SAMIZDAT

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abril 2009 ano II
ficina

Prometeu
e o mito da criação da Mulher

SAMIZDAT 15
abril de 2009
Edição, Capa e Diagramação: Henry Alfred Bugalho Revisão Geral Joaquim Bispo Assessoria de Imprensa Mariana Valle Autores Carlos Alberto Barros Dênis Moura Giselle Natsu Sato Guilherme Rodrigues Henry Alfred Bugalho Joaquim Bispo José Espírito Santo Léo Borges Marcia Szajnbok Maria de Fátima Santos Mariana Valle Maristela Scheuer Deves Volmar Camargo Junior Autores Convidados Tulio Rodrigues Textos de: Henriqueta Lisboa Hesíodo Machado de Assis

Editorial
Mês passado, nós, da Revista SAMIZDAT adotamos uma estratégia de divulgação mais agressiva, o que nos fez atingir um público mais amplo e nos forneceu, pela primeira vez, alguns depoimentos para a Seção do Leitor. Como é sempre feito tendo em vista este nosso leitor, este esforço é recompensado com a certeza de que, aos poucos, o temos cativado ao apresentarmos que há de melhor na Literatura, em língua portuguesa e estrangeira, e também o excelente trabalho desta nova geração de escritores que acidentalmente se encontrou na internet. Esta estratégia de divulgação continuará em vigor, mantendo o verdadeiro espírito das samizdats, que é circular de mãos em mãos, propagando aquilo que merece, ou precisa, ser lido. E também é com grande satisfação que anunciamos a participação fixa da escritora carioca Mariana Valle, que chegou cheia de energia e já assumiu a assessoria de imprensa da Revista SAMIZDAT. Henry Alfred Bugalho

Obra Licenciada pela Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada a Criação de Obras Derivadas 2.5 Brasil Creative Commons. Todas as imagens publicadas são de domínio público, royalty free ou sob licença Creative Commons. Os textos publicados são de domínio público, com consenso ou autorização prévia dos autores, sob licença Creative Commons, ou se enquadram na doutrina de “fair use” da Lei de Copryright dos EUA (§107-112). As idéias expressas são de inteira responsabilidade de seus autores.

Imagem da capa:
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Sumário
Por quE Samizdat?
Henry Alfred Bugalho

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SEção do LEitor
ComuNiCado Samizdat Especial - Humor ENtrEViSta marcos Fernando Kirst miCroCoNtoS
Marcia Szajnbok Henry Alfred Bugalho Carlos Alberto Barros Volmar Camargo Junior Joaquim Bispo

rEComENdaçÕES dE LEitura
milorad Pávitch, o engenhoso
Henry Alfred Bugalho

autor Em LÍNGua PortuGuESa Frei Simão
Machado de Assis

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Henriqueta Lisboa: o modernismo remodelado pela timidez CoNtoS duas mulheres, duas Estradas
Carlos Alberto Barros

32 36 40

a como está o carapau
Maria de Fátima Santos

Chave de ouro

Volmar Camargo Junior Joaquim Bispo

42 44 48 50 54 57 57 58 60

o atraso da Primavera

a Busca
Piso 23

Henry Alfred Bugalho José Espírito Santo Léo Borges Léo Borges Léo Borges

o anômalo

o amor segundo o Ódio tentativas de Existência

Jogo da memória
Marcia Szajnbok Maristela Deves

o admirador - Parte 1: as coroas

autor CoNVidado Sonetos
Tulio Rodrigues

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tradução Hesíodo e a vida do homem comum o mito de Prometeu - teogonia
Hesíodo Henry Alfred Bugalho

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tEoria LitErÁria
a arte de trair
Henry Alfred Bugalho

70

CrÔNiCa Nós, mulheres, as eternas insatisfeitas
Maristela Scheuer Deves Léo Borges

74 76

as incongruências do “né?”

monumento ao vandalismo
Joaquim Bispo

78

Livin’ in america: obama, o 44º Presidente Branco 80
Henry Alfred Bugalho Mariana Valle

No Confessionário Gauderiadas i

83 85 86

Volmar Camargo Junior Giselle Natsu Sato

Solidão a dois em tempos de crise

PoESia Laboratório Poético: a Narração na Poesia 88
Volmar Camargo Junior

meu amor

Guilherme Augusto Rodrigues Mariana Valle

90 91 92 94 95

Palavras inúteis

Poemas

José Espírito Santo Dênis Moura Maria de Fátima Santos

Eterníndia saudade

SoBrE oS autorES da Samizdat 96

Por que Samizdat?
“Eu mesmo crio, edito, censuro, publico, distribuo e posso ser preso por causa disto” Vladimir Bukovsky

Henry Alfred Bugalho
henrybugalho@hotmail.com

inclusão e Exclusão
Nas relações humanas, sempre há uma dinâmica de inclusão e exclusão. O grupo dominante, pela própria natureza restritiva do poder, costuma excluir ou ignorar tudo aquilo que não pertença a seu projeto, ou que esteja contra seus princípios. Em regimes autoritários, esta exclusão é muito evidente, sob forma de perseguição, censura, exílio. Qualquer um que se interponha no caminho dos dirigentes é afastado e ostracizado. As razões disto são muito simples de se compreender: o diferente, o dissidente é perigoso, pois apresenta alternativas, às vezes, muito melhores do que o estabelecido. Por isto, é necessário suprimir, esconder, banir. A União Soviética não foi muito diferente de demais regimes autocráticos. Origina-se como uma forma de governo humanitária, igualitária, mas logo

se converte em uma ditadura como qualquer outra. É a microfísica do poder. Em reação, aqueles que se acreditavam como livrespensadores, que não queriam, ou não conseguiram, fazer parte da máquina administrativa - que estipulava como deveria ser a cultura, a informação, a voz do povo -, encontraram na autopublicação clandestina um meio de expressão. Datilografando, mimeografando, ou simplesmente manuscrevendo, tais autores russos disseminavam suas idéias. E ao leitor era incumbida a tarefa de continuar esta cadeia, reproduzindo tais obras e também as passando adiante. Este processo foi designado "samizdat", que nada mais significa do que "autopublicado", em oposição às publicações oficiais do regime soviético.

Foto: exemplo dum samizdat. Cortesia do Gulag Museum em Perm-36.

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E por que Samizdat?
A indústria cultural - e o mercado literário faz parte dela - também realiza um processo de exclusão, baseado no que se julga não ter valor mercadológico. Inexplicavelmente, estabeleceu-se que contos, poemas, autores desconhecidos não podem ser comercializados, que não vale a pena investir neles, pois os gastos seriam maiores do que o lucro. A indústria deseja o produto pronto e com consumidores. Não basta qualidade, não basta competência; se houver quem compre, mesmo o lixo possui prioridades na hora de ser absorvido pelo mercado. E a autopublicação, como em qualquer regime excludente, torna-se a via para produtores culturais atingirem o público. Este é um processo solitário e gradativo. O autor precisa conquistar leitor a leitor. Não há grandes aparatos midiáticos - como TV ,

revistas, jornais - onde ele possa divulgar seu trabalho. O único aspecto que conta é o prazer que a obra causa no leitor. Enquanto que este é um trabalho difícil, por outro lado, concede ao criador uma liberdade e uma autonomia total: ele é dono de sua palavra, é o responsável pelo que diz, o culpado por seus erros, é quem recebe os louros por seus acertos. E, com a internet, os autores possuem acesso direto e imediato a seus leitores. A repercussão do que escreve (quando há) surge em questão de minutos. A serem obrigados a burlar a indústria cultural, os autores conquistaram algo que jamais conseguiriam de outro modo, o contato quase pessoal com os leitores, o diálogo capaz de tornar a obra melhor, a rede de contatos que, se não é tão influente quanto a da grande mídia, faz do leitor um colaborador, um co-autor da obra que lê. Não há sucesso, não há gran-

des tiragens que substitua o prazer de ouvir o respaldo de leitores sinceros, que não estão atrás de grandes autores populares, que não perseguem ansiosos os 10 mais vendidos. Os autores que compõem este projeto não fazem parte de nenhum movimento literário organizado, não são modernistas, pósmodernistas, vanguardistas ou qualquer outra definição que vise rotular e definir a orientação dum grupo. São apenas escritores interessados em trocar experiências e sofisticarem suas escritas. A qualidade deles não é uma orientação de estilo, mas sim a heterogeneidade. Enfim, “Samizdat” porque a internet é um meio de autopublicação, mas “Samizdat” porque também é um modo de contornar um processo de exclusão e de atingir o objetivo fundamental da escrita: ser lido por alguém.

SAMIZDAT é uma revista eletrônica mensal, escrita, editada e publicada pelos integrantes da Oficina de Escritores e Teoria Literária. Diariamente são incluídos novos textos de autores consagrados e de jovens escritores amadores, entusiastas e profissionais. Contos, crônicas, poemas, resenhas literárias e muito mais.

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Seção do Leitor

SEÇÃO DO LEITOR
O leitor da Revista SAMIZDAT também pode colaborar com a elaboração da revista. Envie-nos suas sugestões, críticas e comentários. Você também pode propor ou enviar textos para as seguintes seções da revista: Resenha Literária, Teoria Literária, Autores em Língua Portuguesa, Tradução e Autor Convidado. Escreva-nos para: revistasamizdat@gmail.com

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Dei uma folheada na Samizdat, número 14 que você enviou por email e achei muito legal. Como não ainda não li nenhum artigo, posso falar do visual, que gostei bastante. A propaganda da oficina, que evoca uma oficina de trabalho manual ficou muito boa, na minha opinião. As imagens são sempre muito boas e a entrevista com o Marcelo Duarte do Guia dos Curiosos é uma prova de que vocês tem o "dom". Principalmente, vocês têm o "dom" de fazer uma coisa linda com "dinheiro zero". É impressionante! Naldo Gomes

Queria somente dar os meus parabéns pela revista. Independentemente do conteúdo (também ele extremamente interessante), o conceito é espantoso e essencial, revelando um aproveitamento profícuo da internet e de todas as suas potencialidades. A tarefa fundamental do escritor é chegar aos potenciais leitores. É útil, enquanto postura de divulgação, mas é, acima de tudo, ético: o chegar aos leitores tem que estar acima de quaisquer considerações financeiras. Os parabéns de um novo leitor português Luis Tereso

http://www.flickr.com/photos/adrianclarkmbbs/3041954566/sizes/l/

Muito obrigado pela informaçäo sobre a revista Samizdat. Meu português é precário, mas eu estou interessado em praticar. Tambem sempre quis conhecer mais sobre literatura brasileira contemporânea. Estou pendente com novas atualizações. Héctor Torres / Editor FICCIÓN BREVE VENEZOLANA www.ficcionbreve.org

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Comunicado

Samizdat Especial

Humor

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O lugar onde
Estamos preparando a quarta edição do SAMIZDAT Especial, contemplando o gênero Humor. 1 - Todos os colaboradores fixos do E-Zine podem participar e sugerir autores colaboradores; 2 - Também serão aceitos textos enviado voluntariamente por autores externos, para as seguintes seções do E-Zine: a - Resenha de Livros; b - Teoria Literária ou do Humor; c - Autor convidado (prosa ou poesia); d - Traduções; e - Crônicas; f - caricaturas ou charges. 3 - Serão selecionados, ao todo, entre 3 e 5 textos para cada uma das seções acima, mas a edição do E-Zine possui o direito de selecionar mais ou menos obras. 4 - Não há limites de palavras, mas como se trata duma publicação voltada para o meio digital, solicita-se que não sejam enviados textos mais extensos do que umas 2500 palavras. 5 - Por se tratar duma obra de divulgação, não serão pagos direitos autorais. A publicação e a distribuição do E-Zine não acarretará, tampouco, em custos para os autores participantes. 6 - A SAMIZDAT Especial - Humor será publicada durante o mês de maio no blog, e na edição em .PDF em 1 de junho. Por isto, solicita-se aos autores interessados que entrem em contato até o final de abril, através do e-mail
revistasamizdat@hotmail.com

a boa Literatura
é fabricada

Indicando, no assunto do e-mail, SAMIZDAT Especial 4, e em qual seção o texto se enquadra (ver item 2).

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Abraços a todos, Equipe da SAMIZDAT www.revistasamizdat.com

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Entrevista

marcos Fernando Kirst
Marcos Fernando Kirst Nascido em Ijuí (RS), Marcos Fernando Kirst cursou Jornalismo na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e trabalhou em vários jornais, entre eles A Razão, em Santa Maria, e Pioneiro, em Caxias do Sul. Atualmente colabora com a revista Acontece e o jornal Informante (Farroupilha). Também desenvolve trabalhos editoriais para a editora Belas-Letras, de Caxias do Sul. Em outubro de 2008, lançou na Feira do Livro de Caxias do Sul o livro infantil O Gato Que Não Sabia de Nada, que trata de um gato com crise de identidade: não sabe se é gato, se é cachorro ou se faz parte de uma pilha de livros. A aventura, narrada pelo gatinho Bioy, é a estréia de Kirst em livro de ficção. A obra ficou entre as mais vendidas da feira. Na seqüência, o autor integrou a programação de eventos relativos às Feiras de Livros (lançamento, sessões de autógrafos e bate-papos literários) nas cidades gaúchas de Farroupilha, Ijuí e Porto Alegre. Antes desse livro, Kirst participou de antologias, venceu concursos literários e publicou o livro A História nas Estantes – 60 Anos da Biblioteca Pública Municipal Dr. Demetrio Niederauer.

Samizdat: Qual é o maior desafio ao escrever para crianças? Marcos Fernando Kirst: O maior desafio é encontrar o tom certo. É conseguir escrever sem ser professoral – o que te distancia do público-alvo – e sem escorregar para um tom infantilizado – o que te faz parecer tolo aos olhos deste mesmo público-alvo. Escrever para crianças, na verdade, acaba não escondendo

segredo nenhum a partir do momento em que você se propõe a fazer isto de uma forma honesta, de espírito aberto, e curtindo narrar da mesma forma como imagina que os jovens leitores vão curtir ao ler o que você escreveu. Acho que a sintonia acaba acontecendo é aí, na curtição. Samizdat: O nome do narrador do livro O Gato que não sabia de

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nada é uma homenagem ao escritor argentino Bioy Casares, ou é mera coincidência? Marcos Fernando Kirst: É deliberado. Adolfo Bioy Casares é um de meus ícones literários, aprecio muito os contos e romances escritos por ele, assim como também aprecio muito a obra do grande amigo dele, Jorge Luis Borges. Borges possuía um gato chamado Beppo. Quando ganhamos um gato lá em casa, falei para minha esposa que gostaria de chamálo de Bioy, pois, uma vez que não escrevo com a genialidade de Borges, pelo menos poderia passar a ter um amigo com o mesmo nome do que o dele. No final das contas, o gato Bioy de verdade inspirou o gato Bioy do livro. Consegui me assemelhar a Borges por vias indiretas: assim como ele, também tenho um amigo chamado Bioy que me inspira na literatura. Samizdat: Gatos são animais imprevisíveis, destruidores e apaixonantes. Além de seu próprio gato, há algum “gato de ficção” que o inspirou para criar o Bioy? Marcos Fernando Kirst: O universo felino é muito rico, criativo e sutil. Gatos têm personalidade própria, não concordo com o conceito de “todos os gatos: o gato”, que

induz a pensar que todos são iguais e reagem da mesma maneira aos mesmos estímulos. Já tive muitos gatos na vida, e sei que cada um foi (e é) único. Bioy não foi o primeiro gato de estimação a me inspirar em minhas criações literárias. Quando adolescente e ainda morador na minha Ijuí natal, tinha um gato chamado Fips, que se instalava no parapeito da janela de meu quarto durante as tardes quentes e ficava me observando desenhar e criar histórias em quadrinhos, que eu produzia ajoelhado ao lado da cama, sobre a qual dispunha folhas em branco e desenhava com canetas hidrocor. O Bioy do livro é basicamente inspirado no Bioy que reina lá em casa, amalgamado com características de alguns outros gatos que tive. Mas acho ele uma criação única, e vejo que ele se sente, guardadas as devidas proporções, humilde mas confortável no mundo felino da ficção ao lado de Tom, Garfield, Félix, Manda-Chuva, Ronrom (o gato do Pato Donald, lembram?), Matinhos (o gato das Aristogatas) e tantos outros. Samizdat: Ainda sobre inspiração: como você escreve ficção? Há uma programação? Marcos Fernando Kirst: O ato de produzir ficção está casado com

meu hábito de consumir leitura desde que me conheço por gente. Desde criança, lia histórias em quadrinhos e depois criava minhas próprias histórias, com meus próprios personagens, meus próprios enredos. Fui crescendo, vieram os livros e comecei a produzir narrativas ficcionais. Entre os 14 e os 16 anos, escrevi três livros infanto-juvenis, um a cada ano. Todos devidamente engavetados, pois eram treinamentos para o que estava por vir. Chegou a juventude e comecei a escrever contos, com os quais, ao longo dos anos, fui ganhando vários prêmios literários, em Santa Maria e em Caxias do Sul. Escrever ficção, portanto, faz parte de minha essência pessoal. Escrevo muito e engaveto muito. Acredito que agora, com a maturidade, começa a chegar o momento de trazer à luz algumas

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destas coisas, algumas delas após submetidas ao óbvio e necessário processo de reescrita. Tenho dois romances inéditos escritos há poucos anos esperando a hora de nascerem oficialmente. Estou desenvolvendo dois livros de crônicas temáticas, ambos quase finalizados, e outro juvenil de aventuras também quase pronto. E muitos projetos literários já delineados para irem sendo trabalhados ao longo dos anos. Produzo ficção sempre que acontece o que chamo de “conjunção astral literária favorável”, que se concretiza no momento em que estou com vontade de escrever, tenho o tempo necessário e surge um tema instigante. São conjunções raras e, quando acontecem, procuro aproveitá-las ao máximo. Samizdat: Com a honrosa exceção do Menino Maluquinho, a maioria dos livros para crianças ainda segue a ideologia das fábulas, com uma “moral da história” e tal... Será que dá pra escrever para crianças sem cair nessa panfletagem moral? Será que criança curte literatura pela literatura? Marcos Fernando Kirst: Tenho certeza absoluta de que criança – talvez até mais do que adultos – curte literatura pela literatura. Na verdade, crianças curtem histórias,

e não fazem nenhuma exigência de “moral no final”. Quem exige isto são os adultos (alguns), e acabam impondo esta condição para as artes voltadas às crianças. É a mesma coisa que, no universo adulto, exigir posicionamento e reflexão política nas obras de arte. Arte é arte, e não “tem que” nada. Arte precisa, sim, causar prazer estético, e ponto final. Música, escultura, teatro, cinema, dança, literatura e todas as artes têm uma só obrigação: tocar a alma, encantar. Se um autor desejar usar alguma espécie de arte para passar determinada mensagem específica, ótimo, vá em frente, é um formato válido. Mas não é uma exigência intrínseca ao ato de fazer arte. As artes não têm a obrigação de serem engajadas a nada. Independentemente da faixa etária a que se destinam. Da mesma forma, a literatura dita infantil tem uma só obrigação: encantar seus leitores. Se conseguir fazer isto, estará já fazendo muito, pois estará tocando almas, abrindo olhos, revelando universos. Samizdat: Pensando num público mais juvenil, o sucesso das séries Harry Potter e Desventuras em Série parece colar no bom e velho bem contra o mal e no desafio de ler sempre o próximo volume. Você leu essas obras? O que

acha delas? Marcos Fernando Kirst: Conheço as obras e assisti aos filmes derivados delas, sei do que tratam e de como seus autores escrevem. O velho clichê maniqueísta do bem contra o mal permeia a literatura (o cinema e a televisão também) desde sempre, e não vai mudar, pois é uma fórmula de sucesso fácil. Nós, seres humanos, somos maniqueístas, basta ver que julgamos o mundo a partir de nossa própria visão pessoal dele, na qual, invariavelmente, nós estamos certos (somos o bem) e os outros e o mundo estão sempre errados (representam o mal). Por isto, histórias em que o Bem (os mocinhos) e o Mal (os vilões) são claramente identificáveis fazem, sempre fizeram e sempre farão

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muito sucesso (talvez resida neste aspecto uma das explicações para o sucesso de programas televisivos como o Big Brother: as pessoas assistem para tentar classificar os bons e os maus da casa). De qualquer forma, estas obras acabam repassando valores éticos, o que, no final das contas, é louvável. O fato de serem escritas de forma a induzir à continuidade da leitura nos próximos volumes tem o lado positivo de ajudar a formar o hábito da leitura, o que é muito bom, quando atingido o propósito. Não vejo problemas.

de um fôlego só, sabem a história de cor, conhecem os personagens, e, o mais interessante, querem que as aventuras do gatinho prossigam em mais livros.

Samizdat: Faço a mesma pergunta que você fez ao professor Donaldo Schüller: “Como o senhor caracteriza o atual momento do mercado editorial brasileiro?” Marcos Fernando Kirst: Tenho de fazer esta análise sob dois aspectos. Primeiro, na condição de leitor, o mercado editorial brasileiro jamais viveu período tão fértil. Temos à disposição, nas livrarias, Samizdat: Dizem que o livros de todos os tipos, público infantil é baspara todos os gostos, tante honesto em relatraduzidos de todas as ção aos seus gostos: ou partes do mundo. Teuma criança gosta ou mos à disposição o que não gosta. Como você há de novo e moderno percebe a receptividade sendo feito lá fora, assim das crianças, seu públi- como os clássicos, muitas co-alvo, ao seu livro? vezes com novas traduMarcos Fernando Kirst: ções e edições revistas e São honestíssimas quanto ampliadas. Não dá para se queixar. Já enquanto a isto. Tenho tido a enriquecedora experiência de autor, a dificuldade é a de sempre: conseguir colorealizar bate-papos com crianças em salas de aula car um livro inédito de em função do livro, e elas sua autoria no mercado é uma dificuldade hercúlea. são incrivelmente crítiAs editoras não aposcas, questionadoras. Na tam em desconhecidos, maioria das vezes, leram apesar do discurso feito o livro e têm reflexões a “pró-mídia” de que estão compartilhar a respeito da obra, perguntas a fazer constantemente à procura de novos talentos. Balela. que muitas vezes me Salvo, é claro, as exceções deixam divertidamente de praxe. No meu caso, “acuado”. Mas a receptitive a sorte de ter tido vidade tem sido ótima. o original do meu livro As crianças lêem o livro

infanto-juvenil avaliado pela editora caxiense Belas-Letras e obtido um parecer favorável, que motivou a editora a apostar em mim e na obra. Mas é um fato raro dentro do amplo espectro do mercado editorial brasileiro. Samizdat: Procurando por seu nome no Google, um dos primeiros links é uma crônica/ conto intitulado Uma rapidinha no Caminho de Santiago, para a zine O Caixote (http://www. ocaixote.com.br/caixote09/cx09_cronicas_ kirst.html). Esse Marcos Kirst é você ou é outro? Marcos Fernando Kirst: É outro, é um homônimo. Mora em São Paulo, é mais velho do que eu e, inclusive, é parente (primo de meu pai). O nome dele, aliás, é Erlon Marcos Kirst, mas ele está usando só o segundo nome e o sobrenome. Por isso mesmo é que faço questão de usar sempre meu nome completo: Marcos Fernando Kirst, para diferenciar. Samizdat: Que importância têm os concursos na carreira de um novel escritor? Dão-lhe visibilidade, traquejo de escrita, domínio do stress, hábitos de rigor, ou o quê? Marcos Fernando Kirst: Os concursos servem principalmente para dar

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um norte mais oficial para a pretensa carreira de um pretenso escritor. Ao ser premiado, teu texto passa, incógnito, pelo crivo de um júri (a princípio) gabaritado, que o analisou e o classificou tanto por seus méritos literários em si quanto em relação aos demais concorrentes. É a prova de que, afinal, aquilo que você escreve tem algum valor capaz de atingir a leitores que não te conhecem. Mostra que você, mal ou bem, iniciante ou não, tem uma voz literária, que fala e consegue ser ouvida por outros. Confere segurança, incentiva uma pretensão. Mas infelizmente, os concursos, atualmente, muitas vezes, morrem neles mesmos. A imprensa, via de regra, ignora o trabalho dos vencedores e raramente as obras premiadas chegam ao público de forma mais ampla. Noticia-se os vencedores anuais dos concursos com notinhas de rodapé e pronto, cumpre-se com a obrigação. A estrada do pretenso futuro escritor, mesmo com os concursos, continuará sendo pedregosa. E talvez até seja positivo que seja assim, afinal, nada cai do céu. Samizdat: Fazendo uma comparação entre seus livros A História nas Estantes – 60 Anos da Biblioteca Pública Municipal Dr. Demetrio Niederauer e O gato

que não sabia de nada, como você avalia a repercussão de obras de ficção e não-ficção no público leitor? Marcos Fernando Kirst: Falo a partir de minha (ainda singela) experiência em termos de publicação de obras (duas, exatamente as que citaste) nestas duas áreas. O primeiro livro, lançado em 2007, dirigia-se a um público específico, interessado em conhecer a história da Biblioteca Pública Municipal de Caxias do Sul. Apesar de que, ao redigir o texto, procurei não produzir uma obra enfadonha e cronológica, pelo contrário: escrevi de forma a transformar a própria biblioteca em personagem, na qual convivem e coabitam outros personagens interessantes, ou seja, os livros, os leitores e os funcionários. Apesar de partir das características específicas da biblioteca caxiense, fiz um livro com o qual pode se identificar qualquer frequentador de qualquer biblioteca do país e do mundo. Até por causa do título, a obra ficou mais limitada e, mesmo assim, cumpriu seu papel, o de marcar um momento histórico, alcançando a repercussão que tinha possibilidades de obter dentro da limitação de tema e momento a que se submetia. Já o livro ficcional sobre o gato, lançado em 2008, tem alcançado uma

repercussão muito maior, imprevisível, imensurável e indomável, justamente por ser absolutamente universal. Identificam-se com o livro pessoas de todas as idades, não apenas crianças, além de dialogar também com qualquer pessoa que goste de animais de estimação. O segredo, no entanto, para ambas as obras, tanto as de ficção quanto para as de não-ficção, é, além de encontrar um tema absorvente, conseguir desenvolver uma narrativa que prenda a atenção do leitor. Acho que consegui alcançar o objetivo nas duas obras.

Coordenação da entrevista: Maristela S. Deves Perguntas feitas por: Henry Alfred Bugalho Marcia Szajnbok Volmar Camargo Junior Joaquim Bispo Carlos Barros

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O lugar onde

a boa Literatura
é fabricada

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Filho de peixe,

microcontos

Peixinho é
Marcia Szajnbok
Cresceu apanhando. Todo santo dia o pai chegava bêbado, fedendo a cigarro e a perfume barato de puta, tirava a cinta e lascava todo mundo, começando pela mãe e terminando sempre nele, o caçula. Nas poucas vezes que tentou se defender, veio logo o tapa na cara e o grito:Cala a boca! Você é o último que fala e o primeiro que apanha! Anos a fio o ódio fermentando no cadinho do coração, crescendo, crescendo...Um dia arrumou uma moça, resolveu casar. Na festa de casamento, encheu a cara. Quando foi se deitar com ela, a noiva fez cara de nojo diante do cheiro de cerveja e cigarro. Não teve dúvida: tirou a cinta, e começou a bater ali mesmo, em plena lua-de-mel.
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reprise

um gênio da música
Henry Alfred Bugalho
Ele queria ter sido músico. Aulas de piano quando criança, tocava guitarra com uma bandinha de garagem na adolescência, mas ele cresceu e o sonho cedeu espaço à realidade: ele nem era tão bom assim... Mas o filho tinha talento, ao seis anos já ganhava um concurso de música. Um pouco já maiorzinho, trouxe para o pai os cadernos repletos de composições, coisas de gênio. Cheio de inveja, o pai disse: — Ih, filho, tudo porcaria. Se eu fosse você, largava isto de querer ser músico. O filho obedeceu. Chateado, mas acreditou no sábio parecer. Hoje, é mecânico na oficina do pai. Suas composições abarrotam gavetas e baús, porcarias escondidas dum gênio.

http://www.flickr.com/photos/15302763@N04/3157820748/

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Negócio de família
Henry Alfred Bugalho
Pai e filho sentados à mesa de jantar. — Você vai ser médico, assim como eu, seu avô, seu bisavô, assim como seus tios e irmãos. Dia seguinte, na construção abandonada no final da rua, o filho diz para as três colegas da escola: — Vão tirando a roupa! — Por quê? — elas retrucam. Risinho safado do garoto. — Primeira aula de Anatomia.
http://www.flickr.com/photos/pierofix/1353521365/

uma carreira de sucesso
Henry Alfred Bugalho
O filho era uma bicha. Ator e bicha. Destino pior não existia. Tinha vergonha dele na rua: o que seus amigos iriam dizer do filho bichola afetada quebrando o pulso e rebolando? Expulsou-o de casa aos dezesseis anos e não teve mais notícias. Então, surgiram os rumores e, por fim, a confirmação: o filho seria o protagonista da próxima novela das oito. Toda família se reuniu para assistir ao primeiro capítulo. Assim que o filho apareceu na tela da TV o pai, enxu, gando as lágrimas: — Que orgulho do meu filhão!

Beleza genética
Henry Alfred Bugalho
A mãe, Miss Universo em 1988. A filha, campeã de boquete universitário em 2009.
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Benjamin Button e seu filho
Carlos Alberto Barros
- Papai, quando crescer, serei como o senhor! - E eu, como você, meu filho...

mais famosos e seus filhos
Volmar Camargo Junior
Hannibal Lecter e seu filho - Papai, quando crescer, serei como o senhor! - E eu como você, meu filho... Michael Jackson e seu filho - Papai, quando crescer, serei como o senhor! - E eu como você, meu filho...

assunto encerrado
Volmar Camargo Junior
- Mãe, quem é esse homem que acabou de sair pela janela? - É o mesmo que estava no seu quarto ontem à noite. - M-mãe... n-não tinha ninguém no meu quarto ontem à noite. - Exatamente, filhinha. Assunto encerrado.

http://www.flickr.com/photos/tragicendingtoabeautifulstory/2679869007/sizes/l/

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alvorada
Joaquim Bispo
O mundo era ermo e inóspito. Os pedregulhos erguiamse crispados, sobranceiros à aridez dum mar de dunas. As areias estendiam-se, cálidas e mortíferas até ao horizonte. O céu, ofuscante de branco, não concedia qualquer matiz, em toda a abóbada exposta. Só o Sol ardente, a pique, presidia sobre as coisas inanimadas. Então, nos interstícios da rocha calcinada, numa brecha ínfima, por uma singularidade improvável, formou-se uma nesga de sombra. O espírito da árvore acordou, reconheceu a sua essência e formou um pensamento. E um manto verde cobriu a terra inteira.

Joaquim Bispo
– As informações que recolhi, Grande Kha, indicam que o clima sofreu variações dramáticas nos últimos ciclos. As grandes quantidades de poeiras, fumos, e óxidos de carbono e de enxofre lançadas para a atmosfera, foram imperceptivelmente criando uma capa que, deixando penetrar muita radiação, constituía um obstáculo à sua libertação para o espaço. Isso provocou um aquecimento progressivo que fez derreter as calotes polares, aumentou exponencialmente a evaporação dos oceanos, e favoreceu vagas de incêndios que devastaram as florestas das zonas equatoriais e adjacentes. Tanto vapor de água na atmosfera começou a impedir a luz solar visual de chegar ao solo, mas que continuava a deixar penetrar a radiação infra-vermelha. Sem luz solar, a fotossíntese deixou de se fazer. As plantas morreram e os que delas se alimentavam. O calor tornou a vida impossível à maior parte das espécies, até às latitudes polares. Os organismos ficaram literalmente estufados. Neste mundo escuro e escaldante, medram fungos de todas as espécies, que dispõem de muita matéria orgânica em decomposição. Os indivíduos da espécie dominante – os 50 milhões que restam – retiraram-se para junto dos pólos. Chamam Novo Mundo ao continente situado no pólo sul. Creio que estão criadas, enfim, as condições para a nossa instalação.

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Crepúsculo

recomendações de Leitura

Henry Alfred Bugalho

milorad Pávitch,

o engenhoso

Dictionary of the Khazars Autor: Milorad Pavić Editora: Alfred A. Knopf

O termo literatura ergódica foi cunhado, inicialmente, pelo teórico da literatura (apesar de que “ludologista” classificaria melhor sua área de pesquisa) Espen Aarseth. Em linha gerais, literatura ergódica remete-se àquela forma narrativa que exige do leitor um esforço não-convencional, ou seja, diferente do processo trivial de ler página após página.

Exemplos de obras ergódicas há vários, desde o livro oracular “I-Ching” até “Fogo Pálido” de Nabokov, mesmo que para, Aarseth, os melhores exemplos do gênero se desenvolveram e predominam no mundo digital, como os jogos de computadores, que através de várias linhas narrativas, possuem o desempenho definido pelas escolhas dos usuários.

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Na verdade, a literatura sempre namorou com esta ruptura, a despeito de todas as dificuldades que tal esforço não-trivial implica. O autor sérvio Milorad Pávitch é um dos que tomou para si a missão de criar obras não-convencionais. Praticamente todos seus textos optam por inovações técnicas de modo a tornar o leitor mais do que mero receptor, mas uma espécie de co-autor, ao decidir quais caminhos prosseguir na leitura. O primeiro dos romances de Pávitch, “O Dicionário dos Kazares” não escapa desta proposta. Neste romance, Pávitch narra a história dos Kazares, um povo que teria vivido entre os séculos oitavo e décimo na região do Cáucaso, e da mítica conversão deles a uma das três grandes religiões basilares: o cristianismo, o islamismo, ou o judaísmo. Apesar de não haver um enredo definível, o livro é composto de três grandes partes, nas quais os Kazares são investigados, através de verbetes como os de uma enciclopédia, à luz destas grandes religiões, e em cada uma destas partes temos a defesa da conversão às respetivas religiões. Deste modo, o leitor pode transitar entre as três versões desta enciclopé-

dia, comparando verbetes cruzados, como no caso de Kazares, ou Ateh. O estilo de Pávitch é bastante alegórico e, por vezes, surrealista. Há profundas referências ao mundo dos sonhos e ao universo simbólico, por vezes recaindo em metáforas de difícil apreensão. Este autor desenvolveu outras obras ergódicas, como “Paisagem Pintada com Chá” composta em forma de palavra-cruzada, “O Lado de Dentro do Vento” que pode ser lido tanto do começo ao fim quanto de trás para a frente, “Último Amor em Constantinopla” que possui capítulos numerados de acordo com as cartas de tarô e sugere ao leitor que jogue as cartas para saber qual capítulo ler. Mesmo os contos do autor disponíveis online seguem esta orientação, cabendo ao leitor escolher os rumos da história através de hiperlinks (forma conhecida como hiperficção). A grande contribuição de Milorad Pávitch reside justamente neste ímpeto em renovar e explorar os limites da literatura, e encontrar alternativas criativas para compôr algo interessante, não apenas em conteúdo, mas também formalmente.

Um detetive...
Uma loira gostosa...

Um assassinato...
E o pau comendo entre as máfias italiana e chinesa.

O COvil dos inOCentes
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Frei Simão
Machado de Assis

autor em Língua Portuguesa

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Publicado originalmente em Jornal das Famílias, em 1864, integra a obra “Contos Fluminenses” I Frei Simão era um frade da ordem dos Beneditinos. Tinha, quando morreu, cinqüenta anos em aparência, mas na realidade trinta e oito. A causa desta velhice prematura derivava da que o levou ao claustro na idade de trinta anos, e, tanto quanto se pode saber por uns fragmentos de memórias que ele deixou, a causa era justa. Era frei Simão de caráter taciturno e desconfiado. Passava dias inteiros na sua cela, de onde apenas saía na hora do refeitório e dos ofícios divinos. Não contava amizade alguma no convento, porque não era possível entreter com ele os preliminares que fundam e consolidam as afeições. Em um convento, onde a comunhão das almas deve ser mais pronta e mais profunda, frei Simão parecia fugir à regra geral. Um dos noviços pôs-lhe alcunha de

urso, que lhe ficou, mas só entre os noviços, bem entendido. Os frades professos, esses, apesar do desgosto que o gênio solitário de frei Simão lhes inspirava, sentiam por ele certo respeito e veneração. Um dia anuncia-se que frei Simão adoecera gravemente. Chamaramse os socorros e prestaram ao enfermo todos os cuidados necessários. A moléstia era mortal; depois de cinco dias frei Simão expirou. Durante estes cinco dias de moléstia, a cela de frei Simão esteve cheia de frades. Frei Simão não disse uma palavra durante esses cinco dias; só no último, quando se aproximava o minuto fatal, sentou-se no leito, fez chamar para mais perto o abade, e disse-lhe ao ouvido com voz sufocada e em tom estranho: — Morro odiando a humanidade! O abade recuou até a parede ao ouvir estas palavras, e no tom em que foram ditas. Quanto a frei Simão, caiu sobre

o travesseiro e passou à eternidade. Depois de feitas ao irmão finado as honras que se lhe deviam, a comunidade perguntou ao seu chefe que palavras ouvira tão sinistras que o assustaram. O abade referiu-as, persignandose. Mas os frades não viram nessas palavras senão um segredo do passado, sem dúvida importante, mas não tal que pudesse lançar o terror no espírito do abade. Este explicou-lhes a idéia que tivera quando ouviu as palavras de frei Simão, no tom em que foram ditas, e acompanhadas do olhar com que o fulminou: acreditara que frei Simão estivesse doido; mais ainda, que tivesse entrado já doido para a ordem. Os hábitos da solidão e taciturnidade a que se votara o frade pareciam sintomas de uma alienação mental de caráter brando e pacífico; mas durante oito anos parecia impossível aos frades que frei Simão não tivesse um dia revelado de modo positivo a sua loucura; objetaram isso ao abade; mas este persistia na sua crença.

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Entretanto procedeuse ao inventário dos objetos que pertenciam ao finado, e entre eles achou-se um rolo de papéis convenientemente enlaçados, com este rótulo: Memórias que há de escrever frei Simão de Santa Águeda, frade beneditino. Este rolo de papéis foi um grande achado para a comunidade curiosa. Iam finalmente penetrar alguma coisa no véu misterioso que envolvia o passado de frei Simão, e talvez confirmar as suspeitas do abade. O rolo foi aberto e lido para todos. Eram, pela maior parte, fragmentos incompletos, apontamentos truncados e notas insuficientes; mas de tudo junto pôde-se colher que realmente frei Simão estivera louco durante certo tempo. O autor desta narrativa despreza aquela parte das Memórias que não tiver absolutamente importância; mas procura aproveitar a que for menos inútil ou menos obscura.

II As notas de frei Simão nada dizem do lugar do seu nascimento nem do nome de seus pais. O que se pôde saber dos seus princípios é que, tendo concluído os estudos preparatórios, não pôde seguir a carreira das letras, como desejava, e foi obrigado a entrar como guarda-livros na casa comercial de seu pai.

vam ambos o casamento, coisa que parece mais natural do mundo para corações amantes.

Não tardou muito que os pais de Simão descobrissem o amor dos dois. Ora é preciso dizer, apesar de não haver declaração formal disto nos apontamentos do frade, é preciso dizer que os referidos pais eram de um egoísmo descomunal. Davam de boa vontade o pão da subsistência a Morava então em casa Helena; mas lá casar o de seu pai uma prima de filho com a pobre órfã é Simão, órfã de pai e mãe, que não podiam consenque haviam por morte tir. Tinham posto a mira deixado ao pai de Simão em uma herdeira rica, e o cuidado de a educadispunham de si para si rem e manterem. Parece que o rapaz se casaria que os cabedais deste decom ela. ram para isto. Quanto ao pai da prima órfã, tendo Uma tarde, como estisido rico, perdera tudo vesse o rapaz a adiantar ao jogo e nos azares do a escrituração do livrocomércio, ficando redumestre, entrou no escrizido à última miséria. tório o pai com ar grave e risonho ao mesmo A órfã chamava-se tempo, e disse ao filho Helena; era bela, meiga que largasse o trabalho e e extremamente boa. o ouvisse. O rapaz obeSimão, que se educara deceu. O pai falou assim: com ela, e juntamente vivia debaixo do mesmo — Vais partir para a teto, não pôde resistir província de ***. Preciàs elevadas qualidades e so mandar umas cartas à beleza de sua prima. ao meu correspondente Amaram-se. Em seus Amaral, e como sejam sonhos de futuro contaelas de grande importân-

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cia, não quero confiá-las ao nosso desleixado correio. Queres ir no vapor ou preferes o nosso brigue? Esta pergunta era feita com grande tino. Obrigado a responderlhe, o velho comerciante não dera lugar a que seu filho apresentasse objeções. O rapaz enfiou, abaixou os olhos e respondeu: — Vou onde meu pai quiser. O pai agradeceu mentalmente a submissão do filho, que lhe poupava o dinheiro da passagem no vapor, e foi muito contente dar parte à mulher de que o rapaz não fizera objeção alguma. Nessa noite os dois amantes tiveram ocasião de encontrar-se sós na sala de jantar.

pai de Simão conversou sobre a viagem do rapaz, que devia ser de poucos dias. Isto reanimou as esperanças dos dois amantes. O resto da noite passou-se em conselhos da parte do velho ao filho sobre a maneira de portar-se na casa do correspondente. Às dez horas, como de costume, todos se recolheram aos aposentos. Os dias passaram-se depressa. Finalmente raiou aquele em que devia partir o brigue. Helena saiu de seu quarto com os olhos vermelhos de chorar. Interrogada bruscamente pela tia, disse que era uma inflamação adquirida pelo muito que lera na noite anterior. A tia prescreveu-lhe abstenção da leitura e banhos de água de malvas.

va os olhos secos e ardentes. Era refratário às lágrimas; por isso mesmo padecia mais. O brigue partiu. Simão, enquanto pôde ver terra, não se retirou de cima; quando finalmente se fecharam de todo as paredes do cárcere que anda, na frase pitoresca de Ribeyrolles, Simão desceu ao seu camarote, triste e com o coração apertado. Havia como um pressentimento que lhe dizia interiormente ser impossível tornar a ver sua prima. Parecia que ia para um degredo. Chegando ao lugar do seu destino, procurou Simão o correspondente de seu pai e entregoulhe a carta. O sr. Amaral leu a carta, fitou o rapaz e, depois de algum silêncio, disse-lhe, volvendo a carta: — Bem, agora é preciso esperar que eu cumpra esta ordem de seu pai. Entretanto venha morar para a minha casa. — Quando poderei voltar? perguntou Simão. — Em poucos dias, salvo se as coisas se com-

Quanto ao tio, tendo chamado Simão, entregou-lhe uma carta Simão contou a Helena para o correspondente, e o que se passara. Choabraçou-o. A mala e um raram ambos algumas criado estavam prontos. lágrimas furtivas, e ficaA despedida foi triste. ram na esperança de que Os dois pais sempre a viagem fosse de um choraram alguma coisa, mês, quando muito. a rapariga muito. À mesa do chá, o Quanto a Simão, leva-

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plicarem. Este salvo, posto na boca de Amaral como incidente, era a oração principal. A carta do pai de Simão versava assim: Meu caro Amaral, Motivos ponderosos me obrigam a mandar meu filho desta cidade. Retenha-o por lá como puder. O pretexto da viagem é ter eu necessidade de ultimar alguns negócios com você, o que dirá ao pequeno, fazendo-lhe sempre crer que a demora é pouca ou nenhuma. Você, que teve na sua adolescência a triste idéia de engendrar romances, vá inventando circunstâncias e ocorrências imprevistas, de modo que o rapaz não me torne cá antes de segunda ordem. Sou, como sempre, etc.

Entretanto, como o espírito dos amantes não é menos engenhoso que o dos romancistas, Simão e Helena acharam meio de se escreverem, e deste modo podiam consolarse da ausência, com presença das letras e do papel. Bem diz Heloísa que a arte de escrever foi inventada por alguma amante separada do seu amante. Nestas cartas juravam-se os dois sua eterna fidelidade. No fim de dois meses de espera baldada e de ativa correspondência, a tia de Helena surpreendeu uma carta de Simão. Era a vigésima, creio eu. Houve grande temporal em casa. O tio, que estava no escritório, saiu precipitadamente e tomou conhecimento do negócio. O resultado foi proscrever de casa tinta, penas e papel, e instituir vigilância rigorosa sobre a infeliz rapariga.

as cartas de Simão iam parar às mãos do velho, que, depois de apreciar o estilo amoroso de seu filho, fazia queimar as ardentes epístolas. Passaram-se dias e meses. Carta de Helena, nenhuma. O correspondente ia esgotando a veia inventadora, e já não sabia como reter finalmente o rapaz. Chega uma carta a Simão. Era letra do pai. Só diferençava das outras que recebia do velho em ser esta mais longa, muito mais longa. O rapaz abriu a carta, e leu trêmulo e pálido. Contava nesta carta o honrado comerciante que a Helena, a boa rapariga que ele destinava a ser sua filha casando-se com Simão, a boa Helena tinha morrido. O velho copiara algum dos últimos necrológios que vira nos jornais, e ajuntara algumas consolações de casa. A última consolação foi dizer-lhe que embarcasse e fosse ter com ele.

III Passaram-se dias e dias, e nada de chegar o momento de voltar à casa paterna. O ex-romancista era na verdade fértil, e não se cansava de inventar pretextos que deixavam convencido o rapaz.

Começaram pois a escassear as cartas ao pobre deportado. Inquiriu a causa disto em cartas O período final da choradas e compridas; carta dizia: mas como o rigor fiscal da casa de seu pai adquiAssim como assim, ria proporções descomu- não se realizam os meus nais, acontecia que todas negócios; não te pude

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casar com Helena, visto que Deus a levou. Mas volta, filho, vem; poderás consolar-te casando com outra, a filha do conselheiro ***. Está moça feita e é um bom partido. Não te desalentes; lembra-te de mim. O pai de Simão não conhecia bem o amor do filho, nem era grande águia para avaliá-lo, ainda que o conhecesse. Dores tais não se consolam com uma carta nem com um casamento. Era melhor mandá-lo chamar, e depois prepararlhe a notícia; mas dada assim friamente em uma carta, era expor o rapaz a uma morte certa. Ficou Simão vivo em corpo e morto moralmente, tão morto que por sua própria idéia foi dali procurar uma sepultura. Era melhor dar aqui alguns dos papéis escritos por Simão relativamente ao que sofreu depois da carta; mas há muitas falhas, e eu não quero corrigir a exposição ingênua e sincera do frade. A sepultura que Simão escolheu foi um convento. Respondeu ao

pai que agradecia a filha do conselheiro, mas que daquele dia em diante pertencia ao serviço de Deus. O pai ficou maravilhado. Nunca suspeitou que o filho pudesse vir a ter semelhante resolução. Escreveu às pressas para ver se o desviava da idéia; mas não pôde conseguir. Quanto ao correspondente, para quem tudo se embrulhava cada vez mais, deixou o rapaz seguir para o claustro, disposto a não figurar em um negócio do qual nada realmente sabia. IV Frei Simão de Santa Águeda foi obrigado a ir à província natal em missão religiosa, tempos depois dos fatos que acabo de narrar. Preparou-se e embarcou. A missão não era na capital, mas no interior. Entrando na capital, pareceu-lhe dever ir visitar seus pais. Estavam mudados física e moralmente. Era com certeza a dor e o remorso de terem precipitado seu filho à

resolução que tomou. Tinham vendido a casa comercial e viviam de suas rendas. Receberam o filho com alvoroço e verdadeiro amor. Depois das lágrimas e das consolações, vieram ao fim da viagem de Simão. — A que vens tu, meu filho? — Venho cumprir uma missão do sacerdócio que abracei. Venho pregar, para que o rebanho do Senhor não se arrede nunca do bom caminho. — Aqui na capital? — Não, no interior. Começo pela vila de ***. Os dois velhos estremeceram; mas Simão nada viu. No dia seguinte partiu Simão, não sem algumas instâncias de seus pais para que ficasse. Notaram eles que seu filho nem de leve tocara em Helena. Também eles não quiseram magoá-lo falando em tal assunto. Daí a dias, na vila de que falara frei Simão, era um alvoroço para ouvir as prédicas do missionário.

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A velha igreja do lugar estava atopetada de povo. À hora anunciada, frei Simão subiu ao púlpito e começou o discurso religioso. Metade do povo saiu aborrecido no meio do sermão. A razão era simples. Avezado à pintura viva dos caldeirões de Pedro Botelho e outros pedacinhos de ouro da maioria dos pregadores, o povo não podia ouvir com prazer a linguagem simples, branda, persuasiva, a que serviam de modelo as conferências do fundador da nossa religião. O pregador estava a terminar, quando entrou apressadamente na igreja um par, marido e mulher: ele, honrado lavrador, meio remediado com o sítio que possuía e a boa vontade de trabalhar; ela, senhora estimada por suas virtudes, mas de uma melancolia invencível. Depois de tomarem água-benta, colocaram-se ambos em lugar de onde pudessem ver facilmente o pregador. Ouviu-se então um grito, e todos correram

para a recém-chegada, que acabava de desmaiar. Frei Simão teve de parar o seu discurso, enquanto se punha termo ao incidente. Mas, por uma aberta que a turba deixava, pôde ele ver o rosto da desmaiada. Era Helena. No manuscrito do frade há uma série de reticências dispostas em oito linhas. Ele próprio não sabe o que se passou. Mas o que se passou foi que, mal conhecera Helena, continuou o frade o discurso. Era então outra coisa: era um discurso sem nexo, sem assunto, um verdadeiro delírio. A consternação foi geral.

samento de Helena fora obrigado pelos tios. A pobre senhora não resistiu à comoção. Dois meses depois morreu, deixando inconsolável o marido, que a amava com veras. Frei Simão, recolhido ao convento, tornou-se mais solitário e taciturno. Restava-lhe ainda um pouco da alienação. Já conhecemos o acontecimento de sua morte e a impressão que ela causara ao abade.

A cela de frei Simão de Santa Águeda esteve muito tempo religiosamente fechada. Só se abriu, algum tempo depois, para dar entrada a um velho secular, que V por esmola alcançou O delírio de frei Sido abade acabar os seus mão durou alguns dias. dias na convivência dos Graças aos cuidados, médicos da alma. Era pôde melhorar, e pareceu o pai de Simão. A mãe a todos que estava bom, tinha morrido. menos ao médico, que Foi crença, nos últiqueria continuar a cura. mos anos de vida deste Mas o frade disse positivelho, que ele não estava vamente que se retirava menos doido que frei ao convento, e não houve Simão de Santa Águeda. forças humanas que o detivessem. FIM de Frei Simão O leitor compreende naturalmente que o caFonte: http://www2.uol. com.br/machadodeassis/

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Joaquim Maria Machado de Assis nasceu pobre e epilético. Era filho de Francisco José Machado de Assis e de Leopoldina Machado de Assis, neto de escravos alforriados. Foi criado no morro do Livramento, no Rio de Janeiro. Ajudava a família como podia, não tendo freqüentado regularmente a escola. Sua instrução veio por conta própria, devido ao interesse que tinha em todos os tipos de leitura. Graças a seu talento e a uma enorme força de vontade, superou todas essas dificuldades e tornouse em um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos. Entre os 6 e os 14 anos, Machado perdeu sua única irmã, a mãe e o pai. Aos 16 anos empregou-se como aprendiz numa tipografia e publicou os primeiros versos no jornal “A Marmota”. Em 1860, foi convidado por Quintino Bocaiúva para colaborar no “Diário do Rio de Janeiro”. Datam dessa década quase todas as suas comédias teatrais e o livro de poemas “Crisálidas”. Em 12 de novembro de 1869 casou-se com Carolina Augusta Xavier de Novais. Esse casamento ocorreu contra a vontade da família da moça, uma vez que Machado tinha mais problemas do que fama. Essa união durou cerca de 35 anos e o casal não teve filhos. Carolina contribuiu para o amadurecimento intelectual de Machado, revelando-lhe os clássicos portugueses e vários autores de língua inglesa. Na década de 1870, Machado publicou os poemas “Falenas” e “Americanas”; além dos “Contos Fluminenses” e “Histórias da meia-noite”. O público e a crítica consagraram seus méritos de escritor. Publicou os romances: “Ressurreição” (1872); “A Mão e a Luva” (1874); “Helena” (1876);

“Iaiá Garcia” (1878). Essas obras ainda estão ligadas à literatura romântica e formam a chamada primeira fase de Machado de Assis. Em 1873, o escritor foi nomeado primeiro oficial da secretaria de Estado do Ministério da Agricultura, Comércio e Obras públicas. A sua carreira burocrática teve uma ascensão muito rápida, uma vez que, em 1892, já era diretor geral do Ministério da Viação. O emprego público garantiu a estabilidade financeira, uma vez que viver de literatura naquela época era quase impossível, mesmo para os bons escritores. Na década de 1880, a obra de Machado de Assis sofreu uma verdadeira revolução, em termos de estilo e de conteúdo, inaugurando o Realismo na literatura brasileira. Os romances “Memórias póstumas de Brás Cubas” (1881); “Quincas Borba” (1891); “Dom Casmurro” (1899) e os contos “Papéis avulsos” (1882); “Histórias sem data” (1884), “Várias histórias” (1896) e “Páginas recolhidas” (1899), entre outros, revelam o autor em sua plenitude. O espírito crítico, a grande ironia, o pessimismo e uma profunda reflexão sobre a sociedade brasileira são as suas marcas mais características. Em 1897, Machado fundou a Academia Brasileira de Letras, da qual foi o primeiro presidente, pelo que a instituição também ficou conhecida como casa de Machado de Assis. Ocupou a Cadeira N.º 23, de cujo patrono, José de Alencar, foi amigo e admirador. Em 1904, a morte de sua mulher foi um duro golpe para o escritor. Depois disso, raramente ele saía de casa e sua saúde foi piorando por causa da epilepsia. Os problemas nervosos e uma gagueira contribuíram ainda mais para o seu

Machado de Assis morreu em sua casa situada na rua Cosme Velho. Foi decretado luto oficial no Rio de Janeiro e seu enterro, acompanhado por uma multidão, atesta a fama alcançada pelo autor. O fato de ter escrito em português, uma língua de poucos leitores, tornou difícil o reconhecimento internacional do autor. A partir do final do século 20, porém, suas obras têm sido traduzidas para o inglês, o francês, o espanhol e o alemão, despertando interesse mundial. De fato, trata-se de um dos grandes nomes do Realismo, que pode se colocar lado a lado ao francês Flaubert ou ao russo Dostoievski, apenas para citar dois dos maiores autores do mesmo período na literatura universal. Fonte: http://educacao.uol.com.br/ biografias/ult1789u180.jhtm

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http://fellipefernandes.files.wordpress.com/2008/07/machado-de-assis.jpg

isolamento. São dessa época seus últimos romances “Esaú e Jacó” (1904) e “Memorial de Aires” (1908), que fecham o ciclo realista iniciado com “Brás Cubas”

autor em Língua Portuguesa

Henriqueta Lisboa:
o modernismo remodelado pela timidez
“Não haverá, em nosso acervo poético, instantes mais altos do que os atingidos por este tímido e esquivo poeta.” Carlos Drummond de Andrade

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Noturno Meu pensamento em febre é uma lâmpada acesa a incendiar a noite. Meus desejos irrequietos, à hora em que não há socorro, dançam livres como libélulas em redor do fogo.

In: Prisioneira da Noite (1941)

Esse despojamento Esse despojamento esse amargo esplendor. Beleza em sombras Sacrifício incruento. A mão sem jóias descarnada na pureza das veias. A voz por um fio desnuda na palavra sem gesto. O escuro em torno e a lucidez violenta lucidez terrível batida de encontro ao rosto como uma ofensa física. Na imensidade sem pouso, olhos duros de pássaro. In: A Face Lívida (1945)
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Horizonte Alma em suspiro pelo encontro do que fica sempre mais longe

Calendário Calada floração fictícia caindo da árvore dos dias

In: Reverberações (1976)

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Henriqueta Lisboa Poetisa mineira considerada pela crítica um dos grandes nomes da lírica modernista, Henriqueta Lisboa nasceu em Lambari, MG, em 1903 e morreu em Belo Horizonte em 1985. Dedicou-se à poesia, ensaios e traduções. Surgindo no decênio da Semana de Arte Moderna, Henriqueta marcou o seu lugar, em nossas letras. Com Enternecimento, publicado em 1929, de forte caráter simbolista, recebeu o Prêmio Olavo Bilac de Poesia da Academia Brasileira de Letras. Aderiu ao Modernismo por volta de 1945, fortemente influenciada pela amizade com Mário de Andrade, com quem trocou rica correspondência entre os anos de 1940 e 1945. Foi a primeira mulher eleita para a Academia Mineira de Letras em 1963. Em 1984, recebeu o Prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras pelo conjunto de sua obra.

ra, Cecília Meireles. Apesar disso, era uma figura solitária. Sua poesia busca tangenciar o indizível, ultrapassar os limites da palavra e penetrar a essência da poesia. Por isso nos comove tanto, sem recorrer a qualquer artifício sentimental. As palavras vêm para ela como se fossem as Henriqueta manteve-se sempre atuante no diálogo com os próprias coisas, os próprios escritores e intelectuais de sua sentimentos, as próprias sensações. Por essas caractegeração e angariou muitos rísticas, Henriqueta Lisboa é leitores ilustres durante sua considerada um dos grandes vida, dentre eles Mário de nomes da poesia em língua Andrade, Carlos Drummond portuguesa. de Andrade, Manuel Bandei-

Fonte dos dados biográficos: http://www.letras.ufmg.br/ henriquetalisboa/ http://pt.shvoong.com/books/ biography/1659839-henriqueta-lisboa-vida-obra/

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duas mulheres, duas Estradas
Carlos Alberto Barros

Contos

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Dizia-me haver meses desde que abandonara seu passado: casa, família, emprego, tudo. Seu único desejo era que a estrada continuasse eterna à sua frente. Quando a encontrei, naquela rodovia interestadual, ela trazia apenas uma mochila às costas. Eu no carro, ela a pé: duas mulheres em busca de qualquer coisa que não tínhamos. Diminuí a velocidade do automóvel e a acompanhei. Tentei ser gentil: – Segue para onde, colega? – Sigo. Simplesmente, sigo. – Esta estrada é bem longa... Quer carona? – Quanto mais longa, melhor – fez uma pausa e contemplou a paisagem. – Obrigada, mas, continuo a pé. Quero sentir melhor os ares destas bandas. – Certeza? A mochila não está pesada? – Não tenho muita coisa aqui. Só trouxe o que realmente me faria falta da antiga vida. E ainda sobrou bastante espaço – disse, enquanto sacudia a bolsa. Insisti no diálogo, até que se tornou uma conversa agradável. Em certo ponto, ela parou de andar e eu desci do carro. Acho que ela não confiava em mim, mas, como eu não era um homem, pelo menos não teve medo de con-

versar. Ficamos sentadas à beira da estrada, e ela começou a contar-me do porquê de estar naquela vida errante, do abandono do passado, da busca por estradas sem fim. – A vida finge ser gentil conosco – dizia-me –, finge nos fazer felizes, até acreditarmos que o mundo está sempre sorrindo para nós. – E não é assim que acontece? – perguntei. – A vida é uma farsa! Quando achar que ela está rindo para você, cuidado, pois ela pode estar rindo de você. E, normalmente, é isso o que acontece. Foi desse jeito comigo. – Também me sinto assim às vezes. Por isso estou na estrada de novo. Mas, pretendo voltar à minha vida. Abandonar tudo... Isso não é fácil... É quase loucura. – Loucura é descobrir que esse tudo de que você fala não passa de um castelo de ilusões, um teatro de máscaras, uma comédia grega. E o pior é quando você descobre que é o palhaço da vez. Riem! Riem da sua cara sem piedade, sem se darem conta de estarem te matando, te fazendo menos que lixo! Isso é a realidade, querida! Esse é o meu tudo que abandonei. – É... a vida nem sempre é como queremos – falei,

reflexiva. – Mas, sempre há o que se fazer. Sempre há uma nova estrada para se seguir. – E esta aqui é a minha! – disse, e então, se levantou. – Mas, toda estrada, um dia, se acaba. – Se esta se acabar, terão outras. E o que me resta de vida será pouco para percorrer todas estradas deste mundo. Ajeitou a mochila às costas, como quem se prepara para recomeçar uma árdua trilha. Eu queria continuar a conversa. – Será que não há nada por que valha a pena voltar? – perguntei, ao mesmo tempo questionando a ela e a mim mesma. – Se quiser voltar para sua vida debochada, volte. Eu sigo por aqui, que meu mundo, agora, é o caminho por onde piso. Eu estava curiosa. Arrisquei perguntar: – Mas, o que, afinal, te aconteceu? Ela baixou a cabeça e ficou contemplando os próprios pés por alguns instantes. Como demorava a se mover, resolvi me aproximar. Quando toquei seu ombro, ela desabou. Em reflexo, recuei, assustada, enquanto que ela abraçava a mochila sobre o peito e chorava compulsivamente.

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Fiquei sem saber o que fazer. Pedi que se acalmasse, disse-lhe que estava tudo bem, que eu não mais a incomodaria. De repente, gritou: – Cala a boca! Você não sabe de nada! Levantou-se, e seu choro se misturou a uma explosão de ódio. Comecei a ficar com medo. – Sabe por que riram de mim? – inquiriu-me, sem deixar que eu respondesse. – Um tombo! Tropecei no meu próprio pé e caí, como uma criancinha atrapalhada aprendendo a andar. Diante da confissão, não consegui deixar de imaginar a cena. E o engraçado não era nem tanto o tombo em si, mas o fato de ela ter abandonado tudo por isso. Fugir por conta de um tombo? Comecei a achar que estava lidando com uma louca. Dei um sorriso torto, elevando apenas um dos cantos da boca, quase como uma careta de estranhamento – muito mais pela perplexidade em que me encontrava do que pela graça da situação. – Isso! Seja mais um a rir de mim! E que tal rir disto aqui? – gritou e abriu sua mochila. O que tirou de lá me deixou ainda mais confusa e assustada. – Meu Deus! – exclamei. – O que é isso?

– Ah, você não sabia deste detalhe? Assim como todos que riram de mim, você também não sabia que eu levava ele no meu colo. O meu bebê, meu filho! Vi aquilo e senti nojo. Um corpo minúsculo, enrugado, a pele escura, como que cheia de hematomas, os pequeninos membros retorcidos. Se o que eu via já fora um bebê, naquele momento não passava de um feto mal formado em decomposição, talvez um bicho morto já apodrecendo. – Foi um acidente! – começou a se explicar, enquanto ninava o que dizia ser seu filho. – Eu caí por cima do pobrezinho. Tão frágil... Tão pequeno... Eu o matei! – gritou. – Mas, agora, eu cuido bem de você, não é, meu anjinho – falava com carinho, olhando-o. – Meu Deus! Você é louca... Louca... – eu falava, me enroscando nas palavras e recuando em direção ao carro. – Você é só mais uma que ri de mim, sua vagabunda! Você e o resto do mundo! Nem aqui, no meio do nada, eu me livro da hipocrisia de vocês. Mas, eu estou cansada disso! Cansada! – berrou com tanta força que pude ver saliva saltando de sua boca.

Eu já estava na porta do carro quando ela enfiou a mão novamente na mochila. Tirou um revólver e apontou em minha direção. Sem saber ao certo como, já me encontrava abaixada atrás do volante tentando ligar o carro. – Isso mesmo, vá embora! – ela gritava. – Volte para sua vidinha! Hoje, riem de mim, amanhã, será de você! Assim que o carro funcionou, acelerei sem olhar o que havia pelo caminho. Imaginando que a mulher estava bem para trás, arrisquei levantar a cabeça. O carro já quase ia fora da estrada. Trouxe-o de volta e continuei acelerando. Quando olhei pelo retrovisor, ouvi o disparo. A mulher caiu com seu filho ao colo. Dessa vez, teve cuidado para não cair sobre ele. E, dessa vez, ninguém riu. Não tive coragem para voltar. Só fui parar quando o primeiro posto policial apareceu. Contei a história enquanto o choro me dominava. Depois de tudo, desisti de viajar em busca do que eu não tinha. Naquele momento, meu único conforto era saber que havia um lar ao qual eu podia retornar.

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Ele tinha diante de si a mais difícil das missões:

cumprir a vontade de Deus

ficina
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O Rei dos

Judeus
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át

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nl

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Henry Alfred BugAlHo

Contos

Maria de Fátima Santos

a como está o carapau
Ela perguntou apontando o peixe e sentindo que era a primeira vez que falava desde há horas. Perguntou distraída: - A como está o carapau? - Dois mil réis, madama. - respondeu a peixeira e já ela ia andando Ela andando e a vendedeira com as palavras dependuradas do grito, mais censura que rogo: - Venha cá minha carinha de anjo…. Não gosta do meu carapau? E ela seguindo, que sempre a deliciara ouvi-las naquele afã de fazer pela vida. E a mulher do carapau fresquinho arrematava impropérios na direcção da camisola muito branca que Maria do Carmo vestira ainda há pouco. Maria do Carmo a olhar noutra banca uma chaputa de olho arregalado apesar de muito morta. E a vendedeira de carapau ainda a chama: - Minha puta sem vergonha a desfazer no meu peixe. Badalhoca… Maria do Carmo ri-se à socapa e apreça duas postas. Ela que nem sabe se dormiu ou simplesmente rebolou ainda uma e outra vez debaixo dele, por cima dele, ao lado dele na cama e no soalho e nem sabe mais senão que havia um bidé com suporte de ferro por detrás de um cortinado soprado pela brisa fria que vinha de uma greta da janehttp://www.flickr.com/photos/m_orellana/2115887309/sizes/o/

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la empenada. Ela comprando peixe para fazer tempo. Tempo de dizer em casa, simplesmente: - Bom dia! Não consegui telefonar. Fiquei por lá. Um costume de anos: dormir num hotel se demorava mais com uma consulta ou estava mau tempo para se fazer à estrada. Nem se incomodaria a dizer ao marido onde dormira. Nem Xavier lho perguntaria. Mas para isso era preciso que chegasse à hora de outros dias semelhantes. Ao Xavier nem sequer lhe cheirariam os húmus dessa noite. Talvez sentisse o cheiro a peixe. Ou talvez nem ficasse perto dela o suficiente. Maria do Carmo comprou duas postas de chaputa e recebeu uma nota húmida que esfregou na mão como se fosse outra a humidade que sentia. Sorriu-se dela mesma e meteu a nota na carteira. Olhou de longe a peixeira que agora apregoava carapau vivinho, minhas meninas. A mulher a chamar-lhe badalhoca e ela que nem lavada dos humores daquela noite … Sorriu de novo. Tinha sido um acaso. Fora tomar café na salinha ao lado da sala de audiências. A sala muito cheia. Ela cheirou-lhe a alfazema. Voltou-se em busca desse odor e ele sorriu-lhe do meio da fragrância de perfume barato e passou-lhe um pacote de açúcar. E ela ficou adoçando o café num

tremor esquecido que era sentir o desejo a percorrerlhe o corpo. E ele num sussurro, percebendo: - Poderemos jantar esta noite? - assim. Sem mais nem menos. E a saia dela, uma saia comprida com duas pregas fundas, acusando interiores muito esquecidos. E ele sorrindo a esperar um sinal positivo: - Aqui às sete. Está bem para si? Ela deve ter-lhe acenado um sim antes de voltarem todos à sala de julgamentos. Às sete estava lá. Esfusiante. Não foi decerto ela quem disse que aquele hotel era um local discreto. Ela simplesmente terá acedido, toldada a capacidade de decidir o que quer que fosse. Era como estaria ela: numa bebedeira. Toda embrulhada no desejo. Um desejo desmesurado, intenso. Um desejo de sexo. Simplesmente. Assim. Sem mais nem menos. Colocou o saco com o peixe no interior da pasta. Os papéis daquele processo ficariam a feder a chaputa fresca. Sorriu. Olhou o relógio. Sete e quarenta. Podia ir andando. Parara a fazer tempo na periferia. Em dez minutos estaria no seu bairro. Por baixo do casaco de fazenda castanha, a camisola branca impecável. Apesar da noite: ela nuazinha numa cama de um hotel de terceira. Uma noite inteira até ser madrugada.

- Às sete? Foi o que ele perguntou, meio deitado sob o lençol de flanela com flores: azul desbotado. A tatuagem, mil novecentos e setenta e dois, sobrando do lençol . E ela rememorando o que tinha lido: Amor de mãe. Escrito por baixo. Não respondeu. Pegou na carteira e saiu do quarto. Nem sequer até mais ou tem um bom dia. Percebeu isso, quando descia a escada forrada com um linóleo às flores. E sorriu-se. - Bom dia, Maria do Carmo. Ficaste por lá? O marido saía de casa atrasado para uma reunião. Acenou-lhe a sair da garagem. Cruzaram-se os dois carros, lado a lado. O duche limpa-lhe restos de saliva e cordões de esperma. Maria do Carmo sabe-os onde. Cobre com as mãos os locais da noite. Deixa escorrer a água e lava-os com sabonete de algas. Sob o duche morno permanece, amaciado mas desperto, o desejo. O duche não lhe limpa tudo. Maria do Carmo grita por cima do soar da água. - Às sete. E ri-se alto enrolando o cabelo molhado na toalha a fazer um turbante.

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Contos

Chave de ouro
Volmar Camargo Junior
v.camargo.junior@gmail.com

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Alessandra foi a última a subir no ônibus aquela quinta-feira. Eram onze da noite, e do campus até sua casa, mais uma hora e meia de estrada. Tudo o que queria era poder sentarse na poltrona do fundo e esperar o veículo entrar em movimento. De segunda a sexta, durante esses cinco mil e quatrocentos segundos entre a faculdade e sua casa, Alessandra da Silva era Pilar Ortega. *** Pilar acordou-se. A escuridão do quarto era a mesma, o ar pastoso do verão e o mosquiteiro, imóveis como à hora em que se deitara. Buscando outra vez relaxar, virou-se de lado. Juan estava dormindo de olhos abertos. Sabendo que o sono não regressaria de pronto, levantou-se e foi escrever. Pilar escrevia poemas. A hora feliz de seu dia era quando Juan estava apagado e satisfeito, o cão dormia e a rua mergulhava no silêncio saboroso que só as ruas provincianas possuem na madrugada. Era como se o mundo caísse num precipício e apenas a mesa, o abajur, a xícara de leite, as folhas de papel, a caneta de tinta preta, a cadeira e ela, Pilar, permanecessem, suspensos no espaço como uma constelação desconhecida, jamais vista por ninguém na face da Terra. E todas as noites, os treze versos de um soneto incompleto vinham-lhe à mente.

Aquele poema falava disso de ser uma constelação, e havia anos que tentava a poetisa para ser concluído. Faltava-lhe uma Chave de Ouro – pois é assim que devem terminar os sonetos. Pilar habituou-se a desistir dele. Outros sonetos, menores, aglomeravam-se como pequenos sistemas solares, todos nascidos de um poema perfeito e inacabado. O sono veio. Pilar acomodouse ao corpo de Juan. Não queria acordá-lo. Exausta, dormiu. *** O ônibus dos estudantes aproximava-se do final da linha. Alessandra despertou, desceu despedindo-se do motorista e foi para casa, imaginar, sozinha, coisas da intimidade de Juan e Pilar. A noite seguinte era sexta-feira. Alessandra as detestava, porque os colegas vinham mais falantes que o habitual. Era-lhe mais penoso para, no fundo do ônibus, relaxar e ser a outra. Mesmo assim, depois de alguns minutos, adormeceu. Abriu os olhos como Pilar. *** Nas noites de sexta, Juan jogava futebol society no clube com os colegas da empresa – e com esse acordo conseguiram manterse felizes. Pilar cochilou até a meia-noite. Sem que pudesse recordar depois como aconteceu, sentiu o sopro divino que poria em movimento novamente a constelação de sua poesia.

E, quando lhe perguntaram depois na primeira entrevista, disse que foi assim: foi como uma milagrosa força da natureza, dançando com a música que move o Cosmos. Repleta dessa melodia, toda a sua existência então, resumiu-se às dez sílabas poéticas que a levaram ao êxtase, e enfim, a completude do soneto surgiu a partir do nada. No furor de alegria da criação, Juan chegou do futebol. Pilar jogou-se nos braços de seu homem como fazia ainda no tempo de seus primeiros momentos de intimidade. Já era sábado, e aos criadores é reservado o sétimo dia para o merecido descanso. *** A estudante acordou num sobressalto. O veículo pareceu-lhe estar rápido demais, e os gritos vindos das poltronas da frente foram suficientes para alarmá-la. Tudo foi muito rápido: a derrapagem, o guard rail, o barranco, os trezentos metros capotando ribanceira abaixo. *** Alessandra da Silva, vinte e dois anos, estudante de letras e escritora amadora, faleceu sem ter concluído a faculdade, e sem escrever uma única linha do romance que planejou por anos. Pilar Ortega, trinta anos, poetisa, jamais existiu porque o romance em que era a protagonista nunca foi escrito.

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o atraso da

Contos

Primavera

Joaquim Bispo

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Há muito, muito tempo, quando o Homem vivia ao ritmo das estações, houve um ano em que a Primavera se atrasou para além do habitual. Passou Março, Abril ia adiantado e nem sinais dela. O Verão, lá dos pomares que habitava, olhava, olhava e os campos que vislumbrava mantinhamse desolados, gelados, batidos pelo vento. Temendo pela eclosão das sementes e preocupado com o que pudesse ter acontecido à Primavera, resolveu procurar o Outono para lhe comunicar o que estava a acontecer e decidirem o que fazer. Muniu-se duma coroa de raios solares e pôs-se a caminho. Em breve atingiu as florestas onde o Outono vivia. Este, ficou muito preocupado com o que o Verão lhe contou e sugeriu que fossem falar com o Inverno, que vivia numa gruta rochosa numa montanha a norte. Talvez ele soubesse alguma coisa ou pudesse ajudá-los a procurar a desaparecida. Pôs pelos ombros uma ampla capa de folhagem castanha, vermelha e amarela e puseram-se a caminho.

Andaram, andaram por campos vazios e silenciosos e prados de plantas cinzentas e murchas. O vento assobiava gélido e selvagem. A progressão ia-se tornando mais penosa, por serras escalvadas e desfiladeiros atulhados de neve. Ao fim de uns dias, chegaram finalmente à caverna do Inverno. Entraram. O frio parecia mais intenso, o escuro era medonho. Ao fundo de uma galeria, encontraram o Inverno agitando as suas asas de morcego sobre o seu manto de nuvens negras, atarefado com o funcionamento do enorme fole que soprava os ventos agrestes por sobre os montes e os vales. – Inverno! – bradou o Outono, que era quem tinha mais contactos com ele. – Já viste a Primavera este ano? O visado virou-se lentamente e, de cabeça baixa, mirou os visitantes por baixo das sobrancelhas nevadas. – Ó entes tresloucados, o que fazeis por estas paragens? Abrigai-vos aí nessa côncava, que não

estais habituados a estes frios. – Não te preocupes connosco, que estamos protegidos – a voz possante e clara do Verão encheu a caverna. – O que nos preocupa é que já estamos a chegar a Maio e ainda não vimos a Primavera. O Inverno imobilizou o fole e aproximou-se dos visitantes. – Não te abespinhes, Verão! Sei que és jovem e sanguíneo mas a hospitalidade é um dos meus princípios. Sim, já a vi. A pobrezinha está lá dentro, deitada. Mas, descansai um pouco. Sentai-vos. – Que lhe fizeste, velho perverso? Abusaste dela? – a coroa do Verão faiscava. O Inverno olhou-o com indulgência. Juntou uns cavacos e acendeu uma fogueira. – Esqueces-te que é minha filha? – murmurou. – Está um pouco atrasada, só isso. A juventude não tem o sentido das responsabilidades! – a sua voz parecia denotar algum desapontamento,

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enquanto lhes servia um ponche quente. O Outono, mais cordato, sorveu um trago e indagou: – Mas diz-nos, Inverno, que se passa com ela para deixar assim as plantas e os animais em completa desorientação? – Ela esteve no outro hemisfério, como faz todos os anos, mas desta vez parece que conheceu lá alguém interessante – um tal a quem chamam El Niño – e só voltou há meia dúzia de dias. Vinha exausta e toda alvoroçada, de modo que eu achei melhor ela descansar uns dias antes de reiniciar as suas tarefas. Esperai que eu vou chamá-la! Enquanto se afastava para a zona mais escura da caverna, o Verão mostrava-se inquieto: – Acreditas nele? – Não sei. Vamos esperar. Mas, se for verdade, acho incrível que a menina tenha ficado no bembom, para lá da licença, e que, chegada aqui, o papá ainda ache que a filhinha precisa de descansar. Não

é espantoso? – Claro! Eu acho que isto não pode continuar! Ou bem que se assumem compromissos ou não! Pouco depois, entrava a jovem, deslumbrante num vestido de pétalas de amendoeira e uma tiara de flores amarelas de giesta que acentuavam o azul celeste dos olhos. – Oh, que queridos! Preocupados por minha causa! – beijou ambos, ao mesmo tempo que lhes fazia uma festinha no rosto. – Estava cansadíssima. Foram umas férias e tanto! Fiz falta?

elas tocavam começaram a lançar rebentos que se abriam em folhas e flores. Cheiros adocicados flutuavam ao sabor da brisa suave. Nuvens de abelhas, besouros e gafanhotos cruzavam os ares em azáfamas surpreendentes. Passarada de todos os tamanhos e cores revoluteava a alimentarse, a acasalar, a construir ninhos. Os seus inúmeros chilreios misturavam-se com as cegarregas de grilos e cigarras e o coaxar das rãs. A temperatura era agora fresca mas amena, os campos fervilhavam de cores e vida e os homens estavam felizes. Atrasada mas fulgurante, tinha chegado a Primavera.

Posta a conversa em dia, a Primavera despediu-se. Com as suas asas brancas elevou-se nos ares, sob o olhar embevecido do trio. As nuvens negras rasgaramse e dissiparam-se, o céu azul apareceu e o Sol beijou os prados, os pomares e os bosques. Do alto, começaram a cair pétalas de todas as cores que esvoaçavam e pousavam delicadamente sobre todas as plantas. Os talos esqueléticos onde

[Conto publicado, em Maio de 2007, na revista CAIS – revista vendida na rua pelos sem-abrigo portugueses, de cuja venda guardam 70% e que constitui o seu modo de subsistência temporário]

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O lugar onde

a boa Literatura
é fabricada

ficina
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A Oficina Editora é uma utopia, um nãolugar. Apenas no século XXI uma vintena de autores, que jamais se encontraram fisicamente, poderia conceber um projeto semelhante. O livro, sempre tido em conta como uma das principais fontes de cultura, tornou-se apenas um bem de consumo, tornou-se um elemento de exclusão cultural. A proposta da Oficina Editora é resgatar o valor natural e primeiro da Literatura: de bem cultural. Disponibilizando gratuitamente e-books e com o custo mínimo para livros impressos, nossos autores apresentam a demonstração máxima de respeito à Literatura e aos leitores.

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Contos

A Busca
Henry Alfred Bugalho
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Sir Morton de Buckinghamshire não era um homem das Ciências, mas o último fascículo de Proceedings of the Royal Academy of London, deixado — acidentalmente? — em sua escrivaninha por um amigo, o havia intrigado. O artigo principal dissertava sobre o éter e suas propriedades. A questão básica, aparentemente, era entender como a luz se propagava no espaço. Segundo a compreensão de Sir Morton, o éter era uma substância, a quinta substância

conhecida, que ocuparia todos os espaços do Universo, desde a vastidão do espaço sideral até o vazio entre a matéria física. O éter era o medium por onde as ondas eletromagnéticas e luminosas se propagavam, do mesmo modo que o som se propaga no ar. Mas não eram as propriedades físicas do éter que interessavam Sir Morton, e sim este misterioso caráter de permear todas as coisas, de estar por detrás do mundo visível. Numa rápida pesquisa,

Um filósofo sarraceno obtém, pelas mãos de peregrinos do Ocidente, uma cópia da META TA FUSIKA de Aristóteles. Deslumbrado com os horizontes apresentados pelo sábio grego, este filósofo mouro inicia

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ele descobriu a origem da palavra, remontada aos gregos, filósofos naturais, que recorreram a este conceito para fundar a existência do mundo físico. Surgiu-lhe a idéia de escrever um romance:

a redação duma obra em defesa do conceito de éter (a quintessência), adequado aos valores islâmicos. Contudo, quando o califa descobre o conteúdo do trabalho do filósofo, que, em muitos aspectos, distorce a teologia do Corão, ele bane de suas terras o erudito. Condenado a vagar pelo mundo, o filósofo passa a reconhecer nas várias culturas a necessidade desta essência primeva do mundo. Torna-se alquimista e, moldando a quintessência, obtém a elevação espiritual. No entanto, logo no primeiro parágrafo, Sir Morton se deparou com severas dificuldades. Ele pouco conhecia da cultura islâmica para se arriscar a escrever uma obra longa verossímil; as críticas a seu último livro, ambientado na Turquia, haviam sido inclementes, e ele não queria repetir o mesmo erro. Por isto, ele mudou alguns elementos da trama. O filósofo sarraceno foi substituído por um monge taoísta, recolhido nas montanhas Huangshan, absorto pela missão de compreender o Tao, a relação entre os cinco elementos — metal, madeira, fogo, água e terra — e a grande dualidade do mundo, yin e yang. Por algum grande acaso, numa das circunstâncias de descer à vila para adquirir víveres para o mosteiro, o monge conhece uma britânica, tutora do filho do governador local, e se apaixona. A eterna mutação que ele havia aprendido no I-Ching se tornava fato: dum dia para o outro, o monge era diferente, todo seu mundo havia mudado.

Eles consumam seu amor. Todas as noites, ele desce a íngreme montanha e se esgueira para dentro do palácio do governador. A ocidental e o oriental se confundem sob os lençóis, a perfeita união do yin e do yang. A tutora ensina inglês e latim ao monge. Supre-o com livros, para que ele possa praticar os novos idiomas enquanto estiverem distantes, ela na vila, ele no mosteiro. Um destes livros, que a tutora nem sabia que estava entre suas coisas, é a história dum filósofo sarraceno obcecado pela obra de Aristóteles. O filósofo é expulso de suas terras pelo Califa e se torna alquimista. O monge se vê espelhado na história: obcecado pelo Tao, expulso de sua paz pelo amor duma mulher, encontra na comunhão espiritual e física com ela sua libertação. No entanto, este enredo parecia ser conhecido. Sir Morton não conseguia se recordar de onde havia surgido a inspiração. Vasculhou sua interminável biblioteca à procura deste único livro que lhe teria inculcado tão peculiar enredo. Abandonou a redação de seu romance, obcecado pela busca desta obra singular. Meses se passaram, seu editor pressionando-o para que ele lhe entregasse um manuscrito, senão o contrato seria revogado. Mas nada mais importava a Sir Morton, nada o acalmaria a não ser achar sua fonte de inspiração. Dias, semanas, meses, perdido entre montanhas de livros, tirou das estantes todas as obras e folheou-as uma a uma.

Atolado em dívidas, ele dilapidou seu patrimônio; desfez-se de suas terras, de seus imóveis, dispensou a criadagem, vendeu o coche, penhorou as jóias da família. Por fim, até dos livros teve de se desfazer. Com seus últimos tostões no bolso, Sir Morton embarcou num navio e viajou até Cingapura. Haviam cruzado a costa do Sri Lanka quando uma devastadora tormenta os apanhou em alto-mar e o navio naufragou. Sir Morton se agarrou aos destroços e, após boiar por dois dias, acabou despertando numa praia deserta. Primeiro, desesperou-se. Sozinho num mundo desconhecido e virgem, tal qual Robinson Crusoé, que havia lido na infância. Aos poucos, foi encontrando nas margens desta ilha — ou continente, não o sabia — despojos do naufrágio. Entre eles, uma caixa de livros. Sua única distração num mundo sem cultura. E qual não foi sua surpresa ao descobrir, entre os livros umedecidos, aquele que o havia inspirado na redação de sua última obra. Era a história dum romancista inglês que encontra sobre sua escrivaninha um periódico científico abordando o conceito de éter, e que decide escrever uma obra sobre isto. Sozinho, numa ilha deserta, livro aberto nas mãos, Sir Morton gargalhou. Ele era Sir Morton, um romancista inglês, mas também um filósofo sarraceno, um monge taoísta, e Sir Morton, o náufrago que descobre a si mesmo.

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Contos

Piso 23

José Espírito Santo

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A DESCOBERTA O dia estava chuvoso quando Américo Nunes imobilizou o pequeno Prius um pouco à frente do rectângulo traçado no asfalto. Antes de sair, ligou o dispositivo móvel de forma a consultar a agenda diária e, acto involuntário, fez uma careta – para além das tarefas de rotina e do relatório do projecto, tinha uma daquelas reuniões difíceis com o Silva. “Bem, não serve de muito ficar a matutar nisso. Depois logo se vê o que é que ele quer desta vez” pensou, ao sair porta fora para a rua fria. Do outro lado, esperava-o um edifício “Foz” imponente nos seus oitenta metros de altura, os vários pisos apoiando-se como pilha de paralelipípedos rodando ao longo de estrutura helicoidal invisível. De mala na mão esquerda, segurou o guarda-chuva e percorreu rapidamente os metros que o separavam da passadeira. Esperou pelo verde e atravessou. “Bom dia António” disse quase sem olhar, enquanto cruzava o espaço que o separava do “hall”.

nova, uns abotoadinhos emproados que entram com pressa, sempre a olhar a direito não se dignando a dar um cumprimento”. Após subir os vinte e dois pisos, chegou finalmente ao escritório e abriu a porta. O seu espaço de quinze metros quadrados tinha uma decoração moderna, a secretária vazia e impecavelmente arrumada, o ecrã de LCD apagado, o “laptop” morto a um canto, por debaixo. Sentou-se e correu as cortinas; parou um pouco, observando a paisagem. Podia ver o manto azul do enorme estuário, os bandos de gaivotas em voo rasante, a superfície sendo sulcada por cacilheiros e pelos “hovercrafts” que fazem ligação com o Barreiro. Á direita, filas de automóveis preenchiam o tabuleiro da ponte outrora chamada de “Salazar” e que o pósrevolução renomeou para “25 de Abril”. A mesma ponte que o povo sempre conheceu simplesmente como a “Ponte sobre o Tejo”.

nocturno de Chopin irrompeu do Nokia, interrompendo repentinamente o silêncio. Atendeu. “Sim? Ah, és tu, Rodrigues. Então já vão a descer? Bem, hoje não vos faço companhia. É o meu dia de vegetariano, desintoxicação…” Após mais uns minutos, olhou para o relógio digital que marcava “quarto para a uma”, vestiu de novo a gabardine, armou-se do guardachuva e saiu. Chegado ao hall, chamou o elevador para levá-lo até ao piso térreo. Após uns segundos, a luz acendeu marcando a chegada da cabine. Porta “D”. Depois de entrar, olhos postos no painel de comandos, preparava-se para carregar no zero quando o espírito analítico e “olho clínico” se aperceberam que algo estava errado. “Hei... isto não estava ali. Vinte e três? Como é possível?”A atenção fixava-se agora no círculo com os algarismos embutidos. “Como vinte e três se o prédio só tem vinte e dois andares?” Ele sabia. Após cinco anos de trabalho diário naquele local, conhecia o edifício razoavelmente bem. Chegou ao átrio ainda intrigado, murmurando

Ligou o computador e ficou por ali mergulhado em trabalho a manhã O porteiro sorriu e es- toda. Tão absorto que boçou um aceno. “Sempre nem deu pelo passar do gentil, o engenheiro. Não tempo e só desviou os é como essa geração mais olhos da tela quando um

Foto: Henry Alfred Bugalho

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para si mesmo: “ Vinte e três? Piso vinte e três?” O “Ponto V” era um espaço acolhedor com uma estátua gorda de Buda à entrada e as quatro paredes decoradas de cores vivas. Sempre vestido de grupos de pessoas jovens e bonitas a misturar conversas em voz baixa, educada, partilhando o espaço sonoro com a música de fundo instrumental, raramente asiática e quase sempre Jazz. Desfrutou o sabor do bife de seitan chamando mentalmente parvos a todos aqueles que confundem vegetariano com coisa descolorida e fraco sabor. Depois, terminou a refeição com a sobremesa deliciosa: uma bavaroise de amoras recheada com molho de iogurte. De volta à cabine do elevador, estava já para sair e retornar ao escritório quando decidiu - ia esclarecer a coisa de uma vez por todas. Premiu o botão sentindo imediatamente um leve trepidar, sinal de que o dispositivo se tinha colocado em movimento. Após uns breves segundos, o transporte imobilizou-se e as portas abriram. Em frente, o “hall”. Similar, demasiado igual ao que tinha no seu piso. O mesmo candeeiro, os

mesmos quadros com “marketing” de empresa, o mesmo tapete turco e, ao balcão, uma alma gémea de Sara, a secretária de cabelo loiro curto, cortado “à escovinha”, a teclar rapidamente. Consultava algo e o telefone fora do bocal era indício de que, algures, um cliente esperava por resposta. Estranho. Como podia estar ela ali se a tinha acabado de avistar no piso de baixo? Sem saber bem o que fazer, atirou um “Olá Sara.” que ela não ouviu. Indiferente à sua presença, desviou os olhos da tela e a mão direita voltou a pegar no bocal. Aproximou-se mais e foi então que reparou na data: Quinze de Janeiro de 2009. Amanhã. O PLANO É ELABORADO O insólito só o é quando ainda não totalmente absorvido pelas malhas da rotina. Embora não obtivesse qualquer explicação racional, habituouse a ter por certa aquela viagem ao futuro. As possibilidades eram limitadas – não era visto nem podia interagir, era mero espectador. Além disso, o tempo de que dispunha em cada visita era igualmente escasso. Após

cerca de trinta minutos, desvaneciam-se os detalhes, todas as imagens. Ficava a sós com as várias divisões de paredes brancas e nuas e a porta do elevador que haveria de o trazer de volta. Mas nada disso o impediu de passar a fazer as visitas rotineiramente. Tornarase um vício. As coisas na empresa pioraram. Primeiro foi o relatório de projecto que o Silva “chumbou” e que o mesmo “Silva” mandou que fosse alterado. Que enviaram então ao cliente e que o cliente não aceitou. Seguiram-se outros desastres. Sempre que o chefe metia a colher, a coisa descambava. As reuniões tornaram-se insuportáveis. Estava já para enviar o currículo para outras empresas quando lhe surgiu a ideia. Porque não tinha pensado nisso antes? Se tinha aquela viagem para o “amanhã”, apesar de ser um mero observador, poderia fazer hoje que o amanhã incluísse algo digno de ser visto. O plano que nasceu nesse preciso momento era muito simples: Sabendo que o sorteio do Euromilhões é efectuado ao fim da tarde de sextafeira, Sábado bem cedo voltaria ao escritório e obteria os números certos. Depois, bastava dei-

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xar sobre a secretária o pequeno “Post It” com a chave mágica. Se fizesse isso, sabia que teria então o tempo necessário para fazer a viagem na sexta e descobrir os números certos antes de jogar. O PLANO É COLOCADO EM PRÁTICA No dia do sorteio, efectuou alguns preparativos, o mais ousado dos quais foi materializado pela apresentação de “Powerpoint” com montagens do Silva actuando com outros espécimes do mesmo sexo e experimentando as posições menos decorosas. Alojou-a no servidor e providenciou para que fosse enviada para os postos de trabalho da empresa no fim do processamento “batch” de Domingo. Passou o resto da manhã a fingir que estava trabalhando. Um pouco antes da hora de almoço, sentiu que estava chegado o momento e dirigiu-se então para o elevador. Tudo estava certo, o botão vinte e três, aquele que apenas ele via, esperava-o e, mal tocado, fez o mecanismo obedecer às suas ordens. No entanto, ao chegar ao seu escritório, esperava-o uma secretária vazia – nem sinal de “Post It”. Desanimado e sem entender o que se tinha passado, decidiu-se pelo almoço. Atravessou a estrada ainda intrigado “Que raio, o que se terá passado? Bem, mas ainda estou a tempo, ainda há tempo. É só entrar de novo no servidor para retirar a coisa. Ninguém descobrirá e para a semana volto a tentar…” Mais intrigado ficou o condutor de TÁXI com a visão: o maluco atravessava no vermelho, alheio a tudo, mesmo em frente à grelha do seu automóvel. A colisão foi inevitável. Três horas e quatro costelas partidas depois, ei-lo que acorda e pergunta aos seres de bata branca e máscara: “Onde estou? Que me aconteceu? Que dia é hoje?” A resposta veio, calma e segura. “Sabe… Teve muita sorte. Muitos foram desta para melhor por muito menos. Que raio lhe deu para atravessar no vermelho e nem reparar no trânsito? Teve realmente muita sorte. Se tudo correr bem, terá alta já na terça-feira. Da parte da tarde.”

a boa Literatura
é fabricada

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ficina
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Contos

o anômalo
Uma aula de antropologia nunca me saiu da cabeça. Foi quando a professora comentou sobre como o preconceito procura brechas no famigerado “politicamente correto” para se perpetuar. Ela citara o exemplo de jovens alemães que espancavam tunisianos, turcos e marroquinos com a ideologia de que estavam sendo cívicos, isto é, inibindo a presença de estrangeiros que queriam tomar seus empregos. Preconceito? Que nada. Estavam apenas exercendo um ato soberano, digno de defesa da pátria. O respaldo em questão é necessário para que não haja uma conduta violenta sem fundamento. Assim, tudo é justificado convenientemente e as raízes do preconceito não são abordadas e muito menos discutidas, mas

Léo Borges

Nessa mesma aula a professora ainda comentou sobre um suposto

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ao contrário, mantidas e propagadas. As conseqüências dos atos advindos de uma cultura preconceituosa são normalmente discriminatórias e violentas, mas tanto o preconceito quanto a influência retórica que o suporta são amplos e sutis, delicados como a própria hipocrisia humana.

episódio ocorrido entre neonazistas tupiniquins e europeus. A polícia havia descoberto uma conexão entre eles em que os tais novos nazistas brasileiros solicitavam aos congêneres da Europa verbas para que pudessem dar continuidade ao combate contra os negros, índios e homossexuais no Brasil. O bando europeu achou a idéia bastante interessante e apoiou o trabalho. Entretanto, não liberou o dinheiro por um entrave burocrático sinistro: na lista de execrados dos nazis do Velho Continente apareciam também os latino-americanos. A biologia evolutiva especula que o ser humano é um animal naturalmente preconceituoso. Nesse sentido, a experiência cultural apenas encobre tal característica que, de acordo com essa tese, foi essencial para a nossa sobrevivência e evolução. O ranço discriminatório é impossível de ser extirpado, mas a maneira como lidamos com ele poderia ser abordada de outra forma, já que o modo superficial com que é tratado – principalmente em campanhas e projetos governamentais –, além de não eliminar o problema, o deixa latente, acuado em algum ponto da subconsciência esperando uma chance para emergir.

De acordo com a Anti-Defamation League (organização americana que combate ações preconceituosas) até os seis anos de idade praticamente metade das crianças já proferiu algum termo pejorativo em detrimento de alguém que não possuísse traços semelhantes aos seus. Sem cerimônia, algumas delas apontam diferenças e, não raro, achincalham parentes obesos ou pessoas que tenham algum detalhe que não lhes pareça comum. Diante disso, são admoestadas por seus pais, que, por sua vez, na luta para melhor se ajustarem a uma digna conduta social, compartilham um sentimento que forja uma noção de justiça – frágil ante sua essência –, que visa, com alguma nobreza, conter a sanha racista da qual somos portadores. Mas foi conversando com conhecidos num bar que tirei algumas conclusões sobre a profundidade da coisa. Começou quando alguém comentou sobre o capítulo de uma novela. Um dos presentes, ao ser inquirido, simplesmente disse que não assistira porque não possuía televisão em casa. Bom, o espanto (meu inclusive) foi geral, pois em princípio pensamos que ele não tinha recursos para isso e houve um efême-

ro sentimento de dó em relação ao cara (primeiro conceito concebido sem esclarecimento). Mas logo se viu que ele não tinha TV porque não queria ter TV e não por não ter di, nheiro para comprar. De pena, o sentimento passou a ser de perplexidade em rota migratória para o inconformismo (segundo conceito concebido sem base fática). Como alguém poderia não querer ter um aparelho de TV hoje em dia? Segundo uma sentença proferida recentemente pelo 2º Juizado Especial Cível de Campos, no Norte do Estado do Rio de Janeiro, é, realmente, impensável alguém ficar sem este tipo de aparelho em casa. Não é um eletrodoméstico supérfluo, como bem deixou claro o juiz na sentença do caso de um homem que reclamou da longa espera pelo conserto de sua TV . O magistrado disse que “o aparelho é considerado essencial aos lares brasileiros”, e citou ainda, como referência, o fato de o pobre indivíduo ficar sem poder assistir “jogos do Flamengo e o ’Big Brother Brasil’” (Processo nº: 2008.014.010008-2). Ou seja, o nosso camarada que desprezava o singelo eletrodoméstico contrariou, ainda por cima, uma decisão jurídica.

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Ele argumentava que não tinha o aparelho por não gostar de ver televisão, de não gostar do que a TV exibe. E não queria gastar dinheiro para ver a barbárie nos telejornais ou as assépticas tramas novelísticas. Não queria ver seriados, programas de auditório e talk shows. Sua alegação era a de que filmes ele via no cinema; esportes ele ia ao estádio. Notícias? Lia jornal ou acessava a internet (cujo computador ficava em outro cômodo que não o seu quarto, conforme frisava). O sujeito começou, então, a ser visto como um eremita e muitos passaram, a partir daí, a boicotá-lo nas conversas, mesmo com provas irrefutáveis de que ele possuía plena condição de debater qualquer assunto. E esse era o seu diferencial: gostava de viajar, de ler, de interagir, se recusando a participar como pólo passivo - sentado, mudo e sonolento – diante de um ruidoso aparelho de TV . Uma senhora comentou entusiasmada que achava “muito bacana” a atitude dele, mas que não tinha “coragem de fazer o mesmo”. Aqui podemos observar como é interessante o termo “coragem” empregado por ela. É como se ficar sem TV fosse um vertiginoso salto em queda-livre sem a prote-

ção de uma grade televisiva. Um outro freqüentador da roda comentou, posteriormente, que acreditava que esse “Sem-TV” era algum tipo de “metido a intelectual”, que queria passar a imagem de “alternativo”, mas que no fundo era, sim, “um anômalo”. Ele usou essa palavra com uma sinceridade aterradora. Seria anomalia uma pessoa não querer gastar uma grana num aparelho de TV? A máquina de consumo não iria gostar se muitas pessoas agissem como ele, pois algumas lojas e indústrias teriam de enxugar seus quadros e demitir. O Poder Judiciário também iria ter de rever suas decisões. Tudo por causa de um anômalo irresponsável que não quis comprar um televisor, aparelho este que já existe, inclusive, em modelos ultrafinos, de plasma ou LCD, podendo ser adquiridos em módicas prestações. É. O tal sujeito que relutava em ter um aparelho de TV talvez fosse mesmo um anômalo, pedante, subversivo, indolente, desrespeitador, um elemento altamente nocivo à engrenagem capitalista, essa mesma que seduz as crianças com o Papai Noel de gorro vermelho, todo encasacado no verão de 42 graus brasileiro, exibindo os “pleistei-

chons” a preço de banana no canal de compras da TV por assinatura. Mas, o que mais me intrigou nisso tudo não foi o fato de termos entre nós um indivíduo que resistia em comprar um aparelho de televisão, mas como aquilo, discretamente, transtornou o comportamento dos demais. As pessoas nitidamente, nos encontros em que ele estava presente, não abordavam mais assuntos que pudessem criar algum possível embaraço (terceiro preconceito enraizado). Outros, que faziam a vez de defensores do Homem Sem-TV (como se ele precisasse de advogados), diziam que ele estava certo mesmo, que a programação da TV apenas cria na cabeça do espectador necessidades supérfluas, que proliferam injustiças e “idiotizam a massa”. O cidadão em questão não desenvolvia o assunto quando estava no centro do debate. Ficava sem jeito, pois não queria ser um “anômalo”, um bicho de circo dos horrores por não ter uma simples televisão. Queria apenas conversar. Desde que não fosse sobre o último capítulo de alguma novela, pois sobre isso ele não teria a mais vaga idéia.

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Contos

o amor segundo o Ódio
Léo Borges
Acima de tudo, falso. Utiliza-se de ardil para a conquista; sob outro meandro, para o sexo. Não existe em forma pura, sendo que, mesmo o de mãe, dito incondicional, subordinase ao fator sanguíneo. Conheço sua postura mesquinha, mas o tolero por vivermos em interseção. Quem acredita que o sente, carrega-me na alma. Quem promove a guerra, ama. Esta, sim, a verdadeira demonstração de afeto, de importância ao outro, onde se corrige o diferente, mostrando seu erro e servindo-lhe com a verdade. Certo está que seu antônimo não sou eu; somos da mesma fonte. O contrário do Amor, como ele se recusa a admitir, é a Indiferença.

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tentativas de existência
Léo Borges
Maria das Dores relutava em viver tantos anos com o mesmo nome. Cada revés na vida era merecedor de uma nova graça para apagar as cicatrizes. Quando terminasse de receber os castigos de seus pais, seria Cândida; após descobrir que fora traída pelo amor de sua vida, seria Ângela; depois de ser demitida do emprego de secretária, seria Virgínia. E já programara que seu último nome refletiria a cor clara das águas, o azul de um céu límpido e pacífico, redenção aos 80 anos de uma mulher sofrida. Mas seu filho Antenor, que prometera que quando virasse José a ajudaria, voltou atrás ainda Jônatas. Tampouco a auxiliou o neto, Luiz, outrora Caio. O ocaso chegou sem maiores alardes e, então, a solidão companheira deixou que a anciã pulasse do oitavo andar, impedindo, assim, o nascimento de Celeste.

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Contos

Marcia Szajnbok

Jogo da memória
Ela: Por aí... (Meu deus! Quem é?). Ele: Me conta, você faz o quê da vida? (Me diga que está solteira... ou separada...). Ela: Fiz jornalismo, mas não trabalho com isso... Ele: Pois é... Coisas do nosso país... Veja você, eu sou engenheiro... blá-bláblá... (Não tem aliança no dedo, mas esse pessoal das humanas é meio diferente...). Ela: blá-blá-blá... (Essa cara não é estranha… da escola… raio de memória que me deixa
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Como dois vetores que se anulam, iam pela rua, mesma direção, sentido contrário. O encontro dos olhares não durou mais que a metade de um instante. Ele: Puxa, há quanto tempo! (Nossa! Ela continua linda...). Ela, sorrindo um pouco sem graça: É mesmo... (Meu deus! Quem é?).

Ele: Quantos anos faz que terminamos a escola? Uns vinte? (Não acredito... Ela não se lembra de mim?!).

É uma área difícil, sabe? O mercado... blá-blá-blá... (Meu deus! Quem é?).

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sempre de saia justa!). Ele: blá-blá-blá... (Ela me dizia tanta coisa… Como pode ter esquecido?). ... Ele, depois de um breve silêncio: E... você se casou? (Diga que não...). Ela: Não… (Melhor omitir os detalhes…) E você? Ele: Casei, descasei, no momento estou de volta ao mundo dos solteiros... Ela sorri. Ele continua: (A-ha... got you, baby!) Você ainda tem contato com alguém daquela época? Ela: Não... mudei tanto de casa que ninguém mais deve ter me achado... Ele: (Eu percebi...) Outro dia encontrei o Edu, lembra dele? Aqueles bailinhos de garagem, com luz negra e som de vitrola... A mãe dele sempre punha um monte de gelo na cuba-libre, assim ninguém ficava bêbado! (Não é possível que ela tenha esquecido aquele bailinho...). Ela, rindo: Era mesmo uma delícia... (Edu, Edu... acho que tinha mesmo um Edu na minha classe...) . Ele: Nossa! Todo mundo queria dançar igual ao

Travolta! Ela: Nos Embalos de Sábado à Noite... (Há quanto tempo não me lembrava disso? Eram bons mesmo aqueles bailes...). Ele: Muito namoro começou naquela garagem, ao som dos Bee Gees... (Xeque mate!). Ela, sem ter tempo de pensar, cantarolou: “Nobody gets too much heaven no more...” Ele pôs as mãos nos ombros dela, puxou-a para perto, beijou-lhe de leve o rosto, depois os lábios. ... Ele: Olha, eu preciso mesmo te dizer uma coisa, sabe? É que quando vi você se aproximando, parece até que voltei no tempo... Tudo bem, lá se foram vinte anos, ou mais... Tudo bem, éramos quase crianças, mas nunca esqueci daquele beijo que você me deu, naquele bailinho na casa do Edu... Nossa! E pensar que você ainda se lembra da música... “Too Much Heaven”, era isso mesmo.... Nesse tempo todo, tanta gente passou pela minha vida, mas você sempre esteve na minha cabeça... Te procurei muito, sabe? Mas ninguém tinha sua pista, parecia até que tinha evaporado... Eu não era santo,

pisei mesmo na bola, eu sei... Mas, olha... A gente tinha o quê? Dezesseis, dezessete anos? Cabeça de vento, quanta bobagem se faz quando se pensa que é gente grande e não se passa de um menino metido a besta... Deve ter sido algum anjo que pôs você bem aqui no meu caminho hoje... Porque acordei pensando que não vou viver muito, sabe? Mas não queria morrer sem te dizer isso: aquele namoro não passou de umas semanas, mas... falando sério... nunca amei ninguém do jeito que amei você, Silvia. Ela arqueou as sobrancelhas de modo que seu rosto ganhou um ar de interrogação: Silvia??? ... Do rubor à palidez foram segundos. Muito constrangido, ele encolheu os ombros, baixou os olhos e foi-se embora, tão rápido que ela nem pode ouvir seu pedido de desculpas pelo equívoco. Ela ficou acompanhando com o olhar o vulto masculino que se afastava. (Que pena... Um moço tão bonito... Que grande imbecil deve ser essa Silvia!). Segundos depois, estavam ambos diluídos na multidão que caminhava desordenada.

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Contos

o admirador

Parte 1: as coroas
Maristela Scheuer Deves

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Os relâmpagos rasgavam o céu e iluminavam o quarto, apesar das janelas e dos olhos fechados. Os trovões, ecoando ao longe, pareciam chegar cada vez mais perto, enquanto a chuva desabava com força sobre o telhado. Encolhida sob as cobertas, pensou em quando costumava, em noites assim, arrastar o colchão para o quarto dos pais. O pai fazia troça, mas ela se sentia protegida. Agora os pais estavam a centenas de quilômetros de distância, e ela, sozinha no apartamento enorme. E com medo, mais uma vez. O estrondo de um novo trovão sobressaltou-a e a fez pensar nos ramos bentos que a mãe queimava para acalmar tempestades. Chegou a afastar as cobertas para o lado na intenção de procurar aquele maço de galhos de oliveira, mas, suspirando, abandonou a idéia. Seu medo atual, ela se forçou a admitir, não era causado pelas forças da natureza. Na

semi-obscuridade do quarto, lançou um olhar para o fone fora do gancho. O celular, ao lado, também estava desligado havia dias.Se a mãe tentara contatá-la, devia estar preocupada, pensou, fazendo uma anotação mental para ligar-lhe no dia seguinte. Diria que os telefones estavam com defeito, mas era mentira. A verdade, nua e crua, é que seus nervos não agüentavam mais.Três meses! Ou seriam quatro, já? Não podia entender, agora, como de início achara graça naquilo. Repassou em pensamento a primeira vez que a campainha tocara, o entregador com uma braçada de rosas vermelhas. No cartão, no lugar da esperada assinatura do namorado, apenas um “você ainda vai ser minha” rabiscado em letras maiúsculas. Divertida com a idéia de um admirador secreto, colocara as flores em um vaso, na sala. Ainda podia sentir o

cheiro delas. Não apenas daquelas rosas, mas de todas as outras que vieram depois. E, também, das coroas – as coroas fúnebres que passaram a chegar ao mesmo tempo que as ligações em que ninguém dizia nada. Arrepiou-se só de lembrar o telefone tocando de madrugada, e ficando mudo quando atendia. Quando aquelas macabras coroas começaram a ser entregues, uma após a outra, dia após dia, com o seu nome gravado, achou que iria enlouquecer. Quem, em nome de Deus, estaria fazendo aquilo? E por quê? A princípio, tentara considerar tudo como uma brincadeira de mau gosto, mas não dava mais. Contara 47 coroas entregues em seu apartamento nos últimos meses. E, fazia duas semanas, elas passaram a ser entregues também no seu local de trabalho.

(continua no mês que vem...)

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autor Convidado

Sonetos
Tulio Rodrigues

O amigo e o poeta
Ao meu querido amigo Adriano Andrade!!!!

Olhe o céu não derrama mais amor quanto nossas palavras e sorrisos! Pela poesia nós dois fomos ungidos e abençoados por Deus Nosso Senhor! Amigo, fomos feitos paraísos; distante e semelhante à rara flor de um mundo mais bonito e multicor como o sonho de todos os meninos. Pra nós, poesia é muito mais que abrigo; ela é a prisão em liberdade! E sempre que tenhamos mais vontade de versar novamente um verso antigo seremos para sempre com saudade: Eu o Poeta e Você o meu Amigo!!!!! Oh, musa de meu verso, encanto mais bonito, Trazes no teu olhar o mais puro desejo! Quantas saudades tenho amor, deste teu beijo! Nestes versos que faço, eu prontamente dito Tudo que há de raro e que em meus olhos vejo! Não sei o que acontece amor quando te fito Que enlouqueço, me perco e tudo o mais redito Pois quem sabe assim, mostro o quanto a quero, almejo!... Oh, musa de meu verso, enlevo de meu canto, Trazes contigo o gosto amargo do pecado, Trazes contigo alívio, a cura pro meu pranto! Agora só me importa as coisas que tu dizes, Pois te olhando me sinto um homem mais amado E nos amando amor, seremos mais felizes!

Mais felizes
A Adriana Gonçalves, Musa inspiradora destes versos.

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Antigo Adeus
Relembro sentimentos mais antigos Dos tempos de menino..., nós crianças... Tempos bonitos..., vidas em mudanças... Brigados... Não fomos nem mais amigos!... Crescemos..., nada temos..., só lembranças Dos momentos que fomos mais que abrigos!... E assim..., vazios..., sentimo-nos mendigos Perdidos nessa vida e nas andanças... Lânguidos, temos várias cicatrizes, Pois os seus lindos filhos não são meus! Juntos, além do amor, não temos raízes Que faça de meus sonhos também teus! - E no baú que fomos tão felizes Eu encontrei o teu antigo adeus! Tulio Rodrigues da Costa – ou simplesmente Tulio Rodrigues, como prefere assinar seus trabalhos literários, tem 24 anos, mora em São Gonçalo, município do Rio de Janeiro. Filho de José Henrique Souza da Costa e Natalina Rodrigues da Costa. Tem na poesia a sua grande paixão. Uma paixão que começou cedo, mas só aos dezoitos anos começou a ser levada a sério. Tem hoje preferência pela poesia clássica, principalmente os sonetos. Tem participado de diversas coletâneas e antologias, entre elas estão: Razão Para Bem Viver, Coletânea Eldorado – Volume XI e XII, Antologia Amor e Paixão IV, Iambus e etc... A sua poesia é rica de grande lirismo e sensualidade. Entre seus temas, o preferido é o amor.

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a boa Literatura
é fabricada

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tradução

Henry Alfred Bugalho

Hesíodo e a vida do homem comum
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O poeta grego Homero dispensa apresentações — autor de obras clássicas como “Ilíada” e “Odisséia” —, é considerado um dos pais da poesia épica e deu a forma definitiva de histórias mitológicas como a da Guerra de Tróia, da rivalidade entre o rei Agamênon e Aquiles, ou da viagem cheia de peripécias do herói Odisseu. Teóricos debatem a existência de tal personagem, defendendo que, na verdade, os poemas atribuídos a Homero nada mais passam do que uma compilação de tradições orais do povo grego primitivo, utilizadas para fins pedagógicos. Werner Jaeger, no livro “Paidéia”, apresenta esta função educacional de Homero de modo muito explícito: a nobreza (areté) dos heróis homéricos deveria servir de referencial de nobreza para a aristocracia grega. A cosmovisão de Homero representaria, portanto, a perspectiva dos altos estratos da sociedade helênica, um ideal de governo e comportamento nobres. É neste ponto que Hesíodo surge como a contraparte. Hesíodo é considerado, por muitos, como o segundo mais importante poeta da Antiguidade Clássica, às vezes, até equiparado a Homero em grandeza. No entanto, o mundo de Hesíodo é bastante diferente do de Homero. Enquanto que em Homero nós assistimos às lutas e anseios de reis, rainhas e heróis, em Hesíodo nós acompanhamos o labor do homem comum, do agricul-

tor, do artesão, do escravo e da mulher. As duas grandes obras de Hesíodo são a “Teogonia” e “Os Trabalhos e os Dias”. Na primeira delas, é narrado o nascimento dos deuses e a criação do mundo, de acordo com a crença popular e com a religião corrente à época, na segunda, Hesíodo prescreve normas de condutas e preceitos para o bom viver, quais as melhores épocas para se plantar, para se viajar, e como sobreviver à dura vida campesina. Ambas as obras estão intimamente relacionadas, pois, enquanto que o homem de Homero se põe, às vezes, em pé de igualdade com as divindades — são filhos e filhas de deuses, semideuses, e desafiam os deuses olímpicos, como o caso de Diomedes que ataca Afrodite durante a batalha — o homem de Hesíodo se encolhe diante da vontade dos deuses, e é forçado a obedecê-los, temê-los e reverenciá-los. Muitas das fábulas de Hesíodo, como a da criação da mulher, representam as opiniões e crenças daquele tempo, retratando uma sociedade patriarcal, agrária, profundamente religiosa (duma religiosidade cotidiana, na qual os deuses estão presentes o tempo todo na vida das pessoas, inclusive favorecendo-as ou prejudicando-as de acordo com seus caprichos) e pragmática. Hesíodo traz uma outra perspectiva sobre a sociedade grega primitiva, mostrandonos o homem comum, sem o resplendor dos grandes feitos, mas com a dignidade do trabalho cotidiano.

http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/4/4f/Athena_Herakles_Staatliche_Antikensammlungen_2648.jpg

Topo: Hesíodo (mosaico) Acima: Hesíodo e a Musa, por Gustave Moreau

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tradução

o mito de Prometeu
Hesíodo (Ἡσίοδος)
tradução: Henry Alfred Bugalho

Prometeu sendo acorrentado por Vulcano, por Dirck van Baburen

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Filhos de Japeto e Clímene (507) Japeto à virgem Oceânide de belos tornozelos Clímene, desposou, e se deitaram no mesmo leito. Esta gerou um filho, Atlas de vontade violenta, Pariu o muito ilustre Menécio, Prometeu, Artificioso e astuto, e o estúpido Epimeteu, Que, desde o começo, trouxe males aos homens que se alimentam de pão. Pois ele foi o primeiro a receber, modelada por Zeus, a mulher Virgem. Ao orgulhoso Menécio Zeus de vasta visão Precipitou do Érebo, atirando-lhe raio fumegante, Por sua presunção e virilidade arrogante. Atlas sustém o vasto céu sob violenta tortura, Nos confins da terra, diante das Hespérides de voz harmoniosa, Apoiando-o em sua cabeça e nos braços incansáveis; Pois este destino lhe designou o prudente Zeus. Atou com inquebrantáveis amarras Prometeu pleno de idéias, Grilhões dolorosos passados em meio a uma coluna, E sobre ele instigou uma águia de largas asas. Esta o fígado Imortal comia, regenerando-se nas mesmas proporções, Durante a noite, o comido de dia pela ave de largas asas. O forte filho de Alcmena de belos tornozelos, Heracles, a matou e repeliu o horrível sofrimento Do Japetônida, libertando-o de seu tormento, Não sem o consentimento do soberano Zeus Olímpico, Para que a fama de Heracles Tebano fosse Maior do que antes sobre a fecunda terra. Com estes cuidados honrou seu notável filho e, Ainda que estivesse irritado, mitigou-lhe a cólera que possuía Contra aquele que desafiou a vontade do muito poderoso Crônida. Mito de Prometeu. Criação da mulher (535) Enquanto os deuses e homens mortais litigavam Em Mecona, com ânimo resoluto, um enorme boi ele Ofertou dividindo, tentando enganar a inteligência de Zeus. Pois à carne e às gordas vísceras com banha Sob a pele guardou, ocultas no ventre do boi, E, aos brancos ossos do boi, com astúcia enganadora, Ordenou, cobrindo-os, ocultos, com brilhante gordura. Então se dirigiu a ele o pai dos homens e deuses: “Japetônida, notável entre todos os soberanos, Ó amável, com que parcimônia dividiste as partes de cada um!” Assim falou, zombando, Zeus conhecedor dos desígnios imortais. E respondeu-lhe Prometeu de curvo pensar, (535) Καὶ γὰρ ὅτ᾽ ἐκρίνοντο θεοὶ θνητοί τ᾽ ἄνθρωποι Μηκώνῃ, τότ᾽ ἔπειτα μέγαν βοῦν πρόφρονι θυμῷ δασσάμενος προέθηκε, Διὸς νόον ἐξαπαφίσκων. Τοῖς μὲν γὰρ σάρκας τε καὶ ἔγκατα πίονα δημῷ ἐν ῥινῷ κατέθηκε καλύψας γαστρὶ βοείῃ, τῷ δ᾽ αὖτ᾽ ὀστέα λευκὰ βοὸς δολίῃ ἐπὶ τέχνῃ εὐθετίσας κατέθηκε καλύψας ἀργέτι δημῷ. Δὴ τότε μιν προσέειπε πατὴρ ἀνδρῶν τε θεῶν τε· Ἰαπετιονίδη, πάντων ἀριδείκετ᾽ ἀνάκτων, ὦ πέπον, ὡς ἑτεροζήλως διεδάσσαο μοίρας. Ὥς φάτο κερτομέων Ζεὺς ἄφθιτα μήδεα εἰδώς. Τὸν δ᾽ αὖτε προσέειπε Προμηθεὺς ἀγκυλομήτης (507) κούρην δ' Ἰαπετὸς καλλίσφυρον Ὠκεανίνην ἠγάγετο Κλυμένην καὶ ὁμὸν λέχος εἰσανέβαινεν. ἡ δέ οἱ Ἄτλαντα κρατερόφρονα γείνατο παῖδα, τίκτε δ' ὑπερκύδαντα Μενοίτιον ἠδὲ Προμηθέα, ποικίλον αἰολόμητιν, ἁμαρτίνοόν τ' Ἐπιμηθέα· ὃς κακὸν ἐξ ἀρχῆς γένετ' ἀνδράσιν ἀλφηστῇσι· πρῶτος γάρ ῥα Διὸς πλαστὴν ὑπέδεκτο γυναῖκα παρθένον. ὑβριστὴν δὲ Μενοίτιον εὐρύοπα Ζεὺς εἰς ἔρεβος κατέπεμψε βαλὼν ψολόεντι κεραυνῷ εἵνεκ' ἀτασθαλίης τε καὶ ἠνορέης ὑπερόπλου. Ἄτλας δ' οὐρανὸν εὐρὺν ἔχει κρατερῆς ὑπ' ἀνάγκης, πείρασιν ἐν γαίης πρόπαρ' Ἑσπερίδων λιγυφώνων ἑστηώς, κεφαλῇ τε καὶ ἀκαμάτῃσι χέρεσσι· ταύτην γάρ οἱ μοῖραν ἐδάσσατο μητίετα Ζεύς. δῆσε δ' ἀλυκτοπέδῃσι Προμηθέα ποικιλόβουλον, δεσμοῖς ἀργαλέοισι, μέσον διὰ κίον' ἐλάσσας· καί οἱ ἐπ' αἰετὸν ὦρσε τανύπτερον· αὐτὰρ ὅ γ' ἧπαρ ἤσθιεν ἀθάνατον, τὸ δ' ἀέξετο ἶσον ἁπάντῃ νυκτός, ὅσον πρόπαν ἦμαρ ἔδοι τανυσίπτερος ὄρνις. τὸν μὲν ἄρ' Ἀλκμήνης καλλισφύρου ἄλκιμος υἱὸς Ἡρακλέης ἔκτεινε, κακὴν δ' ἀπὸ νοῦσον ἄλαλκεν Ἰαπετιονίδῃ καὶ ἐλύσατο δυσφροσυνάων, οὐκ ἀέκητι Ζηνὸς Ὀλυμπίου ὕψι μέδοντος, ὄφρ' Ἡρακλῆος Θηβαγενέος κλέος εἴη πλεῖον ἔτ' ἢ τὸ πάροιθεν ἐπὶ χθόνα πουλυβότειραν. ταῦτ' ἄρα ἁζόμενος τίμα ἀριδείκετον υἱόν· καί περ χωόμενος παύθη χόλου, ὃν πρὶν ἔχεσκεν, οὕνεκ' ἐρίζετο βουλὰς ὑπερμενέι Κρονίωνι.

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Sorrindo de leve, não se esquecendo de sua astúcia enganadora: “Zeus, o mais ilustre e poderoso dos deuses sempiternos, Pega dentre os dois aquele que, em seu âmago, dita a vontade.” Falou, pois, com pensamentos enganadores. Zeus, conhecedor dos desígnios imortais, Soube e não ignorava o engano; mas antevia em seu espírito males Aos homens mortais, aos quais deveriam se realizar. Com ambas as mãos apanhou a branca gordura. Irritou-se em seu íntimo, a cólera alcançou-lhe o espírito, Quando viu os alvos ossos do boi sob astúcia enganadora. Desde então, a estirpe dos homens sobre a terra aos imortais Queima brancos ossos nos olorosos altares. E àquele disse Zeus cumulador de nuvens, grandemente indignado: “Japetônida, de tudo conhecedor dos desígnios, Ó amável, não esqueceste de tua astúcia enganadora!” Assim encolerizado disse Zeus, conhecedor dos desígnios imortais. Desde então, lembrou-se sempre deste engano E não deu o ardor infatigável do fogo nos freixos Para os homens mortais que habitam sobre a terra. Mas o enganou o bom filho de Japeto, Escondendo o brilho que se vê de longe do fogo infatigável Em um bastão oco. Então, feriu profundamente o espírito De Zeus tonitruante e irritou-se em seu coração Quando avistou entre os homens o brilho que se vê de longe do fogo. E, em troca do fogo, preparou um mal para os homens: Modelou a terra o ilustre Coxo Semelhante a pudica donzela, por vontade do Crônida. A deusa Atena de olhos glaucos cingiu-a e a adornou Com um vestido de resplandecente brancura; cobriu-a desde a cabeça Com um véu bordado por suas próprias mãos, maravilha de se ver; E com coroas de erva fresca trançada com flores, Atraentes, rodeou Palas Atena suas têmporas. Em sua cabeça colocou uma coroa de ouro Que o próprio ilustre Coxo cinzelou, Trabalhando manualmente, agradando ao pai Zeus. Nela gravou muitos ornamentos, maravilhas de se ver, Monstros terríveis que o continente e o mar nutrem; Muitos deles pôs — em todos se manifestava a beleza —, Maravilhosos, quais seres vivos dotados de voz. Após preparar com beleza o mal, em troca de um bem, Conduziu-a onde estavam os demais deuses e os homens, Enfeitada com adorno pela deusa de olhos glaucos de pai poderoso. E um estupor se apoderou dos deuses imortais e dos homens mortais Quando viram o escarpado engano, irresistível para os homens.

ἦκ᾽ ἐπιμειδήσας, δολίης δ᾽ οὐ λήθετο τέχνης· Ζεῦ κύδιστε μέγιστε θεῶν αἰειγενετάων, τῶν δ᾽ ἕλε᾽, ὁπποτέρην σε ἐνὶ φρεσὶ θυμὸς ἀνώγει. Φῆ ῥα δολοφρονέων· Ζεὺς δ᾽ ἄφθιτα μήδεα εἰδὼς γνῶ ῥ᾽ οὐδ᾽ ἠγνοίησε δόλον· κακὰ δ᾽ ὄσσετο θυμῷ θνητοῖς ἀνθρώποισι, τὰ καὶ τελέεσθαι ἔμελλεν. Χερσὶ δ᾽ ὅ γ᾽ ἀμφοτέρῃσιν ἀνείλετο λευκὸν ἄλειφαρ. Χώσατο δὲ φρένας ἀμφί, χόλος δέ μιν ἵκετο θυμόν, ὡς ἴδεν ὀστέα λευκὰ βοὸς δολίῃ ἐπὶ τέχνῃ. Ἐκ τοῦ δ᾽ ἀθανάτοισιν ἐπὶ χθονὶ φῦλ᾽ ἀνθρώπων καίουσ᾽ ὀστέα λευκὰ θυηέντων ἐπὶ βωμῶν. Τὸν δὲ μέγ᾽ ὀχθήσας προσέφη νεφεληγερέτα Ζεύς· Ἰαπετιονίδη, πάντων πέρι μήδεα εἰδώς, ὦ πέπον, οὐκ ἄρα πω δολίης ἐπιλήθεο τέχνης. Ὥς φάτο χωόμενος Ζεὺς ἄφθιτα μήδεα εἰδώς· ἐκ τούτου δὴ ἔπειτα δόλου μεμνημένος αἰεὶ οὐκ ἐδίδου μελίῃσι πυρὸς μένος ἀκαμάτοιο θνητοῖς ἀνθρώποις, οἳ ἐπὶ χθονὶ ναιετάουσιν. Ἀλλά μιν ἐξαπάτησεν ἐὺς πάις Ἰαπετοῖο κλέψας ἀκαμάτοιο πυρὸς τηλέσκοπον αὐγὴν ἐν κοΐλῳ νάρθηκι· δάκεν δέ ἑ νειόθι θυμόν, Ζῆν᾽ ὑψιβρεμέτην, ἐχόλωσε δέ μιν φίλον ἦτορ, ὡς ἴδ᾽ ἐν ἀνθρώποισι πυρὸς τηλέσκοπον αὐγήν. Αὐτίκα δ᾽ ἀντὶ πυρὸς τεῦξεν κακὸν ἀνθρώποισιν· γαίης γὰρ σύμπλασσε περικλυτὸς Ἀμφιγυήεις παρθένῳ αἰδοίῃ ἴκελον Κρονίδεω διὰ βουλάς. Ζῶσε δὲ καὶ κόσμησε θεὰ γλαυκῶπις Ἀθήνη ἀργυφέη ἐσθῆτι· κατὰ κρῆθεν δὲ καλύπτρην δαιδαλέην χείρεσσι κατέσχεθε, θαῦμα ἰδέσθαι· [ἀμφὶ δέ οἱ στεφάνους, νεοθηλέος ἄνθεα ποίης, ἱμερτοὺς περίθηκε καρήατι Παλλὰς Ἀθήνη. ] ἀμφὶ δέ οἱ στεφάνην χρυσέην κεφαλῆφιν ἔθηκε, τὴν αὐτὸς ποίησε περικλυτὸς Ἀμφιγυήεις ἀσκήσας παλάμῃσι, χαριζόμενος Διὶ πατρί. Τῇ δ᾽ ἐνὶ δαίδαλα πολλὰ τετεύχατο, θαῦμα ἰδέσθαι, κνώδαλ᾽, ὅσ᾽ ἤπειρος πολλὰ τρέφει ἠδὲ θάλασσα· τῶν ὅ γε πόλλ᾽ ἐνέθηκε,—χάρις δ᾽ ἀπελάμπετο πολλή,— θαυμάσια, ζῴοισιν ἐοικότα φωνήεσσιν. Αὐτὰρ ἐπεὶ δὴ τεῦξε καλὸν κακὸν ἀντ᾽ ἀγαθοῖο, ἐξάγαγ᾽, ἔνθα περ ἄλλοι ἔσαν θεοὶ ἠδ᾽ ἄνθρωποι, κόσμῳ ἀγαλλομένην γλαυκώπιδος ὀβριμοπάτρης. θαῦμα δ᾽ ἔχ᾽ ἀθανάτους τε θεοὺς θνητούς τ᾽ ἀνθρώπους, ὡς ἔιδον δόλον αἰπύν, ἀμήχανον ἀνθρώποισιν.

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Dela descende a estirpe de mulheres femininas; Dela descende a funesta estirpe e gênero das mulheres; Grande desgraça que habita entre os homens mortais, Não afeitas à funesta pobreza, mas à saciedade. Assim como quando nas colméias abobadadas, as abelhas Alimentam os zangões, agregados a más obras; Aquelas, durante todo o dia, até o sol se pôr, Diurnas, trabalham e produzem os brancos favos de mel, Enquanto aqueles aguardam dentro, sob abrigo da colméia, E recolhem em seu ventre o esforço alheio; Assim, como mal para os homens mortais, as mulheres Fez Zeus tonitruante, agregadas a obras Terríveis. Outro mal lhes concebeu em troca de um bem: Aquele que, fugindo do matrimônio e das inquietantes obras das mulheres, Não desejar se casar, alcança a funesta velhice Carente de auxílio, este com alimento insuficiente não Viverá, mas, ao morrer, repartirão suas posses Parentes afastados. Àquele que o fado do matrimônio alcança E consegue ter uma esposa sensata e adornada de sabedoria, Este, durante toda a vida, o mal se equivale ao bem Constantemente. A quem sobrevier uma de funesta raça, Vive incessante aflição no peito, No espírito e no coração; e seu mal é incurável. Assim, não é possível enganar nem evitar a vontade de Zeus; Pois nem o Japetônida, o benevolente Prometeu, Livrou-se de sua poderosa cólera, mas, sob tortura, Apesar de astuto, enorme grilhão o detém. Extraído de "Teogonia"

[ἐκ τῆς γὰρ γένος ἐστὶ γυναικῶν θηλυτεράων,] τῆς γὰρ ὀλώιόν ἐστι γένος καὶ φῦλα γυναικῶν, πῆμα μέγ᾽ αἳ θνητοῖσι μετ᾽ ἀνδράσι ναιετάουσιν οὐλομένης πενίης οὐ σύμφοροι, ἀλλὰ κόροιο. Ὡς δ᾽ ὁπότ᾽ ἐν σμήνεσσι κατηρεφέεσσι μέλισσαι κηφῆνας βόσκωσι, κακῶν ξυνήονας ἔργων· αἳ μέν τε πρόπαν ἦμαρ ἐς ἠέλιον καταδύντα ἠμάτιαι σπεύδουσι τιθεῖσί τε κηρία λευκά, οἳ δ᾽ ἔντοσθε μένοντες ἐπηρεφέας κατὰ σίμβλους ἀλλότριον κάματον σφετέρην ἐς γαστέρ᾽ ἀμῶνται· ὣς δ᾽ αὔτως ἄνδρεσσι κακὸν θνητοῖσι γυναῖκας Ζεὺς ὑψιβρεμέτης θῆκεν, ξυνήονας ἔργων ἀργαλέων· ἕτερον δὲ πόρεν κακὸν ἀντ᾽ ἀγαθοῖο· ὅς κε γάμον φεύγων καὶ μέρμερα ἔργα γυναικῶν μὴ γῆμαι ἐθέλῃ, ὀλοὸν δ᾽ ἐπὶ γῆρας ἵκοιτο χήτεϊ γηροκόμοιο· ὅ γ᾽ οὐ βιότου ἐπιδευὴς ζώει, ἀποφθιμένου δὲ διὰ κτῆσιν δατέονται χηρωσταί· ᾧ δ᾽ αὖτε γάμου μετὰ μοῖρα γένηται, κεδνὴν δ᾽ ἔσχεν ἄκοιτιν ἀρηρυῖαν πραπίδεσσι, τῷ δέ τ᾽ ἀπ᾽ αἰῶνος κακὸν ἐσθλῷ ἀντιφερίζει ἐμμενές· ὃς δέ κε τέτμῃ ἀταρτηροῖο γενέθλης, ζώει ἐνὶ στήθεσσιν ἔχων ἀλίαστον ἀνίην θυμῷ καὶ κραδίῃ, καὶ ἀνήκεστον κακόν ἐστιν. Ὥς οὐκ ἔστι Διὸς κλέψαι νόον οὐδὲ παρελθεῖν. Οὐδὲ γὰρ Ἰαπετιονίδης ἀκάκητα Προμηθεὺς τοῖό γ᾽ ὑπεξήλυξε βαρὺν χόλον, ἀλλ᾽ ὑπ᾽ ἀνάγκης καὶ πολύιδριν ἐόντα μέγας κατὰ δεσμὸς ἐρύκει.

Θεογονία

O lugar onde

a boa Literatura
é fabricada

ficina
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teoria Literária

a artE dE trair
Breves reflexões sobre o ofício da tradução
Henry Alfred Bugalho
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Eu devo ser um dos piores tradutores do mundo. Não digo isto por alguma razão qualquer, seja porque não domino a língua de origem ou de destino do texto a ser traduzido, ou porque não me esforço por tentar recriar o sentido de uma palavra, sentença, ou ideia. Digo-o apenas porque simplesmente não acredito no que faço. Para mim, não existe tradução.

história, sua trajetória, seu contexto social e geográfico. Se toda língua se desenvolvesse de maneira semelhante, não haveria diferença alguma entre o português de Portugal, do Brasil, de Angola ou Moçambique, por exemplo. Estas quatro variantes do português são a mesma língua, mas todas possuem expressões, palavras e sentidos compreensíveis apenas no interior de suas comunidades linguísticas. Histórias diferentes e povos diferentes conduzem a variações e desvios nas línguas. Primeiro, pensamos apenas no português, mas imaginemos as diferenças que existem entre o russo, o chinês, o tcheco e o português. Não estamos falando apenas de Histórias nacionais diferentes, falamos agora dum contexto linguístico, social e cultural totalmente diferente do nosso. As variações não residem mais em apenas palavras, expressões ou sentidos, mas sim em toda uma construção sintática, morfológica, filológica e, às vezes, alfabética. Se para um brasileiro compreender uma expressão de Portugal é necessário, por vezes, um esforço para se pôr no registro cultural daquele

país, qual não é o esforço requerido para se pôr no registro dum povo tão distante culturalmente quanto a China? Como traduzir com propriedade frases, expressões e ideias que só fazem sentido no interior dum contexto histórico e social que não nos pertence? A resposta parece ser simples: para um tradutor, não basta apenas conhecer a língua de origem, mas um bocado da História do país falante desta língua, entender sua cultura, suas especificidades, sua singularidade.

Desde o nível mais fundamental, ou seja, do pensamento à comunicação deste pensamento, até o último grau nesta escala, isto é, a tradução dum texto de um idioma para outro, a passagem é sempre problemática. Comecemos pelo fim desta cadeia. Temos um texto literário num idioma que não nos pertence. Por uma razão qualquer, queremos vertê-lo para nossa língua nativa. É neste salto entre a origem e o destino que encontramos o primeiro abismo. Toda língua possui sua

Então, daremos um passo atrás. Pensemos no trabalho individual e solitário do autor, que através da escrita transmite seus pensamentos, preocupações, anseios, medos e devaneios. Qualquer um que já se deteve diante duma folha em branco reconhece a grande barreira que existe entre pensamento e escrita. Muitas vezes, em momentos de reflexão, surgem-nos no livro da mente frases perfeitas, sentenças irretocáveis e parágrafos ou páginas inteiras dignas de um mestre.

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No entanto, assim que elas são transportadas para a folha de papel, muitas destas ideias se revelam imperfeitas, ou tolas, ou ridículas. Não é a toa que boa parte do trabalho de um escritor é na hora de revisar, de cortar, de remendar sua obra. Basta acompanharmos a biografia de qualquer grande escritor e veremos que quase todos duelavam com suas obras, refazendo-as, reescrevendo-as, às vezes até renegando-as. A criação da obra literária não é uma viagem por mares tranquilos, mas sim um embate constante e interminável, que chega até a perdurar após a publicação das mesmas. Qualquer autor sabe que, entre os pensamentos e a escrita, há também um abismo. Como suprir esta lacuna, nós nos perguntamos? Como traduzir com propriedade este conflito que surge com o primeiro pensamento do autor e se manifesta na palavra escrita? Também neste caso, a resposta parece ser simples: basta conhecermos a biografia do autor; basta lermos o conjunto de sua obra e como ele se rela-

cionava com a cultura de sua época.

Que nós retrocedamos um passo, então. Todo pensamento deriva duma impressão sensorial. Cotidianamente, vemos, ouvimos, sentimos, degustamos, somos afetados por inúmeras sensações. Não creio que devamos empreender uma investigação profunda sobre o processo cognitivo do ser humano, se nossa mente é uma tabula rasa, vazia de conteúdos e que vai sendo construída com o tempo, ou se nós possuímos várias faculdades que vão sendo alimentadas com nossas vivências, mas o que importa é que a maior parte do nosso conhecimento surge através dos sentidos. No entanto, nosso conhecimento do mundo é parcial. Nossos olhos, ouvidos, mãos, palato, nariz nos mostram facetas da realidade. Se vemos o sol nascente, por exemplo, percebemos sua cor e as tonalidades do céu, sentimos seu calor, mas não temos um conhecimento da totalidade do que é o sol. Acercamo-nos deste objeto dentro de nossas limitações sensoriais.

Portanto, entre a realidade e nossos pensamentos também existe um abismo, e este é realmente intransponível. Não estamos falando de algo como uma coisa em-si, ou a essência das coisas, estamos falando de algo mais simples e bem distante de toda e qualquer metafísica: nosso conhecimento é fragmentado, temos apenas acesso a parcelas da realidade.

Acompanhe então todo o processo feito por nós: a - da tradução ao texto de origem; b - do texto de origem ao autor deste texto; c - do autor do texto aos pensamentos do autor; d - dos pensamentos do autor às vivências deste autor; e - das vivências do autor à realidade. Cinco etapas que nos afastam do sentido, cinco decisões totalmente arbitrárias, comprometidas e duvidosas. Quatro destas etapas ocorrem através do autor e do processo de escrita, a última se dá pelas mãos do tradutor, completamente distante

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e alheio à gênese da obra literária. Podemos aceitar que um autor diga: “era isto que eu pretendia mostrar”; contudo, é muito mais complicado aceitarmos um tradutor asseverando: “era isto que o autor pretendia mostrar”.

obstáculos desta tarefa. Além disto, ao comparar a tradução para o russo com o original em inglês, ele começou a identificar os defeitos e imprecisões do texto original. No conto “Pierre Menard, o autor de Quixote”, Jorge Luis Borges concebe um evento insólito: Pierre Menard, um poeta francês, decide escrever o livro “Dom Quixote”. Mas Menard não pretende escrever uma versão de Dom Quixote, uma releitura, ou uma atualização, Menard deseja escrever o “Dom Quixote”. Para tanto, ele começa a pesquisar o período histórico no qual viveu Cervantes e o castelhano daquela época, ou melhor, tornarse Miguel de Cervantes. O ofício do tradutor não é diferente, só que, ao invés de escrever a mesma obra, o tradutor é aquele que deveria escrever aquela obra em outro idioma. A verdadeira tradução só seria possível se ela fosse como um decalque do texto, uma correspondência perfeita, palavra por palavra, sentido por sentido, intenção por intenção, só que na língua de destino. Henri Bergson afirma que mesmo se reunísse-

A verdadeira e única tradução só poderia ocorrer se o tradutor pudesse sentir e receber as mesmas impressões do autor, conceber os mesmos pensamentos e transportá-los para sua língua nativa. É justamente por isto que traduções próprias dos autores, ou colaborativas, costumam ser mais fidedignas, mas, para tanto, o autor precisa ter um domínio razoável tanto da língua de destino quanto da de origem. Samuel Beckett escreveu seus romances em francês, mas ele possuía competência e autoridade para assistir à tradução de, ou ele próprio traduzir, suas obras para o inglês, sua língua nativa. Nabokov concebeu sua obra-prima, “Lolita”, em inglês, mas se encarregou de traduzi-la para o russo, sua língua materna e, neste processo, descobriu os grandes

mos todas as traduções existentes dum único poema em todos os idiomas, não conseguiríamos esgotar as possibilidades de tradução e de interpretação deste poema original. Vou até mais longe nesta direção: mesmo que reuníssemos todas as traduções dum texto literário qualquer, não esgotaríamos as possibilidades de tradução, tampouco eliminaríamos as fissuras entre o original e a tradução.

Mas também não se iluda, acreditando que defendo uma relativização absoluta e que toda tradução seja igualmente malfadada. Existem sim traduções melhores ou piores, mas todas, sem exceção, tateiam em meio à escuridão dos significados, das falhas interpretativas, mas alguns tradutores já se habituaram às trevas e se movimentam melhor, outros ainda estão perdidos em meio ao breu. As boas traduções são aquelas que melhor disfarçam a traição à origem, as que conseguem simular ser o que não são.

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Crônica

Maristela Scheuer Deves

as eternas insatisfeitas
Está ali, no espelho: esse cabelo não toma jeito, mesmo! Quem dera ele fosse igual ao daquela colega, ou ao daquela outra amiga... Duvido que haja mulher que não tenha ainda vivido essa cena. Eu, pelo menos, ainda não entendi por que Deus me fez nascer de cabelos lisos, quando sempre adorei vê-los ondulados. E vai baby liss, rolos, horas no salão de beleza para deixálos cheios de cachinhos isso de vez em quando, pois já que a natureza não quis assim, meu bolso se recusa a acompanhar o preço das manobras necessárias para driblar a genética. A cor, claro, também precisa ser mudada de vez em quando. Ora, onde já se viu, quem escolheu esse castanho sem sal para colorir minhas

Nós, mulheres,

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madeixas? Por essas e outras, fico pasma quando amigas me contam das escovas e chapinhas que fazem para domar os rebeldes cabelos crespos. Fico com vontade de perguntar se querem trocar seus crespos pelo meu escorrido... Aliás, não é só o cabelo que tenho vontade de “intercambiar”, às vezes, com outras eternas insatisfeitas como eu. Agora que cheguei no meu peso ideal (até passei um pouquinho, confesso), desisti de querer uns quilinhos emprestados de quem sofre para perdê-los, mas continuaria aceitando doações, se fosse possível, daquelas que reclamam dos seios volumosos demais. E eu, que sonho em um dia ter verba suficiente para botar silicone! E meus tão desejados olhos verdes? Minha mãe tem olhos verdes, minha irmã também, e idem os meus dois sobrinhos Por que a maldita genética me deu olhos castanhos? Já que nunca conseguiria usar lentes, torço agora para que um dia a minha prole herde o verde-esmeralda que eu não herdei. Ah, meus

filhos poderiam, também, ser loiros, já que a mãe deles não é... Quanto à altura, meus 30 (e poucos) anos não me permitem mais sonhar em ultrapassar os 1,63 m. Assim, a solução são os sapatos de salto alto (acostumei tanto que nem consigo mais andar sem eles). Pelo menos, adoro as minhas unhas, longas, em vez daquelas quadradas que acho tão horrorosas - viu? Nem todo mundo é um defeito completo! A vantagem é que estou mais satisfeita e menos complexada do que há alguns anos, pois consegui vencer o estigma de ser muito magra. Já imaginou, cabelos lisos, castanhos, olhos castanhos, baixinha, e ainda por cima magérrima? Sim, eu sei, não passar dos 50 quilos é o sonho de muitas candidatas a modelo, mas euzinha sou uma simples jornalista que sempre quis ter formas arredondadas. Só tenho de me cuidar, agora, para não entrar no time das gordinhas. Aliás (suspiros), a minha cintura já não tem mais 60 centímetros...

A GUI

Henry Alfred Bugalho

Nova York
para Mãos-de-VAca
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O Guia do Viajante Inteligente

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Crônica

Léo Borges

as incongruências do “né?”
Um grande temor que percebo no mundo de hoje é o medo por algo que não deu certo ou pelo que pode vir a não dar. Se fechou bem, ótimo, a coisa funcionou, foi adiante, cumpriu seu papel. Mas e se existir a possibilidade de dar errado? Ou se ainda restam dúvidas, muitas vezes frágeis, que admitem um trágico fim da operação e que estão ali apenas para tentar dividir a culpa? Bom, é aí que entra em ação o tão decantado “né?”. Essa corruptela de “não é?” é uma das engenhosidades do ser humano para fazer com que o receptor da mensagem se veja encurralado. Ele deverá assumir uma situação já fracassada, próxima do desastre ou com a qual não está nem um pouco familiarizado. As duas letrinhas e a indefectível interrogação vêm sempre no final da frase e buscam a redenção da mesma. - Todo mundo estudou pra essa prova, né? – pergunta um dos alunos que não estudou nada e que quer saber se vai poder encontrar alguém que lhe forneça a cola. A pergunta,

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em princípio, aparenta que ele também estudou, mas o “né” desarticula completamente essa impressão. O “né”, em sua essência, é cínico, medroso, falso, despudorado, sarcástico, persuasivo, ameaçador e irritante. De tanto ser utilizado por quem precisa de uma escapatória, de um alicerce opinativo, de uma salvação argumentativa, ele vira cacoete. E essa, a meu ver, é a sua forma mais pobre: - Então, tá, né? Se “tá”, por que o “né”? Está feito, garantido, resolvido. Mas a pessoa não consegue ser forte e parar ali. Precisa do seu cão-deguarda “né” por perto. Pior que isso é o “é, né?”. Ou seja, a pessoa concorda para logo imediatamente colocar em dúvida o que acabou de concordar. Para essa pessoa o fato “é”, mas, inconseqüentemente e com grande irresponsabilidade, “deixou de ser” e passou a ser dúvida, reenviada para a confirmação do emissor. O povo é sábio e os ditados populares não caem nessa esparrela. “Cavalo dado não se olha os dentes, né?”. Ninguém confere a “cárie” do presente recebido. É de graça, então a firmeza é a alma dessa afirmativa,

não admitindo um “né?” gaiato. Ou “Antes tarde do que nunca, né?”. Nem pensar. Aí o “né” daria margem para o evento nunca ser realizado. Imaginem as grandes tiradas da Humanidade com o “né” incutido nelas. “Independência ou morte, né?”. Né?! Que isso! Bom, ainda bem que Dom Pedro não titubeou nessa. E já imaginaram os milicos com “Brasil: ame-o ou deixei-o, né?”. Com certeza não seria coisa de militar essa frase pusilânime. Os sisudos astronautas da NASA vacilando com “Houston, nós temos um problema, né?” trocaria o drama pela comicidade. A base responderia de pronto: “Apollo XIII, vocês têm ou não têm um problema, cacete?”. Ou ainda o ridículo que seria o lobo-mau respondendo à Chapeuzinho Vermelho sobre o tamanho de seus olhos: “são para te enxergar melhor, né?”. A menina perceberia na hora a artimanha fake do bicho e veria que aquela vovó era um blefe, um engodo, uma farsa. As pichações de muros, que muitos acham que é só molecagem, são quase sempre sérias quando abordam esse detalhe técnico. Não

vemos por aí em spray vermelho coisas do tipo “Não jogue lixo aqui, né?” ou “Eu amo a Simone, né?”. Todos perceberiam a frouxidão da coisa e largariam entulhos sob o rabisco e zombariam da infeliz que, como estaria bem claro, era mentirosamente amada. De modo semelhante temos o “you know” na língua inglesa. É o chantagista e coercitivo “você sabe” maroto - que também polui o final das frases - colocando na parede o coitado do interlocutor. Como o sujeito vai saber de alguma coisa se ainda pouco ou nada foi dito? É da mesma linhagem. Eu sempre me patrulho para não largar um “né” nos finais das minhas falas. Acho um recurso feio esteticamente que não acrescenta nada ao discurso, a não ser a tal passada de responsabilidade. Se o outro responder ao “né” com “é” é porque ele assumiu a coisa e vai ter de se virar com isso. Então, vamos combinar que esse negócio de “né” pra cá, “né” pra lá não está com nada, né? Ou melhor... Você não concorda?

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Crônica

monumento ao vandalismo

Joaquim Bispo

(no Parque Eduardo VII, em Lisboa) Alguém vislumbrou, mentalmente, esta forma imersa na pedra amorfa e executou este trabalho grandioso; obra difícil de conceber, dolorosa de parir.

Que mente doentia, que espírito atormentado, que alma putrefacta é que enceta a actividade de mutilar e desfigurar uma escultura em pedra, tão simples e majestosa como esta? Concedamos, esta escultura não é das melhores obras que a Humanidade já produziu mas, ainda que fosse a mais aberrante, ninguém tem o direito de alterá-la, e,

desde o momento em que ela foi entregue ao público e se tornou bem cultural colectivo, nem mesmo o artista que a concebeu. (E quanto alguns querem alterar a sua obra! É paradigmática a história dum pintor francês que, tendo uma obra sua num museu importante, mas estando descontente com um determinado matiz que tinha usado, conseguiu

Outro alguém optou por executar a tarefa fácil, mesquinha de a desagregar e devolver ao informe.

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a colaboração de um amigo para entreter o vigilante, enquanto pincelava rapidamente a zona em causa com um matiz que achava mais adequado.) Esta escultura foi adulterada e é curioso que essa alteração lhe acrescentou significados. Já não representa só uma deusa ou uma virtude, representa agora, também, a maneira como esta sociedade lida com as suas obras de arte expostas e o que isso significa de divórcio em relação à arte da tradição cultural e de desrespeito pelo espaço público e pelo outro. Ou, o que era uma entidade majestosa e poderosa se ter transformado em vítima impotente. Ou outros
Foto: Joaquim Bispo

muito mais da sua história como escultura e da mentalidade desta sociedade. Significa isto que se pode desculpar quem vandaliza esculturas no espaço público? Nem um bocadinho! E é condenável alguma cultura da novidade, alguma postura de repúdio pelo que vem de trás, pela cultura dos pais e dos avós, só porque tem umas dezenas de anos; pelo património, só porque apresenta alguma pátina que o tempo dá.

por esculturas em bronze e aço. A ver se resistem aos activos interventores de espaço público que por aí obram. Como esta, de Teixeira Lopes, que fazia conjunto com um busto de Eça de Queirós com a legenda «Sob o manto diáfano da fantasia, a nudez forte da verdade», retirada de «A Relíquia» do citado romancista. Acho bem que se substituam. É que, além do mais, não é necessário mais do que 1 monumento ao vandalismo (Fotos pelo autor do texto)
Foto: Joaquim Bispo

na mesma cidade! É sintomático que se estejam a substituir as esculturas em pedra no espaço público

sentimentos que nos acodem ao ver esta figura mutilada. É toda uma outra obra de arte que temos perante nós. Que algum artista plástico podia ter concebido, assim mesmo, mutilada. Como no século XIX se construíam ruínas de raiz. Neste sentido, pode-se questionar se se deve devolver a estátua à sua forma original. Tenho a certeza que, se houvesse discussão pública sobre este assunto, haveria quem defendesse a manutenção do estado actual da obra. Assim, como está, transmite

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Crônica

Henry Alfred Bugalho

LiViN’ iN amEriCa

oBama, o 44º PrESidENtE BraNCo
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Sei que é um pouco tarde para falar da eleição à presidência de Barack Obama, principalmente porque os votos já foram contados e ele até já tomou posse, mas há algo que me inquieta, desde que todo este furor começou e Obama despontou como o favorito à Casa Branca. Dois eventos em particular despertaram minha desconfiança sobre esta eleição; dois eventos frívolos, corriqueiros, mas que me revelaram uma nova perspectiva sobre como os americanos brancos viam Obama. Havia três cachorros na rua: um preto, um marronzinho (quase bege-claro) e um branco. Alguns mendigos passaram e apontaram para os cachorros e começaram a nomeá-los. O branco era a Hillary Clinton, o preto era Colin Powell e o bege era, para minha surpresa, Obama. Minha esposa imediatamente retrucou: - Não, o Obama é o preto. Mas os mendigos não aceitaram. - Não, o Obama é me-

tade branco, o Obama é o cachorro bege. E o segundo evento foi quando, en passant, escutei, com o rabo de ouvido, a conversa entre uma mulher e um homem, brancos, sobre a eleição. A mulher, aparentemente defendendo seu ponto de vista e justificando seu voto em Obama, disse: - Sabe o que é estranho? Eu não vejo Obama como um negro, mas apenas como um homem. Estas duas histórias imediatamente me fizeram recordar do nosso presidente Lula. Toda a imagem que havia sido criada durante a carreira política dele era a do sindicalista, camiseta vermelha, barba desgrenhada e gritos de ordem sobre um palanque improvisado. Mas esta imagem de político revolucionáriocomunista não ganha eleições. Era mais ou menos na época da primeira vez que Lula se candidatou que eu ouvia muito as pessoas comentando: - Eu não vou votar no Lula, porque senão vou ter que dividir meu apartamento com outras pessoas e eles vão tomar

meu segundo carro. Lula era temido porque trazia à tiracolo o estigma do comunismo. No entanto, bastou ele mudar a imagem, vestir terno e gravata, reduzir o tom de voz e falar pausamente, que a classe média foi conquistada. Lula foi eleito, e reeleito. Vejo um grande paralelo, neste sentido, entre Lula e Obama. Ambos disseminavam uma mensagem de esperança, ambos representavam uma mudança significativa no cenário político - o primeiro, um torneiro mecânico, sem muita educação, tornado presidente; o segundo, um negro, num país extremamente preconceituoso, tornado presidente. Ambos dependiam da classe média para se elegerem. Apesar do apoio dos latinos e dos negros, Obama jamais venceria as eleições se não fosse a adesão da classe média branca norte-americana. Mas a classe média branca norte-americana jamais aceitaria um presidente negro, se a imagem que Obama nos passasse fosse a mesma que boa

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parte dos negros americanos possui, as calças largas mostrando a cueca, o jaquetão de couro, o boné de aba reta virado pro lado, o inglês de gueto e os ameaçadores gestos de cantor de rap. Com uma imagem destas, Obama jamais ascenderia na carreira política, pois esta é uma imagem associada ao ódio racial e ao medo. Para se eleger, Obama precisou acolher e expressar valores brancos norte-americanos, o terno, a boa educação superior, a fala articulada e, principalmente, o foco na recuperação da economia. Reúna uma combinação de fatores - a catastrófica administração Bush, a crise imobiliária e financeira, um adversário prenunciando uma continuidade nos erros da gestão anterior, e um clima de esperança e mudança - e é fácil compreendermos como o branco americano lançou para os porões do inconsciente seu preconceito e se recusou a dar importância à cor do candidato. Para os americanos brancos, Obama é um deles. E não é à toa que

Obama se esforçou para se afastar do pastor Jeremiah Wright, cujo culto ele frequentou por vários anos, e dos discursos antipatriotas dele, mesmo que este pastor houvesse dito muitas verdades. Obama se enbranquiçou para conquistar os americanos, mesmo que para os negros ele continuasse sendo o reflexo duma grande conquista social.

Em 1963, Martin Luther King Jr. projetou para a América o seu sonho de igualdade, de que os filhos dele vivessem “numa nação na qual eles não fossem julgados pela cor de suas peles, mas pelo conteúdo de seu caráter”. Em 2008, Barack Hussein Obama empacotou, promoveu e vendeu este sonho; talvez ele não tenha conseguido evitar que os americanos o julgassem pela cor da pele, mas pelo menos ele teve êxito em fazê-los fingir que não julgam.

(Publicado originalmente em Nova York para Mãos-deVaca)

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Crônica

No CoNFESSioNÁrio
Mariana Valle
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Chiquinho estava agitado. Misturados ao seu alívio e àquela preguicinha boa que dá logo após uma relação sexual, havia no ar uma agonia, um desespero. Sabe quando um claustrofóbico fica confinado com várias pessoas num elevador minúsculo? A sensação era exatamente essa. Era a tradicional angústia que lhe tomava o corpo sempre depois do prazer. O que não o impedia de ter a próxima relação. Pelo contrário: só aumentava a vontade de entrar em ação. Era como se, para compensar a angústia, ele tivesse que embarcar nas delícias do sexo novamente. Aliás, parecia até que Chico ansiava por essa inquietude. Estranho. Por isso, José Francisco da Silva resolveu se confessar. Dom Geraldo adorava

ouvir relatos de luxúria. Aquela divisória de madeira entre ele e o penitente era perfeita para esconder sua inevitável excitação. Ainda mais quando o pecado da carne era confessado por uma voz masculina. Geraldo tinha que fazer um esforço infernal para não demonstrar seu desejo se avolumando. E a culpa por trás daquelas palavras em especial era um verdadeiro bálsamo para seus ouvidos. Geraldo enfim sentia-se compreendido. Como ele queria derrubar aquela parede! Por isso, Geraldo não se aguentou de curiosidade e inquiriu o penitente: - Mas por que praticar o amor tanto lhe angustia, meu jovem? Acaso não é casado? - Sou sim, seu padre. Muito bem casado, graças a

Deus. - Mas, então? Estaria o fiel cometendo o pecado do adultério? - Tô e num tô, excelência. - Não compreendi. Explique-se, por obséquio. - É que está tudo em família, não sabe? Na verdade, acho até que fiz um bem à minha esposa. - O senhor está querendo afirmar que trair sua esposa é uma atitude generosa? - Vou lhe contar como tudo começou, pro senhor me entender. Quando casei com a Josefa, ela tinha uma filhinha linda, branquinha como a neve, com os cabelos assim cheios de voltinhas. Parecia um anjinho. Só que ela tinha um problema, sabe? Problema de cabeça. O disgramado do pai só sirviu pra fazer essa menina com defeito e depois meteu o pé.

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- Meteu o pé na filha? - Não, seu padre. Meteu o pé, fugiu, foi embora. - Ah, sim... Continue, meu filho, continue... - Então a garota – ela se chama Jéssica – foi crescendo cada vez mais bonita e cada vez mais maluca. Era um sofrimento pra minha mulher, coitada. E pra menina também. Ela não pode ser feliz assim com esse problema, não é seu padre? - Deus sabe o que faz, meu filho. Mas e o que aconteceu com a Jéssica? - O que aconteceu foi que eu comecei a sentir umas coisas estranhas. Toda vez que estava lá no “bem bom” com a minha nega, só conseguia pensar na Jéssica. Um dia quase troquei o nome da mãe pelo da filha. - Sim. E o que mais? - Então um dia a Jéssica tinha ido numa festa à fantasia no colégio. Josefa vestiu a menina de princesa. E ela estava mesmo uma princesa. Parecia ter saído daqueles desenhos animados da televisão, sabe? Ela estava com sete anos na época. - Sei. A princesa... - É, seu padre. Você precisava ver que coisa mais linda! Era muita tentação. Tanto é que Deus me ajudou. - Como Deus lhe ajudou? - A jararaca da minha sogra ligou lá pra casa porque tava passando mal e a minha mulher foi correndo pra casa dela. E foi assim que eu fiquei sozinho com a princesa. – Você quis dizer: a Jéssica. - Seu padre, ela lá, maluquinha, toda lindinha de princesa, eu podia fazer qualquer coisa que ninguém nunca ia saber, não é mesmo? A

bichinha nem falar, fala! - E o que você fez, filho? - Ah, padre... Foi a primeira de muitas noites maravilhosas. Mas eu fui carinhoso com a menina, não sabe? Acho até que ela sorriu. Coitada, tem uma vida tão disgramada com aquela semgraça da Josefa o tempo todo do lado dela, que eu acho que quando ela está sozinha comigo tem os momentos mais felizes de sua vida. - Josefa é a sua esposa, a mãe da Jéssica? - É, seu padre. A velha. A Jéssica não. É nova, linda, branquinha. O problema é que ela não para de crescer e eu já to começando a achar que a menina vai ficar igual à minha patroa. - Mas o que sua patroa tem a ver com essa história? - Não, seu padre. Minha patroa é modo de falar. Minha patroa é minha mulher. - Ah, tá... - Pois é, seu padre. A menina tá crescendo, mas isso não é nada, porque tem também a irmã menor dela. Eu te falei da Janete? - Não, não falou não. - A Jéssica tá agora com quatorze anos e a Janete, com nove. - Mas a Janete também tem problema mental? - Que nada, homem! Ela é normalzinha da silva. E também é uma princesa. Ainda mais bonita do que a Jéssica, porque é mais nova e inteligente. - Então, com essa você não faz nada, né? - Que isso? Aí é que eu faço mesmo. É muito melhor. Porque primeiro, quando eu comecei com ela, fui aos poucos e ela foi gostando, sabe? Dizia que sentia cos-

quinha, dava umas risadinhas lindas. Depois, ela começou a chorar. Não sei o que deu na menina. - Não sabe... - Não sei, padre. Com ela eu sou ainda mais carinhoso do que com a mais velha. Essa sabe falar e não é maluca, né? - Mas e a patroa, meu filho, não sabe o que você faz? - Que nada! Ela pensa que eu tenho outras, porque eu não procuro mais ela, sabe? Mal sabe que as outras dormem no quarto ao lado! - Então o senhor está aqui por que se arrependeu dos seus pecados e quer uma penitência? - Não é por isso não, padre. É porque a pequena ficou grávida, os médicos descobriram e está todo mundo querendo acabar com a vida da minha filha que nem nasceu ainda. E eu não acho isso certo. - É, filho. Não é certo mesmo. O que você fez é errado, mas o que eles estão fazendo é mais errado ainda. É um pecado literalmente mortal. Ainda bem que você me avisou. - Por que, seu padre? Vai me ajudar? - Vou, meu filho, mas primeiro eu preciso que você me dê o nome desses assassinos que estão querendo abortar o seu filho. - Tá bom, padre. Mas e eu, fiz mesmo alguma coisa errada? - Fez, filho, fez. - Mas eu quero consertar isso. Vou cuidar bem da minha filha. Já pensou se ela nasce tão linda como a Jéssica e a Janete?

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GaudEriadaS i

Crônica

Volmar Camargo Junior

Entre as coisas que eu mais gosto no nosso jeito de falar são as gauderiadas que se usam mesmo entre os citadinos. Não é exatamente uma expressão cultural, porque não se ensina e não se aprende: parece que gaúcho já nasce gaudério... Uma dessas coisas é o "tchê". Fora o professor e escritor Luís Augusto Fischer, um ou outro dicionarista teve o trabalho de dizer o que ele significa. Mesmo assim, é o pronome de tratamento mais comum por aqui. A verdade é que o tchê é uma das coisas que nos identifica junto aos "estrangeiros" que moram do lado errado do Rio Uruguai. O problema é que, para eles, nós usamos essa gauderiada linguística - e outras - as vinte e quatro horas do dia.

Além disso, muitos estrangeiros pensam que o "que tri!" é de uso comum entre os gaúchos, o que não é verdade. Esse sim é um dizer bem mais urbano, mais portoalegrense, néah. Mas sobre isso eu falo outra hora. Talvez o nosso tchê seja equivalente ao sô do caipira, já que na sintaxe, exercem a mesma função: - Buenos dia, tchê. vertendo para o outro idioma - o caipira - Bão dia, sô. Na verdade, não precisa nem nascer no Rio Grande do Sul; é genético. Filho de gaúcho - até neto, ouvi dizer - pode nascer no Acre, que se considera gaúcho. Por outro lado, tem gente que repudia sua origem. E desses, só se

pode fazer o mesmo que tenho feito pelos resultados dos últimos grenais: lamentase. Mas no íntimo, e quando se descuidam, esses filhos ingratos deixam escapar, não raro, um bah! e ainda menos raramente, um tchê. Não só de sintaxe, semântica e pragmática, esses termos fazem parte do nosso modo de ver as coisas. Nem todo gaúcho gosta de música tradicionalista, nem anda pilchado, e há ainda os que nem gostam de chimarrão (eu mesmo, só comecei a tomar mate depois de adulto). Mas essa coisa meio abarbarada que nos faz dizer "bah!" pra qualquer situação, boa ou ruim, ou dizer "E aí, tchê!" na maior, sem vergonha nenhuma, nos identifica muito mais do que imaginamos.

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Crônica

SoLidão a doiS
Giselle Sato

Em tEmPoS dE CriSE

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A crise financeira vem influenciando vários aspectos do cotidiano. Se antes pensávamos em lingerie e jantar a luz de velas, hoje damos trato à bola tentando driblar cobranças e pendências. Até que ponto a relação é forte o suficiente para superar tantas crises? Começa com as contas atrasadas, discussões na hora de checar o cartão de crédito, quem gastou mais e as intermináveis justificativas. O dia se arrasta e a comida desce com tempero de ressentimentos. Finalmente chega a hora de dormir, dividir a cama pode transformar-se em um grande pesadelo. O casal não consegue desligar o mecanismo da preocupação e o peso das dívidas. O clima romântico não suporta a pressão e o afastamento é natural. Cada qual monta um mosaico de pesos e medidas. Existe o medo de iniciar um diálogo e começar uma briga, o receio de expor sentimentos e ser rechaçado. Muitas mulheres afirmam que problemas financeiros terminaram com a vida sexual. Esta solidão que chega de mansinho e se apossa de vez é cada vez maior. Não serão receitas de sedução que trarão o parceiro de volta. Dividir preocupações e tentar encontrar soluções juntos é delicado e requer jogo de cintura. Por sua natureza emotiva, normal-

mente as mulheres esperam demonstrações de carinho como forma de incentivo. Muitas vezes não encontram mais que o silêncio que tomam como acusação ou descaso. Pares perfeitos que há bem pouco tempo viviam em perfeita harmonia, hoje em dia andam as turras com a falta de dinheiro. Não há como fingir que a vida segue cor de rosa, é preciso lutar para preservar o ‘’bom do amor’’. O que nos trouxe até o convívio sob o mesmo teto não tem prestações atrasadas nem juros. Talvez esteja perdido em alguma gaveta e com certeza fazia parte do plano inicial. Carinho não paga mercado nem traz alívio ao coração. Mas como a alma agradece! Um abraço apertado vale muito quando estamos nos sentindo fracassados. Partilhar a falta de palavras custa apenas sentar ao lado e se muito, dar as mãos. Abandonar velhos hábitos como sair com amigos, fazer compras e jantar em bons restaurantes não é fácil. Pode parecer fútil para alguns, no entanto não vamos julgar os valores alheios. No mínimo ouvir sem dar palpite já ajuda muito quem reclama. Não adianta começar a falar em pensamento positivo e que melhores dias virão para uma pessoa com o especial estourado. É hora de cada um no seu quadrado e aos pouquinhos juntar as peças.

Lentamente e com cuidado porque magoar é fácil demais neste momento. Sexo. Vai existir um instante propício em que a cumplicidade e o carinho vencerão a resistência. Não há libido que supere as preocupações com o desemprego, sobrevivência e expectativas. Nunca houve tantos semblantes preocupados e tristes caminhando aos pares. Cada vez que me deparo com um deles, recordo o desabafo das amigas da velha firma que todos julgavam inquebrável. Pouquíssimas conseguiram manter o casamento. Casais que pareciam existir um para o outro, tornaram-se inimigos por conta da partilha de louças. São tantas histórias, contadas de ângulos diversos... A única certeza é que querendo encontrar soluções sozinhas ou resguardar o companheiro excluímos ajuda. Em ambas as situações, estaremos lutando sem qualquer apoio. O velho chavão: ‘’A união faz a força’’ ainda vale. Solidão a dois: Momento em que não há mais nada a dizer nem sonhos a compartilhar. A total ausência de esperança, afeto, respeito e amizade. A certeza de dias sombrios em tempos conturbados. E o medo de não saber quando o pesadelo irá terminar.

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Poesia

Laboratório Poético:

a Narração Na PoESia
Volmar Camargo Junior
v.camargo.junior@gmail.com

o que brota da terra
dois besouros desses que brotam da terra um casal ou pai e filho ou rivais por uma oportunidade rara de permanência no mundo entre tantos insetos giram no ar uma dança ou enlace ou alguma forma de comunicação sem ruído unidos no ar contornam as linhas de um desenho irreproduzível uma vez separados

tornam a se enfiar na terra escondem-se daquelas linhas invisíveis e de uns olhos curiosos se sob a silenciosa inércia da terra lutaram até a morte ou permaneceram separados ou tornaram a se encontrar - e unidos permitiram a permanência no mundo entre tantos insetos – eu nunca soube, nunca voltei a ver besouros sobre a superfície o desenho e as linhas traçadas ficaram plantados nalgum canteiro da memória e por mais atenção que lhes dedique deles jamais brotou sequer um rascunho

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ironia
i. que esperar de um mundo de casca lisa, dura e seca e miolo quente e macio senão a ironia besta de vê-lo como um ovo cozido oval forma de planeta ii. na secura lisa da casca encontrei um oco escondido em velha pedra esquecida a tal que o operário erudito ignorou por ser um esteta e o mais que aqui não repito iii. o oco da pedra era o ninho duma ave cuja exótica dieta era de pátrias, homens e livros o que achei até hoje me espanta e hoje ainda me assombro sozinho um arrepio de medo ainda agora iv. eram ovos, uns tantos ovinhos de casca lisa, dura e seca e miolo quente e macio que ironia, se essa ave choca e assim do ovo nasce um bicho e o bicho abre o bico e grita v. as cascas do ovo virariam comida o ninho da ave viraria comida o oco da pedra viraria comida pátrias, homens, livros a própria mãe do passarinho e eu mesmo, se não sair correndo vi. e se ele devorar a si próprio que ironia, meu Deus, que ironia mesmo o nada seria devorado melhor continuar com a ironia besta pensar o mundo como um ovo cozido ainda que ridícula, oval forma de planeta

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Poesia

meu amor

Guilherme Augusto Rodrigues

Um amor muito maior que o dos anjos e mais alto que todas as estrelas, intenso como o brilho delas, sacro como celestiais arranjos. Transcende a existência dos seres, seus sentimentos, coisas deste mundo, sonhos, saber que existe, eu me inundo... E basta, é tudo, os meus viveres. Num segundo, minuto, hora, dia é você em meu coração feliz que ameniza esta nossa ascendência. Se vê nas flores, folhas, água, ar... E jamais haverá de se apagar. Ah! “Eu te amo!” é assim que se diz.
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Palavras inúteis
Mariana Valle

Poesia

Estou rouca de tanto gritar. A luz é pouca, me falta o ar. Minha cabeça explode em dor. Muita conversa,
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pouco amor. Se ando na linha, me vêm as palmas, mas sou sozinha com a minha alma. Então por que perco meu tempo jogando palavras tão ao relento?

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Poesia

Poemas
Pac-man

José Espírito Santo

Com forte empenho, perícia e muita arte Corro, recuo, avanço fazendo meu trajecto E fujo outras vezes e me escondo redondo Em meu circunscrito discreto concreto Sou hábil, muito hábil, quase inatingível Em toda essa minha perícia e cheganço Sou o corredor de meio fundo do mundo Todos ficam bem para trás de meu avanço E esse velho jogo jogado eu já conheço Comer e mais comer e ganhar pontos Fintar logo se possível todos esses tontos No contínuo de esforço onde enriqueço Pela etapa seguinte e novo subir de nível Concretizar de outro projecto possível Que isso é sempre o que mais importa O abrir a porta, da porta, da porta.

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Bichinho de conta
De feitos defeitos nicho bem apertado e fechado De leite deleite por tantos portantos por conta És diz que diz não diz, léxico, disléxico controlado O mais são ignorados direitos, vida de outra ponta Cor, de cor, acção, decoração de coração! És entrada e saída de lixo e não te interessas Desaire, de Zaire, transmitido, exclusivo directo Falta demorada de tecto, de morada, detecto Sempre de ti partes e a ti enroscado regressas Cor, de cor, acção, decoração de coração! Bichinho de conta, em mundo “faz de conta” falcão Nessa com posição decomposição de composição Jogando tudo e o todo e os outros todos pro vento Quando mais conta na conta teu gordo provento.

Infinito menos um
Um para o infinito... é o grito Da refeita e desfeita palavra, em dor e amor de ser comum. Caminho e ir, círculo fechado, cuidar guardando de guardado. Um para o infinito... é o grito Da pressa que nos regressa, ser tantos e tão mais nenhum Pele em fio de caneta, pincel, pirueta, flor de vida inacabada Um para o infinito, menos um ou talvez zero, já não quero Entre tantos, nenhum, aflito Um para o infinito... é o grito
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Poesia

Eterníndia
Aborígine desta terra de Alencar, Deusa de Martin, Acaricio tua linda pele ainda morna do ocaso. A areia escorre entre meus dedos Como a vida que se vai... Os grânulos voltam à praia. Aguardam outra mão que os afague, Amores que nele rolem, Qualquer coisa... Encanto-me em pensar que mal vivi duas décadas E estas bilenares areias já há muito aqui estão. Foram cenários de digladiares tupi,

Dênis Moura

Cataclismos... Fenômenos mil que os meus olhos não creriam. Viram cenas de ódio e de paixões, Ouviram sussurros, cantos, vida... Vida... Um dia não mais poderei acariciar-te, Iracema. Presentearei este cetro à posteridade. Verás outros dedos te tocarem, Outras vidas a te verem... Te irem... Testemunharás o futuro desta terra. Ouvirás o que nunca sonhei. Assistirás ao resto deste conto universal como nunca cogitei. Outros cantarão tuas belezas. Mas talvez me ausente apenas parte de uma eternidade E, quem sabe, ti vivo novamente...

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saudade

Poesia

Maria de Fátima Santos

Se eu escrevesse hoje Escreveria com o estilete macio de uma flor Uma palavra Uma só palavra que dissesse tudo Se eu escrevesse E eu não o faço, hoje Repetiria a palavra Escreveria sobre o vento que a levasse Longe Uma só palavra em letras do meu sangue Se eu escrevesse hoje Escreveria saudade (e por baixo o teu nome)
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Uma, mil e muitas vezes

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SAMIZDAT
Edição, diagramação e capa
Formado em Filosofia pela UFPR, com ênfase em Estética. Especialista em Literatura e História. Autor de quatro romances e de duas coletâneas de contos. Editor da Revista SAMIZDAT e um dos fundadores da Oficina Editora. Autor do livro best-selling “Guia Nova York para Mãos-de-Vaca”. Mora, atualmente, em Nova York, com sua esposa Denise e Bia, sua cachorrinha. henrybugalho@gmail.com www.maosdevaca.com

SOBRE OS AUTORES DA

Henry alfred Bugalho

Revisão
Ex-técnico de televisão, xadrezista e pintor amador, licenciado recente em História da Arte, experimenta agora o prazer da escrita, em Lisboa. episcopum@hotmail.com

Joaquim Bispo

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Assessoria de imprensa
Por um amor não correspondido, a carioca de Copacabana começou a poetar aos 12 anos. Veio o beijo e o príncipe virou sapo. Mas a poesia virou sua amante. Fez oficina literária e deu pra encharcar o papel com erotismo. E também com seu choro. Em reação à hipocrisia e ao machismo da sociedade. Atuou como jornalista em várias empresas, mas foi na TV Globo onde aprimorou as técnicas de redação e ficção. E hoje as usa para contar suas próprias histórias. Algumas publicadas em seu primeiro livro e outras divulgadas nos links listados em seu blog pessoal: www.marianavalle.com

mariana Valle

Coordenação de Entrevista
Gaúcha nascida na pequena cidade de Pirapó, começou a sonhar em ser escritora tão logo aprendeu a ler. Escreve principalmente contos nos gêneros mistério, suspense e terror, além de crônicas.

maristela deves

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Colaboração
Inconformado com a própria inaptidão para dizer algo sem ser através de subterfúgios, abdicou de parte de suas horas diárias de sono, tentando domar a sintaxe e adestrar a semântica. Depois de perambular pelo Rio Grande do Sul, acampou-se na brumosa, fria, úmida, às vezes assustadora – mas cercada por um cenário natural de extrema beleza – Canela, na Serra Gaúcha. Amargo e frio, cálido e doce, descendente de judeus poloneses, ciganos uruguaios, indígenas missioneiros, pêlos-duros do Planalto Médio, é brasileiro, gaúcho, e, quando ninguém está vendo, torcedor do Grêmio Futebol Porto-alegrense. Autor dos blogs “Um resto de café frio” e “Bah!”.
v.camargo.junior@gmail.com http://recantodasletras.uol.com.br/autores/vcj

Volmar Camargo Junior

Médica formada pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, trabalha como psiquiatra e psicanalista. Apaixonada por literatura e línguas estrangeiras, lê sempre que pode e brinca de escrever de vez em quando. Paulistana convicta, vive desde sempre em São Paulo.
marciasz@hotmail.com

marcia Szajnbok

Nasceu em setembro de 1974, é carioca, servidor público e amante da literatura. Formado em Comunicação Social pela FACHA - Faculdades Integradas Hélio Alonso, participou da antologia de crônicas “Retratos Urbanos” em 2008 pela Editora Andross.

Léo Borges

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Paulistano, filho de nordestinos, desenhista desde sempre, artista plástico formado, escritor. Começou sua vida profissional como educador e, desde então, já deixou seu rastro por ONG’s, Escolas e Centros Culturais, através de trabalhos artísticos e pedagógicos – experiências que têm forte influência sobre seus escritos. Atualmente, organiza oficinas de ilustração para crianças, estuda pós-graduação em História da Arte e escreve para publicações na internet.
carloseducador@hotmail.com http://desnome.blogspot.com

Carlos Barros

Paulistano de pia, cearence de mar e poeta de amar. Viaja tanto o céu estrelado quanto o ciberespaço, mais com bits de imaginação que com telescópios. Pensa que tudo se recria a cada Big Bang, seja ele micro, macro ou social. Luta pela justiça, a paz e a igualdade, com um giz na mão e uma pistola na outra. É Tecnólogo a sonhar com Telemática social, com a democracia participativa eletrônica, onde o povo eleja menos e decida mais. Publica estes dias sua primeira obra, um Romance de Ficção Científica, e deixa engavetadas suas apunhaladas poesias. É feito de bits, links e teia pra que não desmaterialize, o clique, o blogue e o leia!

dênis moura

Autora de Meninas Malvadas, A Pequena Bailarina e Contos de Terror Selecionados. Se autodefine apenas como uma contadora de histórias carioca. Estudou Belas Artes, Psicologia e foi comissária de bordo. Gosta de retratar a realidade, dedicando-se a textos fortes que chegam a chocar pelos detalhes, funcionando como um eficiente panorama da sociedade em que vivemos.

Giselle Sato

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Informático com licenciatura e pós graduação na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, trabalha há largos anos em formação e consultoria, sendo especialista em Bases de Dados, Sistemas de Gestão Transaccional e Middleware de “Messaging”. A paixão pela escrita surgiu recentemente, tendo no ano de 2007 produzido os livros “Esboços” (contos) e “Onde termina esta praia” (poesia). Vive com a família em Alverca, uma pequena cidade um pouco a norte de Lisboa, Portugal.

José Espírito Santo

Nasceu em Lagos, Algarve, mas tem Angola, onde viveu a adolescência, como a sua mãe-terra. Licenciada em Física tem sido professora de Física e Química. Com poemas em vários livros, em co-autoria, é às pequenas histórias, que lhe voam no teclado, que chama “meus contos”. O blog Repensando (www. intervalos.blogspot.com ) tem sido seu parceiro e motivador na escrita dos últimos anos. Escreve pelo gosto de deixar que as palavras vão fazendo vida. Escreve pelo gozo.

maria de Fátima Santos

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Estudante de Letras na Universidade do Sagrado Coração, em Bauru, onde sempre morou. Nutre grande paixão por Línguas, Literatura e Lingüística, áreas a que se dedica cada vez mais.

Guilherme rodrigues

O lugar onde

a boa Literatura
é fabricada

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ficina
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www.oficinaeditora.org

Também nesta edição, textos de

Carlos alberto Barros dênis moura Giselle Natsu Sato Guilherme rodrigues Henry alfred Bugalho Joaquim Bispo José Espírito Santo

Léo Borges marcia Szajnbok maria de Fátima Santos mariana Valle maristela Scheuer deves Volmar Camargo Junior

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SAMIZDAT abril de 2009

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