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SÃO PAULO EM PERSPECTIVA, 15(4) 2001

DEMOCRACIA E ESC¬NDALOS POLÕTICOS

VERA CHAIA

Professora do Departamento de PolÌtica e do Programa de Estudos PÛs-Graduados em CiÍncias Sociais da PUC-SP, Pesquisadora do N˙cleo de Estudos em Arte, MÌdia e PolÌtica

MARCO ANTONIO TEIXEIRA

Pesquisador do N˙cleo de Estudos em Arte, MÌdia e PolÌtica da PUC-SP

Resumo: Por meio de an·lise de alguns esc‚ndalos surgidos recentemente no cen·rio polÌtico brasileiro como os casos da violaÁ„o do painel de votaÁ„o do Senado Federal e das den˙ncias de corrupÁ„o no Banpar·, Sudam e TDAs, busca-se compreender as determinantes dos esc‚ndalos repercutidos pela mÌdia, e analisar as conse- q¸Íncias desses fenÙmenos para a polÌtica brasileira. Palavras-chave: democracia; Estado brasileiro; Legislativo.

U ma sÈrie de esc‚ndalos marca o atual cen·rio polÌtico brasileiro, envolvendo senadores, secre- t·rios de governos e polÌticos de modo geral. A

polÌtica nacional est· vivendo uma crise peculiar com es- ses esc‚ndalos presentes em v·rias esferas da administra- Á„o p˙blica. Todos os envolvidos culpam a mÌdia por buscar casos escabrosos e den˙ncias contra personalida- des p˙blicas. O prÛprio Senado aparece como um poder comprometido com esc‚ndalos e sua credibilidade se en- contra em xeque. Quais os elementos desencadeadores dos esc‚ndalos polÌticos? E que conseq¸Íncias esse fenÙme- no traz para a vida polÌtica brasileira? Para abordar alguns casos de esc‚ndalos polÌticos que apareceram e ganharam destaque na mÌdia brasileira, ser· adotado um enfoque que privilegia a teoria social dos es- c‚ndalos analisada pelo sociÛlogo inglÍs John B. Thompson, em seu recente livro sobre ìPolitical scandal ñ power and visibility in the media ageî (Thompson, 2000), no qual estuda esc‚ndalos polÌticos que envolvem corrupÁ„o, que- bra de decoro parlamentar e esc‚ndalos sexuais. Antes de examinar os esc‚ndalos polÌticos se faz neces- s·rio esclarecer o significado conceitual desse fenÙmeno, pois muitas vezes esc‚ndalo È confundido com corrupÁ„o, porÈm nem todo caso de corrupÁ„o se transforma em esc‚ndalo po- lÌtico. Nesse sentido, precisa-se diferenciar a an·lise do es- c‚ndalo, dos estudos sobre a corrupÁ„o, uma vez que exis- tem algumas especificidades que os diferenciam.

ESTUDOS DA CORRUP« O

Alguns estudos est„o mais preocupados em destacar os custos da corrupÁ„o para a sociedade, para as instituiÁıes e s„o prioritariamente casos e paÌses que desenvolveram saÌdas polÌticas e souberam controlar o Poder Executivo, minimizando o aparecimento de corrupÁ„o. O prÛprio Banco Mundial, como agÍncia financiadora internacional, avalia a necessidade de combater a corrupÁ„o, pois paÌ- ses com altos Ìndices desses casos n„o s„o vi·veis para se fazer investimentos. Portanto, os estudos de corrupÁ„o possuem um objetivo principalmente instrumental e mo- ral e n„o propriamente cientÌfico, porque as causas e os elementos desencadeadores de casos de corrupÁ„o n„o s„o avaliados e tampouco destacados. A FundaÁ„o Konrad-Adenauer lanÁou recentemente um caderno especial com o objetivo de analisar ìOs custos da corrupÁ„oî. Wilhelm Hofmeister, na apresentaÁ„o, caracteriza a corrupÁ„o como ìo maior obst·culo para o desenvolvimento. Ela aprofunda o fosso entre ricos e po- bres, enquanto elites vorazes saqueiam o orÁamento p˙- blico. Causa distorÁıes na concorrÍncia, ao obrigar em- presas a desviar import‚ncias cada vez maiores para obter novos contratos. Solapa a democracia, a confianÁa no Estado, a legitimidade dos governos, a moral p˙blica. A experiÍncia demonstra: a corrupÁ„o pode debilitar toda uma sociedadeî (FundaÁ„o Konrad-Adenauer, 2000:7).

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J· o artigo de Bruno Wilheim Speck (2000), presente

no caderno especial da Konrad-Adenauer, denominado ìMensurando a corrupÁ„o: uma revis„o de dados prove- nientes de pesquisas empÌricasî, busca analisar as pesqui- sas que tiveram o objetivo de compreender e mensurar a corrupÁ„o.

O autor avalia o desenvolvimento dessas pesquisas e

as sistematiza a partir dos seguintes elementos:

- pesquisas que privilegiam os ìesc‚ndalos de corrupÁ„oî

divulgados pelos meios de comunicaÁ„o ñ os limites des- te tipo de pesquisa esbarram na quest„o da liberdade de imprensa existente nos paÌses e em possÌveis mudanÁas nas editorias dos jornais, que poder„o ou n„o privilegiar relatos sensacionalistas sobre casos de corrupÁ„o;

- indicador de corrupÁ„o construÌdo a partir das conde-

naÁıes penais, com dados coletados na polÌcia, no Minis- tÈrio P˙blico e na JustiÁa ñ o mero registro n„o significa necessariamente a puniÁ„o, e o significado de crime de corrupÁ„o tambÈm pode variar, pois os cÛdigos penais n„o possuem o mesmo conte˙do de paÌs para paÌs;

- indicador de corrupÁ„o obtido atravÈs de pesquisas de

opini„o que auscultam ìos cidad„os sobre o grau e a exten-

s„o da corrupÁ„o na sociedadeî ñ envolve necessariamente avaliaÁıes subjetivas, porÈm foram muito utilizadas.

O tema da corrupÁ„o, portanto, entra na agenda polÌti-

ca e a partir dos anos 90 se associa umbilicalmente ‡s necessidades das reformas polÌticas e institucionais. Os relatÛrios do Banco Mundial, principalmente a partir do ano de 1996, s„o enf·ticos em relaÁ„o ao tema da corrup- Á„o e incentivam pesquisas que busquem detectar ·reas e instituiÁıes ìcontaminadasî pela corrupÁ„o e que sejam alvo privilegiado de reformas estruturais e institucionais. Fl·via Schilling (1999), em um artigo intitulado ìO Esta- do do mal-estar: corrupÁ„o e violÍnciaî, argumenta que nos dias atuais o que prevalece nos notici·rios s„o crimes envol- vendo corrupÁ„o, tema presente na agenda polÌtica interna- cional e no Brasil a partir dos anos 80 e 90.

A autora afirma que a corrupÁ„o deve ser considerada

crime e est· associada ‡ violÍncia, com uma caracterÌsti- ca central: o exercÌcio de influÍncia concebido como ìuma relaÁ„o de forÁas entre as partes envolvidas a se equili- brarî (Shilling, 1999:48). Nesse sentido, a corrupÁ„o en- volve tambÈm a coerÁ„o das relaÁıes de poder. Um outro autor que estuda a corrupÁ„o na polÌtica bra- sileira È Marcos Ot·vio Bezerra, em seu livro CorrupÁ„o ñ um estudo sobre poder p˙blico e relaÁıes pessoais no Brasil, com o objetivo de analisar as ìrelaÁıes sociais que

ordenam as pr·ticas designadas como corruptas e corrup- torasî (Bezerra, 1995:17). Para tanto, Marcos examina trÍs ìcasosî ñ ValÍncia, Capemi e Coroa-Brastel ñ, discutin- do a lÛgica e os princÌpios sociais que fundamentam as condutas envolvidas nestes ìcasosî. Renato Janine Ribeiro (2000), no capÌtulo ìda polÌtica da corrupÁ„oî, do livro A sociedade contra o social ñ o alto custo da vida p˙blica no Brasil, destaca como nos v·rios sistemas de governo, o tema corrupÁ„o teve signi- ficados diferenciados. Na tirania e na monarquia n„o ha- via a separaÁ„o entre bem p˙blico e bem privado, portan- to a corrupÁ„o estava associada a algum modo de traiÁ„o ‡ p·tria, como nos desvios de conduta (basicamente se- xuais) ou na acusaÁ„o de mulheres, consideradas corrup- tas ao tentarem assumir papÈis fora daquilo que a socie- dade lhes passava como expectativa de boa conduta.

A corrupÁ„o, da maneira como nÛs a conhecemos, È

um fenÙmeno da moderna Rep˙blica. Segundo o autor, o regime democr·tico, inevitavelmente, conviver· com al-

gum grau de corrupÁ„o por diversas razıes:

A primeira raz„o decorre do fato de a democracia pau-

tar-se pelo sentimento de toler‚ncia ‡ diversidade, n„o

havendo nenhum grau de afeto superior que padronize o comportamento das pessoas, como ocorria em Èpocas pas- sadas quando se transformava em corrupÁ„o tudo aquilo que fugia dos padrıes definidos pelo prÛprio grupo.

O segundo fator que explica a corrupÁ„o decorre da su-

premacia da sobrevivÍncia individual (busca do dinheiro) em relaÁ„o ao espaÁo coletivo (mundo do afeto). Nas estruturas (Estado) em que deveriam ser realizadas as produÁıes de bens p˙blicas, o interesse privado tem prevalecido. Mas, o que vem se verificando È que, paralelamente ao pleno exercÌcio da liberdade e do direito de fiscalizar e de escolher governantes, a corrupÁ„o tambÈm est· presente nas democracias modernas, colocando em risco esse regime po- lÌtico. Ribeiro (2000:175-76) auxilia a melhor compreender esta situaÁ„o paradoxal quando coloca que: ìTalvez o me- lhor indÌcio da situaÁ„o claudicaste em que vive a Rep˙blica moderna, do ponto de vista da Ètica, apresente-se numa mu- danÁa quase despercebida, que afetou a palavra corrupÁ„o. Para os antigos, ela definia a degradaÁ„o da coisa p˙blica por meio da usura dos costumes. Hoje, ela se reduziu a coisa t„o limitada como o mau trato do dinheiro p˙blico. Eviden- temente, h· uma ligaÁ„o entre um sentido e outro. Para que funcion·rios ou magistrados exijam ñ ou aceitem ñ suborno, È preciso estarem desgastados os costumes; e È isso o que reduz a forÁa do regime polÌtico que mais exige o respeito ao bem p˙blico: a democraciaî.

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Um outro enfoque da corrupÁ„o pode ser encontrado

em Marcos Fernandes GonÁalves da Silva, (1995) no tex- to A economia polÌtica da corrupÁ„o: o esc‚ndalo do orÁamento. O autor trabalha com as dimensıes etimolÛgica

e normativa. No sentido etimolÛgico, a palavra corrupÁ„o

denota decomposiÁ„o, putrefaÁ„o, depravaÁ„o, desmora- lizaÁ„o, seduÁ„o e suborno. J· do ponto de vista normati- vo, o autor afirma que a corrupÁ„o envolve sempre um ato ilegal e que precisa de no mÌnimo dois agentes ñ um corrupto e um corruptor. Segundo Silva (1995:8), a cor- rupÁ„o no senso comum seria identificada: ìcomo um fe- nÙmeno associado ao poder, aos polÌticos e ‡s elites eco- nÙmicas. Mas igualmente considera a corrupÁ„o algo freq¸ente entre servidores p˙blicos (como policiais e fis- cais, por exemplo) que usam o ëpequeno poderí que pos- suem para extorquir renda daqueles que teoricamente cor- romperam a leiî.

ESTUDO DE ESC¬NDALOS POLÕTICOS

Freq¸entemente esc‚ndalos e corrupÁ„o s„o confundi- dos, porÈm s„o fenÙmenos distintos e a relaÁ„o entre os dois È vari·vel. Sherman, citado por Marco Ot·vio Be- zerra (1995:196), comenta que o esc‚ndalo envolve ìes- t·gios de desenvolvimento: revelaÁ„o, publicaÁ„o, defe- sa, dramatizaÁ„o, execuÁ„o (julgamento) e rotulaÁ„oî. Em sua obra, John B. Thompson (2000:13) tem como objetivo compreender o desenvolvimento dos esc‚ndalos

polÌticos em diferentes culturas e paÌses. Para tanto, o autor realiza uma an·lise sistem·tica do fenÙmeno do esc‚nda- lo polÌtico, como produto da sociedade moderna, como tambÈm se preocupa em compreender as implicaÁıes que este fenÙmeno traz para a natureza e a qualidade da vida p˙blica. Para Thompson, ìëscandalí referes to actions or events envolving certain kinds of transgressions which become known to others, and sufficienthy serious to elicit

a public responseî. A emergÍncia de um esc‚ndalo depende do conheci- mento de outros, envolvendo um grau de conhecimento p˙blico sobre as aÁıes e acontecimentos e a transforma- Á„o desse conhecimento em ëmaking publicí e ëmaking visibleí, atravÈs dos quais estas aÁıes se tornam conheci- das dos outros. Nesse sentido, È crucial o papel da comu- nicaÁ„o midi·tica na divulgaÁ„o e publicizaÁ„o de v·rios esc‚ndalos. Uma das caracterÌsticas da comunicaÁ„o midi·tica È a possibilidade de divulgar e de circular informaÁıes refe- rentes a um determinado esc‚ndalo numa esfera que trans-

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cende o tempo e o espaÁo da sua ocorrÍncia. O esc‚ndalo pode se espalhar rapidamente e de maneira incontrol·vel, sendo difÌcil reverter o processo, tanto que uma das con- seq¸Íncias imediatas do esc‚ndalo polÌtico È o prejuÌzo que traz ‡ reputaÁ„o dos indivÌduos envolvidos, portanto esse È um risco que sempre est· presente quando um es- c‚ndalo irrompe. Thompson considera que a reputaÁ„o possui um ësymbolic powerí, pois È um recurso que os indivÌduos podem acumular, cultivar e proteger. Os indivÌduos envolvidos em esc‚ndalos podem se de- fender de v·rias maneiras das acusaÁıes: entrar com uma aÁ„o na justiÁa e resolver os problemas numa corte legal; rejeitar as acusaÁıes, negar as transgressıes ou negar que

estejam envolvidos. Outra estratÈgia utilizada È a confiss„o p˙blica, visando angariar simpatias dos outros com esse ato. CorrupÁ„o pode se transformar em um esc‚ndalo. Quais as condiÁıes adicionais para que atividades corruptas se constituam em esc‚ndalos? A corrupÁ„o precisa ser des- coberta para se tornar escandalosa, pois se as atividades de corrupÁ„o permanecerem escondidas dos outros esta- r„o protegidas de uma futura investigaÁ„o p˙blica. CorrupÁ„o envolve infraÁ„o, violaÁ„o de regras, con- venÁıes ou leis, que somente ser„o denunciadas se os outros (n„o-participantes) considerarem tais violaÁıes suficientemente sÈrias e importantes para serem revela- das e expressarem uma vigorosa desaprovaÁ„o daqueles atos. Portanto, a articulaÁ„o p˙blica do discurso denun- ciatÛrio È a condiÁ„o final para que uma corrupÁ„o se trans- forme em um esc‚ndalo. O esc‚ndalo n„o È um fenÙmeno novo, pois casos es- candalosos, de v·rios tipos, existiram em muitos perÌo- dos da nossa histÛria, mas com o desenvolvimento das sociedades modernas a natureza, a escala e as conseq¸Ín- cias dos esc‚ndalos sofrem alteraÁıes. Agora emergem os ìesc‚ndalos midi·ticosî, que na avaliaÁ„o de Thompson se caracterizam n„o sÛ pelo fato de serem tratados pela mÌdia, mas por envolverem outra dimens„o espacial-tem- poral e de extens„o. N„o s„o mais fenÙmenos localiza- dos, pois podem adquirir tambÈm uma dimens„o nacional

e atÈ global, exatamente pela expans„o e desenvolvimen-

to das comunicaÁıes. Associados a esse desenvolvimento, Thompson destaca

a profissionalizaÁ„o dos jornalistas e o surgimento do jorna-

lismo investigativo. Agora, alguns jornalistas se consideram ìguardiıes do interesse p˙blicoî e atuam no sentido de reve- lar os segredos dos poderes. TambÈm n„o se pode deixar de considerar que existe um interesse comercial na divulgaÁ„o dos esc‚ndalos, j· que esse fenÙmeno ëvendeí.

DEMOCRACIA E ESC¬NDALOS POLÕTICOS

Todos os cidad„os, em princÌpio, s„o iguais perante a lei, mas nem todos possuem visibilidade, porque n„o ocu- pam posiÁıes p˙blicas importantes numa determinada sociedade. Existem indivÌduos que s„o mais vulner·veis que outros, porque seu comportamento p˙blico, e tambÈm privado, est· mais sujeito ‡ exposiÁ„o e ao controle e, por- tanto, mais sujeito a cobranÁas. Um outro aspecto a ser considerado È que o surgimen- to do esc‚ndalo midi·tico est· relacionado com transfor- maÁıes sociais do mundo moderno, redefinindo as rela- Áıes entre a vida p˙blica e a vida privada, uma vez que agora novas formas de visibilidade e publicizaÁ„o se fa- zem presentes, provocando novas relaÁıes entre esc‚nda- lo e mÌdia e entre aÁıes e interaÁıes sociais. Autoridades p˙blicas, a partir desse momento, adqui- rem um tipo de publicizaÁ„o que prescinde da presenÁa fÌsica. Os governantes fazem uso da comunicaÁ„o n„o somente como veÌculo para divulgaÁ„o de decretos ofi- ciais, mas tambÈm como meio de produzir a sua prÛpria imagem. Portanto, a visibilidade presente nos dias atuais È benÈfica para que as lideranÁas polÌticas sejam conheci- das, mas tambÈm deve ser avaliada com desconfianÁa, pois agora a mÌdia torna visÌveis todas as atividades que esta- vam ìescondidasî do p˙blico em geral e cria um campo complexo entre imagens e informaÁıes, fazendo que a vi- sibilidade midi·tica se torne difÌcil de ser controlada e possa se transformar numa armadilha para as lideranÁas. O desenvolvimento temporal do esc‚ndalo midi·tico tambÈm depende de outras instituiÁıes como justiÁa, ins- tituiÁıes polÌticas e atÈ policiais. Tal esc‚ndalo possui um comeÁo e um fim, e se desenrola como um enredo de no- vela, envolvendo os espectadores e leitores que acompa- nham todas as etapas da ìhistÛriaî. O tÈrmino do esc‚n- dalo pode implicar uma confiss„o, resignaÁ„o, um inquÈrito oficial e um julgamento. TambÈm existe a possibilidade desse esc‚ndalo desaparecer gradualmente da mÌdia, uma vez que j· que n„o desperta interesse p˙blico. AlÈm dos indivÌduos envolvidos diretamente no esc‚n- dalo midi·tico, Thompson tambÈm ressalta que muitos e diferentes agentes e instituiÁıes podem estar envolvidos na criaÁ„o e no desenvolvimento dos esc‚ndalos. Cita como exemplo a polÌcia e outros agentes da lei que fre- q¸entemente possuem um papel crucial, pois realizam in- vestigaÁıes das atividades que se tornaram ìfocoî do es- c‚ndalo e contribuem com novos elementos, reforÁando a necessidade de se investigarem esses esc‚ndalos. Thompson pergunta: o que torna um esc‚ndalo um es- c‚ndalo polÌtico? Um dos elementos que distingue o mero

esc‚ndalo do polÌtico È que a arena de discuss„o È outra, implica lideranÁas polÌticas que est„o envolvidas com o poder polÌtico num ëcampo polÌticoí (definiÁ„o utilizada por Pierre Bourdieu). Os esc‚ndalos podem aparecer em

diferentes regimes polÌticos, desde os autorit·rios atÈ aque- les em que predomina a democracia liberal. PorÈm, o re- gime que favorece a maior ocorrÍncia dos esc‚ndalos polÌticos È a democracia liberal, porque possui algumas caracterÌsticas que o diferenciam dos outros:

- a polÌtica È um campo de forÁas em competiÁ„o, orga-

nizado e/ou mobilizado em torno de idÈias, partidos e gru- pos de interesse;

- a reputaÁ„o dos polÌticos È importante porque prevale-

ce uma institucionalizaÁ„o do processo eleitoral e, para se ascender ao poder e obter sucesso eleitoral, um dos elementos-chave È gozar de boa reputaÁ„o;

- a relativa autonomia da imprensa;

- as condiÁıes do poder polÌtico que favorecem a desco-

berta de transgressıes por rivais e opositores, visto que

prevalece o princÌpio da lei.

Ocorrem, portanto, esc‚ndalos polÌticos que envolvem questıes sexuais, questıes financeiras/corrupÁ„o e esc‚n- dalos de poder, mostrando o mau uso ou abuso do poder.

ESC¬NDALOS POLÕTICOS QUE ECLODIRAM NO GOVERNO DE FHC

Ser· dentro desta Ûtica, deste enfoque, que ser„o estuda- dos dois casos exemplares de esc‚ndalos polÌticos divulga- dos na ˙ltima gest„o do governo de Fernando Henrique Car- doso: a violaÁ„o do painel do Senado e o caso Sudam (SuperintendÍncia do Desenvolvimento da AmazÙnia), Banpar· (Banco do Estado do Par·) e TDAs (TÌtulos da DÌ- vida Agr·ria), envolvendo o senador Jader Barbalho. Para analisar os esc‚ndalos polÌticos optou-se por uti- lizar as revistas semanais ISTO…, da Editora TrÍs, e a Veja, da Editora Abril. As duas revistas veicularam esses es- c‚ndalos em v·rias ediÁıes e disputaram arduamente as manchetes de maior impacto, divulgando documentos e informaÁıes inÈditas sobre os dois polÌticos envolvidos nos casos: ACM e Jader Barbalho. Enquanto a Veja centrava suas den˙ncias na figura de Jader Barbalho, a ISTO…, centrava-as em ACM. Como compreender o atual momento polÌtico brasileiro no qual eclodem den˙ncias de esc‚ndalos envolvendo cor- rupÁ„o, quebra de decoro parlamentar, e outras tantas? V·- rias explicaÁıes podem ser dadas e dentre elas selecionamos

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as falas recentes de trÍs atores polÌticos: o presidente Fernando Henrique Cardoso, o ex-governador do Cear·, Ciro Gomes,

e o historiador JosÈ Murilo de Carvalho. Numa entrevista dada ao jornal O Estado de S.Paulo

(18/07/01:A4) o presidente Fernando Henrique Cardoso afirma que: ìO novo que vivemos È que talvez pela pri- meira vez na nossa histÛria a sociedade est· passando a limpo, e o governo est· deixando passar a limpo. Em vez de pensar que aumentou a taxa de corrupÁ„o, o que h· È

um reconhecimento (

) (

) a mÌdia no

Brasil tem a capacidade de antecipar processos e, assim,

participa da criaÁ„o de situaÁıesî. Uma matÈria veiculada pelo jornal Folha de S.Paulo (20/07/01:A7) relata que Ciro Gomes est· sendo proces- sado pela Advocacia Geral da Uni„o, por ordem de

Fernando Henrique Cardoso, por ter dito que o presiden-

te ìlevou a corrupÁ„o ao centro do poder no Brasilî, e o

ex-governador, ao ser questionado de ter feito esta den˙n- cia, diz, numa carta enviada ‡ Executiva Nacional do PSDB, que reafirmar· em juÌzo ìsua doÌda convicÁ„o de que a corrupÁ„o exorbitou no Brasil nos ˙ltimos anos por omiss„o deste governoî. JosÈ Murilo de Carvalho por ocasi„o do lanÁamento de

seu livro, Cidadania no Brasil ñ o longo caminho, foi entre- vistado pelo jornal O Estado de S.Paulo (15/07/01:D4), fa- zendo a seguinte avaliaÁ„o: ìQuanto ‡ corrupÁ„o, n„o creio que haja mais dela hoje do que antes. ViolÍncia e corrupÁ„o s„o endÍmicas no PaÌs h· 500 anos, s„o o nosso feij„o-com- arroz social. A novidade È que est· havendo mais den˙ncias

e investigaÁıes dos grandes ladrıes ñ polÌticos, juÌzes, em-

pres·rios ñ, em parte graÁas ‡ melhoria na atuaÁ„o do Minis- tÈrio P˙blico. … humilhante para o brasileiro, mas È um pas-

so ‡ frente para o cidad„oî. Quais as verdades expressas por esses trÍs atores polÌ- ticos? … a sociedade que mudou? A mÌdia que cria fatos?

O governo FHC que foi omisso tendo em vista manter a

sua base governista? Ou a aÁ„o contra a corrupÁ„o foi produto da atuaÁ„o mais contundente do MinistÈrio P˙- blico? Todas essas ponderaÁıes devem ser levadas em conta para tentar explicar os esc‚ndalos polÌticos que ire- mos analisar no Senado Federal, em dois momentos de um mesmo processo: a violaÁ„o do painel de votaÁ„o do Senado envolvendo os senadores Antonio Carlos Maga- lh„es (PFL) e JosÈ Roberto Arruda (PSDB) e o caso do Banpar·, Sudam e TDAs, comprometendo o senador Jader Barbalho (PMDB).

A sociedade est· cobrando mais

O que est· acontecendo È que o que chama a atenÁ„o

È aquilo que aqui se chama de ëesc‚ndalosí(

)

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Pode-se afirmar que a sociedade brasileira comeÁou a mudar, n„o tolerando mais casos de corrupÁ„o e desmandos por parte das autoridades p˙blicas no perÌodo pÛs-rede- mocratizaÁ„o e, principalmente, na gest„o do presidente Fernando Collor de Mello (PRN), eleito diretamente pe- los cidad„os brasileiros e derrubado atravÈs de um pro- cesso de impeachment, pelas m„os do Congresso Nacio- nal e pelo povo brasileiro. As razıes do processo que culminou no impeachment s„o v·rias, conforme literatu- ra especializada, mas deve-se dizer que uma raz„o moti- vou a aÁ„o: indÌcios fortÌssimos de corrupÁ„o em seu go- verno. Seu impeachment foi movido tendo por base a improbidade administrativa. TambÈm È desse perÌodo a ConstituiÁ„o Brasileira de 1988. Dentre as v·rias mudanÁas, uma se destaca: as alte- raÁıes nas atribuiÁıes do MinistÈrio P˙blico, pois a par- tir desse momento ele ganha import‚ncia vital. ìConfor- me o capÌtulo IV, seÁ„o I do capÌtulo III ëDo Poder Judici·rioí da ConstituiÁ„o da Rep˙blica Federativa do Brasil, promulgada em 1988, que rege sobre as funÁıes e atribuiÁıes do MinistÈrio P˙blico, este poder È indepen- dente, separado dos poderes Executivo e Judici·rio. Cabe ao MinistÈrio, dentre outras funÁıes, ëpromover o inquÈ- rito civil e a aÁ„o civil p˙blica, para a proteÁ„o do patri- mÙnio p˙blico e socialí (ConstituiÁ„o, p.92). Agindo nesse sentido, os procuradores ganharam destaque e transfor- maram-se, aos olhos da populaÁ„o, em paladinos da jus- tiÁa e benfeitores dos cidad„osî (Chaia e Teixeira, 2000:

34-35).

A mÌdia tambÈm adquire import‚ncia nesse momento pois, alÈm de contar com maior liberdade para se expres- sar, o jornalismo assume uma postura de jornalismo investigativo, sempre atento, denunciando, criando efeti- vamente fatos, e atuando em muitos casos como colabo- rador do MinistÈrio P˙blico e da PolÌcia.

O GOVERNO FHC E O LEGISLATIVO

Quando Fernando Henrique Cardoso assumiu a presi- dÍncia da Rep˙blica em 1994, atravÈs de uma alianÁa elei- toral entre o PSDB e o PFL, articuladores polÌticos de seu governo se aproximaram do PMDB oferecendo ministÈ- rios e importantes postos no governo federal, visando ga- rantir maioria parlamentar no Congresso Nacional e via- bilizar a implementaÁ„o das reformas estruturais que estavam sendo propostas pelo novo governo. Com o sucesso do Plano Real e a alta popularidade de FHC, n„o foi difÌcil para os tucanos ampliarem a base

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governista com a ades„o do PPB. AlÈm de o presidente

Fernando Henrique Cardoso ter conseguido uma ampla maio- ria no Legislativo, o que lhe garantiu a aprovaÁ„o de medi- das importantes para o seu governo, ele tambÈm aglutinou algumas grandes agremiaÁıes partid·rias em torno de seu nome, conseguindo se reeleger para mais um mandato (1999- 2002) ‡ frente da presidÍncia da Rep˙blica. Ao formar uma base de sustentaÁ„o parlamentar ideo- logicamente heterogÍnea, e com fortes contendas regio- nais, o governo federal tambÈm foi o fiador de uma com- posiÁ„o polÌtica na qual o PSDB, PFL e PMDB passaram

a se revezar no comando do Senado e da C‚mara dos De-

putados desde o primeiro mandato de FHC. Os presiden-

tes da C‚mara Federal no perÌodo 1995-2002 foram: LuÌs Eduardo Magalh„es do PFL (1995-1996); Michel Temer do PMDB (1997-1998 e 1999-2000); e, atualmente, a casa

È comandada por AÈcio Neves do PSDB, atÈ o final de

2002.

No Senado a presidÍncia foi ocupada por grandes ex- poentes da polÌtica nacional: JosÈ Sarney do PMDB (1995- 1996); Antonio Carlos Magalh„es do PFL (1997-1998 e 1999-2000); e Jader Barbalho do PMDB, que assumiu o comando em fevereiro de 2001, ficando no cargo atÈ ou- tubro de 2001. A busca de harmonia nas relaÁıes entre os poderes Executivo e Legislativo no Brasil guarda certa semelhan- Áa em todos os nÌveis de governo. A formaÁ„o dos minis- tÈrios e secretariados e a distribuiÁ„o do controle de cargos estratÈgicos na m·quina p˙blica refletem-se automatica- mente na constituiÁ„o das bases de sustentaÁ„o governis- ta no parlamento. No ‚mbito federal, os estudos desenvolvidos por JosÈ Eisenberg (1998) e Ot·vio Amorin Neto (1998) demons- tram que os governos que conseguiram maior estabilida- de nas relaÁıes com o parlamento foram aqueles que mon- taram seus ministÈrios a partir da formaÁ„o de coalisıes com os partidos numericamente representativos no Poder Legislativo. A lÛgica adotada foi a de distribuir os cargos ministeriais de acordo com o tamanho proporcional das bancadas de partidos aliados. Verifica-se, com isso, que o presidente FHC tem con- seguido, ao longo desses sete anos de governo, manter o comando do Congresso Nacional entre os seus partid·- rios, o que tambÈm significa que o Executivo vem in- fluenciando na elaboraÁ„o da agenda de trabalhos do Le- gislativo. PorÈm, como os recursos existentes nem sempre s„o suficientes para contentar os diferentes interesses regio-

nais, algumas disputas em torno do controle de bens p˙- blicos e do comando de Ûrg„os estratÈgicos no Legislati- vo foram inevit·veis e colocaram a base governista em risco. Na briga por fatias de poder, a base de sustentaÁ„o do governo FHC entrou em processo de eros„o e lÌderes polÌticos de alto calibre comeÁaram a se atacar, revelan- do ao paÌs alguns fatos atÈ ent„o circunscritos aos corre- dores da arena polÌtica. Desse modo, o Senado passou a viver sua maior crise polÌtica em 176 anos de existÍncia. Entre junho de 2000 e maio de 2001, um senador foi cassado por suspeitas de desvios de dinheiro p˙blico e outros dois renunciaram aos seus mandatos por quebra de decoro parlamentar. AlÈm disso, o atual presidente da casa foi constrangido por co- legas a se licenciar do cargo em meio a uma sÈrie de de- n˙ncias que tambÈm o envolve em desvios de dinheiro p˙blico. Neste trabalho, o ponto de partida ser· a hipÛtese de que as disputas por recursos do Plano Plurianual (PPA), tambÈm conhecido como Projeto AvanÁa Brasil, e os de- sacordos dos partidos governistas em relaÁ„o ‡ sucess„o das mesas diretoras nas duas casas legislativas, precipita- ram a eclos„o da crise no Senado e trouxeram a p˙blico uma sÈrie de informaÁıes atÈ ent„o restritas aos bastido- res da polÌtica e que passaram a ter a dimens„o de um es- c‚ndalo polÌtico. A seguir, ser· discutido o enredo desse esc‚ndalo, dan- do destaque aos fatores que o provocaram, bem como aos componentes polÌticos advindos de todo o processo que envolveu a ren˙ncia de dois senadores e as suspeitas de corrupÁ„o que recaem sobre o atual presidente da casa.

OS PERSONAGENS E O ENREDO DA CRISE NO SENADO

Antonio Carlos Magalh„es (ACM), Jader Barbalho e JosÈ Roberto Arruda foram os principais personagens da crise polÌtica que tomou conta do Senado Federal. Sena- dores experientes, com longas passagens pelo Executivo, e que possuem um traÁo comum: foram articuladores po- lÌticos do governo FHC em momentos decisivos para os interesses de sua gest„o. Diferentemente do que se pensa, os problemas no Se- nado n„o tiveram origem na disputa pelo comando da mesa diretora da casa durante o ano 2000. Os conflitos entre Jader e ACM se iniciaram em 1999, quando dis- putavam o controle da relatoria do Plano Plurianual (PPA) para o quadriÍnio 2000-2003, um conjunto de

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SÃO PAULO EM PERSPECTIVA, 15(4) 2001

polÌticas sociais do governo que foi batizado de Pro- grama AvanÁa Brasil. 1 Com um volume de recursos em torno de R$1,1 trilh„o,

a disputa pela relatoria do PPA provocou uma verdadeira

guerra entre os dois parlamentares com a anuÍncia do governo federal. De acordo com a revista ISTO…, ìirrita- do com os pitos p˙blicos que tem recebido de ACM, Fernando Henrique simplesmente estimulou Jader a me- dir forÁas com ëToninho Malvadezaíî. No decorrer dessa disputa, ambos j· haviam protago- nizado uma sÈrie de trocas de acusaÁıes no melhor estilo ìlavagem de roupa suja em p˙blicoî. Jader acusou ACM de ser sÛcio do ex-banqueiro ¬ngelo Calmon de S·, anti- go propriet·rio do falido Banco EconÙmico, numa empresa situada no paraÌso fiscal das Ilhas Cayman. As ilaÁıes feitas por ACM ao seu advers·rio tambÈm n„o eram novas; o

senador baiano denunciou que Barbalho havia provocado um desfalque no Banpar·, no perÌodo em que governou aquele Estado (ISTO…, 29/09/99, n o 1.565). Derrotado por Barbalho, ACM iniciou um processo de isolamento polÌtico que fez aumentar ainda mais seu dis- tanciamento do Pal·cio do Planalto, apesar de continuar mantendo o controle de dois importantes ministÈrios: o das Minas e Energia, comandado por Rodolpho Tourinho,

e o da PrevidÍncia Social, que tinha ‡ frente o atual sena-

dor Waldeck Ornelas. O governo federal, por sua vez, dava sinais de maior aproximaÁ„o com o PMDB em detrimen- to do PFL. Paralelamente a essa conturbada disputa entre os dois grandes personagens da polÌtica brasileira, seguiam as investigaÁıes sobre o esc‚ndalo da construÁ„o da sede do TRT de S„o Paulo, que envolvia o senador Luiz Este- v„o do PMDB-DF com den˙ncias de participaÁ„o num esquema de superfaturamento da obra do TRT (Tribunal Regional do Trabalho) paulista e de desvio de recursos. Estev„o, que havia sido sub-relator do PPA, estava sendo investigado pelo prÛprio Senado. Em junho de 2000, apÛs um ano e dois meses de pro- cesso, Luiz Estev„o passou para a histÛria polÌtica do paÌs n„o sÛ como o primeiro senador cassado, mas tambÈm pelo fato de que o episÛdio da violaÁ„o do painel com os vo- tos dos senadores ocorreu na sess„o em que se votou a perda do seu mandato. O posicionamento de cada sena- dor, que deveria ter ficado em segredo, comeÁava a ser veiculado nos bastidores do poder pela voz da principal autoridade da Casa: o senador Antonio Carlos Magalh„es. No Senado, todos sabiam que ACM havia conseguido, de forma ilegal, obter a lista com o posicionamento dos se-

nadores naquela votaÁ„o, mas ninguÈm questionava sua con-

duta oficialmente. Por que isso? Estava caracterizada a sus- peita de quebra de decoro parlamentar envolvendo o sena- dor Antonio Carlos Magalh„es, por que n„o investig·-lo? As respostas para essas questıes talvez estejam asso- ciadas ‡ conjuntura polÌtica daquele momento, ainda ex- tremamente favor·vel ao senador baiano. AlÈm de presi- dente do Senado, ele era tido como um dos homens mais fortes da polÌtica nacional por comandar o PFL, um dos principais pilares de sustentaÁ„o parlamentar do governo federal. ACM usava de chantagens contra colegas e os desqualificava, sempre transgredindo o CÛdigo de …tica

e Decoro Parlamentar da casa e sem nunca sofrer qual- quer tipo de sanÁ„o por seus atos.

A imprensa que poderia trazer a p˙blico essas ques-

tıes estava mais interessada no emaranhado polÌtico en-

volvendo a eleiÁ„o das mesas do Senado e da C‚mara Federal, em que Jader e o prÛprio senador Antonio Carlos j· se agrediam mutuamente pelo controle da sucess„o.

A violaÁ„o do painel do Senado ainda n„o havia

ganhado o status de esc‚ndalo polÌtico porque o enredo de sua histÛria ainda n„o era de domÌnio p˙blico. Numa casa legislativa onde sua principal autoridade mandava os colegas ìcalarem a bocaî, essas questıes n„o tinham a dimens„o de uma transgress„o. A posiÁ„o de ACM era t„o confort·vel a ponto de ele usar estrategicamente a su- posta lista para constranger os senadores que de alguma forma o contrariassem.

A SUCESS O NO CONGRESSO NACIONAL

A crise no Senado Federal acabou ganhando dimens„o

p˙blica com a disputa pela sucess„o da mesa diretora, protagonizada por Antonio Carlos Magalh„es e Jader

Barbalho. ApÛs quatro anos ‡ frente do comando da casa, ACM rejeitava a idÈia de passar a presidÍncia para o par- lamentar peemedebista, principalmente apÛs ter sido der- rotado politicamente por Jader durante a escolha da relatoria do PPA. Nessa briga ACM n„o estava sozinho, o PFL tambÈm havia sido preterido pelo governo federal na sucess„o da C‚mara dos Deputados. Um acordo entre o PSDB e o PMDB acabou garantindo a presidÍncia do Senado para os peemedebistas e a presidÍncia da C‚mara dos Deputa- dos para os tucanos. Por isso, ACM comeÁou a mover todos os esforÁos na busca de um nome alternativo ao de Jader

e tambÈm no sentido de desqualificar moralmente o sena-

dor paraense a fim de tornar sua candidatura invi·vel.

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DEMOCRACIA E ESC¬NDALOS POLÕTICOS

A briga entre os dois estava se transformando num es-

pet·culo para a imprensa. Durante uma sess„o do Sena- do, ambos acabaram levando suas divergÍncias para a tri- buna e protagonizando um dos piores momentos da casa. ACM se referiu a Jader Barbalho como ìCorrupto, ladr„o, bajulador, truculento, mentiroso e indignoî. O senador peemedebista n„o deixou por menos e enfrentou o presi- dente da casa chamando-o de ìCorrupto, ladr„o, truculento, farsante e mentirosoî. Essa troca de farpas fez com que a imprensa nacional passasse a dar ampla cobertura ao pro- cesso sucessÛrio no Senado. Os principais telejornais noturnos levaram ao ar as ima- gens com a troca de insultos. As emissoras de r·dio, como a CBN e a R·dio Eldorado, trouxeram em suas programa- Áıes jornalÌsticas os discursos de ambos no momento em que se agrediram verbalmente. Os grandes jornais de cir- culaÁ„o nacional deram destaque para o conflito, reprodu- zindo nas matÈrias os trechos em que trocaram acusaÁıes. Apesar de haver puniÁ„o prevista para a troca de insul-

tos dessa natureza, nenhum dos dois senadores foi, efeti- vamente, alvo de qualquer processo interno. 2 Esse era ape- nas o inÌcio de capÌtulos mais apimentados envolvendo a sucess„o, e a partir daÌ surgiu uma verdadeira guerra de dossiÍs que culminou no lanÁamento de livros em que cada um procurava desqualificar moralmente o seu advers·rio. Seguindo a trajetÛria de revelar as supostas mazelas da vida pessoal dos principais personagens do Senado, a revista Veja (25/10/2000, n o 1.672) partiu para o ataque contra o senador paraense. Em sua reportagem de capa, que trouxe a fotografia de um Jader Barbalho sisudo, acom- panhado da manchete ìO senador de 30 milhıes de reaisî, destacou tambÈm que ìnos ˙ltimos 34 anos, Jader Barbalho sÛ n„o ocupou cargos p˙blicos durante 11 meses. Mas, apesar da labuta na polÌtica, conseguiu erguer uma fortu- na surpreendenteî.

A revista demonstrou que o patrimÙnio do senador

peemedebista saltou de R$ 61.200,00 (corrigidos em va-

lores atuais) em 1974, para cerca de R$ 30.000.000,00 no ano 2000. Obviamente, o peemedebista atribuiu ao sena- dor Antonio Carlos Magalh„es a autoria do conte˙do que estava sendo veiculado na citada reportagem. Apesar do impacto negativo sobre a sua imagem na opini„o p˙blica, Jader Barbalho continuou favorito na corrida para a presidÍncia do Senado. A repercuss„o da reportagem n„o trouxe qualquer estrago para a alianÁa de seu partido com o PSDB.

O tempo corria contra o senador baiano e n„o havia

mais possibilidades de inviabilizar a articulaÁ„o polÌtica

que se formou em torno do polÌtico paraense. Restou ao

PFL lanÁar candidatos para marcar posiÁ„o, pois sua der- rota era tida como inevit·vel. Para a C‚mara dos Deputa- dos foi lanÁado o nome de InocÍncio de Oliveira do PFL e para o senado, Arlindo Porto do PTB.

A derrota do PFL se concretizou. Na C‚mara, a vitÛria

foi de AÈcio Neves do PSDB que se elegeu com 55% dos 512 votos, ficando o pefelista InocÍncio de Oliveira com 23%. No Senado, Jader Barbalho obteve 51% dos 81 vo- tos apurados e venceu o candidato apoiado pelo PFL que ficou com 35%. Quem imaginava que as brigas entre ACM e Jader iriam parar por aÌ, se enganou. Desgostoso com mais essa der- rota, o senador Antonio Carlos Magalh„es passou a ata- car o governo FHC e numa jogada polÌtica arriscada trou- xe de volta a p˙blico, mesmo que involuntariamente, o

caso da violaÁ„o do painel do Senado. Foi desse modo que a crise do Senado comeÁou a ga- nhar o status de esc‚ndalo polÌtico, conquistando espaÁo

na mÌdia e chamando a atenÁ„o da populaÁ„o justamente

pelo fato de os senadores estarem protagonizando cenas

que n„o combinavam com a funÁ„o p˙blica para a qual foram eleitos.

O PAINEL DO SENADO E AS REN⁄NCIAS DE ACM E ARRUDA

Em 19 de fevereiro de 2001, o ent„o senador Antonio

Carlos Magalh„es conversou reservadamente com os pro- curadores da Rep˙blica Luiz Francisco de Souza, Guilher- me Schelb e Eliana Torelly. Tinha como objetivo fazer uma sÈrie de den˙ncias contra o governo FHC e Jader Barbalho, requentar velhos assuntos como o caso Eduar-

do Jorge, os desvios de recursos no MinistÈrio dos Trans-

portes e as suspeitas de corrupÁ„o sobre o seu principal desafeto polÌtico.

O procurador Luiz Francisco de Souza gravou ìsecre-

tamenteî a conversa com ACM e logo em seguida reve- lou seu conte˙do para a revista semanal ISTO…. Na sua ediÁ„o 1.639 (22/02/2001), a revista trouxe a p˙blico o

conte˙do da conversa, dando inÌcio ao calv·rio polÌtico do senador baiano, outrora todo poderoso da Rep˙blica.

A publicizaÁ„o dos ìsegredosî revelados por Antonio

Carlos Magalh„es fez com que o mundo se voltasse con- tra ele prÛprio. Apesar de ter revelado muitas questıes que j· havia dito em outros locais p˙blicos, como os corredores do Senado, a diferenÁa foi que desta vez havia uma fita gra-

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SÃO PAULO EM PERSPECTIVA, 15(4) 2001

vada. Nela, o prÛprio ACM afirmava ter conhecimento da existÍncia de uma lista com os votos dos senadores na sess„o que cassou o senador Luiz Estev„o em junho de 2000 e revelava a suposta posiÁ„o da senadora HeloÌsa Helena do PT contra a cassaÁ„o de Estev„o.

O procurador que revelou a conversa para a imprensa

passou a ser tratado com reservas pelos seus prÛprios co-

legas que chegaram a ameaÁ·-lo de n„o mais trabalhar com ele. A prÛpria imprensa nacional comeÁou a tratar Luiz Francisco com descaso, colocando em d˙vida a sua capa-

cidade para o exercÌcio da profiss„o. Alguns polÌticos o tripudiaram chegando a propor o seu afastamento do car- go. Sem entrar no mÈrito da atitude de Luiz Francisco, foi ineg·vel sua contribuiÁ„o para o redirecionamento dos rumos polÌticos do paÌs ao revelar publicamente a condu- ta de um dos homens mais poderosos da era FHC.

A aÁ„o do procurador Luiz Francisco trouxe ‡ tona uma

quest„o muito cara para a vida contempor‚nea: os basti- dores da polÌtica possuem uma din‚mica prÛpria e rara-

mente os cidad„os s„o informados do que est· sendo ìtra- madoî pelos polÌticos, ou, em muitas ocasiıes, n„o conseguem acompanhar nem mesmo as atividades rotinei- ras com dimens„o mais p˙blica. 3

O MinistÈrio P˙blico ganha visibilidade e mais auto-

nomia a partir de 1988, conforme apontado anteriormen- te. RogÈrio Bastos Arantes, em sua pesquisa sobre o Mi-

nistÈrio P˙blico e polÌtica no Brasil (Arantes, 2000:55),

a garantia de independÍncia no exercÌcio

de suas funÁıes tem permitido que promotores e procura- dores de justiÁa atuem com extrema desenvoltura e auto- nomia ñ particularmente nos conflitos de dimens„o social e polÌtica ñ contra as pressıes externas, e atÈ mesmo in- ternas, advindas dos estratos superiores da instituiÁ„oî. Existe, portanto, um problema de desconex„o entre a ati- vidade polÌtica e toda a sociedade. … exatamente nesse vazio que a imprensa e o MinistÈrio P˙blico vÍm ocupando o es- paÁo por trazerem para a populaÁ„o aquilo que È restrito, que È segredo e que È negociado nos bastidores da polÌtica.

A revelaÁ„o dos fatos pela revista ISTO… trouxe con-

afirma que ì(

)

seq¸Íncias imediatas: estava caracterizada a possibilida- de de quebra de decoro parlamentar por parte do ex-pre- sidente do Senado. 4 AlÈm disso, o presidente Fernando Henrique Cardoso demitiu os dois ministros indicados por ACM e em seguida tambÈm afastou todas as pessoas de sua confianÁa que ainda ocupavam cargos em algum Ûr- g„o do governo federal. Presidido por Jader Barbalho, o Senado contratou um grupo de peritos vinculados ‡ Unicamp para avaliar a pos-

70

sibilidade do painel ter sido violado. Paralelamente, An- tonio Carlos Magalh„es adotou como estratÈgia negar todo

o notici·rio veiculado pela imprensa e colocar em d˙vida

a veracidade das fitas. Por outro lado, a prÛpria revista

ISTO… se encarregou de contratar um perito para avaliar

a possibilidade de as gravaÁıes n„o serem verdadeiras.

A situaÁ„o do senador baiano se complicou ainda mais,

em 3 de marÁo de 2001. A revista ISTO…, em sua ediÁ„o n o 1.640, publicou a transcriÁ„o de v·rios trechos da con- versa de ACM com os procuradores da Rep˙blica e di- vulgou o laudo elaborado pelo perito Ricardo Molina con- firmando a autenticidade das fitas. Todo o material coletado pela revista, mais o fato de os peritos contratados pelo Senado tambÈm terem confir- mado a possibilidade de violaÁ„o do painel de votaÁ„o, acabou se constituindo em provas contra a vers„o dada

por Antonio Carlos Magalh„es. A abertura de uma Co- miss„o de …tica tornou-se inevit·vel, pois a mentira foi considerada uma falta grave e isso reforÁou ainda mais a necessidade de verificar a possÌvel quebra de decoro par- lamentar. Instalada em 13 de marÁo, os primeiros depoentes na Comiss„o de …tica foram os jornalistas da ISTO…, Andrei Meireles, Mino Pedrosa e M·rio Simas Filho, que confir- maram o teor das fitas. Na mesma sess„o foram tomados os depoimentos dos procuradores Guilherme Schelb e Eliana Torelly, que n„o responderam ‡s perguntas elabo- radas pelos senadores.

A partir daÌ, uma sÈrie de contradiÁıes marcou os de-

poimentos de funcion·rios do senado e do Senador Anto- nio Carlos Magalh„es. A ex-diretora de inform·tica do Senado, Regina Borges, em seu primeiro depoimento ne- gou que houvesse violado o painel e tambÈm rejeitou a hipÛtese de que algum senador tivesse lhe pedido que rea- lizasse tal serviÁo. Constrangida pelo fato de outros funcion·rios do se- nado n„o terem confirmado a sua vers„o, Regina Borges

voltou atr·s em relaÁ„o ao depoimento anterior e revelou que havia copiado a lista de votaÁ„o a pedido do senador JosÈ Roberto Arruda do PSDB, ent„o lÌder do governo, e que ele havia feito a solicitaÁ„o em nome do presidente da casa, o senador Antonio Carlos. Sua declaraÁ„o caiu como uma bomba em BrasÌlia e a partir daquele momento ACM n„o seria mais o ˙nico rÈu.

O caso passou a ganhar a conotaÁ„o de um evento de

grande interesse p˙blico para a imprensa. Duas emissoras de canal fechado transmitiram os depoimentos dos sena- dores e da ex-diretora de inform·tica ao vivo: a Globonews

DEMOCRACIA E ESC¬NDALOS POLÕTICOS

e a TV Senado. As principais redes de televis„o tambÈm abriram espaÁos na sua programaÁ„o para o esc‚ndalo: a TV Cultura e a Rede Bandeirantes entraram ao vivo no momento dos principais depoimentos e as redes Globo, Record, RedeTV e SBT passaram flashes do Senado em v·rios momentos de suas programaÁıes. As emissoras de r·dio tambÈm reproduziam os depoimentos diretamente do local em que se reunia a Comiss„o de …tica.

O fato de a imprensa ter dado holofotes ao caso rom-

peu com o hiato entre a populaÁ„o e os fatos que estavam

acontecendo no Senado. Foi essa cobertura mais explÌci- ta que impediu a possibilidade de se ìcosturarî qualquer acordo polÌtico para salvar os dois senadores. As investi- gaÁıes em curso ganharam visibilidade e todas as decla- raÁıes sobre o caso eram calculadas para que n„o hou- vesse prejuÌzo na opini„o p˙blica. Desse modo, todos os envolvidos com o esc‚ndalo estavam dialogando n„o apenas com os seus colegas no Senado, mas tambÈm com um vasto contingente popula- cional que passou a acompanhar as sessıes da Comiss„o de …tica como se fosse um filme, de cuja histÛria j· se sabia o comeÁo e o desenrolar, restando apenas descobrir qual seria o seu final. No plen·rio do Senado, no dia de 17 de abril, Antonio Carlos Magalh„es afirmou aos colegas que: ìn„o recebi lista nenhuma nem me foi entregue por ninguÈm lista al- gumaî (Veja, 02/05/2001, n o 1.698). TambÈm indignado com o envolvimento de seu nome por Regina Borges, JosÈ Roberto Arruda subiu ‡ tribuna do Senado em 18 de abril para afirmar que: ìNunca vi nenhuma lista. Nunca a pedi nem a recebi. Nunca fui in- formado sobre ela. O senador Antonio Carlos Magalh„es nunca fez nenhuma consideraÁ„o a esse respeito comigoî. Ao perceberem que o depoimento da ex-diretora de in- form·tica havia ganhado confianÁa da opini„o p˙blica, senadores resolveram mudar suas versıes sobre os fatos, numa tentativa desesperada de conquistar a opini„o p˙- blica com o reconhecimento do erro que cometeram.

O primeiro a assumir publicamente que mentiu foi o se-

nador JosÈ Roberto Arruda. Emocionalmente abalado, o j· ex-lÌder do governo e tambÈm ex-tucano subiu ‡ tribuna do Senado para confessar ter encontrado a ex-diretora do setor de inform·tica, de quem recebeu a lista de votaÁ„o, e tÍ-la entregue a Antonio Carlos Magalh„es. Encerrou o seu dis- curso afirmando que ìÈ in˙til resistir ‡ verdadeî (Folha de S.Paulo, 24/04/2001, Caderno Brasil). Ao pedir desculpas aos colegas e ‡ populaÁ„o pela mentira, JosÈ Roberto Arruda estava tentando conquistar

a compaix„o da opini„o p˙blica e a partir disso evitar sua cassaÁ„o. O prÛprio presidente Fernando Henrique Car- doso chegou a qualificar o discurso de seu ex-lÌder no Senado como ìcorajosoî, mas diante da repercuss„o ne- gativa acabou n„o comentando mais tal caso. Alguns dias depois, foi a vez de ACM mudar a sua vers„o anterior e confessar ter recebido a lista do senador JosÈ Roberto Arruda, verificado voto por voto e depois disso afirmou que a destruiu. Para tentar amenizar sua culpa disse n„o ter solicitado a relaÁ„o com os votos dos senadores ìnem direta nem indiretamenteî. Apesar disso, ACM n„o conseguiu explicar porque mentiu para os cole- gas quando usou a tribuna do Senado para negar a exis- tÍncia da lista, e tambÈm n„o foi convincente ao justificar n„o ter tomado providÍncias para investigar a violaÁ„o do painel por ìrazıes de Estadoî. ACM, em seu depoimen- to, afirmou temer que a descoberta da violaÁ„o do painel pudesse tornar nula a sess„o que cassou Luiz Estev„o. Esse desmentido foi intensamente veiculado pelos meios de comunicaÁ„o, e muitos deles compararam os depoimentos dados pelos senadores em diferentes momen- tos para mostrar os pontos de contradiÁ„o existentes em cada um. Para a populaÁ„o a sensaÁ„o que ficava era a de sucessivas mentiras, a cassaÁ„o dos senadores era inevi- t·vel e n„o haveria articulaÁ„o polÌtica que fosse suficiente para barr·-la. Na seÁ„o de Cartas da revista Veja, os leitores pude- ram se manifestar: ìOs senadores Antonio Carlos Maga- lh„es, JosÈ Roberto Arruda e Jader Barbalho pensam que os eleitores brasileiros s„o cidad„os de quinta categoria, eles fazem o que querem e o povo n„o entende nem acei- ta. Quero dizer para esses senhores que temos memÛria, sim, que n„o queremos mais a corrupÁ„o que assola o paÌs. Eles que n„o venham se mostrar como mocinhos in- justiÁados. Perto deles o juiz Lalau È mocinho de reca- dosî (Otavio Oliveira, BelÈm, PA ñ 02/05/01, n o 1.698). Assim, a Comiss„o de …tica, presidida pelo senador Ramez Tebet, do PMDB de Mato Grasso do Sul, concluiu pela cassaÁ„o dos dois senadores. Com o relatÛrio elabo- rado por Saturnino Braga, do PSB, aprovado por 13 vo- tos a dois em 23/05/01, n„o restou outra alternativa aos envolvidos sen„o renunciar ao mandato, caso contr·rio teriam seus direitos polÌticos suspensos por oito anos. Assim, Arruda renunciou em 24 de maio e no dia 30 de maio de 2001 foi a vez de Antonio Carlos Magalh„es. A revista ISTO…, em sua ediÁ„o n o 1.652, comemorou afirmando que a ìderrocada de ACM comeÁou com a re- portagem de ISTO… que revelou as conversas do senador

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SÃO PAULO EM PERSPECTIVA, 15(4) 2001

com procuradores da Rep˙blicaî. Isso nos remete ‡ se- guinte d˙vida: por que a quest„o da violaÁ„o do painel n„o veio ‡ tona logo apÛs a cassaÁ„o de Luiz Estev„o, j· que ACM falava pelos quatro cantos do Senado que co- nhecia a tal lista? Talvez a revista tenha raz„o em arvorar para si todo o mÈrito desse processo, pois foi ela quem conseguiu provas por meio ìda voz do delatorî e legiti- mada pelo MinistÈrio P˙blico, uma instituiÁ„o que vem ganhando credibilidade p˙blica justamente por estar agin- do contra as mazelas do mundo polÌtico.

O CASO JADER BARBALHO

Todas as den˙ncias contra Jader Barbalho acabaram sumindo da agenda polÌtica da imprensa no perÌodo em que os casos dos senadores Antonio Carlos Magalh„es e JosÈ Roberto ganharam maior visibilidade. PorÈm, isso n„o significou que as suspeitas de desvios de dinheiro p˙blico envolvendo o polÌtico paraense houvessem caÌdo no esquecimento. Novamente, a revista Veja agiu como um veÌculo de jornalismo investigativo, retomando o as- sunto. ConvÈm relembrar que foi a mesma revista que trouxe, em outubro de 2000, uma longa reportagem sobre a evo- luÁ„o do patrimÙnio de Barbalho, alÈm de relembrar di- versos episÛdios que o envolveram com suspeitas de cor- rupÁ„o. Como o polÌtico paraense estava disputando a presidÍncia do Senado, essas questıes acabaram sendo vistas como parte da estratÈgia de ACM em desgast·-lo. Com isso, nem os tucanos, que mantiveram o apoio ‡ can- didatura Jader Barbalho, e muito menos a opini„o p˙bli- ca, informada sobre as tramas que envolvem os bastido- res da polÌtica, levaram a sÈrio o que se falava sobre ele. Por isso, o prÛprio Jader, alÈm de desmentir publica- mente a reportagem da Veja na tribuna do Senado, vincu- lou-a a uma iniciativa de Antonio Carlos Magalh„es. Essa estratÈgia deu certo enquanto ele disputava a presidÍncia do Senado e lhe trouxe mais alÌvio com a deflagraÁ„o da crise do painel eletrÙnico. PorÈm, sua situaÁ„o comeÁou a se agravar no momen- to em que as fontes oficiais que investigavam os desvios de recursos no Banpar· e na Sudam concluÌram pelo en- volvimento do senador. Mesmo assim ele insistia em des- mentir qualquer envolvimento do seu nome com os cita- dos casos. Sobre a incompatibilidade de seu patrimÙnio com a sua renda, denunciada pela Veja (02/05/2001, n o 1.698), Jader tentou por meio de uma auditoria da empresa Boucinhas

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& Campos rechaÁar as acusaÁıes de enriquecimento ilÌci- to. Mas a prÛpria revista se encarregou de desmentir a vers„o do senador ao verificar as contradiÁıes existentes nas informaÁıes que foram analisadas pela auditoria com as da declaraÁ„o de patrimÙnio feita pelo prÛprio senador no TRE (Tribunal Regional Eleitoral) paraense. Configu- rava-se, assim, uma primeira contradiÁ„o em relaÁ„o ao discurso proferido por ele na tribuna do Senado na tenta- tiva de se defender das acusaÁıes da revista Veja. Com relaÁ„o ‡ acusaÁ„o de desvios de recursos da Sudam, Jader negava-os e tambÈm qualquer tipo de liga- Á„o com os superintendentes que haviam sido demitidos por corrupÁ„o. RecaÌa sobre o senador a suspeita da co- branÁa de um ìped·gioî de 20% para que os projetos en- viados ‡ Sudam fossem aprovados. As investigaÁıes acabaram levando a um grande fraudador da Sudam, o empres·rio JosÈ Osmar Borges, que havia se beneficiado de seis projetos aprovados no Ûrg„o e estava sendo acusado de desviar R$133 milhıes da instituiÁ„o. Um documento levantado pela revista Veja (18/04/2001, n o 1.696) na Junta Comercial do Par· colo- cou Jader Barbalho como sÛcio do possÌvel fraudador. Mais uma vez, as versıes do senador eram desmentidas pelo veÌculo de comunicaÁ„o, corroborando ainda mais um pedido de quebra de decoro parlamentar por mentir em p˙blico. Corre ainda contra o senador paraense outras duas de- n˙ncias: a venda fraudulenta de TDAs no perÌodo em que ele era ministro; e de ter participado de um esquema que provocou um rombo de R$ 10 milhıes no Banpar·. Quanto aos TDAs, eles se referiam ‡ desapropriaÁ„o de uma fazenda no Estado do Par· que sÛ existia no pa- pel. Apesar de negar sua participaÁ„o na operaÁ„o frau- dulenta, o senador teve sua vers„o contestada por outras pessoas que participaram do ìnegÛcioî. Com relaÁ„o ao caso Banpar·, a mesma revista Veja (02/05/2001, n o 1.698) trouxe documentos mostrando a exis- tÍncia de recursos que foram desviados para as contas cor- rentes de Jader Barbalho e de seus familiares. Ao tentar se defender, o senador alegou que o relatÛrio do Banco Central n„o o incriminou. No mesmo dia, Gustavo Loyola, ex-presi- dente do Banco, afirmou que o nome de Jader sÛ n„o consta- va da folha de rosto do relatÛrio, pois nas p·ginas seguintes o senador era citado pelo menos 17 vezes. O caso Jader acabou tendo um desfecho semelhante aos de ACM e Arruda no que se refere ao seu encaminhamen- to no Senado. O procurador-geral da Rep˙blica j· solici- tou a quebra do sigilo banc·rio do senador, retroativa aos

DEMOCRACIA E ESC¬NDALOS POLÕTICOS

anos 80, para investigar a venda irregular de TDAs. Se o pedido for aceito pelo Supremo Tribunal Federal (STF), o Ûrg„o tambÈm dever· solicitar a abertura de processo judicial (Veja, 01/08/2001, n o 1.711). Foi essa sÈrie de desmentidos das versıes dadas por Jader Barbalho que se transformou no principal motivo para a convocaÁ„o de uma Comiss„o de …tica para ava- liar a existÍncia, ou n„o, da quebra de Decoro Parlamen- tar por parte do polÌtico paraense. Com isso, se iniciou um r·pido processo de debilita- Á„o polÌtica de Jader. Em menos de seis meses, Barbalho viu sua condiÁ„o de presidente do Senado ser substituÌda pela de senador-licenciado, e logo em seguida, com o en- cerramento dos trabalhos da Comiss„o de …tica que con- clui pela existÍncia da quebra de Decoro Parlamentar, se viu forÁado a renunciar para preservar seus direitos polÌ- ticos e tentar um retorno ‡ vida p˙blica disputando as elei- Áıes de 2002 como candidato ao governo do Par· ou atÈ mesmo concorrendo a uma vaga no Senado.

CONSIDERA«’ES FINAIS

A crise polÌtica no Senado teve com um de seus focos de origem as disputas entre Jader Barbalho e Antonio Carlos Magalh„es pelo controle dos recursos do progra- ma AvanÁa Brasil. Se, por um lado, o governo federal conseguiu formar uma sÛlida maioria parlamentar ao aglutinar em torno de si forÁas polÌticas t„o heterogÍneas, por meio do oferecimento do controle de cargos p˙bli- cos, por outro, o prÛprio Executivo se tornou refÈm dessa estratÈgia ao ver seus aliados praticamente paralisarem as atividades do Legislativo em funÁ„o dos conflitos por in- teresses especÌficos por eles protagonizados. Fica claro que a estratÈgia de se construir uma maioria parlamentar governista por intermÈdio da troca de cargos na m·quina p˙blica, ao mesmo tempo que pode trazer seguranÁa na tramitaÁ„o dos projetos do Executivo, pode tambÈm sig- nificar o inÌcio do seu calv·rio. Os Ûrg„os controlados pelos parlamentares, se n„o sofrerem controle social, po- der„o estar sujeitos a uso indevido ou atÈ mesmo de se- rem alvos da aÁ„o de corruptos. No caso da violaÁ„o do painel do Senado, ficou evi- dente que sua visibilidade pela imprensa deu a ele o status de esc‚ndalo polÌtico. Enquanto o assunto esteve confi- nado aos corredores do Senado, parecia ser mais uma das ìcompreensÌveisî atitudes de um presidente da casa que j· estava habituado a dirigi-la como se fosse um Ûr- g„o de sua propriedade. AtÈ que o caso chegasse a p˙-

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blico, os prÛprios senadores n„o o consideravam uma fal- ta grave. TambÈm È importante lembrar, foi na tentativa de ACM revelar alguns ìsegredosî comprometedores da reputaÁ„o de personalidades p˙blicas, por ter se sentido preterido

pelo governo federal na distribuiÁ„o de recursos p˙blicos

e no controle do comando do Senado, que essas questıes

ganharam toda a repercuss„o. Aqui ganha forÁa a tese de que os conflitos podem levar ‡ revelaÁ„o de ìsegredos p˙blicosî e torn·-los visÌveis aos olhos de todos. N„o fosse essa contenda malresolvida entre ACM, Jader e o gover- no federal, talvez a populaÁ„o n„o soubesse de tudo o que hoje tem sido revelado publicamente. Destaca-se tambÈm, que em ambos os casos estudados,

a imprensa e o MinistÈrio P˙blico tiveram um papel fun- damental na mobilizaÁ„o da opini„o p˙blica. Coube aos

meios de comunicaÁ„o e ao MinistÈrio P˙blico ocupar um espaÁo vazio entre a arena polÌtica e a sociedade. Com a repercuss„o dos fatos trazidos a p˙blico, tanto a imprensa como o MinistÈrio P˙blico acabaram se transformando, aos olhos da populaÁ„o, em entidades fiscalizadoras dos interesses da sociedade. Como os cidad„os pouco sabem sobre o que realmente ocorre nos centros decisÛrios do poder e cada vez mais desconfiam das boas intenÁıes da classe polÌtica, a im- prensa e o MinistÈrio P˙blico acabaram se tornando refe- rÍncias positivas justamente por andarem em tens„o com

o mundo polÌtico e revelarem n„o sÛ as mazelas de sena-

dores, como tambÈm as tramas que muitas vezes percor- rem as entranhas do poder. O aparecimento de ìesc‚ndalos midi·ticosî È resulta- do de um jornalismo investigativo e possui pontos positi- vos e negativos. Por um lado, a divulgaÁ„o desses esc‚n- dalos provoca um aumento da fiscalizaÁ„o das atividades polÌticas, forÁando que sejam criados instrumentos para seu controle, e por outro, a cobertura desses esc‚ndalos pode levar a uma generalizaÁ„o dos ìmaus exemplosî de polÌticos, provocando descrenÁa nas instituiÁıes, consi- deradas como inoperantes e custosas. Essa descrenÁa pode ser apreendida na ˙ltima pes- quisa feita pelo Ibope, quando foram entrevistadas 5.300 pessoas em nove capitais e interior de S„o Paulo. Ao serem perguntados se os polÌticos se preocupam com o bem-estar da populaÁ„o, o eleitorado de algumas capi- tais demonstrou que acredita muito pouco no polÌtico brasileiro: BrasÌlia 2,98%; Porto Alegre, 3,21%; Reci- fe, 4,53%; Rio de Janeiro, 5,42%; S„o Paulo, 5,48%; Curitiba, 6,06; Belo Horizonte, 6,39%; Fortaleza,

SÃO PAULO EM PERSPECTIVA, 15(4) 2001

6,79%; Salvador, 7,33%; S„o Paulo (interior), 8,87%

(Veja, 25/07/01, n o 1.710). Portanto, existe uma complementaridade dos campos polÌtico e midi·tico. A alimentaÁ„o dos esc‚ndalos polÌti- cos tambÈm se deve ‡ concorrÍncia polÌtica. No caso es- pecÌfico deste estudo, pode-se afirmar que a guerra de dossiÍs obedeceu a um objetivo polÌtico de isolar ACM do poder. O caso Jader Barbalho È rescaldo desse proces- so e sua retirada de cena tambÈm È necess·ria.

O caso Jader Barbalho vincula-se a um dos principais

problemas decorrentes da construÁ„o de uma maioria par- lamentar por meio da troca de postos na m·quina p˙blica. Essa estratÈgia de formaÁ„o da base governista fragiliza

o controle do Legislativo sobre a administraÁ„o p˙blica, pois o parlamentar que deveria atuar como um fiscal do bom uso dos recursos p˙blicos acaba se tornando parte

integrante do Poder Executivo. Se o governo dessa forma consegue aprovar seus pro- jetos no Legislativo, ele deixa, no entanto, os bens p˙bli- cos sob o controle de polÌticos que na maioria das vezes agem orientados por seus interesses pessoais e eleitorais. Com isso, as fronteiras entre os interesses p˙blico e pri- vado n„o ficam bem-definidas.

O ex-senador Antonio Carlos Magalh„es, que como

autoridade polÌtica com poder era ouvido constantemente pela mÌdia e considerado fonte privilegiada, recolheu-se estrategicamente na Bahia (ìa Bahia est· comigoî), desa- pareceu dos notici·rios e somente foi relembrado por oca- si„o do episÛdio Jader Barbalho, aparecendo para reafir- mar suas den˙ncias contra este polÌtico. Os esc‚ndalos polÌticos ganham destaque na democra- cia exatamente por ser um regime polÌtico em que os con- flitos e atritos polÌticos se tornam mais presentes e visÌ- veis. A concorrÍncia polÌtica e a busca de cargos tambÈm acelera as contendas polÌticas. No caso dos esc‚ndalos es- tudados, os confrontos ficaram claros e a necessidade de se derrotar o inimigo s„o explicitadas a todo o momento. As den˙ncias que envolveram Jader Barbalho j· eram p˙blicas e a lista com os votos dos senadores por parte de ACM j· era conhecida. Mesmo assim, os senadores con- tinuaram atuando politicamente como se n„o estivessem envolvidos nesses esc‚ndalos polÌticos, porque acredita- vam na impunidade t„o presente na vida p˙blica brasilei-

ra e se resguardavam por tr·s da imunidade parlamentar.

A reputaÁ„o desses trÍs senadores est· comprometida se-

riamente, pois as transgressıes foram descobertas e divul- gadas publicamente pela mÌdia. Resta perguntar qual ser· o futuro polÌtico desses personagens da nossa histÛria.

NOTAS

E-mail dos autores: vmchaia@pucsp.br e macteixeira@uol.com.br

1. O Plano Plurianual È o principal instrumento de planejamento de

mÈdio prazo das aÁıes do governo brasileiro. Sua aprovaÁ„o precisa passar pelo Congresso.

2. No inciso II do capÌtulo V do cÛdigo de …tica e Decoro Parlamentar

do Senado, est· prevista a aplicaÁ„o de censura escrita para quem pra- ticar ofensas fÌsicas ou morais a qualquer pessoa, no edifÌcio do Sena- do, ou desacatar, por atos ou palavras, outro parlamentar, a Mesa ou Comiss„o, ou os respectivos presidentes.

3. O procurador Luiz Francisco de Souza est· sendo processado pelo

MinistÈrio P˙blico Federal por ter divulgado a gravaÁ„o com ACM. Segundo a den˙ncia, houve a quebra de sigilo da atividade investigativa (Folha de S.Paulo, 03/08/2001).

4. No inciso III do artigo 6 o das medidas disciplinares do CÛdigo de

…tica e Decoro Parlamentar do Senado, È considerada falta grave pas- sÌvel de puniÁ„o: revelar conte˙do de debates ou deliberaÁıes que o Senado ou Comiss„o haja resolvido que devam ficar secretos.

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