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Um encontro que servia para calendarizar as actividades de avaliação de professores acabou num invulgar acto

de desobediência a uma ordem do Ministério da Educação. Ontem de manhã, na sede do agrupamento de


escolas de Montemor-o-Velho, 94 docentes, de um total de 99, decidiram suspender o processo de avaliação. A
Federação Nacional dos Professores (Fenprof) já elogiou a iniciativa e acredita que o exemplo vai ser seguido
por outras escolas.

"Fomos convocados para uma reunião geral, a que se seguiriam reuniões de avaliadores", contou ao DN
Francisco Queiroz, um dos professores que assinaram o veto às avaliações. "Os professores decidiram, por
esmagadora maioria, não seguir com o processo."

Segundo explicou, os elementos do conselho executivo da sede de agrupamento, a EB 2, 3 Jorge de Montemor -


com os quais o DN tentou ontem sem sucesso chegar à fala - "abandonaram a reunião pouco antes da votação,
apesar de terem revelado compreender as nossas razões". Entre os que votaram favoravelmente a suspensão,
disse, "estavam cerca de uma dúzia de profes- sores contratados", de cuja avaliação pode depender uma
eventual renovação de contrato, "e vários avaliadores".

Francisco Queiroz garantiu ao DN que os signatários não têm de sofrer represálias pelo seu acto de rebeldia: "A
nossa decisão tem legitimidade, nomeadamente em decisões tomadas nos tribunais. Além disso, o que vai o
Ministério da Educação fazer?", questionou. "Processar uma escola inteira?"

"Escolas perderão o medo"

Em declarações ao DN, Luís Lobo, da direcção nacional da Federação Nacional dos Professores (Fenprof) não
escondeu o seu contentamento com este gesto: "Creio que estes professores tomaram uma decisão reveladora
de uma grande sobriedade intelectual", considerou. "É muito positivo, sobretudo por ser uma decisão tomada
pelo conjunto dos professores", acrescentou, antecipando: "Julgo que quando for conhecido este exemplo,
muitas escolas perderão o medo e avançarão."

Apesar de ter dado às escolas liberdade para calendarizarem a avaliação bienal da maioria dos cerca de 140 mil
professores, que só terá de estar concluída no final do próximo ano lectivo, o ministério, após alguns avanços e
recuos no discurso, insistiu na obrigatoriedade de serem avaliados ainda este ano cerca de 7000 docentes
(contratados e quadros em ano de subida na carreira). Para estes casos, a ministra Maria de Lurdes Rodrigues
admitiu soluções "flexíveis" na avaliação, que poderão passar, por exemplo, pela dispensa da observação de
aulas.

A Fenprof alega que esta avaliação "flexível" não foi negociada e que por isso só é válido o sistema previsto no
Decreto-Regulamentar 2/2008 sobre as avaliações. Assim, considera que os docentes têm legalmente o direito
de recusar ser classificados.

O DN não obteve respostas às questões colocadas ao ministério.|


In DN, 21/03/08

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