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EDITORIAL

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2 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 73, out. 1999

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O PAI E O MESTRE NA TRANSMISSÃO DA PSICANÁLISE

Roland Chemama inicia sua exposição, proferida na APPOA em agos- to, abordando a instituição psicanalítica, em que freqüentemente nos deba- temos com as questões políticas – se ela é ou não democrática, etc. Partin- do deste ponto, nos questiona como poderíamos falar dela em termos, real- mente, psicanalíticos ultrapassando o discurso político. Primeiramente, ele entende que é preciso repartir as nossas experiências, compreendendo que na psicanálise, como entendemos, não há garantias. Visto que essa ausência de garantias é muito presente, o sujeito reage a essa ausência

tendendo cada vez mais a estabelecer com o psicanalista uma relação em que possa se tranqüilizar, através da busca de um mestre ou de um pai. Dito de outra forma, como a psicanálise leva o sujeito a autorizar-se por si mesmo, a não esperar do outro a nomeação, há o risco de recuar e se refugiar ainda mais perto de um pai ou de um mestre. Chemama diz que tornou-se banal considerar a transmissão da psi- canálise como uma filiação – por exemplo, um analista é analisado por um outro, que se analisou com um terceiro e assim por diante – e que isso representa uma linhagem do grande pai, com seus filhos, seus netos, etc. Para ele não tem sentido, porque se algo se algo se transmite na psicaná-

lise, este algo não é uma herança

É claro que cada psicanalista produz a

partir de sua experiência alguns significantes através dos quais se orienta,

mas eles não o ajudarão mais no trabalho da análise do que o próprio analisante. Lembra que Freud tentou conferir a alguns de seus alunos um lugar de herança, pelo menos àqueles que estavam perto dele, como Jung,

Ferenczi – o que nos faz pensar que queria transmitir uma herança como

se pode legar a um filho, genro

não obteve sucesso. Já, Lacan, por muito tempo, ressaltava pelo menos no plano do significante que ele concedia um lugar às pessoas em função do seu trabalho, salvo, talvez, no final de sua vida. Segundo Chemama essa é a primeira maneira de interrogar essa metáfora do pai,mas há outras.

Mas aponta que Freud, em relação a isso,

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Poderíamos dizer, por exemplo, que o que transmite um pai é a cas-

tração, ou seja, não é um “bem” e sim uma falta. A cura seria a experiência da castração e como o analista é um ser humano, como todos os outros, ele passaria o tempo todo tentando evitar a castração. A questão é saber o

que pode impedir esse tipo de escapatória

que é uma falta que o constitui, é preciso saber se o reconhecimento desta falta deve permanecer ligada a uma figura particular, no caso o analista

Mas, se a análise foi levada bastante longe, o sujeito deveria antes reco- nhecer que a falta é ligada à linguagem. E, como esse papel da linguagem,

da lei simbólica, nos comanda, a referimos a um pai

Lacan, quando este diz que podemos passar sem um pai se nos servirmos dele, ou melhor desta linguagem, desta falta. Chemama avança para a questão do mestre, dizendo que, no fundo,

o poder do pai seria para nós um modelo para pensar o poder do mestre,

mas relembra Lacan, e diz: “é o próprio significante que fala, o próprio significante, por ele mesmo, que tem um valor de comando”. Portanto, esse

é o trabalho da psicanálise, segundo nosso convidado, quer dizer encon-

trar o significante que tenha o valor de comando para o sujeito. É claro que nem todo significante tem esse valor e respeito, são só alguns que funcio- nam de uma maneira mais evidente como significante mestre. O que a psicanálise mostra, afirma o expositor, é que o sujeito não funda sua autoridade, senão se referindo a um significante que não lhe é ligado substancialmente. Dito de outra forma, um sujeito pode assumir a responsabilidade de sustentar um significante, em um certo momento, por- que todos esses significantes que fazem autoridade para ele tem essa di- mensão, entretanto, é preciso que outro os assuma. Dizer dessa forma é dizer que o mestre não mantém o domínio de sua própria natureza, e por- tanto, ele não é mestre senão numa relação fundada sobre um significante que, concomitantemente, organiza também o lugar do outro, ou pelo me- nos o lugar de um outro significante. Para se dispor do significante mestre é preciso que haja um outro que reconheça este lugar. É preciso que se dife- renciem estes dois lugares, o do mestre e do outro. Isso permite pensar

Se o sujeito, numa cura, sentir

Eis aí a questão. Cita

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que não se está forçosamente instalado num lugar ou noutro. Às vezes

podemos ser levados a ter uma palavra que mostre autoridade e às vezes

a reconhecer uma autoridade. Em qualquer situação pode haver uma di-

mensão desse tipo. É importante pensar na flexibilidade entre ambos. Com

a teoria dos discursos, Lacan compôs essa teoria dos lugares. Mas não

podemos esquecer que um lugar de dominante pode ser um significante mestre e, também, ser um sujeito de saber, “o pequeno a”. Para nós pen- sarmos a questão do mestre, devemos reintegrá-la numa dimensão em que outra coisa, além de um comando pode vir. Essas duas idéias, o reconhecimento da dimensão necessária do outro e a possibilidade de circulação do que vem no lugar do mestre, pode ajudar o analista a ter uma concepção mais justa da questão do mestre.

Por exemplo, numa instituição psicanalítica pode acontecer que o saber esteja na posição de domínio, e nem por isso vamos rejeitar este saber; até porque compreendemos que este pode ocupar este lugar. O importante é não deixar instalar-se o poder daqueles que sabem, como se, uma vez por todas, houvesse aqueles que sabem e os que não sabem. Na realidade social, esses lugares do pai e do mestre se encontram fragilizados. O pai é menos investido na família contemporânea e o mestre denunciado com bastante freqüência – ou seja, hoje, reconhecemos no

social que quando algo vem perturbar a igualdade, a simetria

um mestre, e até mesmo todo significante mestre

mos isso nos reagrupamentos dos psicanalistas? Alguns grupos tentam nivelar todos os discursos, pôr exemplo, com essa idéia de organizar a discussão de uma maneira matematicamente burocrática, porque sempre alguns podem ter algo a dizer mais do que outro; ou então os psicanalistas vão criticar tudo o que possa se parecer com o mestre, vão criticar esse ou aquele grupo dizendo: “os membros permanecem muito mais ligados ao fundador pôr uma transferência ou até mesmo pôr uma transferência de sugestão. O que, paradoxalmente, evoca mais ainda o discurso do mestre. No social, não se deveria adotar uma posição de queixa, pois, se aí há um declínio do nome-do-pai, não vamos bancar os ridículos ao desejar um

enuncia-se

E será que, reconhece-

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retorno, um retrocesso. E, também, não vamos criar novas leis para a auto- ridade paterna, ou exaltar o patriarcado. Aquele que critica o mestre pode estar fazendo com o objetivo, mais ou menos consciente de assegurar seu domínio. E aquele que quer matar o pai se engana, pois fazer do pai o responsável por aquilo que é para nós impossível, quando o impossível depende simplesmente da lei da lingua- gem, fica evidente que aquele que critica o pai reforça a criança no pai. Luzimar Stricher

PERCURSO DE ESCOLA Estão abertas as inscrições para o Percurso Turma V período de funcionamento de 2000 a 2002, seis semestres.

Programa

Primeiro Semestre – Eixo O Inconsciente

Seminários:

O

Inconsciente em Freud

O

Inconsciente em Lacan

Textos Clínicos sobre O Inconsciente

Lingüística

Segundo Semestre – Eixo Édipo e Castração

Seminários:

Édipo e Castração em Freud Édipo e Castração em Lacan

Textos Clínicos sobre Édipo e Castração

Antropologia

Terceiro Semestre – Eixo Narcisismo e Identificação

Seminários:

Narcisismo e Identificação em Freud Narcisismo e Identificação em Lacan Textos Clínicos sobre Narcisismo e Identificação

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Filosofia Quarto Semestre – Eixo Sintoma Seminários:

Sintoma em Freud Sintoma em Lacan Textos Clínicos sobre o Sintoma Estética

Quinto Semestre – Eixo Transferência Seminários:

Transferência em Freud Transferência em Lacan Pequenos grupos: Psicanálise de Crianças, Neurose, Psicose

Sexto Semestre – Temas Cruciais da Psicanálise Seminários:

Temas Cruciais da Psicanálise História da Psicanálise Pequenos grupos: Psicanálise de Crianças, Neurose, Psicose

Inscrições abertas até o dia 1º de Dezembro. Maiores informações na secretaria da APPOA ou com os coordena- dores do Percurso:

Eda Tavares: (51) 3438275 Mário Corso: (51) 3317649 Marta Pedó: (51) 3281003 Roséli Cabistani: (51) 3111757

HOME PAGE Ultrapassadas as fases de criação e implantação da home page, começa a se organizar uma comissão que se encarregará de dar continui- dade ao trabalho de permanente atualização de nossa página. Tendo em conta que a home page é um veículo de informação da APPOA, solicitamos a colaboração de todos os responsáveis por ativida-

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des, bem como às demais Comissões, que encaminhem à Comissão da home page as renovações de material já inserido, que se façam necessári- as, ou mesmo material novo que julguem ser interessante introduzir em nossa página. Correções e sugestões, por parte de todos, também serão muito bem vindas. Além dos acessos já tradicionais para remessa de material – fax 333-7922 e e-mail appoa@appoa.com.br – poderá ser utilizado nosso novo endereço, diretamente conectado à home page: sugestoes@appoa.com.br.

NOTÍCIAS QUE ESTÃO FALTANDO

1. Jornada de cinema – Ana Gageiro

2. Richard John – Edson Sousa

3. Lançamento livro Edson/Alfredo – Edson Sousa

4. Jornada de novembro – Eventos

5. Congresso de Cuba- Robson Pereira

6. Congresso do Rio de Janeiro – Maria Cristina Poli

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1.Apresentação - Gerson Pinho

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CHEMAMA, R. Onde se inventa o Brasil?

2. Texto Ana Maria Costa

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CHEMAMA, R. Onde se inventa o Brasil?

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CHEMAMA, R. Onde se inventa o Brasil?

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A NEUROSE OBSESSIVA E O OTIMISMO

Conceição Beltrão

N esse artigo, trago alguns elementos extraídos de minha experiên- cia clínica com essa forma de neurose. Escolhi trabalhar o assunto através do conto “Cândido, ou o Otimismo”, de Voltaire, escrito em

1758, ao invés de descrever fragmentos de uma análise. Entretanto, por meio do conto, examinarei formações discursivas similares as que encon- tro na clínica e me amparo nessas para desenvolver o presente texto. Iniciando, então, pelo conto, destaco o personagem Pangloss, filóso- fo e preceptor de Cândido, o herói. Mestre Pangloss professa ser esse o melhor dos mundos possíveis e de acordo com isso instrui seu pupilo. O autor alia a graça à ironia, ao tecer sua crítica ao colapso social, político, religioso e aos sistemas filosóficos vigentes, no momento do ad- vento do individualismo e da moderna racionalidade. Através do relato o leitor acompanha a mudança subjetiva de Cândido e a continuada imperturbabilidade de Pangloss. No enredo, as mazelas de Cândido come- çam quando ele é expulso do Castelo de Thunder-ten-trockh, após ter su- cumbido aos encantos da Srta. Cunegundes, filha do barão. Mas esse mundo acaba ruindo devido a invasões e Pangloss inicia também suas peripécias. Dá-se uma seqüência de situações bizarras, nas quais, entre encontros e desencontros do mestre e do aluno, procuram Cunegundes mundo a fora. Para Cândido, a eterna amada continua angelical, mesmo sendo dada a veleidades e usar de sua sensualidade e beleza para usufruir dos benefíci- os de favorita de um Cardeal, de um rico judeu e de um Mandatário na Colônia espanhola. E, mestre Pangloss, após ter perdido uma orelha e par- te do nariz, em conseqüência de contágio venéreo, e de ter sido esfolado pela Inquisição, continua professando viver no melhor dos mundos. A esse grupo, se agregam outros personagens que são assaltados por um franciscano, enganados por um jesuíta do Novo Mundo, perdem ingenua- mente as riquezas ganhas no Eldorado e acabam jantando no Carnaval de

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Veneza, com reis sem coroa. Cândido encerra sua saga mudando sua vi- são sobre o otimismo e o amor e se volta para o trabalho. Junto com ele, Cunegundes se transforma numa excelente pasteleira. Mas Pangloss, im- passível, apesar da ruína de seu mundo e decrepitude de seu corpo, conti-

nua firmemente ligado ao seu primeiro sentimento, pois diz ser um filósofo

e não lhe convir se desdizer. E de acordo com o personagem, a harmonia

pré-estabelecida deve ser sustentada, e para tal, existem razões suficien-

tes.

Cândido é o contraponto de Pangloss, por sua capacidade de se surpreender sem se fechar em pré-julgamentos ou sistemas. Pangloss, por seu lado, se mantém aferrado nos seus sistemas e em seu discurso jamais desvela o menor indício de ser atingido por qualquer coisa que lhe aconte- ça. Por exemplo, Cândido fica estarrecido pelo fato de seu mestre, um ho- mem que ele considera tão bom, não ter salvo de afogamento um de seus benfeitores. Mas Pangloss, paralisado, não estende a mão e alega que isso também não podia ser alterado no melhor dos mundos. As expressões do pensamento de mestre Pangloss conservam sua pertinência e presença nos casos clínicos da atualidade. Trata-se da fala redonda (sem brecha) e uniforme, cujas lacunas advindas das formações do inconsciente são preenchidas por razões. Por vezes, fico tentada a me deixar convencer que aquilo que é dito está “pleno de razões suficientes”. Outras vezes, são relatos nos quais nem as lembranças da infância esca-

pam de ter seu curso justificado. Deparar-se com a imperturbabilidade não me parece uma tarefa simples no cotidiano da clínica. Nessa formação discursiva, o mundo está de antemão pronto, o inesperado parece não existir

e já que ocorre, mesmo assim, não surpreende. Como no caso do sonho

pré-monitória, trabalhado por Freud, a incerteza frente à novidade é apaziguada por uma construção a posteriori de um saber antecipado, pro- curando desfazer o efeito de surpresa e a emergência do desejo. Esse tipo de formação discursiva dá o tom às sessões de análise, nas quais o analisante procura domesticar as palavras da analista ao dizer que já sabia que essas seriam ditas ou ao pedir justificativas ou razões para uma inter-

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pretação. Pode ser argumentado que se o analisante busca uma justificati- va para a fala do analista é porque não houve eficácia na intervenção. Con- cordo com essa possível objeção. Entretanto, nesses casos isso não dá conta do que está em questão. O personagem Cacambo, criado de Cândido, referindo-se à visão de mundo do mestre Pangloss, diz: “O otimismo é a raiva de sustentar que tudo está bem, quando se está mal”. A grosso modo, o otimismo está pre- sente na simples crença da existência do amanhã, na possibilidade da procrastinação. Dessa forma, qualquer coisa pode ser postergada e, até sua efetivação, o mundo e os movimentos humanos estarão supostamente paralisados e não advirá nenhuma conseqüência nesse intervalo de tem- po, como se o mundo parasse. O otimismo também está presente na ficção do encontro com o objeto de desejo, caso contrário isso não seria catapultado para o futuro. Nessas circunstâncias, o futuro é tranquilizador, pois uma vez que algo pode ser projetado para mais adiante, não precisa acontecer hoje o imaginário enfrentamento com o perigo supremo do desejo ou da perturbação, tida aí como a desmedida (hybris). O otimismo também está presente no imaginário fechamento dos buracos corporais e psíquicos, do corpo fantasmático, como se fosse possível colocar buchas em zonas erógenas. Também é preciso uma boa dose de otimismo para considerar que a razão possa dar conta de um controle efetivo sobre os processos do inconsciente. De acordo com essa perspectiva, não se trata da operação do recalcamento no fato de dar razões ou pedir justificativas para o analis- ta, mas uma operação consciente e um esforço deliberado de manter a falha escondida. Parece-me que esse é um dos pontos decisivos a ser enfrentado no trabalho analítico. Ou seja, trabalhar com o elemento transferencial que viabilize ao neurótico obsessivo poder contar sobre aqui- lo que deliberadamente esconde. Quando isso se dá, o fantasma já está mostrando muito bem a ponta de suas orelhas. Esse é um dos primeiros passos e o não menos difícil, para fazer uma abertura na imperturbabilidade que cobre a castração. Mas o que é a imperturbabilidade? No discurso de pacientes em aná-

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lise, venho escutando essa forma de otimismo como um dos últimos recur- sos quando o sintoma no corpo, no trabalho ou no sexo não permite mais sustentar a perfeição de seu mundo e em outros casos, quando ocorre o profundo temor que ele, o paciente, ou algo venha a falhar. Mesmo procu- rando manter tudo sob controle, o neurótico obsessivo se curva ao real, na evidência de sua angústia, cuja emergência o faz vir à análise. Mestre Pangloss, por exemplo, não chegava nesse ponto, ao aferrar-se delirante- mente ao otimismo. Freud, que isolou a neurose obsessiva como uma patologia especí- fica, aponta, diversas vezes em sua obra, para as dificuldades do trabalho com a mesma. Pretendi então trazer uma face dessas dificuldades, e que por vezes passa desapercebida, pois o neurótico obsessivo é classicamen- te tido e havido como macambúzio, taciturno, avarento e calculista. O oti- mista é monoteista na medida em que busca uma referência e garantia universais e dessa forma encontra-se numa linha direta com Deus, no tra- balho de provar que o mesmo não falha, que o pai nunca errou e que o mundo não vai mudar, e para isso oferece o seu serviço. O imperativo é estar sempre construindo a sustentação imaginária do pai.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA VOLTAIR, Candide ou lóptimisme et autres contes. Paris: Pocket, 1989.

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A TRISTEZA OBSESSIVA

Lúcia Alves Mees

O s afetos não têm muito interesse na psicanálise, desde que Lacan

postulou que a angústia era o único que importava e que os de-

mais eram enganosos (Lacan, s/d.c). Porém, os afetos têm mais e

mais receptividade na cultura, principalmente, a tristeza ou depressão.

Quanto mais se veiculam informações sobre estes afetos (puxadas por um discurso científico-psiquiátrico, o qual define uma ação terapêutica a partir da substância mais nova e dita revolucionária no mercado farmacêutico) mais se sedimenta um discurso que fornece aos neuróticos um conteúdo possível para os sintomas. Refiro-me aos que tomam emprestado dai um viés de expressão sintomática sem padecerem do que se descreveria como uma melancolia típica. Como disse Freud (1975a) a melancolia pode apa-

recer em qualquer quadro clínico 1 . Pode, por

rose obsessiva, na qual é comum um discurso de cunho melancólico de auto-depreciação e auto-acusação de todas as baixezas. A semelhança se dá porque o melancólico, assim como o obsessivo, é antes de tudo um apaixonado pela miséria. A tristeza melancólica, mais do que simples “de- pressão”, é uma forma de paixão. A condenação melancólica/obsessiva é de caráter ético-moral ; ele está certo ou errado, as coisas são boas ou más, e não tanto da ordem do agradável ou desagradável (Andre, 1995). O obsessivo se pergunta se deve ser absolvido ou não, sendo que aguarda que não e, ao contrário, anseia por grandes punições. Portanto, não é incomum que o obsessivo chegue ao consultório falando em “depressão”, afinal tanto se diz sobre essa hoje em dia. Esse discurso vigente pode lhe

exemplo, associar-se à neu-

1 Eu diria inclusive que a formulação de Freud neste texto descreve melhor uma patologia do luto mais próxima da neurose, do que da melancolia propriamente dita. Entretanto, a leitura desse texto freudiano é bastante controverso, levando, por exemplo, Allouch (1995) a dizer que Freud partiu de um pressuposto médico-psiquiátrico. Segundo Allouch, Freud se ba- seou em afetos e sintomas (e não na clínica) para descrever o quadro de melancolia, o que, acredita, impõe a necessidade de uma revisão das colocações freudianas.

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cair bem, pois lhe permite que venha falar de forma impessoal, genérica, o

que tanto lhe compraz. Ele descreve inibições, falta de vontade para fazer o que tem de ser feito, stress, “isso que todo mundo sente”, diz ele, escon- dendo-se na pluralidade. Escutando um pouco mais, a aparente “depres- são” dá lugar à melancolia obsessiva: não pode deixar de estar prostradamente apaixonado por não fazer/não ser nada. A identificação a um objeto desprezível o espreita. Quanto menos falicisado é esse objeto, mais degradado parece estar o desejo. Lacan (s/d.b), por intermédio de Hamlet, fez notar que a transformação (mais que a perda) do desejo da mãe do personagem shakespeariano em um gozo obsceno, acarreta uma melancolização no filho. Aos olhos de Hamlet, o objeto de desejo de sua mãe é destituído de qualquer prestígio fálico e aparece, então, não como falo, mas como objeto a, indigno de qualquer idealização. “O drama de Hamlet, é o drama do desejo, o drama de que há um objeto digno e um objeto indigno” (Lacan, s/d.a, p.38). O desmoronamento do semblante fálico, expositor do objeto real, traz a morte deste objeto (mesmo que o sujeito morra aderido a ele) como saída ao restabelecimento da dignidade fálica. “A perda real, no entanto, só pode ser transformada em perda simbólica e imaginária pela intervenção do falo. Quando este é denunciado como podre ou pura mentira

é compreensível que o rompimento amoroso e o

) (

luto sejam impossíveis de assumir e que o sujeito se sinta condenado a se identificar com o objeto perdido,

isto é, com o objeto a como tal, e se sacrifique em seu

(Andre, 1995, p. 257).

Não é frequente que um obsessivo passe ao ato na identificação ao objeto, porém, ele encena ser o objeto degradado do Outro, de forma que a obscenidade não se aproxime desse Outro; somente de si mesmo. Desse modo, constrói a dignidade do Outro, às custas da própria condenação. Que todas as ignomínias recaiam sobre ele, supostamente assegura que o

lugar”

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objeto de desejo do Outro fique velado pelo pudor, pelo recato; pelo silên-

cio, enfim. Ou ainda, o sujeito obsessivo, interpõe o desejo impossível para abrir uma fenda reinstaladora da dignidade fálica e do desejar. Por outro lado, mesmo a interpretação do deslocamente entre de- pressão e melancolia é problemática e merece cuidado, pois, concordo, os afetos enganam. Eles enganam, e o fazem precisamente no que tange ao desejo do Outro. É na relação a este que a angústia não deixa dúvidas e, portanto, os outro afetos sim. Sobre o desejo do Outro o obsessivo nada quer saber, o que faz com que ele seja particularmente susceptível ao uso dos afetos (enquanto paixão de nada) como véu encobridor da pergunta sobre o que o Outro deseja dele. Na busca da ignorância do desejo, por outro lado, não deixa de estar continuamente às voltas com o do Outro e o próprio. Se os recursos neuróticos falham, a angústia pode aparecer de- nunciando a questão em jogo. Pode ainda sobrepor uma paixão, a qual lhe impede, uma vez mais, de acercar-se do ponto que evita, mas que não consegue abandonar. E quando o afeto lhe invade, a possibilidade de se reconhecer se desvanece. Caberia bem aqui a consideração freudiana de que aquele que tenta se curar por amor (paixão) está fechado à psicanálise (Freud, 1975b). Ao modo de cebola freudiana, o obsessivo mais aparente é o depri- mido, o de baixo é melancólico, apaixonado pelo nada, e o mais próximo do coração do bulbo é relacionado ao desejo do Outro. E haja choro, discreto,

é claro, pois a racionalidade, por outro lado, arranca-lhe do descasque da

cebola, para lhe pôr a teorizar sobre ela. E se considera-se que ao final do miolo da cebola se acha o real, os recursos defensivos da ordem de uma

racionalidade que objetivam uma simbolização total e anuladora deste re- gistro – ou as expressões afetivas que visam mascarar o desejo enquanto desejo do Outro – serão intensos. A cada parte da cebola retirada, várias outras recolocadas Mas, no fim de tudo, se os afetos enganam, não é para pôr o analista

a se proteger do engano, nem para teorizar sobre ele. Se há um engano é porque o Outro engana, o que está a ser tolerado pelo obsessivo e pelo

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analista que o escuta. E se um dos enganos é crer que aquilo que o Outro quer é o que ele deseja, o obsessivo é um forjador de enganos, ao mesmo tempo que é na fenda aberta nesse seu embuste neurótico que o analista pode encontrá-lo.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Allouch, J. (1995). Érotique du deuil au temps de la mort sèche. Paris:

E.P.E.L. Andre, S. (1995). A impostura perversa. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

Completas (Vol.14,

Freud, S. (1975a). Duelo y melancolia. In,

pp.237-255). Buenos Aires: Amorrortu Editores. (1.ed.original 1917[1915]).

Obras Completas (Vol.

Obras

(1975b). Introduccion del narcisismo. In,

14, pp. 67-98). Buenos Aires: Amorrortu Editores. (1.ed. original 1914).

Lacan J. (s/d.a). Hamlet por Lacan. Campinas: Escuta/Liubliu. (s/d.b). O desejo e sua interpretação. [mimeo.] (s/d.c) A Angústia. [mimeo.]

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NEUROSE OBSESSIVA E MEDO DE MULHER

Jaime Alberto Betts

A histeria e a neurose obsessiva são duas posições que o sujeito pode ensaiar na tentativa de responder ao enigma da diferença se- xual e de como se posicionar diante da ferida que a sexualidade

inflige no campo do Outro: não há relação sexual. A falta no Outro interroga ao sujeito sob forma de uma Demanda à qual ele tem que responder. Esta Demanda tem a forma de um mandato discordante de proibição de um lado e de outro o imperativo do Gozo do Outro. Embora histeria e obsessão sejam respostas defensivas distintas diante do Gozo – desejo de um dese- jo insatisfeito ou desejo de um desejo impossível, respectivamente – se- gundo Lacan, encontramos em Freud elementos que nos permitem dizer que a neurose é no fundo histérica e não é estruturalmente obsessiva. Na escolha histérica existe a afirmação de que há uma ferida no campo do Outro introduzida pela sexualidade e, portanto, surge o protesto histérico contra tal falha 1 , que é a impossibilidade da relação sexual decor- rente de um real que não cessa de não se escrever. Essa impossibilidade marca o caráter traumático da sexualidade humana e dá novo sentido à vivência erótica primária desprazeirosa e depois recalcada, mencionada por Freud como sendo uma condição da histeria. O desprazer é o correlato desta ausência e o fantasma de sedução passiva é apenas o intento histé- rico de obturar o real com o falo. Na relação com o outro, a histérica busca um mestre cujo saber contenha a promessa de fazer a ponte sobre o rio da diferença anatômica dos sexos e torne possível a relação sexual, assim como é vivido no amor, quando dois fazem um. Mas, num segundo mo- mento, surge o protesto e a denuncia de que o saber do mestre falha, é castrado, limitado, como Dora deixou bem claro para Freud, e sai em busca

1 Melman, C. La Racionalité comme Syntôme. Association Freudienne International, Conclusion des Journées: “Actualité de la Nevrose Obcessionelle”, 7/6/1998.

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FERRETO, A. J. Outro: instruções de uso.

de outro mestre com quem possa repetir o ciclo. A histérica deixa a palavra ao Outro como lugar do saber recalcado, mas a amnésia histérica faz com que ela não enuncie a verdade que está do seu lado e deixa ao Outro pagar o preço da impotência do saber. O elemento genuinamente recalcado é o significante perdido da feminilidade, que ocupa o lugar de objeto em seu fantasma, sinalizando esse ponto de não saber do inconsciente. Há significante, mas não é suficiente para nomear o Outro sexo. Na escolha obsessiva, a partir do núcleo histérico da seqüência desprazer e recalcamento, o sujeito se engaja num processo em que tenta controlar ou deter o que a sexualidade introduz como falta a fim de restau- rar a integridade do Outro, ou seja, de fabricar um Outro perfeito, sem fa- lhas. A estratégia obsessiva consiste em tentar uma simbolização total desta falta real no Outro 2 . Ou seja, obter uma mestria perfeita do real, desejar o impossível. Nesta operação ele procura eliminar o efeito sujeito que a divi- são significante operante na linguagem impõe. Para tanto, ele intercala um momento de prazer entre a experiência traumática e a defesa e em seguida substitui o recalcamento por dois subrogados que são a anulação e o isola- mento.

Retomando a idéia de Freud de que haveria na menina uma carência de gozo e no menino um excesso, Melman sugere que em relação à castra- ção a pequena libra de carne que seu corpo tem a mais está demais e ele deveria abrir mão desse gozo. A tese freudiana do édipo é bem esta, de que o temor à castração no menino termina por levá-lo a renunciar ao gozo com sua mãe, deixando como herdeiro do complexo um super eu rigoroso, implacável e feroz. No caso da menina, a constatação de seu déficit de gozo, a castração, é bem o que desencadearia sua entrada no complexo e deixaria na saída um super eu menos feroz. Nesse sentido, a histérica se coloca, bem ao contrário do obsessivo, como sujeito do significante e sofre na própria carne a transformação que o significante faz com a anatomia de seu corpo. A posição passiva na expe-

2 Op. Cit.

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riência traumática nada mais é que o parasitismo do significante na vida do sujeito. O prazer ativo no trauma da divisão significante do sujeito, que o obsessivo intercala, é seu mito individual, no qual ele procura se colocar no lugar de agente da ação mortificante do significante, pretendendo ser amo das leis da linguagem. Aqui encontramos o vínculo estrutural que o obses- sivo tem com o sentimento de culpa. Mas a questão é que o preço que ele paga por sustentar esta posição de domínio é o peso de uma culpa que não é sua e a pagar uma dívida interminável que não existe. E o sujeito se vê invadido por recriminações sempre que, através da revivescência, volta a experimentar o gozo sexual precoce. Em Inibições, Sintoma e Angústia (1926), Freud aponta que o desencadeador da neurose obsessiva é o medo que o eu tem de ser puni- do pelo supereu, pois este age sobre o eu à maneira de um juiz severo e rígido, obrigando ao eu a resistir às pulsões destrutivas do isso desenvol- vendo formações reativas, e o sujeito se vê mergulhado num verdadeiro inferno do qual nunca consegue escapar. Uma questão interessante se coloca aqui ainda. Em Freud o supereu está intimamente ligado à figura do pai que priva a mãe de seu falo, sendo que a intrusão paterna é vivida pela criança sob a forma de interdição e frustração. O supereu vem substituir as punições externas e internaliza a instância parental por intermédio de uma identificação. Entretanto, “Lacan concebe o supereu como a inscrição arcaica de uma imagem materna oni- potente, que marca o fracasso ou o limite do processo de simbolização. Nessas condições, o supereu encarna a falha da função paterna e esta, por conseguinte, é situada do lado do ideal do eu.” 3 Por isso, o neurótico obsessivo se esmera tanto na edificação reite- rada de figuras paternas de autoridade, divinas ou laicas, que possam fazer frente a esse Outro materno que resta não suficientemente barrado para

3 Roudinesco, E e Plon, M. Dicionário de Psicanálise. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed, 1998. Pg 746.

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FERRETO, A. J. Outro: instruções de uso.

ele. Na tentativa de simbolizar completamente o real, ele desloca deus do

real para o simbólico e isso tem por conseqüência torná-lo castrável. De- corre disto a distância e reverência com que o obsessivo se coloca em relação ao Pai.

O neurótico obsessivo constrói assim o fantasma de um pai gozador,

como tentativa de preservar a ilusão de uma exceção que escaparia à cas- tração, colocando-se deste modo ao abrigo ele mesmo da castração. Esta figura de um pai gozador apenas acentua sua impossibilidade de acesso ao desejo, pois esta figura aumenta a vertente da proibição. Isto se mani- festa na dificuldade que o obsessivo tem com as mulheres, pois elas ficam marcadas como sendo todas proibidas e exclusividade deste pai gozador. Ocorre que nesta posição as mulheres ficam para ele como sede de um gozo tão ilimitado quanto proibido, ao qual ele se sente irresistivelmente atraído Com Lacan, particularmente com o Seminário 20 Mais, Ainda, pode- mos diferenciar três formas de gozo: o Gozo do Outro, o gozo fálico e o

gozo Outro. O Gozo do Outro é aquele do Outro primordial não castrado que goza de forma absoluta de seu objeto impossível. Diante do Outro não barrado, a posição do sujeito é de puro objeto, de pura perda sacrificial do corpo que satisfaria completamente ao Outro. Trata-se de um gozo ilimita- do, onde o nome do Pai falha na interdição do desejo incestuoso do Outro materno.

O gozo fálico é o gozo possível ao sujeito. É o gozo que faz limite ao

Gozo ilimitado do Outro, sendo o plus-de–gozar que resta da interdição do Outro. É constitutivo do sujeito e ligado ao significante e sua repetição,

sendo portanto um gozo que é fora do corpo, preservando-o assim da pura perda na oferta sacrificial ao Outro.

O gozo Outro é especificamente feminino, sendo relativo ao “não

existe um não castrado” e sua conseqüência que é que a mulher está “não toda na castração”. Isso quer dizer que o limite fálico está posto, mas que um limite sempre sinaliza um para além do limite, o que somente se pode buscar se o limite fálico estiver bem amarrado.

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O que diferencia o gozo do Outro e o gozo Outro feminino é o fato de que o primeiro é sem limite e anterior à metáfora paterna e o segundo é para além do limite do gozo fálico instaurado pela metáfora paterna. Homem tem medo de mulher na medida em que nele o Gozo do Outro e o gozo feminino se confundem, não estão diferenciados. Como o neurótico obsessivo tenta uma simbolização perfeita do real, torna-se necessário em sua operação defensiva eliminar o significante da falta no Outro, ou seja, o falo simbólico. A partir desse momento, ele perma- nece na esperança de aceder ao imperativo superegóico do Outro de go- zar, ao mesmo tempo em que sente a vertigem de atingir o impossível – obter sucesso em seu intento de eliminar o real que fere a completude do Outro – e locupletar-se com o proibido. Portanto, trata de manter distância de correr o risco de ser completamente aspirado pelo Gozo do Outro. Como ele tenta eliminar o falo simbólico que sinaliza a falta no Outro, o gozo femi- nino não tem como ser diferenciado do Gozo do Outro, e o obsessivo trata de evitar o mais possível qualquer forma de toque com o mesmo. Com a falta do significante da falta no Outro, o impossível parece tornar-se possí- vel e o gozo feminino passa a ser confundido com o Gozo do Outro. O gozo feminino nessas condições faz emergir no horizonte o gozo temido do cor- po do Outro, o que pode lhe trazer dificuldades de gozar do corpo de uma mulher. Nesta conjuntura psíquica, é um sintoma comum a ejaculação pre- coce ou a impotência como defesa diante de um Outro corpo sem marca fálica.

Aqui nos re-encontramos com o texto freudiano. A mais comum e tradicional forma de medo de mulher é descrita por Freud em seu artigo de 1912 Sobre a Tendência Universal à Depreciação na Esfera do Amor. No filme “A Máfia no Divã”, há uma cena em que o psiquiatra Billy Cristal per- gunta ao chefão mafioso Robert De Niro, que está preocupado com seu desempenho sexual, por que ele não pode fazer com sua esposa o que ele faz com a amante. Ao que o mafioso responde: “Está maluco, fazer isso com a boca que beija meus filhos?” Essa forma de clivagem do objeto entre objeto de amor, a mãe dos filhos, e o objeto de desejo sexual é caracterís-

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tica da dificuldade que muitos homens, particularmente os obsessivos, que são a maioria, tem de se relacionar com a mulher. Mãe é mãe, santa, não importa se é a própria ou a de seus filhos, e sexo tem que ser com outra. É evidente o quanto fracassa aqui a proibição edípica e a mãe resta para o obsessivo como um objeto tentador. Daí o medo de mulher, driblado pela clivagem e conseqüente degradação da mulher em puro objeto sexual.

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SEÇÃO DEBATES

???

D urante a estada de Rolando Chemama em Porto Alegre, e em vári- as outras cidades de nosso estado, tivemos oportunidade de conti- nuar a discussão de temas que nos têm ocupado, tanto na prepara-

ção do Congresso Brasil-500 Anos, quanto na Jornada sobre Neurose Ob- sessiva, de novembro, além das questões relativas ao movimento psicanalíco.

O cartel preparatório da Jornada, entre outras indagações, tem situ-

ado as relativas à neurose obsessiva feminina, devido a sua maior incidên- cia clínica na atualidade, exigindo do analista a retomada de reflexões.

A produção psicanalítica, desde Freud, evidencia que a histeria

corresponde à interpelação de um mestre, à interrogação de seu saber, na busca de seus limites, de seu desejo. Tal posição pressupõe a existência

de mestres que não estejam, à princípio, em posição de descrédito, sim de exceção.

Chemama lembra que, com o incremento da democracia, a descon-

fiança contra a opressão transforma-se em crítica à toda posição de exce- ção. Nessa nova configuração, que toma o discurso social, ganha terreno a queda do falo simbólico, acentuando-se a prevalência imaginária da dimen- são fálica sob forma da degradação.

A resposta ao discurso social já não é a histeria, tal como Freud a

descreveu; estaria mais próxima da neurose obsessiva.

Mais uma vez é do lado feminino que se evidencia uma resposta, senão como denúncia, pelo menos como expressão da impossibilidade com a qual se depara o sujeito contemporâneo.

mas

A seguir, reproduzimos a entrevista que Chemama concedeu ao

Correio da APPOA, avançando nessas questões.

Liz Nunes Ramos

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ENTREVISTA COM ROLAND CHEMAMA – 14/08/99

Correio – Tem sido observado um incremento dos sintomas da neu- rose obsessiva em mulheres. A que se deve este fato?

Chemama – Eu creio que sim. Eu notei em minha própria prática e outros analistas o notaram também. Nós tivemos, na Associação Freudiana em Paris, jornadas sobre a neurose obsessiva. Diversos psicanalistas, cuja maior parte eram da Bélgica, eu não sei se isso tem um valor qualquer, mas

é preciso que se note, vários analistas notaram que eles tinham dentre

seus pacientes, menos pacientes histéricas e mais pacientes obsessivas. Eu creio que efetivamente, se queremos pensar no aumento do número de neurose obsessiva feminina, isto pode inicialmente acontecer em função da diminuição de casos de histeria. Uma histeria, sobretudo feminina, é uma maneira de interpelar o mestre, digamos, de interpelar um homem, de mostrar a um homem que ele não é o mestre que ele pensa ser. É uma maneira de encontrar, Lacan dizia assim, um mestre sobre quem reinar. Como nós estamos em uma situação histórica, em que no nível social, toda posição de mestria está desvalorizada, em que toda afirmação também de uma diferença masculina não é muito bem vista, não se pode mais encon- trar exatamente, a importância que tinha antes a posição histérica. Em contrapartida, poder-se-ia dizer que a neurose obsessiva em uma mulher constitui uma maneira, ao mesmo tempo de dar uma conseqüência a uma

espécie de forclusão social atual do falo, repetindo esta forclusão em seu sintoma, porque se sabe, que há uma espécie de destruição da dimensão fálica na neurose obsessiva. Assim poderia dizer também, em todo caso é

o que eu acreditei compreender nos casos que eu sigo, que lá do lado

masculino a dimensão de um falo simbólico não se sustenta mais. Do lado feminino, uma dimensão fálica vai voltar, mas sobre uma forma degradada,

por exemplo em fantasmas de violação ou em fantasmas onde o objeto peniano se confunde com o objeto anal. Bem, o que quer dizer que, ao mesmo tempo, igualmente nos fantasmas de violência sexual pode se presentificar uma dimensão fálica, e ainda uma vez uma dimensão fálica

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degradada. Assim pois, isto tudo consistiria uma espécie de resposta ao discurso social em que estamos tomados. Correio – Qual seria a conseqüência desta situação do discurso so- cial para a posição masculina? Parece que os homens estão muito desam- parados. Chemama – É verdade que para os homens, assim como para as mulheres, isto constitui um problema porque está tomado em um discurso, como dizer, que forclui o falo como inscrição de uma diferença. Neste mo- mento, toda a posição de enunciação é impossível, sem dúvida, do lado masculino também. Tem-se uma posição de obsessionalização, se é ver- dade que a obsessivização consiste em substituir o apelo a um significante da diferença, a substituir a este apelo a produção de um discurso sem dife- rença, de uma série de inferências lógicas em que o sujeito não pode estar. A diferença talvez entre homem e mulher, em relação ao que se passa aí, é que se do lado feminino tudo isto pode produzir fantasmas e obsessões no quadro da neurose obsessiva. Do lado masculino, isto pode também assu- mir a forma de um desenvolvimento da perversão que é igualmente uma forma de responder a forclusão do falo simbólico pela colocação em jogo de um pênis imaginário. Dos diferentes exercícios que se pode imaginar, mas aí em ato, encontra-se mais práticas perversas em homens e hoje se compreende que lugar elas vem assumir. Correio – Hoje, tu estavas falando de um viés perverso do sistema social. Poderias dizer uma palavra a mais sobre isto, já que tu estás situan- do o sintoma obsessivo dentro deste sistema? Chemama – Aquilo de que eu falava e a que tu fizestes alusão é o fato de que hoje há uma espécie de perversão social que toma o sujeito como um objeto, um objeto a que se pode manipular de qualquer modo. É desde o próprio social que o sujeito pode ser utilizado como tampa do bura- co do Outro. Então, é verdade que isto pressupõe uma espécie de anula- ção de seu próprio desejo, o que ainda uma vez é muito bem favorecido pela neurose obsessiva. Correio – Que dificuldades específicas haveria na clínica relativas a

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neurose obsessiva numa mulher, diferentemente do homem. Numa mu- lher, estas questões sofrem alguma diferença? Chemama – Eu não estou certo de que neste caso seja mais difícil,

a direção do tratamento de uma neurose obsessiva feminina em relação a

uma neurose obsessiva masculina. Tanto num caso como no outro, por certo nós temos todas estas dificuldades ligadas à racionalização, ao mes- mo tempo como sintoma, e vocês irão publicar o texto de Charles Melman sobre a racionalidade como sintoma, assim pois, como sintoma e como resistência. Mas, sobre este plano, eu não penso que seja mais especial- mente difícil do lado feminino. Sobretudo, porque se estamos verdadeira-

mente do lado feminino, na inscrição na parte direita do quadro da sexuação fica alguma coisa de uma dimensão do não todo e que ela pode mais ser mais facilmente solicitável no tratamento. Algo permite não ficar nesta di- mensão da totalização que é a do obsessivo. Isto permite talvez voltar so- bre um tema que desenvolvemos hoje, que é este gosto do obsessivo pela universalização. Podemos sublinhar que é um universal um tanto particu- lar, porque ele é sem exceção. Então, é verdade que do lado feminino ao mesmo tempo que há esta dimensão da negação da exceção, há também

a dimensão do não todo que pode produzir efeitos específicos em um trata-

mento. A mim me pareceu na minha experiência tornar as coisas menos fixas do que em certos tratamentos de homens obsessivos. Correio – As mulheres obsessivas parecem colocar-se em uma po- sição de maior desafio ao analista. Chemama – Isto me parece mais exato no que concerne à histeria. Em contrapartida o que eu pude dizer é que a aparente conformidade da mulher obsessiva com as regras que são propostas não deve nos enganar. Se ela respeita as regras é porque ela pensa estas regras não valem muita coisa. É porque ela pensa que se ela não as respeitasse, isto desabaria como um castelo de cartas. Há nisto uma terrível ironia de uma mulher obsessiva, como poderia ser de outra forma a ironia de um homem obses- sivo.

Talvez fosse a ocasião de dizer que nós temos de falar da neurose

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obsessiva em termos obsessivos, ou seja, tentando totalizar tudo. Você tem a experiência de alguns casos de neurose obsessiva. Eu tenho a expe- riência de outros casos. Em minha experiência, os pacientes são especial- mente disciplinados. Isto não me conforta em absoluto. Correio – De modo geral relaciona-se a neurose obsessiva a analidade. Tu fizestes uma relação com a oralidade e com casos mais es- pecíficos de anorexia e bulimia. Chemama – É verdade que geralmente se sublinha a dimensão da analidade da neurose obsessiva. É talvez uma maneira de dizer que o ob- sessivo coloca o objeto da demanda no lugar daquele do desejo. É possível que hoje as coisas mudem um pouco porque estamos em um mundo onde tudo se reduz a necessidade. Em nossa sociedade de mercado só se co- nhecem necessidades: o que se pode comprar, vender. Enfim, é isso que interessa ao mundo. Acontece que a pulsão oral pode facilmente ser redu- zida à dimensão da necessidade. Aí se trata apenas somente de necessi- dade. Então, as questões sexuais, a pulsão sexual se exprime na esfera da oralidade seja indo no sentido de uma redução a necessidade, seja no sen- tido de um protesto a esta redução. Por exemplo, na anorexia vai bem no sentido de protestar a reduzir tudo a necessidade. Nós nos damos conta que em muitos dos casos de anorexia se encontra uma neurose obsessiva infantil bem clara.

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UM SÁBADO E TANTO!

Luzimar Stricher

A ssistimos num sábado de agosto na Unisinos, uma palestra de

Alfredo Jerusalinsky, com o título “Refazer o pai a cada instante”,

enfocando o tema da “Neurose obsessiva”. Ele inicia sua exposição

dizendo que nesta neurose há uma especial vocação em cultivar a morte; e que Lacan, nesse ponto, é claro em afirmar que a morte é o que constitui o real, e aquilo de que se goza é a vida. Alfredo diz: “A vida é uma substância gozante e não morta”. Ele fala em termos de “substância”, como Lacan, para lembrar que estamos falando de real, ou seja, “de uma gosma, de uma carne que tem a capacidade de gozar”. Entretanto, continua ele, não pode- mos esquecer que essa condição de vida gozante advém da morte, ou seja, daquilo que faz limite à vida. E é por anteciparmos esse limite, que nos esforçamos em cultivar o que temos de tempo gozante. “Até podem nos convencer que no outro lado haverá outra substância gozante, mas por vias das dúvidas, vamos gozando por aqui”, complementa Jerusalinsky. Então, isso que faz limite à vida, quer dizer, a morte, esse real, tentamos empurrar para o lado gozante, que é a vida, e constituir algum saber sobre isso, não deixar só do lado da ignorância. Recortamos, como exemplifica ele, pedacinhos desse real, que seriam pedacinhos de corpo, literalmente,

Lembra que existe um pedaci-

dizendo “olha os lábios que ela tem”, etc

nho deste corpo que tem gozado de bastante prestígio – o pênis – símbolo de potência, virilidade, prazer e gozo. Mas que, ultimamente, este pedaci-

nho tem perdido este prestígio, em função da tecnologia, que tem oferecido substituições substanciais, compondo representações fálicas que escapam

a este recorte. E isso tem introduzido mudanças muito importantes no que

diz respeito às diferenças sexuais e as relações entre os sexos. As pesso- as hoje em dia se suportam em função do que no corpo podem gozar de um

certo prestígio vital, por exemplo, quem tem mais isso ou menos aquilo

É

o que faz a diferença. É por isso que o édipo, que nos estrutura subjetiva-

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mente, organiza nossa relação com o outro, girando em torno desse pe- queno instrumento – o pênis – na medida, é claro, em que ele goze de prestígio. Ou seja, no momento em que ele é suporte da simbolização do falo, passa a ser um pivô, ao redor do qual o édipo se organiza. Podería- mos dizer que não, complementa Jerusalinsky, pois na verdade o édipo se organiza ao redor do falo, mas na medida que o falo é representado no corpo por este recorte, o pênis, este passa a ter um lugar importante nas representações fálicas Então o que localiza, situa, recorta, a porção que se instala como substância gozante é o que vem desse limite que antecipamos na série significante, ou seja, a morte. Por isso que Lacan sublinha que a morte representa o lugar do grande outro, ou seja, esse lugar que nos indica o valor do recorte da substância gozante. Sabe-se que não há nada como a morte para nos dizer o quanto, como e em que direção nos convém viver, até em que velocidade. “A morte se transforma numa espécie de indicador da velocidade certa, do ritmo, da direção de nossos deslocamentos”. Aqui, segundo o palestrante, poderíamos lembrar de Hamlet, que está inserido nesse viés, em que para ele não era nenhum mistério que a morte lhe informava da direção de seus passos, pois ela esteve o tempo todo presen- te em sua vida, era a morte que lhe informava do valor de seus atos, da posição das suas palavras, da direção de sua vida, ou seja, de como orde- nar, administrar e endereçar a substância gozante que era seu corpo. Mas o que é notório em Hamlet, segundo Jerusalinsky, é que seu corpo não lhe pertencia, pois a presença da morte, como marcadora de cada instante de sua vida , ou melhor, essa presença do grande outro na posição de morto- seu pai- apontava que ele não tinha nenhuma chance de ordenar a sua substância gozante, senão numa colagem identificatória a esse outro mor- to. A demanda era tão preemente desse outro, de uma exigência tão brutal, tão sem chance de escapatória que seu corpo fica totalmente a serviço desse grande outro morto. Mas afirma que precisamos destacar nessa história o fantasma do rei, pai de Hamlet, que não sabia que estava morto. Ou seja, ele aparecia

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BELTRÃO, C. e FLEIG, M. Barroco missioneiro

como se ainda estivesse disputando o trono que foi usurpado, portanto, não se tratava apenas da vingança. Podemos perceber aqui, segundo Jerusalinsky, que aparece uma indiferenciação entre pai e filho. O pai, não sabe que está morto quando endereça sua demanda de vingança a Hamlet, e mais a restituição do trono. Deixando assim na ambigüidade, se o verda- deiro destinatário é Hamlet – agora que ele, o pai, está morto, ou se é ele mesmo, o pai, que demanda tudo isto . Eis aqui que se estabelece a obses- são, “ser ou não ser”. O pai, justamente, por enunciar uma posição ambí- gua, a respeito da morte, de não saber se está vivo ou morto, não permite a Hamlet saber, qual é a legitimidade desse casamento, nem a quem perten- ce essa mulher representada pelo trono. Neste momento, segundo o expo- sitor, que surge a obsessão, ou seja, a pergunta de quem é o trono, quem está vivo, e quem está morto? Quem é que antecede e quem lhe sucede? Essa atividade incessante de colocar ordem nas coisas, já que o grande outro não se colocou, não se instituiu numa posição certa e precisa em relação a morte, que nos permite situar o significante na sua posição sim- bólica precisa. Quer dizer, teríamos que estar sempre reordenando-o. Hamlet, como aponta Jerusalinsky, não sobreviveu como texto simples- mente pela grandiosidade literária de Shakespeare, e sim porque veio ocu- par um lugar privilegiado na série mítica no homem contemporâneo, isto é, da modernidade. Por isso que Hamlet se transforma em algo tão popular, em que milhões de pessoas repetem incessantemente “to be or not to be”, sem saber a inserção precisa desse significante, visto que jamais leram shakespeare, nem sequer sabem que essas palavras tem a ver com este autor. Sem esquecer que os autores de novelas, também, são lançados a uma posição de difícil lembrança porque eles não fazem posição, ou me- lhor, seu textos ocupam um lugar mítico, repetimos suas palavras sem situ- ar sua autoria. Segundo o palestrante, há ainda uma diferença sutil na história de Sófocles e Shakespeare, Édipo não sabia a respeito da morte do pai e nem acerca de Jocasta ser sua mãe; e Hamlet sabe da morte de seu pai, sabe acerca da infidelidade de sua mãe com Cláudio, e sobretudo, sabe da posi-

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ção da usurpação que Cláudio e sua mãe têm desse trono. Então, Hamlet sabe que sua mãe ocupa um lugar que não deve. Édipo não sabia que “Jocasta” ocupava o lugar que não devia. Percebemos aí a diferença entre recalque e o não recalque, saber ou não saber. E o que impede este recalque? No caso de Hamlet, é que ele sabe que o pai está morto, mas o pai não sabe que está morto, o rei demanda a realização da vingança, ou seja, demanda o cumprimento dos desígnios legítimos do destino, não faz diferença entre ele e o filho. Alfredo Jerusalinsky lembra também de auto- res e obras literárias como Don Juan, “Fausto” de Goethe, Edgar Allan Poe, enfim, alguma produções no campo da ficção, da literatura e da arte em que podemos observar algumas relações com a neurose obsessiva. Mas salienta um texto de Lacan “ O mito individual do neurótico” porque este produz um esclarecimento transparente de como no nosso tempo se pro- duz uma transformação na referência simbólica para a constituição do su- jeito. Salienta que Lacan revela neste texto, entre outros, que quando fala- mos, inevitavelmente, é como analisante e desde uma verdade, que como suposto nos autoriza a dizer o que dizemos. E que esse suposto é mítico, lugar de verdade e completamente singular. Isso quer dizer que haveria na vida de cada um uma verwerfung, e não somente uma verdrängung. Quer dizer, uma forclusão originária onde nós, sem sabê-lo somos colocados numa posição tal que para passar da extensão infinita e indefinida, recebe- mos um certo recorte, ainda um certo recorte na infinitude significante, e que esse recorte é o que constitui a ordem do existente para nós a respeito do qual nos constituímos como sujeito. Esse existente adquire tal nível de naturalidade para nós que renunciamos a nos perguntar acerca de sua

origem. Ou seja, na série significante isto faz ponto zero, ou seja, forclusão. Dito de outro modo, “se eu preciso que alguém me diga quem sou, já que

nasço sem saber, logo após me dizerem preciso averiguar

começo a perguntar a origem de todas as coisas tropeço na verwerfung, porque ali nada me responde. E por isso que tenta-se convocar um pai, que responda no real, como Hamlet, por exemplo, que me resolva tudo isto, que as coisas tem fim, mesmo que ao mesmo tempo sei que ela não tem fim”.

Mas se eu

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BELTRÃO, C. e FLEIG, M. Barroco missioneiro

Jerusalinsky conclui dizendo que a série significante que nos diz respeito em algum lugar pára, pois não estaremos mais representados nela. Quan- do o sujeito se encontra com o discurso social e este não lhe responde em toda a extensão que demanda, tropeça. Então, tenta constituir um real que

lhe responda

são indefinida, o que quer dizer que ele pode ser desde o mais pequeno até a maior enormidade. Assim, por não Ter essa definição, por Ter esse mun- do tão enorme e essa prolixidade, este não saber quando parar de falar demais, que faz sintoma. Pois onde está o ponto para ficar tranqüilo acerca de que o pai finalmente está aí? Tem que estar refazendo-o palavra pôr palavra, instante pôr instante. Sempre tentando dar-lhe uma versão defini- tiva a isto que não pára como demanda do grande outro, de constituir esta demanda na posição paterna, que é a demanda do pai de Hamlet.

o problema do neurótico obsessivo é que o pai é uma exten-

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RESENHA

PSICANÁLISE E EDUCAÇÃO

Psicanálise e educação: uma (trans)missão possível. Revista da Associação Psicanalítica de Porto Alegre, Porto Alegre, ano IX, nº16, jul.1999. 155 p.

Porto Alegre, Porto Alegre, ano IX, nº16, jul.1999. 155 p. “Sem nutrir a esperança de que

“Sem nutrir a esperança de que uma educação psicanaliticamente orientada venha livrar a infância de sua neurose, encontramo- nos constantemente com a solicitação, dirigida à psicanálise, de responder ao insabido da educação. Nesse terreno, não cabe furtar-se ao diálogo; diálogo que exige, contudo, recu- perar e salvaguardar as distinções epistêmicas operantes num campo e noutro para, então, descortinar-se uma contribui- ção possível ao campo da educação a partir do seu atravessamento pela noção de sujeito de desejo que a psicanálise aporta.” (op.cit., p.5) Este é parte do Editorial que nos convida à leitura da Revista, onde encontramos artigos que abordam a polêmica intersecção Psicanálise e Educação. Destina-se a todos aqueles que se vêem interpelados pelo tema no seu exercício profissional, sejam eles, psicanalistas, psicólogos, educa- dores, pedagogos, psicopedagogos, etc. Alfredo Jerusalinsky, em “O Outro do pedagogo; ou seja, a importân- cia do trauma na educação”, fundamenta, na formulação dos quatro discur- sos de Lacan, as bases lógicas de toda e qualquer prática psicanalítica interdisciplinar e a impossibilidade de alguém vir a lograr que a psicanálise se transforme em patrimônio particular de um certo ofício ou profissão. A partir da psicanálise, muda a concepção das relações do sujeito com o saber, a ignorância e o conhecimento. E, apesar dos pedagogos atuais não estarem muito dispostos a admitir interpretações psicanalíticas estapafúrdias, demonstram ser particularmente sensíveis às influências emocionais no processo de aprendizagem, ao papel do livre jogo do sujeito com a linguagem, a não reduzir a meros erros os equívocos , a abrir um

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RESENHA

espaço de experimentação e liberdade para a imaginação; e, sobretudo, têm descoberto o encanto do trauma: o segredo, o cochicho, a erotização, a pequena mentira, a brincadeira na borda do proibido já não causam mais horror moral, ao contrário, parecem livre e graciosamente incorporados ao Outro do pedagogo. Em “Freud e a educação, dez anos depois”, Maria Cristina Kupfer rediscute e atualiza algumas de suas idéias a respeito dos limites da cone- xão psicanálise-educação contidas em um livro publicado pela autora em 1989, o qual fundamentava-se no pensamento freudiano sobre a educa- ção. À luz de novas experiências nos campos da educação especial e da clínica dos distúrbios globais do desenvolvimento, tais como as realizadas no Courtil e na pré-escola terapêutica Lugar de vida, propõe a ampliação destes limites; e aponta a prática da educação terapêutica como exemplo de uma operação conjunta da psicanálise e educação. “Freud, a educação e as ilusões (psico)pedagógicas”, de Leandro de Lajonquière, apresenta uma reanálise das considerações freudianas em matéria de educação. Assinala que as reiteradas críticas à pedagogia germânica visavam aquilo que o autor chama de seu justificacionismo reli- gioso; e que a dita educação para a realidade proposta pode ser entendida como uma educação não-pedagogizada, isto é, não tomada pela ilusão de uma adequação positivista meio-fim. Assim, pensa ser possível elucidar os impasses da educação atual perpassada, ao contrário de outrora, por ilu- sões psicopedagógicas imbuídas de um justificacionismo naturalista. No artigo “Do dom de transmitir à transmissão de um dom”, as auto- ras Marianne Stolzmann e Simone Rickes trabalham a transmissão do co- nhecimento à luz dos pressupostos teóricos psicanalíticos, enfocando a articulação de desejo de saber com a singular posição do sujeito do conhe- cimento frente ao Outro. Apontam, como interlocutora desta questão, a ali- enação do discurso dos pais/professores frente à dificuldade de aprendiza- gem do filho/aluno, sugerindo um reendereçamento desta queixa e sua cir- culação na cadeia discursiva do sujeito. Um dos pressupostos do texto “Cultura é aquilo que fica de tudo que

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se esquece”, de Clara Hohendorff, é que no contexto ensino/aprendizagem existe uma relação entre o sujeito da aprendizagem e o sujeito do inconsci- ente; relação cujos efeitos não são possíveis controlar, mas os quais a autora busca articular teoricamente a partir do referencial psicanalítico.

Em “O professor precisa ser um agitador cultural”, Carlos Henrique Kessler faz considerações sobre possíveis contribuições da psicanálise para a formação de educadores e o trabalho em sala de aula. Retoma algumas concepções de Freud e Lacan, buscando a articulação desejo de saber- transferência que seria indispensável à relação professor-aluno. Problematiza a forma em que este enlace seria possível, se o sujeito oci- dental contemporâneo se constitui enquanto atravessado pela perspectiva do individualismo.

O artigo “Agressividade em psicanálise: articulações com a educa-

ção”, de Ângela Lângaro Becker, trata do discurso educativo enquanto denegador do inacabamento do Eu, um dos discursos contemporâneos possibilitadores do incremento da violência. Analisa o conceito de

agressividade constitutiva em Lacan, transitivismo e intrusão narcísica, es- pecialmente na relação de transmissão. As relações entre professor e alu- no, tomadas através de um pressuposto racionalista, tendem a confundir as posições do ideal-de-eu com a de eu-ideal; e remetem o sujeito a uma especularidade original, corroborando para a natureza paranóica de todo conhecimento. Em “Algumas reflexões em torno da clínica psicopedagógica”, Nor- ma Filidoro avança no caminho da construção da psicopedagogia como disciplina, explorando os pontos de conflito históricos. Em diferentes mo- mentos, o corpo da criança foi situado em distintos lugares: desde uma mão a ser treinada, a despeito da criança, a uma mão a ser desprezada em nome da subjetividade. Procura, pois, consolidar a especificidade da inter- venção psicopedagógica, aprofundando as suas relações com a psicanáli- se, os problemas orgânicos das crianças, a escola como instituição e os conteúdos disciplinares.

O texto “A questão da psicopedagogia numa perspectiva topológica”,

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de Jacy Soares, trata da articulação entre diferentes campos do conheci-

mento, particularmente da psicopedagogia com a pedagogia, a psicologia e

com o

auxílio da banda de Moebius, a autor expõe fragmentos de um caso clínico, na tentativa de mostrar que o critério meramente epistemológico é insufici- ente para situar o limite entre um tipo de prática e outro. Defende o ponto de vista de que esse limite é, sobretudo, ético. Os questionamentos tratados no artigo “A educação e a falta: algu- mas questões sobre psicanálise, epistemologia e psicologia genética”, de Margareth Shäffer, dizem respeito, em primeiro lugar, a uma discussão existente no meio educacional sobre a insuficiência do modelo piagetiano na sua aplicabilidade à educação e a conseqüente demanda a uma teoria complementar – a psicanálise; em segundo lugar, a problemas epistemológicos referentes a uma articulação entre a psicanálise, a epistemologia e a psicologia genética, no que concerne à demanda educa- cional acima especificada. Em “O sujeito cognoscente e a aprendizagem: conceitualização inter

a psicanálise. Ao retomar a questão numa perspectiva topológica,

e transdisciplinar”, Sílvia Molina, considerando que a forma com a criança

aprende é dependente da posição psíquica singular que assume perante à operação de interdição da sexualidade, percorre o processo de subjetivação desde a relação mãe-bebê. Uma vez que a função paterna atue como regu- ladora desta relação, a criança é capaz de transitar pelos objetos e filiações que a cultura oferece em substiutição ao ideal imaginário de completude impossível, dispondo da liberdade de criação e da ressignificação da pala- vra, necessárias à aventura do conhecimento. Euvaldo Mattos, em “O novo poderá emergir na escuta de crianças, adolescentes e jovens”, identifica um tipo de escuta que vem sendo prati- cada de modo crescente, em diferentes campos profissionais, radicalmen- te distinto da escuta psicanalítica. No caso dessa escuta ampliada, o obje- tivo de quem escuta é equilibrar a crise de autoridade em que se debate a sociedade pós-moderna. Através de uma Entrevista, intitulada “O prazer de aprender”, temos

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a oportunidade de compartilhar, com Léa da Cruz Fagundes, um relato contagiante de sua experiência enquanto educadora, a qual, em muitos momentos, se confunde com o seu percurso enquanto aprendiz. “A instância da letra na aprendizagem”, de Jean Bergès, é o texto que figura na seção Recordar, repetir, elaborar, pois embora já tenha sido publicado originalmente no nº6, ano de 1991, desta Revista, ele marcou época no sentido de ser um primeiro e ilustrativo exemplo da articulação de diferentes campos do saber. Poucos textos exemplificaram tão bem duas possibilidades de trabalho da psicanálise: a compreensão de um sintoma de aprendizagem e a articulação de uma transferência, no caso, a de uma equipe. E, para finalizar, na seção Variações, no artigo “O teleorfanato nosso de cada dia”, Diana Corso dedica-se a pensar sobre as telenovelas dirigidas ao público infantil, pelo papel que essa tramas ficcionais cumpriram nas histórias das gerações mais recentes de brasileiros. A autora se ocupa especialmente do tema da orfandade, a partir do que nos é trazido através da telenovela Chiquititas.

P.S.: a Revista encontra-se, a partir deste número, disponível para aquisição através de assinatura anual (vide formulário anexo), além da venda avulsa.

Valéria Rilho

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RESENHA

VARELLA, Drauzio. Estação Carandiru. SP: Companhia das Letras, 1999. 295 p.

Estação Carandiru . SP: Companhia das Letras, 1999. 295 p. T rata-se de um texto ágil,

T rata-se de um texto ágil, escrito em um estilo jornalístico, com uma caracteriza- ção seca e breve de personagens e si-

tuações. Lê-se de um fôlego só. Em tempos de 500 anos de Brasil, pen- so que uma obra como esta, que aborda a ex- periência em circunstâncias de fronteira, sujei- tos que transitam nos limites da lei de nosso País, possam ajudar um pouco na reflexão sobre o mesmo. Movido por esta idéia e pela indicação de alguns leitores, propus-me a lei-

tura deste livro, que parte da experiência de um médico que, após ter ido fazer uma palestra sobre a transmissão da AIDS, acabou se envolvendo e trabalhando há já dez anos no maior presídio da América Latina. Esta cir- cunstância, do convívio cotidiano e por tão largo período de tempo, afasta, me parece, qualquer perigo de que se venha encontrar aí uma visão ro- mântica da situação. De fato, se a narrativa não é distante, ela não de- monstra também nenhuma colagem, identificação ou vitimização excessi- va. É um depoimento que se tende a respeitar, até pela coragem demons- trada pelo autor, não só por circular neste ambiente todo esse tempo, como por escrever tal obra. Ao autor não escapa, de saída, a referência ao imaginário ocidental, que associaria este ambiente ao que se vê através dos filmes holliwodianos. Ele mesmo se confessa de saída contaminado por esta perspectiva, indi- cando que, ao contrário do que se poderia então imaginar, não encontra ali esse cenário, de uma barbárie, lugar sem leis, com o predomínio dos sujei- tos mais perversos ou selvagens. Pelo contrário, ele chega ao exagero de defender ousada tese de que há (até para ser possível o convívio por tem- po tão prolongado em um espaço tão restrito) toda uma normatização, re- gulada por uma espécie de tradição verbal, que chega a ser comparado ao

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sistema Inglês! Vê-se então uma micro-sociedade, extremamente organi- zada, contrastando com o mundo que a rodeia, para fora dos muros da prisão. Situação paradoxal, então, em que os “fora-da-lei”, uma vez presos, contidos, tornar-se-iam exemplo de sofisticada civilização. O que não é pouca coisa para pensar. Parece que de certa forma a tese não resiste, explícita ou implicitamente, este império do simbólico no mínimo está em tensionamento com o real. Pois, se há várias referências ao comando dos experientes, aos que por serem “ladrões” estão ali inativos e não querem fazer nada que possa retardar seu retorno “a atividade”, há também um dito - e exemplos que o ilustram - de que “contra a força, não há resistência” (op. cit. p.169) Passagens onde entendo que podemos ser enriquecidos: a chave do que os apenados demandam parece ser que não se abra excessão. Assim, se um não é favorecido, mas ninguém mais o será, sem problema. Respeitam, mas exigem coerência. Um diretor que, mesmo fascista, “não dá mole para os presos”, mas também cobra agilidade da justiça no cumpri- mento de prazos de soltura, é considerado (“cumpre a lei dos dois lados” - p.114). Alguém que se declare religioso, deve cumprir todos os ditames e rituais de seu culto (p. 118). Um traficante não pode negar crédito a um e vender fiado a outro (p.138). A caracterização do “laranja” (p. 148) e do “sangue bom” (p. 152) é das mais interessantes. O primeiro “segura a bronca alheia” por não ter escolha, seja por estar em dívida, seja por não ser respeitado. O segundo, sabendo como as coisas funcionam, decide por si fazer o mesmo, e assim adquire crédito com os demais, se fazendo então respeitar. Algumas passagens (ex: Miguel, p.185, onde uma mulher provoca forte intriga entre dois parceiros de infância, em acordo com um policial corrupto) caberiam em excertos de boa literatura, afora o pequeno detalhe de que, em princípio, não se trata de ficção.

Carlos Henrique Kessler

50 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 73, out. 1999

AGENDA

OUTUBRO - 1999

Dia

Hora

Local

Atividade

??

21h

Sede da APPOA

Reunião da Mesa Diretiva

 

?? e ??

20h

Sede da APPOA

Reunião da Comissão de Biblioteca

??

16h30min

Sede da APPOA

Cartel do Envelhecimento

 

??

21h

Sede da APPOA

Reunião do Fórum

??

18h

Sede da APPOA

Seminário “A topologia fundamental de Jacques Lacan” - Responsável: Ligia Víctora

?? e ??

20h30min

Sede da APPOA

Cartel Brasil 500 anos

?? e ??

20h30min

Sede da APPOA

Seminário “A dimensão trágica da psicanáli- se” - Responsável: Enéas Costa de Souza

04 e 18

20h

Sede da APPOA

Reunião da Comissão do Correio da APPOA

??

15h30min

Sede da APPOA

Cartel do Interior

??

21h

Sede da APPOA

Seminário “Memórias

- Responsáveis: Ana

 

Maria Medeiros da Costa, Edson Luiz André de Sousa e Lucia Serrano Pereira

??

21h

Sede da APPOA

Reunião da Mesa Diretiva aberta aos mem- bros da APPOA

??

21h

Sede da APPOA

Relendo Freud e Conversando sobre a APPOA - Análise Finita e Infinita

A confirmar

Cartel Preparatório para a Jornanda sobre NeuroseObsessiva

A confirmar

Seminário “Novos apontamentos para a clínica das psicoses” - Responsável:

Alfredo Jerusalinsky PRÓXIMO NÚMERO .
Alfredo Jerusalinsky
PRÓXIMO NÚMERO
.

C. da APPOA, Porto Alegre, n. 73, out.1999

51

Capa: Manuscrito de Freud (The Diary of Sigmund Freud 1929-1939. A chronicle of event in the last decade. London, Hogarth, 1992.) Criação da capa: Flávio Wild - Macchina

ASSOCIAÇÃO PSICANALÍTICA DE PORTO ALEGRE GESTÃO 1999/2000 Presidência - Alfredo Néstor Jerusalinsky 1 a . Vice-Presidência - Lucia Serrano Pereira 2 a . Vice-Presidência - Maria Ângela Brasil 1 o . Tesoureiro - Carlos Henrique Kessler 2 a . Tesoureira - Simone Moschen Rickes 1 o. Secretário - Jaime Alberto Betts 2 a .Secretária - Marta Pedó MESA DIRETIVA Ana Maria Gageiro, Ana Maria Medeiros da Costa, Ana Marta Goelzer Meira, Cristian Giles, Edson Luiz André de Sousa,Gladys Wechsler Carnos, Ieda Prates da Silva, Ligia Gomes Víctora, Liz Nunes Ramos, Maria Auxiliadora Pastor Sudbrack, Mario Fleig, Robson de Freitas Pereira, e Valéria Machado Rilho.

EXPEDIENTE

Órgão informativo da APPOA - Associação Psicanalítica de Porto Alegre

Rua Faria Santos, 258

CEP 90670-150

Porto Alegre - RS

Tel: (51) 333 2140 - Fax: (51) 333 7922 e-mail: appoa@appoa.com.br - home-page: www.appoa.com.br Jornalista responsável: Jussara Porto - Reg. n 0 3956 Impressão: Metrópole Indústria Gráfica Ltda. Av. Eng. Ludolfo Boehl, 729 CEP 91720-150 Porto Alegre - RS - Tel: (051) 318 6355

Comissão do Correio Coordenação: Maria Ângela Brasil e Robson de Freitas Pereira Integrantes: Francisco Settineri, Gerson Smiech Pinho, Henriete Karam, Liz Nunes Ramos, Luzimar Stricher, Marcia Helena Ribeiro, Maria Aparecida Loss, Maria Lúcia Müller Stein e Marta Pedó

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DITORIAL

 

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N°N° 7373 –– ANOANO VIIVII

OUTUBROOUTUBRO –– 19991999

EÇÃO TEMÁTICA

 

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GENDA

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