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E.L.A.

ESTUDOS LATINO-AMERICANOS

CENTRO DE CIÊNCIAS DA EDUCAÇÃO

COLÉGIO DE APLICAÇÃO

DISCIPLINA: ESTUDOS LATINO-AMERICANOS – E.L.A.


PROFESSORA: IVONETE DA SILVA SOUZA

Texto didático nº 6 – junho 2004

A crise do sistema colonial no século XIX - E aS REBELIÕES NA américa


latina
As lutas latino-americanas pela independência explodiram subitamente. Houve alguns
terríveis tremores antes de 1800, mas o aspecto mais notável do governo colonial continuava
sendo sua estabilidade geral. Portanto, ninguém previa um colapso imperial e, quando ele
veio, todos improvisaram. Seria de se esperar que as classes desfavorecidas se revoltassem
quando o controle europeu desaparecesse; isso ocorreu em alguns lugares, mais notadamente
no Haiti, onde os escravos assumiram o poder. Mas o resultado na América espanhola e no
Brasil foi mais conservador. Em geral, os brancos no topo da hierarquia social permaneceram
lá, enquanto os negros e povos indígenas continuaram embaixo. Por outro lado, a
independência latino-americana criou mais de uma dezena das primeiras repúblicas
constitucionais do mundo. A luta infligiu um golpe mortal ao sistema de castas e trouxe nova
honra a muitas pessoas de étnia mestiça.
A própria luta mudou muita coisa na América Latina. Muitos mestiços, negros e indígenas
tornaram-se respeitados heróis de guerra pela bravura no combate. Mas vencer as guerras da
independência exigia mais do que sangue; exigia uma sensação de comunidade e propósito
compartilhado. As modernas nações da América Latina ainda não existiam, nem como um
sonho, quando as guerras começaram. O que um escravo africano, um aldeão falador de
quíchua, um proprietário rural de sangue espanhol puro e um artífice mestiço têm em comum
só porque todos nasceram (por exemplo) no vice-reinado do Peru? Pouca coisa, obviamente,
afora serem súditos da Coroa espanhola, que os tratava quase como diferentes subespécies da
raça humana. Assim, os líderes patriotas enfrentaram um grande desafio. Eles tiveram de
imaginar novas nações e fazer com que as outras pessoas, com pouco em comum,
imaginassem essas nações também. A imagem tinha de ser tão viva que as pessoas traíssem
seu rei por ela, matassem e arriscassem morrer por ela. A visão patriótica das guerras da
independência introduziu elementos das duas. grandes idéias, liberalismo e nacionalismo, que
têm animado a vida política latino-americana desde então.
Na América Latina a Independência veio repentinamente (1808-1825), e repentinamente
mudou muitas coisas na rasteira de eventos violentos que na Europa, subitamente
desestabilizaram o governo colonial. Depois disso, os latino americanos reagiram e
vivenciaram essa história com várias tramas diferentes. Áreas centrais como México e Peru
seguiram um padrão, áreas periféricas como Venezuela e Argentina, outro. O Brasil seguiu
seu próprio caminho bem diferente para a independência. Essas estradas sinuosas podem se
tornar um pouco complicadas, mas vale a pena compreendê-las, porque as guerras da
independência projetam uma longa sombra na história da América Latina.
________________________________________Revolução e guerra na
Europa
Em termos práticos, a independência da América espanhola começou a existir de facto em
1808, quando o rei espanhol foi aprisionado por Napoleão.
Um aspecto da hegemonia colonial havia sido a gradual aceitação, por quase todos nas
colônias, dos monarcas espanhol e português como legítimos soberanos. A Coroa tinha
legitimidade: autoridade que inspira obediência. Mas em 1810, existia um surpreendente
contraste. A Coroa portuguesa estava mais próxima do que nunca do Brasil. A Coroa
espanhola, usurpada por um estrangeiro, estava mais distante do que nunca da América
espanhola. A história brasileira mostra a diferença que a presença do rei podia fazer.
Na América espanhola, lutas crônicas também irromperam. A independência foi declarada
aqui e ali. Enquanto isso, o Rio prosperava e o Brasil permanecia pacífico.
Os eventos na América espanhola entre 1808 e 1815 contrastaram totalmente com o
quadro brasileiro. Os hispano-americanos estavam chocados com o eclipse da monarquia
legítima. O governo espanhol não desaparecera totalmente: movimentos de resistência
provinciais na Espanha escolhiam representantes para um comitê de resistência nacional,
denominado Junta Central, mas esse governo interino tinha pouca legitimidade na América
espanhola. Embora a Junta Central alegasse representar o povo espanhol, os hispano-
americanos não se consideravam sob sua autoridade, mas apenas súditos do mesmo rei.
Portanto, os hispano-americanos formaram suas próprias juntas para governarem localmente
em nome do rei. Essas juntas costumavam ser criadas em uma reunião aberta da câmara
municipal, um cabildo abierto.
Para afirmar sua autoridade sobre as juntas coloniais, a resistência espanhola a Napoleão
deu uma guinada liberal, criando uma Constituição baseada no princípio da soberania popular.
A nova Constituição espanhola foi formulada por representantes eleitos da Espanha e, embora
em menor número, da América espanhola. Foi um grande passo na superação da velha ordem
colonial. Mesmo que tivesse funcionado, teria enfraquecido o controle espanhol sobre a
América. Mas ela não funcionou. Patriotas locais já estavam pregando a rebelião
antiespanhola no México, na Venezuela, na Argentina e em outras partes. Assim, em 1814, o
rei espanhol Fernando VII, ao recuperar o trono, anulou a Constituição liberal de dois anos da
Espanha e começou a formar um exército para esmagar os rebeldes patriotas na América.
__________________________Rebeliões na América Espanhola - 1810-
1815
Mas quem eram esses rebeldes patriotas? Qual seu projeto de sociedade? Na maioria dos
casos, as iniciativas pela independência vinham de brancos nascidos na América,
denominados crioulos (creoles) para se distinguirem dos espanhóis nascidos na Península
Ibérica. Estes passaram a ser chamados de peninsulares.
No final do século XVIII, os crioulos hispano-americanos passaram a ressentir-se bastante
com os peninsulares, com quem competiam socialmente. Por terem nascido na Espanha, os
peninsulares eram os agentes preferidos do governo imperial. Os espanhóis peninsulares
normalmente obtinham os melhores postos eclesiásticos e governamentais, as posições-chave
nas câmaras de comércio e assim por diante, obtendo acesso privilegiado à riqueza e poder,
em detrimento de seus primos crioulos nascidos na América. Essa rivalidade existia
principalmente no topo da sociedade hispano-americana. Os outros três quartos ou quatro
quintos da população — pessoas de descendência indígena, africana ou mista —pouco se
interessavam na competição entre crioulos e peninsulares, porque o sistema de castas
colocava-os totalmente fora da competição. Às vezes, eles detestavam os crioulos mais do que
os peninsulares, por serem os senhores e amos que os exploravam diretamente, na vida diária.
Os crioulos geralmente possuíam a terra e grande parte da população hispano-americana vivia
sob o domínio de proprietários rurais. Nas cidades, eram os crioulos, e não os peninsulares,
que temiam a ascensão social de pessoas prósperas de raça mista e lutavam para mantê-las
“no seu lugar”. Em outras palavras, a maioria dos hispano-americanos tinha boas razões para
se revoltar, mas não particularmente contra os peninsulares.
A independência mexicana mostra o funcionamento dessa dinâmica. O México era, de
longe, a jóia imperial mais brilhante da Coroa espanhola no início do século XIX, a colônia
mais rentável, abrigando quatro de cada dez hispano-americanos. Os peninsulares
representavam uma mera fração de um por cento, mas o ressentimento crioulo contra eles era
alto. Assim, o cabildo dominado por crioulos da Cidade do México aproveitou a crise de 1808
da Espanha, e proclamou a continuada lealdade ao aprisionado Fernando VII. Os crioulos
convenceram o vice-rei a convocar uma assembléia representativa que proporcionasse
legitimidade enquanto o rei estivesse afastado. Os poderosos peninsulares da colônia não
aceitaram isso. Eles destronaram o vice-rei para impedir tal assembléia. A raiva dos crioulos
continuou latente.
Depois, em 1810, as revoltas pela independência da América espanhola começaram pra
valer. Uma conspiração crioula na região mineira nortista do México desencadeou uma
maciça rebelião de camponeses indígenas e mestiços. O homem que soltou o gênio da garrafa
foi um sacerdote crioulo, padre Miguel Hidalgo. Um leitor de livros franceses banidos que
também estudou línguas indígenas e desafiou abertamente a regra católica de abstinência
sexual do clérigo, Hidalgo foi um não-conformista impulsivo e a Inquisição já tinha uma ficha
dele. Informado de que as autoridades espanholas logo o prenderiam por tomar parte na
conspiração, Hidalgo correu à sua igreja paroquial e tocou o sino. Ele então dirigiu-se à
multidão reunida usando uma linguagem religiosa que sua audiência compreendia bem: não
sobre a independência, mas sobre a necessidade de defender o México dos usurpadores e
inimigos peninsulares da autoridade legítima de Fernando VII. Hidalgo apresentou a
rivalidade entre crioulos e peninsulares como uma revolta hispano-americana unânime contra
a Espanha. Ele falou para as faces escuras que encheram a igreja de como os conquistadores
espanhóis haviam roubado as terras indígenas. Na verdade, eram os crioulos, e não os
peninsulares de 1810, que descendiam daqueles conquistadores. De fato, Hidalgo tinha mais
em comum com a maioria dos peninsulares, seus semelhantes sociais, do que com seus
paroquianos indígenas. Mas sua retórica criou uma dicotomia simples: americanos versus
europeus. Seu grito de batalha foi “Viva a Virgem de Guadalupe, e morte aos espanhóis!” O
apelo funcionou.
Aos milhares, a população rural pobre acorreu à bandeira da Virgem de Guadalupe, agora
um símbolo potente da identidade mexicana. A multidão incluía homens, mulheres e crianças,
famílias inteiras, burros e gado. Suas armas eram, predominantemente instrumentos agrícolas
em vez de armas de fogo. Uma recente fome na zona mineradora deixara muitos mexicanos
humildes sem muito a perder. Quando os peninsulares aterrorizados do importante centro
mineiro de Guanajuato viram vinte mil furiosos camponeses indígenas vindo em sua direção,
rapidamente se protegeram na maior e mais forte construção da cidade, o maciço celeiro —
mas em vão. Centenas de peninsulares morreram em Guanajuato e, depois, por todo o
percurso desse furioso exército de esfarrapados. E não apenas peninsulares: crioulos também
morreram. A retórica patriótica de Hidalgo traçara a linha divisória entre os peninsulares e
todos os outros, mas crioulos e peninsulares eram parecidos demais. Muitos peninsulares
tinham esposas e filhos crioulos. Além disso, peninsulares encurralados pelos rebeldes muitas
vezes alegavam serem crioulos. Os camponeses indígenas e mestiços oprimidos que seguiram
Hidalgo careciam de disciplina militar e para eles crioulos e peninsulares pareciam
igualmente arrogantes. À medida que a multidão de Hidalgo atingia sessenta, setenta, oitenta
mil, começou a parecer a muitos crioulos como seu pior pesadelo.
Poucos crioulos mexicanos, ou qualquer tipo de morador de cidades, aderiram a Hidalgo e
seus turbulentos seguidores dispersaram-se após poucos meses. O próprio Hidalgo foi
capturado, forçado ao arrependimento público e, depois, executado. Como uma lição
exemplar, a cabeça de Hidalgo ficou pendendo em uma gaiola de metal em um canto do
celeiro de Guanajuato, onde tantos espanhóis haviam morrido. Mas o gênio revolucionário
não voltaria para dentro da garrafa. No sul do México, onde comunidades indígenas
preservavam identidades aldeãs e terras de antes da conquista, um dos oficiais de Hidalgo
continuou brandindo a tocha da rebelião. Embora também sacerdote, era mais modesto e
prático, diferente do grandioso visionário Hidalgo. O padre José María Morelos não era
nenhum crioulo, mas um mestiço e um líder mais hábil em todos os sentidos. Seu exército
estava bem organizado e seus principais objetivos eram claros: fim da escravidão, do sistema
de castas e do tributo pago pelos povos indígenas. Morelos proibiu o uso das classificações de
casta: todos nascidos no México eram simplesmente “americanos”. Em 1813, ele declarou a
independência pura e simples. Seu movimento ainda não atraiu muitos crioulos, mas
conseguiu perdurar, pelo menos até a prisão e execução do padre Morelos, em 1815. Mas, a
essa altura, pequenos bandos de guerrilheiros patriotas lutavam havia anos em diversas
regiões do México. Mesmo com a morte de Morelos, eles continuaram desafiando o governo,
impondo-lhe pesados gastos militares, vivendo da terra como bandoleiros e corroendo
gradualmente a estrutura do governo colonial.
No Peru, a independência teve um início mais vagaroso. Os crioulos peruanos já haviam
vislumbrado seu cenário de pesadelo poucas décadas antes, na década de 1780, quando a
grande rebelião indígena de Tupac Amaru II abalou os Andes. Embora distante de uma
geração, em 1808 a rebelião de Tupac Amaru estava longe de ter sido esquecida e ela dera
aos crioulos peruanos um vivo exemplo dos perigos da mobilização dos povos indígenas
contra os peninsulares. Assim, eles evitaram a revolta, afora alguns protestos iniciais, mesmo
ao preço de suportar os arrogantes europeus que obtinham os melhores empregos
governamentais. No todo, o Peru, além de outras áreas andinas, como a Bolívia e o Equador,
permaneceram relativamente tranqüilos durante os anos de crise do início da década de 1810,
quando grandes revoltas irromperam em outras partes.
Destacados crioulos de colônias “periféricas”, como Venezuela e Argentina, foram menos
cautelosos. Os crioulos venezuelanos e argentinos tinham menos a temer dos povos indígenas
oprimidos, em menor número nas áreas periféricas. Além disso, sentiam-se incomodados com
as restrições comerciais imperiais que favoreciam a produção de prata nas áreas centrais do
Peru e do México. E nas planícies gramadas da Venezuela e da Argentina, não faltavam
cavalos e cavaleiros, utilíssimos na guerra pré-mecanizada. Ao contrário dos movimentos de
Hidalgo e Morelos, que foram rebeliões de baixo para cima, as juntas patrióticas de Caracas e
Buenos Aires começaram como cabildos abiertos, assembléias dos homens mais influentes
das duas cidades. Foi uma revolução de cima para baixo, liderada por homens confiantes e
viajados, alguns tendo testemunhado em primeira mão os eventos europeus. Quando a crise
da legitimidade começou na Espanha, os crioulos de Caracas e Buenos Aires logo
abandonaram os protestos de lealdade ao rei, abraçaram a revolução liberal e declararam a
independência total. Para seus críticos, estavam “tirando a máscara de Fernando”.
Na Venezuela, tudo isso já acontecera no início de 1811. O problema foi fazê-lo perdurar.
A primeira república venezuelana desintegrou-se quando um terremoto, sinal convincente da
desaprovação divina, atingiu Caracas um ano depois. O terremoto não foi o único problema
dos patriotas. No interior da Venezuela, além da montanhosa costa caribenha com suas
plantações de cacau, ficam as planícies tropicais sujeitas a inundações da bacia do rio
Orinoco, terra de gado e vaqueiros de pele escura denominados llaneros, que se alimentavam
de carne, carregavam lanças e pareciam ter nascido montados a cavalo. Os llaneros não
tinham nenhuma simpatia pelos revolucionários da elite proprietários de plantações de
Caracas, que os consideravam mais ou menos uma escória. Quando a junta de Caracas ousou
negar a autoridade de Fernando VII, os llaneros optaram por defender seu rei e os cascos de
seus cavalos mantiveram o chão tremendo muito depois de o terremoto se acalmar. Enquanto
tivessem a oposição dos llaneros, os patriotas jamais venceriam na Venezuela, embora
conseguissem espalhar a rebelião para a vizinha Nova Granada (atual Colômbia). A
necessidade dos patriotas de atrair os llaneros redobrou com o retorno de Fernando VII ao
trono, em 1814, determinado a esmagar a rebelião hispano-americana. De novo, o redemoinho
da mobilização militar popular havia sido desencadeado e a única esperança dos crioulos era
controlá-lo. Mas como?
Na Argentina, a junta revolucionária teve mais facilidade para obter o domínio militar. A
vantagem dos patriotas começou já em 1806 e 1807, quando os espanhóis ainda eram aliados
dos franceses e os britânicos cobiçavam a América espanhola. Durante esses anos, duas
expedições britânicas desembarcaram no vice-reinado do Rio da Prata. Ambas foram
derrotadas, não por forças peninsulares, mas por milícias locais Desse modo, os patriotas
crioulos tiveram a supremacia militar desde início. Em maio de 1810, o controle peninsular
terminara de uma vez por todas em Buenos Aires, capital do vice-reino, onde a revolução
evoluiu rapidamente para um republicanismo no estilo francês. Outras regiões do vice-reinado
do Rio da Prata, porém, mostraram-se pouco inclinadas a seguir a liderança de Buenos Aires.
Também ali, a população do interior ressentia-se com o ar arrogante dos aristocratas crioulos
da capital, não obstante os avançados princípios republicanos. As guerras de independência
no Rio da Prata, portanto, consistiram predominantemente em lutas entre os exércitos de
Buenos Aires, por um lado, e exércitos de realistas ou patriotas provinciais, por outro lado.
Em 1815, com a execução de Morelos no México, as vitórias dos realistas na Venezuela (e
em outras partes, como Colômbia e Chile), o Peru ainda firmemente em mãos espanholas e
patriotas lutando entre si no Rio da Prata, as guerras pela independência da América
espanhola não mostravam bons resultados. Os patriotas ainda não haviam conseguido atrair
pessoas suficientes para seu lado.

CHASTEEN, John Charles. América Latina: uma história de sangue e fogo.


Rio de Janeiro: Editora Campus, 2001.