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Sobre a manifestação de "espíritos"

PERGUNTA:
Em uma reunião, foi levantada uma dúvida sobre a visão budista acerca da manifestação de
"espíritos". Uma pessoa pode realmente incorporar um espírito, vê-lo, ou até mesmo receber
mensagens do além?

RESPOSTA:
Em primeiro lugar, precisamos mudar a forma de interpretar os ensinamentos budistas, que
são únicos. A maioria das pessoas, por terem sido praticantes de outras religiões, tentam explicar as
teorias budistas embasadas em conceitos dessas religiões. Isso é impossível, pois são conceitos
inteiramente diferentes. Para nós, budistas, os fenômenos se manifestam no interior do ser humano,
enquanto para os demais tudo existe externamente à vida humana. Por exemplo: Para nós, a força
infinitamente poderosa que rege o Universo existe em nossa própria vida, enquanto a maioria das
religiões pregam que o ser humano vive sob o domínio de alguma força ou entidade superior.
Quanto à sua questão, recentemente foi publicado no jornal Brasil Seikyo um diálogo do
presidente Ikeda com membros do Departamento de Estudo da Soka Gakkai sobre o capítulo
"Revelação da Vida Eterna do Buda". Em determinado trecho do diálogo, eles tratam justamente
essa questão.
Para melhor compreensão, reproduzimos aqui um trecho do diálogo enfocando a visão
budista da vida após a morte.
Todo o nosso carma acumula-se na consciência alaya como se fosse um depósito. Tanto o
bom carma quanto o mau carma são armazenados lá como sementes num celeiro.
O termo "depósito" evoca imagens de uma estrutura real na qual objetos materiais podem
ser colocados. Mas de fato pode ser mais exato dizer que a própria corrente vital de energia cármica
constitui a oitava consciência. (..)
Assim, "vida após a morte" significa que a vida atual do carma, num estado de não-
substancialidade, funde-se com a vida universal.
Uma vez que é não substancial, não é existência e nem não-existência. Nem se pode dizer
que exista em algum local particular do Universo. Ao contrário, torna-se uno com a vida do Universo
em sua totalidade. (..)
Como não há um lugar específico no Universo, não se pode dizer simplesmente que eles
existam. No entanto, eles nascerão novamente em resposta às causas apropriadas; dessa forma, não
se pode dizer que eles não existam. A vida após a morte transcende tanto a existência como a não-
existência.
Isso parece desafiar o senso comum, mas de fato encontramos conceitos similares nas áreas
da Física, como a Mecânica Quântica. O fato de a luz ter tanto propriedades de onda como de
partícula parece fugir à nossa maneira comum de pensar. (..)
As ondas de rádio de vários comprimentos das estações de radiodifusão de muitos países
diferentes cruzam o mundo. Ao sintonizar o aparelho de televisão no canal escolhido, pode-se ouvir
sons e ver imagens. Por meio da "relação" ou "causa externa" do receptor, as ondas silenciosas e
invisíveis tornam-se sons audíveis e imagens visíveis. pode-se dizer que isso representa a
transformação das ondas de rádio da "morte" para a "vida". (..)
Qualquer momento de nossa vida está em um dos Dez Estados. O presidente Toda
comparava as diferenças entre os Dez Estados às diferenças entre os vários comprimentos de onda,
chamando-os de diferenças no "comprimento de onda da vida".
Os Dez Estados também existem no grande Universo. Se o estado de vida de uma pessoa no
último momento é de Inferno, então a vida da pessoa se fundirá ao mundo do Inferno na vida
universal; se ele estiver no mundo da Tranquilidade, então sua vida se fundirá ao mundo da
Tranquilidade. (..)
Seja o estado de Inferno ou o de Tranquilidade, seja o Estado de Buda, cada qual permeia
todo o Universo. (..)
Quando o nosso ser torna-se uno com o mundo correspondente ao nosso estado de vida no
momento da morte, tornamo-nos unos com todo o Universo. Precisamente por essa razão,
enquanto as causas externas apropriadas existirem, não haverá restrições de quando e onde no
Universo nós podemos reaparecer. E renascemos com o corpo e a mente e no ambiente que mais se
adequar a nós.
Após a morte e antes do renascimento, a vida está num estado de latência; não está dispersa.
Uma vez que todo o Universo é uma entidade viva, a vida que é una com o Universo jamais está
distante e pode manifestar-se em qualquer lugar e instante. Devemos compreender bem esse
ponto. (..)
Esse é o motivo pelo qual devemos nos empenhar para realizar nossa revolução humana
nesta vida. Se uma pessoa passa sua vida em vão, então, mesmo que se arrependa por dez mil anos,
será tarde demais para fazer alguma coisa.
Mas a força da Lei Mística é enorme. O Daimoku que recitamos atinge a vida dos falecidos
que está latente na vida universal. O presidente Toda dizia: "O poder do Daimoku é imenso. Ele
pode fazer uma vida que está suportando um carma doloroso experimentar um estado de paz
como um sonho, como se estivesse brincando num jardim de flores. "O som de nossa voz recitando
Daimoku ressoa por todo o Universo. (...)
Certa vez o presidente Toda disse o seguinte a uma pessoa que pensava ter ouvido a voz de
um falecido: "As pessoas vivas possuem os Dez Mundos em sua vida. Então pode acontecer de
alguma vez alguém sentir o "comprimento de onda da vida" de alguém que morreu e cuja vida
tornou-se una com o Universo. Creio que o senhor tenha sentido isso na forma de palavras
audíveis."
Em outras palavras, se a energia vital de uma pessoa estiver fraca, poderá ser afetada pelo
"comprimento de onda da vida" da mesma forma que um rádio ou televisão sintoniza um sinal. E as
pessoas somente percebem essas vozes individualmente. O presidente Toda ressaltou a essa pessoa
que se ela desenvolvesse sua energia vital por meio de uma forte fé, então o "comprimento de onda
da vida" de seu próprio estado de Buda seria irradiado e traria paz e descanso à pessoa falecida.
Ele declarou depois: "Até agora você foi enganado ao pensar que sua esposa ou seus ancestrais
falecidos eram espíritos. Não se deixe enganar por essas ilusões. Se de fato for esse o caso, então
todo o mundo estaria cheio de fantasmas e estaria tão povoado que o senhor não poderia se
mover."
De qualquer forma, o Universo interage eternamente com o ritmo da vida e da morte. As infinitas
correntes do oceano da vida surgem fortes num momento e calmas no outro, jamais parando um
instante, repetindo o drama da vida e da morte. (..)
O presidente Toda enfrentou as dificuldades de cabeça erguida e foi aprisionado. E foi na
prisão que ele atingiu a iluminação. Embasado no senso de missão que transcendia a vida e a morte,
ele jurou dar a vida em prol do Kossen-rufu, e como resultado despertou para o verdadeiro aspecto
da vida e da morte.
A fé para continuar empenhando-se incansavelmente pelo Kossen-rufu pelas três existências
do passado, presente e futuro é o grande navio para embarcar na eterna viagem pelo "oceano da
vida e da morte".

(TC nº 378 – fev/2000, pág. 44 a 46)

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