Educação na Sociedade Global: integração cultura e tecnologia1

Franz Kreüther Pereira

Até os anos 60, vivíamos no Brasil a era do rádio. As distâncias entre os países (e
mesmo entre unidades da Federação) era um grande obstáculo ao comércio, aos negócios e
ao desenvolvimento econômico e social. Essas distâncias eram cobertas em um tempo
muito grande; as notícias eram apenas ouvidas, e demoravam a chegar. O parque industrial
era pequeno e incipiente, porém emergente. E a escola era um lugar onde a professora
mandava e os alunos obedeciam. E ponto final. Quem mandava nas escolas eram os chefes
políticos, que não só escolhiam onde a escola deveria ser construída, como também
escolhiam as professoras. A metodologia era a da “decoreba” pura e simples. Decorava-se a
tabuada, o “bê-a-bá” as fórmulas, as conjugações dos verbos, o mapa do Brasil, os estados e
as capitais, os países do mundo, as datas históricas, etc. E na hora da prova, oral ou escrita,
o aluno deveria responder ipsis literis o que foi “aprendido”.

Em 1964 os militares assumem o poder com a missão de promover o
desenvolvimento e o fortalecimento do capitalismo, e nesse novo modelo políticoeconômico a Educação é vista como um dos recursos para o sucesso desses objetivos.
Nos anos 70 as multinacionais se espalham, surgem as poderosas transnacionais. O
capitalismo, que iniciara no Brasil na década de 1930, atinge sua maturidade, e implanta a
ideologia da racionalidade técnica, que afetará a cultura e a educação. Segundo o Aurélio,
Cultura é “o complexo dos padrões de comportamento, das crenças, das instituições e
doutros valores espirituais e materiais transmitidos coletivamente e característicos de uma
sociedade.” No dizer de Neidson Rodrigues, no prefácio de O Gatopardismo na Educação:
(Leroy, 1986)
“Uma cultura é essencialmente um modo de ver o mundo que estabelece
a relação do sujeito com esse mundo e determina a sua compreensão
1

Trabalho de Avaliação da Disciplina Conhecimento, Tecnologia e Sociedade, no Curso de Especialização
em Informática e Educação da Universidade do Estado do Pará-UEPA – Turma de 1997.

intelectual desse mundo, o seu modo de agir e a natureza dos
instrumentos de que ele lança mão para atuar nessa realidade.” (apud
Leroy, 1986, 12)
0 conceito filosófico-epistemológico de Neidson Rodrigues deixa claro que, para
mudar o paradigma de uma sociedade, mister se faz mudar sua cultura, e ele próprio reforça
isso mais adiante: “É necessário operar uma reforma intelectual e moral nos atores de um
momento histórico.” Assim, as mudanças educacionais são necessárias1, mas não são tão
simples e fáceis de se realizarem como as mudanças na economia ou na burocracia da
sociedade. É preciso encontrar um veículo eficaz e sutil que possibilite a comunicação com
as grandes massas e abra espaços para a remodelagem cultural, possibilitando essas
mudanças.

Um novo veículo de comunicação, a televisão, torna-se parte da força de sustentação
política (ideologia) do poder estabelecido e começava sua hegemonia (e por isso é chamada
de “o quarto poder”2); e sob ela toda a sociedade mudaria. Já não apenas ouvíamos as
notícias, mas também víamos os fatos no momento em que se sucediam. Isso ampliava a
informação, dava-lhe novos contornos, nuanças e meios tons. Os satélites artificiais
cobriam e interligavam os quatro cantos da Terra. Iniciava-se o que McLuhan denominou
nos anos 60 de “aldeia global.
Com os anos 70 veio o “Milagre Brasileiro” e a Reforma do Ensino (Lei 5.692/71),
que tornava obrigatório o ensino básico em oito anos, além de criar os cursos
profissionalizantes com equivalência de 2o grau. Alguma coisa mudou na educação, o
ensino tornou-se mais participativo, começou-se a considerar que o processo de construção
do conhecimento acontecia também do lado de fora das salas e instituiu-se as pesquisas
como forma de aprendizagem e avaliação. O aluno trabalhava em grupo, consultava
bibliotecas, etc. O ensino ganhava um espaço e uma forma nova de se desenvolver. Como
nos fala Dagomir Marquezi (1997, 50):“parecia uma revolução mas era uma reforma”, ou
seja: mantinha-se o conservadorismo.

Como sabemos a educação, como não pode deixar de ser, é um fato político,
econômico, histórico e social, e a escola sempre esteve a serviço da sociedade dominante
como reforço ideológico. Com a Reforma do Ensino já se vê clara a tendência que a escola
tomaria a partir desse ponto: “a formação de mão de obra para as indústrias”. Essa é a
análise de Clauss Offe, apresentada por Elba Siqueira de Sá Barretto (1994, 5-14), num
excelente artigo para a coleção Cadernos de Pesquisa. Nele, Elba atesta que “os sistemas
educacionais nesse caso (ela refere-se a regulamentação da oferta e da demanda do
mercado de trabalho – N.A.) funcionam como reguladores por excelência do período de
ingresso no mercado de trabalho tendendo a prolongar o período da adolescência mediante
a retenção do jovem na escola por maior número de anos”.

Iniciamos a década de 80 com 34% (fonte: Almanaque Abril 1995) da população
composta de analfabetos; e em fins da década de 80 o país entra na “Redemocratização”,
abandonando de vez o regime ditatorial militar, (que já não é mais necessário para sustentar
as mudanças operacionalizadas) e assumindo o autoritarismo civil. Em 1988 ganhamos uma
nova Carta Constitucional, apelidada pelo presidente da Assembléia Constituinte, deputado
Ulysses Guimarães, de “Constituição cidadã”, e que segundo o professor Florestan
Fernandes (1989, 238) “é uma Constituição inacabada”. No setor educacional fala-se muito
na pedagogia elaborada por Paulo Freire na década de 60, mas a escola, principalmente do
ensino médio e do superior, continuava atrelada aos interesses privados e ao fortalecimento
do crescimento econômico, constituindo o que o Florestan Fernandes denominou de “usina
pedagógica”. (1989, 28). Essa visão de homem (como produtor) e de educação (o professor
é o produtor do saber e o aluno o consumidor) é denominada Pedagogia Histórico-Crítica, e
foi elaborada por Demerval Saviani. Libâneo e Luckesi, entre outros importantes
educadores, são os principais defensores dessa visão mercadológica do saber.

Os anos 90 trazem um aumento da recessão e a inflação de três dígitos. As empresas
demitem em massa. É a crise! O então presidente da República, Fernando Collor, fala em
privatização de empresas estatais, abre o mercado para os produtos importados, e com
quase dois anos de administração, é afastado pelo mar de lama da corrupção que inunda o
seu governo e desemboca num processo de impeachment. O mesmo instrumento (a mídia

televisiva) que o pôs no poder é responsável pela sua deposição. Porém a abertura do
mercado brasileiro para os produtos importados (ainda que com a reserva de mercado)
permite, a um número cada vez maior de pessoas, o acesso a um novo elemento que
revolucionaria as comunicações, a informação e o cenário educacional; uma ferramenta
pedagógica única e incomparável, um poderoso auxiliar no processo ensino-aprendizagem:
o computador, e sua consorte a Internet.
Marquezi ( op.cit. p. 50 ) afirma que “um aluno equipado com um PC multimídia e
um provedor de Internet pode aprender numa única semana muito mais que em um ano
inteiro de sala de aula”. As possibilidade do uso do computador pelos estudantes são
imensas. Computadores, ligados em rede, possibilitam aos alunos uma ferramenta de
trabalho em grupo que redimensiona a aprendizagem cooperativa, o compartilhamento da
informação. Os benefícios desse processo de produção do conhecimento são enormes, e
sabemos que “os grandes meios audiovisuais têm se convertido nos principais veículos de
cultura...” (1994-B, 27).

A nova LDB (Lei 9.394, de 20/12/96) é promulgada e reafirma a condição de uma
educação tecnicista, visando a formação profissional em detrimento da formação
humanística, um ensino voltado para um mercado mais exigente em termos de qualidade
dos seus profissionais, que a escola deve preparar. Ainda se adota a pedagogia de Saviani,
agora com mais requinte. Prega-se então a Qualidade Total na Educação. Veja-se nos
princípios e fins da Educação Nacional, artigo 3o , itens:

III - Pluralismo de idéias e concepções pedagógicas
IX - Garantia de padrão de qualidade
XI - Vinculação entre a educação escolar, o trabalho e as práticas sociais.

A ênfase está nas novas tecnologias e no desenvolvimento de habilidades para lidar com
elas, pois as futuras gerações de atividades produtivas, bens e serviços estarão
necessariamente vinculadas ao domínio da informação. Vejamos um exemplo retirado de
um artigo da revista Veja, (3/4/1996, 80-93), intitulado A Roda Global:

“Em 1990, a IBM empregava 400 000 funcionários, dos quais menos de
20 000 se ocupavam em fabricar máquinas. Os outros trabalhavam na
elaboração de softwares marketing, projetos ou integração de sistemas
de computadores”.
A globalização e o capital, cada vez mais high tech, estão desintegrando as indústrias
convencionais, aquelas que exigiam capital e mão-de-obra intensivas, dando lugar as
empresas de inteligência intensiva. Como podemos ver, o trabalho braçal ocupa cada vez
menos mãos, ao passo que o labor intelectual constitui-se na viga mestra das organizações.
A relação entre o custo da matéria prima contida num produto e a tecnologia nele aplicada
é, algumas vezes, na proporção de 1 para 1000. Por isso, numa sociedade globalizada, o
mercado vai buscar a matéria prima onde for mais fácil e muitíssimo mais barata. Ao passo
que as inteligências que detém o conhecimento, essas ele vai buscá-las a peso de ouro.

Nos Estados Unidos, a década de 90 iniciou-se com um enorme movimento para um
replanejamento de todo o sistema de educação básica. Este movimento de evidentes
conotações políticas, foi realizado por especialistas em diversas áreas encabeçados pelo
economista Robert Reich, que percebeu ser essa a única forma que o país tem para manter
sua supremacia e a prosperidade social e econômica, no próximo milênio. E quando se trata
da sobrevivência e manutenção da soberania norte-americana, o Congresso é rápido. Assim,
informa-nos Saldarriaga (1994-b, 3), o Congresso americano propõe uma verba de US$
1.150 milhões “para reforçar, até 1997, a ação de organizações, como a National Science
Foundation, que terá a função de possibilitar o planejamento do sistema educativo,
promovendo a comunicação entre as escolas e a familiarização dos alunos com as
descobertas recentes da ciência e o domínio de ferramentas de informação”. Apoiando essa
ação, a própria Agência Aeroespacial Norte-americana ( NASA ) aplicaria toda sua
tecnologia para criar as primeiras bibliotecas virtuais que utilizem os recursos da
hipermídia.

Os países da América Latina também vêem-se impelidos a investir pesadamente na
educação de crianças e jovens entre os 8 e 23 anos, que é a necessidade social básica desses
indivíduos. A sociedade global não admite o analfabetismo, a ignorância e a

desinformação, e “as perspectivas para os países que não construíram sua base científicotecnológica, são bastante sombrias”. (Franco, 1993, 11)

Estamos às portas do século XXI, onde a sociedade industrial tenderá a ser
substituída pela sociedade da informação. As fronteiras culturais, políticas e,
principalmente econômicas, tendem a desaparecer e fazer surgir blocos de países com um
mercado comum e uma sociedade genuinamente transnacionalizada. A riqueza ou pobreza
de uma nação será medida pelo seu grau de domínio sobre a informação e as variáveis
essenciais para o próximo milênio são o conhecimento, a ciência e a tecnologia, e a
educação é o fio condutor que interliga essas três variáveis. Para Schaff (1990, 43) “na
sociedade informática a ciência assumirá o papel de força produtiva”.

Nessa trança sócio-cultural e tecnológica em que se molda a sociedade globalizada, o
tempo é o elemento mais importante, é o laço que fixa, mantém e dá o arremate à trança.
Nunca a máxima capitalista “time is money” ( e eu completo: “and the information also”)
foi tão verdadeira quanto nos tempos atuais. Graças a tecnologia das comunicações, o
conceito de tempo também tem sofrido mudanças. Ás vezes nos surpreendemos percebendo
um instante do passado médio ou distante, como se acontecido a poucos dias.

Desde que começou a sua inexorável caminhada evolutiva, a maior barreira que o
homem encontrou não foi física ou geográfica, porém uma barreira invisível e imanente a
toda ação humana: o tempo. O conceito de tempo ainda está umbilicalmente ligado a
mecânica newtoniana (séc.XVII), assim como o conceito de espaço. Porém a ciência e as
novas tecnologias já começam a rever esses conceitos, baseados na relatividade einsteniana.
O fenômeno da globalização transformou os padrões de tempo. Essa sensação de que as
coisas vão muito, muito depressa, é um dos motivos da crise dos paradigmas que a
sociedade enfrenta. As mudanças que se processam no mundo são extremamente
aceleradas, e quem perder o “Expresso 2222” perde seu lugar na nova ordem mundial, e a
educação é o bilhete, a passagem e o passaporte para este trem.

O grande desafio da educação nessa virada de milênio, onde as fronteiras culturais,
políticas e, principalmente econômicas, tendem a desaparecer, talvez seja a criação de um
modelo de educação que dê ao homem uma real sociedade democrática. Uma sociedade em
que ele possa ter autonomia para exercer sua cidadania, e aqui me aproprio do conceito de
autonomia apresentado pelo professor Gaudêncio Frigoto, em recente palestra na UFPA,
(Belém, 21/07/97): “Autonomia significa possuir uma série de condições para realizar uma
determinada ação”. Por conseguinte, dar autonomia a um indivíduo é dar-lhe condições
para atender aos seus desejos e necessidades; é possibilitar-lhe realizações pessoais etc.

A sociedade do terceiro milênio, a sociedade globalizada, precisa de uma nova
pedagogia, uma pedagogia que esteja em sintonia com o ritmo próprio de cada indivíduo,
pois é esse ritmo que lhes dá identidade e determina as características de cada criatura.
Precisamos de uma educação que possa formar uma nova estrutura conceitual (amálgama
cultura3) que possibilite um novo padrão de homem, o “homem holístico”, que considero
uma versão ampliada da concepção de Marx (homem onilateral), e de Gramsci (trabalhar o
indivíduo em sua totalidade). Um novo homem para uma nova sociedade é o que estamos
presenciando surgir. E a crise de paradigmas que aí está é exatamente porque o homem (e a
sociedade) que temos é um homem (e uma sociedade) em transição, e toda transição é
caótica.

Uma educação de qualidade para todos é a condição primordial para que se inicie um
processo mais amplo de conquistas sociais e políticas, e a estrada para se atingir esse
objetivo é a da informação, da ciência e da tecnologia. “Integrar tecnologia e educação não
significa apenas combinar função técnica e função educativa mas, sim, colocá-las em sua
função social no âmbito educacional e, consequentemente, no âmbito da sociedade em
permanente mudança”4, e segundo Heráclito, nada é permanente a não ser a mudança.

Franz Kreüther G. Pereira
(Belém - 1997)

Notas:
1- E esse respeito recomendamos o trabalho de Leroy (1986) que faz uma excelente análise crítica dos
fatores políticos que mascaram as reformas educacionais, pelo menos até 1974.
2 - Veja-se o artigo de Beatriz Bissio, “O Quarto Poder”, in Caderno do Terceiro Mundo, nov. 1994.
3 - Entendemos por amálgama cultural o complexo conjunto de regras morais, éticas, filosóficas, religiosas,
e o produto científico e artístico de um povo.
4 - in “A IBM e o Projeto de Educação para Escolas de 1o e 2o graus” - Projeto Novo Horizonte - s/d

Bibliografia:
ALMANAQUE ABRIL 1995. SP. Abril SA. 21a ed.
BARRETO, Elba Siqueira de Sá. Políticas Públicas de Educação: atuais marcos de análise. Cad. Pesq. São
Paulo. SP. no 90. ago. 1994.
BISSIO, Beatriz.. O Quarto Poder. Cadernos do Terceiro Mundo. nov.1994.
FERNANDES, Florestan. O Desafio Educacional. SP. Cortez/Autores Associados. 1989.
FRANCO, Maria A. Ciavatta. Novas bases para a Educação nos anos 90: integração, Ciência e Tecnologia.
1993. (Texto)
MARQUIZI, Dagomir. O bom menino tem auto-educação. Revista Informática-Exame. vol. 12, no 135.
jun.1997.
LEROY, Noêmia M. Inez Pereira. O Gatopardismo na Educação.RJ. Dois Pontos. 1986. SALDARRIAGA,
Germán Escorcia. Navegantes do Conhecimento. Revista Fonte. 1994. Centro de Informática e EducaçãoIBM. ano 1, vol..1. jul/out. 1994.

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