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Trabalho 70 - 1/5 316 APLICAÇÃO DO PROCESSO DE ENFERMAGEM À CLIENTE PORTADORA DE LÚPUS

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APLICAÇÃO DO PROCESSO DE ENFERMAGEM À CLIENTE PORTADORA DE LÚPUS ERITEMASO SISTÊMICO EM UMA UNIDADE DE TERAPIA INTENSIVA: RELATO DE CASO

Natália de Melo Manzi 1

Andréa Mathes Faustino 2

Paula Elaine Diniz dos Reis 3

Ivone Kamada 3

Cristine Alves Costa de Jesus 3

INTRODUÇÃO: A enfermagem é uma profissão essencial na qualidade da assistência em saúde e tem como objetivo promover, prevenir, recuperar e reabilitar a saúde do indivíduo, família ou comunidade. Seu foco de trabalho não está na doença, e sim na resposta dos indivíduos aos processos vitais ou aos problemas de saúde atuais ou potenciais 1 . A Sistematização da Assistência de Enfermagem (SAE) é o modelo metodológico ideal para o enfermeiro aplicar seus conhecimentos técnico-científicos na prática assistencial, favorecendo o cuidado e a organização das condições necessárias para que ele seja realizado². Nesse contexto, é possível propiciar um cuidado holístico, no qual o indivíduo é visto como um todo, além de trazer ao profissional um corpo de conhecimento próprio e reflexões acerca de sua prática. O Processo de Enfermagem (PE), considerado a base de sustentação da SAE, é constituído por cinco fases: coleta de dados, diagnóstico, planejamento, implementação e avaliação. Essas etapas são interdependentes dentro de uma atuação prática. Em 1982 houve a criação da North American Nursing Diagnosis Association (NANDA) com a finalidade de reunir esforços para denominar, classificar e desenvolver as questões referentes ao diagnóstico de enfermagem (DE) 1 . Esses diagnósticos, que vêm sendo desenvolvidos por essa

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Enfermeira. Residente de Enfermagem em Atenção Oncológica. Residência Multiprofissional em Saúde do Hospital Universitário de Brasília, Universidade de Brasília – DF

2 Enfermeira. Professora Assistente do Departamento de Enfermagem / Universidade de Brasília – DF

3 Enfermeira. Professora Adjunto do Departamento de Enfermagem / Universidade de Brasília – DF

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associação, são uma forma de discriminar os fenômenos de interesse para a enfermagem, uma vez que descrevem as respostas dos pacientes aos problemas de saúde ou aos processos vitais 1 . Esses diagnósticos vêm sendo bastante utilizados na prática de enfermagem no Brasil atualmente. A aplicação do processo de enfermagem é essencial ao paciente de uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Sua situação instável torna a assistência de enfermagem sistematizada ainda mais necessária, pois esta facilitará o domínio apurado da técnica, conciliando-o com um cuidado humanizado e completo. Quanto maior o número de necessidades afetadas do cliente, maior é a necessidade de se planejar a assistência, uma vez que a sistematização das ações visa a organização, a eficiência e a qualidade da assistência prestada². O Lúpus Eritematoso Sistêmico (LES) é uma doença reumática de etiologia desconhecida, de natureza auto-imune inflamatória, com envolvimento sistêmico. Caracteriza-se pela formação excessiva de auto-anticorpos, alguns causando dano citotóxico, e por complexos imunes, que são mediadores da resposta inflamatória em múltiplos sistemas orgânicos 4 . O maior número de casos de LES ocorre entre mulheres jovens (entre 20 e 40 anos), na proporção de 9 a 10 mulheres para um homem, em todo o mundo e em todas as raças 3 . Dentre as diversas manifestações clínicas que essa doença pode propiciar, o envolvimento da pele é o mais comum (86%). Outras manifestações incluem: alopécia, lesões hiperemiadas no palato ou lesões ulceradas em mucosa, envolvimento articular, mialgia, fraqueza, comprometimento renal e do sistema nervoso. A pleurite, hipertensão pulmonar, hemorragia pulmonar dentre outros acometimentos pleuropulmonares podem aparecer. Manifestações cardíacas como pericardite e miocardite também acontecem. Já as complicações do aparelho digestivo não são tão comuns 3 . O plano de tratamento é individual, variando de acordo com a gravidade do quadro clínico e o tipo de órgão envolvido. Além de medidas gerais e controle das diferentes manifestações clínicas, as drogas utilizadas incluem basicamente antiinflamatórios não-hormonais, antimaláricos, corticosteróides e imunossupressores 3 . As alterações e a evolução imprevisível do LES exigem avaliação preparada e especializada, um cuidado de enfermagem sistematizado e de qualidade. Diante das particularidades apresentadas pelo paciente lúpico, das diversas complicações desencadeadas pela doença e das necessidades humanas básicas alteradas, a enfermagem se faz participante e necessária no desenvolvimento do cuidado, desempenhando suas funções e desenvolvendo o processo de enfermagem a

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fim de assistir ao indivíduo na busca da assistência integral e holística frente às necessidades afetadas. OBJETIVOS: descrever as etapas do processo de enfermagem aplicadas a uma cliente portadora de LES, utilizando o referencial teórico de Imogene King e a Taxonomia II da NANDA. METODOLOGIA: Trata-se de estudo de caso de uma cliente com diagnóstico médico de LES, atendida na UTI de um hospital de ensino de Brasília. O presente trabalho se insere na linha de pesquisa “Metodologia da Assistência de Enfermagem”, com projeto encaminhado ao Comitê de Ética da instituição, sob o protocolo nº 053/2010. Para a coleta de dados utilizou-se um instrumento elaborado baseando-se no referencial teórico de Imogene King e nas categorias de divisões diagnósticas propostas por Doenges, Moorhouse e Murr 5 . Após a anuência do cliente, os dados foram coletados com entrevista e exame físico, durante o período de 11 a 14 de Maio de 2010. Em seguida, os dados foram analisados e, a partir da Taxonomia II da NANDA, foram formulados os diagnósticos de enfermagem. Também foram estabelecidos objetivos e intervenções de enfermagem para cada um dos diagnósticos identificados. A implementação do processo foi realizada por uma das autoras do trabalho. RESULTADOS: Será descrito a seguir um resumo do relato do caso. Paciente de 27 anos, sexo feminino, solteira, sem filhos, desempregada, natural de Brasília, procedente de Luziânia (GO). Em 2005, após um episódio de desmaio seguido de internação, foi diagnosticado LES. Desde então, vinha seguindo o tratamento e recebendo acompanhamento ambulatorial. Em dezembro de 2009, parou o tratamento por conta própria e passou a apresentar inapetência, episódios de náusea, vômitos, diarréia e perda ponderal importante. No dia 10 de maio de 2010 foi internada em um serviço de atendimento de emergência apresentando hálito urêmico, anúria, depressão do nível de consciência, Glasgow 10 e freqüência respiratória de 50 irpm, necessitando de intubação orotraqueal e ventilação mecânica. Evoluiu com insuficiência renal aguda, anemia hemolítica e pneumonia. No exame físico realizado a cliente apresentava-se sonolenta, responsiva, acamada, contida ao leito, hipocorada (+/4+), anictérica, acianótica, afebril e em anasarca. Escala de Hamsay: 2, Escala de Sedação-Agitação (SAS) - 4. Em uso de sonda nasoenteral, cateter venoso central em veia subclávia direita, cateter de hemodiálise em veia femural direita, sonda vesical de demora e ventilação mecânica por tubo orotraqueal com modalidade PSV, PEEP: 5 cmH2O, FiO2: 30%, FR: 16 irpm e volume corrente de 600ml. Apresentava lesões eritematosas-

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vesiculosas secas em face, couro cabeludo, dorso e região perianal. O exame também evidenciou alopécia, gânglios cervicais e submandibulares e lábios ressecados. Murmúrios vesiculares rudes, com presença de roncos em ápices pulmonares, apresentando expansibilidade torácica simétrica. Edema de membros superiores e inferiores. Diagnósticos de Enfermagem e Planejamento da Assistência: foram identificados 10 diagnósticos de enfermagem, com as respectivas metas a serem alcançadas e as intervenções necessárias. Os diagnósticos de enfermagem identificados foram: Percepção sensorial perturbada, Déficit no autocuidado (para alimentação, banho/higiene, higiene íntima e vestir-se/arrumar-se), Comunicação verbal prejudicada, Volume excessivo de líquidos, Mobilidade física prejudicada, Ventilação espontânea prejudicada, Integridade da pele prejudicada, Mucosa oram prejudicada, Eliminação urinária prejudicada e Deglutição prejudicada. CONCLUSÃO: Foi possível aplicar uma assistência de enfermagem sistematizada por meio do Processo de Enfermagem, onde a paciente constituiu-se como centro da atuação do profissional, de forma que suas necessidades foram atendidas através de ações fundamentadas em um modelo teórico próprio da profissão. A aplicação do PE em uma jovem portadora de LES em uma UTI evidenciou a necessidade de realizar uma assistência planejada e individualizada, direcionada a esse tipo de paciente. Tendo em vista a gravidade da doença e suas diversas complicações, é exigido do(a) enfermeiro(a), enquanto profissional de saúde, conhecimento técnico-científico que subsidie suas ações, proporcionando um cuidado de qualidade. A aplicação desse conhecimento dentro da profissão perpassa pelo PE trazendo maior visibilidade à assistência oferecida pelo enfermeiro e, consequentemente, maior valorização de sua atuação.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1- North American Nursing Diagnosis Association (NANDA). North American Nursing Diagnosis Association - NANDA: definições e classificação 2009-2011 / NANDA International; Porto Alegre: Artmed, 2010.

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2- Bittar DB, Pereira LV, Lemos RCA. Sistematização da Assistência de Enfermagem ao paciente crítico: proposta de instrumento de coleta de dados. Texto Contexto Enferm. Florianópolis, 2006 Out-Dez; 15(4): 617-28.

3- Moreira C, Carvalho MAP. Reumatologia - Diagnóstico e Tratamento. São Paulo:

Medsi, 2001.

4- Reis MG, Loureiro MDR, Silva MG. Aplicação da metodologia da assistência a pacientes com Lúpus Eritematoso Sistêmico em pulsoterapia: uma experiência docente. Rev. Bras. Enferm. Brasília 2007 mar-abr; 60(2):229-32.

5- Doenges ME, Moorhouse MF, Murr AC. Diagnósticos de Enfermagem: Intervenções, Prioridades, Fundamentos. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2009.

Palavras-chave: Processos de Enfermagem; Planejamento de Assistência ao Paciente; Diagnóstico de Enfermagem; Lúpus Eritematoso Sistêmico .

Área Temática: Sistematização da Assistência de Enfermagem