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A consciência ao se alimentar como garantia
para a saúde e o futuro da vida na Terra

Dr. Mareio Bontempo

Alimentação para um Novo Mundo

A consciência ao se alimentar como garantia para a saúde e o futuro da vida na Terra

EDITOR

A

RIO

DE

JANEIR O

2003

RECOR

SÃO

PAULO

D

Este trabalho foi inspirado no exemplo de vida de Roberta, minha esposa, e a ela é dedicado, com todo o meu amor e gratidão.

SUMÁRIO

Prefácio (por Michio Kushi) Apresentação — Contribuindo para um mundo melhor

PARTE I

1. Introdução Por que adotar uma alimentação vegetariana Por que não comer carne

2. Um cardápio industrial: fast food, açúcar, corantes, irradiados, transgênicos, etc. Como pagamos a conta Alimentos sintéticos e aditivos químicos — O perigo disfarçado Agrotóxicos — Dá para viver com eles?

O que há de errado em consumir leite e seus derivados

A polêmica dos alimentos transgênicos

Alimentos irradiados

O que mais evitar na alimentação industrializada

3. Comendo bichos — Quem é o animal? Histórias para boi morrer

É a ave um vegetal?

Quem é o porco? Os bichos embutidos Comer peixe é uma alternativa? Conclusões sobre a covardia em relação aos animais Resultados dos prazeres da carne

MÁRCIO

BONTEMPO

Curiosidades do mundo dos criadores de animais

Direitos dos animais

Animais de testes de laboratório — As piores atrocidades

O que podemos fazer para evitar os testes com animais

Declaração Universal dos Direitos dos Animais

Como ajudar os animais — Um resumo

PARTE I I

Pesquisas atuais sobre saúde e notícias a favor do

vegetarianismo

Consumo de carne e osteoporose

O vegetarianismo nas religiões e filosofias

Ajude a salvar e a melhorar o mundo

O

impacto ambiental do consumo de animais

Como obter os nutrientes necessários

Vitaminas

Proteínas e aminoácidos

Minerais e microminerais mais importantes

Cardápio para reposição de proteínas, cálcio, ferro e zinco

para homens e mulheres entre 25 e 60 anos

Fontes vegetais de nutrientes

Alimentação adequada para gestantes

Alimentação adequada para atletas e desportistas

Alimentação para pessoas em fase de crescimento

Como prevenir carências nutricionais através de suplementos

— Um suplemento "veggie"

Os bons alimentos

'Alimentos funcionais" — Uma novidade muito antiga

ALIMENTAÇÃO

PARA UM NOVO MUNDO

Cereais integrais Verduras, iegumes, raízes e turbérculos Frutas — A comida que é o melhor remédio Brotos germinados Enzimas

10. Dieta para um novo tempo

Dicas gerais para uma boa alimentação

í I. Receitas práticas, nutritivas e deliciosas

Sumário das receitas

12. Endereços úteis, sites e e-mails afins

13. Obras consultadas e recomendadas

PREFÁCIO

D e vez em quando surgem livros que nos impressionam e mudam profunda-

mente a nossa vida. Existem diversos exemplos, como A Modest Proposal, de jonathan Swift, no início do século XVIII , o Erewhon, de Samuel Butler, no sé- culo XIX, o Macrobiótica Zen, os livros de Georges Ohsawa, já no século XX , D/et For a New America, de John Robbins, que há poucos anos produziu uma verdadeira revolução dietética em prol do vegetarianismo consciente na Amé- rica do Norte.

Este novo livro de Mareio Bontempo segue essa tradição, oferecendo ao consumido r modern o uma quantidade d e informações úteis e d e primeira li- nha quanto aos nossos hábitos alimentares. O estilo levemente irônico, mas embasado em sua ciência médica, confere um tempero especial à obra, que

acaba tratando a questão do vegetarianismo de modo consistente. O lado sa- tírico do livro tem notável importância, e funciona como uma crítica aos valo- res inversos da sociedade. Ainda mais agora, quando surgem obras antagônicas

à defesa de uma nova vida, como a recém-lançada nos Estados Unidos Saving

the Planet with Pesticides and Plastic (Salvando o planeta com pesticidas e plás- ticos), que na verdade é uma reação infundada e desesperada da indústria far- macêutica e da agropecuária industrializada contra o movimento em prol da alimentação orgânica e da saúde holístíca.

Alimentação para um novo mundo apresenta uma análise penetrante dos hábitos alimentares e do comportamento da sociedade moderna, alertando o leitor para a sua responsabilidade quanto ao futuro do mundo. Em uma abor- dagem muito sensata e divertida, o autor propõe a restauração da saúde mun- dial em todos os níveis possíveis: individual, familiar, social e ambiental.

Como médico, Mareio Bontempo apresenta uma profunda, inusitada e incomum compreensão da medicina moderna, sendo que a sua descrição sobre o efeito dos alimentos industrializados na saúde humana, bem como o das drogas, remédios e produtos químicos, presentes no meio ambiente e utiliza-

MÁRCIO BONTEMPO

dos pelo homem (tanto em si mesmo como nos pobres animais), torna a lei- tura mais que excitante e motivadora de reflexões. O livro todo é uma crítica bem fundamentada à dieta moderna, rica em produtos animais, com elevados teores de gorduras saturadas e colesterol, açúcar refinado, sal industrial, fast food e alimentos altamente processados (in- cluindo irradiados e transgênicos), apontados como agentes da onda de doen- ças degenerativas que ameaçam e têm prejudicado a saúde individual, familiar e da humanidade. Assim como Hipócrates, Hufeland, Sagen Ishizuka, Georges Ohsawa e outros pioneiros, Mareio Bontempo resgata nesta obra o nosso potencial de autodeterminação e autocondução, ao mesmo tempo em que encoraja o lei- tor a assumir a responsabilidade sobre a sua saúde e o seu destino. Lendo as suas advertências e sugestões, nós nos sentimos capazes de fazer valer o nos- so direito de liberdade em relação às nossas escolhas, de ser naturalmente sau- dáveis neste planeta e juntos criar, enfim, um mundo de saúde e de paz.

45

MICHIO KUSHI*

Brookline, Massachusetts

Junho de 1999

*Michio Kushi é atualmente o mais importante representante da alimentação baseada na filosofia do Principio Único e da Ordem do Universo. Foi discípulo direto de Georges Ohsawa e tornou-se, principalmente nos Estados Unidos, o grande mestre inspirador do desenvolvimento de uma ali- mentação mais consciente. Com mais de cem obras publicadas em cinqüenta anos de dedicação à causa da Macrobiótica. Michio é hoje procurado por pessoas do mundo inteiro, em busca dos seus ensinamentos. Fundador do Kushi Institute. em Becket, Massachusetts, EUA, e do movimento paci- fista One Peacefui Worid, já fez milhares de discípulos, entre elesjacques de Langre (Do-ln), Herman Aihara e Michei Abshera (Georges Ohsawa Macrobiotic Fundation), Wiflian Dufty (autor do livro Sugar Blues), John Robbins (autor de Diet for a New America), Flávio Zanata (Brasil) e o autor desta obra, seu discípulo direto, Mareio Bontempo.

APRESENTAÇÃO —

CONTRIBUINDO

PARA UM MUNDO

MELHOR

'A paz no mundo, ou em qualquer outra esfera, resultará, principalmente, de nossa atitude mental, O vegetarianismo pode nos proporcionar essa

Ele expressa um modo de vida aprimorado que, se

for praticado universalmente, poderá conduziras nações a um convívio

melhor, mais justo e mais harmonioso."

atitude adequada à paz

UTHANT

O

sonho de um mundo perfeito, sem violência, fome, dores ou sofrimentos,

é,

certamente, aígo que qualquer cidadão deste pequeno planeta almeja. Hoje,

centenas de milhares de movimentos — sejam de cunho ambientalista, social, religioso, filosófico, caritativo, governamentais ou populares oficiais ou não — dedicam-se a esse fim. Grandes quantias, compostas de verbas de várias ori- gens, são investidas no combate à fome, às doenças, às calamidades naturais, etc. Tudo voltado para a luta por um mundo melhor. Apesar disso, mesmo com

resultados razoáveis, continuamos a assistir, a ler, a ouvir histórias sobre violên-

cia, fome, dor pecíficos e gerais.

O esforço global pela paz, por exemplo, que envolve setores variados da

Que r dizer, o mesmo de sempre e com alguns agravantes es-

comunidade mundial, parece frágil e impotente diante de fatos como os re- centes ataques terroristas aos Estados Unidos. Não nos referimos aos ata-

ques propriamente ditos, que representam um ato deplorável e abjeto, mas

a reação de um presidente da república, incitando o revanchismo e o ódio e

usando o "orgulho nacional ferido", como justificativa para dar vazão a impul-

sos neuróticos obscuros e a escusos interesses imperialistas, bélicos, ou sabe-

se lá o que mais. Os mesmos interesses e impulsos que criaram desigualdades

socioeconómicas entre as nações, provocando a ira dos esfomeados ou injustiçados. Dessa forma, desfalecem as nossas esperanças pela paz e por um mundo diferente.

MÁRCIO

BONTEMPO

N o entanto, em todo esse contexto uma importante reflexão raramente é lembrada. Mesmo que determinados e fortes, os movimentos são sempre iniciativa de um grupo e não de um indivíduo. A Grande Revolução, a única que pode realmente mudar o mundo, é a revolução pessoal. A única que jamais poderá sofrer repressão, e que aponta para uma "desidentificação" progressi- va com os valores do mundo material e da cultura vigente alienante. É o ho- mem negando aquilo que historicamente o manteve afastado da "verdade verdadeira" (diante de tantas "verdades" inventadas pela mentira), tornando-o incapaz de centralizar a atenção em si mesmo. Ao contrário, inventaram-se milhares de formas de distrair a sua atenção, com milhares de atrativos, mira- gens e promessas vãs. Desde a idéia da riqueza, das vantagens do conforto, da luxúria, do poder, etc., o homem tem sido iludido. Ainda que as mais profun- das filosofias, sempre disponíveis, tenham revelado que as miragens do mun- do só levam, no meio ou no final da história, à dor e ao sofrimento, insiste-se em buscar essas falácias.

Está bem claro que a ambição humana, o egoísmo e o desejo são a base

de toda dor e de tudo o que acontece de ruim no mundo. A pobreza nada mais é do que a antítese da riqueza, uma vez que os seus valores e essências

pobre sonha em ter dinheiro, e luta,

como se isso fosse resolver todos os seus problemas. No outro extremo, no entanto, os valores se revelam iguais, pois o que é aparente solução para o pobre é problema real para o rico (quanto mais se tem mais insensível se fica e mais complexa se torna a vida), E nesse círculo vicioso, as pessoas, em todas as

são exatamente os mesmos. U m homem

épocas e circunstâncias, são envolvidas.

A "luta pela vida" embruteceu o homem. Tornou-o insensível. Deixou-o tão centrado na própria angústia de existir que anestesiou a sua capacidade de reflexão e discernimento. Hoje ele é um agressor da natureza. Acha que pode ser dono da terra, dos animais e de tudo o que existe. Exaure da natureza matérias-primas que um dia não mais existirão, devolvendo-as em forma de venenos e toxinas capazes de pôr em risco a vida como um todo.

Não há mais solução centralizada em ações de grupos ou grandes movi- mentos sociais ou religiosos (neste setor, os choques entre as diversas seitas, crenças e o fracasso do ecumenismo já selaram esse caminho). Mesmo que Jesus, Buda, Krishna ou outros avatares se manifestassem agora, na tentativa de "salvar" a Terra do colapso, teriam de enfrentar sérias dificuldades e talvez nada conseguissem.

ALIMENTAÇÃO

PARA UM NOVO MUNDO

A revolução pessoal, isto é, a auto-reflexão ou mudança interior, é a nossa única saída. Começando pela "desidentificação", ela produz resultados a partir da premissa de que, "se eu quero mudar o mundo, devo começar por mim mesmo". Ato contínuo, é só procurar ver em si mesmo como o mundo e os seus valores estão ligados. Se observarmos os hábitos, o comportamento, o tipo de diversão, de atividades, etc., vamos verificar que "nós somos o mun- do". A chave para a transformação está em nós mesmos. Isso se torna claro à medida que praticamos a auto-observação.

Muitas filosofias que apontam em direção ao autoconhecimento, à supe- ração do universo conceituai, à compreensão do funcionamento da mente trivial

e do ego material mundano (formado, moldado e condicionado desde a mais

tenra infância) podem nos ajudar nesse caminho. A maior parte delas mostra que os "grandes problemas" existenciais não podem ser resolvidos, pelo me- nos como a nossa mente trivial imagina e muito menos através de quiméricas "grandes soluções". Convém ressaltar que não estamos falando de "auto-aju- da", mais uma falácia ineficaz e decepcionante, mais um artefato da mente

discriminativa, ou seja, muito mais um treinamento para o infeliz acreditar que

é feliz

Precisamos apelar para a dialética relativista e entender que, para "grandes problemas", precisamos de pequenas soluções. Assim como tudo o que há de aparentemente complexo na vida é composto por uma teia de pequenas coisas infinitamente menores e as grandes verdades, uma vez compreendidas, mos- tram-se extremamente simples, também é possível simplificarmos a nossa vida. Portanto, se queremos um mundo mais suave, tranqüilo, saudável, o ca- minho parece ser o oposto ao da intelectualização ou da adoção, de um siste- ma racional ou fundamentado em teorias complexas, best sellers, revelações, preceitos, rituais, hipóteses, correntes de pensamento, profetas, gurus, etc.

Tudo o que pode alienar-nos de nós mesmos, despertando nosso poder pessoal de discernir e experienciar a vida e de captar as impressões do exterior de forma completamente pura, sem os filtros dos "pré-conceitos", das idéias pré-formadas e de quaisquer informações registradas, nos levará a trilhar o autocaminho. Teremos aí a única chance de ser autênticos e de fazer com que as impressões absorvidas tenham uma legitimidade indelével e irrefutável. Em termos práticos, então, como isso funciona? O autocaminho é deter- minado pelo próprio autocaminho. Não existem caminhos; eles são feitos ao

se caminhar

com os próprios passos.

MÁRCIO

BONTEMPO

Mas dicas podem ser dadas. Se quiser tentar comece pelo mais simples em sua vida, o mais básico, que

é o tema deste trabalho: a sua comida! Se observarmos bem, o alimento é a coisa mais necessária à manutenção do corpo. Comer é o primeiro ato da nossa vida depois de respirar.

Hoje os habitantes da Terra não se alimentam mais obedecendo às leis da natureza, mas aos seus desejos e aos seus impulsos de satisfazer sensações. Seleciona-se o alimento muito mais com base no prazer que ele pode propor- cionar do que na sua capacidade nutritiva ou nos seus benefícios. E a indústria alimentícia trabalha justamente em cima disso, criando miríades de formas de atrair e incrementar o consumo.

Podemos afirmar que atualmente temos apenas dois tipos de alimentação:

a burra, centrada apenas no prazer oral excessivo, e a inteligente, baseada em

escolhas esclarecidas e saudáveis. Infelizmente, a primeira não afeta somente os seus adeptos — cerca de 98 % da população mundial — , provocando pro- blemas de saúde já tão conhecidos: doenças cardiovasculares, câncer, degene- rações, mal de Parkinson, Alzheimer, radicais livres, osteoporose, etc., etc. (Há cerca de dez anos, o Departamento de Saúde dos Estados Unidos anunciou que 68 % das doenças modernas tinham como causa a dieta industrializada.)

Ela afeta a vida como um todo, a começar pelo meio ambiente e pela herança genética (o genoma) das futuras gerações.

Portanto, quando observamos alguém saboreando um hambúrguer com uma Coca-Cola, ou algo similar, enganamo-nos imaginando que ele está pre- judicando apenas a si mesmo, entupindo-se de colesterol, hormônios, antibió-

ticos, toxinas e outras especialidades próprias do fast food (veja adiante como isso acontece). Lamentavelmente, não é assim. Sem que possamos nos dar conta, o impacto daquele alegre lanche (alegre só no começo, pois a carne gordurosa, a maionese, o ovo encharcado, o queijo derretido logo provocam

) pro-

duz efeitos mais tristes do que podemos supor — seja no meio ambiente, na manutenção e crescimento da fome mundial, na violência, na injustiça social e no enfraquecimentoracialhumano, conforme ficará demonstrado mais adiante.

Sendo um dos nossos temas centrais, o consumo de carne é uma das prin- cipais causas da fome, da dor, da destruição do meio ambiente e da violência. Ao optarmos pela adoção de uma dieta totalmente livre de produtos de ori- gem animal, estaremos contribuindo para transformar o mundo.

enjôo, irritação gástrica, sensação de plenitude, fermentação, flatulência

ALIMENTAÇÃO PARA UM NOVO MUNDO

Este trabalho vai mostrar que a forma como nos alimentamos, como sele- cionamos os nossos alimentos, é o primeiro e mais importante passo para criar- mos um mundo melhor, Assim como no passado os mestres Zen mostraram que, ao se adotar uma alimentação simples, é possível simplificar o corpo, a mente e a própria vida, também podemos simplificar o mundo começando por nós mesmos, É só lem- brar o que John Lennon disse em Imagine. Para quem já se alimenta conscientemente, ótimo. Ajude-nos a difundir ainda mais a idéia de uma alimentação adequada para todos. Caso contrário, junte-se a nós! Não é aceitável, não é possível um Novo Mundo, um Novo Tempo, sem uma dieta adequada. O nosso futuro está em nossas mãos.

PARTE I

1.

INTRODUÇÃO

Por que adotar uma alimentação vegetariana

'Até que tenhamos coragem de reconhecer a crueldade pelo que ela é — seja a vítima um animal humano ou não — não podemos esperar que as

não podemos ter paz vivendo entre homens cujos

corações se deleitam em matar criaturas vivas. Cada ato que glorifica o prazer de matar, atrasa o progresso da humanidade."

coisas melhorem

RACHEL CARSON (Silent Spring)

Com o desenvolvimento da civilização, em vez de aprimorarmos os nossos hábitos alimentares, de buscarmos uma melhor qualidade nutritiva, tomamos exatamente o caminho oposto. O ser humano foi perdendo o contato direto com a natureza e deixando de perceber a necessidade de estar em harmo- nia com o meio ambiente.

Cientistas concluíram recentemente que os nossos mais remotos ances- trais eram vegetarianos e só comiam carne em períodos de extrema crise. Darwin concorda que os primeiros humanóides eram comedores de frutas, nozes e legumes. Von Linné afirma que, comparada à dos outros animais, a estrutura do homem, tanto interna quanto externa, indica que legumes e frutas constituem o seu alimento natural. Foi apenas durante a última era glacial, quando essa dieta tomou-se inaces-

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sível, que os primeiros seres humanos tiveram que comer carne para sobrevi- ver — costume que permaneceu, seja por necessidade, hábito ou condiciona- mento.

Somente nas últimas décadas temos reagido contra o modelo alimentar imposto pela indústria alimentícia e contra a tendência ao consumo de animais torturados. As pessoas mais conscientes estão constatando que a comida quí- mica e a carne são prejudiciais e devem ser evitadas. Surgiram assim inúmeros movimentos e padrões nutritivos, formando inclusive diversas correntes. A macrobiótica, importada do Japão na década de 60, foi um marco importante na história da alimentação, levando a humanidade a perceber a necessidade de pensar o que come. Pela primeira vez no Ocidente, questionou-se em maior escala os perigos da carne, do açúcar branco, dos produtos artificiais, dos agrotóxicos, etc., com o requinte adicional de buscar equilibrar os alimentos segundo a antiga filosofia dos opostos/complementares, o Yin e o Yang. Além disso, foi também a primeira vez que nos concientizamos de que os alimentos tanto podem gerar doenças e matar (industrializados), como curar ou salvar

vidas (arroz integral, tofu

Embora a prática do vegetarianismo sempre tenha existido, foi somente após a implantação da macrobiótica que essa opção ganhou força, reforçada pela idéia de uma dieta livre de agrotóxicos, isenta de produtos animais e quí- micos, chamada alimentação orgânica.

O tipo de vegetarianismo anterior à década de 60 era muito mais praticado

por razões de saúde ou por motivos religiosos do que pela compaixão pelos animais. Atualmente, a questão da justiça na escolha dos alimentos, a preocu-

pação com o meio ambiente e com as futuras gerações — conforme será visto adiante — também contam.

Os vegetarianos compreenderam que, para contribuir com uma socieda- de mais pacífica, é necessário primeiro resolver o problema da violência, da qual participamos, de modo indireto, ao comer carne. Não é de surpreender, portanto, que milhares de pessoas de todos os níveis tenham se tornado vege- tarianas, optando por aquela que é considerada "a dieta do novo mundo". Elas estão convencidas de que uma alimentação sem carne ou produtos de origem animal é um passo decisivo rumo a uma sociedade melhor. Saber que pessoas famosas fizeram também essa opção é não só confortador como estimulante. Eis algumas delas:

).

ALIMENTAÇÃO PARA UM NOVO MUNDO

Vegetarianos famosos

Abraham Lincoln

Madre Tereza de Calcutá

Albert Einstein

Mahatma Gandhi

Albert

Schweitzer

Mark Twain

Alexandre Pope Arnold Schwarzenegger

Milan Kundera Montaigne

Arthur Schopenbauer

Benjamin Franklin Bob Dylan Buda (Sidarta Gautama) Dalai Lama Charles Darwin Clemente de Alexandria

Confûcio

Paul e Linda MacCartney Percy B. Shelley

Pitágoras Platão Plutarco Rabindranath Tagore Rachel Carson Ralph Waldo Emerson

Émile Zola

Ramakrishna

Francisco de Assis

Ramatís

George Bernard Shaw

Rei Ashoka

Henry David Thoreau

Richard Gere

H.G.

Wells

Richard Wagner

Isaac Newton

Sai Baba

Jean-Jacques Rousseau

São Basílio

Jésus Cristo

Shirley MacLaine

Krishna

Sócrates

Krishnamurti

Swedenborg

John Milton

Thomas Edison

Lamartine

U Thant

Lao Tsé

Victor Hugo

Léon Tolstoi

Voltaire

Brasileiros vegetarianos famosos: Rita Lee, Eder Jofre, Stenio Garcia, Gilberto

Gil, Royce Gracie.

Para um estudo mais apurado, é bom conhecer as diversas modalidades

de vegetarianismo

hoje praticadas:

Ovolactovegetariariismo

Admite o consumo de ovos e, além dos alimentos vegetais, leite dos mamífe-

ros e seus derivados: manteiga, queijo, requeijão, iogurte, etc. Conforme já foi

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mencionado, há ovolactovegetarianos que estão conscientes da prática de uma alimentação integrai e orgânica e outros que não, permitindo-se o uso de ali- mentos industrializados, como o açúcar, por exemplo.

Lacto-vegetarianismo

É semelhante ao tipo anterior de dieta, com a diferença de que evrta o consu-

mo de ovos que, para os seus adeptos, representam uma vida em potencial. Seu consumo significaria, então, a interrupção de um tipo de processo de vida.

Curiosamente, os ovos hoje consumidos no mundo inteiro raramente possuem vida de fato, pois não são galados, ou seja, não têm mais energia vital. Seu con- sumo é bastante prejudicial à saúde por ser rico em antibióticos, toxinas, ácidos

graxos saturados (colesterol

),

hormônios, etc.

Vegetarismo — ou "Vegan"

Este tipo de vegetarianismo evita qualquer tipo de alimento que possa ter origem animal, inclusive ovos, leite e seus derivados. É conhecido interna- cionalmente como vegan, termo que passou a denominar também aqueles que o praticam — "veganistas". Seus seguidores são mais radicais: têm tan- to amor aos bichos que evitam inclusive os demais produtos derivados de animais, como bolsas, cintos, sapatos e roupas de couro, travesseiros de penas, etc.

Frugivorismo

É a modalidade que admite apenas o consumo de frutas, sejam cruas ou cozi-

das. Nenhum outro produto é aceito, pois, segundo os seus adeptos, elas re- presentam o alimento ideal para o homem. Suas conclusões foram tiradas a partir de observações bíblicas, antropológicas, antropométricas e com base na teoria evolutiva de Darwin. Os antigos primatas não eram carnívoros, mas frugívoros, como, aliás, são até hoje.

Há uma vertente que aceita os cereais integrais, crus ou cozidos, por considerá-los como "pequenos frutos", De um modo geral, os frugívoros ten- dem também a evitar o acréscimo de sal nos alimentos que consomem.

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Cereatismo

Não é bem um tipo opcional de vegetarianismo, mas um ramo da alimentação

e da medicina natural. N o entanto, podem ser encontrados alguns raros segui- dores desse tipo de dieta baseada apenas no consumo exclusivo de cereais integrais, cozidos ou crus, incluindo ou não o sal. Como técnica alimentar, o cerealismo visa à desintoxicação profunda do organismo e à renovação biológica da parte humoral do sangue.

Crudivorismo

E a modalidade que só admite alimentos crus. Baseia-se na idéia de que os

alimentos devem ser consumidos conforme a natureza os fornece, sem a ne- cessidade do fogo e do sal. Seus adeptos entendem que o fogo destrói a parte mais importante dos alimentos naturais: sua energia vital.

O crudivorismo aceita principalmente as frutas, verduras, raízes, alguns

tubérculos e cereais passíveis de ser ingeridos crus como trigo (triguilho pica- do, broto, etc.) e aveia. Os pratos são muito bonitos, coloridos e saborosos.

A alimentação natural recomenda dietas cruas como tratamento de diver- sas doenças. Sua ação é basicamente oxigenante, vitalizante e purificadora, ca- paz de eliminar elementos nocivos ao organismo. Pratos e cardápios compostos por alimentos crus poderão ser encontrados mais adiante.

Alimentação

orgânica

Outra corrente que vem ganhando importância cada vez maior e se tornando muito difundida é a chamada alimentação orgânica, que evita os agrotóxicos e os aditivos químicos, como os conservantes, corantes, aromatizantes artificiais, etc.

Essa concepção alimentar surgiu durante a década de 60 nos Estados Uni- dos, mobilizando muitas fazendas na produção de alimentos inteiramente li-

vres de produtos químicos. N o Brasil, essa atividade já existe, mas ainda é incipiente e realizada em pequeníssima escala, contrastando com os Estados Unidos, a Europa e o Japão, onde os próprios governos incentivam a pesquisa

e a produção de alimentos através de uma agricultura biológica.

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Adotando uma dieta vegetariana

BONTEMPO

consciente

Atualmente, não basta apenas parar de comer carne animal ou seus derivados para estarmos seguros de te r uma dieta perfeita. S e quisermos escapar de sé-

rias doenças carenciais é necessário também evitar o açúcar branco, o sal refi- nado, as farinhas e grãos descortícados (pão e arroz brancos, por exemplo), os alimentos industrializados e sintéticos, os enlatados, os óleos refinados, os irra- diados, os congelados e, de preferência, os transgênicos. Consumir estes pro- dutos é talvez o pior erro daqueles que param de comer carne. Uma vez que

a pessoa ainda consuma carne, ela dispõe de nutrientes que acabam compen-

sando aquilo que o alimento manipulado perdeu. Essa vantagem é apenas quan- titativa, e depende do tipo de proteína animal escolhida. Qualitativamente é uma boa escolha, mas devemos estar preparados para alguns tipos de carên- cias nutricionais. Isso no entanto pode serfacilmente contornado, se evitarmos os itens acima relacionados estabelecendo uma dieta rica em cereais integrais, leguminosas, frutas, raízes, tubérculos, etc.

O açúcar branco, conforme será visto adiante, é um antinutriente e rouba

elementos do nosso corpo. Se associarmos o seu uso ao consumo de grãos descorticados (se m vitaminas), enlatados (d e reduzida carga d e nutrientes), ir- radiados (empobrecidos), estaremos aumentando o risco de desenvolver ca- rências nutricionais de vários tipos.

Pode-se dizer que, através do vegetarianismo consciente, da escolha cor- reta dos alimentos, o homem busca o próprio equilíbrio e harmonia em rela-

ção às leis naturais. Isso inclui a abordagem analítica quantitativa que caracteriza

a nutrição acadêmica na questão da compreensão científica sobre a importân-

cia dos nutrientes — como as proteínas, aminoácidos, vitaminas, sais minerais,

lipídios, açúcares, oligoelementos, calorias — e das necessidades básicas do organismo humano relativas a esses mesmos elementos. É preciso, hoje, esta- belecer uma compreensão sensata e racional quanto a estas questões, pois elas envolvem aspectos orgânicos, médicos, individuais e culturais de grande im- portância.

Curiosamente, é essa preocupação que nos leva a fortalecer ainda mais os argumentos que nos certificam ser a carne um alimento a ser evitado, confor- me será visto a seguir.

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Por que não comer carne

Segundo os adeptos da alimentação vegetariana, existem cerca de 30 razões para não se comer carne. Eis algumas delas:

A proteína da carne não é superior

O argumento de que a proteína da carne animal é insubstituível é falso. Uma

proteína é uma cadeia de aminoácidos, que podem ser obtidos de várias ou- tras fontes e em quantidades mais que suficientes. Existem 22 aminoácidos conhecidos, sendo que dez deles não são facilmente sintetizados pelo orga- nismo humano a partir de fontes mais simples; precisam portanto ser absor- vidos em porções maiores. Ocorre, entretanto, que uma boa variedade de alimentos, entre eles frutas, cereais integrais, leguminosas (feijão, ervilha, len- tilha, grão-de-bico, soja, vagem, etc.) e legumes (como, por exemplo, a ce- noura e a abóbora) possuem esses nutrientes em quantidades adequadas. O tabu que aponta a carne animal como "única" fonte de aminoácidos essen-

ciais é baseado no fato de que ela possui quantidades um pouco maiores em sua cadeia protéica; no entanto, uma simples composição de alimentos, com cadeias menores de aminoácidos, já cobre as necessidades básicas do orga- nismo.

Temos sidos totalmente condicionados a acreditar que não podemos ser saudáveis sem comer grandes porções de carne, mas a verdade é exatamente oposta. Nos anos 50, os cientistas classificaram as proteínas da carne como de "pri- meira classe" e as de legumes como de "segunda classe", Entretanto, esta idéia tem sido totalmente contestada, As proteínas vegetais têm-se mostrado tão efetivas e nutritivas quanto as da carne. Não se admite mais tal distinção, Há grande variedade protéica na alimentação vegetariana, entre 8 e 12% nos ce- reais. A soja é incrivelmente rica, possuindo duas vezes mais quantidade de proteínas que a carne. Muitas nozes, sementes e feijões têm teor protéico ava- liado em 30%.

Em 1954, em Harvard, após um estudo minucioso, cientistas descobriram que, quando vários legumes, cereais e derivados do leite eram consumidos em qualquer combinação, havia sempre mais proteína do que o necessário.

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Eles não conseguiram detectar nenhuma deficiência, independente da combi- nação dos alimentos usados. A maioria das pessoas ingere de 10 a 18% das calorias diárias na forma de proteína, quando na realidade necessitamos somente de 5 a 6% l Mesmo se comêssemos somente batatas cozidas, estaríamos ingerindo I I % de proteína — o dobro do necessário! Portanto, é preciso descartar a falsa idéia de que a carne nos dá força e de que a sua ausência pode nos enfraquecer. Muitos campeões e atletas são intei- ramente vegetarianos. Animais extremamente fortes, como o touro, o búfalo, os gorilas, são vegetarianos e não sofrem carências nutricionais de nenhum tipo. Mais à frente apresentaremos argumentos, em geral negligenciados, que apontam a carne como um produto até mesmo perigoso para a saúde.

Falsa sensação de satisfação

A sensação de "satisfação" provocada pela carne deve-se ao fato de ela exigir

uma digestão mais prolongada, com uma ação estimulante de enzimas, e não

à sua capacidade de fornecer nutrientes, fator menos influente nesta questão.

As pessoas acostumadas ao consumo de carne, principalmente da carne bovi- na, estão organicamente condicionadas à sua presença. Mesmo ingerindo uma refeição vegetariana composta de todos os nutrientes necessários, não se sen- tirão satisfeitas ou plenas; sentem-se como se alguma coisa indefinida estivesse faltando. Só com o tempo é possível acostumar-se a uma alimentação vegeta- riana e evitar a sensação de fraqueza, comum quando se inicia uma modifica- ção dietética dessa natureza. Pessoas não acostumadas a comer carne têm efeitos desagradáveis quan- do a consomem, como peso digestivo, mal-estar, digestão longa, indisposição, dor de cabeça, intestino preso, etc.

Carne cozida tem menos nutrientes

Todas as análises feitas a partir dos componentes da carne animal são realiza- das mais comumente com a carne crua, não se levando em consideração que o cozimento reduz substancialmente as taxas de proteínas e vitaminas.

ALIMENTAÇÃO PARA UM NOVO MUNDO

São, portanto, carentes as dietas cujos balanceamentos não se baseiam nes- sa diferenciação. São diversas as proteínas e as vitaminas ditas termolábeis, que se modificam (ou se destroem) sob a ação do calor. Desse modo, o chur- rasco e as carnes longamente cozidas ou assadas perdem cerca de 30 % de seus nutrientes principais, com concentração de lipoproteínas densas. Para uma absorção adequada de nutrientes, deve-se ingerir a carne mal cozida ou, preferencialmente, crua, o que não é, contudo, um hábito saudável nem culturalmente aceito hoje em dia.

Fisiologia

humana

A dieta de qualquer anima! se ajusta à sua estrutura fisiológica. Portanto, vê-se que a constituição do corpo humano e de seu sistema digestivo é completa- mente diferente da dos animais carnívoros. De acordo com a dieta, podemos dividir os animais em dois grandes grupos: carnívoros e herbívoros.

Os animais carnívoros são, naturalmente, dotados de dentes cortantes, com caninos pontiagudos, o que lhes permite prender e dilacerar mais facilmente a carne. A dentição humana é adequada para mastigar grãos e frutas; não é pró- pria para mastigar carne, daí a necessidade de cozimento, para tornar o produ- to macio. Todos eles possuem um sistema digestivo muito simples e curto — apenas três vezes o comprimento de seus corpos, para a expulsão rápida das bactérias putrefatas da carne em decomposição, bem como estômagos com dez vezes mais ácido clorídrico do que os de animais não-carnívoros.

Os animais herbívoros vivem de gramas, ervas, frutos, cereais, sementes, folhas e outras plantas, que, em geral, são alimentos fibrosos e volumosos. A digestão começa na boca com a ação da enzima ptialina, da saliva. Esses ali- mentos devem ser bem mastigados e misturados à ptialina, para serem digeridos apropriadamente. O tamanho dos intestinos dos herbívoros é comparati- vamente bem mais longo que o dos carnívoros. O do macaco antropóide, as- sim como o sistema digestivo humano, tem cerca de doze vezes o comprimento do corpo.

Os herbívoros têm 24 dentes "molares" e fazem movimentos laterais com as mandíbulas, para triturar os alimentos, ao contrario dos carnívoros, que só fazem movimentos verticais. Estudos recentes demonstraram que uma dieta carnívora produz efeitos

MÁRCIO

BONTEMPO

maléficos nos animais herbívoros. O dr. Willian Collins, dentista do centro mé- dico do Lincoln Medicai and Mental Health Center, em Nova York, descobriu que os animais carnívoros têm "capacidade quase ilimitada para ingerir gordu- ras saturadas e colesterol". Por outro lado, se 200 g de gordura animal forem acrescentados diariamente à dieta de um rato, depois de dois meses seus va- sos sangüíneos se tornarão enrijecidos, devido à gordura, com o desenvolvi- mento da arteriosclerose. Não somente o sistema digestivo humano é completamente diferente do

do s animais carnívoros, Noss a pele te m milhões d e poro s minúsculos para li-

berar a água e esfriar o corpo através do suor; bebemos água com movimen- tos de sucção como os outros animais vegetarianos; nossos dentes e nossa

estrutura mandibular são próprios de vegetarianos. Nós não temos caninos afiados e pontiagudos para cortar a carne.

Charles Darwin, autor da teoria da evolução, confirma que a nossa anato- mia não mudou ao longo da história. Von Linné afirma que a estrutura do ho- mem, tanto interna quanto externa, comparada com a dos outros animais, mostra que legumes e frutas constituem o seu alimento natural.

A carne não tem fibras

3

Resíduos anormais permanecem mais tempo em nossos intestinos quando ingerimos uma dieta com baixo teor de fibras. Não só toxinas são absorvidas pelas paredes do intestino, aumentando o risco de câncer; ocorre também uma diminuição da umidade, o que torna as fezes mais secas e duras. Quando o

intestino está preso, há necessidade de se realizar maior esforço na evacuação,

o que pode provocar hemorróidas e fissuras anais.

Alimento antiecológico

A

agropecuária é, hoje, a principal causa do desmatamento em todo o planeta.

E

costume a derrubada de florestas para a criação de rebanhos. Um bife equi-

vale a três árvores médias (valem por um bifinho

Se no Brasil continuarmos a comer carne de vaca, até 2010 toda a Mata Atlântica terá desaparecido.

).

ALIMENTAÇÃO PARA UM NOVO

MUNDO

O consumo de carne estimula a devastação das matas e assim torna-se

um ato destrutivo que põe em risco o futuro da humanidade. O vegetarianismo, portanto, é a opção adequada para os militantes ambientais mais conscientes.

Aspectos humanistas e sentimentais

Uma das principais motivações que levam as pessoas a se tornar vegetarianas é

o amor pelos animais e a vontade de reduzir seus sofrimentos, a verdadeira

tortura por que passam ao longo da sua vida somente para servir de alimento ao homem. Esses aspectos serão apresentados mais adiante.

Razões

econômicas

Ao se tornar vegetariana uma pessoa economiza muito ao fazer suas compras, ao selecionar pratos nos restaurantes e pelo simples fato de não comer ne- nhum tipo de carne. Em média, a carne de qualquer animal custa 16 vezes mais do que os vegetais, mesmo considerando os mais caros, como os cogu- melos comestíveis. Vitela, foie gras, camarões, lagostas, ostras, etc. são itens sofisticados que custam demais. A famosa sopa de barbatana de tubarão é um dos pratos mais caros do mundo, só perdendo para a caríssima sopa de ninho de andorinha. Os pratos da culinária japonesa e da francesa, que na grande maioria das vezes têm componentes animais, são excessiva e desnecessaria- mente caros.

O valor gasto em restaurantes aristocráticos poderia acabar com a fome

no mundo. Mas isso se as pessoas tivessem mais senso de justiça e compai- xão e cultivassem simplesmente o sabor natural dos alimentos, redi- recionando (pelo menos em parte), o gasto nesses restaurantes para a população carente. Freqüentar um pouco menos um tipo de ambiente pode ser de certo modo confortador para aqueles que têm e podem cultivar o hábito da gastronomia.

Quando nos sentamos para um "bom" jantar num restaurante caro, toda

aquela encenação de maîtres vestidos a rigor, garçons excessivamente aten- ciosos e polidos, o salão com suas toalhas imaculadas e talheres bem postos,

o champanhe francês, os pratos deliciosos (sempre, no entanto, carregados,

MÁRCIO

BONTEMPO

de produtos prejudiciais à saúde), as sobremesas fantásticas, a música am- biente, etc. nos impede de enxergar o verdadeiro preço desse jantar, que é

o seu custo social. Na verdade, todo esse ambiente é uma grande farsa; todo

aquele fino trato, a atenção desmesurada, tudo é hipócrita e falso. O freguês

é tido, na verdade, como um "chato" que exige demais. Os sorrisos forçados

não nos deixam perceber os bastidores dessa realidade. Basta visitar a cozi- nha de um "bom restaurante" para, via de regra, constatar, entre outras coi-

sas deploráveis, a barulheira, as brigas, os xingamentos, a agitação, a fumaça,

o suor, a temperatura elevada, a devolução de alimentos não comidos para a

panela e a falta de higiene (chefs metem o dedo na panela e na boca sem o menor constrangimento, garçons usam a mesma mão que carrega bandejas para ajeitar verduras, ajudantes limpam o molho que sujou o prato co m pa- nos imundos). 1 Certamente um indivíduo consciente saberá perceber a ilusão que isso representa. Certamente não se sentirá bem ao saber que aquele sabor sofisti- cado, excessivo, tem como custo a fome e a angústia de alguma criança, em alguma parte do planeta. Segundo dados oficiais da FAO (Organização para Alimentação e Agricultura), 40 mil crianças morrem de fome diariamente no mundo, ou seja, uma a cada dois segundos.

Para as donas-de-casa, sempre conta muito a economia na hora das com- pras. Não é difícil entender que, adquirindo apenas itens vegetais, economi- zam-se milhares de reais ao longo dos anos e de toda a vida. Não existem estudos conhecidos sobre esse tipo de avaliação, mas certamente faremos uma economia brutal ao nos tornarmos vegetarianos. Mas a principal economia é a que diz respeito à redução dos gastos com a saúde (ou com as doenças). Em outro capítulo, apontaremos diversas provas de que o consumo de carne é o principal fator desencadeante das doenças crônicas no mundo, gerando despesas descomunais não só para o indivíduo mas também para a saúde pública, os sistemas privados de saúde, o governo,

a Previdência Social, as seguradoras, etc. Todo mundo perde. Só quem lucra é

a indústria farmacêutica.

'Confirmando esses argumentos, no ano passado o chef americano Anthony Bourdain, do Les Halles, bistrô francês de Manhattan, publicou suas memórias em Kitchen Confidential. O livro virou best seller; mas provocou a ira dos seus colegas ao desnudar o obscuro mundo das cozinhas.

ALIMENTAÇÃO PARA UM NOVO MUNDO

Questão religiosa e filosófica

Muitas tradições religiosas, notadamente cristãs ou hindus, desaconselham o consumo de carne animal para aqueles que almejam a ascensão espiritual. Se- gundo os mestres antigos, a carne transfere energias densas e inferiores para aqueles que a consomem. Este assunto será apreciado daqui a pouco.

2.

UM CARDÁPIO

INDUSTRIAL:

FAST FOOD, AÇÚCAR, CORANTES, IRRADIADOS, TRANSGÊNICOS, ETC. COMO PAGAMOS A CONTA

então passaram a envenenar os seus corpos com comidas e bebidas

doces, a fumigar o peito com fumaças, a perturbar o pensamento com álcool. Trocaram o bom alimento que nasce nas árvores e nos prados por aqueles guardados, estragados, estranhos. Não comem apenas o que se

caça, o necessário, mas, como se o animal fosse um inimigo, tiram-lhe a liberdade, prendem-no e maltratam-no, matando-o sem piedade. Não sei como podem comer dessa carne. Eles não conseguem ver que estão comendo também todo aquele sofrimento. Isso não agrada ao Grande

Talvez seja por não

entender estas coisas que não sabem mais comer, beber água, respirar,

Não podem ensinar mais nada a seus "

" e

Espírito, que acaba por enviar-lhes doenças e dores

ouvir o vento, correr pela relva

filhos

e morrem mais cedo, sem ao menos saber por que viveram

CHEFE COMANCHE DESCONHECIDO

Depois de milênios consumindo alimentos naturais, cultivados ou não, vivendo em harmonia com a natureza, desfrutando as benesses de um meio ambiente puro, o ser humano passou a atacá-lo como um vândalo idiota. Começou a derrubar as árvores e a acabar com as florestas, como se elas fossem suas ini- migas. Passou a explorar matérias-primas da Terra, corroendo as suas entra- nhas em busca de minerais e riquezas. Depois, inventou de se intrometer

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BONTEMPO

naquilo que come, introduzindo no alimento produtos tóxicos (agrotóxicos), empobrecendo-o (com adubos químicos que acabam por tornar a terra esté- ril), retirando dele partes importantes (como a película dos cereais, por exem- plo, para ter o arroz branco, o pão branco, etc.), intoxicando-o com herbicidas (para matar plantas "daninhas"), formicidas, antibióticos, corantes, aromatizantes artificiais e outros venenos. Orgulhosamente também, inventou alimentos com- pletamente artificiais. Finalmente acabou por irradiar a comida com raios peri- gosos e a modificá-la geneticamente (transgênicos). Tudo isso criado e apoiado por técnicos de aspecto sério, de semblantes orgulhosos, que tudo fazem em nome da necessidade de uma produção maior de alimentos, O que eles não sabiam (e continuam sem saber) é que isso determinaria também uma maior produção de coisas indesejáveis: carências nutricionais, doenças degenerativas, degradação ambienta!, enfraquecimento biológico, risco da inviabilidade racial, mutações, etc.

A aplicação dos chamados "defensivos agrícolas" e dos adubos ou fertili- zantes surgiu coma Revolução Industrial, que marcou o início da "Era da Agres- são à Natureza", quando o homem começou a extrair descontroladamente as matérias-primas do planeta e o crescimento populacional passou a exigir maior produção agrícola, Com a necessidade cada vez maior de alimentos, as monoculturas tornaram-se cada vez mais vastas, favorecendo o surgimento das pragas agrícolas que exigem agrotóxicos. Da mesma forma, a indústria ali- mentícia desenvolveu técnicas de conservação e transformação dos produtos.

O

interesse no lucro hipertrofiou o poder das grandes empresas produtoras

de

farmacos e defensivos agrícolas, que passaram a formar lobbies e cartéis de

alta influência econômica e política nos governos de, praticamente, todos os

países. A indústria de agrotóxicos sofisticou seus métodos, criando não somen-

te inseticidas e fungicidas, mas herbicidas seletivos de grande poder de pene-

tração na célula humana e de imensa capacidade tóxica, cancerígena ou teratogênica.

Em associação ao uso dos agrotóxicos, a indústria de alimentos aprimo- rou os seus métodos de criação de aditivos alimentares (corantes, aro- matizantes, etc.), criando uma imensa gama de produtos completamente supérfluos e prejudiciais à saúde, presentes em produtos como sorvetes, chicletes, chocolates, bombons, refrigerantes e similares. O desconhecimento e o descontrole dos governos e das autoridades sanitárias quanto aos perigos dessas substâncias puseram em risco a saúde de todos os habitantes da Terra.

ALIMENTAÇÃO PARA UM NOVO MUNDO

Quanto aos agrotóxicos, é necessário conhecer os meios para evitá-los, con- forme será exposto mais adiante. E potencialmente perigoso, sob vários aspectos, consumir alimentos que contenham qualquer produto químico. Contrariando as características natu- rais dos alimentos disponíveis desde a criação do mundo, há pouco menos de um século o homem vem criando, de modo crescente, uma grande variedade de venenos, que são incorporados àquilo que comemos. São centenas de mi- lhares, absolutamente supérfluos, destinados quase que somente à satisfação do paladar e ao estímulo do consumo descontrolado. A cada instante um novo chocolate ou refrigerante de mirabolante sabor é apresentado pela indústria alimentícia. Um intrincado jogo de interesses envolve a fabricação desses pro- dutos e revela um imenso descaso quanto aos seus efeitos sobre a saúde indi- vidual ou coletiva, a curto, médio e longo prazos — além de iludir um mercado consumidor muito mal informado.

Até o início do século X X existiam, apenas, cerca de oitocentos tipos de alimentos conhecidos, configurando todas as possibilidades de recursos natu- rais disponíveis no campo da alimentação. Hoje, são quase 40 mil produtos, sendo que cerca de 39.200 representam criações sintéticas ou artificiais ou,

mais especificamente, "comida de laboratório". É justamente esse início de sé- culo que marca o aparecimento, em maior escala, das doenças degenerativas entre as populações mais abastadas, como resultado da interferência química

ou antes, a interferência

sintética sobre a sutil bioenergética dos seres vivos — datecnosfera, criada pelo homem, sobre a biosfera.

Segundo pesquisas mais recentes, cerca de 85 %

das doenças modernas,

como o câncer, a arteriosclerose, o diabetes, o reumatismo, etc., são causadas pelos alimentos industrializados ou sintéticos. Pela primeira vez na história da humanidade, o homem criou produtos de cadeia molecular capazes de pene- trar e interferir poderosamente no intrincado metabolismo intracelular, o que

significa poluirtambém a célula. Não se conhece quase nada a respeito de como a maior parte dos produtos sintéticos se comporta no organismo, mesmo porque não existem condições técnicas necessárias para se avaliar o efeito, a médio e longo prazos, de produtos como DD T corantes, etc. Sabe-se, contu- do, que o DD T (diclorodifeniltricloroetano) já está presente nos mares e nos organismos vivos marinhos, no leite materno e no leite das vacas do mundo inteiro.

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Alimentos sintéticos e aditivos químicos — 0 perigo disfarçado

Silenciosamente, sem nos darmos conta, as nossas crianças podem estar sendo envenenadas, expostas a doenças degenerativas, sofrendo de vários tipos de alergias e prejudicando sua capacidade intelectual e seu rendimen- to escolar, devido ao consumo de guloseimas industrializadas aparentemente inofensivas. Hoje os aditivos químicos são recursos largamente utilizados pela indústria de alimentos e são conhecidos como corantes, aromatizantes, conservantes, estabilizantes, antioxidantes, edulcorantes, espessantes, acidificantes e outros. O uso de aditivos é recente na história humana, e começou com a neces- sidade de conservar os alimentos. Antes, apenas os edulcorantes — basica- mente o melaço ou o açúcar mascavo — eram considerados aditivos, sendo usados para acelerar a fermentação do vinho e da cerveja. Os produtos enlatados praticamente iniciaram a prática da conservação. Com a ampliação da industrialização de alimentos, outras substâncias foram sendo incorporadas, com o acidulantes, estabilizantes e corantes — todas na- turais ou de fonte natural. Com o tempo, a indústria alimentícia desenvolveu- se profusamente, criando centenas de aditivos artificiais ou sintéticos, que permitiram torná-la a segunda maior fonte de lucros no mundo, só perdendo para a indústria bélica. Se eles antes eram realmente naturais, úteis e necessá- rios, passaram a ser e m sua maioria artificiais, e perigosos para a saúde, além de terem se tomado um pretexto para a geração de lucros formidáveis, por serem segredos industriais de megacorporações internacionais.

Argumentos que subestimam a inteligência humana, como aqueles que apontam os aditivos artificiais como "beneficiadores" ou "melhoradores" dos alimentos, são meros pretextos para o seu uso, já que possibilitam grandes lu- cros, a despeito do impacto negativo que são capazes de produzir sobre o organismo, como os antibióticos, por exemplo, largamente aplicados na con- servação de carnes e de outros produtos, mas que podem produzir bactérias resistentes às nossas defesas. Basicamente, nenhum alimento produzido pela natureza precisa ser "melhorado".

Em muitos países a lei exige que qualquer produto destinado à alimenta- ção humana que contenha aditivos relacione os seus nomes na embalagem. Como geralmente muitos deles são usados, acabam sendo mencionados por

ALIMENTAÇÃO PARA UM NOVO

MUNDO

meio de códigos — os códigos de rotulagem, que são propositadamente im- pressos com letras pequeníssimas. Mesmo que o consumidor conseguisse enxergá-los, não saberia identificá-los nem tampouco descobrir a quantidade de cada aditivo presente num determinado produto. Desse modo, ficam institucionalizados o desrespeito, o pouco-caso e a inconseqüência, tanto dos fabricantes quanto dos responsáveis pela saúde coletiva, em relação aos con- sumidores.

O controle da toxicidade dos aditivos e a sua liberação fica por conta de uma comissão mista formada por membros da FAO e da OM S (Organização para Alimentação e Agricultura e Organização Mundial da Saúde) denominada CodexAlimentarius. Tal comissão, além de não possuir um centro próprio para pesquisas, recebe relatórios técnicos de empresas produtoras de alimentos e medicamentos (como a Nestlé, a Du Pont, a Union Carbide, a Monsanto, etc.), o que coloca em dúvida os dados que dizem respeito à segurança e à inocuidade desses produtos. O interesse comercial dessas indústrias nos impede de con- fiar totalmente nas informações.

Existem, hoje, mais de trinta aditivos sintéticos proibidos, mas que antes faziam parte da lista de produtos "inócuos". A cada ano, novas substâncias são inventadas e outras saem da lista "permitida" em direção à lista proibida. Curio- samente, quando um novo aditivo é criado, seja um corante, aromatizante ou qualquer outro, ele primeiro ingressa na lista dos permitidos. Se por acaso ele se mostrar prejudicial, vai sendo transferido para outras listas; "duvidosos", "proi- bidos", e finalmente, "perigosos", quando então, supostamente, é banido do grupo geral dos aditivos alimentares. Foi o que ocorreu, por exemplo, com o dióxido de titânio (que ainda aparece em confeitos prateados e coloridos para bolos e balas, mas somente em países como o Brasil). Trata-se de um aditivo capaz de produzir leucemia e m animais de laboratório, já havendo estudos in- dicando essa mesma possibilidade para os seres humanos. O uso do dióxido de titânio como aditivo também foi proibido no Brasil há alguns anos, mas, cu- riosamente, a Nestlé lançou no mercado um produto denominado Smarties que, petulantemente, apresenta esse elemento na sua embalagem.

N o grupo específico dos corantes, havia, até bem pouco tempo, uma curiosa classificação dividindo-se em três tipos: Cl , Cll e Clll. O s primeiros são os na- turais (açafrão, clorofila, etc.); os segundos, os "artificiais" e os terceiros, os "qui- micamente definidos" (definidos para quem?). Os corantes Cll formam um grupo com cerca de 30 componentes, sendo que cada um deles tem uma dose diária

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máxima específica. N o entanto, nas embalagens brasileiras — mesmo quando vários corantes estão presentes — não se específica qual deles está sendo usa- do, nem a sua quantidade, aparecendo uma simples referência: "Cll".

A capacidade de tolerância aos aditivos — assim como aos medicamen-

tos — não é igual para todas as pessoas, incluindo crianças, adultos, espor- tistas, doentes, grávidas e idosos. A dosagem máxima permitida por lei provém de um gabarito vinculado à unidade aleatória de tempo. Não se sabe, por exemplo, quanto de determinado aditivo uma pessoa pode con-

sumir por dia, semana ou mês. Conclusão: com relação ao consumo des- sas substâncias, não há — e nenhum fabricante garante — segurança total para a saúde.

A grande maioria dos aditivos apresenta toxicidade. Todos possuem uma

dosagem máxima diária tolerada pelo organismo, sendo prejudiciais além desse limite. N o entanto, não há controle da quantidade ingerida pelo con- sumidor. Mesmo que houvesse, desconhece-se a capacidade de tolerância do organismo. Considerando-se ainda que os seres humanos têm diferen- tes níveis de tolerância aos produtos químicos, estamos diante de um gran- de descontrole, Não se pode padronizar níveis de tolerância de produtos sintéticos, pois as reações alérgicas, as respostas e o acúmulo são sempre quantitativa e qualitativamente diferentes de um indivíduo para outro. Mes- mo sem contar com esse aspecto, qualquer pessoa, principalmente as crian- ças, pode facilmente (e inclusive motivada pela mídia!) comprar e ingerir qualquer guloseima industrializada — chocolates, balas, iogurtes, por exem- plo — , o que pode ultrapassar as quantidades máximas diárias permitidas, ainda que ela não apresente restrições individuais quanto à tolerância a determinada substância.

Se contarmos que a maior parte dos efeitos dos aditivos alimentares ocor- re geralmente a longo prazo e por acumulação, variando de um organismo para

outro, o caso fica ainda mais preocupante. É de se perguntar, por exemplo, o que acontece com o pigmento de um refrigerante artificial de uva (daqueles

se a pessoa que o ingere não urina dessa

cor, nem apresenta a pela roxa? Para onde vai esse pigmento ou o que acon- tece com ele dentro do organismo? Que tipo de interferência essa substância artificia! — não prevista pelo código genético humano — pode provocar na sutil bioquímica humana? A inconseqüência das autoridades sanitárias mundiais é tamanha, que as respostas a estas perguntas seriam condição para que se

capazes de deixar a língua roxa

),

ALIMENTAÇÃO PARA UM NOVO MUNDO

liberasse ou não o consumo desse tipo de refrigerante, por exemplo. Mas, na

realidade, não é isso o que acontece. O interesse das indústrias no lucro supe-

ra a sensatez humana.

A maior parte dos aditivos sintéticos, principalmente os corantes e aro- matizantes, tem efeito acumulativo no organismo, o que elimina o argumento das "doses máximas diárias permitidas" e qualquer viabilidade ou sentido rela- cionado à "segurança de consumo". Essas substâncias são capazes de atingir o interior da célula e o seu núcleo, interferindo nas funções celulares mais no- bres, produzindo mutações e degenerações. Com o avanço da biologia molecular, não se pode mais aceitar o raciocínio que permite doses máximas toleradas de qualquer aditivo alimentar artificial. Atualmente, a medicina ortomolecular relaciona a presença desses aditivos no organismo com a eleva- ção dos níveis de radicais livres.

Com o podem causar doenças degenerativas bem posteriores à sua ingestão, ou como resultado do uso contínuo, eventual, ou mesmo pelo acúmulo de vários tipos de aditivos no organismo, fica difícil estabelecer uma relação de causa e efeito entre eles e os males que são capazes de provocar.

Os estudos mostram que os alimentos industrializados que contêm ele- mentos sintéticos podem produziras seguintes doenças, aqui relacionadas por ordem alfabética;

Agranulocitose

Desequilíbrios hormonais

Anemia

Dificuldade de aprendizagem

Anencefalia

Distúrbios gastrointestinais variados

Ansiedade infantil

Doenças teratogênicas (doenças congênitas)

Baixa resistência a infecções

Leucemia

Câncer

Má formação do feto

Deficiência imunológica

Obesidade

Deficiência mental em bebês

Descalcificação dos ossos e dos dentes

Reações alérgicas variadas

Fonte: Food and Nutrition Board. National Research Council da National Academy of Sciences. USA, 1987.

Para evitar os efeitos dos produtos contendo aditivos, convém evitar tudo

o que é industrializado e que possa contê-los. Não é difícil. E só uma questão

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BONTEMPO

d e cuidado. Se entendermos que todos os produtos artificiais criados pela in- dústria de alimentos não são imprescindíveis, sendo perfeitamente dispensá- veis e totalmente supérfluos, sem importância nutricional alguma (a não ser calorias vazias, gorduras saturadas e perigosas), por que consumi-los? Se en- tendermos também que esses produtos são, todos eles, de algum modo, pre- judiciais à saúde, e que fazem parte de uma gigantesca estrutura de marketing, que mobiliza a enorme força da mídia para incentivar o seu desnecessário con- sumo, talvez fiquemos mais convencidos a não comprá-los, e a não presentear as crianças com eles.

engano, por exemplo, é considerar "alimentícios" esses pro-

U m grande

dutos, pois não são exatamente "comida", e muito menos necessários. São simplesmente guloseimas que funcionam, na verdade, como anti nutrientes, inibindo a assimilação de elementos nutritivos importantes, como aminoácidos, minerais e microminerais. Se a maior parte deles contém açúcar como edulcorante, todos os problemas relacionados ao consumo de açúcar refina- do devem ser acrescentados aos efeitos desses produtos. Se uma criança ingerir um copo de refrigerante ou doces e balas pouco antes de uma refei- ção, haverá inibição do seu apetite, o que geralmente determina uma menor ingestão de alimentos necessários e, conseqüentemente, de nutrientes no- bres. A repetição desse comportamento pode provocar carências nutricionais subclínicas promotoras de deficiências imunológicas, obesidade infanto-juve- nil e fenômenos de depressão psíquica, que tanto preocupam os pediatras e nutricionistas conscientes.

Sugere-se então que esses produtos não sejam mais incluídos na classifica- ção de "alimentos" (o que caracterizaria "propaganda enganosa"), mas que se crie uma outra modalidade, talvez um novo grupo. Sugerimos: produtos nutricionalmente supérfluos.

Certamente as empresas envolvidas não permitirão que o Ministério da Saúde crie essa classificação. O seu poder de influência e o grande lobbie que representam n o Brasil controlam a maior parte das resoluções dos órgãos sa- nitários e de fiscalização neste país, mesmo havendo risco para a saúde da população, Se não fosse assim, a Nestlé não colocaria no mercado produtos com aditivos que não são mais permitidos pela lei, como por exemplo o seu colorido e alegre "Smarties". O dióxido de titânio presente no "Smarties" foi classificado pelo Ministério da Saúde como INS-I7I, e não é ironia nossa Rara quem duvidar, é só conferir: o produto pode ser adquirido nas padarias,

ALIMENTAÇÃO PARA UM NOVO MUNDO

supermercados, cinemas, cantinas escolares, nos ambulantes e camelôs, e até pela Internet. Todo este tema, contudo, é mais preocupante por sabermos que existem nutricionistas e outros profissionais de saúde — certamente mal-informados ou co m preguiça de se informar — que não conseguem enxergar tudo isto e, bi- sonhamente, consideram produtos artificiais, como essas guloseimas adocica- das, inócuos e seguros. Certamente assim o fazem por desconhecer detalhes mais recentes do mundo da biologia molecular, que mostram que o câncer, por exemplo, pode ser desencadeado a partir de uma única célula em contato com quantidades ínfimas de derivados moleculares do alcatrão da hulha, do

petróleo, etc. Para completar a informação, 98 % dos aditivos sintéticos deri-

E a biologia molecular derrubando definitiva-

vam exatamente dessas fontes

mente o argumento das "doses máximas diárias toleradas". Qualquer quantidade de corante ou aromatizante sintético é capaz de produzir anomalias e altera- ções em nível celular. Até um simples fóton de raio ionizante pode desenca- dear o câncer

Ao recebermos informações como estas, não mais podemos negligen- ciar a nossa responsabilidade no sentido de evitar e desaconselhar o consu- mo dessas substâncias, quer sejamos pais de família, profissionais de saúde, comerciantes desse tipo de produtos, donos de cantinas escolares, etc. Aliás, essas cantinas são hoje consideradas as maiores inimigas da saúde infantil, pois oferecem grande quantidade de doces, guloseimas, frituras, carnes, etc. Na medida do possível, o ideal seria preparar os lanches em casa e conscientizar as crianças, levando-as a evitar esse gênero de "alimentos" na cantina ou nos bares.

Médicos pediatras e nutricionistas estão particularmente envolvidos nessa tarefa, devendo informar seus clientes sobre os riscos que tais produtos ofere- cem à saúde. Isso começa com o seu próprio exemplo; caso contrário, qual- quer orientação sua no sentido de evitar o consumo desses produtos perderá legitimidade.

Os produtos a que nos referimos são praticamente todas as balas, choco- lates, iogurtes industrializados, caixinhas de dropes, jujubas, bebidas acho- colatadas, refrigerantes, sorvetes, gelatinas sintéticas, snacks, etc. Os mais perigosos são, obviamente, os mais coloridos, de design tentador, produzidos por grandes empresas, apresentados na T Y exibidos nos outdoors, revistas,

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etc. Empresas que se apresentam como "preocupadas com a saúde dos con- sumidores" ou que mostram uma imagem de benevolência, "tipo Nestlé", são aquelas cujos produtos devem ser sumariamente evitados, pois são revestidos de um componente pior do que as cores que envolvem as suas balas e gulosei- mas: a mentira. Concentramos aqui maior atenção nas crianças por serem elas o principal "público-alvo" da propaganda dessas empresas, na tentativa de ampliar o con- sumo dos seus produtos. Mas os argumentos apresentados são válidos para pessoas de qualquer idade, principalmente as grávidas, que podem ter tanto a

sua saúde quanto a da criança afetadas. Citamos aqui a Nestlé por ser, se não a maior, uma das mais fortes empresas do mundo na área de alimentação infantil

e de guloseimas supérfulas. Certamente a empresa não tem interesse na saú-

d e o u no bem-estar dos seus consumidores, sendo voltada apenas para o lu- cro, ta! como suas irmãs. Em função disso, ela tem sido combatida por grupos de consumidores e pais em todos os países. A Nestlé promove a alimentação infantil artificial em todo o mundo, infringindo o código de mercado da Organi- zação Mundial de Saúde. Na visão dos seus opositores, enquanto a empresa lucra, os outros pagam por isso.

Na década de 60, na Inglaterra, a Nestlé foi alvo de críticas violentas e de

t

processos, provocados pela sua ação na Africa, quando cerca de dois milhões de lactentes morreram de gastrenterite e diarréias, devido à propaganda desencadeada pela empresa em todo o continente, mostrando as "vantagens" do aleitamento artificial. Convencidas pelos seus argumentos, mães interrom- peram a amamentação, provocando as mortes. O fato foi acompanhado por grupos ativistas e resumido no livro que se tornou apócrifo, denominado The Baby Killer Skandal (O escândalo do assassino de bebês), do grupo inglês War or Want. Apesar de proibido pelas autoridades, graças à influência lobista da empresa, a obra teve mais de um milhão de exemplares vendidos e serviu para alertar o mundo sobre as falcatruas da Nestlé. Serviu também para le- var a companhia à Corte e a promover indenizações. Contudo, devido ao poder da organização, não se fala mais no assunto. Nada mais se soube so- bre os indenizações aos povos africanos vitimados, ao grupo War or Want e ao livro A Organização Mundial d e Saúde e o Fundo das Naçõe s Unidas para a In- fância informam que 1,5 milhão de crianças poderiam ser salvas se a propagan-

ALIMENTAÇÃO PARA UM NOVO MUNDO

da a favor do uso de leite em pó fosse proibida. Milhões de crianças ficam doentes por não ser amamentadas. Atualmente o grupo Baby Miik Action coordena uma ação internacional de boicote à Nestlé em 18 países, com base no fato de que a empresa controla

40 % de todo o mercado mundial de leite em pó infantil, usando a sua influên-

cia para controlar as atividades mercantis e os governos. O s membros do gru-

po apontam a Nestlé como a única companhia internacional a violar a lei de mercado, com propaganda falsa. Hoje, qualquer cidadão do mundo pode participar do boicote via Internet. 2 O s ativistas sugerem que se evite a compra e o uso de qualquer produto da empresa, em qualquer parte do mundo. Pais, pediatras, nutricionistas e educadores conscientes, convencidos dos perigos do consumo de alimentos que contenham aditivos sintéticos, encon- tram uma dificuldade inicial ao lidar ou "negociar" com as crianças na tentati- va de evitar que elas tenham contato com esses produtos. Por isso, é necessário conhecer as diversas alternativas que existem para doces e simila- res. Há inúmeras receitas de guloseimas e sobremesas naturais e atrativas, com o doces, gelatinas, bolos, sorvetes, chocolates, iogurtes caseiros o u in- dustriais — todos desenvolvidos para compensar as crianças habituadas aos produtos sintéticos.

Nu m próximo capítulo, na seção de receitas, relacionamos uma grande quantidade de opções. Fora isto, os entrepostos e as lojas especializadas em alimentos naturais apresentam diversas alternativas nesse sentido.

2 0 boicote mundial à Nestlé é apoiado por mais de 100 grupos religiosos, de saúde e d e consumi- dores, com cerca de 90 escritórios, BO unidades estudantis, 17 autoridades sanitárias, 12 empresas de importação e exportação, 74 políticos ou partidos políticos e diversas celebridades no mundo inteiro. A Nestlé tem sido solicitada pela Advertising Standards Authority (ASA) a não dar continuida- de à propaganda realizada em 1998 contra o referido boicote. Além de estimular os consumidores a não adquirir os produtos da Nestlé, o boicote sugere o envio de e-mail diretamente para a em- presa, com os seguintes termos:

" I understand that Nestle baby milk substitutes contribute to the unnecessary death of 1.5 million infant deaths per year, I therefore pledge to do my best not to buy any Nestle products. I shall con- tinue my boycott until independent monitoring demonstrates that Nestle no longer unethically advertises or promotes breastmilk substitutes." Enviar para: info@babymilkaaion.org

Os ativistas propõem ainda que esta mensagem seja enviada para todos os amigos e pessoas co- nhecidas através da Internet.

Agrotóxicos —

MÁRCIO

BONTEMPO

Dá para viver com eles?

O s agrotóxicos talvez sejam os produtos químicos que mais refletem a in-

terferência do homem na natureza, pois foram as primeiras substâncias a

estar presentes naquilo que é mais importante para a manutenção da vida;

a comida.

Hoje o mundo inteiro se preocupa com a sua presença nos alimentos e há um intenso movimento no sentido de evitá-los. N o Brasil, praticamente todos os produtos agrícolas e a carne dos animais de criação em larga escala apresentam vestígios de agrotóxicos. Eles se dividem em vários grupos, como inseticidas, fungicidas, antibióticos, herbicidas comuns e seletivos, desfolhantes, hormônios sintéticos para animais, etc. Temos desde o mais simples formicida, passando pelo DDT, o BH C e família, até agentes desfolhantes extremamen- te tóxicos, criados para a Guerra do Vietnã e hoje largamente usados na agri- cultura. N o Brasil, dentre os produtos agrícolas que mais recebem agrotóxicos destacam-se o tomate, a batata-inglesa, o morango comercial e o mamão papaia. Na impossibilidade de se evitar completamente a ingestão desses ingre- dientes através dos alimentos, pode-se minimizar o contato com eles obede- cendo-se às seguintes medidas;

— Compr e frutas, verduras, legumes, pescados e similares e m feiras li- vres ou em pequenos produtores. Evite os supere hipermercados.

— Rejeite a batata, o tomate, o morango e o mamão papaia que não se- jam de produção orgânica ou de pequena escala.

— Evite as frutas resultantes de enxertos, como a nêspera, a nectarina, a bergamota, a ameixa-preta, etc.

— Procure cultivar alimentos em hortas comunitárias e domésticas, can- teiros, vasos, etc.

— Adquira apenas os produtos da estação, de acordo com a seguinte ta- bela:

ALIMENTAÇÃO PARA UM NOVO MUNDO

Época de safra dos alimentos

Mês do

ano

Legumes, verduras, etc.

Frutas

janeiro

Abóbora, Abobrinha, Agrião, Alho- poró, Almeirão, Aspargo, Batata-inglesa, Berinjela, Beterraba, Brócolis, Catalunha, Cebola, Cebolinha, Cenoura, Chicória, Cogumelo, Couve, Espinafre, Inhame, Jiló, Mandioca, Mandioquinha, Maxixe, Milho verde, Mostarda, Nabo, Palmito, Pimentão, Quiabo, Rabanete, Repolho, Rúcuta, Salsa, Salsão (aipo), Tomate, Vagem.

Abacaxi, Ameixa, Ameixa importada, Banana-d'água, Banarsa- maçã, Caju, Figo, Goiaba, Jaca, Laranja-pêra, Limão-taiti, Limao- galego, Maçã, Manga, Maracujá azedo, Maracujá doce, Melancia, Melão, Pêra, Pêssego, Uva-rtália.

Fevereiro Abóbora, Abobrinha, Agrião, Alho- poró, Aspargo, Batata-inglesa, Berinjela, Beterraba, Cebola, Cebolinha, Cogumelo, Couve, Inhame, Jiló, Mandioca, Mandioquinha, Maxixe, Milho verde, Mostarda. Palmito, Pimentão, Quiabo, Rabanete, Repolho, Salsa, Salsão (aipo), Tomate.

Abacate, Abacaxi, Ameixa, Ameixa importada, Banana-d'água, Banana- maçã, Caju, Caqui, Figo, Fruta-do- conde, Goiaba, Jaca, Umão-taiti, Limão-galego, Maçã, Maracujá azedo, Maracujá doce, Melancia, Melão, Pêra importada, Uva-itália, Uva-isabel.

Março

Abóbora, Abobrinha, Alho-poró, Aspargo, Batata-inglesa, Berinjela, Cará, Cebola, Cebolinha, Chuchu, Cogumelo, Inhame, Jiló, Mandioca, Mandioquinha, Maxixe, Milho verde, Palmito, Pimentão. Quiabo, Rabanete, Repolho, Vagem.

Abacate, Ameixa importada, Banana-d'água, Banana-maçã. Caqui, Figo, Goiaba, Jaca, Laranja- lima, Lima-da-pérsia, Limão-taiti, Limão-galego, Maçã, Maracujá azedo, Maracujá doce, Melancia, Melão, Pêra importada, Uva, Uva- itália, Uva-isabel.

Abril

Abóbora, Abobrinha, Aspargo, Batata-inglesa, Berinjela, Cará, Cebolinha, Chuchu, Cogumelo, Inhame, Jiló, Mandioca, Mandioquinha, Maxixe, Milho verde, Palmito, Pimentão, Quiabo, Rabanete, Repolho, Vagem.

Abacate, Banana-d'água, Banana- maçã, Caqui, Figo, Goiaba, Jara, Laranja-seleta, Laranja-lima, Laranja- pêra, Lima-da-pérsia, Limão-taiti, Limão-galego. Maçã, Maçã argentina, Mamão-bahia, Maracujá azedo, Maracujá doce, Melancia, Pêra importada, Tangerina, Uva,

Maio

Abóbora, Abobrinha, Alface, Batata- inglesa, Berinjela, Cará, Chuchu, Cogumelo, Inhame, Jiló, Mandioca, Mandioquinha, Pimentão, Quiabo, Rabanete, Rúcula, Salsa, Tomate, Vagem.

Abacate, Banana-d'água, Banana- maçã, Banana-pnata, Jaca, Laranja- seleta, Laranja-lima, Laranja pêra, Lima-da-pérsia, Limão-taiti, Maçã argentina, Mamão-bahia, Mamão amarelo, Maracujá azedo, Maracujá doce, Melancia, Tangerina, Tangerina-poncã.

MÁRCIO

BONTEMPO

Junho

Acelga, Alface, Batata-inglesa, Brócolis, Cará, Chuchu, Cogumelo, Ervilha, Inhame, Mandioca, Mandioquinha, Rúcula, Salsa, Tomate.

Abacate, Banana-d'água, Banana- maçã, Banana-prata, Jaca, Laranja- seleta, Laranja-lima, Laranja-pêra, Lima-da-pérsia, Limão-taiti, Maçã argentina, Mamão-bahia, Mamão amarelo, Maracujá azedo, Maracujá doce, Melancia, Tangerina, Tangerina-poncã.

Julho

Abóbora, Acelga, Alface, Batata inglesa, Brócolis, Cará, Cenoura, Erva-doce, Ervilha, Espinafre, Inhame, Mandioca, Mandioquinha, Mostarda, Nabo, Rúcula, Salsa, Tomate.

Abacate, Abacaxi, Banana-d'água, Banana-prata, Laranja-seleta, Laranja-lima, Laranja-pêra, Lima-da- péreia, Limão-taiti, Maçã argentina, Mamão-bahia, Mamão amarelo, Maracujá azedo, Melão, Morango.

Agosto

Acelga, Agrião, Alface, Almeirão, Beterraba, Brócolis, Cará, Catalunha, Cebola, Cenoura, Chicória, Couve, Couve-flor, Erva-doce, Ervilha, Espinafre, Inhame, Mostarda, Nabo, Rúcula, Salsa.

Abacaxi, Banana-prata, Jabuticaba, Laranja-lima, Laranja-pêra, Lima- da-pérsia, Maçã argentina, Melão, Morango,

Setembro

Acelga, Agrião, Alface, Alho, Almeirão, Beterraba, Brócolis, Catalunha, Cebola, Cenoura, Chicória, Cogumelo, Couve, Couve- flor, Erva-doce, Espinafre, Mostarda, Nabo, Repolho, Salsa, Salsão (aipo).

Abacaxi, Banana-prata, Jabuticaba, Laranja-pêra, Maçã argentina, Morango, Nêspera.

Outubro

Acelga, Alcachofra, Alface, Alho, Alho- poró, Almeirão, Beterraba, Brócolis, Catalunha, Cebola, Cenoura, Chicória, Chuchu, Cogumelo, Couve, Couve-flor, Erva-doce, Espinafre, Mostarda, Nabo, Repolho, Salsa, Salsão (aipo), Vagem.

Banana-prata, Jabuticaba, Morango, Nectarina, Nêspera.

Novembro

Alcachofra, Alface, Aiho-poró, Almeirão, Beterraba, Catalunha, Cebola, Cebolinha, Cenoura, Chicória, Couve, Espinafre, Mostarda, Repolho, Salsa, Salsão (aipo), Vagem.

Jabuticaba, Morango, Nectarina, Pêssego.

Dezembro Alcachofra, Alho, Alho-poró, Almeirão, Beterraba, Catalunha, Cebola, Cebolinha, Cenoura, Couve, Repolho, Salsa, Salsão (aipo), Tomate, \&gem.

Abacaxi, Ameixa, Melão, Pêssego.

ALIMENTAÇÃO PARA UM NOVO MUNDO

Os vegetais têm mais agrotóxicos do que a carne

Um dos argumentos usados contra a alimentação vegetariana afirma que os vegetais, e não a carne, estão contaminados pelos agrotóxicos. Apesar dos ta- bus e da desinformação dos médicos e das autoridades sanitárias, essa afirma- ção, hoje, é o inverso da realidade.

U m gráfico esclarecedor— publicado em 1969, nos Estados Unidos, pelo

Pesticides Monitoring Journal — demonstrou que os derivados de produtos animais contêm mais DD T e seus similares que os produtos vegetais. Observe as dosagens assinaladas:

Presença de agrotóxicos nos diversos tipos de alimentos

Carne bovina, pescados e aves

Laticínios

Óleos, gorduras e similares

0,281 pprn*

0,1 12 pprn

0,041 pprn

Vegetais verdes

0,036 pprn

Frutas

0,027 pprn

Legumes

0,026 ppm

Grãos e cereais integrais

0,008 ppm

Raízes

0,007 ppm

Batata-inglesa

0,003 ppm**

*PPM — partes por milhão. **Os dados acima referem-se aos Estados Unidos e ao Canadá. N o Brasil os números são relativamente semelhantes, com exceção da batata comum, que entre nós registra forte pre- sença de agrotóxicos.

Co m relação à carne bovina, suína, ovina, e ao leite e seus derivados, es- tudos no Brasil não só confirmam os índices registrados como acrescentam que há um descontrole na utilização desses venenos agrícolas, o que determina maio- res concentrações de toxinas nos produtos citados.

A carne bovina contém a mais alta concentração de herbicidas entre todos

MÁRCIO BONTEMPO

os alimentos comercializados na América do Norte, segundo o National

Research Council (NRC) da National Academy of Sciences. Oitenta por cento de todos os herbicidas usados nos Estados Unidos são pulverizados no milho e

na soja, usados primariamente para alimentar o gado. Depois de consumidas

pelo rebanho, as substâncias químicas acumuladas em seus corpos são trans-

mitidas aos consumidores através dos bifes cortadinhos do açougue.

Resíduos de agrotóxicos na alimentação

norte-americana

•Resíduos de agrotóxicos em parte por milhão (ppm)

O DD T e seus semelhantes se depositam na gordura dos animais, onde é murto

difícil ser assimilados. Assim, quando o gado come capim ou ração impregna- dos de pesticidas, essas substâncias ficam retidas em seu corpo. Portanto, quando o homem se alimenta dessa carne, ele recebe toda a concentração de DD T e de outras matérias acumuladas durante toda a vida animal. Como eles se ali- mentam na "etapa final" da cadeia alimentar, os seres humanos tornam-se os últimos consumidores, sendo, portanto, os receptores da mais alta concentra- ção de pesticidas. D e fato, a carne contém 13 vezes mais DD T do que os le- gumes, as frutas e a ração animal. A Universidade Estadual de lowa demonstrou, através de pesquisas, que a maior parte do DD T encontrado nos organismos

humanos vem da carne.

O New York Times relatou: "Um grave risco potencial à saúde são as subs-

ALIMENTAÇÃO PARA UM NOVO

MUNDO

tâncias contaminadoras invisíveis — bactérias como a salmonela e resíduos de pesticidas, nitratos, nitritos, hormônios, antibióticos e outros produtos quími- cos" (18.7.1971).

Há tempos fez-se uma experiência nos EUA, que foi relatada por Robert J.

Courtine: "Pulverizaram com DD T as ervas de uma pastagem e com essa for- ragem alimentaram as vacas. Com o leite dessas vacas fez-se manteiga, que foi

dada a ratos. Os ratos

morreram, e foi verificado que o DD T contido em seus

estômagos possuía poder mortífero igual àquele que havia sido empregado

inicialmente." Tal pesticida é igualmente absorvido junto com os legumes, os

frutos, o s cereais, o leite, a carne

O s inseticidas penetram nas gramíneas; in-

geridos pelos animais, acumulam-se na sua gordura e voltam a encontrar-se nos produtos alimentícios de origem animal. Depois de medirem a percenta-

gem de DD T existente em diversos produtos americanos, foram encontrados:

89/milhão na gordura de vaca

65/milhão nos ovos

500/milhão na gordura de galinha

12/milhão no leite de vaca

O

DD T absorvido pelas vacas através da forragem é também armazenado

na gordura, sendo depois eliminado lentamente pelo leite, durante meses. Até no leite humano, em 30 de 32 casos, se encontrou DDT em proporções que variavam entre 0,1 e 0,77 por milhão. Assim, os seres humanos, quer sejam alimentados pela mãe ou com leite de vaca, ingerem resíduos venenosos des- de os primeiros dias de vida. Esta intoxicação é muito grave, porque a sua ali- mentação é composta só de leite e os organismos jovens são mais sensíveis a venenos do que os adultos.

Dioxina —

0 pior veneno

A dioxina, ou tetraclorodibenzoparadioxina (TCDD), é um composto altamente tóxico e persistente, que se forma na elaboração de herbicidas, como o 2,4,5T Pela sua alta toxidez, faz parte da lista dos chamados "ultravenenos". Asubstân- cia ficou conhecida na Guerra do Vietnã porque integrava o herbicida apelida- do de "agente laranja", usado portropas americanas durante o conflito.

MÁRCIO

BONTEMPO

U m estudo feito pela Agência de Proteção Ambiental (EPA), nos Estados

Unidos, enfatiza que, embora a emissão de dioxina tenha caído desde 1970, quando foi amplamente utilizada, a substância ainda representa uma ameaça para aqueles que ingerem elementos químicos contidos em certos alimentos. Existem fontes naturais e artificiais de dioxina, como lixo hospitalar e domésti- co e resíduos industriais originários da produção de papel.

A dioxina contamina a água e as plantas, sendo ingerida por peixes e ani-

mais que se alimentam de vegetais. Por se acumular na gordura, atravessa toda a cadeia alimentar até chegar ao homem, causando diversos tipos de câncer, como o de pulmão. Ela tem uma dose letal (DL50) de 0,001 mg/kg, ou seja, um único grama pode intoxicar e matar cerca de 10.000 pessoas. Os produtos veterinários mais comuns aplicados nos animais são os antibió- ticos, sulfamidas e hormônios, que podem dar origem às dioxinas. Segundo o estudo da EPA, a probabilidade de as pessoas que seguem dietas ricas em co- midas gordurosas de origem animal desenvolverem câncer é de I em 100, estimativa dez vezes maior que a anteriormente prevista. Esses alimentos, ge- ralmente com alto índice de dioxina, são ingeridos ao longo dos anos e, por terem efeito cumulativo, as conseqüências só são sentidas a longo prazo. Os pesquisadores que participaram do estudotambém concluíram que essa substância está relacionada com a diabetes e com problemas no desenvolvi- mento infantil. As crianças estão mais expostas à matéria tóxica do que os adul- tos, já que além de consumirem grande quantidade de laticínios bebem leite materno, que também pode conter dioxina.

Os vegetais podem neutralizar venenos neles contidos

Enquando os produtos de origem animal, notadamente a carne, apresentam índices elevados de venenos agrícolas e toxinas, provenientes da ação do ho- mem no meio ambiente, os vegetais, que também podem contê-los, possuem um poder especial de eliminá-los do próprio organismo que deles se alimenta.

O problema das nitrosaminas, por exemplo, diz respeito às carnes e seus

derivados (salsicha, chouriço, presunto e fiambre), devido à adição de nitritos usados para manter a cor da carne mais apetitosa. Esses elementos tendem a se concentrar na gordura animal e a se acumular. Apesar disso, pouco se divul- ga a quantidade de nitrosaminas utilizada nesses produtos. Prefere-se afirmar,

ALIMENTAÇÃO

PARA UM NOVO MUNDO

sem comprovações, que os vegetais cultivados ou industrializados têm mais nitrosaminas. Mesmo assim, os nitratos que ingerimos provenientes dos legu- mes e frutos têm seus efeitos quase anulados, o que não ocorre com a carne

por eles contaminada. Assim, nada ainda está decidido quanto à agricultura bio- lógica. Os nitratos, na boca ou no estômago, podem transformar-se em nitritos que, por sua vez, produzem nitrosaminas — substâncias cancerígenas. N o caso dos vegetais estes efeitos negativos são parcialmente neutralizados pelas vita- minas C e E, os carotenóides e os flavonóides, o que não acontece com os outros alimentos. Mesmo assim, é melhor ter certos cuidados: lavar, descascar

e cozer eliminam

grande parte dos nitratos. N o caso das alfaces, que são

consumidas cruas, é especialmente importante não aproveitar as folhas exte- riores e as nervuras, onde eles se concentram. Deixando de consumir estas partes, estaremos eliminando 30 % deles.

0 que há de errado em consumir leite e seus derivados

O consumo desses produtos contribui para a devastação e degradação

ambiental, quase que nas mesmas proporções que o consumo de carne bo- vina. Em busca de novas pastagens, são comuns o desmatamento e as quei-

madas, principalmente no Brasil. Por essa razão, o vegetariano autêntico não

faz uso do leite de vaca e dos seus derivados. Mas existem razões ligadas à

saúde que apontam os laticínios como alimentos inadequados para o consu- mo humano.

Nos últimos anos, principalmente, têm crescido as evidências sobre os efeitos negativos do leite e dos seus derivados sobre o organismo humano. Considerados excelentes alimentos até há alguns anos, eles hoje estão sendo questionados por muitos médicos e nutricionistas, principalmente nos Estados Unidos e na Europa.

Recentemente, os estudos do dr. FranckA. Oski e John D. Bell compro- vam que, mesmo não lhes acrescentando nenhum aditivo ou açúcar, os laticí- nios não são apropriados para o homem, uma vez que a natureza fez com que

cada espécie de mamífero produzisse o seu próprio leite. Pouco depois dos três anos de idade, ou assim que a primeira dentição começa a se definir, o organismo humano vai perdendo uma enzima denominada lactose. Com isso

o leite de vaca torna-se um produto de difícil digestão, perturbando a assimila-

MÁRCIO

BONTEMPO

ção de outros nutrientes e favorecendo as fermentações digestivas que pro- vocam flatulências. Diferentemente do leite humano, o leite de vaca possui vários compo- nentes em quantidades desproporcionais para o homem, como a caseína e a lactoalbumina. Contém também alérgenos diversos (produzem vários tipos de reações alérgicas), como as imunoglobulinas, por exemplo, que provo- cam alergias em diferentes mamíferos, menos no bezerro. O excesso de albuminas, de mucopolissacarídeos e de outros compostos mucosos faz do leite integral um dos produtos mais mucogênicos, sendo portanto capaz de aumentar a secreção das mucosas. Muitos organismos descarregam o exces- so de compostos mucóides lácteos através dos "emunctórios naturais", ou seja, das áreas forradas por mucosas, como o conduto auditivo, as paredes dos brônquios, a mucosa nasal, as paredes dos seios da face, as paredes va- ginais e, também, através da pele e do couro cabeludo. Respectivamente, isto contribui para o surgimento de bronquites, rinites, sinusites, corrimentos vaginais, eczemas, descamações, caspas e seborréias. A medicina natural in- tegral compreende que estes fenômenos resultam da descarga de toxinas e de material ácido do sangue. O excesso de consumo de laticínios favorece a produção de ácido lático.

Há algum tempo, o leite de vaca era recomendado pelos médicos para o tratamento auxiliar da úlcera gástrica, mas hoje está sendo contra-indicado. Por ser alcalino na sua forma natural, o leite de vaca tem, de fato, um efeito ime- diato e espetacular sobre os sintomas de queimação determinados pelos áci- dos do estômago sobre uma úlcera. Mas quase que imediatamente ele talha e azeda, gerando ácido lático nos intestinos, o que contribui para a assimilação e presença de maior quantidade de elementos acidificantes. Isso faz com que o sangue forneça mais íons H +, o que incrementa a produção de ácido clorídri- co no estômago, perpetuando o processo. Como a pessoa que sofre de úlce- ra tem alívio imediato com o leite, acaba por consumir quantidades crescentes do produto, sem saber que caiu num círculo vicioso.

Estudos mais recentes revelam dados estarrecedores que têm causado muita polêmica. Recomendado como um dos alimentos capazes de prevenir a osteoporose, o leite hoje está sendo apontado como um dos fatores que a provocam. A osteoporose é um enfraquecimento do tecido ósseo derivado de uma carência de minerais, entre eles o cálcio. Muito comum no sexo feminino na

ALIMENTAÇÃO PARA UM NOVO MUNDO

menopausa e no envelhecimento, ela pode produzir alterações na estrutura da coluna vertebral e fraturas espontâneas causadas por poucas trações. Como o

leite de vaca (de cabra e outros) é rico em cálcio, imagina-se que ele seja bené- fico nesses casos. Contudo, uma visão global ou integral nos revela que os mine- rais interagem entre si e se interdependem. No tecido ósseo, o cálcio, o fósforo

e o magnésio têm função importante quanto à formação e manutenção do osso.

Numa analogia muito simples, poderíamos imaginar que o cálcio é o tijolo de um muro; o magnésio, o cimento e o fósforo, a água que mistura o cimento. Com- parado ao leite humano o leite de vaca é particularmente muito pobre em magnésio (que o bezerro obtém mais tarde através da clorofila do capim, sendo

o leite, portanto, adaptado a esta condição), além de ter também pouco fósforo.

Como o leite fornece muito cálcio, mas quase nenhum magnésio, este cálcio (secundário) excessivo acaba exigindo uma complementação bioquímica com o magnésio (menor com o fósforo), que acaba por ser retirado lenta e continua- mente do tecido ósseo, enfraquecendo-o ao longo dos anos. Entretanto, com base e m estudos mais atuais, descobriu-se que somente o leite não seria um fa- tor tão importante na questão da osteoporose.

Segundo a indústria de laticínios, para manter os ossos fortes precisamos

pesquisas demonstraram que mes-

mo algumas mulheres que bebiam três copos de leite por dia acusavam defi-

ciência deste mineral.

Mais de 25 % das mulheres acima dos 60 anos nos EU A já perderam mais da metade de seu tecido ósseo, O consumo excessivo de proteínas através da carne e dos laticínios acidula o sangue, provocando a redução de cálcio nos ossos para neutralizar essa acidez. As mulheres vegetarianas, ao contrário, têm ossos fortes, posturas eretas e pouquíssimas fraturas na idade avançada. Isso se deve ao fato de que as verduras têm mais cálcio do que o leite, além de não apresentarem excessos de proteína capazes de causar acidez e perda óssea.

O teor mais elevado de cálcio no leite de vaca — adequado para o bezer-

ro, mas excessivo para seres humanos — é um dos fatores que contribuem para a maior incidência de arteriosclerose, aterosclerose, cálculos renais e biliares, além de anomalias ósseas, já que o cálcio, juntamente com o sódio e o colesterol, tende a contribuir para a formação de placas endurecidas dentro das artérias.

A precipitação do cálcio excedente na corrente sanguínea favorece a for-

mação de cálculos renais, segundo pesquisas realizadas em Boston, Mas-

ingerir cálcio através do leite. N o entanto,

MÁRCIO BONTEMPO

sachusetts, em 1998. Não é sem razão que o leite seja o primeiro alimento a ser suspenso por médicos bem informados em situações de litíase renal. Também verificamos na alimentação humana a presença constante de um agente descalcificante, sensivelmente negligenciado pela medicina oficiai e bas- tante utilizado junto com o leite: o açúcar branco. A elevada e crescente inci- dência de osteoporose nos dias de hoje se deve ao hábito de se consumir excessivamente laticínios e açúcar branco. Em quantidades excessivas, o açú- car atua retirando basicamente o cálcio e o magnésio primários presentes nos ossos e nos dentes.

Resumo dos problemas provocados pelo consumo de leite e derivados

Alergias alimentares

Caspa

Alergias de pele

Dermatite seborréica

Alergias subclínicas

Enxaqueca

Arteriosclerose cerebral

Flatulência

Artrite

Fluxos vaginais

Artrose

Gases intestinais

Asma brônquica

Infecções intestinais

Aterosclerose coronariana

Osteoporose

Bronquite

Reumatismo

Cálculos biliares

Rinite

Cálculos renais

Sinusite

Fonte: Franck A. Oski e John D. Beil, em Don't Drink Your Milk. Avon Books, Nova York, 1969.

Adeptos da alimentação natural com base na abordagem macrobiótica afir- mam que o leite de cada mamífero é adequado para cada espécie. Se uma delas se alimentar regularmente do leite de uma outra espécie, surgirão pro- blemas. Seriam as doenças que acabamos de enumerar ligadas a essa forma de entendimento? Possivelmente sim. O estudo e a observação das leis da

ALIMENTAÇÃO PARA UM NOVO MUNDO

natureza indicam que toda e qualquer infração cometida contra elas resulta

em multa ou em dano à saúde. De fato a estrutura do leite de vaca é própria

para bezerros, mas não exatamente adequada para os homens. O bezerro

cresce cerca de dez vezes mais rapidamente que os humanos nos primeiros

meses de vida e, como já vimos, nesse período precisam de menos magnésio

do que nós; além disso, os anticorpos gerados pelo organismo da vaca para

a defesa imunológica do bezerro tornam-se antígenos para os seres huma-

nos e podem desencadear distúrbios alérgicos de várias proporções. Exis-

tem outros numerosos elementos presentes no leite de vaca que são

importantes para bezerros, mas inadequados para homens, O leite humano,

ao contrário, é perfeitamente próprio para o nosso consumo, mesmo apo-

sentando quantidades menores de vários nutrientes (principalmente proteí-

nas), quando comparado ao leite de vaca. Mas não há como consumir leite

humano, a não ser no início da vida.

Convém lembrar que, se quisermos obedecer aos ditames das leis natu-

rais, devemos parar de tomar leite assim que nascem os dentes. A esta altura,

o leite, mesmo humano, deixa de ser um alimento completo. É o que aconte-

ce com os demais mamíferos, que mudam a sua dieta logo que nascem os

dentes. O seres humanos são os únicos "animais" que continuam a se alimen-

tar de leite — obviamente de outros animais — durante toda a sua vida.

Comparando o leite das diferentes espécies

Porcentagem

Tempo necessário

de proteínas

para dobrar o peso

Humano

5 %

180 dias

Égua

1 1%

60 dias

Vaca

15%

47 dias

Cabra

17%

19 dias

Cadela

30 %

8 dias

Gata

40 %

7 dias

Rata

49 %

4 dias

MÁRCIO BONTEMPO

Entre as opções de substitutos saudáveis para o leite de vaca podemos encon- trar o leite de soja, de amêndoas (ver receita adiante), de aveia, de arroz inte- gral e de cereais, preparado através do cozimento prolongado de farinhas de cereais integrais.

A polêmica dos alimentos transgênicos

"O conhecimento atual não nos permite prever os efeitos, a longo prazo, da liberação de organismos transgênicos no meio ambiente."

DR. RENÉ VON SCOMBERG, técnico e conselheiro do Parlamento europeu

Considera-se transgênico qualquer alimento modificado geneticamente. Atra- vés das técnicas da engenharia genética ou da biotecnologia introduz-se uma

mais seqüências de DN A de outra espécie, ou uma seqüência modificada

da mesma. Organismo transgênico é aquele que recebeu um gene, ou seja, um pedaço de DN A que não existia. Toda e qualquer espécie viva é formada por um conjunto de genes, o DNA, que vai determinar suas características.

O s efeitos do avanço da biotecnologia e dos transgênicos na indústria de alimentos continuam sendo discutidos no mundo inteiro. Animais também podem ser transgênicos. A empresa de biotecnologia de Edimburgo, PPL Therapeutics, a mesma que criou Dolly, a primeira ovelha clonada do mundo, produziu mais um clone. Trata-se de Polly, uma ovelha que representa um avanço em relação a Dolly: tem um gene humano. Ela é a pri- meira ovelha transgênica criada a partir da tecnologia de clonagem e está sen- do considerada pelos cientistas um passo crucial na comercialização desta técnica. Polly contém um gene humano, responsável pela produção de uma proteína humana em seu leite, que permitirá tratar doenças que vão da hemofilia à osteoporose. O método de clonagem permitirá o nascimento apenas de fê- meas e a obtenção de um rebanho inteiro a partir de uma só geração.

Acredita-se que o que vai realmente valorizar a planta transgênica será o desenvolvimento de variedades mais resistentes às pragas, o que, teoricamen-

ou

ALIMENTAÇÃO

PARA UM NOVO MUNDO

te, exigiria o emprego de menos agrotóxicos nas culturas vegetais. Além disso, espera-se que os alimentos transgênicos garantam maior teor de nutrientes, principalmente proteínas e lipídios. Considera-se também que estes alimentos possam ser mais baratos e o seu cultivo mais eficiente do que o convencional,

o que poderia ser a solução para o abastecimento da população mundial, re- solvendo a situação da fome.

Essa idéia principiou quando as primeiras experiências americanas com transgênicos produziram tomates com genes que modificam a parede celular da solanácea, aumentando sua vida útil. Usou-se o bacilo turigensis, bactéria usada como biopesticida, colocando-se a sua toxina dentro das plantas, o que produziu maior resistência a pragas e melhoria da qualidade. O bacilo foi intro- duzido também no genoma do algodão e do milho, mostrando a possibilidade de redução dos custos de produção e menor uso de inseticidas.

Nos Estados Unidos, a soja é o produto vegetal que vem sendo largamen-

te produzido através da biotecnologia. Ficou famoso o caso da soja RR (Roundup

Ready), resistente ao herbicida glifosato (herbicida Roundup). Um gene origi- nado de uma bactéria de solo que tinha o poder de quebrar a molécula do herbicida foi introduzido nesse tipo de soja, fazendo com que o vegetal, que normalmente não resistiria à aplicação do herbicida, não morresse ao ser atin- gido pelo produto, enquanto as ervas daninhas não resistiram à aplicação.

Atualmente cerca de 70 % da área destinada ao plantio de algodão nos Estados Unidos é cultivada com variedades transgênicas — alteradas genetica- mente para combater principalmente a lagarta da maçã e a lagarta rosada, os dois principais problemas dessa cultura nos EUA. A previsão é de que, na pró- xima safra, os transgênicos ocupem 80 a 90 % da área destinada ao algodão no país.

A Monsanto entra no campo

A Monsanto é uma empresa norte-americana pioneira na pesquisa e na pro-

dução de alimentos transgênicos. Com a ajuda da engenharia genética, ela vem

desenvolvendo sementes dos mais variados tipos, da colza ao milho, tornan- do-as altamente produtivas e resistentes a pragas. Mas nenhuma supersafra

agricultores pagam uma fortuna pelas sementes da Monsanto

e são obrigados a assinar um contrato que os impede de plantar sementes pro-

vem de graça. O s

MÁRCIO

BONTEMPO

venientes de suas colheitas. Isso quer dizer que, se quiserem repetir o sucesso da safra seguinte, têm de recorrer mais uma vez à companhia para conseguir um novo carregamento. Usando a engenharia genética e com a ajuda de genes inteligentes — ainda em fase de desenvolvimento — , a Monsanto quer criar futuras safras com um novo propósito: a esterilidade, N o momento em que as plantas atingirem a maturidade, as sementes perderão a capacidade de reprodução. Esse novo gene

— chamado de Terminator (Exterminador do Futuro) — está sendo motivo de

preocupação no mundo inteiro. Caso essa nova tecnologia tome conta do mercado, acredita-se que, em breve, os agricultores estarão implorando pelas sementes da Monsanto, dispostos a pagar qualquer preço para garantir uma nova safra, O perigo maior, segundo algumas previsões, estaria na dissemina- ção do gene esterilizador. Com o vento, o pólen dessas plantas poderia fertili- zar outras da mesma família, culminando com a contaminação, de forma irreversível, de toda a flora terrestre.

O s pesquisadores conseguiram remover de uma célula vegetal o segmen- to de DN A responsável pela produção de toxina e introduzir esse material genético letal no genoma de plantas comerciais. Em associação com outros dois elementos, o gene assassino permanece inativo até um estágio avançado de desenvolvimento, quando atoxina produzida afeta apenas as sementes, não

a planta. Entretanto, como a empresa precisa produzir inicialmente uma quan-

tidade suficiente de sementes para a venda, os cientistas acrescentaram mais uma seqüência de DN A para neutralizar os genes esterilizadores. Uma vez

produzidas as sementes necessárias, elas serão imersas em antibiótico para que

o gene repressor seja ativado e as sementes se tomem estéreis.

Embora a maior parte dos cientistas acredite que não haja perigo na criação do "exterminador do futuro", o fato é que, de posse dessa tecnologia,

a Monsanto estará numa situação privilegiada e de grande poder. Jeremy

Rifkin, especializado em biotecnologia, tem a seguinte opinião: "Em se tra-

tando de marketing, a nova tecnologia é fantástica, mas do ponto de vista social, ela é calamitosa, porque o que está em jogo é o controle das se- mentes da vida."

Muitas organizações e instituições do mundo inteiro estão reagindo contra

a Monsanto. A empresa, no entanto, não é a criadora da tecnologia do "exter- minador do futuro". Ela foi desenvolvida pelo Departamento de Agricultura norte-americano, em parceria com a empresa produtora de sementes, a Del-

ALIMENTAÇÃO PARA UM NOVO MUNDO

ta and Pine Land, do Mississippi, que vendeu as patentes para a Monsanto por

um bilhão de dólares.

A Monsanto vem criando inimigos, especialmente em países em desenvol-

vimento. Em muitos deles, os agricultores não têm condições de comprar es- sas sementes de primeira linha todos os anos e precisam usar uma porção de cada colheita para o plantio no ano seguinte. Na visão da empresa, o "Extermi- nador do Futuro" é particularmente importante nessas regiões, onde não exis- te proteção efetiva para suas patentes. Mas esse é um argumento pouco convincente nos países pobres. Segundo Hope Shand, diretor de pesquisa da Fundação Internacional para o Avanço Rural, "não haverá benefícios para os agricultores".

A Monsanto contra-argumenta a favor dos seus produtos. Além de produ-

zir um dos herbicidas mais populares do mundo, a companhia desenvolveu

plantas mais resistentes ao veneno, permitindo que os agricultores pulverizem

a plantação sem prejuízo

à sua colheita. O s cientistas da empresa também

desenvolveram plantas capazes de produzir uma toxina inofensiva para o ho- mem, mas fatal para os insetos. Atualmente eles pesquisam outras substâncias que podem ser incorporadas ao material genético e serão capazes de comba- ter mais de vinte doenças. Se as supersementes — com ou sem o Extermina- dor do Futuro—forem adotadas em países em desenvolvimento, o aumento de produtividade seria uma boa justificativa para a compra anual de sementes a

um custo mais elevado.

Os técnicos da Monsanto também contestam as sombrias previsões dos

ambientalistas. Eles descartam o risco de uma esterilização generalizada. Se- gundo a empresa, a transmissão dos genes "assassinos" pode até ocorrer, mas

é pouco provável. Precauções simples, como o isolamento das plantações que contêm o gene alterado, estão aptas a resolver o problema.

0 perigo dos alimentos

transgênicos

Em relação aos alimentos transgênicos, a verdade é que, enquanto alguns cien- tistas dizem que eles são inofensivos a saúde e ao meio ambiente, até hoje nenhum conseguiu provar isso. Há cientistas mais prudentes que exigem no- vas pesquisas, já que há evidências de que existem riscos potenciais relaciona- dos aos transgênicos, Vamos a eles.

MÁRCIO

BONTEMPO

Cientistas menos envolvidos com os interesses comerciais da Monsanto afirmam que o gene "exterminador" poderá ser levado pelo vento junto com os grãos de pólen e fecundar as flores de plantas silvestres ou domésticas, tor- nando-as também estéreis, e provocando uma irreparável destruição no patrimônio biológico da humanidade. Dizem também que novos elementos tóxicos podem ser agregados aos alimentos. Muitas plantas produzem naturalmente uma variedade de compos- tos — como as neurotoxinas, inibidoras de enzimas — que podem ser tóxicos e alterar a qualidade dos alimentos. Geralmente, estes compostos estão pre- sentes em níveis não-tóxicos, mas através da engenharia genética podem ser produzidos em altos níveis. Existem também riscos para a saúde, já que existe a possibilidade do DN A inserido na comida ser tóxico. N o Japão, um suplemento alimentar "engenhei- rado" causou dezenas de mortes e deixou centenas de pessoas inválidas em razão da sua toxicidade. Há também relatos de respostas alérgicas de indivíduos que consumiram um transgênico que possuía um gene da castanha-do-pará brasileira. Com a engenharia genética, novas proteínas causadoras dessas reações alérgicas po- dem entrar nos alimentos. Alergênicos são proteínas que causam reações alér- gicas. Transferidas de um alimento para outro, as proteínas podem conferir à nova planta as propriedades alergênicas do doador. Embora as pessoas nor- malmente costumem identificar os produtos que as afetam, com a transferên- cia dos alergênicos perde-se a identificação e a pessoa só vai descobrir o que lhe fez mal após a ingestão do alimento.

para os microor-

ganismos da flora intestinal conferindo resistência bacteriana aos antibióticos.

Segundo um estudo da Royai Society da Inglaterra, há chances de que isso

ocorra. Os genes antibiótico-resistentes podem diminuir a eficácia de alguns antibióticos em seres humanos e nos animais.

A qualidade nutricional dos alimentos da engenharia genética também pode

ser reduzida. Pode ser significativamente alterada a quantidade de nutrientes nos alimentos "engenheirados". Sua absorção ou metabolismo também po- dem ser modificados e novas substâncias correm o risco de alterar a composi- ção dos alimentos. O gene introduzido pode não só estimular a atividade de genes inativos, como inativar genes antes ativos. Isso resultaria na deficiência de uma proteína ou no surgimento de uma nova proteína, causando distúrbios

É possível ainda que o DN A inserido possa sertransferido

ALIMENTAÇÃO PARA UM NOVO

MUNDO

imprevisíveis no metabolismo da célula, como a geração de novos compostos ou modificação nos níveis de concentração dos já existentes,

N o que diz respeito à segurança em reSação à liberação dos transgênicos,

a avaliação é feita através da equivalência substancial, isto é, se o transgênico possui as mesmas substâncias que o alimento original. Alguns cientistas alegam que esse método não é seguro uma vez que existe a possibilidade de novas proteínas nocivas ao metabolismo não serem detectadas, Como essa avaliação foi aprovada por rigorosos órgãos americanos como sendo segura, os trans- gênicos avaliados são vendidos em vários países, inclusive no Brasil.

A engenharia genética cria um aminoácido

tóxico

Suplementos alimentares, como aminoácidos, geralmente são fabricados por

processos fermentativos. Grandes quantidades de bactérias são cultivadas em tonéis e o suplemento é extraído das bactérias e purificado. O aminoácido triptofano tem sido produzido deste modo há muitos anos.

N o final dos anos 80, a companhia Showa Denko K.K. decidiu usar a en-

genharia genética para acelerar e aumentar a eficiência da produção de triptofano. Foram inseridos vários genes que alteraram a bactéria, levando-a a expressar certas enzimas, em níveis muito acima do normal, e outras que nor- malmente não fariam parte da bactéria original. Estas enzimas alteraram subs- tancialmente o metabolismo celular do triptofano provocando um grande aumento da sua produção. A bactéria alterada foi imediatamente utilizada na produção comercial do aminoácido, posto à venda no mercado norte-ameri- cano em 1988. Substancialmente ele foi considerado equivalente ao triptofano que estava sendo vendido há anos. Só que, em poucos meses, causou a morte de 37 pessoas e 1.500 ou mais incapacitações permanentes. Meses se passaram até que se descobrisse que o envenenamento fora provocado por uma toxina presente no aminoácido produzido pela bactéria modificada pela Showa Denko através da engenharia genética. A nova doença foi batizada de EMS (eosinophilia myalgia syndrome), porque seus sintomas iniciais eram: aumento do número das células sanguíneas (eosinófilos) e dores musculares (mialgia). Mais tarde mostrou-se que o triptofano produzido pelas bactérias modificadas continha um ou mais contaminantes tóxicos. O mais importante deles, chamado EBT, foi identificado como um produto da dime-

MÁRCIO

BONTEMPO

rização do triptofano. Ele representava menos de 0,1 % do peso total do pro- duto, mas ainda assim foi suficiente para matar pessoas. Assim, parece que a manipulação genética para aumentar a sua biossíntese levou a um aumento dos níveis celulares do triptofano e de seus precursores. Nestes altos níveis, esses compostos reagiram com eles mesmos, gerando uma toxina mortal.

Sendo quimicamente muito parecida com o aminoácido, esta toxina não poderia ter sido facilmente separada dele, o que ocasionou a contamina- ção do produto comercial final em níveis altamente tóxicos para os consu- midores.

Alimentos transgênicos podem afetar as abelhas e seus produtos

Recentemente um caso envolvendo abelhas e transgênicos assustou os britâ- nicos. Um pólen geneticamente modificado foi encontrado no mel produzido em locais próximos a campos experimentais de transgênicos. A descoberta foi divulgada pela organização ecológica Friends ofthe Earth (Amigos da Terra) que agora está reivindicando a suspensão imediata dos testes com safras de canola e milho geneticamente modificados feitos ao ar livre.

Os testes foram realizados pelo cientista Andreas Heissenberger, da Agên- cia Federal de Meio Ambiente da Áustria. O s criadores que possuem colméias próximas aos campos experimentais estão sendo advertidos para que retirem suas abelhas das imediações. Eles se queixam de não ter sido alertados sobre a "vizinhança" e agora a Associação dos Criadores de Abelhas da Inglaterra — que representa 350 produtores em todo o país — quer compensação pela perda de renda provocada pela mudança das colméias.

Transgênicos e o meio ambiente

Ainda não se sabe ao certo se a produção de transgênicos traz mais prejuízos ou benefícios para o meio ambiente. Foi comprovado que uma planta transgênica inserida no ambiente toma o espaço das plantas naturais, formando uma plantação só de transgênicos. Isso é considerado perigoso, já que estas plantas (as transgênicas) correriam o risco

ALIMENTAÇÃO PARA UM NOVO MUNDO

de ser atacadas por "superpragas" capazes de resistir a pesticidas e de se re- produzir, danificando assim toda a plantação.

Por outro lado, também foi comprovado que há plantas geneticamente modificadas que limpam os lençóis freáticos. Bactérias transgênicas que despo- iuem ambientes já estão até sendo usadas.

Existem outros fatos a ser analisados. Um problema recente aconteceu com

o milho transgênico. Em laboratório, notou-se que as borboletas monarcas que se alimentaram do pólen desse milho morreram, mas quando a experiência foi refeita em local aberto isso não ocorreu.

Diante destes fatos, vê-se que o impacto dos transgênicos no meio am- biente ainda é incerto. O ideal seria que, com o avanço das pesquisas, se con- seguisse encontrar métodos que trouxessem apenas bons resultados para a espécie humana e o meio ambiente.

Algumas das declarações enganosas defensores da biotecnologia:

ou falsos dos

"A engenharia genética é apenas uma variedade do melhoramento conven- cional."

A verdade é que a engenharia genética é fundamentalmente diferente do que se denomina melhoramento genético. Devido à inserção artificial de genes estranhos, substâncias nocivas podem aparecer de forma inesperada. Isto é um fato científico, experimentalmente comprovado.

"Não existem evidências de que os organismos modificados geneticamen- te sejam nocivos ao meio ambiente."

Ao contrário, não existe nenhuma evidência de que estes organismos não sejam nocivos ao meio ambiente. Um grande número de testes de campo já foi realizado, mas, na sua grande maioria, de forma superficial e sem que fos- sem incluídas investigações mais amplas quanto aos impactos ambientais a médio

e longo prazos. Existem inúmeras razões para se temer a ocorrência de pro-

blemas ecológicos que, pela natureza da tecnologia empregada, provavelmen- te serão, na sua maioria, impossíveis de reparar.

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A opinião pública mundial e os transgênicos

Alimentos modificados geneticamente são produzidos em farga escala e já são maioria nos Estados Unidos, onde o governo ainda não exige identificação es- pecial nos rótulos desse tipo de produto. Contudo, 90 % dos consumidores norte-americanos manifestam posição contrária aos alimentos transgênicos. Nesse sentido, são acompanhados por consumidores do mundo inteiro: 78 % dos suecos, 77 % dos franceses, 65 % dos italianos e holandeses, 63 % dos di- namarqueses, 58 % dos ingleses, 70 % dos australianos e cerca de 80 % dos brasileiros. N o Japão, um abaixo-assinado com 1,7 milhão de assinaturas foi levado ao governo.

Existe também uma forte campanha mundial liderada pelo Greenpeace para impedir o desenvolvimento da biotecnologia.

Transgênicos e o governo brasileiro

Quando há alguns anos o tema da engenharia genética dos alimentos chegou ao Brasil, era notório o descuido do governo e a falta de informação. A desregulamentação é favorável às empresas interessadas e vem sendo busca- da em todos os países como uma estratégia para facilitar a liberação, a comer- cialização e a industrialização dos transgênicos. Isso explica por que no Brasil havia má vontade das autoridades em impor um marco regulatório eficiente para esses produtos. Criou-se a Lei da Biossegurança, que começou a tramitar no Congresso Nacional a partir de 1989, com o objetivo não só de preservar a diversidade e

a integridade do patrimônio genético brasileiro, como de proteger a vida. Em

1995, essa lei foi sancionada pelo presidente da República e estabeleceu a cria- ção da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) — com poder de aprovar ou não testes de campo e a comercialização de plantas transgênicas

e de outros produtos da

torização aqueles que tiverem o certificado de qualidade e de biossegurança da CTNBio.

Uma das resoluções do governo brasileiro foi a exigência de rótulo identificador na embalagem dos produtos alimentícios obtidos por meio da biotecnologia. Essa posição será levada à reunião do Comitê de Rotulagem do

biotecnologia. N o entanto, só poderão requerer au-

ALIMENTAÇÃO

PARA UM NOVO MUNDO

Códex Alimentarius, entidade que é referência para a Organização Mundial do Comércio (OMC) na definição de padrões de alimentos em todo o mundo. A decisão, que obriga todos os trangênicos a se identificarem em selo fixado na embalagem, representa um avanço: até então, o governo brasileiro vinha sus- tentando posição idêntica à dos Estados Unidos, ou seja, não rotular alimentos

"substancialmente equivalentes". A resolução se baseia no Código de Defesa do Consumidor que, em seu artigo 31, diz que a apresentação de produtos deve assegurar informações corretas e claras sobre suas características, quali- dades, composição e origem. Essa atitude do governo foi fruto das pesquisas realizadas pelo Instituto de Defesa do Consumidor (IDEC), segundo as quais consumidores do mundo inteiro, incluindo o Brasil, querem que os alimentos transgênicos sejam rotulados. Levantamento de uma emissora de televisão

nacional mostrou que mais de tificação.

No Brasil, até o momento as pesquisas feitas com transgênicos têm busca- do variedades mais resistentes e diferenciadas, como o algodão colorido. A Embrapa e seus associados vêm trabalhando para a obtenção de algodão transgênico no Brasil. O objetivo aqui é o combate às pragas, mas haverá mudanças em relação ao modelo americano, considerado de custo muito ele- vado. A previsão é de que a primeira variedade brasileira de algodão transgênico seja apresentada até 2003. Apesar das dúvidas, d e pontos inconclusivos e da regulamentação in- completa, empresas brasileiras já estão plantando soja modificada geneti- camente. Sem se importar com a lei, companhias interessadas no plantio da soja no Brasil baseiam-se em informações "seguras" emitidas pela Monsanto. Uma delas procura mostrar que os primeiros produtos da engenharia ge- nética de plantas são espécies resistentes a herbicidas. Já os próximos — que estão sendo cultivados em cerca de 10 milhões de hectares em alguns países — serão responsáveis pela redução de inseticidas, que custam hoje US$ 10 milhões à agricultura, sem falar nos problemas ambientais decor- rentes de seu uso. Só no Brasil são gastos quase US$ 2 bilhões por ano com agrotóxicos. Ambientalistas e entidades ligadas à saúde pública acreditam que deve- mos discutir melho r o papel d o govern o e da CTNBio , que se apóia no in- constitucional Decreto 1.752 de 20.12,1995: liberar os transgênicos sem levar

90 % dos brasileiros fazem questão dessa iden-

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em conta o seu impacto sobre o meio ambiente, A comissão tampouco res- pondeu às contestações de entidades civis, como a SBPC (Sociedade Brasi- leira para o Progresso da Ciência). Além de tudo, ainda atropela o Código de Defesa do Consumidor, que garante o direito de escolher o que comer a despeito de simples menções em rótulos. Diversos artigos e reportagens publicados na imprensa recentemente questionam aspectos relacionados ao processo de avaliação dos alimentos geneticamente modificados e a atuação da CTNBio. Há muitos aspectos questionáveis com relação a esta comissão, que atua anonimamente e sem remuneração na implantação da Lei de Biossegurança

(Lei 8.974, de 5.1.1995). De

sem solicitar documentos das empresas interessadas, que são exigidos ape-

nas quando a comissão julgar necessário. A comissão entendeu que esses

a CTNBi o pode decidir

acordo com essa lei,

documentos relativos à segurança não eram necessários no caso da soja transgênica tolerante ao herbicida Roundup e é, perante a opinião pública, responsável por tal decisão, A comissão afirma ter analisado essa questão "exaustivamente". Diz que acompanhou sua evolução experimental e sua liberação comercial em todo o mundo. Analisou todas as evidências relati- vas à sua segurança quanto à alimentação humana ou animal, sua liberação ambiental e não encontrou nenhuma evidência real que justificasse a não- aprovação do seu uso em escala comercial no Brasil. Nenhum argumento apresentado pelo IDEC ou pelos cientistas envolvidos nesse episódio, como

a SBP C (ou qualquer outra organização interessada),

deixou de ser analisa-

do criteriosamente. Apesar de todos os seus argumentos, a posição determinada da CTNBio

é apenas aparente. Na verdade, trata-se de uma comissão confusa, com-

posta por membros não remunerados, que emitem pareceres inconclusivos. Cientistas sem nenhum compromisso oficial com o governo ou com as em- presas ligadas à biotecnologia afirmam categoricamente que não há evidência

de aumento de produtividade nos experimentos realizados com a soja no país. Contudo, as estimativas apontam que, só no Brasil, o plantio da soja Roundup Ready provocará aumento no consumo de glifosato — de 2 para 20 milhões de litros por ano. Além disso, agricultores, principalmente os de menor porte, vão transformar-se em reféns das empresas, A introdu- ção da tecnologia terminator, já patenteada nos EUA e com pedido de

ALIMENTAÇÃO PARA UM NOVO

MUNDO

patenteamento no Brasil, poderá acabar com a opção de usar parte dos grãos colhidos como sementes, já que esses grãos passarão a ser estéreis, Portanto, a substituição dos agrotóxicos por uma agricultura biológica e sustentável é questionável. Felizmente, a justiça brasileira tem respondido, em parte, a esses desres- peitos, corrigindo os rumos do trabalho da CT N Bio ao determinar a rotulagem completa dos transgênicos. Enquanto isso, eventos envolvendo o confisco de soja transgênica têm sido relatados no Brasil. Em São Paulo a juíza Raquel Fernandes Perrini, da I I a Vara da Justiça Fe- deral, atendendo a pedido formulado pelo IDEC, proibiu o plantio da soja transgênica em escala comercial no país até que se façam estudos técnicos sobre eventuais riscos que esse produto possa oferecer aos consumidores, à população em geral e ao meio ambiente. Alem disso, determinou que todo produto transgênico seja devidamente identificado, através de rótulo coloca- do na embalagem. Essa providência é importante não só para a defesa dos consumidores, mas também para a proteção do meio ambiente, já que exis- te a possibilidade de a soja transgênica cruzar com outras plantas e dar ori- gem a uma erva daninha resistente a herbicidas. Devemos ficar alertas, Enquanto os cientistas estiverem divididos a favor

e contra os transgênicos, nós, as pessoas comuns, só podemos ter medo. Não é possível sentir segurança a respeito de algo que nem os cientistas en- :endem. Causa indignação pensar que nos induzem a comer coisas que não sabem se poderão nos dar mais vida ou se nos trarão doenças e morte. A rotulagem dos transgênicos é necessária, pois só assim podemos saber o que estamos comprando. Infelizmente isso não garante nem substitui as questões oertinentes à segurança alimentar, pois não é prova de que esses produtos sejam inofensivos. É preciso tomar algumas providências que defendem o consumidor e o meio ambiente, antes que os alimentos geneticamente modificados sejam pro- duzidos em grande escala e consumidos pela população, Por enquanto, procu- re evitá-los. Existem muitos produtos alimentícios importados dos Estados Unidos contendo transgênicos, principalmente aqueles à base de soja. Não adquiri-los é uma forma de protesto, até que tenhamos total segurança quanto

à sua inocuidade.

Produtos com transgênicos, a ser evitados

Produtos

com presença

de transgênicos

no Brasil

Produto

Empresa

País de Origem

Porcentagem de transgênicos

Data do teste

Nestogeno

Nestié do Brasi!

Brasil

0,1 % de soja Roundup Ready da Monsanto,

20/6/00

 

Menos de 1 % de soja Roundup Ready

e

4/4/01

Pringles Original Procter & Gamble Estados Unidos

Mitho

Bt 176 da Novartis

 

20/6/00

Sopa Knorr creme

Refinações de

Brasil

4,7% de soja Roundup Ready (reincidente)

20/6/00

de milho verde

Milho Brasil

e

4/4/01

Sopa Knorr macarrão

Refinações de

Brasil

Traços de soja Roundup Ready e milho Bt 176

20/9/00

e

legumes

Milho Brasil

Cup Noodles

Nissin-Ajinomoto

Estados Unidos

4.5% de soja Roundup Ready, menos de

20/6/00

 

1 % de soja Roundup Ready (reincidente)

e

4/4/01

ProSobee Preparado

Bristol-Myers

Estados Unidos

1,9% de soja Roundup Ready, menos de 1 %

20/6/00

Instantâneo

 

(reincidente)

e

4/4/01

Bac'os

Gourmand Alimentos

Estados Unidos

8,7% de soja Roundup Ready

 

20/6/00

Supra Soy integral

Josapar

Bélgica

0,7% de soja Roundup Ready, menos de

20/6/00

 

1% de soja Roundup Ready (reincidente)

e

4/4/01

Sopa Pokemon Arisco

Refinações de Milho Brasil

Brasil

Traços de soja Roundup Ready e

milho Bt

176

20/9/00

Mistura para bolo de chocolate Sadia

Sadia

Brasil

Traços d e soja Roundup Ready e

milho Bt

176

20/9/00

Ovomaitine Cereais e Fibras

Novartis

Brasil

Traços de soja Roundup Ready e

milho B t 176

20/9/00

Aptamil

Support Produtos

Argentina

Menos de

1 % de soja Ftoundup Ready

Nutricionais Ltda.

In

Natura — Mistura

AUF Natur Ind. E Com.

Brasil

Menos de

1 %

de soja Roundup Ready

 

de Cereais

De Produtos

Salsicha Swift

Swift Armour

Brasil

3,9 de soja Roundup Ready

 

20/6/00

Broinha de milho ^bki

Yoki Alimentos AS

Brasil

Menos de 1% de soja Roundup Ready

 

ALIMENTAÇÃO PARA UM NOVO MUNDO

Produtos

importados

que apresentaram

contaminação

Produto

Empresa

País de Origem

Aptamil

Support Produtos

Argentina

Cup Noodles

ProSobee Preparo Instantâneo

Supra Soy Integral

Nissin-Ajinomoto Alim. Ltda.

Bristol Myers

Joaquim Oliveira S A

Estados Unidos

Estados Unidos

Brasil

Cinco produtos que já estavam na lista dos contaminados e voltaram a apresentar contaminação

Produto

Creme de Milho Verde Knorr

Cup Noodles

Nestogeno com Soja

ProSobee Preparo Instantâneo

Supra Soy Integral

Fonte: Greenpeace e IDEC.

Alimentos irradiados

Empresa

Refinações de Milho Brasil Ltda.

Níssin-Ajínomoto Aiim. Ltda.

Nestlé do Brasil

Bristol Myers

Joaquim Oliveira SA .

Diante do que foi até agora visto em termos da relação tecnologia/alimentos, qualquer técnica voltada de algum modo para a área alimentar passa obrigato- riamente pelo crivo da dúvida. A irradiação dos alimentos, ao que parece, é aquela que mais estranheza nos provoca. Vamos ver o que é isso. Nos Estados Unidos, o Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) vem realizando pesquisas nessa área desde 1899 e, na Europa, cientistas ale- mães e franceses começaram a se interessar pelo assunto a partir de 1914, Os resultados desses estudos não foram animadores, porque o processo de irradiação provocava alterações que comprometiam a aceitação do produto pelos consumidores. A partir de 1950, novas pequisas pareciam sugerir pro-

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váveis benefícios sem se buscar efeitos indesejáveis, e verificou-se que, além do potencial de diminuir a incidência de intoxicações alimentares, a irradia- ção inibia o brotamento de raízes e tubérculos, desinfetava frutos, vegetais e grãos, atrasava a decomposição, eliminava organismos patogênicos e aumen- tava o tempo de estocagem de carnes, frutos do mar, frutas e sucos de frutas que podiam ser conservados durante muito tempo, até anos, sem refrigera- ção. Então, a tragédia provocada pela bomba atômica durante a Segunda Guerra Mundial, o acidente na usina de Chernobyl (e, entre nós, o Césio 90, em Goiânia), repercutiram de maneira negativa sobre os estudos que vinham sendo realizados. A opinião pública mundial se tornou mais crítica e passou a exigir explicações, tais como: se a comida irradiada se torna radioativa, se a irradiação produz toxinas nos alimentos, se a técnica acarreta a perda de nutrientes, se as doses de radiação são seguras para a saúde, quais os seus efeitos sobre o sabor, a cor e a textura dos alimentos e se o processo é ino- fensivo para o meio ambiente.

Respostas para essas questões foram buscadas através de inúmeras pes- quisas, grande parte delas realizadas nos EUA, onde alimentos irradiados foram servidos a prisioneiros, voluntários, astronautas, pacientes imunode- primidos e militares de várias partes do mundo. Entre 1964 e 1997, a Or- ganização Mundial de Saúde (OMS ) acompanhou os resultados desses estudos em conjunto com a Organização das Nações Unidas para Agricul- tura e Alimentação (FAO) e a Agência Internacional de Energia Atômica (AlEA), através de uma série de reuniões com especialistas de diversos países do mundo. N a última reunião, em setembro de 1997, foi anunciada uma conclusão provisória: a OM S aprovava e recomendava a irradiação de ali- mentos em doses que não comprometessem as suas características orga- nolépticas, sem necessidade de testes toxicológicos. Depois disso, a nova técnica foi aprovada pelas autoridades sanitárias de 40 países, Diversos ali- mentos têm sido regularmente submetidos a esse processo, sendo os mais comuns os cereais, as frutas, vários tipos de vegetais, temperos, grãos, fru- tos do mar, carnes e aves. Segundo dados oficiais da Fundação para Educa- ção e m Alimentos Irradiados, dos Estados Unidos, mais de 1,5 tonelada de alimentos é irradiada no mundo a cada ano. Embora essa quantidade re- presente apenas uma pequena fração do que é consumido no mundo todo, sua tendência é crescer.

ALIMENTAÇÃO PARA UM NOVO

MUNDO

O que é a irradiação do alimento

Quando um produto alimentício é irradiado, ocorre ionização, ou seja, criam- se cargas positivas ou negativas que produzem efeitos químicos e biológicos capazes de impedir a divisão celular nas bactérias pela ruptura de sua estrutura molecular. Díz-se que a quantidade de energia utilizada para se conseguir esse efeito não é suficiente para causar radioatividade nos alimentos, e que não há perigo de eles entrarem em contato com a fonte de radiação.

Argumentos favoráveis a essa técnica garantem que ela pode induzir a for- mação de algumas substâncias — chamadas de produtos radiolíticos — na

constituição dos alimentos. Estas substâncias não são radioativas nem exclusi- vas dos irradiados. Muitas delas são encontradas naturalmente nos alimentos ou produzidas durante o processo de aquecimento, como a glicose, o ácido fórmico e o dióxido de carbono. As pesquisas não encontraram associação entre

a sua presença e efeitos nocivos aos seres humanos. Em relação aos nutrien-

tes, a irradiação promove poucas mudanças. Outros processos de conserva- ção, como o aquecimento, causam reduções muito maiores dos nutrientes. As vitaminas, por exemplo, são muito sensíveis a qualquer tipo de proces-

samento. Sabe-se que a vitamina B I (tiamina) é das mais sensíveis à irradiação, mas mesmo assim as perdas são mínimas. A vitamina C (ácido ascórbico), sob

o seu efeito, é convertida em ácido dehidroascórbico, que é outra forma ativa

da vitamina C.

Outros argumentos têm razão econômica. Segundo a FAO, cerca de 25 % de toda a produção mundial de alimentos se perde pela ação de microorganismos, insetos e roedores. A germinação prematura de raízes e tubérculos condena à lata de lixo toneladas desses produtos e é um fenômeno mais intenso nos paí-

ses de clima quente, como o Brasil. A irradiação ajudaria a reduzir essas perdas

e a diminuir a dependência aos pesticidas químicos, alguns deles extremamen- te nocivos para o meio ambiente, como o metilbrometo, por exemplo.

Existem doses seguras de irradiação para a saúde?

Na irradiação de alimentos utiliza-se como fontes de radiação os isótopos radioativos, mais freqüentemente o Cobalto 60, obtido pelo bombardeamento com nêutrons do metal Cobalto 59 em um reator nuclear. De acordo com a

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OMS, alimentos irradiados com doses de até I OkGy não necessitam de ava- liação toxicológica ou nutricional. É o caso dos que são consumidos no mun- do, que não recebem mais do que essa dosagem. A dose de radiação é medida em Grays (G) ou quilograys (kGy), onde I Gray é igual a 0,001 kGy que, por sua vez, é igual a I Joule de energia absorvida por quilograma de alimento irradiado. Para retardar o amadurecimento das frutas, por exemplo, não é necessário mais do que I kGy, para inibir o brotamento de raízes e tubércu- los (batata, cebola, alho, etc,), a dose necessária varia de 0,05 a 0,15 kGy, para prevenir que os grãos sejam infestados por insetos, 0,1 a 2kGy são su- ficientes.

Nem todos os alimentos podem ser irradiados. É o caso do leite, por exem- plo, que adquire um sabor ruim. Para se adotar essa técnica como processo de conservação, é preciso que se realize um estudo das características orga- nolépticas do alimento depois de ele sofrer a irradiação. Na maioria dos ali- mentos, entretanto, segundo os técnicos envolvidos no processo, essas alterações são mínimas ou simplesmente inexistem.

A irradiação e o meio ambiente

Afirma-se que a irradiação é um processo bastante seguro, que não produz nenhum tipo de resíduo. Os isótopos radioativos obtidos pelo bombardeamento com nêutrons do metal Cobalto 59 produz o Cobalto 60, que é duplamente encapsulado em tubos de aço inoxidável, o que impede qualquer vazamento. A meia-vida desse elemento é de 5,3 anos.

Segundo informações técnicas, os produtos passam pela câmara da irra- diação através de um sistema transportador composto por esteiras, onde são irradiados num ritmo controlado e preciso, de forma a receber a quantidade exata de energia. Os níveis enérgicos são baixos e os produtos não se tornam radioativos. O processo é monitorado eletronicamente, de modo que a fonte de radiação, quando não utilizada, é mantida dentro de uma piscina profunda. Os técnicos informam que a câmara é composta de paredes de concreto e portas de chumbo, o que impossibilita qualquer vazamento. Há ainda disposi- tivos de travamento e alarme, que impedem que a fonte de radiação se eleve da piscina caso as portas da câmara não estejam lacradas.

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Alimentos irradiados no Brasil

N o Brasil, a legislação sobre irradiação de alimentos existe desde 1985 (Porta- ria Dinal n ° 9 do Ministério da Saúde, 8.3.1985. Apenas o Centro de Energia Nuclear para Agricultura (CENA), da Universidade de São Paulo, em Piracicaba, realiza esse serviço no Brasil. O Instituto de Pesquisas Nucleares da USR além de desenvolver estudos sobre o tema, trabalha junto aos produtores prestan- do informações.

Conclusões

A maior parte das pesquisas é realizada por empresas ou instituições envolvi- das direta ou indiretamente no processo. São elas também que se encarregam das campanhas educativas em prol da aceitação do consumo de alimentos irra- diados. U m estudo realizado na Alemanha revelou que os consumidores se

dos alimentos que consomem. N o entan-

preocupam com o processamento

to, essa preocupação foi maior no caso dos pesticidas (55% ) e conservantes (43% ) do que no da irradiação (38%). Embora uma parcela dos consumido- res seja extremamente contrária a essa técnica alimentar, a maioria muda de opinião após ser exposta às campanhas educativas, Na Argentina, uma campa- nha de esclarecimento aumentou muito a aceitabilidade das cebolas irradiadas. N a França aconteceu o mesmo depois que uma rede de supermercados co- locou à venda morangos irradiados. Devidamente esclarecida a respeito de suas qualidades, a população passou a optar por esse tipo de produto.

Mesmo diante desses fatos, não existe ainda um estudo conclusivo e total- mente neutro, ou pelo menos não tendencioso, que nos garanta a inocuidade desses alimentos e dos seus possíveis efeitos antinutríentes ou poluidores em relação ao meio ambiente. Há muitas questões pendentes. Um exemplo é a questão das enzimas naturais, que se perdem quase completamente quando os alimentos são submetidos à radiação. Assim, proteases, catepsina, amilases, lipases, etc. desaparecem durante o processo, o que exigiria a sua suplementação todas as vezes em que se usasse alimentos irradiados. Neste caso, seria necessá- rio que todo produto dessa natureza fosse identificado no rótulo e que o seu consumo exigisse uma complementação enzimática administrada por médicos ou nutricionistas. Como isso é impossível, estamos diante de um sério impasse.

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Outra questão diz respeito ao destino dos resíduos radiativos, principal- mente o isótopo Cobalto 60. Se ele tem uma meia-vida de 5,3 anos, a quanti- dade de alimentos irradiados numa região não pode ser muito grande, sob o risco de não termos espaço suficiente para estocar os produtos que ainda con- tenham partículas de radioatividade. Inclua-se a questão da segurança, indis- pensável para se evitar vazamentos na manipulação do material e no estoque, além de falhas no dispositivo de alarme dotravamento das "piscinas", etc. Se nas usinas atômicas, onde a segurança é tida como exemplar, há riscos (e histó- rias) de vazamentos e acidentes, o que poderemos esperar de empresas que irradiam alimentos e manipulam artefatos radiativos?

Portanto, ainda é cedo para aceitarmos tacitamente a utilização desses produtos, mesmo que existam aparentes vantagens, como a redução da necessidade do uso de pesticidas e conservantes na estocagem. A Portaria 9 da Dinal não nos oferece garantias palpáveis; tampouco o Instituto de Pesquisas Nucleares, pois é composto apenas por técnicos. As pessoas que liberaram atalidomida como um calmante inofensivo também se compor- taram assim.

Melhor optar por alimentos orgânicos, frescos, oriundos da pequena pro- dução, adquiridos em entrepostos e através de empresas idôneas, envolvidas com o compromisso de oferecer alimentos puros, que não precisam ser con- servados, irradiados, bombardeados, congelados, expostos a microondas e a todas as outras formas de manipulação industrial humana.

0 que mais evitar na alimentação industrializada

Açúcar branco

Não existe na natureza nenhum tipo de composto isolado e concentrado como a sacarose — o açúcar refinado. Todos os alimentos são compostos. Ele, o açú- car, é obra d o homem , qu e conseguiu a façanha d e retirar d e um alimento in- tegrado, como a beterraba e a cana, apenas um princípio químico ativo. Portanto, o açúcar refinado deve ser visto como uma droga, de preferência em duplo sentido, de modo a evidenciar a sua realidade.

A natureza sempre nos forneceu energia química, representada pela glicose

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e outras substâncias semelhantes, presentes em estruturas de cadeias mole-

culares mais complexas, os açúcares compostos, os amidos, encontrados nos cereais, nas frutas, nos tubérculos, nas raízes, etc, O organismo sempre con- tou com a mastigação para digerir o amido na boca através da ação da ptialina, enzima capaz de quebrar as cadeias moleculares de modo a obter glicose,

frutose, dextrose e outros açúcares primários, que geram energia quando as- similados, Com a "descoberta" do açúcar refinado, criou-se um elemento novo para o corpo humano, capaz de fhe fornecer imediatamente uma enorme car- ga de glicose, E sem exigir mastigação, uma vez que o ingerimos diretamente, depois de dissolvê-lo nas bebidas e comidas. Só que o organismo não contava com isso. Acostumado há milênios ao contato com o amido, a frutose, etc., ele passou a trabalhar com uma nova informação: a presença de cargas super- rápidas de glicose.

Antes do surgimento do açúcar não era costume acrescentar nenhum adoçante aos alimentos. Apreciava-se o sabor natural de tudo. A idéia de ado-

çar bebidas e comidas surgiu há pouco mais de dois séculos (e intensificou-se nos últimos cinqüenta anos). Depois do incremento do plantio da cana-de- açúcar na América, a Europa criou um mercado consumidor que se ampliou enormemente; mesmo assim, o produto consumido por ingleses, franceses, alemães, espanhóis, entre outros, era o açúcar mascavo marrom, muito forte

e carregado, mais destinado à fermentação precoce da cerveja e do vinho do

que para a adoçagem de tortas, bolos, compotas e, muito menos, de sucos, leite, etc.

O paladar do s povo s d o passado era voltado para a apreciação d o sa-

bor conforme a natureza do próprio alimento. Os burgueses da França de Luís XV, por exemplo, preferiam o pão integral bruto, com sabor forte de trigo, aos cro/ssants e brioches consumidos pela Corte, adoçados com o mascavo oriund o d o Caribe . Eles achavam essas variaçõe s enjoativas e in- capazes de sustentar um trabalhador, um soldado ou um agricultor. Apenas os aristocratas de vida sedentária e tediosa poderiam dispor dessas gulosei- mas feitas co m farinha empobrecida e repletos de açúcar formado r d e ga- ses intestinais.

Os exércitos, antigamente, tampouco consumiam açúcar. Se o fizessem, talvez precisassem de um contingente de igual número de homens para trans- portar toneladas de sacos do mascavo necessário para "energizar" dez, vinte, cinqüenta ou cem mil pessoas,,.

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Quanto ao mel ou outras formas de açúcares, também não havia o hábito de acrescentá-los aos alimentos. O açúcar é prejudicial à saúde por ser um produto muito concentrado que

desestabiliza os mecanismos de compensação do organismo e exige com- plementação bioquímica, o que produz perdas minerais (cálcio, magnésio, etc.) crônicas e constantes. Hoje as pessoas praticamente se viciaram no açúcar e, só nos Estados Unidos, a média de consumo é de aproximadamente 300 gramas por pessoa,

isso significa 9 quilos de açúcar por mês e

Se entendermos que esse composto é totalmente desnecessário para o

organismo, que todo açúcar de que o corpo precisa ele retira dos alimentos comuns (glicose) e que todo excesso tem efeito desequilibrante, então pode-

mos ter uma breve idéia dos perigos que o hábito comporta. O consumo de açúcar está ligado às seguintes doenças:

cerca de í 00 quilos por ano!

Arteriosclerose

Hipercolesterolemia

Câncer

Hipoglicemia

Cáries dentárias

Obesidade

Deficiência imunológica

Osteoporose

Depressão psíquica

Reumatismo

Diabetes melito

O hábito de consumir açúcar branco é hoje considerado uma das causas

do aumento da incidência da diabetes. Como vimos, o organismo humano está preparado para receber a glicose proveniente de cereais, frutas, legumes, leguminosas, etc. Ela é importante como fonte de energia celular. Normalmente, temos glicose suficiente reservada no fígado (sob a forma de glicogênio, ou na própria capa gordurosa que, ao se desdobrar, fornece energia). Isto explica por que antigamente não necessitávamos de açúcar branco, o mascavo, mel, etc. Esta glicose (ou frutose) é derivada da quebra da molécula do amido, o que permite uma assimilação lenta do nutriente — daí o amido ser considerado um "açúcar lento". O açúcar branco fornece cargas muito rápidas e imediatas de glicose, por isso é chamado de "açúcar rápido". Cada molécula de sacarose possui apenas duas moléculas de glicose, que são separadas muito rapidamen-

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te no tubo intestinal. Esse fato engana o metabolismo glicídico, que envolve reações muito complexas das quais participam enzimas, insulina, mediadores químicos, mecanismos de feedback, etc. Como o corpo humano está "progra- mado" para lidar bem com o açúcar lento, de modo a poder metabolizá-lo convenientemente, obedecendo aos parâmetros auto-reguladores, quando se ingere uma quantidade grande de açúcar branco, o organismo se confunde e acaba se desregulando com o tempo. Há um mecanismo de regulação dos níveis de glicose no sangue que pro- cura mantê-la entre 70 e 120 mg por 100 ml. Quando este nível é ultrapassa- do, um pouco mais de insulina é liberada para compensar e normalizar essa taxa. U m simples sorvete pode provocar elevações acima de 300 mg, mas apenas num trecho de 100 ml d e sangue. E este é o problema: o nível se eleva num pequeno trecho do sangue proveniente dos intestinos, onde o açúcar foi rapidamente assimilado. Os sensores do fígado e do pâncreas "avisam" o cére- bro de que a quantidade de glicose captada é de "300 mg" e o cérebro, por sua vez, determina a liberação de insulina relativa a essa quantidade, que não é uma realidade para a totalidade do sangue circulante. Isto ocorre porque a "pro- gramação" biológica do organismo é destinada a assimilar o açúcar "lento" que, ao ser processado gradativamente, permite uma saturação de glicose também lenta e bem distribuída, Se esta situação acontece de vez em quando não causa problema, mas desde que seja constante, através dos anos — como mostra a realidade dos hábitos alimentares modernos — produz um condicionamento metabólico e bioquímico que libera constantemente insulina, quantidades um pouco acima do normal. Isto tende a instalar uma situação de constante baixa dos níveis de glicose (hipoglicemia reativa ou funcional), apesar do consumo de doses elevadas de açúcar (glicose). A pessoa desenvolve, assim, uma necessi- dade constante de doces ou de açúcar, que pode ser crescente, transforman- do-se, freqüentemente, em compulsão. A hipoglicemia é uma situação orgânica variável, que pode afetar as pes- soas de várias maneiras. Pode ser imperceptível, com apenas um pouco mais de fome perto das refeições, ou algumas tonteiras passageiras e ansiedade, até graus intermediários com sudorese, taquicardia, cansaço, falta de memória, forte ansiedade ou depressão — sintomas que, curiosamente, desaparecem tem- porariamente com a ingestão de doces. Em graus mais acentuados, a hipo- glicemia pode determinar distúrbios orgânicos subjetivos, semelhantes a um distúrbio neurovegetativo, com sensações corporais desagradáveis, de difícil

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descrição, pensamentos estranhos e forte depressão. Estes casos, sempre re- lacionados com uma melhora temporária após a ingestão de açúcar, fre- qüentemente são encaminhados para tratamento psiquiátrico ou psicológico.

A única forma de tratamento é a suspensão gradativa do açúcar (tratamento

idêntico ao dos toxicômanos e farmaco-dependentes) e a adoção de dietas muito controladas.

À medida que esse tipo de hipoglicemia se mantém, pode ocorrer uma

falência relativa da capacidade do pâncreas em produzir insulina, elevando-se os níveis de açúcar do sangue (hiperglicemia), surgindo assim o diabetes. Isto

porém depende sobremaneira da predisposição herdada pelo organismo. Pré- diabéticos têm maior tendência a ter primeiro hipoglicemia e, depois, diabetes em graus variáveis, desde aquele controlável com dietas e/ou hípoglicemiantes orais até aqueles que exigem insulina sintética.

Esta é a relação do açúcar com o crescimento da incidência de diabetes no mundo, segundo dados oficiais e diversos estudos modernos.

anti nutriente, condicionante, desreguladora

e viciante, o açúcar é considerado um dos produtos mais prejudiciais ao orga- nismo.

E importante consumir os alimentos como a natureza os fornece; portan-

to, não é preciso acrescentar nada aos sucos, às saladas de frutas etc. Existem

formidáveis receitas de doces caseiros, tortas e bolos adoçados apenas com o talento culinário — como faziam os antigos, que apuravam o açúcar próprio das frutas, ou usavam apenas pequenas quantidade de mel (que não é saudá- vel quando aquecido). Bananas, mangas, laranjas, morangos, tâmaras, etc., pos- suem o próprio açúcar (frutose), que pode ser apurado por cozimento, bastando lhe acrescentar uma pitada de sal marinho.

O hábito de se usar açúcar branco surge do condicionamento do paladar que começa desde o nascimento, quando as mamadeiras do aleitamento arti- ficial já recebem sacarose ou outras formas concentradas de açúcares.

Por sua ação desmineralizante,

U m dos ensinamentos principais da alimentação natural é o de não forne-

cer às crianças alimentos adoçados. Nenhum açúcar, ou antes, nenhuma glicose

é necessária ao corpo humano além daquela naturalmente presente nos ali-

mentos. O raciocino serve não só para crianças como para adultos, desportistas, doentes, gestantes, lactantes, etc.

Para que se tenha saúde e equilíbrio é preciso praticar uma alimentação que dispense o açúcar branco, tolerando-se, eventualmente, mel ou açú-

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car mascavo em algumas guloseimas inevitáveis, como bolos de aniversá- rios, tortas, etc. Para as crianças ou aduitos dependentes de comidas e be- bidas muito adoçadas, convém proceder a uma eliminação gradativa e inteligente do açúcar branco. Nessa fase, tanto o mel quanto o mascavo podem assumir uma função importante, até que se estabeleça uma dieta completamente natural.

Adoçantes artificiais são muito perigosos para a saúde, talvez mais do que

o próprio açúcar branco. O ciclamato e a sacarina são proibidos em numero- sos países devido ao seu potencial cancerígeno e teratogênico (deformações

no feto). O aspartame, apesar de ser um produto considerado "natural", é um

derivado sintético dafenilanína, capaz de produzir vários problemas orgânicos, mas de intensidade menor,

Para quem necessita de adoçantes, sugere-se a estévia verdadeira (em pó). Deve-se ressaltar que existem falsificações e misturas nos chamados "adoçantes naturais" que não são recomendáveis.

Sal refinado

O sal de mesa comum não é natural, mas resultante de um complexo pro-

cesso industrial que, através de elevadas temperaturas e banhos sucessivos, retira do sal marinho natural quase a totalidade dos seus minerais (cerca de 83), restando apenas o cloreto de sódio, ao qual são acrescentados vários compostos químicos como: carbonato de cálcio, dextrose e talco mineral, ferrocianato de sódio, fosfato tricálcico de alumínio, iodeto de potássio, óxi-

do de cálcio (cal), prussiato amarelo de sódio, silicato aluminado de sódio e outros.

O sal natural, ou sal marinho, é um produto benéfico, composto por

nutrientes primários (elementos), entre eles o iodo natural das algas mari- nhas microscópicas presentes no sal. Se usado em quantidades normais, o

sal marinho contribui para a reposição mineral do organismo e para um bom

funcionamento da glândula tireóide. Pode ser encontrado já moído bem fino nos entrepostos e nas casas de produtos naturais. O uso do sal refinado, por outro lado, é prejudicial à saúde, estando ligado a o surgimento das se- guintes doenças:

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Arteriosclerose

Eclampsia e pré-eclâmpsia

Arteriosclerose cerebral

Edemas dos membros inferiores

Cálculos biliares

Nódulos da tireóide

Cálculos da bexiga

Pressão alta

Cálculos renais

Retenção de líquidos

Doenças das glândulas paratireóides

Tensão pré-menstrual

Cuidados com os óleos enlatados, gorduras e frituras

Gorduras ou lipídios são compostos complexos que têm como função principal a reserva de energia do organismo. Deste modo, sempre que há excedente calórico não utilizado, o corpo não tem como livrar-se dessa energia extra e aca- ba por armazená-la sob a forma de gordura em suas várias partes ou segmentos. As gorduras representam uma questão importante. Afinal, o que determi- na o diagnóstico de peso excessivo é o ganho de gorduras na massa corporal. Isto é notório, uma vez que ninguém engorda acumulando carboidratos, pro- teínas ou vitaminas. Embora seja possível ganhar um pouco de peso com o crescimento da massa muscular (proteínas), é o aumento do tecido gorduroso (adiposo) o responsável pela elevação global de peso. As gorduras ganham mais importância se nos lembrarmos do fato de que, quando há uma quantidade de nutrientes excedente (proveniente da ingestão de carboidratos, proteínas e vitaminas), desde que não utilizada pelo corpo em trabalhos musculares e demais funções, eia se transforma em gorduras. Uma situação inversa, contudo, não ocorre facilmente, a não ser em casos raros, como em certos jejuns forçados, subnutrição e outros. Mesmo sendo o menos importante dos nutrientes, o organismo necessita sempre de uma pequena quantidade de gorduras, uma vez que elas têm fun- ções bioquímicas importantes, como a participação no metabolismo hormonal. Mas a pequena dose de lipídios presente nos alimentos naturais (milho, arroz, soja, sementes, frutas oleaginosas, etc.) é suficiente para a suplementação lipídica do organismo. Pode-se até afirmar co m certeza que os lipídios não são nu- trientes essenciais (como os aminoácidos), mas secundários, uma vez que to- dos os demais tendem a se transformar em gorduras.

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Existem dois tipos básicos de lipídios ou gorduras: as saturadas e as insaturadas. As primeiras são de cadeia molecular longa e caracterizam os ele- mentos de digestão mais difícil, representadas pelas gorduras presentes na carne do porco, da vaca (e de outros animais de carne vermelha) e de algu- mas aves; as segundas são de cadeia molecular menor e, portanto, de mais fácil digestão, representadas pela gordura dos peixes e dos vegetais oleagi- nosos.

A grande maioria dos óleos vegetais industrializados e enlatados hoje disponíveis constitui-se de produtos refinados quimicamente, acidificados e acrescidos de aditivos antioxidantes. Não são produtos salutares e tendem fortemente à saturação ao primeiro aquecimento; favorecem mais facilmente a elevação dos níveis sanguíneos de gordura e as deposições gordurosas nas artérias.

As frituras repetidas ou a reutilização contínua do mesmo óleo em frituras sucessivas, como acontece em pastelarias, etc., torna o óleo ou a gordura ricos em benzopireno (um dos maiores cancerígenos conhecidos), gorduras poliinsaturadas e alantoína, um derivado irritante das mucosas digestivas capaz de reduzir a função da elastina na pele, favorecendo o aparecimento e o au- mento das rugas, celulites e estrias.

Uma alimentação equilibrada e saudável evita tanto os óleos refinados comuns quanto as frituras, quaisquer que sejam os óleos utilizados. Frituras não são formas saudáveis de preparo dos alimentos, muito menos quando se usa gordura animal, como a banha de porco. Existem formas menos pre- judiciais que usam óleos não-refinados, como o óleo bruto de girassol, o de canola, o de gergelim e o azeite de dendê. As frituras em margarina ou man- teiga devem ser igualmente evitadas. A manteiga aquecida ou rançosa é rica em ácido butírico, que também reduz a função da elastina na pele. Ovos fri- tos na manteiga, por exemplo, fornecem cargas enormes de ácidos graxos polissaturados, com grande capacidade de fazer engordar e de favorecer o infarto, a arteriosclerose, a aterosclerose, etc. O ideal é eliminar os alimen- tos fritos e preferi-los assados, grelhados em pouco óleo bruto, cozidos ou crus (saladas, por exemplo).

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Cereais decorticados, farinhas brancas e

"enriquecidas".

Se há um século o homem podia alimentar-se quase exclusivamente de pão, hoje isso não é mais possível. Ele já não é um alimento completo e confiável. Pior é que no cultivo do trigo são usados adubos e pesticidas químicos, A arma- zenagem dos grãos é feita em silos hermeticamente fechados, o que facilita a fermentação e a ação dos insetos e dos parasitas — daí o uso de inseticidas. Perde substâncias nutritivas preciosas, como o gérmen e a base protéica, con- tendo glúten, sais minerais (fósforo, cálcio, magnésio, ferro, silício, iodo, manganês) e vitaminas B e E. Assim, quanto mais branca é a farinha, menos nutritiva ela é.

O recém-inventado processo de decorticação ou de refinamento dos grãos de cereais só fez empobrecer esses alimentos milenares, retirando deles

a maior parte das vitaminas e fibras (película), dos óleos essenciais ricos em vitaminas A e D e das proteínas (gérmen) restando quase que somente o amido, que possui apenas valor energético, pobre em minerais, vitaminas e oligoelementos.

Desde o início da civilização, os cereais representaram um alimento sagra-

do e eram a base alimentar de muitos povos. A retirada da fina película nutritiva que os envolve, notadamente o arroz e o trigo, deve-se a interesses comer- ciais das empresas fabricantes de ração animal, aliados à tendência humana ao consumo de alimentos mais macios, que exigem menos mastigação, como pão

e arroz brancos. A História registra a técnica francesa de peneirar finamente as farinhas de trigo ou de centeio para a produção dos aristocráticos crassants, que tornaram os padeiros da França mestres famosos na arte de empobrecer

o tradicional pão integra!. Por volta do século XIV a Europa considerava o pão

feito a partir de grãos integrais um alimento tipicamente plebeu, ao passo que

os pães macios, os biscoitos, os brioches, etc., feitos com farinhas muito finas

e peneiradas, adocicados e fermentados, eram próprios para a mesa dos no- bres e dos burgueses bem-sucedidos.

N o início do século XX , intensificou-se mundialmente o hábito de descor- ticar os grãos dos cereais. N o Oriente, principalmente na China, surgiram gran- des "epidemias" de um mal desconhecido que ceifou milhões de vidas, mais tarde identificada como uma doença carencial derivada da falta de vitaminas do complexo B, hoje conhecida como beribéri. Muitos são os relatos de casos em

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que a dieta à base de cereais descorticados foi a causa de muitas mortes. Lon- gas expedições e viagens que transportavam ração baseada e m farinha ou ar- roz brancos resultaram em desastres. Se hoje em dia não há mais beribéri — pois continua-se a consumir pães e arroz brancos — isto se deve à multiplicidade de tipos de alimentos que aca- bam por cobrir a deficiência vitamínica da dieta habitual. Contudo, embora a ocorrência do beribéri seja hoje remota, o uso de dietas pobres em vitaminas do complexo B favorece situações subclínicas freqüentes — mas pouco diagnosticadas — de distúrbios nervosos variados, cansaço, queda de cabelos, envelhecimento precoce, elevação dos níveis de radicais livres, perturbações digestivas, má assimilação de outros nutrientes, redução dos níveis de enzimas variadas, síndrome pré-menstrual, insónia e outros. Como são sintomas co- muns que podem ser provocados por vários outros fatores, fica difícil estabele- cer uma relação de causa e efeito com as reduções relativas dos níveis corporais de vitaminas do complexo B. O fato de que o consumo excessivo de açúcar branco também reduz os níveis de vitaminas do complexo B é bastante signifi- cativo. Outro componente dos cereais retirado com o processo da descorticação é o importante ácido glutâmico, responsável pelo bom crescimento cerebral e pelo desenvolvimento da capacidade intelectual, e um participante ativo das trocas iónicas de toda atividade metabólica do sistema nervoso. Uma redução, mesmo pequena, de ácido glutâmico na dieta resulta em todo tipo de proble- mas, dos mais simples aos mais graves, como irritabilidade, incapacidade de reter informações, memória fraca, fadiga mental e, inclusive, retardo mental, no caso da falta do nutriente em cérebros de crianças de até dois anos de ida- de. Nos países onde foram criados programas de retorno ao uso de pães inte- grais para populações carentes, houve uma rápida recuperação da capacidade de aprendizagem infantil e uma notável redução dos índices de retardo mental, superior aos programas de simples inclusão de ácido glutâmico na dieta. Estes dados podem ser verificados através dos editais da FAO, um órgão das Nações Unidas. A antiga União Soviética, preocupada com o problema, propagou a impor- tância do uso de pão integral entre a população; o resultado foi uma melhor condição intelectual, principalmente na faixa infanto-juvenil. Nos Estados Unidos, entretanto, os programas falharam fragorosamente.

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Por essa razão, tem-se tentado ao menos estimular o hábito do consumo de pães de hambúrguer enriquecidos com sementes de gergelim, de certo modo ricas em ácido glutâmico.

O processo de descorticação, chamado erroneamente de "bene- ficiamento" (o nome mais apropriado seria "maleficiamento" ou, antes, "em- pobrecimento"), também elimina as fibras dos cereais, o que resulta em perturbações digestivas variadas. Sabe-se, por exemplo, que dietas pobres em fibras causam a doença diverticular do cólon e estão ligadas ao câncer intestinal e a uma série de outras moléstias que são raras em populações que consomem fibras. São elas que tornam as fezes mais calibrosas, menos pastosas, menos putrefantes, facilitam a assimilação dos nutrientes e a motilidade intestinal.

Embora o consumo de cereais descorticados seja um fenômeno mundial, nota-se uma tendência muito forte de retorno ao cereal integral como alimen- to básico. O despertar da nova consciência alimentar tem mostrado a imensa importância desse tipo de alimento, que deverá recuperar sua posição na dieta humana.

Para a prática de uma boa alimentação natural, é fundamental o consumo de produtos integrais, mais especificamente de cereais integrais como arroz, trigo, milho e aveia.

Radicais livres

Como os vilões do momento, os radicais livres são moléculas de oxigênio que assimilaram elétrons em excesso, tomando-se desequilibradas e destrutivas. Elas agridem e danificam outros átomos e moléculas do organismo, que se tor- nam igualmente instáveis, produzindo uma reação em cadeia de degeneração celular. O s radicais livres são o principal fator de envelhecimento e podem até mesmo destruir o DN A de nossas células, causando mutações e câncer — especialmente se houver excesso de ferro no corpo, o que aumenta a produ- ção de radicais livres nocivos. Devemos evitar alimentos que causam a sua for- mação, como, por exemplo, carnes, peixes, óleos vegetais, frituras, açúcar, sal refinado, alimentos transgênicos, irradiados, ou seja, todos os que foram até

Cedo à sofreguidão do estômago. É a hora

De comer. Coisa hedionda!

Corro. E agora f

Antegozando

a ensangüentada

presa,

Rodeado pelas moscas

repugnantes,

Para comer meus próprios

semelhantes

Eis-me sentado à mesa!

Como porções de carne morta

Ai! Como

Os que, como eu, têm carne, com este assomo

Que a espécie humana em comer carne tem!

Como! E pois que a Razão me não reprime,

Possa a terra vingar-se do meu crime

Comendo-me também

— AUGUSTO DOS ANJOS em À

MESA

3.

COMENDO BICHOS —

QUEM E O ANIMAL?

" O homem é o único animal que consegue estabelecer uma relação amigável com as vítimas que ele pretende comer,"

SAMUEL BUTLER

Com base na alimentação da humanidade e no seu estado de consciência, pode- se considerar muito sábia a divisão acadêmica dos reinos da natureza em mine- ral, vegetal e animal. Sim, pois embora os ciclos mais esotéricos admitam um reino "hominal", que diferencia os seres humanos pela sua faculdade mental, ~ão se pode dizer — baseados no nosso fraquíssimo discernimento — que sso seja aceitável. A função mental é pouco desenvolvida na grande maioria dos homens, que ainda se alimenta em função dos seus desejos, buscando satisfazer sabores e alimentara gula. Não há uma seleção de alimentos em bases •acionais. Portanto, somos basicamente "animais", (no stricto sensu, é claro,

= raticamos um tipo de canibalismo (ou talvez "animofagia") que se caracteriza

não ficando nada a dever aos índios que

não

Dor comer seres semelhantes a nós

comeram o D. Pero Sardinha, no Nordeste, há alguns séculos. O u seja,

merecemos ainda o sublime adjetivo que nos permitiria pertencera um "quar-

to reino", o "hominal". Aqueles índios, pelo menos, foram até mais coerentes

enquanto nós comemos

Se depender da forma como nos alimenta-

co que nós, civilizados, pois comeram um homem

seres considerados "inferiores"

mos, a classificação tomo sapiens é incorreta.

MÁRCIO BONTEMPO

Bichos que são comidos pelo ser humano:

Arraia

Codorna

Lagarto

Polvo

Avestruz

Coelho

Lagosta

Pombinha

Baleia

Cotia

Lula

Porco-do-mato

Barata

Faisão

Macaco

Preá

Búfalo

Formiga

Mariscos

Cabrito

Gafanhoto

Ostras

Rato

Cã o

Gambá

Ouriço

Siri

Capivara

Ganso

Ouriço-do-mar

Tanajura

Caranguejo

Gato

Paca

Tartaruga

Carneiro

Golfinho

Passarinho

Tatu

Camarão

Jacaré

Pato

Tubarão

Camelo

Javali

Peixe-boi

Vaca

Cavalo

Jegue

Peixes

Chester

Jumento

Perdiz

Cobra

Lagarta

Peru

Histórias para boi morrer

"Um homem só é nobre quando consegue sentir piedade por todas as criaturas."

A farra com o boi

BUDA

Certa vez, numa bela manhã de domingo, e m Nov a Iguaçu, Rio de Janeiro,

um grupo de bons amigos reuniu-se para uma confraternização na pequena

ALIMENTAÇÃO PARA UM NOVO MUNDO

fazenda do Maninho. Beberam cerveja alegremente. Ficaram um pouco "al- tos". Pensaram em comprar carne para fazer um churrasco. Só que o Maninho

possuía algumas "cabeças" de gado. Perto de onde estavam havia uma cerca e

forte boi branco. U m dos ami-

gos do Maninho, ao observar o animal, sugeriu comê-lo, a princípio como pia- da. Mas o álcool ajudou a atiçar a sanha da insensatez e resolveram abater o boi para transformar, pelo menos parte dele, em churrasco.

A euforia que a idéia gerou foi suficiente para instigar instintos sádicos. Maninho, no pleno exercício do seu poder de proprietário — inclusive da vida do animal — deu ordem ao capataz para amarrá-lo e abatê-lo. Aí surgiu um problema. O gado era leiteiro e o boi, apenas um dos componentes do gru- po. Ningué m entendia d e abate. Mesm o assim, el e foi amarrado. O bicho lu- tou muito, mas acabou com cordas no pescoço, preso a uma árvore.

Então o capataz ordenou ao Z é Venâncio que matasse o boi, mas tanto

ele como o Z é já tinham bebido bastante. Buscaram uma grande marreta para

acertá-lo na cabeça, que

xia muito, o Zé , que mal se mantinha em pé, não conseguia um bom ângulo. Mas com o incentivo ruidoso dos convivas e amigos e diante dos gritos do Maninho, Z é desfechou a primeira marretada. Errou o alvo, atingindo o pes- coço do boi, atrás da orelha. O bicho deu um tremendo pulo e um grande urro de dor. Z é caiu no chão, o que provocou gargalhadas. Mas ele, heroica- mente, levantou-se e, raivoso, desferiu outro golpe, errando outra vez o alvo e acertando o focinho do boi. O sangue esguichou forte por todos os lados, inclusive respingando as camisas do Zé, do capataz e de meia dúzia de peões que tentavam conter o boi que, agora, espumava sangue e se agitava com uma força enorme. Sob as gargalhadas crescentes dos observadores, Z é investiu contra o animal novamente e desta vez acertou, não o centro do crânio da vítima, mas o olho esquerdo, que saltou da órbita e ficou ligeiramente pendu- rado. O sangue pintava, em matizes cruentos, a cena bárbara de um quadro grotesco.

Várias outras marretadas foram desferidas sem que o animal desse mos-

estava voltada para a árvore. Com o o animal se me-

um pasto. Ali, piacidamente, pastava um belo e

tras de se render, ao contrário, a cada golpe, parecia revigorar-se na dor e se agitava sem se importar com a perda de um dos chifres. Os convidados come-

çaram a se irritar com

do churrasco. Então o capataz trouxe um machado e afastou o Zé, tomando a iniciativa de matar o animal. Desfechou-lhe uma tremenda machadada, mas

Zé , não por compaixão pelo animal, mas pela demora

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não soube bem onde. Não era possível identificar a cabeça da vítima, uma vez que tudo não passava de uma massa vermelha. Depois de mais três ou quatro golpes, o boi, enfim, começou a tontear e a arriar sobre as suas pernas. O olho que sobrou, do lado direito, mostrava tal expressão de terror, que era difícil sustentar o seu olhar, mesmo para aqueles comensais mais insensíveis. Já semideitado, o animal começou a tremer um pouco. O sangue já tingia prati- camente todo o seu corpo, antes branco, além da roupa do capataz e dos aju- dantes, que exultavam de contentamento. Antes, todos sentiam raiva do boi, agora riam e dançavam em torno do bicho agonizante. Só que aquele boi estava custando a morrer.

Foi quando o Pelé da Zinha, moço de confiança do Maninho, que era cren- te, não bebia, e assistia a tudo a certa distância, apareceu com um 38. Afastou cada companheiro e, chorando, aproximou-se da cabeça do animal, descarre- gando os 6 tiros que a arma permitia. Só então o boi parou de se mexer e exalou um derradeiro e libertador suspiro. Todos pararam. Reinou um silêncio estranho. Pelé deixou o grupo, voltando as costas para todos e, já alguma dis- tância, disse: "Eu não tenho coragem de comer a carne desse boi." O silêncio durou pouco, Os "amigos", motivados pelo sangue e pelo clima, pouca aten- ção deram ao que o moço disse. Um dos empregados trouxe facas e uma afi- ada foice, com que começaram a descarnar o bicho, ali mesmo. U m dos participantes pegou o coração do boi e mordeu-o, bebendo do sangue ali con- tido, Mas daquela carne ninguém comeu.

O álcool e a insensatez não deixaram o grupo se lembrar de que a carne

muito dura —te m de ser maturada. Os pedaços colocados na

brasa haviam sido arrancados, indiscriminadamente, de partes da coxa do boi. Acenderam churrasqueiras, queimaram nacos de carne, mas foi impossível comê-la. Não somente pela dureza da carne, mas porque muitos dos convi- dados foram embora, meio bêbados, decepcionados, até um pouco silencio- sos, alguns dissimulando a irritação com gracejos idiotas, típicos. Maninho pegou os filhos e foi para uma churrascaria,

A cena restante foi grotesca. O corpo do boi, ainda com parte do couro, jazia na relva, com a cabeça separada. Como ninguém era açougueiro, tenta- ram desossar o bicho, sem sucesso. O s cortes malfeitos, uma coxa pendente, vísceras isoladas. Cães se aproximavam para roubar um tasco, algumas mulhe- res e crianças, meio ressabiadas, arrancavam como podiam pequenas porções. Empregados tentavam organizara "farra". Depois foram embora, cobrindo o

recém-tirada é

ALIMENTAÇÃO PARA UM NOVO MUNDO

que restou da brincadeira com uma lona. Por ordem do Maninho, no dia se-

guinte iriam tentar vender o que fosse possível para algum açougue. E ali, sob uma lona suja, estava o que chamaram de "carcaça". Talvez uns 450 quilos do

corpo de um animal inocente, torturado e assassinado, inutilmente

,

Histórias verdadeiras na vida real

A "Farra com o boi", infelizmente, não é uma história, mas um fato que acon- teceu há alguns anos. Casos semelhantes ocorrem aos milhares pelo Brasil e pelo mundo. Bois e vacas são criaturas dóceis, plácidas e amigas. N o entanto, são tratados como meros objetos de consumo, explorados e submetidos a verdadeiras torturas ao longo de suas vidas, tanto pelo pequeno quanto pelo grande criador. Mesmo hoje em dia, o processo de abate permanece primitivo e vio- lento. Animais entram no abatedouro um a um. Os criadores mais bem apa- relhados, como acontece nos Estados Unidos, usam um revólver pneumático atordoador, mas o mais comum é a marretada na cabeça, nem sempre cer- teira. N o Brasil, quando é chegada a hora do abate, os animais, em geral, são forçados a entrar num corredor estreito. Desesperam-se, tentam fugir de todas as formas, viram-se de um lado para outro, os olhos cheios de terror. Sentem o cheiro do sangue dos companheiros mortos e recusam- se a seguir adiante. Alguns, já sem forças, caem; os que permanecem de pé são forçados a prosseguir, tangidos a choques elétricos. A o final do percur- so, um por um, são contidos em pequenos boxes e covardemente massa- crados: recebem marretadas, tantas quantas forem necessárias, até que tombem. Os golpes lhes causam mutilações nos chifres, olhos e focinho. São então suspensos — alguns às vezes ainda vivos — por uma das patas traseiras; seus músculos se rompem em virtude do grande peso de seus corpos. Operários com longas facas cortam a garganta de cada animal, na veia jugular e carótida, deixando-o sangrar até a morte, pendurado de ca- beça para baixo.

N o Brasil, este procedimento é comumente empregado no abate de bo- vinos. Porcos, cabras, ovelhas, aves e outros animais são igualmente abatidos com idêntica brutalidade, mas sem o uso do atordoamento. Qualquer que seja o lugar do mundo, o gado é sempre exposto a duras

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condições, sofrendo manejo bruto e, freqüentemente, crueldades no decor- rer de suas curtas vidas. Só nos Estados Unidos, onde cada cidadão comum come sete bois de aproximadamente 500 kg em toda sua vida, mais de 100 mil cabeças de gado são abatidas a cada 24 horas. Principalmente no Brasil, o gado é rotineiramente castrado; seus chifres são arrancados, e seu corpo é marcado a ferro quente sem anestesia. Estes proce- dimentos são realizados somente para benefício econômico e conveniência dos produtores de carne. Ao pastar a céu aberto, eles são expostos a condições climáticas extremas, que vão desde o calor insuportável até tempestades e secas. Muitos animais sofrem e morrem de calor, frio, sede, fome, doenças e envenenamento por plantas tóxicas. Após diversos meses no campo, o gado é transportado para locais de en- gorda, o que é feito através do fornecimento de grãos. Nesse local, dezenas de milhares de animais são apinhados em áreas lamacentas, infestadas de mos- cas e cheias de estrume, onde o estresse os torna suscetíveis à febre e a outras dolorosas doenças debilitantes. Defender-se das moscas pode fazer com que eles percam um ou mais quilos por dia, por isso os produtores os pulverizam regularmente com inseticidas altamente tóxicos.

O gado não se adapta de imediato a comer grandes quantidades de grãos.

A mudança fisiológica abrupta na dieta de grama para grãos causa dolorosos problemas digestivos, principalmente flatulência. Para aumentar o ganho de peso e reduzir os custos, alguns produtores adicionam papelão, jornais, serragem e até pó de cimento à ração. Outros pre- ferem adicionar estrume de aves e suínos ou esgoto industrial e óleos. Quando atingem o peso ideal, os animais são transportados por caminhão até os matadouros. Freqüentemente são manejados com brutalidade: levam choques elétricos de aguühões, são chutados e arrastados. Podem ser privados de alimento e água e sofrer exposição a condições ambientais difíceis por lon- gos períodos.

Caminhões que transportam gado estão sempre superlotados, o que re- sulta em quedas, pisoteamento e lesões durante o transporte. Os animais que sofrem fratura de pernas, pelve, pescoço ou costas, e que não têm mais como locomover-se para fora dos caminhões, podem ser sacri- ficados impiedosamente. Acorrentados pelo pescoço ou pela perna, são arras-

ALIMENTAÇÃO PARA UM NOVO MUNDO

tados para fora dos caminhões até o piso do matadouro, onde, muitas vezes, agonizando de dor, chegam a esperar horas para ser abatidos.

Animais que estão doentes demais para morrer não recebem eutanásia. Em vez disso, podem ser jogados na "pilha de mortos" e deixados para morrer de doença, sede, fome ou hipotermia. Nos Estados Unidos, embora seja requisito do Federa! Humane Slaughter Act de 1958 e revisto em 1978 (com exceção de abate kosher e de outras recomendações religiosas), o atordoamento nem sempre é feito com sucesso, devido à incompetência, à indiferença ou à deficiência do equipamento. Existe um tipo de abate de cunho "religioso" que segue o preceito segundo

o qual não se deve ingerir alimentos com sangue, como o praticado para a

produção de alimentos judaicos, a chamada comida kosher. Esse tipo de costu- me é particularmente cruel porque os animais não são atordoados. Plenamen-

te conscientes e aterrorizados, são içados de cabeça para baixo por uma perna

para receber um pequeno corte na jugular de modo a sangrar lentamente até

a morte. O abate kosher talvez seja pior do que o habitual, pois é marcado por um excepcional requinte de crueldade. Vacas são mães atenciosas e sensíveis. Basta ver como lambem carinhosa- mente as suas crias e como estas necessitam da companhia de suas mães. Exis-

te uma profunda dependência amorosa entre esses animais. N o entanto,

grandes criadores de gado não se importam com isso. Assim que nascem, os bebês são afastados de suas mães. Nã o se permite nem ao menos que as va- cas vejam a sua cria, pois do contrário não conseguiriam permanecer tranqüi- las. Elas costumam agitar-se e gritar desesperadamente quando são afastadas dofilhote.E assim começa uma das maiores crueldades que o ser humano pode cometer contra os animais: a indústria da vitela. Sendo uma carne alva, tenra e considerada deliciosa, a vitela é apreciada em todo o mundo. Conseqüentemente, é uma das comidas mais caras que se conhece, o que estimula a ambição dos criadores, em sua ânsia por lucros. Assim que nascem as pequenas vacas são retiradas da presença da mãe e isoladas em compartimentos individuais onde recebem um banho frio e pas- sam a se alimentar com leite fornecido não em tetas, mas em recipientes ou canaletas. O ato de sugar, importante para esses pequenos seres, não lhes é permitido, o que produz um alto índice de ansiedade. Costumam então sugar qualquer coisa que lhes é dada, como dedos, pontas de roupas etc.

os

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Sua carne deve ser sempre branca e macia. Para isso é necessário que os músculos dos animais não se tornem avermelhados, como os tecidos de vacas

adultas. Atécnica de produção da vitela mostra que é preciso evitar a atividade muscular para impedir a oxigenação dos músculos. Rara isso os animais devem ser mantidos em pequenas celas que impeçam seus movimentos. Depois de um tempo, os animais são forçados a permanecer em pequenos currais indi- viduais onde somente conseguem ficar de pé com o pescoço virado para a direita ou para a esquerda. Em dias alternados, funcionários mudam a cabeça do ani- mal cada dia para um lado, Raramente têm a cabeça voltada para a frente com

o pescoço esticado, pois isso permitiria a movimentação dos músculos do pes-

coço. Este processo é mais comum algumas semanas depois do nascimento,

Ainda para evitar o tingimento dos músculos, os bebês são forçados a uma dieta completamente isenta de ferro, o que lhes provoca uma fraqueza pro- funda. A ausência do mineral em seus corpos produz uma grande ansiedade por tudo aquilo que possa conter ferro, mas até a água que lhes é fornecida é desmineralizada, Por isso os animais lambem pregos e material metálico das suas celas e até mesmo a própria urina.

Visitar uma área de criação de vitela é como estar em um campo de con- centração infantil. As novilhas olham para os visitantes e se aproximam como quem pede ajuda. Tentam sugar dedos ou pedaços de roupas, enchem os olhos de lágrimas e emitem sons guturais estranhos. Esse sofrimento não dura mais do que três meses, quando já estão prontas para o abate. São então levadas para um local onde são cruelmente mortas, em geral com um corte profundo na jugular, para perder todo o sangue lentamente.

Todo ano, só nos EUA cerca de um milhão de novilhas são mortas para servir aos refinados apreciadores de uma boa carne.

O hábito de comer vitela começou provavelmente quando vacas grávi-

das morriam e seiviam de refeição. Percebeu-se que o feto tinha uma carne de textura muito tenra. Depois vieram os métodos para manter a carne da bezerra macia por mais tempo. Por isso hoje se consegue essa façanha com animais de até três meses de idade. Muitos deles morrem antes de comple- tar três meses de nascidos, alguns por infecções (uma vez que seu sistema imunológico é frágil devido à anemia), outros por uma doença de causa des- conhecida. Apresentam diarréias constantes e ficam cada vez mais tristes, até se entregara morte libertadora. Sua carne, mesmo nesses casos, é direcionada para os restaurantes.

ALIMENTAÇÃO

PARA UM NOVO MUNDO

É possível entender perfeitamente a origem dessa doença "de causa des-

conhecida". Se um bebê humano, imediatamente afastado de sua mãe ao nas- cer, for amamentado artificialmente, estando preso a um berço que limite os

seus movimentos, sem receber carinho de forma alguma, sentindo fraqueza constante, certamente viverá bem menos do que uma vaquinha.

A produção de leite também implica crueldade com os animais, Milhares

de bezerros são mortos, depois de ser criados em gaiolas minúsculas para que

não desenvolvam nem enrijeçam músculos e sejam abatidos e vendidos como se fossem vitelas, Ao tomar o seu "leite", a pessoa torna-se cúmplice dessa produção e do abate indiscriminado de bezerros.

Atualmente uma vaca produz dez vezes mais leite do que a sua natureza permitiria. São tratadas como máquinas: não tomam sol, não amamentam seus filhotes, recebem doses de hormônios, sentem dores (basta ver o tamanho das tetas de uma vaca leiteira) e algumas contraem infecções. Quando estão exaustas, são abatidas. Muitos animais doentes, que mal podem se levantar, são arrastados para os matadouros assim mesmo, para não haver desperdício.

Não podemos nos esquecer dos bezerros que são vendidos para rodeios, onde sofrem fraturas de coluna, patas, hemorragias, e são quase sempre aba- tidos de forma cruel.

Nos Estados Unidos, defensores da alimentação vegetariana e dos direitos dos animais afirmam que, se um produtor de carne tratasse seu cão da manei- ra como rotineiramente trata seu gado, seria multado, processado e provavel- mente preso — e teria seu cão apreendido.

A McDonald's, rede multinacional de hambúrgueres, gasta milhões de dó-

lares em campanhas de propaganda direcionada a crianças e jovens, tentando mostrar que o seu produto é bom. Criaram até um palhaço chamado Ronald McDonald's. Nos anúncios, ele mostra que os hambúrgueres nascem como frutas e crescem em pacotes. Esse personagem era interpretado porjeffjuliano que, ao inteirar-se da forma como o gado vive e é assassinado, abandonou o emprego milionário e tornou-se vegetariano.

Os criadores costumam afirmar, com um orgulho sinistro, que "da vaca se apro- veita tudo", dos cascos ao chifre, sendo por isso um "animal muito útil ao homem", conforme aprendemos na escola. Até mesmo as patas, que não seriam comestí- veis, fornecem material para a geléia de mocotó. Muitas gelatinas artificiais são pro- duzidas com patas de vacas ou bois, além de conter corantes e aromatizantes artificiais. Portanto, vegetarianos não devem consumir gelatinas e geléia de mocotó.

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Se você ainda não foi convencido de que deve fazer a sua parte deixando de comer carne, lembre-se destas informações na próxima vez que se sentar num restaurante de luxo e pedir uma vitela acompanhada de um bom vinho francês. Existe um grande movimento internacional de boicote ao consumo de vi- tela criado justamente pela compaixão que sentimos em relação a esses filho-

tes. E disso você pode participar. Não peça mais vitela (ou a carne da mãe dela!)

nos restaurantes, nem a compre nos supermercados. Mas quer fazer mais? Nã o

freqüente mais lugares que apresentem este tipo de prato em seu cardápio. Melhor ainda: divulgue isto entre os seus amigos.

É a ave um vegetal?

O s produtos animais expostos nas prateleiras e freezersdos supermercados são apresentados higienicamente limpos e empacotados num ambiente plá- cido, tranqüilo. Mas esse lugar calmo e perfumado, geralmente com música suave ao fundo (que contribui mais ainda para oferecer um clima sereno), esconde uma outra realidade. Sem mencionar detalhes da parte de apoio do supermercado, de como a sujeira e a falta de higiene campeiam no ruidoso setor de embalagens de frutas, legumes e verduras, com a presença de bara- tas, roedores e de outros bichos, vamos direto ao setor de produtos ani- mais.

N o caso dos frangos e seus derivados, deparamo-nos com partes desses animais muito bem cortadas, limpas e arrumadas em embalagens brilhantes, de aspecto sedutor; os ovos, também muito limpos e alvos, dentro de caixas especiais, coloridas, empilhadas com esmero. Não raro, o setor de frango do agradável supermercado mostra a imagem de uma galinha sorrindo, muito fe- liz devido à preferência do freguês pela sua carne ou pela granja que a comercializa. Nas campanhas promocionais, essas empresas freqüentemente distribuem folhetinhos pelo supermercado muitas vezes por meio de uma pessoa ridiculamente fantasiada de um alegre frangão. Contando historinhas de galinhas e pintinhos amarelinhos, rechonchudos e bonitinhos, que vivem em campos e chácaras, eles querem nos fazer crer que esses animais habitam ver- dadeiros paraísos ou quintais alegres e multifioridos e são criados com amor e dedicação. Nada mais hipócrita e distante da realidade.

ALIMENTAÇÃO PARA UM NOVO MUNDO

Certa vez, num supermercado, John Robbins, líder do movimento ameri- cano Earth Save e autor de Diet Fora New America, observou uma placa onde

estava escrito "frango fresco". Ao verificar que, na verdade, o produto da ven- da eram galinhas mortas, chamou o gerente e sugeriu-lhe que, para evitar a propaganda enganosa, mudassem os dizeres da placa para "frango fresco mor-

to". Claro que

Por detrás da farsa da propaganda se encontra a dura realidade dos mi- lhões de frangos criados em cativeiro, impedidos de ciscar alegremente, tris-

o gerente não ficou nada satisfeito com a sugestão

tes, sem direito à liberdade, ao sol, vivendo em "celas" superlotadas até atingir

o peso ideal (obtido através de hormônios e de outros medicamentos), quan-

do são cruelmente abatidos. Depois de mortos são depenados, eviscerados, limpos e cortados — não se sabe em que condições de higiene — para ser enfim empacotados nas embalagens, congelados e enviados para o comércio. Du rante a s ua vid a m ise ráve I, passam por verdade i ra tortu ra, A superpop ulação estressa profundamente as aves. N o setor das "unidades" poedeiras, as gali- nhas são expostas a luz artificial constante, de modo a pensarem que o dia é contínuo, o que mantém o seu metabolismo ativo na produção de ovos. De- vido à sobrecarga a que são forçadas, acabam vivendo pouco. Sob forte ten- são, tendem a se bicar e a se dilacerar. Mas a genialidade dos criadores resolveu

o problema: a "debicação", técnica de cortar a ponta do bico dos frangos ao

nascerem. Essa prática hoje é regularmente praticada, independente da dor que possa produzir no animal. E como produzi A ponta do bico das aves, assim

como a parte interna da unha dos homens, é de grande sensibilidade. Calcula-

se que a debicação produza uma dor semelhante àquela que sentimos aos cortar

a ponta de um dedo (ou do nosso nariz!). Tanto é assim que, após terem parte

dos seus bicos cortados, os pobres animais se debatem de dor e correm apa-

vorados de um lado para o outro, emitindo sons de agonia. Geralmente têm sangramento profuso e correm o risco de morrer. Os criadores — não por humanismo, é claro, mas para evitar prejuízos com a morte por hemorragia — mais uma vez lançam mão da sua habitual inteligência: logo em seguida à

debicação, cauterizam o bico do pintinho com um aparelho que apresenta um

fundo incandescente

Ao conferirmos o modo como vivem esses animais e a

tortura a que são submetidos, percebemos que não somente as grandes gran- jas, mas também as pocilgas e os locais de criação de gado, nada devem aos campos de concentração.

Muitos frangos e galinhas poedeiras morrem subitamente nessas "fazen-

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das", certamente de tristeza. Outras são transportadas em caminhões super- lotados, sendo expostas ao sol, ao frio, ao vento, a chuva e a um jejum prolon- gado. Obviamente , não seria conveniente que o supermercado, e m ve z d e pa-

gar um palhaço disfarçado de galinha para fazer propaganda, mostrasse ima-

gens e filmes das cenas de debicação, da cauterização, dos galpões superlotados, repletos de animais com olhares atônitos (sem entender que crime comete- ram para estar ali), do transporte desumano, do abate cruento, etc. A música de fundo poderia ser os tristes pios das aves deprimidas, ou dos pintinhos logo

Claro que não fariam isso. É mais fácil disfarçar com ima-

gens de fazendas cheias de galinhas felizes, tendo um monte de pintinhos à sua

volta

da verdade! Curioso é perceber que quando afirmamos ser vegetarianos, seja num restaurante ou entre pessoas que acabamos de conhecer, é comum ouvir-se a pergunta: "Mas você come frango, não é?" Certa vez, num restaurante, afirmei ser vegetariano e pedi uma salada. O

Nada mais distante

após a debicação

ao fundo uma montanha azul e um regato plácido

gerente, para agradar, mandou servir-me, sem que eu pedisse, um "peitinho

de frango" grelhado, como uma oferta

Diante disso, podemos inferir que certas pessoas pensam que frangos e aves em geral são vegetais. Se pudéssemos ver como eles nascem, vivem e morrem nos criadouros, talvez entendêssemos por que são comparados a "ve- getais" ou a objetos. Isso vale para qualquer outra ave criada para consumo:

pato, marreco, ganso, faisão, chester, peru, avestruz, codorna, perdiz, etc. Desde que criados industrialmente para o consumo humano, todas as aves têm o mesmo destino que os frangos, algumas até envolvendo situações pio- res, como é o caso dos gansos, de quem se produz o requintado foie gras.

da casa

Com os perus não é diferente

Para quem comemora o Natal ou o Dia de Ação de Graças comendo peru, preste atenção no seguinte:

De forma a se obter o máximo de lucro, a técnica da criação industrial de

15

mii aves por cercado.

perus recomenda que nas unidades maiores sejam "acomodadas" de 10 a

ALIMENTAÇÃO PARA UM NOVO

MUNDO

A maioria delas é criada de forma intensiva em empresas-fazendas. Elas

são engordadas em criadouros sem paredes ou em gaiolas para frangos, em abrigos sem janelas e mal iluminados. Usa-se luz baixa para tentar reduzir a agressividade das aves umas com as outras. Já adultas, elas têm pouco mais

espaço que uma galinha criada em gaiola. Cada peru criado para abate vive confinado numa área de meio metro quadrado e recebe cerca de cem subs- tâncias químicas durante a sua vida.

A criação intensiva também provoca doenças. Problemas no quadril,

ferimentos nos joelhos, úlceras nos pés e bolhas no peito são comuns. A taxa de mortalidade é estimada em 7% , ou seja, cerca de 2,5 milhões de perus por ano. Muitos são indivíduos mais jovens que morrem de fome por não encon- trar os cochos de comida e água.

Usam-se métodos de criação seletiva para acelerar a taxa de crescimento e maximizar a massa corporal. Como resultado, muitos animais adultos sim- plesmente não conseguem agüentar o peso antinatural do próprio corpo. Isso pode provocar infecções das articulações da perna e do joelho e prostração generalizada.

A expectativa de vida natural de um peru é de cerca de dez anos. Os ani-

mais das fazendas são mortos entre 12 a 26 semanas, dependendo do tama- nho da ave produzida.

Confinados num espaço reduzido e apinhado, tendem à agressividade e muitas vezes se agridem, causando mutilações, como olhos e dedos perdidos. Para reduzir os ferimentos, mais de 20 % dos perus têm o bico arrancado. A extração consiste no corte de um terço do bico da ave com uma lâmina em brasa, Estudos feitos com galinhas que sofreram a mesma mutilação mostra- ram que a dor é prolongada e talvez permanente. Mesmo depois do corte do bico eles ainda se atacam, produzindo ferimentos, infecções e até cegueira.

Levados para o matadouro em caixotes cheios, em trajetos que levam, às vezes, vários dias, os perus não se alimentam nem bebem água. N o matadou-

ro, são retirados dos caixotes e pendurados em ganchos, de cabeça para bai-

xo, como numa

linha de montagem. O s animais, que pesam até 28 kg, são

suspensos pelos pés durante uns seis minutos e depois atordoados com um banho de água eletrificada. Após o atordoamento corta-se a garganta das aves, que são então mergulhadas num tanque de água fervente que solta suas penas preparando-as para ser depenadas. Pesquisas revelaram que, a cada ano, cer-

ca de 35 mil perus vão para a água fervente ainda vivos.

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Todos os anos, só na Inglaterra, cerca de í 6 milhões de perus são mortos no período de Natal. Depois de abatidos, eles recebem temperos químicos artificiais, incluindo antibióticos, numa quantidade tão grande que se transformam praticamente em fórmulas químicas complexas, antes de ser congelados e encaminhados para o comércio. Cada fabricante possui seus "segredos industriais", cujas fórmulas são herméticas e garantidas por lei. Alguns desses produtos químicos são anti- bióticos potentes, aromatizantes e até corantes sintéticos perigosos.

A carne dos perus não é saudável e representa um grande risco para a saúde. Um a porção de 170 gramas de peru light sem pele possui cerca de 274 calorias e seis gramas de gorduras saturadas. A mesma porção de peru, porém com pele, tem 380 calorias e dezesseis gramas de gorduras saturadas.

Ovos —

Advinhe o que há neles

Primeira informação importante: ovos de granja não são ovos! Os de codorna também não! Aquelas coisas arredondadas que as aves de cativeiro produzem são óvulos. Ovos são estruturas galadas, ou seja, contêm um embrião formado pela fusão do óvulo da galinha com o sêmen dos galos. Mas as frangas produ- toras não têm direito a ter contato com os galos, Como os produtos das aves não são galados, são apenas óvulos e, portanto, estruturas em plena degenera- ção progressiva. O ovo, se não for chocado, dura muito mais que o óvulo e é muito mais saudável.

Para aumentar a produção de "óvulos" as aves são alimentadas com ração rica em estimulantes, geralmente hormônios, e são criminosa e constantemente expostas à luz artificial. Normalmente uma galinha põe um ovo por dia, mas sob a influência da inteligência humana pode produzir até três! Um fenômeno! Só que o preço por esse excesso de estímulo é o encurtamento substancial da vida do animal. Galinhas foram transformadas em fábricas de ovos. Se um ovo (galado) já possui quantidades significativas de colesterol, gor- duras saturadas e toxinas, um óvulo é muito pior. Além dos hormônios sintéti- cos, apresentam resíduos de antibióticos, proteínas em degeneração e taxas progressivamente maiores de toxinas. São altamente prejuduciais à saúde, pois contêm substâncias putrefantes muito agressivas aos intestinos e à flora intesti- nal, a o sangue e aos tecidos nobres do organismo. Basta deixar um óvulo es-

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tragar para perceber o que há lá dentro

ou velho exala já explica tudo Ovos galados, que não sejam de granja, os chamados "ovos caipiras" ver- dadeiros, além de ovos de patas e de outras aves domésticas, são mais sau- dáveis.

O odor forte que um ovo estragado

Algumas realidades sobre aves

industrializadas:

Embora o frango (carne) seja a mais consumida, outras aves são "produzidas" industrialmente para consumo. Assim, galinhas reprodutoras, poedeiras, pe- rus, patos, gansos, codornas, perdizes, faisões e, mais recentemente, avestru- zes também são submetidos a uma vida torturante e/ou fazem parte do cardápio humano. Nos Estados Unidos, segundo o American Journal ofNutrition, o seguinte gráfico mostra a proporção de consumo de frango, em relação às outras

aves:

Avestruzes

Com o decréscimo do consumo de carne bovina nos Estados Unidos, a procura por frango aumentou em cerca de dez vezes e o custo da ave indus- trializada caiu para um terço do seu valor anterior, devido à demanda. Algo semelhante ocorreu no Brasil.

Os norte-americanos consomem cerca de 25 kg per capita a cada ano, o dobro do que consumiam há vinte anos, quando os frangos eram mais saudá- veis, apresentando menor teor de gorduras saturadas, colesterol, hormônios, antibióticos e outros elementos químicos. Por causa disso, a cada ano, nos Estados Unidos, cerca de 6,5 milhões de

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pessoas são acometidas de doenças derivadas do consumo de frango contami- nado por bactérias e cerca de 900 pessoas morrem em conseqüência dessas enfermidades. Um relatório recente apresentou 55 estudos diferentes mos- trando que aproximadamente 30 % dos frangos postos à venda em todo o

país estão contaminados, de alguma forma, pela bactéria Salmonela e 62 % pela

Campylobacter, Juntas, essas bactérias são responsáveis

e 75 % das disfunções orgânicas, segundo o Departamento de Agricultura

(USDA), a agência do governo responsável pela segurança dos alimentos.

N o Brasil, as coisas são muito parecidas, embora a fiscalização seja bem mais deficiente, ajudada pelo nosso habitual "jeitinho" que mobiliza "propinas", subornos, corrupção, etc. Aqui os frangos de 45 dias já atingem o peso "ideal".

E quanto antes forem abatidos e encaminhados para consumo, melhor, pois

cerca de 90 % dos animais apresentam doenças, devido às condições artificiais e forçadas em que vivem. Uma delas, um tipo de anemia muito comum entre as aves, pode provocar câncer no sangue: a leucose aviária. Nada demais, apenas um tipo de leucemia. Acredita-se que essa doença não possa afetar os seres humanos, mas pode matar os animais se ultrapassarem a idade de 45 dias! E isso não é bom, pois exige-se que as aves a ser abatidas mostrem "sani- dade". O aspecto estético também conta: se os frangos acometidos de leucose progredirem na doença podem apresentar fígados co m metástases ou , no mí- nimo, muito desenvolvidos, inchados, doentios e com manchas irregulares, o que provocaria reações do consumidor.

Animais mortos ou doentes que chegam sem inspeção adequada aos abatedouros acabam certamente nos supermercados. São necessários cerca de 2.400 litros de água para produzir aproximada- mente 500 gramas de frango. São necessários 3,7 litros de gasolina para cerca de 2,5 kg de frango. Com a mesma quantidade, agricultores podem produzir 8 kg de brócolis e soja suficiente para três fôrmas de tofu ou trigo para cinco fôrmas de pão integral. A criação de frangos nos Estados Unidos utiliza cerca de 357 bilhões de litros de água anualmente, o bastante para manter cerca de 4,5 milhões de pessoas. Para produzir uma porção de proteína de ave, são neces- sárias 100 vezes mais água do que seria exigido para produzir a mesma porção de proteína vegetal — da soja, por exemplo. Numa situação de escassez de água mundial, prevista para as próximas décadas, esses números são muito sig- nificativos.

por 80 % das doenças

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Quem é o porco?

Porcos são animais dóceis, amigos e podem viverem contato conosco de modo semelhante aos cães domésticos. São sensíveis e capazes de amar seus donos se conviverem com seres realmente humanos. Porcos são também inteligen- tes. lestes científicos demonstraram que estão aptos a realizar tarefas seme- lhantes àquelas desempenhadas por cães e, em alguns casos, podem ser adestrados para executar tarefas tão excepcionais que nenhum outro tipo de animal conseguiria desempenhar.

Mas devido ao hábito humano de consumir esse tipo de carne, o porco é submetido a muitos tipos de agressões e desrespeitos. O modo como co- mem (fuçando a comida) deu origem à idéia de que eles não seriam "higiêni- cos". Daí o substantivo "porco" ter dado margem à criação do adjetivo do mesmo nome. "Porco" ficou sendo o epíteto não somente de alguém que não tem higiene, mas de diversos outros tipos como os obesos, os policiais, as pessoas sujas, etc.

Hoje considera-se "porcaria" diversos tipos de hábitos ou atos, que os porcos são incapazes de cometer—muito menos intencionalmente — , como emitir gases, arrotar à mesa, retirar secreções do nariz, falar com a boca cheia, não gostar de tomar banho, urinar fora do vaso sanitário, etc. Convencionou- se usar o adjetivo "porco", numa referência ao animal, mas na verdade os se- res humanos (e somente eles) são capazes de realizar mais "porcarias" — inclusive conscientemente — do que qualquer porco. Considera-se que o animal chafurda na lama e no lixo em busca de comida e que tem coragem de

a sua costumeira "lavagem". Mas há porcos criados e m condições espe-

ciais, embora sofrendo em cativeiro, que vivem e precisam de ambientes ex-

tremamente limpos, e se alimentam de ração especial.

Considerando-se que porcos domésticos acabam em lixões ou comendo lavagem em coxos (não por culpa deles), e que humanos comem de fato ver- dadeiras "porcarias", como, entre outras, intestinos de boi, rins, cérebro de macaco, bunda de formiga, olho de passarinho e de atum, baratas, morcegos (na China), ovas de peixes, pênis de cachorro, mortadela (feita com restos de vários tipos de animais), chouriço (feito com sangue de porco), testículos de vários animais, miolo (cérebro de boi), bofe (pulmão bovino), carnes putrefatas (carne-de-sol), carne crua (quibe árabe), picanha sangrenta e buchada nordes- tina, cabe a pergunta: Quem é o porco?

comer

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Também em relação ao comportamento e à ética, podemos verificar que realmente há humanos que são porcos (adjetivos) e que há porcos que, pela sua sensibilidade e benevolência, são bem mais "humanos" (adjetivo) que mui- tos humanos (substantivo). Talvez a mais injusta atitude do homem em relação a esses animais seja o

fato de ele ter sido "malignizado" nas escrituras sagradas e associado a Satanás.

esconderem e m porcos. Esse e outros ar-

Jesus teria induzido demônios a se

gumentos, incluindo as referências citadas no Corão e na Torá, por exemplo, induziram grupos religiosos judaicos e árabes a não comer esse tipo de carne, nem seus derivados. Se Jesus tivesse escolhido cães, em vez de porcos, para encerrar os demônios, hoje o melhor amigo do homem, sob o ângulo cristão, poderia ser o porco. Sinceramente, o animal em si nada tem a ver com tradi- ções ou crenças humanas. Se bem que seria até conveniente para o porco ser associado totalmente a Satanás, uma vez que assim poderia ser deixado em paz. Rara a sua tristeza, porém, a maior parte dos cristãos não leva em consi- deração o que Jesus Cristo fez, devorando leitões na própria festa do seu nas- cimento, ou seja, no Natal.

Vamos ver então "quem" é o porco. Ele é simplesmente um animal também criado por Deus. Nada tem a ver com o demônio. A verdade é que ele tem tudo para ser amigo do homem, como ele realmente é. Há diversos casos descritos de porcos que viveram como cães em seu relacionamento com seres humanos. Tive um amigo em Minas Gerais que, compadecido, salvou um leitãozinho de ser devorado na festa máxima da cristandade. O animalzinho, que recebeu o sugestivo nome de Oinc, foi criado por ele e acabou crescendo e habitando a sua casa. Já adulto, era curiosíssimo ver o meu amigo assobiando para chamar o porco, que dormia normalmente na soleira da porta e perambulava pela casa, como se fosse um

cachorro. Oinc tinha por hábito sentar-se à beira da mesa aguardando que lhe

fosse atirado algum pedaço de pão ou comida

cava com as crianças, aguardava ansiosamente a volta do meu amigo (abanan- do o seu pequeno rabo de alegria assim que ele chegava) e avisava, com guinchos e agitação, a chegada de alguma pessoa estranha. Era acariciado pelas pessoas e gostava disso, e, como qualquer cão, não aceitava o carinho de es- tranhos. Quando o seu dono chegava do trabalho, Oinc corria desengonçado ao seu encontro.

Infelizmente o destino de Oinc não foi feliz. Meu amigo teve de viajar para

Imenso, mas não obeso, brin-

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o exterior, onde permaneceu por mais de dois anos. Cheio de tristeza e sau- dades, Oinc não suportou a ausência e desenvolveu uma profunda depressão, morrendo devido a uma baixa de imunidade que lhe desencadeou uma infec- ção generalizada, Que m duvidar que animais têm sentimentos deveria ter vis- :o o olhar de Oinc uma semana depois da viagem do meu amigo Mas a grande maioria dos porcos não tem a mesma sorte de ter um dono como o de Oinc. Eles também são vistos como mercadorias, não como seres .wos e com sentimento. Devido à sua carne considerada saborosa, são criados em larga escala no mundo inteiro, mas em condições tão vis e deploráveis que envergonhariam qualquer pessoa dotada de um mínimo de sensibilidade. Tal- vez sejam os animais que mais sofrem nas mãos dos seus criadores.

Aqueles que criam porcos em pequena escala e domesticamente costu- mam castrar os animais (para que possam engordar bastante), forçando-os a uma vida sedentária, reclusa e totalmente incômoda, alimentando-os com todo tipo de resto de comida, preparando-os para ser abatidos. São mortos através de uma fina, longa e cortante faca que lhes é cravada com perícia, diretamente no coração. Sem se incomodarem se o animal sente dor e em que grau, esses criadores, insensíveis, praticam esse ato friamente, em geral rindo, como se estivessem fazendo algo trivial, como puxar uma descarga, por exemplo. Há aqueles que têm como profissão matar porcos dessa maneira e assim, todos os dias, realizam o seu trabalho. Conheci um deles, uma pessoa no mínimo asquerosa, que me confessou que a sensação que sentia ao introduzir a faca no peito d e um porco de 100 quilos era a mesma de matar um homem gordo

Nos matadouros, onde os animais são produzidos industrialmente, não é muito diferente. Assim que nascem, os porquinhos machos são castrados sem anestesia, de modo cruento. Depois de mamarem alguns dias, são afastados da mãe e nunca mais a vêem. As porcas grávidas, nos dias finais da gravidez, são mantidas num tipo de jaula tão pequena que não podem se mover, sendo forçadas a se manter na mesma posição, de pé, sem se voltar para qualquer ;ado e sem poder deitar-se. E assim têm os seus filhotes, como máquinas de produzir porquinhos. Qualquer mulher que já teve um filho sabe do incômodo característico dos dias finais que precedem o final da gravidez, que exigem a busca de posições mais confortáveis a cada instante. Durante o próprio parto é necessário mudar de posição várias vezes, imaginem então que tremendo desconforto deve ser sentir as dores, as contrações uterinas, sem poder me-

xer-se ou deitar-se

As porcas grávidas, geralmente muitas ao mesmo tem-

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po, costumam urrar de dor, o que torna o ambiente em que vivem um local

onde se capta uma tristeza e

sempre um olhar apavorado, talvez pela tremenda dor a que são submetidos. Os demais porcos, castrados e programados para a engorda, vivem igual- mente agrupados ou isolados em áreas muito exíguas e costumam agredir-se uns aos outros. Não raro matam-se ou mutilam-se. Para evitar isso, muitos criadores utilizam drogas calmantes na ração. Porcos são animais de cascos fendidos, adequados para que possam andar na terra, na lama, na relva ou em terrenos macios. No cativeiro, desde que nascem, são forçados a viver em chão de cimento ou grade, completamente antinaturais. Com o tempo e o aumento de peso, os cascos sofrem maior ten- são, o que provoca abertura do ângulo e fissura central, muitas vezes com ferimentos hemorrágicos, seguidos de infecção. Antibióticos são fornecidos em grande quantidade, não para aliviar o sofrimento dos animais (que costumam urrar de dor, sem conseguir andar), mas para evitar as mortes que provoca- riam prejuízos. "Humanamente", as feridas nos cascos são cauterizadas com instrumento de metal em brasa. Muito técnico! Os porcos também recebem cargas consideráveis de outras drogas, além de vacinas e hormônios. Usados regularmente, os remédios contra parasitas, a maior parte cancerígena (DDT e similares), contaminam a gordura desses ani- mais e se alojam no tecido adiposo. Isso faz do toucinho de origem industrial algo perigoso para a saúde, "lai qual a lingüiça "pura" de porco, que de pura não tem nada.

uma agonia

indescritíveis. O s animais apresentam

A vingança do porco

Sem que queiram vingar-se dos maus-tratos, torturas e do desrespeito com que são (mal)tratados, os porcos, uma vez consumidos, "fornecem" uma car- ne muito prejudicial à saúde, fazendo jus à sua fama de "perigosa". Sem contar com o excesso de colesterol e gorduras saturadas do torresmo, do bacon e da própria carne, rica em lipídios pesados, existem numerosas doenças que po- dem ser transmitidas através da carne de porco. São relatados muitos tipos de infecções bacterianas e parasitas (solitária) adquiridas da carne mal cozida do porco. A perigosa cisticercose, um processo neurológico sério, incurável, pro- duzido pela fixação de ovos da solitária no cérebro humano, causa muito sofri-

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mento, com convulsões, dores, alterações funcionais variadas, etc., dependendo ca área do cérebro onde se fixe. Seria esta uma forma de vingança do porco?

Os bichos embutidos

Bichos embutidos estão sendo comercializados sob aforma de salsichas, lingui- ças, salames, paios, copas, mortadelas, presuntos, frios em geral, chouriços, rosbifes, tender, lombos e outros mais sofisticados.

Todos os perigos e problemas que o consumo de carne oferece à saúde são agravados quando ela é industrializada para o preparo de embutidos. O -isco de se contrair doenças graves é ainda maior. Além dos hormônios e toxi- nas oriundos da carne com que foram preparados, esses produtos necessitam de quantidades consideráveis de conservantes (geralmente antibióticos), corantes sintéticos, nitritos, nitratos, sulfitos, aromatizantes artificiais, além de ser ricos em gorduras saturadas, colesterol, ácido úrico e outros ingredientes. As variantes light — os compostos de frango, chester e peru, por exemplo — em alguns casos são piores do que os seus semelhantes, feitos de carne bovina ou suína.

Cada fabricante desenvolve os seus segredos "industriais" de modo a agra- dar a sua clientela ou atrair consumidores. O certo é que vários tipos de car- ne costumam entrar nesse processo de produção. Muitos comem salsichas

| feitas de frango com carne de cavalo, pensando que estão comendo carne de porco.

Curioso é constatar que os proprietários de frigoríficos que produzem "ali- mentos" embutidos, bem como seus funcionários, raramente consomem aquilo que fabricam. Certa vez, trabalhando como médico em Blumenau, Santa Catarina, atendi um dos sócios de uma das mais famosas empresas do gênero. Ele me afirmou que jamais consumia os seus próprios produtos, devido à quan- tidade de substâncias perigosas que eles continham e à qualidade biológica da carne destinada à sua fabricação! Se já é desaconselhável ingerir came anima! por causa dos perigos que ela representa para a saúde, alimentar-se de produtos embutidos é algo que se aproxima da idiotice.

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Dados interessantes sobre a produção e o consumo de carne no Brasil

Utilizando informações fornecidas pela Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne, (aABIEC), temos alguns dados curiosos:

O Brasil é hoje praticamente o segundo produtor mundial de carne, produzin-

do anualmente 6,4 milhões de toneladas de carne bovina. Mesmo que uma parte seja destinada à exportação, a média de consumo de cada brasileiro é de 36,6 kg por ano. Ou seja, cada brasileiro come aproximadamente uma vaca a cada dez anos, o que significa que, ao longo de uma vida, come, em média sete vacas.

O porco não tem melhor sorte. O Brasil produz 2,1 milhões de toneladas

por ano de carne suína, com 12,8 kg per capita. Mas como porcos pesam menos do que vacas, cada brasileiro come, em média, 13 porcos ao longo da sua existência.

já o frango, por ser uma carne mais barata, é o mais consumido em ter-

mos de "unidades". O Brasil produz anualmente 6 milhões de toneladas de galináceos. A média de consumo anual é de 26 kg per capita. Isso significa que cada brasileiro consome cerca de 21 frangos por ano, 210a cada decênio e devora, ao longo de sua existência (se os hormônios e os antibióticos permiti-

rem que viva

),

cerca de 1.500 animais.

Comer peixe é uma alternativa?

Quando paramos de comer carne, surgem muitas dúvidas sobre como obter proteínas e manter uma dieta quantitativamente saudável. Se frangos e aves, devido aos aspectos sanitários e humanitários, também não devem ser consu- midos, os peixes e frutos do mar aparecem como alternativas, até mesmo

consideradas saudáveis. Mas, infelizmente, não é bem assim. Embora a gordu-

ra da maioria dos peixes de água salgada e de água doce seja ínsaturada e be-

néfica para a saúde, os frutos do mar e muitos produtos dos rios e lagos são ricos em colesterol. O hábito de consumir peixes crus, como o sashimi e o sushi, mesmo sendo uma forma de adquirir proteínas de boa qualidade, não isenta o seu apreciador de assimilar colesterol,

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Claro que peixes como o atum e o salmão, e aqueles que vivem em águas doces, são saudáveis, mas existem aspectos a ser compreendidos. Esses ani-

mais, quando mal conservados, são perigosos para a saúde. Para evitar o de- senvolvimento de bactérias nocivas, o pescado recebe hoje conseivantes, como

a amónia e seus derivados, que podem afetar a saúde do consumidor. Peixe só

é bom fresco e, de preferência, recém-pescado, quando conhecemos a sua

origem. Assim como a carne vermelha e a das aves, o pescado também con- tém ptomaínas e outras toxinas. As piores intoxicações alimentares são provo- cadas por frutos do mar deteriorados, como ostras, mariscos, camarões, etc. Cerca de 20 % dos seres humanos apresentam algum tipo de alergia às suas proteínas, principalmente as do camarão.

O "peixeiro amigo" das peixarias e feiras talvez não seja tão amigo assim.

Muitos pescados são postos à venda e várias vezes recongelados, para ser oferecidos como "frescos", no dia seguinte ou em feiras subseqüentes em postas ou filés. Aprendemos a reconhecer se um peixe é fresco através do olhos, guelras, textura da pele, mas se ele é apresentado dessa forma, isso já não é possível. Portanto comprar filés e postas de peixe congelados, oferecidos pe- los supermercados, também não oferece nenhuma segurança.

Há atualmente um grande risco de contaminação humana por agentes

poluentes (PCB, DDT) e metais pesados com o consumo de frutos do mar.

U m marisco ou ostra é capaz de filtrar muitos litros de água do mar por dia, o

que pode determinar uma grande concentração de metais pesados e substân- cias nocivas, capazes de contaminar o consumidor, às vezes mortalmente. Os animais capturados próximo às grandes cidades são os mais perigosos, já que são mais expostos ao problema. Recomenda-se, portanto, o consumo de pei- xes oriundos de áreas distantes e do alto-mar, ou, pelo menos, de regiões afas- tadas de áreas poluídas.

Consumir a carne desses animais também pode ser aníiecológico. Veja por que no item O impacto ambiental do consumo de animais.

Peixes também sentem dor

Em um documentário realizado nos EUA, estudiosos declararam que os pei- xes têm em suas bocas quase a mesma quantidade de terminações nervo- sas que os humanos têm e m seus genitais. Assim, puxar um peixe para fora

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cTágua com um anzol seria como tirar uma pessoa da água segurando suas partes íntimas, Muitos peixes, especialmente os que vivem no fundo do mar, usam a boca não só para se alimentar, mas também como uma espécie de sensor geral. Eles possuem uma alta densidade de nervos. Esta informação nos faz refletir sobre os programas de pesca na TV em que os desportistas ou apresentado- res capturam peixes com anzol. Aparentemente bons ecologistas ou bons samaritanos, depois de fisgá-los, e!es os devolvem à água. Só que não podem imaginar a dor e o estresse que provocam no animal, que, segundo os espe- cialistas, é suficiente para que a grande maioria não consiga sobreviver. A dor na boca impede que eles se alimentem, o que facilita a inanição e a morte; o sangramento freqüentemente atrai predadores, como piranhas e jacarés. Quan- do esses programas estrearam, imitando os similares norte-americanos, en- tendeu-se ser uma boa ação devolver à água os peixes capturados. Hoje sabemos que o melhor é guardá-los para servirem de alimento. Como morre- rão de qualquer jeito, é melhor dar alguma utilidade a esse sacrifício. Mas o ideal seria proibir esses torturantes programas,

A sensação de um peixe fora d'água se compara à de um homem sendo

asfixiado, sentindo suas forças se esvaírem lentamente. A retirada da água cau-

sa uma dor terrível e provoca o sangramento das guelras.

A dor gerada pelo imenso arpão de um mergulhador quando atravessa o

corpo de um peixe deve ser a mesma que sentiríamos se fôssemos trespassa- dos por uma lança. Peixes criados em tanques, como tilápias, carpas e trutas, também são sub- metidos a forte estresse devido aos espaços exíguos em que são mantidos. Em alguns restaurantes é possível ve r aquários onde peixes e lagostas são ex-

postos para ser escolhidos pelos fregueses. Esses aquários estão longe de for- necer o mesmo espaço que esses animais encontrariam na natureza. Muitas vezes, em virtude da urgência em se preparar os pratos, são descamados, têm

o couro arrancado, ou são eviscerados ainda vivos! Há certas especialidades

culinárias japonesas, um tipo de sushi, em que o peixe é servido ainda vivo. Segundo os experts, é necessário que ele ainda se mova ao ser servido, caso contrário o prato deve ser devolvido!

Rãs passam pelo mesmo problema, pois são criadas em pequenos espa- ços, abatidas com uma forte pancada na cabeça e, geralmente, têm o couro arrancado ainda vivas. Comer rã é basicamente antiecoiógico. Esses batráquios

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são muito importantes para a cadeia alimentar e o equilíbrio dos ecossistemas, já que se alimentam de insetos. Há quem diga que se rãs e sapos desapareces- sem, os insetos dominariam a Terra. Mas fica aqui uma constatação interessan- te: a capacidade dos seres humanos de comer um bicho que come moscas Consumir pescados e similares durante um período de adaptação dietética, rumo a uma alimentação totalmente vegetariana, é um recurso muito comum, principalmente entre pessoas acostumadas a uma dieta rica em carne verme- lha e de aves. Portanto, o consumo de peixes, frutos do mar e seus semelhantes fica a critério do(a) leitor(a). Apenas uma dica: se a preocupação diz respeito aos nu- trientes, notadamente proteínas e minerais, podemos garantir que é possível obter tudo o que necessitamos através dos vegetais.

Conclusões sobre a covardia em relação aos animais