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Heidegger – a historicidade da existência

(Machado de Oliveira, Cristina G.)
Temos em“Ser e Tempo”, a obra que eterniza o pensamento de Heidegger, pois,nela
o filósofo faz uma revisão da metafísica e da questão ontológica, abordando toda a
história da filosofia, buscando uma verdadeira reconstrução do problema e, talvez,
sua possível resposta, como ele próprio falou:
“Caso a questão do ser devaadquirir a transparência de sua própria história, é
necessário, então que seabale a rigidez e o endurecimento de uma tradição
petrificada e se removam osentulhos acumulados. Entendemos essa tarefa como
destruição do acervo da antigaontologia, legado pela tradição”. [1]
Esse caminho escolhido por Heidegger se revela como uma estratégia para
organizar a pergunta fundamental de sua filosofia, porque toda consideração da
realidade, daquilo que é, exige uma prévia consideração de qual é o “sentido do
ser”, para que se possa chegar à “questão privilegiada”, questão do ser:
“Deve-se colocar aquestão do sentido do ser. Tratando-se de uma ou até da questão
fundamental,seu questionamento necessita, portanto, de uma transparência
conveniente. Porisso é preciso que se discuta brevemente o que pertence a um
questionamento paraentão, a partirdaí, se poder mostrar a questãodo ser como
uma questão privilegiada.”[2]
Deste modo, podemos perceber queHeidegger procura demonstrar no bojo de sua
obra, que a pergunta fundamental (sobre o sentido do ser) sempre esteve presente
na filosofia desde os gregos, porém, segundo o filósofo, tal questão caiu no
esquecimento,vejamos:
“Embora nosso tempo se arrogue o progresso de afirmar novamente a ‘metafísica’,
a questão aqui evocada caiu no esquecimento (...). A questão referida não é, na
verdade, uma questão qualquer. Foi ela que deu fôlego às pesquisas de Platão e
Aristóteles para depois emudecer como questão temática de uma real investigação.
O que ambos conquistaram manteve-se, em muitas distorções e ‘recauchutagens”,
até à Lógica de Hegel.”[3]
Apesar de ter sido trivializada, como o próprio autor diz (Vide o Parágrafo 1º de“Ser
e Tempo”, p. 27), porque a tradição equivocou-se, pensando que aquestão já estaria
respondida, mas Heidegger revela o inverso. O que ocorreufoi uma verdadeira
inadequação da linguagem em relação à questão. Sendonecessário afirmar as
fronteiras entre o “ser” e o “ente”, entreo “ontológico” e o “ôntico”.
A partirdeste aspecto, Heidegger procura explicitar a pergunta sobre o sentido do
ser,usando um ente que possa clarificar o problema.
Desse modo, aplicado aoproblema do ser, o método fenomenológico utilizado por
Heidegger leva-o acolocar como ponto de partida de sua reflexão aquele ser que se
dá a conhecerimediatamente, ou seja, o próprio homem.
“Aexistência humana não é um simples fato: ela articula, no próprio ato da
suamanifestação, a questão do ser. Existir, é habitar estaticamente na verdade
doSer. Pensar, é descobrir reflexivamente o caminho do Ser: não
significa,originariamente, compreender algo, mas compreender que se está
jásituado.”[4]

podemos dizer que a metafísica é um pensamento de identidade e a ontologiaheideggeriana uma meditação da diferença. não só do homemcomo de todas as coisas. desloca-se da problemática imediata da existênciahumana. mas é este mesmo que torna possível a abertura para acompreensão da existência humana. nem o princípio dos entes. in-siste. Não é também algo inefável. Uma filosofia que colocasse o homem como centro depreocupação seria antes uma antropologia.mas apesar disso. mais tarde pensada na metafísica. a metafísicadefine o ser como“presença” (no sentido em que se diz que num lugar “ está presente” um objeto)ou seja. ele é. O ser é determinado apartir de uma identidade. Portanto. O ser é um mistério. mas não comonihilabsolutum(nada absoluto) e sim como “transcendência” em relação aoente. pois é aquilo que torna possível alinguagem. em vez de ex-sistere subsiste. ao conceber o ser como forma e presença objetiva acabamos por tornarimpossível o devir e a história. portanto. queconstitui a realidade para aproveitar-se dela. não da linguagem científica. que passaa ser o horizonte no qual se poderia divisar o ser. fazendo-o. mascomo diferença de todo o ente. ser encontrado e de algum modo apreendido –algo. Heideggersalientaque de Parmênides aHegel e mesmo até o próprio Nietzsche. nem princípio dos entes. no sentido de que não pode sercompreendido através de nenhum ente. O ser do “segundo” Heideggeré uma espécie de iluminação da linguagem. como um traço desta identidade. Heidegger afirma que a questão quelhe preocupa não é a existência do homem e sim a questão do ser em seu conjuntoe enquanto tal. emHeidegger. tal sersubordina a si e acaba por absorver em si o futuro. na qual se pode comemorá-lo.Portanto aquestão fundamental da filosofia não é o homem mas sim o ser. é representada como um traço doser. mas um ser que habita antes alinguagem poética e criadora. Enquanto diferença do ente Heidegger chamaprecisamente “diferença ontológica” à diferença entre o ser e o ente – o ser é ooutro do ente.”[5].. . portanto. a existência histórica do homem. o ser. a fim de que não se cair no esquecimento. não podemos querer determinar a partir da identidade representadametafisicamente aquela que Parmênides nomeia. enquanto presença objetiva. Pelo contrário. um dosobjetivos básicos de sua obraSer e Tempoé investigar o sentido do ser.Heidegger em sua obraO que é isto – filosofia?. ou seja. se dá comoforma e é visível e pode. começou investigando o ser que nós própriossomos. ou seja. nem o fundo darealidade. portanto de objetivo. e dirige todas as suas reflexões para opróprio ser.surgir. que o ocupou em Ser e Tempo.. Porém. impede o devir. o ser cristaliza eanula o devir histórico. o ser como aquilo que é comum a todos os entes.Para efetuar tal tarefa. Trata-se de tal forma que não é a existência humana o acesso deentrada para o ser. não-ente e neste sentido é o nada. Pelo contrário. de certa forma. Não sendo entealgum. Desse modo. isto é. O pensar essencial seria o pensar que“joga” com o ser e se reflete nele. O traço marcante dessas reflexões ontológicasé constituído pela penetração cada vez maior no universo da linguagem.. ao mesmo tempo. O ser não éapresentado como ente algum. sendo o responsável pelo homem falar sobre as coisas.. enquanto o ser é entendido. identifica-se com o nada. Logo. portanto. Parasalvaguardar a historicidade da existência – esta é a tese de Heidegger – não sedeve entender. Assim. isso fica explícito no fragmentoheideggeriano a seguir: “. lembráloconjuntamente. aidentidade. como aquilo que. Concebido como presença objetiva.mais especificamente emIdentidade e Diferença. O ser da ontologiametafísica preenche os espaços para os quais se pode dirigir a existência no seu“projetar-se” e.

o pensamento da identidade põe o sernuma relação imediata com a consciência. mas um acontecimento vivido. Podemos perceber que apergunta principal de Heidegger é: qual é o sentido do ser?Em sua obraIdentidade e Diferença ele indaga: “. e por isso o vivente sempre já se fez. essa ficou indevida por estar clara eevidente.. cujo conhecimento é uma das expressões privilegiadas. garante a possibilidade de futuro e. O homem éum sendo acontecendo. com os outros e com o mundo. de todosos entes.do mesmo modo que a situação se impõem antes da reação afetiva. Entretanto. nesse sentido. O ponto de partida necessário de toda tentativa por determinar. nossa existência. deexistir nela. aquele ente que é a existência ohomem.Assim. para ele.. a realidade que a determina. portanto. histórico e situado. Heidegger esclarece do modo mais nítidopossível que a existência do homem enquanto poder ser que decide acerca de simesmo e que se escolhe a si próprio apenas é possível como compreensão do ser.”[7] A existência. com isso. por isso não entendemos se ohomem fez o mundo ou vice- . que significaser?.Há entre o ser e o mundo uma diferença irredutível uma vez que o homem é capazde interrogar sobre a realidade e de englobá-la.Esta presença fundamental. não tendo nenhum sujeito ou causa que sustente isso por trás. recolhido sobre si..Esta compreensão do ser é o transportar-se para além do ente abrindo o livrecampo de jogo do ser onde os entes se tornam patentes e onde a existência dohomem pode projetar e ser existência histórica em devir. acima de tudo. Nessesentido ele é lançado.. isto significa que em cada instante ele se manifesta noser. mas uma plenitude. o ser do ente em geral. É o acontecimento que tem a forma do salto. Isso fica explicito quando Heidegger afirma: “.. dodevir. estar aí. doimediato. em seurigor. sem deixar.. como “nada” – como o nada em que consiste o surgimento do ente – oser assegura o futuro ao ente e...” [6]Desse modo. Heidegger nos recorda o caráter pré-dado da existência. A existência éum “meio-termo” caracterizado por um movimento perpétuo de vai-e-vem entre opré-dado na situação e a realidade desvelada na compreensão. é o homem como ser-aí ou Dasein.. Neste horizonte da transcendência. poispara ele o homem não se liga à imagem do mundo como uma coisa integrada numatotalidade: ele descobre-se sempre enraizado no já-aí cujo horizonte é o mundo.. é o cuidado que abre ao homem o universo dapresença. É assim que a presença se degradatransformando-se num objeto que a linguagem apreende. vive em relação com as coisas.. Heidegger denominao modo de ser do homem. Isso fica explícitona passagem: “. com a palavra Dasein. Não se pode definir ohomem em relação a ele mesmo: ele não é um sujeito isolado. a ocupação que descobre nacircunvisão o ente intramundano. Graças ao cuidado o ser humanoexperimenta-se para além do já-aí. O homem é propriamente esta relação de correspondência. o homem é o único ao qual é funcionalmente exigida uma solução para oproblema do existir. não para de reporem questão. o homem descobre-se sempre comoser-com. ele substitui a pergunta dos filósofos clássicos – o que é oser? Pois. esta se desenvolve antes de toda a tomada de consciência reflexiva.. jogado no mundo. [8]”. Somente não significa limitação. Na presença está emjogo o seu poder-ser-no-mundo e. cujo sentido éser-aí. e ésomente isso. Segundo Heidegger. Sendo assim.interpretamos o homem como um ser-no-mundo. portanto. pois antes de pensare mesmo de falar. Definir a existência como cuidado é destruir a imagem clássica de um“cogito” isolado. A isso Heidegger conceitua decompreensão. e por isso já é sempre um algo forjadonesta ou naquela situação.comHeidegger. criando uma terminologia própria.pois existe a co-pertinência entre homem e mundo. superando-a.não é exclusivamente um fato verificável. pois.

a expressão dessa dinâmicainterior do ser. numa visão heideggeriana. e porisso o mais evidente. o ser humano ganha o seu sentido na história. A existência não para de repor em questão. E esseser-no-mundo é o modo fundamental do homem. porque ambos foram reciprocamenteentregues como propriedade a partir de um gesto que dá A penetração no âmbitodesta entrega com propriedade dispõem e harmoniza a experiência dopensar. ora. podemos definir o conceito de sercomo o mais universal. Heidegger privilegia o Dasein porque ele é capaz de perguntar pelo sentidodo ser. indefinível e evidente por si mesmo. “. superando-a. qualquerpossibilidade de conhecer o sendo fora da luz do ser. É sempre o contexto das coisas que mostra o seu significado. esta engloba osendo no seu conjunto como o existente humano.”[9].portanto. o reflexo da transcendência do sentido. portanto. isto é.. É como Heideggerafirma: “.questionar é ir à raiz. é o da presença. operaria uma reflexão do mundo. é procurar o ente naquilo que ele é e como ele é. portanto é indefinível. além da situação do homem. nós sempre progredimos eevoluímos. tomando-se comoobjeto de reflexão. arealidade que a determina.. é explicar o próprio ente. com efeito. apartir daquilo que a ambos apropria numa comunidade. O sentido de ser éum arranjo das coisas de tal sorte que elas se revelam exatamente nessecontexto.[10] Assim. Não há. o sentido do dado: a aparentegratuidade do existente é precisamente o sinal da presença do ser no seio domundo. sem deixar. será um meio-termo. Por ser o mais universal. o conceito de ser está acima. a partir doacontecimentoapropriação.. pois não ensina maisverdades. o conceito de sertranscende ao gênero e a espécie. é o único capaz de se questionar sobre o sentido do ser. Ele irá chamar essa ontologia de hermenêutica. fora etranscendente ao gênero e a diferença específica. o ser-no-mundo é a condição fundamental do homem mesmo em suahumanidade. A grande questão na filosofia heideggeriana é o ente como questionador(Dasein). Nada fazsentido sozinho. A transcendência é..”. mas nos ensina como interpretar. Fazer filosofia é um processo de retirada do “véu de maia”. E o Dasein éoúnico que pergunta. a constelação de ser e homem. pois a junção disso é o próprio salto. É a análise do ente. desdesempre atingiram juntos a sua essência.Heidegger recusa-se a separar o ser do sendo. o pensamento descobre. porém já sempresituado e imerso no jogo sujeito/objeto. já que o ente nele mesmo é umapossibilidade de ser no mundo antes de todo e qualquer eu. pois realidade se faz realidade nessejogo. não se pode definir ohomem em relação a ele mesmo: ele não é um sujeito isolado que. dentro da visão heideggeriana.. O sentido do serestá dentro da progressão temporal. não setrata mais do homem concebido primeiramente como um ser isolado e solto quetivesse de vir ao mundo para aí cumprir uma trajetória finita. Segundo ele o verdadeiromundo não é o da ação ou o da contemplação. poiso objetivo é o ser do ente. é um esforço de revelar aquiloque está oculto..encarando o presente. Desse modo. A existência. não temlimitação. Osalto é a súbita penetração o âmbito a partir do qual o homem e ser. desse modo. portanto. de existir nela.Por isso. O ser humano existe emconaturalidade com os sendos circundantes que o investem. aocontrário. Assim.. nesse sentido. . Nesse sentido. segundo Heidegger.a fenomenologia. caracterizado por um movimento perpétuo devai-e-vem entre o real pré-dado na situação e a realidade desvelada nacompreensão. mas. o geral. de seu modo de existir capaz de questionar. com efeito.versa.. porisso. O que equivale a dizer que o modo humano de ser éinterrogativo. O ser é o conceitomais universal de todos porque é o primeiro lançado em nossas cabeças.

a verdadeirarealidade do fenômeno está oculta pelo sintoma. E ao se dar na abertura. mas é a evidencia da ação do fazer. porque já é sempre interpretação. abri-lo aalgo diferente dele? É no interior dessa abertura ontológica que toda a visão épossível. na sua fonte. e só hámanifestação para o homem. Heráclito. desse modo. pois esta estrutura não é objetiva nemsubjetiva. A abertura é o meio de onde surge a coisa. Como épossível representar os objetos se não há um lugar onde possam ser iluminados?Ora. dessemodo. descobri-lo. Entendendo vida como ação. é o âmbito onde se dá compreensãode ser no modo próprio de ser. nesse sentido. e ao fazer isto. quando se dá conta disso ele já éisso. toda verdade é relativa ao ser da presença na medida em que seu modo de serpossui essencialmente o caráter da . à sua maneira. primeiramente. pois procurao sentido avançando e se desdobrando. Na perspectivaheideggeriana o homem preenche a possibilidade de ser com a cura (= ser jásempre ocupado de. mas também o mundo do ser.. Também concorda com Parmênides: o movimento é idêntico a aparição do ser. Manifestar-se é o não se mostrarcomo é o caso da doença. no qual abarca todo o existencial) e aí nasce o homem. negligencia o fenômeno original da aparição. mas a claridade nuncaé total sempre há uma obscuridade. devido a isso sempre haverá filosofia. por isso a busca do sentido nunca chega aofim. podemos nosreferir ao pré. o homem. O universo dapresença manifesta-se numa unidade harmoniosa que conjuga o devir e o ser. O pano de fundono qual este se desvela é o ser-no-mundo. Ver um objeto não é. A filosofia de Heidegger. de acordo com a visão heideggeriana“. a noção metafísica de verdade limita-se aestabelecer relações de identidade ou de conformidade entre os fenômenosobservados. vai ser o ponto de partida de uma projeção mítica. Dentro dessavisão pré-socrática. podemos definir fenômenocomo aquilo que se torna visível a si mesmo. nosvalores. Heidegger afirma que para aquele que se dispõem a fazer ocaminho da verdade ela aparece.Desta maneira. primeiros pensadores. a verdade realiza-se bem mais no plano desta visão primordial do que no dasvisões particulares. nesta temos apenas os sintomas (uma aparência traz acarga de uma realidade). é o jogo integrador onde não temos objetos singulares. Anaximandro. temos manifestações. De tal modo. O encontro da questão do ser com a tese daexistência. pois Heideggerreconduz o assunto da questão do ser à aurora do pensamento ocidental. porém o erroestá em querer provar a verdade. Ele trabalha com o círculo hermenêutico enão com o sentido de causa. Ospré-socráticos: Parmênides.socrático Heráclito. Nesse sentido. A verdade éo desvelamento (a-letheia) que faz sair do ser doesquecimento.atividade. O próprio Heráclito nos diz. o homem já é sempre numadeterminação. mas uma unidade quedá sentido ao todo. deste modo.pois a cura é o lugar onde as coisas se dão. é circular. A realidade aparece carregada designificações de que o espírito não percebe senão o esqueleto. A estrutura vem à tona. por isso é vir-a-ser. apresença universal do ser: a permanência do rio não existe senão pelo fluxo daságuas. é um ente histórico inserido no mundo. o ser identifica-se com sua manifestação.Aestrutura da ocultação e da revelação se interligam e cabe ao filósofo trazer àclaridade aquilo que está oculto. Em suma. Verdade. e isso permite umalida oportuna das coisas. mas ele também se projeta nisso. pois essa se revela para quem faz. pois sua doutrina fundamenta-se nomovimento de todas as coisas.trouxeram uma perspectiva nova sobre o ser. Elenão se revela sob um duplo aspecto. com. sempre um sujeito.. isenta depré-juízos. excluindo uma dicotomia que nos é familiar:a da representação das coisas e da linguagem.Os pré-socráticos compreendem as coisas na sua raiz. compreensão.

porém. mas isto ocorre porque a pre-sença é. Heidegger conceituará como condição à priori depossibilidade. parece que ela possui a totalidadedos significados que constituem o mundo antes de encontrar as coisasindividuais. uma visão conjunta. portanto. com todos asimplicações que o termo importa e. isto é. “. não podemos fazê-lo mediante a uma reflexãoisolada ou estanque. o passado e o presente. mantém tenso nossopensamento. Surpreendemos assim. Há que se afirmar. como possibilidades abertas. como o estado de ser. sendo essencialmente um esboço das suaspossibilidades.O tempo é portanto o próprio homem conduzido à plena elucidação de seu maisíntimo ser.Esse conhecimento não é um ir do sujeito ao objeto simplesmente presente. mas que serelaciona permanentemente com o mundo ao seu redor (ser-junto eser-com). nascidos no cerne do existir humano. Por outro lado. é uma etapa pela qual ela passa parasaberse como possuidora de uma identidade que lhe é própria. que apesar da pre-sença estar-lançada às suas próprias possibilidades. pode encontrar as coisas somente inserindo-as neste seu poderser. atemporalidade. No quediz respeito ao projeto enquanto compreensão..portanto. Parece queHeidegger. logo vem aconstituir o modo mesmo em que as coisas são dadas aos seres humanos e.. os três momentos fundamentais da temporalidade. éaquilo que cada um de nós tem de mais próprio. a gente). Desse modo.”[11]. mas através de uma relação contínua do ser da pre-sençacom tudo que o cerca.de início o seu modo de ser-no-mundo é o próprio-impessoal. ela precisade seu tempo. Na nossa possibilidade de encontrar omundo..presença. constitutivamente. constituído Dasein.entendendo-as. o tempo do pensamento. logo. ouvice-versa. que é bem outro do que aquele do cálculoque hoje em dia. por toda parte. Deste modo paraanalisar o fundamento da pre-sença. Maisde dois mil anos precisou o pensamento para entender verdadeiramente uma relaçãotão simples como a mediação no seio da identidade. ofuturo. a disposição afetiva é algoque encontramos como o modo originário de captar e compreender o mundo. diz aqui que o impessoal (do alemão “man” – alguém. ou entrar em contato com um mundo que se revela. é porque ele próprio estásituado na compreensão do ser e. analisando em linhas gerais este fragmento podemos dizer que se ohomem compreende o mundo no interior da situação. ainda. pelo fato de esta penetração exigir um salto. um contemplar sobre oser-no-mundo. mostra que a pre-sença é um projeto.. existir éreconhecer este dom pelo qual estamos despertos para o ser. de mais individual e maistransformador.” [12] Assim podemosperceber que a historicidade como livre “jogo” do devir do ente a quem sepermitiu existir para além de toda a organização é precisamente a posição deHeidegger. que está sempre sujeito a modificações edesenvolvimento. portanto. surge o conhecimento. a não singularidade da pre-sença. Ousadamente.ou seja. .Heidegger ao descrever o fenômeno originário da verdade nos fala da estrutura deação enquanto ser –no-mundo. Tendo sempre como direção “o poder-ser mais próprio”. Estacompreensão de Heidegger. Podemos nós pensar que apenetração na origem essencial da identidade pelo pensamento se deixa realizanum dia? Precisamente. Se adisposição é um aspecto constitutivo do estar aberto ao mundo. o tempo.. que o “projeto” parece ser umaespécie de guia ulterior. ou melhor dizendo. podersere. o modo em que elas são..

Lucy Magalhães. O porvir. Petrópolis: Vozes. 1995. tradução. Portugal: Livraria duas cidades. Martin.Introdução àsfilosofias da existência.cit. p.Ser e tempo. H.Ser e tempo. DELACAMPAGNE.51. 57 [8] HEIDEGGER.constitui. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar. aquela que. o homem mesmo comoser-no-mundo. HEIDEGGER. 1987. RESWEBER. o sentido de ser é um arranjo das coisasde tal sorte que elas se revelam exatamente nesse contexto. Logo.p. o ser humanoganha o seu sentido na história.Petrópolis: Vozes. é porque ele próprio está situado nacompreensão do Ser e.O pensamentode Martin Heidegger. O tempo é. JASPERS. Jean.56. 30. 297 [9] HEIDEGGER.mutilar-nos se for preciso. [3] Op. na realidade.Identidade eDiferença.História da filosofia no Século XX. tradução.p.. . 1997. GIORDANI. 1971 [1] HEIDEGGER.p. [4] RESWEBER. Nada faz sentido sozinho. BIBLIOGRAFIA BEAUFRET. Jean-Paul. tradução. 1997. Assim. existiré reconhecer este dom pelo qual estamos despertos para oSer. Carlos Coutinho. Jean-Paul. Ser e tempo.se viesse a preencher todo o espaço disponível. Karl. poderíamos assim dizer. §44. H. Manuela Pinto dos Santos Lisboa: Guimarães. É sempre o contextodas coisas que mostra o seu significado. Se o homemcompreende o mundo no interior da situação. p. 1971. nos tornariadeuses. p. Iniciaçãoao existencialismo.54 [6] Idem.59.Coimbra: Almedina. p. [7] HEIDEGGER. Márcia de SáCavalcante.1976. 27. Mário Curtis. H. Christian.. Identidade e diferença.À luz da analítica heideggeriana.Coimbra: Almedina. São Paulo: Livraria duas cidades. _____________. Identidade e diferença. enquanto dimensão interna da liberdade.O pensamento de Martin Heidegger.1997. Identidade e diferença. p. o tempo deixade ser algo exterior que nos sobreviria de fora para impor-nos sua lei. constituído Dasein. mas igualmente homem na ultrapassagem gloriosa do projeto e naexaltação do impulso. [2] Op. por isso. p.cit. Martin. 1971. entendendo o homem enquanto tolhido na facticidade e já possuídopela morte.57.Iniciaçãofilosófica. [5] HEIDEGGER. – Petrópolis: Vozes.consultoria. a parte divina de nossa natureza.

p. Ser e Tempo. [11] HEIDEGGER. Identidade e diferença. H. Identidade e diferença.p.68 . H.296 [12] HEIDEGGER.p.67.[10] HEIDEGGER.