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Francisea Julia da Silva livro h jafancia COM UM PREFACIO DO gr. Jaltü %8av da j5tha São Paulo TYPOQRAPHIA DO « DIÁRIO OFFICIAL » 1899 .

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dr. consideração e respeito OFPBEECB a —Auetora .(Sto sr. ^João Qsdapfôsfa c/e £//lef/o Em signal de amizade.

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para delicadezas de -conceppao o subtilezas de estylo. Este livro é um repouso em que ellas venham descançar o espirito. ao lado da frieza da narrapao. destinadas á educação da infância. da infantilidade dos assumptos. e poucos. e nas quaes. mas. as obras deste gênero. que correm mundo adoptadas em diversas escholas. da imperfeição dos versos e molleza na factura dos períodos. se encontram vicios. que sao mais ou menos perfeitos na correcção da linguagem . incorrectas na fôrma e na linguagem. ou porque seus auctores tenham apenas em vista distrahir os estudantes com a grapa e leve moralidade dos seus . sao. Outros livros ha. solecismos e defeitos de toda a espécie. Bm geral.PREFACIO 0 presente livro é destinado ás creanças que já tenham feito seu curso elementar de leitura e se achem habilitadas a iniciar estudos menos fáceis. lhes desperta o gosto para leituras mais litterarias. com rarissimas excepções. ao mesmo tempo que lhes ensina vocábulos sonoros e do aso menos vulgar. é uma obra agradável © duplamente apreciável que.

Março. S. Os contos e versos de que se compõe o LIVRO DA INFÂNCIA são simples na forma. 1899. . Emflm. JÚLIO CÉSAR DA SILVA. fluentes na narração e escriptos no melhor vernáculo. o LIVRO DA INFÂNCIA ahi está. Estas explicações são feitas de um modo fácil e comprehensivel. tenham pouco cultivo littorario. nesse pequeno diecionario. mas só aquellas em que são vulgarmente conhecidas. que é oxaetamente o alvo que collima o presente trabalho. que acompanha cada conto ou poesia. a auetora não dá ás palavras todas as intelligoncias léxicas. e 6 o quo parece mais natural. Do mérito littorario da auetora não 6 aqui o logar de falar: sabem-n'o sobejamente todos aquelles que têm acompanhado o extraordinário movimento litterario quo se iniciou cm nossa pátria de uns annos a esta parte. outros que o julguem também. Paulo. ou porque. Em baixo de cada pagina vem a explicação dos vocábulos menos conhecidos. não accordam no espirito infantil certa elevação de sentimentos. Eu pelo menos julgo-o o melhor que pôde haver no gênero.VI LIVRO DA INFÂNCIA contos e novellas.

Lhrro da Maneia .

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Era velho. em feitio de anneis. vaso por onde se bebe agaa. enroladas. havia um poeta que Be chamava Anacreonte. . outra ainda um vaso de água pura para as abluções5 matinaes do poeta. Sua habitação ficava á beira do mar. Ablução. Era o homem mais feliz que havia. vaso de barro de bocca larga. vinham até á sua porta. cujas ondas. rwa. as camponezas de Téos vinham em grupo trazer ao poeta o sustento do dia. Unciar. lavagem. Cântaro. Uma trazia um cântaro3 âe barro cheio de leite gordo. acto de lavar-se. bilha. na enchente. esfregar. mal a aurora tinha nascido. Venerando. Pela manhan. digno de respeito. nada lhe faltava.ro. tinha os cabellos inteiramente brancos e as barbas anneladas1 e longas. Como todos o amavam e o distinguiam com uma admiração sem limites. outra um púearo * de saboroso vinho espumante e fructas de todas as qualidades. Depois unctavam-lhe6 as barbas e cabellos com óleos aroma1 2 3 4 5 6 Anneladas. que se deve venerar. na Grécia antiga. que lhe cobriam o peito e lhe davam um aspecto sympathico e venerando 2.ANACREONTE Em Téos. quebrando-se em espumas alvas.

porém. príncipe cruel. sobraçando 5 a sua lyra de prata encordoada de novo. As raparigas sabiam em seguida e atravessavam o campo em direcção ás suas casas. . tyranno 4 de Samos. ouvir-lhe dos próprios lábios a poesia das suas odes. absolutamente feliz. contentavam-se com vir ao encontro das moças.ANCIA ticos. levar debaixo do braço. Ode. Tyranno. marisco de q. com sua túnica 6 de púrpura 7 presa aos hombros. curioso por conhecer o poeta. e esperavam. Bobraçar. . Polycrato. os agradecimentos do velho. fazendo-se acompanhar a uma lyra de prata.10 LIVRO DA IXK.s'í?/írfa/«. uma bella manhan. uma 1 2 S 4 ••> (i 1 Myrrha. a creação das ovelhas e o fabrico do vinho. e. porque os impedia o trabalho da lavoura.versos. que não podiam ir fazer ao velho a visita matinal. Púrjmra. preoccupando-se apenas com seus . Anacreonte ficava em pé.ue se tira a côr vermelha: vestidura da mesma côr. com largos gestos e voz grave. indhferente a outros affazeres. Os camponezes. cantando as odes do poeta com suas vozes juvenis. querido e admirado por todos. para ouvir dos seus lábios as ultimas composições de Anacreonte. vestidura talar. composição poética. planta e gomina aromatiea. magestoso na sua inspiração poética. cujas cordas desferiam os mais melodiosos accordes. Assim vivia elle. mandou chamal-o. sentadas no chão. ia cantando as odes 3 que tinha composto durante a noite. Túnica. Anacreonte. perfumavam-lhe os pés com myrrha dalo -. arvore de madeira perfumosa.

é tua . quando se retirou para os seus aposentos. A' noite. embriagados de poesia. Hera. Anacreonte. arrancou um accorde e começou a entoar um hymno de louvor a Polycrato. e disse-lhe: — Toma esta bolsa . admirável na sua roupagem de purpura. embarcou numa galera . Anacreonte agradeceu. Anacreonte appareceu. Amanhan cantar-me-ás uma ode egual a essa. Todos os que estavam ao redor da mesa. . empunhou5 o instrumento sonoro. tão inspirados. plantadas de vinha. então. Seus versos eram tão bellos. deulhe uma bolsa cheia de moedas de ouro. e partiu mar fora. em pé no meio dos convivas. segurar. levantaram-se com as taças transbordantes e gritaranr: — Evohé! — que era o grito de satisfacção dos gregos. começou a pensar na fortuna que lhe pertencia. tomar pelo punho. Empunhar. 1 2 3 4 5 Pâmpano. que todos estavam suspensos de admiração. Polycrato tinha ordenado que se preparasse um banquete real para festejar-lhe a recepção. mostrar-se com orgulho. Quero que sejas o homem mais poderoso de Samos. navio de três mastros. curvou-se em signal de admiração ao seu gênio. nas terras que havia de comprar á beira mar. contém uma fortuna. sua voz tão clara. ramo de vide vestido de follia. Ostentar-se. Galera. Polycrato approximou-se do poeta. arbusto conhecido.LIVRO DA INFÂNCIA 11 coroa de pâmpanos1 e 3heras2 em torno afronte. onde se ostentavam4 as mais extraordinárias iguarias.

tal era a satisfacção de que se achava possuído. 1 Outeiro. Desde que a poesia bafejou minh'alma. o excellente vinho. hontem. porém. Pela manhan tinha um aspecto doentio. a água fresca para as minhas abluções e a amizade dos meus vizinhos. Quero partir para Téos. monte pequeno. Procurou Polycrato e disse: — Senhor! aqui está a vossa bolsa e o ouro que ella contém. 2 Cortejo. que não consegui dormir nem compor a ode que me pedistes. na felicidade. . a riqueza que me destes preoccupou tanto minha imaginação. ainda se não passou uma noite em que não compuzesse uma ode. os olhos amortecidos. Adeus. porém feliz na minha pobreza. pobre como vim. comitiva. Não a quero. acompanhamento. coluna. emfim.12 LIVRO DA INFÂNCIA nas ovelhas brancas pastando pelos outeiros \ no cortejo2 de escravos que havia de ter. que lhe dariam aquellas pesadas moedas de ouro. Para que servem fortunas ? Nada me falta: tenho o bom leite. Esta é a minha riqueza. Adeus. E não poude dormir.

sob a chuva que cai e o vento que uiva ? As arvores agitam a folhagem descabellada. filho. O velho passa apressadamente. apertando nos braços o filhinho amado. 2 Sceptro. pae. — Para que queres que te occulte o rosto. fazendo-lhe com o rosto ecom as mãos um carinhoso abrigo. montar.. andar a cavallo. arrepiadas do terror da noite. embriagar a vista no 1 Cavalgar. brandindo o sceptro2 como um louco ? — Não tenhas medo. insignia real. na escuridão da noite. é uma nuvem e mais nada . vem commigo ! vamos gosar as riquezas do meu reino. — Occulta-me o rosto. filho ? — Não vês o rei envolvido em seu manto de purpura. . é uma nuvem que estremeceu á fúria do vento e se desfez em água.REI PHANTASMA ALLEMAN) (BALLADA Quem é que cavalga 1 a esta hora. « Linda creança.

ellas te ensinarão brinquedos nunca vistos e te farão passear numa barquinha azul sobre as águas do lago. arranco-te dos braços do teu pae».14 LIVKO DA INFÂNCIA esplendor do meu ouro. pae ! Não vês as filhas do rei dançando lá em baixo na planície 2. com os rostos escondidos nos cabellos ? — Meu filho. não tenhas medo. — Pae. é o vento brando que mumura1 nas ramas e que resvala nas folhas. que o vento agita e balança. embranquecidos de neve. « Creança linda. correr os meus campos onde ha flores perfumadas e arvores vergando ao peso dos fructos». Salgueiro. ellas te conduzirão á dança nocturna em companhia das fadas do bosque . E tu has de adormecer ao seu canto e sonhar sob seus afagos». eu vejo bem: são os salgueiros3 distantes. e mais nada. Filho. Planície. 1 2 3 4 Murmurar. dos teus olhos azues como o céu e dos teus cabellos negros como a noite . . bella creança. meu filho. cegar a vista cora muita luz. queres vir commigo ? As minhas filhas são claras como a neve e têm cabellos louros como o sol. pae ! não ouves o que o rei me promette em voz baixa ? — Não é nada. — Pae. Si tentas resistir. meu filho. Deslumbrar. 4vem! quero levar-te commigo para deslumbrar-te nas riquezas do meu reino. vestidas de branco. «Amo-te. gosto do teu rosto pallido. arvore. terreno plano. e mais nada. falar em voz baixa.

pae ! elle é tão máu. . Muito tempo depois. pae! o rei me leva.. Livra-me. atravessa a escuridão da noite sob a chuva que cai e o vento que uiva . o rei me arranca.LIVRO DA INFÂNCIA 15 — Pae. elle é tão grande. o rei me mata. elle é tão feio ! O pobre pae treme. quando entrou em casa. aperta tanto o filho contra o peito que o suffoca. tinha nos braços a creança morta. fustiga o cavallo .

Vento brando. gênero de pintura feita com tintas delidas n'agua. aura. molhar espalhando gottas. Zephyro. Desce de cima em brancas nevoas finas. gênero de borboletas noctnrnas. folha a folha. que o beija e molha. E todo o pé salpica 3. 1 2 3 4 5 6 Águaretta. Phalenas. Salpicar. perfumoso. Uma moça gentil sentiu anceio De possuir a rosa e teve magua De não poder colhel-a.AGUARELLA l Cheio de folhas. á beira de um córrego 2 crescia Joven pé de roseira em cujo galho Uma rosa sorria. O orvalho matinal. A borboleta clara que esvoaça E o pássaro que vôa. Córrego. humido de orvalho. Perfumeo. Fresco. O grupo de phalenas6 que anda á tôa. De gottas pequeninas. cheiroso. . com receio De molhar os pés n'agua. Beija-o o perfumeo 4 zephyro 5 que passa. rio pequeno. corrente.

Uma abelha zumbiu4 da rosa em torno. embriagada e douda. Crepúsculo. Impetuosamente.açoite6. com força. 1 2 8 i 6 •ü Coma. Do vento rijo foi soffrendo^o.. Nenhuma flor poude salvar-lhe a vida.. Lento. abundante. Estremeceu. . chicote. ollnas. E escorregando em prantos. Porém n'ess'hora a ventania brava •Que veiu do alto impetuosamente B. Açoite. expirava o dia. o ar estava morno . tempo médio entre dia e noite. entretanto. Na tristeza da noite.LIVRO DA INFÂNCIA 17 A roseira agitou a coma1 opíma2. folhas. fazer sussurro como as abelhas. água. algumas. Mansamente o crepúsculo3 descia . A' água desceram. Opima. com violência. látego. E a flor morreu aos poucos. envolvida Num circulo de espumas. abaixo. Zumbir* zunir. E a flor cahiu no meio do riacho. Sob os raios do sol que lá de cima A üluminavam toda. Arranca a flor do ramo em que se achava E joga-a na corrente. A moça foi-sé.

se confundiam na côr geral da vegetação. não lhes faltavam hervas para a alimentação do corpo e orações para a purificação da alma. de modo que muitas vezes era a sua vizinha quem lhe trazia o sustento. Alli passavam ellas sua existência humilde. preoccupando-se apenas com o cultivo da sua horta e com o trato'dos seus bacorinhos4. Abandonava-se durante o dia á preguiça. a que parecia mais moça. 1 2 3 4 Açude. velhas recordações da mocidade. Eram felizes na sua miséria. dormindo pelos cantos. Cabana.. construídas num campo extenso e cobertas de um colmo 3 tão verde que. Uma dellas. longe de toda a convivência importuna. e conversavam horas inteiras sobre a sua vida passada. choça. esquecida do trabalho. leitãosinho. (%lmo. prender a água. rememorando episódios antigos.O AÇUDE1 Viviam duas velhinhas em duas 2 cabanas vizinhas. tinha um defeito —a preguiça. A' tarde sentavam-se juntas á soleira da porta. de longe. com que se faz telhado Bacorinlw. choupana. . canna. obra de pedra para represar. palha de centeio. com o fuso na mão para distrahkem-se. porém.

Solicifa. desterroar. um rico proprietário tinha construído um grande açude. cercado por uma represa3 de pedras. refrescando a atmosphera. Accunmlar-se. regada por um arroio fresco e límpido. fazer em pó. pulverizar. * M . que era. no dia seguinte. Essas águas serviam nas sêccas do |stio para a rega das plantações. a fiar. pode partir-se a represa e a água inundar este campo. incrédula..factb. Do lado do poentex havia uma coluna de certa elevação.solicita 5 e prudente. já a velhinha estava tratando da sua 1 2 3 4 5 Poente. matando-vos. por onde os ventos passavam livremente. occidente. que nascia no alto e escorregava pelo dorso da collina em pequenas catadupas. . mal a manhan tinha despontado. ajuntar-so em monte. Um diaiim caminhante que atravessava a campina veiu abrigar-se dos ardores do sol numa das-cabanas onde as^uas velhas estavam reunidas. diligente. detenção que se faz á água: dique. e disse:* —Veremos. logar onde o sol desapparece. velhinhas. üsboroar. Sejrresa. Do lado opposto. porque o açude está-se esbaroandò4 aos poucos. amontoar-se. contentou-se com sacudir os hombros.Fugi daqui.LIVRO DA INFÂNCIA 19 Suas casas tinham sido feitas por ellas mesmas numa planície rasa.era. respondeu : —Amanhan me mudarei. que . A mais'velha. De. muito plana. preguiçosa. A outra. cuidosa. E elle disse-lhes: —Mihhas velhinhas. onde se accumulavam2 as águas de um rio próximo. é urgente que mudeis vossas habitações para o alto daquella collina.

elevou as mãos ao céu num resignado gesto de supplica. cahir. arrastou-a nas ondas e levou-a. livre de todo o perigo. impulso. no alto da collina. ia adiando a mudança. peça em que bate a porta ou janella. Soleira. preguiçosa como era. morta já. apesar das instâncias 2 da primeira. a velhinha. quando o crepúsculo descia e espalhava um aspecto de tristeza religiosa sobre a verdura dos campos. A velhinha preguiçosa deitou a correr. dando passagem a uma enorme massa d'agua. Sua companheira. desceu e veiu galopando pelo campo. Depois de collocado tudo em seus logares. A água cahíu. A outra. não sem pequeno esforço. gritando de desespero. por ser cuidadosa e prudente-. installou-se descançadamente. arrancando os batentes * das portas. Instância. Tudo que encontrava na frente ia torcendo e' arrancando. e pouco a pouco ia levantando. pedido insistente. Uma tarde. pedra debaixo do portal. . limiar. e. viu com espanto a represa de pedeãs que segurava as águas do açude romper-se com estrondo. que tinha ficado ao abrigo do perigo. com uma força e impeto 4 a que nada poderia resistir. feita a cerca grosseira que prendia as suas aves e bacorinhos.20 LIVRO DA INFÂNCIA mudança. até á outra extremidade do campo. espumando e roncando. os cabellos soltos. deixou-se ficar em baixo. ímpeto. Coitada! A água alcançou-a logo. envolveu-a com a sua espuma. que estava sentada na soleira3 da sua casa. a palha do telhado. sua nova habitação sobre a collina. violência. 1 2 3 4 Batente.

a cabeça cahida para a frente. ter similhança. 2 Penetrado. tinham os pés inchados e humedecidos do sangue que ver1 Condiser. como vergados ao peso dos annos. animados aos bordões. Em sentido contrario vinham dois mendigos maltrapilhos3. Caminhava distothidamente. porém distincta. de uma expressão infantil. penetrados2 da mais encantadora doçura'. Seu principal encanto estava com certeza nos olhos claros. A edade e os soffrimentos tinham-lhes arrancado os cabellos. as roupas esburacadas. feições agradáveis. ter proporção. cavado grandes rugas na face e enfraquecido todos os músculos. Tinha os cabellos enrolados em anneis que lhe cobriam o pescoço. embebido. Como tivessem caminhado muito. . os olhos fixos no chão. e um ar sympathico que condiziax bem com a graça natural da sua pessoa. esfarrapado. 3 Maltrapilho.OS DOIS MENDIGOS Caminhava pela estrada real um moço de aspecto nobre. e trajava de maneira modesta. mal vestido.

estavam extremamente paliados. Sensibilizar. porém não tenho um real para consolar . pobres velhos. O vento impiedoso impellia-os#3 para a frente. apalpou os bolsos . O moço sentiu as lagrimas empannar-lhee a vista e. e a justiça divina manda que se distribua a esmola em partes eguães. Implorar. Impellir. os olhos intumescidos 8 de cólera 9. e gritou brandindo o bastão com a pouca de forças que lhe restavam : 1 2 3 4 5 6 7 8 9 Tropégo. tornar sensível. seixos grandes. O primeiro olhou o rapaz com mal contido rancor. Intumescião.ossa miséria sensibilizou 7 minh'alma e accordou goluços em meu peito . cahiram de joelhos. os passos trópegos \ os lábios trêmulos. Balbuciar.22 LIVRO DA INFÂNCIA tiam . mas apenas balbuciar 2 como as creanças. forçando-os a andar depressa e fazendo-os tropeçar nos ealháus4 da estrada. senhor. escurecer. de modo que nem podiam falar. Cólera. a v. Os velhos levantaram-se. embaraçar. pedras. penetrado de compaixão. mais por cançaço do que por desejo de implorar5 a piedade. empurrar. e gemeram ao mesmo tempo : — Uma esmola. raiva. Quando se approximaram do moço. mas. sentiam fome. rogar. . gaguejar. inchado. que mal pôde andar ou mover-se. vossos soffrimentos. dizer mal as palavras. Empannar. como encontrasse apenas uma moeda. pedir. . Calháus. disse com malícia : — Perdoae-me.

Desolação.LIVRO DA INFÂNCIA 23 — Maldito sejas tu e malditos todos os teus. Escasso. 4 principalmente quando o nosso dinheiro é escasso . e falou-lhe : — Sè feliz. morrer. flnar-se. curto. que teus affectos pereçam e que um vento de desgraça passe sobre a desolação3 da tua existência 1 E partiu. que as águas engulam a náu 12 em que embarcares. que as minhas mãos tremulas possam tirar de sobre tua fronte as pragas do meu companheiro . sem observar si_ a pessoa que nos pede é merecedora da nossa piedade. pouco. Então o moço tirou do bolso a moeda de ouro e deu-a ao mendigo. 1 2 '3 4 A"<Í!f. O outro velho fitou com ternura a face do joven. embarcação Perecer. que as águas sejam mansas na tua viagem e que a bençam do Senhor esteja sempre suspensa sobre tua cabeça. . que a tua propriedade seja firme. acabar. min». Assim devemos praticar sempre: nunca devemos dar esmola. estrago. limitado. mancebo. que o fogo devore a tua propriedade.

arrogante. Adeus a estudos da classe I Ao sino. ufano ] . Deixo a cama.EM FERIAS Passeio os campos.mal o sol nasce. altivo. Rio-me das coisas serias. contente . O rosto lavo. em seus ninhos. que ás aulas chama! De manhan. . Por todo o quintal galopo . . De gordo leite excellente Bebo um copo. Mal despertos. Não ha melhor tempo no anno Do que as ferias. 1 Ufano. Caminho campos em fora. Vou surprehender n'ess'hora Passarinhos.

LIVRO DA INFÂNCIA 25 Alguns têm medo do orvalho. . Outros mais. Pratico a torto e a direito Diabruras. Colho das cercas as rosas. Enfeito-me de violetas. como esperto Cavalleiro. ufano . Persigo no ar as formosas Borboletas. em bando. Não ha melhor tempo no anno Do que as ferias. ligeiro. Outros andam no ar. Rio-me das coisas serias. de galho em galho. Monto de um salto. Passeio por tudo. que passam por perto. E viajo. Eu as ferias aproveito Sem me lembrar das leituras. Os cães. Passeando.

quando lhes falavam em miséria. Si lhes falavam em palácios de architectura custosa \ em luxo. Este povo era tão simples. elles riam-se. que dormia com as portas abertas. . sem receio aos ladrões e malfeitores. como si de facto estivessem ouvindo contos de fada ou novellas do outro mundo . não conheciam a riqueza nem a miséria. porque não acreditava na existência desta gente. 1 Custosa.AS DUAS MOÇAS Duas moças viviam em casa dos seus pães. 2 Apparato. 3 tíeira. luxo. ignorantes na sua simplicidade. em horrores de fome. e diziam que não ha geira 3 cie terra sem couve e couve que não alimente. Cada um era proprietário do seu próprio terreno donde tirava o sustento para a sua família. ostentação. carruagens e apparatos 2 de riqueza. numa aldeia quasi deserta onde todos eram egualmente pobres. sorriam também. medida de terra. sumptuosa. Os habitantes. rica. pompa.

palácios para mostrar minha elegância e leitos de seda e purpura para afogar minha preguiça. quando toda a familia estava reunida ao redor da mesa. 1 2 3 4 5 6 Plantio. apresentar. Todos começaram a chorar. acto de plantar. suffocados pelos soluços. —Adeus. a surribação 3 da terra. arranquem lagrimas aos teus olhos. a peste das gallinhas. Uma dellas. conversando sobre assumptos domésticos. mostrar. em que cada qual tem de trabalhar para comer. Ediibir. Inapto. vou deixal-os por algum tempo. ergueu-se e falou assim : — Meus velhos pães e minha boa irman. creação das aves. sê feliz. onde tenho carruagens para exhibir 5 a minha formosura. estou cançada desta vida monótona. suspiros ao teu peito e offegos6 ao teu coração. . sem futuro. surriba. respiração custosa. plantiol das hortaliças. eu nasci para uma existência mais luxuosa e de mais conforto *. em que nasceste. que não tem aptidão. como as próximas chuvas. Rosa. Otfcyo. que os teus desejos se cumpram e que a fortuna espalhe riquezas pelo teu caminho. conchego. Conforto. desta pobreza geral. O velho falou com amargura: — Ingrata filha. plantação. e da pobre aldeia. como um semeador lançando grãos sobre um terreno fértil. vai. que abandonaste. commodo na vida.LIVRO DA INFÂNCIA 27 Estas duas moças é que estavam incumbidas do trabalho da casa. incapaz. acção de preparar a terra ao redor das arvores. as faces escondidas nas mãos. Burribação. porque seus pães já eram velhos e inaptos 2 para qualquer serviço. porém que as saudades de teus velhos pães.

28 LIVRO DA INFÂNCIA Então a boa filha. enamorou-se desta pobre rapariga e pediu-a em casamento. meus bons pães. Um dia um rico lavrador. Si eu soubesse dos soffrimentos por que havia de passar. Rosa? —Na experiência. passou por essa aldeia. Os tempos passaram. farrapos. Os meus soffrimentos datam da minha partida: a riqueza das donzellas está no carinho dos seus pães. voltou mais pobre ainda. Enriqueceram. que havia de ficar sempre na companhia delles. não vos abandonaria e deixava-me ficar comvosco. os pés descalços. prometteu-lhes com amor que nunca havia de abandonal-os. que tinha ficado. roupas de mendigos. Andrajos. Os velhos consentiram. sensibilizados pelo aspecto humilde das suas roupas e da sua physionomia. E Rosa. abraçaram-na chorando. E perguutaram-lhe : —Onde está tua riqueza. na miséria que soffri. depois de abraçar os pães. na fome que me devorou as entranhas. Era a felicidade esperada por tanto tempo. que fora tentar fortuna. quando a viram. coberta de andrajos l. como um consolo á sua velhice. moço ainda e extremamente bello. . Os pães. trapos. que lhes entrava em casa.

A BORBOLETA

Na talisca 1 de um velho muro coberto de limo e vegetações bravas, estava occulto o casulo 2 de uma lagarta. Todos os que passavam por alli paravam a contemplar as ruínas do muro, o viço das plantas que cresciam em cima delle, colhiam ás vezes alguma flor silvestre3, vermelha ou azul, muito fresca de mocidade que, vicejando 4 sobre a velhice das pedras, tinha o aspecto de um sorriso de alegria no rosto enrugado de um velho. E ninguém descobria o pequeno casulo escuro, escondido numa fenda, ao abrigo das vistas do passeante e das violências do tempo. Elle alli estava ha muitos dias, immovel, suspenso a uma folha sêcca, servindo de habitação á chrysalida 5. Uma manhan, emquanto as primeiras manchas de sol iam dourando a brancura das nuvens e os
1 2 3 4 5 Talisca, greta, fenda.; abertura nos muros ou nas pedras. Casulo, noveílo; bolsinha que envolve a lagarta. Silvestre, do matto. Vicejar, estar viçosa a planta; crear viço. Chrysalida, lagarta no casulo, antes de sahir borboleta.

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passarinhos cantavam nas ramas, o casulo rompeuse. Pela abertura a borboleta enfiou a cabecinha, olhou em torno, com receio da luz, e escondeuse de novo. Em seguida appareceu, extendeu as delgadas l perninhas para fora do casulo, sahiu, sacudiu as azas ainda entorpecidas 2 de somno, respirou o ar puro, e voou. Era uma grande borboleta de azas brancas, ornadas 3 de traços azulados. A pricipio, como não estava habituada aos movimentos do vôo, andou se batendo pelas paredes, embriagada de luz. Voava de flor em flor, pousava de folha em folha, numa impaciência de correr, atravessar os ares e conhecer todas as difficuldades do vôo. Coitadinha! mal podia suster-se 4 nas pernas ! Mas o sol, que já tinha apparecido de todo, e inundado o campo de luz, seccou-lhe as azas. Ella sentiu-se melhor; abriu as azas, tentou o vôo e rompeu o ar com uma rapidez de setta: correu o campo inteiro em todos os sentidos, rodeou todos os arbustos õ, aspirou 6 o perfume de todas as plantas e veiu de novo, equilibrando-se no ar, em movimentos vagarosos, um pouco fatigada pelo esforço.
1 2 3 4 5 6 Delgada, franzina, delleada. Entorpecida, adormecida; sem movimento. Ornada, enfeitada. Suster-se, sustentar-se. equilibrar-se. Arbusto, planta; arvore pequena. Aspirar, sorver o ar com a' bocca. .

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, Pousou em cima do velho muro, e a todos que passavam provocava com seus movimentos ligeiros, muito vaidosa da sua belleza, abrindo e fechando as grandes azas como um leque de plumas, ou voava de novo a uma grande altura e ficava suspensa no ar, illuminada de sol. E á tarde, quando o crepúsculo veiu descendo, ella teve medo da noite, e andou tonta, voando na corrente das brizas, em procura da luz.

Mas uma borboleta Que por alli passeia. escondido. Um broto. em cócoras pousado. Expandir. ligeira. occulto. aposento. Aligera.O GRILLO E A BORBOLETA Perto do seu abrigo. meu amiguinho esperto ! O Deus vos fez. Diz-lhe: «Que alegre estais. tranquillo. um grão de trigo Talvez. A sua habitação parece-lhe uma vasta Câmara4 que lhe serve. trillos. alcova. 6 aligera 5 e inquieta Satisfeita. é bem ditoso. é quanto basta Para satisfazer-lhe a fome. extender. buraco onde vivem bichos Recôndito. de certo. vozinha dos insectos. Ergue tiples 3 subtis um pequenino grillo. á noite. toca. dilatar. Tiples. . —Um pequeno covil1 recôndito2 e isolado— Sobre um raminho de herva. lépida. Câmara. Raminho que se dobra ao peso seu. quarto. de repouso. a expandir seu humor vagabundo. O insecto mais feliz dos insectos do mundo ! Vossa vida é rizonha ? 1 2 S 4 5 6 Covil.

movimento de azas para voar. . infinita.Emtanto creio e affirmo. que não se acaba. sem flnt. . Que invejoso não sois. Livremente voando. 2 Adejos. convencida.. De flor em flor sugando O delicioso mel que os lábios meus adoça. embora a vossa vida Seja um pouco enfadonha. Procuro o goso em vão. em liberdade infinda *. Não está no prazer nem nos vossos adejos2 A ventura dourada : Contentar-se com pouco. diz o grillo ao lindo insecto louco. 1 Infinda. não encontrei ainda Felicidade assim que se compare á vossa». « Amiga. Vede: eu que vivo á tôa. Para se ser feliz não se requer mais nada».LIVRO DA INFÂNCIA 33 Cantais. Moderar os desejos.

Si o seu amigo prosperava. cançado dos soffrimentos e humilhações por que tinha passado até então. abrigo.A INVEJA Havia um homem. Prosperar. Este homem. mudou 1 2 3 4 5 Amparo. não poude prosperar . Invejava a felicidade de todos. 5 revoltado contra a sorte que lhe era tão adversa . mas como nunca foi honesto e emprehendia23 tudo com má fé e malicia. opposta. enriquecer. e a todos desejava mal. Um dia. que tinham morrido. protecçâo. do trabalho diário e das economias. desde que ficou só no mundo. começar uma cousa. manchar. apesar dos esforços que fazia. que não tinha conseguido ainda arranjar fortuna. extremamente invejoso. de modo que todos. Adversa. Seu principal defeito era a inveja. cercava-o de pequenas intrigas. maculava-lhe 4 a reputação até vel-o empobrecer. . Emprehender. sem o amparo x de seus pães. Macular. evitavam-n'o e negavam-lhe apoio. contraria. que deviam auxilial-o. arrimo. entregou-se ao trabalho .

LIVRO DA INFÂNCIA 35 de terra para recomeçar a vida. começou a dominai-o de novo. Mas o proprietário. causanclo-lhe prejuízos diários. fugir ou afastar-se do rebanho. Agitava a água da azenha. deixando que se desgarrassem 5 do rebanho ou que morressem de peste por falta de cuidados. Assim viveu elle por muitos dias. . questão.no leito. injuria. Impropério. que lhe rendia algum dinheiro e um tratamento relativamente bom. Desgarrar-se. Sua occupação era pastorear1 as ovelhas. briga de palavras. Dahi em deante. porque o seu patrão era generoso. que já tinha percebido os maus sentimentos do 1 2 3 4 5 6 1 Pastorear. insulto. tomar conta do selleiro á noite. espumava de raiva.6 tornando-a suja. torcer-se. intento. alimentando-se bem e fazendo as economias a que estava habituado. fechado em seu quarto. feliz. dirigia-lhe impropérios 4 e a inveja ia-o tornando máu cada vez mais. Estoraer-se. Intuito. Abria a porta do selleiro para dar estrada aos ratos. disputa. Empregou-se na casa de um rico moleiro. a envenenar-lhe a alma. evitando a voracidade dos ratos que tudo destruíam. fazendo-lhe esses males. tomar conta do gado no pasto. phantasiava altercações 3 com o moleiro. porém. moinho d'agua. Trabalho suave esse. A inveja. obrigando-o a revoltar-se contra a crescente prosperidade do seu amo. estorcia-se . A' noite. Tudo isso elle fazia no intuito 7 de empobrecer o moleiro. Al/ercação. Asenlta. já se não importava com o trato das ovelhas.

Tudo. coberto de vergonha e humilhação. porque de uns tempos a esta parte tenho observado a baixeza de tua alma e a inveja de que está penetrada. mudando de estratégia 4. art6. E jurou vingar-se. com teu fingido amor ao trabalho. para confundir-se com o matto e approximou-se do moi- 1 2 3 4 Solicitude. Estratégia. que eram bravos. e observado a sua inveja. . Não havia uma estrella no céu. E partiu. de cabeça baixa. agora te conheço melhor. Desígnio. Então. pé ante pé. porém. Propicio. chamou-o á sua presença e falou-lhe duramente : —Tu és um máu homem. A noite tinha cahido de todo. benigno. E despediu-o. estava fechado. Armou-se de um punhal e encaminhou-se para a casa do moleiro. diligencia em fazer qualquer coisa. e elle receava acordar os cães. Vai com Deus. resolveu vingar-se de outro modo: quebrar a roda do moinho. dado alguma roupa e conselhos úteis de moral. tenção. de cócoras.36 LILRO DA INFÂNCIA seu empregado. O nosso homem sahiu. favorável. De hoje em deante ficas dispensado do serviço da minha casa. a principio conBeguiste illudir-me com tua falsa solicitude *. depois de lhe haver pago o que lhe devia. malícia de fazer qualquer cousa. Tudo era propicio2 para a realziação dos seus desígnios 3 criminosos.

estava nesta posição quando um grosso jacto x d'agua se desprende de cima. 1 Jacto. Como era dotado de muita força. quando o moleiro soube do occorrido2. 2 Occorrido. acontecimento. pensou quebrar um por um todos os raios. .LIVRO DA INFÂNCIA 37 nho para quebrar-lhe a roda. ergueu os mãos ao céu e rogou a Deus repouso para a alma daquelle infeliz. arremesso. e. No outro dia. agarrou num dos raios. e mata o desgraçado sem lhe dar tempo de gritar por soccorro. suspendeu-se. apanha a roda. com o auxilio dos pés. fal-a virar impetuosamente.

ondear. ponta. olhando a terra que se afasta aos poucos e se vai sumindo á proporção que a náu caminha. alegremente. O navio. andrajo.CALMA NO MAR O céu está todo azul. Limpides. Topo. Ondular. no topo6 dos mastros. O mar. suas rudes e melancólicas bailadas repassadas da mais dorida saudade 1 2 3 4 5 Farrapos. Os marinheiros. zephyro. como bandeiras. Atira. . vento brando. trapo. cantam em coro. em baixo. apenas uns farrapos' de nuvens brancas maculam de longe em longe a limpidez2 do céu e ondulam3 soltas. fazer ondas: mover-se como ellas. soltas as velas ás auras4 marinhas vai resvalando de manso a flor das águas. de uma transparência de espelho . tem movimentos vagarosos e regulares. pureza.

Rola dos ares. Mata a neve cada arbusto. sussurro. A neve fluctua 1. 1 Fluctaur. Cai sobre tudo e se espalha Como uma branca toalha Sobre a estrada immensa e nua. O vento causa arrepio Aos medrosos passarinhos. Que se arrepiam de susto. murmúiio. . folha a folha. desfolha As arvores.INVERNO Inverno. Ha como um coro de maguas No borborinho 2 das águas Que descem campina fora. O vento assovia e chora. vagar. andar á tona. barulho. 2 Borborinho. Que se encolhem em seus ninhos Desesperados de frio.

furiosamente. Um velho mastim 3 vadio Todo transido 4 de frio Uiva ao céu sinistramente 5Não ha calor nem conforto . Cai sobre tudo e se espalha Como uma branca toalha Sobre a estrada immensa e nua.40 LIVRO DA INFÂNCIA No céu ha nuvens sombrias 1. esmorecido. 1 2 3 4 5 6 Sombria. ás doudas 6. O inverno é feio e inclemente 2. As roseiras das estradas Estão todas desgalhadas A' fúria das ventanias. Transido. Das quatro estações. de modo sinistro. impiedoso. molosso. A neve desce. fluctua. escura. cão grande. que causa medo. de certo. Sinistramente. Mastim. carrancuda. doudamente. de todas. Tudo parece tão feio ! Parece que tudo é morto ! De neve tudo coberto. . Não ha rumor nem gorgeio. A's doudas. Inclemente. O inverno é a peor. que não tem clemência. Os ventos correm.

os rigores do inverno. Júpiter3. pae dos deuses antigos. animava a verdura dos campos e fazia nascer os fructos. as ovelhas com as feras. 3 Júpiter. da mythologia. . nem a ameaça das tempestades. possuia uma boceta. cobra. e que continha todos os males que a humanidade soffre actualmente. que estava fechada. onde todos se amavam egualmente e estavam unidos por um affecto fraternal. como uma mãe carinhosa. 2 Réptil. porém. sem guerras nem disputas. Qs animaes viviam da mesma fôrma. Não havia a pobreza. os pássaros com os reptis2. Desta maneira todos se sentiam absolutamente ditosos. uma primavera continua refrescava os ares. religião dos povos antígos. O mundo era composto de uma só familia. Não se conheciam os ardores do verão. produzia fructos para o aumento de todos. viviam na maior harmonia. 1 Mgtholoi/ica. porque a terra.A ESPERANÇA A crença mj thologica 1 nos conta que os povos antigamente eram felizes.

Esta deusa guardou a boceta durante muito tempo. E' porisso que t'a confio. lanças. mas como era excessivamente curiosa. armadura com que SÍ vestiam os soldados para proteger o peito. para. a guerra. a ingratidão e todo o gênero de soffrimentos a que o homem está sujeito. como não quizesse abandonar a boceta á curiosidade dos outros deuses. settas e toda a variedade de armas de defesa. marchar para o campo da batalha e escravizar os povos vencidos. 2 Couraça. a peste. Júpiter.42 LIVRO DA INFÂNCIA Nellaestavam occultas a amargura. as lagrimas humedeceram os olhos das mulheres. a humanidade ha-de soffrer eternamente. habitação dos deuses da mythologia. couraças 2. na certeza de que saberás guardai-a com o maior cuidado. A principio escapou a guerra: logo os homens começaram a inventar os punhaes envenenados. resolveu abril-a. Abriu-a. * x o . a fome. o filho ri1 Oli/mpo. si a abrires. E entregou-a a Pandora. não só pelo respeito que deves ás minhas ordens. como pela piedade que te inspira a fraqueza humana. Um dia. tendo de descer do Olympo x com o fim de visitar a terra. chamou Pandora e falou-lhe assim: —Toma esta boceta. o assassinio. EUa contém toda a espécie de males creados pelas forças infernaes. quando fosse occasião. o falso amigo escondeu no seio o punhal assassino. A peste abateu os soldados .

e assim por deante os males foram sahindo da boceta encantada. para consolar as maguas e animar o mundo. A esperança ficou no fundo. escondida. Pandora sentiu remorsos nesse instante e fechou a boceta.LIVRO DA INFÂNCIA 43 dicularizou a velhice dos pães . sempre nos resta a esperança de alcançarmos uma felicidade futura. por mais infelizes que nos julguemos. porém. de modo que. accordaudo sentimentos maus nos corações e derramanáo por toda a parte a desolação e o lucto. espalhando-se pelo mundo. Todos os males. . já tinham sahido excepto um: a esperança. um suave descanço para as nossas tristezas e um consolo para as nossas afflicções.

poderoso rei! em tuas mãos está o sceptro2 d'ouro deante do qual se curvam oscortezãos e todos os validos 3 do reino . de que tira celestes harmonias e musicas sonoras. Saúde. que empunha um instrumento de cordas. «Viva. 3 Valido. 2 Cortessão. é um velho de barbas brancas e cabellos longos. formosas damas! 1 Vassalo. subdito do soberano. . robusto. Urrah. homem da corte. na presença dos sob meus vassalos . poderoso. —Faze-o entrar. ó pagem louro? —Rei. adquiridas no serviço do rei ou ganhas nos campos da batalha. e dize-lhe que venha cantar x meu throno. as melancolias de sua alma. nobres senhores! em vossos peitos se ostentam condecorações de honra e medalhas de valor. palaciano. lindo pagem. ao teu mando os exércitos se movem. como servos submissos. obedientes. aos caprichos do teu desejo.O TROVADOR SCANDINAVA) (BALLADA —Que é que ouves á porta.

pedaço de ouro. humedecer a rugosidade das minhas palpebras com algumas gottas de saudosa lagrima. A fonte do meu pranto está sêcca. a quem o canto era dirigido. atear.rei. accender o fogo. arrancado ao fundo de sua alma. Os homens abaixaram a cabeça para esconder as lagrimas que lhes subiram aos olhos . Aspiração. combate. Toma esta barra 8 de 1 2 3 4 6 Infiammar. levou aos olhos a ponta do manto. desde que subi ao throno sobre o qual se sentaram meus antepassados illustres4. experimentado nas lides 3 da miséria. Lide. com as harmonias do teu canto. que anda pelo mundo despertando nos corações alheios as amarguras adormecidas». após tantos annos de odiosa indifferença. Eu sou um pobre velho. Na guerra vi meus amigos e companheiros de infância cahir crivados de balas ou rasgados pelas lanças. acostumei-me a assistir ás dores de outrem de olhos enxutos e coração fechado. enxugou uma lagrima sentida e disse: —Velho. curvo ao peso doa annos. avós. disputa. —Canta. Mas tú. vontade elevada. O. Antepassados.LIVRO DA INFÂNCIA 45 vós inflammais1 os peitos dos jovens e despertais em suas almas as mais extranhas aspirações 2 de gloria. velho. Barra. desejo ancioso. trovador. conseguiste. . O velho fechou os olhos e entoou um canto triste. as moças tremeram á vibração do instrumento e choraram ao echo das suas notas.

2 Lenir. .46 LIVRO DA INFÂNCIA ouro. bom rei! Agradeço o teu ouro. —Obrigado. —Obrigado. encostar-se.Quero apenas um pouco de alimento para matar a minha fome e um copo de água fresca para 2 lenir a minha sede. quero sahir. aliviar. é mais pesada que o bastão a que te animas 1. O trovador sacia-se nas iguarias reaes. 1 Arrimar-se. minhas tristezas interrompidas. Dá-me agora a liberdade . . dae ao velho o resto do meu banquete. abrandar. bom rei! Que a lagrima que derramaste te faça lembrar do trovador humilde. para continuar no silencio da noite. —Servos. sob o fulgor das estrellas.

em franca intimidade. amigo. mas tu perdido estás. diz: «João. imitar. José. forte. arremedar. . Destemido. a pé. Por acaso. a andar de vagarinho. feliz.OS DOIS VIAJANTES (FÁBULA DE FLORIAN) O João e o José. com terror. emquanto um ladrão. muitos ladrões ferozes. Ao vel-os. O compadre José vê. amigo. á próxima cidade. João. venturosa. plagiando 4 a phrase Do companheiro. quasi A empolgar 3 o José. não senhor. Encaminham-se. deante De si. mas para mim. nós estamos perdidos»! Ora.» João nada mais diz. essa escola não sigo: Para nós.» 1 2 3 4 Prospera. não senhor. Diz João : «Para nós a próspera x fortuna!» «Não. Mas antes que José com o dinheiro se muna. que não teme. tomar com força. responde José. destemidos 2 . Mas nesse mesmo instante. Acha uma bolsa de ouro á beira do caminho. «Essa escola não sigo : Vos. cliz. se vai chegando. Empolgar. agarrar nas unhas. Plagiar.

48 LIVRO DA INFÂNCIA Acto continuo \ foge. Jamais encontrará quem de si se condôa 4. ter pena. O avaro 2 companheiro Vê-se obrigado a dar aos ladrões o dinheiro. doer-se. dito grosseiro. quando a fortuna é boa. 1 2 8 4 Acto continuo. immecliatamènte Avaro. Quando vier a desgraça. sentir dó. avarento. no mesmo instante. • Condoer-se. Chalaça. mesquinho. . Quem só trata de si. E maldiz de João a cômica chalaça 3.

signal hieroglyphico que dá a conhecer alguma cousa. Amo este objecto como a um filho dedicado l e á noite. meu Pae ? Ella é tão feia! —Não sei si ella é feia. activo. . meu filho. único companheiro da mi- 1 Dedicado. beijo-o com fervoroso2 carinho. —Mas porque é que amas esta medalha. o único amigo que tive. ha muitos annos. feita de metal tão commum.O ABYSMO (PARÁBOLA) Certo velho mostrava ao filho uma pequena medalha de bronze que tinha suspensa ao peito e que guardava. que tem dedicação. sei apenas que ella é um symbolo 3 que constitue para mim a mais cara recordação da minha vida. E disse : —Esta medalha que vês. affectuoso. Ha tempos. não a daria eu por uma bolsa de ouro nem pelas glorias terrenas a que a vaidade aspira tanto. de aspecto insignificante. com religioso carinho. férvido. •3 Symbolo. 2 Fervoroso.

abriu muito os olhos e parece que soltou por elles todo o extremoso l amor com que me amava. Intimo. apreço. deu-m'a no leito de morte. Meu primeiro e derradeiro amigo ! Quem me dera tel-o ao meu lado. dar valor. Valorisar. roida. . desvelado. trajado como um fidalgo. carinhoso. vestir. porém. agarrou-me as mãos. porque esta medalha te é tão cara. hoje que a fortuna entrou em meu lar ! —Comprehendo agora. —Porque. rapaz? —Por ser muito feia e eu só gosto das coisas formosas que agradem á vista. Então o pae falou: « Nunca devemos amar as coisas ou pessoas só pelo aspecto externo que as reveste 2 : devemos penetrar-lhes no fundo. Carcomida. fundo. Revestir. mostrando toda a pobreza em que vive. Eu. coberto de andrajos. cobrir. depois de a ter beijado. outras vezes encontrarás num homem humilde. excessivo. estudar-lhes o intimo 3 a ver si essas pessoas têm qualidades nobres ou essas coisas qualidades que as valorizem 4. apparentando os mais elevados sentimentos. meu Pae. não a amaria nunca. interno.50 LIVRO DA INFÂNCIA nha miséria. apodrecida. Muitas vezes um bello homem. Ao expirar. e morreu. um coração 1 2 3 4 5 Extremoso. carcomida 5 de vicios e envenenada cie remorsos. occulta uma alma ruim. fosse qual fosse a recordação que ella me trouxesse ou o symbolo que representasse.

.LIVRO DA INFÂNCIA 51 nobre. vou pelo bosque gosar a frescura das folhagens e o aroma das relvas. cheio das mais santas delicadezas de sentimentos. 1 Sinuoso. caminho estreito. que faz voltas. 2 Atalho. muito satisfeitos com sua existência. a passo. pois. sigo pelo atalho. de um lado ficava um sinuoso l atalho 2 e do outro uma entrada de bosque sombreado de arvores floridas. Chegaram a um logar onde a estrada se dividia . O segundo entrou no bosque. quando foi pisar a relva. Dois amigos seguiam por uma estrada. Separaram-se. —Eu. respondeu o segundo. poderei prever qualquer perigo. Deu alguns passos avante. que é descoberto . 3 Galharia. Vou-te contar. mas. —Eu. por onde a luz se coava brandamente. O solo era todo coberto de 3uma grama verde e fresca e por cima a galharia das arvores trançava-se fazendo um tecto meio escuro. uma pequena historia de que poderás tirar algum proveito mais tarde. O primeiro caminhou adeante sem embaraço nem perigo. tortuoso . porção de galhos. o solo faltou-lhe e o desgraçado rolou e desappareceu num abysmo que se abriu. disse o primeiro.

Nunca te deixes arrastar só pelo aspecto das coisas. os abysmos e os despenhadeiros * são sempre cercados de flores e vegetações formosas . meu caro filho. . mas si te approximares dellas para gosar de perto a frescura perfumosa das flores.52 LIVRO DA INFÂNCIA Eis a minha historia. precipioio. 1 Despenhadeiro. encontrarás a morte adeante e nem tempo terás para o arrependimento dos peecados.

NAUFRÁGIO Nuvens grossas. O navio segue. . Intumescida. passageiros de uma embarcação. Desencadear-se. a cordoaíha * embaraça-se. humido e cortante. . as velas palpitam intumescidas ' . O mar está agitado .s 1 2 3 4 5 Accumular-se. Tripulantes. amontoar-se.á tona apparece um lençol de espumas brancas. soltar-se com fúria. inchada. juntar-se em monte. as cordas que prendem as velas e petrechos do navio. negras. dobram sobre si mesmas e caem pesadamente com um ruido medonho . O terror está pintado no rosto de todos os tripulantes * Ha um desespero geral. em arrancos. passa em uivos. vão-se accumulando* no céu escurecendo-o todo. revolvendo as águas. as ondas levantamse a uma grande altura. A tempestade desencadeia-se. gritos de medo e gestos de revolta. Cordoaíha. supplicas interrompidas. agitando-as cada vez mais. O vento.

apenas. apanha o navio. 2 Xaufrayos. fragmentos x de madeira boiando e alguns náufragos 2 que surgem á flor d'agua no desespero da morte. envolve-o todo e abate sobre elle com todo o seu peso.54 LIVRO DA INFÂNCIA Uma onda. alta como uma montanha. que vem correndo impetuosamente. . 1 Fragmentos. de longe em longe. pessoas que perecem no naufrágio. Embarcações e tripulantes desappareceram. pedaços.

. passarada.DE VOLTA DA GUERRA Aqui me vou. O ambiente2 que me envolve é tão pesado! Como tudo está triste. ó sol nascia . E eu caminho por ella. . 2 Ambiente. bando de passarinhos. Como um mendigo. Fiquei com os olhos humidos de pranto . Pedregosa. Minha esposa. como tudo Tão transformado! Esta estrada que sigo é longa e recta.. meus filhos nesse dia Choraram tanto ! 1 Passaredo. sem fim e sem abrigo. vagarosamente. que intima saudade Da minha gente! O céu é negro.. Quando fui para a guerra. ar que se respira. de muleta.. Que angustiosa. o passaredo * mudo. Quanta afflicção me invade I Andando a passo.

Com os companheiros. Tive amarguras fundas e pezares. saltar sobre alguma cousa. Em companhia dos fieis soldados. Sobre terras extranhas. Esfarrapado. que a julguei eterna. Pródiga. diz-se do mar quando está agitado. Recta e longa. Renhida. Vacillante. antes da guerra.1 Andei á margem dos despenhadeiros. sem fim e sem abrigo.56 LIVRO DA INFÂNCIA Abandonei a minha pobre terra. . disputada. generosa. declive de um monte. Desci montanhas e galguei * encostas. sobre mares Eneapellados 3. Victorioso. Mas sentindo-me então. fraco. ladeira. correr. A guerra durou annos . transpor. Avante sempre. foi renhida 6. E parti para a guerra. tão longa. Encapellado. Encosta. Longa. de espingarda ás costas. revolto. afinal passou. sem descanço e sem repouso. Uma bala. E marchei. incerta. 1 2 3 4 •5 p Salgar. que vacilla. E aqui me vou por esta estrada recta. mas a sorte Pródiga 4 e incerta. Como um mendigo. má e vacillante5. perdida Partiu-me a perna. Poupou a minha vida expondo-a á morte A todo instante. de muleta.

Dizia a primeira: —Eu sou a mais bella de vós todas. Polpa. pelle do rosto. E para mostral-os. ficou em pé de encontro ao sol. . e a vaidade é para a maior parte dellas a preccupação constante. Fazia um calor estivai l . de verão. da fructa). Auréola. Como eram meninas ricas. —Eu tenho as mãos encantadoras. de estio. 1 2 3 4 Estivai. onde as cigarras cantavam. tenho a cutis 3 fina e rosada como a polpa de um pecego 4. cujos raios formaram uma auréola2 de ouro em torno á sua cabeça. porque tenho os cabellos claros e quando o sol os illumina dá-lhes um reflexo dourado. Cutis. a conversar. abrigadas á sombra de uma velha arvore.VAIDADE Estavam reunidas cinco meninas no campo. a parte mais carnosa (do animal. A segunda disse: —Não sou menos bella que tu. falavam a respeito da belleza de cada uma. Todo o resto da campina estava inundado de sol. circulo luminoso.

educar o vosso espirito nas boas leituras. 1 Mazonar-se.da vida e com a edade. mais luzimento. nos exemplos bons.LIVRO DA INFÂNCIA E assim cada qual enumerava seus encantos. por mais notáveis que vos pareçam. com os innumeros accidentes . Minhas meninas. . dará um imperecivel realce 3 aos vossos encantos. jactar-se. nunca vos blazoneisx de vossos encantos physicos e do vosso aspecto externo. côr que realça. orgulhar-se. acontecimento. 2 Realce. nos actos nobres. 3 Acciiente. acaso. em vez de occultal-os ou disfarçal-os como manda a boa educação e a modéstia. porque a belleza com que a natureza vos dotou desapparece facilmente com as moléstias que se adquirem. mais luz. fazendo-os sobresahir do melhor modo possível. que decorre da elevação do espirito. que sereis mais bellas ainda e a sympathia. Deveis ser modestas.

cantando). Soldados todos em fila Começaram a marchar. Rente ás espumas cio mar. Vão marchando em linha£ rectas Numa ordem militar Ao barulho das cometas. vagarosamente. Coro Numa tarde amena e fresca O rei ordenou marchar Toda a sua soldadesca /^ Nas-aiw*& praias do mar. '/ &Àod } J y^j -AJ . Dos tambores ao ruflar. Começam a virar.O FUGITIVO (JOGO INFATIL) (Reune-se um certo numero de creanças. v 0'\ E sob a tarde tranquilla. que se prendem umas ás outras pelas mãos. fazendo uma roda. da esquerda para a direita.

(Saem todos apressadamente em procura do fugitivo. Para depois ser lançado A's fúrias bravas do mar. agarram-n'o e collocam-n'o no meio da roda). Para ser lançado ao mar. O Rei Que seja preso em corcente. desprende-se da roda. foge e esconde-se). (Uma das creanças. (E expulsam da roda o fugitivo). Lançado ás ondas do mar Aquelle que em minha frente Não me saudou ao passar. Coro Eis aqui o fugitivo Que o rei se dignou mandar Trazer em ferros. . Fazem respeitosamente Continência militar. Coro Que seja preso o soldado Que o rei manda acorrentar. que ficou incumbida de fazer o papel de fugitivo. captivo.60 LIVRO DA INFÂNCIA E quando chegam em frente Do rei que os estava a olhar.

A PRIMAVERA

Desponta clara a manhan; Os passarinhos em bando Cortam os ares, cantando Numa alegria louçan *. A primavera derrama Uma agradável frescura Sobre a nascente verdura; Dá côr ás flores na rama. O ar festivo do arrebol2 Dá-nos as belias primicias Das esplendidas caricias Dos dias claros de sol. Nasce a rosa; brota a espiga; O boi vai para o trabalho; A abelha, de galho em galho, De grão em grão, a formiga.

1 Louçan graciosa, viçosa, que será bem trajada. 2 Arrebol, côr vermelha das nuvens feridas pelos raios do soL

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LIVRO DA INFÂNCIA

A linda e fresca estação Vai afugentando em cima A nuvem que se approxima Como densa cerração. De pé em meio á pastagem, O zagal 1 saúda a aurora Com a harmonia sonora Da sua flauta selvagem. Vaccas que estão a pastar, Em grupos, pelas campinas, Respiram pelas narinas A doce frescura do ar. Camponios, mal nasce o dia, Com as enxadas ás costas Lá vêm descendo as encostas Para as labutas - do dia. Já despontou a manhan ; Os passarinhos em bando Cortam os ares, cantando Numa alegria louçan.

1 Zagal, pastor. 2 Labuta, lida; trabalho laborioso.

O CÃO

Alfredinho possuía um cão que se chamava Lobo. Era grande como os maiores da sua raça, o pello crespo, inteiramente negro e dotado de uma coragem e força que o faziam temido por todos. A' noite, quando o soltavam no quintal. Loho escondia-se na sombra dos muros, e ahi ficava, immovel e alerta, á espera dos ladrões. Mas estes, que lhe temiam a ferocidade, não se arriscavam a galgar o muro. Emtanto este cão, apesar do seu aspecto feroz, dos seus olhos sangüíneos e duros, que fitavam tudo com aspereza, e da sua bocca rasgada, guarnecida x de dentes afiados, era manso como um cordeiro para o seu pequeno'amo, que lhe alizava o pello e lhe dava beijos no focinho. Viam-n'os sempre juntos, Alfredinho e Lobo, amigos inseparáveis,—aquelle, mal sustentando-se nas pernmhas fracas, este, ostentando sua corpulencia de fera. A's vezes iam passear juntos até ao campo, e Lobo acompanhava o seu amiguinho, seguindo-lhe todos os movimentos, obedecendo a
1 Guarnctida, enfeitada, adcreçada.

quando tinha trez annos. num desejo de adivinhar os seus mais Ínfimos * pensamentos. era um menino doente. não sem ter lançado de soslaio 4 um olhar invejoso sobre o cão. fraco. Débil. fazia-lhe todas as vontades. com medo de contrarial-o ou aborrecel-o. Certa vez. satisfazia-lhe todos os desejos. o seu corpo volumoso ornado de um pello crespo e macio. viver após a morte de outrem. Retribuir. 1 2 3 4 5 6 ínfimo. muito amante de cães. que não tem valor.64 LIVRO DA INFÂNCIA todos os seus gestos. um homem rico. zangando-se com os creados si lhe davam uma ração pequena ou si lh'a davam com grosseria. e o seu peito largo e forte como uma couraça. De soslaio. dizendo : — Este cão é o melhor amigo do meu filho. comprehendia esta dedicação e retribuía 2 ao seu amigo do mesmo modo. não havia ninguém que não admirasse Lobo. tal será o desgosto que ha-de sentir. O pae recusou-se a vendel-o. que o amava muito. O homem foi-se embora. animal feroz. tratando-o com o maior carinho. de esguelha. como as de um leopardo 5. insignificante. Sobreviver. Alfredinho. atravez. extremamente débil6 Seu pae. Alfredinho. dar a recompensa merecida. Leopardo. . meu filho não poderá sobreviver-lhe 3. Alfredinho. De facto. dirigiu-se ao pae de Alfredinho e offereceulhe uma somma avultada para a compra de Lobo. Si algum dia este digno animal perecer. delicado. as suas patas enormes armadas de unhas pontudas e curvas. com ser uma creança de cinco annos apenas. franzino. acompanha-o por toda a parte.

O cão entrou. — Era um cão muito magro. ficar com o cão. á noite soltavam-n'o no quintal para defender as gallinhas e as hortaliças do assalto 3 dos malfeitores. tremendo de frio. Alfredinho. duvida. receio. ataque violento. chorou e bateu o pé. pediu ao pae com os olhos cheios de lagrimas que recolhessem o pobre cão. das delicadezas de que era cercado. em que o vento passava impetuosamente em uivos prolongados. Seu aspecto era repugnante : magrissimo. 2 Escrúpulo. nunca abusou. ouviu um gemido triste que vinha da rua. que lhe dessem agasalho. . espécie de lepra na cabeça. dotado de sentimentos generoEOS e boa alnp. sacudindo a cauda.LÍVR0 DA INFÂNCIA 65 porém.. Nessa época. encharcado da água da chuva. e em pouco tempo tornou-se um animal lindo e afagado por todos. Durante o dia seguia Alfredinho aos passeios. arremettida súbita. 3 Assalto. as costellas salientes. disseram. piedoso como era. e coberto de lepra. o cão foi engordando. sujeitando-se ao tratamento da lepra que lhe cobria o pello. fazendo-o rir com suas graças. Deram-lhe o nome de Lobo pelo ar selvagem que tinha. num dia de muita chuva. Mandou ver o que era. que o pae resolveu. O menino tanto insistiu. 1 Tinha. Pouco a pouco. tremulo de susto. alimentando-se bem. Alfredinho. não sem escrúpulo2 e nojo. como fazem geralmente as ereanças da sua edade. immundo e coberto de tinha \ Todos recusar?m-se a recebei-o.

veneno. 1 2 3 4 5 Touça. arrastando-se pelo chão. voltou-se de repente e atacou-a em botes furiosos. touceira Peçonha. Lobo. penetrado de dores lancinantes 4. depois de haver pedido licença ao pae. gemia. exgottado de forças. porém. Cançado. Presentir. arrastando-se por entre as folhas. sentir qualquer cousa antes que ella succeda. . approximou-se do logar em que estavam. o cão. crivada de dentadas.66 LIVRO DA INFÂNCIA O seu pequeno amo. Nesse instante uma cobra traiçoeira. lambeu-lhe as mãos carinhosamente e morreu num doloroso gemido. que a tinha presentido 3 . Matou-a. escondia-se nas touças x de verdura. Lancinante. uma manhan. Lobo. rojando-se5 no chão. Alfredinho corria pelos atalhos. Pobre e fiel animal! Minutos após. que tinha sido picado. a defender o seu querido amiguinho. de tanto brircar. disposto. prompta 2 para picar a creança e matal-a com sua peçonha mortal. si fosse preciso. O cão deitou-se também. chegou até onde estava o seu amiguinho. tentando illudir a vigilância de Lobo. alerta sempre contra qualquer perigo. deitou-se na relva e adormeceu. andar de rojo. Emquanto a serpente estava estrebuchando no chão. convidou-o a um passeio ao campo. O cão acompanhou-o. para caçar borboletas e cigarras. Rojar-se. dolorida.

. as maguas que soffrera longe dos seus. bello como os mais bellos da sua tribu3. 3 Tribu. a meia voz. do alto. vagarosamente. as azas abertas.A YARA ' (BALLADA TUPY) Rio abaixo descia a veloz ygara2 impellida pelo remo. robusto e valente. cantava á proa. 5 Destacar-se. segundo a crença dos indios 2 Vgara. A lua. A ygara corria. sobresahir. A tarde ia descendo. nas perigosas caçadas pelo sertão bravio. cortando o ar em longos e reguláres giros. uma canção melancólica. As águas espumavam em torno. Um moço tapuio. Pássaros selvagens recolhiam-se em bando. * Crepuscular. de crepúsculo. espiava. gênio máu que tem a forma de uma mulher. em que dizia os combates que ferira contra as tribus inimigas. embarcação tosca dos indios. O sol ha muito tinha cahido. 1 Vara. porção de indios reunidos. destacando-se5 na transparência do azul como uma mancha luminosa. Uma tristeza crepuscular 4 invadia as várzeas.

saraiva. suspensa. orvalhada. tem os olhos fixos no céu. gentio. tão branda. foge !» A Yara. que as roça apenas sem as agitar. A ygara continua a correr. á tona do rio. Ha um grande silencio. Ella tem os cabellos louros como as barbas do milho. os dentes brancos como o granizo 3 que cai com as grandes tempestades. a cabeça airosa 5 apoiada numa das mãos. a Yara apparece á flor d'agua. graciosa. tapuyo ! volta a tua canoa. selvagem. verão. rio abaixo. Minha bocca é perfumosa como a flor do valle rociada 7 da neblina matinal. embevecida 6 na contemplação dos astros. Todas as noites. enlevada. accórdo o silencio da matta com as sonoridades do meu canto. sob a claridade pallida da lua. Durante a noite. A Yara canta: « Nunca olhos humanos fitaram belleza egual á minha. os olhos azues como o céu nas madrugadas do estio 4 Não te approximes delia. Foge. impellida pelo remo. Granizo. tapuyo! Em seu palácio encontrarás a morte. foge e entra na taba 2 dos teus pães antes que a noite chegue. Estio. á flor d'agua. habitação de selvagem. . Embevecida. As folhagens estão mudas . Airosa. molhada de rocio. corta a correnteza das águas. a estação mais quente do anno.68 LIVRO DA INFÂNCIA « Tapuyo . 1 2 3 4 5 6 7 Tapuyo. a viração que passa é tão Jeve. Taba. tapuyo. Rociada. o corpo envolvido na onda dos cabellos de ouro.

E a Yara foi-se chegando a elle. espumaram. tentou. Seus músculos estavam frouxos. 2 Deslumbrado. fascinadosJ de admiração e espanto. Approximou-se cada vez mais. Era tarde. allucinado. 1 Fascinado. Ella agarra-o. fecharam-se sobre os dois e foram escorregando pelas várzeas em flor. voltar a proa da ygara e fugir. desço ao meu f alacio de ouro.. As águas abriram-se. resvalando de onda em onda. com um movimento rápido do remo. envolve-lhe o corpo na túnica longa dos cabellos. que fulgura no fundo do rio. encantado. O tapuyo appareceu. e leva-o para o fundo do rio. seus braços pendiam amollecidos de cançaço. onde seaccumulam os maiores encantos da terra. deslumbrados 2 de encantamento. . O tapuyo resiste. Prevendo o perigo a que se expunha e a morte horrível. os olhos presos na Yara.LIVRO DA INFÂNCIA ^69 E quando o somno me vence e me vai obrigando a fechar as palpebras.

victoria. Uncção. bancos de areia no mar. ó Mãe de Deus. Dae-lhes a uncção 3 do vosso olhar. Temem as syrtes 3 e os escolhos *. Não peço glorias nem trophéos G Que as amarguras não compensam: Apenas quero a vossa bençam. O camponez não queira o buz 7 Dos vossos olhos e nem vol-o 1 2 a 4 6 Asperrima. Dae-lhes a uncção dos vossos olhos. beijo : signal de reverencia. muito embora. osculo. muito áspera. penhascos: pedras debaixo da água. Trilhar. acto de ungir.muito perigosos. « Trophéo. . andar caminhar. Syrtes. insígnia militar.PRECE Santa Maria. 7 Buz. Só. illuminae A estrada asperrima' que trilho 2 : Ah ! por amor de vosso Filho! Ah ! por amor de vosso Pae ! Aos marinheiros que. Escolhos. no mar.

pedra preciosa azul. . ao moribundo. enxovaes .LIVRO DA INFÂNCIA 71 Peça. Dae-lhes o goso do outro mundo Longe das chammas infernaes. dae-lhes uma tira Do vosso manto de saphyra2 Para as feridas encobrir. Saphyra. Immaculada. Ao miserável que cahir. Ao roto. espécie de casaco . mas peça um ferragoulq' Para cobrir os hombros nús. pura. Ao peccador. flguradamente o ceu. tecto redondo. Abobada. O' immaculada4 Conceição ! Santa Maria. Dae-nos do vosso olhar a uncção! E que sejais sempre bemdita Lá nessa abobada 3 infinita. illuminae A estrada asperrima que trilho! Ah! por amor de vosso Filho ! Ah! por amor de vosso Pae! 1 2 3• 4 Ferragoulo. que não tem mancha. limpa. gibão. A's noivas pobres.

O ALEIJADINHO De quando em quando. arrimado a uma muleta. O aleijadinho morava no meio de uma floresta numa velha choupana coberta de telhas de zinco' com seu pae. laia a pobre creança para a povoação. Todos o conheciam e davam-lhe pequenas esmolas. que ha muitos annos gemia no fundo do leito. O filho era o seu único amparo. faltar. entrevado • pela enfermidade. amontoado. os medicamentos que lhe aconselhavam para suavizar-lhe as dores. arrastando-se pelas estradas. uma moeda. nos dias de missa ou de festejos religiosos. e quando o sustento escasseava8. o aleijadinho appareeia. * Agglomerado. a que elle com sua vozinha sympathica agradecia. junto. levava-lhe a comida á bocca. gulodices. um pedaço de pão. emquanto o povo estava agglomerado ' em torno da egreja. s Escassear. d o s m escasso sem poder fazer movimentos. dava-lhe água. e ia implorando esmolas com o chapéusinho no ar. "•"»*««• . tornare m ° ™ * : ou minguado íf/Td0' }°^iá0 . dizendo : —Deus lhe pague.

conformada. a tudo o pobresi* nho respondia sorrindo. ninhos. sem medo aos lobos nem ás feras. quando entrava na choupana. . para que a noite o não surprehendesse em caminho. muito alegre. distribuía tudo entre as creanças. Entrava pelas casas de famílias e desde a entrada ia gritando: —O aleijadinho! As creanças corriam a recebel-o. e muitas invejavam a sua existência humilde. inventava novellas de fadas. que nunca se lhe viu uma lagrima nos olhos nem um gesto de revolta na candura do seu rostinho. Tirava dos bolsos ovos de passarinhos. das tempestades do invern%' e. de soffrimento em soffrimento.LIVRO DA INFÂNCIA 73 Pedia esmola aos passeantes e tudo que lhe davam guardava numa saccola. a coragem que tinha de caminhar pela floresta em noites escuras. as esmolas que havia recebido. castellos encantados. para illudir a miséria da sua vida. doces. iníelligente como era. ignorante dos gosos da fortuna. Ia-se embora apressadamente. contando historias muito bonitas a respeito de cada objecto. que tem resignação. E assim ia vivendo a miserável creança. começava a mostrar ao pae. pedras de varias cores. davam-lhe roupas novas. mas tão resignada ' sempre. e contava historias curiosas de passarinhos. Perguntavam-lhe si havia almas do outro mundo na escuridão da matta. e. Resignaía.

rogando a Deus repouso para a sua alma. . Lastimar. deplorar. supplicantes. e muitas mãosinhas se ergueram ao céu. Todos o choraram. em alguma noite escura. todos começaram a pensar que as feras decerto o tinham devorado e ao seu velho pae. dar mostras de dor.74 LIVRO DA INFÂNCIA Passado algum tempo. lhe lastimaram * a sorte. no silencio da floresta. compadecer-se. Houve nos corações das creanças um enternecimento geral. como o pobresinho não apparecia mais na aldeia.

4 ímpia. occultando sob os andrajos o producto do seu roubo . um mercador sentado em uma pedra a contar o dinheiro ganho com usura 2 . 1 Imprecação. uivaudo de fome pelas ruas. porque o fogo da forja não era bastante forte para abrandar o ferro . avareza.O CURANDEIRO Christo andava passeando em companhia de São José pelas ruas de uma aldeia.prag»/ 2 lisura. . —Que gente impia i! disse Jesus ao seu companheiro. de ar humilde de mendigo do templo. parando deante de cada porta a observar o trabalho de cada um. viu com horror alguns garotos apedrejando um velho estropeado3. esfarrapado e immundo. 3 Estropeado. e lazarentos raspando as chagas com cacos de telha. maUlição. Viu um ferreiro que dirigia imprecações ' contra o céu. cães sem dono. que não teín piedade nem religião. muita economia. magrissimos. um ladrão que passava. aleijado.

mas. crueldade. dizendo«-se milagroso. pelas tortuosas ruas cia aldeia. é perverso e cruel. —Impossível quasi. falta de religião. falou Christo. . como si se sentisse envergonhado deante de tanta impiedade * E foram caminhando. de vagar. —Cada homem destes. si é pobre. Nesse instante elles tinham passado deante de uma porta onde um curandeiro se annunciava com grandes gritos. emfim. palavras com que se apregoa. enchente. si é rico. é um revoltado da sorte. —Christo ouviu o seu pregão 3 e preguntouIhe: —Em que consistem as vossas curas milagrosas. Parece que um gênio máu ou que a cólera divina derramou sobre esta miserável terra a alluvião * de todos os peccados. sem dizer nada. annuncio. vamos ensinar a virtude com o bom exemplo ao primeiro que apparecer.LIVRO DA INFÂNCIA São José abaixou o rosto. que vive a maldizer a pobreza. Pobre gente ! —Bem difficil seria arrastal-a ao bom caminho. fazer pregão. e porque é que vos apregoais* como o primeiro curandeiro do mundo ? Que virtudes têm os vossos remédios e a vossa sciencia? Que ma1 2 3 4 Impiedade. tocado de compaixão. Apregoar. Alluvião. Pregão. para que se não diga que a nossa visita foi inútil e sem proveito. crescimento das águas. murmurou Jesus . Pararam.

não.LIVRO DA INFÂNCIA 77 gico vos ensinou tanta sabedoria ? Mostrae^me vossas virtudes todas. allivio para as dores. Collyrio. óleos para as quei-. maravilhoso. dei vista a um cego e voz a um mudo. . com orgulho. que já estava prevenido ou tinha adivinhado a intenção do Mestre. nunca vos esqueçaes de que o mundo é grande e nelle devem haver homens de sabedoria egual ou superior á vossa. Prodigioso. mas superior. pós para as lepras e collyrios s para todas as doenças de olhos. desde a infância. a que misturei umas preparações. maduras. que ha muitos annos gemia no fundo do leito. —Egual.companheiro) que. uma pobre mulher. de que eu só guardo o segredo. Tenho balsamos * para as feridas. planta medicinal com que se curam feridas. na verdade. ergueu a ponta do manto que o cobria e mostrou a perna. porém. por mais prodigiosas3 que sejam as vossas curas. talvez. ergueu-se e está hoje san com os remédios que lhe dei. tem uma enorme chaga que lhe cobriu a perna inteira e o faz estorcer-se de atrozes 4 dores. pois. affirmou com a natural soberba. cruel. —Sois. as curas que praticara : —Com óleo de oliva. muito 1 2 3 4 Balsamo. remédio para doença dos olhos. Vede si podeis curai-o. para que eu vos acredite. Atroz. —Vejamos. curei um leproso em poucos dias . Aqui está um homem (e apontou para o seu. muito sábio . disse Christo. bárbaro. São José. concertei a perna a um estropeado . O homem começou a enumerar.

e grossas lagrimas lhe molharam as barbas. José com uns óleos frescos e perfumosos. com sua evangélica modéstia e religiosa humildade. Raãificar. Christo. assombrado. Peregrino. que anda pelo mundo a alliviar as dores e soffrimentos humanos. Podeis seguir o vosso caminho. respondeu Christo. Prodígio. sonhor. O curandeiro cahiu de joelhos. Passou a mão de manso sobre as feridas de São José. que anda em romaria. O Santo começou a gemer de dor. . que sabeis obrar tão grandes prodígios4 e milagres como estes? —Um pobre peregrino. então. —Quem sois vós. milagre. maravilha. infeliz peregino % que não encontrareis cura em parte alguma.78 LIVRO DA INFÂNCIA inchada e toda coberta de chagas vermelhas e roxas. O que não puderam fazer os vossos óleos. disse-lhe: —Vós nunca soubestes curar. 1 2 3 4 Repugnância. e curou-as immediatamente. romeiro. E seguiu com São José seu passeio interrompido. O curandeiro olhou com repugnância * e unctou a perna de S. crear raizes. O homem falou : —Impossível cural-o. Essas feridas são tão velhas que se radificaram 2 por todo o corpo. cousa rara. faço eu com um gesto. nojo.

mas chorar não deves . contentamento. alegria. cuja vida é um suave paraiso Adornado de flores. que lança raios do luz. 1 2 3 4 Mísera. ás vezes. Porque não sabes quanto é bella a infância! Tu. infortúnios. quanto são breves Da humana vida as horas. desgraças. mesquinha. Do que o nosso SOITÍSO. Reveses. Entre a velhice e as tuas horas leves E' pequena a distancia . Da nossa vida misera * de dores Amargas e revezes 2 . . Choras debalde . flor. creança.A UMA CREANÇA (IMITAÇÃO DE HUGO) Choras. Júbilo. miserável. Radiosa. Porque teu pranto é menos triste. choras Porque não sabes. Os teus dias são rosas Que vicejam. Nunca invejes o júbilo 3 indeciso. alegres e radiosas * .

gárrula s creança . que fala muito.80 LIVRO DA INFÂNCIA Nessas tuas manhans de eternas galas '. 1 Galas. magniflcencias. faladora. luxos. Deixa-as em paz. . deecança. 2 Gárrula. Nunca as desfolhee. Deixa que o tempo venha desfolhal-as. pompas.

mergulhado. Entrámos em 1 EstalacWes. viram um monge de joelhos. 3 Absorvido. galgado montanhas e sentiam já tanta fadiga. Entraram num bosque onde a sombra era fresca e em cuja entrada havia uma gruta de pedras brutas.O MONGE Uns mercadores. . porque podia ser um covil de malfeitores. com suas malas ás costas. üluminada de alvas estalactites *. Mas. Penetraram. perdoa-nos ter-te interrompido nas tuas meditações. absorvido8 nas suas preces. para vender suas mercadorias. escuridão. embebido. logo que se habituaram ás trevas s da gruta. Mas a viagem tinha sido longa e elles estavam cançados. Mas o sol estava muito ardente e elles seguiram adeante. a fronte erguida.' as mãos postas. —Monge. 2 Trevas. Tinham atravessado campos. disee um delles . cautelosos. caminhavam em direcção á cidade. pedras brancas e luminosas que estio •suspensas no tecto das grutas. que resolveram sentar-se sobre a relva para descançar. não sem algum receio. Tudo estava ás escuras. concreç5e3 vitreas.

Jlateriaes. —Entrae. do matéria. viagem. receando algum sortilegio 7 diabólico . Jorrar. estúpidos. onde elles beberam até á saciedade 5. em que ha mysterio. malefício. —Nada ha. de um gesto. ao mesmo tempo. mas o poder de Deus é infinito e a sua misericórdia é sem limites. como sentissem fome e sede. mas tu deves estar tão acostumado ao jejum. Jornada. feitiçaria. longa caminhada. Sortilegio. tremeram de susto. entregou-os aos peregrinos. Os mercadores. Os mercadores agradeceram. falaram : —Na nossa longa e perigosa jornada * a fome devorou nossas entranhas e a sede seccou nossas gargantas . cumpriu-se a divina vontade. satisfacção do desejo.82 LIVRO DA INFÂNCIA tua habitação para te pedir abrigo contra os ardores do sol. comeram. fartura. arrancando do chão uns calháus que se tranformaram em pães. pobres viajantes . Então. rebentar com força. que em tua habitação nada pôde haver. e. dizendo: —Tomae . e. deante da religiosa bondade e aspecto humilde do monge. E um delles falou : 1 2 3 4 5 fi 7 Mystico. Saciedade. mas. Inclemencia. viajantes. respondeu o monge mal desperto das suas contemplações mysticas 1 Todos os peregrinos terão aqui seguro abrigo contra as inclemencias 2 do sol e contra as tempestades da noite. . fez jorrar 4 de uma fenda cia rocha um grosso fio de água clara. homens materiaes 8 e rudes. crueldade. de facto.

Os viajantes agradeceram ao monge o generoso acolhimento *. tecido de arame com puas. recebimento. meus amigos! Sabei que o ouro serve somente para corromper 2 os sentimentos.LIVRO DA INFÂNCIA 83 —Monge. para . 2 Corromper. emmagrecido pelos jejuns e cilicios ' ? —Que errada e falsa comprehensão tendes da vida. Ao menos. na pobreza em que vivo e que desprezais. porque não fabricas também o ouro para gosares as delicias da riqueza ? E porque vives occulto nas trevas desta gruta. fazer brotar a água e transformar em pães os calháus brutos. beijaram-lhe respeitosamente as mãos e partiram. agasalho. guiar. 1 Cilicio. perverter. 3 Acarretar. que usam os religiosos mortiflcar-se. sem as preoccupações que acarreta 3 a fortuna e os peccados que ella desperta. posso mergulhar-me inteiramente em minhas preces e na contemplação da divindade. si tu estás revestido de tanto poder e podes. envenenar a alma. como uma fera. e não poderá dar-me os gosos a que eu aspiro. com um gesto apenas. apodrecer. 4 Acolhimento. occasionar.

medrosa. o ouvido aguço. doído. multidões. . Fechae as portas á ventania Que vem de fora.NOITE DE INVERNO Nunca vi noite como esta agora: Ai! como é negra.. refrega de vento. Passa a rajada ' cortante e fria . de quando em quando. Choramigandos 1 2 3 4 5 Rajada. Ave. Que noite escura ! brumas e trevas. Maria ! Inquiro 3 as sombras. Inquirir. indagar. E ouço. Levas. Ai! que pungente k pensar que um bando De pobresinhas creanças nuas. picante. tremulo e brando Como um soluço. Um como choro. Pungente. como é sombria. bandos. Choramigar. Correm de brumas compridas levas ' . Corre nesfhora ruas e ruas. tomar informações. agudo. chorar a miúdo e por pouca cousa.

Nunca vi noite como esta agora: Ai! como é negrat como é sombria. Andam. Quero as janellas muito fechadas . Ave. . carne em tressalhos1: Ai ! si eu pudesse dar agasalhos A todas ellas! E tenho sustos. Fechae as portas á ventania Que vem de fora. Gênios 2 nocturnos. espíritos errantes. andar sonhando. boas flanellas. 2 Gênios. em negro bando Calmos e tristes sob as rajadas. Maria! E eu tenho leitos. Correm de brumas compridas levas . ouço pancadas Ferindo a porta. 1 Tressalhos.LIVRO DA INFÂNCIA 85 Passa a rajada cortante e fria . o frio corta. 3 Somnambular. fatias.. de certo. Vejo phantasmas. Fogão acceso. pedaços. pelas estradas Somnambulando3. Que noite escura! brumas e trevas.

A OVELHA ( F A Bü L A ) A ovelha. para dar a morte aos que te fizerem mal ? —Oh! não ! respondeu a ovelha. Expor. todos os animaes que vivem sobre a terra. fraca. que me desseis uma arma qualquer. Os animaes venenosos são nojentos e causam medo a todos. V ^m°' Tocado. animal grande. como o elephante. pois.3 têm meios de defender-se contra os ataques. explicar. que não tem força pari defeflder-se. dirigiu-se a Júpiter e expoz-lhe2 suas queixas : —Pae. Tocado. desde o inseeto ao pachyderme. sensibilizado. —Queres ter na bocca duas fileiras de dentes afiados. Queria. perém. dizei Pachyderme. muito triste por não ter forças para luctar com os cães que a mordiam. fpnfln_ KPH«Í1IÍT1V<»^^ . um dia. braveza. tocado 5 de piedade. e coragem para provocar as luctas. ferido. o lyppopótamo Indefesa. Júpiter. como os leões e os lobos? 1 '2 3 4 o Ferocidade. ou armas de defesa contra a ferocidade1 dos lobos. Eu. perguntou-lhe : —Queres um veneno occulto nos dentes. sou tímida e indefesa4: tudo me causa medo.

como os lobos e leões. pois ? gritou Júpiter. atacar. Prefiro viver assim. porém estimada e afagada por todos.LIVRO DA INFÂNCIA 87 —Oh ! não ! Os animaes carnívoros ' são tão odiosos e antipathicos! —Queres saber arremetter2. —Nada. animaes que se alimentam de carne. —Que queres. senhor. . nada quero. investir. tímida e fraca. impaciente. 2 Arremetter. 1 Uarniooros. e não seria acariciada pelos pastores. com duas pontas na cabeça ? —Oh ! não ! Eu causaria terror aos outros animaes. como os touros.

vista de terras e arvoredos. abrigava-se debaixo de uma arvore ou no fundo de uma gruta. Na primavera. Revoada. . que se mostra. chamou-o um dia e perguntou. indifferente á belleza da paias zagem . quando os rosaes da cerca estavam floridos. indivíduo que tem mania.lhe com curiosidade: 1 2 3 4 5 Ç Maníaco. cruzando-se no ar numa revoada* feliz. atravessava as campinas. curvado. Valle. arrolo. bebia água á nascente dos ribeiros6. e. volta da ave que vem voando. á noite. Alimentava-se de fructas silvestres. planície junto a um monte. o pobre rapaz passava. que o conhecia. exposto' á chuva que lhe encharcava as roupas. com os olhos fixos no chão. Exposto. louco . rio pequeno. • Bubia 8 montanhas. Ribeiro. Um camponez. os cabellos voando ao vento. sentava-se na ponta de uma pedra e adormecia. como quem procura umobjecto perdido. Paisagem. patente. os campos verdes e os passarinhos alegres. ou ao sol que lhe queimava a pelle. como um animal selvagem. Quando se sentia muito fatigado.o MANÍACO1 Viam-n'o sempre por montes e valles'.

estando adormecido em meu leito. te acompanharão nas conquistas. Legiões9 inteiras de soldados. é porque tenho certeza de encontral-os. inapto para o trabalho. Faina. —Mas como ? —Uma noite. Legião. todos os dias. Conquistar. trabalho. sobre 1 2 3 4 5 6 Convicção. —Não. —E' melhor. persuasão. tu. pois. Dedicar. tornas-te um homem completamente inútil. affirmou o moço com convicção'. que me falou mais ou menos assim : « Tu estás destinado pela sorte a ser o homem mais rico do mundo. —E tens alguma esperança de achai-os ? —Sim. exposto ao sol e á chuva ? —Procurando thesouros. destinar. nesta faina* de procurar thesouros. prova.LIVRO DA INFÂNCIA 89 —O' rapaz 1 que é que andas fazendo pelos campos e bosques. multidão. e cuja fortuna te facilitará os meios de vencer os maiores soberanos da terra. disse o camponio em tom de conselho. vestidos de couraças e armados de lanças. que mudes de vida. si ha muitos annos dediquei4 minha existência á procura de thesouros. esquadrão de tropas. . era eu pequeno ainda. appareceu-me uma fada em sonho. acção de conquistar. consagrar. Extensão. comprimento. de adquirir pelas armas. correndo os olhos pela extensãos das campinas. que te esqueças dos thesouros. E' melhor. disse o maniaco. de conquistar * reinos e mares e dominar sobre tudo com o poder do teu sceptro. que os não ha. e procures outro gênero de vida em que aproveites a tua intelligencia e o teu trabalho.

como este louco que pensa encontral-a no solo 7 1 2 3 4 5 6 1 Infindável. em quanto não encontrar a fortuna que se accumulou para o meu goso. branca. á voz do teu mando. tão inútil talvez como esta. que se abaixa ás ordens de alguém. Assim me disse a boa fada. mundo fora. os olhos no chão. Arr/enfea. e.90 LIVRO DA INFÂNCIA os mares 2terás navios embandeirados. creados. planícies e valles. O maniaco foi seguindo. submissos 4. esperando que a felicidade os venha procurar no sonho. incapazes de trabalhar. Dito isto. A noite tinha cabido. chão. inspirada pela fatalidade do Destino. logo que fiques homem. « Infeliz rapaz! pensou piedoso o camponez. cumpre-me obedecerlhe . que se submette. e um exercito de lacaios. como um mendigo de estrada. é necessário que. acompanhando-o com os olhos. Para isso. muito clara. com uma voz firme e segura. irei caminhando sempre. vás por campos e montanhas. sem medo ás tempestades nem ás noites. Incalculável. Hoje sou um homem .3 ricamente vestidos. . propriedades. Lacaios. porém. Solo. Dominios. curvou a cabeça e partiu. que não se finda. appareceu entre as nuvens e inundou os campos com sua luz argentea6. que se hão de curvar. servos. em procura de um incalculável 5 thesouro que a sorte destinou para enriquecerte». que se não pode calcular. passeou a vista em torno. Quantos também não ha no mundo que atravessam uma existência inútil. A lua. que não acaba. levantou-se. as roupas apodrecidas de uso. infindáveis 1 dominios em terra. riquezas. de prata. Submisso.

Esgueirar-se. fíorgear. implume e lindo. Inspirando4 horror e nojo.-gafe^ sem receio. Por entre a relva se esgueira' JSolfejar. Inspirar. traiçoeira. Num sopro suave e brando. agasalhado. desviar-se sorrateiramente sem ser sentido. E no ninho. {•tefege-am. Arrepiando-lhe as pennas. como as cobras. cantar. ventos brandos. Uma serpente. De rojo. cantar como passarinho. Auras. Em silencio está dormindo Sob o materno cuidado. de rojo 8. . infundir. O filhote. Mas em baixo. Auras3 que passam. serenas. brizas. Empoleirado no ninho. acto de arrastar-se pelo cMo.A SERPENTE Um formoso passarinho. Vão as folhagens roçando. Solfeja1 um doce gorgeio 2 .

A serpe vai devorando s O ârrraose passarinho/ 1 2 3 4 5 Toada. serpente. Devorar. aos poucos avança. entre a qual se arrasta Caminhando de mansinho. veneno que a cobra guarda nos dentes. ir andando. cobra. brando. tragar. A ave de cantar não cança Sua harmoniosa toada *. Perpassar. Soltando um triste gemido. Emquanto a serpea. som. musica. de mansinho O vento perpassa*. enrolada Ao tronco. Sacode as azas com custo E tenta fugir de susto. Serpe. O pássaro ouve um ruido. comer depressa. a feia serpente Pouco a pouco se approxima. Em baixo. medonha.92 LIVRO DA INFÂNCIA O pássaro canta em cima Perto do filho. afasta A relva. Mas a serpente. passar adeante. Olha-o em cima do ninho. Peçonha. Avança aos poucos. . contente. Num movimento ligeiro Envolve-lhe o corpo inteiro Com sua mortal peçonha 3. E emquanto no ar.

e si continuares a fugir para o campo. Quando chegava o domingo. tão amiga dos brinquedos e da ociosidade.. preso nas paredes da torre !.O S I N O QUE ANDA (Imitação de Goethe) Era um dia uma creança tão inquieta e travessa. Disse-lhe a mãe um dia: —O sino chama-te. á hora de ir fazer suas orações. 2 Prescrever. achava sempre um pretexto t para correr até ao campo. o sino prescreve-te2 os deveres da religião e obriga-te a assistir ás missas . sob a luz dos altares.. ordenar o que se hade fazer. badalando lá em cima. . que não tinha paciência de estar por muito tempo ajoelhada na egreja.» 1 Pretexto. meu filho. aspirando o perfume do incenso. o sino toca. motivo que se Inventa para fazer ou não uma cousa. Mas a creança pensou : «O sino está tão alto. á procura das borboletas e de ovos de passarinhos. determinar. um dia o sino ha-de descer da altura em que está e correr atraz de ti. o sino fala-te.

andando como si tivesse pernas. mattos. mal accordado do susto. selvas. correndo pelos atalhos e devezas 1. O pobresinho corre. 2 Ávido. A pobre creança. rasgando-se nos espinhos. sem ser preciso que ninguém o convide. Numa curva do caminho o sino appareee. toma a direcção da egreja e entra. elle é o primeiro a ir á egreja. ávido 2 de ar e de liberdade. desesperada. corre sempre. . obedecendo ao primeiro toque do sino. a ralhar como si tivesse bocca. que sente muito desejo. ou algum dia de festa. corre de um lado para outro. tropeçando nas pedras. quando chega o domingo.94 LIVRO DA INFÂNCIA E seguiu adeante. 1 Devezas. Mas que medo. desejoso. meu Deus! que terror lhe arrepia os cabellos e lhe empallidece o rosto. E o sino cai. Desde esse dia.

zangado. Ai/uçar. Surprehcnder. Repulsão. nesses momentos de cólera parecia feia e só inspirava repulsão 6 e antipathia. mulher de costumes Bimples e de boa alma. Revoltar-se. apesar de bonita. Sua mãe. tinha um grande desgosto com isso. Realçar. 1 2 3 4 5 6 % Tenra. chorando. e. de realçar 2 . sobresahir 3 entre as demais. apanhar alguém descuidado. nraito delicada. avivar. e muitas vezes surprehendiam-n'a 7 com o rosto entre os joelhos. Desde a mais tenra a infância já mostrava o seu caracter vaidoso. branda. dencia para o apparato. ter maior lustre. ficar irritado. revoltava-se . . batia o pé. e de um aspecto agradável. educada na eschola do carinho e da religião. afogada em soluços. aliar. molle.IZABEL Izabel era uma menina de dez annos mais ou menos. Sorbesahir. realçar. um desejo de apparecer. graciosa mesmo. acto de repellir. 4 Nessa edade tinham-se aguçado tanto as suas más qualidades e se accentuado a sua ten-. que toda a vez que lhe faltava um enfeite ao seu5 vestido ou uma fita ao seu chapéu.

acto de dizer a alguém palavras que o corrijam. Conheço uma menina que é melhor que todas ellas. Envolveu a filha com um olhar de censura 6 e. Insignificante. Izabel approximou-se de sua mãe e disse-lhe: —Mamãe. ensinava-lhe o x caminho do bem. Refiectir. presente. veste-se á ultima moda. . num gesto bom de maternal ternura.96 LIVRO DA INFÂNCIA Chamava a filha para junto de si. Chama-se Marieta. —Vou deixal-as. ínfimo. sim. falou a mãe com tristeza. fazer reflexo sobre alguma coisa. graciosa. sentava-a no collo. Quero andar em companhia delia. submissão. minha filha. que ama em excesso. Não as abandones. da épocha presente. dava-lhe bons exemplos. chamou a menina para junto de si e falou-lhe com brandura : 1 2 3 4 5 6 Resignação. A' mãe humideceram-se-lhe os olhos de lagrimas. affectuosa. Censura. antes que uma reprehenBão violenta lhe sahisse da bocca. ha já alguns dias que resolvi abandonar todas as minhas amigas actuaes 3. com uma paciência e resignação de que só são capazes as mães extremosas 2 Certo dia. anediava-lhe 03 cabellos. Extremosa. Aetual. espirituosa. E' elegante como nenhuma. para que todo o seu encanto reflicta * sobre mim e eu seja invejada também. e é o alvo da inveja no circulo das minhas collegas. porque ellas me parecem tão insignificantes4! —Fazes mal. que não tem valor. Entre as tuas amigas e companheiras ha algumas de bons costumes e dignas da tua amizade.

creou raizeB e cresceu. como era muito débil e não tinha forças para luctar contra a violência da ventania. foi extendendo os braços e agarrou-se ao tronco da arvoresinha. Plantou-se. sem coragem de ahi x deitar suas raizes. Florescência. novos galhos. foi indo. ainda estava solta sobre a terra. que numa noite de tempestade e de trovões. humidade do ar. mau. poço. até que. que ostentava sua galharia 3verde e exuberante 2 á margem de uma cisterna Debaixo de sua folhagem havia uma sombra fresca onde crescia um viçoso musgo que se espalhava em feitio de velludoso 4 e macio tapete. Foi crescendo pouco a. e foi indo. e invadiu 5 a campina 6 inteira. Invadir. novos brotos. Maligno. Foi ahi o logar em que a semente resolveu plantar-se. de máu caracter. que lhe servia de arrimo. quando a primavera veiu.LIVRO DA INFÂNCIA 97 —Certa vez uma semente de arbusto. em grande abundância. superabundante. muito brilho. sorrindo numa radiação 7 de mocidade. . até chegar-se ao pé de uma pequena arvore. na approximaçâo da primavera. Radiação. entrar. pouco. um raio maligno 8 cahiu 1 2 3 4 5 6 1 8 Relento. porém. Cis'erna. Então deixou-se rolar ao vento. Exuberante. acto da florescer. encontrou o arbusto numa florescência bonita. macio como velludo. Dia a dia iamlhe-rebentando novas folhas. de velludo. buraco onde se deposita a água da chuva. Velludoso. O arbusto. Aconteceu. receando crescer ao relento ou sob os ardores do sol.

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com grande estrondo e cortou a arvore. O arbusto encolheu-se de medo, mas salvou-se. No outro dia rompeu o sol, e o seu calor era tão intenso * que crestou 2 as folhinhas da pobre planta, lhe queimou o tronco, lhe seccou a seiva 3 e a matou. —Ahi está a minha historia, minha filhinha ; ella servirá de exemplo para te corrigires. Nunca procures ter o valor que te emprestam 4 os grandes, porque si elles morrem ou decaem do poder e da grandeza, tu cahirás também como o pequeno arbusto, humilhada pelo desprezo de todos. Será melhor, pois, que tenhas o valor que te dão as tuas próprias qualidades, tuas próprias virtudes, e faças por sobresahir por teu próprio esforço. Dahi em deante Isabel corrigiu-se e hoje é uma excellente menina, querida e sympathisada por todos.

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Intenso, activo, forte. Crestar, tostar, queimar na superfície. Seiva, sueco dos vegetaes. Decahir, declinar do que era dantes.

O VADIO

Mario era um rapazola Feio, falador, sem brio, O mais brigão e vadio Dos estudantes da eschola. Era castigado e preso Por praticar desatinos V O professor e os meninos Tratavam-n'o com desprezo. A licção ficava mudo ; 2 Buliçoso, mau e arteiro , Sempre entornava o tinteiro Em sua mesa de estudo. Tinha gagueiras 3 na fala ; Trazia a cara e as mãos sujas; Desenhava garatujas 4 Pelas paredes da sala.
1 2 3 4 Desatinos, actos de louco. Arteiro, que faz travessuras. Gagueira, dificuldade na fala. Garatujas, figuras mal feitas.

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Tinha a arrogância * travessa De entrar na eschola cantando, O olhar altivo, fumando, E de chapéu na cabeça. Narrava 2, ao entrar, com sua Voz, que fazia severa, As disputas que tivera Com os garotos da rua. Fazia-se mau, irado, O mais valente da troça, Mostrando a bengala, grossa Como um bastão de aleijado. Com maus modos e vaidade, Cerrava os lábios, num momo *-,. E ao mestre saudava, como A um rapaz da sua edade. Vivia BÓ, sem amigos, E, por fazer travessuras, Só merecia censuras, Reprehensões e castigos. Hoje, como é inda aquelle Que sempre foi desde a infância,. E' um homem sem importância t Todo o mundo foge delle.
1 Arrogância, altivez, insolencia. 2 Narrar, contar, dizer um caso. 3 Momo, tregeitos que se fazem com os lábios.

dorso do navio. que se não espera. superior em numero e em armas. Os destacamentoss todos foram atacados ferozmente e aprisionados os míseros6 soldados. outros. que tinha ficado em terra. Reducto. conseguiram fugir sob a chuva das balas . Eram os derradeiros homens que restavam. infeliz. mortos. Misero. ou arrastavam-se. muitos cahiram na fuga. miserável. Destacamento. foi barbaramente destruído pelo ímpeto 3 inesperado * do inimigo. feridos.PATRIOTISMO Eram poucos já os soldados que defendiam a fortaleza \ ultimo reducto 2 aonde se foram abrigar para fugir á morte. que se não pode tomar á força de armas . corpo de tropas destacado do exercito. Alguns. Costado. O exercito. passados pelas armas. Inexpugnável. Um vaso de guerra. . construcção de pedra em que se defende a entrada da uma cidade. 1 2 3 4 5 <$ 7 € Fortaleza. violência. invencível. apesar de sua couraça de aço e que todos julgavam inexpugnável7 recebeu em pleno costado 8 uma bala e desappareceu nas ondas. Inesperado. mais maliciosos. pequena fortaleza. ímpeto. impulso.

que. choque de um corpo no outro. para resistir ao embate ' do inimigo. s embriagados de pólvora e de cólera. esta soltou-se. Ondular. muro forte. Tremular. para ver o movimento e a approximaçâo dos navios. dominando o mar. enxugou com ella o pranto que corria dos seus 1 2 3 4 5 6 7 8 9 Embate. Heróico. por traz das muralhas s da fortaleza. Os soldados encolhiam-se por traz do muro. beijou-a repetidas vezes. Houve um momento em que uma bala certeira cortou a corda a que a bandeira estava suspensa . equilibrou-se no ar. Fuzilaria. dolorosa. ter o movimento das ondas. A situação era .angustiosa 6 e desoladora. fazer ondas. que aquelle punhado de soldados heróicos. . oscillar. tremer. A muralha era alta. lascas de pedras. se abrigavam da fuzilaria * inimiga. corajoso. Muralha. e foi cahindo aos poucos. cahia immediatamente crivado de balas. erguida no topo do mastro. valente. desdobrou-se ondulando 9 ao vento. Moribundo. As balas que vinham raspavam pelas pedras. choravam os desesperados e estorciamse os feridos. tiros de armas de fogo. pois. arrancando-lhes estilhaços5. O capitão agarrou-a. o que está prestes a morrer. Angustiosa. de toda a força armada. ainda se ostentava a bandeira. tremulando ' ao vento. Em torno delia gemiam os moribundos ..102 LIVRO DA INFÂNCIA Nada mais restava. toda de pedra e cal. Estilhaços. imprudente ou curioso. Si algum. Mas no centro da fortaleza. erguia a cabeça. como ultimo soluço da 8 pátria.

Elle tomou-a. Amarrou de novo a bandeira no alto. infelicidade. qual de vós terá a coragem de subir áquelle mastro. projéctil de canhão. corajosamente. caros irmãos de armas e valentes camaradas.. Missão. As granadas * atiravam-lhe estilhaços.. O capitão entregou-lhe a bandeira. O capitão tirou á sorte. sorriu. . o acto de enviar. mas. soltou-a ao vento e —cahiu morto. e desejosos de praticar esse tão nobre e perigoso acto. disse : —Qual de vós. prendeu-a á corda e subiu o mastro. Granada.LIVRO DA INFÂNCIA 103 olhos e o sangue que vertia das suas feridas. para prender de novo esta amada bandeira. desgraça. e dirigindo-se aos seus companheiros de infortúnio '. Heroicamente. de modo heróico . heroicamente3 As balas zuniam-lhe aos ouvidos. depois. symbolo da nossa pátria ? Todos gritaram ao mesmo tempo. anciosos por arriscar a vida. ergueu os olhos ao céu e chegou á presença do capitão. Coube a um menino a horrível missão2 A pobre creança á primeira impressão empallideceu . 1 2 3 4 Infortúnio.

ordenou o juiz. um péssimo visinho. ha muitos annos. que não respeita as leis e que não me pagou ainda o dinheiro que lhe emprestei generosamente. e não posso condemnal-o sem ouvil-o. que não tem nenhuma comprehensão do dever. O avarento sahiu e. —Eil-o aqui. moeda de ouro. Quero saber porque é que elle te não pagou ainda. devedor. senhor juiz. insultando-o e maltratando-o com crueldade. de que um homem. eu devia-lhe cem sequins2 que elle me emprestou. 1 Juros. . trouxe o devedor pelo braço. traze-o á minha presença. com expressões de lastima. lucros por dinheiro emprestado. disse o juiz. 2 Sequim. —Fala agora tu. Porque é que não pagaste a este homem o que lhe devias? —Senhor! balbuciou o homem humildemente. lhe devia luma certa somma da qual só tinha pago os juros —Vai ehamal-o.O AVARENTO Compareceu perante o juiz um avarento e queixou-se. E'um mau homem. logo depois.

elle cobrou-se por suas próprias mãos. apropriando-se das minhas terras. para servir-me como escravo. . 2 Reduzir. voltou-se para este e perguntou-lhe. Então o juiz. privar. resumir. até pagar os juros que me deve. desperta na noite de tua alma algum sentimento generoso. vendendo os meus fructos. compadecido pela miséria daquelle pobre homem e revoltado contra a avareza do credor. 1 Despojar. —Mas de que modo queres que elle te pague ? —Quero que elle venha para minha casa. —Não. despir. Hoje nada mais tenho sinão estes andrajos que cobrem o meu corpo e estas mãos para pedir esmolas. Deixa-o ir em paz. Sê um pouco piedoso. Depois. diminuir. senhor juiz. como não lhe pudesse pagar o resto. —Que mais queres deste homem? Já o reduziste 2 á mais negra miséria. roubando o meu camelo e despojando-me x das minhas roupas.LIVRO DA INFÂNCIA 105 Paguei-lhe a metade.

sem esforço. Como embarcações felizes Que lhe singravam 6 o dorso. Marulho. 1 2 3 4 5 6 Remanso. . feita em fôrma de arco . em remanso '. em marulhos % Num leito de pedregulhos Escorregava de manso Em quedas lentas e bolhas Sob a arqueada 3 galeria * Da folhagem. navegar. Num descançado abandono. Singrar. abobadada. Garridice. descanço. galanteria. que o cobria Com um tecto verde de folhas. Valle abaixo.O RIBEIRINHO 0 arroio fresco. Arqueada. água com pouco movimento . Folhas levava e raizes. lanço de edifício coberto e espaçoso. Galeria. peraltice. De curva em curva. E bocejava de somno Entre a douda garridice * Dos roseiraes da planice. barulho de ondas.

rio que deságua em outro. rio pequeno. rufar. Descendo em giros suaves Campos e valles abaixo. Affluente. E penetrado de dor. invade. E em noites de tempestade Tem vagalhões * de oceano. Ser um rio soberano Que terras alaga. em vôo ligeiro Vinham. . Dando de beber ás aves. Riacho. Vagalhões. ribeiro. Tinha desgostos e maguas Por não possuir tantas águas Como um affluente 3 gigante. Mas chorava a todo instante. Assim vivia o riacho *. ondas grandes que se levantam no mar. Queria ser como os rios De grossas águas redondas. Vai levando suas águas Pelas campinas em flor.LIVRO DA INFÂNCIA 107 A' tarde. as azas ruflando *. Soltando queixas e maguas. 1 2 3 4 Rufiar. florear no tambor. Os passarinhos em bando Beber d'agua do ribeiro. Que podem erguer nas ondas Embarcações e navios .

Si a moça era pobre. bebidas medicinaes. era. quando o viam atravessar as ruas. Elle afagava-as. que faz caridade. perguntava pela saúde dos pães e dava-lhes moedas em cobre. attrahir com boas palavras. ao mesmo tempo. os cabellos brancos como a neve. o cura ia de casa em casa angariando * esmolas e presenteava-a com o enxoval e objectos úteis. a dar-lhe bons conselhos.O SENHOR CURA O senhor cura era o homem mais caritativo * e generoso que havia na aldeia. como si fosse pae. a cabeça tremula. sorrindo. 3 Tizanas. alizando-lhes os cabellos. pedir. a velha batina de panno grosseiro cheia de rasgões e remendos. caridoso . Velho já. medico e enfermeiro : —preparava as tisanas s e applicava-as. . 2 Angariar. os aldeões aeompanhavam-n'o com olhar respeitoso e cumprimentavam-n'o. o passo incerto. Quando uma rapariga se ia casar. partia o cura a visital-a. A' cabeceira do doente. No leito do agonizante era con1 Caritativo. As creanças corriam a tomar-lhe a bençam. Todos o amavam.

quanta vez a velha creada que o servia não o ia encontrar sentado á beira da estrada. . 2 Contagiosa. que está com a batina em trapos. morto de fadiga e quasi moribundo de fome! Ralhava-lhe então com palavras affectuosas e amargas : — Isto já não tem geito ! Viver por ahi a soccorrer a pobreza. como dois mendigos. depois de haver rezado e feito as suas obras de caridade. A' noite. que tem ou produz contagio. caridoso até ao sacrifício. áquelle um pedaço de pão. pedaço rijo do pão. a pedir esmolas para dar aos outros e não se lembrar de que é pobre também. ensinava ás creanças a doutrina christan e dava-lhes gulodices. em geral. ia visitar a miséria da aldeia. E no emtanto. estrada fora. 1 Côdea. e a todos. ensinando o caminho do céu. Houve um dia em que uma febre contagiosa * e mortal atacou os habitantes do logar. Era assim o pobre cura — bom até á dedicação. de braços dados. saia dahi. quer nas chuvas do estio ou no frio do inverno. Nas horas vagas. conselhos e carinhos. A este dava o azeite para a lamparina. bençams. apoie-se em meu braço e vamos para casa ! Até parece que Deus vira seu santíssimo rosto! E lá iam os dois. o calçado roto e que em casa não ha nem uma côdea1 de pão para a nossa bocca ! E' de mais ! Vamos.LIVRO DA INFÂNCIA 109 fessor e amigo : —aconselhava ao arrependimento. e chorava aos primeiros anceios da agonia.

deixaram-se ficar na aldeia. foi de casa em casa em soccorro dos doentes. 2 Dispôr-se. O mendigo comeu e partiu. E' o único que me resta. porém. que passava. Soccorrei-me. alguns abandonaram suas casas. resolver-se. mas a» minha fome está satisfeita. consolando os afflictos. ou. estou quasi morto de fome e mal posso sustentar-me nas pernas. que está em vésperas de morrer. sempre carinhoso. não podendo mais soffrer o cançaço e a fome. pobre homem. Houve um instante em que. sahiu. confessando os agonizantes '.110 LIVRO DA INFÂNCIA Os ricos fugiram . talvez. este pedaço de pão. a trabalhar. preferindo morrer da febre a soffrer miséria em terra extranha. sempre solícito. O cura. pediu-lhe a bençam e disse-lhe: — Senhor cura. 1 Agonizante. dispoz^se1 a comer. Um mendigo. na esperança de ser protegidos pela providencia. e. Quem passava pela rua ouvia no interior das casas gemidos de dor e gritos de desespero. se deixou cahir no chão. sem se importar com o cançaço que lhe invadia o corpo e nem com a fome que lhe devorava as entranhas. então. — Toma. Minutos depois o velho cura tinha morrido. —Toma. preparar-se. . tirando do bolso um pedaço de pão duro. muitos.

tentou também voar :—abriu as azas mal empennadas. fez um esforço e cahiu. Além. elle sonhava com a tepidez 2 do ninho escondido num galho. de modo que a queda foi pequena e não o maguou. de morno. limpido 3 e fresco. quasi implume x. perdido no meio do bosque. que não tem pennas ainda. começou a ensaiar o vôo para subir de novo até ao ninho. coberto de folhagens que o vento agitava. . puro. que passou. 2 Tepidez. A' tarde. escorregava entre fileiras de murtas. estado de tépido. levou-o comsigo. limpo. piando de medo. Léguas em redor tudo era verde. Um homem. piando. Ao cahir. Curioso. 3 Limpido. um arroio sobre um leito de 1 Implume. pelas folhas da arvore. invejando o vôo de outros passarinhos menores que elle. Quando cahiu na gramma. O passarinho cresceu preso na gaiola. foi resvalando pelos galhos. quando os outros pássaros cortavam o ar em busca do repouso. arrependido de o ter deixado.O SABIÁ DOENTE Era pequeno ainda o sabiá. quando cahiu do ninho onde nasceu.

o marulho das folhas. voar. da vertigem7 de íuz que deve haver lá em cima!. exercer. fugir. desmaio. acto de embriagar-se. desmaio. voar. cantava. ás vezes triste. arrancando-lhe da sonora garganta as mais angustiosas 3 queixas. E com a cabecinha no ar. muito alto.. a uma vertiginosa 5 altura. a frescura 2das manhans. cantava horas inteiras. que causa vertigem. põr em execução. Estremeção. espalhados pelo azul. pedras. que causa angustia .112 LIVRO DA INFÂNCIA seixos J O ar livre do campo. o fazia sonhar por muito tempo. Angustiosa. até á embriaguez6. executando 4 escalas e gorgeios ou prolongando numa nota toda a amargura de sua alma. estado de atordoamento. paravam a escutal-o. Embriaguez. Voar ! Quem lhe dera também um dia em que a porta da prisão amanhecesse aberta. agitações 9 de desejo. e gosar. Vertigem. dolorosa. E o pobre pássaro sentia no eorpo estremeções 8 de anciã. Assim viveu o sabiá por muitos annos. tudo accudia ao seu espirito. Vertiginosa. encantados. Os que lhe ouviam o canto. os olhos cerrados. sem conhecer a liberdade de que gosam os outros pássaros que elle via atravez da grade. mas a illusão desfazia-se e elle fechava-as 1 2 3 4 5 6 7 8 9 Seixos. tremores. os nervos agitados de commoção. vir ao chamamento de alguém. e abria as azas . movimento de quem treme. sempre preso. alegre ás vezes. inquietações. traduzindo a tristeza que o invandia. e. ir muito alto. Executar. Acudir. . Agitações. calhaus. de azas extendidas.

Sua vista foi-se escurecendo aos poucos. em vez de tomar a direcção do campo . 2 Apiedar-se. O sabiá estava cego. 3 Abundantemente. com abundância. que está preso num cárcere. Envelheceu. approximou-se da porta. recolhendo-se á sua tristeza de encarcerado * Então pensava que. passeando pelo chão da gaiola. 1 Encarcerado. Poz a cabecinha de fora. quando ficasse velho e sua voz se tornasse rouca. Uma manhan. Vivia dessa esperança. teve receio de bater-se contra a parede. Dahi em deante nunca mais da sua sonora garganta sahiram os gorgeios de outróra. em grande quantidade. . ter piedade ou dó de alguém. haviam de apiedar-se2 delle e dar-lhe a tão desejada liberdade.LIVRO DA INFÂNCIA líé de novo. no Ímpeto do vôo. então recolheu-se de novo e chorou abundantemente 3. como já estava cego. agitou o corpo. como de costume. Estava aberta a porta. Mas. aspirou o ar. sacudiu as azas entorpecidas pela velhice e quiz voar. a sentir si estava aberta.

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. A inveja. . A esperança. De volta da guerra Vaidade O fugitivo A primavera. O grillo e a borboleta. . . Os dois viajantes O abysmo O naufrágio. Os dois mendigos . A borboleta. . 44 47 49 53 55 57 59 61 . . As duas moças. Rei phantasma Aguarella O açude. Calma no mar Inverno . O trovador . Em ferias . . Prefacio Anacreonte .±2srr>iOE PAGS. . . . 9 13 21 24 26 29 32 38 34 39 41 16 18 5 .

O avarento O ribeirinho O senhor cura .116 ÍNDICE O cão A Yara. O sino que anda Izabel O vadio Patriotismo. O aleijadinho O curandeiro A uma creança O monge Noite de inverno A ovelha O maníaco. Prece . O sabiá doente 63 67 70 72 75 79 BI 84 86 88 91 93. 95 99 101 104 106 108 111 . A serpente.

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de 1971. Sabemos das dificuldades existentes para a verificação se um obra realmente encontra‐se em domínio público. versão. é proibido o uso comercial das nossas imagens. a mais fiel possível. Quando utilizar este documento em outro contexto. reprodução ou quaisquer outros.br).610. não realizando alterações no ambiente digital – com exceção de ajustes de cor. procuramos manter a integridade e a autenticidade da fonte. a um documento original. Neste sentido. da forma como aparece na ficha catalográfica (metadados) do repositório digital. exibição. Você apenas deve utilizar esta obra para fins não comerciais. Trata‐se de uma referência. 2. Os direitos do autor estão também respaldados na Convenção de Berna. 
 
 
 
 
 
 . Atribuição. contraste e definição.º 9. você deve dar crédito ao autor (ou autores). 3. os direitos do autor são regulados pela Lei n. Neste sentido. 1. à Brasiliana Digital e ao acervo original. no entanto. textos e imagens que publicamos na Brasiliana Digital são todos de domínio público. Pedimos que você não republique este conteúdo na rede mundial de computadores (internet) sem a nossa expressa autorização. se você acreditar que algum documento publicado na Brasiliana Digital esteja violando direitos autorais de tradução. solicitamos que nos informe imediatamente (brasiliana@usp. Os livros. Direitos do autor. No Brasil.BRASILIANA DIGITAL ORIENTAÇÕES PARA O USO Esta é uma cópia digital de um documento (ou parte dele) que pertence a um dos acervos que participam do projeto BRASILIANA USP. de 19 de Fevereiro de 1998.

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