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A EDUCAÇÃO FÍSICA E O IDEÁRIO DE PROMOÇÃO DA SAÚDE NA CONTEMPORANEIDADE: ESTRATÉGIAS DE CONTROLE

A EDUCAÇÃO FÍSICA E O IDEÁRIO DE PROMOÇÃO DA SAÚDE NA CONTEMPORANEIDADE: ESTRATÉGIAS DE CONTROLE DO CORPO

Roberta Jardim Coube Felipe Lameu dos Santos Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro UFRRJ belcoube@hotmail.com

Resumo

Este texto procura, de maneira introdutória, identificar as possíveis ressignificações do ideário do movimento higienista (a vulgarização de hábitos saudáveis), a partir da leitura das propostas de alguns autores ligados à Educação Física e áreas médicas. Buscamos analisar como eles concebem a educação física e sua relação com a promoção da saúde e ao combate dos males da vida contemporânea, os quais aumentam a predisposição de doenças crônico- degenerativas. Defendemos a tese de que o movimento Higienista ainda está presente na Educação Física brasileira, mas com um caráter “novo” (“novo higienismo”) e continua buscando os mesmos ideais de combate aos hábitos ditos não saudáveis, com o objetivo de manter e promover a saúde individual e coletiva. A ideia de que um povo educado e com saúde é a principal riqueza da nação chega com força a nossos dias e ainda aglomera em torno de si forças que se sentem progressistas (Gois Junior e Lovisolo, 2003). Utilizamos a leitura foucaultiana acerca da questão do corpo e da ação dos dispositivos do poder disciplinar sobre o mesmo. Há, na contemporaneidade, estratégias de controle do corpo contidas tanto na Educação Física quanto no ideário de promoção da saúde, que influenciam as visões de professores e alunos da área e a sociedade como um todo.

Palavras-chave: corpo, saúde, poder disciplinar

Introdução Não há dúvidas da importância de discutirmos temas relacionados às inúmeras questões referentes ao

Introdução

Não há dúvidas da importância de discutirmos temas relacionados às inúmeras questões referentes ao corpo, à corporeidade nos cursos de Educação Física, intentando problematizar e ampliar o olhar do professor em formação com o fim de compreender que as discussões/situações do mundo do trabalho possuem relação intrínseca com sua intervenção pedagógica, além de entender também em quais condições ele foi/é educado. Eis o antigo e igualmente atual assunto sempre em cena de que é premente indagar quem educa o educador e que tipo de sociedade é construída e constrói o mesmo. Na contemporaneidade o cuidado com a saúde vem sendo atrelado à individualização da responsabilidade dos sujeitos. Nesse contexto, a educação física apropria-se do mesmo discurso. Parece-nos viável analisar tal questão a partir de uma perspectiva foucaultiana, entendendo a intervenção da ginástica (inclusa a modalidade laboral) como um modo de docilizar o corpo tornando ao mesmo tempo útil e subserviente. Enquanto a empresa possui como objetivo principal fazer o trabalhador suportar o esforço decorrente da jornada de labuta na cadeia produtiva; o Estado e suas políticas públicas em saúde visam transferir para esse mesmo trabalhador a responsabilidade de manter hábitos de vida saudáveis. Assim, tendo em vista a importância que o corpo adquire no modo de produção capitalista, será ele o foco que privilegiaremos a partir do ponto de vista marxista que apesar de ressaltar a significativa dominação dos corpos existente na sociedade industrial, como defendia também o filósofo Michel Foucault, subordina os processos de mudança histórica das condições econômicas e políticas a uma nova concepção de sujeito, onde o homo faber não pode ser dissociado do homo intelectus. As relações de trabalho no sistema capitalista são engendradas de forma a intensificar as mazelas corporais na medida em que o trabalhador não deve refutar as condições impostas pelo empregador. No intuito de identificar as possíveis ressignificações do ideário do movimento higienista (a vulgarização de hábitos saudáveis), a partir da leitura das propostas de alguns autores ligados à educação física e áreas médicas, buscamos analisar como eles concebem a educação física e sua relação com a promoção da saúde e ao combate dos males da vida contemporânea, os quais aumentam a predisposição de doenças crônico- degenerativas.

Educação Física e o “novo higienismo”

A palavra de ordem é “livrar - se”, livrar -se dos excessos da alimentação, dos

A palavra de ordem é “livrar-se”, livrar-se dos excessos da alimentação, dos vícios, uma vez que eles sobrecarregam a previdência, oneram as seguradoras, diminuem a expectativa de vida das populações! É, portanto, necessário agitar-se!” (SOARES,

2006).

Neste item defenderemos a tese de que o movimento Higienista ainda está presente na Educação Física brasileira, obviamente, sua intervenção se dá de forma diferente daquela dos séculos XIX e XX, entretanto, esse “novo higienismo” continua buscando os mesmos ideais de combate aos hábitos ditos não saudáveis, com o objetivo de manter e promover a saúde individual e coletiva, pois segundo Gois Junior e Lovisolo (2003) “a idéia de que um povo educado e com saúde é a principal riqueza da nação chega com força a nossos dias e ainda aglomera em torno de si forças que se sentem progressistas”. A partir da leitura dos trabalhos de (GUEDES, 1999; GUEDES e GUEDES, 1997; NAHAS et. al. 2000; RIQUE et. al. 2002), autores que aqui designaremos como “novos higienistas”, percebemos que ainda permanece no discurso de muitos médicos e professores o ideal de uma Educação Física voltada para a saúde. É importante notar que o conceito de saúde utilizado pelos “novos higienistas” difere daquele do movimento Higienista dos séculos XIX e XX, onde saúde era apenas a ausência de doenças. Já os “novos higienistas” definem saúde como: Condição humana com dimensões física, social e psicológica, caracterizada por um continuum com pólos positivos e negativos. A saúde positiva está associada à capacidade de apreciar a vida e de resistir aos desafios do cotidiano, e não meramente a ausência de doenças; enquanto a saúde negativa está associada à morbidez e, no extremo, com a mortalidade prematura. (GUEDES, 1999; NAHAS et al., 2000). Esse “novo” modelo de Educação Física busca em sua prática uma forma de intervenção, ou melhor, de modificação dos hábitos adquiridos no mundo contemporâneo, em que o sedentarismo e a alimentação inadequada são apontados como os principais responsáveis pelo aumento da incidência de doenças:

no momento atual, em que maior mecanização das tarefas do cotidiano

destinadas ao ser humano vem induzindo modificações significativas nos padrões de vida de toda a população, registrando-se grande incidência do fenômeno da hopocinesia entre as pessoas, e, em conseqüência, o aparecimento das chamadas doenças da civilização, em razão de um processo degenerativo mais intenso e precoce, parece que as atividades físicas passam a adquirir grande relevância na medida em que se torna necessário de alguma forma compensar os efeitos nocivos do estilo de vida provocado pela sociedade moderna. (GUEDES, 1999 P.12)

) (

Assim o exercício físico aliado a modificações na alimentação, atuaria em praticamente todos os fatores de risco ligados as doenças cardiovasculares. (RIQUE et al.

2002). Pois nas ultimas décadas ocorreu uma transição epidemiológica, na qual existe uma inversão das

2002). Pois nas ultimas décadas ocorreu uma transição epidemiológica, na qual existe uma inversão das causas de morte, das doenças infecto-contagiosas para doenças crônico- degenerativas, e o sedentarismo consiste em um forte fator de risco para a aquisição de doenças crônicas, que são as maiores causas de mortalidade no mundo de hoje. (NAHAS et al., 2000; DUMITH e SILVEIRA, 2010) A partir dos argumentos desses autores podemos percebemos que o caráter normativo permanece no discurso do “novo higienismo”, pois tanto o antigo quanto o novo buscam a melhor forma de viver, afastando a doença. Se no começo do século XX a novidade era o banho diário, hoje passam a ser divulgados os benefícios da prática sistemática da atividade física como fator de diminuição do risco de doenças, como agente de melhoria de vida das populações, como hábito saudável e higiênico. Contudo diferentemente do Movimento Higienista (século XIX e XX), hoje temos segundo Bracht (2010) uma “privatização” das práticas corporais, ou seja, temos um recuo do Estado como provedor das condições e sentidos para as práticas corporais, essa tarefa passa a ser delegada ao mercado, ao mesmo tempo, há uma responsabilização do individuo pela sua sorte, ele passa a ser responsabilizado por construir uma vida saudável, é dele o dever de cuidar do seu corpo. E assim como no Movimento Higienista, o “novo higienismo” vê na escola, em especial na Educação Física escolar, um grande aliado na vulgarização dos hábitos saudáveis, pois:

Embora a educação física escolar não tenha como único objetivo oferecer uma formação educacional direcionada à promoção da saúde, o fato dos escolares terem acesso a um universo de informações e experiências que venham a permitir independência quanto à prática da atividade física ao longo de toda a vida, se caracteriza como importante conseqüência da qualidade e do sucesso de seus programas de ensino. (GUEDES e GUEDES, 1997)

E utilizando a plasticidade da infância, os “novos higienistas” apontam que essa é a principal fase da vida para se inculcar hábitos de vida saudáveis e daí, para eles, vem a importância de uma Educação Física que tenha entre os seus objetivos a disseminação de hábitos saudáveis, pois:

Há evidências crescentes de que se um sujeito não adquirir hábitos saudáveis durante a sua infância, as chances de ele vir a adquiri-los na fase adulta são mínimas; e isso inclui também a prática regular de atividades físicas. (MARQUES e GAYA, 1999 apud DUMITH e SILVEIRA, 2010)

A perspectiva genealógica de Michel Foucault: introdução aos estudos do corpo

Michel Foucault desenvolveu definições que abriram inúmeros campos de estudo e pesquisa. 1 De sua

Michel Foucault desenvolveu definições que abriram inúmeros campos de estudo e pesquisa. 1 De sua vasta obra nos apropriamos das técnicas disciplinares iniciadas no século XVIII, cujo foco é o corpo, sua regulação, adestramento e ampliação de suas forças em escolas, casernas e fábricas. Sendo estas últimas as mais significativas para o presente texto, por serem o palco das análises a respeito da atuação dos dispositivos de poder sobre o corpo (e sobre o corpo do trabalhador 2 ). Para Foucault, filósofo contestador de todo poder, “a modernidade está marcada por uma nova relação das pessoas com o ‘corpo’ e com os ‘impulsos’” (GHIRALDELLI, 2005). O corpo humano é alvo do poder que o aprimora e o adestra. Aliás, as relações humanas são permeadas por relações instáveis de poder, cujo objetivo é gerir a vida dos homens, aumentando suas potencialidades. Em Vigiar e punir: história da violência nas prisões, precipuamente a terceira parte intitulada Disciplina 3 , Foucault aborda a entrada em cena da disciplina relacionada à correção do corpo este o alvo do poder , versa sobre a relação entre poder e saber, trata das instituições disciplinares, da forma de organização da sociedade disciplinar, da inspeção rigorosa e constante da figura arquitetural do panóptico de Bentham, cujo efeito é induzir no detento um estado consciente e permanente de visibilidade assegurador do funcionamento automático do poder, dispositivo importante porque além de automatizar “desindividualiza o poder” (FOUCAULT, 2008, p. 167). Essa perspectiva genealógica de Foucault, aqui tratada, será construída junto com uma tentativa de promover um possível diálogo com Marx. De acordo com a construção social estabelecida, cada momento histórico apresenta sua necessidade de corpo. Assim, enquanto no início do século XVII o reconhecimento do soldado se deu através da descrição do que seria a figura ideal de soldado, ou seja, um ser dotado de uma retórica corporal da honra; na segunda metade do século XVIII, o soldado torna-se algo que se fabrica, entrando em cena a importância da disciplina relacionada à correção do corpo. Foucault remete à época clássica onde o corpo é descoberto como objeto e alvo de poder. Dessa forma, os efeitos do poder disciplinar sobre o corpo, ao mesmo tempo em que o

1 A obra de Michel Foucault marcou de modo decisivo o pensamento de seus contemporâneos, não apenas no domínio da filosofia, mas também nas ciências humanas, biomédicas, jurídicas, na psicologia, na ciência política.

2 A apropriação da perspectiva genealógica de Michel Foucault, presente neste texto, está contida no trabalho monográfico O corpo do trabalhador: da disciplina à mercadoria, defendido em 2010, no Departamento de Educação Física e Desportos, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.

3 Neste item há três capítulos, a saber: I. “Os corpos dóceis”, II. “Os recursos para o bom adestramento” e III. “O panoptismo”.

torna dócil – porque aceita ser submetido, transformado, aperfeiçoado – , o torna hábil, pois

torna dócil porque aceita ser submetido, transformado, aperfeiçoado , o torna hábil, pois as suas forças são multiplicadas. Foucault também menciona o livro O homem-máquina, de La Mettrie, como exemplo de algo que reduz a materialidade da alma e lança uma teoria geral do adestramento, unindo, assim, o corpo analisável ao corpo manipulável, que remete à noção reinante de docilidade. Entender a questão do corpo em Michel Foucault implica entender o corpo como objeto de investimentos de poder que lhe impõem limitações, proibições ou obrigações. São exercidos sobre o corpo uma coerção e um controle com a intenção de gerar, a partir de uma economia de tempo e de espaço, um corpo ativo e dotado de eficiência dos movimentos. Nesse sentido, Foucault não se refere a qualquer poder, mas sim ao que chama de “poder disciplinar”: as disciplinas são, segundo o filósofo, “métodos que permitem o controle minucioso das questões do corpo, que realizam a sujeição constante de suas forças e lhes impõem uma relação de docilidade-utilidade” (FOUCAULT, 2008, p.118). No momento histórico das disciplinas, nasce uma “arte do corpo humano”, a qual forma um mecanismo cuja função é dupla: tornar o corpo mais obediente e, concomitantemente, mais útil. Esse processo pelo qual o corpo humano entra numa maquinaria de poder que o esquadrinha, o desarticula e o recompõe faz nascer uma “anatomia política”, ou uma “mecânica de poder”, que

define como se pode ter domínio sobre o corpo dos outros, não simplesmente para que façam o que se quer, mas para que operem como se quer, com as técnicas e segundo a rapidez e a eficácia que se determina (Ibidem, p. 119).

Quando Michel Foucault desenvolve a ideia de “anatomia política”, podemos dizer que há um ponto de aproximação entre sua teoria e a de Marx no que tange às relações de trabalho no sistema capitalista, visto que a anatomia política define como pode haver um domínio sobre o corpo dos outros com a finalidade de aumentar a eficácia deste corpo e, ao mesmo tempo, sua subserviência. Daí a expressão “anatomia política” ser usada por Foucault como sinônimo de “mecânica do poder”. Nessa dinâmica anátomo-política, a disciplina desempenha um papel fundamental que diz respeito à fabricação de corpos submissos e, simultaneamente, exercitados – “corpos dóceis”. Em outras palavras, a disciplina atua em termos econômicos de utilidade e em termos políticos de obediência produzindo, respectivamente, corpos fortes, hábeis, eficientes para o trabalho e de igual forma dóceis, submissos.

Ainda nesse contexto, Foucault faz uma analogia entre exploração econômica e coerção disciplinar, ao retomar

Ainda nesse contexto, Foucault faz uma analogia entre exploração econômica e coerção disciplinar, ao retomar o modelo dicotômico teorizado por Marx que divide a sociedade em duas grandes classes: a burguesia, constituída pelos donos dos meios de produção, e a classe trabalhadora, composta por todos aqueles que vendem sua força de trabalho por não serem donos dos meios de produção. Contudo, Foucault apenas corrobora Marx a respeito da separação entre o produto do trabalho e a força desse trabalho, enquanto reforça o elo coercitivo existente entre aptidão aumentada e dominação acentuada, estabelecidas no corpo por meio da coerção disciplinar. Essa disciplina, que é a própria “anatomia política do detalhe” (Ibidem, p. 120), encontra-se em funcionamento nas instituições sociais, tais como fábricas, colégios, hospitais e organizações militares. Como o objetivo deste texto é engendrar uma análise comparativa acerca do corpo em Foucault e Marx, a fábrica será tratada com maior acuidade, já que é nela onde se dão as relações de trabalho em que se espera do corpo maior eficiência, rapidez, economia de gestos e subserviência características estas que, geradas pelo poder disciplinar, proporcionam a tão almejada produtividade. Foucault menciona o exemplo da instalação, em 1777, da fábrica de Indret, planejada para conter alojamentos operários, fato que contribuiu para a construção de um novo tipo de controle sobre o corpo. A descrição de tal fábrica é minuciosa: assemelha-se a um convento, uma fortaleza, uma cidade fechada; um guardião abre suas portas em horários fixos de início e reinício do trabalho; os operários devem respeitar fielmente os horários estabelecidos; um sino avisa o momento exato da volta ao trabalho; os chefes de oficina devem entregar as chaves ao guarda da fábrica, ao fim do expediente, e apenas a ele cabe a tarefa de abrir as portas. Eis a descrição:

A fábrica parece claramente um convento, uma fortaleza, uma cidade fechada; o guardião “só abrirá as portas à entrada dos operários, e depois que houver soado o sino que anuncia o reinício do trabalho”; quinze minutos depois, ninguém mais terá o direito de entrar; no fim do dia, os chefes de oficina devem entregar as chaves ao guarda suíço da fábrica que então abre as portas (Ibidem, p. 130-131).

Toda essa forma de organização estrutural da fábrica gira em torno da necessidade de tirar o máximo de vantagens dos corpos e, concomitantemente, neutralizar os inconvenientes, tais como roubos, interrupções do trabalho, agitações políticas etc., ou seja, da necessidade de os donos dos meios de produção de proteger seus materiais, ferramentas e, ao mesmo tempo, dominar a força de trabalho.

Não é novidade a existência de investimentos imperiosos e urgentes agindo sobre o corpo. A

Não é novidade a existência de investimentos imperiosos e urgentes agindo sobre o corpo. A inovação reside na técnica utilizada para aprisioná-lo e lhe impor limitações, proibições ou inibições. O trabalho na fábrica é, nesse sentido, realizado de maneira mecânica, eficiente e constante. Há uma escala de controle que não tem a ver com o cuidado sobre o corpo em massa, mas com uma atenção detalhada sobre ele, uma coerção exercida sem folga e que mantém mecânicos os movimentos, gestos, atitudes, e estimula a rapidez poder infinitesimal sobre o corpo ativo, como acusa Foucault. Em seguida, o objeto do controle é a economia, a eficácia dos movimentos, a forma como eles se organizam internamente, importando assim a cerimônia do exercício. Por fim, a técnica, além de possuir uma escala e um objeto de controle, é modalidade ininterrupta. Em outras palavras, os métodos que permitem o controle meticuloso das operações do corpo realizam a sujeição constante das forças desse corpo impondo-lhe uma “relação de docilidade-utilidade” – a “disciplina”. O objetivo principal da disciplina é aumentar o domínio de cada um sobre seu próprio corpo, visando um mecanismo que almeja formar um corpo mais obediente e mais útil. É, pois, um trabalho sobre o corpo que se caracteriza como uma manipulação calculada de seus movimentos, gestos, e fez nascer uma “arte do corpo humano” – o momento histórico das disciplinas. Assim sendo, o corpo humano entra numa maquinaria de poder que o esquadrinha, o desarticula e o recompõe. Uma “anatomia política”, que é também uma “mecânica do poder”, nasce com o advento da modernidade e define como se pode ter domínio sobre o corpo dos outros, “não simplesmente para que façam o que se quer mais para que operem como se quer, com as técnicas, segundo a rapidez e a eficácia que se termina” (Ibidem, p. 119). Nesse sentido, as ordens ao trabalhador são substituídas pelo ensinamento que lhe garanta uma maior “competência” em suas tarefas. Vale lembrar, evidentemente, que o termo foucaultiano “coerção disciplinar”, explicativo da dinâmica que fabrica “corpos dóceis”, é díspare em relação à expressão “exploração econômica”, analisada por Marx por meio do conceito de mais-valia. A “coerção disciplinar” se dá através de técnicas detalhadas e íntimas, as quais têm sua importância justificada na medida em que definem certo modo de investimento político e detalhado do corpo, uma nova ‘microfísica’ do poder capaz de afetar todo o corpo social. Conforme mencionado, essa disciplina, Foucault arremata, “é uma anatomia política do detalhe” (Ibidem, p. 120): suas astúcias, sutis e aparentemente inocentes, embora pequenas, possuem amplo poder de difusão e por isso são suspeitos seus arranjos, por tratar-se de dispositivos

inconfessáveis que obedecem à economia, ou que procuram coerções sem grandeza, e que, todavia, levaram

inconfessáveis que obedecem à economia, ou que procuram coerções sem grandeza, e que, todavia, levaram à modificação do regime punitivo, no limiar da época contemporânea. Esse investimento político sobre o corpo, definido pelas técnicas de coerção disciplinar, é enormemente utilizado na sociedade cujo modo de produção capitalista, por vezes, define as relações humanas. O controle político, a partir de um processo de racionalização crescente, foi se tornando mais eficaz e, ao mesmo tempo, mais sutil e abarcador: há no poder um detalhe que deseja cooptar o homem disciplinado equiparado por Foucault ao verdadeiro crente. Esse detalhe deveria, ou melhor, a “História do Detalhe no século XVIII” deveria, desse modo, chegar ao homem “‘dos pequenos corpos’, dos pequenos movimentos, das pequenas ações” (Ibidem, p. 121). Foucault fala do nascimento do homem moderno ligado ao conjunto de técnicas, de um corpo de processos e de saber, de descrições, de receitas e dados; relacionado ao que chama de “observação minuciosa do detalhe”; e imerso no enfoque político. Tudo isso fomentou o controle e utilização dos homens através da era clássica. Em outras palavras, para Foucault, o fato de ter-se esmiuçado o comportamento dos indivíduos acabou por produzir o homem moderno, fato este que não se coaduna à teoria de Marx: enquanto para o primeiro não há uma essência humana, para este último há sim uma essência humana que se embruteceu devido às degradantes condições de trabalho. 4

Conclusões O pensamento moderno trata da questão corporal frequentemente dicotomizando sujeito/corpo, como se o homem fosse uma entidade deslocada de sua corporeidade. De igual forma, criam-se maneiras de tornar o trabalhador mais ativo para o trabalho, como o efeito visível contemporâneo do método exemplificado (haja vista o exemplo da ginástica laboral). Foucault (2008, p. 148) considera ser “mais materialista estudar a questão do corpo, dos efeitos do poder sobre ele” em detrimento das questões ideológicas, uma vez que “se há coisas muito interessantes em Marx, o marxismo enquanto realidade histórica as ocultou terrivelmente em proveito da consciência e da ideologia” (Ibidem). Sendo assim, Foucault incita a compreensão de que corpo necessita a sociedade atual. Apropriando-nos de Foucault,

4 [Ess]a essência do homem [deve ser vista, segundo Marx] em contraste com as várias formas de sua existência histórica, essência entendida em uma versão mais histórica, na diferenciação entre natureza humana em geral e natureza humana modificada de cada época histórica. Texto extraído de: FROMM, E., Conceito marxista do homem, p. 34-49. Adaptado pelo Prof. Antonio Carlos Machado para uso em sala de aula. Disponível em <http://www.geocities.com/a_c_machado/Antrofil/NaturezaHumanacfMarx- resumido.doc>.

acrescentaríamos a desinência de plural que amplia certamente o teor da indagação: de que/de quais

acrescentaríamos a desinência de plural que amplia certamente o teor da indagação: de que/de

quais corpos necessita(m) a sociedade atual?

Utilizamos a leitura foucaultiana acerca da questão do corpo e da ação dos dispositivos

do poder disciplinar sobre o mesmo. Identificamos, até o momento, a presença, na

contemporaneidade, de estratégias de controle do corpo contidas tanto na Educação Física

quanto no ideário de promoção da saúde, que influenciam as visões de professores e alunos da

área e a sociedade como um todo.

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