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MESTRES DA VIDA...

...DOADORES DA
SABEDORIA

1

Dedicatória

Este livro é dedicado a pessoas do bem...
À
Alessandra
Monteiro
Duarte,
minha
terapeuta, por apresentar-me ao GAIA.
À Sônia Maria Vicentini Fernandes, por abrir
acolhedoramente as portas do GAIA para
implantação de meu projeto voluntário.
Aos
idosos,
por
me
introduzirem
afetuosamente em um universo admirável, repleto
de princípios e amor, guiando minhas reflexões
além das histórias.
Ao meu filho e meu marido, por vibrarem com
minhas descobertas e incentivarem meus planos,
mesmo quando parecia que não seria possível
terminar.
À Deus, por me dar a doença como forma de
valorizar a saúde!

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Nãna Damino
MESTRES DA VIDA...
...DOADORES DA SABEDORIA.

(1ª edição)
2015

Histórias narradas por idosos, recontadas,
recriadas, reescritas e organizadas por Nãna
Damino

Projeto “Conta que eu Conto”

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4 .

br Fabrizio Bechelli – Assessor Ana Carolina Conrado – Digitadora Jonas Ribeiro – Fotógrafo Familiares do grupo de Idosos 5 .com.Agradecimentos Equipe dos bastidores e demais voluntários do GAIA Carlos Prudente – Fotógrafo e Cinegrafista – www.selvaemfoco.

Como escritora de histórias infantis. doadores da sabedoria. Ser idoso não é sinônimo de inservível. eles apenas desejavam atenção. respeito e valorização. como um radar natural de idosos.APRESENTAÇÃO O número de pessoas com idade igual ou superior a sessenta anos cresce espantosamente no Brasil e o fenômeno envelhecer é impressionante. pois sentia que não precisavam de coisas materiais nem de ouvir histórias como as crianças. me 6 . pois a esperança de vida é cada vez maior. comecei a notar o quanto tinha a aprender com eles se estivesse disponível para ouvir e dar atenção. se soubermos aproveitar. Tomava para mim o sofrimento que era deles. certamente que aprenderemos grandes ensinamentos e teremos ótimas oportunidades com aqueles que considero os Mestres da Vida. Então. mas sim é o resultado do acúmulo de experiências que. Vivendo um momento pessoal conturbado. assim como presenciando a doença em idosos muito queridos. incapaz. notei o quanto o fato de um idoso não ser ouvido nem valorizado me incomodavam. fonte inesgotável de inspiração para inumeráveis contos infantis. a afinidade e empatia com esses seres humanos maravilhosos crescia de forma natural e extremamente satisfatória. Desde criança sempre tive afeição pelos idosos e percebi que ao longo de minha existência. descartável ou em desuso. comecei a olhar para esse universo e perceber o quanto nosso mundo precisa resgatar valores que ficaram no passado e nada melhor do que resgatá-los em boas prosas com os idosos.

pois era um universo que nunca tinha visitado. Foi assim que conheci o GAIA.indignava com a atenção e carinho não dispensados pelos familiares e ficava perplexa com a forma como a sociedade destratava alguns desses seres magníficos como alguém que estivesse na fila de espera para a morte. a sede na busca de maiores detalhes tomou conta de meus pensamentos. instituição que acolhe. internalizando os valores e atitudes doados pelos 7 . Minha convivência com um grupo de mais de cento e cinquenta idosos. valorizar e amá-los como realmente são foi o maior presente que recebi em toda minha vida. de várias classes sociais e faixas etárias começou a tomar conta de minha perspicácia e reflexão. carinho e uma bagagem intelectual jamais imaginada. A valorização de suas histórias com o simples gesto de ouvir. amor. sorriso. saudosismo. valoriza e trata os idosos como eles realmente merecem e precisam ser tratados: com dignidade e respeito. que tivessem experiência de vida. oportunidade ímpar e fonte de inspiração para contos infantis. Resolvi conversar comigo mesma e com Deus e numa caminhada em um lugar paradisíaco. Estava certa de que suas histórias seriam como sementes a germinar para que as futuras gerações transformem o mundo de amanhã em algo mais justo e melhor. cuida. tornando-se um combustível na busca do conhecimento. vontade de viver mais e melhor. ensinamentos e todo conteúdo que nunca tiveram a oportunidade de contar. A cada história coletada. num ímpeto de abraçar tudo o que aparecesse. acolher. pois ganhei vida. fui abençoada com a inspiração em elaborar um projeto onde pudesse coletar histórias de pessoas idosas.

Assimilei entre lágrimas. mas podemos e devemos sim. paciência e atenção. certamente que a transformação já estará implementada desde 8 . implementar não só aquilo que está escrito. mas é poder sentir-se valorizado quando têm a oportunidade de compartilhar experiências de vida e conhecimento adquirido ao longo dos anos. Idoso é muito mais do que bagagem. criatividade e vigor de forma a favorecer sua inclusão social. todas as crianças. empolgação e muita lição de vida que o tempo urge com necessidade de desmistificar os falsos parâmetros sobre a velhice no Brasil. pois realizaram o mundo e a humanidade. precisam ser tratados com tolerância. legais. alterando a vivência do ser humano em nosso planeta. Ouvir é uma forma de retribuir carinho àqueles que tanto devemos. tratando-os como gostaríamos de ser tratados em nossa velhice.idosos. econômicos e étnicos para repensar as atitudes e definitivamente fazer com que a população brasileira mude sua postura junto a eles. valorizando e respeitando-os. reconhecendo suas potencialidades. sociais. experiência. é sabedoria. prudência. O quadro brasileiro é vexatório e o idoso precisa de um estatuto para conseguir viver com o mínimo de decência. biológicos. jovens e adultos serão idosos e se nos colocarmos desde já nesse papel. risadas. conhecendo melhor seus aspectos culturais. nos relacionando em família ou em sociedade de forma positiva com os idosos. promovendo sua existência de forma extremamente positiva. Um dia. O bem-estar do idoso não é só o conforto e cuidados com a saúde.

mas também sua continuidade. criar empatia e decididamente cumprir com sua obrigação junto a qualquer idoso com o qual se relacione. Espero que esta obra. ressignificando o mundo de amanhã. sentimentos e que através da valorização pelo registro da memória do idosos. através das várias histórias coletadas e recontadas. em qualquer ambiente e circunstância. Anseio que o conteúdo coletado nesta obra seja precursor de novos comportamentos. repensar. auxilie o leitor a refletir. garantindo não só a identidade cultural.então. passando a ser um exercício que será incutido naturalmente. pelos ensinamentos dos Mestres da Vida. atitudes. haja transmissão de conhecimentos e habilidades aos mais jovens. 9 .

mas assim como os gatos. percebi que tinha mais vida do que poderia imaginar. Lenda. ao longo dos anos de minha vida. só a dos gatos. Minha mãe. pode ser. Nascida em Dores do Turvo. decidiu arriscar. mas antes de partir. acredito que esteja calcada na fé e na esperança. só chás.SUPERAÇÃO OU MILAGRE? Difícil explicar o porquê. minha mãe resolveu descansar um pouco antes de me levar a Rio Doce e enquanto dormia. Procurem a dona Zinha que ela vai “rasgar” o tumor com o grampo de uma pituca (prendedor de coque em “V”. cansada de sofrer. usado para torcer o coque). interior de Minas Gerais. mas minha história. já cheguei ao mundo fraca e com um tumor no peito. então chegou um curandeiro e disse: — Levem essa menina para a cidade de Rio Doce. Sem saber o que fazer. nem tratamentos. do tamanho da palma da mão de minha mãe. emplastro e muita oração. Só assim conseguirá limpar o que vazou do tumor! 10 . Então. Não haviam médicos naquela época. Minha situação era morre ou não morre. meu tumor vazou inteiro. mamãe seguiu a opinião popular e desistiu de me levar à outra cidade: — Lave a menina com água e creolina. A formiga me picou e o tumor sangrou. deixando tudo em volta sujo. meu avô pegou uma formiga cabeçuda e colocou no tumor do meu peito.

além de me aplicar um remédio no braço. Se eu tomei? Não sei. Quando acordei. mais do que rápido desmaiei. Minha mãe. Vendo que eu sobrevivi.Sem pestanejar. levaram-me ao farmacêutico. um tumor resolveu instalarse em meu seio. Queria me esquentar e acabei cochilando no chão. Inacreditavelmente sobrevivi mais uma vez. por acreditarem que era câncer. o tumor tinha estourado sozinho na toalha de fralda. pegou café coado e colocou uma gota em minha boca para me reanimar. porém. mamãe rapidamente banhoume com água e creolina e eu. para que o tumor não ficasse exposto. vazando por todo lado. recém-nascida. Minha avó desesperada. porém agora no outro seio. morria de vergonha de mostrar meu seio ao farmacêutico. mas o café estava muito quente e queimou meus lábios. o que afastou muita gente. que era misturado ao meu próprio sangue. sentei-me no chão perto do fogo a lenha que aquecia a casa onde morava. o “estoque de vidas” parecia ser grande e com vinte anos o tumor voltou. me levou para fazer curativos na farmácia e como eu já era mocinha. Pode imaginar? Num dia de muito frio. Esta foi a primeira vez em que fui a um médico que resolveu fazer uma transfusão de sangue. Sozinha e com muita dor. Apesar da esquisitice. curou! 11 . mas o tumor estava curado! Com seis meses de vida. que receitou três vidros de Emulsão Scott (medicamento para desnutrição). assustada. peguei Coqueluche e fui mais uma das raras sobreviventes da terrível doença que assolava naquela época. Aos dezoito anos. me ensinaram a colocar emplastro e uma toalha de fralda por cima.

claro que superei mais 12 . sendo que seis deles nasceram em casa pelas mãos de uma parteira e o último foi gerado atravessado na barriga. Esse movimento me rasgou por dentro e a falta de recursos fez com que os médicos me mandassem para casa. firme e forte. como sou eu quem conta esta história. o parto ligeiro necessitou que virassem a cabeça de meu filho enquanto ainda estava dentro do meu útero. não haviam chances para mim nem para meu filho que teve que ser puxado a fórceps. que já dura sessenta e dois anos. Minha pressão subiu demais e a única alternativa foi receber uma injeção direto no coração. só “gastei” cinco vidas até agora! Aos sessenta e cinco anos precisei operar o esôfago e trocar sua válvula. Novamente voltei ao hospital e meu filho teve que ser cuidado pela madrinha. A festa na fazenda foi maravilhosa e acredito que comemoramos mais do que um casamento: celebramos a vida! Durante meu maravilhoso casamento. preciso tomar fôlego para continuar esta história”! Parto difícil. o que me levou a ter pressão muito alta e ter que ser levada pela primeira vez em minha vida a um Hospital! “Nossa. mas. A cirurgia no abdômen foi muito arriscada e quando terminou. Como se não bastasse e como se fosse mais uma tentativa de testar minha vontade de permanecer neste mundo. então. onde tive muita dor e febre. consegui me casar aos vinte e três anos. tive meus sete filhos. fizeram um teste riscando meu braço com uma caneta e viram que eu estava lá.Como uma verdadeira sobrevivente. O leitor acha que agora tudo terminou? Claro que não. os médicos não sabiam se eu estava viva.

uma. capaz de produzir esperança. como ela viveu nos momentos da paixão de Cristo. nem mesmo dez cirurgias tiram minha vontade de viver. mas se adquire quando possuímos uma fé ativa e proveitosa. Acredito que a confiança e a paciência são como uma força que não se prescreve. minha alegria. Sra. meu sorriso e minha fé! Superação ou milagre? Prefiro crer que eu. Os médicos contaram que durante cinco horas. Apesar de ficar cinquenta e oito dias internada. Ainda na mesma época precisei operar a vesícula. ficaram com meu coração nas mãos para limpar os coágulos. também tenha vivido minhas dores. Ainda aos setenta e oito anos precisei fazer uma cirurgia do coração. Annita Martins Cabral – 85 anos 13 . padroeira que deu nome à cidade em que nasci. assim como Nossa Senhora das Dores.

— Olha bem o que vai fazer e não adianta fazer às escondidas. Apenas uma olhadinha. deixando claro que toda boca de moça fica diferente após o primeiro beijo. 14 . Veio em minha direção e meu coração começou a disparar. Meus pais me ensinaram. Aos dezoito anos minha irmã fui visitar e na frente de sua casa. como pude me enganar. sua boca vai te entregar! – Alertava vovó. Arrancou-me um beijo roubado. Nem mesmo eu sei. senão vai engravidar! – Ensinava mamãe para me amedrontar. Eu contemplava. não fazia mal a ninguém! Tomava cuidado. — Menina. eles também. os garotos estava a admirar. Moça que beijou antes de casamento. para não ficar mal falada. ele caminhou a me fitar. vê se te cuida e nunca há de beijar.É PROIBIDO BEIJAR! Vou contar uma história. que era proibido beijar! — Beijar só depois do casamento! –Falava papai para me intimidar. Era moça e desimpedida e só sabia respeitar. Saindo do tiro de guerra. que eu correspondi sem pensar. difícil de acreditar. nenhum marido arranjava. Estava eu bem na porta e vi um moço bonito passar. Se um dia você beijar.

esperando a transformação indesejada. Quanta lembrança saudosa. Depois de dias em pranto. Olhar meus lábios no espelho. Antônia. Depois de tanto tempo. Porque não pensei nisso tudo. deduzi que tudo era mentira. Mas a barriga há de crescer e eu ficarei mal falada. meu corpo estremeceu. Fiquei horas ali observando. nada aconteceu. Esperando a mudança que vovó dizia e que certamente não seria pouca.Assim que ele foi embora. fui para dentro desesperada. da melhor época que já existira! Sra. cada pedacinho da boca. na hora do beijo correspondido? Agora era tarde demais e meu mundo já estava perdido. dos Santos Oliveira – 67 anos 15 . Posso ter sido privilegiada e minha boca não ter sido alterada. Mas lembrando do que mamãe dizia.

que tinham tomado no braço. por anos e anos a fio. Muito mais poderosas do que muitos vilões! Lá pelos meus dez anos. na hora do recreio e disse que minha mãe tinha pedido para que fosse embora naquele horário. quase invisíveis e imperceptíveis. mas algumas coisas e determinadas atitudes continuam as mesmas. tudo se moderniza.TODA MÃE É “VACINADA”! Penso eu que criança é tudo igual em qualquer época! Passam-se os anos. qualquer posto de saúde e qualquer clima. elas. rasga olhos arregalados e congela pequeninos corpos infantis. quando estudava no Colégio Nossa Senhora Aparecida. conseguia enxergar. pois precisava ir ao médico. qualquer país. possuem uma “força” que “alaga rostos”. Aterrorizante! Como se meus olhos fossem responsáveis pela velocidade de meus pensamentos e decisões. rapidamente cheguei perto de uma das freiras. Em qualquer cidade. cheguei à escola e percebi que era dia de tomar vacina. o sanguinho saindo do furinho da vacina. — Porque não avisou mais cedo? – Perguntou a freira. Sim. achando tudo meio esquisito. que apesar de minúsculas. nada muda se o assunto for Vacina!! Principalmente com a presença das apavorantes agulhas. qualquer escola. 16 . cria asas nas pernas. a qualquer ângulo e em qualquer distância. Olhei para aquelas meninas com a manga da blusa arregaçada e bionicamente.

– Não adianta mais me levar ao colégio mãe. que um passo dela eram três dos meus. voava! Acho que de tanta raiva! No caminho de volta à escola. puerilmente olhei para mamãe e ainda tentando sair por cima da situação.. pegou minha mão e me levou de volta para o colégio. Só sei que fui! Chegando em casa esbaforida. mas. — Porque está chegando da escola a essa hora? — Não estou me sentindo bem mãe. eu esqueci! Ela me olhou desconfiada. Acabei contando sobre o episódio da vacina. acrescentei.— É porquê. tranquilamente de mãos dadas com minha mãe. que mais parecia uma tortura. pois não me deixei ser vista por ela na escola! Aliviada por ter me livrado da vacina. mãe é mãe e não se engana facilmente! Ela. Não andava. Caminhava tão rápido. mas. sem piscar e nem dar uma palavra. pois o horário da vacinação já terminou! Decidida e tipicamente mãe “vacinada”. Apesar de ser comportada. pois sabia que aquela “torturadora” de criancinhas não me conhecia. por isso pedi para sair mais cedo. claro. Rápida como um leopardo. desta vez. minha mãe me olhou assustada. o pensamento foi mais rápido do que meus olhos e não titubeei. a uma certa altura. como sempre fui bem-comportada. ignorou meu comentário e me levou de volta ao 17 . avistei a “moça da vacina”. não teve dúvidas. deixou que saísse. Tratei de dar no pé! Corri para casa sem olhar nem para os lados. não engoliu minha história e me interrogou tanto.. passei direto por ela.

Vitoriosa de minha travessura. Mas. só que no período vespertino. melhor ter terminado assim. Como fazia um curso de alemão no próprio colégio. “elas” estavam lá naquele fatídico dia. Com ar de satisfação. Ainda querem saber. esqueci o assunto e continuei minha costumeira rotina. uma freira com um sorrisinho de canto de lábio foi me buscar no meio da aula de alemão. fui inocentemente para a aula naquela tarde. que discorreu um “rosário” inteirinho em cima de mim. mas. qual não foi minha surpresa ao deparar-me com a torturadora “moça da vacina” e suas horripilantes agulhas! Sim. escolhido pela Madre Superiora para a vacinação das crianças do período da tarde! Caminhando leve como uma bailarina. como bronca não dói como furinho de vacina. entregou-me à Madre Superiora.colégio mesmo assim. como terminou essa história? Sra. Bertha Gomes Ribeiro – 76 anos 18 .

passa perto de grandes petroleiros que vão pelo mundo. médio ou de pequeno porte.O BARQUINHO DE SIMÃO1 Um dia li uma história que assim como me lembro. quantos foram os que tentavam em vão. E segue lado a lado de navios de grande. gostaria de compartilhar. Cícera Maria do Amaral – 63 anos 1Autor desconhecido 19 . seja em tempo de guerra ou de paz. sem nunca olhar para trás. gostaria que ficasse a pensar! Sra.. Depara com grandes barcos pesqueiros e também com navios de turistas. outras vezes em mar bravo e por ser tão frágil e pequeno. remando pelo grande mar remanso. “O pequeno barquinho de Simão. o seu bem tosco barquinho afundar. a perder de vista. segue em frente o barquinho de Simão.. sobre si e sua vida. só remar era seu grande desafio. manso e altaneiro. mas enfrenta todos os desafios sem temer o furor do vento forte. Agora que leu toda história. Ele vai navegando em mar sereno. remando mundo afora sem parar. Enfrentando os navios poderosos. Mas vai seguindo sempre calmo. com Francisco e Jesus na direção”.. remando pelos mares tenebrosos.

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conseguir ter seu próprio sitio Saborear frutas colhidas do pé A luta para ser alguém Tentar a vida em São Paulo Enfrentar muitas dificuldades Ainda assim. mas com fé e confiança.RECEITA DE VIDA Tenho uma receita. sonhar e acreditar Arrumar um emprego de doméstica 21 . que leva anos para elaborar. “INGREDIENTES”: Ter nascido colono em uma fazenda Viver do trabalho braçal na lavoura Pescar lambarizinhos com peneiras. sentir saudades da roça Estudar quatro anos em uma escola de tábuas Lembrar de quando pulava de pedra em pedra lá na Fazenda Almejar em concluir o ginásio Persistir. em águas cristalinas Um pai trabalhador acidentado sob uma tora Um milagre salvando a vida de meu pai Possuir muitos irmãos Brincar de escorregar na barranca. ao final há de valorizar. em folhas de bananeiras Uma vida de muitas dificuldades Sobreviver graças a ajuda de amigos colonos Apartar as vacas junto com minha irmã Mesmo após tanto sofrimento.

Sentir o cheiro dos gravetos de lenha que colhia no sítio Ir e voltar a pé do trabalho para poder comprar livros Conseguir concluir o ginásio graças a meu esforço Progredir de emprego. que assim como eu. esperança e força de vontade em seu coração. iniciando novo ciclo de vida profissional Aproveitar todas as oportunidades de uma vida Ter fé e Deus ao meu lado me conduzindo Marejar os olhos de saudades ao lembrar de quando enchia barris de água Casar e ter uma família maravilhosa Me aposentar em uma grande empresa Poder ser abençoada por minhas memórias Ter a oportunidade de compartilhar minha história. Feche os olhos e tente se imaginar em meu lugar. Agora olhe para sua própria vida hoje. Coloque objetivos. Sinta cada momento como se fosse seu. esperança e força de vontade em seu coração. Persiga meus caminhos sem esmorecer. você há de vencer! Sra. Coloque objetivos. Darcy Gorete Caixeta Ferreira – 61 anos 22 . Feche os olhos e tente imaginar se ela poderia ser melhor. Tenha Deus como seu guia e prossiga. Persiga seus caminhos sem esmorecer. Aguarde uns minutos para refletir. Pondere o que falta para chegar onde deseja. Siga cada passo em sua ordem.

Capinópolis. Em sua terra fértil. comendo frutas do pé e colhendo verduras e legumes na horta. pois grande parte vivi lá. que era mais alto do que o terreno da casa. dentro do meu quintal! Na parte da frente da antiga e gigante casa onde morava. arrendavam em sociedade com os donos da época. perto da bica que fazia o monjolo funcionar. havia um pasto. correndo pelos campos. por isso. cidade da zona rural do triângulo mineiro. teve vários achados de vestígios de civilizações antigas pré-históricas e também abrigou um quilombo da época da escravidão. que um dia também foi chamado de Distrito Arraial do Capim. assim como meus pais. aproveitaram para dar nome à cidade. Lembrar da minha maravilhosa infância é magnífico. Abaixo do pasto havia um arrozal e na época de colheita. tiravam toda 23 . Esse capim era proveniente da região e servia para a alimentação dos animais. raramente se passava fome e quem não podia comprar uma terra.INFÂNCIA DE VERDADE Quando nasci no ano de um mil. e éramos chamados de meeiros. devido a uma coroa de capim Jaraguá existente no local. que um dia já foi habitada por índios caiapós. ainda era um povoado. novecentos e quarenta e seis.

TV. O único brinquedo que não era feito com frutas eram as bonecas. frutas compradas na feira ou no supermercado. usando frutas verdes como mangas. Um macio e aconchegante “mergulho” seco! Era muito bom! Nossos brinquedos eram sempre os mesmos. era a vida com seu real significado. não importa qual idade tínhamos e eram feitos por meu irmão. divertida e que certamente permitiu registrar em minhas memórias. Eletrônicos. Diva Imídia Dutra . nada disso existia. o que resultava numa montanha de palhas onde eu e minha irmã caíamos de cima do pasto. colorida. singela.67 anos 24 . brincar dentro de casa. pura. bananas e laranjas. não comer verduras e legumes? Não. infância de verdade. animais domésticos. playground. acúmulos de momentos felizes que os jovens de hoje não viverão jamais! Sra. algumas vezes feitas de pano e outras muitas com espiga de milho.palha do arroz batendo seus cachos.

Tempo em que as atitudes e as oportunidades eram muito diferentes e os jovens mais respeitadores do outro e de si mesmos. Não há comparação! Lembro-me alegremente de deliciosos momentos em que viajava com meus patrões.DIVINA VIDA O olhar para o jovem de hoje enche meu peito de saudade da mocidade dos velhos tempos. principalmente por ser a era e o local de grandes cassinos. o quarto de dormir das criadas virou lugar de despejo e até lei existe para proteger aquelas que se dedicam aos cuidados de uma família. Nossa. Muitos famosos seguiam até lá e a cidade também foi palco de muita lua de mel. principalmente em poder usufruir de águas raras. Ainda mocinha. Eu achava um luxo. Minha profissão dos velhos tempos aos poucos foi tomando outra forma. sulfurosas e termais que curavam muita gente. Nova York? Itália? Disney? Não! Passeava em Poços de Caldas. 25 . onde alguns serviços foram substituídos por máquinas. Acredito que criamos e buscamos nossas próprias oportunidades e o respeito é fruto do amor incondicional recíproco. sentia-me privilegiada em minha posição. tive patrões maravilhosos que foram muito bons comigo e certamente minha gratidão foi presente por tanto apreço. trabalhava em uma casa de família e dormia em meu emprego. Para minha sorte.

É por isso que me orgulho de minha história. trocadas pelo calor do romantismo. onde a magia estava na natureza e não no consumismo. Namorar naquela época? Eu? Claro que namorei! Apesar de muito pouco. O surgimento dos antibióticos na década de quarenta deixou a eficácia do termalismo para trás e hoje Poços. o namoro à moda antiga tinha alguns palcos: o banco da praça. em serenatas e no flerte e o de hoje. é divina! Sra. A cumplicidade era embrulhada em bilhetes e os beijos e abraços eram tomados como num “assalto”. Divina Emídio de Oliveira – 76 anos 26 . apesar de muito valor para a saúde foi dando espaço a novos destinos. Claro que nós mulheres dizíamos ter sido “extorsão”! O amor de ontem é traduzido em Contos de Fadas. em teclas e teclados. mais materialistas.Poços. já não brilha mais. o sofá de casa e o parapeito da janela! Atualmente pode ser visto como sem sal. que assim como meu nome. Já não existem contos e muito menos fadas e a afeição não se oferece de mãos dadas. Nada é como antigamente. menos saudosistas e com deslumbres pirotécnicos. mas só quem passou por isso sabe que não há momento igual! Namorava pela janela com economia de palavras. O sentimento era tão verdadeiro e a empolgação era tão mágica que nos “amassávamos” pelo olhar e nos “entregávamos” pelo sorriso.

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mas muito linda mesmo. Mamãe trabalhava em uma casa de família e era responsável por todo tipo de serviço da casa. naquele momento não mais proibido.FRUTO PROIBIDO A maçã é uma árvore cultivada há milhares de anos pelo homem e sua plantação se alastrou por todo o mundo. certo? Teoricamente sim. vai embora para casa porque eu vou demorar hoje— me avisou mamãe. sem tirar os olhos. linda. mas como 28 . com certeza é a mais acessível para se comer. lindas e pareciam me hipnotizar. também aproveitava para apreciar tudo o que eu não podia ter. peguei aquela maçã e fui para casa segurando ela nas mãos. Naquela época era muito difícil ver e comprar uma maçã. mas minha primeira experiência com maçã aos oito anos de idade mostrou o contrário. Estava louca para comer aquele fruto. mas na casa que minha mãe trabalhava elas ficavam sobrepostas em uma fruteira. Senti amargamente tratar-se de um fruto realmente proibido. De vez em quando me levava ao seu trabalho e além de lhe fazer companhia. Sendo uma das frutas mais vendidas e fáceis de se encontrar. Vagamente me recordo em ter engraxado os sapatos do patrão de mamãe em um dia que fui com ela ao trabalho e como forma de gratidão. pelo menos para mim naquela época. Como morávamos perto. — Filha. ganhei uma maçã vermelha.

mas que me custou muitas lágrimas e também a lembrança de um desejo não alcançado. entendi que não deveria pegá-la e o fruto tornou-se para mim novamente proibido. mas essa situação marcou muito minha vida. Seguramente que ninguém sentirá o sabor da maçã como sinto hoje. pois nunca havia ganho nem comido uma maçã em toda minha vida. Fui embora para casa soluçando. decidi que dividiria com eles assim que chegasse em casa. Pelo caminho precisava passar sobre uma ponte que ficava em cima de um pequeno córrego. não dá para você pegar essa maçã pois este é um córrego de esgoto. sentei e vi que a maçã estava no mesmo lugar. Para alguns um fruto tão barato. —Porque você está chorando Edna? — Olha lá minha maçã! — Edna. tamanho desejo tinha em comer uma singela maçã naquela época. No dia seguinte voltei à ponte. Sem saber o que me aconteceu. uma simples fruta. Me questionava: porque não peguei ela? A maçã continuava no córrego e ninguém mexeu! Embora a vontade fosse maior do que a coragem. Para muitos. Uma vizinha da minha família passava pela ponte e me viu sentada. Fiquei um bom tempo ali sentada. muito triste mesmo. acredito que tropecei e vi que a maçã caíra dentro do riozinho. com as pernas penduradas e chorei copiosamente. Circunstância triste e reflexiva que ficou guardada na memória por quase sessenta anos.tinha mais dois irmãos. Sentei na ponte. só olhando a fruta afundar e chorando sem parar um minuto sequer. na certeza de que o valor que se dá às coisas depende não só do tipo de vida que tivemos. mas do foco que damos para aquilo que julgamos 29 .

Edina Alves de Souza – 68 anos 30 .valoroso. que levará aos diferentes significados para a coisas da vida. Sra.

deixando qualquer adolescente como eu hipnotizada e como milhares de jovens. o famoso cantor que dançava de forma extravagante e ousada. totalmente influenciada positivamente pela febre do rock. 31 . mas. principalmente para pessoas de descendência humilde. considerava traumático não ter determinação e não se permitir acreditar ser possível realizar os mais imaginários e incríveis sonhos! Por volta dos anos sessenta houve a explosão do “rock and roll” e com esse maravilhoso movimento nascia um rei: Elvis Presley. Lembro-me que naquela época. além de contar piadas e dar muitas risadas. que assim como eu. fazíamos parte de umas reuniões que aconteciam a maioria dos sábados e que chamávamos de “Os embalos de sábado à noite”. junto com meus irmãos e uma turma de amigos.QUARTETO DE VÊNUS Há quem diga que a adolescência é um período traumático. Que saudosa oportunidade para.

meu amor Que quem mais te amou fui eu Sempre foi o teu calor Que minha alma aqueceu E num sonho para dois Viveremos a cantar A Can-tar o amor. Cantávamos as músicas de sucesso daquela época e dentre elas. treinava dançar rock durante toda semana com meu irmão pois queríamos dar um show no sábado. como se estivéssemos em outro mundo.dançar livremente e também paquerar pela troca de olhares aqueles garotos que chamávamos de “pão”! Antes de cada baile. em homenagem ao planeta. mas onde os verdadeiros “astros” éramos nós e a magia era viver intensamente. de Carlos Gonzaga. Diana Nos teus braços sem querer Quase sempre vou parar Não consigo te esquecer Oh! Diana vem sonhar E eu te quero. a que mais me lembro era Diana. meu amor 32 . já estávamos “brincando de cantar” e formamos o grupo Quarteto de Vênus. “Não te esqueças. Essa febre do rock com as músicas incríveis de Elvis foram tomando conta da minha vida e da vida de mais três amigas e quando menos esperávamos.

oh! Oh! Vem amor Por favor. lá estava um rapaz que me paquerava. oh! Oh! Vem pra mim Vem vi-ver pra mim. quanta saudade dos bons e melhores tempos de uma vida. Ah. muitos outros bons momentos vieram e se Elvis.Vem trazer-me o teu calor Vem vi-ver pra mim. que cresceu em meio a destroços de um furacão e mesmo tendo sido lanterninha de cinema e motorista de caminhão. Mas. e eu te espero E eu te quero com paixão Oh! Oh! Oh! Oh! Oh! Oh! Oh! Oh! Oh! Oh! Only you pode fazer-me feliz Only you é tudo aquilo que eu quis Para mim tu és a felicidade E sem ti eu morrer de saudade Vem amor. Diana”. Diana Pra mim. conseguiu se tornar o próprio “furacão do rock”. do Quarteto de Vênus não poderíamos cantar no Programa de Calouros mais prestigiado pela juventude da época. porque nós. eu era a voz principal. Começamos a cantar e quando olho para as pessoas sentadas na primeira fila. apesar da vergonha. minha vida Vem depressa eu. como cantávamos essa música. Diana Vem querida. Diana Pra mim. no Teatro Paulo Eiró? Teatro lotado. Ele ficava de 33 . Lá fomos nós participar do programa com a adrenalina típica da juventude mais feliz que já existiu.

saboreando momentos mágicos e memoráveis que mesmo com o avançar da idade. Nossa. Sra. A carreira de cantora não foi adiante. mas o namoro sim! Casamos em maio do ano de um mil. mas vivi intensamente.pé cantando e puxava as palmas com todo entusiasmo. Não me tornei nenhuma sensação como Elvis. novecentos e sessenta e cinco. Edméia Mariano de Araújo – 68 anos 34 . felizmente não esquecerei jamais. e eu me senti a própria Diana da música que muitas vezes cantei. que sensação inesquecível.

Elza era muito dedicada não só ao matrimônio.ERA UMA VEZ. eis que uma de suas irmãs bate à 35 . José sempre foi um pai extremamente presente e carinhoso. assim como exigia que pedissem a benção aos mais velhos. com quem se casou algum tempo depois e como sempre foi moça afetuosa. em que pese não dispensar que seus filhos respeitassem as pessoas. Era uma vez José e Maria. mas também à família e ao trabalho e graças aos exemplos amorosos que recebeu durante sua criação. beijando-os na mão.. Exausta. cuidou de suas obrigações caseiras e se recolheu a seus aposentos. Elza foi uma criança muito feliz e teve o privilégio em poder brincar muito com seus cinco irmãozinhos. nascida ainda numa época onde a “Rainha Maldade” quase não imperava. até seus vinte e oito anos. não dispensava visitar os pais todos os dias.. a quem deram o nome de Elza. conduta rara em cavalheiros daquela época. sem grandes dissabores. logo que retornava para casa. Logo após deitar-se. um casal apaixonado que viveu há muitos anos no “Reino” de São Paulo. Um dia a linda Elza encontrou seu “Príncipe Encantado”. Certa vez Elza não pôde visitá-los e necessitou ir para casa. decidiu morar próximo de José e Maria para que pudesse vê-los constantemente. E assim Elza degustou sua infância e juventude. Há cinquenta e três anos atrás tiveram uma linda menininha.

36 . impiedoso e golpeou fortemente a garganta de seu “Príncipe”. Acreditando que seu padecimento havia findado.porta de sua casa. maltratando-o sem compaixão. o leitor deve estar se perguntando: e o “Príncipe”? Quem zelou por ele enquanto sua amada adoeceu? E a valente Elza? Quem dedicou cuidados à consorte do casal sem filhos? Apesar de viverem em um contemporâneo “Reino”. Elza trilhava seu novo destino quando de repente se deparou com um terrível “vilão”. E a vida assim prosseguiu no “Reino” de São Paulo . mãe e irmãs. O excomungado era e continua sendo o nefasto mais temido de todos os tempos.. enquanto o casal lutava por recuperar a saúde. cunhada. que invadiu a vida de seu amado. as fantásticas “criaturas” do bem davam conta de tudo e de todos. Sim. agoniando a vida do casal por intermináveis meses. que atendiam pelo chamado de cunhado. Elza ainda travou duelo com uma sórdida cirurgia de coração! Mas.. A jovem ficou desolada e apesar de lamentar não o ter visto naquele dia. cada um separado em seu leito. nele ainda habitavam “fadas e duendes”. Elza colocou rápido suas vestes e não esperava que a irmã lhe anunciasse a morte do pai. “Ele” era mau. heroína pois apesar de muito sofrimento em ver a degradação de seu amado. Sim. da saudade e de calorosas lembranças. entendeu que sua vida deveria prosseguir. que árdua batalha para nossa heroína. apesar de sua dor. Seu nome? “Câncer”! Ah.

não suportou a atrocidade do abominável rei das trevas.Aos poucos e graças à ajuda das fadas. mesmo com o auxílio do duende. graças a amigos sinceros que o “Rei Deus” colocou em sua vida. Corajosa. Elza foi agraciada com a companhia de uma sobrinha e seus quadrigêmeos. a heroína não se deixou abater. Atualmente uma anciã. mas seu “Príncipe”. Elza se recuperou. distribui sorrisos todos os dias. Elza Aparecida do Nascimento Gonçalves – 53 anos 37 . pois compreendeu que sua solidão era preferível a tanto sofrimento experimentado até então por seu adorado.. Vinte e dois bem-aventurados anos foi o tempo que Elza conviveu ao lado de seu companheiro e conseguiu seguir adiante. Sra. Mas nossa narrativa desta fez continuou diferente. A popular ancestral “Tristeza” jamais conseguiu se apoderar da moça que sempre se alimentou de cálices de “Esperança” para abrandar a solidão e a dor em seu coração. a experiente Elza é convicta de que o “Rei Deus” sempre recompensa aquele que não lamenta e como forma de gratidão.. a quem dedica cuidados e preenche sua vida de alegria. E a vida mais uma vez prosseguiu no “Reino “de São Paulo.

chorei e chorei. cheia de lembranças e com muita rima. a boneca de pano. sonho esse que se desmanchou depressa quando minha boneca banhei! Chorei. até que o meu sonho realizei. Mas como toda criança tem muita imaginação. pois sabia que não poderia ganhar outra. Para me alegrar numa infância escassa. principalmente na hora de dormir. amigas e confidentes e nunca saiam de perto de nós. era simples e rudimentar. Ela tinha o rosto achatado. mas vou te contar meu grande sonho. Brinquei com uma bruxinha de pano e cabelo de milho em quem fazia penteados cheios de glamour e muito brilho. brincar com minha boneca de pano velha e rota. deixando a infância de muitas meninas muito mais agradável. me contentei com aquela que preencheu o vazio do meu coração. Queria ter uma boneca de papelão. mas feliz. minha avó me fazia um dos brinquedos mais antigos e populares do mundo. Apesar da simplicidade.BRINCANDO DE BONECA Papai era agricultor e vivíamos daquilo que plantávamos e colhíamos. Aos dezesseis 38 . o que me restaria senão. A brincadeira acabou aos meus quinze anos quando me casei jovem e inocente. pois eram nossas companheiras. Minha boneca de pano era como uma filha. toda boneca de pano tinha seu charme e delicadeza. feita com retalhos de pano das sobras das costuras de minha mãe. então.

ganhei minha primeira “boneca de carne e osso”. de quem pude ser mãe. Eva da Silva Carvalho– 79 anos 39 . mesmo sem ser experiente! Quanta lembrança gostosa de tempos que não voltam jamais e de brincadeiras saudosas que hoje não se brinca mais. Sra.

Levei um tempo para perceber a enganação. Mamãe queria que eu chegasse na hora de começar a aula. pois passar vexame e não conseguir entrar no ginásio da escola pública. aprendi a ver a hora rapidinho.CRIANDO OPORTUNIDADES Logo ao nascer meu tio me apelidou de Quita e a partir daí ninguém sabia meu nome. Confesso que particularmente não gostava de ser chamada assim. ganhava o castigo estudar na escola particular. Relógio digital? Isso não existia! Para entrar no ginásio naquela época era preciso fazer o exame de admissão. esperava ansiosa por uma oportunidade de reverter a situação. Do primeiro ao quarto ano estudei no Grupo Escolar e adorava ir bem cedo para chegar com tempo de jogar queimada antes do início da aula. não aceitei que meu pai fizesse minha matrícula. então. pois todos que conhecia eram chamados pelo nome e somente eu era pelo apelido. no quarto ano do primário fiz um curso particular de preparação. Tudo tão diferente de hoje em dia! Desde pequena fui muito independente e ao passar no exame de admissão. mesmo naquele despertador com algarismos romanos. Apesar de acostumada. providenciei todos os papéis e me matriculei sozinha. mas assim que notei ter algo errado. atrasava o relógio de casa. então. Um grande feito para uma mocinha de antigamente! 40 . assim pensava que estava saindo mais cedo e chegaria na hora que ela queria.

conheci José Luís e os detalhes de nossa história podem ser admirados no conto UM ENCONTRO COMPLICADO. aproveitei todas as oportunidades para estudar. Deu origem ao português. também narrada neste livro.seminarista e se realizava em dar nota zero aos alunos. espanhol. 2 Latim: língua adotada antigamente pela Igreja Católica como oficial.Sempre fui boa aluna e quando estava no primeiro ano do ginásio. antes de iniciar o trabalho era preciso realizar um curso em São Paulo. precisei morar na casa de minha tia. Era um choque!!! A partir daí. aos dezesseis anos minha família mudou-se para Presidente Prudente e assim que cheguei por lá. no bairro do Tucuruvi e entre festas. italiano e francês. Toda vez que alguém tirava zero. ele escrevia Z E R O ocupando a folha de papel almaço inteira. amigos e muitas recordações. meu irmão Luiz Carlos nasceu e ao invés de estudar. Considerada língua morta atualmente 41 . restringindo o apelido apenas aos que já estavam habituados. cursei o científico e a faculdade de geografia e durante o terceiro ano fui aprovada em um concurso para trabalhar no SESI. E por falar em oportunidade. acabei sendo reprovada em latim. ficava cuidando dele como se fosse meu melhor brinquedo. Chegando na terra da garoa. me dediquei mais aos estudos e como não gostava de ficar desocupada. Depois do curso normal. apesar de ter sido reprovada com mais da metade dos meus amigos. a primeira decisão que tomei foi me apresentar a todos que conhecia como Luiza. 2 Lembro que meu professor de latim era um ex . porém. então.

Sra. Francisca Luiza Gimenez Cardieri – 66 anos 42 .

Gersi Sales Giubilato – 74 anos 3 Algumas bonecas nos anos quarenta eram importadas e feitas de pasta de papel marche. Não podiam ser molhadas. Um bonecão! Ah. pois se desfaziam. este que me presenteou com uma tão sonhada e enorme boneca. assim como de todos os homens. além de uma grande brincadeira. que breve deleite! Desejava cuidar de minha boneca como se fosse minha filha e com todo amor e carinho. nasci em Poços de Caldas. havia um grande coração. dentro dele. Quanta desilusão ao descobrir que a boneca era de 3“papelão”. também era uma doce curiosidade. mas meu imenso coração era maior do que minha grande ingenuidade! Sra. Muitas bonecas naquela época eram feitas assim. Apesar de severo. 43 . Meu pai.IMENSO CORAÇÃO Filha do brasileiro Sebastião e da Italiana Santina. andava com uma fina varinha nas mãos que por algumas vezes serviu para dar-me umas varadas. onde vivi meus primeiros cinco anos de vida. senhor severo como nos tempos antigos. tamanha insistência em acompanha-lo para dar aulas de alfabetização às crianças da fazenda onde trabalhava. Para mim. resolvi banhá-la para ficar limpinha.

44 .

o trabalho e o lazer com o objetivo de me tornar uma pessoa forte. Mesmo assim nunca temi enxergar e encarar o por vir e comecei a aprender os afazeres domésticos com minha saudosa avó. Enxergando cada dificuldade como um desafio e jamais vendo-os como um obstáculo. responsável por deixar complicações em minhas córneas. acometida por um forte sarampo. pois desta forma. Apesar das “dificuldades”. consegui concluir até terceiro ano superior. o que atrapalhou substancialmente meus estudos e minhas atividades. Existem momentos marcantes em nossas vidas que nos possibilitam registrar memórias do passado que podem ser vistos como repletos de barreiras. esta que por muitas vezes levou-me a um dos únicos recursos de socorro à saúde que tínhamos naquela época: a farmácia.VER OU ENXERGAR Me vejo há quase cinquenta anos atrás. fui adiante. tive grandes dificuldades de visão. fui capaz 45 . o que me preencheu de maturidade pessoal. ou enxergados como fartos de estímulos. tudo depende da maneira como “enfrentamos” os fatos! Ainda muito menina. saboreando os estudos. Convicta de que meus outros sentidos eram possíveis de suportar aquele que me faltava. aos oito anos de idade. Sinto o calor de meu corpo arder em febre como se fosse hoje. sentada no colo de minha mãe. minha luta jamais seria em vão. profissional e saber humanitário.

de vislumbrar mentalmente que minha vida futura me traria a satisfação do dever cumprido. graças às atitudes e à determinação para a superação. e assim ele se fez. mas sim apalpei e agarrei a luta da vida. certa de que o proveito. Termino minha história agradecendo por ter sabido aproveitar cada sentido das oportunidades que se fizeram presentes na vida. com mãos de uma gigante! Mesmo sem poder ver direito. Graça Maria Lopes de Almeida – 55 anos 46 . que nunca acomodaram minha limitação física. persegui intuitivamente o perfume de meus sonhos. depende exclusivamente da coragem presente em cada um de nós! Sra. certa de que com o passar dos anos não me permiti ouvir a voz do desânimo. sobre os “ombros” de duas pequenas córneas.

Saudades sem fim! Saudades da juventude. Passa o tempo. Helena dos Santos Tofino – 67 anos 47 .. Pois não tinha tempo! No tempo. Alegrias e tristezas. Que não volta jamais! Coisas que deixei de fazer.PASSOS LENTOS Passos lentos.. Que nenhum jovem tem. Sra. cabelos brancos. De viver. passei a correr! Passos lentos. Tudo passa! Só não passa a vontade. Um currículo no passado. cabelos brancos.

nada a ver.“CHICA TATU”! Conhece Cana do Reino? Aposto que está pensando em caldo de cana e tudo o que ela tem de saboroso. passou a se chamar Carvalhópolis. do ponto de vista geográfico. mais do que rápido. Uma cidadezinha com vielas. sei lá o porquê. que no ano de um mil. cujo apelido. adorávamos aborrecer uma senhora. novecentos e sessenta e dois. Muito úteis para pessoas da minha idade. andando devagarzinho com sua bengala perto de minha casa. tudo a ver. junto com as minhas tias Laura e Zina. Cana do Reino era o nome da cidade onde eu morava quando criança. Acredite. nós quatro gritávamos em coro. parques e montanhas. uma substância usada na fabricação de bengalas resistentes. sem a menor cerimônia: 48 . mas. que apesar de minhas tias. cheia de “causos” e curiosidades. Isso mesmo. pois contém silício. sou obrigada a “mexer” seu caldo com uma bengala! Como assim? O que a Cana do Reino tem a ver com bengala? Do ponto de vista da botânica. bem velhinha. Como dizia minha mãe: “criança só lembra do que acha graça”! Eu e minha irmã mais velha Maria Fia. mas. era “Chica Tatu”! Toda vez que víamos a senhorinha. lá na saudosa Minas Gerais. mais ou menos uns três anos de idade. lembro de um acontecimento inesquecível de quando era bem pequena. tinham quase a mesma idade.

. toc. toc. típico de uma idosa bem velhinha. depois que o coração desacelerou. Toc. mais do que rápido e sem precisar de ensaio. colocou a bengala de baixo do braço. gritamos mais uma vez. nós quatro conseguimos nos enfiar debaixo de uma cama de solteiro. berrando: — “Chica tatu é o seu . toda faceira. acelerou o passo e marchou em direção à minha casa. tamanho medo que ficamos da mulher.!!” Não posso dizer o palavrão. com pose de vencedora. — “Chica Tatu”! A senhorinha. desfilando calmamente na viela. Mas. Olhamos uma para a outra dando risada.— “Chica Tatu”! – Bem alto! E isso aconteceu várias e várias e várias vezes. medimos seguramente a distância que nos separava dela e corajosamente uivamos em coro: — “Chica Tatuuuuuuuuuuuuuuu! ” Chica virou. Lá longe estava ela. como para criança tudo é graça. tentando nos acertar. Será que foi a partir daí que começaram a fazer bengala de Cana do Reino? Sra. mirou a bengala como se fosse uma flecha e atirou. Muito brava. desta vez não deixou de graça. saímos de baixo da cama e caminhamos pé ante pé até a rua.. E nós quatro. mas o cajado espatifou no chão. com o rosto todo vermelho. Honória Caixeta de Lima – 73 anos 49 . com seus sapatinhos. mas ela disse e bem alto! Corremos para dentro de casa e não sei como. Lá vinha ela de novo. devagarzinho.

50 .

onde o diálogo entre os personagens principais de minha vida. raça ou condição social. eram ocos e cheios de brecha. hora drama. outras cenas de terror e várias de suspense. em qualquer idade. Diariamente vivíamos “cenas” de muita ação. O documentário da vida de uma pessoa comum como eu não tem subjetividade e retrata a veracidade de uma moça simples.CÂMERA? AÇÃO! Viver é como um filme de vários gêneros. cuja mãe era dona de casa e o pai um motorista de caminhão. que podiam ser entendidos simplesmente pelos gestos corporais repletos de severidade e escassez de palavras. País. uma miscelânea de cenas reais que nos remetem a protagonizar com versatilidade e maestria dos grandes e talentosos atores de cinema. Posso dizer que durante sessenta e oito “filmes” já experimentei muitas cenas de diversos estilos. cada uma se sobrepondo às outras e tornando-me experiente para tantas que vieram e ainda estão por vir. época. guerra. sendo ela. Claro que não há como categorizar a vida. tantos outros de pura aventura. meu pai e minha mãe. Diálogos curtos como: 51 . fizeram muito sacrifício para proporcionar bons estudos aos filhos. vivendo sem dúvida muitas “cenas” de aventura para conseguir oferecer-nos a suposta ficção do estudo em uma escola particular de bom nível. Como todo bom brasileiro. alguns instantes de romance.

mas também pela intervenção dos personagens do mundo fantástico. como em todo bom filme. propiciando cenas de suspense onde predominava o sentimento de constante apreensão. outros personagens surgiram ao longo desse filme. o que para uma família como a minha. e pronto! – Era o pouco que ecoava entre nós.— Você tem que obedecer. Infelizmente por muitas vezes conseguimos protagonizar mais de vinte dias abrindo mão dos diálogos e investindo exclusivamente na força da imagem corporal. que não só pelo esforço de meus pais. de cena em cena. O desenrolar do filme mostrou episódios onde tudo sucedeu como ele queria. o envolvimento amoroso dos protagonistas não resultou em cenas de pura felicidade. Mas. Apesar do desgaste. podendo surgir cenas de grata fantasia. pois o “mocinho” tinha uma personalidade marcada pela autoridade e falta de diálogo. mas. onde há momentos atrás vivenciava-se a obscuridade do futuro. como um bom longa metragem. A maioria de minhas cenas resumia-se entre minha casa e a escola onde lecionava. mesmo com a forte personalidade dos personagens. na 52 . pude formar-me professora. mas a vida real. tornou-se meu marido. os cenários mudam drasticamente. lembrei-me muitas vezes que não era um filme. inesperadamente conheci aquele personagem que até então não aparecia em cena e que mais tarde. alimentando minha esperança que o porvir traria momentos de transformações positiva. mas. por muitas vezes parecia apenas uma ficção especulativa. Como muitos romances dramáticos. Assim. foi possível transformar sonhos em realidade. a mocinha precisa viver boas cenas de romance para empolgar a história e entre um diálogo de “fofoca”.

a triste solidão. trazendo novos “atores” e episódios como o terapeuta. mais um falecimento e o mocinho sai de cena trazendo alívio e libertação de meus sofrimentos. rejeição dos atores principais. com constantes maus tratos aquela que maior dor sofria em cena: a mãe! No fim da “guerra”. Nada fácil contracenar um novo filme. não economizando choro e desespero da perda pelo óbito aos dez anos. minha teimosa e ingrata mãe de noventa e dois anos morando comigo uma vez ao mês. Quanto arrependimento em ter protagonizado a cena onde meu marido me convenceu a abandonar o emprego! Mas. O novo filme trouxe muito aprendizado. que roubou a cena da professora que abandonou erroneamente o emprego e passou a dedicar-se exclusivamente para a casa e o filho. após ter nascido com grave problema cardíaco e muita luta após três cirurgias. com todas as mais fortes e “violentas” cenas típicas de um filme de guerra. A difícil protagonização trouxe revolta. surge Alec. do orçamento doméstico e contracenar com conjunturas nunca experimentadas. O filho Beto foi o primeiro personagem. o segundo filho de uma história vivida sem cortes. que o tornou ainda mais rude e autoritário. dramatizando a perda de visão periférica e o câncer de meu marido. Andréa. a nora e 53 . sem nenhuma experiência artística da moda: cuidar do carro.esperança de conseguir mantê-lo ainda nas “bilheterias”. o que se há de fazer senão seguir o roteiro escrito pelo Diretor Divino! É preciso ser “profissional”! Numa torrente desencadeada pela aventura frenética do protagonizar a mãe.

Isabel Pires Pacchini – 68 anos 54 . que tornou a vida de minha personagem Isabel em uma heroína imortal.finalmente o melhor presente de um roteiro. Júlia. minha neta. esperançosa de que meu filme nunca saia de cartaz! Sra.

mas amanhã pode ser melhor! 55 . É. não colhe! Se não colhe. uma vez que criança naquela época. Diariamente nos reunia em volta dele para rezar e falar. Se não planta. a morte não marca hora. nada mais foi plantado. não come e não vive. papai sempre cultivou esperança e confiança em Deus. Sobrevive! Perdemos tudo! Dois irmãos partiram para São Paulo para ajudar na sobrevivência financeira da família. pois as horas eram consumidas por meu pai entre cuidados e quilômetros de caminhadas para aquisição de remédios. devastando tudo o que tinha dentro e fora de nós. documento providenciado.PASSOS PELA VIDA Deitei minhas pálpebras e avistei-me nas brumas de minha infância. com futuro incerto e documentos adulterados. ganhava metade do salário de um adulto. tristeza e desnorteio esculpiram a miséria entre papai e meus sete irmãos. a doença não limita dispêndios materiais nem pessoais. para nunca mais voltar. Sim. Alterar a idade no documento naquela época era muito fácil. Doença. na roça de Sabinópolis. somente desta forma era possível um salário digno. falar para o escrivão quando a criança tinha nascido e pronto. — Vamos agradecer a Deus pelo dia e hoje que não foi bom. Vago suspiro de memória traz a imagem de minha mãe partindo aos meus cinco anos. bastava ir ao cartório. Apesar de tudo. sendo assim.

o que reunia muita gente em minha casa. colocava em cima do fogão de lenha para secar. jogava de volta pela janela para dentro do quarto e assim vestia de novo. Quando tinha que lavar aqueles trapos. pois não havia dinheiro para comprar roupas. pois não havia nada para usufruírem. Fiz o Mobral ao mesmo tempo que estudava e trabalhava. Alguns traziam abóbora e um pouco de fubá para nos ajudar e outros pediam para meu pai dar os filhos para eles criarem. Apesar da miséria. Com quinze anos calcei meu primeiro sapato. alguém passava uma barra de sabão naquilo. Percebi a necessidade de estudar. jogava pela janela. entrava dentro do quarto. mas eu 56 . Vim para São Paulo jovem e tive a oportunidade de trabalhar em uma metalúrgica. Comprei-os de “segunda mão” e paguei com serviços de carpintaria. — Meus filhos são meus! O tempo foi passando e a situação de miséria continuava.Entre a miséria e o inacreditável desmoronamento de nossas vidas. a vida simples nunca tirou minha esperança pela vida. Contudo. não era nada fácil. papai casou-se novamente e mais nove irmãos chegaram ao longo dos anos para se agregarem ao seio do calor familiar. nem mesmo os panos de trapo que vestia. a fogueira de São João era garantida todos os anos pela tradição de meu pai. ocasião que nunca tive na infância e resolvi agarrar aos vinte e três anos. tirava-os. Aqueles farrapos apenas cobriam “minha vergonha” não sendo suficientes para vestirem a parte de cima do meu corpo. Os pés descalços há tantos anos já não suportavam mais as feridas e as dores.

não desistia de poder ter uma vida melhor. Hoje ergo minhas pálpebras e me sinto privilegiado. por isso conquistava as melhores notas. com um lápis e papel que sempre carregava no bolso. com quatro filhos formados em faculdades renomadas e a certeza de que venci. Aprendi muita coisa sozinho tentando e errando. Ismar Zito do Nascimento – 72 anos 57 . constituí uma família maravilhosa após um namoro de sete anos por correspondência. Sr. Trabalhei muito. graças à dedicação e a fé que guiaram meus passos pela vida.

. Devia ter uns quatro anos e me lembro de coisas assim…quando era bem nova. também o deixava completamente achatado.br) 58 . Ao passar. Enquanto meu pai trabalhava carpindo a roça. essa madeira caia em cima dele e além de matar o bicho. até a hora de retornar para casa.. Essas bonecas eram feitas com as próprias espigas ainda no pé. os proprietários das lavouras colocavam uma armadilha chamada 4Mundéu.. bem novinha. onde trançava o cabelo do milho. através de uma cerca de varas ou pode ser armada no carreiro (caminho de animais). Mundéu: armadilha que mata por esmagamento. Recordo chegar na plantação e encontrar o tatu morto. elevado a uma certa altura e que pode variar dependendo da caça desejada.. sempre me levava. A caça pode ser induzida a passar por baixo. A arapuca era feita com uma madeira pesada e assim que o tatu entrasse em baixo para comer uma isca de milho. Saía na garupa do cavalo com meu pai e para todo lado que ele ia. 4. que naquele tempo estragavam muito as plantações. fazendo cachinhos. o animal desarma o gatilho e a armadilha cairá sobre ele.. (Orientações gentilmente cedidas pelo Fotógrafo e Cinegrafista Carlos Prudente – www.selvaemfoco. Para preservar o que era plantado.. Consiste em um tronco de árvore.ME LEMBRO DE COISAS ASSIM. Lembro de quando fomos para a roça e também recordo os tatus.com. brincava o dia inteiro com bonecas de milho. fingindo que eram crianças ali comigo.

Não havia nada para prender as tranças. avermelhados. Era mágico e muito divertido. pretos e não sabia o porquê tinham aquela diferença de cor. Não comia nada enquanto ficava com meu pai na roça. antes de ir embora. assim. O que importava para mim era a diversão e a companhia que as bonecas me proporcionavam. ele estragaria e não poderia ser aproveitado. nem casca. com minhas mãozinhas trançando cada cabelinho de milho. trazendo a expectativa que num outro dia. nem cabelo. Ivone Oliveira Silva – 80 anos 59 . nada. senão. mas havia um imenso prazer em brincar daquilo. o tempo todo. a espiga estaria lá para que eu pudesse brincar novamente. Sra. mesmo assim. desfazia todo penteado de minhas bonecas. Rememoro brincar ali.Fui ensinada que não poderia colher a espiga do milho. Trançava e cacheava cabelos loiros. como se pudesse estar ali. não retirando coisa alguma. até passar o dia. a brincadeira me tornava uma criança feliz. que ficaram guardadas por tantos anos e ainda me surpreendem com a mesma sensação maravilhosa dos velhos tempos. mas hoje me alimento dessas memórias.

Tocava muito no rádio. que eu até hoje. Menininha aos seis anos. 60 . que não esqueci jamais. na saudosa São Lourenço.ALUGUEL DÁ SAMBA! Recordar é um exercício. uma marchinha de Carnaval. que marcam nossa história. morava lá em Minas Gerais. que muitas vezes fica gravado na memória. considero excepcional: 5 ” Daqui não saio Daqui ninguém me tira Daqui não saio Daqui ninguém me tira 5 Marchinha de Carnaval “Daqui não saio” – década de cinquenta – uma das músicas mais cantadas até hoje em dia. graças a alguns momentos.

o aluguel vinha cobrar! Todo mês era a mesma ladainha e ele muito irritado. Pena que essa inocência. Joana Martins Venâncio – 68 anos 61 . hoje está comprometida! Sra. nem terminava a visitinha! Época dura e bem divertida. toda vez que o dono da casa.Onde é que eu vou morar? O senhor tem paciência de esperar! Inda mais com quatro filhos Onde é que vou parar? Sei que o senhor Tem razão de querer A casa pra morar Mas onde eu vou ficar? Nesse mundo ninguém Pede por esperar Mas já dizem por aí Que a vida vai melhorar” Eu e meu irmão a música começávamos a cantar.

Meu pai era um homem muito amoroso. — Joana. tira uma foto para mim! — Tiro minha filha. Nós não éramos ricos. desde minha infância. Eu era muito pequena. bem na frente de seu rosto. fique olhando aqui. 62 . mirou em minha direção e me disse. ajeitou-o deitado entre suas duas mãos. Um dia. em São Paulo. — Pai. Eu tinha um problema de bronquite asmática e o médico receitou que eu fosse a lugares onde houvessem pinheiros e eucaliptos para poder tomar um ar mais puro. – Apontou meu pai para o chapéu que usava na cabeça. que sempre me lembro. papai me levava todos os domingos pela manhã para passear no Jardim Europa.MINHA MELHOR FOTOGRAFIA Tenho uma recordação bonita para contar. Por isso. Senta ali onde tem aquelas flores. com toda família. acredito que tinha uns cinco anos e admirava aquelas cenas onde as crianças eram fotografadas. Todas as vezes que íamos ao Jardim Europa ficava olhando os pais que batiam fotos de seus filhos. E eu olhei para o chapéu do meu pai. Era um bairro chique. falei para o meu pai. — Dá um sorriso – e eu sorri. — Fique olhando – e eu olhei. Meu pai tirou o chapéu da cabeça. de pessoas abastadas financeiramente. Arrumei meu vestidinho e ele disse para mim.

ele bateu uma mão na outra rapidamente.“bateu minha foto”. — Pai. Hoje vejo que muitas pessoas pegam fotos em papel. “tirada” por meu pai naquele dia não há como ser arrancada de mim. e a foto. rasgam e jogam fora. mas vai chegar! Mas foi uma fotografia que nunca chegou! Passaram-se os anos e minha foto jamais apareceu. quando vai chegar? Ele sorria e me acariciava. está eternamente guardada em minha memória. Minha foto. simulando que havia tirado minha fotografia. — Plaft . como ele podia.De repente. pois apesar de nunca ter sido realmente registrada. Sra. amassando o chapéu entre as duas. Depois desse dia sempre lhe perguntava. — Está demorando. Joana Palmieri Lagreca – 81 anos 63 .

Sentia meu corpo mover-se em cadência. No dia fatídico. 64 . Logo ela entrou no carro e como se alguém tivesse dado um pontapé no meu “traseiro. capaz de penetrar e irradiar toda graça. mas o acanhamento conseguiu me lançar para dançar nos braços de outras moças. O aquecimento na dança com outras moças serviu de impulso e coragem. fiquei face a face com a garota na janela do carro. um jovem como eu sentiame um covarde! Minha irmã fazia aniversário e a festa já estava marcada. logrando a dádiva em conseguir vencer o embaraço e bailar uma única vez com Luiza. como um perdido entre o eco das músicas e o nevoeiro de meus olhos. torcendo pela invisibilidade de meu ser. com um nó na garganta e me amaldiçoando por ser tão inibido. Imediatamente meu coração foi invadido por Luiza. como o oscilar das chamas em uma lareira.UM ENCONTRO COMPLICADO Timidez não me faltava naquela época e em festas de aniversário. embora meu coração não deixasse de mirá-la. De longe avistei uma garota! Era como se a nebulosidade tivesse sido descortinada por uma luz forte e brilhante. perambulava acanhado entre as pessoas. balbuciando inacreditavelmente que desejava conversar com ela durante a semana. Ao findar a festa Luiza despediu-se de todos e eu beijei-a no rosto. simpatia e alegria que aquela moça despontava em mim.

mais aguerrido. fazendo-me desconfiar estar do lado errado da avenida. liguei para conversarmos e combinar de ir ao cinema no final de semana. numa avenida. Encontrar alguém que poderia ser minha namorada e logo de cara ela vem me apresentar sua mãe”! Sem alternativa.. O trajeto de ambos era idêntico até determinado local.— Claro! – Concordou Luiza. estava acompanhada por uma senhora. Pensei: “Era só o que faltava para eclodir minha tensão. Lembro que Luiza morava com uma tia no Tucuruvi e me explicou que deveria tomar um determinado ônibus na Praça do Correio. esperando. onde um dos ônibus virava à esquerda. mas para minha surpresa. mas a apreensão e o despreparo me fizeram tomar o ônibus errado e entrei na avenida do lado direito. Então no domingo. fui todo entusiasmado encontrar a garota. na mesma avenida. e nada dela aparecer. pois havia outro ônibus que também ia para esse bairro. percebi que Luísa realmente estava lá. Suspirei aliviado! Após nos 65 . mas eu precisava prestar atenção. e o outro à direita. Aquele mesmo pontapé que levei no “traseiro” desta vez me acertou o cérebro. me aproximei de ambas como se minhas pernas não estivessem pesando cem quilos e meu coração não tivesse disparado batendo no pescoço. o que me fez ir verificar. Luiza estaria me esperando do lado esquerdo da avenida. Na segunda feira. Sem perceber o engano desci no primeiro ponto e fiquei esperando. esperando. De longe. acrescentando que ela apenas pedia-lhe informações. no primeiro ponto de ônibus.. Cumprimentei Luiza meio sem jeito que gentilmente me apresentou àquela senhora.

José Luís Cardieri – 69 anos 66 .despedirmos da mulher. principalmente se for uma mulher. finalmente fomos ao cinema e Luiza hoje. todas as “gatas são pardas”! Sr. pois qualquer titubeio. pois de longe. poderá te levar à perda de algo muito importante em sua vida! Nunca tire conclusões precipitadas. presenteia meus sessenta e nove anos ainda como minha esposa! Conselhos a quem quiser aproveitar! Preste sempre muita atenção ao que os outros falam.

com casca e tudo. Imagino que tenho hoje uns setenta e oito anos.MEU MAIOR SONHO Quantos anos tenho? Não sei! Setenta e . subia e descia ladeira com a lata d’água na cabeça. Já com nove anos trabalhava na roça. Um dia. Não sei se quando nasci fizeram meu documento. Carreguei muito pote de água na cabeça. feijão. mas é a minha verdade. Depois descascava e 67 . não brincava. só se precisasse! Como eu nunca pude estudar. Naquela época. muito longe. Eu não sei a minha idade! Muita gente pode achar uma vergonha. não conheço nenhuma. só com a minha mãe e ela era muito doente. enfim tudo o que se planta numa roça. então. algodão. Brincadeira de criança? Nem sei o que é isso. ninguém se interessava por documento na minha terra. mas não sei se está certo! Naquela época. Cozinhava banana nanica verde na água.. me disseram que aquele lugar se chama Florestal. só trabalhava! Precisava trabalhar porque senão passava fome. plantava mandioca. lá no sertão de Pernambuco. mesmo que muita gente ache essa situação uma ignorância. cana. num povoado que não sei ao certo como chama. faço as contas me baseando pela idade dele.. porque meu filho tem quase cinquenta e dois anos.. arroz. nunca precisei de documento! Nasci num sítio. o sertão era muita pobreza. Fui criada sem pai.

comia com feijão e farinha. Era isso o que comia
todos os dias.
Um dia cismei que queria estudar, então,
comprei uma cartilha que chamávamos de Carta
de ABC. Para ir da minha casa no lugar onde
davam aula, que não era uma escola, só davam
umas aulinhas, precisava passar por dentro de
uma mata fechada muito grande e resolvi ir
mesmo assim. Quando cheguei lá pela primeira
vez, estava sentada vendo a aula e meu irmão foi
me buscar. Disse que minha mãe tinha me
procurado em casa e como não me achou, pediu
para ele me procurar. Não sei como ele me achou
ali!
Ele me levou para casa e quando cheguei,
minha mãe me deu uma 6pisa de chicote. Desde
aquele dia, nunca mais fui para escola.
Vim para São Paulo já adulta, não sei com
quantos anos, acho que tinha uns vinte anos. Vim
trabalhar de doméstica para uma família e quando
eles souberam que não tinha documento, minha
patroa me levou até o cartório.
Chegando lá, chutei a minha idade só para
poder tirar meus documentos. Era meu sonho
poder ter um documento! Disse que tinha nascido
em Maraial, Pernambuco, no dia quatro de
setembro do ano de um mil, novecentos e trinta e
cinco. Mas esse não é o dia que nasci e nem sei
qual foi o dia, porque nunca comemoraram meu
aniversário
quando
era
criança.
Essas
comemorações não existiam naquela época lá no
sertão! As únicas coisas que estão corretas nos
meus documentos são os nomes dos meus pais,
pelo menos isso eu não precisei inventar.
6 Pisa: sinônimo de surra
68

Desse dia em diante, pude realizar o meu
sonho. Consegui minha certidão de nascimento,
depois tirei meu RG e até título de eleitor tenho!
Hoje em dia, acredito que ninguém tem esse
tipo de sonho e espero que nunca precisem ter,
pois apesar de ter tudo o que preciso hoje em dia,
minha memória jamais conseguiu esquecer!
Sra. Josefa de Souza – 79 anos

69

OS MEUS ANOS DOURADOS

Sentei à beira do caminho e fiquei a esperar os
pedaços de minha vida, que eu deixei lá, mas,
como não os encontrei, comecei a imaginar se
haviam desprezado, meus pedaços ali deixados,
para todos recordar.
Os anos que ali vivi, muito aprendi com os
amigos. Andei, muitas coisas conquistei, lugares
por onde passei, muitas amizades deixei, de
pessoas muito querias, que são por mim amadas.
Daqueles que se foram, restou muitas saudades,
dos momentos que juntos vivemos, naqueles anos
dourados.
Uma história iniciei! Foi lá que eu nasci, há
muitos nos passados. Por isso fiquei a pensar, que
amigos ia encontrar, que eu deixei a muitos anos
passados. Eu não podia imaginar, que eles haviam
esquecido, os nossos anos dourados.
Nos momentos que ali fiquei, até mesmo
chorei de saudades. Sem ter com quem falar,
senti-me sozinha e sempre a esperar, alguém por
ali passar, para comigo andar, mas, sem ter com
quem falar, foram tantas lembranças, que tive
daqueles amigos, que eu deixei naqueles anos
dourados.
Sra. Josefa Maria dos Santos – 70 anos
Revisão: Nãna Damino

70

por isso. na antiga linha Araraquarense. Após três anos. onde papai trabalhava. escutei uma cantoria na porta. — O que é isso? Nunca vi isso na minha vida! 71 . nos mudamos para uma pequena colônia de uma fazenda. O trem passava há apenas quatro metros e balançava todas as paredes. não podíamos pregar nada nas paredes. Lá vivi até meus vinte e dois anos de idade. Foi uma vida maravilhosa! Como a casa era de propriedade da ferrovia. Era um “regime” muito rigoroso. Casei e fui morar no sítio com alguns parentes de meu marido. senão o feitor responsável pelo local recebia multa. Trabalhei muito e apesar da tarefa árdua. era completamente feliz. onde tinham apenas três casas. aproximadamente três horas da madrugada. vidraças e venezianas. Numa noite. por isso as crianças eram sempre muito vigiadas. morávamos em uma casa cedida pela empresa que ficava muito próxima da linha do trem. Tínhamos uma vida de razoável fartura e comíamos o que era plantado no quintal de casa. Abre a porta que o Santo Rei quer entrar! Acordei assustada e falei para o meu marido. nem as sujar. — O Santo Rei chegou! O Santo Rei quer entrar.O SANTO REI AINDA QUER ENTRAR Fui criada à beira da estrada de ferro. Perto haviam algumas fazendas e meu pai ia até lá para pegar as roças para trabalho dos oito filhos.

— Se arruma, levanta rápido, vamos abrir a
porta. É a Folia de Reis. A Folia de Reis passa
sempre, você nunca viu isso?
— Eu não! – Respondi espantada. Na estrada
de ferro onde morava nunca teve isso!
— Não? – Perguntou indignado. — Levanta, isso
é maravilhoso! Eles batem nas portas das casas,
cantam, nós abrimos a porta, eles entram, nos dão
a benção e oferecemos algo para comerem.
— Mas o que vamos dar para eles agora, fora
de hora? - Perguntei preocupada.
— Damos o que temos. Dê uma garrafa de
refrigerante e algo que tiver para comer, eles
agradecem e vão embora.
Meu marido abriu a porta e me disse:
— Nós dois temos que ficar na sala.
Dois deles entraram e três ficaram na porta.
Eles
cantavam
uma
oração,
dançavam,
ajoelhavam e faziam continência. Era algo
indescritível.
Agradeceram o alimento, nos abençoaram e
fiquei olhando tudo aquilo, como se estivesse no
mundo da lua, pensando que nunca tinha visto
nada tão lindo em toda minha vida. Senti algo
gratificante em poder receber o Divino Espírito
Santo em minha casa.
Até hoje, após sessenta anos, não esqueço de
quando vi o Santo Rei chegar pela primeira vez na
minha vida e infelizmente também a última!
Era tão bonito! Anualmente abençoavam as
casas, as pessoas que nela moravam, com uma
santificada missão. Carregavam cabos de vassoura
altos, com o desenho do Santo na ponta e cheio de
fitas coloridas balançando. Eles dançavam,
cantavam e nos maravilhavam, mesmo chegando
de madrugada.
72

Penso em como é a Festa do Divino hoje em
dia? Sei que ainda existe em alguns lugares do
interior do Brasil, mas, quem abre as portas de sua
casa para uma cantoria? Quem confia em uma
visita com discurso de abençoar-nos?
Sem dúvida que a evolução do mundo é
fundamental para o ser humano, mas se a
humanidade não tivesse perdido sua fé e seu
caráter, imagino que a Festa do Divino nos traria
um carro de som à nossa porta, com pessoas
cantando orações em ritmos modernos e
“beliscando” petiscos industrializados servidos por
nós, porém, nos abençoando com a mesma pureza
de todos os tempos, pois esta não há como
modernizar, basta resgatar!
Anseio que os futuros idosos deste mundo
abram as “portas” da reflexão, pois o Santo Rei
ainda quer entrar!
Sra. Maria Alves Papalardo – 85 anos

73

CARTA PARA VIDA

Querida vida,
Lembra-se de quando nasci há sessenta e sete
anos atrás, lá em São João Del Rei? Já faz tanto
tempo, mas ainda não esqueci da saudosa Minas
Gerais.
Sei que sou apenas mais uma entre tantos em
sua imensidão, porém, jamais apagarei meu mais
árduo tormento, quando levou meu pai embora,
me deixando órfã com apenas sete anos de idade.
Não imagina o quanto sofri, mas te digo que
seus dias foram capazes de fortalecer minha mãe,
que lutou bravamente para criar os oito filhos. Ufa!
Não foi nada fácil, mas vencemos seus desafios.
Pelas curvas e pedras da sua estrada, conheci
meu marido. No ano de um mil, novecentos e
sessenta e cinco vim morar em São Paulo e logo
de cara precisei cuidar de dez cunhados que
moravam comigo. Não tem noção do quanto isso
me deixou triste e refletiu em minha história.
Ficava todo tempo só pensando em você!
Depois de tanto trabalho e tanta dedicação
gostaria de te agradecer, pois sei que não me
esqueceu. Pensa que não reconheço os três
presentes maravilhosos que me enviou como
filhos?
Graças ao bom Deus, hoje tenho minha casa e
estou bem, assim posso desfrutar os dias que você
ainda me dá.
Olha vida, escrevo para te dizer que tenho
consciência de minhas necessidades. Sei que
74

Obrigada Vida. Mas não se preocupe Vida. pois algumas vezes tenho minhas dificuldades de saúde.preciso participar de mais atividades. tenho certeza que foi você quem me levou até lá! Sra. Maria Amélia Figueiredo Maia – 68 anos 75 . prometo que vou me cuidar! Escrevi também para te contar que há algum tempo frequento um lugar chamado GAIA e nele sou muito feliz.

Pai. E em poder escrever. Agradeço ainda em poder recobrar a memória. Maria Antonia Martinhão – 60 anos 76 . Me casei com um primo e tive dois filhos.OBRIGADA Obrigada pais. Pela oportunidade em deixar minha família tentar a vida aqui. Sra. acho que nunca te agradeci. por me darem a vida E uma grandiosa família de oito irmãos. Mesmo assim ainda agradeço. São Paulo. agradeço seu esforço de trabalhar como motorista de caminhão E puxar muita lenha para os fornos das padarias. Mas infelizmente ele foi embora com outra. Que minha vida veio abençoar. Criamos meus filhos e eles pudemos formar. Grata Deus por amar e me sentir amada. Pois logo após casei com uma outra pessoa. Pela saúde que propiciou o trabalho na lojinha Contribuindo com o sustento em casa. um pedacinho da minha história. Hoje já tenho um netinho.

sabor. Jamais poderia ser conhecida. cheiro. que os anos não apagam jamais. mas repleto de amor. É algo só meu e mais ninguém conhece igual. E a época em que comecei a dançar. Sentimento sem cor e sem cheiro. A mesma saudade que hoje sinto. É algo que se sente e que não se pode emprestar. poema ou por uma simples recordação. De uma infância maravilhosa onde ajudava minha mãezinha a cuidar de meus oito irmãos mais novos. E por isso agradeço essa saudade. Hoje olho para trás e vejo que nunca estive sozinha. Me fez parar por uns instantes no tempo. é realidade. que com a solidão. apenas se sente traduzida em música. Tempo que foi brindado com o início do namoro com Rivaldir. A saudade não se traduz. Lembrança que me remete a remotos anos de minha vida. Hoje sinto saudade todos os dias. que abrigou meu primeiro lar.SAUDADE Saudade não é uma lenda. E quem diria sentir saudades de quando ajudava meu pai na roça. Saudade de Bocaiúva. E de meus quatorze anos que não voltarão jamais. Revivendo os seis anos de noivado e depois o meu casamento. 77 .

Que tornaram minha vida cheia de sentido. Pois tenho as lembranças. Meus quarenta e sete anos casada com Rivaldir. Oportunidade única em poder agradecer. Rivaldir partiu e sinto ainda mais saudade. Sra. Maria Aparecida de Alkimim Carneiro – 76 anos 78 .Pois a vida está repleta de meus sete filhos. Agora de meu grande e inesquecível amor. Boa saudade que não me deixa sozinha. Que apagam toda e qualquer dor.

sua insegurança não permitiria que casasse comigo caso me mudasse para a cidade grande. — Não posso – disse a ele . Como um bom machista da época e pelo fato de ter morado em São Paulo por algum tempo. o que me incitou na busca de uma ocupação remunerada em Belo Horizonte e após dois anos. não vá! Quero me casar com você. Entre o retorno de Belo Horizonte e a partida para São Paulo. sofrimento abundante e uma vontade de ter o mínimo de uma vida. —Diga para seu pai juntar o dinheiro das bananas que vende para comprar seu enxoval. resolvi deixá-lo em Sabinópolis. estudo escasso. Decidida. Depois de alguns encontros ele me pediu em namoro. motivada pela farta necessidade financeira. Não havia emprego na década de cinquenta em Sabinópolis.estou decidida morar em São Paulo. — Não namoro moça de São Paulo! Moça para casar tem que ser virgem. não posso ficar e meu pai não tem sequer uma agulha para meu enxoval de noivado. Por favor. onde conheci um rapaz com quem comecei a me encontrar apenas como um amigo. a firme decisão de tentar a vida em São Paulo.ALÉM DO HORIZONTE Minha biografia é como muitas já narradas. fiquei por um tempo em minha cidade natal. família volumosa. — Desculpe. 79 .

nasciam flores brancas chamadas Sempre Vivas. Subiu e sentou-se no banco ao meu lado e por uma hora de viagem tentou convencer-me a voltar para ficar com ele. ele insistiu em dizer que pediria para descerem minhas malas. Enquanto consertavam a jardineira. a vegetação estava seca e o ar denso. Jardineira consertada. tendo que interromper o trajeto num trecho da estrada para consertá-lo. pedirei ao cobrador que desça suas malas para voltar comigo. — Quando a jardineira parar na próxima cidade.. Antes da primeira parada. no dia de minha viagem. com o que decorou toda a janela e em cima da cortina de onde eu me sentava no veículo. com apenas uma porta dianteira e bagageiro no teto. 80 . segui meu destino. porém. lá estava ele no local de onde partiria a 7jardineira. Gentilmente pegou algumas dessas flores e adornou meus cabelos. Chegando em São Paulo. à beira da estrada havia uma montanha rochosa e entre elas. vim morar em um pensionato de freiras que se encarregariam de arrumar emprego para as moças em casas de 7 * Jardineira: tipo de micro-ônibus antigo.Inconformado.. mas não aceitei. o veículo teve um problema mecânico. — Leve estas flores com você e guarde-as para lembrar de mim. Então. raridade naqueles tempos. ele voltou e eu. prosseguimos viagem até a próxima cidade e assim que chegamos. o rapaz subiu no alto das montanhas e colheu várias Sempre Vivas. Foi quando percebi que era um homem romântico. Era inverno de agosto.

foi quando conheci o rapaz com quem me casei aos vinte e quatro anos. nunca permitiu que eu trabalhasse e minha vida se resumiu em cuidar da casa e dos quatro filhos. Sei que continua namorando mulheres bem mais jovens mas acredito que a vida é como a letra de uma música 8Além do Horizonte. “. nunca foi romântico... Apesar de filhos e netos maravilhosos. acreditando que bastava dar o melhor sustento à família. Apesar do extremo controle que as religiosas tinham sobre as moças. lugar onde seu umbigo foi enterrado e para onde prometeu que voltaria ao se aposentar. Basta! Demorei quarenta e três anos num casamento de ilusões para ter amor próprio e decidir nossa separação.. ainda o perdoei e tentei evitar a separação por outros longos anos. mas apesar de descobrir que me traía com mulheres muito mais jovens... vivi por vinte e quatro anos acreditando que meu marido era um homem de virtudes intocáveis.família. .” 8 Música: Além do Horizonte – composição de Roberto e Erasmo Carlos. em um domingo saí com uma amiga para ir ao cinema. Apesar de trabalhador e sem vícios. Filho de fazendeiro. carinhoso e nem companheiro. sucesso da Jovem Guarda 81 ..Além do horizonte existe um lugar Bonito e tranquilo pra gente se amar... Ingênua e iludida... hoje vivo sozinha e ele voltou para a fazenda da família.Se você não vem comigo Nada disso tem valor De que vale o paraíso sem amor.

Sra. Maria da Conceição Maia Oliveira – 70 anos 82 .

se nos anos quarenta. cocho. o movimento se inverte.. toda criança gosta de brincar com água! Um dia. sessenta. então. não importa a época. quando mamãe lavava roupa no cocho de um Monjolo. Já sei! Monjolo. A BICA E O MONJOLO! Rememoro minha deleitosa infância.. o pilão! Imagine um “copo” ENORME feito de madeira. vou clarear minha história. mamãe disse: — Lourdes. Quando a concha esvazia. Entrei dentro da bica. criança é sinônimo de brincadeira e brincadeira é sinônimo de surdez. Essa haste soca geralmente arroz e milho. que recebe água vinda de uma bica por uma canaleta.EU. oitenta. até encher tudo. O Monjolo é uma máquina conhecida como preguiça. teimosa. onde tem uma estaca. adorava ir junto com ela. Isso faz com que o outro lado da haste. se levante por causa do peso da água. Ótimo para economizar energia! Ah. por causa da sua “l e n t e z a “! Tem uma haste de madeira que de um lado tem uma concha (ou cocho). dentro de um pilão. talvez não seja algo tão popular hoje em dia. onde se coloca o grão e a haste soca com toda “p r e g u i ç a” do mundo! Seguindo minha história. antes de contá-la. não chega perto da bica porque choveu muito essa noite e água tá muito forte! Água é sinônimo de criança. Afinal. então. que nem uma gangorra. a bica 83 . não ouvi nada e é claro que não obedeci. toda vez que minha mãe ia lavar a roupa no cocho do monjolo.

Maria de Lourdes de Oliveira de Toledo – 76 anos 84 . fui parar dentro do cocho que minha mãe usava como tanque. Minha mãe ficou biruta e começou a gritar: — Nossa Senhora. proteja Lourdes que só faz travessura! Saí de lá inteira e hoje me pergunto o porquê a gente cresce. pois deixei de ouvir o barulho que marcou o ritmo de minha infância! Alivio meu coração com o aconchego das lembranças que ainda guardo na mente.quebrou e eu. convicta do quanto era feliz e realmente não sabia! Sra.

Chegou um final de semana em que Pedro não veio e fiquei chateada. Quando conheci esse rapaz moreno e bonito. Apesar do ocorrido. No dia seguinte ao olhar para a rua. mesmo morando distante e todos os finais de semana ele me buscava no trabalho e me levava onde morava com meus pais. Pedro me avisou que estava em férias coletiva por causa do incêndio e por isso visitaria os pais em Alagoas. Nos abraçamos com muito amor e ele me presenteou com um relógio. ficaríamos noivos e nos casaríamos naquele mesmo ano. Namoramos por três anos. 85 . percebi que ele era um dos três filhos de um fazendeiro rico. Ele trabalhava na Volkswagen e logo me apresentou um amigo que trabalhava com ele. no sábado fui para a casa de meus pais mesmo sem ele. mas. me deparo com Pedro vindo em minha direção. lá de minha terra natal e nossa amizade se transformou com o tempo em um amor sem igual. mas São Paulo é meu berço de amor. Naquele dia. fui morar em Mauá e fiz amizade com Jeine que namorava um rapaz. Quando retornasse. Quando em São Paulo cheguei. foi quando ouvi no rádio que o setor em que trabalhava tinha pego fogo.UMA HISTÓRIA DE AMOR Alagoas é meu berço de vida.

— Por que? – Perguntei. Pedro terminou nosso namoro. dez anos mais velha do que ele. mas Pedro casou mesmo assim me deixando só e muito triste. Ao retornar a São Paulo. Por isso. Claro que sabia que era um casamento de interesse. mas Deus me agraciou com o pai de meus filhos. fiquei noiva de outra pessoa e me caso em três meses. Maria de Lourdes Fernandes – 63 anos 86 . uma outra história que um dia ainda hei de contar. Sra. pois você é filha de pais separados. — Minha família não aceitou nosso relacionamento. Essa história de amor o tempo nunca vai conseguir apagar.Chegando em nossa terra natal. meu belo e rico moço iniciou namoro com a filha de um fazendeiro.

Oportunidade! Acredito ser a necessidade premente que impulsionou meus corajosos pais nesta nova experiência de vida. como muitos nordestinos na década de cinquenta. vim m’imbora com meus pais e irmãos. migrou para a Itália. também na busca de melhores oportunidades. cantada por Rita Pavone e Dio Come Ti Amo. Sem dúvida nenhuma que a busca de melhores condições de vida impulsionou centenas de famílias. 87 . trocaram a lavoura pelo trabalho típico das grandes capitais. o destino de minha filha seguiu como o meu e assim. que graças aos contínuos esforços. A vida prosseguiu e me casei com Edison. onde trabalhadores como meu pai. enquanto mamãe costurava em casa. Sim. o que remete à lembrança de um rádio onde ouvia músicas românticas italianas como Datemi um Martelo. Uma emoção e um sentimento sem igual. Mas.“VIVERE LA VITA”! Sou uma imigrante baiana. local onde tive a mais cômica oportunidade em uma visita de turistas de primeira viagem. Ainda em idade escolar. nos proporcionaram bons estudos e bons empregos. cantada por Gigliola Cinquetti. onde poderia ganhar parte do sustento da família e conciliar o cuidado dos cinco filhos. minha família mudou para a capital e papai foi trabalhar como operário. com quem tive dois filhos e mantenho uma família maravilhosa há quarenta e quatro anos. Sem falar nos bens materiais que chegaram como recompensa.

onde quer que estejamos. era tudo engraçado para nós. museus. mas em ocasiões desesperadoras. Também subimos as montanhas. congelou as pontas dos dedos e tivemos que ir embora. E Edison? Ficou sentado emburrado em sua cadeirinha. onde as gêmeas riam a todo momento ao passar pela imigração e meu marido ficava nervoso. sua irmã Edithe e suas filhas gêmeas Lígia e Lilian. enquanto as mulheres se divertem e o marido. mas o Edison nem chegou perto das gôndolas de Veneza. uma de minhas irmãs. Como prêmio por sua rabugice. — E viva a vida! 88 . aqui ou acolá. e dependerá exclusivamente da forma que percebemos e desfrutamos sua grandeza.“PIM BOM” — Atenção senhores passageiros. não para ele! Fizemos vários passeios. Isso nos rendeu alguns entraves ao entrar no país. que coincidentemente casou-se com um italiano. Ironicamente. nem tanto! – Diria a aeromoça se assim pudesse prever nossos próximos passos. Parques. Nenhum de nós sabia falar o italiano e embora Edison tenha convivido com avós italianos. achando que seríamos presos por elas estarem rindo ali. nos preparou um manual de sobrevivência para a viagem. Edison ia ao panifício comprar dez pães e voltava com sete. uma diversão sem fim. embarcam para a Itália. Elvira. num frio de menos nove graus e descemos escorregando pelo gelo. não sabia uma palavra do idioma.. Verona. comidas gostosas e momentos que jamais vou esquecer nos mostraram que a vida pode sim ser um grande sucesso. Edison. acharam graça de tudo.. Assim como toda adolescente. nunca encontrávamos o que procurava.

“9Vivere la vita”! Sra. ou viver a vida (em italiano) 89 . Maria Elvira Pereira – 66 anos 9 Vivere la vita = viva a vida.

Tentar de tudo para ser alguém um dia parece algo distante. cortava e fazia uma capa para o caderno. resolvi aproveitar as oportunidades que estavam ao meu alcance. o que certamente não foi o bastante para conseguir tal proeza. com uns vinte a trinta pedacinhos. bastando apenas tentar sem temer. Depois de todas costuradas. desejava ser mais do que era. Pegava cada folha. uma folhinha beije bem fininhas e quase transparentes. sabe o quanto é difícil a luta pela sobrevivência. Foi assim que comecei minha decisão por aprender a ler e escrever. esticava e costurava uma na outra. com qualidade bem inferior. mas não impossível para quando acreditamos que podemos ser o que quisermos. Como trabalhava de doméstica juntava todos os papéis de pão. recortava-as no mesmo tamanho e fazia disso o meu caderno. 90 . então. Mesmo sem condição financeira alguma. Fui uma das primeiras alunas da época e me dedicava utilizando os livros e cadernos para aprender e ter uma letra melhor. Entrei para o Mobral (Movimento Brasileiro de Alfabetização) de Pernambuco assim que ele foi criado e tudo o que desejava era aprender a ler e escrever para ter uma condição melhor de vida. formando como se fosse um caderno. Para decorar pegava folha de bananeira e punha para secar.SEDE DE VENCER Sempre tive sede de vencer na vida e para quem nasceu de família tão humilde como eu.

a enfermeira me disse: — Tira a roupa! — Como é que é? . Me esforçando. indignada de ter que tirar toda a roupa 91 . que ficou em Pernambuco. Um sonho realizado! Sr. Depois de alguns anos precisei continuar a luta pela sobrevivência na cidade de São Paulo. Tudo o que eu tinha era uma “mala de saco “cujo “cadeado” era um nó! Não tinha nada na vida e ao chegar. cuja cor dava contraste com as folhas do papel de pão. Quando localizei meus tios. Quando cheguei na enfermaria. A esperança e a sede de vencer era imensa. — Não quero emprego mais não! – Disse eu à enfermeira. tive a sorte de conhecer o senhor João Avelino na igreja que eles frequentavam e ele me ajudou a encontrar meu primeiro emprego com carteira registrada. treinei e acabei aprendendo a escrever no meu caderno de papel de pão e capa de folha de bananeira. João me encaminhou para a Caloi.Perguntei. senhor João Avelino me incentivou a não desistir e voltar à Caloi para falar com um senhor da estamparia. Cheguei aqui com um casaco que minha mãe comprou parcelado. pois sabia que a cidade era muito fria. eles não me aceitaram. Voltei e me fizeram preencher uma ficha e passar pelo exame médico. — Tira a roupa para fazer o exame médico. todo dinheiro que me restou para procurar meus tios equivalia ao valor de um selo de cartas na época. pois precisava ajudar minha família. mas como eu nunca tinha trabalhado registrada.bem bonita. Saí de lá aos prantos e chegando na igreja.

– Eu não vim pra São Paulo para me despir. tal qual minha ânsia de vencer. Maria Gecilda da Silva – 59 anos 92 . não! Daí. esta tornou-se mais generosa. foi aquela briga danada e a história acabou virando piada. Sra.só para um exame médico de emprego. mas minha vida não.

Tudo era tão real para mim que fazia a comida de verdade. com meus braços abertos. Em Desterro do Melo. me imaginava atuando nas peças. mas foi vivida intensamente por todos os dias de minha vida. desde menina. Adorava inventar desde pequena. que era uma cozinheira. quando imaginariamente pude viver em outros mundos e conhecer melhor o encanto e a fascinação do viver uma outra pessoa. Um de meus palcos prediletos era a cozinha. na cozinha de casa.A VIDA ENTRE ATOS E CENAS Sonhei. Lá na roça onde morava. que eram vividas por mim mesma entre uma aparição e outra no palco de minha vida. pratos de comida diferentes e frequentemente encenava. dividido em várias cenas. até que pude concretizar meu sonho aos sessenta anos de idade. Minha magia teatral nunca foi valorizada somente no hoje. ser artista de teatro. nem que fosse por breves momentos. sentindo a brisa suave em meu rosto e fingindo representar uma personagem. a roça era meu palco e por muitas vezes saía ao vento. 93 . Era real. cidadezinha de Minas Gerais. nítido e inigualável. encenando cada momento de minha vida como se fosse um ato. Era uma sensação única que somente eu e minha imensa imaginação tínhamos a capacidade de viver e sentir.

Na peça. terminava dizendo para as mocinhas. Ela era muito mandona. como eu adorava ser “maluca” e ainda gosto.me sentindo muito segura a cada prato que estava preparando e com a audácia típica das atrizes de teatro. que vagamente me recordo chamar “Leitura Imaginária”. dizia a mamãe: — Hoje não vou comer sua comida! Encenar para mim era bem mais do que representar. relaxamento. 94 . era muito risonha e nessa parte. mas a ansiedade de atuar de verdade fez com que minhas pernas ficassem moles e meu coração disparasse. resolvi fazer supletivo aos quarenta anos de idade o que meu deu embasamento para participar da primeira peça aos sessenta anos. Mamãe. Se “maluca” é sinônimo de feliz e realizada. onde conseguia me desligar das questões do dia a dia com um toque de magia. Lembro que ao final da peça tinha minha última fala e mesmo aos sessenta anos. serei eternamente “maluca”! Como nunca tive a oportunidade de estudar. pois não só a responsabilidade. ainda me sentia aquela menininha lá da roça. comandava as outras mocinhas e como o próprio nome diz. cheia de vida e de energia e com todo vigor. que apesar de me sentir a melhor das “malucas”. então. ela vivia dizendo na peça: — Vamos desempenhar nossa função! E fantasiosamente desempenhávamos. Apesar do sorriso. olhava-me preocupada e dizia para si mesma. — Essa menina é maluca! Ah. fazia o papel de uma moça chamada Risonha. tive que fazê-la na raça. era uma forma de diversão. muito parecida comigo.

Maria Geralda da Silva – 78 anos 95 . nunca deixei nem nunca deixarei meus sonhos e meus desejos para lá. todos estarão sempre comigo. tornando minha vida uma grande história. Sra. pois em minha existência.— Vamos deixar tudo para lá! Ainda bem que esta fala fazia parte de uma peça de teatro e não de minha vida real. cada segundo como se fosse um novo ato. me guiando e me impulsionando para viver intensamente. cada cena.

rogando por um marido! Escondido atrás do altar. a senhora viúva pedia à Nossa Senhora que lhe desse um marido. Sra. em voz alta. pois vivia muito só e precisava de companhia. lhe disse: — Cala a boca magrelo! Não estou falando com você! Eu falo com Nossa Senhora.MULHER REZANDO Uma senhora viúva ia todos os dias à uma Igreja e se ajoelhava diante do altar. e por ser mulher. pensou em dar um susto naquela mulher. a senhora viúva olhou brava para Jesus crucificado e fitando bem em seus olhos. como sempre fazia. Um dia. que é mulher como eu. havia a imagem de Jesus crucificado e também a de Nossa Senhora. No belo altar enfeitado. ó chente! E continuou a pedir. pois já não aguentava escutar sempre a mesma ladainha. disse em tom de voz que a senhora pudesse escutar: — Vai REZAR velha! Ao escutar aquilo. Maria Lucimá de Sales – 72 anos 96 . só ela pode entender de minhas precisões. Todos os dias. o rapaz que trabalhava como ajudante na Igreja.

de quem gosto de ser amiga. Mesmo assim. entrando pela primeira vez na escola. Durante minha “sinfônica”. até chegar ao final. Foi assim que percorri a “orquestra” de minha vida. Por onde vamos. que nos vem à mente vagamente. depois para o Mandu. no bairro de Pinhalzinho dos Góes. Em dado momento cantamos apenas o refrão. Minas Gerais. tive muito tempo para brincar e o que mais gostava era de me divertir com as bonecas. de passar anel e também de ciranda. Depois de lembrar o “refrão”. pois apesar de pouco “canto”. cantamos mais um pedacinho. meus pais e professores. “cantarolando” meu nascimento lá em Ouro Fino. apesar de nunca ter concluído a “canção” escolar. mudei com minha família para a Fazenda do Serra. como se estivéssemos dentro dela. até que a música nos seduz por inteiro e arriscamos cada estrofe. por onde vivi as primeiras seis “melodias” de minha vida. e outro. Treinamos. minha primeira professora de quem tenho muita recordação. Tudo o que sou devo à Deus. Quanta “composição” gostosa! 97 . e mais outro. nossa “orquestra” nos acompanha e por “canção” afora. logo veio a “estrofe” e como ei de esquecer dona Neli. me dou bem com as pessoas.RECORDEI 74 CANÇÕES Recordar a vida é como cantarolar uma melodia. onde tive a oportunidade de conhecer as letras das “notas” da minha vida. valeu a pena.

que apesar de ter sido muito bom. “cantarolamos” para São Paulo. onde além de trabalhar. não era minha vocação! Então. Por tanta “maestria” me sinto realizada e agradeço a Deus por ser uma pessoa feliz após 74 “canções”! Sra. Maria Policena Vicentini – 74 anos 98 .Arrisquei um “concerto” por um tempo em um convento. Sonia e Ângela. Após três anos na nova “filarmônica”. pude produzir meus melhores “arranjos musicais”: Jose Carlos. quando me casei com Joaninho. refazendo minha “cantiga” aos dezoito anos. recolhi minhas “partituras” e voltei para casa.

ao me deprimir e não saber o que fazer para me sentir amada. Naquele dia estava desesperada. – Liguei para aquele homem a quem tanto amava. Rápido me levou ao hospital e ao acordar. não falava nada conexo. pelo homem. Ligou para meu filho vir me acudir e quando chegou. Não havia ânimo para viver e os remédios preenchiam parte do vazio que inebriava meu coração e minha alma. Vaguei pelas ruas por quase um ano. Foi amor à primeira vista por aquele policial. estava desmaiada. Eu pedia tão pouco. em baixo da mesa e não sei porque entrei aqui. vem me tirar daqui! Mas ele não veio. ficava parada e não voltava para casa. Minha vida não tinha mais sentido e também não sei porque entrei em baixo daquela mesa. — Estou em casa. não pela farda. —Luís. Dez anos foi o tempo que durou o romance que para mim.OUTROS TIPOS DE AMOR — Psiu! Silêncio! Não vê que estou escondida em baixo da mesa? – Dizia ao meu coração que batia descompassado. era um combustível a me detonar 99 . por favor me ajuda. Luís chegou em minha vida num dia em que o vi saindo da casa de uma vizinha. sem rumo. por favor. à procura de bandidos. Larguei toda casa aberta. Estou com chumbinho de rato nas mãos. Quanta tristeza em chegar aquele ponto. Queria apenas poder ficar com Luís. socorro. sem saber o que fazer e resolvi pedir socorro. mas não me lembro se tomei.

mas que podiam ser substituídos por algo a mais. Lembro de quando cheguei ao GAIA.adiante. gostaria de amá-la como me ama. tão simples e que se resumiria apenas no ato de me amar e me cuidar. Cometi inúmeras loucuras de amor que deixaram Deus “arrepiado” e eu. mas que na verdade era um novo começo. — Ah Regina. A felicidade habitava dentro de mim. como se meus pés não alcançassem o chão. pelas mãos da querida Sônia.. tristeza e decepção me arremessaram para baixo de uma mesa. que me resgatou das névoas de momentos passados. mágoa. apenas como amiga! — Que tipo de amor é esse? Porque não me quer? Depois de tudo o que vivemos juntos? É porque sou gorda e dez anos mais velha? — Não tem nada a ver com isso Regina. em um dia de aula de 100 . Começo este que deu início no velório de um amigo. queria aquele homem comigo. mas quem manda é o coração! Choro. — Luís. Decidida ser feliz para sempre. a cada abraço. sentia a cada beijo. estou gostando demais de você. além de onde minha imaginação um dia tinha sonhado e acreditado poder estar e que fazia me sentir viva. para o fundo de meus mais profundos sentimentos. sabe que sou capaz de matar alguém por você. te amo demais. digno da benção dos céus. para aquilo que para mim parecia o fim.. resolvi declarar que já não podia viver sem ele e queria mais. para dentro de mim mesma. quando reencontrei um ser humano especial. me amando para todo o sempre.

Sra. em baixo de uma mesa ou onde quer que seja. apresentando-me à professora. Já não preciso pedir socorro pois consigo me levantar onde quer que esteja. Hoje sei que recuperei minha autoestima e não tenho medo de me lançar ao chão. joguei os remédios no lixo e renasci. com a certeza de que existem outros tipos de amor. — Esta será a nova bailarina do GAIA! Após alguns meses de aula. motivados pelo pavor do palco. Após assistir encantada me deparei com a Sônia. mas não conseguia conter os desmaios ao final. Me entreguei à dança e a mim mesma. me colocando acima de tudo pois fui acolhida por um grupo que sabia que jamais me abandonaria. Maria Regina Povreslo – 58 anos 101 .dança do ventre. capazes de me tornar novamente feliz. já era capaz de dançar sozinha em apresentações.

Meu celular era a enxada e meu “tailleur” um desalinho! Sabia tudo sobre plantar e colher sem ter feito Agronomia! Zelei pelo saudável gado de meu pai e nem cursei Veterinária! 102 . vida. no interior do Mato Grosso. fica fácil explicar.GANHOS E PERDAS Vasculhei as “gavetas” da minha procurando encontrar algo para contar. Como não havia muito. com diploma de Trabalhei num “escritório” chamado lavoura. do ontem. Fui mulher guerreira.

Felicidade que me faz entender que minha vida valeu a pena. nunca desisti de tentar. mulher de ontem. Qual a nossa diferença? Sra. E quanta Tentei um “intercâmbio” em São Paulo.Fui “mãe” de meus onze irmãos e nem casada era. Queria ter conhecimento. mas nenhum se desviou na estrada da vida. mas meu “avião” não decolou! Mesmo assim. na década de setenta. Você. Eu. mas esbanjo felicidade. certificado e me graduei em Não tenho o que muitas mulheres têm hoje. mulher de hoje. Maria Socorro da Silva Neto – 75 anos 103 . Meu estudo foi experiência adquiri! o trabalho.

” É o Divino. que simbolizam os sete dons divinos. cinquenta dias após a Páscoa. que é o padroeiro de minha terra natal. tornou-se inesquecível. é o Espirito Santo É um céu claro. Como a festa era bonita e para mim. era costume recepcionar a todos com bolo. simbolizando o fogo. De lá iam até a Catedral da cidade. presentes. que representa o próprio Divino Espírito Santo. Também decoravam a bandeira com flores de vários tipos e cores ou com rostos de anjos. a bandeira vermelha. no dia do Divino Espírito Santo. Lembro dos símbolos da festa. tão preciosas 104 .FESTA DO DIVINO Ah que saudades das festas do Divino. Na comemoração era feita uma cerimônia com uma procissão. tradição religiosa e culto ao Espírito Santo comemorada geralmente durante as festividades de Pentecostes. com o desenho da pomba branca no meio e alguns raios. Ela sinaliza o fim da colheita do trigo e se tornou costume em muitas cidades do interior do país. onde levantavam o mastro da bandeira toda decorada. que seguia até a casa do Capitão. chá e biscoitos. as lindas rosas. é o nosso amor. Por todo caminho cantávamos com muita emoção. Lembro da música que cantávamos no coro da igreja que frequentava quando criança. geralmente sete. Quando a procissão chegava na casa dele. Aceita. A pomba.

mas também o significado.. o quanto aprendi e assimilei. reconhecendo nossos limites e fazer nossa parte sem esperar que alguém a faça. e tantos outros valores hoje em dia não mais plantados. não só a comemoração. que jamais esquecerei.. mas que ainda podem germinar! Sra. nem semeados. Se os jovens de hoje soubessem o quanto em minha mente e em meu coração guardei.. .Do nosso amor.. as lindas rosas Tão precioso. importâncias trazidas pelas festas do Divino. sem medo do sofrimento. ... escutar e orientar com fé e esperança. Matilde Aguiar Silva – 74 anos 105 . Aceitai Senhor. enfrentando os acontecimentos por uma causa justa. que necessitamos ser humildes e prudentes.... resistindo a qualquer tentação material. . .. Tenho tantas lembranças para contar dessas festas e milhares de coisas para lamentar. precisamos ter coerência acima de tudo. devemos perceber o certo e o errado para encontrar sabedoria e paz em nossos corações. que hoje já não se valoriza mais. é o nosso amor”. saber escolher nossos caminhos. agir com os outros como Jesus agiria.. . . pois antigamente levávamos tudo isso muito sério..

trabalhava como 10retireiro. no Município de Ouro Fino. invade-me a lembrança de meus distantes quatorze anos. que jamais poderão me tirar. Bons tempos que não voltam mais! Foram-se os anos. próxima à estação Francisco Sá. 10 Retireiro . não tão severa. 11 Coqueluche – doença bacteriana conhecida como tosse comprida. hoje não mais vividas. saltava cedo da cama e seguia para o trabalho nos estábulos. mas ficaram as lembranças. pneumonias e encefalopatias. saudosos e testemunha de existências. atinge o sistema respiratório com complicações como convulsões. 106 . mas para minha sorte. Mesmo tão jovem. podendo levar o indivíduo a óbito. Minha tela mental traz-me a alegria em poder recordar. Lá. mas a fartura da 11Coqueluche penetrava em muitas pessoas. enquanto a lucidez de minha velhice assim as deixar. com o hábito de na madrugada acordar.COQUELUCHE LEVE Entre o despertar do sorriso em meus lábios e o olhar parado na imagem da memória. A época nos trazia muita escassez.Pessoa que trabalha ou realiza ordenha (que retira o leite da vaca). ordenhando as vacas em companhia do padrinho Tião e também de Geraldino e Joaquim Amâncio. minha morada na Fazenda Santa Isabel. inclusive eu! Infelizmente fui agredido por esta malvada doença.

onde as vacas ficam deitadas. — Deita-te no quentinho criança. foram meu melhor remédio. sapientes e carinhosas que me permitiram poder contar esta história! Sr. garantindo minha esperançosa cura. Mauricio Simões de Lima – 73 anos 107 . consideradas muito sábias naquela época. Esquenta teu corpo e livrate desta malvada! Assim o fiz por muitos dias. Ensinamentos e lembranças afáveis.A moléstia suave e a orientação de minha mãe e das pessoas mais idosas.

ser humano sublime. Todos os filhos ao caminho do bem e da luz.MÃE Mãe. E com maestria conduz. Meira Gomes – 77 anos 108 . Venturosa e contente. Carrega uma cruz. Que vidas produz. Por amor a eles. Imitando Jesus! Sra.

depois de muita resistência. Um dia estávamos brincando e este meu amigo me perguntou se não gostaria de trabalhar. falo com eles. Sempre fomos muito apegados e ele para mim era todo especial. lugar onde passava a massa quente da bala. principalmente em me esconder de baixo da esteira. Gostava muito de brincar com meu irmão Sebastião e nossas brincadeiras eram todas de moleque. ganhava várias balas para levar para casa e 109 . E assim ele conseguiu o consentimento de meus pais. Morávamos em uma vila no bairro do Brás. Aos oito anos comecei então a trabalhar. Lembro que era muito rápida em tudo que fazia. junto com minha irmã mais velha. — Não se preocupe.ADMIRÁVEL INFÂNCIA Lembro minha infância com alegria e saudosa de um tempo que não volta mais. sempre que a fiscalização aparecia. Mais do que depressa disse: —Sim! Quero sim! Mas preciso falar com meus pais. Em baixo da esteira era um calor infernal. tenho certeza de ter sido muito bem vivida! Venho de uma família humilde mas convivemos com o amor e o respeito uns dos outros. contudo. onde trabalhava um amigo. mas como recompensa pela fábrica não ter levado multa em dar emprego a menores de idade. próximo de uma fábrica de balas e biscoitos. em São Paulo. embrulhando balas em uma fábrica.

percebi que minha mão estava toda molhada. era uma criança que brincava muito. 110 . vamos! O menino correu para se esconder e não vi para onde foi. senão vou dar uma paulada em algum colega nosso. mas estava com tanta raiva que consegui alcança-lo. eu peguei na mão. Quando dei por mim. E era cocô. claro.também bolacha com goiabada. que guardo na memória há mais de setenta e cinco anos. Fiquei procurando atentamente. embalando e me escondendo até meus doze anos e recordo ter sido a época mais feliz da minha vida. Todos riram muito de mim e eu fiquei uma fera! — Tudo bem Chico. mas você vai comer!!! Enchi minha mão de cocô de cachorro e lambuzei toda boca dele. Apesar de trabalhar por necessidade e para mim. respondi rapidamente: — Sim. Aos onze anos gostava de um garoto e ele sabia! Certo dia me convidou para brincar de “pega-pega” e eu. Ingênua e assustada. muito feliz.. mas você vai comer!!! Chico correu até o final da rua. Lembro de um episódio inesquecível. segurei. reapareceu e me disse: — Odette. Trabalhei ali. que era muito comprida.. por diversão. Agarrei aquele pestinha e repeti mais uma vez: — Eu peguei na mão Chico.. De repente. eu estou nervoso! Segura esse “pau” para mim.

e como respeitaram!!!! Pena que minha admirável infância não volta mais! Sra. mas daquele dia em diante.Desde então. o Chico nunca mais falou comigo. passaram a me respeitar. Odette Marelli – 87 anos 111 . Nossa. mas todos os moleques. não só ele.

escorreu por entre as águas geladas de um poço e um sabão de lavar roupa. mas Josefa. Como se despertasse com o clarão do sol batendo sobre a água fria que banhava meu corpo sendo molestado pelo esfregar do sabão impregnado de areia. senti minhas costas arderem 112 . é algo inesquecível.ONDE ESTÁ A VERDADEIRA RIQUEZA? Recordar a separação de meus pais quando tinha apenas um ano de vida e ainda morava em Alagoas é algo quase impossível. mas Josefa já rondava nossas vidas mesmo antes da separação. papai. mas recordar Josefa. Cresci com uma única referência de mãe e com o tempo fui adquirindo maturidade. a madrasta que aprendi a amar como mãe e por quem tinha verdadeira adoração. que Josefa nos banhava. eu e Marina. Mamãe foi embora. assim que papai saía em suas viagens a negócios. Aquela abastança amorosa que depositei inocentemente nos “cofres” de uma suposta “mãe”. com quem papai teve filhos ainda enquanto casado com minha mãe Joana. Marina (minha irmã) e a amada vovó Clarinda se resumiram em minhas maiores “riquezas”. Papai era muito rico e viajava sempre a trabalho. responsável por “furtar” minha inocência e “afortunar” meus olhos e meu coração para realmente valorizar Josefa como um centavo miúdo de um ínfimo trocado.

lá em São Paulo vai conhecer um moço bonito. lhe perguntei: — Porque está me batendo. Entendendo o que realmente era minha verdadeira riqueza. Lembro de suas dolorosas justificativas: — Olga. a senhora é uma das pessoas que mais amo na vida. — Hoje vocês já servem de doméstica para os irmãos de seu pai e recebem apenas pão e palmadas. Mas. se casar e ter seus filhinhos – profetizou vovó! — Não quero ir vovó. quando papai entrou em casa e anunciou a hora de partir. pois vovó nos amava verdadeiramente. pois não sou sua mãe! Sua mãe era bêbada e perdida. A “cédula falsa” foi enfim descoberta logo após uma surra que Josefa me deu e apelando carinhosamente. café e procuramos vovó para a despedida. mas ela já não estava mais lá! Se embrenhou no meio do mato e por lá ficou três dias sem voltar. Marina.e a estima por Josefa escorrer pelas águas da indignação. fiz minha trouxa de roupa e aos oito anos larguei a escola e fugi de casa. já estou velha. Vá minha filha. papai resolveu escrever para minha mãe Joana vir nos buscar. Isso pode piorar caso eu venha a faltar e terão que servir de “mulher” para seus primos! Os dias se arrastaram até a chegada de minha mãe Joana. fez o mesmo! Até meus onze anos saboreei uma vida realmente afortunada. que alegava estar muito idosa para cuidar de nós duas. indo morar no sitio da vovó Clarinda. sem entender o porquê. nos comunicando e contando com o sofrido incentivo de vovó. Tomamos banho. mamãe? — Não me chame de mãe. 113 . ao voltar da escola.

Nunca mais vi minhas verdadeiras riquezas. Escrevi cartas que nunca foram respondidas e aos doze anos já era uma doméstica semianalfabeta de um pai rico! Josefa? Ah. “embolsei” três grandes prêmios: Giovanni. capazes de garantir minha felicidade futura: o Diamante Almir. pois além de minhas pedras preciosas. a Esmeralda Lenita. com quem vivi os mais ricos quarenta e seis anos de minha vida e dele herdei quatro pedras preciosas raras. essa era a verdadeira fortuna de uma vida! Aos meus dezenove anos a profecia de vovó se concretizou. os verdadeiros sentidos da uma vida! Sra. o Rubi Marcelo e a Safira Luciane. Leonardo e Gabriel. de beleza incomparável. Hoje. Conheci Alvacir. ela continuou no “lucro”. sou uma mulher ainda mais rica. vovó e papai. Olga Nascimento Tonon – 74 anos 114 . Gastou todo dinheiro de papai e fugiu com um homem mais jovem! Para ela.

As guelras dos peixes nos dariam. caberia uma pergunta: O que fazia na Terra as multidões? Quem construiria nosso maravilhoso mundo? E o aperfeiçoaria com aptidões? No entanto. Em fazer o ser humano inteligente. E portador de outras coisas mais. A Santidade de Jesus e de Maria. Jamais permitindo qualquer um de errar. A casa do caracol em suas costas. Porém. Amplas possibilidades sim senhor! O que dizer dos pés na terra como as plantas. E pelo ar respirar os nutrientes com sabor.BENDITOS PROBLEMAS HUMANOS Apenas o criador onipotente. Osmar Martoni – 76 anos 115 . o prêmio da eternidade! Sr. As asas das aves para voar. trabalhamos com vontade E contribuímos com muita intensidade Para tornar este mundo melhor e mais suave Ganhando de Deus. É sagaz e clarividente.

não um homem disco. Que gira. Senhor. Alto. Que fala. só para ser inacessível. Senhor. Não um homem-propaganda. Grande. Que eu seja um homem. sem sair do lugar. À margem do caminho. Que eu seja um homem. Que eu seja um homem. Olhado por todos. Quando velho. Não um homem-montanha. Que eu seja um homem. Senhor. é muito procurado. gira. mas não sabe escolher o peixe. Que eu seja um homem. e não podendo olhar para ninguém. fala. e não pode segui-lo. Quando novo.ORAÇÃO PARA UM JOVEM Senhor. Que tudo pesca. mas cheio de buracos. não um homem-rede. Com voz. Senhor. não um homemjornal. só para repetir em eco. sem nada de próprio ter para dizer. 116 . Senhor. é desprezado.

Duro e inflexível. Mole e desfeito. Que possa iluminar. Senhor Que eu seja um homem. Um homem raio-X. Senhor.Que eu seja um homem. para com todos os demais. Sra. Jesus Cristo. Um homem-vela. ainda que enfermo. Que saiba transmitir calor. como fio d’água das paixões próprias. Um homem-neve. Ruth Maria de Souza – 66 anos 117 . Nosso Senhor. Não um homem-pedra. ainda que frio. Que todo inteiro me transpareça. Um homem segundo o vosso modelo. Que eu seja um homem. ainda que se consuma.

à minha frente. avistei uma árvore gigante e centenária chamada Ficus Nitida. Passeando e apreciando. aquilo que só minha mente tinha tentado alcançar. Mas a vida é uma grande aventura. mas que soprava ansiosamente em meu corpo e minha alma. sempre me contou com encanto o quanto brincava de subir nas árvores de lá e eu. devaneios de subir em árvores. Minha irmã Geralda. seis anos mais velha. vigorosos e destemidos. Para alguns. ficam encravados dentro de nós. cidade onde nasci e que sempre desejei visitar após emigrar à São Paulo com três anos de idade. mas para mim. saboreava suas recordações. Recordo com emoção de meus cinquenta anos. um lugar comum como qualquer outro para lazer. inspiração no discurso e na imaginação alheia. em minha inexistente lembrança. a possibilidade em sentir pessoalmente. A surpreendente “senhora” com seus vividos cento e cinquenta anos estava lá. quando viajei com um grupo de pessoas com quem fazia Tai Chi Chuan e fomos passar o dia no Pesqueiro Maeda. Isso mesmo.PERMITA-SE SONHAR! Imagine só que aos setenta e dois anos tive a emocionante oportunidade em conhecer Desterro do Melo. louca de vontade em experimentar. mas desejos são como raízes de árvores frondosas. O tempo pode passar. 118 . principalmente quando nos dispomos a sonhar e desafiar nossos próprios limites na busca dos mais incríveis desejos. Minas Gerais. em Itu.

Tenha fé.convidativa. Teresinha da Silva – 72 anos 119 . sensação inigualável que me permitiu compreender que minha iludida imaginação jamais poderia alcançar o que de fato se pode tocar. pois degustava uma fantasia legítima e só ao “acordar” me renderia ao mundo real. Jamais repeti tal façanha! Mas e você. quando alcancei uns dezoito degraus. Não havia como sair de lá. se permite sonhar? Consinta e exteriorize seus mais secretos desejos. Visão inesquecível. ponto de onde se chegava ao seu cume e por onde fiquei por mais de uma hora. Como que hipnotizada por sua exuberância e grandiosidade. caminhei com meu espírito “moleca” e sem fronteiras e fui subindo até seu topo interminável. porque vai alcançar! Sra. elegante e incansavelmente formosa.

em qualquer circunstância. Para muitas pessoas hoje em dia. quais são nossos valores. algo “fora de moda”. decidir é inerente à ocasião. do nosso ser. Lá longe estava Ovídio. nada depende da época. é algo nosso. de nossa essência e da importância que damos aos verdadeiros apegos de uma existência. sobre nós mesmos. mesmo com o consentimento de meus pais. mas como mencionei. é uma questão de valores! Casei aos vinte anos. meu irmão era implacável. quando o maior valor é a Família! Daí motivação nunca vai nos faltar. mas o que realmente acreditamos sobre a vida. meu noivo. não dava trégua! — “Ô pai. se Ovídio não tivesse partido. baile é baile e ele foi aproveitar.MINÚCIAS DE UMA VIDA Tudo muda no decorrer dos anos. nossas limitações e responsabilidades. da década. acreditar é uma questão de fé e comprometer-se é uma questão de amor. Permaneci fiel e casada por cinquenta e quatro anos e assim permaneceria por outros tantos. Sonhar é preciso sempre. que apesar de faltar poucos dias para o casamento. a Tereza só tem doze anos e fica por aí namorando uns moleques”! Uma semana antes de meu casamento. me deixando sozinha no salão. fui a um baile com meu irmão e apesar de controlador. após um ano entre namoro e noivado e apesar de ter sido muito namoradeira. não pegava bem irmos juntos a um 120 .

em Colina e em Arapongas e a vida nunca foi fácil. É a que eu queria e os cabelos dela me matam (meus cabelos chegavam até as nádegas)! Moramos em fazendas.. te levo para casa. meu cunhado ainda zombou do irmão: — Aí Ovídio. mas. mas é bonita. Olhei-o nos olhos e mais do que rápido. mineiro bonitão! — Mas Tereza. Ovídio pegou pela primeira vez em minha mão. chácaras. peguei na mão da Tereza e ela me deu um “tapa na cara”! Tem muita moça fácil hoje em dia que se eu pedir a mão. — Vamos Tereza. agora eu caso! Achei uma moça do jeito que eu queria! Interessante que soube disso pela minha sogra... muitos anos depois. ele na frente e eu atrás. Chegando em casa. moreno. — Mãe. após um ano de namoro. No dia do meu casamento.. falta só uma semana para o nosso casamento! —Você não esperou até agora? — Sim. não podíamos ser vistos juntos. — Então espera até o casamento! Ovídio chegou em casa impressionado e contou para a mãe. arranjou uma filha? — Ela pode ser baixinha. elas dão até o pé! Eu sempre quis uma moça que não fosse muito fácil e essa é boa pra casar! Então. pois naquela época. meu irmão sumiu e Ovídio se ofereceu para me levar em casa. ao invés de arranjar uma esposa. Caminhávamos pelas ruas à um metro de distância. dei-lhe um “tabefe na cara”! — Sem vergonha!! – Bati forte e sem medo naquele homem alto.baile. não pode voltar à noite sozinha. Dinheiro 121 . No fim do baile.

mas a união e o amor de nossa família eram o alimento para a esperança de uma vida melhor. Muitos outros lugares foram testemunha de nossas andanças. Fazia nossa comida num fogão a querosene de apenas uma boca e o desemprego nos fez passar por muitas dificuldades. quando andava de bicicleta. apesar do coágulo no cérebro e de uma difícil cirurgia. então viemos para São Paulo só com as malas e as crianças no colo! Logo no início moramos num tipo de pensão. Fiquei desesperada. mas também do chão de terra batida. ao chegar do trabalho. até que faleceu! Vida dura.pouco entrava e os filhos chegavam de montão. trabalhando como faxineira e lavadeira. Com muita luta. tudo difícil. — Meu “véio”. trabalhando na lavoura de legumes.. seguiu na luta. pois ele bateu a cabeça nunca mais ficou bom. A idade já era avançada e num dia. Foi internado e descobriram o câncer. Carroceiro.. sofrimento permanentemente nos assolando o coração. Mesmo assim. conseguimos construir uma casinha de dois cômodos e um banheiro e lá vivíamos felizes com nossos sete filhos. Então. lavrador. que vinha não só dos lados. que “ocê” não tá “bão”! – Eu dizia a ele todos os dias. Já com os filhos criados fomos morar em Guaíra onde meu marido Ovídio foi atropelado por uma moto. Ovídio sentiu uma dor no peito que dizia atravessar toda a barriga. alugamos um barraco de tábua onde era preciso tampar as brechas das madeiras para segurar o frio. nenhum trabalho dava muito certo. Infelizmente foi piorando. não vai trabalhar não. mas 122 . com muitas “mulheres da vida” e um amigo aconselhou Ovídio a tirar nossa família dali.

Terezinha Gomes dos Santos – 78 anos 123 . certa de que apesar de quatro anos viúva.para quem ama e dá valor às minúcias de uma vida. no meu coração! Sra. ainda o “vejo” lindo. não lamenta. Relembro do quanto eu o amava. apenas recorda com saudades.

convidando a lanchar. Deles ela fazia um apetitoso pão-de-ló no fogão a lenha e o paladar. colhidos de ninhos feitos no meio do mato. lindas bonecas feitas 124 . com liberdade e sem maldade. soja. Brincava de verdade. que apesar de vendê-lo. criando e vendendo. Dele extraíamos o mel.RICA INFÂNCIA A lentidão da memória. transformava o lugar num paraíso divino. Vasculho a cachola e me deparo com um apiário. quando ainda rememoro. acelera e acalora. onde eu e minha família morávamos num sítio. mandioca e milho. algodão. Chego a sentir minhas lembranças. Do milho saía um inesquecível mingau. minha rica infância! Uma cena me leva até Valparaíso. galinhas e porcos. sempre rendia saborosas balas e pé-demoleque. além do cultivo do café. pelas galinhas caipiras. com o corpo molhado de um banho de rio. onde a diversidade de frutas aliada a sabedoria e trato de meus pais. Fuçando mais um pouquinho as recordações. Um sorriso escapa em meus lábios quando lembro de um cesto de ovos que minha mãe trazia. Criávamos cavalos. encontro um lindo pomar. Minhas mãos se mechem como se assim estivessem a confeccionar. Vejo minha mãezinha cuidando das hortaliças e era assim que vivíamos. plantando. é indescritível. que cheirava longe.

Meu sorriso se encolhe ao pensar nas crianças de hoje. Nada se compara à minha infância feliz! Sra. Nunca mais vi igual.com sabugo de milho e caroço de manga espada. Thereza Tizuko Inagaki – 67 anos 125 .

nasci de uma mãe calma e bondosa e de um pai. você é teimosa desde antes de nascer! – Mamãe sempre falava. carinhoso e correto. Quase morri. Pediu pacientemente uma. Tive muita sorte pois todos me paparicavam muito. duas. “zapt”. toda feliz. Um dia estava pulando sem parar. bateu com a tala sem dó no meu bumbum! Deus! Quanta dor física e emocional. Solicitou inúmeras vezes para que eu parasse. Caçula de cinco irmãos bem mais velhos. jogava as pernas para trás.TEIMOSA — Menina. apesar de enérgico. mesmo que fosse dentro de casa. mas como eu era muito teimosa não parei e ele. mas por todos que estavam presentes assistindo aquela cena desrespeitosa. Cada vez que pulava. pois nunca tinha apanhado em minha vida. foi ficando nervoso como eu jamais tinha visto antes. pegou uma tala. extremamente incomodado com a situação e com minha desobediência. Muito zangado. deixando aparecer minha calcinha. em cima da minha cama. três. pois onde já se viu uma menina deixar aparecer sua roupa de baixo tantas vezes. me tornando a intocável alegria da casa. desde que eu era criança. apenas para sua família. de tanto chorar! 126 . meu pai ficou furioso comigo. quatro vezes. um tipo de chicote de cavalo utilizado naquela época e impondo respeito não só por mim mesma. Claro que há setenta anos atrás.

desvendando o paradeiro da carrasca tala. apenas quando o guarda roupa foi deslocado em nossa mudança de casa. “Onde será que foi parar aquela “coisa” que feriu nossa linda menininha”? – Pensavam curiosos. mas esperta. porém. A consternação rapidamente trouxe uma grande ideia para minha irmã. Vilma Freitas Sena – 73 anos 127 . martelou um prego e pendurou a tala pela sua argola. Encostou silenciosamente o guarda roupa de novo na parede e bem discreta. voltou ao nosso encontro. pois minha mãe e meus irmãos também marejaram os olhos vendo meu espanto e sofrimento. O dia seguinte amanheceu mais calmo e todos procuravam aquele algoz instrumento que tanta dor causou à família. Tanto amor e carinho foi capaz de guardar o segredo e manter a curiosidade por quatro longos anos. imagino quantas talas seriam necessárias para conter desenfreadas mocinhas assanhadas que mostram gratuitamente. ficaram pensativos planejando algo para que cenas como aquela nunca mais se repetissem. nunca mais apanhei e confesso que na minha época. puxou o guarda roupa que estava encostado na parede. Pegou a tala escondida de todos. ninguém o encontrou. muito mais do que suas calcinhas.Aquilo doeu em todos. reflito se realmente ele estava certo. Pensando na atitude de papai. mas olhando para o mundo de hoje. raríssimas garotas mostravam suas roupas íntimas. Desde então. Teimosas? Não acredito! Vítimas da falta do amor próprio! Sra. O aborrecimento tomou conta da família e chateados com meu pai. não contou nada a ninguém.

128

Conta mais....

Compartilhando curiosidades
em dinâmica de grupo com
idosos

129

Simpatias
das décadas de 40, 50 e 60

Simpatia é uma forma de ritual, que pode ser
realizada por qualquer pessoa, a qual repete
palavras ou realiza ações previamente definidas. O
objetivo da simpatia é curar ou prevenir problemas
de saúde ou mal olhado.
Por
trata-se
de
crença
popular
sem
comprovação científica, as simpatias citadas neste
livro e fornecidas pelo grupo de idosos tem apenas
intuito de compartilhar curiosidades, recordações
e são meramente elucidativas.

COMO CURAR BROTOEJAS
Coloque a criança cuidadosamente dentro de
uma mala com tampa. Rapidamente, para que a
criança não fique sem oxigênio, tampe e destampe
a mala por três vezes.
Observe a brotoeja da criança, que sumirá nos
próximos dias.

***
COMO CURAR SOLUÇO DE BEBÊ
130

A medicina chinesa diz que a testa é o ponto do soluço. até que o soluço pare totalmente. Deixe-o na testa. por isso a simpatia faz efeito! 131 . na testa do bebê.Coloque um fiapo de lã bem pequeno. umedecido.

representado pelo ator Raf Valone. principalmente com sua sogra. representado pelo ator Gene Kelly junto com a personagem Lina Lamont. Como Sissi é uma jovem muito simples e natural. que promove a fama da linda e sonhadora jovem e também o romance entre os dois.Filmes famosos das décadas de 40. o personagem Franz Joseph. se preparam para lançar um musical. CANTANDO NA CHUVA: a transição do cinema mudo para o falado gera revolução em Hollywood e o personagem Don Lockood. após casar-se com um imperador. representada pela atriz Debbie Reynolds. é chamada para empresar sua voa à 132 . Sua linda voz atrai um jovem rico. então a personagem Kathy Selden. vende violetas e canta para distrair seus clientes. precisa aprender os costumes reais para estar à altura de acompanhar seu marido nas solenidades e enfrentar conflitos políticos. representado por Karlheinz Böhm. mas Lina não sabe cantar. vive momentos difíceis. representada por Romy Shneider. 50 e 60 LA VIOLETERA: a personagem Soledad. representada pela atriz Sarita Montiel. SISSI A IMPERATRIZ: a personagem Sissi. representada pela atriz Jean Hagen.

Um aventureiro. Don se apaixona por Kathy e junto com o amigo Cosmo Brown. tentam mostrar ao mundo o talento de Kathy. 133 . repleta de amores e desilusões. representada pela atriz Vivien Leigh. passa ela vida de Scarlet em uma relação de amor e ódio. representado pelo ator Clark Gable. Tudo acontece com cenas musicais memoráveis. representado pelo ator Donald O’Connor. E O VENTO LEVOU: a personagem Scarlett O Hara.Lina. repleta de conflitos e muito romance. o personagem Rett Butler. vive na época da guerra civil norte-americana.

Tipo de crença que leva o indivíduo a confiar que toda causa tem seu efeito. o visitante pode colocar mal olhado na criança e ela morrer de tétano. 50 e 60 Superstição é o ato de acreditar em algo incoerente. um bebê jamais pode ser visto por qualquer pessoa. pois como o umbigo ainda não cicatrizou. A partir do oitavo dia.Superstições das décadas de 40. Portanto. não lógico e sem qualquer fundamento científico. mas que surgiu de algum episódio acidental. pois ficará com a boca torta! MAL DO SÉTIMO DIA: acredita-se que o prazo médio de cicatrização do umbigo de um recémnascido seja de sete dias. jamais deverá tomar em baixo do sol quente. a visita à criança já está liberada. que não seja seu pai ou sua mãe. no sétimo dia de seu nascimento. TOMAR ÁGUA: quando alguém for tomar água. sapatos e presentes que um bebê ganhar antes do seu 134 . portanto. passa a adotar comportamentos exagerados e temerosos em relação a algo que popularmente acredita-se ser correto. HORA DO PARTO: todas as roupas.

nós ou amarrações. A mãe deverá desfazer qualquer um deles para que o parto não seja “amarrado”. 135 . difícil.nascimento não podem ter laços.

USAR TRAJE INADEQUADO NA IGREJA: somente poderiam usar roupas compridas e bem fechadas. Proibições das décadas de 40. 136 . BEIJAR E PEGAR NA MÃO ANTES DO CASAMENTO: caso isso acontecesse.. MULHER ANDAR DE BICICLETA: acreditavase que perderia a virgindade. MULHER USAR CALÇA COMPRIDA: vestimenta exclusiva dos homens. Costumes.Crenças. FALAR PALAVRÃO: desqualificava a pessoa. o casal deveria casar-se imediatamente.. ORIENTAÇÃO SEXUAL: em casa ou na escola. 50 e 60 Era proibido.

UMBIGO DE BEBÊ SALTADO PARA FORA: colocar uma moeda em cima do umbigo e pressionar com uma faixa. VARRER O LIXO: quando necessário varrer o lixo de uma casa.. pois acreditava-se que varrendo o lixo para fora. seriam varridos também os espíritos protetores da casa.Crenças e Costumes. isso jamais poderia ocorrer à noite.. de noite. 137 .

Lendas antigas SACI PERERÊ Lenda do folclore brasileiro muito popular. Saci ficará sob o domínio desta pessoa. derruba água sem encostar. Saci é um moleque travesso e muito brincalhão que gosta de fumar cachimbo. Dizem que nasceu em brotos de bambu. vive neles por sete anos. vira uma orelha de pau ou um cogumelo venenoso. Contam que fica escondido nas florestas a assustar os homens que gostam de destruir a natureza. Como seu gorro vermelho tem poderes mágicos. originária das tribos indígenas. Saci se esconde dentro de redemoinhos de vento e pode ser pego se alguém jogar uma peneira sobre o redemoinho. é preciso tirar seu gorro e colocá-lo dentro de uma garrafa. assusta as pessoas. acende a chama do fogão sem tocar nele e muitas outras traquinagens. mas o moleque é esperto e logo consegue roubar o gorro de volta. pode desaparecer. faz bagunça e esconde os objetos. Esse moleque levado não consegue ficar parado e vive aprontando de tudo. Se alguém conseguir tirar o gorro de sua cabeça. Entra nas casas. depois se liberta e vive por mais setenta e sete anos atormentando os homens e animais e quando morre. faz os objetos desaparecerem. usa um gorro vermelho na cabeça e tem uma perna só. Se for pego. 138 . Para que os homens maus não o capturem.

Como todo bom menino travesso. como abrir a porteira para soltar o gado. tem suas travessuras prediletas. queimar a comida e muitas outras. dar nó na crina dos cavalos. 139 .

Quando a Mula fica cansada. nas quais pisoteia com suas ferraduras de prata. volta e se transforma novamente em mulher. Destrói tudo o que vê pela frente. gritando como mulher e relinchando como uma mula brava. inclusive pessoas.MULA SEM CABEÇA A lenda da Mula sem cabeça veio para o Brasil pelos colonizadores e ainda é preservada nas regiões sudeste e nordeste do país. surgindo novamente uma mulher. Sua transformação ocorre na madrugada de quinta para sexta-feira e a Mula foge desesperada pelo campo. 140 . Conta a leda que toda mulher que namorar um padre será transformada em uma Mula com uma cabeça de chama de fogo. mas desta vez arrependida de ter namorado um padre. O encanto da Mula sem cabeça somente pode ser quebrado quando alguém tirar o freio de ferro que carrega. mas está toda machucada.

numa noite de terça ou sextafeira. tornando-se um homem para sempre. ele deixará de se transformar. Acredita-se que se alguém bater bem forte na cabeça do Lobisomem. tem orelhas compridas e é muito magrinho. o garoto é pálido. uivando como um lobo para a Lua. Dizem que se uma mulher der à luz a sete filhas e depois seu oitavo filho for um homem. esse último se transformará em um Lobisomem. Logo ao amanhecer. que mistura as formas de um lobo com as formas de um homem. uiva para apavorar a todos e apaga todas as luzes que encontra por seu caminho. Conforme se desloca. A partir daí o homem se transformará em Lobisomem todas as noites de terça ou sexta-feira e visitará sete encruzilhadas. sete pátios de igreja. até sua próxima transformação. o Lobisomem golpeia os cachorros. Suas formas de Lobisomem vão começar a aparecer a partir dos treze anos de idade. sete vilas e sete partes da região onde mora. 141 . O menino sairá de noite e se transformará pela primeira vez. logo após o seu aniversário.LOBISOMEM Lenda muito conhecida no folclore brasileiro onde a figura do Lobisomem é representada por um monstro. Ao nascer. o Lobisomem se transforma novamente em homem.

o português diz. ainda por cima mijaram nas minhas calças! 142 . de passagem pelo Brasil. Resolveu então levar um sorvete no bolso para ela. Pensou. todo nervoso: — Mas. Chegando lá. além de me roubarem o presente. pensou e pensou.. ele disse: — Maria. queria muito levar um presente para sua esposa Maria. enquanto o português fuçava no bolso da calça. De repente. trouxe um presente para você! Maria ficou olhando e esperando o presente.Piada antiga PRESENTE PARA MARIA! Um português..

Músicas Antigas O BOM RAPAZ Compositor: Geraldo Nunes Parece que eu sabia Que hoje era o dia de tudo terminar Pois logo notei Quando telefonei Pelo seu jeito de falar Eu nunca pensei Quem eu tanto amei Fosse assim me desprezar Mas o mundo é grande Vou não sei pra onde Alguém há de me amar Já que terminamos Só resta agora o adeus final Te amar demais. ser um bom rapaz foi o meu mal 143 .

OS VERDES CAMPOS DA MINHA TERRA Compositor: Claude Puiman Jr . 144 . Quero encontrar a sorrir para mim O meu amor na estação a me esperar Pegarei novamente a sua mão E seguiremos com emoção Nos verdes campos do lugar. Nos verdes campos do meu lar. E nos sonhos eu consigo transformar o frio piso do meu quarto Nos verdes campos do lugar. Neste instante que vivo a esperar sempre a sonhar na minha grande solidão. Quando o trem parar na estação Eu sentirei no coração a alegria de chegar. De rever a terra em que nasci E correr como em criança Nos verdes campos do lugar.Versão: Geraldo Figueiredo Se algum dia à minha terra eu voltar Quero encontrar as mesmas coisas que deixei. E revivo os momentos de alegria Com meu amor a passear. E revivo os momentos de alegria Com meu amor a passear. Nos verdes campos do meu lar.

ASA BRANCA Compositor: Luiz Gonzaga/Humberto Teixeira 145 .

ai Por que tamanha judiação Que braseiro. que fornalha Nem um pé de plantação Por falta d'água perdi meu gado Morreu de sede meu alazão Por falta d'água perdi meu gado Morreu de sede meu alazão Até mesmo a asa branca Bateu asas do sertão Então eu disse adeus Rosinha Guarda contigo meu coração Então eu disse adeus Rosinha Guarda contigo meu coração Quando o verde dos teus olhos Se espalhar na plantação Eu te asseguro não chores não.Quando olhei a terra ardendo Qual fogueira de São João Eu perguntei a Deus do céu. viu Meu coração Eu te asseguro não chores não. viu Que eu voltarei. viu Que eu voltarei. ai Por que tamanha judiação Eu perguntei a Deus do céu. viu Meu coração Hoje longe muitas léguas Numa triste solidão Espero a chuva cair de novo Para eu voltar pro meu sertão Espero a chuva cair de novo Para eu voltar pro meu sertão 146 .

Eva da Silva Carvalho. Eu te asseguro Não Chores não. Teresinha da Silva. Darcy Gorete Caixeta Ferreira. Cícera Maria do Amaral. viu meu coração. viu meu coração Idosos participantes das dinâmicas de grupo.Quando o verde dos seus olhos Se espalha na plantação Eu te asseguro Não Chores não. Joana Martins Venâncio. Sophia Hendrika Anna de Haan. Maria Soares Feitosa. Maria Geralda da Silva. Bertha Gomes Ribeiro. Meira Gomes. Edina Alves de Souza. Ruth Maria de Souza. viu? Que eu voltarei. Rita Sobreira. 147 . Dirce Bonelli Alfredo. Maria Socorro da Silva Neto. Solange Garcia Sanches Santos. Benedita Aparecida Leme. Yolanda Afonso das Chagas. Vilma Freitas Sena. Edméia Mariano de Araújo. Diva Imidia Dutra. Luiza Eliza Scatragli Crivelari. Divina Emídio de Oliveira. Maria Antonia Martinhão. Maria Celeste de Carvalho. Gersi Sales Giubilato. Maria Madalena Leandro. Matilde Aguiar Silva. Maria da Conceição Maia Oliveira. Maria Araújo Feres. viu? Que eu voltarei. Maria de Lourdes Fernandes. Olga Nascimento Tonon. Maria de Lourdes de Oliveira de Toledo. em oficina de memória. Isabel Pires Pacchini. Francisca Luiza Gimenez Cardieri. Maria Aparecida de Alkimim Carneiro.

Áurea Martins do Nascimento.Maria Regina Povreslo. 148 .

149 .

150 .

Contribuições extras 151 .

onde os cavalos eram levados por seus donos para pastar (nada de terreno abandonado e cheio de entulho. Havia um padeiro alemão que fazia uns pães ao gosto dos estrangeiros imigrantes e vendia-os de porta em porta.Ainda me lembro… … do DEPÓSITO DE CARVÃO. 152 .. O pão comum precisávamos ir comprar na venda (não era padaria). do uso dos CAVALOS. em uma carroça puxada cavalo... como coleta de lixo por exemplo. Os bairros possuíam muitos terrenos baldios. que era comprado em sacos na carvoaria. A maioria das casas tinha fogão a carvão. tudo tinha serventia).! .. Era muito comum o uso de carroças puxadas a cavalo para diversos fins. precisávamos ir até a carvoaria (nada de telefone ou internet) para fazer um novo pedido e o carvoeiro fazia a entrega em casa. com uma carroça puxada a cavalo. Recomendação importante do freguês (e não cliente) ao carvoeiro: — Não vai me entregar carvão com cheiro de xixi de gato hein. Quando ia terminando o carvão.

Para mim. além da compostagem que fazíamos.. das NOVELAS no RÁDIO. criança. O rádio do passado é extremamente diferente do rádio da atualidade.A maioria das famílias tinha horta em casa e como adubo. Mais tarde soube que era feio de doer e como ele mesmo dizia: — Como um homem tão feio pode querer trabalhar na TV? Também tinha Walter Foster.. Fernando Balleroni. Sônia Maria. mulheres de antigamente com seus problemas domésticos e 153 .. a radialista que fazia um programa de rádio chamado Consultório Sentimental. inspiradoras! Lembro muito de Sarita Campos. destacavam-se Lia Borges de Aguiar. olhando para os prédios de alto padrão que ocuparam os terrenos de Indianópolis (SP)? . também usávamos o esterco de cavalo. No início. Flora Geni. Vida Alves. era uma farra! Dá para imaginar tudo isso hoje em dia. no final de tarde. Yara Lins. Xisto Guzzi. o que não permitia erros por parte dos locutores e artistas.. De vez em quando ia com minha mãe. José Parisi. Sarita representava Madame d’Anjou. um outro galã com bela voz. Dionísio Azevedo e outros. Arrancavam suspiros apenas pelo rádio! Entre as mulheres. com lata e pá em punho catar esterco nos terrenos baldios em que tinham estado os cavalos. os programas eram transmitidos ao vivo. tudo feito na “raça”. César Monteclaro tinha uma voa linda de galã e sempre fazia papéis românticos. Os artistas de novela de rádio (era assim que se fala na época) eram muito famosos. uma conselheira que respondia às cartas enviadas pelas ouvintes.

Era uma tarde em Sevilha. meu toureador. Manolita. Quando uma dama. Era a mais graciosa filha. E a bela escutava com todo o prazer. quis da verdade. frases de amor. bem se inteirar. 154 . alza. diferentemente das mulheres de hoje em dia. cantada por Francisco Alves. meu coração teu será. Alza. formosa eu vi. a cartomante. Alza.sentimentais. Será teu por toda a vida. Coisas bonitas.. Vai à buena dicha e verás.. eis o Valete a afirmar. das MÚSICAS. Teu Pedro minha querida. Enquanto vida eu tiver.. As frases do guapo rapaz a dizer. Que dizia-lhe. foi consultar. Que as cartas não mentem jamais ! No outro dia a formosa. em chama voraz. Meu amor minha querida. alza. Manolita. A velha responde com toda firmeza. Como era muito curiosa. . Ao seu lado um garboso rapaz.. Um grande sucesso naquela época era a música Alza. Que belo tipo de toureador. daquela terra que estava ali. Manolita . Me ama com toda firmeza ou se ele jura um falso amor ! As cartas abertas ali sobre a mesa. Não serei de outra mulher. se Pedro. Eu quero saber com certeza.

Teu amor minha querida. Alza. Que as cartas não mentem jamais. Teu Pedro.. fora ferido. de Manolita. me enganar. Enquanto vida ele tiver. seu peito lhe estala. tudo na vida tem fim. Mas chega um dia um chamado. ficava ali. mil falsidades. uma noticia de entristecer. vai ele a Madri. Eis-me o Valete a afirmar. a cartomante vai consultar. ir à Madri. Enquanto vida ele tiver. Manolita. tristonha lhe fala. quer se vingar. toda chorosa. Vai à buena dicha e verás. A velha tremendo. rival nos amores. Será meu por toda a vida. não morre de amores por ti. Que Pedro queira. para o toureiro. As cartas abertas. Manolita. Chamado por outra. vê se meu Pedro pode escapar. Alza. Que as cartas não mentem jamais. Não será de outra mulher. Crê no que digo e verás. Que as cartas não mentem jamais !!!..Será teu por toda vida. Teu Pedro minha querida. na praça dali. Chega porém de Madri. foi teu sempre na vida. Reza por ele na paz. vai lhe contar. E diz-lhe em voz lacrimosa. Não será de outra mulher. Cacilda. estava a morrer. de Manolita.. O coração desolado. E pra causar dissabores. alza. 155 . teu Pedro acaba de expirar. não posso acreditar. Pedro.

.... Minha mãe dizia para não cantar jamais
esta música, pois tinha fama de dar azar.
***
... da CADERNETA. Antigamente, como a
maioria das famílias não possuía geladeira,
comprava-se o leite conforme a necessidade de
cada dia. Podia-se comprar duzentos e cinquenta
ml, quinhentos ml, um litro, ou mais, de acordo
com o tamanho da família. O mesmo acontecia
com o pão, feito em filão, que também podia ser
comprado aos pedaços. Essas comidas e outros
mantimentos eram comprados na “venda”, onde o
“freguês” levava uma caderneta (uma espécie de
caderno pequeno), onde o vendedor anotava a
compra efetuada e também num caderno grande
que ficava em seu poder. No dia do pagamento,
somava-se os valores do caderno do vendedor e
da caderneta, que deveriam bater, para o
“freguês” pagar sua conta.
... da MANTEIGA. Antigamente não existia
margarina, então, mamãe comprava a manteiga
na feira. A banca tinha pacotes grandes de
manteiga e vendiam em pequenas quantidades,
cem ou duzentos gramas, por exemplo. Para
conservar a manteiga por uma semana,
colocávamos em uma vasilha funda, coberta com
água e guardada em um canto fresco do armário
da cozinha. A água precisava ser trocada a cada
dois dias e para quem gostasse de manteiga
salgada, bastava colocar sal na água.

156

... do SORVETE de GROSELHA. Os sorvetes
eram feitos em sorveterias do bairro e os sabores
se restringiam ao creme, coco, limão e chocolate.
Eles eram encontrados em picolé ou massa,
servidos em copinhos. Até hoje não sei porque o
sorvete de groselha era vendido somente no
palito, mas era o mais delicioso, principalmente
porque chupávamos aquela groselha geladinha,
até que no palito não restasse nada além de gelo.
AINDA ME LEMBRO, de meus melhores dias...
Sra. Bertha Gomes Ribeiro – 76 anos

157

Como meu pai conheceu minha mãe!
Vila Meriti, 11/09/1941.
“Aos dezoito dias de janeiro de um mil
novecentos e trinta e nove, eu, o Senhor Walter
Gomes dos Santos conheci a Senhorita Elza
Anacleto, da seguinte maneira:
Passando na Rua Santo Antônio nº 29, a qual é
hoje nº 179, no dia dezoito de janeiro do ano de
um mil novecentos e trinta e nove, estando Elza
Anacleto e sua irmã Arlete na janela de sua casa,
parei e cumprimentei na seguinte maneira:
— Boa tarde senhoritas! – E segui meu
caminho.
Dois minutos após tê-las cumprimentado elas
vieram em meu seguimento. Em certa distância,
atrás da casa das senhoritas, existia uma vala,
onde todos ali paravam e tinham que pular para
que pudessem prosseguir seu caminho. Ao chegar
na dita vala, parei e fiquei esperando as senhoritas
que se a aproximavam. Ao chegarem, dirigi-me
para as senhoritas e perguntei a elas:
— As senhoritas permitem que eu lhes dê a
mão para que possam pular a vala? Uma das
senhoritas respondeu-me:
— Aceito cavalheiro.
Eu mais do eu depressa estendi a mão para ela
e a auxiliei a pular a vala. No momento em que
158

auxiliei a pular a vala. apresentei-me às senhoritas e uma delas respondeu-me. irei falar com eles. Ela aceitou e assim começou o nosso amor! . Chamome Elza Anacleto. Helena dos Santos Tofino – 67 anos 159 . sua criada. nos seguintes termos: — Tenho imenso prazer em conhecê-lo. Eu então perguntei a ela se era comprometida e ela respondeu-me que não. com este corpo todo tem somente treze anos? — Sim e papai não quer que eu namore! Eu então respondi na seguinte maneira: — Mas se a senhorita quiser nós podemos namorar escondido dos seus pais e quando você tiver idade suficiente.. — Mas a senhorita.. pelo pai da Sra. —Mas porquê? Ela respondeu-me que ainda era muito nova para pensar em tais coisas. —Que idade tem a senhorita? —Tenho somente treze anos. Então perguntei se ela não tencionava se comprometer e ela respondeu-me que não. Carta escrita em 1941.

160 . quando ainda criança e residia no Ceará. Maria Lucimá de Sales – 72 anos. mistura de vários alimentos “Bagacura” = bagunça “Só quer ser as pregas” = gente muito exibida “Gafeira” = pele irritada e com feridas “Pireba” = feridas “Engrisia” = é um nó mal feito “Fute” = é como é chamado o demônio “Califon” = sutiã “V 8” = calcinha Palavras comumente mencionadas pela mãe da Narradora.Dicionário da mamãe o o o o o o o o o o o o o o o o o “Amendrogado” = encaroçado “Assuberbava” = transbordava “Zambeta” = pernas tortas “Assarampalada” = pessoa meia doida “Langanho” = tecido desfiado ou rasgado “Bigode de arroto” = bigode ralo “Gramichó” = homem baixinho e magro “Esgulepado” = guloso “Trangolino” = o mesmo que gororoba. Sra.

era mais atilado! 161 . Tem começo em uma cova perto de uma portera. desta cova subindo pelo córrego até a bocca do rego. no pé de uma árvore com o mesmo Antenor. desta torcendo a direita até uma outra cova. e não proletário. deste córrego abaixo com as águas de Bertholdo e com Bertholdo e Cia Honararia da Costa e João Netto e Carlos Carvalhaes.Escritura de imóvel! Hoje em dia. da imensidão sem fim. dizia assim: “4 alqueris de terras. até onde começou. de tão bem dobrado. O papel amassado. ninguém imagina. mais o menos. em rumo a uma outra na beira do córrego. que vai para esquina. desta em rumo a uma quadra no fundo do café desta cova. Uma casa di chão. coincidindo com o mesmo Antonor. num papel com nanquim. Álvaro Gonçalves Chaves – Escrivão” E este é o retrato. chamado escritura. no “fio do bigode”. coberta de telha. que apesar do esculacho. descrita à mão. que alguém poderia ser dono assim! Comprar uma terra. se esbanjava orgulhoso. 1 alqueirs de café mais ou menos. O Senhor proprietário. de um Brasil já passado. cocidindo com Antenor Bandeira.

aproximadamente.Parte de uma escritura do ano de um mil e oitocentos. pertencente a Sra. oitenta e dois anos. Os erros ortográficos contidos no documento foram mantidos e transcritos para conhecimento do leitor. Geralda Martins. Parte de documento fornecido por Ruth Maria de Souza – 66 anos Texto de Nãna Damino 162 .

não deixe sua vida parar”. “Cuidado com a ingratidão.Provérbios “Para a saúde melhorar e o sustento não faltar. ela provoca dor aos outros e faz mal ao seu coração”. Meira Gomes – 77 anos 163 . Sra.

ai solidão de gente bamba é Em Um pandeiro e um cavaquinho Dm G7 Solidão é meu último amor C Cm Sei que hoje eu sofro Bm E7-9 Sofro com razão A7 D7 Por ter magoado seu coração G7+ Gm6 Vivo solidário F#m5-7 B7 Em Com a minha dor Dm G7 Meu cavaquinho é quem me consola 164 . como um grande amor C Cm Tantas mulheres me amaram Bm E7-9 E só a você A7 D7 Foi a quem amei G7+ Gm6 F#m5-7 B7 Ai. ai.Um pranto solitário Música .Samba G7+ Gm6 Solidão F#m5-7 B7 Em Alojou-se em meu coração Dm G7 Foi se instalando.

C Cm Bm E7-9 A7 Chora junto comigo toda minha dor D7 G Desse grande amor Composição: Sra. Helena dos Santos Tofino – 67 anos 165 .

Cuidava de aproximadamente cem vacas e para aliviar o sofrimento que as larvas da mosca varejeira causavam. preparava uma espécie de “mingau” feito de óleo de carroça e fumo. Um “santo” remédio! Contribuição do Sr. Mauricio Simões de Lima – 73 anos 166 ..Tratamento de bernes . nos locais onde se depositavam os bernes. O preparo ficava grosso e era aplicado sobre a pele de cada uma delas. a aplicação se repetia por dois dias consecutivos e a cada três meses. lembrei da época quando era retireiro e precisava tratar os bernes que acometiam as vacas. fazendo cavidades e se alojando na pele dos animais.. Para garantir o sucesso do tratamento.

a história de Vicente Fino. Ao olhar os ossos deitados no arroz com feijão. não resistiu ao gostoso cheirinho. o menino disse que a mãe ao lhe fazer o prato. sem ao menos nada lhe perguntar. perguntou porque ele a estava matando e o marido desaforadamente. mandando-lhe apenas aquilo. arrumando os ossos da galinha limpinhos. perguntando bravo. Faminto. se achava todo sabido. Ao encontrar o pai. ouvindo dona Artemísia contar. havia um casal com seu filho.“Vicente fino” Como se meus ouvidos estivessem agora. Na hora do almoço a esposa contente. comeu a mistura rapidamente. preparou-lhe um prato bem gostoso e quente. entregou o prato descaradamente. o que era aquilo? Ligeiramente. o menino Vicente. O menino durante o caminho. mandando o filho ao pai rapidamente. todo contente! 167 . Velozmente. o homem voltou para a casa sem pensar e com uma foice desferiu um golpe na esposa. olhando a comida desapontadamente. estava com outro homem e distraidamente. o homem olhou para o menino. que hoje vou te narrar: Lá longe no Nordeste. Certo dia o pai de Vicente foi trabalhar na roça como sempre. sob o arroz e o feijão ainda quentinhos. o homem desamarrou o pano que a embrulhava ardente. A esposa já agonizando. Este chamado Vicente. contou-lhe a história de Vicente.

na linguagem popular 168 . conheci o rapaz na minha vizinhança. que na noite de lua cheia andará sete 12freguesias. . de tão pálido e franzino. dizendo ao filho querido. O tal mentiroso menino. Maria Lucimá de Sales – 72 anos 12Freguesias: lugares ou bairros. que estava morrendo inocente. a mãe rogou uma praga em Vicente. apelidaram de Vicente Fino! Sra.Ainda lhe restando vida. um bicho guloso e feio.“Por sete anos será lobisomem. comendo pomposo só as galinhas! ” Eu ainda criança.

Em nome do Pai. Sra. do Filho E do Espírito Santo. Ruth Maria de Souza – 66 anos 169 . uma reza decorada que era pronunciada quando as pessoas estavam com mal-estar.Reza para quebranto Antigamente era muito comum as pessoas falarem em Quebranto. Amém. de crença popular. Geralmente a pessoa sentia fraqueza e um desânimo que diziam que melhorava quando a reza. Uma das rezas que conheço é assim: Bom homem deu-me a pousada. ocasionado por mau-olhado. Que fique teu quebranto. era proferida. E a má mulher fez a cama. Entre a palha e a lama.

minhas filhas e o GAIA. bem como com os preparativos religiosos. garantidor de experiência 170 . que surgiram ao longo de minha vida. adoro conversar. a terra da garoa. Tal exemplo arraigou muito aprendizado na pessoa que me tornei. Minha descendência italiana certamente influenciou meu ser. onde São Paulo. meu único e grande amor. preocupadas em amparar os mais pobres da comunidade. Jaqueline e Tatiane. minhas habilidades e inclinações. pois assim como papai. Aos trinta anos almejei realizar um projeto significativo de vida e decidi regressar aos estudos. ainda possuía água para originar bons frutos. impulsionando os trabalhos que realizo diretamente apoiados por Deus. ao voluntariado e muita oração. me tornando realizada como mãe. A aspiração em realizar-me profissionalmente impulsionou meu trabalho no Conselho Tutelar. onde o atendimento a crianças violentadas e desamparadas garantiram desmedido aprendizado. ingressando na faculdade de Serviço Social. além da forte personalidade.Semeando a vida Minhas sementes foram arremessadas neste mundo há quarenta e nove anos atrás. esposa e profissional. Realizei sonhos graças a meu esforço e meus impulsos e dentre eles estão Fernando. relacionar-me com pessoas e principalmente cantar. Cresci em uma família imperada por mulheres pujantes e voltadas para a assistência ao próximo.

Perseguindo meus sonhos. que abastecem minha vida de felicidade. Sônia Maria Vicentini Fernandes – 49 anos – idealizadora do GAIA 171 . algo dentro de meu ser vibrava por um Projeto de Vida. arremessou há dez anos suas sementes ao mundo. Entusiasmada. resultando no nascimento do GAIA. resultando de sonhos. fidedigno a meus propósitos e minha postura característica. optando em trabalhar na região do Grajaú. o ESCUTAR e o PROMOVER a autonomia das pessoas. instalando uma instituição que tanto desejava para realizar meus propósitos. pois hoje amparamos a muitos e também muito somos auxiliados. alma e coração. conversei com algumas pessoas sobre meus planos e selecionei aquelas que realmente vislumbrassem sua prosperidade. fazendo todos parte de um sonho possível de se realizar. semeando e desenvolvendo o ACOLHER. onde pudesse realizar a experiência cultivada em minha caminhada. decidi retornar minha atuação junto à comunidade. identifiquei um galpão próximo de minha casa e dele almejei poder tomar conta.para arriscar cumprir pugno trabalho. os que surgem ou se desligam e também os crédulos colaboradores. ocasião ímpar de aprender efetivamente realizando o serviço social. porém ilusório junto a Prefeitura. instituição que assim como eu. Alcancei doze convictos de que minha ideia poderia crescer. Convicta de meus objetivos éticos e humanitários. Apesar da intensa realização. junto com as Irmãs Paulinas. ramificar e frutificar. Agradeço a Deus por abençoar nossa peregrinação. glorificando o porvir.

172 .

Vejo-me em uma cena hoje para mim considerada cômica. também identifiquei recordações que estavam guardadas há anos. Lembro 173 . mas com certeza trágica para uma garotinha aos quatro anos. dei-me ao luxo de fechar meus olhos por uns instantes e relembrar. vivendo a magia do recordar. não há como não se contagiar com tanto aprendizado. Mamãe era motorista novata e só de saber disso.Revivendo minhas lembranças .... que emergiram através da oficina de memória que pude desenvolver com os idosos.. já ficava medo. Eu e minha irmã Patrícia embarcamos no seu fusquinha branco e corri para entrar no buraco que fica atrás do banco. Nunca imaginei que coletar histórias de idosos proporcionasse uma oportunidade de reviver minhas próprias lembranças. valorizando aquilo que ficou para trás e que certamente construíram o que sou hoje e o que serei amanhã. com apenas quarenta e cinco anos. nem como esquecer minhas próprias lembranças. O leitor talvez esteja se perguntando: “Se este é um livro escrito a partir de histórias contadas por idosos. porque sua própria escritora. Consigo vivenciála como se estivesse lá. também inclui sua narrativa? ” Muito simples. Estou sentada escrevendo este livro e em meio às várias histórias fascinantes. que apesar de ter vivido apenas parte de minha vida.

seguramente a situação não era nada satisfatória. pingando no chão. ao lado de um riozinho. Que arrependimento ter saído com ela no fusquinha.! Um barulho forte anunciou algo bater na frente do carro. caso ela perdesse a direção. O estrondo percorreu todo o teto do fusca.que mamãe dirigia por uma rua. 174 . Naquela época existiam muitos rios e córregos não canalizados e nossa casa ficava muito próxima de alguns deles. nem ouvir nada. sem nenhum perigo e ela dirigia devagarzinho. Claro que nessa circunstância. Mamãe dobrou à direita numa rua conhecida como Rio Azul e me senti aliviada. Se ela gritou. Mamãe desceu do carro apavorada e de repente gritou: — Matei. enquanto nós três entrávamos em pânico. a rua terminou e acreditei que o risco de um acidente estava descartado.. só queria sumir dali e fingir que aquele dia não existiu. Agarrei minha irmã e fiquei estática.. pum.. sem olhar para nenhum lugar nem mexer qualquer parte do meu corpo. o que dava ainda mais medo. —Ai meu Deus do céu – gritou minha mãe. Ela realmente matou alguém!? Não queria ver nada. Ufa.. pois além de ser uma rua de terra. matei! Meu Deus. batendo por toda lataria. Que pavor. matei alguém. Logo que o carro virou a esquina.. Mamãe agachou próximo à porta do carro e levantou aterrorizada. não havia nada que segurasse o carro. Um sangue cor de rosa escorreu pelos seus dedos e entre os fios de cabelo. segurando um chumaço de cabelo na mão. pois o caminho era asfaltado. agarrei mais ainda minha irmã e começamos a chorar.

Mamãe colocou a atropelada no carro e continuei agarrada à minha irmã. se acalme. onde fizeram curativo no dedinho do pé da moça. Acalmese. mas certamente refletiu na motorista que sou hoje. — Estava carregando um saquinho de leite B e quando me atropelou. por isso está desta cor. para ser melhor em meu amanhã. E a história hoje em dia é só risada. o saco estourou. — Moça. Acredito que o leite misturou com o meu sangue. o único responsável por toda aquela sangueira. Dirigiu como uma doida para um Pronto Socorro que havia bem pertinho dali. — Então. assim como muitas histórias reveladas neste livro. A senhora não me degolou! — Mas e esse sangue cor de rosa? Nunca vi alguém ter sangue dessa cor. A senhora me atropelou e acredito que ao bater no seu carro. Eu não morri. — Moça. não é uma cabeça. seguramente proporcionaram grande aprendizado que levarei adiante. ouvimos uma voz. minha peruca saiu da cabeça. Nãna Damino – 45 anos – Escritora 175 . é uma peruca. o que é essa cabeça na minha mão? – Perguntou mamãe à uma moça toda desalinhada que saiu de trás do fusca e dirigiu-se a ela.De repente. moça.

... entendo que é momento de um novo começo. Mestres da Vida! 176 .... de novas oportunidades e imenso aprendizado se nos dedicarmos aos verdadeiros.Embora este seja o fim de um livro.

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