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QUAL A VERDADE SOBRE A VIOLÊNCIA NO ESPÍRITO SANTO?

INTRODUÇÃO

COSTA, Marco Aurélio Borges 1

O Espírito Santo vem figurando já faz alguns anos no topo dos rankings nacionais de homicídios, popularizados pelos “Mapas da Violência” 2 . Perdendo apenas para o estado do Alagoas, o estado é considerado por essas publicações o segundo mais violento do país e algumas de suas cidades como dos locais mais violentos do mundo. Os números são aterrorizantes e de nenhuma forma nos propomos a minimizar a gravidade do caso capixaba no que se refere à violência letal. Contudo, as afirmações categóricas sobre a “violência”, e mesmo sobre a violência letal, cuja mensuração é considerada das mais confiáveis pela suposta impossibilidade de se esconder o resultado do crime, o cadáver, são sempre problemáticas. Normalmente esbarram na já questionável qualidade dos dados sob os quais se constroem as estatísticas, e em especial os rankings que vem se tornando populares na grande mídia, que se utilizam de ferramentas estatísticas e fontes de dados extremamente amplas, generalizadas e, portanto, pouco confiáveis.

DESENVOLVIMENTO

Ao se visitar uma cidade como Vitória, capital capixaba, não se vê a violência que os números dizem a não ser que se visite certas áreas periféricas da cidade. O que a opinião geral ignora é que a disparidade entre os índices de violência entre os

1 Professor do Centro Universitário São Camilo ES, onde coordena o grupo de estudos em Instituições, Violência e Cidadania e o Laboratório de Pesquisas Históricas e Sociais Aplicadas; Doutorando em Ciências Humanas Sociologia, pelo Programa de Pós Graduação em Sociologia e Antropologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (capes 7); Pesquisador associado Núcleo de Estudos da Cidadania, Conflito e Violência Urbana (UFRJ); bolsista Cnpq. marcobcosta@gmail.com 2 Publicação coordenada pelo sociólogo Jacob Waiseilfz, cujos documentos são disponibilizados via internet no site www.mapadaviolencia.org.br . Não deixam de ser importante contribuição estatística, mas acabaram por se tornar fonte de desinformação em função da maneira como foram utilizados pela mídia em geral.

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bairros de uma mesma cidade são uma realidade inegável que, novamente, comprometem a interpretação dos dados. Para Beato (1998, p.15) esses Mapas da

Violência que popularizam os rankings de violência entre os estados e cidades

sendo uma curiosidade para o público leigo, ou material de análise de

uma sociologia semi leiga”. Complementaria afirmando que é material pseudo cintífico amplamente utilizado pela mídia sensacionalista e desinteressada na discussão dos verdadeiros problemas nacionals, contribuindo para construir o “fantasma” da violência (MISSE, 1999, 2006).

terminam “(

)

Um exemplo claro é o município de Simões Filho, na Bahia. Apontado pelo Mapa da Violência 2012 como “a cidade com o maior índice de assassinatos do país”, recebeu amplo destaque no jornal Bom Dia Brasil de 27 de junho de 2012 3 . Uma análise pouco mais aprofundada do caso indicou que o fato de a cidade se localizar muito próximo a Salvador e apresentar áreas de matagal, descampadas, sem iluminação, tornou-se um local preferencial para a desova de cadáveres. A simples atitude de catalogar os corpos encontrados já reduziu 40% dos “homicídios” na cidade. 4 As fragilidades naturais de se usar taxas por 100 mil habitantes em um país que as populações estaduais e principalmente municipais variam de forma extremamente significativa somam-se à sempre duvidosa forma de coleta de dados. Existem diversos outros casos relatados de acintosos equívocos provocados por interpretações precipitadas desses dados.

Mesmo sendo o crime de homicídio menos propenso a manipulações não existem motivos para confiar plenamente em nenhuma das fontes que os registram, seja nas etapas policiais, de saúde ou judiciais. Marcelo Durante aponta que existem 27 sistemas estaduais diferentes de classificação de delitos, compostos normalmente por duas estruturas independentes de registro, uma da Polícia Militar e outro da Polícia Civil. Sem falar na baixa rotinização dos processos e mesmo o cuidado com o registro (2011). Segundo depoimento contido no Anuário de Segurança Pública 2012 publicado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública “( ) o Espírito Santo não separa os tipos penais de acordo com a legislação vigente, Homicídio Doloso, Homicídio Culposo no Trânsito, Homicídio Culposo. Segundo a

assassinatos-do-pais.html. Acesso em 08/11/2012.

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Gestora Estadual, todos são agrupados apenas como homicídios (2012).” Outro dado que chama a atenção nos anos recentes em termos de violência letal, o

aumento dos óbitos por causas externas na região nordeste, “(

processo realizado pelo Ministério da Saúde que aprimorou a qualidade dos registros de óbitos. Portanto, o crescimento do número de homicídios na região Nordeste pode ser explicado, ainda que parcialmente, pela melhoria na qualidade do registro da informação (BRASIL, 2012).” O estado do Espírito Santo experimentou, durante vários anos, uma desorganização institucional na área de segurança que gerou como conseqüência, uma enorme desinformação sobre a verdadeira situação de violência no estado. Além disso, publicações ou estatísticas como as dos Mapas da Violência, que se utilizam das taxas de homicídio por 100 mil habitantes como índice pecam por ignorarem a enorme disparidade populacional entre as diversas cidades, e, incluindo dentro do estado, na hora de estabelecer a “média” estadual. Um estudo que serve como referência para se analisar a violência no Espírito Santo que é, porém, pouco conhecido e menos ainda utilizado como base para as reportagens da mídia (justamente por não ser sensacionalista) é o Atlas da Criminalidade no Espírito Santo, resultando do esforço de diversos pesquisadores coordenados pelo geógrafo e professor da Universidade Federal do Espírito Santo Cláudio Zonateli (2011), com o apoio da Fundação de Amparo a Pesquisa do Espírito Santo, FAPES. Nele o professor e os demais autores levam em consideração a alta instabilidade das taxas brutas de homicídio, que se explica pelas flutuações aleatórias que comumente surgem quando a população de risco é relativamente pequena (Ib,p25). Para superar essas limitações, os autores desenvolveram uma taxa municipal de homicídios corrigida, que é obtida

)

acompanhou um

Considerando-se, além dos homicídios do município em questão, os homicídios daqueles que são vizinhos ao mesmo. E esse estimador é uma ponderação entre a taxa bruta e taxa bruta local, essa última sendo obtida para a região de vizinhança, incluindo-se o próprio município em análise (Ib, p.26).

A fórmula proposta permite diminuir os efeitos deformadores das significativas diferenças populacionais do estado, ainda com municípios extremamente desabitados e a utilização de várias fontes de dados tornam o estudo mais próximo do que se poderia chamar realidade, considerando que a contabilidade de homicídios no estado chegam a raridade de mostrar mais homicídios registrados na

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Polícia Civil do que no DATASUS entre 1999 e 2004 situação tão inédita que exige estudos posteriores. Nos últimos anos é notória a melhora na qualidade dos dados e

a aproximação dos números das diferentes fontes que contabilizam os homicídios no

estado. Na ausência de um sistema nacional que determine os critérios de inclusão/exclusão do que seja um homicídio, cada estado segue contabilizando da forma como lhe apraz, não sendo injusto imaginar que seja comum o instrumento da manipulação de dados para evitar figurações negativas na mídia nacional. Tais fatos nos levam a algumas questões? O Espírito Santo é realmente o

segundo estado mais violento do país ou sua forma de contabilizar os homicídios o coloca nessa posição em função das opções metodológicas dos produtores de

rankings?

Essa é uma questão que exigiria um empreendimento extremamente amplo para ser respondida adequadamente. Mas os dados indicados nos permitem com justiça duvidar dessa realidade tal qual apresentada, embora não indique, de nenhuma maneira, que o estado capixaba não experimente um dos piores momentos de sua história no que se refere à violência e aos homicídios. De acordo com Zonatelli e sua equipe (2011, p.80), a acentuação do problema dos homicídios no estado aconteceu em meados dos anos 80, seguindo, inclusive, um padrão nacional. Houve a partir daí uma generalização dos

assassinatos por quase todos os municípios do estado do Espírito Santo a partir do fim dos anos 90, sendo a zona litorânea e o norte do estado os lugares com maiores taxas brutas. Independentemente da posição ocupada pelo Espírito Santo nos nada confiáveis rankings nacionais, o problema da morte por homicídio no estado é grave

e persistente. Os anos recentes indicaram pequenas oscilações nas taxas, mas que

ainda perseveram altíssimas seja na forma bruta ou corrigida. Entender o porquê dessa permanência é uma importante tarefa para os pesquisadores capixabas.

REFERÊNCIAS

BRASIL. Anuário Brasileiro de Segurança Públca. ISSN 1983-7364 ano 6 2012.

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BRASIL. Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão. Secretaria de Orçamento Federal. Secretaria de Planejamento e Investimentos Estratégicos. Indicadores - Orientações Básicas Aplicadas à Gestão Pública / Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão. Coordenação de Documentação e Informação Brasília: MP, 2012.p 36/37. 64 p.: il. color.

DURANTE, Marcelo. Implantação do Sistema Nacional de Estatísticas de Segurança Pública e Justiça Criminal: resultados e perspectivas. Comissão de Segurança Pública e Combate ao Crime Organizado. Seminário “Segurança pública e democracia nos 20 anos da Constituição de 1988”, realizado nos dias 26 e 27 de novembro de 2008. Segurança pública e democracia. Brasília : Câmara dos

Deputados, Edições Câmara, 2011. 135 p. (Série ação parlamentar ; n. 441). ISBN

978-85-736-5841-5 (e-book).

ocracia.pdf?sequence=1. Acesso em 08/11/2012.

em

Disponível

MISSE, Michel. Crime e violência no Brasil Contemporâneo. Ensaios de

sociologia do crime e da violência. Lúmen Juris. Rio de Janeiro, 2006.300p.

Malandros, marginais & vagabundos e a acumulação social

da violência no Rio de Janeiro. Tese doutorado Rio de Janeiro.IUPERJ, 1999.

ZONATELLI, Cláudio Luiz. et al. Atlas da criminalidade no Espírito Santo.

Annablume/FAPES, São Paulo/Vitória, 2011.