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REPERCUSSÃO GERAL1

TICIANO ALVES E SILVA


Bacharel em Direito pela Universidade Católica de Salvador (UCSAL)
Advogado

SUMÁRIO: 1. Introdução - 2. A crise do Supremo Tribunal Federal e a


repercussão geral - 3. Repercussão geral; 3.1. Conceito; 3.2. Repercussão geral
como conceito jurídico indeterminado; 3.3. Repercussão geral não é argüição
de relevância rediviva - 4. Competência para apreciação da existência de
repercussão geral; 4.1. Premissas teóricas: o juízo de admissibilidade e o juízo
de mérito dos recursos; 4.2. Competência para verificação da existência de
repercussão geral - 5. Competência para verificação da existência de alegação
de repercussão geral; 5.1 Verificação da existência de alegação de repercussão
geral pelo juízo a quo; 5.2 A comprovação do acerto do entendimento pela
análise de duas hipóteses; 5.3 Uma breve, mas importantíssima ressalva; 5.4 A
posição do Supremo Tribunal Federal e do Superior Tribunal de Justiça - 6.
Crítica à exigência de preliminar formal de repercussão geral - 7. Conclusão - 8.
Referências.

RESUMO: Contrariando a interpretação literal que o art. 543-A, §2°, CPC,


poderia sugerir, o ensaio entende ser possível ao juízo a quo apreciar, no
primeiro juízo de admissibilidade, a existência de alegação de repercussão
geral- e não de existência de repercussão geral propriamente dita, como nega

1
Este trabalho foi publicado primeiramente na Revista de Processo n. 161, de julho de 2008, com o título
“APRECIAÇÃO PELO JUÍZO A QUO DA EXISTÊNCIA DE ALEGAÇÃO DE REPERCUSSÃO GERAL”. Foi premiado com o
primeiro lugar no III Concurso de Monografias da Academia de Letras Jurídicas da Bahia - Prêmio Acadêmico
Calmon de Passos. Ainda que verse sobre tema específico relativo à repercussão geral, o texto trata de
aspectos gerais do instituto, o que justifica o novo título que lhe é dado para fins de publicação no scribd.
2
peremptoriamente o citado dispositivo, atribuindo tal juízo única e
exclusivamente ao STF.

ABSTRACT: In opposition to the literal interpretation of the article 543-A, §2°,


Brazilian Civil Procedure Code, could suggest, the assay understands that it's
possible for the court a quo to appreciate, in the first admissibility doom, the
existence of general repercussion's allegation - not the existence of general
repercussion properly said, as peremptorily denies the cited legal text,
attributing such judgment only and exclusively to the Federal Supreme Court.

PALAVRAS-CHAVE: recurso extraordinário – repercussão geral- competência


para apreciação da existência de repercussão geral – art. 543-A, §2°, CPC -
competência para apreciação da existência de alegação de repercussão geral.

KEYWORDS: appeal to Federal Supreme Court – general repercussion -


competence to appreciate the existence of general repercussion's allegation -
article 543-A, §2°, Brazilian Civil Procedure Code – competence to appreciate
the existence of general repercussion.

1. INTRODUÇÃO

A Emenda Constitucional n. 45 de 2004 (EC n. 45/04), entre outras tantas


novidades, alterou o regime do recurso extraordinário, acrescentando aos
requisitos de admissibilidade já existentes o da demonstração de repercussão
geral das questões constitucionais discutidas no caso (art. 102, §3°,
Constituição Federal - CF).
3
Com sua eficácia dependente de regulamentação infraconstitucional específica,
a referida norma foi disciplinada largamente pela Lei n. 11.418/06, que inseriu
dois novos artigos ao Código de Processo Civil (CPC), quais sejam, o art. 543-A e
o art. 543-B.

Após, o Supremo Tribunal Federal (STF) editou a Emenda Regimental n. 21, de


30.04.2007, regulamentando amplamente o juízo de admissibilidade do
recurso extraordinário no que toca especificamente à apreciação do requisito
da repercussão geral.

O art. 543-A, §2°, do CPC, prescreve que “o recorrente deverá demonstrar, em


preliminar do recurso, para apreciação exclusiva do Supremo Tribunal Federal,
a existência de repercussão geral”.

A despeito da literalidade característica da norma e da interpretação taxativa


que possa decorrer dessa constatação, entende-se que pode o juízo prolator da
decisão recorrida apreciar a existência de alegação da repercussão geral,
embora não, a existência da repercussão geral propriamente dita, que só cabe,
nos termos da lei, ao STF.

Adiante, fixadas algumas premissas indispensáveis, pretende-se comprovar o


acerto do entendimento defendido e analisar os desdobramentos de ordem
prática que do acolhimento desta posição pode resultar, tendo sempre em
vista que processo é meio (interdependência ontológica) e não um fim em si
mesmo.

Impende sobrelevar, por derradeiro, a importância prática que reveste o tema,


4
considerando que institutos novos tendem sempre a despertar não só a
curiosidade acerca de seu regramento como também dificuldades em sua
aplicação, uma vez que a realidade apresenta-se invariavelmente mais rica do
que a mente já fértil do legislador.

2. A CRISE DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL E A REPERCUSSÃO GERAL

Ao Supremo Tribunal Federal compete, precipuamente, a guarda da


Constituição (art. 102, caput, CF). Este, que deveria ser um dos principais
fundamentos à transformação do STF em um genuíno e exclusivo Tribunal
Constitucional, serve, antes de tudo e até o presente momento, para manter
sua qualidade híbrida de tribunal comum de última instância e de Corte
Constitucional2.

Cumulado com outros fatores, essa qualidade especial do Supremo acarretou


uma sobrecarga de trabalho no Tribunal, o que se passou a denominar de
“crise do STF”. Com efeito, não se olvide que se vive uma crise de litigiosidade
mesma, aqui entendida não como o aumento de conflitos de interesses, mas
como o aumento do número de conflitos de interesses submetidos à
apreciação do Poder Judiciário. Para tanto comprovar, basta analisar o seguinte
dado apresentado pelo próprio STF3: há dez anos, tinha-se um processo para

2
Assim, André Ramos Tavares: “No Brasil pós-65, o STF sempre funcionou como tribunal Constitucional em
tempo parcial (FAVOREU, 1997:105), acumulando a tarefa de tribunal comum de última instância, o que se
denomina de tribunal de ‘supercassação universal’ (VALDÉS, 1999:267), e por vezes instância comum originária
para causas não constitucionais (como as das ‘altas’ autoridades do Estado)”. TAVARES, André Ramos. Reforma
do Judiciário no Brasil pós-88. São Paulo: Saraiva, 2005. p. 89. No mesmo sentido, Gilmar Ferreira Mendes,
Inocêncio Mártires Coelho e Paulo Gustavo Gonet Branco: “A discussão na Constituinte sobre a instituição de
uma Corte Constitucional, que deveria ocupar-se, fundamentalmente, do controle de constitucionalidade,
acabou por permitir que o Supremo Tribunal Federal não só mantivesse sua competência tradicional, com
algumas restrições, como adquirisse novas e significativas atribuições”. MENDES, Gilmar Ferreira; COELHO,
Inocêncio Mártires; BRANCO, Paulo Gustavo Gonet. Curso de Direito Constitucional. São Paulo: Saraiva, 2007.
p. 899.
3
Dados levantados e fornecidos pela Secretaria de Tecnologia da Informação do STF. Disponível em:
5
cada grupo de 69 habitantes; hoje, há um para cada 10 habitantes.

Em relação ao STF, composto por somente onze Ministros, ressalte-se, tem-se


que há um total acumulado de 219.591 recursos extraordinários ou 343.295
processos distribuídos acumulados. Não existe, para piorar, perspectiva de
melhora: em 2005, foram distribuídos 29.483 recursos extraordinários; em
2006, foram 54.575; em 2007, até o dia 30.06, foram distribuídos 29.796, mais
do que em todo o ano de 2005. Isso não quer dizer, vale frisar, que todos serão
julgados no mérito, porque, eventualmente, podem ser inadmitidos. Mas, de
qualquer maneira, os números assustam e revelam, de fato, uma crise. E aqui
se está a falar do STF como tribunal comum de última instância,
desconsiderando-se os dados relativos ao seu desempenho como Tribunal
Constitucional.

A situação causa mais surpresa quando se constata com o Professor Arruda


Alvim que grande parte deste todo se deve a alguns demandados (CEF, INSS e
União): “O STF recebeu até setembro de 2000 30.827 agravos de instrumento e
17.043 recursos extraordinários. Desses 47.870 processos, a Caixa Econômica
Federal é responsável por mais da metade (25.554 processos), ou seja, 53,78%
referentes ao FGTS. O INSS integra esse quantitativo com 10,58% e a União
afeta a carga do STF com 8,7%. Vale dizer, somados os percentuais, 72,96%” 4.

Obviamente, somente onze Ministros não podem dar conta de tanto trabalho,
por mais dedicados que sejam. Num plano interessante, nota Rodolfo de

http://www.stf.gov.br/portal/cms/verTexto.asp?servico=estatistica&pagina=REAIProcessoDistribuido. Acesso
em: 28.09.2007, 16h36min.
4
ARRUDA ALVIM, José Manoel de. A EC n. 45 e o instituto da repercussão geral. In: WAMBIER, Teresa Arruda
Alvim; WAMBIER, Luiz Rodrigues; GOMES JR., Luiz Manoel; FISCHER, Octavio Campos; FERREIRA, William
Santos (coords.). Reforma do Judiciário: primeiros ensaios críticos sobre a EC n. 45/2004. São Paulo: Revista dos
Tribunais, 2005. p. 84.
6
Camargo Mancuso: “O crescimento avantajou-se quase que em ‘progressão
geométrica’, sendo que o relatório anual de 1985 ‘informa terem sido julgados
17.798 processos diversos’. Robichez Penna observa que ‘17.000 processos-ano
julgados por onze Ministros importa em 4,2 processos/dia, por Ministro,
contando-se sábados, domingos, feriados, recessos e férias de janeiro e julho,
ocasião em que se supõe que seus membros devem desfrutar de uma forma
qualquer de lazer e descanso. A crise do Supremo Tribunal Federal é portanto
uma crise de quantidade, que deve ser refreada sob pena de inviabilizar a
entidade em mais alguns anos’” 5.

Tal quadro acima apresentado foi presenciado em 1985, há mais de 20,


portanto. De lá para cá, como se nota, a crise perdura e os Ministros, ainda se
supõe, não devem ter nenhuma forma de lazer, somente pesadelos, se é que
ainda há tempo para dormir...

À guisa de comparação, cite-se o Japão. Lá foi criado instituto análogo ao


brasileiro da repercussão geral, pelo novo Código de Processo Civil de1996, a
fim de limitar o acesso à Suprema Corte, porque à época causava surpresa
existirem cerca de 3.500 recursos para serem julgados por um tribunal
composto por 15 juízes, vivenciando-se uma situação “quase impossível”6.

Aqui ainda é momento de sinalizar para o fato de tal crise também acometer o
Superior Tribunal de Justiça (STJ). Ilustre-se, estatisticamente: o STJ no ano de
2005 recebeu 221.023 processos; no ano de 2006 foram 277.251, verificando-

5
MANCUSO, Rodolfo de Camargo. Recurso Extraordinário e Recurso Especial. 9. edição. São Paulo: RT, 2007. p.
74.
6
TANIGUCHI, Yasuhei. O Código de Processo Civil japonês de 1996. Um processo para o próximo século. Trad.
José Carlos Barbosa Moreira. Revista de Processo. Ano 25, n. 99, julho-setembro de 2000. p. 61 e 62. São Paulo:
RT, 2000.
7
7
se um aumento de 25,44% .

Se fácil é constar a crise, difícil mesmo foi vislumbrar instrumentos de


superação. Pensou-se, então, sempre à imagem e semelhança do sistema
norte-americano, em algum instituto que desempenhasse a função de filtro
recursal. O precedente mais famoso foi o da argüição de relevância, que
mesmo assim possuía característica inclusiva e não de exclusão.

Neste cenário, pois, que vem a lume a EC n. 45/2004, trazendo como


importante novidade a repercussão geral como requisito de admissibilidade
recursal específico do recurso extraordinário, e não do recurso especial. Para
muitos, também deveria ser exigida a repercussão geral da questão federal
debatida, como forma de barrar o acesso ao STJ8. Assim não se entende.
Acredita-se que o STJ ainda exerce lamentavelmente um importantíssimo papel
de corretor das decisões exaradas pelos Tribunais de Justiça, consertando erros
que não mais se justificam.

Com tal instituto se pretende, nota-se bem, se não dificultar o acesso ao STF,
ao menos tornar sua função mais criteriosa, submetendo à sua apreciação
somente aquelas causas cujo objeto (matéria constitucional) suscite interesse
que transcenda os interesses das partes envolvidas na demanda e guarde
relevância para a vida nacional, seja política, social, econômica ou jurídica.

É chegada a hora, sem dúvida, de se redefinir o papel do STF na sociedade


brasileira, fazendo-se aquele notar por esta, ao tomar decisões que interessam

7
Dados levantados e apresentados pela Secretaria Judiciária. Disponível em:
http://www.stj.gov.br/webstj/Processo/Boletim/sumario.asp. Acesso em: 28.09.2007, 17h30min.
8
ARRUDA ALVIM, José Manoel de, Ibidem. p. 84.
8
verdadeiramente a todos aqueles que participam da vida nacional. O advento
da repercussão geral não vem, pensa-se, resolver a crise do STF, mas, no
mínimo, tornar sua atuação mais digna de uma Corte Superior.

3. REPERCUSSÃO GERAL

3.1. CONCEITO

Repercussão geral é requisito de admissibilidade específico do recurso


extraordinário.

Haverá repercussão geral sempre que se verificar a existência (i) de relevância


econômica, política, social ou jurídica das questões constitucionais discutidas
no caso (ii) que extrapolem, ultrapassem, transcendam os interesses individuais
da demanda.

A relevância econômica estaria presente, por exemplo, em demandas em que


se discutisse o sistema financeiro de habitação ou a privatização de serviços
públicos essenciais9, regras de concorrência econômica, embargo de
construção e funcionamento de grande indústria ou empreendimento por
razões ambientais (a relevância social possivelmente estaria também presente
neste caso), a concessão de determinado subsídio estatal a um ramo da
agricultura e a outro não.

Haveria relevância política, por sua vez, nas causas em que pudesse emergir
decisão capaz de influenciar relações com Estados estrangeiros ou organismos
9
WAMBIER, Teresa Arruda Alvim; WAMBIER, Luiz Rodrigues; MEDINA, José Miguel Garcia. Breves Comentários
à Nova Sistemática Processual Civil. São Paulo: RT, 2007. p. 246.
9
10
internacionais , ou até mesmo entre entes federativos, ou seja, que tivesse
potencialidade para ameaçar o pacto federativo, que tivesse grande relevância
e influência no processo eleitoral ou no Direito Eleitoral em si.

Relevância social teriam as demandas em que se discutissem problemas


relativos à moradia, à escola ou mesmo a legitimidade do Ministério público
para a propositura de certas ações11. Também haveria a relevância social,
acredita-se, nas causas sobre a concessão de determinado benefício
previdenciário, e, com certeza, nas causas que versam sobre a correção das
cadernetas de poupança (expurgos inflacionários).

A relevância jurídica, de outra banda, poderia ser verificada quando se


discutisse um conceito ou instituto do direito que repercutisse, conforme o
resultado, num sem-número de demandas como precedente12 ou naquelas em
que se pretendesse mudar uma jurisprudência já pacificada, incidindo, neste
caso, na regra do art. 543-A, §3°, CPC.

Impõe-se, por oportuno, uma ressalva: nas hipóteses aqui vislumbradas não é
certo ter relevância econômica, política, social e/ou jurídica, pois, como se
verá, a repercussão geral é conceito jurídico indeterminado que só ganha
concreção em face do caso concreto, que pode ter peculiaridades que escapam
à imaginação e faz da regra exceção.

Além disso, conforme expressa previsão do §3°, art. 543-A, CPC, “haverá
repercussão geral sempre que o recurso impugnar decisão contrária à súmula

10
Idem, ibidem.
11
Idem, ibidem.
12
Idem, ibidem.
10
ou jurisprudência dominante do Tribunal”. Ou seja, para fins de harmonização
vertical das decisões, presume-se a repercussão geral da impugnação recursal
extraordinária, porquanto a unidade de interpretação do Direito é, de fato,
questão de grande relevância no mínimo jurídica e de interesse maior do que
os individuais envolvidos no litígio.

3.2. REPERCUSSÃO GERAL COMO CONCEITO JURÍDICO INDETERMINADO

A repercussão geral constitui conceito jurídico indeterminado13, porque é difícil


determinar prévia, exata e objetivamente seu significado absoluto a partir de
sua constituição semântica, esta formada por expressões de significados vários,
amplos e/ou imprecisos, devendo a integração interpretativa do citado
conceito ser feita caso a caso e com o passar do tempo pelo STF, considerando
as variantes de tempo e espaço de uma sociedade em constante mutação, mas
sempre de forma jurídica, razoável e pretensiosamente objetiva, a se evitar
alegação de discricionariedade onde inexista.

O conceito jurídico indeterminado é, em verdade, determinável, porque, em


face da situação concreta em si considerada, ganha determinação. É
indeterminado somente quando considerado abstratamente, e mesmo assim
não completamente. Existe, desse modo, um grau de determinação; é possível
dizer o que é repercussão geral e o que não é. Mas existe uma zona conceitual
cinzenta, embaçada, anuviada, representada pela dúvida do que pode ser. Aí,
então, faz-se importante a apreciação do caso concreto. Verificada a

13 Para uma compreensão profunda acerca da natureza de conceito jurídico indeterminado da repercussão
geral, recomenda-se a leitura do excelente ARRUDA ALVIM, José Manoel de. A EC n. 45 e o instituto da
repercussão geral. In: WAMBIER, Teresa Arruda Alvim; WAMBIER, Luiz Rodrigues; GOMES JR., Luiz Manoel;
FISCHER, Octavio Campos; FERREIRA, William Santos (coords.). Reforma do Judiciário: primeiros ensaios críticos
sobre a EC n. 45/2004. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2005. p. 63 e ss.
11
repercussão geral, não é lícito ao magistrado negá-la, por questões de ordem
subjetiva, alegando discricionariedade. Mesmo porque há discricionariedade
quando pode o agente, em face de duas alternativas legítimas, escolher uma. E,
no caso, diante da aferição da repercussão exigida, somente uma se mostra
legítima, vale dizer, a de admissão do recurso extraordinário14.

Ainda sobre este ponto, deve-se dizer que a adoção de conceitos jurídicos
indeterminados pelo legislador constitui não um fator de insegurança, mas de
evolução na redação dos textos legais, porquanto porventura previsse
exaustivamente os casos de repercussão geral acabaria por “engessar” o
instituto, retirando dele toda sua potencialidade de uso e de restrição de
acesso ao STF.

Desse modo, melhor que a própria Corte Máxima, em face do caso concreto e
considerando as variáveis verificadas a certa época em determinado espaço,
diga quais demandas tem repercussão geral, mesmo porque, alterada aquelas
variáveis, igual questão pode deixar de tê-la.

3.3. REPERCUSSÃO GERAL NÃO É ARGÜIÇÃO DE RELEVÂNCIA REDIVIVA

14 Nesse sentido, prelecionam Teresa Wambier, Luiz Wambier e José Medina: “Embora não se esteja diante de
conceitos determinados, ou seja, daqueles cujo referencial semântico é facilmente identificável no mundo
empírico, existem, indubitavelmente, critérios para que se possam identificar 'questões relevantes do ponto de
vista econômico, político, social ou jurídico, que ultrapassem os interesses subjetivos da causa'. Deve-se afastar
definitivamente a idéia de que se estaria aqui diante de decisão de natureza discricionária. (...) Os conceitos, de
um modo geral, mesmo os conceitos determinados, podem ser vistos como algo que tem uma estrutura
interna. Um círculo de certeza de tamanho pequeno, uma círculo maior que este, que seria a zona de
“penumbra” (Begriffshof), e uma ainda maior, que seria uma outra zona de certeza, agora negativa. Assim, esta
imagem com três círculos concêntricos encerraria, no centro, uma área em que há a certeza, positiva (é, com
certeza- núcleo do conceito-, Begriffskern), e, como última zona do círculo, uma zona de certeza negativa (não
é, com certeza)”. WAMBIER, Teresa Arruda Alvim; WAMBIER, Luiz Rodrigues; MEDINA, José Miguel Garcia.
Breves Comentários à Nova Sistemática Processual Civil. São Paulo: RT, 2007. p. 244. Nesse sentido também:
MARINONI, Luiz Guilherme; MITIDIERO, Daniel. Repercussão Geral no Recurso Extraordinário. São Paulo:
Revista dos Tribunais, 2007. p. 34 e 35.
12
Não se tem notícia de instituto igual no direito brasileiro. A referência à
argüição de relevância15 se dá somente por esta guardar semelhança com a
repercussão geral no que toca exclusivamente a sua função de filtro recursal.
No mais, diferem em tudo, sendo compreensível a comparação freqüente em
sede de doutrina somente em razão da pendência de regulamentação
infraconstitucional, o que dava azo a especulações em torno de como seria sua
futura disciplina legal16.

Agora, após a edição da Lei n. 11.418/06, não há razão para confusões. Como
bem notam Luiz Guilherme Marinoni e Daniel Mitidiero, “enquanto a argüição
de relevância funciona como instituto que visava a possibilitar o conhecimento
deste ou daquele recurso extraordinário a priori incabível, funcionando como
um instituto com característica central inclusiva, a repercussão geral visa a
excluir do conhecimento do Supremo Tribunal Federal controvérsias que assim
se caracterizem” 17.

Não bastasse, a repercussão geral exige, para sua configuração, além da

15 Prevista no art. 119, III, a e d c/c §1°, da Constituição Federal de 1967, alterada pela Emenda Constitucional
n. 1 de 1969 c/c arts. 325, I a XI, e 327, 1°, do Regimento Interno do Supremo Tribunal Federal, com a redação
dada pela Emenda do Regimento n. 2 de 1985.
16 Antes mesmo da edição da Lei n. 11.418/06, já havia notado com proficiência a diferença entre os dois
institutos Eduardo de Avelar Lamy: “Desse modo, a resposta ao questionamento de Rodolfo de Camargo
Mancuso, para quem a repercussão geral poderia ser um reentrée da argüição de relevância disfarçada,
evitando-se somente a ousadia de adotar-se seu nome, parece mesmo negativa. Pelo exposto, portanto,
acredita-se que a argüição de relevância e a repercussão geral são institutos diversos o suficiente à seguinte
conclusão: a última não constitui a volta da primeira”. LAMY, Eduardo Avelar. Repercussão geral no recurso
extraordinário: a volta da argüição de relevância?. In: WAMBIER, Teresa Arruda Alvim; WAMBIER, Luiz
Rodrigues; GOMES JR., Luiz Manoel; FISCHER, Octavio Campos; FERREIRA, William Santos (coords.). Reforma do
Judiciário: primeiros ensaios críticos sobre a EC n. 45/2004. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2005. p. 179.
17 MARINONI, Luiz Guilherme; MITIDIERO, Daniel. Repercussão Geral no Recurso Extraordinário. São Paulo:
Revista dos Tribunais, 2007. p. 30 e 31. Nesse sentido também, revelando, através do conceito, a natureza
inclusiva da argüição de relevância, Nelson Nery: “Dessa ordem de raciocínio, a argüição de relevância da
questão federal pode ser definida como tendo sido pressuposto especialíssimo para o cabimento do recurso
extraordinário, que tinha o objetivo precípuo de afastar o óbice das restrições regimentais, ou, por outra, a
finalidade de fazer com que o STF admitisse o recurso extraordinário, fora dos casos enumerados
taxativamente no RISTF (RISTF 325 I a X)”(sem grifos no original). NERY JUNIOR, Nelson. Teoria Geral dos
Recursos. 6. edição. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2004. p. 104.
13
relevância, de resto também presente na argüição de relevância, a
transcendência da questão discutida.

Há ainda mais: a apreciação de argüição de relevância se dava em sessão


secreta e por decisão não fundamentada, enquanto que a aferição de
repercussão geral deve ser em sessão pública e manifestada por decisão
necessariamente motivada, como deve ser, aliás, toda decisão judicial (art. 93,
IX, CF).

Como notório, o princípio da motivação das decisões judiciais é corolário, como


todos os outros princípios do processo, do devido processo legal, entendido,
em síntese, como um processo justo. Exige-se a motivação por duas razões: (i)
para que a parte conheça dos fundamentos que levaram ao indeferimento de
seu pedido de tutela jurisdicional e possa, portanto, recorrer e (ii) para se
proceder ao controle da legitimidade da atuação dos magistrados18.

No caso, sendo a decisão que inadmite o recurso extraordinário por ausência


de repercussão geral propriamente dita irrecorrível, a necessidade de
motivação se justifica como mecanismo de verificação da legitimidade da
atividade judicante.

Não são os ministros do Supremo Tribunal Federal, nem qualquer outro


magistrado do país, eleitos pelo povo. Por isso, não gozam da mesma
legitimidade dos membros do Legislativo e do Executivo, democraticamente
escolhidos como representantes políticos pelos titulares originais do poder do
Estado (art. 1o, par. ún., CF).
18
No sentido aqui entendido, CÂMARA, Alexandre Freitas. Lições de Direito Processual Civil. vol. I. 15. ed. Rio
de Janeiro: Lúmen Juris, 2006. p. 55 e 56.
14

Assim, a certificação da conformação dos atos praticados por aqueles que


exercem a função jurisdicional com a suposta vontade popular – aqui
entendida como aquilo expresso nas leis, notadamente na Constituição –,
prescinde da revelação dos motivos que os levaram a decidir dessa ou daquela
maneira.

4. COMPETÊNCIA PARA VERIFICAÇÃO DA EXISTÊNCIA DE REPERCUSSÃO


GERAL

4.1. PREMISSAS TEÓRICAS: SOBRE O JUÍZO DE ADMISSIBILIDADE E O JUÍZO DE


MÉRITO DOS RECURSOS

Antes de adentrar-se no tema objeto do presente ensaio, é importante fixar


algumas premissas relacionadas ao juízo de admissibilidade e ao juízo de
mérito dos recursos. Passa-se a elas, pois.

Como sabido, os recursos, como, aliás, qualquer ato postulatório, estão sujeitos
a duas espécies de análise: o juízo de admissibilidade e o juízo de mérito. Ao
primeiro, cumpre verificar o preenchimento de certas condições exigidas por
lei para que as razões da impugnação possam ser conhecidas. Ao segundo, por
sua vez, compete a própria análise do mérito do recurso.

Se, ao final do juízo de admissibilidade, chegar-se a um resultado negativo, ou


seja, constatar-se a ausência de algum requisito de conhecimento do recurso,
não se passa ao juízo de mérito, não se conhece das razões recursais. Por isso,
diz-se que aquele é sempre preliminar a este. Nesse caso, a decisão será
15
declaratória de inadmissibilidade do recurso.

Se, ao contrário, restarem satisfeitos todos os requisitos de admissibilidade,


passa-se ao juízo de mérito para conhecer do fundamento da irresignação.
Nesse caso, pode-se dar provimento ao recurso, reconhecendo-lhe a razão e
acolhendo a impugnação, ou o negar, considerando insubsistente o
fundamento do apelo.

Em regra, compete ao juízo recorrido também a realização do juízo de


admissibilidade; o primeiro, diga-se. Admitido, o recurso será objeto de novo
juízo de admissibilidade, dessa vez pelo juízo ad quem. Deste não se deve negar
a possibilidade de realização do juízo de admissibilidade, sendo, por isso,
previsto, em regra, recurso contra a decisão do juízo a quo que declara
inadmitida a impugnação recursal19.

O juízo de mérito, por seu turno, salvo quando a lei expressamente autoriza de
forma contrária (embargos de declaração, por exemplo), compete ao juízo ad
quem.

4.2. COMPETÊNCIA PARA APRECIAÇÃO DA EXISTÊNCIA DE REPERCUSSÃO


GERAL

Fixadas essas tão importantes premissas, cumpre dizer que, nos termos do art.
543-A, §2°, do CPC, “o recorrente deverá demonstrar, em preliminar do

19 Assim é que ensina Barbosa Moreira: “Outro princípio fundamental é o de que, seja qual for o recurso, pelo
menos a questão da admissibilidade não deve jamais ser subtraída à apreciação do órgão ad quem. Por
conseguinte, com ressalva de expressa exceção legal, nenhum recurso pode ser rejeitado como inadmissível
pelo órgão perante o qual se interpõe, se contra essa decisão a lei não concede ao recorrente outro recurso, ou
remédio análogo, para o juízo a que tocaria julgar o primeiro”. BARBOSA MOREIRA, José Carlos. O novo
processo civil brasileiro. 25 ed. São Paulo: Forense, 2007. p. 120.
16
recurso, para apreciação exclusiva do Supremo Tribunal Federal, a existência da
repercussão geral”.

Da redação clara do texto legal, extrai-se facilmente que a demonstração de


existência de repercussão geral deverá vir em forma de preliminar, em capítulo
apartado, preferencialmente como primeira alegação.

Como salientam Marinoni e Mitidiero, “eventual inobservância dessa


imposição, contudo, dificilmente pode levar ao não-conhecimento do recurso,
subordinado que está esse acontecimento, no terreno da forma, ao não-
preenchimento da finalidade legal do ato e à ocorrência de prejuízo”20.

Vê-se, pois, que a demonstração de repercussão geral constitui verdadeiro


ônus do recorrente. E, como já se deixou consignado em outra sede, “a
omissão, no que diz respeito a um ônus, gera gravame exclusivamente à parte
omissa e o cumprimento do encargo só a ela beneficia; por isso não pode ser
exigível, como acontece com a obrigação”21.

Quanto à apreciação da existência de repercussão geral, esta compete


exclusivamente ao STF, como categoricamente dispõe o texto legal22. Está-se
diante, portanto, de requisito de admissibilidade recursal que só pode ser

20 MARINONI, Luiz Guilherme; MITIDIERO, Daniel. Repercussão Geral no Recurso Extraordinário. São Paulo:
Revista dos Tribunais, 2007. p. 41.
21 SILVA, Ticiano Alves e. Por uma nova interpretação da regra contida no art. 526 do CPC . Jus Navigandi,
Teresina, ano 11, n. 1377, 9 abr. 2007. Disponível em: <http://jus2.uol.com.br/doutrina/texto.asp?id=9711>.
Acesso em: 31 jul. 2007.
22 Critica a presente opção do legislador constituído Luiz Manoel Gomes Junior: “Novamente ousamos
discordar da opção, pois se a parte não aceitasse a decisão, seria possível a utilização do recurso respectivo
(agravo de instrumento). O presidente do tribunal a quo poderá analisar se presente a violação à Constituição,
mas não se a questão repercute de forma geral, o que permissa venia é uma nova gritante contradição”.
GOMES JUNIOR, Luiz Manoel. A repercussão geral da questão constitucional no recurso extraordinário. Revista
de Processo, ano 30, n. 119, janeiro de 2005. p. 109.
17
objeto de aferição pelo juízo ad quem, “e isso facilmente se explica, porque,
em consonância com o art. 102, §3°, da CF/88, o recurso somente pode ser
inadmitido, pela inexistência de repercussão geral, por dois terços dos
Ministros integrantes do Supremo”23, conforme explica José Rogério Cruz e
Tucci.

E a CF assim previu porque, afinal, como se busca redefinir o papel do STF,


fazendo dele um verdadeiro Tribunal Constitucional, com papel determinante
no processo de tomada de decisões com grande repercussão na vida de todos
os cidadãos e na busca pela unidade do Direito, somente ele mesmo, o
Supremo, pode decidir de que maneira isso se dará, vale dizer, quais questões,
no caso, são relevantes e transcendentes a tal ponto de merecerem julgamento
pela cúpula do Poder Judiciário.

Assim, uma vez alegada a existência de repercussão geral, o relator remeterá o


recurso extraordinário ao Plenário do STF para apreciação da existência, de
fato, da relevância e transcendência da questão constitucional discutida, exceto
se a Turma decidir pelo preenchimento do pressuposto pelo voto de, no
mínimo, quatro Ministros, quando, então, já se chegaria ao quorum de um
terço dos membros do Tribunal exigido para admissão do recurso por
repercussão geral.

Diante da exigência de tal quorum, fácil é concluir que milita em favor do


recorrente uma verdadeira presunção relativa de repercussão geral, sendo o
recurso extraordinário não conhecido por ausência de repercussão geral
somente se dois terços dos Ministros do STF assim decidirem.

23 CRUZ E TUCCI, José Rogério. Repercussão geral como pressuposto de admissibilidade do recurso
extraordinário (Lei 11.418/2006). Revista de Processo. Ano 32, n. 145, março de 2007. p. 156.
18

5. COMPETÊNCIA PARA VERIFICAÇÃO DA EXISTÊNCIA DE ALEGAÇÃO DE


REPERCUSSÃO GERAL

5.1 VERIFICAÇÃO DA EXISTÊNCIA DE ALEGAÇÃO DE REPERCUSSÃO GERAL PELO


JUÍZO A QUO

Como visto, compete exclusivamente ao STF apreciar a efetiva existência de


repercussão geral, sendo vedado ao juízo recorrido realizar tal apreciação, por
força, inclusive, de mandamento constitucional. Entende-se, contudo, ser
possível ao juízo a quo aferir a existência de alegação de repercussão geral.

Veja-se: há diferença entre apreciar a existência de alegação de repercussão


geral e apreciar a existência de repercussão geral. No primeiro caso, verifica-se,
exclusivamente, a existência da alegação, em sede de preliminar do recurso,
destacada em tópico próprio, como exige o art. 543-A, §2°, do CPC, ou até
mesmo no corpo do texto das razões recursais, já que o descumprimento da
forma exigida só deverá ensejar a sanção de não-conhecimento quando o ato
não cumprir com sua finalidade ou gerar prejuízo. No segundo, passa-se a
apreciar se existe, ou não, verdadeiramente, a alegada repercussão geral.

Posta esta diferenciação, razão não há para que o juízo prolator da decisão
recorrida não aprecie a existência de alegação da repercussão geral, e não, vale
ressaltar, a existência da repercussão geral em si, que só cabe, nos termos da
lei, ao STF.

Ora, ao órgão a quo compete realizar o juízo de admissibilidade do recurso


19
extraordinário, exceto do requisito da repercussão geral, como tantas vezes já
se disse. Ocorre que, mercê não poder verificar a existência da relevância e
transcendência da questão constitucional discutida, pode o juízo recorrido
avaliar se houve ou não a alegação de existência desta. Não havendo sequer a
alegação de repercussão, não existe razão para se remeter os autos do recurso
ao STF. Trata-se de inadmissibilidade flagrante, manifesta, aferível sem
necessidade de maiores juízos, imperiosa por razões de racionalização dos
serviços judiciários, que, constitui, também, uma das finalidades da própria
inovação trazida pela EC n. 45/04.

Fica patente, portanto, que pode sim o juízo a quo negar seguimento ao
recurso extraordinário, afirmando que naquele caso não houve a alegação de
repercussão geral, tal como faria com os outros requisitos de admissibilidade
(conferir o art. 542, §1°, CPC).

Não há falar, então, em usurpação de competência, que desafiaria a


impugnação por reclamação (art. 102, I, l, CF). Esta só teria cabimento se,
verificada a presença de alegação de repercussão geral, o órgão a quo
procedesse ao juízo de certificação da existência ou não desta, o que,
incontestavelmente, extrapolaria sua competência e invadiria a que pertence
exclusivamente ao STF.

Assim, a parte que teve seu recurso extraordinário inadmitido pelo juízo a quo
por ausência de alegação de existência de repercussão geral poderá se valer do
agravo de instrumento para ver seu recurso admitido.

5.2 A COMPROVAÇÃO DO ACERTO DO ENTENDIMENTO PELA ANÁLISE DE DUAS


20
HIPÓTESES

Imagine-se, por exemplo, a fim de se comprovar o acerto de entendimento


aqui defendido, que o recorrente alegasse a repercussão no corpo do texto e
não em preliminar, em tópico apartado, como exige a lei, e o juízo recorrido se
limitasse a apreciar a existência daquela preliminar. Teria, por óbvio, seu
recurso inadmitido; mas poderia valer-se do agravo de instrumento para
demonstrar que a finalidade do ato foi cumprida, em que pese o
descumprimento da forma exigida (art. 244, CPC)24.

A argumentação de que a parte ficaria prejudicada não parece convincente,


porque a alegação de relevância e transcendência da questão é ônus a ser
cumprido por quem impugna. Se este não o fez conforme dispõe a lei, deve se
submeter às conseqüências desvantajosas que disso advém.

Vislumbre-se outro exemplo. O recorrente, ao contrário da hipótese anterior,


aduz em preliminar formal, mas não fundamentada, a existência de
repercussão geral, limitando-se, porém, a reproduzir o texto legal, exatamente
assim: “deve o presente recurso extraordinário ser admitido porque há, no
caso, questões relevantes do ponto de vista econômico, político, social e
jurídico, que ultrapassam os interesses subjetivos da causa, restando
configurada, desse modo, a repercussão geral”.

Não demonstra a existência da questão e tampouco comprova sua relevância


(política, social, econômica ou jurídica) e transcendência. É flagrante, na
hipótese (que não se creia impossível na realidade, como já se tem notícia), a

24
Sobre o caso ora em análise mais se dirá em momento oportuno.
21
inexistência de repercussão geral, a justificar a inadmissibilidade do recurso
pelo juízo a quo mesmo, por imperativo de celeridade, lógica e racionalização.
Afinal, não alegar a repercussão geral e alegar manifestamente mal e
infundadamente trata-se da mesma situação, a merecer rechaço o quanto
antes.

Sinaliza-se, ainda que evidente, a diferença entre as duas situações imaginadas.


Na primeira, a parte tratou de alegar a repercussão geral fundamentadamente,
pecando somente na forma exigida, devendo, por isso, se satisfeitos os outros
requisitos, seu recurso ser remetido ao STF para deliberação sobre a existência
efetiva de repercussão geral. Na segunda, o recorrente satisfaz as exigências de
forma, aduzindo a alegação de repercussão geral em preliminar e em capítulo
próprio, só que o faz infundadamente, com a simples repetição dos termos
legais, devendo, em face da inadmissibilidade manifesta, ser negado
seguimento ao recurso na origem.

5.3 UMA BREVE, MAS IMPORTANTÍSSIMA RESSALVA

Neste momento, impõe-se uma ressalva. O número de demandas submetidas à


apreciação do Poder Judiciário tem sido de ordem tal que começa a surgir o
que tem sido chamado de jurisprudência defensiva, entendida como obstáculos
criados (interpretações forçadas) pelos tribunais no juízo de admissibilidade
dos recursos a fim de não se chegar ao juízo de mérito. Homenageia-se a forma
em detrimento do mérito. Não é isso que aqui se propõe, que fique claro. Ao
contrário, acredita-se que as últimas reformas já representam um contributo
bastante considerável para a racionalização da prestação dos serviços
judiciários e para se imprimir uma celeridade na tramitação do processo já há
22
muito almejada. “Bastante considerável”, mas não suficiente. A necessidade de
reestruturação administrativa e o aumento do orçamento sabidamente são
questões que escapam à temática exclusivamente jurídica e adentra no terreno
político25.

Acrescenta-se: tal situação gera uma crise de legitimidade mesma, pois, ao


contrário dos membros de Legislativo e do Executivo, os magistrados não
conquistam sua legitimidade pelo voto, pelo sufrágio do povo, verdadeiro
titular do poder, e sim pela sua atuação, efetiva e justa. Difícil é para os
jurisdicionados, depois de tanto tempo de espera, assistirem desolados o fim
de seu processo por um aspecto formal, por uma querela processual, que eles
não entendem nem podem entender. As formas processuais não são
obstáculos ou requisitos para se chegar a um julgamento de mérito. Elas
existem, verdadeiramente, para tornar a atuação do Estado-juiz por meio do
processo uma atuação segura, livre de arbítrios, sem desrespeitos às garantias
constitucionais decorrentes do devido processo legal. E só por isso.

Acredita-se, pois, que reconhecer-se a possibilidade de verificação da


existência de alegação de repercussão geral pelo juízo a quo representa um
mecanismo de racionalização da prestação jurisdicional com o aumento da
celeridade processual. Por conseguinte, o número de demandas a serem

25
No sentido que vai no texto, aduz Ticiano Alves: “É sabido por todos que o Poder Judiciário encontra-se
assoberbado, tendo que apreciar uma quantidade de demandas muito acima do que sua estrutura pode
suportar. Não bastasse, os recursos financeiros disponíveis não são suficientes para satisfazer as necessidades
da Justiça. Ocorre que tal situação, em essência política, não pode dar ensejo à denegação da justiça, sob pena
de desvincular o sistema de seu fim maior: a pacificação social com a realização do direito material in concreto.
E tem-se visto com não rara freqüência que os Tribunais vêm se apegando a aspectos de forma para se negar a
realizar a análise de aspectos de fundo, de mérito, decerto mais trabalhosa. Não se pode esquecer que o
processo é meio, e não um fim em si mesmo, e que se deve priorizar, sempre, o legítimo acesso à justiça e a
produção de resultados no mundo sensível”. SILVA, Ticiano Alves. Para além de uma aplicação tradicional do
princípio da fungibilidade: possibilidade de conhecimento do ato “intempestivo” no caso de existência de
dúvida fundada sobre a natureza do prazo de art. 2°, caput, da Lei 9.800/99. Revista de Processo 150. São
Paulo: Revista dos Tribunais, 2007.
23
apreciadas pelo STF diminuirá, permitindo que um sonhado Tribunal
Constitucional possa se deter em questões verdadeiramente importantes.

5.4 A POSIÇÃO DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL E DO SUPERIOR TRIBUNAL DE


JUSTIÇA

Por fim, noticia-se que a posição aqui defendida tem sido por ora a adotada
tanto pelo STJ como pelo STF.

Nesse sentido, confira-se a seguinte decisão, do STJ, demonstrando que este


Tribunal tem realizado o juízo de admissibilidade do recurso extraordinário
certificando a presença de alegação de repercussão geral: “Nos termos do §2°
do art. 543-A do CPC, introduzido pela Lei 11.418, de 19.12.2006, e conforme a
Questão de Ordem decidida no AI nº 664.567/RS, Sessão Plenária do STF, de
18.06.2007, o recorrente deve demonstrar, em preliminar, a existência de
repercussão geral da pretensão recursal. Na hipótese dos autos, a parte
recorrente não atentou para a exigência estabelecida na citada Lei, pelo que
seu recurso não preenche o requisito de admissibilidade da regularidade
formal. Ante o exposto, nego seguimento ao recurso extraordinário” 26.

O STF também já teve a oportunidade de se manifestar sobre o tema, em sede


de questão de ordem no agravo de instrumento, interposto pelo recorrente
contra a decisão do STJ que inadmitiu o recurso extraordinário em matéria
criminal, sob fundamento de inexistência de alegação de repercussão geral27.

26
STJ, RE nos EDcl no AgRg nos EDcl no RECURSO ESPECIAL n. 824.771/SC, Min. Peçanha Martins, DJ
29/06/2007.
27 Depois do julgamento da Questão de Ordem no Agravo de Instrumento n. 664.567, o STF remeteu instrução
aos tribunais informando como deveria ser realizado o juízo de admissibilidade no recurso extraordinário, no
que toca, especificamente, a existência de alegação de repercussão geral.
24
Na oportunidade, ficou decidido: “Esse o quadro, resolvo a questão de ordem
para concluir: a) que é de exigir-se a demonstração da repercussão geral das
questões constitucionais discutidas em qualquer recurso extraordinário,
incluído o criminal; b) que a verificação da existência na petição do RE de
'preliminar formal e fundamentada de repercussão geral' (C.Pr.Civil, art. 543-A,
§2º; RISTF, art. 327) das questões constitucionais discutidas pode fazer-se tanto
na origem quanto no Supremo Tribunal Federal, cabendo exclusivamente a
este Tribunal, somente, a decisão sobre a efetiva existência da repercussão
geral; c) que só se aplica a exigência da demonstração da repercussão geral a
partir do dia 3 de maio de 2007, data da publicação da Emenda Regimental nº.
21, de 30 de abril de 2007”28.

Cite-se, também, a Emenda Regimental n. 21, de 30.05.2007, que alterou,


dentre outros, o art. 327 do Regimento Interno do STF, dando-lhe a seguinte
redação: “A Presidência do Tribunal recusará recursos que não apresentem
preliminar formal e fundamentada de repercussão geral, bem como aqueles
cuja matéria carecer de repercussão geral, segundo precedente do Tribunal,
salvo se a tese tiver sido revista ou estiver em procedimento de revisão” (sem
grifos no original).

Única impropriedade que se vislumbra dos precedentes jurisprudenciais e da


Emenda Regimental citados é a exigência de preliminar formal de repercussão
geral, contrariando com o quanto disposto no art. 244 do CPC, sobre o que se
verterá mais tinta abaixo, pela conexão íntima que possui com o tema objeto
central deste estudo.

28
STF, AI 664567 QO/RS, rel. Min. Sepúlveda Pertence, Informativo 472, publicado no DJU de 26.6.2007
25
6. CRÍTICA À EXIGÊNCIA DE PRELIMINAR FORMAL DE REPERCUSSÃO GERAL

Viu-se que, segundo a nova redação dada ao art. 327 do Regimento Interno do
STF pela Emenda Regimental n. 21 e a Questão de Ordem decidida no AI nº
664.567/RS, Sessão Plenária do STF, de 18.06.2007, a alegação de repercussão
geral deverá vir em preliminar formal e fundamentada.

Quanto à exigência de fundamentação, nada mais certo, já que, de outra


forma, não se poderia aferir a existência efetiva de relevância e transcendência
da questão constitucional discutida. Quanto à exigência de preliminar formal,
está-se diante de um grave problema.

Do quanto visto, depreende-se sem dificuldades que a demonstração de


repercussão geral deverá vir em forma de preliminar, em capítulo apartado,
preferencialmente como primeira alegação (por exemplo: “I – DA
REPERCUSSÃO GERAL”), a despeito de não ser essa a técnica exigida por lei na
elaboração das peças processuais, como é, por exemplo, em Portugal.

Com efeito, a teoria das nulidades processuais adotada pelo CPC é claríssima
no sentido que o descumprimento da forma exigida só deverá ensejar a sanção
de não-conhecimento quando o ato não cumprir com sua finalidade ou gerar
prejuízo.

Não pode, portanto, o STF ou o tribunal recorrido deixar de admitir o recurso


extraordinário por ausência de alegação formal de repercussão geral, sem ao
menos verificar ao longo do recurso se foi esta efetivamente alegada ou não.
26
Se assim for, todo o capítulo sobre nulidades do CPC será ignorado, justo ele
que se apresenta como um dos mais bem estruturados e doutrinariamente
sedimentados do ordenamento processual civil.

E não é só. Como dito, a decisão que inadmite o recurso extraordinário é


irrecorrível, sendo o caso de se perguntar o que deve o recorrente fazer para
ter seu recurso novamente objeto de um juízo de admissibilidade, que dessa
vez averigúe a demonstração de repercussão geral (ou existência de alegação
desta, se feito pelo tribunal recorrido).

Posto isso, defende-se que, a despeito da cláusula de irrecorribilidade que


reveste a decisão que inadmite o recurso extraordinário por ausência de
repercussão geral, poderá a parte se valer, conforme o caso, do agravo de
instrumento ou dos embargos de declaração.

Quanto ao mandado de segurança, há entendimento no sentido de que não


cabe contra ato de Ministro do STF. Nesse sentido, confira-se a ementa29:
“MANDADO DE SEGURANÇA. IMPETRAÇÃO CONTRA DECISÃO DE MINISTRO DO
SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. ATO DE CONTEÚDO JURISDICIONAL. Ato da
autoridade impetrada resultante do regular exercício das atribuições de
relatoria nos termos do Regimento Interno do Supremo Tribunal Federal.
Conforme pacífica jurisprudência do Supremo Tribunal Federal, salvo em
situações excepcionais, é inadmissível a impetração de mandado de segurança
para desconstituir ato revestido de conteúdo jurisdicional emanado de ministro
do Supremo Tribunal Federal. Agravo a que se nega provimento” 30.

29 Nesse sentido, Mandado de Segurança 21750-QO, Rel. Min. Carlos Velloso, julgamento em 24-11-93, DJ de
8-4-94.
30
STF, Agravo Regimental no Mandado de Segurança n. 26.049-1/DF, rel. Min. Joaquim Barbosa, DJ 24.08.2007.
27

Além disso, desta via só se deve utilizar quando não há recurso previsto para a
hipótese (art. 5°, II, Lei n. 1.533/51), o que não é o caso.

Assim, se o tribunal recorrido, o STJ, por exemplo, ao fazer o primeiro juízo de


admissibilidade do recurso extraordinário, inadmiti-lo por ausência de
preliminar formal de repercussão geral, em tópico próprio, poderá o recorrente
agravar por instrumento ao STF, fazendo constar em suas alegações que há sim
alegação de repercussão geral, ao longo das razões do recurso extraordinário,
não havendo motivo justo para inadmitir o recurso, uma vez que, mesmo que
descumprida a forma, o ato cumpriu com sua finalidade, invocando o art. 244
do CPC.

Neste ponto, impende fazer duas observações.

Primeira observação: a decisão que inadmite o recurso extraordinário por


ausência de repercussão geral só é irrecorrível quando exarada pelo STF,
conforme o art. 543-A do CPC. De outra forma, aliás, não poderia ser,
porquanto, como já referido acima, é princípio da teoria dos recursos que não
se deve negar ao juízo ad quem a possibilidade de realizar o juízo de
admissibilidade, sendo, por isso, previsto, em regra, recurso contra a decisão
do juízo a quo que declara inadmitida a impugnação recursal.

Segunda observação: verificada pelo STF a presença da alegação de


repercussão geral, ainda que não seja em preliminar formal, poderá
monocraticamente o relator, se o agravo estiver suficientemente instruído (art.
28
31
544, § 3°, c/c 545 do CPC) , converter o agravo de instrumento em recurso
extraordinário e submetê-lo à Turma, a fim de se julgar a presença efetiva de
repercussão geral ou, se não satisfeito o quórum de, no mínimo, quatro
Ministros, remetê-lo ao Pleno para julgamento.

De outra banda, se o recurso for inadmitido por ausência de preliminar formal


de repercussão geral pelo STF, poderá a parte se valer dos embargos de
declaração, que sobrevive à cláusula de irrecorribilidade de qualquer ato
judicial, conforma ensina o destacado Barbosa Moreira: “Tampouco importa
que a decisão seja definitiva ou não, final ou interlocutória. Ainda quando o
texto legal, expressis verbis, a qualifique de irrecorrível, há de entender-se que
o faz com a ressalva implícita concernente aos embargos de declaração” 32.

Na jurisprudência do próprio STF, tem-se notícia de decisão da lavra do Min.


Marco Aurélio, para quem: “Os declaratórios visam à integração do
pronunciamento judicial embargado. São cabíveis em qualquer processo, em
qualquer procedimento, contra decisão monocrática ou de colegiado, e
resistem, mesmo, à cláusula da irrecorribilidade” 33.

Sendo de fundamentação vinculada (omissão, obscuridade e contradição),


deverá o recorrente alegar o vício de omissão, configurada na ausência de

31
Comenta com acuidade Teresa Wambier: “A redação atual do art. 544, § 3°, estabelece que o relator, ao
receber o agravo que foi interposto contra a decisão do juízo a quo que negou seguimento ao recurso especial
ou ao recurso extraordinário, pode conhecer do agravo e julgar o mérito do recurso especial e do recurso
extraordinário, dando-lhe provimento, se o acórdão recorrido estiver em confronto (contrastar) com a
jurisprudência dominante ou com a súmula do STJ ou do STF; pode também, admitindo o agravo, converter
este recurso ou no recurso especial ou no extraordinário, passando-se a observar, daí em diante, o
procedimento relativo ao recurso no qual o agravo foi convertido”. WAMBIER, Teresa Arruda Alvim. Os agravos
no CPC brasileiro. 4. ed. São Paulo: RT, 2005. p. 566 e 567.
32 BARBOSA MOREIRA, José Carlos. Comentários ao Código de Processo Civil. vol. 5. 11. edição. Rio de Janeiro:
Forense, 2005. p. 544 e 545.
33 Embargos no Agravo de Instrumento nº 260.674/ES. DJ 26.06.2001.
29
manifestação sobre um ponto sobre o qual deveria o tribunal se manifestar,
vale dizer, a existência de alegação de repercussão geral, seja em preliminar
formal em capítulo próprio, seja ao longo das razões recursais.

Não possuindo efeitos modificativos ou infringentes tal como se entende, não


deve a parte contrária ser intimada para apresentar contra-razões, porque, no
caso, o que se haveria mesmo era correção de uma omissão.

Deve-se dizer, ainda mais, que a oposição dos embargos de declaração pela
parte que teve seu recurso extraordinário inadmitido por falta de preliminar
formal de repercussão geral podem ser reflexos em outros casos.

É que, uma vez não reconhecida a repercussão geral da questão discutida no


caso, a decisão valerá para outros recursos sobre matéria idêntica (art. 543-A,
§5°, CPC). Melhor, então, que se proceda efetivamente à análise da
repercussão geral de fato, para, se inexistente, negar-se seguimento a outros
recursos semelhantes, e não, repisa-se, inadmitir o recurso por formalismo
exacerbado e incoerente com a sistemática processual vigente.

Nada obstante, o apego injustificado a um aspecto formal, a fim de criarem-se


obstáculos à análise da questão de mérito, ao invés de reduzir a carga de
trabalho do Tribunal, acaba por aumentá-la, tendo em perspectiva a provável
interposição de recurso. Mas não é outra, diga-se, a intenção da jurisprudência
defensiva, senão barrar o acesso com fulcro em exigências formais decorrentes
de interpretações forçadas de lei, na esperança de que a parte não recorra e,
assim, diminua a demanda de julgamentos.
30
Afinal, reitera-se: não configura o juízo de admissibilidade exercido pelo
tribunal a quo sobre a existência de alegação de repercussão geral
jurisprudência defensiva. Em verdade, é fruto de uma interpretação razoável e
inteligente do art. 543-A, §2°, do CPC, que pretende, antes tudo, racionalizar a
prestação jurisdicional, tornando-a mais efetiva, e diminuir o número de
acessos ao STF como última esfera recursal.

Por outro lado, constitui a exigência de preliminar formal de repercussão geral


jurisprudência defensiva, por ignorar toda a consagrada teoria das nulidades
processuais na criação de obstáculos para não se apreciar o mérito.

7. CONCLUSÃO

À guisa de conclusão, pode-se afirmar que:


(i) A repercussão geral é requisito de admissibilidade do recurso extraordinário,
constituindo conceito jurídico indeterminado e não se confundindo com a
antiga argüição de relevância.

(ii) Há diferença entre apreciar a existência de alegação de repercussão geral e


apreciar a existência de repercussão geral.

(iii) Apreciar a existência de alegação de repercussão geral é verificar,


exclusivamente, a existência da alegação, em sede de preliminar do recurso,
destacada em tópico próprio, como exige o art. 543-A, §2°, do CPC, ou até
mesmo no corpo do texto das razões recursais, já que o descumprimento da
forma exigida só deverá ensejar a sanção de não-conhecimento quando o ato
não cumprir com sua finalidade ou gerar prejuízo (art. 244, CPC).
31

(iv) Apreciar a existência de repercussão geral é verificar se existe,


verdadeiramente, a alegada repercussão geral.

(v) É possível o juízo a quo apreciar a existência de alegação da repercussão


geral, e não, repisa-se, a existência real da repercussão geral, que
exclusivamente cabe, nos termos da lei, ao STF.

(vi) Não se constitui tal posicionamento em jurisprudência defensiva. Ao


contrário, cumpre-se com a própria finalidade do instituto trazido pela Reforma
do Judiciário, que é racionalizar a prestação da tutela jurisdicional, fazendo do
processo instrumento mais célere e efetivo na satisfação do direito material,
como, afinal, tanto se quer.

(vii) Por outro lado, configura a inadmissibilidade do recurso extraordinário por


ausência de preliminar formal jurisprudência defensiva, barrando o acesso com
fulcro em exigências formais decorrentes de interpretações forçadas de lei, na
esperança de que a parte não recorra e, assim, diminua a demanda de
julgamentos de mérito.

(viii) A despeito de ser a decisão que inadmite o recurso extraordinário por


ausência de repercussão geral irrecorrível, pode a parte se valer, conforme o
caso, do agravo de instrumento, quando a decisão for exarada pelo tribunal
recorrido, ou dos embargos de declaração, quando pelo STF.

8. REFERÊNCIAS
32
ARRUDA ALVIM, José Manoel de. A EC n. 45 e o instituto da repercussão geral.
In: WAMBIER, Teresa Arruda Alvim; WAMBIER, Luiz Rodrigues; GOMES JR., Luiz
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Reforma do Judiciário: primeiros ensaios críticos sobre a EC n. 45/2004. São
Paulo: Revista dos Tribunais, 2005.

BARBOSA MOREIRA, José Carlos. O novo processo civil brasileiro. 25 ed. São
Paulo: Forense, 2007.
_____. Comentários ao Código de Processo Civil. vol. 5. 11 ed. Rio de Janeiro:
Forense, 2005.

CÂMARA, Alexandre Freitas. Lições de Direito Processual Civil. vol. 1. 15. ed. Rio
de Janeiro: Lúmen Juris, 2006.

CRUZ E TUCCI, José Rogério. Repercussão geral como pressuposto de


admissibilidade do recurso extraordinário (Lei 11.418/2006). Revista de
Processo. Ano 32, n. 145, março de 2007.

GOMES JUNIOR, Luiz Manoel. A repercussão geral da questão constitucional no


recurso extraordinário. Revista de Processo, ano 30, n. 119, janeiro de 2005.

LAMY, Eduardo Avelar. Repercussão geral no recurso extraordinário: a volta da


argüição de relevância?. In: WAMBIER, Teresa Arruda Alvim; WAMBIER, Luiz
Rodrigues; GOMES JR., Luiz Manoel; FISCHER, Octavio Campos; FERREIRA,
William Santos (coords.). Reforma do Judiciário: primeiros ensaios críticos sobre
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