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SÓCRATES PREVENIDO VALE POR 48.../2007!

11.11.2009
Notável!
Segundo as notícias de ontem, foi declarada a nulidade das escutas das conversas
telefónicas entre Sócrates e Vara.
Certamente que os dois escutados repetirão para todos os portugueses o teor da
sua conversa, pois tão inocente conversa de amigos até será um exemplo de
dignidade e boas maneiras
.
Não sei de nada do processo Face Oculta - até porque sou uma pessoa que não
gosta de ouvir conversas dos outros, nomeadamente conversas de dois amigos.

Mas sei que, pelo pouco que conheço da lei processual portuguesa, se a escuta ao
Primeiro-Ministro é feita sem autorização do Presidente do Supremo Tribunal de
Justiça é contrária à lei e, portanto, nula.

Reza assim o art. 11º do Código de Processo Penal:


Artigo 11.º
Competência do Supremo Tribunal de Justiça
(...)
2 — Compete ao Presidente do Supremo Tribunal de Justiça, em matéria penal:
(...)
b) Autorizar a intercepção, a gravação e a transcrição de conversações ou
comunicações em que intervenham o Presidente da República, o
Presidente da Assembleia da República ou o Primeiro-Ministro e determinar a
respectiva destruição, nos termos dos artigos 187.º a 190.º;(...)
Ora, a nulidade é a sanção das escutas feitas em contravenção à lei: art. 190º do
Código de Processo Penal.

Visto isto, interessa saber uma coisa.


Quem é que criou um regime de excepção desta natureza e que exige a
investigadores criminais, que actuam na pressão do momento e não sabem aquilo
que vão encontrar, a autorização da 4ª figura do Estado para poderem actuar
contra os criminosos?

Se o telefone de Vara estava sob escuta como é que os investigadores iam saber
que ele ia falar com Sócrates?
Teriam de adivinhar e, com base nesses poderes adivinhatórios, pedir a Noronha
do Nascimento que autorizasse a escuta da conversa em que Sócrates interviria?

É que, sendo assim, não há melhor cúmplice para actividades criminosas do que
quem ocupar a chefia do Governo (ou a Presidência da República ou da
Assembleia da República): as conversas com ele, se não esperadas/antecipadas
pelas autoridades, não podem ser autorizadas. A normal autorização de um juiz
nunca será suficiente pois era preciso ter sido pedida ao Presidente do STJ.

E volta a pergunta: quem criou um regime tão absurdo, tão patético e que
permite tão descarada fuga à Justiça?
Fui investigar.
O Código de Processo Penal foi aprovado pelo Decreto-Lei nº 78/87, de 17 de
Fevereiro.
Na sua base esteve o trabalho de uma comissão presidida pelo Professor Jorge de
Figueiredo Dias, Professor Catedrático (já jubilado) de Direito Penal da
Universidade de Coimbra e um dos mais reputados penalistas do mundo. Basta
dizer que foi dirigente das mais importantes associações de Direito Penal ao
nível internacional e é membro do conselho de redacção de algumas das mais
prestigiadas revistas dessa especialidade em Portugal e no estrangeiro. Se há
português que na sua área é reconhecido internacionalmente, é Figueiredo Dias.

Perante estas conclusões, dei comigo a pensar: terá o Prof. Figueiredo Dias feito
uma borrada deste tamanho?

Mais uma vez, investiguei.


E descobri que, como é óbvio, o Prof. Figueiredo Dias jamais teve tal nódoa: o
art. 11º do Código de Processo Penal não continha a actual redacção.
Como é que isto aconteceu?
De novo, investiguei - fui analisar as várias alterações que o Código de Processo
Penal foi sofrendo nos 21 anos que já leva de vigência.

Até que cheguei à 18ª versão do Código, introduzida pela


célebre reforma de 2007, a que teve à sua frente o actual
Ministro da Administração Interna, Rui Pereira.

Trata-se da Lei n.º 48/2007, de 29 de Agosto, cujo art.


1º alterou, entre muitos outros, o referido art. 11º,
tornando impossíveis, na prática, as escutas de
conversas em que participe o Primeiro-Ministro.

O socratinismo no seu melhor.


Depois do susto da Casa Pia, os políticos souberam
precaver-se.
Sócrates prevenido não vale por dois. Vale por
48.../2007!!