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A hybris do ‘ponto zero’ e o ‘autismo científico’

José de Souza Silva

Poderia ser o “dia da arrogância científica”, mas este foi apropriado por Zander Navarro com Fadas, duendes e agricultura publicado no Estado de São Paulo (30/10). Melhor designá-lo como o dia do ‘autismo científico’. O autismo é um transtorno global do de- senvolvimento que ocorre na infância e institui um mundo particular para alguém que passa a operar dentro de seus limites. O caso desse autor revela um novo tipo de autis- mo, o ‘autismo científico’. Este é um transtorno no sistema de verdades, sobre o que é e como funciona a realidade, que ocorre entre cientistas durante sua (de)formação profis- sional. Cientistas afetados vivem num mundo especial e não operam fora dele. O fenô- meno pode ser entendido a partir do significado da hybris (ou hubrys) do ‘ponto zero’.

O filósofo colombiano Santiago Castro-Gómez explica que a ideia de ciência moderna

supõe um conhecimento que nega seu lugar de enunciação para legitimar sua neutrali- dade e universalidade. Mas é essa pretensão de autoridade absoluta que constitui a mais radical das posições políticas. A aspiração de universalidade nega outras formas de co- nhecer e intervir e transforma o detentor da razão e da verdade no legítimo porta voz de todos. A hybris é a prepotência do ‘ponto zero’ (não-lugar), a arrogância de quem nega seus interesses humanos, posição política e subjetividade para falar em nome de todos. Zander vive no ‘ponto zero’. Isso o autoriza a definir quem pode ou não enunciar certas verdades, discernir entre o certo e o errado, distinguir o falso do verdadeiro e separar o joio do trigo. Ele vive na Casa de Salomão que Bacon propôs em Nova Atlântida, a ci- ência organizada que cria as verdades com as quais o Estado governaria a sociedade.

Furioso com o governo federal, por lançar o Plano Nacional de Agroecologia e Agri- cultura Orgânica sem visitar a Casa de Salomão nem consultar os semideuses habitan- tes do ‘ponto zero’, o autor condena o “fictício” conteúdo da proposta, a “ridícula” ini- ciativa do governo, o “inacreditável” edital do CNPq para fomentar a misteriosa agroe- cologia, os “espantosos” R$ 98,3 milhões do MDA para ampliar os processos de agroe- cologia já existentes, os “militantes” que organizaram esse assalto à razão e os “ideólo- gos” que enquadraram o Planalto em algo tão “absurdo”. Todos estão errados; só ele está certo. A elite científica da Casa de Salomão não autorizou o Plano.

Esquecendo que um cientista atua sob a autoridade do argumento e não sob o argumen-

to da autoridade, o autor perde a razão e faz afirmações autoritárias que o colocam na

situação frágil que ele só percebe naqueles que critica. Condena o Plano por não definir agroecologia, sem definir o que é ciência ao acusar a agroecologia de não ser uma ciên-

cia; critica a complexidade dos sistemas agrícolas e defende a uniformidade da produ- ção moderna (mono-cultivos), sem informar que, na natureza, a uniformidade significa vulnerabilidade; afirma que o desempenho produtivo da agricultura brasileira produz sustentabilidade, quando o modo capitalista global de produção e consumo replicado pelo agronegócio é a causa profunda da vulnerabilidade do Planeta.

A tarefa secreta cumprida pelo artigo foi realizada com a maestria de quem domina a

arte do “jogo sujo das sombras” que o autor condena em seu artigo. Usa a estratégia do Papa Leão XIII no texto da Rerum Novarum publicada em 1891. Nela, o Papa faz uma defesa do capitalismo, sem falar seu nome, ao defender a propriedade privada como um “direito natural”. Zander também defende o capitalismo, sem falar nele, ao condenar os agroecologistas como anticapitalistas. Esta é a “agenda oculta” de um guardião do capi-

talismo. Propondo o cultivo das relações, significados e práticas que geram, sustentam e dão sentido à vida humana e não humana, a agroecologia é um obstáculo à acumulação infinita num planeta finito. Por isso Zander é tão agressivo em sua defesa implícita do agronegocio; a agroecologia é o “novo inimigo a combater”.

Curiosamente, Zander não informa que hoje o saber científico continua imprescindível, mas é apenas um entre outros saberes relevantes e que, dentro da ciência, não existe apenas uma forma de fazer ciência, a positivista prenhe do gene do autismo científico. Emergem outras opções paradigmáticas, como o neo-racionalismo, neo-evolucionismo

e construtivismo. O paradigma positivista perdeu seu monopólio; sua contribuição con-

tinua imprescindível, mas restrita aos fenômenos físicos, químicos e biológicos cuja natureza e dinâmica não dependem da percepção humana. Vinculada à mudança concei- tual no processo de inovação, a agroecologia emerge com o construtivismo percebendo

a realidade como uma trama de relações, significados e práticas entre todas as formas e modos de vida. Para Zander, o mundo é um mercado onde a existência é uma luta pela sobrevivência através da competição. Salve-se o mais competitivo!

A Casa de Salomão cultiva uma ciência para a sociedade, mas não da sociedade. A ci-

ência praticada aí, que já foi imperial, colonial e nacional, é agora uma ciência comerci-

al comprometida com a sustentabilidade da acumulação capitalista e não com a susten- tabilidade dos modos de vida. Na Casa de Salomão onde reside Zander, o que não ema- na do mercado, não serve ao mercado e não pode ser traduzido à linguagem do merca- do, não existe, não é verdade ou não é relevante. Até quando? A que custo?

José de Souza Silva é Ph.D. em Sociologia da Ciência e Tecnologia; reside em Campi-

na Grande-PB. E-mail: <josedesouzasilva@gmail.com>