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Excelentíssimo Senhor Presidente do Egrégio Tribunal Regional Eleitoral do Estado do

Piauí.

RCAND nº0600940-76.2018.6.18.0000.

O Ministério Público Eleitoral, pelo Procurador Regional Eleitoral,


vem, com fulcro no art. 276, I, “a” e “b”, da Lei nº 4.735/1965 (Código Eleitoral) e art. 121, §
4°, I e II, da Constituição Federal, interpor o presente Recurso Especial contra o Acórdão
n°060094076-A (ID 77.100), proferido por esse Egrégio Tribunal Regional Eleitoral do Piauí
nos autos em epígrafe, consoante as razões em anexo.
Requer o órgão ministerial que, após regular processamento do apelo,
sejam os autos encaminhados ao Colendo Tribunal Superior Eleitoral para os fins de direito.

Teresina, 05 de outubro de 2018

Patrício Noé da Fonseca


Procurador Regional Eleitoral

1
Razões do Recurso Especial

RCAND Nº0600940-76.2018.6.18.0000.
Recorrente: Ministério Público Eleitoral
Recorrido: Odival José de Andrade.

Colenda Corte,
Excelentíssimo Senhor Ministro Relator,

O Ministério Público Eleitoral, pelo Procurador Regional Eleitoral,


inconformado com o acórdão que deferiu o pedido de registro de candidatura do recorrido
(Acórdão nº060094076-A – ID 77.100), vem interpor o presente Recurso Especial, com
fundamento nas argumentações fáticas e jurídicas a seguir expostas.

I – Tempestividade do recurso.

O acórdão que deferiu o registro de candidatura do recorrido foi


publicado na sessão do dia 02 de outubro de 2018, nos termos do art. 46, §2º, da Resolução
TSE nº23.548/17.

O art. 276, I e § 1°, do Código Eleitoral dispõe que:


Art. 276. As decisões dos Tribunais Regionais são terminativas, salvo
os casos seguintes em que cabe recurso para o Tribunal Superior:

2
I – especial; […]
§1°. É de três dias o prazo para a interposição do recurso,
contado da publicação da decisão nos casos n°s I, letras a e b, e II,
letra b, e da seção da diplomação no caso do n° II, letra a.

Conforme regra do art. 46, §3º, da Resolução TSE nº23.548/17, em


relação aos registros de candidatura, o Ministério Público Eleitoral será intimado pessoalmente
dos acórdãos publicados na própria sessão de julgamento.
Na espécie, o acórdão vergastado foi publicado na sessão do dia 02 de
outubro de 2018, portanto, o prazo final para interposição de recurso pelo Parquet encerra-
se no dia 05 de outubro de 2018.
Confirma-se, portanto, a tempestividade do recurso ora interposto.

II – Legitimidade recursal do Ministério Público Eleitoral.

A legitimidade do Ministério Público é indiscutivelmente ampla,


principalmente após a promulgação da Carta Magna de 1988, podendo atuar ora como parte,
ora como fiscal do ordenamento jurídico, em todo o processo eleitoral.
Com efeito, o Ministério Público é concebido como instituição
permanente, essencial à função jurisdicional do Estado, cumprindo-lhe a defesa da ordem
jurídica, do regime democrático e dos interesses sociais e individuais indisponíveis, ex vi do art.
127, da Constituição Federal.
No tocante às funções eleitorais, a Lei Complementar n°75/93
regulamenta a organização, as atribuições e o estatuto do Ministério Público da União, dispondo
sobre as competências do Ministério Público Eleitoral no art. 72, in verbis:

Art.72. Compete ao Ministério Público Federal exercer, no que


couber, junto à Justiça Eleitoral, as funções do Ministério Público,
atuando em todas as fases e instâncias do processo eleitoral.
Parágrafo único. O Ministério Público Federal tem legitimação para
propor, perante o juízo competente, as ações para declarar ou decretar a
nulidade de negócios jurídicos ou atos da administração pública,
infringentes de vedações legais destinadas a proteger a normalidade e a

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legitimidade das eleições, contra a influência do poder econômico ou
abuso do poder político ou administrativo.

III – Resumo dos fatos.

Trata-se de Pedido de Registro de Candidatura de Odival José de


Andrade.
Inicialmente o registro do referido candidato foi corretamente
indeferido pela Corte do Tribunal Regional Eleitoral do Piauí (ID 71.448), conforme ementa
que segue:
ELEIÇÕES 2018. REGISTRO DE CANDIDATURA. CARGO.
DEPUTADO ESTADUAL. AÇÕES DE IMPUGNAÇÃO. […]
MÉRITO. CONDENAÇÃO CRIMINAL POR CRIME DE
INJÚRIA. SANÇÃO DE MULTA. CONDIÇÃO DE
ELEGIBILIDADE. […] IMPUGNAÇÕES PROCEDENTES.
INDEFERIMENTO DO PEDIDO. […]
- CONDIÇÕES DE ELEGIBILIDADE: As condições de
elegibilidade e as causas de inelegibilidade devem ser aferidas no
momento da formalização do pedido de registro da candidatura,
ressalvadas as alterações, fáticas ou jurídicas, supervenientes aos
registro que afastam a inelegibilidade, consoante preconiza o art. 11,
§10, da Lei n. 9.504/97.
- CONDENAÇÃO POR CRIME ELEITORAL: A condenação por
crime eleitoral transitada em julgado acarreta a suspensão dos
direitos políticos, vez que atrai a aplicação do art. 15, III, CF, já que
a suspensão dos direitos políticos é efeito automático decorrente de
condenação criminal. […]
- Mesmo que ausente as causas de inelegibilidade alegadas nas
impugnações, mas não preenchida uma das condições de
elegibilidade, concernente ao gozo dos direitos políticos, impõe-se o
indeferimento do registro de candidatura.
- Indeferimento do pedido de registro de candidatura em razão
da incidência de uma causa de suspensão dos direitos políticos, e,
portanto, ausente uma das condições de elegibilidade. […]

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- Ações de Impugnação julgadas parcialmente procedentes, para
indeferir o RRC.

Nesse julgamento, a Egrégia Corte reconheceu que o candidato


Odival José de Andrade estava com seus direitos políticos suspensos desde o trânsito o
julgado do Acórdão nº138676, proferido nos autos da Ação Penal nº1386-76.2010.6.18.001,
que ocorreu em 11/02/2016.
Ademais, a suspensão dos direitos políticos testificada no Acórdão
nº060094076 (ID 71.448) não se restringiu à questão do cumprimento da pena pecuniária,
decorrente da condenação penal imputada ao candidato. Ela atingiu também, nos termos dessa
decisão colegiada, a eficácia jurídica da filiação partidária do candidato, pois este, à época
de seu registro como filiado, em 05 de fevereiro de 2018, já estava com seus direitos
políticos suspensos, fato que o impedia de se filiar a grêmio político.
O recorrido, à luz desse último acórdão citado, opôs embargos de
declaração, com efeitos modificativos.
O Pleno do Tribunal Regional Eleitoral do Piauí, ao analisar esse
recurso, refluiu no seu entendimento, deferindo, por maioria, nos termos do voto
divergente do Juiz Federal Daniel Santos Rocha Sobral, o requerimento de registro de
candidatura de Odival José de Andrade. Eis o teor da ementa do Acórdão nº060094076-A
(ID 77.100):
EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. PEDIDO DE EFEITO
MODIFICATIVO. AUSÊNCIA DE CONDIÇÕES DE
ELEGIBILIDADE. MULTA ELEITORAL. DÍVIDA DE VALOR,
RESPONSABILIDADE DA FAZENDA NACIONAL.
PARCELAMENTO REGULAR, TEMPESTIVO E VÁLIDO.
INTELIGÊNCIA DO ART. 29, § 2º, I, DA RESOLUÇÃO TSE N.
23.548/17 E SÚMULA TSE N. 50. QUITAÇÃO INTEGRAL DO
DÉBITO AINDA NA INSTÂNCIA ORDINÁRIA. AFASTAMENTO
DOS VÍCIOS CONSTATADOS EM RELAÇÃO À QUITAÇÃO E
FILIAÇÃO PARTIDÁRIA. DEFERIMENTO DO PEDIDO DE
REGISTRO DE CANDIDATURA.

Não obstante, em que pese essa mudança radical no posicionamento


da Corte, que num primeiro momento afirmou ser “patente a ineficácia da filiação

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partidária” do recorrido e num segundo momento aceitou que o parcelamento da multa
criminal implicou no restabelecimento dos direitos políticos dele, à vista dos mesmos
elementos probatórios, ressalvada a quitação da multa após o julgamento do registro de
candidatura, restou evidenciado que o decisum foi proferido contra disposições expressas da
Constituição Federal e da lei, negando-lhes vigência, além de divergir do posicionamento
adotado por outros tribunais eleitorais, conforme demonstrado a seguir.

IV– Negativa de vigência ao art. 15, III e ao art. 14, § 3º, II, da
Constituição Federal.

O Acórdão nº060094076-A, conforme ementa transcrita acima, nega


vigência ao art. 15, III e art. 14, §3º, II da Constituição Federal, que prescrevem:
Art. 15. É vedada a cassação de direitos políticos, cuja perda ou
suspensão só se dará nos casos de: […]
III - condenação criminal transitada em julgado, enquanto
durarem seus efeitos; […]

Art. 14. […] § 3º São condições de elegibilidade, […]


II - o pleno exercício dos direitos políticos; […]

O voto divergente (ID 77.100, fls. 21-22), proferido pelo Juiz Federal
Daniel Santos Rocha Sobral, que deu embasamento ao acórdão combatido, traz como
fundamento para rever a decisão anteriormente externada pela Corte Eleitoral o fato do
recorrido ter quitado integralmente a dívida, que a ele foi imposta por meio de condenação
criminal transitada em julgado.
Nos termos do voto citado: “[…] o Colendo TSE editou a Súmula 50,
decretando que: “O pagamento de multa eleitoral pelo candidato ou a comprovação do
cumprimento regular de seu parcelamento após o pedido de registro, mas antes do julgamento
respectivo, afasta a ausência de quitação eleitoral”” E conclui: “[…] a parte – como dito –
quitou integralmente o débito, soterrando de vez a questão da ausência de condições de
elegibilidade para efeito de registro de candidatura”.
Ocorre que o pagamento integral da multa a que estava obrigado em
decorrência de condenação criminal (Acórdão nº138676), consoante documentos
colacionados (ID 72.162, ID 72.163, ID 72.471), somente aconteceu após o indeferimento de

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seu registro, por ausência de condição de elegibilidade. Com efeito, a quitação da multa,
cuja soma foi de R$44.169,26 (quarenta e quatro mil, cento e sessenta e nove reais e vinte e seis
centavos), se deu em 18/09/2018, um dia após o julgamento de seu registro.
Portanto, as razões lançadas no voto divergente contrariam a norma
do art. 15, III, da Constituição Federal. Isso porque, quando do julgamento do registro de
candidatura, ainda pesavam sobre o candidato os efeitos da condenação sofrida, pois a
dívida ainda não tinha sido quitada. Ou seja, naquele momento, ele estava com os direitos
políticos suspensos.
À luz da jurisprudência do Tribunal Superior Eleitoral, a suspensão dos
direitos políticos decorrente de condenação criminal é auto-aplicável pois não depende, para
a sua incidência, de pronunciamento no dispositivo da sentença condenatória, que tem na
suspensão dos direitos políticos um de seus efeitos secundários. Nessa toada:
AGRAVO REGIMENTAL. RECURSO ESPECIAL. […]
INDEFERIMENTO. REGISTRO DE CANDIDATURA. […]
CONDENAÇÃO CRIMINAL. TRÂNSITO EM JULGADO.
SUSPENSÃO. DIREITOS POLÍTICOS. […] EFEITO SUSPENSIVO.
CONDENAÇÃO. […] AFASTAMENTO. INELEGIBILIDADE. […]
4. […] a suspensão dos direitos políticos em decorrência de
condenação criminal transitada em julgado, prevista no art. 15, III,
da Constituição Federal, é auto-aplicável e constitui efeito
automático da sentença penal condenatória, não havendo
necessidade de manifestação a respeito de sua incidência na decisão
condenatória. […] (RESPE - Agravo Regimental em Recurso Especial
Eleitoral nº 32677 - CORGUINHO – MS, Ac. de 02/02/2009, Relator(a)
Min. Marcelo Henriques Ribeiro de Oliveira, DJE 19/03/2009, p. 28).

O texto constitucional ao elencar a condenação criminal como um


dos motivos que ensejam a suspensão dos direitos políticos “não faz referência à espécie de
condenação criminal, exigindo apenas que o decreto condenatório tenha transitado em
julgado. Em razão disso, não importa que o condenado o tenha sido por crime doloso ou
culposo, ou mesmo por contravenção penal”1. Assim, a suspensão de direitos políticos tratada
no inciso III, do art. 15, da Constituição Federal, independe da natureza do crime. Nesse
sentido:
1
CASTRO, Edson de Resende. Curso de Direito Eleitoral. 9ª ed. rev e atual. Belo Horizonte: Del Rey, 2018. p. 94.

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AGRAVO REGIMENTAL. RECURSO ESPECIAL.
CONDENAÇÃO CRIMINAL. TRÂNSITO EM JULGADO. DIREITOS
POLÍTICOS. SUSPENSÃO. EFEITO AUTOMÁTICO.
INELEGIBILIDADE. […]
2. A condenação criminal transitada em julgado ocasiona a
suspensão dos direitos políticos, enquanto durarem seus efeitos,
independentemente da natureza do crime.
3. A suspensão dos direitos políticos prevista no art. 15, III, da
Constituição Federal é efeito automático da condenação criminal
transitada em julgado e não exige qualquer outro procedimento à
sua aplicação. […] (RESPE - Agravo Regimental em Recurso Especial
Eleitoral nº 35803 - MIRADOR – PR, Ac. de 15/10/2009, Relator(a)
Min. Marcelo Henriques Ribeiro de Oliveira, DJE, Tomo 235,
14/12/2009, p. 15/16).

O texto legal, por fim, informa que a suspensão dos direitos políticos
opera enquanto durarem os efeitos da condenação. Sobre esse tema, dispõe a Súmula 9, do
Tribunal Superior Eleitoral:
“A suspensão de direitos políticos decorrente de condenação
criminal transitada em julgado cessa com o cumprimento ou a
extinção da pena, independendo de reabilitação ou de prova de
reparação dos danos”

Ou seja, o apenado, para recobrar seus direitos políticos, salvo os


casos de extinção de punibilidade, deverá cumprir integralmente todas as sanções impostas
no título da condenação.
Na hipótese dos autos, o requerido foi condenado ao pagamento de 46
(quarenta e seis) dias-multa.
Como cediço, em casos semelhantes ao ora discutido, a recuperação
dos direitos se dá com o pagamento completo da pena pecuniária infligida. Entretanto, para
efeitos de deferimento de registro de candidatura, conforme a Súmula 50 do Tribunal
Superior Eleitoral, o pagamento do débito eleitoral, quando viabilizado pelo candidato após
o pedido de registro de candidatura, deve ser efetivado antes do respectivo julgamento. É

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dizer, os direitos políticos retornam para o apenado, mas produzem efeitos da data da
comprovação da quitação para frente.
Como se observa (ID 52.537, ID 52.538, ID 52.539), o candidato, na
data de formalização de seu pedido de registro de candidatura até o respectivo julgamento,
ainda não tinha quitado a multa aplicada em decorrência de condenação pela prática de crime
eleitoral. Daí que ele não possuía, durante todo o trâmite de seu registro, a plenitude de
seus direitos políticos. Circunstância que o impede de participar do prélio eleitoral.
Com efeito, a fragmentação da multa, ainda que seja permitida, não
retira a eficácia da condenação criminal, que somente desaparece com o pagamento
integral da pena pecuniária. Em outras palavras, mesmo que o reparcelamento seja
concretizado, o requerido permanece com os seus direitos políticos suspensos. Esse
raciocínio é confirmado pelo julgado abaixo transcrito:
RECURSO CONTRA EXPEDIÇÃO DE DIPLOMA. […]
SUSPENSÃO DIREITOS POLÍTICOS. […]
1. O preenchimento das condições de elegibilidade relativa à
plenitude dos direitos políticos deve ser observado desde o pedido de
registro de candidatura. […]
3. A condenação criminal transitada em julgado cuja pena
privativa de liberdade fora convertida em prestação pecuniária
(multa), produz como efeito automático a suspensão dos direitos
políticos, que tem assento constitucional. A multa, nesse caso, tem
caráter penal e não se confunde com a de natureza administrativa.
4. O parcelamento da multa aplicada e o pagamento das parcelas
vencidas não se revelam suficientes a desfazer os efeitos da
suspensão dos direitos políticos e também não se confunde com
hipótese de extinção de punibilidade que possui rol taxativo (RCED
n 86951/MT, Ac. n 22899 de 23/04/2013, Relator(a) JOSÉ LUÍS
BLASZAK, DEJE, Tomo 1402, 08/05/2013, p. 2-6).

Ademais, a fragmentação da multa não configura causa de extinção


de punibilidade, haja vista que ele não consta no rol do art. 107, do Código Penal.
O parcelamento da multa, segundo a jurisprudência pacífica do
Tribunal Superior Eleitoral, para fins de aferição da quitação eleitoral, somente se aplica aos
casos em que a pena pecuniária decorre de ilícito eleitoral, portanto, não se aplica ao

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fracionamento de multa oriunda de condenação criminal. Nesse diapasão, colaciono
ementas relacionadas a parcelamento originado de multas aplicadas em razão de
representação eleitoral:
ELEIÇÕES 2014. AGRAVO REGIMENTAL EM RECURSO
ESPECIAL. DEFERIMENTO. REGISTRO DE CANDIDATURA.
SEGUNDO SUPLENTE SENADOR. PAGAMENTO DE MULTA
ANTES DO JULGAMENTO. QUITAÇÃO ELEITORAL.
DESPROVIMENTO.
1. A jurisprudência recente firmada no âmbito desta Corte
Superior firmou-se no sentido de que o pagamento da multa, ou a
comprovação do cumprimento regular de seu parcelamento, pelo
candidato, após o pedido de registro, mas antes do julgamento
respectivo, tem o condão de afastar a ausência de quitação eleitoral,
independentemente do fato de a sanção pecuniária ter sido cominada em
representação eleitoral. Precedente: REspe nº 664-69/CE, Rel. Ministro
JOÃO OTÁVIO DE NORONHA, publicado na sessão de 18.9.2014.
2. Agravo regimental desprovido. (RESPE nº 76398/MT, Relator(a)
Min. Maria Thereza de Assis Moura, PSESS, 24/10/2014).

ELEIÇÕES 2014. RECURSO ESPECIAL. CANDIDATO A


DEPUTADO ESTADUAL. REGISTRO DE CANDIDATURA
INDEFERIDO. SUPOSTA AUSÊNCIA DE QUITAÇÃO
ELEITORAL. MULTA POR PROPAGANDA ELEITORAL.
REGULARIZAÇÃO APÓS O PEDIDO DE REGISTRO.
POSSIBILIDADE.
1. Na oportunidade do julgamento do REspe nº 809-82/AM, rel. Min.
Henrique Neves da Silva, em 26.8.2014, o TSE concluiu pela
possibilidade do pagamento de multa eleitoral após o pedido de
registro de candidatura, obtendo o candidato, consequentemente, a
quitação eleitoral.
2. Com base na compreensão do princípio da isonomia, não há
razoável fator de diferenciação para não aplicar o novo entendimento
firmado na eleição de 2014 àqueles que têm multa eleitoral decorrente de
representação, pois, à semelhança da multa por ausência às urnas,

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está em jogo condição de elegibilidade, a quitação eleitoral, não o
valor da multa aplicada.
3. Recurso provido. (RESPE nº 288737/SP, Relator(a) Min. Gilmar
Mendes, PSESS, 01/10/2014).

Ao analisar a jurisprudência da Corte Superior Eleitoral, observa-se


que nos registros de candidatura em que haja debate acerca do pagamento ou parcelamento
de multa, para fins de aferição de quitação eleitoral, o deferimento do pedido depende da
comprovação do pagamento integral dela (nos casos de condenação criminal) ou, pelo
menos, do seu parcelamento (nos casos de ilícitos eleitorais). Ressalvando que, nesses dois
casos, o registro de candidatura só pode ser deferido se a quitação acontecer até o
respectivo julgamento.
Portanto, esses dois julgados servem para demonstrar, mutatis mutandis,
que o pagamento integral da multa derivada de condenação criminal não surte nenhum
efeito prático se não for efetuado até a data do julgamento do registro de candidatura . De
sorte que a juntada do documento comprovando o pagamento integral da multa não tem o
condão de autorizar do deferimento da candidatura em discussão. Com efeito, a quitação
ocorreu após o julgamento do requerimento do registro de candidatura, de sorte que o
restabelecimento dos direitos políticos do recorrido não o autorizam a participar das eleições de
outubro próximo, na condição de candidato.
Por essas razões, o recorrido, quando da análise do seu requerimento
de registro de candidatura, não estava no pleno exercício dos seus direitos políticos.

V– Negativa de vigência ao art. 14, §3º, V, da Constituição Federal.

O acórdão impugnado contraria o art. 14, §3º, V, da Constituição,


que proclama:
Art. 14. […] § 3º São condições de elegibilidade, […]
V - a filiação partidária; […]

A filiação partidária é condição de elegibilidade, portanto, requisito


indispensável para a validade jurídica de qualquer candidatura, sendo, inclusive, proibido no
nosso ordenamento jurídico a chamada candidatura avulsa. O Tribunal Superior Eleitoral possui
jurisprudência pacífica no sentido da impossibilidade desse tipo de candidatura.

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Cumpre frisar, também, que a filiação partidária deve ser deferida
pelo grêmio político pelo menos seis meses antes do pleito. Ocasião em que o filiado deverá
estar na plenitude do gozo dos direitos políticos.
Na espécie, o Acórdão nº060094076-A, puxado pelo voto divergente
do Juiz Federal Daniel Santos Rocha Sobral, considerou que o recorrido estava apto a se
filiar em 05/02/2018 ao Partido da República – PR, em razão do recorrido ter parcelado a
pena pecuniária a ele imputado. É o que se conclui dos seguintes trecho da decisão:
“Não obstante condenado por crime eleitoral de injúria, com fulcro
no art. 326, do Código Eleitoral, a pena imposta ao pré-candidato foi
de pagamento de multa, o que implica dizer que, após o trânsito em
julgado, se convolou em dívida de valor, a qual foi parcelada
regularmente perante a Fazenda Nacional em novembro de 2017,
elidindo, por certo tempo, a ausência de quitação eleitoral, consoante
precedentes jurisprudenciais (Recurso Especial Eleitoral nº 28087,
Acórdão, Relator(a) Min. Marco Aurélio Mendes De Farias Mello,
Publicação: DJE - Diário de justiça eletrônico, Tomo 119, Data
26/06/2013, Página 56).
O pretenso candidato, então, pagou três parcelas (até 31/01/2018 –
ID 52537), correspondentes a dezembro/2017, janeiro/2018 e
fevereiro/2018 – de modo que, na época da filiação partidária, em
fevereiro de 2018, o interessado estava em dia no tocante à quitação
eleitoral e, consequentemente, à filiação partidária. […]
Destaco, especificamente no que tange à filiação, que tal questão
remonta ao parcelamento e, quanto a este, repito: após o trânsito em
julgado, houve a inscrição da dívida na Fazenda Nacional
(outubro/2017), a qual, em seguida, analisou e deferiu, em 02/12/2017, o
pedido de parcelamento formulado pelo apenado em 30/11/2017,
conforme termo constante dos autos. Frise-se que cabe justamente à
Fazenda aferir todos os detalhes referentes a esse trâmite, a exemplo da
quantidade de parcelas, o valor, o tipo e o quantum dos juros, tudo sob a
égide da legislação tributária federal. In casu, é inquestionável,
portanto, que o primeiro parcelamento da multa deu-se de modo
regular e que, na data da filiação, estava absolutamente válido, uma

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vez que fora rescindido apenas em julho/2018, quando foi realizado
novo pacto com o órgão fazendário. […]”

De início, cumpre registrar que o precedente apontado pelo Juiz


Federal Daniel Santos Rocha Sobral no voto divergente expressamente declara que “o
parcelamento da multa eleitoral após o pedido de registro não tem o condão de afastar a
ausência de quitação eleitoral”, além disso determina que a ressalva final do §10, do art.
11, da Lei nº9.504/97, não incide sobre as condições de elegibilidade:
ELEIÇÕES 2012. RECURSO ESPECIAL. REGISTRO DE
CANDIDATURA. VEREADOR. AUSÊNCIA DE QUITAÇÃO
ELEITORAL. PARCELAMENTO DE MULTA ELEITORAL APÓS
A APRESENTAÇÃO DO REQUERIMENTO DE REGISTRO.
IMPOSSIBILIDADE. ALTERAÇÃO FÁTICA.
INAPLICABILIDADE. RECURSO DESPROVIDO.
1. O parcelamento da multa eleitoral após o pedido de registro
não tem o condão de afastar a ausência de quitação eleitoral.
2. A ressalva final do § 10 do artigo 11 da Lei das Eleições não
comporta ampliação, ou seja, tão somente se aplica às causas de
inelegibilidade, conforme expressamente estabelece a norma, não
incidindo em relação às condições de elegibilidade.
3. Recurso desprovido. (RESPE nº 28087/SP, Relator(a) Min. Marco
Aurélio, Relator(a) designado(a) Min. Laurita Vaz, Ac. de 14/05/2013,
DJE, Tomo 119, 26/06/2013, p. 56).

Muito embora o voto vencedor advogue pela regularidade da filiação


partidária do recorrido, não comungamos desse entendimento porque ele contraria o
ordenamento jurídico e a jurisprudência do Tribunal Superior Eleitoral. De fato, o
recorrido somente recobrou os seus direitos políticos após a data do julgamento de seu
registro de candidatura, assim, até aquela o dia 17/09/2018 os seus direitos políticos
estavam suspensos, inclusive para efeitos de filiação partidária. É o que demonstra os
julgados que seguem:
ELEIÇÕES 2016. REGISTRO DE CANDIDATURA. […]
CONDIÇÃO DE ELEGIBILIDADE. FILIAÇÃO. PRAZO.
SUSPENSÃO. DIREITOS POLÍTICOS. IMPOSSIBILIDADE DE

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CONTAGEM DO PERÍODO DE SUSPENSÃO. REGISTRO
INDEFERIDO. […]
2. Não há eficácia da filiação partidária, para atender o prazo de
seis meses antes da eleição, durante o período em que perdurou a
suspensão de direitos políticos decorrente do trânsito em julgado da
condenação por improbidade.
3. Na espécie, o posterior exaurimento do prazo da suspensão não
altera o fato de os direitos políticos do candidato estarem suspensos
no momento da convenção para escolha dos candidatos e do registro
de candidatura. […] (RESPE nº 11166/GO, Relator(a) Min. Napoleão
Nunes Maia Filho, Relator(a) designado(a) Min. Henrique Neves Da
Silva, DJE, 17/05/2017).

ELEIÇÕES 2016. […] CONVENÇÃO PARTIDÁRIA.


PARTICIPAÇÃO DE DIRIGENTE COM DIREITOS POLÍTICOS
SUSPENSOS. […]
2. A suspensão de direitos políticos implica a automática
suspensão da filiação partidária por igual período, circunstância que
interdita o cidadão privado de seus direitos políticos de exercer
cargos de natureza política ou de direção dentro da agremiação
partidária (RGP n° 305/DF, Rel. Min. Luciana Lóssio, DJe de
16.9.2014).[...]” (RESPE nº 17396, Relator Min. Luiz Fux, DJE, Tomo
66, 03/04/2017, p. 77-78).

ELEIÇÕES 2016. […] REGISTRO DE CANDIDATURA. […]


FILIAÇÃO PARTIDÁRIA. DIREITOS POLÍTICOS SUSPENSOS EM
DECORRÊNCIA DE CONDENAÇÃO CRIMINAL TRANSITADA EM
JULGADO. PRAZO DE 6 (SEIS) MESES ANTES DA DATA DA
ELEIÇÃO NÃO OBSERVADO. AUSÊNCIA DE CONDIÇÃO DE
ELEGIBILIDADE. ART. 14, § 3°, V, DA CONSTITUIÇÃO DA
REPÚBLICA. REGISTRO INDEFERIDO. […]
2. Segundo a jurisprudência iterativa deste Tribunal Superior, a
filiação partidária realizada durante o período de suspensão dos
direitos políticos não produz efeitos para fins de registro de

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candidatura”. (RESPE nº 12448/AM, Relator(a) Min. Luiz Fux, DJE,
Tomo 71, 10/04/2017, p. 71).

ELEIÇÕES 2014. […] REGISTRO DE CANDIDATURA.


CONDENAÇÃO. […] SUSPENSÃO. DIREITOS POLÍTICOS.
TRÂNSITO EM JULGADO. IMPOSSIBILIDADE DE CONCESSÃO
DO REGISTRO, DO DIPLOMA OU DO EXERCÍCIO DO CARGO.
[…]
2. Na linha da jurisprudência do TSE, é "inadmissível o deferimento
do pedido de registro de candidato que não se encontra no pleno
exercício dos direitos políticos" (AgR-REspe nº 490-63, rel. Min. Nancy
Andrighi, PSESS em 18.12.2012). […]
4. A suspensão dos direitos políticos acarreta, entre outras
consequências, a imediata perda da filiação partidária (Lei nº
9.096/95, art. 22, II), o impedimento de o candidato ser diplomado
(AgR-REspe nº 358-30, rel. Min. Arnaldo Versiani, DJE de 5.8.2010)
e a perda do cargo de deputado estadual (CF, art. 27, § 1º, c.c. o art.
55, IV). […](Recurso ordinário do candidato desprovido, prejudicado o
recurso do Ministério Público. (RO nº 181952/SP, Relator(a) Min.
Henrique Neves Da Silva, DJE, Tomo 25, 04/02/2016, p. 126).

Nesse ponto, reiteramos a irretocável conclusão do eminente Dr. Pedro


de Alcântara da Silva Macêdo, conquanto tenha sido voto vencido (ID 77.100, fls. 11, 14 e 15):
[…] no caso dos autos, os efeitos da suspensão dos direitos
políticos perduraram até o seu restabelecimento, com a extinção da
punibilidade, a partir da qual o apenado os recobra para exercício
futuro, mas essa recuperação (dos direitos políticos) não tem o
condão de afastar a ausência da filiação partidária do Embargante,
porque levada a efeito quando não gozava deles, resultando então
em ato jurídico inválido. […]
Portanto, o fato superveniente do possível restabelecimento dos
direitos políticos, decorrente da quitação da pena pecuniária pelo
Embargante, não opera efeitos de convalidação de sua filiação
partidária, realizada em 05/02/2018, quando se encontrava impedido

15
de se filiar a partido político, por conta da suspensão de seus direitos
políticos, de modo que o ato de filiação não possui eficácia jurídica.
Dessa forma, ainda que se admita o restabelecimento dos direitos
políticos pelo Embargante, em razão da superveniente quitação da
multa que lhe fora aplicada na Ação Penal 1386-76.2010.6.18.0011,
esse fato, por si só, não afasta a ausência da filiação partidária
válida como condição de elegibilidade.”

Desta feita, dos fatos narrados e das provas colhidas ressai que a filiação
partidária do recorrido é ineficaz pois no período em que se filiou encontrava-se com os
direitos políticos suspensos.

VI – Negativa de vigência ao art. 11, §10, da Lei nº9.504/97.

O acórdão atacado desrespeita flagrantemente o art. 11, §10, da Lei


nº9.504/97, que determina:
Art. 11. […] §10. As condições de elegibilidade e as causas de
inelegibilidade devem ser aferidas no momento da formalização do
pedido de registro da candidatura, ressalvadas as alterações, fáticas
ou jurídicas, supervenientes ao registro que afastem a inelegibilidade.

O recorrido, após ter o registro indeferido, em 17/09/2018 (Acórdão


nº060094076 – ID 71.448), por falta de condição de elegibilidade, realizou o pagamento
integral da multa a que estava obrigado em decorrência de condenação criminal (Acórdão
nº138676), consoante documentos colacionados (ID 72.162, ID 72.163, ID 72.471).
Porém, a quitação da multa em 18/09/2018, cuja soma foi de
R$44.169,26 (quarenta e quatro mil, cento e sessenta e nove reais e vinte e seis centavos), não
tem o condão de regularizar a situação do candidato para essas eleições pois a teor do que
preceitua o §10, do art. 11, da Lei nº9.504/97, “as condições de elegibilidade e as causas de
inelegibilidade devem ser aferidas no momento da formalização do pedido de registro da
candidatura, ressalvadas as alterações, fáticas ou jurídicas, supervenientes ao registro que
afastem a inelegibilidade”.
O registro de candidatura em exame foi indeferido por ausência de
condições de elegibilidade e não pela presença de causas de inelegibilidade. As condições

16
de elegibilidade, conforme texto expresso de lei, devem ser aferidas no momento da
formalização do pedido. A ressalva inserida na norma diz respeito tão somente às causas de
inelegibilidade, portanto não se aplica ao caso concreto em análise.
A própria jurisprudência utilizada pelo Juiz Federal Daniel Santos Rocha
Sobral informa que “a ressalva final do § 10 do artigo 11 da Lei das Eleições não comporta
ampliação, ou seja, tão somente se aplica às causas de inelegibilidade, conforme
expressamente estabelece a norma, não incidindo em relação às condições de elegibilidade.
3. Recurso desprovido. (RESPE nº 28087/SP, Relator(a) Min. Marco Aurélio, Relator(a)
designado(a) Min. Laurita Vaz, Ac. de 14/05/2013, DJE, Tomo 119, 26/06/2013, p. 56).
Entrementes, mesmo que se considere possível uma mitigação dessa
interpretação, aplicando a ressalva do §10, do art. 11 também às condições de
elegibilidade, devemos levar em conta que a data da decisão que julga o registro de
candidatura é o marco final para que todas as condições de elegibilidade estejam
preenchidas. É dizer, sob essa ótica mais flexível, o pré-candidato deverá ostentar
integralmente todas as condições de elegibilidade até o julgamento de seu registro, e não na
data da formalização do requerimento de registro, como determina a lei.
Sobre esse tema, ensina Edson de Resende Castro2:
“A Lei n. 12.034/2009, acrescentando o §10 ao art. 11, da Lei n.
9.504/97, reafirma que as condições de elegibilidade e as causas de
inelegibilidade deve ser aferidas no momento da formalização do pedido
de registro, mas ressalva que devem ser levadas em conta as alterações
fáticas ou jurídicas supervenientes que afastem a inelegibilidade.
Equivale dizer que o candidato – com condenação criminal transitada
em julgado, p. ex. –, terá seu registro indeferido se quando do
pedido ainda estiver sob os efeitos da condenação, por não ter
cumprido integralmente a pena, já que, como dito, as condições de
elegibilidade são verificadas no momento da formalização do pedido
(até 15 de agosto). Mas o Juiz deve levar em conta, para então deferir
o registro, posterior preenchimento dessa condição – pleno gozo dos
direitos políticos –, se essa elegibilidade superveniente ocorrer antes
da decisão. Por exceção, a elegibilidade poderá ser aferida não no

2
CASTRO, Edson de Resende. Curso de Direito Eleitoral. 9. ed. rev. E atual. Belo Horizonte: Del Rey, 2018. p.
152.

17
momento do protocolo do pedido de registro, mas sim no momento
da sua apreciação”.

Portanto, a data da decisão relativo ao registro de candidatura,


considerando uma interpretação mais abrangente, é o termo final para se conhecer de fato
superveniente que incida sobre condição de elegibilidade. Isso porque o tratamento dado às
condições de elegibilidade não é o mesmo dispensado às causas de inelegibilidades, por
possuírem natureza jurídica distinta.
Tanto é que o legislador, ao editar o §10, do art. 11, da Lei nº9.504/97,
fez questão de estabelecer essa diferença. Essa conclusão é retirada da própria estrutura do
parágrafo que no início separa as condições de elegibilidade das causas de inelegibilidade para,
no fim do texto, destacar situações que se aplicam apenas às causas de inelegibilidade.
Assim sendo, numa interpretação mais elástica, as circunstâncias
fáticas e jurídicas supervenientes ao registro de candidatura, quando se refiram a
condições de elegibilidade somente podem ser conhecidas até a data da decisão que julga o
pedido de registro de candidatura.
Na espécie, por ocasião do julgamento do requerimento de registro
de candidatura do recorrido, ele ainda estava com os seus direitos políticos suspensos, de
sorte que esse dispositivo legal foi contrariado pela decisão fustigada.

VII – Negativa de vigência ao art. 29, §2º, I, da Resolução TSE


nº23.548/17.

A decisão objurgada conflita com o art. 29, §2º, I, da Resolução TSE


nº23.548/17, que trata da quitação eleitoral, inclusive a decorrente do parcelamento de multa
aplicada pela Justiça Eleitoral:
Art. 29. Os requisitos legais referentes à filiação partidária,
domicílio eleitoral, quitação eleitoral e inexistência de crimes
eleitorais são aferidos com base nas informações constantes dos
bancos de dados da Justiça Eleitoral, sendo dispensada a apresentação
de documentos comprobatórios pelos requerentes (Lei nº 9.504/1997,
art. 11, § 1º, incisos III, V, VI e VII).
§ 1° A quitação eleitoral de que trata o caput deve abranger
exclusivamente a plenitude do gozo dos direitos políticos, o regular

18
exercício do voto, o atendimento a convocações da Justiça Eleitoral
para auxiliar os trabalhos relativos ao pleito, a inexistência de
multas aplicadas, em caráter definitivo, pela Justiça Eleitoral e
não remitidas, e a apresentação de contas de campanha eleitoral.
§ 2° Para fins de verificação da quitação eleitoral de que trata o §
1°, são considerados quites aqueles que:
I – condenados ao pagamento de multa, tenham, até a data do
julgamento do seu pedido de registro de candidatura,
comprovado o pagamento ou o parcelamento da dívida
regularmente cumprido;

O citado artigo, quando faz alusão à “multas aplicadas, em caráter


definitivo, pela Justiça Eleitoral”, para efeito de quitação eleitoral, se direciona tão somente
às multas cíveis eleitorais, nada dizendo respeito às multas criminais.
A quitação eleitoral decorrente desse artigo somente atinge as multas
eleitorais originadas de representação eleitoral e as penalidades pecuniárias decorrentes de
ausência às urnas e de não atendimento a convocação da Justiça Eleitoral para auxiliar os
trabalhos relativos ao pleito porquanto as multas oriundas de condenação criminal são
regulamentadas pela Constituição da República, através do art. 15, III, conforme
anteriormente explanado. Nesse diapasão:
RECURSO ESPECIAL ELEITORAL. ELEIÇÕES 2006. REGISTRO
DE CANDIDATURA. QUITAÇÃO ELEITORAL. AUSÊNCIA.
NATUREZA JURÍDICA. MULTA ELEITORAL. ARTS. 33, § 3º, E
45, III, § 3º, DA LEI Nº 9.504/97.
1. Está em débito com a Justiça Eleitoral o candidato que não
procede ao pagamento de multa pecuniária decorrente de
representação eleitoral transitada em julgado.
2. O art. 11, VI, § 1º, da Lei nº 9.504/97 estabelece que, ao requerer o
registro de candidatura, os partidos ou coligações apresentarão certidão
de quitação eleitoral do candidato. A ausência desse requisito é causa de
indeferimento de registro.
3. A multa que impede a emissão de certidão de quitação eleitoral
é exatamente aquela derivada dos arts. 33, § 3º, e 45, III, § 3º, da Lei
nº 9.504/97, como se vê da Res.-TSE nº 21.823/2005.

19
4. Recurso especial eleitoral não provido. (RESPE nº 26399/RO, Rel.
Min. José Augusto Delgado, PSESS 20/09/2006).

Sobre esse aspecto, transcrevo fragmento do respectivo julgamento que


elucida essa questão:
“A ausência desse requisito é causa de indeferimento de registro,
porquanto acarreta a restrição ao pleno exercício dos direitos políticos,
como se pode ver do v. Acórdão citado pelo Ministério Público Eleitoral
em sede de alegações finais, verbis:
‘O conceito de quitação Eleitoral reúne a plenitude do gozo dos
direitos políticos, o regular exercício do voto, salvo quando facultativo,
o atendimento a convocações da Justiça Eleitoral para auxiliar os
trabalhos relativos ao pleito, a inexistência de multas aplicadas, em
caráter definitivo, pela Justiça eleitoral e não remitidas, excetuadas
as anistias legais, e a regular prestação de contas de campanha eleitoral,
quando se tratar de candidatos. (Res. 21.823 - Rel. Min. Francisco
Peçanha Martins – DJ 05.07.04).”
Sobre a natureza jurídica da multa em comento, o acórdão
regional é mais uma vez preciso ao assim decidir (fl. 202):
“Diz, ainda, que a multa inscrita contra sua pessoa tem natureza
‘civil eleitoral’, pois decorrente de infração aos arts. 33, § 3º, e 45, inc.
III, § 3º da Lei n. 9.504/97 e, como tal, não gera inelegibilidade.
Ao contrário do que pretende o embargante, a multa que impede a
emissão de certidão de quitação eleitoral é exatamente aquela
derivada da Lei n. 9.504/97, como se vê da Resolução n. 21.823, citada
nas alegações finais do candidato, no acórdão atacado e repetido nas
razões de recurso do embargante.”

Caso o art. 29, §§ 1º e 2º, da referida resolução atingisse também a


multa criminal, ela estaria em flagrante conflito com a Constituição Federal, portanto, seria
inconstitucional nessa parte.
Conforme a jurisprudência dos tribunais eleitorais, o parcelamento da
multa criminal não afasta a suspensão dos direitos políticos. Nesse sentido:

20
RECURSO ELEITORAL. REGISTRO DE CANDIDATURA.
ELEIÇÕES 2016. PREFEITO. INDEFERIMENTO. […]
CONDENAÇÃO CRIMINAL. […] PENA DE MULTA. NÃO
QUITADA. ART. 15, INCISO III DA CF. INSCRIÇÃO EM DÍVIDA
ATIVA. […] INDEFERIMENTO DO REGISTRO. […]
2- O tratamento da multa criminal como dívida de valor não lhe
retira o caráter penal, permanecendo como pena até seu pagamento
ou o advento de outra hipótese de extinção. Ademais, a pena
pecuniária, mesmo isoladamente, enseja a suspensão dos direitos
políticos. Precedentes.
3- Dessa forma, na linha dos precedentes acima indicados, a
pendência de pagamento da pena de multa, ou sua cominação
isolada nas sentenças criminais transitadas em julgado, tem o
condão de manter/ensejar a suspensão dos direitos políticos prevista
pelo art. 15, III, da Constituição Federal. […] (RE n 28715/MT, Ac. n
25824 de 06/10/2016, Relator(a) RICARDO GOMES DE ALMEIDA,
PSESS, 06/10/2016)

RECURSO CONTRA EXPEDIÇÃO DE DIPLOMA. EFEITOS


DIPLOMAÇÃO. SUSPENSÃO. CANDIDATO ELEITO.
INCOMPATIBILIDADE. SUSPENSÃO DIREITOS POLÍTICOS.
RCED PROCEDENTE.
3. A condenação criminal transitada em julgado cuja pena
privativa de liberdade fora convertida em prestação pecuniária
(multa), produz como efeito automático a suspensão dos direitos
políticos, que tem assento constitucional. A multa, nesse caso, tem
caráter penal e não se confunde com a de natureza administrativa.
4. O parcelamento da multa aplicada e o pagamento das parcelas
vencidas não se revelam suficientes a desfazer os efeitos da
suspensão dos direitos políticos e também não se confunde com
hipótese de extinção de punibilidade que possui rol taxativo. (RCED
n 86951/MT, Ac. n 22899 de 23/04/2013, Relator(a) JOSÉ LUÍS
BLASZAK, DEJE, Tomo 1402, 08/05/2013, p. 2-6).

21
- RECURSO ELEITORAL – INDEFERIMENTO PEDIDO DE
RESTABELECIMENTO DE DIREITOS POLÍTICOS -
CONDENAÇÃO AO PAGAMENTO DE MULTA EM RAZÃO DO
COMETIMENTO DE ILÍCITO PENAL - PARCELAMENTO DO
DÉBITO - SUSPENSÃO DOS DIREITOS POLÍTICOS COMO
EFEITO DA CONDENAÇÃO (INCISO III DO ARTIGO 15 DA
CONSTITUIÇÃO FEDERAL) QUE SOMENTE SE EXTINGUE
COM O PAGAMENTO INTEGRAL – DESPROVIMENTO.
(RCRIME n 758216832/SC, Ac. n 26729 de 06/08/2012, Relator(a)
JULIO GUILHERME BEREZOSKI SCHATTSCHNEIDER, Revisor(a)
NELSON MAIA PEIXOTO, DJE, Tomo 145, 10/8/2012, p. 6).

RECURSO ELEITORAL. REQUERIMENTO DE


RESTABELECIMENTO DOS DIREITOS POLÍTICOS
SUSPENSOS EM RAZÃO DE CONDENAÇÃO CRIMINAL
TRANSITADA EM JULGADO E DE EXPEDIÇÃO DE
CERTIDÃO DE QUITAÇÃO ELEITORAL A FIM DE TOMAR
POSSE EM CONCURSO PÚBLICO. CONDENAÇÃO CRIMINAL
TRANSITADA EM JULGADO. SENTENÇA: IMPROCEDÊNCIA
DO PEDIDO. CUMPRIMENTO APENAS DA PENA PRIVATIVA DE
LIBERDADE. PENA DE MULTA NÃO ADIMPLIDA. DIREITOS
POLÍTICOS CONTINUAM SUSPENSOS. AUSÊNCIA DE
DECLARAÇÃO DA EXTINÇÃO DA PUNIBILIDADE PELO JUIZ
DA EXECUÇÃO CRIMINAL, NOS TERMOS DO ART. 66, II, DA LEI
Nº 7.210/84 (LEI DE EXECUÇÃO CRIMINAL), […] OS EFEITOS
DA CONDENAÇÃO AINDA SUBSISTEM. SENTENÇA MANTIDA.
RECURSO DESPROVIDO. (RE n 5555/SP, Ac. de 17/03/2015,
Relator(a) SILMAR FERNANDES, DJESP, 23/03/2015).

De outra banda, ainda que se contrariasse a Constituição e fosse aceita a


aplicação desse dispositivo nos casos de multas criminais, a obtenção dessa quitação eleitoral
pressuporia que o condenado à multa, decorrente de condenação criminal, tivesse
comprovado o pagamento total dela até a data do pedido de registro de candidatura ou,
numa interpretação mais flexível do §10, do art. 11, da Lei nº9.504/97, até a data do

22
julgamento do pedido de registro de candidatura. Requisito esse que não foi atendido pelo
recorrido.
Portanto, o recorrido, à época do julgamento de seu registro de
candidatura, não estava quite com a Justiça Eleitoral, não havia restabelecido os seus
direitos políticos.
Ao percorrer todos os argumentos, as justificativas, as circunstâncias
fáticas e as provas detalhadas nos autos, chega-se à conclusão de que o requerente não pode
figurar entre aqueles que concorrem a cargo eletivo nas eleições desse ano. Pois não
preencheu todas as condições de elegibilidade necessária para tal desiderato.
De fato, o pré-candidato que não cumpre plenamente as condições de
elegibilidade insculpida na Constituição não reúne as condições mínimas para assumir cargo
público, nem para representar a população.
Nesse aspecto, o texto constitucional é incondicional ao exigir, como
requisito indispensável para participar do prélio eleitoral na condição de candidato, a plenitude
dos direitos políticos bem como a filiação deferida pelo partido há pelo menso seis meses antes
do pleito. Daí que, subsistindo restrição às condições de elegibilidade do recorrido, não deve ser
permitido a ele figurar como candidato nas eleições vindouras.

VIII – Divergência jurisprudencial.

No aresto fustigado, o Tribunal Regional Eleitoral do Piauí


contrariou o entendimento adotado por outros tribunais eleitorais, conforme será
demonstrado adiante.
Para fins de satisfação do necessário cotejo analítico, importa rememorar
a ementa do Acórdão nº 060094076-A e alguns trechos do voto divergente do Juiz Federal
Daniel Santos Rocha Sobral que concluiu pelo deferimento do requerimento do registro de
candidatura de Odival José de Andrade:
Ementa:
EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. PEDIDO DE EFEITO
MODIFICATIVO. AUSÊNCIA DE CONDIÇÕES DE
ELEGIBILIDADE. MULTA ELEITORAL. DÍVIDA DE VALOR,
RESPONSABILIDADE DA FAZENDA NACIONAL.
PARCELAMENTO REGULAR, TEMPESTIVO E VÁLIDO.
INTELIGÊNCIA DO ART. 29, § 2º, I, DA RESOLUÇÃO TSE N.

23
23.548/17 E SÚMULA TSE N. 50. QUITAÇÃO INTEGRAL DO
DÉBITO AINDA NA INSTÂNCIA ORDINÁRIA. AFASTAMENTO
DOS VÍCIOS CONSTATADOS EM RELAÇÃO Á QUITAÇÃO E
FILIAÇÃO PARTIDÁRIA. DEFERIMENTO DO PEDIDO DE
REGISTRO DE CANDIDATURA.
Sob a Presidência do Excelentíssimo Senhor Desembargador
SEBASTIÃO RIBEIRO MARTINS, ACORDAM os Membros do
Tribunal Regional Eleitoral do Piauí, por unanimidade, em DEFERIR
a juntada dos comprovantes do pagamento integral da multa
imposta ao Embargante na Ação Penal 1386-76.2010.6.18.0011, nos
termos do voto do Relator; e, por maioria, em CONHECER e DAR
PROVIMENTO aos EMBARGOS DE DECLARAÇÃO, nos termos
do voto divergente do Doutor Daniel Santos Rocha Sobral. Vencidos
o Relator e o Doutor Paulo Roberto de Araújo Barros.

Trecho do voto divergente (Juiz Federal Daniel Santos Rocha


Sobral):
Não obstante condenado por crime eleitoral de injúria, com fulcro
no art. 326, do Código Eleitoral, a pena imposta ao pré-candidato foi
de pagamento de multa, o que implica dizer que, após o trânsito em
julgado, se convolou em dívida de valor, a qual foi parcelada
regularmente perante a Fazenda Nacional em novembro de 2017,
elidindo, por certo tempo, a ausência de quitação eleitoral, consoante
precedentes jurisprudenciais (Recurso Especial Eleitoral nº 28087,
Acórdão, Relator(a) Min. Marco Aurélio Mendes De Farias Mello,
Publicação: DJE - Diário de justiça eletrônico, Tomo 119, Data
26/06/2013, Página 56).
O pretenso candidato, então, pagou três parcelas (até 31/01/2018 –
ID 52537), correspondentes a dezembro/2017, janeiro/2018 e
fevereiro/2018 – de modo que, na época da filiação partidária, em
fevereiro de 2018, o interessado estava em dia no tocante à quitação
eleitoral e, consequentemente, à filiação partidária. […]

24
Contudo, não obstante haja excertos de jurisprudência chancelando
esse entendimento, analisando mais detidamente a questão, constatei que
o art. 29, §2º, I, da Resolução TSE n. 23.548/2017 dispõe o seguinte:
Art. 29. Os requisitos legais referentes à filiação partidária, domicílio
eleitoral, quitação eleitoral e inexistência de crimes eleitorais são
aferidos com base nas informações constantes dos bancos de dados da
Justiça Eleitoral, sendo dispensada a apresentação de documentos
comprobatórios pelos requerentes (Lei nº 9.504/1997, art. 11, § 1º,
incisos III, V, VI e VII). (…)
§ 2° Para fins de verificação da quitação eleitoral de que trata o § 1°,
são considerados quites aqueles que:
I - condenados ao pagamento de multa, tenham, até a data do
julgamento do seu pedido de registro de candidatura, comprovado o
pagamento ou o parcelamento da dívida regularmente cumprido.
De outra parte, o Colendo TSE editou a Súmula 50, decretando que:
“O pagamento da multa eleitoral pelo candidato ou a comprovação
do cumprimento regular de seu parcelamento após o pedido de
registro, mas antes do julgamento respectivo, afasta a ausência de
quitação eleitoral”.
Tais diretrizes apontam no sentido de que restou afastada a ausência
de condição de elegibilidade questionada. […]
Destaco, especificamente no que tange à filiação, que tal questão
remonta ao parcelamento e, quanto a este, repito: após o trânsito em
julgado, houve a inscrição da dívida na Fazenda Nacional
(outubro/2017), a qual, em seguida, analisou e deferiu, em
02/12/2017, o pedido de parcelamento formulado pelo apenado em
30/11/2017, conforme termo constante dos autos. Frise-se que cabe
justamente à Fazenda aferir todos os detalhes referentes a esse trâmite, a
exemplo da quantidade de parcelas, o valor, o tipo e o quantum dos
juros, tudo sob a égide da legislação tributária federal. In casu, é
inquestionável, portanto, que o primeiro parcelamento da multa deu-
se de modo regular e que, na data da filiação, estava absolutamente
válido, uma vez que fora rescindido apenas em julho/2018, quando foi
realizado novo pacto com o órgão fazendário. […]”

25
A leitura do excerto transcrito acima leva à conclusão de que a Corte
Eleitoral do Piauí, ao chancelar entendimento do Juiz Federal Daniel Santos Rocha
Sobral, divergiu na interpretação da lei de vários Tribunais Regionais Eleitorais, cujas
ementas dos julgados e trechos dos votos condutores transcrevem-se neste momento:
Tribunal Regional Eleitoral do Amazonas – TRE/AM.
Ementa:
RECURSO ELEITORAL. REGISTRO DE CANDIDATURA.
Ausência de filiação partidária. Filiação feita em período de
cumprimento de suspensão de direitos políticos por condenação
transitada em julgado. Nulidade da filiação para efeitos de registro
de candidatura. (RE n 12448/AM, Ac. n 313 de 16/09/2016, Relator(a)
FELIPE DOS ANJOS THURY, PSESS).

Trecho do voto condutor:


[…] Discute-se nos autos a possibilidade de candidato, que teve
suspensos seus direitos políticos por condenação criminal transitada
em julgado, filiar-se a partido político.
Isso porque, caso seja admitida, seria viabilizada a candidatura do ora
Recorrente que teria se filiado PTB em 05 de março de 2016, ou seja,
dentro do prazo de 06 (seis) meses antes do pleito. […]
Cuida-se de apreciar a validade da filiação do Recorrente ao
Partido Trabalhista Brasileiro durante o período em que seus
direitos políticos estavam suspensos por foça de condenação
criminal transitada em julgado. […]
a suspensão dos direitos políticos é decorrência automática da
sentença criminal condenatória transitada em julgado, enquanto
durarem seus efeitos, nos termos do art. 15, III, da CF.
A respeito, cabe trazer à colação importante estudo feito pelo
Ministro Teori Zavascki, divulgado no Informativo TSE n. 13/2015,
vazado nos seguintes termos:
"Estar em gozo dos direitos políticos significa, pois, estar habilitado a
alistar-se eleitoralmente, habilitar-se a candidatura para cargos eletivos
ou a nomeações para certos cargos públicos não eletivos (Constituição

26
Federal, art. 87; 89, VII; 101; 103, §1º), participar de sufrágios, votar em
eleições, plebiscitos e referendos, apresentar projetos de lei pela via da
iniciativa popular (Constituição Federal, arts. 61, 5 2' e 29, XI) e propor
ação popular (Constituição Federal, art. 51', inc. LXXIII). Quem não
está em gozo dos direitos políticos não poderá filiar-se a partido
político (Lei n. 5.682, de 21.07.71, art. 62) e nem investir-se em
qualquer cargo público, mesmo não eletivo (Lei n. 8.112, de 11.12.90,
art. 5", II). Não pode, também, ser diretor ou redator-chefe de jornal ou
periódico (Lei n. 5.250, de 09.02.67, art. 7, % 1') e nem exercer cargo
em entidade sindical (Consolidação das leis do trabalho, art. 530, V)".
(Grifo nosso)
Com efeito, embora o Excelentíssimo Ministro do Supremo
Tribunal Federal tenha feito referência ao texto da antiga Lei Orgânica
dos Partidos Políticos de 1971, o mesmo dispositivo legal encontra-se
reproduzido no art. 16 da Lei dos Partidos Políticos Lei n. 9.096/95, in
verbis:
"Art. 16. Só pode filiar-se a partido o eleitor que estiver no
pleno gozo de seus direitos políticos."
Portanto, suspensos os direitos políticos do cidadão, impedido
está de filiar-se a partido político por expressa previsão legal. […]
a filiação partidária, obtida durante período em que estavam
suspensos os direitos políticos, como decorrência do trânsito em
julgado de decisão condenatória criminal, é nula, sendo escorreita a
decisão que indeferiu o pedido de registro de filiação do Recorrente,
ex vi do are. 16 da Lei n' 9.096/95. [...]

Como se depreende da leitura do voto do relator, o eleitor com os


direitos políticos suspensos na data de sua filiação, em razão de condenação transitada em
julgado, não pode filia-se a grêmio político.

Tribunal Regional Eleitoral de Goiás – TRE/GO.


Ementa:
RECURSO ELEITORAL. REGISTRO DE CANDIDATURA.
ELEIÇÕES 2016. VEREADOR. INDEFERIMENTO.

27
CONDENAÇÃO CRIMINAL. […] AUSÊNCIA DE CONDIÇÃO
DE ELEGIBILIDADE. FILIAÇÃO NULA.
2. Filiação executada quando o candidato encontrava-se com os
direitos políticos suspensos é nula. […] (RE n 3985/GO, Ac. n
994/2016 de 22/09/2016, Relator(a) NELMA BRANCO FERREIRA
PERILO, PSESS, Tomo 78, 22/09/2016).

Trecho do voto condutor:


[…] Destaca-se, ainda que as penas arbitradas (doação de um
computador completo para a Escola Municipal Professora Maria de
Fátima Pereira e dez dias-multa) foram quitadas em 23/08/2016,
conforme consta nos documentos de fls. 92/97.
Ademais, sua filiação ao PRP, datada de 1°/04/2016, consoante
certidão anexada a fl. 14, operou-se quando o candidato encontrava-
se com seus direitos políticos suspensos. Nesse particular, cumpre
esclarecer que o registro de sua filiação na referida data somente foi
possível porque, em consulta ao Cadastro Nacional de Eleitores
(Sistema Elo). verificou-se que o cartório eleitoral não procedeu a
devida anotação da suspensão dos direitos políticos em sua inscrição
eleitoral, fato este que, se fosse devidamente procedido, impediria de
imediato a inscrição no sistema Filaweb, haja vista que a filiação a
partido político somente é permitida pela legislação pátria a eleitores
que se encontram em pleno gozo dos direitos políticos, consoante
determina o artigo 16 da Lei no 9.906195, abaixo transcrito:
Art. 16. Só pode filiar-se a partido o eleitor que estiver no pleno
gozo de seus direitos políticos.
Sobre o tema, a jurisprudência eleitoral é no sentido de considerar
nulo o ato de filiação realizado na referida condição. Veja-se:
ELEIÇÕES 2012. RECURSO ESPECIAL. REGISTRO DE
CANDIDATO VEREADOR INDEFERIMENTO AUSÊNCIA DE
COMPROVAÇÃO DE FILIAÇÃO PARTIDÁRIA CONDENAÇÃO
CRIMINAL. PORTE ILEGAL DE ARMA DE FOGO. TRÂNSITO EM
JULGADO. SUSPENSÃO DOS DIREITOS POLÍTICOS. ARTIGO 15,
INCISO III, DA CONSTITUIÇÃO FEDERAL. DESPROVIMENTO.

28
I. Hipótese em que, estando o Recorrente com os direitos políticos
suspensos na oportunidade da filiação, em decorrência de
condenação criminal transitada em julgado, e não havendo notícia
do cumprimento ou extinção da pena, não poderia ele atender ao
requisito da filiação partidária no prazo de um ano antes do pleito.
2. Nos termos do artigo 16 da Lei no 9.096/95, só pode filiar-se a
partido político o eleitor que estiver no pleno gozo dos direitos
políticos. Portanto, é nula a filiação realizada durante o período em
que se encontram suspensos os direitos políticos em decorrência de
condenação criminal transitada em julgado. Precedentes.
3. "Na linha da jurisprudência deste Tribunal e até que o Supremo
Tribunal Federal reexamine a questão já admitida sob o ângulo da
repercussão geral, a condenação criminal transitada em julgado é
suficiente para atrair a incidência da suspensão dos direitos políticos,
independentemente do fato de a pena privativa de liberdade ter sido
posteriormente substituída pela restritiva de direitos" (REspe no 398-
22/RJ, Rei. Ministro HENRIQUE NEVES, julgado em 7.5.2013).
(…)
6. Recurso especial desprovido.
(TSE, REspe - Recurso Especial Eleitoral no 11450 – Selvíria/MS,
Acórdão de 06/08/2013, Relator(a) Min. LAURITA HILÁRIO VAZ,
Publicação: DJE de 26/08/2012). [...]

Na esteira do entendimento esposado pelo relator, estando o eleitor com


seus direitos suspensos por ocasião da filiação partidária, esse ato não surtirá efeitos legais.

Tribunal Regional Eleitoral de Mato Grosso do Sul – TRE/MS.


Ementa:
RECURSO ELEITORAL. REGISTRO DE CANDIDATURA.
SUSPENSÃO DE DIREITOS POLÍTICOS. AUSÊNCIA DE
REGULAR FILIAÇÃO PARTIDÁRIA. ARTS. 14, § 3.º, V E 15, III,
DA CONSTITUIÇÃO FEDERAL. […]
Se, há época do requerimento de registro de candidatura, a pena
decorrente de condenação criminal ainda não havia sido declarada

29
extinta ou cumprida pelo pagamento posterior de multa, correta a
decisão que indeferiu o registro postulado (art. 15, inciso III, da
Constituição Federal).
Embora o restabelecimento desses direitos seja automático,
decorrendo do cumprimento ou extinção da pena,
independentemente de reabilitação ou reparação dos danos (Súmula
TSE n.º 9/92), tem-se que ocorre apenas com a extinção da pena ou
com o seu cumprimento, seja ela de qualquer natureza. Desse modo,
pendente ainda a sanção de multa, não estará extinta a pena, nem
tampouco estarão restabelecidos os direitos políticos, até porque a
sanção de multa é suficiente para a suspensão dos direitos políticos
nos termos previstos no art. 15, III, da Constituição Federal.
Apesar de estar filiado no sistema FILIAWEB pelo tempo
legalmente exigido pelo art. 9.º da Lei n.º 9.504/97, tal vinculação
não figura regular, já que registrada durante a vigência da
suspensão. […] (RE n 13429/MS, Ac. n 7235 de 20/08/2012, Relator(a)
LUIZ CLÁUDIO BONASSINI DA SILVA, PSESS, 20/8/2012).

Trecho do voto condutor:


[…] No caso dos autos, a certidão de fl. 63, demonstra que o
recorrente foi condenado em processo criminal por decisão
transitada em julgado no dia 6.6.2011. Sendo, portanto, inequívoca a
suspensão dos direitos políticos nos termos do Art. 15, inciso III, da
Constituição Federal, o qual é auto aplicável, consoante decido no
Acórdão STF, de 31.5.95, no Recurso Eleitoral n.° 179.502, e Acórdão
TSE, de 2.2.2009, no Recurso Especial Eleitoral n.° 32.667 entre outras
decisões. Ademais disso, trata-se de efeito automático decorrente da
decisão transitada em julgado não exigindo qualquer outro
procedimento para a sua aplicação (Acórdão TSE, de 15.10.2009, no
REspe n.° 35.803).
Infere-se também que ao tempo do requerimento do registro de
candidatura (5.7.2012), a pena ainda não havia sido declarada
extinta, nem tampouco cumprida, já que a multa foi paga no dia
6.7.2012 (fl. 64) e o recorrente teve sua pena declarada extinta em

30
18.07.2012, ou seja, apenas antes da decisão de 27.7.2012, que
indeferiu o registro por falta de regular filiação partidária.
Muito embora o restabelecimento seja automático cesse com o
cumprimento ou extinção da pena independentemente de reabilitação ou
reparação dos danos (Súmula TSE n.° 9/92), a teor dos Acórdãos TSE
n.°s 13.027/96, 302/98, 15.338/99 e 252/2003, para a incidência deste
dispositivo, é irrelevante a espécie de crime, a natureza da pena, bem
como a suspensão condicional da desta.
Assim, apenas com a extinção da pena ou com o seu
cumprimento, seja ela de qualquer natureza (inclusive a multa),
ocorre o restabelecimento dos direitos políticos.
Em outras palavras, pendente ainda a sanção de multa, não estará
extinta a pena, nem tampouco estarão restabelecidos os direitos
políticos, até porque a sanção de multa é suficiente para a suspensão
dos direitos políticos nos termos previstos no art. 15, III, da
Constituição Federal. […]
[…] Assim, apesar de estar filiado no sistema FILIAWEB pelo
tempo legalmente exigido pelo art. 9.° da Lei n.° 9.504/97, as provas
coligidas aos autos demonstram que os direitos políticos estavam
suspensos, não sendo regular esta filiação registrada durante a
vigência dessa suspensão.

Seguindo a orientação indicada pelo relator, nos casos de condenação


criminal, estando pendente o pagamento da multa, não estará extinta a pena, por
conseguinte os direitos políticos do condenado estarão ainda suspensos, não podendo ele se
filiar, enquanto não recobrar a plenitude de seus direitos políticos, conforme disposto no art.
16, da Lei nº9.096/95.

Tribunal Superior Eleitoral – TSE.


Ementa:
ELEIÇÕES 2016. […] REGISTRO DE CANDIDATURA. […]
FILIAÇÃO PARTIDÁRIA. DIREITOS POLÍTICOS SUSPENSOS
EM DECORRÊNCIA DE CONDENAÇÃO CRIMINAL
TRANSITADA EM JULGADO. PRAZO DE 6 (SEIS) MESES

31
ANTES DA DATA DA ELEIÇÃO NÃO OBSERVADO. AUSÊNCIA
DE CONDIÇÃO DE ELEGIBILIDADE. ART. 14, § 3°, V, DA
CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA. REGISTRO INDEFERIDO.
[…]
2. Segundo a jurisprudência iterativa deste Tribunal Superior, a
filiação partidária realizada durante o período de suspensão dos
direitos políticos não produz efeitos para fins de registro de
candidatura”. (RESPE nº 12448/AM, Relator(a) Min. Luiz Fux, DJE,
Tomo 71, 10/04/2017, p. 71).

Trecho do voto condutor:


[…] Em que pesem os argumentos esposados nas razões deste agravo,
verifico que são insuficientes para acarretar a modificação do decisum
objurgado, o qual deve ser mantido por seus próprios fundamentos,
in verbis (fls. 391-396):
ln casu, o Tribunal Regional Eleitoral do Amazonas indeferiu o
registro de candidatura de Alexandre Bezerra Lins ao cargo de Vereador
nas eleições de 2016, em acórdão assim ementado (fls. 344):
RECURSO ELEITORAL. REGISTRO DE CANDIDATURA.
Ausência de filiação partidária. Filiação feita em período de
cumprimento de suspensão de direitos políticos por condenação
transitada em julgado. Nulidade da filiação para efeitos de registro
de candidatura.
RECURSO CONHECIDO E DESPROVIDO. […]
a legislação determina que a obtenção de filiação partidária
abrange, entre outros requisitos, a plenitude do gozo dos direitos
políticos, a teor do art. 16 da Lei n° 9.906/952.
Pelo que se depreende do acórdão recorrido, o Recorrente realizou
pedido de filiação ao PTB em 05 de março de 2016. Ocorre que, à
época do pedido, o Recorrente encontrava-se com seus direitos
políticos suspensos, tendo em vista que foi condenado por decisão
judicial condenatória com trânsito em julgado.
É que a suspensão dos direitos políticos do Recorrente durou até
28 de abril de 2016, após, portanto, a data limite do prazo de 6 (seis)

32
meses para que o candidato realizasse a filiação partidária nas
Eleições de 2016, prazo este que foi finalizado em 2/4/2016, nos
termos do art. 90, da Lei n° 9.504/1 997 (fls. 353).
Esta Corte reconhece que a condenação criminal transitada em
julgado é suficiente para enseiar a imediata suspensão dos direitos
políticos, nos termos do art. 15, III, da Constituição Federal. […]
Assim, justamente pelo trânsito em julgado da decisão condenatória
criminal, é escorreita a decisão que obstou a filiação da Recorrente, cuja
obtenção abrange, entre outros requisitos, a plenitude do gozo dos
direitos políticos, ex vido art. 16 da Lei n°9.906/95.
Ademais, consoante a jurisprudência desta Corte Superior, só é
possível a filiação a partido político se o eleitor estiver em pleno gozo
dos seus direitos políticos, sendo nula a filiação realizada durante a
suspensão de tais direitos. [...]

Como se vê, a visão do Tribunal Superior Eleitoral sobre o tema


filiação partidária é a de que a suspensão dos direitos políticos oriunda de condenação
criminal impede a filiação partidária do eleitor, enquanto perdurar a suspensão.

Tribunal Regional Eleitoral de Mato Grosso – TRE/MT.


Ementa:
RECURSO ELEITORAL. REGISTRO DE CANDIDATURA.
ELEIÇÕES 2016. PREFEITO. INDEFERIMENTO. […]
CONDENAÇÃO CRIMINAL. […] PENA DE MULTA. NÃO
QUITADA. ART. 15, INCISO III DA CF. INSCRIÇÃO EM DÍVIDA
ATIVA. […] INDEFERIMENTO DO REGISTRO. […]
2- O tratamento da multa criminal como dívida de valor não lhe
retira o caráter penal, permanecendo como pena até seu pagamento
ou o advento de outra hipótese de extinção. Ademais, a pena
pecuniária, mesmo isoladamente, enseja a suspensão dos direitos
políticos. Precedentes.
3- Dessa forma, na linha dos precedentes acima indicados, a
pendência de pagamento da pena de multa, ou sua cominação
isolada nas sentenças criminais transitadas em julgado, tem o

33
condão de manter/ensejar a suspensão dos direitos políticos prevista
pelo art. 15, III, da Constituição Federal. […] (RE n 28715/MT, Ac. n
25824 de 06/10/2016, Relator(a) RICARDO GOMES DE ALMEIDA,
PSESS, 06/10/2016)

Trecho do voto condutor:


[…] o cerne da questão diz respeito a verificação na seara
eleitoral das consequências em relação ao não pagamento da pena de
multa imposta em condenação criminal […]
a Corregedoria Regional Eleitoral de Mato Grosso do Sul formulou
Consulta instaurada sob n°PA n° 936-31.2014 ao c. Tribunal Superior
Eleitoral. […]
Essa decisão, datada de 23.04.2015, se amolda perfeitamente ao caso
em questão, razão pela qual peço a venha para transcrever trechos do
voto do relator designado, Min Dias Toffoli, que assim concluiu: […]
o tratamento da multa criminal como dívida de valor não lhe retira o
caráter penal, permanecendo como pena até seu pagamento ou o advento
de outra hipótese de extinção. Ademais, a pena pecuniária, mesmo
isoladamente, ensejo a suspensão dos direitos políticos" (fi. 97).
Tal entendimento é corroborado por julgados desta Corte, no sentido
de que a condenação à multa é também suficiente para se aplicar o
disposto no art. 15, 111, da Constituição Federal. Cito os seguintes
precedentes:
HABEAS CORPUS. MANTENÇA DA SUSPENSÃO DOS
DIREITOS POLÍTICOS NO CADASTRO DE ELEITORES. NÃO
PAGAMENTO DA PENA DE MULTA. AUSÊNCIA DE
CONSTRANGIMENTO ILEGAL. NÃO CABIMENTO DO WRIT. […]
3. A condenação à multa também é suficiente para a aplicação do
disposto no artigo 15, III, da Constituição Federal [REspe n°
19.633/SP, Rei. Fernando Neves, publicado no DJ de 9.8.2002). [Grifei].
4. Habeas corpus não conhecido. [HC n° 510-58/SP,rel. Min. Gilson
Dipp, DJede 18.8.2011); e
Recurso contra diplomação - candidato que estava, à época do
registro, com os direitos políticos suspensos - Condenação por

34
desacato - Pena de multa - Sentença criminal com trânsito em
Julgado - Auto-aplicabilidade do art. 15, III, da Constituição
Federal - Recurso não conhecido. [Grifei]. [REspe n° 196331SP, DJde
9.8.2002, rei. Mm. Fernando Neves).
Também no STF, essa orientação foi reafirmada no julgamento do
RE no 577.012/MG, DJe 25.3.2011, de relataria do Ministro Ricardo
Lewandowski, que destacou em seu voto magistério do Ministro Teori
Zavascki:
Constituinte não fez exceção alguma: em qualquer hipótese de
condenação criminal haverá suspensão dos direitos políticos
enquanto durarem os efeitos da sentença. Trata-se de preceito
extremamente rigoroso, porque não distingue crimes dolosos dos
culposos, nem condenações a penas privativas de liberdade de
condenações a simples penas pecuniárias. Também não distingue
crimes de maior ou menor potencial ofensivo ou danoso [ ... ].
Dessa forma, na linha dos precedentes acima indicados, a
pendência de pagamento da pena de multa, ou sua cominação
isolada nas sentenças criminais transitadas em julgado, tem o
condão de manter/ensejar a suspensão dos direitos políticos prevista
pelo art. 15. III, da Constituição Federal.

O voto do relator é bastante contundente ao fixar que “estando


pendente o pagamento da multa aplicada”, o pré-candidato “não preenche condição de
elegibilidade referente ao pleno gozo de seus direitos políticos (art. 14, §3º, II, da CF), não
tendo cumprido integralmente a pena imposta”.

Tribunal Regional Eleitoral de Mato Grosso – TRE/MT.


Ementa:
RECURSO CONTRA EXPEDIÇÃO DE DIPLOMA. EFEITOS
DIPLOMAÇÃO. SUSPENSÃO. CANDIDATO ELEITO.
INCOMPATIBILIDADE. SUSPENSÃO DIREITOS POLÍTICOS.
RCED PROCEDENTE.

35
3. A condenação criminal transitada em julgado cuja pena
privativa de liberdade fora convertida em prestação pecuniária
(multa), produz como efeito automático a suspensão dos direitos
políticos, que tem assento constitucional. A multa, nesse caso, tem
caráter penal e não se confunde com a de natureza administrativa.
4. O parcelamento da multa aplicada e o pagamento das parcelas
vencidas não se revelam suficientes a desfazer os efeitos da
suspensão dos direitos políticos e também não se confunde com
hipótese de extinção de punibilidade que possui rol taxativo. (RCED
n 86951/MT, Ac. n 22899 de 23/04/2013, Relator(a) JOSÉ LUÍS
BLASZAK, DEJE, Tomo 1402, 08/05/2013, p. 2-6).

Trecho do voto condutor:


[…] a candidato que […] estava com seus direitos políticos
suspensos por conta de condenação criminal transitada em julgado
[…] que fora convertida em pena pecuniária (multa).
Referida condenação criminal transitada em julgado, que levou à
suspensão desses direitos […]
Incorreu, portanto, em hipótese de incompatibilidade
constitucional, que conforme muito bem pontuado pela ilustrada
Procuradoria Regional Eleitoral, não se confunde com quitação
eleitoral ou causa de inelegibilidade. […]
Transcrevo parcialmente os assentamentos a respeito, que
respaldaram a conclusão do citado julgamento, verbis:
"Aliás, registre-se, a sucessão de equívocos do juízo de piso:
primeiro, quando deferiu a emissão de Certidão de quitação eleitoral
ao ora Agravante, diante da comprovação de pagamento das
parcelas vencidas da multa aplicada […]
[…] a tese equivocada do Requerido de que o parcelamento da
multa implica em quitação eleitoral em decorrência de suposta
extinção de punibilidade fora objeto de valioso estudo do parquet que
ora pede-se licença para transcrever:

36
"Como bem se observa, […] o parcelamento da multa não constitui
causa de extinção de punibilidade, já que, para começar, não consta do
rol do art. 107 do Código Eleitoral.
O parcelamento do valor da multa imposta nada mais é do que um
mecanismo de fragmentação da penalidade para facilitar o seu
cumprimento, isto porque, regra geral, a sanção pecuniária deve ser
adimplida no prazo de 10 dias, contados do trânsito em julgado.
Daí a conclusão lógica e inexorável de que a divisão do débito em
parcelas para fins de pagamento não retira a eficácia da condenação
criminal, o qual continua a surtir seus efeitos até que a punição ali
imposta seja integralmente cumprida.
Ademais, não se pode confundir os efeitos de uma sentença penal
condenatória transitada em julgado com a forma de penal
condenatória transitada em julgado com a forma de execução da
espécie da pena aplicada. A questão da satisfação da penalidade de
multa estar sujeita a atuação da Fazenda Pública em caso de
eventual inadimplemento não altera o fato de que ela – a multa –
decorre diretamente da sentença penal condenatória definitiva
(efeito) e que é justamente esse título judicial que legitima eventual
execução.
No caso dos autos, importante registrar que a penalidade de multa
aplicada, muito embora tenha sido parcelada por solicitação do
requerido, não foi integralmente cumprida. Logo, é imperativo aqui
reconhecer que o recorrido ainda permanece com seus direitos
políticos suspensos […]
[…] O que de fato importa ressai da suspensão dos direitos políticos
do candidato […]
[…] Nesse sentido peço licença à ilustrada Procuradoria Regional
Eleitoral para colacionar relevante doutrina trazida no bojo do parecer
ministerial, verbis: "Acerca do tema, confira, a propósito, a lição do
Promotor de Justiça Rodrigo Zílio (Direito Eleitoral. Porto Alegre: Verbo
Jurídico, 2008, p. 139):
"Deve-se ponderar que qualquer espécie de condenação criminal -
seja praticada de forma dolosa, culposa ou preterdolosa, seja oriunda de

37
crime ou contravenção penal - atrai a incidência da causa de suspensão
dos direitos políticos, já que a norma constitucional sob comento não
exige qualquer elemento subjetivo específico do tipo para a incidência e,
ao referir-se, de modo genérico, à condenação criminal, abarca, de igual
modo, o conceito de crime e de contravenção penal.
Desimporta, também, para a aplicação da norma constitucional
mencionada, a espécie de pena aplicada ao réu. Assim, tanto a
condenação por pena privativa de liberdade (...), como a pena
restritiva de direitos (...) ou a pena de multa implica a suspensão dos
direitos políticos.
A suspensão dos direitos políticos do condenado criminalmente tem
incidência enquanto durarem os efeitos da condenação. Assim,
enquanto o condenado está cumprindo a pena imposta incide a
suspensão dos direitos políticos. A par das causas de cumprimento da
pena, deve-se ponderar que a suspensão dos direitos políticos também
cessa mediante a extinção da punibilidade do agente( ... ). De outra parte,
somente o pagamento integral da multa imposta importa na
possibilidade de restabelecimento dos direitos políticos suspensos."
(grifos originais)

O relator desse processo é claro ao dizer que, enquanto a multa


criminal não for integralmente paga, subsiste a suspensão dos direitos políticos do
candidato. E vai além ao alertar sobre ser equivocada a tese segundo a qual o
parcelamento de multa criminal importe em quitação eleitoral.
Tribunal Regional Eleitoral de Santa Catarina – TRE/SC.
Ementa:
- RECURSO ELEITORAL – INDEFERIMENTO PEDIDO DE
RESTABELECIMENTO DE DIREITOS POLÍTICOS -
CONDENAÇÃO AO PAGAMENTO DE MULTA EM RAZÃO DO
COMETIMENTO DE ILÍCITO PENAL - PARCELAMENTO DO
DÉBITO - SUSPENSÃO DOS DIREITOS POLÍTICOS COMO
EFEITO DA CONDENAÇÃO (INCISO III DO ARTIGO 15 DA
CONSTITUIÇÃO FEDERAL) QUE SOMENTE SE EXTINGUE
COM O PAGAMENTO INTEGRAL – DESPROVIMENTO.

38
(RCRIME n 758216832/SC, Ac. n 26729 de 06/08/2012, Relator(a)
JULIO GUILHERME BEREZOSKI SCHATTSCHNEIDER, Revisor(a)
NELSON MAIA PEIXOTO, DJE, Tomo 145, 10/8/2012, p. 6).

Trecho do voto condutor:


[…] Enquanto pendente de quitação a multa eleitoral decorrente
de condenação criminal, os direitos políticos permanecem suspensos
(inciso III do artigo 15 da Constituição Federal). Os precedentes
citados por ele não se aplicam ao caso, pois se referem a multas
administrativas.
Há decisão do Tribunal exatamente neste sentido (Acórdão n. 24.047,
de 7-10-2009):
- RECURSO - DIREITOS POLÍTICOS - SUSPENSÃO EM
RAZÃO DE CONDENAÇÃO CRIMINAL TRANSITADA EM
JULGADO - INCISO III DO ARTIGO 15 DA CONSTITUIÇÃO
FEDERAL - CUMPRIMENTO DA PENA RESTRITIVA DE
DIREITOS - PARCELAMENTO DA MULTA - MANUTENÇÃO DA
SUSPENSÃO DOS DIREITOS POLÍTICOS ENQUANTO ELA
NÃO FOR INTEGRALMENTE QUITADA - RECURSO
DESPROVIDO.

Essa decisão, que foi unânime, externa, com simplicidade, a ideia de que
o parcelamento de multa criminal não gera o restabelecimento dos direitos políticos do
condenado por crime eleitoral.
Os casos apontados apresentam similitude fática com este que ora se
examina, vez que os julgados decorreram de situações, ora referentes a registro de candidatura
em que o candidato, ao postular sua filiação partidária, estava com os direitos políticos
suspensos, ora relativas a situações em que o candidato parcelou multa derivada de condenação
criminal.
Em ambas as hipóteses, o candidato, por estar com os direitos políticos
suspensos, não preenche as condições de elegibilidade estampadas na Constituição Federal.
Assim, em face da divergência jurisprudencial comprovada, o
presente recurso deve ser conhecido e provido, determinando a reforma da decisão
objurgada, que deferiu o requerimento de registro de candidatura em tela.

39
IX – Pedido.

O Acórdão nº060094076-A abraçou o pensamento defendido pelo


Juiz Federal Daniel Santos Rocha Sobral, que divergindo das razões do relator, concluiu
pelo deferimento da candidatura do recorrido, dizendo que “a parte – como dito – quitou
integralmente o débito, soterrando de vez a questão da ausência de condição de
elegibilidade para efeito de registro de candidatura”.
Sucede que a fundamentação do voto divergente não é respaldada na
Constituição, na lei, na jurisprudência nem na doutrina. Daí que a questão debatida nos
autos, atinente à condição de elegibilidade (pleno exercício dos direitos políticos e filiação
partidária), deve ser desenterrada e colocada em lugar de destaque para que a ela se aplique o
direito pertinente, resultando, por conseguinte, no indeferimento do pedido de registro de
candidatura do recorrido.
Diante do exposto, requer o Ministério Público Eleitoral:
a) a intimação do recorrido para, querendo, apresentar contrarrazões
ao recurso;
b) o conhecimento e provimento do presente recurso para reformar o
Acórdão nº060094076-A, de modo que seja indeferido o requerimento de registro de
candidatura de Odival José de Andrade.

Teresina, 05 de outubro de 2018

Patrício Noé da Fonseca


Procurador Regional Eleitoral

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