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(*) UZIEL SANTANA

CRISTIANISMO versus PÓS-MODERNISMO:


Quem nós éramos? Quem nós somos? E quem nós
estamos nos tornando? (Parte III)
“O homem é a medida de todas as coisas (...) ou existe um “Caminho”, uma
Verdade e uma “Vida” fora da subjetividade e (pós)modernidade da
humanidade?
No ensaio da semana passada, continuando a nossa série sobre a dicotomia
existencial na qual estamos inseridos e vivenciamos, dia-a-dia, na teia das relações
inter(intra)pessoais e inter(intra)institucionais – Cristianismo versus Pós-Modernismo
– nós assentimos que, para entendermos bem esta condição pós-moderna,
precisávamos, em primeiro lugar, entender o que foi o projeto de modernidade da
humanidade, de modo a fazermos uma releitura do background social e cultural no
qual nos desenvolvemos, enquanto sociedade e enquanto indivíduos, desde o advento
do ideário racionalista do Iluminismo (século XVIII).
Por esse prisma, vimos que a Modernidade da Humanidade se dá, como projeto e
pretensão político-social-científico-cultural, quando o homem, completamente
imerso nas fontes das teorias racionalistas do “'Iluminismo”, estabelece-se e se auto-
proclama “a medida de todas as coisas”. Com esse juízo de convicção – baseado mais
na arrogância e impetulância do ser humano do que em evidências cognitivas – o
homem afirma, peremptoriamente, que, ao contrário do que assentia a fé Cristã, só
chegaríamos à “Verdade” das coisas em si pela via única da Razão humana. De tal
modo que, uma vez feito assim, atingiríamos o ápice do desenvolvimento das
sociedades, em todos os seus matizes e segmentos constitutivos. Em síntese, a tríade
do projeto da Modernidade da Humanidade era: o “Caminho” era a Razão Humana
balizada pelos postulados e pressupostos da Ciência; a “Verdade” era a hipótese
confirmada em Tese pelo raciocínio e cognição humanos, estabelecidos metodológica
e cientificamente; e a “Vida” - com abundância (welfare), progresso e
desenvolvimento – só teríamos se, realmente, encontrássemos esta “Verdade” pela
Razão da Ciência.
Esse foi o audacioso e soberbo projeto do homem moderno de tal modo que, como
afirmamos antes, com o advento de tal projeto de modernidade da humanidade,
houve um processo crescente de racionalização intelectualista inversamente
proporcional aos valores que fundamentam a “Era Cristã”. O Theos (Deus), no
(in)consciente individual e coletivo, perdeu espaço e tempo para o Homo Sapiens.
Aliás, isso foi (e é tão evidente) que a humanidade – percebendo que a noção de
Divindade é inelutável - em vez de, tão-somente, decretar a morte de Deus – como
fizeram alguns filósofos, como Nietzche – O materializou, ou O ritualizou, ou mesmo,
em síntese, tornou Deus uma simples prática religiosa, seja ela qual for.
E qual o resultado desse projeto moderno da humanidade? Nós vimos no ensaio
passado. E Antonny Giddens – sociólogo britânico – nos ajuda a entender ainda mais,
confirmando a nossa asserção antepassada: “A ciência perdeu boa parte da aura de
autoridade que um dia possuiu. De certa forma, isso provavelmente é resultado da
desilusão com os benefícios que, associados à tecnologia, ela alega ter trazido para
a humanidade. Duas guerras mundiais, a invenção de armas de guerra terrivelmente
destrutivas, a crise ecológica global e outros desenvolvimentos do presente século
poderiam esfriar o ardor até dos mais otimistas defensores do progresso por meio da
investigação científica desenfreada”.
O resultado de toda essa marcha histórica do projeto moderno da humanidade foi o
desencantamento, ainda maior, dela, a humanidade, consigo mesma. Foi assim que
afirmamos no ensaio anterior. E desse desencantamento da humanidade com o seu
audacioso, soberbo e arrogante plano de modernidade, onde Deus deixou de ser o
cerne de todas as coisas e o homem se tornou “a medida de todas as coisas, das que
são e das que não são”, nasceu, assim, a sua forjada reação – nenhum um pouco
arrependida – o que Lyotard denominou de “condição pós-moderna”. E falamos
“nenhum pouco arrependida”, porque o ser humano em vez de se voltar para os
pilares que fundamentaram as sociedades até então (por exemplo, a fé em Deus),
simplesmente, preferiram atestar como hipótese tranformada agora em tese que: se
pela Ciência não chegamos à “Verdade” é porque não há “Verdade” a se chegar. A
“Verdade” depende do referencial que é estabelecido arbitrariamente. Essa é a
noção “dessubstantivada” de “Verdade” que a pós-modernidade trouxe como fruto
da derrocada do projeto da modernidade. É o tal relativismo que impregnou a nossa
vida, as nossas instituições, as nossas escolas, as nossas concepções sobre todas as
coisas que nos cercam.
Na realidade, a condição pós-moderna em que vivemos é fundamentada em alguns
pilares fundamentais de existência para a sociedade e para o indivíduo. São eles: o
relativismo, o liberalismo, o hedonismo e o consumismo. Vamos nos deter sobre cada
um deles, a partir de agora, a fim de que possamos atingir o nosso objetivo precípuo
nesta série de artigos: “rememorar quem nós éramos, saber quem nós somos e
compreender quem nós estamos nos tornando”. Comecemos, então, pelo primeiro
e mais importante pilar da pós-modernidade: o relativismo.
Ernest Gellner – filósofo judeu-checo – criticando o relativismo cultural, conceitual
e moral do pós-modernismo, assim, escreve-nos: “O pós-modernismo parece ser
claramente favorável ao relativismo, tanto quanto ele é capaz de claridade alguma,
e hostil à ideia de uma verdade única, exclusiva, objectiva, externa ou
transcendente. A verdade é ilusiva, polimorfa, íntima, subjectiva (...) e
provavelmente algumas outras coisas também. Simples é que ela não é (...).Tudo é
significado e significado é tudo e a hermenêutica o seu profeta. Qualquer coisa que
seja, é feita pelo significado conferido a ela...”.
A citação acima do filósofo judeu-checo explicita bem o ideário relativista da
condição pós-moderna. Quando Ernest Gellner afirma que, para a pós-modernidade,
a Verdade “é ilusiva, polimorfa, íntima e subjectiva”, ele expressa, com exatidão, a
insensatez e malignidade do gênio humano, porque, em assim sendo, não existe
“Verdade”, não existe “Caminho” e não existe “Vida”. Existem “verdades”,
“caminhos” e “vidas”. Nesses termos, Jesus, ao falar aos seus discípulos, em João
14:6, que é o Caminho, a Verdade, e a Vida, seria considerado hoje, nesta condição
pós-moderna, um fundamentalista mentiroso e arrogante, porque se arvorou no
direito de dizer que é a única Verdade, Caminho e Vida a ser seguido. Apesar de
forte essa nossa asserção ela expressa a realidade que vivemos hoje.
É, exatamente, por isso que os conceitos morais estão relativizados. Não existe mais
o certo e o errado, o bem e o mal, o que é transgressão a Deus ou não, até mesmo
porque “Deus” é um conceito relativo, “depende do referencial religioso”, diriam
alguns de nós.
Pode crer que é isso que você, eu, nossos filhos e filhas têm visto nas programações
televisas, nas aulas aprendidas na escola, em algumas pseudo-igrejas e na teia de
relações interpessoais e institucionais, de maneira que o anormal virou normal e o
normal virou anormal, isto é, não existe distinção substantiva entre o normal e o
patológico, tudo depende de um ponto de vista. Essa é a lição que temos aprendido
atualmente. Esse é o ideário relativista da condição pós-moderna. Onde isso vai nos
levar? Não tenha dúvida de que é na negação “in totum” da fé Cristã: a apostasia.
(*) Cristão, Advogado e Professor da UFS
(www.uzielsantana.pro.br)