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arquitetura da urbanidade: quadro teórico incompleto 1

1
ARQUITETURA E AMBIENTE:
À GUIZA DE INTRODUÇÃO

Este ensaio não pretende ser outra coisa senão um ponto de partida. Seu objetivo é
iniciar a sistematização de um conjunto de referências históricas, teóricas,
metodológicas e empíricas que vêm sendo discutidas e aplicadas nos exercícios do
ateliê de projeto ambiental urbano. Conforme poderá ser facilmente verificado, a
abordagem se apoia decisivamente no enfoque desenvolvido por Rubén Pesci e
1
Centro de Estudios y Proyectos del Ambiente em sua busca de alternativas projetuais
para a construção da cidade sustentável, e nas investigações sobre morfologia urbana
e percepção ambiental levadas a cabo por Lineu Castello e o Grupo de Pesquisa em
2
Percepção Ambiental e Desenho Urbano da UFRGS . Para tanto, o texto faz
referências a variados autores, na busca de uma fundamentação teórica mais ampla.

A disciplina de ateliê, em uma das ênfases que vem sendo experimentadas ao longo
dos últimos quatro anos, orientada pelo autor e pelo professor arquiteto Paul Dieter
Nygaard, privilegia trabalhar as ações de planejamento, desenho e gestão da cidade a
partir de um enfoque ambiental. E ai começam as dúvidas, e os muitos problemas de
método.

A utilização da palavra ambiente, seja para caracterizar uma postura política ou


técnica, tem se tornado um falacioso lugar comum. Para alguns, a perspectiva
ambiental soa “romântica”: sugere um sentimento de terna nostalgia em relação a
uma vida “descomplicada” no campo ou na pequena aldeia. Para outros, ambiente
define uma dimensão política e ideológica: uma maneira de ver o mundo e interagir
com ele no sentido da preservação, em seu estado mais puro, do espaço da natureza
(no qual o homem, por definição ideológica, é o maior predador).

A radicalidade de uma ou outra perspectiva, não é demais assinalar, gera


preocupantes caricaturas e, com expressivo comparecimento, oferece à opinião
pública uma janela nos meios de comunicação, enquanto os problemas efetivamente

1
O trabalho de Pesci e Fundación CEPA inicia-se por volta de 1974/76, tratando, mais especificamente, do conceito de
interfaces urbanas, e das metodologias de projetação no sentido da busca da cidade sustentável. A bibliografia é
fartamente referida ao longo do corpus deste e dos capítulos seguintes.
2
A trajetória de Castello e do Grupo de Pesquisa em Percepção Ambiental e Desenho Urbano da UFRGS (do qual este autor
toma parte), que inicia-se em meados da década de oitenta, é assinalada ao longo deste e dos capítulos seguintes, quando
o leitor encontrará referências bibliográficas específicas.
arquitetura da urbanidade: quadro teórico incompleto 2

ambientais, na cidade ou fora dela (se ainda for possível pensar em questões
ambientais que não afetem de algum modo a vida humana/urbana) se avultam diante
da inoperância consentida da política tradicional e da falência dos paradigmas
científicos disciplinares.

Na cidade - na dimensão sócio-espacial da cidade - é reveladora a perda de


referenciais de urbanidade - a qualidade do que é o urbano - pelo avanço de
problemas cruciais de marginalidade e miséria, pelo crescente anonimato, pelo
esvaziamento do espaço público, pela perda de confiança nas instituições. E, para o
arquiteto, amordaçado pelos interesses de mercado (e pela sua própria formação
compartimentada de especialista), revela-se na falta um projeto que responda a
profunda crise em seu papel social.

Maurice Cerasi (1977), duas décadas atrás, já denunciava este vazio. E esboçava
uma abordagem transdisciplinar para a construção de uma arquitetura no sentido da
paisagem - das formas e da cultura - transformada pelo desejo e pela ação do
homem. A este enfoque conceitual Cerasi chamou de arquitetura-ambiente.

Este ensaio procura começar a entender esta lição, que não é outra que a de
recuperar a responsabilidade compartilhada da Arquitetura e do Urbanismo, entre as
vários campos disciplinares que debruçam-se sobre o espaço, na construção de um
ambiente gerador de lugares social e culturalmente significativos, o que passa por
uma reflexão projetual quanto aos métodos e as tecnologias com capacidade de
resposta à dialética conservação-desenvolvimento.

Nesta perspectiva, o texto se constrói como uma colagem de leituras, identificando,


no amplo universo da literatura de temática urbana, aportes variados (e que revelam
diferentes endereços científicos ou ideológicos) que possam contribuir em avançar na
direção de uma abordagem ambiental - integral e integradora - do desenho urbano.

2
QUADRO TEÓRICO:
REFERÊNCIAS PARA LEITURA
arquitetura da urbanidade: quadro teórico incompleto 3

D
iálogos imaginários entre Marco Polo, o navegador veneziano, e o imperador
mongol Kublai Kahn servem de estrutura narrativa para que Italo Calvino
(1991) construa os muitos e insinuantes cenários das suas “Cidades
Invisíveis”. Instigante obra da literatura contemporânea, o livro do escritor
italiano tem despertado a atenção de diferentes estudiosos da questão urbana, em
distintos campos disciplinares, que se deixam seduzir com os variados relatos das
viagens de Marco Polo, interpretando-os como descrições simbólicas de distintos
estados da cidade atual (Canevacci, 1995; Del Rio, 1991; Pesci, 1985; entre outros).

A metáfora De fato, a “multidão” de signos que se desvelam a cada relato, expressam, no sentido
urbana metafórico, os muitos aspectos de uma “cidade real”- a “Veneza” do século XIII - a
de Italo Calvino
qual Marco Polo nega-se a descrever em termos concretos.

Por isso mesmo, para decodificar as metáforas criadas por seu interlocutor, o
imperador constrói um sistema de explicação, ao mesmo tempo, modelo do qual
declinar todas as cidades possíveis e uma espécie de “teoria geral”, através da qual
se pode contemplar as diferentes interpretações clássicas que descrevem a cidade
3
em termos “cósmicos”, “mecânicos” ou “orgânicos”

“ - Entretanto, construí na minha mente um modelo de cidade da qual


extrair todas as cidades possíveis - disse Kublai. - Ele contém tudo o
que vai de acordo com as normas. Uma vez que as cidades se
afastam da norma em diferentes graus, basta prever as exceções à
regra e calcular as combinações mais prováveis.” (Calvino,1991:67)

Ainda que a resposta de Calvino, através do personagem Marco Polo, apele para a
ironia - Marco reconstrói o modelo, mas partindo de uma cidade formada apenas
pelas “exceções” - o que está subjacente é uma teoria geral da cidade, ao mesmo
tempo descritiva e preditiva, na medida em que variando-se as exceções e
aproximações ao modelo, poder-se-ia definir “todas as cidades possíveis”.

A tradução de O arquiteto e ambientalista argentino Rubén Pesci, por exemplo, vale-se de uma
Rubén Pesci perspectiva semelhante, elegendo três das metáforas de Calvino para emblematizar
os distintos estados de conflitualidade ambiental que coexistem nas grandes cidades
contemporâneas, tomando-as como imagens paradigmáticas da configuração urbana
atual.

Em seu livro La Ciudad In-Urbana (1985), Pesci detém-se em analisar as “denúncias


4
mais alucinantes e tangíveis de nossa cidade” (1985:5) , apoiando-se nas descrições
de Calvino, investindo a si mesmo o papel de “comentarista técnico” que identifica e
interpreta os rasgos desta conflitualidade, trazendo-os do “invisível” para o espaço
real.

Leonia (Calvino, 1991:105-107; Pesci,1985: 9-23) é a “cidade voraz”, caracterizada


por fluxos entrópicos de matéria, energia e informação, onde tudo se consome e é
transformado em dejeto, em um ciclo interminável e autofágico. É a crítica ao
consumismo exacerbado, que coloca em risco a diversidade e a estabilidade dos
sistemas urbanos.

Zora (Calvino,1991:19-20; Pesci,1985:43-61) é a “cidade artificial”, materialização


distante da abstrata cidade ideal, resultante do projeto urbanístico e ideológico
disciplinar e totalitário. Mega-estrutura esquemática e mecanicista, a versão
construída de Zora espalhou-se pelo mundo como símbolo de um urbanismo

3
Sobre as abordagens teóricas clássicas da cidade, ver Lynch (1985).
4
Tradução livre do autor, a partir da edição original em espanhol de 1985. As demais citações seguem a mesma sistemática.
Grifo também do autor.
arquitetura da urbanidade: quadro teórico incompleto 4

ambiguamente revolucionário, ajudando a estabelecer a hegemonia da arquitetura


moderna.

Pentesilea (Calvino,1991:142-143; Pesci,1985:27-39), por sua vez, é a cidade “in-


urbana”, fragmentada, incompleta, vazia de imagem e significado, correspondendo ao
cenário recorrente das grandes periferias metropolitanas.

As estas três denúncias manifestas, Pesci soma um “apéndice in-conformista”


(1985:65-90) que esboça uma interface propositiva, alternativa à crítica da cidade
contemporânea, e que procura estabelecer um caminho projetual holístico, ou seja,
integral e integrativo das condições sócio-históricas e naturais no processo de
urbanização.

Leonia, Zora e Pentesilea, em seu conjunto, traduzem um quadro recorrente e


preocupante. Nos três casos, a complexidade e a hipertrofia na escala urbana
apequena o indivíduo. Ao mesmo tempo, a sobreposição dos paradigmas permite
visualizar a fragmentação do espaço e da vida urbana em diferentes escalas sócio-
espaciais que, antes, em termos de uma historicidade urbana, estavam
interrelacionadas, coexistindo simbolicamente no espaço concreto.

A metáfora. a
Este quadro de sobreposições, que se poderia tentar traduzir com a noção de
tradução, megapaisagem, na qual os valores da urbanidade cotidiana encontram-se submetidos
e a cidade real à avassaladora lógica metropolitana, revela-se em situações típicas: estruturas
urbanas que, dentro da estrutura global da cidade, se caracterizam, entre outros
fatores, pela complexidade funcional, simbólica e perceptiva; pelo entrelaçamento de
seus diferentes componentes morfológicos; pela sua excepcionalidade e/ou extensão;
pela grande atratividade que geram em termos de fluxos urbanos; e na sintaxe
complexa em relação ao tecido urbano nos quais se inserem ou se articulam, etc.
5
denotando seu caráter trouvé no interior do sistema urbano-metropolitano.

Exemplos modelares de estruturas urbanas que respondem, em maior ou menor


grau, a estas características são fáceis de intuir, como por exemplo:

i. O core urbano-metropolitano - central business district, na tradição da


sociologia urbana norte-americana - com sua variedade morfológica,
excepcionalidade arquitetural, dinâmica urbana trepidante, congestão quase
caótica de indivíduos, grupos e atividades, sobreposição de escalas, formas
de apropriação, significados e territórios culturais;

ii. Os grandes eixos de circulação e transportes intra-urbanos ou conectores


regionais, configurando um sistema de canais que empresta acessibilidade ao
território urbanizado, ao mesmo tempo em que contraditoriamente estabelece
barreiras à apropriação cotidiana, caracterizando conflitos entre os grandes
fluxos de tráfego urbano-regional e o sentido próprio de lugar, construindo
ícones em uma paisagem seqüencial, ao longo dos eixos, marcada pela
6
velocidade ;

iii. As concentrações industriais e de grandes infra-estruturas - fábricas,


terminais de carga e transporte, ferrovias, aeroportos, estações de água,
esgotos e energia, torres de rádio, TV e microondas, depósitos de dejetos,
etc. - configurando um território perceptualmente fragmentado que, no
entanto, revela-se muitas vezes visualmente fascinante;

iv. As periferias metropolitanas, a não-cidade da falta de equipamento, infra-


estrutura e serviços, baixa qualidade do meio construído, transitoriedade, falta
de arraigamento e sentido de pertencer, vazias de significado, partes da
cidade “in-urbana”, em um contexto de exclusão.

5
No sentido emprestado de Rowe e Koetter (1981:147).
6
Na perspectiva de Virilio (1993,1996).
arquitetura da urbanidade: quadro teórico incompleto 5

Megaestrutura E também a megapaisagem inventada, disciplinada pelo fazer arquitetônico,


hipertrofiada em escala e pretensão, grandes edifícios desafiadores das lógicas
7
urbanas tradicionais ou imensas coleções mais ou menos estruturadas de máquinas
de morar, de trabalhar, de recrear, de circular, em padrões que tendem à repetição: a
8
megaestrutura (Banham,1978 ) arquitetônica e urbana, fruto apoteótico e de vida
curta, falácia moderna enquanto utopia, resultante da supremacia e desejo
(desígnio?) do arquiteto e da ideologia tardia dos CIAMs.

A noção a que se vai recorrer para amalgamar e identificar tão díspares recortes na
configuração da cidade contemporânea se define no sentido de interface complexa.
Ou seja, situações de interfaces urbanas/metropolitanas onde se possa identificar
9
fatos urbanos que se desenham e/ou refletem-se nos vários aspectos mencionados
preliminarmente, provocando um contraponto à paisagem razoavelmente homogênea
10
característica da cidade tradicional figurativa .

Conceito de A noção de interface, aplicada a sistemas ambientais complexos, tomada da ecologia


Interface natural, da física, da comunicação e das ciências da informação, ressemantizada em
termos de ambiente urbano, define-se como “ponto de sobreposição de subsistemas
distintos, gerando (a interface) canais onde podem se dar fluxos de matéria, energia e
informação” (Fundación CEPA,1897:8).

A abordagem da projetação urbana através da avaliação sistêmica de interfaces vem


sendo construída desde 1984 pela equipe do Centro de Estudios y Proyectos del
11
Ambiente (Fundación CEPA, dirigida pelo arquiteto Rubén Pesci) , de La Plata,
Argentina, e revela o eixo teórico-metodológico preferencial adotado ao longo deste
livro.

Em termos da configuração sócio-espacial urbana, atuar através de interfaces


demarca um novo ponto de vista para a leitura ambiental dos lugares urbanos, nos
quais tais fluxos e trocas podem ser identificados e avaliados.

Nesta perspectiva, a metodologia inicialmente desenvolvida pela Fundación CEPA no


12
escopo do programa Man and the Biosphere da UNESCO , faz denotar o
reconhecimento de interfaces urbanas em situações de:

i. Máxima interação social entre indivíduos, atividades e grupos;


ii. Máxima centralidade social;
iii. Máxima contradição nas relações entre cidade e campo;
iv. Máxima conflitualidade nas relações entre centro e periferia.

7
Refere-se a “maquina de morar” preconizada por Le Corbusier, emblematizada na Unidade de Habitação de Marselha e
mitificada pela tradição moderna na arquitetura. Ver além do próprio Le Corbusier, entre outros, Benévolo(1980, 1981,
1983), Frampton (1991), Kopp (1990), etc.
8
A temática “megaestrutural” é fascinante. Banhan (1978) apresenta um completo estudo teórico-histórico sobre o tema
“megaestrutura” na arquitetura tradicional e moderna.
9
Na acepção de Rossi (1982): situações sociais ou materiais que incidem sobre a estrutura urbana, caracterizadas por maior
ou menor transitoriedade ou permanência.
10
Na perspectiva ensaiada por Comas (1986a,1986b,1993): a cidade figurativa é representativa das relações tradicionais entre
os elementos morfológicos da estrutura urbana: lote, edificação, rua, quarteirão, praça, etc., caracterizando um padrão
fundo-figura específico, em oposição ao preconizado pelo urbanismo moderno de corte corbusiano.
11
É importante mencionar, na construção da teoria e da metodologia de interfaces, além de Rubén Pesci, vários outros
pesquisadores ligados a Fundación CEPA. Correndo o risco de omitir involuntariamente nomes importantes, cabe citar a
Omar Accatolli, Jorge Perez, Mario Rabey, Mario Robirosa, Daniel Pini e Artenio Abba, entre outros. Entre os documentos
bibliográficos disponíveis sobre o tema, destaquem-se os trabalhos da Fundación CEPA (1984;1987), de Rubén Pesci
(1985), e de Jorge Perez,1995).
12
Ver Fundación CEPA, 1987. O estudo originou-se em 1983, no âmbito do programa Man and the Biosphere, da UNESCO,
como aporte metodológico ao Proyecto de Ecología Urbana Aplicada al Sistema Urbano Pampeano, na região de La Plata,
Argentina.
arquitetura da urbanidade: quadro teórico incompleto 6

Explicitando o olhar metodológico sobre o objeto, os autores delimitam uma


categorização analítica de interfaces urbanas e metropolitanas que permitem a
desconstrução do objeto no sentido de apreender seus traços estruturais
significativos.

O método, neste sentido, evidencia as características dos elementos estruturais


urbanos e permite interpretar os efeitos sócio-espaciais de sua sobreposição, seja em
termos de configuração física, seja quanto ao que se refere à apropriação e fruição
dos espaços coletivos da cidade.

A classificação inicialmente adotada pode ser assim resumida:

INTERFACES SOCIAIS INTERFACES FÍSICAS


(ativas) cívicas (passivas) naturais (produtivas ou não)
positivas culturais positivas construídas
ou não formais (espaços abertos) ou jurisdicionais
negativas produtivas (2árias ou 3árias) negativas normativas
meios de comunicação tecido com baixa consolidação
de acessibilidade

classificação genérica de interfaces, extraída Fundación CEPA (1987) e PEREZ (1995)

Resumidamente, as interfaces sociais tem um papel ativo na estruturação sócio-


espacial da cidade, ou seja, funcionam como aglutinadoras entre indivíduos, grupos e
atividades.

Já as interfaces denominadas físicas funcionam como elementos de bordo,


articuladores ou separadores entre zonas ativas ou entre porções indiferenciadas de
tecido urbano. As interfaces assumem uma valoração positiva ou negativa, conforme
o caso, na medida em que cumprem seu papel estrutural de elaborar e fazer circular
informação.
.
Contribuições conceituais e metodológicas que, em diferentes medidas, aproximam-
se e complementam a compreensão deste inovador enfoque, podem ser encontrados
no endereçamento teórico dado por inúmeros autores. Sem a intenção de um exame
mais exaustivo, a modo de um roteiro bibliográfico comentado, as páginas seguintes
Abordagens
incluem um panorama incompleto destas distintas abordagens, na perspectiva de
13
consagradas abrir caminho para desejáveis leituras complementares .
da estrutura
urbana Evidentemente, as abordagens consagradas em distintos campos disciplinares, como
no urbanismo, no urbanismo moderno - da Carta de Atenas à ruptura propiciada pelo Team X ; na
14
na sociologia 15
e na economia ecologia humana americana da primeira metade do século XX, com as contribuições
16
de Park, Wirth, Burgess, Hoyt e Harris e Ullman; no enfoque econômico neoclássico
de Wingo e Alonso; nas diferentes abordagens - tradicionais e avançadas - sobre o
17
conceito de região, de Christaller, Lösch, Rofman, Coraggio, e Lipietz, entre outros ,
subjazem a qualquer construção teórica que pretenda apoiar metodologicamente o
desenho urbano desde uma perspectiva integral. No entanto, a elas se fará somente
esta rápida referência a modo de lembrança, uma vez que este conjunto amplo de
teorias sobre o espaço urbano encontra-se, certamente, já bastante sistematizado na
literatura específica.

13
A seqüência de autores não obedece qualquer critério cronológico, e sim um encadeamento de conceitos e pontos de vista,
subjetivos na perspectiva do autor.
14
Ver a Carta de Atenas (Le Corbusier,1989, ed. orig. 1943) e, em termos gerais, Frampton (1991) e Kopp (1990).
15
Sobre as contribuições da sociologia urbana americana ver Park (1980), Cabral (1982), Delle Donne (1979) e Schnore
(1976), entre outros.
16
Sobre os modelos da economia urbana ver, por exemplo, Delle Donne (1979), De la Torre (1974) e Carrion (1981)
17
Sobre o conceito de região, constitui-se em um bom roteiro para familiarizar-se ao tema, o trabalho de Breitbach (1988).
arquitetura da urbanidade: quadro teórico incompleto 7

Kevin Lynch Os estudos levados a cabo por Kevin Lynch (destacadamente 1975, 1976, 1982,
1985) avançam significativamente na sistematização dos aportes teóricos e
metodológicos aos processos ambientais, bem como das técnicas de investigação e
projeto urbano.

Para Lynch, “(...) as imagens do meio ambiente são o resultado de um processo


bilateral entre o observador e o meio. O meio ambiente sugere distinções e relações,
e o observador - com grande adaptação e à luz dos seus objetivos próprios -
seleciona, organiza e dota de sentido aquilo que vê.” (Lynch,1982:16)

Neste sentido, uma de suas maiores contribuições concentra-se no lançamento das


bases para uma leitura do ambiente baseada na percepção do usuário, definindo
categorias de análise da forma visual da cidade. No clássico A Imagem da Cidade
(editado originalmente em 1960, ed. bras. cit. 1982), clarifica os conceitos de
imageabilidade e legibilidade da forma urbana e descreve um método de leitura
ambiental - perceptiva e cognitiva - baseado em cinco categorias:

Elementos da i. Os canais, elementos lineares a partir dos quais o observador se move e


estrutura visual estabelece seu ponto de vista;
ii. Os nós (ou cruzamentos), como intersecções entre canais ou pontos de
convergência de fluxos ou atividades;
iii. Os limites (bordos ou barreiras), definidos como elementos separadores ou
articuladores entre áreas distintas;
iv. Os distritos (ou bairros), como porções visualmente homogêneas do território,
dotados de imagem e legibilidade particular;
v. Os marcos referenciais (landmarks), elementos de pontuação e orientação
urbana, excepcionais ao entorno (monumentos, por exemplo).

Em termos de método, Lynch utiliza os cinco elementos descritos como categorias


para estruturas a percepção visual que um determinado grupo de usuários tem do seu
ambiente. Para isso, Lynch vale-se da elaboração de “mapas mentais” (mental maps),
ou seja, descrições feitas pelos usuários de determinados lugares ou percursos
urbanos. Estas descrições podem ser feitas preferencialmente através de desenhos
simples feitos pelas pessoas entrevistadas, acompanhados de comentários e
anotações por escrito.

Um conjunto significativo de mapas mentais permite, pois, ao investigador esboçar um


mapa estruturado do conjunto destas percepções individuais. O resultado é um mapa
que destaca certos elementos da morfologia urbana como fortes indicadores da
estrutura visual da cidade (ou bairro, ou percurso, etc.) que está sendo estudada.

Canais
Nós

Limites

Distritos
Representação esquemática
da estrutura visual se uma cidade,
Marcos Referenciais
utilizando as categorias lyncheanas
(baseado em Lynch, 1982)
arquitetura da urbanidade: quadro teórico incompleto 8

Em La Buena Forma de La Ciudad (1985), espécie de compêndio de teorias e


Categorias de
rendimento modelos urbanos que abrangem um largo lapso de tempo e as mais variadas
da forma urbana abordagens disciplinares do tema, esboça uma teoria interpretativa e preditiva sobre a
forma dos assentamentos humanos, estruturada em categorias de performance, em
uma perspectiva holística. Resumidamente, tais categorias podem ser descritas em
termos de:
C
a i. Vitalidade, ou seja, a capacidade ambiental de suporte à vida humana:
C
t aspectos climáticos, disponibilidade dos recursos hídricos, qualidade
a
e
t
g
atmosférica, sustentabilidade econômica, facilidade de abastecimento, etc.;
e
o ii. Acesso, tanto no sentido de acessibilidade físico-espacial (circulação,
g transportes, infra-estrutura, etc.) como sócio-cultural (acesso às facilidades da
r
o
i vida urbana, possibilidade de escolhas, oportunidades sociais, etc.);
r
a iii. Sentido, em termos de orientação espacial, imagem coletiva e legibilidade
i
s
a visual como características da forma das cidades;
s iv. Controle, no sentido de regulação social - formal ou informal -, arraigamento
d
d
e territorial e legitimidade das instituições;
e v. Adequação, no sentido de resposta global da urbanização às necessidades
r
e coletivas, de forma a garantir sua estabilidade, sustentabilidade e reprodução.
r
n
e
nC
Ad valoração do rendimento da forma urbana avaliada a partir de tais categorias estaria
i
d permeada
a por dois metacritérios (introduzindo assim, em sua teoria, parâmetros de
tm
i julgamento): a eficácia, como parâmetro técnico-econômico de avaliação, em termos
e
e
mde custo-benefício, por exemplo; e a justiça, ou seja, o grau de homogeneidade e
n
eg
n
ubiqüidade
t
o no acesso às facilidades e vantagens da vida urbana.
o
r
t
oA id importância da obra de Lynch pode ser medida pela grande influência de seu
a
a
d trabalho na sistematização de uma nova abordagem do território urbano: o campo da
as
percepção
f ambiental.
o
f d
re
o No Brasil, muitos são os autores que retomam e ampliam o caminho inaugurado por
m
r Kevin Lynch. Entre outros, cabe ressaltar o trabalho pioneiro no âmbito da América
Grupo de
mLatinara
Pesquisa em de Lineu Castello, a frente do Grupo de Pesquisa em Percepção Ambiental e
ae
Percepção u
Desenho
n Urbano, vinculado a UFRGS, e na direção da Unidade de Estudos
Ambiental e r
d
u Ambientais, que se constitui na representação brasileira do Foro Latinoamerticano de
Desenho Urbano r ib
Ciencias
a Ambientales (FLACAM).
bm
n
e
a
n Consonante com a abordagem teórica e metodológica sumariamente elencada acima,
a
n
C
t Grupo de Pesquisa em Percepção Ambiental e Desenho Urbano, sediado no
ao
a
o
Departamento
t de Urbanismo da UFRGS e liderado pelo professor Castello, tem se
d
mantido
e
a dinâmico e atuante, desde a sua origem, em meados da década de oitenta,
juntog ao PROPUR/UFRGS, e sendo fortemente alavancado pelos trabalhos de
fo
investigação aplicada desenvolvidos no âmbito do programa MAB - Man and the
ro
Biosphere
ir da UNESCO.
a
m
Castellos
a coordenou, ao longo de vários anos, o Projeto MAB-Porto Alegre (Castello et
al,1984,1986,1989), gerando uma série de investigações fortemente ocupadas em
d
u
entender as relações entre Porto Alegre o rio Guaíba, aperfeiçoando metodologias de
re
análise
b urbana que utilizam-se de ferramentas da percepção ambiental.
r
a
Ée relevante citar, entre os trabalhos concluídos no marco do projeto MAB/UNESCO, a
n
n
a
pesquisa
d
intitulada Investigação de Diretrizes para um Projeto Ambiental (Castello et
al,
i 1986) que, objetivando articular estratégias para o re-estabelecimento de relações
entre
m a cidade e o Rio Guaíba, procurou investigar, através de técnicas de percepção,
oe centro de Porto Alegre, dos pontos de vista histórico, simbólico e morfológico-
n
funcional, identificando seus limites, elementos referenciais significativos,
t
características
o do tecido urbano, além de áreas potenciais para a abordagem de
projetos
d urbanísticos contextualizados.
a

f
o
r
m
a

u
r
arquitetura da urbanidade: quadro teórico incompleto 9

A pesquisa teve, ainda, uma continuidade junto a área de Navegantes (Castello et al,
1989), no sentido de validar e consolidar o quadro metodológico então em
construção.

Como coloca Castello, fundamentado em Cerasi (1977):

A cidade (o ambiente) compreende fatos físicos (os espaços


arquitetônicos, os espaços abertos, os espaços naturais modificados)
e fatos comportamentais (o uso que grupos de indivíduos fazem
desses espaços). Há, na cidade, um espaço topológico, ao qual se
integra um espaço psicológico (…). (Castello,1986:67)

Mais recentemente, o mesmo núcleo de pesquisadores, através da Unidade de


Estudos Ambientais e por solicitação da EPHAC/Coordenação da Memória Cultural
da Secretaria de Cultura da PMPA, retomou a questão da dimensão perceptiva na
estruturação da área central da cidade, com ênfase na questão da memória cultural
vis-a-vis à fruição espacial de diferentes grupos de usuários do centro de Porto Alegre
(Repertório de Elementos da Área Central, Castello et al, 1995).

Deve-se mencionar, também, como avanços brasileiros significativos na área da


percepção, as importantes contribuições para a metodologia do desenho urbano de
Vicente Del Rio (1985,1996), a continuada atividade de investigação de Maria Elaine
Kohlsdorf (1982,1996), e a contribuição articulada à semiótica de Lucrécia Ferrara
(1988,1993).

Aldo Rossi e a No campo da morfologia urbana, Aldo Rossi (1982), arquiteto e teórico italiano, aborda
morfologia a estrutura urbana a partir de uma perspectiva fortemente apoiada na estudo histórico
histórica
da configuração sócio-espacial da cidade tradicional italiana e da arquitetura
resultante deste processo. Descreve, neste sentido, duas categorias elementares,
caracterizando-as ao mesmo tempo em termos de oposição e complementariedade,
quais sejam:

i. Os elementos primários da estrutura urbana, essencialmente ligados à


apropriação pública, à excepcionalidade arquitetural e urbana e à
permanência, como praças, monumentos e edifícios institucionais;

ii. A área de residência, caracterizada pela apropriação privada, pela habitação e


funções urbanas de suporte, pela recorrência e transitoriedade, configurando
o tecido urbano razoavelmente indiferenciado.

A essência da abordagem de Rossi, que transfere o seu olhar teórico ao fazer


18
arquitetural como o principal nome do racionalismo italiano, trata de valorizar a
dimensão cultural das formas urbanas históricas, em uma crítica aberta aos modelos
preconizados pela arquitetura moderna.

A posição crítica de Rossi é, em grande medida, consonante com o pensamento de


Colin Rowe
e a cidade Colin Rowe (secundado por Fred Koetter, 1981), no que diz respeito ao esvaziamento
collage cultural imposto pela arquitetura moderna. Rowe, valendo-se de uma boa dose de
ironia ao acionar elementos de distintas correntes de pensamento filosófico, artístico e
literário (dai sua ênfase no conceito de collage) vai discutir a função simbólica da
19
cidade (ou sua perda) em termos dos teatros da memória e da profecia .

Enquanto o teatro da memória vale-se de um retorno romântico ao passado e um


sentimento nostálgico para com a cidade antiga (como em Sitte e Asplund, por
exemplo), o teatro de profecia, de rasgos utópicos progressistas, lança os olhos sobre

18
Sobre o racionalismo italiano, ou tendenza, ver, por exemplo, Framptom (1991) e Cejka (1995).
19
Esta dualidade é marcante na construção do pensamento urbanístico moderno e está didaticamente detalhada na antologia
O Urbanismo: Utopias e Realidade (Choay,1979).
arquitetura da urbanidade: quadro teórico incompleto 10

um futuro imediatamente promissor que rompe com a tradição urbana européia (e Le


20
Corbusier torna-se o personagem emblemático desta perspectiva) .

Uma contribuição das mais importantes à abordagem integral do desenho urbano


encontra-se, sem dúvida, na obra do arquiteto norte-americano Christopher
Alexander, que caracteriza-se por romper as fronteiras disciplinares da arquitetura e
do urbanismo, enfatizando o encadeamento sócio-histórico na produção e apropriação
do espaço construído.

Para Alexander, o espaço se explica e se constrói a partir de entidades denominadas


Christopher
Alexander: padrões (patterns) que se consubstanciam em uma linguagem - ou modo - atemporal
ambiente como (Alexander,1981; Alexander et al.,1982). O encadeamento de um conjunto de padrões
linguagem de (dai a analogia com linguagem) define a estrutura do ambiente integral. Espaço
padrões natural e espaço antropizado estão intimamente relacionados e devem refletir-se,
enquanto processo de projeto, em uma tradição, social e culturalmente,
21
conseqüente .

Desde o ponto de vista do autor, as cadeias de patterns configuram estruturas


ambientais que podem abranger desde a escala planetária até o detalhamento de
espaços interiores, passando pelas distintas escalas de apropriação e fruição
espacial, do edifício à cidade.

A participação do usuário no processo de projeto (o arquiteto assumindo, portanto, o


papel de mediador das aspirações individuais e coletivas do cliente/morador) é tratada
com grande ênfase e exemplarmente demonstrada com a experiência concreta da
ampliação do campus da Universidade do Oregon (Alexander,1978).

Árvore e Em um ensaio antológico muitas vezes republicado (1988), A City is Not a Tree,
semigrelha Alexander inscreve-se na crítica ao urbanismo moderno que concebe a estrutura da
22
cidade funcional em forma de árvore . Neste artigo, de grande repercussão nos
meios acadêmicos, o autor demonstra que a cidade tradicional - atemporal em seu
modelo de configuração e culturalmente contextualizada - estrutura-se através de
relações sócio-espaciais bem mais complexas, à maneira de uma semi-grelha
(semilatice).

Esquematicamente, as diferentes relações de interação entre as distintas escalas e


âmbitos sócio-espaciais, em cada modelo, podem ser verificadas na figura abaixo:

20
Para elucidar as noções de memória e profecia, Rowe analisa os projetos contemporâneos da Chancelaria Real de Asplund
e da cidade radiosa de Le Corbusier, ressaltando as relações de escala e composição (Rowe e Koetter,1991:)
21
A teoria de Alexander, compilada em uma espécie de manifesto doutrinário, é exaustivamente desenvolvida em uma trilogia
formada por El Modo Intemporal de Construir/A Timeless Way to Built (1981), Una Lenguage de Patrones/A Pattern
Language (1982), e Urbanismo y Participación/The Oregon Experience (1978), tratando, respectivamente, da construção
teórica, do método e da aplicação concreta.
22
Entre os exemplos acionados está o caso de Brasília, projeto de Lúcio Costa (1956). Ver Costa (1995:283-95), que
transcreve a íntegra da Memória Descritiva do Plano Piloto.
arquitetura da urbanidade: quadro teórico incompleto 11

Em um de seus ensaios mais recentes, Alexander e a equipe do Center for


Enviromental Structure (Alexander, Neis, Anninou, King, 1987) voltam-se
especificamente para a questão do desenho urbano, campo este entendido, no caso,
como processo continuado e resultante da articulação de múltiplas ações, em
diferentes escalas.

Regras para um O conceito central desta “nova teoria do desenho urbano” pode ser traduzido na idéia
crescimento de um processo de crescimento integral do conjunto (ou da totalidade: growing whole,
integral no original) que, de maneira bastante coerente com seus estudos anteriores, se
alicerça na aplicação mais ou menos informal de uma seqüência de sete regras para
o crescimento e estruturação do espaço urbano, cada uma delas abarcando uma
dimensão particular do processo:

i. A regra do crescimento incremental (piecemeal growth), que denota, como


condição necessária ao processo de crescimento integral, uma lógica de
adição incremental de “pequenas peças” na estruturação de um conjunto
coerente. Em grande medida, a operacionalização da norma baseia-se em
uma prévia distribuição proporcional dos usos urbanos e a programação
temporal de sua construção;
ii. A regra do crescimento através de grandes intervenções ou conjuntos de
pequenos projetos (growth of large wholes) resultantes de uma ação
coordenada das ações projetuais individuais;
iii. A regra da “visão” (vision) prévia dos efeitos de inserção dos novos
incrementos através da “experimentação” do espaço antes da construção
concreta, em uma espécie de prova de ensaio, através do envolvimento dos
agentes afetados pelo processo e, adequando, a partir dai, formas e
atividades às necessidades detectadas, de maneira a complementar e
enriquecer a vida do conjunto;
iv. A regra da produção de espaço urbano positivo (positive urban space), que
trata especificamente das relações imediatas entre espaços públicos e
privados, no sentido de que cada incremento privado que incida sobre a
estrutura urbana deva gerar um novo espaço urbano correspondente que, por
sua vez, articula-se à estrutura dos espaços de apropriação coletiva
existentes;
v. A regra da distribuição espacial em grandes edifícios (layout of large
buildings), que são vistos como elementos que fazem parte do processo de
geração do espaço público. Neste sentido, a regra procura garantir a
coerência, a articulação e a complementariedade funcional entre os layouts
interiores com os espaços exteriores da rua e do entorno;
vi. A regra de regulação das construções (constructions), de forma
complementar a que trata do layout das grandes edificações, que incide na
regulamentação volumétrica edifício-entorno, na adequação tecnológica e na
coerência na utilização dos detalhes arquitetônicos (por exemplo, relações
entre cheios e vazios nas fachadas, gabaritos de alturas e alinhamentos,
regramento na utilização de ornamento, etc.) em relação ao conjunto;
vii. A regra de formação de centros (formation of centers) que busca garantir a
diversidade funcional, sintática e geométrica aos espaços de apropriação
coletiva, ao passo de uma certa hierarquia na atratividade gerada pelas
múltiplas ações sobre a estrutura urbana.

O “experimento”
No sentido de demonstrar a validade de suas proposições teóricas e a capacidade de
resposta do método desenvolvido, Alexander e sua equipe elaboram um intrincado
experimento de simulação de um processo de crescimento urbano informado a partir
dos condicionantes e da relações contidas nas regras propostas.

Para promover o teste, selecionam uma área costeira de aproximadamente 75


hectares (30 acres), ao norte da Bay Bridge, em San Francisco (California) e, valendo-
se do engajamento de um grupo de estudantes de graduação da University of
California, que assumindo distintos papéis, como agentes do desenvolvimento urbano
arquitetura da urbanidade: quadro teórico incompleto 12

e comunitário, produzem um modelo tridimensional a partir de uma série de


23
pequenos, médios e grandes acréscimos seqüenciais (cerca de 90 incrementos) .

Os projetos desenvolvidos pelos distintos atores variam desde pequenas


intervenções, tais como o desenho de mobiliário urbano, de uma fonte ou do layout
dos pavimentos de um espaço público, até edificações complexas como blocos de
apartamentos e escritórios, biblioteca ou hotel, etc. O monitoramento e a aplicação
normativa das regras fica a cargo de um comitê que administra a experiência,
assumindo a função de “autoridade em planejamento urbano”.

O resultado permite visualizar uma auspiciosa diversidade formal e funcional e a


densa relação entre espaços abertos e construídos que remete, de forma inequívoca,
às relações de figura-fundo representativas da cidade tradicional figurativa. Em que
pese a complexidade do “jogo urbano” proposto, as dificuldades na apreensão
conceitual da regras e a necessidade de “imbuir-se” do espírito das
personagens/agentes, o modelo construído na forma de uma cuidadosa maquete
deixa transparecer uma surpreendente unidade morfológica e a riqueza sintática do
conjunto.

Maurice Cerasi Outra contribuição imprescindível à abordagem integral que este ensaio procura
construir pode ser reconhecida na interpretação esboçada por Maurice Cerasi (1977)
à problemática ambiental e ao papel da arquitetura na geração do ambiente humano.

A questão, segundo o autor, reside no enfoque projetual dado tradicionalmente ao


problema de regulamentação do espaço físico da cidade, que no âmbito do que
poder-se-ia chamar de “cidade moderna” parece desprezar a experiência da cultura
popular cotidiana, preferindo apoiar-se em um esquematismo funcional que
desconhece o indivíduo e o pequeno grupo, diluídos estes em uma sociedade (e em
um uso social do espaço) homogênea.

Como resposta, Cerasi trata pois de conferir aos fatos arquitetônicos e urbanos, um
status de cultura-ambiente, indo além da discussão estilística, econômica ou
tipológica que só passam a ter valor se referidas à experiência ambiental integral.

Cerasi amplia a análise arquitetônica ao delinear uma metodologia de leitura


comportamental do espaço, no caso, da arquitetura e da cidade, que situa a
problemática ambiental em termos de interrelação entre percepção e experienciação,
entre espaço topológico e espaço psicológico, entre o meio físico e os grupos sociais,
o que se define em termos da construção de uma historicidade na qual o cotidiano e a
memória desenham, em grande medida, as práticas sociais, na forma de um mosaico
cultural, e permitem visualizar, no entrelaçamento dos espaços interrelacionados de
cada grupo social, uma estrutura de atividades centrais

Michel de Remetendo ainda ao campo dos estudos da percepção do ambiente, o pensamento


Certeau de Cerasi parece alinhado com a perspectiva desenvolvida por Michel de Certeau
(1985). Trazendo importante contribuição ao campo da antropologia do espaço, este
autor preocupa-se em entender os atos de prática de lugar, ou seja, os mecanismos
de apropriação e percepção do espaço cotidiano, traduzíveis em valores
culturalmente contextualizados. Numa recorrente analogia lingüística, compara lugar à
linguagem que só passa a fazer sentido no ato de falar, no speech act do lugar.

Assim como para Cerasi, só existe sentido na arquitetura (ou, mais especificamente,
na arquitetura da cidade) quando esta é entendida como paisagem cultural que se
reflete na apropriação individual do cotidiano e na memória coletiva dos espaços
públicos e monumentos; para Certeau, a percepção do ambiente se orienta pelos
mesmos mecanismos de valoração cultural: o objeto casa só se torna morada no ato
23
Um exercício baseado no experimento de Alexander vêm sendo conduzido, com orientação do autor e dos professores
Moema de Castro Debiagi, arquiteta, e Eber Pires Marzulo, sociólogo,, com os alunos da disciplina ARQ 02.001 - Teorias
Sobre o Espaço Urbano, do Curso de Graduação em Arquitetura e Urbanismo da UFRGS. Neste caso, as regras são
definidas pelo coletivo dos estudantes a partir da hipótese fundacional de uma cidade imaginária. A atividade objetiva
ampliar a compreensão das diferentes abordagens teóricas que fazem parte do escopo da disciplina.
arquitetura da urbanidade: quadro teórico incompleto 13

de morar, a rua só se completa como tal à medida em que as relações cotidianas


preenchem de significados aquilo que, sem esta apropriação, não passaria de uma
amorfa abstração funcionalista de canal circulatório.

Ou, aplicando este ponto de vista aos diferentes espaços da cidade, o mercado
vivifica no ato da troca; a praça e o largo, no ato do encontro; as instituições públicas,
no ato cívico e na ação política. Em sua soma, o lugar deixa de ser apenas coleção
de objetos arquitetônicos para se tornar cidade através do ato coletivo.

Herman Abordagem que se aproxima bastante de Cerasi e Certeau, mas referida diretamente
Hertzberger à prática da arquitetura, vem sendo postulada por Herman Hertzberger (1996). O
arquiteto holandês, cuja produção profissional traz rasgos da citada corrente
estruturalista e insere-se, conforme a classificação de Cejka (1995), na modernidade
moderada, sustenta que é no “fazer arquitetônico”, ou seja, na ação projetual, que o
arquiteto encontra elementos para uma teoria da arquitetura, da cidade e do
ambiente.

Longe de constituir-se em um jogo de obviedades, a construção teórica de


Hertzberger concentra-se em uma lúcida abordagem das relações entre o público e o
privado como instância privilegiada para apreender - e dai aprender a projetar - o
espaço arquitetural/urbano.

O conceito de Público e privado, nesta perspectiva, não constituem-se em categorias em oposição,


intervalo mas complementares e interdependentes, o que se compreende melhor no sentido de
entre o público x
privado
um gradiente de responsabilidades individuais e coletivas em relação ao espaço. Seu
conceito de intervalo - o sentir-se “quase dentro ou quase fora” de um determinado
ambiente - é ao mesmo tempo simples e profundamente aclarador das formas de
apropriação social do espaço. Da maneira como foi formulado, intervalo corresponde
à interface entre instâncias de responsabilidade: entre o público e o privado, entre o
edifício e a rua, entre o território cotidiano e a cidade.

Vila do IAPI, em Porto Alegre:


mapa de fundo e figura, mostrando a representação
de espaços públicos (em branco) e privados (em negro).
arquitetura da urbanidade: quadro teórico incompleto 14

Comunicação e As metodologias de análise do espaço arquitetural e urbano nutrem-se ainda de


24
Semiótica: importantes contribuições no âmbito de uma abordagem de corte semiológico . O
Eco, pensamento estruturalista informa em ponderável medida os estudos de Umberto Eco
Canevacci,
Davis, (1976), no sentido das relações entre função utilitária e função
Virilio, comunicacional/simbólica da arquitetura.
Ferrara
Trazendo esta perspectiva para o espaço da cidade real, o antropólogo italiano
Massimo Canevacci (1993) e o double de professor de urbanismo do Southern
California Institut of Architecture e motorista de caminhão Mike Davis (1993) trilham
uma polêmica trajetória, trabalhando respectivamente sobre a lógica comunicacional
metropolitana de São Paulo e o processo de formação, ideologia e apropriação social
da região megassuburbana de Los Angeles.

Levando ainda mais longe o papel da comunicação na estruturação simbólica do


espaço, tem-se a perspectiva do francês Paul Virílio (1993,1996), onde a atenção
recai sobre a instantaneidade da informação (traduzida em termos de velocidade)
definidora de um território urbano virtualmente generalizado através das facilidades da
telemática (configurando um megassuburbio sem fronteiras nacionais).

A semiótica pierciana, por sua vez, comparece como arcabouço teórico-metodológico


nos estudos recentes já citados de Ferrara (1988, 1993). Neste caso, a autora
estabelece uma ponte entre a abordagem estruturalista e o campo da percepção
ambiental, na relação observador/ambiente, roteirizando a leitura do espaço urbano -
público ou privado - desde as distintas formas de apropriação individual ou coletiva, e
os distintos “olhares” - pontos de vista - do usuário/morador.

Robert Venturi No caso de Robert Venturi (1978; Venturi, Scott-Brown e Izenour, 1982), prolífico
e a crítica arquiteto americano considerado por muitos como principal teórico da pós-
pós-moderna: modernidade na arquitetura (Cejka,1995, por exemplo), as relações entre a forma
a arquitetura
do feio arquitetônica, a resposta funcional e a dimensão simbólica servem de argumento para
e do comum uma sólida crítica à tradição moderna na arquitetura e no urbanismo.

Venturi utiliza-se de farta documentação histórica no sentido de fundamentar suas


posições, ao mesmo tempo em que responde projetualmente à perspectiva crítica
estabelecida por sua obra escrita. Isto resulta em uma produção arquitetônica
absolutamente coerente em relação a postura teórica adotada, caracterizando-se por
um resgate do imaginário popular americano que muitas vezes beira ao Kitsch.

Termos como telheiro decorado (decorated shed, no original) e edifício-pato são


utilizados para enfatizar a perda da dimensão simbólica da arquitetura, a partir da
adoção dos postulados clássicos da arquitetura moderna, e a necessária retomada de
uma arquitetura “do feio e do comum” como para resgatar o seu caráter trouvé - de
duplo significado e dupla função - como é também preconizado pelo pensamento
collage de Colin Rowe (Rowe e Koetter, 1981).

Sem abrir mão da ironia e de uma eficiente estratégia de marketing na difusão de


suas idéias, seu ensaio sobre a formação do strip de Las Vegas (e o espaço e a
arquitetura dai resultantes) mostra a importância do ornamento e do pastiche
histórico-popular na produção do conteúdo simbólico na arquitetura. Learning from
Las Vegas/Aprendiendo de Las Vegas (Venturi, Scott-Brown e Izenour, 1982), é, e
talvez ai resida sua principal contribuição, um rigoroso roteiro metodológico para uma
25
leitura ambiental urbana contextualizada e isenta de preconceitos academicistas .
24
Sem querer aprofundar a polêmica há muito estabelecida sobre a adequação dos termos semiologia e semiótica, estes são
empregados aqui no sentido apontado por Eco (1976:385-91), ou seja, semiologia enquanto teoria geral sobre o significado
na comunicação, e semiótica como descrição de sistemas metodológicos particularizados, em especial, no caso presente, o
exaustivo enfoque desenvolvido por Pierce.
25
Venturi e Scott-Brown revistam Las Vegas, vinte e cinco anos depois do lançamento do já clássico Learning Fron Las Vegas
(originalmente editado em 1972). Em Las Vegas After Its Classic Age (1996), apontam para as transformações e o
desenvolvimento da cidade neste período, reconhecendo que a noção de strip abre caminho para a configuração de um
boulevard; a sprawl city (ramificação urbana) torna-se densa; o simbolismo arquitetônico explicito transforma-se em
cenografia.
arquitetura da urbanidade: quadro teórico incompleto 15

Rob Krier e o
Com objetivos muito próximos aos de Venturi, mas com uma argumentação
expressionismo francamente clássica e historicista, o alemão-luxemburguês Rob Krier (1981) procede
historicista uma sistemática catalogação tipológica da morfologia dos espaços públicos, a partir
da desconstrução/transformação/combinação das categorias elementares rua e
praça. Consonante com a crítica pós-moderna aos cânones funcionalistas, Krier
destaca-se, enquanto teórico, na denúncia do esvaziamento simbólico do espaço
urbano do século XX e, como desenhador urbano, em projetos de rasgos historicistas
enriquecidos por uma postura individual que o aproxima de um expressionismo tardio
(Cejka,1995:40).

Lugar como A questão dos significados da morfologia física da arquitetura e da cidade é, também,
signo cultural: objeto na abordagem de Kenneth Frampton (1988), que aponta relações entre forma
a abordagem urbana e identidade cultural. Para denotar uma “arquitetura de resistência” em termos
de de coerência e significação cultural, vale-se de uma série de oposições,
Kenneth
Frampton irreconciliáveis no seu entender, embora fugindo de uma interpretação maniqueista:

i. A oposição entre espaço e lugar;


ii. a oposição entre tipologia e topografia;
iii. a oposição entre espaço arquitetônico e espaço cenográfico;
iv. a oposição entre espaço artificial e espaço natural;
v. a oposição entre espaço visual e espaço tátil.

A abordagem da Partindo de uma outra perspectiva conceitual, melhor vinculada à modelagem


sintaxe espacial matemática dos sistemas urbanos, outro aporte importante à compreensão dos
processos configuracionais urbanos é o da sintaxe espacial (Hillier e Hanson,1984;
Holanda e Gobbi,1988, por exemplo) que avança na determinação de alguns fatores
morfológicos relacionados à apropriação social do espaço.
A abrangência dos estudos sintáticos situa a problemática em quatro níveis de
análise:

i. A morfologia física das construções e da cidade;


ii. A categorização social do espaço;
iii. Os modos de sua apropriação;
iv. As implicações sociais referentes a indivíduos e grupos (Holanda,1988:4).

As medições proporcionadas pela aplicação do método sintático podem contribuir


como elemento de um método projetual no sentido de estabelecer uma imprescindível
categoria de controle, no caso, o próprio estado de configuração dos espaços
urbanos que serão objeto de ensaio, em termos de atratividade, conectividade,
permeabilidade, acessibilidade e integração entre os elementos de cada sistema.

Também o campo da sintaxe espacial tem tido significativa acolhida entre


pesquisadores brasileiros, com destaque para o trabalho de Frederico Holanda, da
Universidade de Brasília, e de Benamy Turkienickz, Rômulo Krafta, Décio Rigatti e
Marisa Leontina Wagner, todos vinculados a Faculdade de Arquitetura da UFRGS.

Sem a intenção de estender em demasiado esta resenha de aportes e autores, vale


ainda assinalar algumas questões relevantes à definição de objeto e método, em uma
perspectiva teórica da urbanidade, em trabalhos recentes de professores do
Departamento de Urbanismo da UFRGS, onde o autor exerce sua atividade
acadêmica, como, por exemplo, o depreendido do já citado trabalho de Castello
(1986, 1989, 1996), onde a arquitetura do território se faz reconhecer como pauta
projetual desde a interação entre percepção, fruição e apropriação, definidora de
espaços potenciais de urbanidade; ou ainda no encaminhamento dado por Panizzi
(1989, 1993), no que se refere a coexistência (ou sobreposição) entre as cidades legal
e ilegal, na forma de um conflito ao mesmo tempo territorial e ideológico.

Os diferentes pontos de vista examinados, ainda que originados em bases teóricas


distintas, convergem na busca de respostas para um conjunto de questões
compartilhadas.
arquitetura da urbanidade: quadro teórico incompleto 16

As relações entre ambiente e desenho da cidade; sua morfologia física e a


apropriação social do espaço; a percepção do ambiente, as práticas cotidianas e a
valoração cultural do espaço urbano definem esta problemática comum.

E a noção de cidade como sistema de interfaces, que serve de eixo condutor para
este esboço teórico, ao menos a priori parece capaz de desenhar a articulação das
variadas abordagens. Por isso mesmo, é o ponto de partida à sistematização que este
ensaio se impõe. O quadro da página seguinte procura roteirizar, a modo de síntese,
*
os principais conceitos trabalhados pelos principais autores citados .

Na abordagem de: A problemática cidade e ambiente está referida quanto a(ao):


Fundación CEPA • O conceito de interface, que se define por:
• máxima centralidade social;
• máxima interação entre grupos e atividades;
• conflitualidade entre centro e periferia;
• contradição entre campo e cidade.
Pesci • O conceito de interface se traduz em:
• Leonia, através de fluxos entrópicos de matéria, energia e
informação;
• Zora, através da ruptura entre o tradicional e o moderno e o
engessamento normativo do planejamento urbano;
• Pentesilea, através da baixa qualidade do meio construído, da
falta de arraigamento e da ausênciai de imagem coletiva na
periferia.
Lynch • Categorias da estrutura visual do espaço urbano:
• canais, nós, barreiras, distritos e marcos referenciais;
• performance da forma urbana, especialmente em termos de
acesso, sentido e controle.
Rossi • elementos primários, em contraponto ao tecido residencial
homogêneo.
Rowe e Koetter • “collage” e colisão.
Alexander • encadeamento de padrões como estrutura ambiental;
• espaço urbano positivo e formação de centros.
Cerasi • espaço “interrelacionado” entre grupos sociais;
• estrutura de atividades centrais;
• cidade-território e cultura-ambiente.
Certeau • Cotidiano e práticas de lugar.
Hertzberger • Gradiente de responsabilidades sobre o público e o privado;
• “intervalo”.
Eco • Comunicação;
• estrutura.
Venturi • Arquitetura como símbolo: o “telheiro decorado” e o “edifício-
pato”;
• valor comercial do espaço;
• o “strip”: colagem de formas historicamente reconhecíveis;
• ramificação urbana versus megaestrutura arquitetônica.

*
Em um amistoso contato via fax, datado de 20 de janeiro de 1997, já citado na apresentação deste livro, Rubén Pesci, ao
comentar a versão preliminar de alguns dos capítulos, critica a eventual correspondência entre a noção de interface e os
autores citados, considerando-a forçada e fazendo notar que “muitas semelhanças são somente isso (semelhanças)”. Devo
concordar com alguma ressalva. É certo que as articulações entre o conceito de interface e as variadas noções referidas
aos distintos autores não esgotam o tema e são apenas um artifício intelectual - totalmente subjetivo, no caso presente - na
construção da abordagem. Reconheço, obviamente, que os endereços teóricos (e mesmo ideológicos) acionados são
muitas vezes divergentes. Ainda assim, o vis-à-vis entre os vários enfoques, tendo como eixo de discussão a cidade como
sistema de interfaces, tem se mostrado um interessante momento didático, tanto que novos autores e outras abordagens
vem se somando à reflexão de ateliê, trazidos pelos estudantes, seja em função de investigação própria, seja por simples
preferência pessoal em relação ao trabalho de arquitetos modernos e contemporâneos (nota do autor).
arquitetura da urbanidade: quadro teórico incompleto 17

Krier • Praça;
• rua;
• combinações entre praças e/ou ruas.
Frampton • Oposição entre “espaço” e “lugar”.
Hillier e Hanson • Categorização social do espaço;
• modos de apropriação do espaço.
Virilio • velocidade;
• instantaneidade.
Castello • percepção, fruição e apropriação;
• arquitetura do território.
Panizzi • tensão entre cidade “legal” versus cidade “ilegal”.
Aurores citados: principais conceitos e categorias

3
PONTOS INCONCLUSOS

“A
arquitetura funciona porque comunica” ensina Umberto Eco (1976).
Talvez se pudesse precisar que a arquitetura se completa quando
comunica, isto é, quando realiza sua função simbólica, dotando os
espaços da cidade de significados particulares, tal qual as marcas
de um roteiro às práticas sociais cotidianas.

Afirma Stephen Carr (1978) que a construção de significados é resultado da


experiência. No que tange aos espaços urbanos que, em seu conjunto
ajudam a configurar a cidade como sistema de interfaces, isso pode ser
estendido no sentido de “experiência popular do cotidiano da cidade”
(Castello,1986:67): um espaço no qual se somam as experiências individuais
de milhares de pessoas, um espaço que se vai “escrevendo” de forma
polifônica, “como em um coro que canta com uma multiplicidade de vozes que
se cruzam”, na perspectiva de Massimo Canevacci (1993:17).

Como foi enfatizado, compreender este processo, que articula memória,


percepção, fruição e uso do espaço, sugere a necessidade de uma estrutura
de linguagem, passível, neste sentido, de uma leitura ambiental
contextualizada.

Poder-se-ia seguir adiante, agregando novos autores e pontos de vista, ou


aprofundando o olhar sobre os enfoques já listados. Esta é uma tarefa
exaustiva, mas que se impõe ao investigador iniciante frente à temática da
arquitetura-ambiente. É o primeiro passo, necessário e intransferível, aos
arquitetos preocupados com a construção de um método de investigação-
ação transdisciplinar.

Quando se acredita que o caminho é projetual (isto é, utilizando-se do projeto


como ferramenta para a superação de conflitos), às destrezas arquitetônicas
devem somar-se outros saberes, no sentido do rompimento das fronteiras
disciplinares. Em outras palavras, a busca é a da construção de uma nova
interface epistemológica, um novo rol humanístico para a ação do arquiteto
urbanista.
arquitetura da urbanidade: quadro teórico incompleto 18

Aos que se formaram dentro de um paradigma de crises verdadeiras e outras


nem tanto - a crise do planejamento urbano e a falência da arquitetura
moderna são exemplares na questão -, os caminhos postulados em um
receituário de panacéias à granel soam ingenuamente anacrônicas. A onda
pós-moderna, com sua pitoresca retomada de estilos, mostrou o quanto a
instantaneidade da informação (particularmente para os desinformados) pode
representar uma grosseira distorção ao se tentar buscar respostas para um
urbanismo à brasileira, se, enquanto discute-se o pós, as condições de vida
de uma parcela gigantesca da população - urbana, rural e periurbana - não
alcançam parâmetros mínimos de uma proto-modernidade ainda que no
atendimento das necessidades mais básicas.

Este ensaio foi elaborado como um roteiro, propondo-se colecionar olhares


sobre a cidade, maneiras de pensar este urbanismo. Assim, pode-se tomar
cada uma das pequenas resenhas como chave para começar a conhecer o
pensamento dos distintos autores listados. Neste sentido, vale reforçar a
advertência de que não houve preocupação em construir uma seqüência
cronológica de autores e obras, mas sim, a listagem obedece a uma ordem
(que é, obviamente, subjetiva) de encadeamento de conceitos e pontos de
vista.

E, como advertência final, importa dizer que esta coleção de obras e autores
foi acontecendo, ao longo do tempo, em função das demandas de ateliê e dos
trabalhos de investigação desenvolvidos em um intervalo de, pelo menos, dez
anos passados. E isso reflete muito claramente as preocupações acadêmicas,
as opções teóricas e a não-neutralidade do seu autor frente a temática
examinada.

Pois, como sabiamente ensina Raymond Aron, “... nossa consciência política
é e não pode deixar de ser consciência histórica”.