Aínda que renuncie aos bens materiais déste mundo, ainda
que renuncie ao amor conjugal, o ser humano conserva sempre
a tendencia á independencia pessoal, ou a auto-afirmagáo;
éste é o instinto mais profundo do nosso ser.
A profissüo de obediencia é plenamente justificada pelo desejo
que alguém possa ter, de nao pertencer mais a si mesmo, mas de
se consagrar totalmente a Deus. É justificada também pelo desejo
de evitar os erros que a vontade própria, sempre sujeita ao egoísmo
e á vaidade, possa cometer no caminho para Deus ; as almas retas,
ávidas de nao perder tempo na estrada da vida eterna, colocam-se
numa «escola de servigo divino» (cf. Regra de S. Bento, prólogo);
nesta a palavra de Deus, transmitida pelos mestres da vida espiritual,
Ihes indica um roteiro preciso para viver mais intensamente de Deus
e para Deus.

Justamente por ser táo nobre, o voto de obediencia é


também o mais difícil dos compromissos religiosos. Mais do
que os outros votos, ele só pode ser entendido e praticado na fé.

2. A obediencia religiosa regular aplica-se tudo que atrás


foi dito sobre a obediencia na Igreja em geral. É preciso, porém,
considerar urna objecáo particular que se faz contra a obe
diencia regular:

«Renunciando á própria autonomía nao sómente diante do pe


cado, mas também diante das coisas licitas, o Religioso extingue a
sua liberdade e, por conseguinte, destrói a sua personalidade !»

Em resposta, deve-se^ antes do mais, frisar que nao há


antagonismo entre obediencia religiosa e liberdade. Liberdade
sem lei e sem obediencia só existe em Deus ; sómente Deus é

— 356 —
O SENTIDO DA OBEDIENCIA

autónomo no sentido pleno da palavra, porque apenas Deus é


o Ser Incriado, ao qual nenhum é anterior e do qual todos sao
dependentes. Cada criatura foi concebida por Deus e para
Deus; por conseguinte, ela tem que voltar para Deus, sob pena
de nao se realizar ou de se desfigurar. Ao homem Deus quis
dar a liberdade para que ele enverede por ésse caminho de
volta nao como os autómatas, mas como um ser consciente,
que reconhece e quer generosamente a sua perfeigáo. A liber
dade humana nao sómente nao exclui a obediencia que leva a
Deus, mas, ao contrario, ela a exige.
Os Religiosos, conscientes disto, optam por urna regra de
vida que os leve mais certeiramente ao Senhor. A sua opcJLo
é livre (nem Deus nem os homens a impóem); ela se segué
a urna reflexáo e a urna deliberacáo em que toda a personali-
dade (com inteligencia e vontade) se empenham. Depois que
livremente professaram ouvir a Deus na pessoa de um Supe
rior, tudo que os Religiosos fazem por obediencia é a reafir-
macáo da sua livre profissáo ; obedecem porque livremente
escolheram a via da obediencia, e nao por constrangimento ;
a sua obediencia é toda penetrada pela liberdade.

Para obedecer verdaderamente, o Religioso tem que mobilizar,


em cada um de seus atos, inteligencia, vontade e íé, enfim toda a
sua personaliúade ; ás vdzes ele emprega jiísso um heroísmo e urna
fórga de vontade que se podem comparar aos das grandes persona
lidades da historia. Realizar fielmente,o ideal da vida religiosa até
o tim da vida é totalmente incompativel com mediocridad^ ou falta
da personalidade.

Ademáis note-se o seguinte: todo homem que aspira a


um ideal na vida, tem que renunciar nao á sua liberdade, mas
a certos setores da sua liberdade. Assim quem se casa, reduz
a sua liberdade de amar (sem, porém, reduzir o seu amor).
Quem empreende um negocio, renuncia á liberdade de rea
lizar outros incompatíveis com ésse. Quem escolhe urna car-
reira ou profissáo, exclui todas as outras. Quem fixa residencia,
priva-se de viver em outros lugares. Todo homem efetua livre
mente tais reduces de sua liberdade, a fim de conseguir desa-
brochar-se plenamente em seu ideal. Ora também os Religio
sos fazem a limitacáo de sua liberdade; fazem-na, porémj de
maneira mais estrita; renunciam até á vontade própria, a fim
de se identificar melhor com a vontade de Deus ou levar toda
a sua personalidade diretamente e em cheio para Deus. A fim
de melhor assegurar o pleno e puro amor a Deus, abdicam
livremente de tudo que possa dificultar ésse amor.

— 357 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 92/1967, qu. 5

Diz a propósito S. Tomás de Aquino:

«Assim como nao diminuí a liberdade o fato de nao poder pecar,


tampouco a diminuí o fato de se fixar no bem, como se vé em Deus
e nos bem-aventurados. Dessa índole é a necessidade contraída pelo
voto; ela tem semelhanca com a coníirmacao dos bem-aventurados
no bem. Por isto diz S. Agostinho : 'Feliz a necessidade que nos
impele ao que é melhor!'» (S. Teol. II/II 88, 4, ad 1).
Tais consideraeóes permitem concluir que a obediencia
religiosa está longe de diminuir ou extinguir a personalidade.
Tenha-se em vista a «lei do progresso da personalidade», muito
sabiamente enunciada pelo Pe. Garrigou-Lagrange: «A perso
nalidade é tanto mais perfeita quanto mais domina as coisas
inferiores e mais intimamente depende de Deus» («De Christo
Salvatore». Turim 1945, 96).
Éste ideal se realizou em grau perfeito na santíssima
humanidade de Cristo. Ele é proposto a todos os cristáos e,
em particular, a todos os Religiosos.

V. HISTORIA DO CRISTIANISMO

MARIO (Sao Paulo) :

5) «Que significa a Rosa de Ouro que o S. Padre


Paulo VI oferecerá ao Brasil no dia 15 de agosto pf. ?»

As páginas que se seguem, procuraráo explanar o sentido


da dádiva do Sumo Pontífice ao Brasil, tecendo primeiramente
breve esbóco histórico da «Rosa de Ouro».

1. Percurso histórico

1. As origens mais remotas da Rosa de Ouro devem ser


procuradas na Cidade Santa de Jerusalém.
Ai, no sábado anterior ao domingo de Ramos, comemo-
rava-se desde o sáculo IV o gesto de María de Betánia relatado
por Jo 12, 3 : a irmá de Lázaro ungiu os pés de Jesús com
bálsamo perfumado pouco antes que o Senhor iniciasse a sua
dolorosa paixáo.

2. Éste costume passou para Roma. Na Cidade Eterna,


a partir do séc. IV, fazia-se no domingo de Ramos a adoragáo
da Santa Cruz (isto é, a adoragáo do Senhor, o Divino Cru
cificado) .

— 358 —
A «ROSA DE OURO>

Em procissáo, era levado um fragmento do Santo Lenho


pelas rúas de Roma; á frente da sagrada reliquia da Cruz de
Cristo, caminhava o Papa descaigo, trazendo ñas máos um
vaso de bálsamo perfumado (que lembrava o bálsamo derra
mado por María sobre Jesús). A procissáo terminava na igreja
da Santa Cruz dita «de Jerusalém»; ai o Pontífice ungía o
Santo Lenho, símbolo de Cristo, reproduzindo assim o feito de
Maria de Betánia. A seguir, a preciosa reliquia era apresen-
tada ao ósculo dos fiéis.
O escritor romano Pllnio (t 79 d.C.) refere que nos dias de íesta*
os soldados romanos derramavam perfumes sobre «as águlas e os
estandartes, empoeirados e guardados por maos valentes» (Hist. nat.
1 XIII c. IV). Este costume antigo, juntamente com a passagem do
Evangelho (Jo 12,3), ilustra de certo modo a uncáo da cruz ácima
mencionada. A cruz era, para os cristáos, o estandarte triunfal por
excelencia ; simboliza a Vitoria de Cristo sobre a morte ; diante déla
o Imperador Constantino Magno e sua corte iam inclinar-se antes de
empreender suas campanhas militares.

3. Com o decurso do tempo, a ungáo da Santa Cruz se


modificou na Liturgia de Roma.
Em vez de ser celebrada no domingo de Ramos, passou a
ter lugar no terceiro domingo antes de Páscoa, domingo em
que a Liturgia era oficiada pelo Papa na igreja «da Santa Cruz
de Jerusalém» em Roma.
Outra importante modificacáo ñas circunstancias da ceri-
mónia foi a seguinte: o vaso que continha bálsamo odorífero
cedeu o lugar a urna Rosa de ouro, dentro da qual se colocava
almíscar, perfume muito estimado no Oriente; com o almíscar
misturavam-se outros licores aromáticos. A rosa, portante,
veio a ser o substitutivo do antigo vaso de ungüento per
fumado.
Nao é raro, alias, ainda em nossos dias que vidros de perfume
tenham a forma de flor (rosa ou alcachofra); a flor costuma derra
mar bom odor; ademáis os perfumes sao geralmente confeccionados
com flores.
Note-se também que o uso de flores artificiáis era corrente entre
os antigos romanos. O naturalista Pllnio referese a flores de ouro
macico e perfumado; diz outrossim que a c6r da rosa era o vermelho.
Compreende-se entao que os cristSos tenham associado á rosa, flor
da cor do sangue, o conceito de martirio; ela se tornou, entre, os
antigos fiéis, o símbolo dos mártires e, por conseguinte, do' Mártir
por excelencia, Jesús Cristo (a rosa aparece entre os emblemas encon
trados ñas catacumbas, antigos cemitérios, onde os mártires e outros
cristáos eram sepultados).
Vé-se assim que a rosa era bem apropriada a homenagem que a
Liturgia prestava ao Divino Crucificado no dia comemorativo da
sua Paixao.

_ 359 _
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 92/1967, qu. 5

No domingo de Ramos, portante, o Papa levava para a


igreja da Santa Cruz etn Roma urna Rosa de ouro e perfumes;
durante a solenidade litúrgica que se seguía, misturava tais
perfumes dentro da Rosa de ouro e oferecia ésses dons pre
ciosos ao Divino Crucificado. Ao terminar o Oficio religioso,
saia da igreja, levando consigo a Rosa. Nao a guardava, porém;
entregava-a, como presente, a algum grande personagem:
muitas vézes, era o Prefeito de Roma, representante do Im
perador, que o Pontífice assim agraciava; éste magistrado ro-
jnano haveria de trocar em dinheiro táo valiosa oferta, e assim
provena as necessidades da cidade e de seus habitantes mais
indigentes.

4. Aos poucos, a Rosa foi sendo doada também a prín


cipes, nobres e outras personalidades. Éste novo costume se
explica pelo fato de que por vézes. o Sumo Pontífice, estando
em viagem ou em provisorio exilio, celebrava o Oficio litúrgico
do terceiro domingo antes de Páscoa fora de Roma. Ao termi
nar entáo a funcjio, o Papa presenteava com o precioso objeto
o magistrado mais importante do lugar.
A primeira noticia que se tem de um nobre agraciado com
a Rosa de ouro fora da Italia, data de 1096; o Papa Urbano II
achava-se na cidade de Angers (Franca) durante a pregagáo
da primeira Cruzada; celebrou a Missa na basílica de S. Mar-
tiriho de Tours; após o que, consignou a Rosa de ouro ao
Conde Fulco IV de Anjou, que lhe prestara válido apoio para
a Cruzada destinada a libertar os lugares santos da Palestina.

Nao se pode assinalar com precisáo a época etn que o vaso de


perfumes da Liturgia tomou a forma de rosa. A noticia mais antiga
que a historia registra a respeito, é do ano de 1049: o Papa S.
Leáo IX, entáo, atribuiu ás monjas do Mosteiro de S. Cruz de Tulle
na Alsácia o encargo de lhe fornecerem anualmente a Rosa de ouro
ou ao menos a materia da mesma. O documento que o atesta, dá a
entender que a cerimónia religiosa da Rosa nao era algo de novo nos
costumes da S. Igreja.

O círculo de destinatarios da Rosa de ouro muito se alar-


gou no período que os Papas passaram em Avinháo (1309-1376).
O Pontífice dóava entáo a Rosa aos principes, nobres e cruza
dos que se distínguissem por sua benemerencia junto á Santa
Sé; ofertava-a também por ocasiáo de nupcias ou de nasci-
mento ñas familias de grande vulto; cidades, santuarios, mos-
teiros podiam igualmente ser contemplados com tal presente.
A Rosa de ouro tomou-se assim o sinal de amizade e benevo
lencia do Pontífice ou também um instrumento de diplomacia;

— 360 —
A «ROSA DE OURO»

em conseqüéncia, o Cerimonial pontificio prescrevia que o Papa


consultasse os Cardeais antes de escolher o destinatario de táo
insigne distingáo.
Nao faltava, pprém, ao gesto de doacáo da Rosa urna nota
piedosa: a flor rubra devia significar a Paixáo do Senhor e
lembrava um compromisso ao respectivo donatario... Assiift,
por exemplo, em 1148 o Papa Eugenio m enviou o valioso
presente ao Rei Afonso de Castela, juntamente com urna carta,
em que dizia ao monarca :
«Como prova de Nossa benevolencia e Nosso favor para convosco.
houvemos por bem mandar á Vossa Serenidade a Rosa de ouro,...
sinal da Paixáo e da Ressurreicáo de Nosso Senhor Jesús Cristo. Inci
tado pela recordacáo dessa Rosa, procurareis, com o auxilio do Senhor,
completar em vosso corpo o que falta á Paixáo do Senhpr ; assim
reconfortado pela sua clemencia, haveis de chegar á glórja da res-
surreigáo».

Varios outros documentos da Idade Media explanam o


sentido simbólico da Rosa, relacionando-a sempre com a Paixáo
do Senhor.

5. Nao se pode reconstituir na integra a lista dos dona


tarios da Rosa de ouro através dos sáculos, pois a documenta-
gáo hoje em dia existente é Iacunosa. Abaixo, porém, váo assi-
nalados alguns dos grandes destinatarios do presente pontificio:

Em 1163, Sao Luis, rei da Franca, cognominado por isso «o Florido»


(Florus). Nesse ano foi lancada a pedra fundamental da catedral de
Notre-Dame de Paris pelo Papa Alexandre ni, que se retirara para
a Franga. O rei fóra educado na escola claustral de Notre-Dame.
Em 1177, Sebastiáo Ziani, doge de Veneza. O Papa Alexandre III
se refugiara nesta cidade. onde concluiu com o Imperador Frederico I
da Alemanha a Paz de Veneza.
Em 1227, Raimundo Orsini, destemido militante das Cruzadas,
sob o Papa Gregorio IX.
Em 1304, a igreja de S. Estéváo de Perúsia, sendo Papa Bento XI.
13??, Carlos IV, rei da Franca, sendo Pontífice Clemente V.
Em 1368, a rainha Joana de Ñapóles, agraciada pelo Papa Ur
bano V.
Em 1394, um infante (Henrique ?) de Portugal, nascido nesse
ano, sob o Papa Bento XIII.
Em 1419, a cidade de Florenga, sob Martinho V.
Em 1427, a basílica de S. Pedro em Roma, sob Martinho V.
Em 1452, Frederico IV, Imperador do Ocidente, e Eleonora de
Portugal, Imperatriz, após a sua coroacao.
Em 1505, Alexandre I, rei da Polonia, sob o Papa Julio n.
Em 1509, Maximiliano I, Imperador do Ocidente, sob Julio II.

— 361 — v
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 92/1967, qu. 5

Em 1548, Catarina de Mediéis, rainha de Franca, esposa de Hen-


rique II, sob o Papa Paulo III.
Em 1601, a Casa Santa de Loreto, sob Clemente VIII.
Em 1625, Henriqueta María de Bourbon, rainha da Inglaterra,
esposa de Carlos I, sob Urbano VIII.
Em 1684, Maria Casimira, rainha da Polonia, em reconhecimento
da Vitoria de Viena (1683), sob Inocencio XI.
Em 1739, Maria Teresa da Austria, íilha do Imperador Carlos VI
da Austria, sob Clemente XII.
Em 1770 e 1774, a igreja de Santo Antonio dos Portugueses, sob
Clemente XIV.
Em 1791, Maria Carolina da Austria, esposa de Ferdinando IV,
rei das Duas-Sicílias, sob Pío VI.
Em 18??, a igreja de Nossa Senhora de Galloro, na Espanha,
sob Pío VII.
Em 1833, a igreja patriarcal de S. Marcos, de Veneza, sob Gre
gorio XVI.
Em 1842, Maria-Pia da Savoia, futura rainha de Portugal, sob
Gregorio XVI.
Em 1877, a basílica de Nossa Senhora de Lourdes, sob Pió IX.
. Em 18??, Miss Mary-Gwendoline Caldwell, que doara 300.000
dólares á recém-fundada Universidade Católica de Washington. Tes-
temunho de gratidáo de Leáo XIII.
Em 1888, D. Isabel, princesa imperial do Brasil, condessa d'Eu,
sob LeSo XIII.
Em 1892, D. Maria Amelia, rainha de Portugal, esposa de Carlos I,
sob Le&o XIII.
Em 1923, Victoria, rainha da-Espanha, esposa de Aíonso Xin,
sob Pió XI.
Em 1925, Elisabete, rainha da Bélgica, esposa do rei Alberto I,
sob Pió XI.

O último personagem masculino que recebeu a Rosa de


ouro, foi o doge de Veneza Francisco Loredan; Clemente XIII
Iha doou em 1759. De entáo por diante, o presente papal foi
reservado as rainhas e princesas, excetuando-se apenas algu-
mas igrejas, Sob Pió X (1903-1914) e Bento XV (1914-1922),
foi interrompida a tradicáo da Rosa de ouro, que Pió XI res-
taurou oportunamente.
Por toda a Idade Media, nao há, nos documentos respecti
vos, mencáo de béncáo da Rosa de ouro, o que, alias, é estranho
e insólito. Os primeiros testemunhos déste rito datam do
séc, XV.

% O significado para o Brasil

Chegou a vez, para o Brasil, de receber a Rosa de ouro,


dedicada ao santuario de Nossa Senhora Aparecida. No quarto

— 362 —
A «ROSA DE OURO>

domingo da Quaresma de 1967, dia 5 de margo, foi benta pelo


S. Padre Paulo VI e destinada a ser trazida ao Brasil pelo
Cardeal Secretario de Estado D. -Amleto Cicognani, no dia 15
de agosto do corrente ano.

O próprio Pontífice exprimiu o sentido que atribuía a tal


designio, na alocugáo abaixo, proferida logo após a béngáo do
valioso dom :

«Senhor Cardeal,

Queridos filhos do Brasil,

Acabamos de benzer a Rosa de Ouro, destinada ao Santuario de


Nossa Senhora Aparecida, e temos agora a imensa satisfacáo de
dirigir urna palavra' ao dileto povo brasiléiro, aqui táo distintamente
representado.

Esta Rosa de Ouro, cuja concessáo ao Santuario de Aparecida


pessoalmente anunciamos ao Presidente elelto do Brasil Marechal
Arthur da Costa e Silva, quando da visita que ele Nos quis fiazer em
Janeiro passado, e que o Nosso estimado Secretario de Estado, Cardeal
Amleto Giovanni Cicognani, levará a seu destino como Nosso Legado,.
é um simbolo permanente do grande amor que o Papa vos consagra.
Dizei a todos os brasileiros, Senhor Cardeal, que esta flor é a expressáo
mais espontánea do aíeto que temos por ésse grande povo que nasceu
sob o signo da Cruz. No Santuario de Nossa Senhora Aparecida, elá
dará testemunho de Nossa constante oracáo á Virgem Santissima
para que interceda junto do Seu Fllho pelo progresso espiritual e
material do Brasil.

Nos conhecemos muito bem, queridos filhos, o vosso amor á


Máe do Céu. Seguimos bem de perto a campanha pela reza do terco
em familia, levada a efeito através de todos os melos de informacáo.
Os lacos sagrados do matrimonio, fonte fecunda de um amor perene,
sao assim sublimados pela oracáo no lar... Que Nossa Senhora seja
sempre a vossa guia !
Desejariamos ainda recomendar-vos urna coisa: nunca separéis
Nossa Senhora de Cristo. Nao se compreende a Máe sem o Filfro. Os
privilegios de Maria Santissima vém-lhe de Jesús. Ela é como a lúa:
se o sol se apaga, nao a veremos mais. Se, porém, os ralos do sol
Ihe batem, entáo se ilumina. O culto de Maria é um culto introdutivo:
vamos a Maria para chegar a Jesús. Amando Nossa Senhora, déste
modo, poderemos compreendé-Ia na sua real grandeza e, através déla,
chegaremos a Cristo Filho de Deus.
Que o nome bendito de Nossa Senhora Aparecida esteja sempre
em vossos coracóes, como sinal seguro dos vossos passos no caminho
ensinado por Jesús !
Pedindolhe que assista sempre ao Nosso estimado Cardeal de.
Aparecida, aos Cardeais e ao Episcopado, ao Senhor Bispo de Bauru,
Dom Vicente Marchettl Zioni, aqui presente, representando o Cardeal
Motta e a sua dileta Arquidiocese de Aparecida, ao Clero e ás Familias
religiosas e seculares, ao representante oficial do govérno brasiléiro

— 363 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 92/1967, qu. 5

junto á Nossa Sé, Embaixador Enrique Souza Gomes e á colonia


brasilelra que reside nesta alma cidade de Roma, e a todos vos,
queridos filhos do Brasil, com o coragáo cheio de alegría vos conce
demos urna especialíssima Béncáo Apostólica».

Para a fé católica, a Rosa de Ouro é, pois, um sinal da


benevolencia do Santo Padre para com o Brasil e um teste-
munho de sua confianga nos fiéis desta jiagáo. Ao mesmo tempo,
corrobora os lagos de piedade filial do povo brasileiro á S.
Igreja, cujo Chefe visivel é o sucessor de Pedro, bispo de Roma.

O Santo Padre, com seu gesto, quis também incutir o


sentido profundo da devogáo do povo brasileiro á sua insigne
Padroeira, Nossa Senhora Aparecida: há de ser urna devo?áo
cristocéntrica, á qual a Santa Máe de Deus nao poderá deixar
de responder, impetrando de seu Divino Filho as melhores
gragas espirituais para esta térra de Santa Cruz.

CORRESPONDENCIA MIÚDA

F.A.P. : Grato por sua benévola carta e pela sugestáo do oportuno


tema. Concordamos plenamente com a posigáo de V.S. Prepararemos
resposta sobre o assunto, se Deus quiser.

AMIGO DO BEM (Nova Iguagn) : Agradecemos a carta de V.S.


com sua interessante documentagáo. Nos próximos números publicaremos
dois artigos sobre a veste e seu significado segundo a Biblia ; projetaváo
luz sobre o problema, corroborando a posicáo do amigo.

D. Estcvao Bettencourt O. S. B.

— 364 —
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postal 2660 TeL . 26-1822
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