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A DANÇA

F. SCOTT FITZGERALD

(1896-1940 - Estados Unidos)

A minha vida inteira sempre tive um estranho pavor


das cidades pequenas: não os subúrbios, que são
completamente diferentes, mas pequenas cidades
perdidas em New Hampshire, na Geórgia, Kansas ou no
estado de Nova York. Nasci na cidade de Nova York e
mesmo no meu tempo de menina não me assustava
com as ruas cheias de estrangeiros. A única vez que me
senti acuada, com a estranha sensação de que existia
uma vida submersa, um feixe de implicações,
significados e terrores secretos depositados pratica-
mente na superfície da terra, foi quando estive numa
dessas cidadezinhas do interior. Nas metrópoles tudo o
que é positivo ou negativo acaba vindo à tona,
aflorando ou sendo dito pelas pessoas; a vida sempre
está em movimento ou em extinção. Nas cidades
pequenas, destas que possuem entre 5 mil ou 25 mil
habitantes, os velhos ódios, os casos antigos ou
esquecidos, os escândalos das tragédias fantas-
magóricas parecem não morrer, e continuam, portanto,
embaralhados num fluxo e refluxo da vida cotidiana.
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Em nenhum outro lugar esta sensação se tornou tão


insistente para mim do que no sul dos Estados Unidos.
Assim que eu cruzo Atlanta ou Birmingham ou New
Orleans, geralmente tenho a sensação de que não
posso mais me comunicar com as pessoas. Homens e
mulheres falam um dialeto em que o cavalheirismo e a
cortesia vêm ligados à violência, ao fanatismo moral e à
embriaguez, numa forma coesa que não consigo enten-
der. No seu livro Huckleberry Finn, Mark Twain
descreveu algumas destas cidades debruçadas sobre o
Mississípi, cheias de antigas rivalidades, exacerbados
sentimentos religiosos, e a verdade é que, a despeito
do rádio e do progresso, permanecem iguais na sua
essência. São profundamente anticivilizadas até hoje.
Refiro-me ao Sul, pois foi numa pequena cidade
deste tipo, ao sudeste dos Estados Unidos, onde eu
senti a superfície se rachar durante um instante e vi,
então, o aparecimento de uma coisa monstruosa e
selvagem que deveria estar enterrada há anos. Logo em
seguida, a superfície fechou-se novamente, e das
outras vezes que lá voltei, fiquei surpresa ao encontrar
o mesmo charme das magnólias floridas, dos negros
cantando nas ruas e das sensuais noites de verão.
Fiquei encantada com a generosa hospitalidade, a vida
prazerosa ao ar livre e a quase universal boa educação
da população. No entanto, volta e meia sou vítima de
um pesadelo que lembra a experiência que há cinco
anos eu vivi nesta cidadezinha.
Davis (nome suposto) tem uma população de 20 mil
habitantes, um terço dela de negros. É uma cidade
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algodoeira, e os trabalhadores deste setor, centenas de


"brancos" ignorantes e enfraquecidos, vivem em
cortiços misturados com os pretos num bairro
conhecido como "Buraco do Algodão". A população de
Davis vem mudando nos últimos setenta e cinco anos.
Houve tempo em que ela foi considerada como provável
capital do Estado, e uma pequena casta com seus
parentes próximos formaram uma aristocracia local, o
que significava que as pessoas não tinham dinheiro
"mas eram de ótima família”.
No inverno de 1921, eu estava cansada da agitação
festeira de Nova York e, assim que chegou abril, resolvi
não aceitar mais convites para coisa alguma. Queria ir
para a Europa, mas como os negócios de papai tinham
sido afetados por uma crise da Bolsa, fui aconselhada a
visitar minha tia Musidore Hale, em Davis.
Sem maiores preocupações a esse respeito, parti
para o Sul, e confesso que fiquei surpresa quando vi um
velho retrato meu na coluna social do jornal de Davis,
ilustrando uma reportagem hilariante a meu respeito.
Lá ia eu começar outra série de compromissos sociais, é
bem verdade que em menor escala: danças sábado à
noite, no clube; alguns jantares informais e dezenas de
rapazes bem-apessoados e atenciosos para me fazer
companhia. Não tive um minuto de folga, e quando
resolvi voltar para casa, depois de três semanas, não foi
porque estivesse me sentido entediada, mas sim porque
estava interessada num jovem chamado Charley
Kincaid, sem saber que ele estava noivo de uma outra
moça.
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Acabamos nos aproximando porque ele era o único


rapaz da cidadezinha que freqüentara uma universidade
do Norte, e eu era ainda bastante tola para achar que
os Estados Unidos se concentravam em três
universidades: Princeton, Yale e Harvard. Ele também
gostou de mim, achei eu, mas quando soube que seis
meses antes ele tinha noivado com uma moça chamada
Marie Bannerman, não tive outra escolha senão ir
embora. A cidade era pequena demais para mudarmos
de grupo, e embora ninguém ainda comentasse o fato,
eu tinha certeza de que nossa aproximação, mais cedo
ou mais tarde, iria dar margem a fofocas desagra-
dáveis. Além de tudo, não sou do tipo que gosta de tirar
namorado das outras.
Marie Bannerman parecia uma beleza grega.
Soubesse ela se vestir, talvez fosse perfeita; se não
usasse tanto ruge, tanto pó no nariz e no queixo,
deixando o rosto com uma palidez cadavérica. Os
cabelos eram pretos, brilhantes; seus traços,
belíssimos, e um probleminha qualquer no olho direito
fazia ela manter os olhos semifechados, dando à sua
expressão um ar irresistivel de faceirice.
Na segunda-feira, eu estava para embarcar de
volta; no sábado me ofereceram um jantar no clube,
antes do baile. Estavam presentes Joe Gable, filho do
antigo governador, um rapaz meio embriagado, mas
bonito e encantador; Catherine Jones, uma garota
bonita, dona de um corpo maravilhoso e que, pintada,
parecia uma mulher de dezoito, vinte anos; Marie
Bannerman; Charley Kincaid; e dois ou três outros
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rapazes.
Eu adorava escutar as histórias locais, contadas com
graça e malícia. Uma das convidadas, só para dar um
exemplo, contou como havia passado a tarde com sua
família tentando evitar que fossem despejados da casa
por não pagarem aluguel. Ela contou a história sem
nenhum pudor, como se fosse uma situação incômoda
mas ao mesmo tempo engraçada. Eu adorava também
o comportamento implícito das pessoas, que presumia
que todas as mulheres fossem lindas e atraentes, e que
todos os homens, desde o dia em que as conhecessem,
estariam apaixonados por elas.
Era uma noite quente de maio, noite silenciosa, céu
recheado de estrelas. A densa fragrância noturna
penetrava pelo salão onde nos reuníamos, e os únicos
sons de fora eram os carros entrando no clube. Naquele
momento, detestei ter de ir embora de Davis, como
nunca antes sentira em relação a abandonar cidade
alguma; senti que desejaria passar o resto da minha
vida naquela cidadezinha, passeando e dançando,
eternamente envolta pelas noites quentes e românticas.
Mas ao mesmo tempo o horror já pairava sobre a
festa, aguardando o momento de se instalar para valer
como um convidado indesejável que preferiria aguardar
algumas horas para, finalmente, revelar seu rosto
horripilante. Algo acontecia por trás das conversas e
risadas, algo secreto e obscuro que eu não conseguia
ver nem entender.
A orquestra de negros chegou um pouco depois, e
os primeiros pares se formaram no salão. Um gigante
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avermelhado, vestindo botas cheias de lama e com um


revólver na cintura, aproximou-se da nossa mesa,
conversou um instante e logo subiu para o vestiário. Era
Bill Abercrombie, filho do deputado Abercrombie. Alguns
rapazes sussurraram algumas perguntas e ele
respondeu numa inútil tentativa de falar baixo:
- Sim ... ele está no pântano; um fazendeiro o viu
numa loja da estrada ... gostaria de dar um tiro no cara
...
Perguntei ao rapaz do lado o que estava
acontecendo.
- É um negócio com um negro, lá pelas bandas de
Kisco, a alguns quilômetros daqui. Está escondido no
pântano, amanhã o pessoal vai à sua caça.
- O que vão fazer com ele?
- Enforcá-lo, com certeza.
A idéia de um pobre negro escondido num pântano
à espera da chegada de seus perseguidores me deixou
deprimida. Mas logo já pensava em outra coisa.
Depois do jantar, Charley Kincaid e eu fomos até a
varanda. Ele soubera há pouco que eu me preparava
para deixar Davis, portanto achei prudente ficar
próxima do grupo, respondendo a suas perguntas com
palavras e não com meus olhos. Uma coisa dentro de
mim se insurgia e relutava em abandoná-lo de uma
maneira tão formal. A tentação de acender uma
centelha era grande, mais ainda naquele momento em
que eu ia partir, queria que ele me beijasse, e meu
coração prometia que se ele me beijasse naquele mo-
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mento eu aceitaria muito satisfeita o fato de não vê-lo


nunca mais; como sabia também que isso não era
verdade.
As garotas passaram a subir e descer escadas,
visitando o vestiário para retocarem a maquilagem;
resolvi fazer o mesmo, ainda acompanhada de Charley.
Naquela hora, tive vontade de chorar ... Talvez meus
olhos já estivessem embaçados, ou quem sabe eu
temesse demonstrar minha emoção em frente dele, o
fato é que abri a porta de uma saleta de jogo por
engano, e assim acabei ativando o trágico mecanismo
daquela noite. Na saleta, a uns três metros de nós,
estavam Marie Bannerman, a noiva de Charley, e Joe
Gable, abraçados e esquecidos do resto do mundo,
absorvidos enfim num intenso beijo.
Fechei a porta rapidamente e, sem olhar para
Charley, abri a porta certa e corri para o andar de cima.
Minutos depois, Marie Bannerman apareceu no
banheiro. Veio direto falar comigo, sorrindo com seu ar
de eterno deboche, e quase sem fôlego.
- Você não vai contar nada a ninguém, não é, meu
bem?
- Claro que não - respondi, pensando que
importância isso teria, uma vez que Charley já sabia de
tudo.
- Quem mais estava com você?
- Só Charley Kincaid.
- Humm! - Marie pareceu um pouco espantada. -
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Ele nem esperou para falar comigo, meu bem. Quando


saímos da saleta, ele já estava longe. Pensei que ele
fosse dar uma surra no Joe.
- Quem sabe ele não preferiria dar uma surra em
você? - não me contive e falei.
- Pode deixar que isso ele vai fazer, não tenha
dúvida! - riu Marie, secamente. - Mas eu sei como
acalmá-lo. Só tenho medo quando ele tem um
rompante inicial ... Nessa hora seu gênio é terrível. -
Marie deu um assobio. - Eu sei, porque já aconteceu
antes.
Senti vontade de esbofeteá-la. Dei-lhe as costas e
afastei-me, sob o pretexto de pedir um alfinete a Katie,
a empregada de cor que cuidava do vestiário feminino.
Ela estava ocupada com Catherine Jones, cuja bainha
da anágua tinha se soltado.
- O que aconteceu? - perguntei.
- Meu vestido de dança - respondeu, com a boca
cheia de alfinetes. - Está a ponto de se desmanchar.
Também já o usei tanto ... - Você vai dançar hoje, aqui?
- Vou tentar.
Tinham me dito que ela queria ser bailarina profissi-
onal, que havia estudado em Nova York.
- Posso ajudar? - perguntei.
- Não, obrigada, a não ser que saiba costurar. Katie
fica tão aflita com estas dancinhas de sábado à noite
que não presta para nada, a não ser catar alfinetes.
Mesmo assim, muito obrigada, meu bem.
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Como eu não estava querendo descer, sentei-me ao


lado de Katie e fiquei ajudando na montagem do
vestido, que durou bastante. Fiquei me perguntando se
Charley teria ido para casa; se eu ainda o encontraria;
se o fato de ele ter visto o que eu vi o libertaria de
qualquer compromisso ético. Finalmente, quando
resolvi descer, ele não estava mais no clube.
Salão de dança apinhado; as mesas tinham sido
retiradas e todos dançavam animadamente. Naquela
época, logo após a guerra, todos os rapazes sulistas
tinham a mania de dançar jogando os calcanhares para
os lados, a rodopiar pelo salão, sempre dentro do ritmo.
Levei horas treinando em casa para aprender esse
passo; em geral havia vários garotos sem namorada,
cheirando a gim feito em casa e prontos para bailar;
sistematicamente eu recusava a bebida que eles me
ofereciam, mas aceitava todos os convites de dança.
Garotas como Catherine Jones, no entanto,
continuavam aceitando um trago aqui, um trago ali,
escondida na parte escura da varanda.
Eu gostava de Catherine Jones; ela parecia ter mais
energia do que as outras garotas da cidade, embora tia
Musidore torcesse o nariz sempre que ela aparecia em
casa de carro para me levar ao cinema ou a uma festa.
Os comentários da minha tia eram sempre os mesmos,
que "hoje em dia basta ter um pouco de dinheiro para
entrar em qualquer lugar”. A família dela tinha
enriquecido há pouco tempo, mas o fato de ter sido
considerada emergente dava a Catherine uma
vantagem em relação às outras. Exemplo tipico era o
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fato de todas elas quererem ir para Nova York para


estudar ou trabalhar, mas a única que tinha realmente
ido, e estudado dança, era Catherine. Fosse um número
clássico, fosse alguma dança popular, ela sempre era
convidada para dançar nas festas de sábado à noite.
Certa vez chegou a escandalizar a direção do clube,
fazendo uma exibição de shimmy, mas foi perdoada
porque todos concordaram que ela estava tão bêbada
"que não sabia o que estava fazendo”. Eu admirava seu
espírito combativo e estava curiosa para ver o que ela
iria dançar para nós naquela noite.
À meia-noite em ponto a orquestra parava, pois era
proibido dançar no domingo; portanto, às onze e meia
um fraseado fantasioso de pistons e baterias
anunciaram a próxima atração. Todos foram para o
salão, vindos da varanda, dos jardins ou das salas de
jogo. Uns trouxeram cadeiras, outros ficaram de pé,
procurando o melhor lugar perto do estrado
improvisado para a ocasião. A orquestra tomou posição
num plano mais baixo e assim que as luzes iluminaram
o palco, ouviram todos uma música estranha
acompanhada pelo som monótono de um atabaque.
Logo em seguida, Catherine Jones surgiu no palco, de
vestido curto e com um enorme chapéu de sol amarelo;
a dança consistia em rodar os olhos e rebolar, imitando
a malemolência dos negros. Eu nunca tinha visto nada
igual (aliás, só fui ver uns cinco anos depois); era uma
espécie de charleston ritmado por "hei! hei” e pelas
batidas dobradas da bateria, enquanto ela jogava os
braços para o alto e as pernas para o lado. Vai-se saber
onde tinha ela aprendido aquela dança.
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Aqueles que conheciam os ritmos africanos


aplaudiam freneticamente, e marcavam o ritmo com os
pés. A empolgação tomou conta do salão, e a bailarina,
incansável, marcava o som com sapateado, e a
orquestra aumentava o ritmo cada vez mais, os garçons
se entreolhavam a sorrir e a música parecia invadir os
jardins levando aquele som através da noite quente até
os pântanos. Não sei em que momento uma certa
tensão começou a tomar conta de mim. A dança não
durou mais de dez minutos, mas quando terminou, eu
ainda estava no mesmo lugar, rígida e ansiosa,
procurando naqueles rostos estranhos uma segurança
que não sabia como havia perdido.
Não sou uma mulher nervosa, muito menos de ficar
em pânico, mas naquele momento senti que se a
música não parasse eu ia ter um ataque histérico.
Alguma coisa estava acontecendo comigo, tinha certeza
disso, como sabia que algo estava acontecendo no ar,
querendo nos pegar, quase nos pegando. Quando uma
mão, sem querer, passou raspando pelas minhas
costas, quase gritei.
A música finalmente cessou. Aplausos, gritos de bis,
recusado por Catherine, agradecendo ao chefe da
orquestra e à platéia. Os pedidos continuavam mas ela
sacudia a cabeça, fingindo-se zangada. Naquele
momento, um fato estranho aconteceu. Atendendo ao
público, a orquestra tocou novamente a mesma
melodia, como se quisesse tentar Catherine a repetir o
número.
- Não ouviram eu dizer que não? - falou ela,
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zangada, dando um tapa na cara do maestro. A música


parou, seguiu-se um murmúrio geral de espanto, que
foi interrompido pelo som inconfundível de um tiro.
Todos se levantaram pois o som indicava que o tiro
fora dado a pouca distância.
Uma senhora deu um grito e uma engraçadinha
qualquer gritou:
- Vai ver o Horácio voltou para o galinheiro! -
desarmando o pânico com uma gargalhada geral. O
diretor do clube, com alguns curiosos atrás, deu uma
volta pelo jardim, mas outros pares já se ocupavam em
dançar a valsa da despedida, se preparando para voltar
para casa.
Suspirei aliviada, louca para ir embora. Enquanto
um dos meus acompanhantes foi buscar o carro, pedi
ao garçom que apanhasse meus tacos de golfe lá no
vestiário. Fiquei esperando na varanda, me
perguntando se de fato Charley Kincaid tinha ido para
casa.
De repente, notei uma estranha agitação pelo clube.
Algumas garotas gritavam:
"Oh, meu Deus!" por todos os lados, e o som surdo
de passos subindo e descendo as escadas, saindo e
entrando pelas portas. Uma garota surgiu não sei de
onde e desmaiou na minha frente; quase em seguida
uma outra também desmaiava, enquanto eu ouvia um
homem berrar ao telefone. Um rapaz pálido e
descabelado apareceu na varanda e segurou no meu
braço.
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- O que aconteceu? - gritei. - Um incêndio? O que


aconteceu?
- Marie Bannerman está morta lá em cima no
vestiário. Levou um tiro na garganta.
O resto da noite foi uma série de visões que não
pareciam ter relações entre si, mas que se sucediam
como cenas de um filme mal montado. Um grupo
discutia, ora em voz baixa, ora excitado, falando das
providências que precisavam ser tomadas em relação a
todos os garçons negros, "até ao velho Moses",
oscilando a pena entre a prisão perpétua e a forca. Que
um "crioulo" tivesse assassinado Marie Bannerman era
uma verdade tida por eles como indiscutível, e quem
dissesse o contrário seria considerado suspeito. A maior
suspeita era Katie Goldstein, a servente negra que tinha
descoberto o corpo e em seguida desmaiado. Achavam
também que talvez fosse "aquele crioulo que anda
fugido lá por Kisco". Enfim, qualquer preto que
estivesse à mão.
Em meia hora, todos começaram a se retirar, cada
qual dando sua contribuição criminológica sobre o
acontecido. O crime deu-se com o revólver do xerife
Abercrombie, que pendurara a cartucheira e a arma no
vestiário, depois de trocar de roupa à vista de todos,
antes de descer para o baile. A arma havia
desaparecido - aliás alguns voluntários procuravam por
ela. O veredicto do médico foi "morte instantânea", pois
a bala fora acionada a pouca distância da vítima.
Minutos mais tarde, um garoto subiu na plataforma
e anunciou num tom grave que Charley Kincaid acabara
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de ser preso. - Prenderam Charley Kincaid!


- Charley Kincaid!
- Que absurdo, logo um rapaz branquinho como ele!
- É a maior loucura que eu ouvi na vida!
Outro jovem concordou, abalado como todo mundo
com aquela notícia.
- Ele não estava aqui embaixo quando Catherine
Jones dançava no palco, aliás, ele disse que estava no
vestiário masculino. Marie Bannerman havia comentado
que eles tinham brigado e que ela estava com medo.
Outro silêncio mortal.
- Mas é a coisa mais absurda que eu já ouvi na
vida! - repetiu uma voz.
- Charley Kincaid!
O jovem narrador ficou em silêncio por um instante.
- Ele flagrou Marie beijando Joe Gable - acrescentou
o informante. Não consegui me conter: - Eu estava com
ele na hora. O que é que tem isso? Ele não ficou com
raiva.
Todos olharam para mim, espantados, confusos e
tristes. Ouvi passos e virei a cabeça em direção à
escada. Charley Kincaid, branco como cera, vinha
acompanhado do xerife e de outros homens.
Atravessaram a varanda e desapareceram na escuridão
da noite. Logo, o barulho de um carro arrancando.
Ao ouvir a sirene da ambulância, chamei meu
acompanhante, do grupo da varanda. - Vamos embora -
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disse. - Não consigo suportar mais essa história. Ou


você me leva pra casa ou eu arranjo uma carona com
outra pessoa.
Mesmo sem muita vontade, ele apanhou meus tacos
de golfe e foi comigo em direção ao carro, enquanto a
escura ambulância entrava pelo portão principal,
desenhando uma sombra dentro da noite estrelada.
Depois daqueles primeiros dias de confusão,
protestos em favor de Charley Kincaid.
O jornalzinho de Davis e outros jornais do estado
publicaram suas reportagens: Marie Bannerman morreu
no vestiário feminino do Clube Davis, vítima de um tiro
à queima-roupa, às 11h45 de sábado à noite. Várias
pessoas ouviram os tiros que saíram do revólver do
xerife Abercrombie. Na hora do crime, o xerife estava
no salão de dança, como podiam testemunhar muitos
dos presentes. A única pessoa no andar de cima, na
hora do crime, era Charley Kincaid, noivo da Srta.
Bannerman, com quem havia brigado naquela mesma
noite, segundo várias testemunhas. A própria Srta.
Bannerman comentou a briga que teve com o noivo,
dizendo que estava com medo dele e só se encontraria
com ele quando estivesse mais calmo. Charley Kincaid
declarou que estava no vestiário masculino quando
ouviu o tiro, onde realmente ele foi encontrado. O
acusado negou que tivesse discutido com a vítima, e
acrescentou que, ao ouvir o tiro, pensou que fosse
alguém tentando matar "um gato ou uma raposa”.
Qual a razão de Charley Kíncaid ter ficado no
vestiário? Nenhuma, simplesmente estava cansado e
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resolveu esperar a hora em que a Srta. Bannerman


resolvesse ir embora.
O corpo foi descoberto por Katie Goldstein,
empregada negra, que desmaiou em seguida. Ao voltar
da cozinha onde fizera um lanche, Katie encontrou a
Srta. Bannerman encharcada de sangue no chão do
vestiário, já morta.
A polícia, assim como os jornais, deram a maior
ênfase à topografia do segundo andar do clube. Eram
três peças seguidas, uma para homens, outra para
mulheres e, entre as duas, um pequeno depósito para
tacos de golfe e material de limpeza. A entrada e saída
para os vestiários eram feitas por esse quarto, que
também era ligado por duas escadas, uma para a
cozinha e a outra para o salão. Segundo testemunho
dos três cozinheiros negros e um servente branco,
ninguém tinha usado a escada da cozinha, a não ser
Katie Goldstein.
Este é o resumo das reportagens, segundo minhas
lembranças; sei também que Charley Kincaid foi
acusado do crime e preso. Outros suspeitos, negros na
maioria, foram detidos por instigação dos amigos de
Charley, mas como nada conseguiu ser provado contra
estes infelizes, acabaram sendo soltos. Algumas
pessoas levantaram rumores de que Marie teria se
suicidado e sugeriram várias e engenhosas soluções a
respeito do desaparecimento da arma.
Hoje, depois que Marie Bannerman foi tão selvagem
e violentamente assassinada, seria muito fácil para mim
dizer que sempre acreditei na inocência de Charley
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Kincaid. Infelizmente, isso não é verdade. Apaixonada


por ele na época, mesmo assim acreditei então que ele
a tivesse matado. O fato de eu ter descoberto a
primeira prova que eventualmente o libertou não foi
devido à fé inabalável que eu depositara na sua
inocência, mas a uma estranha vivência que, nos
momentos de grande excitação, deixam certas cenas
marcadas na memória, particularmente o detalhe que
mais me chamou a atenção na época.
Numa tarde de julho, quando o julgamento de
Charley estava na ordem do dia e todas as provas
pareciam incriminá-lo, pus-me a divagar e a pensar nos
outros incidentes que ocorreram na noite fatídica.
Alguma coisa que Marie Bannerman havia me dito no
vestiário voltava à minha cabeça de tempos em tempos,
me perturbando; não que achasse o fato em si
importante, mas o que maís me intrigava era o fato de
não conseguir me lembrar do que ela tinha dito. Era
como se, durante alguns instantes, ela tivesse aberto
uma cortina e depois fechado-a rapidamente, dando
uma visão fantasmática dos horrores que aconteciam
na cidade: velhas brigas, escândalos, crimes sem
solução etc.
Perturbava-me também um outro incidente, embora
de menor importância. Depois da tragédia, a confusão
reinante fez com que esquecessem a estranha atitude
de Catherine Jones, ao se recusar a bisar a dança e
chegando ao cúmulo de dar um tapa no regente da
orquestra. Havia uma discrepância entre a boa vontade
do maestro e a fúria da recusa de Catherine que
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persistia na minha cabeça. Não teria sido um ato


espontâneo, ou melhor, não me pareceu um ato
espontâneo. Apesar de Catherine ter bebido, e das
pessoas terem considerado aquele tapa como uma
mera manifestação etílica, a cena não me saia da
cabeça. Resolvi fazer umas investigações por conta
própria; consegui que um dos meus amigos me levasse
até o maestro.
O nome dele era Thomas, negro bem escuro, muito
franco, bastante musical, e não levou mais de dez
minutos para que eu descobrisse que ele também tinha
ficado espantado com o tapa. Ele a conhecia há anos,
desde que Catherine era menina; ensaiaram juntos
várias vezes. Verdade é que dias depois ela viera lhe
pedir desculpas.
- Aliás, eu sabia que ela viria se desculpar; é uma
menina de ouro. Minha irmã Katie foi babá dela, desde
que ela nasceu.
- Sua irmã?
- Katie, que hoje é servente do clube, Katie
Goldstein. A senhorita deve ter lido sobre ela nos
jornais, no caso Kincaid ... Foi ela quem descobriu o
corpo de Marie Bannerman. - Quer dizer que Katie foi
babá de Catherine?
- Foi, sim, senhora.
Ao voltar para casa, estimulada pelas perguntas,
mas não muito satisfeita com as respostas, virei-me
para meu companheiro:
- Catherine e Marie eram boas amigas?
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- Eram, sim - respondeu ele, sem hesitar. - Todas as


garotas de Davis se dão bem entre si, a menos que
uma esteja querendo tirar o namorado da outra ... aí,
sim, sai briga na certa.
- Por que será que Catherine não se casou até hoje?
Ela deve ter muitos pretendentes.
- Tem e não tem. Ela só gosta de alguém por uns
dias, logo enjoa. O único cara que ela gosta mesmo é
Joe Gable.
E então uma cena se formou diante dos meus olhos
com a rapidez de um raio.
Trêmula pelo impacto, me lembrei das palavras que
Marie Bannerman trocara comigo:
"Quem mais estava com você?" Em seguida tive a
impressão de ter visto, num átimo de segundos, um
vulto que sequer consegui identificar quem fosse. Como
destas imagens que a gente vê pelas ruas e mais tarde
reconhece ser de um amigo. Pelo canto dos olhos, achei
ter visto uma figura que poderia ter sido Catherine
Jones.
O estranho é que, na hora do tiro, ela estava lá
embaixo diante da platéia. Seria possível que Katie
Goldstein, uma senhora de mais de cinqüenta anos,
conhecida e admirada como babá por três gerações,
conseguiria matar uma garota a sangue-frio, somente
para obedecer as ordens de Catherine Jones?
"O estranho é que na hora do tiro, ela estava lá
embaixo diante da platéia”. Esta frase ecoou na minha
cabeça a noite inteira, tomando formas e variações das
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mais incríveis, dividindo-se em períodos, segmentos ou


palavras. "O estranho é que, na hora do tiro, ela estava
lá embaixo diante da platéia”. Que tiro? O tiro que todos
nós ouvimos ... Quando se deu esse tiro?
Às nove horas da manhã do dia seguinte, coberta de
maquilagem para encobrir minhas olheiras e minha
palidez devido à insônia da noite anterior, fui até o
escritório do xerife.
Entretido com sua papelada, Abercrombie ficou
surpreso quando me viu.
- Foi Catherine Jones que cometeu o crime - disse
eu, tentando dominar meu estado de nervos. - Ela
matou Marie Bannerman quando o tiro não podia ser
ouvido, quer dizer, quando a orquestra estava tocando e
as pessoas arrastavam as cadeiras para assistir ao
show. O tiro que a gente escutou foi disparado por Katie
quando a música parou, a fim de fornecer um bom álibi
para Catherine!
Eu tinha razão - hoje em dia todos sabem que eu
tinha razão -, mas naquela semana, até conseguirem
arrancar a confissão de Katie Goldstein, ninguém
acreditava em mim. Nem Charley Kincaid ousou
acreditar que isso pudesse ser verdade.
Quais as ligações entre Catherine Jones e Joe Gable
ninguém conseguiu até hoje precisar, mas o fato é que
ela havia decidido acabar com o relacionamento
clandestino de Marie e Joe. Naquela noite, Marie entrou
por acaso no vestiário e encontrou Catherine se
preparando para a dança; mais uma vez a história não
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ficou bem clara, mas parece, segundo Catherine, que


Marie sacou um revólver e a ameaçou, e quando as
duas se atracaram, o revólver disparou. No entanto,
apesar de eu gostar de Catherine, devo dizer que só um
júri muito burro e venal poderia condená-la a apenas
cinco anos. Por isso, hoje em dia, sempre que eu e meu
marido vamos a um show de música, ficamos
procurando por Catherine por entre as coristas.
Depois do tiro, ela provavelmente agiu com grande
rapidez. Mandou que Katie esperasse o final da sua
performance para só então dar o tiro e em seguida
esconder o revólver; na pressa, Catherine com certeza
esqueceu de especificar onde escondê-lo. Katie,
enlouquecida de preocupação, obedeceu às instruções
cegamente, mas até hoje não conseguiu se lembrar
onde colocou o revólver. Um ano depois, quando eu e
Charley estávamos em lua-de-mel em Hot Springs, é
que descobrimos a arma dentro do saco de tacos de
golfe. O saco devia estar perto da porta do vestiário e
Katie deve ter enfiado o revólver na primeira coisa que
viu pela frente.
Hoje, moramos em Nova York. Detestamos cidades
do interior, e apesar de diariamente lermos sobre as
ondas de crimes nas cidades grandes, achamos que
uma onda é alguma coisa de tangível que pode ser
dominada. O que eu tenho medo são das correntes
subterrâneas, o secreto fluxo e refluxo das marés, as
formas secretas das coisas que nadam pela escuridão
opaca, submersas nas profundezas do oceano.
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Tradução de Alves Moreira