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Universidade Nacional Autónoma do México

Faculdade de Filosofia e Letras

Língua e Literaturas Modernas Portuguesas

Seminário de Literatura Infanto-juvenil

A escrita literária infantil de José Eduardo Agualusa: Breve análise de “A Rainha dos Estapafúrdios”.

Edgar Alejandro Aguilar Mayorga

No seguinte trabalho será levada a cabo uma breve análise do conto “A Rainha dos Estapafúrdios” do escritor angolano José Eduardo Agualusa, partindo dos

principais aspetos que caracterizam a escrita do autor no âmbito da literatura infantil, o que nos permitirá identificar e definir os rasgos literários que fazem com que o nosso conto possa ser considerado parte da literatura infanto-juvenil de expressão portuguesa, passando por algumas reflexões acerca do público a quem se dirige a obra e de como é que isto se reflete na sua estrutura (nas suas componentes, entre elas, as personagens, o discurso e a ilustração).

O autor e a sua relação com a literatura infantil.

José Eduardo Agualusa é um escritor angolano, nascido em Huambo, que se destaca principalmente no âmbito do romance contemporâneo luso-africano. No entanto, tem incursionado também no campo da literatura infantil, tendo publicado em 2000 uma das suas principais obras deste gênero, denominada “Estranhões e bizarrocos (contos para adormecer anjos); recopilação duma série de dez contos

entre os que podemos encontrar: “Sábios como camelos”, “A menina de peluche”, “Estranhões e bizarrocos e outros seres sem exemplo”, “O primeiro pirilampo do mundo”, “O país dos contrários”, “O caçador de borboletas”, “O pai que se tornou mãe”, “O sonhador”, “A menina que queria ser maçã” e “O peixinho que descobriu o mar”; narrativas que, segundo Regina Chamlian [2008], são duma “prosa bem cuidada, rica em trocadilhos, brincadeiras formais, jogos de palavras e jogos intertextuais de tom bem-humorado e caráter fantástico, cujos personagens parecem sempre se engajar numa busca existencial não-conformista e emancipatória” [idem, s/n].

Tendo em conta estas considerações de Chamlian, podemos começar a identificar estas características no nosso conto.

O

conto:

Construção

narrativa

e

recursos.

 

“A Rainha dos Estapafúrdios” é um conto

entre os que podemos encontrar: “Sábios como camelos”, “A menina de peluche”, “Estranhões e bizarrocos e

em que nos é apresentada uma personagem principal de nome Ana, uma perdigota, caracterizada principalmente como uma menina curiosa e irrequieta, a qual vive uma série de aventuras e experiências que fazem com que o leitor seja levado através de diferentes episódios ou cenas em que a curiosidade da nossa personagem, produto do seu caráter egocentrista ou vaidoso, é o motivo principal para a sua interação com outros animais (falantes) e para uma certa evolução das situações e do próprio caráter de Ana; evolução que pode ser associada ao espírito de viagem, emancipatória, que se acha por trás do conto. Além do anterior, é necessário salientarmos que o egocentrismo ou a vaidade da personagem principal são aspetos que terminam por definir o desenvolvimento da história, pois é a sua

vontade

de

ser

“colorida”,

“ter

penas

vontade de ser “colorida”, “ter penas bonitas”, o que a conduz para uma certa emancipação do

bonitas”, o que a conduz para uma certa

emancipação do grupo social de que faz parte no início do conto, da sua família, sendo o individualismo ou a independência, com as suas respetivas ou possíveis consequências, talvez o que se pretende apresentar no conto à maneira dum ensinamento fabulístico, pois, como podemos constatar, é constante a insistência da perdigota em ser diferente dos outros, em distinguir-se dos outros, em libertar-se de algo a que é forçada e obrigada, apesar de correr o risco de ser desconhecida, desplumada completamente e abandonada pela sua própria família, logo após de ter tomado um banho de arco-íris e ter adquirido, momentaneamente, aquilo que sempre desejou.

Vale salientar que após a perda a que se enfrenta a nossa personagem principal, numa primeira parte ou parte introdutória do conto, seguem-se as aventuras da perdigota, já independente ou emancipada, tendo ficado apenas com uma pena sobre a cabeça, algo que causa estranheza àqueles que se encontram com ela até ao final da história e que, como veremos, aproveitará bem para lograr o seu objetivo. Assim, a nossa perdigota encontra-se com a hiena, de nome Clarinda, a qual, estranhada com o seu aspeto, começa a perguntar-lhe o que é. Respondendo às perguntas da hiena e tendo temor do que esta lhe possa causar, Ana a perdigota toma coragem, vencendo o seu medo, e inventa uma história em que se assume como Dona Ana I, rainha dos estapafúrdios, heroína que matou todos os leões, - que eram então ameaça para o seu reino -, enganando finalmente a hiena, convencida não somente pela história, mas também pelas atitudes ameaçantes notáveis graças ao discurso que adota a perdigota perante o outro animal -, pelo seu caráter aparentemente magnânimo e pela sua aparência

estranha. A hiena, enfim, vendo a magnificência da perdigota, que não sabe que é uma perdigota, pede-lhe que vá matar um leão feroz que vive na savana em troca do que a tal rainha lhe pedir. A Ana, achando-se já uma rainha e tendo presente sempre o seu objetivo, pede-lhe as penas do otchimbamba, prometendo à hiena matar o leão. A hiena, seguidamente, leva a perdigota para o lugar em que se encontra o leão. Durante a viagem ou o percurso, a Ana interpela a hiena, conversando sobre a vida, rindo, e comentando o cheiro pestilento da sua nova aliada.

Depois do breve percurso, a perdigota aproxima-se do leão e começa, mais uma vez, a mentir, seguindo ou tentando continuar a história que lhe tinha contado à hiena, apropriando-se até da hiena como suposta escrava dela e contando ao leão que uns caçadores se dirigem à sua casa para matar os seus filhos, ao que o leão, horrorizado, responde fugindo rapidamente. A hiena, que ficou espetadora do episódio da rainha de Estapafúrdia com o leão, surpreende-se, narra às outras hienas o acontecido e finalmente dão a Ana as duas penas de otchimbamba que lhe tinha prometido, discursando a perdigota longamente, agradecendo às feras pela sua confiança e prometendo um reinado justo. A história assim finaliza à maneira dum mito, através do qual o narrador tenta justificar a existência duma espécie de perdiz da savana no Sul de África, enfeitada com penas de

otchimbamba, “que cavalgava hienas, tomava chá com os jacarés, jogava cartas

com as jiboias, e era respeitada e venerada por todas as feras” [AGUALUSA, 2012: 32], não gostando apenas dela o leão.

Tendo apontado o anterior, é-nos possível assinalar que o conto cumpre com os elementos da narrativa infantil de Agualusa referidos por Chamlian, pois, como já vimos, temos uma personagem que busca e logra se emancipar, alcançando a sua individualidade, graças ao seu caráter persistente, curioso e irrequieto; características que podemos associar às qualidades que geralmente se atribuem às crianças no âmbito da psicologia infantil, representada principalmente, como sabemos, por Jean Piaget, e cujas propostas nos conduzem para algumas

considerações gerais do infante, sobretudo na segunda infância (dos 2 aos 7 anos), quanto ao seu desenvolvimento cognoscitivo [vid. ORENGO, s/f: passim], entre as que podemos destacar: a) o uso do pensamento simbólico; b) a maior organização do mundo; c) a identificação de semelhanças e diferenças; d) a assinação de vida a objetos inanimados (agua, vento, nuvens); e) a incapacidade de considerar as perspectivas dos outros (egocentrismo); f) a capacidade de identificar um estímulo recebido anteriormente; g) a capacidade de reproduzir material a partir da memória. De esta forma, podemos dizer que na nossa personagem principal se veem representadas as ditas considerações, pois Ana tem, ao longo do conto, e como já se tem referido, um caráter egocêntrico, buscando conseguir o que quer; é capaz de identificar as semelhanças e as diferenças no momento em que se compara com os outros e decide ser diferente; possui a capacidade de identificar o que já recebeu anteriormente, por exemplo, através da oralidade, representada na personagem de Tia Juvelina uma espécie de professora ou narradora de histórias, que até certo ponto desperta e desenvolve a sua imaginação e a sua vontade-, de quem Ana recebe ensinamentos sobre o mundo (simbólico) que está à sua volta.

considerações gerais do infante, sobretudo na segunda infância (dos 2 aos 7 anos), quanto ao seu

Além do anterior, estas qualidades do infantil são também notáveis na própria

narrativa, posto que esta se centra apenas na

personagem principal e o seu

desejo, algo que, sem dúvida, também poderíamos associar ao caráter

egocêntrico de Ana. É claro também que o mundo simbólico, intrínseco nos ensinamentos que recebe, graças à sua curiosidade, permite a construção dos próprios episódios ou cenas em que se encontra ao longo do conto; episódios e cenas que surgem duma constante metaforização e alegorização tanto das situações como das personagens correspondentemente, pois poderemos ver que no conto há, por exemplo, chuvas de peixes (metáforas que fazem parte do elemento fantástico do conto), além da apresentação de animais personalizados (rasgo reforçado pela sua nominalização pessoal) que representam um caráter e que, no enfrentamento entre eles, fazem com que aconteçam choques humorísticos (construídos mediante o uso da ironia), como, por exemplo, quando a perdigota enfrenta a hiena ou ao leão, sendo as feras as amedrontadas, em lugar do animal mais pequeno e que supostamente é mais frágil e sensível perante àquilo que o supera em força, em peso, em inteligência (esperteza), etc.

Posto isto, é claro que “A Rainha dos Estapafúrdios” constitui um exemplo de

literatura infantil, construída através dos recursos que já referimos acima, mas também pelo fato de que na personagem principal se veem representadas algumas das principais características da criança, classificada e localizada pela psicologia infantil na segunda infância, o que nos permite afirmar, com certeza, que se trata duma obra dirigida a crianças, provavelmente entre os 4 e 7 anos, considerando, sobretudo, que o texto é mais ou menos extenso (32 páginas), de léxico e sintaxe simples, claro, no qual temos tanto discurso narrativo como dialogado, de tipo fabulístico (de animais que falam), mitológico (em que se tenta explicar a existência dum animal estranho), irónico-humorístico (notável na troca de caracteres que já assinalamos), dotado de imagens (textuais) fantásticas,

palavras e animais estranhas (como perdigota, otchimbamba, savana, acácia) que podem despertar a curiosidade e a imaginação dos pequenos leitores, espaços exóticos (como a savana) e, sobretudo, a alegorização das características do próprio leitor na personagem principal, o que possivelmente faça com que este se sinta identificado com as peripécias e as relações de Ana com os outros; peripécias em que a curiosidade, a imaginação, a criatividade (a inventiva de

histórias), estão sempre presentes; e relações em que se veem refletidos os

aspetos familiares (a família), socioculturais (em

valores como o mito, o

conhecimento, a velhice

como fonte de sabedoria), mas, principalmente, a

individualidade, vista dum ponto de vista tanto negativo, pois Ana é rejeitada e abandonada pela sua família, como positivo, consegue afinal o que quis sempre, dando talvez como mensagem ou ensinamento o fato de que toda decisão individual pode ter consequências a favor ou contra, uma espécie de moral que nos remete imediatamente a pensarmos também na relação desta obra com a literatura infantil, a qual, como

histórias), estão sempre presentes; e relações em que se veem refletidos os aspetos familiares (a família),

sabemos, se caracteriza pela sua qualidade moralizante.

Quanto à ilustração do conto, realizada por Danuta Wojciechowska, vale destacar, em primeiro lugar, que é um recurso de apoio à narração do conto [vid. DURÁN, 2005], pois mediante as imagens é-nos possível observar que se desenham os episódios e as metáforas (elemento fantástico) mais transcendentais da história, através de formas que se assemelham às figuras rupestres (coloridas) - aquarelas de cores naturais, entre as que podemos encontrar, principalmente, a cor sépia, tonalidades amareladas e azuladas e sombras muito básicas -, estilo ou tipo de desenhos que poderíamos relacionar com o próprio espaço em que acontece a história; elemento que, por um lado, facilita a leitura, do ponto de vista do leitor infante, e, por outro lado, o aproxima mais do ambiente ou dos cenários e das personagens do conto, ressaltando o exótico, a rusticidade e o espaço selvagem em que interagem os animais. É preciso assinalar também que, além do tipo de desenhos acima descritos, encontramos, por vezes, por baixo destes, uma espécie de margens em que é representado o suposto reino da nossa perdigota (detalhes dos que somente o leitor se aperceberá se for observador), que são

mais próximas das pinturas rupestres, pois nelas é possível apreciar o predomínio da cor negra (nos desenhos contornados) e da cor laranja (como fundo), e que também funcionam à maneira dum acompanhamento ou complemento narrativo.

Posto o anterior, é claro que a obra de José Eduardo Agualusa que até aqui analisámos pertence a literatura infanto-juvenil de expressão portuguesa, pois achamos nela toda uma série de características particulares que nos orientam para a construção duma obra dirigida a crianças, através de personagens alegóricas, de situações, dos claros objetivos didactizantes por trás delas, da ilustração e a sua relevância com respeito ao texto, ao discurso e à temática. Sem dúvida, Agualusa oferece-nos mais uma amostra da sua aproximação à literatura infantil, apresentando-nos imagens que buscam refletir as qualidades, os valores, as problemáticas do seu público, e levando-nos a pensar, finalmente, que a literatura infantil não pode prescindir ou desconsiderar o seu público alvo, pois é a partir dele que somente se cria e se justifica.

BIBLIOGRAFIA:

AGUALUSA, José Eduardo (2012), A Rainha dos Estapafúrdios, Portugal:

Publicações Dom Quixote.

CERVERA, Juan (1989), “En torno a la literatura infantil” en Cauce, Revista de Filología y su didáctica, no. 17, España: Centro Virtual Cervantes, pp. 157 168.

CHAMLIAN, Regina (2008), “Relações entre a literatura infantil angolana, de José Eduardo Agualusa, e o cinema italiano, de Federico Fellini” in Revista Crioula, no. 3, Brasil: Universidade de São Paulo.

DURÁN Armengol, Teresa (2005), “Ilustración, comunicación, aprendizaje” en Revista de Educación, núm. Extraordinario, pp. 239 253, Barcelona: Universidad de Barcelona.

MORENO Verdulla, Antonio (1998), Literatura infantil: introducción en su problemática, su historia y su didáctica, 2 a ed., Cádiz: Servicio de Publicaciones de la Universidad.

ORENGO, Janette (s/f), Desarrollo cognoscitivo en la segunda infancia, Puerto

Rico:

Sistema

Universitario

Ana

G.

Méndez

[disponível

em

dezembro de 2013]