Você está na página 1de 19

ALGUNS DESAFIOS JURÍDICOS DIANTE DA GLOBALIZAÇÃO:

SOBERANIA E LEGITIMIDADE NA SOCIEDADE GLOBAL

SOME LEGAL CHALLENGES AHEAD OF GLOBALIZATION:

SOVEREIGNTY AND LEGITIMACY IN GLOBAL SOCIETY

José Evandro Alencar Correia 1

Resumo: O século XXI trouxe uma gama de novas situações e modificações em paradigmas que outrora pareciam estar segmentados na sociedade, com o Direito não foi diferente. A partir de uma análise histórica, com levantamentos bibliográficos, será analisado aspectos relacionados à teoria jurídica e algumas modificações diante do advento do novo contexto social. O objetivo é esclarecer e trazer a tona de forma didática tais modificações e desafios. Algumas das mais essenciais áreas do Direito começaram a sofrer contínuas interferências. As ideias relacionadas à soberania estatal, bem como várias derivações teóricas, como monismo jurídico, legitimidade democrática, cidadania. Isso implica em questionamentos as tradicionais formas de compreensão da ciência do direito. Um mapa de tais problemas é um dos passos essenciais para a busca de soluções e é o que se pretende como resultado da presente construção teórica.

Palavras-Chave: Globalização; soberania; fonte do direito; legitimidade.

Abstract: The twenty first century has brought a range of new situations and changes in paradigms that once seemed to be segmented in society, with the law was no different. From a historical analysis, with bibliographic, will be analyzed aspects related to legal theory and some modifications before the advent of the new social context. The aim is to clarify and bring out didactically such changes and challenges. Some of the most essential areas of law began to experience continuous interference. The ideas related to state sovereignty, as well as various theoretical derivations as legal monism, democratic legitimacy, citizenship. That implies questioning the traditional ways of understanding the science of law. A map of these problems is an essential step in the search for solutions and is intended to be as a result of this theoretical construct.

Key-words: Globalization, sovereignty, source of law, legitimacy.

1 INTRODUÇÃO

O homem possui uma tendência à superação das dificuldades e limitações

que lhes circundam. Procurando novos locais para coleta de recursos, plantação, e seu

desenvolvimento social e econômico. As grandes navegações podem ser compreendidas

como um prelúdio do fenômeno da globalização, obviamente que em menor proporção.

Mas na medida em que o homem desafiou o oceano, superando o medo da queda de

seus navios diante de um abismo, de mitológicos monstros marinhos, e tantas outras

1 Mestrando em Direito Constitucional pela Universidade Federal do Ceará (UFC), pesquisador do projeto ‘Mundo Direito’.

dificuldades, podemos compreender sim que, em alguma medida, o processo de superação das barreiras territoriais tenha começado naquele momento. Tal situação mostra que a cada dia, outras limitações territoriais que surgissem no percurso da caminhada humana, seriam desafiadas.

O século XXI trouxe uma gama de novos ingredientes para essa tendência

expansionista do ser humano. A internet, as telecomunicações, o fim da guerra fria, expansão dos transportes, bem como outros fatores, fizeram com o que o mundo fosse achatado, quebrando a ideia de espaço e tempo. É possível tomar café da manhã em um país, almoçar em outro, e jantar em um terceiro.

A interação e a superação das limitações espaciais implicaram em uma nova

realidade que trouxe consequências práticas para a vida, para a forma de compreender o

mundo e a forma que ele foi construído. O Direito não ficou alheio a tal situação. Uma variedade de situações surge, implicando em novos problemas, bem como o questionamento de certas premissas que pareciam estabelecidas anteriormente. Diante de desafios variados como a crise ambiental, lavagem de dinheiro, tráfico de drogas, pessoas e armas, crises econômicas, dentre outros temas, percebe-se que nenhum Estado é suficiente em si para lidar com esses problemas. O que fazer? Como lidar com tais problemas? E como se situa o Direito nesse cenário?

O cerne do direito é regulamentar as relações sociais com uma pretensão de

justeza em suas normas. Os desafios que surgem para a regulamentação de tais relações sociais que surgem no panorama global são os mais intensos e provocam as mais

diversas propostas teóricas. É necessário expor alguns os pressupostos que surgem no panorama global e de que modo estão afetando o direito. Desde novas situações, não visualizadas anteriormente no mundo jurídico, até releituras de certas premissas que foram concebidas em outro cenário.

2 O NOVO MUNDO

Um exemplo que ajuda a compreender o novo mundo que nasce é através da terceirização dos call centers de diversas empresas ao redor do mundo para a Índia. Tal processo foi possibilitado em virtude da abertura de verdadeiras rodovias globais de fibra ótica que ajudaram a diminuir grandes distâncias (FRIEDMAN, 2009, p. 93), fazendo com que várias partes do mundo estivessem conectadas de forma muito intensa. Isso permitiu que algumas empresas migrassem para a Índia em busca de uma mão de

obra mais barata para um trabalho que não exige uma mão de obra tão qualificada. Uma legião de aproximados 245 mil indianos, trabalhando em call centers, de acordo com o fuso horário americano, adotando nomes americanos e trabalhando diariamente para escapar do sotaque indiano (FRIEDMAN, 2009, p. 37). Além desse ponto, ainda existem outros que podem ser utilizados para a exemplificação desse novo cenário. Como a explosão das redes de fast food, as empresas transnacionais, até mesmo o futebol, onde um clube de um determinado país, por vezes, é um verdadeiro símbolo cosmopolita, diante da diversidade de nacionalidades dos jogadores que compõe seu elenco. Em relação ao intercâmbio comercial, é possível comprar um produto de vários locais do globo pela internet, viajar com preços mais acessíveis para os mais diversos locais (SANTOS, 2002, p. 25). A globalização foi, por muito tempo, reduzida a uma dimensão de cunho econômico. Entretanto, é consenso atualmente que não é possível realizar tal redução, diante da variedade de situações que surgem em função dessa maior interação do mundo. O que podemos perceber é que a globalização é um fenômeno que implica em uma maior relação, interação, entre as mais diversas áreas que envolvem o ser humano, vários aspectos foram intensificados. Desse modo, podemos perceber que há um viés econômico, mas em consequências disso passamos a ter também um intercâmbio cultural, social, humano. Corroborando o exposto, as considerações de Eric Hobsbawm são elucidativas:

Não acho que seja possível identificar a globalização apenas com a criação de uma economia global, embora este seja seu ponto focal e sua característica mais óbvia. Precisamos olhar para além da economia. Antes de tudo, a globalização depende da eliminação de obstáculos técnicos, não de obstáculos econômicos. Ela resulta da abolição da distância e do tempo (2009, p. 62).

Dessa forma, a melhor compreensão realmente é aquela que dá maior amplitude a tal fenômeno e não faz uma análise limitada ao aspecto econômico, não obstante o fato de que essa faceta que se pode visualizar de forma mais proeminente. Deve ser levado em consideração, igualmente, os reflexos para a própria formação cultural e social de todos os seres humanos que vivem nesse novo contexto social, onde a internet permite que apenas alguns cliques signifique em acesso a cultura dos mais remotos locais do mundo. Tudo está mais perto. Um mundo onde até mesmo doenças rapidamente podem se transformar em epidemias globais, como no caso de gripe aviária.

O direito não poderia deixar de ser afetado pela nova gama de situações que

se colocam diante de nós. Várias questões são postas e levantam os mais diversos questionamentos. Respostas de outrora não são mais suficientes, bem como novos

problemas são colocados.

A intensificação das relações no âmbito internacional pode ser visualizada a

partir do significativo aumento de tratados internacionais. De acordo com Marcelo Dias Varella, foram ratificados entre Estados, desde o período após a Segunda Guerra Mundial, aproximadamente 35 mil tratados internacionais (2005, p. 146).

A análise que será feita nas páginas que seguem pretende abordar alguns

pontos que surgem como proeminência na discussão da globalização e que afetam diretamente ao Direito.

A correta compreensão dos problemas que surgem implica uma inquietação

em relação aos mecanismos existentes para lidar com tais situações. Como lidar com os

novos atores internacionais, empresas transnacionais, ONGs, agências de riscos, que atuam em um ambiente internacional? Com a fome galopante em algumas áreas do mundo? Com as guerras civis e o incessante fluxo de refugiados? A desigualdade social que nunca teve patamares tão alarmantes? A crise ambiental que ameaça a continuidade da vida em nosso planeta? Utilizando mais uma vez as palavras do historiador Eric Hobsbawm, temos:

Em resumo, enfrentaremos os problemas do século XXI com um conjunto de mecanismos políticos flagrantemente inadequados para resolvê-los. Esses mecanismos estão efetivamente confiados no interior das fronteiras dos Estados nacionais, cujo número está em crescimento, e se defrontam com um mundo global que está fora do seu alcance operacional. (2007, p. 114)

A globalização, como já exposto, implicou em uma intensificação nas relações sociais, mas não se reduziu aos aspectos positivos, o lado negativo dessa realidade também existe e a cada dia apresenta essa faceta. O que fazer diante desse cenário é um dos grandes questionamentos do momento. Gunther Teubner é outro autor que traz considerações relevantes e identifica bem os problemas que surgem no novo contexto global e o jurídico. De acordo com o autor, atualmente, a grande pergunta do constitucionalismo está relacionada ao questionamento de como o Direito irá lidar com aspectos relacionados a digitalização, privatização e a globalização. Esclarecendo o que foi exposto, o autor explica:

From the many problems our harmless legal case raises, I wish to single out one question: how is constitutional theory to respond to the challenge arising

from the three current major trendsdigitisation, privatisation and globalisation—for the inclusion/exclusion problem? That is how today’s “constitutional question” ought to be formulated, by contrast with the 18th and 19th century question of the constitution of nation-states. While that had to do with disciplining repressive political power by law, the point today is to discipline quite different social dynamics. This is in the first place another question for theory. Will constitutional theory manage to generalise its nation-state tradition in contemporary terms and re-specify it? Can we, then, make the tradition of the nation-state constitution fruitful, while at the same time changing it to let it do justice to the new phenomena of digitisation, privatisation and globalisation? (2003, p. 2)

A revisão do arcabouço histórico que originou a estrutura institucional

existente no momento deve ser analisado para uma localização precisa dos problemas, para saber quais são as ferramentas jurídicas que foram desenvolvidas para lidar com os problemas de outrora. Para posteriormente recolocar tais questões diante desse novo cenário de globalização.

3 A QUESTÃO DA SOBERANIA

O princípio da soberania foi desenvolvido em um contexto histórico

marcado pela insegurança e pelo medo. A compreensão do que representa a guerra civil, de acordo com Martin Kriele, é essencial para que se possa tentar qualquer enquadramento teórico na formação do referido princípio (2009, p. 67). Ter consciência do que representava viver sob o medo, insegurança, intolerância religiosa, um contexto social onde a paz interna era o grande objetivo. Exemplo lapidar de tão situação é apresentado pelo autor alemão no que diz respeito à Noite de São Bartolomeu, onde foram assassinados líderes huguenotes no casamento da filha da rainha Catarina, durante as festividades, não obstante a própria rainha os ter convidado, afirmando que seria tolerante com seus convidados. Ocorrendo um banho de sangue que dizimou milhares de vidas (KRIELE, 2009, p. 71). Vale ressaltar que existência uma variedade de éditos de tolerância, mas que não eram cumpridos. Existia uma mistura entre a guerra confessional declarada e a tolerância entre as religiões que surgiam no velho continente (KRIELE, 2009, p. 70). Nesse contexto que surgem as teorias sobre a soberania, em especial a de Jean Bodin, que buscavam resolver o problema da guerra e assegurar a paz. Os temores da guerra civil levaram a formulação de uma concepção que propugnava pela existência de uma força que deveria se sobrepor aos interesses individuais e, desse modo, conseguir garantir a paz.

O contexto histórico vivenciado na época era compreendido como o Estado

de Natureza, a guerra de todos contra todos. Onde o homem teria que atacar primeiro para evitar que fosse atacado. Deveria existir uma força maior que pudesse subjugar a todos para que tal estado de natureza cessasse e as pessoas pudessem ter um pouco de segurança nas suas relações sociais. Caracterizando essa situação, as lições de Paulo Bonavides são esclarecedoras:

Palco de uma guerra civil do gênero humano, o estado de natureza aparelhava, por conseguinte, o extermínio e mútuo aniquilamento de todos. Era um estado de sangue, desconfiança e ferócia contumaz, em que o medo, institucionalizado no instinto de sobrevivência, não deixava ainda antever o advento da consciência agregativa, suscetível de instituir um sistema de relações fundado no estabelecimento da ordem e da segurança. Estado de natureza fadado a perpetuar-se se não houvesse logo, por necessidade já inelutável, a passagem ao estado de sociedade. (2010, p. 39)

Ao ceder a liberdade em prol do monarca, o indivíduo deixava de temer a todos e teria temer somente ao soberano, este podendo até mesmo infringir o direito. Mas, por outro lado, o soberano, iria proteger do arbítrio de todos os demais. Uma troca que parecia bem interessante para a época. Martin Kriele apresenta o cálculo entre o risco da tirania e o da guerra civil da seguinte forma:

Tratava-se do cálculo de chance e risco: aceitava-se conscientemente o risco da tirania, para conquistar a chance da paz. Assim formulou François le Jay:

<é melhor suportar cem anos de tirania do que viver o sofrimento da guerra civil durante todo um dia>, e Étienne Pasquier declarou que escolhia o menor entre dois males, a saber, a tirania preferencialmente à guerra civil. (2009, p. 75)

Vale ressaltar o fato de que não existia uma total despreocupação com um fundamento de legitimidade para o poder do Monarca. Em verdade, foram desenvolvidos vários argumentos para justificar sua soberania. Um dos fundamentos é de cunho religioso, onde o poder do Rei seria derivado do poder de Deus. O segundo transcende ao poder divino e reconhece o poder do Monarca como algo que não está relacionado à divindade, tendo como um exemplo histórico que bem ilustra essa transição, o auto coroamento de Napoleão. Sendo o segundo que se fixou, em virtude das guerras e divergências religiosas que surgiram na época (BONAVIDES, 2010 p.

38).

Entretanto, desenvolvida a teoria da soberania dentro do âmbito interno, com o rei no centro do poder, outro problema surge. O que fazer diante do risco de guerras não mais internas, civis, mas sim entre Estados?

O problema não se apresentou somente de cunho abstrato, mas se tornou

fato com a Guerra dos Trinta Anos que dizimou boa parte da Europa e trouxe

consequências nefastas para todos os envolvidos. Desse modo, se fez necessário um novo desenvolvimento teórico para chegar ao estabelecimento da paz. Além da soberania interna, era necessário o desenvolvimento do conceito de soberania externa. Demétrio Magnoli afirma que a resposta para tal situação foi com o desenvolvimento da Paz de Westfália (2004, p. 35), que trouxe os contornos jurídicos essenciais do desenvolvimento do Estado Soberano. Desse modo, os dois aspectos do princípio da soberania foram desenvolvidos. Soberania interna e externa. Ou seja, dentro do âmbito do interno só poderia existir um único poder supremo. Já do ponto de vista externo, os Estados não seriam soberanos, mas a correta nomenclatura seria autônomos, ou seja, estariam todos em igualdade de condições, devendo haver o respeito mútuo. O desenrolar histórico tratou de fazer reformas no princípio da soberania, não implicando no seu total abandono. No primeiro momento era necessária uma formatação teórica que conseguisse garantir a segurança interna e externa. Posteriormente, percebeu-se que o novo problema seria conter os excessos do próprio soberano, minar sua arbitrariedade e garantir mais segurança para as relações sociais. Dois fatores essenciais são apresentados por José Eduardo Faria (2000, p. 22) nesse processo de mitigação do poder soberano. A primeira ideia seria a separação dos poderes, de forma que o poder viesse a conter o próprio poder. A segunda forma foi a modificação do próprio cento gravitacional do poder. Se inicialmente foi a soberania do Monarca, posteriormente tivemos a soberania do povo (ROUSSEAU, 2007, p. 37), fazendo com que esse deixasse de ser mero espectador das relações sociais e tivesse atuação de protagonismo. Desse modo, o desenvolvimento do Estado Democrático de Direito teve como objetivo conciliar a ideia de legitimidade diante da mera legalidade do Direito. Implicando em uma compreensão de democracia mais ampla que também incorporasse determinados valores (BARROSO, 2013, p. 110 111). Outro coeficiente foi adicionado a essa equação. O respeito ao ser humano e a sua dignidade inerente e insuscetível de coisificação fizeram que o exercício da soberania mais uma vez fosse remodelado, por meio de um longo e diversificado processo de afirmação da dignidade dos seres humanos. (COMPARATO, 2013, p. 13 - 71). Não era mais aceitável compreender a produção normativa esvaziada de um viés que trouxesse um pouco de legitimidade em detrimento da mera legalidade do direito. Os valores representados pelos Direitos Fundamentais passaram a influenciar de

forma decisiva na formação do Direito Estatal. A própria soberania do povo passou a ser compreendida em uma dimensão que agregasse valores ao direito que estava sendo produzido. Não uma soberania que pudessem esmagar as minorias e distorcer o seu poder, implicando em tirania da maioria e arbitrariedade. O modelo do Estado Democrático de Direito implica em mais um aperfeiçoamento do ideal de soberania, escolhendo determinados valores para guiar o caminho da produção do direito, para que valores essenciais não fossem distorcidos. Não pode ser compreendido como uma negação da soberania estatal, uma vez que ainda faz uso dessa premissa, além da base territorial, povo, uso exclusivo da coerção, mas sim em um refinamento. Feita essa breve digressão histórica, trazendo para o panorama atual, o questionamento que se faz é: os Estados ainda são efetivamente soberanos? Ou em uma forma mais amena: em que medida pode ser compreendida essa soberania estatal? Uma série de situações faz pensar que na atualidade não é possível compreender os Estados como plenamente soberanos, ou, ao menos, não nos moldes essenciais de tal princípio. Não se deve, por outro lado, chegar ao ponto de argumentar que a soberania está completamente acabada e que deveria ser abandonada, mas sim que existem alguns incômodos que aos poucos fragilizam e atacam a estrutura de outrora, fazendo com que uma reformulação tácita do princípio da soberania ocorra. Uma das formas de minar soberania, no atual contexto, é por meio dos empréstimos condicionados. Ou seja, determinadas condições que são impostas para que a liberação de ajuda financeira por parte de determinadas instituições internacionais. Para que os países recebam essa quantia que necessitam, seria o caso de adotar um conjunto de mandamentos que estariam de acordo com a agenda política neoliberal, minando a soberania nacional e fazendo com que tais países ingressem em um caminho econômico que não necessariamente implica na melhor forma de lidar com os problemas econômicos de cada país especificamente. A situação é explicada por Joseph E. Stigltiz da seguinte forma:

Embora a idéia de democracia tenha se difundido e mais países tenham eleições livres do que, digamos, trinta anos atrás; os países em desenvolvimento vêem sua capacidade de agir dificultada por novos constrangimentos impostos de fora e pelo enfraquecimento de suas instituições existentes, para o qual a globalização contribuiu. Consideremos, por exemplo, as exigências impostas como condição para receber ajudar. (2007, p. 73)

Outros autores, como Paulo Bonavides, (2010, p. 35), Luiz Gonzaga Silva Adolfo (2001, p. 93), Abili Lázaro Castro de Lima (2004, p. 153), Ivo Dantas (2008, p. 156) Hauke Brunkhorst (2010, p. 74) também comentam esse aspecto negativo da globalização, que tenta impor aos Estados determinados deveres e ressaltam para os novos atores internacionais que atuam nesse cenário. Os espaços decisórios, na atualidade, estão sendo preenchidos por novos atores de uma forma que esvazia as potencialidades de discussão dentro do Estado- Nação. Não há capacidade de locomoção por partes dos atores nacionais, mas sim a coação indireta por parte de agências de riscos que ameaçam com o corte de suas notas de rating, o medo da fuga de capitais, os empréstimos condicionais a aceitação da cartilha política, econômica e jurídica, conhecida como Consenso de Washington (STIGLTZ, 2007, p. 79). De acordo com Danielle S. Dias, os fatores econômicos implicam nessa impotência dos vários Estados, principalmente por parte dos países mais fracos no cenário econômico, diante das diretrizes da globalização. Gerando uma crise dentro do Estado-Nação diante da incapacidade de gerir as questões de cunho econômico no cenário global. (2012, p. 75) Um dos principais atores desse novo cenário são as empresas transnacionais. Que tendem a escapar do âmbito de regulação estatal e condicionar a produção normativa e política dentro deles para que reflitam da melhor forma possível os seus interesses. Precarização das relações trabalhistas, rígido proteção aos direitos de propriedade, contratos e direitos autorais. Procuram países onde possam encontrar mão de obra barata, fraca proteção aos direitos dos trabalhadores, rígida proteção aos contratos e direito de propriedade. Ao sinal de qualquer modificação do paradigma jurídico conveniente, ameaçam mudar a base territorial de suas empresas, acarretando desemprego e pobreza. Danilo Zolo, comentando a análise feita por Ulrick Beck, assim expõe:

Os riscos mais graves, sustenta Beck, vêm dos setores mais fortes da economia globalizada: vêm da capacidade que as grandes industrias e financeiras têm de se esquivar dos tradicionais vínculos de solidariedade com as populações locais, eludindo sistematicamente a imposição fiscal. A estrutura das grandes corporações é tal que elas podem escolher de acordo com o seu bel-prazer por mudar velozmente as bases geográficas ou funcionais dos próprios fatores de produção, esquivando-se, assim, das normas de direito do trabalho e da disciplina tributária dos Estados nacionais. (2010, p. 41)

A globalização trouxe a possibilidade de tratamento do trabalhador em um

nível ainda mais predatório, e seria possível shopping for cheap labour(SAND,Inger- Johanne, 2004, p. 10), ou seja, não haveria porque se conformar com as normas

trabalhistas de um determinado Estado se a empresa poderia migrar para outro em busca de condições mais precárias e posteriormente inibir através dos mais diversos mecanismos a produção de normas que fossem contrárias aos seus interesses. O problema reside no fato de que, o poder de resolução eficiente de conflitos de interesses, pautado nos Estados Modernos, na soberania e em bases territoriais, está sendo paulatinamente enfraquecido. Em virtude do fluxo de comunicação e facilidade territorial que implica em um desapego das estruturas financeiras e de capital a uma base territorial delimitada.

O fluxo de capital não se limita, atualmente, esse aspecto territorial e novas

ondas de relações comerciais, sociais, em um nível que transcende o aspecto territorial, escapando a regulamentação, indo além dos limites impostos a formulação do conceito de soberania (NEVES, Marcelo, 2009, p. 26). O questionamento que fica é o que Leviatã pode fazer? O monstro mitológico apresentado por Hobbes para a solução dos problemas vinculados a guerra interna, como a força máxima dentro de um Estado capaz de impor-se através da força diante de todos os demais, agora, em um cenário cosmopolita perdeu o posto de summa potesta? Haveria, realmente, Behemoth? Histórico rival de Leviatã, que acorda e passa novamente reviver a batalha em torno do poder? (TEIXEIRA, Anderson Vichinkeski, 2011, p. 129). Afinal, o que fazer diante desse novo cenário? Outros exemplos podem ser levantados da nossa história recente e que implicam em um incômodo para a teoria jurídica e política clássica. Uma vez que os pilares essenciais da teoria jurídica e política residem na soberania, outras construções teóricas a partir dele também são influenciadas intensamente. Trazendo alguns casos específicos extraídos de autores que tratam sob o tema, temos o caso de uma Constituição ser declarada nula por parte do Conselho de Segurança (BRUNKHORST, Hauke, 2010, p. 79). O Poder Constituinte, reflexo da soberania estatal, compreendido como ilimitado, incondicionado e insubordinado (MENDES, BRANCO, 2011, p. 118) agora é limitado e condicionado? Diante desse cenário que o Estado passa paulatinamente a perder sua força

decisória, quem preenche esse espaço? A mão invisível, o mercado, o capital, ou melhor, o supercapitalismo (REICH, Robert. B, 2008, p. 87). O que passa a reger as

relações sociais em um panorama global é ditado pelos valores de acumulação de capital e possuí um caráter autofágico e destrutivo. O que fazer diante desse cenário? Em virtude da mentalidade global guiada pelo capital, outros significativos problemas na sociedade é a galopante e intensa concentração de renda, a maior já vivenciada em qualquer época. Chega ao ponto que as duzentas pessoas mais ricas do mundo possuem recursos superiores aos dois bilhões (!) mais pobres (ZOLO, 2010 p. 37), em um cenário que tende a aumentar cada vez mais as desigualdades sociais. Uma das premissas do neoliberalismo é a desregulamentação por parte do Estado, deixando de intervir na economia para que as leis do mercado passassem a regulamentar tais situações. Existe uma ilusão que a desregulamentação estatal implica em uma desregulamentação social. São duas coisas distintas. O fato de um determinado Estado não regulamentar uma conduta implica tão somente que outras formas de regulamentação irão reger tais relações (BAUMAN, 2000, p. 80). Tais formas antidemocráticas e que possuem como valor tão somente a acumulação de capital, ignorando a dimensão social e ambiental, constroem um mundo pautado por desigualdades sociais cada dia maiores. A partir do panorama apresentado e relacionado com o princípio da soberania, bem como do Estado-Nação, vários outros fatores que estão intimamente relacionados a esses dois princípios são afetados substancialmente. As premissas que constituem a base epistemológica essencial do direito passam a ser modificadas de modo substancial. De acordo com José Eduardo Faria, é possível visualizar algo que pode ser compreendido tendo um efeito em cascata que implica no questionamento da operacionalidade de conceitos como: “monismo jurídico, norma fundamental, poder constituinte originário, hierarquia das leis, direito subjetivo e segurança jurídica.” (2000, p. 39). O questionamento que fica nesse momento, diante do panorama global, é quais são as consequências dessas modificações e se elas realmente podem ser ignoradas. Além disso, pontos como democracia e cidadania também são afetados. Onde está o cidadão nesse mundo global e qual o seu papel? Onde está a legitimidade do direito produzido nessa sociedade? Se o fenômeno global tende a destruir os fundamentos da soberania estatal, implica, também, em uma dimensão que ignora esses vários pontos essenciais e que são tão caros para a formação da sociedade que pretende objetivos democráticos e uma construção valorativa.

A desconsideração desses pontos essenciais, bem como os reflexos que advém de tal situação, será alvo de maiores comentários no tópico que segue. Como construir uma sociedade sem democracia, sem cidadania e pautada em uma lógica unilateral?

4 A INSUFICIÊNICA POLÍTICA E PROBLEMA DA LEGITIMIDADE

Em interessante análise da sociedade, Bauman afirma que estamos em uma grande turbulência e que não há nenhum piloto na cabine (2001, p. 73). As grandes questões que devem ser enfrentadas pela sociedade são colocadas em um nível que, em tese, não há saída, não há alternativa. Os problemas surgem como algo natural que brotam do mercado, das instituições quase transcendentais, metafísicas, que regulam a atividade econômica e que não há como influenciar de forma satisfatória nesse processo. Mais uma vez recorrendo às considerações de Bauman, percebemos que há um claro processo de esvaziamento e boicote da ágora, não há um centro político onde as pessoas possam influenciar de forma significativa na construção dos rumos da sociedade em que vivem. Nas palavras do próprio autor, temos:

Podemos dizer que se os agentes tradicionais não são mais capazes de uma ação eficaz, os agentes realmente poderosos e competentes escaparam escondendo-se e atuam para além do alcance de todos os meios estabelecidos de ação política, quanto mais dos processos democráticos de negação e controle centrados na ágora. Esses novos agentes celebram sua independência e desligamento da ágora. Eles não têm nada a ganhar com sua presença ali, mas tudo a ganhar com sua ausência. Não vêem proveito na regulação normativa e portanto não precisam da ágora, mas sentem que podem tirar o proveito do fato de ter as mãos livres e portanto fazem o máximo para manter distância da ágora e ficar fora de vista das multidões que a ocupam. (2000, p. 104)

Tal esvaziamento é fruto justamente do processo de mudança no âmbito de discussão e regulamentação pautado no Estado-Nação para um nível global, baseado nos valores do mercado, sem a correspondência de um mecanismo de interação entre os demais sistemas sociais. Esse enfraquecimento da capacidade de regulação do Estado implica também em uma significativa diminuição da capacidade de intervir de forma significativa no processo de tomada de decisões daqueles que são afetados pela globalização, mas que não podem intervir para mudar seus rumos. As novas instâncias de regulamentação social estão atuando de forma invisível, não há, no momento, como intervir no seu processo de formação. As pessoas são afastadas, a cidadania ignorada, e

os Estados enfraquecidos diante das novas estruturas que influenciam significativamente em suas alternativas (JULIOS-CAMPUZANO, 2009, p. 90). A situação é observada por Luhmann. O autor afirma que há uma ampliação para o âmbito global das sociedades em uma perspectiva econômica. Por outro lado, não há um correspondendo, como o que existe no âmbito do Estado-Nação, que possa fazer a conexão entre política, direito e economia, nesse cenário global. Essencial para a resolução de tensões entre essas esferas. Utilizando as palavras de Luhmann: “O sistema social abrangente amalgamou-se de fato no sentido de uma sociedade mundial uniforme, abarcando todas as relações entre as pessoas, sem que esse desenvolvimento tivesse sua correspondência em termos de uma unificação política do mundo.” (1985, p. 154). Não há um correspondente que conecte de forma significativa dentro do panorama global a relação entre política, direito e economia. Implicando em uma situação de dominação e colonização do sistema econômico, que conseguiu sua globalização, diante dos outros que ainda limitam-se ao âmbito territorial do Estado-Nação. Uma breve compreensão histórica do conceito de cidadania revela que este está atrelado ao desenvolvimento do Estado-Nação, sendo uma decorrência da nacionalidade (MORIKAWA, Márcia Mieko, 2010, p. 270). Atrelando as bases territoriais a possibilidade de atuação em questões políticas e jurídicas. Isso, mais uma vez, fortalece a formação de ordens jurídicas que aparecem no contexto global tenham um caráter de produção guiada tão somente pelas mentalidades dos atores sociais envolvidas na relação específica, deixando de lado o campo da cidadania e da política e passando a ter sua produção influenciada tão somente pelos valores desses atores. Regulamentando suas relações, caráter autopoiético, e exigindo que todos os demais aceitem suas prescrições. A formação de um novo direito mundial, em paralelo ao direito internacional (entre nações), onde a regulamentação jurídica ocorre de modo autopoiético, como trabalhado por Teubner na ideia de Bukowina Global. Implicando até mesmo que a ideia de fonte do Direito vinculado tão somente ao Estado está ruindo, fazendo surgir uma nova espécie de fonte, relacionada a essas estruturas autopoiética. Representa a quebra do monismo estatal. Nas palavras do próprio autor, temos:

The emerging global (not inter-national!) law is a legal order in its own right which should not be measured against the standards of national legal systems. It is not - as is usually understood - an underdeveloped body of law which has certain structural deficiencies in comparison to national law. Rather, its peculiar characteristics as fully fledged law distinguishes it from the traditional law of the nation states. These characteristics can be explained by

differentiation within world society itself. While global law lacks political and institutional support on the global level, it is closely coupled with globalized socio-economic processes. (1997, p. 2)

A regulação ocorre tão somente como forma de autoregulação, ou seja, os

demais agentes, organizações, e instituições que são influenciadas decisivamente por essa forma de regulamentação acabam excluídos da possibilidade de intervir nesse âmbito de regulação. É deixando de lado pretensões vinculadas a Direitos Humanos, meio ambiente, sustentabilidade e outros temas. Podemos perceber que no âmbito internacional há uma força que regula quase de modo invisível as relações nesse plano, importando em uma dificuldade excessiva de interferência de outras formas de racionalidade. Além disso, as estruturas mais visíveis possuem graves problemas. O caso do Conselho de Segurança e seu caráter oligárquico, onde as decisões globais são limitadas a um pequeno grupo de países, e os países mais pobres não conseguem atuar de forma decisiva nessas esferas. Sendo que qualquer país tem o poder de veto sobre as questões que são levadas ao Conselho.

A questão trabalhada trata do problema da governança em âmbito global.

Como os problemas que surgem no novo contexto que estamos vivendo são resolvidos e

em que medida é possível intervir de modo significativo? De um lado temos um contexto que foge a uma compreensão mais sistemática, do outro temos um fechamento oligárquico que também dificuldade uma abertura democrática.

O que fazer diante do significativo distanciamento, ou quase isolamento,

entre os problemas que assolam nossa sociedade, as pessoas envolvidas e os centros decisórios? Tal situação implica em um esvaziamento da política e da pretensão de legitimidade do Direito, reduzindo a uma dimensão de facticidade, onde os interesses de

um pequeno grupo são os determinantes. José Eduardo Faria expõe de forma clara a problemática que é vivenciada no momento (2000, p. 31). Se em virtude da intensificação dos fluxos comerciais e financeiros, implica em um significativo enfraquecimento da capacidade dos eleitos em um pleito democrático realmente cumprirem com suas promessas de eleição e os objetivos sociais, de quem cobrar responsabilidade diante dessas omissões? Outros problemas surgem também na busca de eventuais soluções para tais problemas. As propostas teóricas de eventual solução que são apontadas para tal situação são diversas. Marcelo Neves expõe de forma clara a diversidade da discussão global que há entre as propostas trabalhadas por Habermas, do outro lado, Teubner

(2008, p. 259). O primeiro, de acordo com Marcelo Neves, propugnando uma nova dimensão onde a cidadania mundial deveria vir à tona e implicando na formulação de uma nova compreensão de política interna mundial, no sentido de que deveríamos buscar uma nova compreensão de solidariedade (2008, p. 269 - 271). Enquanto, Teubner, por outro lado, afirma que eventual solução para os problemas vivenciados deveria ser o abandono da monogamiaentre Têmis e Leviatã, aceitando os diversos níveis de fragmentação da sociedade e regulamentação jurídica. De acordo com Marcelo Neves, o pluralismo jurídico deveria imperar e o cenário de fragmentação jurídica seria algo inevitável (2008, p. 260). A explosão jurídica e a diversidade de mentalidade envolvidas na realidade jurídica coloca a questão dos conflitos normativos não somente nesse nível, mas entre distintos setores sociais globais (TEUBNER, Gunther, FISCHER-LESCANO, Andreas, 1999, p. 1000) que impediria qualquer tentativa de unidade jurídica. Trabalhando a sua perspectiva do Transconstitucionalismo, Marcelo Neves expõe um novo cenário, que poderia ser compreendido como um meio termo entre as duas propostas. O autor confirma que a sociedade mundial tem caráter multicêntrico, e um fenômeno interessante nessa sociedade é a comunicação que está ocorrendo no âmbito das diversas cortes constitucionais no mundo. A partir desse intercâmbio entre Cortes, um passo adiante na formação de uma jurisprudência global a partir dessa maior interação entre as Cortes Constitucionais, que buscando um aprimoramento do seu próprio discurso jurídico, aproximam as relações e fundamentações jurídicas, sem implicar na formação de um discurso hegemônico (NEVES, 2009, p. 286 - 289). O que irá emergir desse cenário é algo que fica tão somente no plano das especulações teóricas, mas um fato que parece ser inquestionável é a insustentabilidade desse cenário por muito tempo. Que algo deve ser feito para que ocorra uma modificação e uma reaproximação entre política, direito e economia parece ser o consenso entre as propostas.

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS Situações que foram resolvidas com a criação dos Estados, ou utilizando uma terminologia vinculada à teoria dos sistemas, com o acoplamento entre política, direito e economia (NEVES, 2008, p. 95) ressurgem na atualidade como grandes incógnitas e desafios para a teoria jurídica e social.

A análise desse cenário, de acordo com Hauke Brunkhorst, implica em grandes problemas para a sociedade. A ausência na esfera internacional de algo que possa desempenhar essa função, como já expostos, implica em uma situação que, usando a expressão utilizada pelo autor there will be blood” (2010, p. 86). Sangue esse que já escorre diariamente nos mais diversos campos do planeta. Seja por meio da abusiva exploração da mão de obra do trabalhador, por meio da fome e das desigualdades sociais absurdas, pelo intenso fluxo de refugiados que aumenta a cada dia, abarrotando os grandes centros sociais e urbanos, por meio de processo desordenado, acarretam violência, miséria e insegurança, e, finalmente, mas não menos importante, o predatório e indiscriminado processo de devastação ambiental, que ameaça a toda forma de vida no planeta. Além de problemas relacionados ao terrorismo, em um cenário que a globalização que não representa em um intercâmbio cultural adequado, mas sim uma forma de neocolonização. O direito encontra-se também acuado diante desse contexto. Utilizado para regular e tentar estabelecer harmonia entre as diversas esferas da realidade social, este foi colonizado e condicionado por uma única mentalidade. Condicionado tão somente a regular determinada forma de compreensão do mundo, as outras formas sofrem e clamam que seus anseios também sejam levados em consideração no novo cenário que vivenciamos. Os problemas estão ligados essencialmente a ideia de soberania do estado, democracia, fonte do direito, proteção seletiva dos direitos humanos, esvaziamento da política e etc. Até mesmo as diversas manifestações sociais que ocorrem ao redor do mundo, inclusive no Brasil, podem ser compreendidas como uma forma de tentar romper com o isolamento, com o padrão de incluídos e excluídos. Que as pessoas possam tomar assento na realidade social que está se formando, agindo não somente como meros espectadores e consumidores, mas influenciando na construção do futuro mais digno.

Por fim, vale ressaltar, que não obstante alguns sentirem de forma mais direta os aspectos maléficos da globalização, todos são atingidos e sofrem com esse processo predatório. A violência crescente, a apatia social e o terrorismo são alguns dos sintomas desse processo predatório. Além da já mencionada e preocupante crise ambiental. O caráter autofágico do mercado foi mais uma vez evidenciado na crise que vivenciada em 2008, não é possível manter esse sistema que tende a ruína, se não

houver qualquer controle e regulamentação para além da repetição da própria

mentalidade do capital.

Além desses diversos problemas, ainda existe um problema essencial

relacionado a teoria jurídica. Havendo a superação desses entraves, como será

assegurado que tais ditames democráticos e valorativos sejam cumpridos dentro desse

contexto global diante de eventual inadimplemento? Que instituição tem força suficiente

para assegurar que tais valores sejam cumpridos nesse contexto global?

O cenário que se apresenta diante de nós é recheado de desafios, medos e

muita relutância. Mas que isso não sirva de obstáculo para que deixemos de lado o

entusiasmo, a coragem e a perseverança em construir uma realidade melhor, acolhedora.

Que os projetos teóricos sejam realizados, sem negligenciar o dever de ir além de

construções teóricas. Que um projeto mundial mais inclusive se faça realidade.

REFERÊNCIAS

ADOLFO, Luiz Gonzaga Silva. Globalização e o Estado Contemporâneo. São Paulo, Memória Jurídica, 2001

BARROSO, Luís Roberto. Curso de Direito Constitucional Contemporâneo: Os conceitos fundamentais e a construção do novo modelo. 4ª Edição. São Paulo, Saraivas,

2013.

BAUMAN, Zygmunt. Modernidade Líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.

Em Busca da Política, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2000.

BONAVIDES, Paulo. Teoria Geral do Estado, 8ª ed. Malheiros, São Paulo, 2010.

BRUNKHORST, Hauke. Constitucionalização sem democracia. In BIGONHA, Antônio Carlos Alpino; MOREIRA, Luiz (Orgs.). Legitimidade da Jurisdição Constitucional, Rio de Janeiro, Lumen Juris, 2010, p. 65-92.

COMPARATO, Fábio Konder. A Afirmação Histórica dos Direitos Humanos. 8ª Edição, São Paulo: Saraiva, 2013.

DANTAS, Ivo. Teoria do Estado Contemporâneo. Rio de Janeiro: Forense, 2008.

DIAS, Daniella S. O futuro do Estado: a soberania estatal em tempos de globalização. In Direitos Humanos e Democracia Inclusiva, NETO, Antonio José de Mattos, NETO, Homero Lamarão, SANTANA, Raimundo Rodrigues (Orgs.), São Paulo, Saraiva, 2012, p 63 83.

FARIA, José Eduardo. O Direito na Economia Globalizada, 1ª Edição, 2ª Tiragem, São Paulo, Malheiros, 2000.

FISCHER-LESCANO, Andreas, TEUBER, Gunther. Regime-Collisions:The Vain Search For Legal Unity In The Fragmentation Of Global Law. In Michigan Journal of International Law, Vol. 25, pp. 999-1045, summer 2004.

FRIEDMAN, Thomas, L. O mundo é plano: o mundo globalizado do século XXI,

Tradução: Serra, Cristina

[et al.], Rio de Janeiro: Objetiva, 2009

HOBSBAWM, Eric. O novo século: Entrevista a Antonio Polito, Tradução: Claudio Marcondes, São Paulo, Companhia das Letras, 2009.

Globalização, Democracia e Terrorismo. Tradução: José Viegas, São Paulo, Companhia das Letras, 2007.

JULIOS-CAMPUZANO, Alfonso. Constitucionalismo em tempos de Globalização, Tradução: José Luis Bolzan de Morais e Valéria Ribas do Nascimento, Porto Alegre, Livraria do Advogado, 2009.

KRILE, Martin. Introdução à Teoria do Estado: Os fundamentos históricos da legitimidade do Estado Constitucional Democrático. Tradução: Urbano Carvelli, Porto Alegre, Sergio Antonio Fabris, 2009.

LIMA, Abili Lázaro Castro de. Globalização Econômica e Crise dos Estados Nacionais In Repensando a Teoria do Estado, FONSECA, Ricardo Marcelo (org), Belo Horizonte, 2004, Forum, p. 151 161.

LUHMANN, Niklas, Sociologia do Direito II. Tradução Gustavo Bayer Rio de Janeiro Tempos Brasileiro, 1985

MAGNOLI, Demétrio. Relações Internacionais: Teoria e História. São Paulo, Saraiva,

2004

MENDES, Gilmar Ferreira, BRANCO, Paulo Gustavo Gonet. Curso de Direito Constitucional, 6ª Edição, São Paulo, Saraivas, 2011.

MORIKAWA, Márcia Mieko. Direitos do homem e cidadania: ser homem ou ser cidadão? - os dois tempos de uma anunciada “cidadania global” In Direito Internacional: Perspectivas contemporâneas, GOMES, Fábio Luiz (org), São Paulo, Saraiva, 2010, p. 265 - 290.

NEVES, Marcelo. Transconstitucionalismo. São Paulo: Martins Fontes, 2009.

Entre Têmis e Leviatã: uma relação difícil, São Paulo, Martins

Fontes, 2008.

REICH, Robert B. Supercapitalismo: como o capitalismo tem transformado os negócios, a democracia e o cotidiano. Tradução: Afonso Celso da Cunha Serra. Rio de Janeiro, Elsevier, 2008.

ROUSSEAU, Jean Jacques. Do Contrato Social. Tradução: Pietro Nassetti. Martin Claret, São Paulo, 2007.

SANTOS, Boaventura de Sousa, Os processos da Globalização In A Globalização e as Ciências Sociais, São Paulo, Cortez, 2002, p. 25.

STIGLITZ, Joseph E. Globalização: como dar certo, Tradução: Pedro Maia Soares, São Paulo, Companhia das Letras, 2007.

TEIXEIRA, Anderson Vichinkeski. Teoria Pluriversalista do Direito Internacional, São Paulo, Martins Fontes, 2011.

TEUBNER, Gunther A Bukowina Global sobre a Emergência de um Pluralismo Jurídico Transnacional In Impulso, Piracicaba, 9-31, 2003.

Global Law Without State, Dartmouth Publishing 1997.

VARELLA, Marcelo Dias, A crescente complexidade do Sistema Jurídico Internacional. Alguns problemas de coerência sistêmica. Brasília a. 42 n. 167 jul./set. 2005 Revista de Informação Legislativa p. 146.

ZOLO, Danilo. Globalização: um mapa dos problemas. Tradução: Anderson Vichinkeski Teixeira, Florianópolis, Conceito Editorial, 2010.