OS ANARQUISTAS

JULGAM MARX
Alexandre Skirda
Rudolf Rocker
Daniel Guérin
Michel Ragon
Maurice Joyeux
Gaston Leval
Jean Barrué
Eric Vilain
Seleção e Tradução
Plínio Augusto Coêlho
SUMÁRIO
KARL MARX, A TÊNIA DO SOCIALISMO!
Maurice J oyeux
13
GÊNESE E SIGNIFICAÇÃO DO MARXISMO
Alexandre Skirda
29
MARX E A SOCIAL-DEMOCRACIA
Daniel Guérin
49
o J OVEM MARX E OS PATINHOS FEIOS
J ean Barrué
57
MARX ERA REALMENTE MARXISTA
Michel Ragon
79
MARX E O ANARQUISMO
Rudolf Rocker
85
BAKUNIN
E O ESTADO MARXISTA
Gaston Leval
107
A QUESTÃO ECONÔMICA
Eric Vilain
135
No Estado popular do Sr. Marx, dizem, não haverá classe
privilegiada. Todos serão iguais, não sódoponto de vista jurídico
epolítico como também doponto de vista econômico. Pelo menos
assim no-lo prometem, embora eu duvide muito de que, da ma-
neira como é encarado e pela via que se quer seguir, se possa
manter a promessa. Então, já não haverá mais nenhuma classe,
mas um governo e, reparem bem, um governo excessivamente
complicado, que não se contentará emgovernar eadministrar as
massas politicamente, como ofazem hoje todos osgovernos, mas
também as administrará economicamente, concentrando emsuas
mãos a produção e a justa repartição das riquezas, a cultura da
terra, oestabelecimento eodesenvolvimento das fábricas, a orga-
nização ea direção docomércio, enfim, a aplicação docaPital na
produção pelo único banqueiro, oEstado. Tudo isto exigirá uma
imensa ciência e muitas cabeças transbordantes de cérebro neste
governo. Será o reino da inteligência científica, o mais aristo-
crático, o mais despótico, o mais arrogante e omais desprezível
de todos osregimes. Haverá uma nova classe, uma nova hierar-
quia de savants reais efictícios, e omundo se dividirá em uma
minoria dominando emnome da ciência, e uma imensa maioria
ignorante. E então, cuidado coma massa dos ignorantes!
Tal regime não deixará de provocar seríssimos desconten-
tamentos nesta massa, e, para contê-la, ogoverno iluminador e
emancipado r do Sr. Marx necessitará de uma força armada não
menos séria. *
MIKHAIL BAKUNIN
* "Lettre aux compagnons du J ura", in Archives Bakounine, Leiden,
1965, t. III, p. 204.
NOTA DO EDITOR
Os anarquistas franceses - como escreve Roland Bosde-
veix no Editorial do nQ 33 da revista LA RUE - acharam que
"era imperativo que, ao modo dos anarquistas, fosse lembrado
um certo número de verdades ou, pelo menos, evidências"
sobre opersonagem Marx e seus discípulos.
Os textos de Oaniel Guérin, Michel Ragon, Maurice
[oyeux, [ean Barrué e Eric Vilain foram extraídos do número
especial, Marx: No Future!, nQ 33 da Revista Cultural eLiterária
de Expressão Anarquista LA RUE, publicada em 1983 pelo
Grupo Libertário Louise Michel, da Federação Anarquista da
França. Esse número especial foi lançado no momento emque
os marxistas de todo omundo comemoravam o centenário da
morte de Karl Marx.
O texto de Alexandre Skirda foi-nos entregue pelo pró-
prio autor, enquanto osde RudolfRocker e Gaston Leval foram
extraídos da brochura publicada por Les Editions de l'Entr'aide
(edição do Grupo Sacco e Vanzetti da Federação Anarquista
da França) em 1983, tendo por título: "Marx, le ténia du 50-
cialisme".
OS ANARQUISTAS
J ULGAM MARX
KARL MARX,
A TÊNIA DO SOCIALISMOJ1
Maurice Joyeux
Há cem anos desaparecia Marx. As sociedades comu-
nistas vão comemorar o evento tocando címbalo, mais osten-
sivamente na Rússia e nas democracias populares, e commenos
fausto por parte dos partidos comunistas ocidentais onde se
tem mais dificuldade de fazer coincidir asprofecias do "Grande
Sachem'". com os imperativos impostos pela evolução econô-
mica e social da humanidade. Entre oscidadãos que rejeitaram
omarxismo, falar-se-á dele com esta ignorância e este despre-
endimento inevitáveis, com os quais se fala dos personagens
que representaram um papel, mas que o tempo atenua sem
apagar completamente.
Fora de uma obra ideológica discutível, e pelo lugar que
ele ocupa na história, Marx merece algomais que ospropósitos
ditirâmbicos de uns ou a indiferença de outros. Seu destino,
simultaneamente complexo e apaixonante, desposa sua época.
Ele nasceu no início de um século que vai parir uma trans-
formação prodigiosa da economia que tornará o lugar outrora
ocupado pela filosofia na preocupação intelectual dos homens,
e em um tempo em que as mutações se realizam numa cadên-
cia desconhecida desde as origens. Pertencerá a um grupo de
ideólogos que, assim como ele, tomaram consciência do futuro
que espera a sociedade, acompanhando-a intelectualmente
durante a primeira parte de sua existência. O destino desses
14 OS ANARQUISTAS J ULGAM MARX
homens, com imenso desejo de compreender, conhecer, expli-
car e, enfim, pensar aevolução que se delineava, será ode dar
uma forma primeira ao que se pode chamar, no sentido mais
amplo do termo, o socialismo. Eles reivindicarão o termo em
voz alta, antes que suas diferentes contribuições pessoais con-
duzam aselites asingularizá-Ias por uma fórmula particular que
atesta melhor seus propósitos. Essa fórmula delimitará suas
conquistas teóricas e sublinhará suas ambições particulares.
Eles são, aliás, e Marx mais do que osoutros, osherdeiros
de Ricardo, economista inglês, que para definir o percurso da
livre-troca na economia capitalista em seu começo, estudará
com minúcia os elementos da produção, da distribuição e de-
terminará a parte respectiva do salário e do lucro. Entre esses
homens que vão tomar umcaminho paralelo aode Marx, alguns
nomes: Saint-Simon, Fourier, Pecqueux, Cabet, Considérant,
Proudhon, Engels, Bakunin, Kropotikin, Louis Blanc, Blanqui
e tantos outros ainda que reivindicarão cada um deles um
socialismo à sua maneira. Entretanto, é incontestável que é
Karl Marx quem fará apenetração mais espetacular no tempo,
como também éele quem suportará melhor opassar do tempo,
por razões que não são todas devidas ao talento ou àevolução
econômica, mas igualmente aos avatares que determinam o
caminho seguido por este sistema capitalista por ele conde-
nado e que conseguirá superar suas contradições. Dentre os
homens que foram simultaneamente seus contemporâneos e
seus adversários, só Pierre- [oseph Proudhon terá um destino
comparável ao seu. E hoje, servindo-se do que resta atual de
suas obras, é ainda, ésempre Marx e Proudhon que se lançam
àfrente das escolas socialistas que se afrontam.
* * *
KARL MARX, A TÊNIA DO SOCIALISMO 15
É bem conhecido que no início dos anos 1840 o projeto
dos jovens hegelianos alemães, agrupados em torno de Karl
Marx, e que se chamam Grün, Ewwerbeck, Weitling, Rüge e
alguns outros, sonha com uma "Santa Aliança" intelectual
com os socialistas franceses, afimde operar uma síntese entre
a filosofia francesa e a filosofia alemã. Projeto difícil, pois o
socialismo francês naquele momento encontra-se fragmentado
e, Proudhon àparte, veicula omal cheiro do jacobinismo saído
das grandes horas da Revolução Francesa de 1789. Mas oprin-
cipal obstáculo a este internacionalismo em desenvolvimento
será aconfusão ideológica que tem por fonte aobra de Hegel,
mal lida ou mal digerida. O jornal que devia ser osuporte desta
aliança, Os Anais Franco-Alemães, só terá um número. Entre-
tanto, "o cartaz" poderia ter sido sensacional se se acrescen-
tasse aos nomes já citados os de Engels e de Bakunin. Todos
esses homens reunidos durante um curto instante em Paris
para um grande trabalho, reprimidos em seguida pelo rei bur-
guês Luis-Felipe, inquieto por esta invasão intelectual, vão se
dispersar pela Europa e, durante esses quatro anos (1844-1848)
que precedem os espasmos revolucionários que vão agitar as
velhas autocracias européias, provocam oaprofundamento das
diferenças que os opõem, esboçando o que será mais tarde o
mapa ideológico do socialismo pelo mundo.
Entre ohumanismo ateu de Feuerbach, odeísmo de Louis
Blanc, ojacobinismo centralizador de Marx, e oeconomicismo
igualitário de Proudhon, a margem de acordo émuito peque-
na. Mas osjovens hegelianos alemães não se considerarão ven-
cidos, e Marx, depois Grün, tentarão converter Proudhon à
dialética de Hegel. Proudhon, que não fala alemão, não leu
Hegel. O que lhe dizem seus amigos alemães sobre o assunto
irá inflamar sua imaginação atal ponto que olevará acriar sua
própria dialética: a "dialética serial", que ele proclamará bem
superior àquela do filósofo alemão, e cuja demonstração assen-
I
16 OS ANARQUISTAS J ULGAM MARX
tará sobre as antinomias, quer dizer, sobre ascontradições nas
quais vai procurar o equilíbrio numa obra espessa e confusa:
Sistema das Contradições Econômicas, mais conhecida sob o
título Filosofia da Miséria. Afirmou-se que foi por causa desse
livro que ocorreu a ruptura entre esses dois homens, e é ver-
dade que Miséria da Filosofia, onde Marx, comuma vivacidade
incontestável, percorre a obra de Proudhon, permanecerá o
símbolo dessa ruptura; apesar desta játer sido consumada, ela
foi o fruto das querelas que agitavam os jovens hegelianos
alemães. Até então Marx tinha seadaptado àsdiferenças entre
seu socialismo e o de Proudhon, e tinha inclusive tomado a
defesa deste último emseu livro A Sagrada Família. Natural-
mente, estas diferenças tinham sido por ele sublinhadas, mas
ele não perdia a esperança de conduzir Proudhon ao terreno
puramente econômico, que será mais tarde o do materialismo
histórico e dialético. O homem é ambicioso, seu caráter éin-
tratável e, assim, tentará envolver Proudhon nas querelas que
opõem os socialistas alemães. Proudhon recusa-se a se deixar
arrastar por querelas que não lhe concernem, e será aruptura.
Conhecemos asduas cartas que delineiam perfeitamente
ocaráter diferente dosdoishomens. A carta de Marx onde, em
umpost-scriptum, vomita sua bílis sobre Grün, e aresposta de
Proudhon, cheia de dignidade, pedindo aseu correspondente
que mantenha as "discussões necessárias sobre o plano das
idéias". Esta correspondência é interessante pois situa Marx
comexatidão emsuasrelações comossocialistas de seutempo.
É exemplar para nós anarquistas, poisretrata aparte dohomem
no funcionamento intelectual que resulta na criação teórica.
Quando toma conhecimento de Miséria da Filosofia, que éuma
crítica de sua obra Filosofia da Miséria, Proudhon fará esta
simplesreflexão: "Marx diz amesma coisaque eu; oque ele me
censura é o fato de tê-Ia dito antes dele", o que é discutível.
Ele acrescentará: "Marx é a tênia dosocialismo".
KARL MARX, A TÊNIA DO SOCIALISMO 17
Esta atitude de Marx diante dos homens que aparecerão
como seus adversários jamais será desmentida, e um pouco
mais tarde, quando expulso daFrança erefugiado emBruxelas,
vai outra vez espalhar calúnias, desta vez contra Bakunin. Ser-
vindo-se de uma confidência que George Sand ter-lhe-ia feito,
vai acusar o revolucionário russo de ser um agente do czar.
Esta, obviamente, o desmentirá, e estamos de posse de sua
carta aBakunin emque elaseindigna por taisprocedimentos.
,O que pensam vocês que fez Marx? Desculpou-se? Apenas
tomou conhecimento do desmentido e tentou justificar-se,
mostrando a necessidade de proteger o movimento revolu-
cionário das ações da polícia dos governos capitalistas. O pro-
cedimento é indecente e parte da clássica idéia: caluniem,
caluniem, alguma coisa dissopermanecerá! Esta atitude odei-
xará durante anos àmargem dosocialismo francês, e apenas os
blanquistas, quando tiverem aderido àInternacional, fornecer-
lhe-ão umpúblico flutuante. Proudhon eliminará Marx e sua
obra - que por sinal sóentrará na França muito mais tarde -
de suas preocupações. Mas se Proudhon e os socialistas fran-
ceses ignoram Marx, este, por sua vez, não osignorará e con-
sagrar-lhes-á um certo número de artigos que, reunidos mais
tarde, formam um volume: A Luta de Classes na França, que
não deixará de ser interessante, e no qual ele critica seve-
ramente o Banco do Povo de Proudhon. É, nesta ocasião, que
ele fala pela primeira vez "de umsocialismo pequeno-burguês
comoprojeto de associar oassalariado e ocapital". Propósitos
evidentemente injuriosos que serão propagados contra osanar-
quistas até nossos diaspelos asnos que pastam comdificuldade
na prosa do mestre. Seu livro, Crítica da Economia, éuma res-
posta aoprojeto de crédito gratuito exposto por Proudhon em
Idées Générales sur la Révolution. Entretanto, oshomens terão
de escolher entre estas duas idéias abruptas: éomeio que mo-
difica o homem como quer omaterialismo histórico de Marx,
18 OS ANARQUISTAS J ULGAM MARX
ou é o homem que modifica as circunstâncias como procla-
mava Proudhon? Na realidade, averdade édiferente dos argu-
mentos que esses homens apaixonados se lançam no rosto. O
homem modifica omeio que oagita e inscreve-se no meio que
guia seus procedimentos. Mas o que dá ao materialismo dia-
lético um aspecto tão superficial quanto oda redenção éofato
de ser impossível delimitar exatamente aparte do homem e do
meio, e o instante em que um e outro intervêm, o que torna
irrisória esta caminhada inelutável traçada pelos evangelhos
políticos ou religiosos e deixa ao homem, "independente de
Deus ou de Marx", ocuidado e aresponsabilidade de traçar seu
caminho a qualquer momento que seja!
Naquela época, contudo, a influência de Proudhon au-
menta, e em sua correspondência com Engels, Marx se preci-
pitará sobre sua caneta para caluniar uma última vez seu
adversário que, diz ele, é "uma contradição viva". Todavia, não
consegue acabar com Proudhon, pois o reencontrará, ou me-
lhor, reencontrará sua influência no seio da Primeira Interna-
cional, antes de se chocar com outro anarquista, Mikhail Ba-
kunin! Convém ainda ressaltar que durante todo esse primeiro
período, o rancor e a vaidade do personagem vão se chocar
com outros representantes do socialismo alemão que tentará
subjugar com acumplicidade de Engels.
* * *
É justamente na volumosa correspondência que mantém
com Engels que Marx revela melhor sua verdadeira persona-
lidade. Os revolucionários daquela época, que não dispunham
de nossos meios modernos de informação, mantiveram uma
correspondência volumosa. Esta prosa epistolar, que tem a
vantagem de nos fazer penetrar nos "segredos de alcovas" polí-
ticas, nas quais estes senhores lavam sua roupa suja emfamília,
KARL MARX, A TÊNIA DO SOCIALISMO 19
nem sempre é apetitosa. Aliás, adivinha-se, pelo estilo dessa
"Correspondência", dessas "Anotações", desses "Bilhetes" que,
por falso pudor, pretende-se conservar para si, mas que na rea-
lidade são escritos para serem publicados "depois", quando, na
falta do juízo de Deus, soará odos homens. É nessas correspon-
dências "confidenciais" que as opiniões se manifestam, que os
caracteres se delineiam, que os ódios aparecem com maior
clareza. Nesse campo, acorrespondência entre Marx e Engels,
sobre Proudhon, Bakunin e alguns outros, é edificante.
Naquela época, novamente em relação a Bakunin, a ca-
lúnia percorre aEuropa. Acusam-no de ter escapado da Sibéria
com a cumplicidade da polícia do czar. Foi em Londres, em
1866, que Fess Press publicou um artigo criticando o revo-
lucionário russo. Marx sempre se defendeu de ter sido o ins-
pirador deste artigo, mas ele escrevia nesse jornal, cujo editor,
Urquhart, era um de seus amigos, e no qual, um outro amigo,
Ewwerbeck, colaborava. Estamos diante de uma tática que
Marx aplicará durante os primeiros anos da Internacional e
que consiste emse servir de outros para tecer as sujas calúnias
contra oadversário. E édesde acriação da Internacional que a
bílis do personagem vai derramar-se com toda a cólera. Baku-
nin não escapará disto, mas, após uma destas hipocrisias, nas
quais ele é mestre, Marx reconcilia-se com seu adversário do
qual espera se servir - seguindo umlouvável hábito - contra
Mazzini.
A Internacional nasceu em Londres de diversos encon-
tros entre trabalhadores franceses e ingleses, e chegou-se a
dizer que "esta criança nascida em Londres tinha sido gerada
nas oficinas parisienses". No meeting, assim como na primeira
sessão, Marx assistiu apenas como espectador. Foi mais tarde
que, encarregado de esmerilar um texto da seção parisiense
apresentado por Tolain, e que se tornará aMensagem Inaugural,
penetrou e incrustou-se na seção da organização. No início se
20 OS ANARQUISTAS J ULGAM MARX
resguardou de representar um papel público. Marx é homem
da sombra. É interpondo alguém que ele vai se esforçar para
barrar os "senhores proudhonianos". Para estes trabalhos de
solapamento ele se servirá de vários personagens, dentre os
quais o mais conhecido é Eccarius, que será seu fantoche.
Todavia, foi durante oCongresso de Basiléia que aruptura, que
amadurecia sob as cinzas já há algum tempo, foi consumada.
* * *
oCongresso de Basiléia, em 1869, foi o mais importante
congresso da Internacional, e os problemas evocados há cento
e vinte anos, ainda são atuais. Os temas que dominaram as
discussões no congresso foram a coletivização das terras e a
herança. Marx, que se tornou "secretário correspondente para
as seções alemães" e que foi na realidade "permanente", con-
seguiu afastar os democratas, os mazzinianos, os trade-unio-
nistas, os proudhonianos, mas teve de deparar-se com uma
outra oposição dominada pela seção francesa: "os comunistas
livres" animados por Eugene Varlin, cujas opiniões estão bem
próximas das de Bakunin. Durante asdiscussões, dois aspectos
do coletivismo se afrontam: o aspecto federalista das seções
latinas, italianas, espanholas e francesas, e o aspecto centrali-
zador dos partidários de Marx. Na realidade, esboça-se, em
Basiléia, oconfronto entre osocialismo comunalista e osocia-
lismo de Estado; entre aprimazia da economia e apolítica. No
que toca à coletivização das terras, Bakunin e seus amigos
vencem aparada; ao contrário, no que se refere àherança, os
resultados permanecerão indefinidos. Marx, que segundo seu
hábito, encontra-se ausente, porém representado pelo inevi-
tável Eccarius, vai marcar um ponto importante. O Conselho
Geral ao qual ele pertence e o qual domina, reforçará seus
poderes graças a Bakunin que prepara o chicote com que seu
KARL MARX, A TÊNIA DO SOCIALISMO 21
adversário o chicoteará mais tarde. O revolucionário, em se-
guida, reconhecerá ter-se enganado profundamente.
Bakunin, naquela época, ainda teve de defender-se con-
tra as calúnias do clã que rodeava Marx. Homens como Bork-
heim, Bedel, Liebknecht deram continuidade à ação em seu
jornal Zukunft. Forçado aexplicar-se diante de umjúri de honra,
Liebknecht foi condenado, o que não impediu Hess de publi-
car em Le Réveil que Bakunin, à frente de um partido russo,
teria tentado, emBasiléia, impor seu pan-eslavismo para resul-
tar em uma greve social que permitiria aos bárbaros do Norte
rejuvenescer a civilização moderna. Bakunin responderá com
muita franqueza, e Herzen o censurará por não ter atacado
Marx diretamente ao invés de seus lacaios.
Essas querelas em torno do Congresso de Basiléia vão
provocar reações anti-sernitas lamentáveis e polêmicas emque
os problemas pessoais têm tanta importância quanto as oposi-
ções ideológicas. Mas é quando eclode aguerra franco-alemã
que a duplicidade de Marx torna-se evidente. Conhece-se a .
mensagem dos trabalhadores franceses aos trabalhadores ale-
mães para se oporem àguerra. Varlin escreve:
Irmãos alemães, emnome da paz, não escutem as
vozesestipendiadas ouservisque procuramvosenganar
sobre overdadeiro espírito daFrança. Permaneçam sur-
dos às provocações insensatas pois aguerra seria para
nós uma guerra fratricida. Permaneçam calmos como
pode fazê-lo, semcomprometer suadignidade, umgrande
pOVO, forte ecorajoso. Nossas divisõesnada maisfariam
que conduzir àsduas margens do Reno o triunfo com-
pleto dodespotismo.
É certo que Marx, em nome do Conselho Geral da Inter-
nacional, faz publicar um texto que conclama à solidariedade
entre os operários franceses e alemães, onde se lê esta frase
22 OS ANARQUISTAS J ULGAM MARX
ambígua: "A guerra do lado alemão deve permanecer uma
guerra defensiva". Todavia, overdadeiro pensamento do perso-
nagem diante desta guerra é sua correspondência com Engels
que nos faz conhecê-lo. Eis uma amostra dessa prosa:
Os franceses precisam de uma surra. Se os prussia-
nos forem vitoriosos, acentralização do poder de Estado
será útil àcentralização da classe operária alemã. A pre-
ponderância transferiria, além do mais, da França para
aAlemanha, o centro de gravidade do movimento ope-
rário europeu. Basta comparar omovimento de 1866 até
hoje, nos dois países, para ver que a classe operária ale-
mã é superior à classe francesa no plano da teoria e da
organização. A preponderância, no teatro do mundo, da
classe operária alemã sobre afrancesa, significaria simul-
taneamente a preponderância de "nossa" teoria sobre a
de Proudhon.
A preponderância sobre Proudhon, eisqual éapreocupa-
ção do personagem enquanto a guerra devasta. Estas frases
soam como oprelúdio aoutras frases pronunciadas por Lenin,
em seguida por Stalin, nas quais a vida humana conta muito
pouco diante da ambição desmedida destas grandes feras da
política. Um certo número de internacionalistas franceses, não
querendo ficar à margem, acusará Marx e seu bando de es-
tarem aserviço de Bismarck; e quando se engaja neste terreno
nenhum absurdo énegligenciado; acusar-se-à Bismarck de ter
pago aMarx 25.000 francos. Mas não se compreenderia muito
bem oabsurdo aonde levam estas "grandes cabeças" emdelírio
se não se lesse esta carta de Engels aMarx.
Minha confiança na força militar cresce acada dia.
Fomos nós que ganhamos aprimeira batalha séria. Seria
absurdo fazer do antibismarckisrno nosso princípio dire-
KARL MARX, A T~NIA DO SOCIALISMO 23
tor. Bismarck, como em 1866, trabalha para nós, a seu
modo ...
Mas para conhecer bem o cinismo do personagem, não
hesito em lembrar estas linhas de Marx e Engels:
Esses indivíduos (os parisienses) que suportaram
Badinguet durante vinte anos; que há seis meses não
puderam impedir que ele recebesse seis milhões de votos
contra um milhão e meio ... Essas pessoas pretendem
agora, porque avitória alemã presenteou-lhes uma repú-
blica (e qual?), que os alemães deixem imediatamente o
solo sagrado da França, caso contrário, guerra total... É
avelha presunção! Espero que essas pessoas readquiram
o bom senso, passada a primeira exaltação, caso con-
trário, será bem difícil continuar as relações internacio-
nais com eles.
*
*
*
A guerra fragmentou aorganização operária francesa, e a
Comuna será o último sobressalto para reconstruir um movi-
mento revolucionário importante. Marx vê no evento apossi-
bilidade de destruir a influência proudhoniana e eliminar Ba-
kunin. Ele escreve aEngels: "Este russo, está claro, quer se tor-
nar o ditador do movimento operário europeu. Que ele tome
cuidado, caso contrário será oficialmente excomungado". E ele
vai se esforçar para fazê-lo: serve-se de sua posição na Interna-
cional para denunciar como heréticos os partidários do revo-
lucionário russo. Não perde de vista, contudo, ainfluência de
Proudhon sobre o movimento operário francês, e quando da
insurreição parisiense que resulta na proclamação da primeira
República, condenará os internacionalistas que se recusam a
associar-se ao boicote da insurreição pela burguesia liberal; ele
24 OS ANARQUISTAS J ULGAM MARX
se encontrará emoposição aEugêne Varlin e seus amigos, bem
como aos blanquistas mais ou menos influenciados por ele. Em
particular, ele condenará a tomada de posição de Bakunin
durante a insurreição de Lyon. É verdade que Marx escreveu
sobre a Comuna de Paris seu melhor texto, A Guerra Civil na
França, mas não se pode esquecer que, temendo rever apredo-
minância do socialismo francês na Internacional, tinha feito
anteriormente todos osseus esforços para desencorajar ainsur-
reição e ordenar osocialismo francês àsombra dos liberais que
tinham tomado o poder.
A guerra e aComuna vão delimitar claramente as corren-
tes de opinião no que resta da Internacional. A organização se
fraciona. As seções latinas escolhem a corrente federalista; as
seções anglo-saxãs, acorrente centralista. Os internacionalis-
tas suíços constituem duas federações rivais, e se aseção belga
conserva sua unidade, éigualmente estremecida pelos despe-
daçamentos da Internacional. O fim está próximo; ocorre no
congresso organizado em Haia, em 1872, e do qual Marx par-
ticipa pela primeira vez. Marx espera eliminar Bakunin ser-
vindo-se do caso Netchaiev. Este não serviu, mas ele tem um
outro de reserva: éofamoso caso da tradução emrusso do livro
de Marx, O CaPital, empreendida por Bakunin. Esta tradução,
pela qual Bakunin tinha recebido um adiantamento, nunca foi
terminada, talvez pela influência de Netchaiev que achava que
o revolucionário russo devia consagrar-se por inteiro à propa-
ganda.
E esta máquina de guerra que foi o Congresso de Haia,
montado por Marx para eliminar ideologicamente Bakunin e
seus amigos, vai terminar por uma última farsa que anunciou
ofimda Primeira Internacional, conquanto tenha continuado
a arrastar-se antes de ir morrer nos Estados Unidos, longe de
seu centro de gravidade, como se Marx, o homem que a ma-
tou, não tivesse podido visualizar seu desaparecimento banal.
KARL MARX, A TÊNIA DO SOCIALISMO 25
oCongresso de Haia foi um congresso truncado; amaior
parte dos partidários de Marx estava munida de mandatos
contestados e contestáveis. Nesta manipulação aparece o ca-
ráter do personagem. Todos os meios são bons para eliminar o
adversário. Enquanto a minoria é representativa das federa-
ções constituídas, a maioria marxista é sobretudo composta
pelos membros do Conselho Geral, devotos de Marx. Bakunin
será expulso por malversação eJ ames Guillaume por pertencer
àAliança.
* * *
Eu quis, neste texto, retratar o caráter de Marx e res-
tringir-me ao comportamento do personagem, deixando de
lado asoposições doutrinárias que meus colegas examinam em
profundidade nos diferentes textos deste número consagrado
a Marx e à ideologia marxista. Os fatos que eu apresento são
conhecidos por um certo número de eruditos, mas cuidado-
samente "esquecidos" pelos ideólogos marxistas e ignorados
pelo grande público. Quis trazê-los àluz por diferentes razões.
Inicialmente porque opersonagem éfascinante, e sua vontade
de predominância sobre o movimento socialista internacional
é extraordinária. O desaparecimento de Proudhon, inicial-
mente, e de Bakunin, em seguida, não saciaram sua sede de
poder, e com seu compadre Engels, buscou novos adversários
em seu próprio partido, o Partido Social-democrata alemão, e
tratou-os com osmesmos métodos. Mas existe uma outra razão
que me leva adissecar ocomportamento de Marx. Como todos
osfundadores de escolas, ele trouxe não apenas idéias aos agru-
pamentos que influenciava como também uma estratégia, uma
tática, um comportamento que influencia seu círculo. E a
social-democracia alemã, imbuída daquilo que considerava
como sendo a superioridade ideológica do mestre, foi carco-
26 OS ANARQUISTAS J ULGAM MARX
mida por um nacionalismo que, mais tarde, fê-Ia opor-se a
[aurês e apoiar o imperialismo de Guilherme Il, como Marx
havia apoiado Bismarck em seus esforços para impor a hege-
monia alemã. O comportamento de Marx, assim como o dos
outros socialistas alemães, consistia em unir estreitamente as
pretensões nacionais àquelas, nacional e internacional, de seu
socialismo.
Foi apartir do comportamento de Marx - para o qual o
fimjustifica qualquer meio, e menos apartir da ideologia que
ele afastou cada vez que foi necessário - que Lenin construiu
sua teoria revolucionária das minorias agentes. Apesar do que
puderam dizer os "puristas" do marxismo, a teoria dos "dois
passos adiante, um passo atrás" assim como a da "economia
capitalista", prelúdio indispensável à socialização, são real-
mente uma herança deixada por Marx ao comunismo.
É verdade que as evoluções econômicas, o sucesso ao
menos parcial da classe dirigente asobrepor-se às suas contra-
dições, a melhora das condições de existência das massas no
sistema capitalista, a tomada de consciência do terceiro e do
quarto mundo de sua exploração, não apenas por suas classes
dirigentes como também pelas nações dirigentes, apresentam
os problemas de modo diferente daquele exposto por Marx, e
não apenas por ele. Pode-se pensar comjusta razão que aideo-
logia socialista, nascida no século passado, tinha singular ne-
cessidade de ser desempoeirada. Se nas diferentes escolas do
socialismo de hoje continua-se asaudar educadamente osmes-
tres de outrora, e alouvar suas virtudes, "traem-se" os mestres
sem nenhum complexo, só conservando de seu ensinamento
aspalavras cuja potência de evocação permanece intacta, pala-
vras e métodos de dominação que não pertencem exclusiva-
mente ao socialismo, mas que foram o apanágio de todos os
autoritários desde a Gênese.
KARL MARX, A TÊNIA DO SOCIALISMO 27
Marx foi a tênia do socialismo, ensina-nos Proudhon. É
verdade! Entre Maquiavel e Lenin, semnos determos nos ou-
tros, Marx é o traço de união que religa entre eles os despo-
tismos intelectuais das palavras, para limpar suas vilanias.
Notas:
1 Este texto foi publicado emfrancês em 1983, na revista cultural anar-
quista LA RUE, nº 33,
2 Sachem: palavra iroquesa. Significa velho, ancião com a função de
conselheiro e chefe entre as tribos indígenas do Canadá e do norte dos
Estados Unidos,
GÊNESE E SIGNIFICAÇÃO
DO MARXISMO
Alexandre Skirda
A classe letrada em seu conjunto sempre constituiu o
assentamento espiritual do poder dominante; seus membros
sempre foram, simultaneamente, osbobos zelosos, osresponsá-
veis dedicados e os plumitivos servis dos poderosos de cada
momento. A propósito da potência das idéias, lembremos a
fórmula de Bacon: Saber époder. A concepção de uma elite
dominante ligada ao saber não é nova, ela se perde na noite
dos tempos com as sociedades de tipo esotérico e religioso. A
concepção de uma elite ligada ao desenvolvimento industrial,
ao contrário, remonta às próprias fontes do socialismo do
século XIX, mais exatamente aSaint-Simon, pai fundador do
socialismo industrial. Querendo reagir contra aera destruidora
das guerras napoleônicas, assim como contra o uussez-iaixe,
laissez-passer da economia liberal, representada sobretudo por
Adam Smith, Saint-Simon propôs substituir a guerra, motor
negativo dos conflitos sociais, que entroniza a força, "ingre-
diente que tudo corrompe, e produz a miséria pela imorali-
dade", por uma nova atividade repousando sobre a indústria,
fator de evolução pacífica rumo ao bem-estar geral da socie-
dade. Para ele, adireção sucede ao comando, ahierarquia não
se estabelece mais segundo onascimento, mas exclusivamente
em virtude da capacidade de produzir melhor, e do critério de
utilidade social por lei, pois "a ordem social deve ter hoje por
30 OS ANARQUISTAS J ULGAM MARX
objetivo único, direto e permanente a ação do homem sobre
as coisas'".
Por via de conseqüência, onovo poder deve dividir-se em
umpoder espiritual, exclusivamente "confiado aos artistas, sá-
bios e aos artesãos, únicos possuidores das capacidades posi-
tivas que são os elementos da ação administrativa útil";' e em
umpoder temporal, exercido pelos diretores de indústria, "ver-
dadeiros chefes do povo, visto que são eles que o comandam
em seus trabalhos diários":'. Esses novos responsáveis devem
substituir os antigos privilegiados - os nobres, os padres, os
militares e os juristas - para constituir uma nova classe diri-
gente, da qual o útil papel esteja em acordo com osprogressos
dos conhecimentos e da organização humana.
Os discípulos saint-simonianos vão disseminar, ampliar o
ensinamento do mestre e participar, entre outras coisas, do
desenvolvimento do capitalismo industrial. As "terras, ofi-
cinas, capitais etc., só podem ser empregados com o maior
aproveitamento possível para a produção, sob uma condição,
ade serem confiados àsmãos exploradoras mais hábeis, ou em
outros termos, às capacidades industriais"."
É possível compreender melhor a que ponto o ideal dos
saint-simonianos pôde influenciar o conteúdo do socialismo
pela seguinte passagem:
Transportemo-nos para um mundo novo. Lá não
são mais os proprietários, os capitalistas isolados, estran-
geiros por seus hábitos aos trabalhos industriais, que
regulam aescolha das empresas e odestino dos trabalha-
dores. Uma instituição social éinvestida destas funções,
tal mal exercidas atualmente; ela é depositária de todos
os instrumentos da produção; ela preside a toda explo-
ração material; assim, ela se encontra situada no plano
de visão de conjunto que permite observar simultanea-
GÊNESE E SIGNIFICAÇÃO DO MARXISMO 31
mente as partes da oficina industrial; através de suas
ramificações ela está em contato com todas as locali-
dades, com todos os tipos de indústria, com todos os
trabalhadores; ela pode inteirar-se das necessidades ge-
rais e das necessidades individuais, levar os braços e os
instrumentos láonde anecessidade sefazsentir, emuma
palavra, dirigir aprodução, colocá-Ia emharmonia com
o consumo, e confiar os instrumentos de trabalho aos
industriais mais dignos, pois ela se esforça constante-
mente para reconhecer suas capacidades, e está na me-
lhor posição para desenvolvê-Ias.
(...) Emuma palavra, a indústria está organizada,
tudo se encaixa, tudo está previsto: adivisão do trabalho
éaperfeiçoada, acombinação dosesforços toma-se cada
dia mais fortes.
Aqueles que "regulam aescolha das empresas e o destino
dos trabalhadores" são "homens gerais, cuja função émarcar a
cada um olugar que lhe émais propício ocupar, para si mesmo
e para osoutros'"'. Esses "chefes competentes" possuem "capa-
cidades superiores, situadas a um plano de visão geral, libera-
das dos entraves da especialidade". Essa capacidade será fun-
ção unicamente do mérito pessoal, e será um "novo direito de
propriedade transmissível, mas só como se transmite osaber'".
Bazard e Enfantin, os dois principais discípulos e propa-
gadores das idéias saint-simonianas, acreditam na "desigual-
dade natural dos homens", e aconsideram até mesmo como a
"condição indispensável da ordem social"; é assim que eles
preconizavam "Que no futuro cada um seja aproveitado se-
gundo sua capacidade, e retribuído segundo suas obras"," fór-
mula que se tornará apedra de toque do socialismo ulterior.
Esse último sempre se banhou no sonho irradiante de
eliminar o "pauperismo", oreino da necessidade, asubjugação
às tarefas materiais. Isso foi, e ainda é, arazão essencial de seu
I
32 OS ANARQUISTAS J ULGAM MARX
sucesso. Essa desalienação econômica, total segundo os pre-
ceitos socialistas, deve operar-se, evidentemente, pelo desvio
da mediação dos representantes "autorizados" da "classe mais
numerosa e mais pobre", segundo a fórmula consagrada de
Saint-Simon para designar o proletariado.
Essa noção de produtivismo industrial é plenamente en-
contrada em Marx e influenciou de maneira determinante sua
concepção do "socialismo científico". É importante precisar o
que significa "marxismo" na época da crítica de Makhaiski. O
termo dizia respeito ao ensinamento fornecido pelas obras de
Marx publicadas ainda emvida, assim como àsua experiência
de militante no seio das organizações alemães, em 1848-1850,
em seguida no quadro da Primeira Internacional. Foi isto que
constituiu o corpo da doutrina, e que ainda permanece para
numerosos "marxistas". A partir daí, certos textos inéditos de
Marx foram revelados, descobrindo umpensamento diferente,
amiúde contraditório com o aspecto até então admitido." To-:
davia, é lamentável que esse aspecto "marxiano", apresentado
como sendo mais próximo da verdadeira personalidade de
Marx, tenha sido revelado por escritos ou rascunhos que o
autor não tinha julgado útil tornar públicos naquele momento,
mas que teriam sem dúvida modificado um pouco o dogma
oficial. Essacircunstância limita emmuito oalcance desta obra
póstuma, que, de qualquer modo, só poderia constituir um tipo
de "testamento oficioso".
É preciso também constatar a dificuldade de atribuir a
Marx a paternidade da nebulosa dos "marxismos" que nele se
apoiavam no passado ou que continuam afazê-lo ainda hoje.'?
Se omarxismo foi amiúde transformado emdiscurso des-
conectado do real, isto só se tornou possível pelo seu caráter
escatológico que fez dele uma verdadeira religião secular com
seu cortejo inevitável de fanatismos e heresias. Esse aspecto,
somado às suas contradições internas, permitiu a seus diversos
GÊNESE E SIGNIFICAÇÃO DO MARXISMO 33
herdeiros de lá encontrar simultaneamente sua fonte comum
e as razões de seus ódios mútuos.
Nesta acepção, omarxismo foi e ainda éumraro momento
histórico excepcionalmente estagnante. Marx podia muito
bem retomar por sua conta ametáfora de Heine: "Minha infe-
licidade foi ter semeado dragões e colhido apenas pulgas".
No que concerne ao próprio Marx, aambigüidade de sua
relação com o "marxismo" - suas análises não eram simples
hipóteses de trabalho, um "fio condutor", ou ainda verdades
eternas e leis históricas imutáveis? - parece-nos refletir a
própria ambigüidade de seu tempo.
Se éque se possa ou queira defini-lo neste âmbito, tendo
em vista as inúmeras influências que ele sofreu de outros pen-
sadores socialistas, deve estar emestreita relação com os socia-
listas do século XIX, considerados globalmente, "utópicos" e
"científicos" confundidos. 11
De qualquer forma, o marxismo repousava, na época de
Makhaiski, sobre as seguintes linhas de força, expostas de ma-
neira sucinta:
- ele propunha um fim último, a sociedade comunista,
como solução à alienação econômica do homem, fonte de to-
das as desigualdades sociais.
- as razões históricas deste fim eram fornecidas pela fa-
lência inelutável da sociedade capitalista em controlar o de-
senvolvimento crescente das forças produtivas, transformando
as relações sociais de produção.
- oproletariado era aúnica classe capaz de bem conduzir
este desenvolvimento; era ele que estava investido da missão
emancipadora de toda a sociedade.
- os meios indicados eram os de ajudar este desenvol-
vimento até que o capitalismo fosse vítima de suas contradi-
34 OS ANARQUISTAS J ULGAM MARX
ções, e educar politicamente a classe chamada a lhe suceder,
pela conquista da democracia, de início, e, em seguida, pela
conquista do poder político.
Isto exposto, todo o problema consistia em saber se o
proletariado tinha a capacidade de assumir sozinho sua im-
portante missão histórica. Poderia ele também, por seus pró-
prios meios, educar-se ao contato da produção capitalista, ad-
quirir uma maturidade suficiente para, no momento oportuno,
apoderar-se do leme e exercer sua hegemonia, sua dominação
de classe?
Marx já chamava aatenção para opapel dos comunistas,
a "parte mais resoluta dos partido operários", "a parcela que
está sempre à frente" e que, sobretudo, "do ponto de vista
teórico", tem avantagem "sobre oresto da massa proletária de
compreender as condições, amarcha e os resultados gerais do
movimento operário'l". Além do mais, segundo Marx, uma
"parte importante da burguesia passa ao proletariado, e em
particular aqueles dentre os ideólogos burgueses que se eleva-
ram à inteligência teórica do movimento geral da história"!'.
O proletariado estava bem reforçado em sua delicada missão.
Nessas condições, omarxismo aparecia não apenas como
defesa e ilustração do modo de produção capitalista, mas
também como uma ideologia inovadora, inserindo-se harmo-
niosamente no desenvolvimento da sociedade burguesa, antes
de colocar-se como sua herdeira à sucessão, pois a sociedade
burguesa estava prometida aos tormentos de uma agonia que
se aproximava.
O "reforço" à causa proletária, contemplado por Marx,
esteve longe de ser unânime em sua época; por exemplo, no
momento do Congresso de Genebra da Primeira Internacional
(3-8 de setembro de 1866), a delegação francesa, composta
entre outros por Malon, Varlin e Fribourg, propôs excluir da
GÊNESE E SIGNIFICAÇÃO DO MARXISMO 35
Internacional os "operários do pensamento" e limitar aos tra-
balhadores manuais aqualidade de proletários, afimde evitar
o perigo que podia existir em deixar invadir a associação por
ambiciosos, homens de partido que gostariam de fazer dela um
instrumento para seu próprio objetivo, estranho ao da asso-
ciação. Os delegados alemães protestaram, declarando que
seria um tipo de "condenação da ciência", como se o operário
não fosse dela digno ou não soubesse apreciá-Ia.
A proposta francesa foi enfim rejeitada; os franceses fize-
ram então outra proposta, pedindo ao menos que afaculdade
de ser elegível para a delegação, no congresso da Associação
Internacional do Trabalhadores (AIT), fosse reservada aos
operários, ainda por medo que homens pertencentes às pro-
fissões liberais ou mesmo capitalistas fizessem prevalecer, nos
congressos, idéias contrárias aos interesses da classe operária.
Tolain considerou adversários todos osmembros das clas-
ses privilegiadas, detentores do capital ou de diplomas. 14
Pouco depois do Congresso de Haia, em 1872, o comitê
romanche de Genebra, em uma carta ao conselho federal bri-
tânico, atacou violentamente o antigo conselho geral de Lon-
dres, e foi ainda "mais longe que osjurassianos", segundo Marx
(carta aSorge, de 27 de setembro de 1873), exigindo a exclu-
são dos "pretensos trabalhadores do pensamento" da AlT.
Lembremos também que olema da AIT foi "a emancipa-
ção dos trabalhadores será a obra dos próprios' trabalhadores".
O comportamento de Makhaiski assume assim todo oseu
relevo, em completa continuidade com essa tendência "ma-
nuelliste" 15• Além do mais, e sobretudo, ele teve de familiarizar-
se quando de sua estada siberiana com os escritos de Bakunin;
suas críticas do marxismo e da social-democracia apeiam-se
sem nenhuma dúvida sobre aquelas deste último. Por essa ra-
zão, éconveniente aqui demorarmos um pouco para lembrar a
substância das críticas bakuninianas.
36 OS ANARQUISTAS J ULGAM MARX
Bakunin interessa- se principalmente pelas concepções
políticas de Marx; quer saber essencialmente qual o objetivo
da conquista do poder político, estabelecido como "grande
tarefa das classes trabalhadoras", "grande dever do proleta-
riado?" e o princípio de constituição do proletariado como
classe dominante provocando a centralização, segundo Baku-
nin, de todos os meios de produção nas mãos do Estado, con-
trolado de fato por uma minoria "savante"17.
No Estado popular do Sr. Marx, dizem, não haverá
classe privilegiada. Todos serão iguais, não só do ponto
de vista jurídico e político como também do ponto de
vista econômico. Pelo menos assim no-Io prometem,
embora eu duvide muito de que, da maneira como é
encarado e pela via que se quer seguir, se possa manter
a promessa. Então, já não haverá mais nenhuma classe,
mas um governo e, reparem bem, um governo excessiva-
mente complicado, que não se contentará em governar
e administrar as massas politicamente, como o fazem
hoje todos os governos, mas também as administrará
economicamente, concentrando em suas mãos a pro-
dução e a justa repartição das riquezas, a cultura da
terra, o estabelecimento e o desenvolvimento das fá-
bricas, a organização e a direção do comércio, enfim, a
aplicação do capital na produção pelo único banqueiro,
o Estado. Tudo isto exigirá uma imensa ciência e muitas
cabeças transbordantes de cérebro neste governo. Será
o reino da inteligência científica, o mais aristocrático,
o mais despótico, o mais arrogante e o mais desprezível
de todos os regimes. Haverá uma nova classe, uma nova
hierarquia de savants reais e fictícios, e omundo se divi-
dirá em uma minoria dominando emnome da ciência, e
uma imensa maioria ignorante. E então, cuidado com a
massa dos ignorantes!
GÊNESE E SIGNIFICAÇÃO DO MARXISMO 37
Tal regime não deixará de provocar seríssimos des-
contentamentos nesta massa, e, para contê-Ia, o go-
verno iluminador e emancipador do Sr. Marx necessi-
tará de uma força armada não menos séria".
Essa visão premonitória não é somente expressa em uma
passagem isolada dos textos bakuninianos, ela constitui apedra
angular das posições antiestatistas do revolucionário russo,
expostas com acuidade em sua obra fundamental, Etatisme et
Anarchie:
Atualmente, um Estado digno deste nome, um Es-
tado forte, só pode ter uma base segura: a centralização
militar e burocrática. Entre a monarquia e a república
mais democrática, há apenas uma diferença notável: sob
aprimeira, opessoal burocrático oprime e sufoca opovo,
em nome do rei, para maior proveito das classes poprie-
tárias e privilegiadas, assim como em seu próprio inte-
resse; sob a república, ela oprime e esmaga o povo da
mesma maneira para osmesmos bolsos e mesmas classes,
todavia, em nome da vontade do povo. Sob arepública,
a pseudo-nação, o país legal, pretensamente represen-
tado pelo Estado, sufoca e continuará a sufocar o povo
vivo e real. Mas opovo não terá avida mais fácil quando
a vara que o espancará se chamar popular.
(00') Assim, nenhum Estado, por mais democráticas
que possam ser suas formas, e mesmo arepública política
mais vermelha, popular unicamente no sentido desta
mentira conhecida sob o nome de representação do
povo, está em medida de dar a ele aquilo de que ne-
cessita, quer dizer, a livre organização de seus próprios
interesses, de baixo para cima, sem nenhuma imisção,
tutela ou coerção de cima, porque todo Estado, mesmo
omais republicano e omais democrático, mesmo pseudo-
popular como o Estado imaginado pelo Sr. Marx, nada
38 OS ANARQUISTAS J ULGAM MARX
mais é, em sua essência, que o governo das massas de
cima para baixo por uma minoria savante, e por issomes-
mo privilegiada, compreendendo, na aparência, os ver-
dadeiros interesses do povo, melhor do que o próprio
pOVO
I9
.
À luz da experiência histórica pode-se compreender a
justeza desta análise do Estado, mesmo "operário", omais ver-
melho que seja, dominado por uma "minoria savante" compre-
endendo melhor, segundo parece, os"verdadeiros interesses do
povo, melhor do que o próprio povo".
O mais interessante éque desde pouco foi possível tomar
conhecimento dos manuscristos de Marx dizendo respeito a
uma passagem importante de Estatismo e Anarquia. Sabe-se
que Marx manifestava o maior interesse pela Rússia, que ele
tinha até mesmo aprendido orusso para melhor se documentar.
Estas notas foram escritas por volta de 1874-1875, após o fa-
moso cisma no seio da Primeira Internacional.
É preciso também dizer que Marx era pouco amável em
relação aBakunin naquela época, chegando, talvez, aexagerar
alguns de seus pontos de vista, amenos que seu caráter ambí-
guo e contraditório não fosse revelador de um certo "mar-
. "
Xl.Sffl.O •
À pergunta de Bakunin:
Se o proletariado tornar-se a classe dominante, a
quem, perguntar-se-à, ele dominará? Significa que res-
tará ainda uma classe submetida a esta nova classe rei-
nante, a este novo Estador".
Marx responde:
Isto significa que, enquanto existirem outras clas-
ses, e especialmente aclasse capitalista, enquanto oPIO-
GÊNESE E SIGNIFICAÇÃO DO MARXISMO 39
letariado combatê-Ia (pois comsua chegada ao poder,
seusinimigose aantiga organização dasociedade ainda
não terão desaparecido), medidas de violência e conse-
qüentemente medidas de governo devem ser emprega-
das; se ainda resta uma classe e se ascondições econô-
micassobre asquais repousam aluta de classese aexis-
tência dasclassesainda não desapareceram, elasdevem
ser eliminadas outransformadas pelaviolência, eopro-
cesso de transformação deve ser acelerado pela vio-
lência".
Quais eram estas "medidas de violência, de governo" pen-
sadas por Marx? Qual era esta violência que devia eliminar ou
transformar as "condições econômicas" e acelerar o processo
de transformação?
Seu discurso é ponderado por uma concepção radical da
revolução social que deve
ligar-se a certas condições históricas do desenvolvi-
mento econômico que sãosuas premissas. Elasó é pos-
sível Iá onde aprodução capitalista está relacionada a
umproletariado industrial que tempelomenos umlugar
considerável na massado povo.
Ele reafirma ainda, criticando Bakunin, que são as con-
dições econômicas e não a "vontade" que estão na base dessa
revolução social. Isto vai de encontro e até mesmo desqualifica
aconcepção leninista da tomada do poder e de sua conserva-
ção, qualquer que seja a situação econômica, desde que seja
realização do partido "proletário".
Bakunin continua:
Quem diz Estado, diz necessariamente dominação
e, emconseqüencia, escravidão. UmEstado semescra-
40 OS ANARQUISTAS J ULGAM MARX
vidão, declarada ou mascarada, é inconcebível, eis por
que somos inimigos do Estado.
O que significa: o proletariado organizado como
classe dominante? Quer dizer que este estará por inteiro
na direção dos negócios públicos?
ocomentário de Marx é edíficante:
Um sindicato é composto unicamente pelo comitê
executivo? É possível que toda adivisão do trabalho seja
abolida em uma fábrica, e com ela as diversas funções
que dela decorrem? E, segundo o esquema "de baixo
para cima" de Bakunin, é possível que tudo esteja situa-
do "emcima"? Neste caso não existe mais nada embaixo.
Percebeu-se desde então que não só o "comitê executivo
de um sindicato", ou com maior razão, de um partido "prole-
tário", podia representar todos osseus membros, decidindo em
seu lugar sobre tudo e para tudo, como podia também encar-
nar-se em um único membro "eminente", constituindo por si
só o "cimo", a "base" não decidindo mais nada.
É surpreendente constatar esta cegueira de Marx emrela-
ção aopapel privilegiado que representaria uma minoria, buro-
crática e socialista, no seio do Estado. Ela é mais manifesta
ainda em relação ao trecho de Bakunin sobre
o governo da imensa maioria das massas populares por
uma minoria privilegiada. Mas esta minoria, dizem os
marxistas, compor-se-á de operários. Antigos operários,
é certo, mas, desde que se tornem governantes ou re-
presentantes do povo cessarão de ser operários e colo-
car-se-ão aolhar omundo proletário de cima do Estado;
não representarão mais o povo, mas a eles próprios e
suas pretensões a governá-lo. Quem duvida disto não
conhece a natureza humana.
GÊNESE E SIGNIFICAÇÃO DO MARXISMO 41
Esses eleitos serão, ao contrário, socialistas con-
victos e alémdo maissavants
ZZ

Marx retorque-lhe com uma gozação: os operários cessa-
rão de ser operários "da mesma maneira que um fabricante de
hoje cessa de ser capitalista porque se torna vereador!"
Ainda arespeito do mesmo trecho ele diz:
Se oSr.Bakunin tivesse conhecimento daposição
de um gerente emuma fábrica cooperativa operária,
todos seus delírios senhoriais iriamao diabo! Se ele ti-
vesseaoportunidade de seperguntar: que formapodem
tomar as funções de administração sobre a base deste
Estado operário visto que oapraz chamá-lo assim?
Quando Bakunin tacha a direção governamental dos
savants de a mais "pesada, vexatória e a mais desprezível que
possa existir", Marx anota: "Que delírio!" Percebe-se que ele
persiste em ser "ruim de ouvido" e recusa admitir a mínima
possibilidade de degenerescência burocrática e ditatorial por
parte dos responsáveis "proletários" ou "socialistas", ou mais
ainda, por parte de uma minoria falando em seu nome e que
ocuparia funções políticas emorganismos de Estado ou coope-
rativas operárias. A corrupção pelo poder parece-lhe uma alu-
cinação, um "delírio senhorial", surpreendente.
Ele prossegue seu monólogo de surdo quando Bakunin
interroga-se sobre o caráter eventualmente passageiro desta
"direção governamental dos savants": "Não, meu caro! A domi-
nação de classe dos operários sobre as camadas rebeldes do
velho mundo deve durar enquanto os fundamentos econô-
micos da existência das classes não forem destruídos." Isto
deixa aporta aberta a todas as interpretações abusivas e man-
tém oequívoco sobre anatureza desta "dominação de classe".
Além do mais, ele termina seu comentário por uma palavra das
42 OS ANARQUISTAS J ULGAM MARX
mais ambíguas: "besteira", emrelação à"livre organização das
massas operárias de baixo para cima" de Bakunin.
Esta atitude "marxista" suscita asmaiores dúvidas sobre a
natureza de classe da ditadura do "proletariado", sobre sua
duração assim como sobre a eventualidade de um aniquila-
mento ulterior do Estado "operário".
Não sepode negar aúltima vontade de Marx empor fim
à condição proletária, mas é lícito perguntarmos se não ficou
prisioneiro de seu par antagônico capitalistas-operários, sem
chegar avislumbrar uma terceira força social que utilizaria sua
ideologia por suaprópria conta. Talvez ainda Marx tenha sim-
plesmente assimilado muito bemomessianismo dossocialistas
utópicos que o precederam: que o papel dirigente "daqueles
que sabem" - o que Bakunin chama a "inteligência científica"
(pensando no próprio Marx) - é óbvio para ele: só aqueles
que sãocapazes de compreender osocialismo científico podem
ter a "competência" de conduzir o proletariado e a humani-
dade inteira pelaviado comunismo. Assimcomo oEstado, seu
papel dominante só está condenado a "desaparecer" em um
futuro indeterminado, quando forem abolidas as diferenças
entre otrabalho intelectual eotrabalho manual. Pode-se com-
preender então por que Marx se recusa a dar receitas para
assegurar asubsistência no futuro.
Bakunin forneceu a"substanciosa essência" da crítica de
Marx, e émais que provável que Makhaiski tenha se referido
implicitamente aela. É também muito provável que ele tenha
tomado conhecimento da crítica de Kropotkin, contida em
particular emLa Conquête du Pain (1892):
Para salvar este sistema (o assalariado), os deten-
tores atuais do capital estariam prestes a fazer certas
concessões: dividir, por exemplo, uma parte dos lucros
com os trabalhadores, ou ainda estabelecer uma escala
GÊNESE E S[GN[F[CAÇÃO DO MARX[SMO 43
dos salários que obrigue a aumentá-los no momento em
que o ganho se eleva: enfim, eles consentiriam certos
sacrifícios desde que lhes deixassem sempre o direito de
gerir a indústria e sacar os lucros.
O coletivismo (marxismo), como se sabe, traz a
esse regime modificações importantes, mas nem por isso
deixa de manter o assalariado. Somente o Estado, quer
dizer, o governo representativo, nacional ou comunal,
substitui opatrão. São os representantes da nação ou da
comuna e seus delegados, seus funcionários que se tor-
nam gerentes da indústria. São eles também que se re-
servam o direito de empregar, no interesse de todos, a
mais-valia da produção. Além disso, estabelece-se neste
sistema uma distinção muito sutil, mas de conseqüên-
cias enormes entre o trabalho do operário e odo homem
que fez uma aprendizagem prévia: o trabalho do ope-
rário, aos olhos do coletivista (marxista) não passa de
um trabalho simples; enquanto o artesão, oengenheiro,
o homem de ciência etc., fazem o que Marx chama de
um trabalho complexo, e têm odireito a umsalário mais
elevado. Mas todos são "assalariados do Estado", todos
"funcionários", dizia-se ultimamente para dourar a
pílula.
Kropotkin lembrava, em seguida, uma verdade, elemen-
tar écerto, mas infelizmente de grande atualidade.
Pois bem, °maior serviço que apróxima revolução
poderá conceder à humanidade será o de criar uma si-
tuação na qual todo o sistema de salariado torne-se im-
possível, inaplicável, e onde se imporá como única solu-
ção aceitável, o comunismo, negação do salariado-'.
Vemos assim que a crítica de Makhaiski não era comple-
tamente nova; todavia, teve o mérito de aprofundá-la no ter-
44
OS ANARQUISTAS J ULGAM MARX
reno de excelência de Marx: aeconomia. Aliás, alguns marxis-
tas daquela época, e não dos pequenos, tentaram vedar algu-
mas brechas do edifício magistral; a contribuição exposta por
Rosa Luxemburgo em Acumulação do Capital, parece-nos, se-
gundo este ponto de vista, a mais interessante, sobretudo
quando ela sai do combate e pergunta-se sobre arealização da
mais-valia acumulável fora do par assalariados-capitalistas.
Evidentemente, sua audácia pára aí, e sua "terceira via" acon-
duz apenas aos setores não capitalistas do mercado mundial e
àdescoberta da estratégia imperialista do capitalismo.
Muita tinta foi gasta desde aquela época sem contudo
fazer realmente progredir aresolução do problema. Era preciso
então retomar ao ponto de partida e tudo reconsiderar. Em
relação aisso, lembremos que a análise que Marx faz da dife-
rença de remuneração entre o trabalho simples-manual e o
trabalho complexo-intelectual faz parte do patrimônio comum
do socialismo do século XIX. Com efeito, amedida do trabalho
médio, útil, necessário, agradável, qualificado ou não, inferior
ou superior, foi uma constante preocupação para Owen, Fou-
rier, Rodbertus e outros pensadores daquele tempo. Os crité-
rios qualitativos e quantitativos de medida foram muito va-
riados. Percebeu-se desde então que oterreno era muito escor-
regadio, que se poderia rapidamente deslizar do "direito ao
trabalho" de Louis Blanc, ao salário por peças produzidas tay-
lorista, ou àversão caricatural deste último, ofamoso stakha-
novismo stalinista. Tudo isto se situando aos antípodas da
desalienação econômica do operário.
A definição dada por Marx ao valor da força de trabalho,
que "tem apenas o valor dos meios de subsistência necessário
àquele que a emprega'?", permitia justificar as remunerações
hierarquizadas e dar crédito à tese de Makhaiski. A fórmula
saint-simoniana, que sempre serviu de leitmotiv aos socialistas
"científicos": ''A cada um segundo suas capacidades, acada um
GÊNESE E SIGNIFICAÇÃO DO MARXISMO 45
segundo suas obras", também encoraja todas asinterpretações
e pode legitimar as desigualdades mais gritantes".
O conjunto da questão faz parte da complexa "querela de
Marx", da qual Maximilien Rubel enumerou os pontos liti-
giosos:
L
"1 - A teoria do valor-trabalho.
2 - O conceito de tempo de trabalho socialmente necessário.
3 - A redução do trabalho complexo ao trabalho simples e
médio.
4 - O caráter histórico das categorias econômicas.
5- O "fetichismo" da mercadoria e do dinheiro.
6 - A reificação do homem.
7 - A determinação dos meios de circulação monetária pelo
preço das mercadorias.
8- A teoria da mais-valia?".
Makhaiski trouxe uma contribuição determinante a essa
querela, contribuição infelizmente por muito tempo desco-
nhecida. Mas o essencial já não é insistir sobre as interpre-
tações bizantinas de concepções econômicas errôneas, ultra-
passadas ou controvertidas. Hoje, pouco importa, no fundo,
que Marx tenha se enganado: ele não éoúnico emquestão. O
verdadeiro interesse da contribuição makhaiskiana é que ela
diz respeito àdefinição e àfinalidade do socialismo, no quadro
de uma sociedade industrial ou em via de industrialização. O
socialismo seria aideologia que melhor representa osinteresses
de uma nova classe dominante e ascendente: "os capitalistas
do saber".
46 OS ANARQUISTAS J ULGAM MARX
Notas:
1 Saint-Simon et Enfantin, Oeuvres completes, Paris, 1863, t. XX, p. 18l.
2 Ibid.
3 Ibid., t. XXIII, p. 83.
4 Doctrine de Saint-Simon. Exposition, premíêre année, 1828-1829, Paris,
1831, p. 92.
5 Ibid., pp. 193-194.
6 Ibid., p. 209.
7 Ibid., p. 247.
8Ibid., (Carta aoSr. Presidente da Câmara dos Deputados, por Bazard e
Enfantin), p. 5.
9 Citemos entre outros: Os Manuscritos de 1844, A Ideologia Alemã, co-
nhecidos somente apartir de 1932, a"Carta àVeraZassoulitch", texto e
rascunhos etc. Surpresas podem ainda ser reservadas aoleitor francês na
ocasião da publicação integral da correspondência entre Marx e Engels
ou de outros inéditos emposse do IlHS de Amsterdã (nos arquivos da
social-democracia alemã).
10 Temos sob osolhos asnumerosas variedades sectárias que se desenvol-
veram particularmente com oleninismo, este "blanquismo ao molho tár-
taro" segundo ogracejo de Charles Pappoport em 1918 (antes dele pró-
prio se leníno-tartarizar). O exemplo mais espetacular é o do avatar
sangrento de Stalin, que fez um grande estrago do "homem, o capital
mais precioso".
11 Para uma abordagem compreensível de Marx, dirigir-se aosescritos de
L. Laurat (Otto Machl, 1898-1977) LeMarxisme enfaillite?, Paris, 1939;
Le Manifeste communiste de 1848 et le Monde d'aujourd'hui, Paris, 1948,
assimcomo àsoutras obras e artigos publicados, emparticular, no Con-
trat Social (1957-1968) e na Revue Socialiste. Isto para aanálise da con-
tribuição "marxista".
Para umconhecimento mais íntimo e "marxien", consultar asedições
elaboradas por Maximilien Rubel (op. cit.) , assimcomo domesmo autor:
Karl Marx, Essai de biographie intellectuelle, Paris, Ríviêre, 2ª ed., 1971, e
Marx, critique du Marxisme, Paris, Payot, 1974.
GÊNESE E SIGNIFICAÇÃO DO MARXISMO 47
12 Manifeste du parti communiste, in Karl Marx, Oeuvres, Economie, op.
CitoT I, p. 174.
IJ Ibid., p. 171.
14 La Premiere Internationale, coletânea de documentos publicados sob a
direção de J . Freymond, Genebra, 1962, t. lI, pp. 68 e 373.
15 O autor utiliza este neologismo referindo-se ao trabalho manual.
16 Adresse inaugurale de l'AIT, redigida por Marx. Cf. Karl Marx, Oeuvres,
Economie, op. Cit., r.L, p. 467 e estatutos, ibid., p. 472.
17 Savant, em francês, significa douto, erudito, intelectual, homem de
ciência etc. Optamos por manter otermo emfrancês, por ser mais abran-
gente e corresponder àidéia de Bakunin quando o emprega. (N. do T)
18 "Lettre aux Compagnons du J ura", in Archives Bakounine, Leiden,
1965, t. IlI, p. 204.
19 Ibid., 1967, t. IV, pp. 219-220.
20 Ibid., pp. 346-347.
21 Estas notas de Marx foram publicadas pela primeira vez por Riazanov
emLetopissi Marksisma, 11, 1926. Elas foram retomadas emfrancês em
uma pequena brochura, Contrre l'Anarchie, em 1935, sendo emseguida
publicada emuma recente coletânea de artigos de Marx, Engels e Lenin,
reunidos sob o título Sur l'anarchisme et l'anarcho-syndicalisme, Moscou,
1973, que utilizamos aqui. Estas anotações, traduzidas do alemão, figu-
ram nas páginas 162-169 da coletânea.
22 Ucenyj, em russo, significa erudito, savant, cientista, e designa todo
indivíduo possuindo uma formação superior ouuma grande cultura. Este
termo corresponde ao "mundo culto, instruído" doqual falaMakhaiski.
23 Piotr Kropotkin, La Conquête du Pain, Paris, Stock, 1932, pp. 73-74.
24 Karl Marx, Oeuvres, Economie, op. citoTI, p. 719.
25 Este princípio está atualmente reduzido no regime "socialista" lenino-
stalinista à simples sanção: "Aquele que não trabalha não come!", o que
permite por sinal escalonar os salários de 1a 150 por exemplo, entre a
servente percebendo osalário-mínimo (60 rublos) e omembro da Aca-
demia de Ciências, com o salário de 5.000 rublos, dispondo além do
salário, de umcarro commotorista, uma datcha e outras vantagens.
26 Karl Marx, op. cit., t. I, pp. 1.651-1.652.
MARX
E A SOCIAL~DEMOCRACIA
Daniel Guérin
i
r
r
F
,
oassunto que me foi destinado écomplexo. Por umlado,
porque Marx éumpersonagem contraditório e circunstancial,
e por outro, porque sua relação com a social-democracia é
multiforme e ela pode, grosso modo, comportar três aspectos:
1º- atitude emrelação aos partidos da democracia burguesa;
2º- atitude emrelação aoEstado; 3º - relação entre dirigismo
autoritário e asmassas.
1Q - Atitude em relação aos partidos
da democracia burguesa.
Há emMarx, devido àsuanatureza e aomesmo tempo às
circunstâncias, uma tendência aoreformismo euma tendência
ao sectarismo revolucionário. Daí as variações de sua atitude
emrelação aos partidos da democracia burguesa.
Durante os primeiros meses da revolução européia de
1848, Marx opta deliberadamente pela democracia burguesa.
Ele se afronta, emColônia, comospartidários do Dr. Andreas
Gotschalk, censurando aAssociação Operária deste último de
separar o proletariado do movimento democrático, e assim
isolá-lo completamente. Ele funda, em conseqüência, uma
organização rival, a Associação Democrática, e lança-a em
~.
50 OS ANARQUISTAS J ULGAM MARX
!
campanha eleitoral para aeleição ao parlamento de Frankfurt,
sustentando acandidatura de um homem de esquerda incon-
sistente.
Em 1Q de junho de 1848, com seu amigo Engels, empre-
ende a publicação de um jornal cotidiano, Neue Rheinische
Zeitung (Nova Gazeta Renana) que traz em grande subtítulo:
Órgão da Democracia. Marx e seus amigos, que se diziam comu-
nistas na véspera, batizam-se: "Nós, democratas". Reivindicam
a realização da revolução burguesa do 1789 alemão. Eles
selam uma frente única com aburguesia, enquanto ela repre-
sentar um papel "revolucionário". Nenhuma palavra é pro-
nunciada sobre o antagonismo entre democracia proletária e
democracia pequeno-burguesa. Deixam morrer de fato sua
Liga dos Comunistas.
No exemplar de 22 de janeiro de 1849 do jornal, Marx
sustenta uma tese que será defendida posteriormente pelos
mencheviques russos: "A revolução deve ser inicialmente uma
revolução para a burguesia. A revolução do proletariado só é
possível após a economia capitalista ter criado as condições
(desta revolução)".
Gotschalk indigna-se e, antecipando-se ao bolchevismo,
escreve, em 25 de fevereiro de 1849, em seu órgão Freiheit,
Arbeit (Liberdade, Trabalho): "Deveríamos, afimde escapar ao
inferno da Idade Média, nos precipitar voluntariamente no
purgatório de um poder capitalista decrépito?"
Mas ascríticas de Gotschalk começam aprovocar arefle-
xão nos proletários que tinham seguido Marx, e o fervoroso
democrata acaba por convir que a burguesia alemã fracassou
vergonhosamente emsua tarefa e que dali emdiante arevolu-
ção só podia se fazer contra ela. Em abril de 1849, Marx se
separa dos democratas e reata com aLigados Comunistas que
acabara de renascer de suas cinzas. Os democratas tinham,
aliás, se afastado espontaneamente de Marx após as belas e
MARX E A SOCIAL-DEMOCRACIA 51
corajosas correspondências de Engels sobre ainsurreição ope-
rária de junho de 1848 em Paris.
Após uma breve estada emParis, de onde logo éexpulso,
Marx instala-se na Inglaterra, em 24 de agosto de 1849. Em
Londres, passa de um extremo a outro, contacta e alia-se aos
exilados blanquistas; funda comeles aSociedade Universal dos
Comunistas Revolucionários; redige com Engels, que por sua
vez deu uma grande guinada, uma Mensagem datada de março
de 1850, sob forma de circular, que se tornará um texto sagrado
para os leninistas e trotskistas russos. Renegando sua tática
oportunista de 1848-1849, acreditando erroneamente na imi-
nência de uma revolução social, os dois amigos proclamam a
necessidade de manter a revolução em permanência até o
aperfeiçoamento do comunismo e a necessidade de submeter
as classes privilegiadas a uma ditadura do proletariado.
Mas este ardente arrebatamento só durará o espaço de
uma manhã, e Marx-Engels deixam de lado, empouco tempo,
aSociedade Universal dos Comunistas Revolucionários assim
como aLiga dos Comunistas. E, tendo arevolução européia de
1848 definitivamente fracassado, Marx confia aseu correspon-
dente F. Freiligrath, sua "convicção de ser mais útil à classe
operária através de trabalhos teóricos do que por uma partici-
pação nas associações que já não mais correspondem aos tem-
pos atuais" (Carta de 29 de fevereiro de 1860).
Marx se fechará na sala de leitura do Museu Britânico, de
onde sairá, em 1867, o tomo I de O Capital. Ele não assistirá
até 1871 a nenhum congresso da Primeira Internacional, en-
viando de Londres, contudo, sucessivas Mensagens.
Na Alemanha, os dissidentes da Associação Geral dos
Trabalhadores Alemães, fundada em 1863 por Ferdinand Las-
salle, constituíram-se em Partido Operário Social-Democrata
e elaboraram umprimeiro programa no Congresso de Eisenach
(Agosto de 1869). Apoiando-se emMarx, retomaram todavia
52 OS ANARQUISTAS J ULGAM MARX
uma palavra de ordem lassalliana: "O estabelecimento do Es-
tado popular livre" (Volkstaat). Os fundadores, Wilhelm Lieb-
knecht e August Bebel deram este mesmo slogan por título ao
jornal que eles criaram, no mesmo ano, em Leipzig.
Marx e Engels estavam tão lisonjeados por terem, enfim,
na Alemanha, um partido de massa em suas mãos, que acaba,
ram demonstrando uma incômoda indulgência ao deixar pas-
sar sem protestar esta expressão de Estado popular. O anar-
quista Mikhail Bakunin não cessou de denunciar e zombar
desta concessão ao reformismo lassalliano. Ele ocensurava por
fazer crer que era pela via parlamentar que o Estado burguês
seria transformado em "Estado popular", quer dizer, em "um
governo do povo por intermédio de um pequeno número de
representantes eleitos" e por tentar seduzir os partidos da de-
mocracia burguesa pelo emprego do adjetivo "popular".
Sob o chicote desta crítica, Marx- Engels tiveram de con-
vir, mas reservadamente, que haviam cometido uma besteira
ao dar liberdade de ação a seus discípulos, os social-democra-
tas. Em suas notas marginais de 1873 ao livro de Bakunin,
Etatisme et Anarchie, Marx observou que a"idéia fixa do Estado
popular de Liebknecht" era uma "inépcia". Dois anos mais
tarde, em março de 1875, Engels arriscou, se a escrever a
Bebel: "Os anarquistas já nos incomodaram osuficiente com o
Estado popular. É um absurdo falar de um livre Estado po-
pular". Entretanto, afusão operada em 1875, no Congresso de
Gotha, entre partidários de Liebknecht e herdeiros de Lassalle,
esteve longe de dar satisfação a Marx-Engels. Tiveram de en-
golir sapos. Concessões que, em reservado, julgavam "vergo-
nhosas", eram feitas aos lassallianos. Se ainfeliz expressão Es-
tado popular (Volkstaat) desapareceria enfim do título do jor-
nal unificado, dali em diante intitulado Vorwarts! (Avante!),
ela era substituída no programa por "Estado Livre" que, ao
gosto de Marx-Engels, não era melhor.
MARX E A SOCIAL-DEMOCRACIA 53
Engels, sobrevivendo a Marx, permaneceu o único guar-
dião da doutrina. Pouco antes de desaparecer, em 1895, foi
pressionado pela facção parlamentar social-democrata aredigir
um texto para salvar opartido de um "desvio anarquista" amea-
çador. Com efeito, a esquerda social-democrata, animada por
jovens militantes (os Junge) tentavam impedir o partido de
degenerar em um sentido puramente parlamentar. O velho
homem cedeu às pressões escrevendo um prefácio para a re-
edição da brochura de Marx sobre As Lutas de Classe na França
(1848-1850).
Este prefácio de Engels era muito controvertido. Para os
stalinistas franceses que oreeditaram com abrochura de Marx
de 1936, ele não seria uma renegação do passado revolucio-
nário de seu autor. Quando muito, o Vorwarts, e em seguida a
revista Die Neue Zeit de Kautsky teriam praticado cortes la-
mentáveis. Em compensação, Rosa Luxemburgo, em seu Dis-
curso Sobre oPrograma, em 29 de dezembro de 1918, no con-
gresso constitutivo do Partido Comunista Alemão (Spartakus-
bund) , chamou este prefácio de "documento clássico e lapidar
das aberrações das quais vivia a social-democracia alemã, ou
melhor, das quais ela morreu". É verdade que Engels acentua
em seu texto as virtudes da cédula de voto e o caráter um
pouco ultrapassado das barricadas. Todavia, creio que Engels
estava muito familiarizado com opensamento de Marx para se
permitir suavizá-lo.
2º - Atitude em relação ao Estado.
Serei muito mais breve sobre este ponto. Sem dúvida,
Marx protesta contra oestatismo de Lassalle e de seu próprios
protegidos, os social-democratas alemães. Mas ainda não eli-
minou em si mesmo o vírus do Estado em sua totalidade. O
54 OS ANARQUISTAS J ULGAM MARX
Manifesto Comunista fala de "centralizar nas mãos do Estado
todos os instrumentos de produção". Não é exatamente eli-
minar o Estado quando se diz: "O proletariado organizado
como classe dirigente". Perífrase pouco convincente, pois, alhu-
res, Engels sublinha, com justa razão, aincompatibilidade entre
Estado e liberdade. Além do mais, o prosseguimento, calcado
sobre Louis Blanc, enumera como medidas aserem tomadas, a
centralização nas mãos do Estado, do crédito e de todos os
meios de transporte. Mesma ambigüidade nas Cláusulas Mar-
ginais ao Programa do Partido Operário Alemão de 1875 onde
Marx faz as seguintes perguntas: "Qual transformação sofrerá
o Estado em uma sociedade comunista? Quais funções sociais
análogas às funções atuais do Estado se manterão?" Interro-
gação que é acompanhada por uma pirueta: "Esta questão só
pode ser respondida pela ciência". Acompanha também uma
proposição inquietante: "Entre asociedade capitalista e a so-
ciedade comunista, situa-se o período de transformação re-
volucionária da primeira à segunda. A que corresponde um
período de transição política em que o Estado nada mais po-
deria ser do que aditadura revolucionária do proletariado". A
eliminação do Estado éadiada ao dia de São Nunca. Nenhuma
duração é determinada para este período transitório. J á esta-
mos em pleno leninismo.
Engels diz em sua carta a Bebel no mesmo ano de 1875:
"O Estado é apenas uma organização PROVISÓRIA". Um
provisório que pode durar indefinidamente!
3
Q
- Relação entre dirigismo autoritário e as massas.
Aqui ainda Marx não é muito claro, a menos que o seja
emexcesso. O Manifesto Comunista declara que os comunistas
"não têm interesses separados daqueles do proletariado emsua
MARX E A SOCIAL-DEMOCRACIA 55
totalidade". Segue, entretanto, uma restrição que nos deixa
preocupados: "Eles possuem sobre o resto da massa proletária
avantagem de compreender ascondições, amarcha e osresul-
tados gerais do movimento proletário". Por outro lado, épres-
tada homenagem àqueles dentre os "ideólogos burgueses que,
por muito trabalho, elevaram-se àinteligência teórica do con-
junto do movimento histórico".
Assim, o próprio Marx sente-se lisonjeado de antemão
pelo trabalho extenuante de rato de biblioteca ao qual ele se
entrega no Museu Britânico. Aqui estamos em pleno kauts-
kismo (do nome do teórico da social-democracia alemã). É
"inteiramente falso", pretenderá o douto Karl Kautsky, "que a
consciência socialista seja oresultado necessário, direto da luta
de classes proletária. O socialismo e a luta de classes não dão
origem um ao outro. Surgem de premissas diferentes. A cons-
ciência socialista surge da ciência. O portador da ciência não é
oproletariado, são os intelectuais burgueses. Foi por eles que o
socialismo foi 'comunicado' aos proletários (estes indigentes,
do porta-cédulas e do espírito). A consciência socialista éum
elemento trazido de fora para aluta de classes do proletariado
e não algo que surge espontaneamente". Em outros termos,
tornamo-nos mais revolucionários nos livros do que na vida.
Essa monstruosidade já é embrionária em Marx. Ela será
retomada e amplificada por Lenin. Sim, o marxismo original
contém uma certa dose de social-democracia.
o J OVEM MARX
E OS PATINHOS FEIOS
Jean Barrué
Um século após amorte de Marx, os "marxistas" contam-
se aos milhões no mundo. A bem da verdade, raros são os que
o lêem, e ainda mais raros os que tentam compreendê-lo, a
maioria dos pretensos discípulos reduz oensinamento do Mes-
tre a um catecismo infantil e a algumas fórmulas caricaturais.
Pouco importa! O socialismo científico e o método marxista
são os únicos guias infalíveis capazes de nos dirigir "no sentido
da história"! Pode-se aplicar a Marx o que Montesquieu dizia
do Papa: "É um velho ídolo que se incensa por hábito".
Por que razão, na ocasião de um aniversário, dar uma
aparência de vida auma múmia dessecada? Há um século que
tudo é dito a favor ou contra Marx: elogios exagerados assim
como críticas implacáveis. Todos esses debates talvez tenham
interessado aos especialistas da marxologia, mas não tocaram
nem mesmo de perto no rebanho de ovelhas dos crentes in-
condicionais. Assim, deixando de lado as discussões teóricas e
as sábias análises, lirnitar-rne-ei, nas páginas que se seguem, a
expor opensamento de Marx sobre os povos ou agrupamentos
étnicos que, na agitação da Europa em 1848, tentavam liber-
tar-se da opressão dos grandes impérios centralizados e auto-
ritários. Assunto pouco importante mas que - como se verá
- conserva um alcance geral, sem ser desprovido de atua-
lidade.
58 OS ANARQUISTAS J ULGAM MARX
Tracemos inicialmente em grandes pincelada um quadro
do meio, da época e dos atores. A década que precedeu 1848
foi marcada na Alemanha, assim como na França, por uma
intensa atividade intelectual: literária e filosófica. Durante esse
período, Proudhon, Cabet, Louis Blanc publicaram na França
algumas de suas obras-mestras; a filosofia alemã toma sob a
influência de Feuerbach um novo desenvolvimento; inúmeros
estudantes e jovens universitários se separam da filosofia de
Hegel (morto em 1831) do qual denunciam o caráter conser-
vador e reacionário. Esses jovens hegelianos, ou hegelianos de
esquerda, estarão àfrente do combate contra oabsolutismo do
rei da Prússia, contra a censura e as perseguições policiais, e
propagarão as idéias liberais que florescerão nos meios da pe-
quena burguesia. Os escritores, os poetas: Heine, Laube, Her-
wegh lutam também pela liberdade; Stirner lança odesafio do
Único atodas aspressões políticas, sociais e religiosas, e étam-
bém nestes meios - onde se sente eclodir ummundo novo-
que os jovens Bakunin, Marx e Engels vão publicar seus pri-
meiros escritos e entrar na vida militante.
Sob um regime de censura e de polícia, era bem mais difí-
cil manter jornais e revistas não-conformistas cujo conteúdo
liberal- julgado revolucionário - servia de pretextos amul-
tas, perseguições, suspensões e interdições. Um publicista li-
beral, conquistado pelas idéias dos jovens hegelianos, já não
tão jovem (nasceu em 1802), Arnold Rüge, tentou aaventura
com os Anais de Halle publicados de janeiro ajunho de 184l.
Após sua interdição, Rüge instalou-se em Dresden e publicou
em Leipzig Os Anais Alemães, de julho de 1841 a janeiro de
1843. Foi nesta revista que apareceu o primeiro escrito de
Bakunin: A Reação na Alemanha (outubro de 1842). Este texto
não foi estranho àinterdição dos Anais três meses depois!
Mas um novo jornal tinha sido fundado em Colônia por
representantes da burguesia liberal local, alguns escritores de
o J OVEM MARX E OS PATINHOS FEIOS 59
idéias avançadas aos quais se juntaram osjovens hegelianos; A
Gazeta Renana (Rheinische Zeitung) apareceria de 1Q de janeiro
de 1842 a31 de março de 1843. Seu redator-chefe, Rutenberg,
abriu as colunas de seu jornal aos jovens hegelianos: de março
aoutubro de 1842, Stirner publicou vinte e cinco artigos, den-
tre os quais O Falso PrincíPio de Nossa Educação que constitui,
com O Único e sua Propriedade, o melhor da obra de Stirner.
Em abril de 1842, Rutenberg introduziu na equipe de redação
um amigo conhecido em Berlim: um certo doutor Karl Marx,
um jovem lobo que ardia em querer se lançar na política mili-
tante ... Estava bem decidido arepresentar osprimeiros papéis.
Nascido emTrier, em 1818, ojovem Marx seguira os cur-
sos da Universidade de Bonn, emseguida osde Berlim, apartir
de 1836. Freqüentou o Doktorklub que reunia estudantes e
professores universitários liberais e hegelianos de esquerda, e
ligou-se ao doutor Rutenberg e Bruno Bauer. Doutorando-se
emfilosofia em 1841, separou-se desta facção mais "radical" do
Doktorklub que, após aexpulsão de Bauer, fundou oCírculo dos
Homens Livres; conflito de idéias que devia conduzir a uma
áspera polêmica contra Stirner e Bauer, mas também oposição
de princípio àdescompostura, àturbulência, ao caráter violen-
tamente "contestador" dos homens livres. Desde sua chegada
àredação de Rheinische Zeitung, Marx compreendeu muito rá-
pido que ojornal só podia sobreviver e escapar às perseguições
se eliminasse a colaboração dos agitadores do jovem hegelia-
nismo. Em outubro de 1842, eliminou friamente Rutenberg,
primeira vítima dos procedimentos indecentes dos quais Marx
se serviria posteriormente em relação a seus "amigos". Marx,
na véspera ainda desconhecido, agora redator-chefe de um
jornal: que ascensão! Três meses depois, por causa da inserção
de um projeto de lei do rei da Prússia concernente ao divórcio
e acompanhado de comentários desrespeitosos, a Gazeta Re-
nana foi fechada. Segundo a ortodoxia marxista, este jornal,
60 OS ANARQUISTAS J ULGAM MARX
sob a firme direção de Marx, teria soçobrado - bandeira ao
vento - vítima de sua ligação indefectível com ademocracia.
Não exageremos: asverdadeiras razões de sua proibição foram
seu ateísmo declarado e o caráter irreligioso de seus artigos,
sobretudo daqueles que apareceram sob a direção de Ruten-
berg.
* * *
Marx levará por quase cinco anos avida errante e difícil
de umemigrado político. Todavia, dois eventos vão marcar sua
vida privada. Dois eventos felizes para Marx: seu casamento
com J enny von Westphalen, após sete anos de noivado, e seu
encontro com Friedrich Engels, o amigo fiel que, até o fim,
estará associado aos trabalhos, àslutas e àsesperanças. Primeira
etapa: Paris, onde entra emrelação com os emigrados políticos
alemães e os socialistas franceses, Heine, Borne e Proudhon.
Publica em 1844, emcolaboração com Rüge, oprimeiro e único
número dos Anais Franco-Alemães, onde figura sua Crítica da
Filosofia do Direito de Hegel. Expulso da França, Marx se fixa,
em 1845, em Bruxelas, e lá, com Engels, tornará precisa sua
doutrina filosófica e histórica e, diz ele, acertará suas contas
com a sua consciência filosófica de outrora. As Teses sobre
Feuerbach e ovolumoso panfleto A Ideologia Alemã constituem
os fundamentos definitivos do marxismo filosófico. Em feve-
reiro de 1845, Marx manda editar em Frankfurt A Sagrada
Família, um virulento panfleto contra os irmãos Bauer, con-
tendo um grande elogio àsobras de Proudhon sobre aproprie-
dade. Em 1847, Marx e Engels visitam Londres, onde entram
emcontato com aAssociação operária dos emigrados alemães,
que fazem aderir à Liga dos Comunistas que Marx acabara de
fundar, e cuja influência é bem fraca. Foi na intenção desta
Liga que Marx redigiu o Manifesto Comunista, publicado em
o J OVEM MARX E OS PATINHOS FEIOS 61
fevereiro de 1848, e que passou desapercebido. É expulso da
Bélgica em março de 1848, passa por Paris onde a Revolução
de fevereiro fez triunfar arepública e vai aColônia com Engels
no início de abril. A Europa encontrava-se então em plena
efervescência. Enquanto os povos eslavos e as minorias étni-
cas, oprimidos pelos impérios russo e austríaco, se revoltam, em
Viena a agitação obriga o velho Metternich - o homem da
Santa Aliança - aabdicar; em Berlim, ainsurreição exige do
rei da Prússia garantias constitucionais. Os liberais de todas as
Alemanhas exigem a eleição de um parlamento que seria a
expressão de uma Alemanha unificada e democrática; e em 18
de maio abrir-se-á aprimeira sessão, em Frankfurt, da Assem-
bléia Nacional Alemã ... muito efêrnera! Para Marx, ainda jo-
vem, cheio de entusiasmo - e de ilusões - esta revolução de
março é apenas o prelúdio de uma revolução mais vasta que
"mudará" omundo, pois Marx detém uma doutrina científica,
infalível, que prediz com certeza aevolução econômica e histó-
rica da sociedade. É chegada ahora de passar àação: pensar e
escrever, impor suas idéias, mostrar que os eventos acontecem
inelutavelmente no sentido que ele previu - o sentido da
história! Só falta aMarx uma tribuna, um jornal que será sua
obra, sua propriedade. Em menos de dois meses Marx terá o
instrumento em suas mãos.
* * *
O título escolhido para o diário é aNova Gazeta Renana
- Neue Rheinische Zeitung - que trazia arecordação da gazeta
de 1842. Segue-se a busca de correspondentes e acionistas,
tentativa infrutífera de agrupar os operários nas seções da Liga
dos Comunistas, objetivo limitado àeducação democrática das
massas e àluta contra areação, daí osubtítulo do jornal: "órgão
da democracia". Esse trabalho foi realizado a todo vapor pelo
62 OS ANARQUISTAS J ULGAM MARX
tandem Marx-Engels; e oprimeiro número saiu em 1Q de junho
de 1848. A Nova Gazeta Renana viveria umano, aparecendo o
último número, 301, em 19 de maio de 1849. O redator-chefe,
Marx, era assistido por uma equipe de seis redatores, dentre os
quais Engels. Na realidade Marx e Engels controlavam o jor-
nal, e todos os artigos - inclusive os artigos não assinados -
foram redigidos pelo "coletivo" Marx-Engels sem que se possa
precisar qual dos dois éoresponsável por este ou aquele pará-
grafo. Emrelação aisso, Engels deveria, bem mais tarde (carta
aSchlünter em 15de maio de 1895), escrever: "Naquela época,
éabsolutamente impossível distinguir oque éde Marx e oque
é meu". Todos os artigos de Marx-Engels estão, entre outras
publicações, integralmente reproduzidos nos tomos V e VI das
obras de Marx-Engels publicadas aos cuidados do Instituto
marxista-leninista do comitê central do S.E.o. (partido comu-
nista da República Democrática Alemã) e editadas por Dietz,
Berlim, 1969. É a partir desse texto alemão que foram tradu-
zidas as passagens citadas neste texto.
* * *
Durante esses anos de 1848 e 1849, as questões interna-
cionais estavam no centro das preocupações, e particular-
mente as reivindicações e asrevoltas das minorias e dos povos
oprimidos aqui e ali na Europa pelos Estados absolutistas. A
Nova Gazeta Renana posicionou-se. É surpreendente verificar
os julgamentos que este "órgão da democracia" fez dos povos
em questão.
Antes do aparecimento da Nova Gazeta Renana, "o caso
dos ducados" provocara grande emoção na Alemanha liberal
e democrática. Os ducados de Schleswig e Holstein, incorpo-
rados ao reino da Dinamarca, eram povoados por uma grande
parte de alemães que suportavam muito mala domínio dina-
o J OVEM MARX E OS PATINHOS FEIOS 63
marquês e que, ao anúncio da "revolução de março", revolta-
ram-se, reclamaram sua incorporação à Alemanha, constituí-
ram um governo provisório e entraram em conflito armado
com astropas dinamarquesas. Os democratas alemães cuspiram
fogo, anunciaram uma guerra de libertação, enviaram volun-
tários, e orei da Prússia foi - contra sua vontade - encarre-
gado de ir defender "a honra e os interesses da Alemanha" à
frente de seu exército. O rei da Prússia, soldado da revolução!
Isto se transformava em farsa. A guerra declarada em 14 de
abril de 1848 foi conduzida com tal apatia que, ao começar, já
estava perdida. O rei da Prússia, diante das ameaças de inter-
venção da Rússia e da Inglaterra, começou desde junho as
negociações com ointuito de preparar um armistício, assinado
emdefinitivo no fimde agosto de 1848. Em 16 de setembro de
1848, o parlamento de Frankfurt deveria aceitar, após uma
recusa prévia, as condições de armistício pouco favoráveis à
Alemanha, reduzindo a nada as esperanças dos revoltados de
Schleswig. Por fim, uma lamentável aventura; e compreende-
se oamargor de Marx escrevendo em um artigo de 22 de julho
de 1848: "Eis os frutos de uma guerra de três meses contra um
pequeno povo e um milhão e meio de habitantes!"
Ao invés de denunciar os verdadeiros opressores: o rei e
o governo da Dinamarca, Marx vai amarrar no pelourinho o
"pequeno povo" dinamarquês e com eles todos os povos escan-
dinavos. Em nome de uma responsabilidade coletiva, de uma
culpabilidade coletiva - encontram-se lá velhos conheci-
mentos - Marx condena ospovos que, aseus olhos, são com-
postos de Unterrnenschen (para falar como Hitler) edevem pois
desaparecer em nome do progresso e da civilização. Lê-se em
um artigo de 10 de setembro de 1848:
Os dinamarqueses são um povo que depende total-
mente da Alemanha em todos os campos: comercial,
r
64 OS ANARQUISTAS J ULGAM MARX
industrial, político, literário. É sabido que a capital real
da Dinamarca não éCopenhague mas Hamburgo, e que
aDinamarca tira da Alemanha todas as suas fontes lite-
rárias, tanto quanto as materiais; enfim, que aliteratura
dinamarquesa nada mais é que uma copia grosseira -
exceção feita aHolberg - da literatura alemã (...) Leiam
as polêmicas às quais se entregam as nações escandi-
navas desde que o escandinavismo nasceu. O escandi-
navismo, é o entusiasmo por esta raça brutal e imunda
dos piratas nórdicos, por estas profundezas da alma que
não podem exprimir seu pensamento e seus sentimentos
exaltados empalavras, só em atos: brutalidade para com
as mulheres, embriaguez permanente, furor de vândalo
alternando com acessos de sentimentalismo lacríme-
jante (...) Não se pode negar que os dinamarqueses são
umpovo semicivilizado. Infelizes dinamarqueses! Usando
do mesmo direito que os franceses quando se apodera-
ram de Flandres, da Lorena e da Alsácia ou quando se
apoderarem cedo ou tarde da Bélgica; a Alemanha se
apoderará do Schleswig: com o direito da civilização
contra a barbárie, do progresso contra o imobilismo, e
ainda que os tratados estejam afavor da Dinamarca, -
o que é ainda duvidoso - este direito valeria mais que
todos os tratados, pois é o direito da evolução histórica.
É pelo menos singular ver um "órgão da democracia" fazer
apologia da Real-Politk. Os argumentos de Marx são aqueles
que, posteriormente, justificarão todos osimperialismos, todos
os colonialismos: o desprezo aos povos julgados inferiores ou
selvagens, as cruzadas da civilização contra a barbárie, o des-
prezo aos tratados, à glorificação do Faustrecht, o direito de
esmagar os povos que se interpõem ao progresso e entravam a
marcha da história, esta história da qual Marx definiu o sen-
tido. Bismarck, Hitler, Stalin e todos os chefes de Estado que
o J OVEM MARX E OS PATINHOS FEIOS 65
se apóiam no marxismo-leninisrno falaram e agiram segundo
estes princípios execráveis -.
Ao fim desse artigo, Marx e Engels estão atormentados
por este furor guerreiro que sempre permitiu aos incitadores do
jornalismo e da literatura passar por heróis ... sem descalçar
suas pantufas. Marx faz votos pela grande guerra revolucio-
nária que fará triunfar a revolução alemã (Ó pobre pequena
revolução de março!) e esmagará os impérios contra-revolu-
cionários. Sem levar em consideração a real situação da Ale-
manha - das Alemanhas - na Europa, Marx sonha com uma
epopéia militar, no estilo dos soldados do ano II, que traria a
liberdade na ponta das baionetas. Escutemo-lo vaticinar:
A guerra que nóssustentamos emSchleswig-Hols-
tein éuma verdadeira guerra revolucionária. E quem,
desde oinício, posicionou-se doladodaDinamarca? As
trêspotências contra-revolucionárias daEuropa: aRús-
sia, aInglaterra e ogoverno prussiano (...) São astrês
potências que mais têm atemer arevolução alemã e a
unidade alemã que seria sua primeira conseqüência: a
Prússia porque cessaria de existir, aInglaterra porque
perderia omercado alemão, e aRússiaporque ademo-
cracia progrediria para alémdo Vístula até oDuna e o
Dnieper. Estas três potências conspiraram contra o
Schleswig-Holstein, contra aAlemanha econtra arevo-
lução. A guerra que poderia sair agora das decisões da
Assembléia de Frankfurt seriauma guerradaAlemanha
contra aPrússia, aInglaterra e aRússia. E, justamente,
tal guerra énecessária para despertar omovimento ale-
mão; uma guerra contra as três potências da contra-
revolução, uma guerra na qual osprussianos se engaja-
riamrealmente, uma guerra que tornaria indispensável
a aliança comaPolônia, que libertaria aItália e seria
precisamente dirigida contra os antigos aliados contra-
I
I
~
I
!
66 OS ANARQUISTAS J ULGAM MARX
revolucionários da Alemanha no período 1792-1815,
uma guerra que colocaria "a pátria emperigo" e por isso
mesmo a salvaria, fazendo a vitória da Alemanha de-
pender da vitória da democracia.
Retenhamos destes argumentos delirantes um precioso
ensinamento: para tirar de seu torpor o movimento democrá-
tico e revolucionário, nada melhor que uma boa guerra euro-
péia... uma guerra progressista naturalmente!
Observar-se-à que entre as 372 notas explicativas e co-
mentários dos editores do Instituto marxista-leninista, não há
nenhuma para justificar ou lamentar as tomadas de posição de
Marx que figuram nos textos supracitados. Quem cala con-
sente ...
* * *
A revolução de fevereiro emParis, asinsurreições de Ber-
lim e Viena na primavera de 1848 fizeram nascer a esperança
de uma liberação para breve não só entre os poloneses como
também no seio de todas as nacionalidades eslavas mantidas
sob o jugo dos Habsburgos, entre os magiares que queriam se
separar do império. Resumamos brevemente os eventos que,
durante dois anos, estremeceram aEuropa central e que tive-
ram por conclusão o esmagamento dos movimentos democrá-
ticos e revolucionários e a vitória de todas as forças reacio-
nárias: emmaio de 1848, ao congresso eslavo de Praga seguiu-
se uma insurreição tcheca que, após vários dias de batalhas de
rua, foi esmagada pelas tropas austríacas de Vindischgratz;
movimento revolucionário em Viena reprimido pelo exército
austríaco com a queda dos croatas de Tellatchik, em 30 de
outubro de 1848; em maio e junho de 1849, o rei da Prússia
livra-se do parlamento de Frankfurt e o antigo regime éresta-
o J OVEM MARX E OS PATINHOS FEIOS 67
belecido; ao mesmo tempo, insurreição em Dresden contra o
rei de Saxe cujas tropas reais impuseram-se após dez dias de
combate: emabril de 1849, os húngaros proclamam adestitui-
ção dos Habsburgos e constituem com Kossuth um governo
provisório e empunham as armas. Em agosto, o exército aus-
tríaco, reforçado pelas tropas enviadas pela Rússia, esmaga a
revolução magiar..
O congresso eslavo de Praga reunia poloneses, tchecos,
morávios, eslovacos, ruthenos, croatas, sérvios ... e um russo:
Bakunin. Todas estas nacionalidades, línguas e religiões dife-
rentes estavam de acordo, em princípio, contra a opressão
alemã, magiar ou russa, o que não impedia o tcheco Palacki,
que tinha convocado o congresso, de estar prestes a se enten-
der com os Habsburgos sobre uma Áustria onde a predomi-
nância tcheca teria substituído apredominância alemã, o que
não ia impedir os croatas de se juntarem às tropas austríacas
contra aViena revoltada e contra osmagiares! Criar uma fede-
ração dos povos eslavos, uma federação democrática era, em
1848, um empreendimento irrealizável. A posição tomada por
Bakunin no congresso, desenvolvida posteriormente em seu
Apelo aos Eslavos (editado em novembro de 1848, em alemão,
e posteriormente emtcheco, polonês e francês), e que ele sem-
pre defendeu, de 1845 a 1873, era sem dúvida utópica porém
aúnica razoável: uma união dos povos eslavos fundada sobre a
liberdade e a igualdade absolutas, afastando toda hegemonia
russa e todo sistema federalista sob direção russa, e aliando a
idéia da revolução social à liberação dos eslavos. Ouçamos
Bakunin:
Nesse congresso, combati com uma paixão desme-
dida opartido pan-eslavista, quer dizer, odo protetorado
de São Petersburgo, e nele proclamei à viva voz a des-
truição do império de todas as Rússias. É verdade que
68 OS ANARQUISTAS J ULGAM MARX
proclamei igualmente a necessidade da destruição do
império da Áustria e do reino da Prússia, e eis por que
os patriotas alemães constitucionais e democratas nunca
quiseram me perdoar.
A partir do anúncio do esmagamento da insurreição de
Praga, Marx e Engels publicaram um artigo em Nova Gazeta
Renana sob o título A Insurreição de Praga (em 18de junho de
1848). Eles estigmatizam energicamente arepressão sangrenta
exercida pelo exército austríaco e denunciam a responsabili-
dade da Alemanha onde uma semi-revoluçâo não trouxe ne-
nhuma mudança profunda e permitiu os massacres de Posen e
de Praga. Toda "coexistência pacífica" entre alemães e tchecos
tornou-se impossível, os tchecos serão obrigados ase aliar aos
russos, daí esta conclusão inesperada:
Qualquer que seja o resultado da insurreição, uma
guerra de aniquilamento dos alemães contra os tchecos
é a única solução possível (...) A Alemanha em revo-
lução deveria ter se libertado de todo seu passado preci-
samente no que concerne aos povos vizinhos. E oque fez
a Alemanha em revolução? Ela ratificou integralmente
pela intervenção de sua soldadesca a antiga opressão da
Itália, da Polônia e da Boêmia. E os alemães pedem que
os tchecos hipotequem-lhes confiança! (...) O que é
mais lamentável é o destino dos bravos tchecos. Ven-
cedores ou vencidos, é certa sua ruína. Após quatro
séculos de opressão alemã, seguida pela batalha de rua
em Praga, eles se lançaram nos braços dos russos. Neste
grande combate entre a Europa ocidental e a Europa
oriental que talvez comece em algumas semanas, um
destino infeliz conduz os tchecos para olado dos russos,
ao lado do despotismo, contra arevolução. A revolução
vencerá e os tchecos serão os primeiros que serão esma-
gados por ela.
o J OVEM MARX E OS PATINHOS FEIOS 69
Marx, tomado uma vez mais pelo delírio profético, prediz
em algumas semanas uma guerra européia que asseguraria a
vitória da revolução. Qual revolução? Marx acaba de denun-
ciar ovazio da pretensa revolução alemã! Quanto aos tchecos,
seu destino éprontamente decidido. Os "bravos tchecos" vão
se juntar aos "infelizes dinamarqueses" no lixo da história.
Nestes confrontos gigantescos entre reação e revolução, não
há piedade ... para os patinhos feios!
* * *
Em 13 de janeiro de 1849, Marx e Engels consagram um
longo artigo à "luta dos magiares" e saúdam o heroísmo deste
pequeno povo de 4 milhões e meio de habitantes que se le-
vanta "contra toda a Áustria e 16 milhões de eslavos fana-
tizados", e cujo chefe, Kossuth, ésimultaneamente "o Danton
e o Carnot da nação húngara". Todo o artigo tende a mostrar
que, no império austríaco, só os alemães e os magiares exer-
ceram uma missão civilizador a e representam o progresso:
Resumamos: na Áustria, os alemães e os magiares,
em 1848 - como há mil anos, por sinal- tomaram a
iniciativa de caminhar no sentido da história. Eles re-
presentam a revolução. Os eslavos dos sul, há mil anos
a reboque dos alemães e dos magiares, só reclamaram,
em 1848, sua autonomia nacional para esmagar a revo-
lução alemã e magiar. Eles representam a contra-revo-
lução.
E Marx, uma vez mais, vai condenar à destruição todos
estes pequenos povos que tentam entravar a marcha irresis-
tível da história:
70 OS ANARQUISTAS J ULGAM MARX
Não há um país na Europa que não abrigue em
algumrecanto, umouváriosrestosdepOVOS, resíduosde
velhaspopulações que foramrepelidas esubjugadaspela
nação que se tornou maistarde ofator daevolução his-
tórica. Estes restos de nações impiedosamente esma-
gadas - como diz Hegel - pela marcha da história,
estes detritos depovossãoepermanecerão atéseutotal
aniquilamento esuadesnacionalização, ossustentáculos
fanáticos da contra-revolução: toda sua existência já
não éumdesafioà grande revolução histórica? Taissão
naEscóciaosgaélicos, naFrança osbretões, naEspanha
osbascos, e na Áustria oseslavosdo sul, pan-eslavístas
que nada maissãodoque detrito depovosresultando de
uma revolução extremamente confusa.
Não nos surpreenderemos mais com aconclusão do artigo
que éuma apologia do genocídio emnome da responsabilidade
coletiva dos povos:
A próxima guerra mundial farádesaparecer dasu-
perfície do globo asclasses e as dinastias reacionárias,
bem como atotalidade dos povos reacionários. E será
umprogresso.
Em 15 de fevereiro de 1849 aparece sob o título O pan-
eslavismo democrático, um longo artigo que foi diversas vezes
citado ou parcialmente traduzido em razão da violência anti-
eslava de certas passagens. O artigo é - segundo parece -
uma crítica virulenta ao Apelo aos Eslavos de Bakunin. Crítica
de idéias e não críticas pessoais, pois "Bakunin é meu amigo", diz
Marx. Singular amizade quando lembramos que pouco depois
do Congresso de Praga, ojornal de Marx faziaoeco dos "rumo-
res" segundo os quais Bakunin era um agente czarista. George
Sand estaria de posse de documentos "comprometedores".
o J OVEM MARX E OS PATINHOS FEIOS 71
Esta calúnia foi desmentida energicamente por George Sand
na Nova Gazeta Renana. O incidente foi declarado encerrado,
mas Bakunin suportou por muito tempo asconseqüências desta
calúnia. Marx critica sobretudo as idéias que ele imputa -
com uma má fé evidente - a Bakunin. Marx leu o Apelo aos
Eslavos e sabe muito bem que Bakunin combate o pan-esla-
vismo, doutrina do imperialismo e da autocracia russa, e que a
federação eslava, da qual Bakunin traça as grandes linhas,
repousa sobre adestruição dos grandes impérios, inclusive o
império russo. Mas o artigo de 18 de fevereiro é sobretudo
ocasião para Marx manifestar seu ódio antieslavo e conclamar
à morte os patinhos feios da história.
Marx começa por ridicularizar os grandes princípios nos
quais se inspira o Apelo aos Eslavos (o que se chamará mais
tarde, osguindastes metafísicos), afraternidade entre os povos
e o respeito das fronteiras entre Estados soberanos segundo a
vontade de seus povos:
J ustiça, humanidade, liberdade, igualdade, frater-
nidade, independência: nada mais encontramos no ma-
nifesto pan-eslavista além destas categorias mais ou
menos morais que, é certo, soam bem, mas não têm ne-
nhum sentido no campo histórico e político (...) Os Es-
tados Unidos e o México são dois povos soberanos, duas
repúblicas. Como é possível que entre estas duas repú-
blicas que, segundo a lei moral, deveriam estar unidas
por elos fraternos e federais, tenha eclodido uma guerra
por causa do Texas, e que a vontade soberana do povo
americano tenha empurrado uma centena de milhas
mais adiante as fronteiras naturais em razão das neces-
sidades geográficas, comerciais e estratégicas? Bakunin
censura os americanos por fazerem uma guerra de con-
quista que é seguramente um golpe duro na teoria fun-
dada na justiça e na humanidade, mas que é conduzida
72 OS ANARQUISTAS J ULGAM MARX
unicamente no interesse da humanidade. É uma infeli-
cidade se a rica Califórnia foi arrancada dos mexicanos
preguiçosos que não sabiam o que fazer com ela? Se os
enérgicos yankees, graças àexploração das minas de ouro
daquela região, aumentam asvias de comunicação, con-
centram sobre a costa do Pacífico em alguns anos uma
população densa e um comércio em expansão, criam
grandes cidades, abrem linhas marítimas, estabelecem
uma via férrea de New York aSan Francisco, abrem pela
primeira vez o oceano Pacífico à civilização e pela ter-
ceira vez na história dão uma nova orientação ao comér-
cio mundial? A independência de alguns californianos
ou texanos espanhóis pode sofrer com isso, a justiça e
outros princípios morais podem ser feridos: isto conta
diante de tais realidades que são o domínio da história
universal?
Inútil acrescentar umcomentário aesta entusiasta justifi-
cativa das conquistas coloniais que trazem aosindígenas pregui-
çosos asbenfeitorias da civilização. Trabalho forçado, pilhagem
dos recursos naturais, exploração reforçada do gado humano,
massacres de povos "atrasados": isto conta?, pergunta Marx.
Mas aparte essencial do artigo édirigida contra os povos
eslavos, contra essas minorias étnicas às quais Marx-Engels
recusam categoricamente o direito àexistência:
Exceto os poloneses, os russos, e talvez os eslavos
da Turquia, nenhum povo eslavo tem futuro pela simples
razão de que faltam a todos os outros eslavos as condi-
ções mais elementares - históricas, geográficas, políti-
cas e industriais - da independência e da vitalidade.
Segue uma longa exposição das razões que relegam ao
nada os tchecos, os eslovenos, os croatas e todos aqueles que
o J OVEM MARX E OS PATINHOS FEIOS 73
constituem obstáculo àhegemonia dos alemães e dos magiares;
entre estas razões, "a necessidade de um centralismo político
por causa do progresso da indústria, do comércio e das comu-
nicações". E eis a conclusão da Segunda parte do artigo -
publicado em 16 de fevereiro - onde ojovem Marx faz apolo-
gia do genocídio emnome do "terrorismo revolucionário";
ÀS frases sentimentais que aqui nos oferecem,
em nome das nações contra-revolucionárias, nós res-
pondemos: oódio dos russos foi - e ainda é- apaixão
revolucionária por excelência dos alemães, com a dos
croatas e dos tchecos desde a revolução; juntamente
com os poloneses e magiares, nós salvaremos a revo-
lução por um terrorismo decidido em relação a esses
povos eslavos. Sabemos agora onde se encontram os
inimigos da revolução: na Rússia e nas regiões eslavas da
Áustria; e não são frases ou indicações sobre um vago
futuro democrático desses países que nos desviarão de
tratar como inimigos nossos inimigos (...) Sim, guerra
sem piedade, guerra até amorte contra oracismo eslavo
traidor da revolução, guerra de extermínio e terrorismo
implacável, não no interesse da Alemanha, mas no in-
teresse da revolução.
Duvido que estes dois longos artigos tenham causado
alguns embaraços aos editores do Instituto marxista-leninista.
Apesar de todo o respeito devido à infalibilidade de Marx e a
essa Nova Gazeta Renana que Lenin qualificou de "melhor e
insuperável órgão do proletariado revolucionário", era difícil
não reagir a certas afirmações de Marx. No prefácio do tomo
VI das "obras", o Instituto silencia quanto ao apelo aos geno-
cídios e ao terrorismo implacável, assim como àjustificativa do
imperialismo yankee, e limita-se a assinalar "o ponto de vista
errôneo de Marx sobre opapel histórico de alguns povos esla-
74 OS ANARQUISTAS J ULGAM MARX
vos". Erros excusáveis pois em 1848-1849 apesquisa marxista
sobre as questões nacionais ainda estava em seu início! Desde
lá, os povos eslavos que faziam parte da Áustria mostraram
"que eram bastante fortes para conquistar aliberdade e ainde-
pendência, constituir seus próprios Estados e constituir o so-
cialismo". O comentário do Instituto ser reduz à glorificação
do futuro grandioso das repúblicas ditas socialistas.
* * *
Não deixemos aNova Gazeta Renana sem citar a conclu-
são do último artigo de Marx-Engels no último número de seu
jornal (19 de maio de 1849). Viu-se que Marx evoca sem des-
prezar uma grande guerra européia com, no final, o triunfo da
revolução (qual?). Marx, homem muito pacífico, desdobra-se
empropósitos incendiários, leva àboca aclarineta e está pronto
alançar apalavra de ordem: armemo-nos e... partam! O texto
a seguir foi escrito em maio de 1849, e quando se pensa na
situação política na França, na Alemanha ena Europa naquela
data, pergunta-se se é uma obra de um imbecil ou de um ilu-
minado:
A revolução emParis, que elaresulte das eleições
ou da fraternização do exército como partido revolu-
cionário, éiminente. Enquanto na Alemanha do sul se
constitui o núcleo de umexército revolucionário que
impede a Prússia de tomar parte ativa da campanha
contra aHungria, a França está aponto de participar
energicamente da luta. Isto se decidirá emalgumas se-
manas, talvez emalguns dias, e osexércitos revolucio-
nários, francês, polonês-rnagiar e alemão celebrarão sob
osmurosde Berlim, sobreocampo debatalha, afestade
sua confraternização.
o J OVEM MARX E OS PATINHOS FEIOS 75
Após a publicação deste "sonho de uma noite de maio"
pelo doutor Karl Marx, era realmente tempo de cessar aNova
Gazeta Renana.
* * *
Poder-se-ia acreditar que os textos citados - mesmo ne-
gligenciando a violência premeditada de certas expressões -
nada mais são que um acidente, uma "mácula" na obra de
Marx. Eles são, ao contrário, o reflexo fiel de um pensamento
amadurecido durante os anos de 1844-1848, definitivamente
fixado, e que não deveria sofrer no futuro nenhuma mudança
essencial. Em 1848, Marx estava em plena posse de sua dou-
trina: ele definia sua posição na Sagrada Família (1844) como
um"humanismo realista", e foi mais tarde, apenas, que osdesa-
jeitados discípulos falaram de materialismo histórico, de mate-
rialismo dialético e, enfim, de "marxismo", oque éuma ridícula
evidência! Filosofia, concepção da história, visão da evolução
do mundo, todo esse sistema conduzia necessariamente a um
fimprevisto a priori - profetizado - pelo próprio Marx!
Georges Gurvitch em sua obra Dialética e Sociologia criti-
cou adialética de Marx por ser ascendente e apologética. Dia-
lética ascendente: é a marcha irresistível rumo a uma socie-
dade onde osonho se tornará realidade, onde astensões sociais
desaparecerão para sempre, onde a "humanidade enfim desa-
lienada de todas as suas servidões estará reconciliada consigo
mesma". Dialética apologética: é a apologia da fase final do
comunismo, da sociedade sem classes e sem pressão onde rei-
nará uma harmonia perfeita. "É", diz Gurvitch, "a apologia do
fimda história", e conclui nestes termos:
A dialética realista de Marx termina pela anun-
ciação profética da salvação e do fimda história. Creio
76 OS ANARQUISTAS J ULGAM MARX
não ser necessário insistir no fato de que a dialética as-
cendente e apologética de Marx, apesar de todo o rea-
lismo exibido durante acaminhada, só serve enfim para
provar o que já tinha sido admitido de antemão: que o
ideal terrestre edificado pelo proletariado não tardará a
realizar-se.
A evolução histórica segue pois um caminho implacável
e irreversível. A história tem umsentido e osentido da história
éosentido fixado a priori por Marx. Compreende-se então que
os fatos sejam interpretados no sentido imposto por Marx.
Compreende-se então que os fatos sejam interpretados no
sentido imposto por Marx e que as guerras e as revoluções
sejam as etapas necessárias rumo ao fimgrandioso profetizado
por Marx. Tudo aquilo que favorece aevolução histórica ébom
e será qualificado de "revolucionário"; tudo aquilo que entrava
esta evolução é mau e conseqüentemente "contra-revolucio-
nário". Este procedimento simplista de discriminação deveria
posteriormente conhecer um grande sucesso: guerras justas e
injustas, bombas limpas e sujas, "puros" massacradores e "im-
puros" massacrados ...
A atitude de Marx emrelação aos eslavos do sul, ao tche-
cos, aos dinamarqueses ou aos mexicanos é a conseqüência
lógica de uma doutrina que subordina tudo a um fim gran-
dioso: aapoteose final justifica osmeios! Todos estes pequenos
povos, estes retardatários, estes patinhos feios da história são,
emrazão de sua economia atrasada e de seu imobilismo, entra-
ves ao progresso das técnicas, ao desenvolvimento das nações
industrializadas que são o motor da história, que representam
uma civilização progressista, e que são, portanto, arevolução.
A vitória da revolução torna necessária - e por sinal fatal -
aeliminação implacável de todos este povos contra-revolucio-
nários; "De todos estes povos em sua totalidade", faz questão
o J OVEM MARX E OS PATINHOS FEIOS 77
de precisar Marx. Neste confronto gigantesco entre opassado
retrógrado e o futuro grandioso, podemos nos preocupar com
as categorias morais caducas: justiça, liberdade, direito dos
povos? Elas são irrisórias diante dos milagres da técnica, das
realizações da indústria e do comércio, de todo oprogresso que
caminha no sentido da história!
Não devemos nos surpreender se Marx - conquanto
denunciando as malfeitorias e os crimes do capitalismo e do
imperialismo - reconhece e até mesmo glorifica seu papel
revolucionário. Cada vez que a humanidade passou de um
modo de produção para outro - de início antigo, em seguida
feudal, enfim capitalista - há umprogresso, progresso no sen-
tido da história. O modo de produção capitalista, a grande
indústria, são a última etapa antes da criação de um mundo
novo. Várias passagens do Manifesto Comunista e de A Ideo-
logia Alemã ressaltam "o papel eminentemente revolucionário
representado na história pela burguesia". Fiel à lógica de seu
sistema, Marx justificará a guerra empreendida pelos yankees
contra os preguiçosos mexicanos, assim como renderá home-
nagem ao papel civilizador e progressista dos ingleses na Índia.
Um artigo de Marx publicado em 1853 no New York Tribune
afirma que "a Inglaterra ao realizar uma revolução fundamen-
tal no estado social da Ásia, foi, quaisquer que sejam seus cri-
mes, o instrumento inconsciente da história". Daí esta con-
clusão: "A era histórica burguesa deve criar abase material de
ummundo novo. A indústria e o comércio burgueses criam as
condições materiais da mesma maneira que as revoluções geo-
lógicas criaram afisionomia do globo terrestre".
* * *
O ensinamento que um anarquista pode extrair da lem-
brança desse passado longínquo éaperigosa loucura de querer
78 OS ANARQUISTAS J ULGAM MARX
prender ahumanidade numa jaula de ferro de umsistema pré-
estabelecido e impor-lhe aautoridade de uma teoria assentada
no sonho delirante de um pensador persuadido de sua infali-
bilidade. Marx não foi um homem de ação, ele nunca pôs em
prática o genocídio e o esmagamento dos países "atrasados".
Ele não cometeu "crimes contra ahumanidade", foi apenas seu
instigador, e outros souberam se aproveitar desse ensinamento
- e às vezes desnaturando-o e caricaturizando-o - e deram
ao humanismo realista de Marx sua forma moderna.
MARX
ERA REALMENTE MARXISTA
Michel Ragon
A biografia de Marx, assim como a de todos os santos,
durante muito tempo, foi edificante. Quando em 1959 publi-
quei umpequeno livro sobre Marx, tentando restituir averda-
deira biografia do personagem', asurpresa foi tal que se chegou
apensar que se tratava de uma piada de mau gosto, e o livro,
nunca citado em qualquer bibliografia de Marx, desapareceu
rapidamente das livrarias. É preciso dizer que ele chegava
muito cedo. Toda uma intelligentsia, toda uma juventude acre-
ditava então se liberar da igreja católica, jogando-se de pés
juntos em uma outra igreja, tão obscurantista, tão limitada.
Desde então, e ainda que timidamente, Marx foi dessacra-
lizado. Duas obras ajudaram neste questionamento: ade Fran-
çoise P.Lévy, Karl Marx, histoire d'un bourgeois allemand
2
e a
publicação de Les filles de Marx, Lettres inédites
3

Por que nos interessarmos pela biografia de Marx? Sim-
plesmente porque este personagem contém todos os traços do
marxismo. Esta vida, com seus ódios, seu sectarismo, a liqui-
dação das pessoas incômodas prefigura oreinado sangrento de
seus discípulos. Emtoda sua vida Marx mostrou umgosto des-
comunal pelo poder, gosto este que lhe fez liquidar não apenas
seus adversários, como também seus discípulos muito célebres
que podiam fazer-lhe sombra. Que ele tenha entrado em cho-
que com Proudhon e Bakunin podemos compreender; suas
80 OS ANARQUISTAS J ULGAM MARX
teorias não eram conciliáveis. Mas Marx adora osgolpes baixos
e maneja acalúnia com virtuosismo. Ele não procura demons-
trar que as teorias de Bakunin são falsas, acusa-o de ser um
escroque e - enquanto este está na prisão - levar uma vida
de libertinagem na Sibéria com anuência doczar. Sobre os 17
membros do primeiro Partido Comunista, em 1847, Marx exer-
ce seus expurgos que serão a vergonha do marxismo. Kriege,
que emigrou para a América, e lá ganha muito prestígio por
meio de sua propaganda, éexpulso como "comunista emotivo".
Em seguida é a vez do operário Weitling, depois Moses Hess,
que revelou aos jovens burgueses, Marx e Engels, osocialismo
francês e que será ointrodutor de Marx emParis junto aProu-
dhon. Quando seu discípulo Lassalle se tornar célebre na Ale-
manha, Marx odetestará, assim como desprezará Liebknecht,
primeiro deputado marxista, que ele trata em sua correspon-
dência de "vaca" e "bruto".
Os ataques, o terrorismo verbal que serão retomados por
todos os procuradores dos processos de Moscou ou de Praga,
são manejados por Marx com brio. Ele não aceita nenhuma
contradição, insulta seus adversários, e as calúnias são ainda
mais eficazes por serem enormes. Este judeu, cujo pai se con-
verteu ao protestantismo, mostrará sempre um anti-sernitismo
visceral. Zomba de Moses Hess chamando-o de "rabino comu-
nista", trata Lassalle de "judeu gorduroso", "judeu tagarela" e até
mesmo de "judeu negro".
Nacionalista alemão, Marx detesta a França (por ser o
país de Proudhon e porque naquele momento o socialismo é,
antes de tudo, Proudhon); detesta a Rússia (por ser o país de
Bakunin. "A partir domomento que um russo seinfiltra emalgum
lugar oinferno se manifesta violentamente", escreve).
O gosto desmedido pelo poder, as calúnias, osinsultos, os
expurgos, o terrorismo verbal, o anti-sernitismo, onacionalis-
mo, como se vê, seja oque for que ele tenha dito ao fimde sua
\.
,
I
I
MARX ERA REALMENTE MARXISTA 81
vida, Marx era de fato marxista. Há um outro traço de seu
caráter que prefigura também asociedade marxista: ésua refe-
rência auma ordem moral burguesa. Não apenas afilha da ba-
ronesa de Westfália, por ele desposada, levará emseu exílio na
França, e depois na Inglaterra, aempregada que épropriedade
da família desde aidade de 8anos, como também, Marx, como
bom burguês, aengravidará e jamais reconhecerá seu bastardo
que se tomará operário. Ao contrário, suas três filhas serão
educadas como demoiselles, e suas virtudes por ele controladas.
Quando um primeiro pretendente se apresenta, o socialista
francês Paul Lafargue, que pedirá Laura em casamento, Marx
se inquietará com a solvabilidade do futuro genro. Mas Lafar-
gue, como a maior parte dos jovens revolucionários de seu
tempo, possuía bens. Tranqüilizado, Marx inquieta-se então
com aausência de dote de Laura. Causa espanto este mercan-
tilismo matrimonial burguês entre sogro e genro que, ambos,
sonham com a abolição da propriedade privada.
Conduzo oleitor ao livro Les fales deMarx, Lettres inédites
onde ele verá ocurioso destino dessas três filhas que devotarão
sempre a seu pai uma profunda admiração e ligação, mas que
terão um curioso gosto por esses franceses, os quais seu pai
detestava. Laura e[enny desposarão dois militantes socialistas
franceses: Lafargue e Longuet, dos quais Marx se servirá para
introduzir o marxismo na França. A terceira, Eleanor, sentirá
uma paixão pelo anarquista communard naquele momento
refugiado em Londres, Lissagaray, a quem Marx, é óbvio, fará
tudo para destruir. Curioso destino dessas três filhas de Marx,
dentre as quais duas, Laura e Eleanor, se matarão.
Toda avida de Marx ilustra acélebre teoria de seus cíni-
cos discípulos: o fimjustifica os meios.
A estas reflexões sobre a vida de Marx, e na ocasião do
centenário de sua morte, adicionemos alguns comentários sobre
aobra.
82 OS ANARQUISTAS J ULGAM MARX
As obras mais populares são quase todas obras de síntese
que catalisam todo o pensamento disperso de um século. As
obras verdadeiramente originais são, ao contrário e fatalmente,
marginais.
O marxismo não escapou desta regra pois Marx fez emO
Capital uma síntese de todo opensamento socialista e revolu-
cionário de seu tempo. Tomou a idéia de luta de classes de
Blanqui (que por sua vez ohavia tomado de Babeuf), afórmula
da "ditadura do proletariado" do mesmo Blanqui, a visão de
um exército de trabalhadores dirigidos pelos homens de ciên-
cia de Saint-Simon, e sua célebre "mais-valia" sai diretamente
do famoso "erro de conta" de Proudhon.
Uma vez feita esta compilação, Marx teve agenial astúcia
(uma genialidade de marketing intelectual) de enfraquecer seus
inspiradores travestindo-os com o epíteto "utopistas". E se o
socialismo de Fourier e o de Proudhon se tornassem, por uma
hábil manobra, utópicos, Marx, ao contrário, certificaria que o
que diferencia seu socialismo dos socialismos anteriores éque
o seu era científico. Em pleno apogeu do cientificismo indus-
trial do século XIX, o slogan não podia deixar de encontrar
ouvidos atentos. Durante os setenta primeiros anos do século
XX, encontrava-se ainda quem acreditasse na ciência como se
acreditava antes em Deus.
A crise econômica mundial, dobrada por uma crise ética,
e até mesmo filosófica, tornou-nos um pouco céticos sobre as
virtudes da ciência, panacéia da felicidade universal. A ciência
é como o dinheiro, uma e outro não trazem felicidade ainda
que às vezes possam contribuir de modo singular para isso.
Simultaneamente, o "socialismo científico" levou chumbo nas
asas. Por que científico? Emquê? Quem diz ciência diz verifica-
ção experimental. A verificação experimental do "socialismo
científico" na u.R.S.S., e emtodos os outros países que nele se
apóiam, resulta em tal constatação de fiasco que a impostura
MARX ERA REALMENTE MARXISTA 83
do termo "socialismo científico" aplicado ao marxismo perfura
os olhos.
Marx não previu arevolução de 1~48 (que será na França
uma vitória de Proudhon, de Bakunin e de Blanqui), nem a
Comuna (que ele tentará recuperar). Marx acreditava que as
sociedades mais industrializadas seriam aquelas que fariam por
primeiro a revolução. Ora, não foram a Alemanha, a Ingla-
terra, os Estados Unidos que se tornaram marxistas, mas sim
países subdesenvolvidos como a Rússia e a China (os raros
países industrializados que desde então entraram na órbita
marxista, como aTchecoslováquia, só ofizeram pela anexação
militar). Marx acreditava que amiséria não cessaria de crescer
àmedida que aindústria se desenvolvesse. Ao contrário, avida
dos operários melhorou muito mais nos países capitalistas do
que nos países comunistas, o que é o cúmulo da contradição.
Marx acreditava que as guerras traziam a revolução. Se esta
profecia foi verdadeira para aRússia, foi falsa emmuitos outros
lugares onde asguerras trouxeram, ao contrário, umreforço do
exército e conseqüentemente dos movimentos conservadores.
Mas o mesmo não aconteceu na Rússia a partir da Segunda
Guerra Mundial?
O marxismo não émais científico do que oproudhonismo
ou o fourierismo. Mas, ao contrário de Marx, Fourier e Prou-
dhon jamais visaram àverdade científica. E épor essarazão que
seu pensamento permanece vivo e aberto para ofuturo. A filo-
sofia, bem como a política, a poética, não pode ser científica
pela simples razão de que éoutra sua natureza. Poder-se-ia dizer
que uma das enfermidades da ciência éofato de se fechar sobre
si mesma, sobre suas certezas, enquanto que afilosofia, apolí-
tica, apoética são antes de mais nada aberturas, aberturas sobre
todos os possíveis e até mesmo e sobretudo sobre oimpossível.
Marx acorrentou o pensamento socialista, ele que dizia
desejar oferecer um método e não uma receita. O marxismo
84 OS ANARQUISTAS J ULGAM MARX
poderia ter sido um instrumento eficaz na medida em que
tivesse sido tomado como uma utopia desalienante. Ao invés,
fez-se dele um sacramento. Tornou-se um molho intelectual
destinado a acompanhar todos os pratos.
O marxismo morrerá com asociedade industrial e comer-
cial que o fez nascer e da qual é a expressão analítica, assim
como morreram o saint-simonismo e o positivismo. Não são
esses os três avatares da sociedade burguesa do século XIX? O
mito cientificista dirigido para a produção acelerada, que vai
dos politécnicos saint-simonianos aos tecnocratas marxistas,
resultou na criação de duas formas de sociedades que se dizem
antagonistas e se fundam, realmente, sobre os mesmos crité-
rios. São elas: sociedades capitalistas e sociedades marxistas.
Notas:
1 Michel Ragon: Karl Marx, LaTable Ronde, 1959.
2 Françoise P.Lévy: Karl Marx, histoire d'un bourgeois allemand, Grasset,
1976.
3 Les filles deMarx, Lettres inédites, introdução de Michelle Perrot, Albin
Michel,1979.
MARX
E O ANARQUISMO
Rudolf Rocker
Há alguns anos, pouco após amorte de Friedrich Engels,
Edouard Bernstein, um dos mais ilustres membros da comuni-
dade marxista, surpreendeu seus amigos com algumas desco-
bertas notáveis. Bernstein manifestou publicamente suas dúvi-
das quanto àexatidão da interpretação materialista da história,
da teoria marxista da mais-valia e da concentração do capital;
chegou até mesmo a atacar o método dialético, concluindo
que não era possível falar de um socialismo crítico. Homem
prudente, Bernstein guardou para si suas descobertas até a
morte do velho Engels e, somente então, tornou-as públicas,
para ogrande desespero dos sacerdotes marxistas. Mas, mesmo
esta prudência não pôde salvá-lo, pois atacaram-no por todos
os lados. Kaustky escreveu um livro contra o herético, e o
pobre Bernstein viu-se obrigado a declarar no Congresso de
Hanovre que ele estava em estado de pecado mortal e que se
submetia à decisão da maioria científica.
Com tudo isto, Bernstein nada tinha revelado de novo.
As razões que ele opunha aos fundamentos da doutrina mar-
xista já existiam na época emque ele próprio continuava ainda
a se fazer o apóstolo fiel da igreja marxista. Estes argumentos
tinham sido tomados aqui e ali na literatura anarquista, e o
único fato importante era que um social-democrata, dentre os
mais conhecidos, neles se apoiava pela primeira vez. Ninguém
86 OS ANARQU!STAS J ULGAM MARX
negará que a crítica de Bernstein havia produzido uma forte
impressão no campo marxista: ele tinha estremecido os funda-
mentos mais importantes da economia metafísica de Karl Marx
e não é surpreendente que os respeitáveis representantes do
marxismo ortodoxo tenham sido tocados por isto.
Tudo isto não seria muito grave se não houvesse umoutro
inconveniente bem pior. Há quase um século os marxistas não
cessam de pregar que Marx e Engels foram os inventores do
socialismo dito científico; uma distinção artificial criou-se entre
os socialistas ditos utópicos e o socialismo científico dos mar-
xistas, diferença que existe somente na imaginação destes últi-
mos. Nos países germânicos, aliteratura socialista foi monopo-
lizada pelas teorias marxistas, e todo social-democrata consi-
dera-as como puros produtos, absolutamente originais, das
descobertas científicas de Marx e Engels.
Mas este sonho também se dissipou: as pesquisas histó-
ricas modernas estabeleceram de forma incontestável que o
socialismo científico nada mais era que uma conseqüência dos
velhos socialismos inglês e francês, e que Marx e Engels conhe-
ceram com perfeição aarte de vestir aroupa dos outros. Após
as revoluções de 1848, começou na Europa uma reação terrí-
vel: a Santa Aliança voltou a estender suas malhas em todos
os países com a intenção de sufocar o pensamento socialista
que produzia uma literatura extremamente rica em países
como aFrança, aBélgica, aInglaterra, aAlemanha, aEspanha
e a Itália. Essa literatura caiu quase totalmente no esqueci-
mento durante esse período de obscurantismo que começou a
partir de 1848. Muitas obras dentre asmais importantes foram
destruídas, e raros são os exemplares que encontraram refúgio
na tranqüilidade de algumas grandes bibliotecas públicas ou
entre asparticulares. Foi somente no fimdo século XIX, início
do século XX, que essa literatura foi redescoberta e hoje esta-
mos cheios de admiração diante das idéias fecundas que en-
MARX E O ANARQUISMO 87
contramos nos velhos escritos das escolas posteriores aFourier
e a Saint-Simon, nas obras de Considérant, Demasi, Mey e
tantos outros.
Do mesmo modo, encontrou-se a origem do socialismo
dito científico. Nosso velho amigo W Tcherkesoff foi oprimeiro
a oferecer um conjunto de todos esses fatos; ele demonstrou
que Marx e Engels não são os inventores das teorias que foram
consideradas durante muito tempo como seu patrimônio inte-
lectual': chegou mesmo aprovar que certos trabalhos marxis-
tas dentre os mais famosos, como o Manifesto Comunista, por
exemplo, nada mais eram, de fato, que traduções livres do
francês, feitas por Marx e Engels. Tcherkesoff teve, por sinal, o
prazer de ver suas afirmações relativas ao Manifesto Comunista
reconhecidas por Avanti, órgão central da social-democracia
italiana', após o autor ter tido aidéia de comparar oManifesto
Comunista com o Manifesto da Democracia de Vicror Considé-
rant, publicado cinco anos antes do opúsculo de Marx e Engels.
O Manifesto Comunista é considerado como uma das pri-
meiras obras do socialismo científico, e oconteúdo deste traba-
lho foi extraído dos escritos de umutopista, pois omarxismo in-
clui Fourier entre os socialistas utópicos. Eis uma das ironias
mais cruéis que se possa imaginar, e isto não constitui segu-
ramente uma recomendação favorável quanto ao valor cientí-
fico do marxismo. Victor Considérant foi um dos primeiros
escritores socialistas que Marx conheceu; já o menciona em
uma época em que ele próprio ainda não era socialista. Em
1842, oAlgemeine Zeitung atacou o Rheinische Zeitung do qual
Marx era oredator-chefe, censurando-o por simpatizar com o
comunismo. Marx respondeu, então, por um editorial' no qual
declarava: "Obras como estas de Leroux, Considérant e prin-
cipalmente olivro perspicaz de Proudhon, não podem ser criti-
cados a partir de algumas observações superficiais; é preciso
estudá-Ias com profundidade antes de querer fazer sua crítica".
88 OS ANARQUISTAS J ULGAM MARX
oSocialismo francês exerceu a maior influência sobre o
desenvolvimento de Marx; mas de todos os escritores socia-
listas da França, foi P.-J . Proudhon quem omarcou com maior
força. É evidente que o livro de Proudhon Qu'est-ce que Ia
propriété? incitou Marx aabraçar osocialismo. As observações
críticas de Proudhon sobre a economia nacional e as diversas
tendências socialistas fizeram descobrir, antes de Marx, um
novo mundo, e foi principalmente a teoria da mais-valia, de-
senvolvida também pelo genial socialista francês, que causou
a mais forte impressão sobre o espírito de Marx. A origem da
doutrina da mais-valia, essa grandiosa "descoberta científica"
da qual se orgulham todos os nossos marxistas, dá-se nos escri-
tos de Proudhon. Graças a este, Marx chega a conhecer essa
teoria, mais tarde por ele modificada, após oestudo dos socia-
listas ingleses Bray e Thompson.
Marx chegou até mesmo a reconhecer publicamente a
grande significação científica de Proudhon e, emum livro hoje
completamente desaparecido de circulação", qualificou aobra
de Proudhon Qu'est-ce que Ia propriété? de "primeiro manifesto
científico do proletariado francês". Essa obra não foi mais edi-
tada pelos marxistas, nem traduzida, apesar dos grandes esfor-
ços dos representantes oficiais do marxismo para divulgar, em
todas aslínguas, os escritos de seu mestre. Esse livro foi esque-
cido, e sabe-se por que; sua reimpressão faria com que omundo
descobrisse o enorme contra-senso e ainsignificância de tudo
aquilo que Marx escreveu posteriormente sobre o eminente
teórico do anarquismo.
Marx não foi influenciado apenas pelas idéias econômicas
de Proudhon; ele ofoi igualmente pelas teorias anarquistas do
grande socialista francês, e em um de seus trabalhos daquele
período, ele combate o Estado sob a mesma forma feita por
Proudhon.
MARX E O ANARQUISMO 89
II
Todos aqueles que estudaram com atenção a evolução
socialista de Marx deverão reconhecer que aobra de Proudhon
Qu'est-ce que Ia propriété? foi aquela que o converteu ao socia-
lismo. Os que não conhecem de perto os detalhes desta evolu-
ção e os que não tiveram a curiosidade de ler os primeiros
trabalhos socialistas de Marx e Engels acharão estranho e ina-
creditável esta afirmação, pois em seus trabalhos posteriores
Marx fala de Proudhon com ironia e desprezo. São precisa-
mente esses escritos que a social-democracia publica de novo
e reimprime constantemente.
É assim que toma corpo, pouco a pouco, a opinião se-
gundo aqual Marx foi, desde oinício, o adversário teórico de
Proudhon, e que jamais existiu entre osdois qualquer ponto de
contato. É verdade que, quando se lê o que o primeiro escre-
veu em relação ao segundo em Miséria da Filosofia, no Mani-
festo Comunista e na necrologia que ele publicou no Sozial-
demokrat de Berlim, logo após a morte de Proudhon, não é
possível se ter outra opinião.
Em Miséria da Filosofia ele ataca Proudhon da pior ma-
neira, usando todos os recursos para demonstrar que as idéias
deste não têm valor e que não têm nenhuma importância, nem
como socialistas, nem como crítica da economia política.
oSenhor Proudhon tem ainfelicidade de ser com-
preendido de uma maneira estranha; na França, tem o
direito de ser um mau economista, pois o consideram
um bom filósofo alemão; na Alemanha, ele pode ser um
mau filósofo, visto que lá é considerado como o melhor
economista francês. Na minha qualidade de alemão e
economista, vejo-me na obrigação de protestar contra
este duplo erros.
90 OS ANARQUISTAS J ULGAM MARX
E Marx vai ainda mais longe: acusa Proudhon, sem apre-
sentar nenhuma prova, de ter plagiado asidéias do economista
inglês Bray. Escreve:
"Acreditamos ter encontrado, no livro de Bray'', a chave
de todos os trabalhos passados, presentes e futuros do Senhor
Proudhon".
É interessante observar de que maneira Marx, que utili-
zou tantas vezes as idéias dos outros e cujo Manifesto Comu-
nista nada mais é, na realidade, que uma cópia do Manifesto da
Democracia de Victor Considérant, trata os outros de plagia-
dores.
Prossigamos. No Manifesto Comunista, Marx retrata Prou-
dhon como um representante burguês e conservador". E na
necrologia por ele escrita no Sozialdemokrat (1865), lemos as
seguintes palavras:
"Em uma história da economia política, rigorosamente
científica, esse livro", ele se refere aQu'est-ce que Ia propriété?,
"merecerá apenas ser mencionado. Tais obras representam nas
ciências exatamente o mesmo papel que na literatura de no-
velas".
E no mesmo artigo de necrologia Marx reitera sua afirma-
ção de que Proudhon não tem nenhum valor como econo-
mista, opinião já pronunciada em Miséria da Filosofia.
É fácil compreender que tais asserções lançadas por Marx
contra Proudhon deveriam difundir acrença, melhor dizendo,
a convicção, de que entre ele e o grande escritor francês não
existia omínimo parentesco. NaAlemanha, Proudhon équase
totalmente desconhecido. Entretanto, as edições alemães de
suas obras, publicadas por volta de 1840, estavam há muito
esgotadas. O único livro que foi novamente publicado em ale-
mão éQu'est-ce que Ia propriété?, e mesmo essa edição foi difun-
dida emum círculo restrito. Essa circunstância explica por que
Marx conseguiu apagar as pegadas de sua primeira evolução
MARX E O ANARQUISMO 91
socialista. Que suaopinião tenha sidobemdiferente no início,
já tivemos a ocasião de constatar mais acima. As conclusões
que se seguem corroborarão nossa afirmação.
Como redator-chefe doRheinische Zeitung, umdosprinci-
paisjornais da democracia alemã, Marx chegou aconhecer os
escritores socialistas mais importantes daFrança, enquanto ele
próprio ainda não era socialista. J á mencionamos uma de suas
citações na qual ele faz alusão a Victor Considérant, Pierre
Leroux e Proudhon, e não há nenhuma dúvida de que Con-
sidérant, e especialmente Proudhon, foram os mestres que o
conduziram ao socialismo. Qu'est-ce que Ia propriété? exerceu,
com toda a certeza, a maior influência na maturação política
de Marx; assim, no período mencionado, ele qualificou o ge-
nial Proudhon de "omais conseqüente esagaz dos escritores socia-
listas"8. Em 1843 o Rheinische Zeitung foi suprimido pela cen-
sura prussiana; Marx partiu para oestrangeiro e, durante este
período, prosseguiu sua evolução rumo ao socialismo. Esta
evolução éfacilmente constatada emsuas cartas enviadas ao
escritor Arnold Ruge, e melhor ainda, emseu livro A Sagrada
Família escrito comEngels. O livro, editado em1845, tinha por
objeto a contestação da nova tendência do pensador Bruno
Bauer
9
• Além das questões filosóficas, esta obra trata também
de economia política e socialismo, e são precisamente essas
partes que nos interessam aqui.
De todos os trabalhos publicados por Marx e Engels, A
Sagrada Família é o único que não foi traduzido para outros
idiomas, e do qual os socialistas alemães não fizeram outra
edição. É verdade que Franz Mehring, herdeiro literário de
Marx e Engels, publicou, sob a responsabilidade do Partido
Socialista Alemão, A Sagrada Família comoutros escritos cor-
respondendo ao primeiro período da atividade socialista de
seus autores, mas isto aconteceu sessenta anos após aprimeira
edição, e, por outro lado, areedição era destinada aosespecia-
92 OS ANARQUISTAS J ULGAM MARX
listas, pois seu custo era excessivo para um trabalhador. Assim,
Proudhon éconhecido na Alemanha de uma maneira tão limi-
tada que pouquíssimos terão notado aprofunda diferença exis-
tente entre os primeiros julgamentos que Marx fez de Prou-
dhon e aqueles que ele fará mais tarde.
Entretanto, esse livro demonstra claramente o processo
evolutivo do socialismo emMarx e aforte influência que Prou-
dhon exerceu sobre ele. Tudo aquilo que os marxistas atribuí-
ram em seguida a seu mestre, Marx o reconhecia, em A Sa-
grada Família, como sendo os méritos de Proudhon.
Vejamos o que ele diz sobre isso:
Todos os desenvolvimentos da economia política
supõem a propriedade privada. Esta hipótese de base é
considerada pela economia política como um fato iria-
tacável; ela não a submete a nenhum exame e até mes-
mo, para retomar a declaração ingênua de SayIO, fala
dela apenas acidentalmente. E eis que Proudhon sub-
mete a propriedade privada, base da economia política,
aum exame crítico, ao primeiro exame, tanto categórico
e impiedoso quanto científico. Aí está o grande pro-
gresso científico que ele realizou, um progresso que re-
voluciona a economia política e torna possível pela pri-
meira vez uma verdadeira ciência da economia política.
A obra de Proudhon Qu'est-ce que Ia propriété? é tão
importante para a economia política moderna quanto a
obra de Sieyês, Qu'est-ce que le Tiets-Etast , para a polí-
tica moderna.
É interessante comparar estas palavras de Marx com aque-
las escritas posteriormente emrelação ao grande teórico anar-
quista. EmA Sagrada Família ele diz que Qu'est-ce que la pro-
priété? foi a primeira análise científica da propriedade privada
e que ela deu a possibilidade de fazer da economia nacional
MARX E O ANARQUISMO 93
uma verdadeira ciência; mas em sua necrologia publicada no
Sozialdemokrat, o mesmo Marx assegura que em uma história
rigorosamente científica da economia, essa obra apenas me-
rece ser mencionada.
Qual é a causa de tal contradição? Eis uma questão que
osrepresentantes do socialismo dito científico ainda não escla-
receram. Na realidade, só há uma resposta: Marx queria escon-
der afonte na qual tinha bebido. Todos aqueles que estudaram
seriamente oproblema e que não se sentem levados pelo fana-
tismo partidário deverão reconhecer que esta explicação não é
um capricho.
Vejamos ainda oque Marx constata quanto àimportância
histórica de Proudhon. Na página 52 do mesmo livro, lemos:
Proudhon não escreve somente em favor dos pro-
letários, ele próprio é um proletário, um operário; sua
obra é um manifesto científico do proletariado francês.
Aqui, como se vê, Marx exprime em termos precisos que
Proudhon éum teórico do socialismo proletário e que sua obra
constitui um manifesto científico do proletariado francês. Ao
contrário, no Manifesto Comunista, ele afirma que Proudhon
encarna osocialismo pequeno-burguês e conservador. Pode-se
encontrar maior contradição? Emquem devemos crer, no Marx
de A Sagrada Família ou no autor do Manifesto? E de onde
provém esta divergência? É uma pergunta que fazemos de novo,
e, evidentemente, a resposta é sempre a mesma; Marx queria
dissimular ao mundo tudo o que ele devia aProudhon e, para
ele, todos os meios eram bons. Não pode haver outra explica-
ção para esse fenômeno; os meios que Marx empregou mais
tarde em sua luta contra Bakunin provam que ele não era
muito delicado quanto à escolha desses meios!'.
94 OS ANARQUISTAS J ULGAM MARX
III
Os escritos políticos de Marx, naquele período, demons-
tram que ele tinha sido influenciado até mesmo pelas idéias
anarquistas de Proudhon; por exemplo, o artigo que ele pu-
blicou no Vorwerts de Paris.
O Vorwerts era umjornal que circulava na capital francesa
por volta dos anos 1844-1845, sob adireção de Heinrich Berns-
tein. No início, era somente de tendência liberal. Mais tarde,
após o desaparecimento dos Anais Franco-Alemães, Bernstein
relacionou-se com os antigos colaboradores dessa última publi-
cação, conquistada à causa socialista. O Vorwerts converteu-
se, então, em órgão oficial do socialismo, e inúmeros colabo-
radores da revista de Arnold Ruge, tais como Bakunin, Marx,
Engels, Heinrich Heine, Georg Herwegh etc., dele partici-
param. No número 63 desse jornal (7 de agosto de 1844),
Marx publicou um texto polêmico, "Notas Críticas emRelação
ao Artigo: O Rei da Prússia e a Reforma Social". Nesse artigo
ele estuda a natureza do Estado e demonstra a incapacidade
absoluta desse organismo para diminuir a miséria social e su-
primir o pauperismo. As idéias que o autor desenvolve nesse
artigo são idéias puramente anarquistas, e estão em perfeita
concordância com os conceitos que Proudhon, Bakunin e
outros teóricos do anarquismo estabeleceram quanto a esse
assunto. Os leitores poderão julgar apartir do texto seguinte,
extraído do estudo de Marx:
Nenhum governo no mundo tomou, imediata-
mente esemacordo comasautoridades, medidas contra
o pauperismo. O parlamento inglês até mesmo enviou
comissários emtodos ospaíses da Europa afimde tomar
conhecimento dos diferentes remédios administrativos
contra opauperismo. Mas da mesma forma que osEsta-
MARX E O ANARQUISMO 95
dos estão ocupados comopauperismo, eles permanece-
ram nas medidas de administração e de benfeitoria ou
abaixo disto.
Pode oEstado comportar-se de outra forma?
O Estado jamais descobrirá no Estado e na orga-
nização da sociedade arazão dos males sociais. Láonde
há partidos políticos, cada um encontra arazão de cada
mal no fato de seu adversário ocupar seu lugar na dire-
ção do Estado. Mesmo ospolíticos radicais e revolucio-
nários encontram a razão não na essência (Wesen) do
Estado, mas emuma forma determinada de Estado que
querem substituir por um outro.
Do ponto de vista político, o Estado e a organi-
zação da sociedade não são duas coisas distintas. O
Estado éaorganização dasociedade. Na medida emque
oEstado reconhece asanomalias sociais, ele procura sua
razão, quer nas leisnaturais que nenhuma potência hu-
mana pode dobrar, quer na via privada que é indepen-
dente do Estado, quer emuma inadaptação da adminis-
tração que depende do Estado. É assimque aInglaterra
acredita que amiséria tem sua razão de ser na lei natu-
ral, segundo aqual apopulação deve sempre ultrapassar
os meios de subsistência. Por outro lado, ela explica o
pauperismo pela má vontade dos pobres, assimcomo o
rei da Prússia oexplica pelo sentimento não-cristão dos
ricos, e a Convenção pela mentalidade contra-revolu-
cionária dos proprietários. É por isto que a Inglaterra
pune ospobres, orei daPrússia exorta osricos, e aCon-
venção guilhotina os proprietários.
Enfim, todos os Estados procuram nas deficiências
acidentais ou intencionais da administração, a causa, e
em seguida, nas medidas administrativas, o remédio
para todos osseus males. Por quê? Precisamente porque
a administração é a atividade organizadora do Estado.
96 OS ANARQUISTAS J ULGAM MARX
oEstado não pode suprimir a contradição entre a
destinação e a boa vontade da administração por um
lado, seus meios e suas possibilidades por outro, sem se
auto-suprimir, visto que ele repousa sobre esta contradi-
ção. Repousa sobre a contradição entre avida pública e
a vida privada, sobre a contradição entre o interesse
geral e os interesses particulares. A administração deve
pois se limitar a uma atitude formal e negativa; pois lá
onde a vida civil e seu trabalho começam, cessa o poder
da administração. Mais ainda, emrelação àsconseqüên-
cias que decorrem da natureza não social desta vida
civil, desta propriedade privada, deste comércio, desta
indústria, desta pilhagem recíproca das diferentes esfe-
ras civis, emrelação aestas conseqüências, éaimpotên-
cia que é a lei natural da administração. Esta divisão
levada ao extremo, esta baixeza, esta escravidão da so-
ciedade civil constituem o fundamento sobre o qual re-
pousa o Estado moderno, assim como a sociedade civil
da escravidão constituía o fundamento natural sobre o
qual repousava o Estado antigo. A existência do Estado
e a existência da escravidão antiga -- francas oposições
clássicas -- não estavam mais bem soldadas uma àoutra
do que oEstado moderno ao mundo moderno do tráfico
sórdido, hipócritas oposições cristãs.
I
I
Esta interpretação essencialmente anarquista da natureza
do Estado, que parece tão estranha quando se evocam as dou-
trinas posteriores de Marx, é uma prova evidente da origem
anarquista de sua primeira evolução socialista. O artigo men-
cionado reflete osconceitos da crítica do Estado feita por Prou-
dhon, crítica que encontrou sua primeira expressão emQu'est-
ce que la propriété? Essa obra imortal exerceu ainfluência mais
decisiva na evolução do comunismo alemão, apesar de ele ter
se esforçado por todos os seus meios -- e eles não foram dos
mais nobres -- para negar as primeiras fases de sua evolução
r - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - _
MARX E O ANARQUISMO 97
de socialista. Naturalmente osmarxistas apoiaram seu mestre
quanto a isso e, assim, pouco a pouco, desenvolveu-se uma
falsa interpretação histórica quanto ao caráter das primeiras
relações entre Marx e Proudhon.
Na Alemanha, principalmente, visto que este último era
praticamente desconhecido, asmais estranhas afirmações pu-
deram circular. Mas, quanto mais seconhecem asobras impor-
tantes da velha literatura socialista, mais se constata tudo o
que osocialismo dito científico deve aessesutopistas por muito
tempo esquecidos por causa dapropaganda gigantesca que fez
a escola marxista, assim como por outras razões que contri-
buíram a relegar à sombra a literatura socialista do primeiro
período. E umdos mestres mais importantes de Marx, aquele
que fundamentou asbases de toda sua evolução posterior, foi
precisamente Proudhon, oanarquista tão caluniado e tão mal
compreendido pelos socialistas legalistas.
IV
Em20 de julho de 1870 Karl Marx escreveu aFriedrich
Engels:
Os franceses precisam de uma surra. Se os prussia-
nos forem vitoriosos, a centralização dos poderes do
Estado será útil àcentralização da classe operária alemã.
A preponderância alemã, além do mais, transportará o
centro de gravidade do movimento europeu da França
para a Alemanha; e basta comparar o movimento nos
dois países, de 1866 até opresente, para ver que a classe
operária alemã é superior à francesa, tanto do ponto de
vista da teoria quanto da organização. A preponderân-
cia, no palco do mundo, do proletariado alemão sobre o
proletariado francês seria ao mesmo tempo a preponde-
rância de nossa teoria sobre a de Proudhon.
98 OS ANARQUISTAS J ULGAM MARX
Marx tinha razão: o triunfo da Alemanha sobre aFrança
traçou uma nova via na história do movimento operário eu-
ropeu.
O socialismo revolucionário e liberal dos países latinos foi
afastado, deixando ocampo livre aos teóricos estatistas e anti-
anarquistas do marxismo. A evolução deste socialismo vivo e
criador viu-se contrariado pelo novo dogmatismo de ferro que
dizia possuir um conhecimento total darealidade social, quan-
do, na verdade, nada mais era que um conjunto de fraseologia
e sofismas fatalistas, e o resultado foi a morte de todo verda-
deiro pensamento socialista.
Com as idéias, mudaram também os métodos de luta do
movimento socialista. Ao invés dos grupos revolucionários,
assegurando a propaganda e a organização das lutas econô-
micas - nas quais os internacionalistas tinham visto ogerme
da sociedade futura e os órgãos aptos àsocialização dos meios
de produção e de trocas -, começou aera dos partidos socia-
listas e da representação parlamentar do proletariado. Pouco a
pouco, esqueceu-se a velha educação socialista que conduzia
os operários àconquista da terra e das fábricas, colocando em
seu lugar a nova disciplina de partido que considera a con-
quista do poder político com seu ideal supremo.
Mikhail Bakunin, o grande adversário de Marx, julgou
com clarividência amudança de situação e, amargurado, pre-
disse que com o triunfo da Alemanha e a queda da Comuna
de Paris, começava um novo capítulo na história da Europa.
Fisicamente esgotado e já perto da morte, escreveu, em 11 de
novembro de 1874, estas importantes palavras a Ogarev:
o bismarckismo - que se torna militarismo, re-
gime policial e monopólio finan~eiro fundidos em um
sistema íntitulando-se Novo Estado - está quase triun-
fando em todos os lugares. Mas talvez em dez ou quinze
MARX E O ANARQUISMO 99
anos aevolução imprevista da espécie humana ilumine
novamente oscaminhos davitória.
Bakunin enganou-se nesta ocasião, semdesconfiar de que
seria preciso meio século, assim como uma terrível catástrofe
mundial, para que o bismarckismo fosse destruído.
v
Assim como o triunfo da Alemanha em 1871 e a queda
da Comuna de Paris foram os signos do desaparecimento da
velha Internacional, assim também agrande guerra de 1914 foi
oponto de partida da bancarrota do socialismo político.
E aqui se produz um elemento singular, verdadeiramente
grotesco, cuja explicação se dá por uma falta total de conhe-
cimento quanto àhistória do velho movimento socialista. Bol-
cheviques, independentes, comunistas etc., não se privaram de
acusar a velha social-democracia de traição vergonhosa dos
princípios do marxismo. Eles aacusam também de ter sufocado
o movimento socialista no pântano do parlamentarismo bur-
guês, de ter mal interpretado a atitude de Marx e de Engels
sobre o Estado etc ...
O diretor espiritual dos bolcheviques, Lenin, tentou fun-
damentar sua acusação sobre sólidas bases emsua célebre obra
O Estado e a Revolução que é, segundo alguns discípulos, a
verdadeira e pura interpretação do marxismo. Empregando
uma coleção de citações perfeitamente arranjadas, Lenin tenta
demonstrar que os fundadores do socialismo científico foram
sempre inimigos declarados da democracia e do lodaçal parla-
mentares, e que todas suas aspirações tendiam ao desapare-
cimento do Estado.
Não se deve esquecer que Lenin fez recentemente esta
descoberta quando seu partido, contra toda esperança, encon-
100 OS ANARQUISTAS J ULGAM MARX
trou-se em minoria após as eleições para a Assembléia Cons-
tituinte. Até então os bolcheviques tinham participado das
eleições, ao lado dos outros partidos, e prestavam bastante
atenção para não entrar em conflito com os princípios da de-
mocracia. Nas últimas eleições da Constituinte de 1918, nela
tomaram parte com um programa grandioso, mas ao ver que,
apesar de tudo, permaneciam minoritários, declararam aguerra
àdemocracia e provocaram adissolução da Assembléia Cons-
tituinte. Lenin publicou, então, O Estado e a Revolução como
justificativa pessoal.
VI
A tarefa de Lenin não era simples: por um lado, ele se via
obrigado afazer concessões àstendências antiestatais dos anar-
quistas, e por outro, a demonstrar que sua atitude não era de
forma alguma anarquista, mas sim, exclusivamente marxista.
A conseqüência inevitável de tudo isto é que sua obra está
cheia de erros e desafia toda lógica sensata. Um exemplo pro-
vará esta afirmação: Lenin, querendo ressaltar omáximo possí-
vel uma suposta tendência antiestatal de Marx, cita o célebre
parágrafo da Guerra Civil na França, onde Marx dá sua apro-
vação à Comuna por ter começado banindo o Estado parasi-
tário. Mas Lenin não se dá o trabalho de lembrar que Marx se
via obrigado por estas palavras, - que estão em contradição
aberta com toda sua atitude anterior - afazer uma concessão
aos partidários de Bakunin, com os quais ele mantinha então
uma luta muito aguçada.
Mesmo Franz Mehring - do qual não se pode suspeitar
de simpatizar comossocialistas majoritários - teve de reconhe-
cer esta contradição em seu último livro Karl Marx, onde diz:
"Apesar de todo o aspecto autêntico dos detalhes desta obra,
não há nenhuma dúvida de que o pensamento aqui expresso,
MARX E O ANARQUISMO 101
contradiz todas as opiniões que Marx e Engels proclamavam
desde o Manifesto Comunista, um quarto de século antes".
Bakunin estava certo ao dizer:
oefeito da Comuna foi tão formidável que os pró-
prios marxistas, cujas idéias tinham sido derrubadas por
esta insurreição, viram-se obrigados a baixar a cabeça
para ela. Fizeram mais ainda: ao contrário da mais sim-
ples lógica e de seus verdadeiros sentimentos, procla-
maram que seu programa e seu objetivo eram os da Co-
muna. Foi um travestimento realmente cômico, mas
forçado. Eles tiveram de fazê-lo sob pena de serem
ultrapassados e abandonados por todos, tão forte tinha
sido a paixão por esta revolução. (Carta ao jornal La
Liberté de Bruxelas, em 5 de outubro de 1872).
VII
Lenin esquece ainda algo que é de importância capital
para onosso assunto. Ei-lo: foram precisamente Marx eEngels
que tentaram obrigar as organizações da velha Internacional a
desenvolver uma ação parlamentar, fazendo-se assim os res-
ponsáveis diretos pelo atolamento coletivo do movimento ope-
rário socialista no parlamentarismo burguês. A Internacional
foi aprimeira tentativa para unir os trabalhadores organizados
de todos os países em uma grande União, cuja aspiração final
seria aliberação econômica dos trabalhadores. Diferenciando-
se as idéias e os métodos das diversas seções, tornava-se de
importância capital estabelecer pontos de contato para aobra
em comum e reconhecer a ampla autonomia e a autoridade
independente das mesmas. Enquanto assimocorreu, aInterna-
cional cresceu com força edesenvolveu-se em todos os países.
Mas tudo mudou por completo a partir do momento em que
102 OS ANARQUISTAS J ULGAM MARX
Marx eEngels obstinaram-se empressionar asdiferentes fede-
rações rumo àação parlamentar. Isto ocorreu pela primeira vez
na infeliz conferência de Londres, em 1871, onde eles tenta-
ramfazer aprovar uma resolução que terminava pelas seguintes
palavras:
(...) considerando que contra o poder coletivo das
classes proprietárias o proletariado só pode agir como
classe se se constituir em partido político distinto e
oposto atodos os antigos partidos formados pelas classes
proprietárias; que esta constituição do proletariado em
partido político é indispensável para assegurar o triunfo
da revolução social e de seu objetivo supremo, a aboli-
ção das classes; que a coalizão das forças operárias já
obtida pelas lutas econômicas deve também servir de
alavanca nas mãos desta classe em sua luta contra o
poder político de seus exploradores.
A conferência lembra aos membros da Internacio-
nal que, no estado militar da classe operária, seu movi-
mento econômico e sua ação política estão indissolu-
velmente ligados. (Resolução ns 9 da Conferência de
Londres, 17-23 de setembro de 1871).
Que uma única seção ou federação da Internacional ado-
tasse tal resolução era bempossível, pois somente seus adeptos
eram obrigados a aplicá-ia; mas que o Conselho Executivo a
impusesse a todos os membros da Internacional, e sobretudo
tratando-se de um tema que, não tendo sido apresentado no
Congresso Geral, constituía um procedimento arbitrário, em
contradição total comoespírito daInternacional, provocando
protestos enérgicos de todos os elementos individualistas e
revolucionários.
O Congresso vergonhoso de Haia, em 1872, concluiu a
obra empreendida por Marx e Engels a fimde transformar a
MARX E O ANARQUlSMO 103
Internacional em uma máquina de eleições, incluindo para
este fim uma cláusula que obrigava as diferentes seções a lu-
tarem pela conquista do poder político. Marx e Engels foram,
pois, responsáveis pela divisão da Internacional, com todas as
suas conseqüências funestas para o movimento operário, e
foram eles que, pela ação política, provocaram o atolamento e
a degenerescência do Socialismo.
VIII
Quando eclodiu a revolução da Espanha em 1873, os
membros da Internacional - quase todos anarquistas -
denunciaram aspetições dos partidos burgueses eseguiram seu
próprio caminho rumo àexpropriação da terra e dos meios de
produção, com um espírito socialmente revolucionário. Greves
gerais erevoltas eclodiram emAlcoy, San Lucar de Barrameda,
Cartagena e em outros lugares, sendo afogadas no sangue. A
cidade portuária de Cartagena resistiu mais tempo, permane-
cendo nas mãos dos revolucionários durante vários meses até
sua queda sob ofogo dos navios de guerra prussianos eingleses.
Foi então que Engels atacou severamente, no Volkstaat, os ba-
kuninianos espanhóis e os injuriou por não quererem se aliar
aos republicanos. Assim também, O mesmo Engels teria criti-
cado, se ainda fosse vivo, seus discípulos comunistas da Rússia
e da Alemanha!
Após O célebre congresso de 1891, quando os dirigentes
dosJunge foram excluídos do partido social-democrata, respon-
dendo às mesmas acusações que Lenin lançava aos oportu-
nistas e Kaustskystas, eles fundaram um partido com seu pró-
prio órgão: Der Sozialist, emBerlim. No início, esse movimento
foi extremamente dogmático e apresentou idéias quase idên-
ticas às do atual Partido Comunista. Se lermos por exemplo o
livro de Teistler O Parlamentarismo ea Classe Operária, encon-
104 OS ANARQUISTAS J ULGAM MARX
traremos conceitos idênticos aos de O Estado e a Revolução de
Lenin. Da mesma maneira que os bolcheviques russos e os
membros do Partido Comunista Alemão, os socialistas inde-
pendentes de então rejeitavam os princípios da democracia e
se recusavam aparticipar dos parlamentos burgueses sobre as
bases dos princípios reformistas do marxismo.
E o que falava Engels desses Junge que se compraziam,
assim como os comunistas, em acusar os dirigentes do partido
social-democrata de traição para com o marxismo? Em uma
carta a Sorge, em outubro de 1891, o velho Engels faz os se-
guintes comentários amáveis:
Os sujos berlinenses converteram-se em acusados
ao invés de continuarem aseconduzir como acusadores
e, tendo manipulado como pobres coitados, foram obri-
gados atrabalhar fora do partido sequisessem fazer algo.
É certo que há entre eles espiões da polícia e dos anar-
quistas, disfarçados, que desejam trabalhar secretamente
entre nós. Com eles há uma quantidade de asnos, de
estudantes enganados e de palhaços insolentes de toda
qualidade. No total, são aproximadamente duzentas
pessoas.
Estaríamos defato curiosos para saber com quais adjetivos
simpáticos Engels teria honrado nossos comunistas de hoje, que
pensam ser os guardiões dos princípios marxistas.
Não é possível caracterizar os métodos da velha social-
democracia. Sobre esse ponto, Lenin não diz sequer uma pa-
lavra, eseus amigos alemães menos ainda. Os socialistas majo-
ritários devem lembrar esse detalhe evocador para demonstrar
que são eles os verdadeiros representantes do marxismo; qual-
quer pessoa que conheça um pouco de história dar-lhes-á
razão. O marxismo é responsável pela orientação da classe
operária no sentido da ação parlamentar, e também traçou o
MARX E O ANARQUISMO 105
caminho da evolução ocorrida no Partido Social-Democrata
Alemão. Somente quando se tiver compreendido isto éque se
verá que a via da liberação social nos conduz para a terra feliz
do anarquismo, passando bem acima do marxismo.
Notas:
1 W. Tcherkesoff, Pages d'histoire socialiste, Les Précurseurs de l'Inter-
nationale.
2 Este artigo, intitulado Internacional manifesto della democrazia, foi publi-
cado inicialmente emAvanti (n
Q
1901, do ano de 1902).
3 Reinische Zeitung, n
Q
289, 16de outubro de 1842.
4 Trata-se de A Sagrada Família, escrita em 1843 e publicada em 1845.
Marx consagra umas sessenta páginas elogiosas a Proudhon, além de
defendê-Ia dos ataques de Edgard Bauer.
5 Marx, Miséria da Filosofia. Introdução.
6 Bray, Labour's wrougs and Labour's remedy.
7 Marx - Engels, Das Kommunistische Manifest, p. 2I.
8 Rheinische Zeitung, 7de janeiro de 1843.
9 Bruno Bauer, um dos participantes mais assíduos do clube berlinense
Os Livres, onde se podia encontrar as figuras mais representativas do
livre-pensamento alemão (primeira metade do século passado), assim
como Feuerbach, autor de A Essência do Cristianismo, obra profunda-
mente atéia, ou Max Stirner, autor de O Único e sua Propriedade. O
pensamento autoritário deKarl Marx devia forçosamente sechocar com
as idéias livres de Bruno Bauer, cuja obra Kritik mit Kirche und Siaai
(Crítica da Igreja edo Estado) foi totalmente apreendida pelos domini-
canos equeimada (primeira edição de 1843). A Segunda edição (Berna,
1844) teve melhor destino, contrariamente a seu autor que foi conde-
nado eencarcerado por suas idéias.
106 OS ANARQUISTAS J ULGAM MARX
\O ].-B. Say, economista francês daquela época, cujas obras completas
foram traduzidas para o alemão por Max Stirner. A fobia de Marx pelo
pensamento anarquista francês ou pelo livre-pensamento alemão (uma
parte de seu livro póstumo A Ideologia Alemã era destinado aminimizar
aimportância de O Único esua Propriedade de Stirner), voltava-se tam-
bém contra o sociólogo Say, muito comentado naquela época por todos
aqueles que criticavam atirania do Estado eque tentavam livrar-se dela.
11 A ruptura de Marx com Proudhon repousa também sobre um fato
sórdido. EmParis, 1845-1846, Marx lutava contra ainfluência de Karl
Grün sobre os alemães emigrados. Todos os meios eram bons e Marx
escreveu a Proudhon apara colocá-lo em alerta contra este indivíduo
"suspeito". Ao mesmo tempo, propunha aProudhon ser seu correspon-
dente na França; tentava recrutá-lo, Proudhon respondeu por uma longa
carta de 17de maio de 1845. Ele afasta duramente as acusações contra
Grün e se recusa "após ter demolido todos os dogmatismos (...) que
adormecem o povo" (...) " não nos façamos os chefes de uma nova reli-
gião, conquanto fosse a religião da lógica, a religião da razão (...). Sob
esta condição entrarei com prazer na vossa associação, caso contrário,
... 1"
nao.
Concebe-se o efeito que pôde fazer esta carta sobre Marx ... A partir
deste momento, Proudhon estava condenado. Tornava-se "umarrivista
da ciência que se pavoneia do que não é e do que não tem, (...) um
pretensioso eumlisonjeador de si mesmo etc.!"
BAKUNIN
E O ESTADO MARXISTA
Gaston Leval
AS BASES TEÓRICAS GERAIS
As relações entre as idéias de Marx e Bakunin são, na
maioria das vezes, mal conhecidas, e isso é lamentável, pois o
que colocou esses dois homens em oposição durante os anos
1870-1876, reveste, atualmente, e para o próprio futuro da
humanidade, uma importância fundamental. Para uns, Baku-
nin foi, em bloco, o adversário encarniçado das teorias mar-
xistas, mas só vêem nele essa posição negativa e ignoram que
ela acompanhava-se de uma contrapartida positiva. Para os
outros, Bakunin aderia ao essencial da doutrina marxista, esó
uma questão de temperamento e meios táticos separava-o de
seu adversário. Lembremos que ele foi o primeiro tradutor, em
língua russa, do Manifesto Comunista eque, sob aintervenção
de Netchaief - que desprezava completamente o marxismo
- aceitou traduzir O Capital. Daí uma aparente concordância
para quem quer, a qualquer custo, encontrá-Ia.
A verdade é muito mais complexa, e pretender resumir
tudo em alguns parágrafos, ou em alguns exemplos citados,
semsedeter ao tema para evitar umexame aprofundado, equi-
vale afalsear tudo. Isso porque, nos pensadores-combatentes,
obrigados amodificar suas conclusões diante dos fatos sucessi-
vos e amiúde contraditórios, a interpretação de certas idéias
pode variar, porque aexperiência prática ou apolêmica fazem
108 OS ANARQUISTAS J ULGAM MARX
aparecer novos elementos que obrigam amodificar concepções
anteriores. Não é assim em todas as pesquisas erealizações da
ciência, em todas as atividades humanas?
Após ter estudado profundamente afilosofia alemã, com
o intuito de tornar-se professor de filosofia, Ie ter-se impreg-
nado de Kant, Schelling, Hegel, Feuerbach e outros filósofos
alemães, Bakunin entrou em contato com o pensamento ma-
terialista francês. Apaixonado pelo conhecimento, torna-se e
permanece partidário entusiasta da ciência experimental da
qual ele sempre recomendará o método, e sua aplicação à so-
ciologia. O positivismo de Comte parece-lhe justo emsua me-
todologia geral de estudo epesquisa. Reagindo contra as con-
cepções metafísicas dos pretensos "idealistas" que são, segundo
ele, os mais rasteiros materialistas, aplaude o materialismo
filosófico, que resulta na concepção amais idealista de fato, a
mais elevada moralmente da vida.
Desde 1844, ocupa-se com os problemas econômicos.
Depois de ter conhecido Weitling na Suíça, conhecerá Prou-
dhon e Marx em Paris; estudará [ean-Baptiste Say, Turgot,
Bastiat e também todos os teóricos de tendência comunista
autoritária. Descobre o socialismo, do qual foi, na Alemanha,
o primeiro porta-bandeira, e do qual será o fundador, como
movimento constituído, na Itália e na Espanha.
Tudo isso o leva ao estudo sistematicamente materialista
de Marx, do qual ele reconhece, em vários momentos, o valor
científico, preferindo seu método realista àfilosofia demasiado
abstrata de Proudhon.
Não nos surpreende, portanto, que ele tenha traduzido,
em Londres, em 1862, o Manifesto Comunista. Todavia, ele é
demasiado inteligente, tem uma visão demasiado universal e
amplamente humana davida para deixar-se subjugar, por muito
tempo, pela explicação dialética aplicada ao estudo dos fatos
econômicos - o que é, emdefinitivo, um modo de falsear esses
BAKUNIN E O ESTADO MARXISTA 109
fatos. J á durante a tradução - porque precisa de dinheiro, e
não por outro motivo - da primeira parte de O Capital, ele
escreve a Herzen (carta de 4 de janeiro de 1870):
E, quanto a mim, sabias, meu velho, que trabalho
na tradução da metafísica econômica de Marx, pela qual
já recebi um adiantamento de 300 rublos, e ainda terei
600 a receber! Leio Proudhon e a Filosofia positiva de
Comte, e em meus raros momentos livres, escrevo meu
livro sobre a supressão do Estado.
Como vemos, ele estava longe da adesão total ao mar-
xismo, ao socialismo dito "científico", e ao espírito marxista.
Mais tarde, à medida que a polêmica se desenvolverá,
Bakunin acumulará as objeções. Ele prestará, naquela oportu-
nidade, homenagem ao Capital, mas essa homenagem não será
cega:
oSr. Karl Marx é um abismo de ciência estatística
e econômica. Sua obra sobre o capital, conquanto seja,
infelizmente, carregada de fórmulas e sutilezas metafí-
sicas, que a tornam inabordável para a grande maioria
dos leitores, é, no mais alto nível, uma obra positiva, ou
realista, no sentido em que não admite, em absoluto,
outra lógica senão a lógica dos fatos. (Leme à un Fran-
çais, p. 63).
Todavia, quanto ao fato econômico, Bakunin, que, para
simplificar os argumentos, repete, àsvezes, o esquema marxista
- do qual o essencial remonta a Proudhon - da concen-
tração do capital, da crescente pauperização do proletariado,
da proletarização da burguesia etc., retifica, mesmo sem po-
lêmica, as fórmulas passe-partout. A vida será sempre superior
à ciência, diz ele em algum momento, e observa em demasia,
capta atentamente avida para não ver que aciência marxista
110 OS ANARQUISTAS J ULGAM MARX
não prevê toda uma série de fatos que se produzem sob seus
olhos (por exemplo, o aburguesamento de certas camadas pro-
letárias, que contradiz a pauperização do proletariado; a defi-
nição heterodoxa da burguesia que para ele também é com-
posta dos proprietários edos patrões; ofato de aclasse intelec-
tual viver melhor do que os trabalhadores manuais; a classe
dos burocratas privilegiados do Estado que exploram as massas
à sua maneira). No fundo, ele é mais científico, por observar
mais livremente do que seu adversário.
Assim, surgem as diferenças. Igualmente as oposições.
No prefácio da Crítica da Economia Política, Marx resumia
seu pensamento doutrinal por essa fórmula-síntese: "O modo
de produção da vida material determina de uma maneira geral
o processo social, político e intelectual da vida. Não é a cons-
ciência do homem que determina seu modo social de existên-
cia, mas seu modo social de existência que determina sua cons-
ciência". E ele achava bom que assim fosse.
Depois, Engels, no Anti-Dürhing, afirma que "a organi-
zação econômica da sociedade constitui sempre abase real que
explica, em última instância, toda a superestrutura das insti-
tuições jurídicas e políticas, bem como as idéias religiosas,
filosóficas eoutras de cada período histórico".
Mas emseu escrito Sofismas históricos da Escola doutrinária
dos comunistas alemães, Bakunin logo superará essa interpre-
tação estreita da história:
Três elementos, ou, se preferirem, três princípios
fundamentais constituem as condições essenciais de
todo desenvolvimento humano, tanto individual quanto
coletivo, na história: 1Q a animalidade humana; 2
Q
open-
samento; 3º a revolta. À primeira corresponde precisa-
mente a economia social e privada; à segunda, a ciência; à
terceira, a liberdade."
BAKUNIN E O ESTADO MARXISTA 111
Desenvolvendo alhures essas afirmações fundamentais,
analisando ainfluência de todos os fatores que fazem ahistória,
ele alargará o horizonte bem mais ainda.
Uma boa parte de sua crítica do marxismo, como doutrina
eciência social, encontra-se emsua Leme au journal La Liberté.
O fragmento que apresentamos logo em seguida aponta ao
mesmo tempo o problema dos fatores determinantes da his-
tória e do papel desempenhado pelo Estado em relação ao
problema econômico e das classes sociais. Bakunin ali discute
os objetivos da Internacional, por ele embasados essencial-
mente na solidariedade econômica de todos os trabalhadores
de todos os países, e na completa liberdade das seções nacio-
nais para escolher livremente seus meios de ação. Combatendo
o desvio político-nacionalista que Marx e os seus acabam de
imprimir nessa organização, ele escreve:
Mas Marx não quer evidentemente essa solidarie-
dade porquanto se recusa a reconhecer essa liberdade.
Para dar sustentação a essa recusa, ele tem uma teoria
muito especial que, por sinal, é apenas uma conseqüên-
cia lógica de todo o seu sistema. O estado político de
cada país, diz Marx, ésempre o produto eaexpressão fiel
da situação econômica; para mudar o primeiro, basta
transformar esta última. Todo o segredo das evoluções
históricas, segundo o Sr. Marx, encontra-se aí. Ele não
leva absolutamente em conta os outros elementos da
história tais como a reação, no entanto evidente, das
instituições políticas, jurídicas e religiosas sobre a situa-
ção econômica. Ele diz: ''A miséria produz a escravidão
política, o Estado"; mas não permite inverter esta frase
edizer: ''A escravidão política, o Estado, produz, por sua
vez, e mantém a miséria como uma condição de sua
existência; de modo que, para destruir a miséria, é pre-
ciso destruir o Estado". E, coisa estranha, ele, que proíbe
112 OS ANARQU[STAS J ULGAM MARX
seus adversários de responsabilizarem a escravidão polí-
tica, o Estado, como uma causa atuaF da miséria, pres-
creve a seus amigos e a seus discípulos da democracia
socialista na Alemanha para considerarem a conquista
do poder e das liberdades políticas como a condição
prévia, absolutamente necessária, para a emancipação
econômica.
I
Do Estado, causa de miséria de uma parte da população
emproveito de uma outra, do Estado criador de classes, aRús-
sia nos dá uma demonstração definitiva. As afirmações de
Bakunin são verifícadas por toda a história da humanidade
quando se quer estudá-Ia seriamente. Bakunin, que não se
considerava um "abismo de ciência", sabia-o muito bem, epre-
via o futuro segundo as lições do passado. Em seguida, conti-
nuava a desenvolver suas objeções teóricas, e dava ao mate-
rialismo filosófico seu real valor, que tanto contrasta, por sua
amplidão, com a concepção econômica estreita de seu adver-
sário:
oSr. Marx desconhece completamente um outro
elemento muito importante no desenvolvimento his-
tórico da humanidade: é o temperamento e o caráter
particular de cada raça ede cada povo, temperamento e
caráter que são naturalmente eles próprios os produtos
de uma multidão de causas etnográficas, climatológicas
e econômicas, tanto quanto históricas, mas que, uma
vez dadas, exercem, mesmo fora e independentemente
das condições econômicas de cada país, uma influência
considerável sobre seus destinos, e inclusive sobre o de-
senvolvimento de suas forças econômicas.
Entre esses elementos e esses traços, por assim
dizer, naturais, há um cuja ação é completamente deci-
siva na história particular de cada povo: a intensidade
do instinto de revolta, e, em conseqüência, de liberdade,
BAKUNIN E O ESTADO MARXISTA 113
do qual é dotado, e que conservou. Esse instinto é um
fato inteiramente primordial, animal: encontramo-lo
em diferentes graus em cada ser vivo, e a energia, a po-
tência vital de cada um mede-se à sua intensidade. No
homem, ao lado das necessidades econômicas que o im-
pulsionam, ele toma-se o agente mais poderoso de todas
as emancipações humanas. E como éum caso de tempe-
ramento, não de cultura intelectual emoral, conquanto
ele solicite comumente uma e outra, ocorrem algumas
vezes que povos civilizados só o possuam a um fraco
grau, seja porque ele se tenha esgotado em seus desen-
volvimentos anteriores, seja porque a própria natureza
de sua civilização os tenha depravado, seja enfim por-
que, desde o início de sua história, eles tivessem sido
menos capazes do que os outros. (Oeuvres, p. 378).
As considerações que ele desenvolveu no ImPério cnuto-
germânico, sobre apsicologia eahistória daAlemanha edo povo
alemão, sustenta esse pensamento último. De todo modo, é
indiscutível que um povo, por natureza disciplinado ou resig-
nado, será sempre mais suscetível de sofrer aestatização do que
umpovo pouco inclinado àdisciplina passiva. Semdúvida, não
é um acaso que o marxismo estatal tenha triunfado de início
na Alemanha, de onde irradiou sobre os outros países; também
não é um acaso que o totalitarismo absoluto tenha podido
impor-se tão habilmente na Rússia; nem que o anarquismo
tenha tão intensamente se desenvolvido na Espanha. Só as
razões econômicas não explicam tudo, eaestrutura jurídica do
Estado, as relações entre o cidadão eo governo na Inglaterra e
na Rússia, nos Estados Unidos eno J apão, são igualmente deter-
minados por esses fatores psicológicos, quaisquer que sejam as
causas longínquas, ou os agentes modificadores.
Falta-me espaço para expor tudo o que seria preciso dizer
sobre as diferenças fundamentais entre o pensamento teórico
114 OS ANARQUISTAS J ULGAM MARX
bakuniniano e o pensamento teórico marxista. Espero, con-
tudo, ter dado elementos que nos ajudarão a compreender as
diferenças de apreciação teórica eprática quanto ao problema
do Estado.
NATUREZA DO ESTADO
Bakunin é inimigo do Estado. Marx também, em teoria,
ao menos. Todavia, Marx considera que o Estado proletário, ou
socialista, pode agir aserviço do povo, enquanto seu adversário
não diferencia oEstado, dito proletário, do Estado monárquico
ou republicano. Para ele, essencialmente, o Estado não pode
ter outro objetivo ou dar outros resultados senão a opressão e
aexploração das massas populares, seja defendendo os proprie-
tários, os patrões, os capitalistas, seja se tornando ele próprio
proprietário, patrão, capitalista.
Mesmo quando ele serve os privilegiados, a grande razão
de sua existência é antes de tudo ele mesmo, sua vontade de
durar, de estender seu poder político e econômico, o segundo
dependendo do primeiro, em detrimento, se necessário, da-
queles que ele "protege".
J áencontramos esse pensamento subjacente na magnífica
carta publicada em La Réforme, o jornal de Ledru-Rollin, em
27 de janeiro de 1847. Nela Bakunin comentava o ucasse do
czar que odespojava, assimcomo Golovin, outro russo, de seus
bens, títulos e nacionalidade, e ordenava sua prisão e depor-
tação perpétua à Sibéria se conseguissem prendê-lo.
Encontramos também ademonstração desse pensamento
emsuas inúmeras análises da história da Rússia, da Alemanha,
da França, da Itália, apropósito de Luís XI, Luís XlV, Napoleão
IlI, Lutero, Bismarck, da unidade italiana ou do despotismo
czarista. EmEstatismo e Anarquia, do qual nós nos ocuparemos
mais adiante, ele faz essa síntese do Estado russo:
BAKUNIN E O ESTADO MARXISTA 115
oEstado russo é, poder-se-ia dizer, antes de tudo
umEstado militar. Tudo ésubordinado aeleno interesse
único de um Estado opressor: o soberano, o Estado; eis
o principal, todo o resto ~ ó povo, mesmo os interesses
das castas, a prosperidade da indústria, do comércio, e
do que estamos habituados a chamar civilização - são
apenas meios para alcançar esse objetivo. Semumcerto
grau de civilização, sem indústria e sem comércio, ne-
nhum Estado, sobretudo um Estado moderno, pode
existir, porque a riqueza dita nacional está longe de ser
adaNação, enquanto ariqueza das classes privilegiadas
é uma força. Na Rússia, a riqueza nacional é de todo
absolvida pelo Estado, que, por sua vez, se transforma
num pai, que sustenta uma imensa classe estatista com-
posta de militares, civis e eclesiásticos. O roubo gene-
ralizado eoficialmente organizado, adilapidação do di-
nheiro público eaespoliação do povo, esta éaexpressão
mais verdadeira da civilização estatista da Rússia. (Ed.
argentina, pp. 186-187).
Sem negar que, nos países capitalistas, o Estado é um
fator de sustentação da classe economicamente dominante, e
ao dizê-lo, inclusive bem amiúde, Bakunin não vê apenas esse
aspecto da realidade histórica'. O único exemplo russo faz
surgir uma realidade muito mais profunda e mais complexa,
geral também, que sempre seproduziu eque, sob formas diver-
sas, pode sempre sereproduzir. Longe de ser apenas aexpressão
política das classes dominantes (tese marxista), o Estado é,
portanto, por ele mesmo, constitui sua própria classe domi-
nante; ele tem a sua moral, sua razão de ser, sua política por
causa de sua própria natureza. Tomemos ao acaso, das inú-
meras páginas escritas concernentes a essas questões por Ba-
kunin, aque sesegue, extraída de sua obra Os Ursos deBerna e
o Urso de São Petersburgo (T. II das Oeuvres, pp. 61-62):
116 OS ANARQUISTAS J ULGAM MARX
A moral, como sesabe, exerce apenas uma influên-
cia demasiado fraca sobre apolítica interior dos Estados;
não exerce nenhuma sobre sua política exterior. A lei
suprema do Estado é a própria conservação do Estado,
- e como todos os Estados, desde que existem sobre a
terra, estão condenados a uma luta perpétua: luta con-
tra suas próprias populações que eles oprimem e arruí-
nam, luta contra todos osEstados estrangeiros, dos quais
cada um só é poderoso sob a condição de que o outro
seja fraco; e como eles não podem conservar-se nessa
luta senão aumentando a cada dia asua força, tanto no
interior, contra seus próprios súditos, quanto no exterior,
contra as potências vizinhas - disso resulta que a lei
suprema do Estado é o aumento de sua força em detri-
mento da liberdade interior e da justiça exterior.
Tal é, em sua franca realidade, a única moral, o
único fim do Estado. Ele só adora o próprio Deus na
medida emque ele éseu Deus exclusivo, asanção de sua
força e do que denomina seu direito, quer dizer, seu di-
reito de existir, ede ampliar-se sempre emdetrimento de
todos os outros Estados. Tudo o que serve a esse fim é
meritório, legítimo, virtuoso. Tudo o que o prejudica é
criminoso. A moral do Estado é, então, a inversão da
justiça humana, da moral humana.
Essa moral transcendente, extra-humana e, por isso
mesmo, anti-humana dos Estados, não é o fruto apenas
da corrupção dos homens que desempenham suas fun-
ções. Poder-se-ia dizer, de preferência, que a corrupção
desses homens é a conseqüência natural, necessária da
instituição dos Estados. Essa moral nada mais é que o
desenvolvimento do princípio fundamental do Estado, a
expressão inevitável de uma necessidade inerente ao
Estado. O Estado não é outra coisa senão a negação da
humanidade; éuma coletividade restrita que quer tomar
BA KUNIN E O ESTADO MARXISTA 117
O seu lugar e quer impor-se a ela como um fim supremo
ao qual tudo deve servir, tudo deve submeter-se.
ESTADO E SOCIALISMO
Essa oposição absoluta ao Estado, qualquer que seja, ex-
plica por que Bakunin opõe-se ao comunismo. Foi, com efeito,
após asua morte, particularmente sob ainfluência dos interna-
cionalistas bakuninianos italianos, Caffiero, Malatesta, Andrea
Costa, Gambuzzi, Covelli e outros," que o comunismo anar-
quista foi formulado. Até então, o comunismo aparecera sob o
aspecto autoritário e estatal concebido por Platão, Campa-
nella, Thomas Morus e outros precursores longínquos, depois
por Babeuf, Buonarroti, Louis Blanc, Pierre Leroux, Etienne
Cabet, os blanquistas - se é que se os pode ordená-los entre
os comunistas - Weitling eseus amigos, eenfim Marx, Engels
e seus discípulos. Proudhon opôs-lhe o mutualismo. Bakunin
opunha-lhe o que ele chamava de coletivismo, eno Congresso
da Internacional, celebrado emBerna, de 21 a 25 de setembro
de 1868, ele declarava:
Que diferença, perguntaram-me, fazeis entre o
comunismo e o coletivismo? Estou realmente surpreso
que o Sr. Chaudey não compreenda essa diferença, ele,
o executor testamenteiro de Proudhon. Detesto o co-
munismo porque ele é a negação da liberdade, e porque
nada posso conceber de humano semliberdade. Não sou
absolutamente comunista porque o comunismo concen-
tra efaz absorver todas as forças da sociedade no Estado,
porque ele desemboca necessariamente na concentra-
ção da propriedade nas mãos do Estado, enquanto eu
quero a abolição do Estado, a extirpação radical desse
princípio da autoridade e da tutela do Estado que, sob o
118 OS ANARQUISTAS J ULGAM MARX
pretexto de moralizar e de civilizar os homens, até este
momento os subjugou, oprimiu, explorou e depravou.
Eu quero a organização da sociedade e da propriedade
coletiva ou social de baixo para cima, pela via da livre
associação, e não de cima para baixo, por meio de qual-
quer autoridade que seja. Querendo a abolição do Es-
tado, quero a abolição da propriedade individualmente
hereditária, que é uma instituição do Estado, uma con-
seqüência do princípio do Estado. Eis em que sentido
sou coletivista, ede forma alguma comunista". (Citado por
J ames Guillaume, rlnternationale, Documents et Souoe-
nirs, t. I, pp. 74-75).
A posição é clara. Ela é fundamental, antimarxista não
apenas na recusa do comunismo autoritário, eda utilização do
Estado como meio de emancipação popular, mas ainda na in-
terpretação sociológica da história. Ver na propriedade "indivi-
dualmente hereditária" uma criação do Estado é a inversão
absoluta do esquema do economismo histórico marxista, cujas
conseqüências teóricas etáticas são enormes. E isso prova, de
passagem, que o que separava Bakunin de Marx não era tam-
bém uma simples questão de tática.
Essa posição intransigente econseqüente contra o socia-
lismo ou o comunismo de Estado é afirmada com uma força
crescente à medida que Marx e seus amigos enunciam seus
meios de realização. Porquanto "a lei suprema do Estado é a
conservação do Estado", o transitório, nessa ordem de coisas,
tenderá inevitavelmente atornar-se definitivo, eBakunin não
denuncia apenas o erro tático, mas igualmente o futuro totali-
tário e esclerosado que deve ser evitado:
A igualdade sem a liberdade é uma ficção insana
criada pelos bandalhos para enganar os parvos. A igual-
dade sem a liberdade é o despotismo do Estado, e o Es-
BAKUNIN E O ESTADO MARXISTA 119
tado despótico não poderia existir um único dia sem ter
ao menos uma classe exploradora e privilegiada: aburo-
cracia, força hereditária, como na Rússia e na China, ou
de fato como na Alemanha e entre nós. Nosso grande e
verdadeiro mestre de todos, Proudhon, disse emseu belo
livro De Ia [ustice dans l'Église et dans Ia Révolution, que a
desastrosa combinação que poderia formar-se seria
aquela que reuniria o socialismo com o absolutismo, as
tendências do povo rumo à emancipação econômica, e
o bem-estar material com a ditadura e a concentração
de todos os poderes políticos e sociais no Estado.
Que o futuro preserve-nos dos favores do despo-
tismo; mas que ele também nos salve das conseqüências
desastrosas e embrutecedoras do socialismo autoritário,
doutrinário ou de Estado. Sejamos socialistas' mas nunca
nos tornemos povos-rebanhos. Não busquemos a jus-
tiça, toda ajustiça política, econômica e social senão na
via da liberdade. Nada deve existir de vivo e humano
fora da liberdade, eumsocialismo que arejeitasse de seu
seio ou que não aaceitasse como único princípio criador
e como base, levaria-nos direto à escravidão e à bestia-
lidade.
Essefragmento de carta, reproduzido por Max Nettlau em
Ufe af Bakaunine (t. I , p. 249), foi sem dúvida escrito aum dos
internacionalistas de Madri ou Barcelona que, sob aimpulsão
de Bakunin, criaram aseção espanhola da Internacional, seção
que ocongresso de Saint-Imier recomendava como modelo de
organização para o rápido desenvolvimento de suas federações
nacionais de ofícios. É, em todo o caso, a um outro interna-
cionalista espanhol, Anselmo Lorenzo, grande ebela figura do
anarquismo, que ele escrevia:
Inimigo convicto do Estado e de todas as institui-
ções de Estado, tanto econômicas quanto políticas, jurí-
120 OS ANARQUISTAS J ULGAM MARX
dicas e religiosas do Estado, inimigo em geral de tudo o
que, na linguagem da gente doutrinária, denomina-se
tutela benfazeja exercida sob qualquer forma que seja
pelas minorias inteligentes enaturalmente desinteressadas
sobre as massas, convictos de que aemancipação econô-
mica do proletariado, a grande liberdade, a liberdade
real dos indivíduos e das massas e a organização uni-
versal da igualdade e da justiça humana, convictos de
que a humanização do rebanho humano, em resumo, é
incompatível com aexistência do Estado ou de qualquer
outra forma de organização autoritária que seja, eu ins-
tiguei, desde o ano de 1868, época de meu ingresso na
Internacional, em Genebra, uma cruzada contra o pró-
prio princípio da autoridade, e comecei a pregar publi-
camente a abolição dos Estados, a abolição de todos os
governos, de tudo o que chamamos dominação, tutela
ou poder, inclusive, sem dúvida, a pretensa ditadura
revolucionária eprovisória que os jacobinos da Interna-
cional, discípulos ou não de Marx" recomendam-nos
como um meio de transição absolutamente necessário,
segundo eles, para consolidar e organizar a vitória do
proletariado. Eu sempre pensei, e penso mais do que
nunca hoje, que essa ditadura, ressurreição mascarada
do Estado, nunca poderá produzir outro efeito além de
paralisar ematar aprópria vitalidade eaforça populares.
A luta é iniciada e desenvolve-se entre as federações do
J ura, aitaliana e a espanhola - as únicas de fato organizadas
da Internacional -, as correntes federalistas da brilhante
seção belga, aquelas, mais restritas, das seções francesa -
todas clandestinas diante das perseguições e dos processos
impostos pela polícia epela justiça de Napoleão III - emar-
xistas autoritárias, clandestinas ou mal-organizadas da Ingla-
terra edaAlemanha. Luta que opõe as concepções teóricas aos
métodos de ação, o federalismo ao centralismo, aorganização
BAKUNIN E O ESTADO MARXISTA 121
livre de baixo para cima ao estatismo, aliberdade de iniciativa
local, regional, nacional, internacional ao poder ditatorial do
Conselho federal da Internacional sediado em Londres, e no
qual Marx está entronizado, apoiado sem reservas por seus
compatriotas e correligionários israelitas. E Bakunin nunca
perde a oportunidade de precisar as diferenças de princípios e
táticas e suas conseqüências longínquas eimediatas.
OS DOIS MÉTODOS
Sou partidário convicto daigualdade econômica e
social, porque sei que foradessa igualdade, aliberdade,
ajustiça, adignidade humana, amoralidade e o bem-
estar dos indivíduos bemcomo aprosperidade das na-
ções nunca serão algo diferente de mentiras. Todavia,
partidários, apesar de tudo, da liberdade, essacondição
primeira da humanidade, penso que aigualdade deve
estabelecer-se no mundo pela organização espontânea
dotrabalho edapropriedade coletiva das associações de
produtores livremente organizadas efederalizadas, nas
comunas, não pela ação suprema etutelar do Estado.
Esse é o ponto que divide principalmente os so-
cialistas ou coletivizados revolucionários? dos comunis-
tas autoritários, partidários da iniciativa absoluta do
Estado. O objetivo deles éomesmo; umeoutro partido
queremdo mesmo modo acriação de uma nova ordem
social fundada unicamente sobre aorganização do tra-
balho coletivo, inevitavelmente imposto acada umea
todospelaprópriaforçadascoisas, emcondições econô-
micas iguais para todos, esobre aapropriação coletiva
dos instrumentos de trabalho.
Só oscomunistas crêemque elespoderão chegar a
issopelo desenvolvimento epela organização da força
122 OS ANARQUISTAS J ULGAM MARX
política das classes operárias e principalmente do pro-
letariado das cidades, com a ajuda do radicalismo bur-
guês, enquanto os socialistas revolucionários, inimigos
de toda liga e de toda aliança equívocas, pensam, ao
contrário, que eles não podem alcançar esse objetivo
senão pelo desenvolvimento epela organização da força,
não política, mas social, e, por conseqüência, antipo-
lírica das massas operárias tanto das cidades quanto dos
campos, inclusive todos os homens de boa vontade das
classes superiores que, rompendo com o seu passado,
gostariam francamente de juntar-se aeles eaceitar inte-
gralmente seu programa.
Disso resultam dois métodos diferentes. Os comu-
nistas crêem dever organizar as forças operárias para
apoderar-se da força política dos Estados. Os socialistas
revolucionários organizam-se com vistas à destruição,
ou, sepreferirmos uma palavra mais educada, com vistas
à liquidação dos Estados. Os comunistas são os partidá-
rios do princípio e da prática da autoridade, os socialis-
tas só confiam na liberdade. Uns e outros são igualmente
partidários da ciência que deve matar a superstição e
substituir a fé; os primeiros gostariam de impô-Ia; os
segundos esforçam-se para propagá-Ia, a fim de que os
grupos humanos convictos organizem-se e federem-se
espontânea elivremente, debaixo para cima, por seu pró-
prio movimento e de acordo com seus reais interesses,
mas nunca segundo um plano traçado de antemão e
imposto à massas ignorantes por algumas inteligências
superiores. (Preâmbulo para asegunda edição do Império
Cnuto-Germânico, t. 1Il, pp. 250-252 das Obras).
Emtodas essas páginas escritas como muitas outras, com
freqüência semordem, Bakunin continua amostrar diferenças
e perigos. Assim, em sua longa Carta ao "La Liberté", jornal
socialista de Bruxelas que, com o Fragmento formando uma
BAKUNIN E O ESTADO MARXISTA 123
continuação do ImPério Cnuto-Germânico éo escrito mais siste-
mático sobre esse assunto, ele critica "a ilusão do Estado po-
pular" (Volkstaat), perseguida pelos social-democratas e pelos
trabalhadores alemães que os seguem; declara que arevolução
virá mais do sul da Europa e que o povo alemão a seguirá,
eliminando "de uma só vez a dominação de seus tiranos e de
seus pretensos emancipadores". E ele acrescenta:
oraciocínio do Sr. Marx desemboca emresultados
absolutamente opostos. Levando em consideração ape-
nas a questão econômica, ele diz que os países mais
avançados e, por conseqüência, os mais capazes de fazer
uma revolução social são aqueles nos quais a produção
capitalista moderna alcançou seu mais elevado grau de
desenvolvimento. São eles que, à exclusão de todos os
outros, são os países civilizados, os únicos chamados a
iniciar e a dirigir essa revolução. Essa revolução consis-
tirá na expropriação quer sucessiva, quer violenta dos
proprietários e dos capitalistas atuais, e na apropriação
de todas as terras e de todo o capital pelo Estado que,
para exercer sua grande missão econômica, bem como
política, deverá necessariamente ser muito poderoso e
muito fortemente concentrado. O Estado administrará
edirigirá acultura da terra por meio de seus engenheiros
remunerados e comandando exércitos de trabalhadores
rurais, organizados e disciplinados para essa cultura. Ao
mesmo tempo, sobre aruína de todos os bancos existen-
tes, ele estabelecerá um banco único, comanditário de
todo o trabalho e de todo o comércio internacional.s
Concebe-se que, no primeiro momento, um plano
de organização tão simples, ao menos na aparência, possa
seduzir aimaginação de operários mais ávidos de justiça
e igualdade que de liberdade, e que se iludem louca-
mente quanto a um e outro poderem existir sem liber-
124 OS ANARQU[STAS J ULGAM MARX
dade, como se, para conquistar econsolidar ajustiça e a
igualdade, fosse possível repousar-se sobre outrem e
sobre governantes, sobretudo, alguns eleitos e contro-
lados, segundo eles, pelo povo! Na realidade, seria para
o proletariado um regime de caserna, em que a massa
uniforme dos trabalhadores e das trabalhadoras desper-
taria, adormeceria, trabalharia eviveria ao som do tam-
bor; para os hábeis e doutos, viveriam em privilégios de
governo; e os outros, atraídos pela imensidão das es-
peculações dos bancos internacionais, restaria um vasto
campo de negociatas lucrativas.
No interior será a escravidão, no exterior, a guerra
sem trégua, a menos que todos os povos das raças "infe-
riores", latina e eslava, uma fatigada da civilização bur-
guesa, a outra ignorando grosso modo e desdenhando-a
por instinto, não se resignem a sofrer o jugo de uma
nação essencialmente burguesa e de um Estado tanto
mais despótico porque se chamará Estado popular.
* * *
Um parêntese parece impor-se. É sobre a Alemanha e o
Estado socialista alemão que Marx acreditava, então, após ter
prognosticado, emvirtude do socialismo "científico" eda con-
centração industrial, que a Inglaterra iniciaria o processo (em
1882 ele admitirá no prefácio à edição russa do Manifesto Co-
munista que poderia ser a Rússia), é na Alemanha que Marx
via agora realizar suas concepções. Realização que deveria ba-
sear-se sobre um Estado forte, o qual assumiria afrente da In-
ternacional e, por conseqüência inelutável, dominaria as ou-
tras nações. Foi na Rússia que arevolução marxista produziu-
se. Mas há uma semelhança surpreendente nessa dominação
das outras nações pela primeira "pátria socialista marxista";
BAKUNIN E O ESTADO MARXISTA 125
isso decorre da concepção centralista do Estado-guia à qual
Marx chegara.
CONTRADIÇÕES DA DITADURA
DO "PROLETARIADO"
Bakunin expõe denovo oproblema emseu livro Estatismo
eAnarquia, escrito emrusso epara aRússia, em 1873. Contra-
riamente ao que foi afirmado, este livro não é superior a di-
versos escritos que encontramos nas Oeuvres. Ele não tem um
valor teórico fundamental.
Ele foi traduzido do russo ao espanhol, eéàedição argen-
tina que tomo emprestado acrítica do Estado "proletário" eda
ditadura da classe dominante do proletariado. Para Bakunin, a
revolução social tendo triunfado, aclasse proprietária - aris-
tocracia rural, burguesia capitalista - deveria automatica-
mente desaparecer. Acreditava igualmente que a necessidade
da dominação de uma classe por uma outra nunca poderia
desaparecer por intermédio do Estado.
Se, perguntamos, o proletariado converte-se em
classedominante, quemele dominará? Restará, então,
umoutro proletariado submetido aessanova domina-
ção, e a um outro Estado? É, por exemplo, o caso da
massa camponesa que, como sabemos, não gozadabe-
nevolência dos marxistas e, encontrando-se em um
nível decultura inferior, serásemdúvidagovernada pelo
proletariado das cidades edas fábricas; ou, seconside-
rarmos aquestão doponto devistanacional, emrelação
aoproletariado alemão vencedor? osescravos cairão sob
o jugo servil, semelhante àquele que esseproletariado
sofrede suaburguesia.
126 OS ANARQUISTAS J ULGAM MARX
oque significa "o proletariado elevado à posição
declassedominante"? Seria oproletariado inteiro que se
colocaria à frente do governo? Existem aproximada-
mente quarenta milhões dealemães; épossível imaginar
esses quarenta milhões membros do governo? O povo
inteiro governará enão haverá governados; mas, então,
não haverá governo, não haverá escravos; enquanto
que, sehá Estado, haverá governados, haverá escravos.
Na teoria marxista esse dilema é facilmente resol-
vido. Entende-se por governo dopovo ogoverno por um
pequeno número de representantes eleitos pelo povo. O
sufrágio universal - o direito de todo o povo poder
votar nos representantes do povo e dos gestores do Es-
tado -, tal éaúltima palavra dos marxistas, bem como
a da minoria dominante, tanto mais perigosa porque
aparecerá como expressão da pretensa vontade popular.
Assim, de qualquer lado que se examine o proble-
ma, chega-se sempre ao mesmo resultado: o governo da
imensa maioria das massas do povo pela minoria privi-
legiada. Mas, dizem-nos os marxistas, essa minoria será
composta de trabalhadores. Sim, ex-trabalhadores talvez,
mas tão logo eles seconverterão emgovernantes ou em
representantes do povo, cessarão de ser trabalhadores e
considerarão o mundo dos trabalhadores do alto de sua
posição estatal; a partir daí, não mais representarão o
povo, mas eles mesmos, esuas pretensões de querer go-
vernar o povo. Aquele que duvida disso nada conhece
da natureza humana.
Mas esses eleitos serão ardentes convictos, e, além
do mais, socialistas científicos. Essas palavras, "socialis-
tas científicos", encontradas continuamente nas obras e
nos discursos dos lassalianos e dos marxistas, provam
que o pretenso Estado popular será apenas uma admi-
nistração assaz despótica das massas do povo por uma
BAKUNIN E O ESTADO MARXISTA 127
nova aristocracia, muito pouco numerosa, de autênticos
e pseudo savants. O povo não é savant, e, por conse-
qüência, ele será inteiramente isento das preocupações
governamentais eglobalmente incluído no rebanho dos
administrados. Bela liberação!
Os marxistas vêem essa contradição, e reconhe-
cendo que um governo de savants - o mais insupor-
tável, o mais ultrajante e o mais desprezível de todos -
seria, malgrado todas as formas democráticas, uma ver-
dadeira ditadura, consolam-se dizendo que essa ditadura
seria provisória ede curta duração. Dizem que sua única
preocupação e seu único objetivo são educar eformar o
povo, tanto do ponto de vista econômico quanto polí-
tico, a um nível tal que todo governo logo se tornará
supérfluo, e que o Estado, perdendo todo o caráter polí-
tico, quer dizer, de dominação, transforrnar-se-á numa
organização das comunas absolutamente livre.
Estamos diante de uma flagrante contradição. Se o
Estado fosse realmente popular, por que aboli-lo? E se o
governo do povo é indispensável para a emancipação
real do povo, como ousam denominá-lo popular?
Graças à polêmica que sustentamos com eles, nós
os fizemos declarar que a liberdade ou a anarquia, isto
é, aorganização livre das massas trabalhadoras de baixo
para cima, é o objetivo final do desenvolvimento social,
e que todo Estado, sem excetuar o Estado popular, é um
jugo que, de um lado, engendra o despotismo, do outro,
a escravidão.
Eles declaram que tal ditadura do jugo estatal éum
meio transitório inevitável para alcançar aemancipação
integral do povo: a anarquia, ou a liberdade, é o obje-
tivo; o Estado, ou a ditadura, o meio. Desse modo, para
emancipar asmassas laboriosas, épreciso, de início, sub-
jugá-Ias.
128 OS ANARQUISTAS J ULGAM MARX
A PRÁTICA DA DITADURA
Chegamos surpreendentemente à antecipação divinatória
do que sepassou na Rússia, eemtodos ospaíses onde o Estado
marxista domina. O que seguirá foi retirado do Fragment for-
mant une suite de l'EmPire knouto-germanique (p. 473 e seguin-
tes, t. I V das Oeuvres). O primeiro parágrafo acrescenta, às
considerações gerais sobre arevolução social, oproblema ime-
diato da Internacional da qual Bakunin foi o teórico mais obs-
tinado e mais profundo'? e, nos países latinos, o organizador
mais ardente, o inspirador mais eficaz.
Não éinútil insistir sobre essa questão que mereceria um
desenvolvimento àparte. Vimos que asocial-democracia alemã,
organizada como partido político, empreendia aconquista do
Estado pela luta parlamentar. Bakunin via, dramaticamente,
que tal tática "mataria aInternacional" - o que acabou acon-
tecendo - porque cada seção nacional, centrando-se sobre o
Estado nacional, voltava as costas aos outros Estados nacionais
erompia sua solidariedade, sua unidade com as outras seções.
Só havia partidos nacionais, recuados nas fronteiras de seus
respectivos países. A Internacional não era mais que uma
palavra. No dia em que, por intermédio de uma maioria fictí-
cia, Marx arrancou do Congresso de Haia (1872) aaprovação
da conquista dos poderes, asgrandes possibilidades - nascidas
do surgimento dessa organização que, tendendo à universa-
lidade do proletariado, devia negar os Estados - foram sacri-
ficadas.
Não falta, nessa emancipação genial da realidade do Es-
tado marxista futuro, sequer amoral do patriotismo tão sabia-
mente explorada no país dos Sovietes, onde, para exaltar um
sentimento primitivo e latente, os dirigentes ressuscitaram os
hinos patrióticos da época czarista, incensando os nomes de
Kutonzof e outros grandes generais; anexam à glória do povo
I
I
I
f
f
l
~
i
BAKUNIN E O ESTADO MARXISTA 129
russo todas as descobertas do mundo. Bakunin certamente não
pecou por excesso de previsões. Ficou abaixo da verdade, pois
mesmo na organização do aparelho repressivo por ele anun-
ciado com uma precisão estupeficante, ele não podia imaginar
- ninguém podia - todos os meios de tortura e todos os
procedimentos que obrigam as próprias vítimas ase acusarem
nos simulacros de justiça sem igual na história.
Para concluirmos, deixemos apalavra aBakunin.
É da natureza do Estado romper a solidariedade
humana e negar, de algum modo, a humanidade. O Es-
tado só pode conservar-se como tal, em sua integridade
e em toda a sua força, se ele colocar-se como o objetivo
supremo absoluto, ao menos para seus próprios cida-
dãos, ou, para falar mais francamente, para seus próprios
súditos, não podendo impor-se como tal aos súditos dos
outros Estados. Disso resulta inevitavelmente uma rup-
tura com a moral humana enquanto universal, com a
razão universal, pelo surgimento da moral do Estado, e
de uma razão de Estado.
O princípio da moral política ou de Estado émuito
simples. Sendo o Estado o objetivo supremo, tudo o que
é favorável ao desenvolvimento de seu poder é bom;
tudo o que lhe écontrário, fosse acoisa mais humana do
mundo, é mau. Essa moral se chama patriotismo. A In-
ternacional, conforme vimos, é a negação do patrio-
tismo, e por conseqüência, a negação do Estado. Se
Marx e seus amigos da democracia socialista alemã pu-
dessem introduzir o princípio do Estado no nosso pro-
grama, eles matariam a Internacional.
O Estado, para sua conservação, deve ser necessa-
riamente poderoso no exterior; mas se ele o é no exte-
rior, ele o será infalivelmente no interior. Todo Estado,
tendo de deixar-se inspirar e dirigir por uma moral par-
I
I
r
I
130 OS ANARQUISTAS J ULGAM MARX
ticular, conforme às condições particulares de sua exis-
tência, por uma moral que é uma restrição, e por con-
seqüência, a negação da moral humana e universal, de-
verá zelar para que todos os seus súditos, em seus pen-
samentos, e sobretudo em seus atos, inspirem-se do
mesmo modo nos princípios dessa moral patriótica ou
particular, ou que permaneçam surdos aos ensinamentos
da moral pura ou universalmente humana.
Daí resulta a necessidade de uma censura do Esta-
do; uma liberdade demasiado grande do pensamento e
das opiniões sendo - como pensa o Sr. Marx, com mui-
tas razões, por sinal, segundo o seu ponto de vista emi-
nentemente político - incompatível com essa unanimi-
dade de adesão exigida pela segurança do Estado. Que
tal seja, na realidade, o pensamento do Sr. Marx, isso
nos está provado o suficiente pelas tentativas que ele fez
para introduzir, sob pretextos plausíveis, mascarando-a,
a censura na Internacional.
Mas qualquer que seja a vigilância dessa censura,
conquanto o Estado mantivesse com exclusividade em
suas mãos toda aeducação e toda ainstrução populares,
como o quis Mazzini, e como hoje o quer o Sr. Marx, o
Estado nunca poderá estar seguro de que pensamentos
proibidos e perigosos não deslizem, de contrabando, na
consciência das populações que ele governa. O fruto
proibido tem tantos atrativos para os homens, e o diabo
da revolta, esse eterno inimigo do Estado, desperta com
tanta facilidade nos corações quando eles não estão sufi-
cientemente embrutecidos, que nem essa educação, nem
essa instrução, nem mesmo essa censura garantem o
suficiente atranqüilidade do Estado. É-lhe ainda neces-
sário uma polícia, agentes devotados que vigiam e diri-
gem secretamente e sem que isso assim pareça, a cor-
rente da opinião e das paixões populares. Vimos que o
próprio Sr. Marx está de tal forma convicto dessa neces-
BAKUNIN E O ESTADO MARXISTA 131
sidade que acreditou dever espalhar seus agentes secre-
tos emtodas asregiões da Internacional, esobretudo na
Itália, na França ena Espanha.
Enfim, por mais perfeita que seja, do ponto devista
da conservação do Estado, aorganização da educação e
da instrução populares, da censura edapolícia, oEstado
não pode estar seguro de sua existência enquanto não
tiver - para defendê-lo deseus inimigos internos, do des-
contentamento das populações - uma força armada. O
Estado é o governo de cima para baixo de uma imensa
quantidade de homens muito diferentes do ponto de
vista do grau de sua cultura, da natureza das regiões ou
das localidades em que vivem, de sua posição, de suas
ocupações, de seus interesses e de suas aspirações, por
uma minoria qualquer. Essaminoria, fosseela eleita pelo
sufrágio universal e controlada em seus atos por insti-
tuições populares, amenos que seja dotada de onisciên-
cia, onipresença e da onipotência que os teólogos atri-
buem ao seu Deus, é impossível que ela possa prever as
necessidades, ou satisfazer, com igual justiça, os inte-
resses mais legítimos, mais imperativos detodo o mundo.
Sempre haverá descontentes porque sempre haverá sa-
crificados.
Bem vedes que, através de todas as frases e pro-
messas democráticas e socialistas do programa do Sr.
Marx, encontramos emseu Estado tudo o que constitui
a própria natureza despótica e brutal de todos os Esta-
dos, qualquer que seja aforma deseu governo, eque, em
fimde contas, o Estado popular tão recomendado pelo
Sr. Marx e o Estado aristocrático-rnonárquico mantido
comtanta habilidade eforça pelo Sr. deBismarck, iden-
tificam-se completamente pela natureza deseu objetivo,
132 OS ANARQUISTAS J ULGAM MARX
tanto interior quanto exterior. No exterior, é a mesma
exibição da força militar, quer dizer, a conquista; e no
interior, é o mesmo emprego desse força armada, último
argumento de todos os poderes políticos ameaçados,
contra as massas que, fatigadas de crer, esperar, resignar-
se e obedecer sempre, revoltam-se.
* * *
Acrescentarei uma consideração final. Se Bakunin foi
exato em suas críticas, ele também o foi no essencial da linha
de conduta a seguir. O objetivo deste estudo não é fazer essa
exposição. Todavia, afirmo que o pensamento construtivo de
Bakunin constitui sempre uma fonte extraordinária àqual te-
mos muito arecorrer. O socialismo morre eo futuro do mundo
está em perigo porque não se deu atenção a ela. É voltando a
essa fonte que ajustiça social na liberdade será possível.
Notas:
IOs detratores sistemáticos de Bakunin, que seesforçam para negar seu
valor intelectual, poderão tentar ridicularizar o fato de dar importância
aessavocação primeira. Para eles, eemdesprezo pelos fatos, Bakunin foi
apenas umboêmio agitado. Contentar-me-ei emcitar, aesserespeito, a
opinião de Arnold Ruge, o célebre diretor do Deutsche Jahrbücher, que
conheceu todos os revolucionários de sua época: "Não basta dizer que
Bakunin tinha uma instrução alemã; eleera capaz de repreender filoso-
ficamente os próprios filósofos e políticos alemães, e de pressagiar o
futuro que eles evocavam, emconhecimento de causa ou apesar deles".
Por outro lado, Bakunin, oficial de artilharia com menos de dezoito
anos, abandonou o exército para estudar filosofia. Ora, depois de ter sido
entregue à Rússia pela Áustria-Hungria, o chefe da polícia secreta vi-
BAKUNIN E O ESTADO MARXISTA 133
sitou-o na fortaleza de Petropavlovsk. E eis o que ele disse ao ministro
deSaxe emPetrogrado: "No presente, Bakunin encontra-se aqui, pois o
governo austríaco o extraditou; eu mesmo o interroguei. É lamentável
para este homem! Dificilmente encontraríamos no exército russo um
oficial de artilharia que fossetão capaz quanto ele". Bakunin abandonou
o exército aos vinte anos.
2 Quer dizer, exercendo uma ação (N. do A.)
3 Encontra-se até mesmo, no que acabamos de reproduzir, a tese do
Estado fomentando a riqueza das classes dominantes para dela tirar
proveito.
4 Desde 1874, J ames Guillaume tinha, emsua magnífica brochura Idées
sur l'Organisatian Saciale, antecipado asolução comunista, federalista e
livre. Mas transitoriamente, ele admitia o coletivismo, até que a abun-
dância dos bens permitisse olivre consumo.
5 Emgeral, Bakunin chamou-se socialista, ou socialista revolucionário.
Elequase sempre empregou apalavra anarquia emseu sentido negativo,
ou viu na anarquia o único período de destruição revolucionária. Foi
excepcionalmente - talvez sobre a insistência de homens como J ules
Guesde, Paul Brousse, Benoit Malon, que na época antiautoritária, ar-
dentes, reivindicavam a anarquia como fórmula de ideal social - que
ele tomou essa palavra num sentido positivo.
6 Os blanquistas estavam nesse momento de acordo com Marx, que os
utilizou contra Bakunin, edepois selivrou deles.
7 Não apenas Bakunin, mas toda atendência da qual eleera o teórico e
o animador, era coletivista. Todavia, parece que as concepções bakuni-
nianas não foram integralmente compreendidas por aqueles que mais
tarde criaram o princípio comunista libertário, ecreio agora que o cole-
tivismo de Bakunin, não de seus discípulos, é asolução jurídica amais
válida de todas aquelas apresentadas pela tendência socialista antiesta-
tista.
8 O essencial desses objetivos figurava no programa da social-democra-
cia alemã.
9 Poderíamos hoje dizer o proletariado russo emrelação aos países saté-
lites, despojados de uma parte de sua produção emproveito do povo -
ou da classe dominante - russo.
134 OS ANARQUISTAS J ULGAM MARX
IO A Internacional era constituída por organizações operárias profissio-
nais epor federações deofícios, razão pela qual osurgimento departidos
políticos que se tornavam predominantes era um desvio fundamental.
Sobre essaprimeira constituição, esobre osobjetivos enunciados, parti-
cularmente no Preâmbulo, Bakunin escreveu inúmeros estudos eartigos
que fazem dele o maior teórico do que mais tarde será denominado
"sindicalismo revolucionário". Sorel, Pouget, Lagardelle, Leone, Labriola
etc. apenas o parafrasearam.
A QUESTÃO ECONÔMICA
Eric Vilain
INTRODUÇÃO
Engels declarou em 1890que Marx e ele próprio tinham
sido obrigados ainsistir na gestão da análise econômica porque
naquele tempo era uma nova ótica e era necessário ressaltar
este "princípio essencial'".
O estudo crítico da análise econômica marxista deve
levar em consideração esta declaração, verificando se ela tem
fundamento, ao invés de sedeter nos preconceitos que existem
no movimento libertário sobre esta questão.
Trata-se menos de demonstrar que, a priori, todas as pro-
posições do marxismo são falsas do que tentar determinar em
que o método de análise marxista constitui, ainda que par-
cialmente, um instrumento utilizável para os militantes revo-
1ucionários.
Tentativas foram feitas, no passado, para efetuar uma "sín-
tese" entre marxismo e anarquismo. Estas tentativas estavam
destinadas ao fracasso.
Trata-se, aqui, sobretudo, de desmistificar o marxismo
como "doutrina científica" aos olhos dos libertários edemons-
trar que nem tudo deve ser rejeitado só porque o que faz opo-
sição irredutível entre marxismo eanarquismo (proibindo qual-
quer síntese) é perfeitamente delimitado e observável, e que,
para todo o resto, há muitas proposições que são bem assimilá-
veis pelo anarquismo, seja simplesmente porque elas já esta-
136 OS ANARQUISTAS J ULGAM MARX
vam presentes no pensamento de nosso movimento antes de
Marx exprimi-los ou reforrnulá-los, da mesma maneira que a
lei da relatividade ou a teoria dos quantas (que não foram
formuladas por anarquistas como todos sabem).
É próprio de umpensamento vivo poder integrar ou rejei-
tar - de modo razoável- novas idéias. O pensamento morto
rejeita toda idéia que não surja de autores patenteados, eacaba
por girar em círculo.
Nas filigranas do presente estudo encontrar-se-á a se-
guinte interrogação: aqueles que recusam o marxismo pelas
más razões aceitam o anarquismo pelas boas?
I. Mas o que é o materialismo dialético?
No Anti-Dühring Engels diz em substância:
- A história é a história das lutas de classes. As classes
sociais em conflito são o produto das relações de produção e
de trocas.
- A estrutura econômica da sociedade constitui o funda-
mento real pelo qual se pode explicar a superestrutura das
instituições jurídicas, políticas, as ideologias religiosas e filo-
sóficas.
- Resulta daí que as causas últimas das mutações sociais
devem ser procuradas não no cérebro dos homens, em sua
compreensão de verdades eternas, mas nas mutações da pro-
dução edas trocas.
- Mas, ainda assim, os meios de supressão das inconve-
niências do sistema existem de modo mais ou menos desen-
volvido nas relações de produção em mutação. Estes meios
devem ser descobertos nos fatos materiais da produção.
1Q O Materialismo
O conceito de matéria no século XVIII está ligado ao de
A QUESTÁO ECONÔMICA 137
"sensação". A matéria é a causa da sensação. Na sensação o
homem épassivo, ele recebe as impressões do mundo exterior.
Segundo Marx, omaterialismo do passado concebe arealidade
sob aforma de um objeto ou de uma intuição, não como uma
atividade sensitiva humana. Em Teses sobre Feuerbach, Marx
declara que o grau mais elevado atingido pelo materialismo
intuitivo, que não concebe a sensibilidade como atividade
prática, é a intuição dos indivíduos singulares na sociedade
burguesa.
Para Marx, amatéria deve ser pensada como ummecanis-
mo, uma matéria-prima que possibilita agir.
Os antigos gregos pensavam que o conhecimento era o
resultado de uma contemplação passiva. Marx sustenta que
nós somos sempre ativos. Alteramos constantemente o que
percebemos. Um objeto não é reconhecido pela recepção de
uma impressão passiva. Só podemos conhecê-Io se agirmos
sobre ele. Assim, asubstância de toda verdade éprática. Visto
que alteramos o objeto agindo sobre ele, averdade cessa de ser
estática e torna-se qualquer coisa que muda e que se desen-
volve continuamente".
Engels tinha uma concepção muito mais "redutora" sobre
anatureza da matéria esobre o caráter pragmático da verdade
que oaproxima do materialismo ortodoxo. Emuma introdução
de 1892 de Socialisme Utopique, Socialisme Scientifique, a parte
reservada à ação está reduzida ao papel convencional de con-
trole científico: "Demonstra-se o pudim comendo-o". Nesta
introdução de 1892 não há sinal da doutrina segundo a qual
os objetos sensíveis sejam em grande parte o produto de nossa
atividade. Mas não há nenhuma indicação de que Engels
tenha consciência de estar em desacordo com Marx.
Aplicado à economia, à história e às ciências sociais em
geral, o materialismo implica que, na base de todas as ações
humanas, se encontrem causalidades que têm suas raízes nos
138 OS ANARQUISTAS J ULGAM MARX
fatos reais - materiais - da sociedade, no caso presente,
principalmente nos fatos econômicos, e não nas idéias, nas
convicções ou até mesmo na vontade dos homens: "Não é a
consciência que determina a vida, é a vida que determina a
consciência" (A Ideologia Alemã) .
A partir de tal concepção chega-se rapidamente à idéia
do determinismo na história, idéia segundo aqual as ações dos
grupos sociais estão inscritas emuma ordem fixada de antemão
por leis, as quais não épossível evitar. Marx afagará esta idéia
durante umcerto tempo, como Proudhon, mas não amanterá.
Na realidade, o materialismo não implica determinismo.
É verdade que em O CaPital o sujeito social está um pouco
dissolvido para fazer aparecer este sujeito anônimo eimpessoal
que é o capital. Mas em suas obras históricas, onde emprega
um outro método de abordagem - justamente o método dia-
lético - Marx mostrará que as razões que fazem agir a classe
social em certos períodos não derivam necessariamente das
relações econômicas edo papel que elas assumem nas relações
de produção.
É Bukharin que, mais tarde, em 1921, "interpretará" Marx
ao afirmar que existe uma relação de determinação necessária
entre o nível de desenvolvimento das forças produtivas e o
nível da luta de classes (Teoria do materialismo histórico). Se o
que Bukharin diz fosse verdade, levando-se em conta o nível
de desenvolvimento das forças produtivas na Rússia, seria pre-
ciso concluir que o proletariado russo em 1917 não serevoltou
ou que não ocorreu uma revolução proletária ...
Realmente, Marx evita reduzir a totalidade social às suas
contradições econômicas'. Pensamos, como Pierre Ansart, que
o "reconhecimento da pluralidade das determinações não é,
em Marx, uma concessão àcomplexidade de experiência, mas
sim, seu método explícito emsuas análises empíricas" (Marx et
l'Anarchisme) .
A QUESTÃO ECONÔMICA 139
2º A dialética na história
Para Marx, arealidade última éamatéria. Ele pensa que
o mundo sedesenvolve de acordo comuma lei lógica, o que o
leva a pensar que o resultado de um conflito social, de uma
mutação, só possa ser a instauração de umsistema mais evo-
luído. É nisso que seumaterialismo édialético, porque compre-
ende os fenômenos sociais não de umponto de vista estático,
mas emsua evolução, emseu movimento contraditório.
As contradições da sociedade, resolvendo-se por uma
sucessão de sínteses que constituem progressos históricos em
relação àssituações anteriores, eoproletariado sendo aúltima
classe social da história cuja emancipação corresponderá à
emancipação de toda a humanidade, resulta emque chegará
um momento emque não haverá mais antagonismos, evolu-
ção, síntese, história.
É somente emuma nova ordem das coisas, onde não ha-
verá mais classes, inexistindo conseqüentemente antagonis-
mos de classes, que asevoluções sociais cessarão de ser revo-
luções políticas. Até lá, às vésperas de cada remanejamento
geral dasociedade, aúltima palavra daciência social será sem-
pre: "o combate ou a morte; a luta sanguinária ou o nada. É
assimque aquestão é invencivelmente apresentada" (George
Sand, citado por Marx emMiséria da Filosofia).
Proudhon, na mesma ordem de idéias, dizia que existiam
"contradições antagônicas", irredutíveis, no seio do capitalis-
mo, econtradições "não antagônicas" no socialismo, mas que
sempre haveria contradições semo que não haveria mais so-
ciedade".
O pensamento de Marx ede Engels estava marcado pelo
otimismo filosófico do século XIX. Mas não ésó umproblema
teórico. Os comunistas sempre afirmam que os conflitos entre
comunismo e capitalismo, apesar das vitórias parciais do se-
gundo, devem necessariamente levar à instauração do cornu-
140 OS ANARQUISTAS J ULGAM MARX
nismo. Mas por falta de uma visão verdadeiramente científica
da história, eles não vêem que podemos também chegar auma
regressão histórica.
A noção de síntese que resulta emumprogresso histórico
por várias vezes foi negada pela história. Para citar apenas o
exemplo de Roma, adecadência do império eas invasões bár-
baras que a acompanharam não resultaram em um modo de
produção mais evoluído.
Pode-se, entretanto, encontrar no próprio Marx, senão
uma refutação, pelo menos elementos de refutação às inter-
pretações cristalizadas de suas idéias. Com efeito, se no prefá-
cio de Introdução à Crítica da Economia Política ele diz: "Nunca
uma sociedade expira antes do desenvolvimento de todas as
forças produtivas que ela é capaz de conter", e acrescenta em
seguida: "... Nunca relações superiores de produção posicio-
riam-se antes que as condições materiais de sua existência
tenham surgido no próprio seio da velha sociedade".
Significa claramente que relações de produção superiores
não aparecem sistematicamente em conseqüência do declínio
de uma sociedade moribunda. Marx simplesmente não teve
ocasião ou necessidade de tratar do problema das sociedades
declinantes sem "posteridade". Entretanto, se é inexato im-
putar a Marx uma estreiteza de visão que não é sua, é preciso
reconhecer que para justificar as nuanças que se pode emitir
concernentes às interpretações dominantes do marxismo, é
preciso "solicitar" os textos. Desmentido pelo passado, o "oti-
mismo histórico" de Marx, no que se refere às evoluções fu-
turas da história, é o da burguesia européia de seu tempo, no
momento emque seabria o mercado mundial. Este "otimismo
histórico", que explode no Manifesto Comunista, terá mais im-
pacto do que as poucas reservas que se pode encontrar na
Introdução à Crítica da Economia Política, emA Ideologia Alemã
ou alhures".
A QUESTÃO ECONÓMICA 141
As críticas de Bakunin permanecem pois, perfeitamente
justificadas, em particular naquele trecho em que ele dá ao
mesmo tempo uma magistral demonstração de dialética mate-
rialista:
oestado político de cada país (...) ésempre o pro-
duto eaexpressão fiel de sua situação econômica; para
mudar o primeiro é preciso somente transformar esta
última. Todo o segredo das evoluções históricas, se-
gundo o Sr. Marx, está aí. Ele não leva em conta ne-
nhum outro elemento dahistória, tais como areação, no
entanto evidente, das instituições políticas, jurídicas e
religiosas sobre asituação econômica. Elediz: A miséria
produz a escravidão política: o Estado. Mas ele não
permite inverter esta frase e dizer: A escravidão polí-
tica, o Estado, reproduz por sua vez e mantém a mi-
séria como uma condição de sua existência ...
Aplicado a si próprio, o materialismo dialético é um mé-
todo de investigação ede interpretação dos fenômenos sociais
ligados aos progressos e às transformações do pensamento
científico do início do século XIX, à aceleração das evoluções
sociais ehistóricas e às mutações econômicas epolíticas.
O materialismo dialético é o produto de seu tempo, é o
resultado de uma evolução histórica na qual inúmeros pen-
sadores prepararam o terreno desde o século XVIII. Numa
época em que as mutações nas condições materiais de vida
eram tão perceptíveis, era difícil conceber que não seconstitui
um método de análise tomando por ponto de partida a dinâ-
mica da evolução. Eispor que é tão absurdo dizer que seMarx
tivesse vindo ao mundo dois séculos mais cedo, isto teria evi-
tado inúmeras infelicidades para a humanidade", ou imaginar
que se Marx não tivesse nascido, a dialética materialista não
teria existido.
142 OS ANARQUISTAS J ULGAM MARX
11.Os acasos de um método
Evocamos os dois postulados sobre os quais repousa todo
o edifício marxista. Nós nos interessaremos pelo método de
investigação empregado por Marx, mas anteriormente faremos
um desvio por Proudhon.
Em uma obra datada de 1850, Le Systeme des Contradíc-
tions Economiques, Proudhon desenvolve um certo número de
idéias que seguirão seu caminho:
- É impossível identificar as contradições econômicas
com as contradições lógicas. As relações inerentes àrealidade
econômica são identificáveis com as relações racionais da ló-
gica.
Há conformidade dos fenômenos econômicos com as leis
do pensamento. Resulta daí que o capitalismo é um conjunto
inteligível do qual sepode desvelar aestrutura interna afimde
compreender sua verdadeira natureza.
É difícil compreender hoje o verdadeiro alcance destes
dois postulados. Eles constituem uma verdadeira revolução no
pensamento da época. Mas Proudhon emitirá um outro postu-
lado metodológico que terá um destino curioso.
- Pode-se tratar do sistema capitalista como de uma tota-
lidade estruturada, sem consideração de seu passado e de sua
história; será então conveniente estudar o encadeamento das
evoluções históricas, não segundo sua história, mas como um
todo sistemático: ... "Nós não fazemos uma história segundo a
ordem do tempo, mas segundo a sucessão das idéias".
O estudo do sistema sócio-econômico impõe recorrer a
um novo método. Na realidade, estudando a "sociedade eco-
nômica", termo que designa não as relações econômicas mas
as relações sociais, Proudhon fará, na realidade, a análise do
sistema das contradições sociais. Pode-se com justa razão con-
siderar Proudhon como o fundador da sociologia moderna.
A QUESTÃO ECONÔMICA 143
Marx censura ao Systême des Contradictions Economiques
por abandonar o único método possível, o estudo do movi-
mento histórico das relações de produção. Ora, trata-se para
Proudhon de umpropósito deliberado. Ele quer mostrar que as
categorias da economia estão em relação de contradição, dei-
xando na indefinição sua dimensão histórica, sua evolução,
para só levar em consideração suas relações em sua contem-
poraneidade.
As relações de produção não são categorias imutáveis.
Um lembrete poderá ser feito na exposição emrelação àques-
tão da evolução particular de uma categoria, mas sem modi-
ficar o plano de conjunto.
Proudhon chega à conclusão de que, para a clareza da
exposição, seria necessário criar um conceito de "capitalismo
puro", quer dizer, todas as características reunidas consti-
tuiriam um modelo ideal, adequado e límpido - o que nunca
se encontra na realidade - a fimde colocar em evidência os
mecanismos de seu funcionamento. Ele vai então analisar o
sistema não do ponto de vista da sucessão histórica, mas da
sucessão das categorias lógicas que o constituem, pois "na prá-
tica, todas estas coisas são inseparáveis e simultâneas".
Entretanto, oprojeto de extrair alógica da economia polí-
tica não leva asubstituir pelo real uma logomaquia abstrata. É
verdade que nem todas as fórmulas de Proudhon são claras,
algumas análises são deficientes, algumas proposições são desa-
jeitadas e, isoladas de seu contexto (exercício no qual Marx era
mestre), elas sugerem uma leitura idealista da realidade social.
Mas é das contradições reais do capitalismo de seu tempo de
que trata Proudhon.
Às censuras de idealismo formuladas por Marx, ele pode
responder com razão: "Eu disse alguma vez que os princípios
não são a representação intelectual mas sima causa geradora
dos fatos?"
144 OS ANARQUISTAS J ULGAM MARX
É verdade que uma ambigüidade de Le Sysrême des Con-
tradictions Economiques reside no fato de Proudhon procurar,
por um lado, revelar os mecanismos do capitalismo, por outro,
descobrir os processos, no seio do sistema, que anunciam as
formas de uma sociedade desalienada. Não que estes processos
possam ser criados arbitrariamente, o que épróprio dos socia-
listas utópicos que ignoram as realidades econômicas efundam
a nova sociedade sobre bons sentimentos ou ideais.
"O erro do socialismo foi, até aqui, o de perpetuar o delí-
rio religioso lançando-se em um futuro fantástico ao invés de
compreender a realidade que o esmaga" (LeSysrêrne des Con-
tradictions Economiques, t. I).
A abordagem proudhoniana da sociedade capitalista é
muito menos econômica que sociológica. Sob a aparência da
economia ele estuda arealidade da relação social. Se afórmula
simplificadora, "a propriedade é o roubo", atropela as análises
complexas sobre a formação do capital, não é somente uma
noção polêmica, ela designa sobretudo a relação real entre
duas classes antagônicas.
Marx retomará o projeto proudhoniano de repensar so-
cialmente as contradições da economia política. Evocará os
"trabalhos tão profundos de Proudhon". O Premier Mémoire de
Proudhon aparecer-lhe-à como um manifesto revolucionário
do proletariado, mas também como um exame "absoluto ao
mesmo tempo que científico" da economia política. (A Sagrada
Família).
"Proudhon pôs fim, de uma vez por todas, a esta incons-
ciência. Ele levou a sério a aparência humana das relações
econômicas, eaopôs claramente à sua realidade não humana
(Ibid)."
Proudhon havia mostrado o caráter conflitual e contra-
ditório das relações sociais no seio do capitalismo. Sua for-
mação hegeliana levava Marx apensar dialeticamente eades-
A QUESTÃO ECONÔMICA 145
~
I
i
i
cobrir a dinâmica nas contradições. A obra de Proudhon for-
necia uma crítica concreta da dialética especulativa pois as
contradições analisadas inscrevem-se na prática social, na rea-
lidade da sociedade burguesa.
Entretanto, existiam divergências entre os dois homens,
bem observadas por Proudhon, das quais Marx não tinha cons-
ciência. Marx não dá atenção aos trechos de Proudhon sobre
a anarquia. Uma crítica comum do "comunismo vulgar" im-
pede Marx de ver os trechos onde Proudhon expõe sua crítica
da "comunidade" e anuncia sua teoria da "associação econô-
mica", noções que, por evoluções sucessivas, acabarão por se
colocar em termos de partido ou sindicato.
Estas oposições doutrinárias devem provocar a ruptura
em 1846 esuscitar aredação deMiséria da Filosofia emresposta
aLe Systême des Contradictions Economiques.
Como inicialmente Marx havia negligenciado as oposi-
ções que o separavam de Proudhon, negligenciará desta vez os
pontos que o aproximavam dele. "Estes extremos contradi-
tórios", diz Pierre Ansart em Marx et l'Anarchisme, "só são
inteligíveis se sefaz aparecer, para além das fórmulas da polê-
mica, um conjunto de teorias comuns no seio das quais as
divergências serão particularmente agudas".
É interessante confrontar Le Systême des Contradictions
Economiques não com aobra que lhe responde, Miséria da Filo-
sofia mas com O Capital. O livro de Proudhon aparece desde
então como um momento importante na evolução do pensa-
mento de Marx, ocasião de uma formulação metodológica,
descoberta de uma tentativa que fornecerá um modelo àreda-
ção de O Capital.
EmMiséria da Filosofia, Marx censura Proudhon pelo aban-
dono da análise histórica e sua escolha por uma sucessão abs-
trata dizendo respeito ao domínio da razão pura. Segundo
Marx, a alternativa coloca-se em termos de método histórico
146 OS ANARQUISTAS J ULGAM MARX
ou de logomaquia. Proudhon abre uma outra via, ada análise
estrutural das contradições encaradas em seu funcionamento
real, ométodo indutivo-dedutivo, que Kropotkin qualifica, em
La Science Moderne et l'Anarchie, de "único método cientí-
fico"?
É precisamente este método que Marx retomará em O
Capital, eliminando as ambigüidades do vocabulário proudho-
niano. Ele renunciará a tudo que tinha declarado emA Ideo-
logia Alemã e em Miséria da Filosofia, para substituir a análise
dialética pelo modelo proudhoniano. Se não é em nível do
conteúdo das análises que os dois autores seopõem fundamen-
talmente, é difícil negar que O Capital, excluindo as indigna-
ções morais easreflexões filosóficas próprias aProudhon, opõe
a uma metodologia freqüentemente aproximativa, o rigor de
análise. Os principais conceitos expostos por Proudhon emLe
Systeme des Contradictions Economiques serão objeto de uma
reflexão crítica que conduzirão anovas análises que Proudhon
não havia observado. A distinção operada emO Capital entre
trabalho eforça de trabalho constitui uma contribuição essen-
cial de Marx. O mesmo ocorre quanto àavaliação do trabalho
e tempo de trabalho e o cálculo do lucro em termos de apro-
priação do sobre-trabalho.
Proudhon e Marx, enfim, não dão amesma importância
aos conflitos inerentes ao capitalismo. Para Proudhon, as lutas
econômicas tais como as greves, reconhecidas como o "único
meio" de defesa dos operários, são mais ações de desespero do
que lutas eficazes adaptadas às necessidades. Cessando seu
trabalho, os operários delegam aseus empregadores o cuidado
de resolver as dificuldades. O aumento dos salários, além do
mais, intervém emum sistema cujas leis inerentes anulam seus
efeitos. As lutas econômicas não participam da dinâmica do
sistema. É perda de tempo esperar uma transformação da con-
dição operária.
A QUESTÃO ECONÓMICA 147
Marx considerava que as lutas econômicas, senão podem
modificar sensivelmente o sistema, intervêm em dois pontos
importantes que Proudhon não tinha visto: a fixação da jor-
nada de trabalho e amanutenção do salário ao preço normal.
III. A respeito de algumas aberrações
Marx emprega, defato, sucessivamente, diversos métodos
complementares mas diferenciados. O Capital éessencialmente
analítico e estuda a relação social entre o detentor dos meios
de produção eo proletário, cindindo asociedade emduas clas-
ses rivais. Seus trabalhos históricos consideram uma situação
aummomento dado, estudando arelação das forças presentes
e fazendo aparecer diversas classes sociais das quais algumas
representam um papel político maior se bem que elas prati-
camente não aparecem na crítica econômica.
Porque a infra-estrutura econômica não é única a deter-
minar aação dos grupos sociais; porque as ilusões, as crenças,
os medos representam um papel é que o método analítico,
válido em nível econômico, dá lugar ao método dialético, que
apreende os atores sociais em sua especificidade.
A verdadeira dialética marxista é talvez aquela que une
esses dois métodos de investigação, um analisando o sistema
capitalista emseus mecanismos, o outro descrevendo os atores
da história real na abundância de suas determinações, e que
considera estas determinações em seu movimento.
Se tivéssemos atingido um conhecimento científico da
evolução das ciências sociais, seo marxismo fosse uma ciência
exata, não seriam mais as classes sociais que seriam os atores
da história, mas os chefes políticos detentores desta ciência, o
que Althusser explica dizendo que a prática dos dirigentes
marxistas "não émais espontânea, mas organizada sobre abase
da teoria científica do materialismo histórico" (Pour Marx,
148 OS ANARQUISTAS J ULGAM MARX
Althusser). Um dirigente marxista é, em certo aspecto, um
condensado de materialismo histórico.
Quando Lukacs, em História eConsciência de Classe, ex-
plica que o materialismo histórico é "o mais importante meio
de luta" do proletariado, que "aclasse operária recebe sua arma
mais afiada das mãos da verdadeira ciência", ele se junta aos
idealistas mais patenteados dos séculos XVIII eXIX, expondo
como postulado que é a consciência que determina a vida e
não a vida que determina a consciência, invertendo assim os
termos de Marx ("Não éaconsciência que determina avida, é
a vida que determina a consciência" (A Ideologia Alemã, K.
Marx).
Inúmeros outros, marxistas ou não, viram o paradoxo que
consiste, para o criador da dialética materialista, emempregar
o método indutivo em sua principal obra, O Capital.
Preobrajenski, o teórico da N.E.P., no primeiro capítulo
de sua obra A Nova Economia, declara: "Não é evidente que
devamos estudar nossa economia deixando-nos guiar pelo mé-
todo marxista?" O autor parece desencorajado pelas diferen-
ças de aplicação (grifo nosso) do "método da dialética ma-
terialista devido àmatéria concreta do estudo":
"A fim de compreender a lei dialética fundamental do
desenvolvimento da economia capitalista e de seu equilíbrio
emgeral, épreciso emprimeiro lugar elevar-se acima de todos
os fenômenos do capitalismo concreto que impedem de com-
preender esta forma e seu movimento sob o aspecto mais
duro." (grifo nosso)
Para compreender asleis do capitalismo, diz Preobrajenski,
é preciso construir um "conceito de capitalismo puro", e é
"precisamente o que faz Marx em O Capital".
Mas esta utilização da abstração não é "a diferença mais
característica" entre o que Preobrajenski chama "o método
sociológico universal" de Marx e o método de sua economia
A QUESTÃO ECONÔMICA 149
política. Com efeito, na análise de certas particularidades deste
"capitalismo puro", Marx é levado a empregar um método
"analítico-abstrato". Após uma tentativa de justificação um
pouco confusa deste método, Preobrajenski contorna a di-
ficuldade batizando-a: "Método dialético analítico abstrato".
Lukács desde 1922 deplorava o mau hábito de "consi-
derar a dialética em Marx como uma vantagem estilística su-
perficial.;". Emuma passagem do posfácio da edição alemã de
O Capital, suprimido posteriormente na edição francesa, Marx
vitupera os "imitadores rabugentos, pretensiosos e medíocres
que ocupam atualmente posições de destaque na Alemanha
culta" e que maltratam Hegel. Para pregar-lhes uma peça,
declara: "Também declarei-me abertamente discípulo deste
grande pensador e, no capítulo sobre ateoria do valor, cheguei
até mesmo aflertar aqui eali com seu estilo particular". Tendo
os hegelianismos quase totalmente desaparecido da edição
francesa, Engels foi a Marx reclamar, assinalando-lhe o "pe-
dantismo da lógica formal" da tradução francesa.
J . A. Schumpeter, um crítico de Marx, não marxista, reco-
nhece, ainda que o autor de O CaPital tenha sido neo-hege-
liano, que seria "cometer um erro e não fazer justiça ao valor
científico de Marx" fazer deste elemento filosófico (adialética
hegeliana) "achave principal de seu sistema". Marx, diz Schum-
peter, "conservou seu amor de juventude toda a sua vida. Ele
secomprazia emcertas analogias formais que sepode constatar
entre sua argumentação e a de Hegel. Adorava confessar seu
hegelianismo eusar afraseologia hegeliana. Emnenhum lugar
Marx traiu aciência positiva emfavor da metafísica" (Schum-
peter, Capitalismo, Socialismo eDemocracia).
Rosdolsky, militante marxista ucraniano contemporâneo
da revolução russa, tem muita dificuldade para demonstrar que
muitas "categorias decisivas continuamente empregadas vêm
diretamente da lógica de Hegel". Ele cita uma Carta sobre o
150 OS ANARQUISTAS J ULGAM MARX
capital de Marx onde este sealegra por ter bem conduzido seus
desenvolvimentos sobre a teoria do lucro, e onde conclui:
''Alguma coisa prestou-me um serviço, by mere accident eu
havia refolheado a Lógica de Hegel, sem observar o alcance
real desta observação" (by mere accident: por acaso).
Rosdolsky analisando detalhadamente o Rascunho de O
Capital, interessa-se pelas razões que levaram Marx amodificar
inúmeras vezes o plano e o método de elaboração da obra, e
declara:
"Se em O Capital ainfluência de Hegel parece se mani-
festar àprimeira vista, apenas em algumas notas, o Rascunho
deve ser caracterizado em sua totalidade como uma referência
a Hegel e à Lógica deste último tão radical quanto seja aqui
também aqueda materialista de Hegel" (Rosdolsky, Génêse du
Capital).
Significa dizer que Marx pretendia empregar o método
dialético quando começou a redigir O Capital, mas na versão
final não há mais nenhum sinal. Marx derruba Hegel e Ros-
dolsky derruba Marx. Mas Rosdolskv permanece muito vago
sobre asrazões eo alcance da modificação no método de expo-
sição.
O próprio Marx explicou-se no prefácio da primeira edi-
ção de O Capital:
''A análise das formas econômicas não pode ser ajudada
pelo microscópio ou pelos reagentes fornecidos pela química;
aabstração éaúnica força que possa servir-lhe deinstrumento".
No posfácio da segunda edição alemã, parece vexatório
que um professor de economia política, N. L Sieber, tenha
podido declarar que "o método de Marx e o de toda escola
inglesa é o método dedutivo, cujas vantagens e inconveniên-
cias são comuns aos maiores teóricos da economia política".
Marx tinha aambição de elevar aciência da sociedade ao
nível de uma ciência da natureza. Ele declara no posfácio ci-
A QUESTÃO ECONÔMICA 151
tado que "o físico, para compreender os comportamentos da
natureza, ou estuda os fenômenos quando eles se apresentam
sob aforma mais acentuada e a menos obscurecida por influ-
ências perturbadoras, ou experimenta em condições que asse-
guram tanto quanto possível aregularidade de sua marcha". O
segundo método não sendo possível, Marx vai revelar "o ato
de formação, a geração destas categorias, leis, idéias, pensa-
mentos" tal como ele censurava Proudhon por fazê-Ia:
"À força de abstrair de cada questão todos os pretensos
acidentes, animados ou inanimados, homens ou coisas, temos
razão em dizer que em última abstração chega-se a ter como
substância as categorias lógicas".
É assim que se exprime Marx em 1850 contra LeSysrêrne
des Contradictions Economiques. Vinte anos mais tarde ele reto-
mará omesmo gênero de argumentos para justificar O Capital.
CONCLUSÃO
Neste texto, não nos interessou fazer, ponto por ponto,
uma análise crítica das principais teses de Marx emmatéria de
economia. Pareceu-nos mais importante ir mais ao fundo do
problema e evocar as questões de método pois um método de
análise pode permanecer bom, mesmo que seus resultados
sejam levados aser ultrapassados umdia. Gostaríamos também
de fazer justiça a Proudhon por todas as asneiras que foram
ditas em seu nome.
O método marxista de análise foi mistificado tanto pelos
marxistas, que fizeram dele uma panacéia, quanto por um
certo número de anarquistas que tudo rejeitaram em bloco,
fazendo assim economia de uma verdadeira crítica.
Poder-se-á objetar, entretanto, que se aceitarmos certas
proposições do marxismo, somos obrigados atudo aceitar, pois
152 OS ANARQUISTAS J ULGAM MARX
éuma teoria coerente cujos elementos sesustentam enão são
dissociáveis.
Ora, O Capital não chega anenhuma conclusão emma-
téria de estratégia política, modo de organização, programa;
atesta simplesmente o fracasso de todas as tentativas da bur-
guesia de restaurar o sistema ede vedar asbrechas.
Fora disso, pode-se fazer o marxismo dizer aproximada-
mente o que se quer. Pode-se até mesmo ser anarquista e se
referir a Marx, sob a condição de selecionar seus textos. É o
que alguns quiseram fazer, às vezes de modo quase convin-
cente.
O ponto departida detoda aobra deMarx éque omotor
da história é a luta de classes. Enquanto militantes, a luta de
classes é para nós uma coisa real, palpável e podemos racio-
cinar como Engels: ademonstração daluta declasses éque nós
a ressentimos. Mas sobre o plano do princípio filosófico, po-
demos dizer que ela é o motor da história? Tal afirmação é
simplesmente inverificável deforma científica: éuma hipótese
de trabalho, entre outras.
Há outras, ou pelo menos uma. Kropotkin partiu da idéia
de que o motor da história não é aluta das classes, mas sima
tendência dos homens de sesolidarizar para sobreviver.
Seu sistema constitui um conjunto coerente, descreven-
do exatamente a mesma história que Marx, emcontraponto.
As duas concepções são como o negativo eo positivo da mes-
ma foto: elas representam amesma imagem.
A história da humanidade é a história da criação, pelas
massas, dos modos edas instituições que permitem asobrevi-
vência e avida emsociedade, organizando-se emtudo aquilo
que pede umesforço combinado.
Este esforço criador é contrariado por uma minoria que
tenta apropriar-se dopoder, do saber, dasuperstição. Esta cate-
goria deindivíduos está repleta de contradições internas. "Em
A QUEST ÃO ECONÔMICA 153
certos períodos eles se combatiam uns aos outros" mas "aca-
bavam sempre, com o tempo, por se entender" para poder
"dominar as massas, mantê-Ias na obediência, governá-Ias e
fazê-Ias trabalhar para eles".
Mas asinstituições que seconstituíram com umobjetivo
construtivo, inicialmente, evoluíram, acabando por se petri-
ficar. Elas perdiam seu sentido primitivo, caíam sob o domínio
de uma minoria ambiciosa eacabavam por setornar umimpe-
dimento ao desenvolvimento ulterior da sociedade" (La Scien-
ce Moderne et l'Anarchie). Assim, produziam-se mutações -
ou revoluções - que Kropotkin descreve de modo magistral
emsua obra sobre aRevolução Francesa:
"Uma revolução, é a rápida derrubada, empoucos anos,
das instituições que tinham precisado de séculos para seenrai-
zar no solo eque pareciam tão estáveis, tão imutáveis, que os
reformadores mais fogosos apenas ousavam atacá-Ias emseus
escritos..."
É, dizKropotkin, arápida decomposição detudo que fazia
aessência da vida social, religiosa, política, econômica da na-
ção. É a eclosão de novas concepções sobre as relações entre
os homens que estremeceram o mundo e "dão ao século
seguinte sua palavra de ordem, seus problemas, sua ciência,
suas linhas de desenvolvimento econômico, político e moral"
(Ibid) .
"Para chegar a um resultado desta importância (...) não
basta que um movimento das idéias se produza nas classes
instruídas, qualquer que seja aprofundeza; não basta também
que seproduzam revoltas no seiodo povo, quaisquer que sejam
seu número e sua extensão. É preciso que a ação revolucio-
nária, vinda do povo, coincida com o movimento do pensa-
mento revolucionário, vindo das classes instruídas" (Ibid).
Poder-se-ia analisar a vontade de Kropotkin de fazer da
anarquia uma concepção do universo combase emuma inter-
154 OS ANARQUISTAS J ULGAM MARX
pretação mecânica dos fenômenos. Ele se junta nisso à maior
parte dos pensadores do século XIX e sua visão científica do
universo.
Apesar de sua recusa pelo método dialético", vê-se, pelo
que precede, que o próprio Kropotkin, em suas obras histó-
ricas, demonstra uma percepção claramente materialista edia-
lética da história, que seria interessante estudar mais afundo.
É que, simplesmente, um pesquisador, um savant não tem uma
escolha indefinida de métodos para atingir seus fins. Que
Marx, em tal circunstância, tenha empregado o método indu-
tivo, e Kropotkin em tal outra, o método dialético, não é um
acaso nem uma coincidência. Mas o método em si mesmo não
prevê nada do resultado obtido. Se o emprego de um método
ruim resulta raramente em resultados justos, não basta em-
pregar o bom método para garantir o resultado. É o erro idea-
lista que cometeram numerosos marxistas considerando o ma-
terialismo histórico como uma arma infalível. É o uso que se
faz de uma arma que lhe confere sua eficácia.
O objetivo deste estudo é o de restituir em um terreno
mais seguro, einclusive mais são, as relações do anarquismo e
de Marx, no que se refere à análise econômica. Que se queira
ou não, que satisfaça ou não, os elementos metodológicos in-
troduzidos por toda uma corrente de pensamento no século
XIX, no qual Proudhon tomou parte e do qual Marx se fez a
expressão mais clara, são uma conquista que não é possível
afastar hoje. Isto étão verdadeiro que mesmo os capitalistas e
os governos mais reacionários, na França, sabem utilizar com
muita vantagem antigos militantes marxistas que se tornaram
executivos, sociólogos, psicólogos etc.
Privado de sua aura mágica ede seu caráter encantatório,
o marxismo volta a ser o que não deveria ter deixado de ser:
um método de análise da sociedade, por um lado, epor outro,
uma estratégia política, uma teoria da organização. As ques-
A QUESTÃO ECONÓMICA 155
tões de estratégia ede organização, sobretudo, mereceriam ser
desenvolvidos para que aanálise crítica do marxismo seja com-
pleta, para que a amplitude das divergências apareçam cla-
ramente.
É preciso, entretanto, tomar cuidado para não nos juntar-
mos aestes antimarxistas para quem "o trabalho, como forma
de uma relação de exploração aum grau qualquer, não é mais
para eles a matriz essencial da estrutura social" (LeNouveau
Léviathan, Naville). O que Proudhon já exprimia quando dizia:
''A unidade constitutiva da sociedade é aoficina" (Sysrêrne des
Contradictions Economiques)
Notas:
1 "Marx eeu próprio, parcialmente, devemos assumir aresponsabilidade
pelo fato de, àsvezes, osjovens darem maior peso do que sedeve dar ao
lado econômico. Diante denossos adversários, foi-nos necessário ressal-
tar o princípio essencial por eles negado eentão nós nem sempre achá-
vamos o tempo, o lugar e a ocasião para dar seus lugares aos outros
fatores que participam da ação". (Engels, Carta a[oseph Bloch, 21-09-
1890).
2 Toda teoria sócio-política temcomo base uma teoria do conhecimento,
quer dizer, o processo pelo qual o cogito sucede aos homens. O assunto
é importante. Trata-se nem mais nem menos, para cada pensador, de
demonstrar que ahumanidade atingirá naturalmente umnível de cons-
ciência que confirmará suas opiniões. Pierre Ansart emMarx et l'Anar-
chisme estuda a teoria do conhecimento de Proudhon. O mesmo tra-
balho ainda está por ser feito para Bakunin e demonstraria o extraor-
dinário vigor eatualidade do pensamento deste autor.
3 Uma carta desapaixonada de Marx demonstra que eleobservava uma
possibilidade de autonomização do Estado emrelação àinfra-estrutura
econômica: ''A esfera particular aquem, emconseqüência da divisão do
trabalho, cabe a administração dos interesses públicos, adquiriu uma
156 OS ANARQUISTAS J ULGAM MARX
independência anormal que foi levada mais longe na burocracia mo-
derna" (A Ideologia Alemã). Assim, não há concordância sistemática
entre arealidade sócio-econômica das classes e sua atitude política ou
ideológica: as condições econômicas não determinam necessariamente
as atitudes políticas: "Na França, o pequeno-burguês faz o que normal-
mente deveria fazer o burguês industrial; o operário faz o que normal-
mente seria atarefa do pequeno-burguês, eatarefa do operário, quem a
realiza? - Ninguém". (As Lutas de Classe na França).
4 Mao, antigo anarquista (segundo dizem) "inovará" omarxismo introdu-
zindo anoção de "contradição no seio do povo" (não antagônico) ede
contradição entre opovo eaclassedominante. (Mao, De la contradiction,
cap. 6, Oeuvres Choisies, Pequim, 1966, tomo 1).
S Escrita em 1846, A Ideologia Alemã não foi publicada e permaneceu
desconhecida durante muito tempo. O desconhecimento desta obra
muito importante contribuiu par forjar a interpretação do pensamento
deMarx meio-darwinista, meio positivista, que devemos principalmente
aKautsky e aPlekhanov.
6 Lembro-me de ter lido este argumento em uma introdução de Sacia-
lisme utopique, socialisme scientifique, mas não me lembro se é o próprio
Engels que o diz. Lapso ou não, éemtodo o caso umabsurdo no plano
do materialismo histórico.
7 Kropotkin: "Nenhuma das descobertas do século XIX - emmecânica,
astronomia, física, química, biologia, psicologia, antropologia - foi feita
pelo método dialético. Todas foramfeitas pelo método indutivo, o único
método científico.
S O ponto de vista de Kropotkin sobre Marx, suas teorias, seu método,
revela um conjunto disparate de julgamentos clarividentes e de erros
grosseiros que mostram que não compreendia o que lia. Assim, ele crê
refutar a teoria da concentração do capital afirmando que "o número
daqueles que vivem às expensas do trabalho de outrem é sempre mais
considerável (arrendador, intermediários). (La Conquéte du Pain).
Os "arrendadores, intermediários" são tudo que quisermos menos
detentores de capital, ou emoutros termos, detentores demeios depro-
dução. No que se refere à questão da concentração do capital e suas
"refutações", conferir uma carta aberta da Alliance Syndicaliste aGas-
ton Leval, que nos tinha pedido um artigo que não publicou, embora
tenha "refutado" emseu jornal, recusando-nos o direito de resposta.

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful