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Do Rovuma ao Maputo
Antologia de Autores Africanos
Organizada por
Carlos Pinto Pereira

Introdução a esta edição
Entre Brasil e os países africanos de língua portuguesa,
"apenas um mar nos separa"...e isto é muito pouco nos dias de
hoje. O leitor desta RocketEdition TM da eBooksBrasil vai
notar, pelos escritos de seus poetas e escritores, que a língua, o
coração e a história nos une.
Resultado da correspondência entre amigos, infelizmente este
exemplar não pode reproduzir a correspondência entre eles,
que se trata de literatura epistolar...e das boas.
Ela, entretanto, está disponível em "Autores Africanos - Do
Rovuma ao
Maputo" [http://nicewww.cern.ch/~pintopc/www/africa/africa]
coordenado por Carlos Pinto Pereira [Carlos.PintoPereira@cern.ch], obra que mantém em conjunto, entre outros,
com Mario Vaz [mario.vaz@sympatico.ca], Joaquim Fale
[Joaquim Fale: joaquim@joafal.uem.mz], Vicenzo Barca
[Vincenzo Barca: mc8717@mclink.it], Abdul Cadre
[abdulcadre@mail.telepac.pt], Eduardo M.L. Paes Mamede
[e.p.mamede@mail.telepac.pt], Paulo Lemos:
[lemoszp@super.com.br], Margarida: [guidasc@ldc.com.br].
Ao corresponder-me com ele sobre esta edição, recebi este email que, por si só, vale por uma apresentação, e por isso aqui
vai transcrito:
Viva Teotonio
Aqui estou a responder-lhe como prometi ontem.
Como deve imaginar não tenho quaisquer direitos de
autor sobre os poemas publicado na WEB e faço-o
(fazemo-lo) pois achamos que é uma maneira de os
fazer conhecer.

Se o seu objectivo é o mesmo então ficaremos muito
gratos que lhe dêem ainda mais possibilidades de se
fazerem conhecer.
Um abraço para si também.
Carlos
Sim, leitor, queremos que você os conheça. Por isso, sem
mais, a eles.

ÍNDICE
A-B-C-D-E-F-G-J-K-L-M-N-O-P-R-S-T
-V-W-Z
-AABRANCHES, Henrique (Ago)
Ao Bater da Chuva
ALBA, Sebastião(Moz)
A Pomba para o Cheina
ALCÂNTARA, Adriamo (Moz)
A Utopia dos Olhos Escancarados
ALCÂNTARA, Oswaldo (Cpv)
Filho
ANAHORY, Terêncio (Cpv)
Nha Codê
ANDRADE, Costa (Ago)
Contratados
ANTÓNIO, Mário (Ago)
Uma Negra Convertida
Rua da Maianga
ARTUR, J.Armando (Moz)
Arte de Viver
Divagações
AZEVEDO, Lícinio (Moz)
O Comboio de Sal e Açúcar
AZEVEDO, Pedro Corsino (Cpv)
Conquista
Galinha Branca
Terra Longe
-BBARBEITOS, Arlindo (Ago)
Em Teus Dentes

Juvena (Moz) O Húmus do Homem Novo -CCACHAMBA. Ruy Duarte de (Ago) Chagas de Salitre Dias Claros Diogo Cão às Portas do Zaire Novembrina Solene Venho de um Sul CASSAMO. Jorge (Cpv) Canção de Embalar Prelúdio BARCA.Esperança Mão Frágil Saudade Vem Ver BARBOSA. Fernando (Moz) .Vamos Cantar. Alberto da (Moz) Um Cão em Maputo BUCUANE. Suleiman (Moz) Nyeleti. Crianças Cantos 1-4 CARDOSO. António (Ago) Árvore de Frutos Um dia CARDOSO. Simeão (Moz) Xikalamidade Xirico CANCIONEIRO . Conto Amor de Baoba CHIZIANE. Carlos (Moz) Cidade 1985 CARVALHO. Paulina (Moz) Balada de Amor ao Vento COUTO.

José (Moz) A Nossa Casa Aldeia Queimada Barbearia A Boca Cela 1 Depoimento Autobiográfico Eles Foram Lá Fábula Gente a Trouxe-Mouxe Gula Outra Beleza Reza Maria Sementeira Terra de Canaã CRUZ.Feições Para um Retrato COUTO. Alexandre (Ago) A Sombra das Galeras Carta . Mia (Moz) A Adivinha A Confissão de Nhonhoso A Multiplicação dos Filhos Estréia nos Viventes Cartas dos Primos Ladrões Governado Pelos Mortos Mar Me Quer Nas Águas do Tempo Venho Aqui Brincar no Português CRAVEIRINHA. Viriato (Ago) Makèzú Namoro Serão de Menino -DDÁSKALOS.

. Stefan Florana Um Epidécio ao Escritor Maconde -EESPÍRITO SANTO. Alda (Stp) Em Torno da Minha Baia Onde Estão os Homens..Manhã No Temporal da Revolução O Meu Amor Poesias Porto E Agora Só Me Restam DICK. -FFALÉ. António (Prt) A Pedra Filosofal .Morna FONSECA. Elisa (coord) O Macaco e o Cágado -GGEDEÃO. Lopito (Ago) Meditando FILIMONE. Joaquim Filhos da Miséria FEIJOÓ. Manuel Meigos (Moz) Arremessos FILIPE. Daniel (Cpv) A Ilha e a Solidão . Corsino (Cpv) De Boca a Barlavento Girassol Pecado Original FUCHS. Mário (Cpv) Viagem na Noite Longa FORTES.

António . Zeto Cunha (Ago) Escorraçados da Morte Os Ombros Modulam o Vento GUERRA. Carneiro A Guerra dos 100 Anos A Lua do Advogado GONÇALVES. (Ago) Por uma Sereia de Treva Psicoalteração do Rato No Jardim da Noite com Estrelas -JJACINTO. Cacimbo GUITA Jr. Gulamo (Moz) Moçambicanto I KNEPE.(Ago) Carta Dum Contratado Castigo Pró Comboio Malandro Declaração Era Uma Vez Monangamba Vadiagem -KKHAN. Rui (Prt) Aeroporto Mangas Verdes com Sal Matinés do Scala Miradouro Naturalidade A Pedra no Caminho . Grandal (Moz) Casa da Justiça KNOPFLI.GONÇALVES. Henrique (Ago) Vem.

Hortencio (Moz) Mabogue ya M'bizwa Topas-ou-viras LARA. E. Emído Moçambique Vozes do Sangue MAIMONA. Manuel Sousa (Moz) Menir Barroco -MMABUNDA. Maria Manuela (Stp) Alto Como o Silêncio Paisagem Serviçais Socopé Vós Que Ocupais a Nossa Terra MARIANO. Alda (Ago) Noite Prelúdio Presença Africana Regresso Rumo LEMOS. Gabriel (Cpv) Caminho Longe Única Dádiva MATUSSE.-LLANGA. Gouvea (Moz) Canção da Angonia LOBO. João (Ago) Arte Poética As Muralhas da Noite Memória Poema para Carlos Drummond de Andrade MARGARIDO. Candongas . Hilário M.

José Luís (Ago) De Asas Sob a Terra MESTRE. Aldino (Ago) A Noiva de Kebera Maria. Marcelo (Moz) Chão de Pátria MUIANGA.A Viagem do Adalfredo MAZUZE. Líla Os Olhos da Cobra Verde Stress MORAZZO. Orlando (Moz) Exortação História Noiva Para um Fabulário MENDONÇA. João (Ago) Dunas MENDES. Helder (Moz) Ai o Mar Ensaio de Lágrimas Reflexão -N- . Filimone (Ago) Morte MELO. Minh'amor MUTEIA. Simeão Calças Molhadas Picasso MEIGOS. David (Ago) África Espera O Sol Nasce a Oriente MOMPLÉ. Yolanda (Cpv) Barcos MOSSE.

Agostinho (Ago) Antigamente Era Com os Olhos Secos Confiança Lá no Horizonte ou 'Poesia Africana' O Choro de África NETO. Virgilio . Oswaldo (Cpv) O Cântico do Habitante Cavalos de Silex Holanda Manhã Inflor -PPANGUANA.NETO. António (Moz) Milagre Obstéctrico PIRES. Mutxhini (Moz) A Coruja Amor Verde Double Trouble Mamã Preocupada Pensar Alto -OOSÓRIO. Mauro Morte em Dois Actos PINTO DE ABREU. Eugénia (Prt/Ago) Poema à Mãe Angolana NEVES e SOUSA (Ago) Angolano Ilha de Moçambique NGWENYA Malagatana Valente e N.(Cpv) Mané Fú Reminiscência . Marcelo (Moz) A Lua e a Morte PINDULA.

Manuel (Ago) O Jogo Museu -SSANTANA. Correia da (Ago) Canção do Silêncio SILVEIRA. Marcelino ou Lilinho Micaia Kalungano (Moz) Ódio Sonho de Mãe Negra SANTOS. Ana de (Ago) A Abóbora Menina Núpcias Rapariga SANTOS. Jofre (Ago) Paisagem do Nordeste Quando a Manhã Vier ROMANO. Monteiro (Ago) Tudo Treme SAUTE. M. Aires de Almeida (Ago) Mulemba Meu Amor da Rua Onze SANTOS. Onesimo (Cpv) As Águas Quadro . Nelson A Pátria Dividida Ignorância SILVA.-RROCHA. Arnaldo (Ago) A Vigília do Pescador SANTOS. Luis (Cpv) Símbolo Vida RUI.

Leite (Moz) Canto do Verbo em Busca da Forma Declaração Ladaínha VENTURA. José Luís (Cpv) Curvo-me TAVARES. Reis (Ago) Baião de Luanda VELHA. Geraldo Bessa (Ago) Chove Não Venhas Mais ao Cais O Menino Negro Não Entrou na Roda . Julião Soares (Gwb) Cantos de Meu País SOUSA. António (Moz) O Coleccionador de Quimeras Nunca é Tarde -VVARIO. João (Cpv) Exemplo Fragmento VASCONCELOS. Francisco José (Stp) Coração em África Romance de San Martinho TOMÉ. Noémia (Moz) Magaíça SUKRATO (Cpv) Não me Lavem o Rosto -TTAVARES.SOUSA. Paula (Ago) Cerimónia de Passagem TENREIRO. Cândido da (Ago) As Idades da Pedra VICTOR.

Eduardo (Moz) O país de Mim Poemas da Ciência de Voar -ZZIMBA. Carlos (Moz) . Tomas (Moz) Lei do Passe VIRGÍNIO. Armério (Cpv) Isto é Que Fazem de Nós Mar VIEIRA.Saudade Negra Rebita Romance de Luanda VIEIRA. (Gwb) Sofrimento VIEIRA da CRUZ. Luandino (Ago) Canção para Luanda Sons VILANOVA. Tomáz (Ago) Coqueiro Fruta N'gola Quissange . Alberto (Ago) Camaleão VIEGAS.O Feitiço do Batuque VIEGAS. João Maria (Ago) Canção para Joana Maluca Canção na Morte de Nga-Caxombo VIMARO. Jorge (Moz) Nirvana VIEIRA. Teobaldo (Cpv) Rota Longa -WWHITE. Carlos-Edmilson M.

Sorrisos Mutilados ZITA. Isaac (Moz) Os Molwenes Alguns Dados Biográficos Esta edição .

A chuva cai em bátegas doces. Esvaem-se agora em surdina muda. As vozes caladas em torno de nós. Como ela nos lembra o som odiado que dia após dia nos sobressalta! . as pausas alongadas em silêncios de uma angústia nova. Os homens dizem de quando em quando um nome obstinado.. a chuva bate o capim molhado.A Mãe Gonga comandou o coro.. A chuva matraqueia ainda e sempre na porta fechada como uma obsessão. As mulheres já choraram tudo . são a descontinuidade do tempo interrompido dentro da casa que arrombaram ontem. no coração da aldeia do Mazozo.Ao Bater da Chuva Autor: Henrique Abranches (Angola) A porta fechada é uma obsessão. e soa. A humanidade é fria. que agudiza o bater da chuva. Chamava-se Infeliz aquele rapaz que levaram ontem do coração da aldeia.

em sobressalto. que dia após dia desce o morro da Calomboloca e bate naquela porta fechada. Quando ela vem. o povo diz: . então.. Lisboa 1981 Pontos de vista entrecruzam as balas e nós ensaiamos a pomba desenhando-a encurvando-lhe o dorso antes do voo largando-a no prisma puro dos olhares da multidão Logo uma estrela fugaz se lhe cola ao bico Rodopiará no céu entre colunas colossais de cogumelos e sóis que a inflectem mas bem aninhada no oco habitáculo de penas . E ninguém sabe do Infeliz.. silencia a aldeia.Foram fuzilados. obsecada de protecção! A gente conhece o som da metralha quando ela vem no fim do dia.. Edições 70.. A Pomba Para o Cheina Autor: Sebastião Alba Moçambique Do livro "A noite Dividida".Como ela recorda o som da metralha. aquele rapaz que levaram ontem.

poderás então entrever por entre as brumas do tempo a imensa multidão e o verde prazer das tuas mais urgentes utopias. Nunca ouses monstro malfadado . A Utopia dos Olhos Escancarados Autor: Adriano Alcântara Nos Cadernos "Diálogo" alguns autores desconhecidos do grande público tiveram a oportunidade de ver trabalhos seus publicados. imune farás tombar do muro os pecados com que este presente impune procura sarcástico esconder-nos o futuro.Joaquim Falé Se num momento de loucura acaso arriscares acima do tédio e afoito sozinho dobrares a agreste solidão da esquina dos dias.com a chave em nossa mão. É o caso de Adriano Alcântara.ridícula como o poeta a dizia uma simples carta de amor cuja verdade ofereça fogosa o seu pudor sinceros significados tão prementes que a ouro fiquem bordados no seio nu das palavras inexistentes. arrepia caminho e não ouses. Se porém impossível te for a sangria das palavras a sério e ao cansaço sem outra saída com fúria não conseguires opor a beleza dum punho bem apertado. . Se depois com ardor escreveres .

menino. Filho Autor: Oswaldo Alcântara (Cabo Verde) Nicolau. Vem dizer-me onde foi que tu estiveste e a estrela fugiu das tuas mãos. entra.dobrar a esquina deste tempo de cobardias prenhe e silêncios cheio. menino. que trazes a arrastar o teu brinquedo morto? Nicolau. . roça. tudo ficou lá longe. Quando acordares a jornada será mais longa. o fantasma ficou lá longe. Tens comigo o teu catre de lona velha. Nicolau. Nicolau. Dorme sem medo. Porão. entra. Deita-te. medos imediatos. Porque só o amor mata a hipocrisia e reconhece os homens iguais porque para além deste dia só de olhos escancarados se sonha a utopia. Onde estiveste. Nicolau. onde foi que deixaste o corpo que te conheci? Deus há-de querer que o sono te venha depressa no meu catre. menino.

noite de qualquer dia.. (Se choro são saudades de nha Codê... Da tua pele fizeram tambor para nos ajuntar no terreiro! Dondê nha Codê? Não não mataram o meu filho que eu sei que o meu filho não morre. 1962 Tiraram o lume dos teus olhos e fizeram braseiro para aquecer a noite fria. Roubaram o teu riso e encheram de gargalhadas de luz e de música as suas reuniões frustradas.. E em mim essa saudade de nha Codê! Contratados .) Nha Codê vive na evocação de um mundo distante no riso e no choro das ervas rasteiras na solidão dos campos nas pândegas de marinheiros na vida que nasce e morre em cada dia que passa! .Nha Codê Autor: Terêncio Anahory (Cabo Verde) in "Caminho longe".

. Canções que os velhos cantam murmurando.Autor:Costa Andrade (Angola) (1959) A hora do sol posto as rolas traçam desenhos de feitiços sinuosos caminhos sob a calma das mulembas e abraços de segredos e silêncios.. da cor do carvão. Minha avó negra de panos escuros que nunca mais deixou.. .longe... Andas de luto..muito longe um risco brando acorda os ecos dos quissanjes vermelho como o fogo das queimadas com imagens de mucuisses e luar.. renasce em cada braço a força de um secreto entendimento.. e nos homens cansados de lembrar a distância vai calando mágoas. . de panos escuros. Uma Negra Convertida Autor: Mário Antonio (Angola) Minha avó negra.

Não xinguilas... das tentadoras mentiras do quimbanda. se pudesses.. Tuas mãos de dedos encarquilhados. quitabas e quifufutilas ... dos quimbandas..... ouço vozes que te segredam saudades da tua velha sanzala.. tuas mãos que preparam mimos da Nossa Terra.. talvez revivesses as velhas tradições! Rua da Maianga Autor: Mário Antonio Angola Rua da Maianga que traz o nome de um qualquer missionário mas para nós somente .. às vezes. dos sonhos de alambamento que supunhas merecer. rompeste com a velha tradição dos cazumbis. tuas mãos. no óbito. e da tua mocidade só te ficou a saudade e um colar de missangas.toda és tristeza. Heroína de idéias. tuas mãos calosas da enxada. Avózinha. Teus olhos perderam o brilho. E penso que. ora tranquilas. desfilam as contas gastas de um rosário já velho. da cubata onde nasceste. das algazarras dos óbitos..

a rua da Maianga Rua da Maianga às duas horas da tarde lembrança das minhas idas para a escola e depois para o liceu Rua da Maianga dos meus surdos rancores que sentiste os meus passos alterados e os ardores da minha mocidade e a ânsia dos meus choros desabalados! Rua da Maiaga às seis horas e meia apito do comboio estremecendo os muros Rua antiga de pedra incerta que feriu meus pezitos de criança e onde depois o alcatrão veio lembrar velocidades aos carros e foi luto na minha infância passada! (Nene foi levado pró hospital meus olhos encontraram Nene morto meu companheiro de infância de olhos vivos seu corpo morto numa pedra fria!) Rua da Maianga a qualquer hora do dia as mesmas caras nos muros (As caras da minha infância nos muros inacabados!) as moças nas janelas fingindo costurar a velha gorda faladeira e a pequena moeda na mão do menino e a goiaba chamando dos cestos à porta das casas! (Tão parecido comigo esse menino!) Rua da Maianga a qualquer hora o liso alcatrão e as suas casas .

. como lacrar a vida e o amor sem cantar? como vencer o tédio e o temor sem bailar? eis a razão porque sonho sem sono porque voo sem asas porque vivo sem vida no avesso dos versos escondo o tesouro da minha contrariedade o mistério da minha enfermidade e o feitiço da minha eternidade Divagações Autor: Armando Artur Moçambique .as eternas moças de muro Rua da Maianga me lembrando meu passado inutilmente belo inutilmente cheio de saudade! A Arte de Viver Autor: Armando Artur Moçambique Habito no halo dos meus versos onde incansavelmente rimo palavras sem rima e seco lágrimas sem pranto é a arte de viver..

Este sempre será O nosso amanhecer. Vocês estão aqui para defender o comboio e o que ele transporta. E a nossa perseverança é como a da erva daninha que lentamente desponta na pedra nua. passivos como os espelhos. eis-nos aqui de novo. Os soldados espantam-se.diz um dos soldados. . não podem tocar na carga . . . no tear da nossa existência. Associação dos Escritores Moçambicanos. editado em 1997 ".Vocês não podem fazer isto! . a primeira bala é para ti.afirma.diz Omar. E para que o nosso sonho renasça com a levitação do vento e do grão. aqui onde o tempo pára e as coisas mudam." O Comboio de Sal e Açúcar Autor: Licínio de Azevedo Moçambique Trechos do livro "O comboio de sal e açúcar".Capítulo de "Estrangeiros de Nós Próprios" Publicado pela AEMO. velhote . No próximo combate.Eu conheço os regulamentos militares. Omar não se intimida. com gravidade. eis-nos aqui de novo. acocorados. nº 15 da colecção Timbila (outubro de 1996) Pelo dever de resistir e caminhar pelos destroços da nossa utopia.Cuidado.

.diz outro soldado. com as suas cozinhas improvisadas.defende o primeiro. com firmeza. Surge logo um pequeno mercado de lenha.Um tiro. Mesmo assim. grande e bonita.. mas as suas forças são insuficientes contra os músculos bem .Não sou sua mulher.ameaça Salomão. indiferente aos olhares das pessoas que circulam por ali... Ela resiste. Vocês põem nos vossos relatórios que o vagão foi assaltado mas nós. .Eu dou-te um tiro . vestida com modéstia. pois respondemos pela carga perante os CFM. mas não há nada à venda. . nos nossos. . levando os companheiros consigo. Basta um tiro . Salomão lhes grita: . determinada a não ceder.. . quer confusão com a tropa. Elas continuam abertas apenas por formalidade.Saiam daqui! O que querem? Ele agarra a jovem por um braço e começa a arrastá-la para o "ferro" onde está o barco. .. As pessoas que estão por perto fingem nada ver ou ouvir e afastam-se. é melhor não se envolver em assuntos de militar com mulher..Eu sou o condutor coordenador destes três comboios.diz a jovem. A tentativa de saque obriga Omar a permanecer no seu furgão. Não vou cozinhar para si .. há muito que não são abastecidas. . os viajantes instalam-se nos arredores dos comboios. esteiras e mantas que nem todos têm.Não digas que não te avisámos..ela grita.fala o soldado que parece liderar os outros e se afasta. velhote .Vamos dar-te chamboco . Muitos "passageiros" percorrem as cantinas.Este velho é maluco.Não vou . o alferes Salomão está parado diante de uma jovem de pouco mais de vinte anos. mas gente de cidade. Informados de que vão ficar ali até o dia seguinte. "No 1103. aperta os lábios e bate com o pé direito no chão. com uma atitude agressiva. como se agarrasse um pau. com atenção redobrada aos vagões de carga. . ameaçando Omar com a mão fechada. junto à estação." . temos que escrever a verdade.

Aqui a conversa é de homem para homem e quem manda no meu comboio sou eu . Dois soldados do alferes aproximam-se. Os civis demonstram agora que vêem e ouvem. no entanto. exaltado.comenta um deles. com manifesta antipatia pelo tenente. Salomão? . Salomão . parando ao seu lado. Os soldados mais próximos.treinados e a habilidade do corpo seco do alferes. Ela não pára de gritar.continua o alferes. seguro de si.Largue-me! Largue-me! Soldados que assistem à cena sorriem. capitão. Sem lhes dar atenção.Não me provoques. mansamente. Vai pilar esta gaja! Salomão arrasta a jovem para junto do "ferro". Surpreendido. e fica a assistir ao desfecho do confronto. Taiar permanece calmo.Largue-a! . param de sorrir e observam a cena. querendo intimidar Taiar com as suas AKM.Taiar ordena. .Ganhei a minha patente a combater.declara Salomão. . .O alferes vai dar-lhe porrada é na esteira . Para isto precisa de mais do que a sua força física e leva a mão ao coldre. .diz Taiar. ele larga o braço da jovem que se afasta uns metros. completamente perdida. como se alguém tivesse tocado na corda adormecida da sua coragem. mas não consegue fazê-la subir.pergunta o tenente Taiar. enfrentando em silêncio o olhar ameaçador de Salomão.Quer ajuda. .Tenente. Dez anos! Tenho direito à mulher que quero! Ao responder ao tenente. com dignidade. . . ninguém me dá ordens a respeito de mulher . indiferente à .Esta gaja tem que levar porrada . como se fosse algo tão natural como marido bater em mulher que não obedece. . que acredita estar. agora. A sua ordem espalha electricidade no ar. todos eles da escolta de Salomão.diz um outro. . o alferes olha para Taiar sem sacar a pistola nem largar a jovem. sem erguer a voz.

. Ela corre até o "ferro" onde tem a sua bagagem. Explodiu a Verdade. Um casal que viaja no 1103. procura também mudar-se para o 1101.. Taiar dirige-se ao furgão do 1101.Ninguém muda de comboio durante a viagem. Rosa percorre a composição e decide-se. De agora em diante.Obrigada por me ter ajudado. . pega nela e vai atrás dele. para dormir um pouco. n°5. . como quem pronuncia uma condenação: . cada um tem lugar marcado. posso. andando com dificuldade devido ao peso. duas sacolas de tamanho médio e um estojo branco com uma cruz vermelha. A jovem segue atrás dele e emparelha com a sua marcha. pois aqui já não me sinto segura. sem nenhum motivo especial. Sem voltar a olhar para ela." Licínio de Azevedo é um cineasta brasileiro radicado em Moçambique. mal olhando para ela. Salomão impede-o. O meu nome é Rosa. por ficar no meio dela. 1947 Trás!. gostaria de ir para o seu comboio.Faça o que quiser . Agora sou capaz De tudo . Sou enfermeira. sem se deter. o tenente segue em direcção ao seu comboio. testemunha do ocorrido com Rosa.. no "ferro" em que está Mariamu..diz Taiar. Conquista Autor: Pedro Corsino Azevedo (Cabo Verde) in "Claridade".expressão de desprezo de Salomão.

Pó vermelho. Nem dá gosto Viver. Rasgou-se o céu em mil fatias lindas. Desilusão! Cristal. Litoral ardente.. n°6.. A agonia Da gente pobre . cristal! E eu a namorar o mal. Nem pinga de água. Raios a prumo. Montes nus.Indiferente e quedo e mudo Deixarei escangalhar o brinquedo Que temi na Infância.. O céu plasmando infernos. cristal. Galinha Branca Autor: Pedro Corsino Azevedo (Cabo Verde) in "Mensagem". Meio-dia. julho 1964 Sol de Agosto. Ricos Fanicos Que recolhi na mão. Na valsa doida do vento leste.. ano XVI. Casa dos Estudantes do Império.

. Somos todos.. Mas: Noite de luar. Vento amainado. .Não!. Depois da ceia. Catando Grão De milho Em anos de crise. E mais: É mim É bô É Carlos É Valério É Fêdo. todos..Pobre de tudo -. E mais.. . O olhar mudo Que sufoca gritos Que não partem. Brincam crianças Ao canto da varanda: Galinha Branca Que anda Por casa De gente Catando Grão De milho..

A única esperança.. Olha pra mim! Assim. . Terra-Longe .Canivetinho Canivetão Vá Té França.. Canivetinho Canivetão Vá Té França. França lendária Terra longínqua De onde os meninos Costumam vir em cestos E para onde Em anos de crise Num cesto de pau (Mácabra nau!) Canivetinho Canivetão Coitadinhos Vão!... Galinha branca O espectro da morte A sorte De todos.

gente-gentio come gente" A doce toada meu sono caía de manso da boca de minha mãe: "Cala. pequenino. meu menino. perdido. lá no fundo. suponho minha mãe a embalar-me. aconselha ao filho amado: "Terra-longe tem gente-gentio. distante das realidades que apenas sonhei.. Terra-longe! terra-longe!.. cala.Oh mãe que me embalaste . Depois vieram os anos. gritam: vai! Mas a voz da minha mãe. a gemer de mansinho cantigas da minha infância. . e. eu. zangado pelo sonho que não vinha. com eles.Autor: Pedro Corsino Azevedo (1905-1942) (Cabo Verde) in Claridade. não montes tal cavalinho.1947 Aqui. tantas saudades!. tal cavalinho vai terra-longe. gente-gentio come gente". Hoje. terra-longe tem gente gentio gente-gentio come gente".. terra-longe tem gente-gentio.. cansado pela febre do mais-além. "Ai.

angolê. angolêma) Esperança Autor: Arlindo Barbeitos Angola in "Vozes poéticas da lusofonia"..Oh meu querer bipartido! Em Teus Dentes Autor: Arlindo Barbeitos Angola Em teus dentes o sol é diamante de fantasia a lua caco-de-garrafa e a mentira verdade vagabunda errando de cágado em torno da lagoa dos olhos da noite na treva aveludada de tua pele os dedos curiosos são estrelas de marfim à busca de um dia caprichoso despontando de miragem por detrás das corcundas de elefantes adormecidos (Angola. Sintra 1999 Por entre as margens da esperança /e da morte meteste a tua mão .

1940 saudade é o tempo de pacassas pardas . angolê. angolêma) Saudade Autor: Arlindo Barbeitos Angola.e eu vi alongados nas águas os dedos que me agarram em lagoa de um sonho corpo de jacaré é soturna jangada de palavras /secas por entre as margens da esperança /e da morte Mão Frágil Autor: Arlindo Barbeitos Angola em mão frágil de amarelo se quebra o galho de gajajeira pela tardinha vermelha em flor sussurrar de vento não é voz de capim crescendo é murmúrio impaciente de gentes no azul de parte alguma em mão frágil de amarelo se quebra o galho da gajajeira pela tardinha vermelha em flor (Angola.

e macacos sem rabo servindo de administradores quando o calor ia derretendo o céu e a chuva se vendia na farmácia do comerciante de cabelos de fio saudade é o tempo de patos bravos e macacos sem rabo servindo de padres quando o medo ia gelando a terra e o pranto se dava de beber aos porcos do comerciante de cabelos de fio (Angola. Angolê. Angolêma) Vem Ver Autor: Arlindo Barbeitos Angola escuras núvens grossas de outros céus vindas entrançando-se por entre asas de pássaros canibais e chuva de feiticeiro em sopro de arco-íris dependurada irmão vem vem escuras núvens grossas temem o sol de nossos olhos todos pássaros canibais a garra de nossas mãos todas e chuva de feiticeiro se perde no ar de nossos copos todos irmão .

Mas nhô Chico Polícia há dias contava: "Ti Lobo não tem.. .." Essa voz nocturna segredando.. Ao lado no chão dormindo também o naviozinho de lata que fez com suas mãos. 1941 "Dorme Maninho pra não vir Ti Lobo. Angolê.... Apaga-se a luz. Não fala de mamãe..vem vem (Angola...... Ti Lobo talvez. Angolêma) Canção de Embalar Autor: Jorge Barbosa Cabo Verde in "Ambiente"... Maninho acorda depois por causa da voz falando baixinho segredando no meio escuro." Maninho volta-se e dorme no colchão de saco vazio sobre a terra batida... O homem branco talvez que lá vai de vez enquando.

.. Prelúdio Autor: Jorge Barbosa Cabo Verde "Cadernos de um ilhéu"..."Dorme Maninho pra não vir Ti Lobo. Havia somente as aves de rapina de garras afiadas as aves marítimas de voo largo as aves canoras assobiando inéditas melodias. Amanhã cedo vai correr o naviozinho de lata nas poças da Praia Negra. E a vegetação cuja sementes vieram presas nas asas dos pássaros ao serem arrastadas para cá pelas fúrias dos temporais.. . 1956 Quando o descobridor chegou à primeira ilha nem homens nus nem mulheres nuas espreitando inocentes e medrosos detrás da vegetação. Nem setas venenosas vindas no ar nem gritos de alarme e de guerra ecoando pelos montes.." Volta-se e torna a dormir.

pelo Langa. Assim. normalmente mais regada com o referido líquido. continuou o seu sono pesado e imperturbável. Langa acordou. entrou casa adentro. Não deu pela presença do cão. 1990 "Leão apercebeu-se de que ninguém lhe ligava importância.Quando o descobridor chegou e saltou da proa do escaler varado na praia enterrando o pé direito na areia molhada e se persignou receoso ainda e surpreso pensando n'El-Rei nessa hora então nessa hora inicial começou a cumprir-se este destino ainda de todos nós. Um Cão em Maputo Autor: Alberto da Barca Trecho do livro "Um cão em Maputo". Não procurou pelas panelas. Procurou sim pelo dono . Editora Escolar. Leão sentou-se quieto olhando faminto para o Langa. Com efeito. O cão faminto latiu. Encontrou-o a ressonar. Um sono bêbado. Tinha os olhos vermelhos e um ar aborrecido. Este. Esvaziou cinco garrafas. enquanto fazia a sesta. era um cão! Um cão indesejado desde o primeiro . E neste caso. interrompido de quando em quando por soluços e arrotos causados pela muita cerveja que bebera ao almoço. e lamentou o facto de o "sócio" só lhe ter arranjado tão pouca quantidade para uma refeição de Domingo. indisposto. pois não tolera que lhe interrompam o sono em nenhuma circunstância. O sono era profundo.

AEMO. sofrendo agora mais uma dor . 1984 Juvenal BUCUANE nasceu no Xai-Xai a 23 de Outubro de 1951. tenho a certeza de que não me chateia mais!" Langa voltou a deitar-se. A Cláudio. para o quintal. "A RAIZ E O CANTO" foi o seu primeiro livro publicado. bem como o ressonar aos soluços. atingiu o focinho do Leão em cheio. de fome e também de raiva. colecção Início nº 2. com o rabo entre as pernas e o focinho descaído." ALBERTO DA BARCA nasceu na cidade da Beira no dia 21 de Junho de 1954. Langa murmurava: "o sacana nem deixa um gajo descansar. Pensou no amigo Silva. e uma lágrima grossa escapou-lhe do olho esquerdo. O Húmus do Homem Novo Autor: Juvenal Bucuane Trecho do livro "A Raiz e o Canto". desandou para fora. Deitou-se à sombra da laranjeira. Langa pegou no sapato que descalçara. Virou-se para o lado. Como é que eu posso aturá-lo? O raio do cão até dormia na cama com o patrão e agora quer fazer isso comigo! Comigo isso não pega! Com esta sapatada que o gajo levou no focinho. e com força e velocidade. e.dia. desapertou as calças e derramou a barriga saliente no leito. colecção Início No 2. Enquanto isso. em Dezembro de 1984 pela AEMO. chorou de tristeza. Não tardou a recuperar o sono interrompido.a da sapatada no focinho. meu filho Não quero que vejas nem sintas . O bicho latiu de dor. Assim.

Não quero que vejas nem virtas as lágrimas do meu pranto.As Palavras Amadurecem Se um dia me viste a vagar as ruas da cidade (qual molweni atribulado na sua vagabundagem) o corpo constelado de remendos. deixa que me toste sob este sol inóspito que me dardeja o lombo sempre arqueado.." Juvenal BUCUANE nasceu no Xai-Xai a 23 de Outubro de 1951. Xikalamidade Autor: Simeão Cachamba in Cadernos "Diálogo" .a dor que me amargura. deixa que eu pise a calidez do chão desta terra e o regue até com o meu suor. deixa que eu deambule. Deixa que eu chore as mágoas e as desilusões.. Este penar é o resgate da esperança que em ti alço! Este penar é a certeza do amanhã que vislumbro na tua ainda incipiente idade! Não quero que vejas nem sintas o meu tormento ele é o húmus do Homem Novo. quase seminu .

As Palavras Amadurecem domesticadas asas estrebucham o ancestral sonho sitiado que a exiguidade geométrica da gaiola calca enquanto ouvimos rádio na sala de estar dura um instante infinitesimal a pausa do locutor e nesse vazio breve oportuno subversivo o pássaro entoa as cores do arco-íris os sons fluem em cascata através dos arames e estacam na sala . e que neste são comercializadas MOLWENI: rapaz da rua Xirico Autor: Simeão Cachamba in Cadernos "Diálogo" .todavia por todos poros respirando dignidade hás-de me ver hoje envolto em nova embalagem caso cruze denovamente a mesma esquina com tu Não me pergunte o raio por que deixava eu esta indumentária envelhecer lá bem no fundo do baú Um pouco de bom-senso e apenas dois dedos de testa e saberás que ninguém grama de andar com o corpo nu Se antes de minhas foram alguém que eu desconheço estas «jeans» coçadas que ao meu corpo se ajustam bem como se feitas por encomenda. com as medidas que eu meço é porque em estado natural sempre iguais são os homens polana/85 XIPAMANINE: mercado onde se vende grande quantidade de CALAMIDADE: roupas doadas para os países do terceiro mundo.

com que me provocas. enchem-me o cerebro de fogo incontido. Misturo-te com a terra vermelha e com as noites de histórias antigas ouvidas há muito. No teu corpo sons antigos dos batuques ah minha porta..vá tu saber se o bicho está triste ou alegre" XIRICO: pássaro e marca de transístor muito popular Árvore de Frutos Autor: Antonio Cardoso Angola Cheiras ao caju da minha infância e tens a cor do barro vermelho molhado de antigamente. 1961 ao António Jacinto Um dia eu vou fazer um romance com as histórias da minha rua . há sabor a manga a escorrer-te na boca e dureza de maboque a saltar-te nos seios. és o sonho feito carne do meu bairro antigo do musseque! Um Dia Autor: Antônio Cardoso Angola in Poemas de Circunstância. Amor.

a Joana Maluca da garotada. os batalhões do "Treze" e do "Setenta e Quatro". o bêbado Rebocho. o sô Floriano do talho com muita mistura de amor e muito suor de trabalho. cajueiros. Mãe tenho fome marido tenho bicha e mil malárias me disputando a vontade. Vou meter as cabras e os cães vadios da velha Espanhola os batuques da Cidrália e dos Invejados. capim e piteiras.antes de se chamar Silva Porto e os pretos irem embora. semeio algumas esperanças e parto com o meu veleiro a dar uma volta ao Mundo! Cidade 1985 Carlos Cardoso Maputo. e mesmo no fim da história. o velho Salambió. De manhã quando acordo em Maputo o jantar é uma incerteza . 1985 De manhã quando acordo em Maputo o almoço é uma esperança. Vai entrar a lua e meninos sem cor a Domingas quitata. acendo um sol de Fevereiro. lixeiras. quando os homens estão desesperados e as fardas passam em fila. cubatas.

o serviço uma militância política do outro lado do sono incompleto e o chapa-cem* um regulado impiedoso no quatro barra oitenta sem contra-argumento. as ordens de um Mouzinho boer. ó Mataca. De manhã quando acordo em Maputo o vizinho já candongou o que me roubou a estomatologia não tem anestesia a chuva abriu dialecticamente mais um buraco na estrada e o conselho executivo continua desdentado de iniciativas. De manhã quando acordo em Maputo Porra para a vizinha que estoirou a torneira do rés-do-chão Porra para o guarda que não ligou a bomba quando veio a água Porra para as cem gramas de carne apodrecidos no silêncio desenergetico de Komatipoort mais as ó eme sed de efes e o soldado que ainda não ouviu dizer que os passeios são lugares públicos e os fulanizados exploradores de outrora que se preparam para cuspir na tua campa. De manhã quando me percorro em Maputo enfio ominosamente o cérebro numa competentíssima paciência desembainho felinamente mais uma mentira diplomática e aguardo a lucidez companheira me leia nas acácias em sangue nos jacarandas estalando sob a sola epidérmica do povo que este é ainda o eco estridente do Chai .

Chagas de Salitre Autor: Ruy Duarte de Carvalho Radicado em Angola Santarém. Portugal. À noite quando me deito em Maputo não preciso de rezar. a ingénua tolerância aproveitada em carne. Pergunta ao mar. com a raiva intacta resgatada à dor danço no coração um xigubo guerreiro e clandestinamente soletro a utopia invicta. Olha-me as brutas construções quadradas: . que é manso e afaga ainda a mesma velha costa erosionada. Olha-me a história de um país perdido: marés vazantes de gente amordaçada. 1941in Chão de Oferta. negros. dos fortes roidos pelo vegetar da urina e do suor a carne virgem mandada cavar glórias e grandeza do outro lado do mar. Já sou herói. Então. 1972 Olha-me este país a esboroar-se em chagas de salitre e os muros.até que Botha seja farmeiro e Mandela Presidente.

1941in Chão de Oferta. pra meu governo. atenta podes ver uma história de pedra a construir-se sobre uma história morta a esboroar-se em chagas de salitre. Eu Tenho os Dias Claros Autor: Ruy Duarte de Carvalho Radicado em Angola Santarém. Olha-me as igrejas restauradas sobre ruínas de propalada fé: paredes brancas de um urgente brio escondendo ferros de educar gentio. nestes olhos de um povo condenado a amassar-te o pão. Portugal. ando a ganhar noções de translação e a medir. Eu estou parado no meio do terreiro pastado dos meus passos e da minha gente. Olha-me a noite herdada. 1972 para o António Eu tenho os dias claros de sucessivas luas de Setembro e a noite que me impõe sinalizar as direcções cruzadas das mensagens verticais. os rios turvos de espesso deslizar dos braços e das mãos do meu país. sobretudo. Olha-me os rios renovados de cadáveres. Olha-me amor. a cor do sol.embarcadouros. Eu entardeço. pouco atento ao vento . depósitos de gente.

furtivamente. Por isso eu sei de estrelas . Meu fim é circular. Portugal. Eu finjo que não sei de elásticas tensões da claridade e a cada passo meu faço estalar membranas frias que a tarde debruou em rente azul. molhos já secos de memória fêmea. Entendes. que me sinta o cheiro e deixo-o desfazer. Do mar sabemos nós e aos capitães a fama da conquista. companheiro. eu estou aqui sentado e nu a procurar não ir além da bárbara carícia de um olhar sem tacto e que nem uma lágrima machuque a capa muito fina da lembrança que tenho para dar-te. Permito. Diogo Cão às Portas do Zaire Autor: Ruy Duarte de Carvalho Radicado em Angola desde 1963 Santarém. quando muito. 1972 Deste lado da história o rio morre aqui. 1941in Chão de Oferta. ir mais além.que não devo perturbar na sua rota alheia. Faço-me ao Sul porque pertenço ao Norte e a costa só me serve p'ra cumprir tarefas de abandono.

sim. Pois que sabeis da vertical sagueza? Novembrina Solene Autor: Ruy Duarte de Carvalho Radicado em Angola desde 1963 Santarém. De Deus. Cumpro tarefas. porque sou eu quem lhe constrói a face. noutras distâncias. Assim nasci sabendo o que me aguarda após a descoberta. 1972 Seu Zuzé. as tuas vacas como estão? Longe daqui subimos os morros Fomos procurar a água que resta do ano que passa. Fronteiras só conheço as do meu lar e sei amá-lo. 1941in Chão de Oferta. empreendi que mora aqui no mar. porque viajo.direcções e nada sei de fruto que se projecta e espera. Portugal. só. . Ao Rei e a Vós apenas dou noticias do rumo horizontal.

meu vizinho então por cá? Pois que vim te visitar te avisar que o meu gado vai passar aqui por perto Tarda a chuva e é preciso procurar o que lhe dar de comer o que lhe dar de beber O capim está ficar negro está na hora de mudar.Senhora Luna a farinha? Está secar Tarda a chuva seca o milho A lavra não vai medrar. Imigrante Silva. a tua mulher? Está mal. Chimutengue. Que é do leite pra lhe dar a carne pra lhe engordar? E os filhos? Estão magrinhos doentados vão ficar igual com o pai Que é da escola pra lhes dar .

Calembera. Ernesto. 1941in Chão de Oferta. Portugal. De uma nação de corpos transumantes confundidos na cor da crosta acúlea de um negro chão elaborado em brasa. Olhai pela vida das fêmeas e pela saúde dos machos. 1972 Vim do leste dimensionar a noite em gestos largos que inventei no sul pastoreando mulolas e anharas claras como coxas recordadas em Maio.sapatos pra lhes calçar oficio pra lhe ensinar? Dunduma amigo companheiro Chipa Zeca. Protegei os pastos. olhai pelo gado. Venho de um Sul Autor: Ruy Duarte de Carvalho Radicado em Angola desde 1963 Santarém. De um tempo circular liberto de estações. . Venho de um sul medido claramente em transparência de água fresca de amanhã.

voltariam no amadurecer das espigas. do xuaxualhar das chanfutas. morreu de amor. Errara por terras e terras. o rapaz que. bisbilhotava-se. Mas ao nascer-morrer igual dos dias.Nyeleti Autor: Suleiman Cassamo in "Amor de Baoba" (crónicas). Chocariam os ovos. Bebia-se sumo de melancia. O sabor da nossa terra. cada um o recomeço do anterior." " Lamentava. porque o amor negado envenena. diante da brasa. Longe do mundo. havia cruzado o rio . traziam as noites e vinham. para as figueiras. de madrugada. gordas e doiradas. a lembrar grandes pepitas de ouro. do rumorejar dos regatos. as abóboras jaziam. 1998 Introdução: "Que da leitura destes contos vos fique um leve. Edição da Ndjira. construiu uma cabana. Nas lagoas crescia o peixe-preto. Partiram para longe as rolas. a mandioca rasgava a terra. Também as rãs acolhiam as noites com rezas. E os dias iam. há o acontecer de massinguita: Malatana reapareceu. em cacofonia. mesmo com o sal e o piripiri esperando de lado. afinal. para o fundo da mata. palito. Nas machambas. dois pirilampos no lugar dos olhos e a barba grande de Jesus Cristo. esse peixe que conserva a dignidade do seu bigode. a mesma terra que dava forca aos seus músculos. junto dos bichos. ressoando na membrana das lagoas. Chegou como só chegam os fantasmas. a macaroca nascia filas de dentes e deitava cabelo loiro. no espeto. levissimo sabor a terra.

ainda marcialmente. amiga! . derrubei o maldito aparelho com um golpe de karaté. para as moscas perseguirem as tuas curvas.Sarnau. ponha-te à vista. a televisão também estupidifica. lá onde o mundo acaba e recomeça. De volta. e que janota. Em vez de estar ali a chocalhar.A avó morreu! Nem deram pela minha presença. chegara a Mamanga. Malatana trouxe nos bolsos rotos o feitiço que viraria o coração da Nyeleti.Os meus parabéns. Sabe-se lá se da Europa. diz ainda Eco. Edição da Ndjira. pulei para cima do baú. e. pareciam elefantes embalsamados. menina. Será. se das Américas. que isso se confirma no episódio com que fecho este texto? Naquela noite fatídica. 1998 página 24: Mas. ó Eco." Amor de Baoba Autor: Suleiman Cassamo in "Amor de Baoba" (crónicas). Pulei em frente.E tu o que esperas? Aposto que estavas a olhar para esse .Maputo. entrei de rompante na sala e anunciei: . eu já arranjei um namorado. a pouco e pouco. então. Presos ao ecrã. a regressar.A a-vó mo-rre-u!!! Só então começaram. Balada do Amor ao Vento Autor: Paulina Chiziane do livro "Balada de Amor ao Vento" Capítulo 1 ". tinha visto Xivimbatlelo. Olha. ginga. hoje é o dia de arranjar namorado. e proclamei como que em teatro: . . rebola.

..ranhoso filho do Rungo..Kenguelekezeee!. Braços negros erguem-se no ar.. Hoje é dia de festa e não estou para guerrinhas..Mas vocês ainda não viram? A Sarnau é pau de carapau. wâ... Pois digo-te menina. Capítulo 11. na intenção de aborrecer a adversaria.Kenguelekeze! Eis aqui uma vida nova! Majestosa Lua: . A Eni fora ao encontro dos meus pensamentos e ferira-me a forma como se referira àquele jovem tão distinto." . .Kenguelekeze!... todos se viraram contra mim... aquele está a estudar para padre. nem curva no rabo. Nem curva no peito. .. sim senhor..cumpria o ritual da lua nova que se realizava na lua cheia por tratar. é o Mwando........ partindo do coração da Lua. estás a perder tempo. mas ao ver que o espectáculo estava perdido pois a Eni não se desfazia. Mulher é que não. . página 73: ". wâ.Wê..se do filho herdeiro. Aquele Mwando interessava-me. enquanto esta.. Fiquei furiosa.. mergulhando os dedos enfileirados no prateado leitoso que embacia o céu.. Sarnau. não vale a pena tanta fanfarra. limitava-se apenas a murmurar: ..negro não. Finalmente os marotos deixaram-me em paz e pude à vontade contemplar o meu ídolo e preparar planos de abordagem. Todo o bando me rodeou e trocou. de olhar trocista. de prata sim. cobrindo-o com o seu manto de prata .. wâ! Fiquei zangada. Eis aqui o herdeiro da coroa! O menino negro . Coloquei as mãos nas ancas e vomitei todo um palavreado provocador. A malta incitava-nos para a luta.. porque a Lua cheia pintava o rosto angélico... Como se chama? Ah. Tenho um vestido novo que não me apetece machucar. é estaca de eucalipto.

esta gota de água que veio ao mundo para ser feliz. província de Gaza. soltando gritos de protesto. onde estudou. esfregou-os. "Balada de Amor ao Vento" foi o seu primeiro livro. colares de pele de leão para ter a coragem e a audácia do rei da selva. Paulina Chiziane nasceu a 4 de Junho 1955 em Manjacaze. ataques. Com o menino erguido no ar. colecção Karingana No 12 da AEMO. doenças nervosas.. as aves marinhas contemplam os despojos com olhos tranquilos . esperneou.recebe esta criatura. Fechou os olhos. e lançou um jacto de urina molhando a cabeça de uma delas. Poupa-a das diarreias. Iniciou a sua actividade literária em 1984. as madrinhas dançavam à volta da fogueira sagrada. O menino nu tremia de frio. tendo crescido nos subúrbios de Maputo.. No areal se sepulta o choro do mar em seu clamor e seu soluço e a fúria do vento largo veste de saliva os arbustos sobreviventes. com contos publicados na imprensa moçambicana. Dá-lhe a bênção. Na orla do tempo. quando encheres e quando morreres. A seguir administraram fumos e drogas purificantes para afugentar feitiços e maus-olhados. kenguelekezeee!. Prepararam-lhe vacinas e amuletos. 1971 "Na agreste paisagem de dunas expira a vastidão da savana. suspenso nos braços erguidos das madrinhas. Mangal de raizes nuas doí-me o desespero dos teus dedos ainda longos e cravados à terra. quando nasceres. Feições Para um Retrato Autor: Fernando Couto trecho do livro "Feições Para um Retrato.

só nos vemos a delgada fímbria do encontro da morte e da vida e conturbamo-nos. avivamos o traço esguio e sinuoso dessa fímbria de encontro de morte e da vida". ancorada em irresponsabilidade. em primeiro lugar. Em meia palavra: era companhia de se evitar. o homem passa a linha. A menina devia era evitar os risos. Noves fora. Quem estragava esse madurecimento da miúda era sua avó. novos de fora. e as contas do ter e do haver. nada sabia desses acertos. E assim. A senhora se convertera em parceira de infância. desprezava a escola. Os pais de Mimirosa assim julgavam. Mimirosa estava. Há o bomem. A vida descostura. as coisas sem consequência. Que há deveres. A avó. a menina. amando-nos. Não queriam nem . Ermelinda. proibida de frequentar a companhia de Ermelinda. Custa é haver o humano. E o ser é apenas o que resta. a corrigir os panos do tempo. Mimirosa. Acreditava ser tudo simples como o molhado e água. Aqui. em redondezas de carinho. tudo em tamanho não aparado: os senhores em infância. Seus país se preocupavam. E. brincriável. por isso. disciplinar arrebatamentos. Que se aprende mais é fora dela. A escola. sabia-se. isso é facto. poeira e chão. Passava a idade e Mimirosa demorava a aprender o regime da realidade.e nos conturbamo-nos à vista dos despojos e do jeito dos pássaros. A Adivinha Autor: Mia Couto Tudo é um jogo. no calor da família.

Mas há o prémio de verdade? .Pense. avozinha?. Voltada a casa. ela não sabia . Podia um rio assim? Ou já se viu a estrada correr sem o amparo de duas ambas bermas? .Qual é um rio que não tem senão uma margem? . mal se soltava das vistas. se ensine.Vês a sombra? Essa sombra é pequena. entretida nos nenhuns afazeres da velha senhora. O jardim da casa parecia obra de inventar. rectificando um aqui no além ela.Jure. Imaginava-se. a menina era inquirida pelos pais. parada. berlindavam-se os olhos dela.Se você‚ adivinhar esse mistério. se internava no atalhozito que dava na casa da avó.Isso é coisa que não pode.. Prémio que haveria era só o serem as duas. perto do caminho da avó. inevitável. Já sabe que o prémio que há-de haver. . A velha deixava o mistério durar. Mas existe uma sombra que é da terra toda inteira. A pergunta labirintava na cabeça de Mimirosa. . pairada.que fosse vista junto. onde já não poderia desviar a direcção. Conforme os olhos distraídos da velha ela ajudava. Ali gazetava dos deveres. o mundo vai ficar tão admirado que até o tempo há-de parar. de mão acompanhada. Porque ela. E voltavam às lides. avó! E do outro lado fica o quê? . chegava o jogo da adivinhação.. A menina era conduzida. coisas de calcular o futuro: quando fores grande já escolheste o que vais ser? Simplesmente. sem obrigação de nada. Uma só arbustozinho nele cabia. . até às imediações escolares. Até que. no escondido. perguntas sem mistério. ali.

sei a adivinha! No rosto da senhora nenhum sinal. somaram-se os dias. Mimirosa. seus pais. ela se convertera em fundo escuro. . Ninguém a viu penetrar na penumbra da casa. A menina se admirava: aqueles não gostavam de si mesmos? Por que razão eles queriam que ela lhes fosse diferente? Só a avó gostava de ser como era. veio o alvoroço. A sombra do morcego se desenha no tecto? Pois o pensamento da neta n o saía do mesmo assunto: saudade de sua avó.Lembra a adivinha. cuidadosamente desarrumadinha. Um dia. Como deviam ser infelizes. sua ausência na resposta. Nenhuma luz a trazia à superfície de si mesma. ninguém suspeitava que se anichara. E. ofegante. fronteira entre a vida e a morte. . nem uma ruga se alterou. voltou escola. . E. A velha Ermelinda se sentira mal.Avó. . Escapou da escola e correu pelos campos. a menina suspulou da carteira e se flechou porta afora. Mas não a deixaram entrar na velha casinha. o peito dela se amarrotara. Mimirosa. mas não queremos que sejas como nós. nesses dias. A senhora não reconhecia ninguém. vaticinava a mãe. aqueles dois.Ou dessas que faz as contas e faz crescer dinheiro.Tudo serás filha.querer ser grande. vó? Aquela do rio de um lado só? . preferia o pai. Parecia que Ermelinda já cruzara aquele risco feito na água. deixou a escola. enquanto seu olhar fingia percorrer o caderninho. Até que. obrigada e vigiada.Ela vai ser doutora hospitalar. na cabeceira da moribunda avó. assim. . urna tarde. assim.

Já se retiravam daquele luto.A confissão de Nhonhoso ". cegos. Mas teve medo. em suas mãos. Até que os braços do pai a puxaram. por um instante. parecia transtornado em juízo de bicho. A Confissão de Nhonhoso Autor: Mia Couto do livro "A Varanda do Frangipani Sétimo capítulo . E se cborou! O caderninho órfão. avó. Primeiro ela cedeu. Só os nossos respiros se farfalhavam nos peitos cansados. sofria a catarata das lágrimas. aos tropeços. Nunca tínhamos falado assim. acariciaram o azul da imagem. não me chateia. caraça de tu! . O branco me solavanqueou. Esse cujo rio.Não está ver? Estou cortar essa árvore. .É o mar. . E caderno começou a pingar. sentida sozinha no grande mundo. se atirou contra mim. Estava aberto numa figurinha do oceano.Sua? Suca mulungo. Mas a luta logo se desgraçou. desvitaminados o pé e o soco. E a voz da menina tombada com um derradeiro lenço: . Os dois brigamos. todos mais Mimirosa quando os dedos da avó tactearam o ar e.Que estas a fazer. o nosso Xidimingo. como se o papel não mais contivesse aquela água.E os olhos da menina se atabalhoaram de água. Os dois nos sacudimos. chegaram até no caderno. se levantou e. mais suas criaturas profundas. Nhonhoso da merda. Mas depois esgueirou-se. é o mar. . Depois. e depositou o caderninho escolar no leito da água. essa árvore é minha. desafeitos. convergindo violências.Para com isso. Domingos Mourão. A mão dela ainda arriscou tocar no braço da avó.

Xidimingo. Aquilo havia sido briga de disputar gafanhoto.Você é que apanhou maningue. vocês falam mal dos brancos mas a única coisa que querem é ser como eles. Sabe uma coisa: colonialismo já fechou! .A diferença entre mim e você é que. Parecia desmaiado. Depois. Ficou um tempo imóvel.Não quero mandar em ninguém. Então.Você sempre quer mandar em mim." A Multiplicação dos Filhos . se ocupou em ajeitar o corpo. . estou-lhe a agradecer bastante. Nos olhamos sérios. seu velho branco.Porquê? .. . O velho branco riu-se sozinho..Como não quer? Eu nos brancos não confio. . nunca desenrola todo o rabo. chapamos as palmas. . em acordo.Ouve Nhonhoso: quer apanhar mais outra vez? .Você está respirar.Para me dar um murro você precisa descansar um século... a mim. olhos semicerrados. Você é um arrota-peidos.. lhe disse: .. Branco é como camaleão. Mourão? .Charra! Eu quase ia morrer sem bater um branco.Os brancos são como o piri-piri: a gente sabe que comeu porque fica a arder a garganta.E vocês. De repente.é pá. bicho sem fruto nem carne. Xidimingo. . ficam cabelos no pente enquanto a você ficam pentes no cabelo. . Batemos as mãos. pretos.. .. ambos desatamos a rir. Lhe doía a garganta como um torcicolo em pescoço de girafa.Deixa-me descansar um pouco e já lhe despacho uma boa murraça.Cala. . ..

. Que revelaram outros. Foi um tempo de transbordar a alma. Mulando se orgulhava de ter as linhas da mão em inacabado estado. Mas agora uma nova vaidade se sobrepunha: o ser tanto pai. O filho varão se admirou da visita. Como fossem muitos. Mulando sentou-se a contemplar as linhas da palma da mão. sempre fugidias. como flor que morre na imortalidade da semente. Lhe pareceu ver que elas tinham mudado de desenho. Alguma suspeita o fez ficar de coração atrás: porquê tão tardia visita? Mas ele esmerou em simpatia. Já visitara mais de duas dúzias e ainda havia mais prole. o filho mais velho disse que havia uns tantos irmãos espalhados pelos lugares. Já cansado de tanta visitação. decidiu dedicar todo o tempo que lhe restava em paternais visitas. O pai se hospedou por uns dias. Festejaram esse milagre de haver pai e filho. Mulando sentiu vontade de ver os seus filhos. Na despedida. Aqui e além foi encontrando mais uns. Queria saber das outras vidas de sua vida. Como se. Até que Mulando descobriu que eram muitos. Riu-se de suas façanhas. E o pai seguiu a prestar visitas a seus outros descendentes. Chegaria ao ponto de não ter tempo de terminar sua peregrinação? Contou as linhas das mãos e lembrou o desafio do seu tio materno perante as estrelas: contar. Beberam. em final da existência.bem para além dos muitos que ele imaginava. E outros apontaram mais outros.Autor: Mia Couto do livro "A Varanda do Frangipani Certa vez. comeram. contar. ele avaliasse a única eternidade que nos é certa: continuarmo-nos em nossos filhos. Começou pelo mais velho. entornaram as primeiras gotas no chão dos antepassados.

. faz conta estreasse o sentimento de ter um pai.Crime é um pai não cuidar dos filhos.Você também? E Mulando riu-se. .Você também é minha filha? A prostituta sorriu-se. isenta de maus olhados. por momentos. fizesse de conta que era outra. E ele desistia como o dedo do tio desmaiando perante as tantas estrelas. a ganhar fôlego e estendeu as pernas: . A prostituta o afastou com firmeza. Uma mulher sem pecado. são nossos filhos. Escapou do colo de Mulando e se encrispou toda.Esses todos seus filhos: sabe o que é? .contar até chegar a um ponto em que já não há número. Mulando olhou para as mãos. A moça. . sente-se aqui no meu colo. uma mulher de ninguém escutou a sua missão. Havia um bar e ele passou por lá. A seu lado. triste.Gostava de saber. até quase perder a voz: . Ele cruzou os braços sobre ela. minha filha. uma neblina. repetindo com ante-sabidas intenções: . neste mundo. Ela demorou a ajeitar-se no vivo assento.Então. no fundo. todos. cabeça tombada para trás. em subtil prisão. uma garrafa. passou por um copo. Um longo braço da preguiça amoleceu a sua vontade de prosseguir.É que. estranhamente. lhe perguntou: . E lhe segredou que ela.

O outro fez regressar a matraca em sua bolsa e falou nos . Em redor. E a voz do outro lhe chegou. E naquele esbotar de contornos ele sentiu alguém se postar diante. Insustentável. Se as vistas eram sombras. os sons pareciam bem mais nítidos. Mulher que não queria o seu colo deixava de existir. em bom recorte: . duas. .Não sou seu filho! . Mulando já não usava o pescoço.Isso é verdade. sem demais. da prostituta nem sobrara o perfume. a cabeça lhe descaíra para trás. olhos escancarados perante o sol. Tentou focar o rosto do outro e notou que ele a si se semelhava. Ele dava o assunto na bandeja. Uma.Venho lhe matar! Nem lhe veio discernimento para a devida resposta. quando Mulando despertou. A manhã se adiantara.Meu filho: eu vou seguindo. Pela primeira vez.Sou seu pai. calor adentro. as linhas da mão de Mulando se moldaram em desenho fixo. mortais. as formas ainda se acertavam. daqui vou para mais adiante. Isso é um crime sem perdão. O bar estava deserto. Mulando lançou o jornal para se resguardar da luz e encerrou-se para balanço. quatro chambocadas. o nublado era um céu dentro da cabeça dele. Então você é o quê? . Um mais filho? Daquela idade? . As suficientes.Não é? Mas você me parece. o clima não estava para disputas. Além disso. E ditas as três palavrinhas desfechou uma matraca sobre o outro..

inspector da Policia. um mulato que foi responsável pelo asilo de velhos de São Nicolau. Sua profissão é avizinhada aos cães: fareja culpas onde cai sangue. Dizem assim: o funeral de Mulando nunca se viu tristeza mais repleta. Em sua nova maneira de ver. Minha campa. espreito-lhe com cuidado para não atrapalhar os dentros dele. Sonho quem ele sonha. Com ele eu emigrava no penumbroso território de vultos. Olho da janela. em missão enviada pela Nação. a promessa de visitar toda a sua descendência.Sou seu pai e você nunca me veio visitar. É lá que fica o asilo. Lá em baixo. agora. Estréia nos Viventes Autor: Mia Couto Segundo Capítulo do livro "A Varanda do Frangipani "Este homem que estou ocupando é um tal Izidine Naita. por cima das vertigens. Porque este Izidine. Falo com quem ele fala. o homem cumpria. Izidine iria percorrer labirintos e embaraços. Neste momento. Estou num canto de sua alma. Meu hospedeiro anda esgravatando verdades sobre quem matou Vasto Excelencio.seguintes termos para o chão: . . Estavam lá os filhos todos. Nesse momento. vou nele. Desejo quem ele deseja. Mulando acrediou presenciar no cemitério a inteira humanidade. A Fortaleza de São Nicolau é uma pequenita mancha que cabe num pedacito de mundo. sou eu. enganos e mentiras.visitando-o na sua última mudança de residência. faceando o mar se vê a velha fortaleza colonial. essa nem se distingue. Tem graça que eu tenha saído directamente das profundezas para as nuvens. é lá que estou enterrado. Vou com ele. vou ele. de uma só vez. estou viajando num helicóptero. Espreito das nuvens. por exemplo.

Ai.. a fortaleza é. aquelas que eu ajeitara. antes. Minhas madeirinhas. meu primo? Eu estou mal aqui na aldeia Julius Nyerere. sem remédio contra o tempo e a maresia. Se demorar a sair agora até há bons advogados que aparecem logo a defender-nos. isto é. Se notam os escombros como costelas descaindo sobre o barranco. estamos numa boa.. Não é que tudo seja bom. Primo urbano . caro primo: venha para a cidade. as coisas tornaram-se muito difíceis para os ladrões de gado. eles afogam o ladrão que roubou o boi. agoniavam podres. Aqui afogam é o boi. Esse mesmo monumento que os colonos queriam eternizar em belezas estava agora definhando. Que venha. no campo.. pobres criminosos. é o contrario.. uma fraqueleza. essa senhora que Liga para os Direitos Humanos. os ladrões urbanos. Aqui. isso está feio por ai. a concorrência com ladrões de fora.Vista do alto. aos maus. mete num saco e afoga-lhe no rio Limpopo! Estamos cheios de medo. Primo urbano . Vocês..Lhe digo e redigo meu primo-irmão: junte-se aos bons.. Primo rural ." "Cartas dos Primos Ladrões" Autor: Mia Couto Excertos da crónica "Imaginadâncias" no jornal "Domingo" . frente à praia rochosa. isto é. primo. em Maputo. Eu lhe dou um conselho. Por exemplo.Como está meu irmão.. Aqui está bem acompanhado-filhos de gente grande e alguns próprios grandões.é pá. Até já escrevemos para a Alice Mabote. Sabe o que faz a população? Pega no ladrão. andam com medo da população. . . caro primo! Aqui eu o enquadrarei. Nós. Se for preso sai logo no dia seguinte.

.Esses se inflamam no crespúculo: são os inflamingos.Isso não está correcto." CHAPA: transportes semi-colectivos de Maputo. Só para poderem pedir a alguém. Só mais lá. foram-vos retirados? . empurra.evite vir de chapa. . Cá lhe espero. nº 4. .E agora ? .nigerianos da droga já tem lojas e empreendimentos em Maputo.Foram. Governado Pelos Mortos (fala com um descamponês) Autor: Mia Couto in Revista Lua Nova.. Nós só ficamos com o descampado. Dão licença sem nos contactarem a nós? Primo rural . Começam a aparecer criminosos nigerianos. Entrar enquanto houver lugar.vou para Maputo. .E estes campos. Querem voltar a ser vivos. é pá! Então onde está a protecção do empresariado nacional? Então isto é assim . É a única coisa que um ladrão pode temer nesta bela cidade moderna! Rouba uma boa viatura e venha. aqui.Optimo. 20 ". sul-africanos.. . tradicionalmente vossos. só há inorganismos. . . . é que ainda abundam. juntar-me a si.Já tomei decisão .Agora somos descamponeses.Nós ainda ontem vimos flamingos. malawianos. Porque eles mesmo se tornaram deuses. no mato.Agora. tanzanianos. ainda há aqui bichos ? .Os mortos perderam acesso a Deus. E têm medo de admitir isso.. p. Primo urbano . até já falamos às autoridades policiais. se não houver lugar.E bichos. Só lhe dou um conselho .

. há nomes que eu acho que estão desencostados. Pode falar delas ? . a avestruz pousava em árvore. Ninguém conseguia olhar meu pai de frente. Quarto capítulo. . edição da Ndjira páginas 37-38: Seus olhos subiram do chão até se fixarem no rosto dele. .Os olhos dele! Sim.. voava de galho em flor. tal iguais aos grandes e dentilhados bichos. de transparência marinha. Porque aqueles olhos dele estavam da mesma cor do mar: azuis.Caso do beija-flor. A flor é que levaria o título de beija-pássaros. Porque o sol só finge nascer. tapando os olhos.. páginas 43-44 O dia começa sempre de mentira. os olhos de Agualberto não eram os mesmos... Os restantes se aproximaram de meu pai e um rumor se espalhou como nuvem fria.. A partir desse dia meu pai se adentrou em si mesmo. Aquela manhã acordou com vontade de esquentar e eu me . Passavam gentes vindas de longe para espreitar de longe o preto de olhos da cor do mar. Ele ficara muitíssimo demasiado tempo debaixo do mar. E se espalhou um murmúrio de que Agualberto tinha os olhos de tubarão.Antes de haver deserto. Sua humanidade estava lavada a modos de peixe. Foi quando ela gritou.E outras aves da região. toda a hora sentado na praia contemplando o horizonte. Se chamava de arvorestruz. É um nome que deveria ser consertado. Agora." Mar Me Quer Autor: Mia Couto Trechos do livro "Mar Me Quer".

. embenvencida.Não recebo quentura da água. parecia um navio repousando em desenho de criança. Minhas mãos fingiram ser caracóis. Eram peixes mortos boiando.decidi passear pela praia. Dona! O que foi ? Luarmina apontou qualquer coisa sobre as águas. mãos atrás das costas. Espreitei pela esquina dos olhos: a gorda Luarmina estava flutuando. ela soltou um grito. a mulata não me repeliu. pescando entre roupa e corpo. Entrei.Nessa água onde a senhora está ser banhada. com o devido respeito. lesmas babadoiras lavrando nas coxas de Luarmina.A água está quentinha ? . porém. Para meu espanto.Entrar onde ? . E salvo seja.. cumprindo seu dever. pastando nessas gorduras dela. Os bichos desqualificavam viscosas salivas sobre a vizinha e eu só pensava: mal empregadas as minhas próprias babas. Ela respondeu que queria aquecer as pernas. Foi quando encontrei Luarmina mergulhada numa poça de água. Emendei minha malandrice. Meus dedos prosseguiram. Me entornei na toalha da água e fechei os olhos igual como ela. Quem me aquece são caracóis.Susto. Estava vestida e as roupas colavam-se no corpo. Aproximei e lhe perguntei a razão daqueles banhos. .Dá licença eu entrar ? . . Nas Águas do Tempo Autor: Mia Couto in Estórias Abensonhadas . De repente. E explicou: havia uns certos caracóis que lhe lambiam as pernas. fui-me achegando perto da vizinha.

No entanto.Sempre em favor da água. Tirar água no sentido contrário ao da corrente pode trazer desgraça. nunca esqueça! Era sua advertência. A canoa solavanqueava. parecendo ir mais sozinho que um tronco desabandonado. Vovô era dos que se calam por saber e conversam mesmo sem nada falarem. nele. Ele remava. chegada a incerta hora. somente raspando o remo na correnteza. o velho se debruçava sobre um dos lados e recolhia uma aguinha com sua mã em concha. . enfilado em seu pequeno concho. Aquele era o lugar das interditas criaturas. era ele quem me conduzia. um passo à frente de mim. onda cá.Voltamos antes de um agorinha. E eu lhe imitava. . o dia já crepusculando. onda lá. Antes de partir. devagaroso. Peixe nã era.Mas vocês vão aonde? Era a afliçã de minha mãe. . . Entrávamos no barquinho. Nem eu sabia o que ele perseguia. Nã se pode contrariar os espíritos que fluem. todo ele musculíneo. me levava rio abaixo. O velho sorria. respondia. Eu me admirava da sua magreza direita. O avô era um homem em flagrante infância. sempre arrebatado pela novidade de viver. ensonada. nesses dias.Meu avô. Os dentes. A maneira como me apertava era a de um cego desbengalado. Depois viajávamos até ao grande lago onde nosso pequeno rio desaguava. Garantido era que. O barquito cabecinhava. Porque a rede ficava amolecendo o assento. ele me segurava a mã e me puxava para a margem. nossos pés pareciam bater na barriga de um tambor. eram um artigo indefinido.

Nã vê o pano branco. nos próximos futuros. Meu velho. na margem? por trás do cacimbo? Eu nã via. sombras feitas da própria luz. vislumbrei por ali alma deste ou de outro mundo. calado. É lááá. Aquelas inquietas calmarias. como em reza. fosse ali a manhã eternamente ensonada. Pois. nós éramos os únicos que preponderávamos. sonecando no suave embalo. ela ensaiava a brincadeira: . sobre as águas nenufarfalhudas.Tudo o que ali se exibia. Tudo em volta mergulhava em cacimbações. se inventava de existir. quieto. Em casa. a dançar-se? Para mim havia era a completa neblina e os receáveis aléns. se zangava com o avô. já amolecida pela nossa chegada. naquele lugar se perdia a fronteira entre água e terra. O velho. acenava. temia as ameaças que ali moravam. Primeiro. O avô. Mas ele insistia. minha mãe nos recebia com azedura. nem por pinte.Nã é lá. Nã queria que fôssemos para o lago. Mas depois. depois.Você nã vê lá. A quem acenava ele? Talvez era a ninguém.Ao menos vissem o namwetxo moha! Ainda ganhávamos . Nunca. Mas o avô acenava seu pano. E muito me proibia. meu avô se erguia no concho. desabotoando os nervos. onde o horizonte se perde. . perdia a miragem e se recolhia. desconfiando dos seus nã-propósitos. excitado. viajando sem companhia de palavra. Nosso barquito ficava ali. Com o balanço quase o barco nos deitava fora. E regressávamos. tã quietos que parecia-mos perfeitos. Ficávamos assim. espiava as longínquas margens. encolhido no seu silêncio. . Tirava seu pano vermelho e agitava-o com decisã. De repente. afinal.

Eu tinha um pé meio-fora do barco. me apeteceu espreitar os pântanos. aventurosos. nem nos passava desejo de duvidar. Eu jamais assistira a um semblante tã bravio em meu velho. lutando dentro do lago. miudagens. se tinha entrevisto com o tal semifulano. De repente. Invençã dele. Mas nunca nos foi visto tal monstro. o barco virou e fomos dar com as costas posteriores na água. procurando o moha. Queria subir à margem. O velho acorreu-me e me puxou. no lago proibido... Mas a nós. Mas a força que me sugava era maior que o nosso esforço.Neste lugar não há pedacitos. aflautinados. avisava minha mãe. Mas ele ripostou: . dessa vez. são eternidades. Desculpei-me: que estava descendo do barco mas era só um pedacito de tempo. meu . Decidi me equilibrar. a partir daqui.vantagem de uma boa sorte.Nunca! Nunca faça isso! O ar dele era de maiores gravidades. Nós éramos miúdos e saíamos. Meu avô nos apoucava. agarrados às abas da canoa. O namwetxo moha era o fantasma que surgia à noite. Dizem: o primeiro homem nasceu de uma dessas canas. procurando o fundo lodoso da margem. colocar pé em terra nã-firme. Ficámos assim. busquei chã para assentar o pé. Dizia ele que. Sucedeu-me entã que não encontrei nenhum fundo. . Certa vez. Acontece que. uma perna. ainda em juventude. Todo o tempo. O primeiro homem? Para mim nã podia haver homem mais antigo que meu avô. minha perna descia engolida pelo abismo. Com a agitaçã. eu e vovô aguardávamos o habitual surgimento dos ditos panos. Estávamos na margem onde os verdes se encaniçam. feito só de metades: um olho. um braço.

ele interrompeu o nada: . é que quase todos estão cegos. ele me explicou suas escondidas razões.Fique aqui! . Eu levo-lhe lá nos pântanos para que você aprenda a ver. deixaram de ver esses outros que nos visitam. deixámos de ser puxados para o fundo. O que acontece. meu filho. ele falou assim: nós temos olhos que se abrem para dentro. . esses que usamos para ver os sonhos.Cumprimenta também. O avô se inquietava.Me entende? Menti que sim. erguido na proa do barco. esses que nos acenam da outra margem. Meus ouvidos se arregalavam para lhe decifrar a voz rouca. palma da mão apurando as vistas. você! Olhei a margem e não vi ninguém. dividimos o trabalho do regresso.avô retirou o seu pano do barco e começou a agitá-lo sobre a cabeça. Do outro lado. Mas obedeci ao avô. havia menos que ninguém. Voltámos ao barco e respirámos os alívios gerais. No mais ou menos. o avô me levou uma vez mais ao lago.Não conte nada o que se passou. Chegados à beira do poente ele ficou a espreitar. acenando sem convicções. Não posso ser o último a ser visitado pelos panos. Os outros? Sim. Em silêncio. Então. Na tarde seguinte. Ao amarrar o barco. Nem a ninguém. o velho me pediu: . O remoinho que nos abismava se desfez em imediata calmaria. deu-se o espantável: subitamente. Mas o tempo passou em desabitual demora. . bem o avô não via mais que a enevoada solidão dos pântanos. Desta vez. ouviu? Nessa noite. Nem tudo entendi. De súbito. E assim lhes causamos uma total tristeza.

. Parecia uma seta trespassando os flancos da tarde.E saltou para a margem. na margem da miragem. essa que dá gosto a gente namorar e que nos faz a nós. O avô pisava os interditos territórios? Sim. ficarmos mais Moçambique" . eu coincidia com meu avô na visão do pano. Me recordo de ver uma garça de enorme brancura atravessar o céu. Pela primeira vez. em desmaio de cor. Foi então que deparei na margem. com muito espanto. em desequilibrismo com meu peso ímpar. Venho Aqui Brincar no Português Autor: Mia Couto in Estórias Abensonhadas 11/04/1997 "Venho brincar aqui no Português. mesmo ao lado da aparição. me vinham à lembrança as velhas palavras de meu velho avô: a água e o tempo são irmãs gémeos. tremendo de um frio arrepioso. frente ao meu espanto.. moçambicanos..a língua nossa. Até que. Presenciei o velho a alonjar-se com a discrição de uma nuvem. entre a neblina. Fiquei ali. fazendo sangrar todo o firmamento. o aceno do pano vermelho do meu avô. barafundido. nascidos do mesmo ventre. ele se declinou em sonho. Então. ele seguia em passo sabido. o pano branco. lhe ensinando vislumbrar os brancos panos da outra margem. Enquanto ainda me duvidava foi surgindo. Enquanto remava um demorado regresso. tirei a camisa e agitei-a nos ares. A canoa ficou balançando.Mia Couto . Fiquei indeciso. lentamente. me roubando o peito no susto. E vi: o vermelho do pano dele se branqueando. A esse rio volto agora a conduzir meu filho. Meus olhos se neblinaram até que se poentaram as visões. E eu acabava de descobrir em mim um rio que não haveria nunca de morrer. do outro lado do mundo.

estamos exercendo é a ciência de sobreviver. Meu desejo é desalisar a linguagem. Ora qual é a nossa elegância? Nenhuma. embarco nesse gozo de ver como a escrita e o mundo mutuamente se desobedecem. Nós estamos deitando molho sobre pouca farinha a ver se o milagre dos pães se repete na periferia do mundo. colocando nela as quantas dimensões da Vida. Nós estamos simplesmente ocupados a sermos. Língua artesanal. Entretanto. papelosas comunicações. Outros nos acusam: nós estamos a desgastar a língua. excepto a de irmos ajeitando o pé a um novo chão. o gosto de saborear ignorâncias.Perguntas à Língua Portuguesa Venho brincar aqui no Português. o mesmo que a asa sente aquando o vôo. felizmente. Mas nós. que dança todas as brisas sem deslocar seu chão. neste sulburbio. plástica. Uns nos acalentam: que nós estamos a sustentar maiores territórios da lusofonia. No enquanto. A língua que eu quero é essa que perde função e se torna carícia. E quantas são? Se a Vida tem. carecemos de técnica. Mas a língua nossa. Que outros pretendam cavalgar o assunto para fins de cadeira e poleiro pouco me acarreta. veloz como a palmeira. Ou estaremos convidando o chão ao molde do pé? Questões que dariam para muita conferência. essa que dá gosto a gente namorar e que nos faz a nós. aqui na mais meridional esquina do Sul. Nos falta domínio. Meu anjo da guarda. Não aquela que outros embandeiram. defendemos o direito de não saber. ficarmos mais Moçambique. a língua. nunca me guardou. moçambicanos. é idimensões? Assim. . O que me apronta é o simples gosto da palavra. vamos criando uma língua apta para o futuro.

um pensamento nosso. afinal. Veja-se. sim.fugidia a gramáticas. Recriamos a língua na medida em que somos capazes de produzir um pensamento novo. beneficiou de chifre o que está ocorrendo não é uma reencornação? O elefante que nunca viu mar. perguntas que se podem colocar à língua: Se pode dizer de um careca que tenha couro cabeludo? No caso de alguém dormir com homem de raça branca é então que se aplica a expressão: passar a noite em branco? A diferença entre um às no volante ou um asno volante é apenas de ordem fonética? O mato desconhecido é que é o anonimato? O pequeno viaduto é um abreviaduto? Como é que o mecânico faz amor? Mecanicamente? Quem vive numa encruzilhada é um encruzilheu? Se diz do brado de bicho que não dispõe de vértebras: o invertebrado? Tristeza do boi vem dele não se lembrar que bicho foi na última reencarnação. alguém sabe as certezas delas? Ponho as minhas irreticências. Pois. aderindo ao invisível. Esta obra de reinvenção não é operação exclusiva dos escritores e linguistas. sim. sempre vivendo no rio: devia . Pois se ele. procurando os outros tempos deste tempo. em anterior vida. o que é senão o ovo das galinhas de ouro? Estamos. de senso incomum. O idioma. Precisamos. num sumário exemplo. das leis da língua. amando o indomesticável.

afinal. fizemos que ele se descalçasse pelos atalhos da savana. E é coisa que não se termina. Colocamos essoutro português . trabalho de todos nós.o nosso português . isso que ela fazia é. dizia. Nesse caminho lhe fomos somando colorações. é um barrilgudo? Borboleta que insiste em ser ninfa: é ela a tal ninfomaníaca? Brincadeiras. Lembro a camponesa da Zambézia. Será daí que vem o nome: "finanças"? Um tufão pequeno: um tufinho? O cavalo duplamente linchado é aquele que relincha? Em águas doces alguém se pode salpicar? Adulto pratica adultério.na travessia dos matos. Sim. E um menor: será que pratica minoritério? Um viciado no jogo de bilhar pode contrair bilharziose? Um gordo. Eu falo português cortamato.ter marfim ou riofim? Onde se esgotou a água se deve dizer: "aquabou"? Não tendo sucedido em Maio mas em Março o que ele teve foi um desmaio ou um desmarço? Quando a paisagem é de admirar constrói-se um admiradouro? Mulher desdentada pode usar fio dental? A cascavel a quem saiu a casca fica só uma vel? As reservas de dinheiro são sempre finas. tipo barril. brincriações. Devolvemos .

O resto na altura mais propícia surgirá por si. Parece que está por pouco. É urgente recuperar brilhos antigos. Tudo sito no derradeiro bairrismo que é morar no bairro de Lhanguene. Devolver a estrela ao planeta dormente. Uma via asfaltada com um único sentido.o racionalismo trabalha que nem lixívia. Caminho. Urge ainda adicionar-lhe músicas e enfeites. A Nossa Casa Autor: José Craveirinha Moçambique in "Maria". 1998 Ambição minha e da Maria foi termos uma casa nossa onde nos contarmos os cabelos brancos. somar-lhe o volume da superstição e a graça da dança.cores que dela haviam sido desbotadas . Talhão 71883. Aldeia Queimada . Fachada pintada a cal. Lote 42. Sonho realizado. Casa definitiva já temos. Pelo menos envelhecer já não é problema. Na lista onde eu consto É injusto que tarde estarmos juntos. Classica arquitectura rectangular.

Maputo 1997 .Autor: José Craveirinha Moçambique in "Babalaze das Hienas". Maputo 1997 Mas nas noites desparasitadas de estrelas é que as hienas actuam. Os que viram dizem que Júlio foi escanhoado até às carótidas do colarinho em requintes de gilete dos facões de mato. Os barbeiros do Chaúque deixaram em toalhas de folhas secas congruentes nódoas roxas. Maputo 1997 Na barbearia às escuras Júlio Chaúque foi barbeado quando voltava da machamba de milho. Barbearia Autor: José Craveirinha Moçambique in "Babalaze das Hienas". É de cinzas o vestígio das palhotas. A Boca Autor: José Craveirinha Moçambique in "Babalaze das Hienas".

Como um homem treme. E agora choro. Como chora um homem! Aforismo . Exotismo de povo flagelado esse atroz formato da fala. poemas escritos aquando da sua passagem pelas masmorras da PIDE em Moçambique Acreditava naquela história do homem que nunca chora. Na adolescência meus filmes de aventuras punham-me muito longe de ser cobarde na arrogante criancice do herói de ferro. Agora tremo. Alva dentadura antónima do riso às escâncaras desde a cilada. Um Homem Nunca Chora Autor: José Craveirinha Moçambique Do livro "Cela 1". Eu julgava-me um homem.Jucunda boca deslabiada a ferozes júbilos de lâmina afiada.

(1968) Pena Zangado acreditas no insulto e chamas-me negro. Depoimento Autobiográfico Janeiro de 1977 José João Craveirinha nasceu em 28 de Maio 1922 em Maputo. Iniciou a sua carreira como jornalista no "O Brado Africano". . Mas não me chames negro. Assim não te odeio. Porque se me chamas negro encolho os meus elásticos ombros e com pena de ti sorrio.Havia uma formiga compartilhando comigo o isolamento e comendo juntos. Mas aos dois intencionalmente podiam por-nos de rastos mas não podiam ajoelhar-nos. Estávamos iguais com duas diferenças: Não era interrogada e por descuido podiam pisa-la. e colaborou/trabalhou com diversos orgãos de informação em Moçambique.

Talvez por causa do meu pai.Joaquim Falé "Nasci a primeira vez em 28 de Maio de 1922. Esforço. muito cedo. Mesmo da Pátria. Bairros de quem? Bairros de pobres. Pela parte da minha mãe. entre outros.Teve um papel importante na vida da Associação Africana a partir dos anos 50. Quando o meu pai foi de vez. Aonde? Na Av. Talvez por causa do meu pai. Temperado por tudo isso. . tive outro pai: o seu irmão. não tendo sido incluída nos livros que publicou até à data. claro. E a partir de cada nascimento eu tinha a felicidade de ver um problema a menos e um dilema a mais. sendo considerado um dos grandes poetas de Africa e da Língua Portuguesa. . Ou antes: principalmente da Pátria. do Zichacha entre o Alto Maé e como quem vai para o Xipamanine. Por parte do meu pai fiquei José. No mesmo em que também nasceram Rui de Noronha e Noemia de Sousa. Chamaram-me Sontinho. na celebre Cela 1 com Malangatana e Rui Nogar. sacrifício até à exaustão. Tem muitas obras publicadas. Esteve preso pela Pide. A seguir fui nascendo à medida das circunstâncias impostas pelos outros. Por isso. a terra natal em termos de Pátria e de opção. encontrando no Amor a sublimação de tudo. de 1965 a 1969. vitória e derrota. outra mãe: Moçambique. Por causa da minha mãe só resignação. A opção por causa do meu pai branco e da minha mãe negra. mais agnóstico do que ateu. competição. Grande parte da sua poesia ainda se mantém dispersa na imprensa. Nasci a segunda vez quando me fizeram descobrir que era mulato. diminutivo de Sonto. Nasci ainda mais uma vez no jornal "O Brado Africano". Outra parte permanece inédita. Muito desporto marcou-me o corpo e o espírito. Isto num domingo. Quando a minha mãe foi de vez.

nada mais "adequado" que um excerto do livro "Babalaze das Hienas". Joaquim Falé página 19: Vovó amanhã não precisa ir ao hospital. Uma edição da AEMO com o apoio do Instituto Camões. Uma necessidade angustiosa e urgente de ser cidadão desse país. Ontem eles foram lá deram maningue tiros partiram tudo. tudo mataram doentes mutilaram o senhor enfermeiro e violaram a senhora parteira." Eles Foram Lá Neste dia 25 de Setembro. recentemente lançado em Maputo e da autoria de José Craveirinha. muitas vezes altas horas da noite. os horrores cometidos durante a guerra civil que devastou o país.Uma luta incessante comigo próprio. Mas casado quando quis. Autodidacta. o meu país também. dia das FADM e comemoração do inicio da luta armada contra o regime colonial português. Outros doentes privilegiados . Depois eu casado. Este "incómodo" livro de Craveirinha lembra algo de que já não se fala muito em Moçambique. Escrever poemas. o meu refúgio. Minha grande aventura: ser pai. E como quis.

O impaciente estardalhaço dos tiros ainda por cima esfrangalhou o original." página 50: TORRESMOS À MACHIMBOMBO QUEIMADO À partida o machimbombo parecia um ónibus lotado de gente em viagem.. Foram." Fábula "Menino gordo comprou um balão e assoprou assoprou com força o balão amarelo. Menino gordo assoprou assoprou assoprou . Lá para o quilómetro 20 a oeste da Gorongosa chaparia e respectivo tejadilho ficaram fuliginoso similar de frigideira fritando várias doses de torresmos derivantes fósseis de passageiros interrompidos antes da terminal..foram carregar na cabeça farinha açucar e arroz da cooperativa . Sobra este prosaico odor da sintomática machimbombesca fotocópia de esquife.

. ou a pé descalço dançando. Gente dessedentando martírios nos charcos se chover.." Gente a Trouxe-Mouxe No livro "Babalaze das Hienas". Gente que gastronomiza desapetitosos bifes de cascas guisados de raízes ao natural e sobremesas de capim seco. Das minas. de José Craveirinha.o balão inchou inchou e rebentou! Meninos magros apanharam os restos e fizeram balõezinhos. página 28 CARREIRA DE GAZA Escusado fazer pontaria. Povo armado de maternitude e velhice . . página 11: Gente a trouxe-mouxe da má sorte calcorreia a pátria asilando-se onde não cheira a bafo de bazucadas. A castiça folia. Chusmas de rajadas acertam sempre.

Maputo. AEM. A mãe que dava o peito ao bebé de três meses foi removida assim mesmo.esgota a lotação das carreiras de Gaza rumo à saudade de onde saiu. Objectivo estratégico de maternitude machibombo da carreira de Gaza atingido em cheio calcinou. Outra Beleza Autor: José Craveirinha In "Babalaze das Hienas". Rituais de tão escabrosa gulodice que até nos esfomeados aldeões da tragédia a gula das quizumbas se baba nas beiças das catanas. dos machados. Gula Autor: José Craveirinha In "Babalaze das Hienas". AEM. 1997 Uivam as suas maldições as insidiosas hienas própria sanha. Maputo. 1997 Uns exibem insólitos perfis de outra beleza maquilhada .

ou do viés ou de frente perfeitos modelos de caveira desfilam sem nariz.no mato. Maria! Crias morrem á míngua de pão vermes na rua estendem a mão a caridade e nem crias nem vermes são mas aleijados meninos sem casa. Maria! Feras matam velhos. Maria Autor: José Craveirinha 1ª versão Suam no trabalho as curvadas bestas e não são bestas são homens. Maria! Corre-se a pontapés os cães na fome dos ossos e não são cães são seres humanos. as mulheres e as crianças são os nossos pais nossas irmãs e nossos filhos. Maria! Do ódio e da guerra dos homens das mães e das filhas violadas das crianças mortas de anemia e de todos os que apodrecem nos calabouços cresce no mundo o girassol da esperança . mulheres e crianças e não são feras. Reza. são homens e os velhos.

Pelos homens todos e negros de toda a parte põe as mãos e reza. Maria! Sementeira Autor: José Craveirinha 1ª versão. Cresce a semente enquanto a vida se curva no chicomo e o grande sol de Africa vem amadurecer tudo com o seu calor enorme de revelação. E a vida curva as suas milhentas mãos geme e chora na sina de plantar nosso suor branco enquanto a estrada passa ao lado aberta e poeirenta até Gaza e mais além . Cresce a semente que a povoação plantou curvada e a estrada passa ao lado macadamizada quente e comprida e a semente germina lentamente no matope imperceptível como um caju em maturação.Ah! Maria põe as mãos e reza. 1955 "Cresce a semente lentamente debaixo da terra escura.

Inútil procurares nos incêndios de Beirute e nos inocentes corpos mutilados pelos estilhaços ardentes as belas palavras do Cântico dos Cânticos.1982 Não. Acelera até os motores e as bombas de fósforo contigo oscularem sofregamente o chão sagrado. Desce velozmente mais baixo no teu caça-bombardeiro.camionizada e comprida. Desce até Eichman. Desce ainda mais baixo piloto hebreu. piloto Israelita. Voa até ao fundo dos ascos. E voa mais baixo. Oh! Dia de colheita vai começar na terra ardente do algodão!" Terra de Canaã Autor: José Craveirinha 10.8. Foi para este holocausto que sobreviveste ao teu genocídio nos tempos da Nazilandia? Achas que é esta a tua ambicionada Terra de Canaã? Tu achas que assim ganhas a paz na Terra Prometida?" Makezú Autor: Viriato da Cruz . Depois de tanga e capulana a vida espera espiando no céu os agoiros que vão rebentar sobre as campinas de Africa a povoação toda junta no eucalipto grande nos corações a mamba da ansiedade. Voa mais baixo.

... Mas de manhã..."Mas tá passá gente perto.."Nada..... Avó Xima está velhinha. Makèzú. Makèzú.. hoje nada?" .. véia. Pede licença ao reumâtico E num passo nada prático Rasga estradinhas na areia....... nem pedreiros Nem alegres lavadeiras Dessa nova geração Das "venidas de alcatrão" Ouvem o fraco pregão Da velhinha quitandeira.. manhazinha... Makèzú.... Já não tem a cor berrante Que tinha nos outros anos." .. Como é aqui tás fazendo isso?" ..... Makèzú.." .... 1961 .. . mano Filisberto......."Antão. O pregão da avó Ximinha É mesmo como os seus panos... Lá vai para um cajueiro Que se levanta altaneiro No cruzeiro dos caminhos Das gentes que vão pà Baixa... Hoje os tempo tá mudado......Angola Poemas..."Kuakiè!!!.." ."Kuakiè....... Nem criados...........

. 1961 Mandei-lhe uma carta em papel perfumado e com letra bonita eu disse ela tinha um sorrir luminoso tão quente e gaiato como o sol de Novembro brincando de artista nas acácias floridas espalhando diamantes na fímbria do mar e dando calor ao sumo das mangas Sua pele macia ....... laranjas ..) Qui o nosso bom makèzú É pra veios como tu".... Seus seios."É pruquê nossas raiz Tem força do makèzu!. . E diz ainda pru cima (Hum." Namoro Autor: Viriato da Cruz Angola Poemas. mbundo kène muxima."Não sabe?! Todo esse povo Pegó um costume novo Qui diz qué civrização: Come só pão com chouriço Ou toma café com pão..era sumaúma. da cor do jambo.como o maboque..."Eles não sabe o que diz. Pru qué qui vivi filiz E tem cem ano eu e tu?" ..laranjas do Loje . Sua pele macia. cheirando a rosas sua pele macia guardava as doçuras do corpo rijo tão rijo e tão doce .

sujo e descalço.. Mandei-lhe essa carta e ela disse que não. afaguei-lhe as mãos.. pela Santa Ifigenia. á porta da fabrica.... Procuraram por mim "-Não viu. rogando de joelhos no chão pela Senhora do Cabo... paguei-lhe doces na calcada da Missão. Mandei-lhe um cartão que o amigo Maninho tipografou: "Por ti sofre o meu coração" Num canto . falei-lhe de amor.. ficamos num banco do largo da Estátua.NÃO E ela o canto do NÃO dobrou Mandei-lhe um recado pela Zefa do Sete pedindo...SIM.marfim.. e ela disse que não.?) não viu Benjamim?" E perdido me deram no morro da Samba. Para me distrair . noutro canto .(ai. .. ofertei-lhe um colar e um anel e um broche. Andei barbudo.. como um mona-ngamba. quimbanda de fama a areia da marca que o seu pé deixou para que fizesse um feitiço forte e seguro que nela nascesse um amor como o meu.seus dentes.. me desse a ventura do seu namoro.. Levei á Avo Chica. E o feitiço falhou.. Esperei-a de tarde. não viu. E ela disse que não.

...... "Era uma vez uma corça dona de cabra sem macho..sorriu para mim pedi-lhe um beijo ... na noite de breu..... de volta das estrelas....e ela disse que sim. ("não tarde que ele chegou!") Abriu a boca e falou - ........dancei com ela e num passo maluco voamos na sala qual uma estrela riscando o céu! E a malta gritou: "Aí Benjamim !" Olhei-a nos olhos . ao quente da voz de suas avós..tuc.. o cágado lento tuc... . Serão Menino Autor: Viriato da Cruz Angola Na noite morna.... quais fogareus..........levaram-me ao baile do Sô Januario mas ela lá estava num canto a rir contando o meu caso as mocas mais lindas do Bairro Operário. Tocaram uma rumba ..Matreiro....... os anjos escutam parábolas de santos. . meninos se encantam de contos bantus.foi entrando para o conselho animal.. enquanto na vasta sanzala do ceu. escura de breu.....

. Com gosto ri. os teus filhos escravos nas galeras correram as rotas do Mundo.. aos mais seres busca. 1961 Ah! Angola.Felicidade. Sangrentos os pés." Mas quando lá fora o vento irado nas frestas chora e ramos xuxualha de altas mulembas e portas bambas batem em massembas os meninos se apertam de olhos abertos: . Angola. essa outra voz de cazumbi essa outra voz .deu a sentença final: "-não tenham medo da força! Se o leão o alheio retém -luta ao Mal! Vitória ao Bem! tire-se ao leão . por pedregosos trilhos .Eué . E a gente grande bem perto dali feijão descascando para o quitende a gente grande com gosto ri... A Sombra das Galera Autor: Alexandre Dáskalos Angola Poesia..É cazumbi.dê-se à corça. porque ela diz que o cazumbi males só faz a quem não tem amor. em negra noite..

. a ânsia de ali descansar Ah! As galeras! As galeras! Espreitam o teu sono tão pesado prostrado do torpor em que mal te arqueias. a febre. A vida. a morte. lá bem do fundo vergados ao peso das cargas enormes. ao longe.. E onde vão seus rumos? Onde vão seus passos? ... ardendo no teu corpo que de tão sentido. Depois. a terra.. o suplício de arrastar dessas correias.. a sede. De tão distante.. tudo tão presente.. Depois outros destinos dos homens..vinham do sertão.. já não sente. Hoje no entrechoque das civilizações antigas essa figura primitiva se levanta simples e altiva. Chegavam às praias de areias argênteas que se dão ao Sol ao abraço do mar. tudo distante. o lar.. Angola vais na sede da conquista... apenas pestanejam as estrelas.. Escravo! Escravo! O mar irado. A América é bem teu filho arrancado à força do teu ventre. a fome.. presente como na floresta à noite. Que longa noite se perde na distância! As cargas enormes os corpos disformes. Na praia. O seu cãntico vem de longe e canta ausências tristes de gerações passadas e cativas. outros rumos. a morte. o brilho duma fogueira acesa. lá do sertão.

. 1924 . 1961 Jesus Cristo Jesus Cristo Jesus Cristo. é livre enfim! Liberto. Portugal. liberto. Angola.Ah! Vem. Mais. meu irmão Sou fio dos pais da terra Tenho corpo p'ra sofrer Boca para gritar E comer o que comer Os meus pés que vão No chão Minhas mãos são de trabalho Em coisas que eu não sei E não tenho nem apalpo Trabalho que fica feito Para o branco me dizer "Obra de preto sem jeito" E minha cubata ficou Aberta à chuva e ao vento .. porque esperas? Ah! Mata.Guarda... vivo.Não sou cativo! A minha alma é livre. mata no teu sangue o presságio da sombra das galeras! Carta Autor: Alexandre Dáskalos Angola Nova Lisboa. vem numa força hercúlea gritar para os espaços como os dardos do Sol ao Sol da vida no vigor que em ti próprio reverberas: .

Flutuando entre sombras e reflexos .Vivo ali tão nu e pobre Magrinho como o pirão Meus fios saltam na rua Joga o rapa sai ladrão Preto ladrão sem imposto Leva porrada nas mãos Vai na rusga trabalhar Se é da terra vai para o mar Larga a lavra deixa os bois Morre os bois... Jesus Cristo Jesus Cristo Jesus Cristo meu irmão Sou fio dos pais da terra Um pouco de coração De coração e perdão Jesus Cristo meu irmão. Manhã Autor: Alexandre Dáskalos Angola Poesia.. 1961 Erguida do fundo das águas plácidas dum lago surge Mulher. Limos na pasta dos cabelos escondem o mistério dos olhos olhando a curva do seu ventre.. e depois? Se é caçador de palanca Se é caçador de leão Isso não faz mal nenhum Lança as redes no mar Não sai leão sai atum.

líquens. Os seios erguidos apontam ao longe a aurora que vem. em fosforescências arbóreas de constelações que lembram os recessos da vida. desesperos e cansaços.duma luz longínqua. E tudo esquecido ou ignorado. Maria Autor: Alexandre Dáskalos Angola Do Tempo suspenso. jovem. misturados confundidos para a sua criação. a forma dos braços ganha o mais e mais fundo das águas. algas. Em plantas aquáticas. Em volta. chegam-lhe da floresta lutas de homens. marítimas. só no lago o corpo erguido. 1998 No temporal da revolução os baús de enxovais preciosos das raparigas casadoiras . musgos. abrindo nas sombras o seu perfil que nasce o seu perfil de Mãe dos Homens do futuro. feras e povos divididos.

. Portugal 1962) O meu amor está triste e enche-me de cuidados. perdi meu enxoval.não canses os olhos nos bilros. 1924-Guarda.naufragaram. 1961 Quando eu morrer não me dêem rosas mas ventos. O meu amor está triste e enche-me de cuidados. no entanto. Ainda hoje me consolo com as leituras de Marx. E. Angola. MARIA Autor: Alexandre Dáskalos Angola (Nova Lisba. Poesias Autor: Alexandre Dáskalos Angola Poesias. Onde está a almofada dos bilros? Já provaste os dendêns com açucar? Não reduzas a valsa a um cheese-burguer num pub desconhecido! Ele disse-me . Quero as ânsias do mar quero beber a espuma branca duma onda a quebrar e vogar.

Onda sobre onda infinita como o mar como o mar inquieto num jeito de nunca mais parar. a correrem sem parar. sentir sempre no peito o tumulto do mundo da vida e de mim. Morrer. . E eu e o mundo. Porto Autor: Alexandre Dáskalos Angola Poesais. Para ter a ilusão de nunca mais parar. 1961 Havia nos olhos postos o sentido de não vencerem distâncias. E a vida. A gente do mar dos que ficam em terra. o meu coração fica para ti.Ah. de lábios colados no silêncio os braços cruzados como quem deseja mas de braços cruzados. mudos. Oh. Calados. Oh mar. Por isso eu quero o mar. Os navios chegavam ao porto e partiam. não. ficar quieto. a rosa dos ventos a correrem na ponta dos meus dedos a correrem. Os carregadores falavam da gente do mar.

. traziam as novas das terras longínquas. Em Torno da Minha Baía Autor: Alda do Espírito Santo S. dos fardos. Tomé e Príncipe 1963 Aqui. E o espinho da rosa enterrado no peito é meu.esquece. Sintra.. Os ventos. Sentada à beira do cais da minha baía do cais simbólico. Segredavam-se em noites e dias a todos os homens em todos os mares e em todos os portos num destino comum. 1999 e agora só me restam os poetas gregos. Os navios chegavam ao porto e partiam. das malas e da chuva caindo em torrente . na areia. E Agora Só Me Restam Autor: Maria Alexandre Dáskalos Angola in "Vozes poéticas da lusofonia". dispersos na alma do tempo.As mercadorias seguiam. O silêncio diz . Os deuses não assistiram a isto.

nesta hora morna do entardecer no mormaço tropical desta terra de África à beira do cais a desfazer-se em ruinas. Tomé e Príncipe 1958 O sangue caindo em gotas na terra homens morrendo no mato e o sangue caindo. dos homens tombados na arena imensa do cais.. . num voo magistral em torno do mundo desenhando na areia a senda de todos os destinos pintando na grande tela da vida uma história bela para os homens de todas as terras ciciando em coro.sobre o cais desmantelado. abrigados por um toldo movediço uma legião de cabecinhas pequenas. Fernão Dias para sempre na história da Ilha Verde. canções melodiosas numa toada universal num cortejo gigante de humana poesia na mais bela de todas as lições HUMANIDADE. caindo em ruinas eu queria ver à volta de mim.. rubra de sangue. à roda de mim. caindo. Onde Estão os Homens Caçados Neste Vento de Loucura Autor: Alda do Espírito Santo S.

Zé Mulato.Aí o cais. os golpes das pancadas a soarem. mortos sem ar e sem água levantam-se todos da vala comum e de pé no coro de justiça clamam vingança. as casas dos homens destruídas na voragem do fogo incendiário. .Nós estamos de pé Nossos olhos se viram para ti. . Zé Mulato. o mar de Fernão Dias engolindo vidas humanas está rubro de sangue. na história do cais baleando homens no silêncio do tombar dos corpos. dos uivos de dor dos homens que não são homens. os homens do cinco de Fevereiro os homens caídos na estufa da morte clamando piedade gritando p'la vida. a soarem.. As vítimas clamam vingança O mar. Nossas vidas enterradas nos campos da morte. Zé Mulato. na mão dos verdugos sem nome. .. as vias queimadas. as casas. o sangue. erguem o coro insólito de justiça clamando vingança. os grilhões. Os corpos tombados no mato. os homens.. Aí.. a soarem caindo no silêncio das vidas tombadas dos gritos.

. clamando justiça.Que respondeis? . E o sangue das vidas caídas nos matos da morte ensopando a terra num silêncio de arrepios vai fecundar a terra. todos em fila.E vós todos carrascos e vós todos algozes sentados nos bancos dos réus: . A justiça vai soar.engoli dum espinheiro um grande raminho & da tese concebida ao prefácio por escrever teço toc toc enquanto toco levemente o provir .. . Um a um..... carrascos. E eu respondo no silêncio das vozes erguidas clamando justiça.. o perdão não tem nome..Onde está o meu povo?. Meditando Autor: Lopito Feijoó Angola ..Que fizeste do meu povo?.. Para vós. É a chamada da humanidade cantando a esperança num mundo sem peias onde a liberdade é a pátria dos homens.

. também. mais do que a vermelha e a clássica são estes bolsares viscerais.d'outra gestão daí a cor do sangue escasso caro irmão protestante que tão bem partes os passeios que passeio assim que passo passo a passo me ditando! Arremessos Autor: Filimone Meigos no livro "Poema & Kalash in love" "A despeito de questiúnculas. há caso. De facto. Foi professor secundário. Será verdade. secretario de governador. No ponto a mesma musica: os fúnebres encontros para chorarmos um entre comuns: os irmãos foram-se de largada. basta o ruminar e bolsar sobre. me ti cu lo sa mente(m)! " Manuel Meigos Filimone nasceu na Beira a 4 de Marco de 1960. jornalista e oficial das Forcas Armadas de . sempre e sempre o futuro. e a despropósito das overdoses do born in. É verdade que o que somos tem sempre segmentos do que fomos. mangungu d'ontem maningue chatos. se a história está a ser mal escrita. que o xibalo e a palhota sirvam para nos nacionalizarem. só porque se u$a? Ou seremos nos. É verdade irrefutável que. barrete e folhoso são o vai-vem obvioimplícito. Exaustos de exaurir cifrões. mero cidadãos do ocaso? Mas por criar. estão os dias que nos transportam es-cru-GULOSA-mente (m) (por via erudita). sobram-nos os mesmos filhos que vamos sendo dos nossos pais. a minha geração dar-se-á ao desplante de reescreve-la. nossa fúria cosmopolita mas agora falemos de ortodoxias. Para os ruminantes.

É editor cultural do semanário Savana. tem colaboração espalhada por vários orgãos de informação.Moçambique. 1939 . Membro activo da AEMO. a música esvoaça na tarde calma. na tarde morta a eterna ronda de pecados que ia bater de porta em porta!) E ao ritmo túmido do canto na solidão rubra da messe. onde a tristeza se contém. então. (Ó deuses lúbricos. Morna Autor: Daniel Filipe Cabo Verde A Ilha e a Solidão E já saudade a vela. baça. plúmbea. "Poema & Kalash in Love" é o seu primeiro publicado.subtil e magoado encanto que o rosto núbil me envelhece. Cabo Verde. colecção timbila No 14 da Associação dos Escritores Mocambicanos em 1995. Viagem na Noite Longa Autor: Mário Fonseca Praia. Ilha de Santiago. além. Serena. ousáveis erguer. os pares deslizam embrulhados de sonhos em dobras inefáveis. deixo correr o sal e o pranto .

Selô. 1933 Pão & fonema. Cabo Verde. E o infinito se detém em mim Na noite longa uma remotíssima nostalgia afunda minha alma E eu choro marítimas lágrimas Enquanto meu desejo heróico de engolir os céus se alarga e é já céu Tenho então a sensação esparsamente longa de vogar no absoluto. De Boca a Barlavento Autor: Corsino Fortes Mindelo. 1974 I Esta a minha mão de milho & marulho .Vicente.1962 Na noite longa minha alma chora sua fome de séculos Meus olhos crescem e choram famintos de eternidade até serem duas estrelas brilhantes no céu imenso. S.

Este o sol a gema E não o esboroar do osso na bigorna E embora O deserto abocanhe a minha carne de homem E caranguejos devorem esta mão de semear Há sempre Pela artéria do meu sangue que g o t e j a De comarca em comarca A árvore E o arbusto Que arrastam As vogais e os ditongos para dentro das violas II Poeta! todo o poema: geometria de sangue & fonema Escuto Escuta Um pilão fala árvores de fruto ao meio do dia E tambores erguem na colina Um coração de terra batida E lon longe Do marulho á viola fria .

Navios sem mares Sem rumos De velas rotas.Reconheço o bemol Da mão domestica Que solfeja Mar & monção mar & matrimónio Pão pedra palmo de terra Pão & património Girassol Autor: Corsino Fortes in "Claridade". n°9. Vem colar O teu destino Ao suspiro Deste hirto jasmim Que foge ao vento Como Pensamento perdido. Amanheceu! Orça o teu leme E entra em mim . Aderido Aos teus flancos Singram navios. 1960 Girassol Rasga a tua indecisão E liberta-te.

. 1960 Passo pelos dias E deixo-os negros Mais negros Do que a noute brumosa. Olho para as coisas E torno-as velhas Tão velhas A cair de carunchos.. Só charcos imundos Atestam no solo As pegadas do meu pisar E fica sempre rubro vermelho Todo o rio por onde me lavo. E não poder fugir Não poder fugir nunca A este destino De dinamitar rochas Dentro do peito.Antes que o Sol Te desoriente Girassol! Pecado Original Autor: Corsino Fortes Cabo Verde in "Claridade". A Pedra Filosofal Autor: António Gedeão " Eles nã sabem que o sonho .

como este ribeiro manso em serenos sobressaltos. vitral. como estes pinheiros altos que em verde e oiro se agitam. rosa-dos-ventos. é fermento. capitel. mapa do mundo distante. ouro. máscara grega. que é retorta de alquimista. como estas aves que gritam em bebedeiras de azul. de focinho pontiagudo. é cor. marfim. arco em ogiva. magia. Colombina e Arlequim. pináculo de catedral. é pincel. bichinho álacre e sedento. como esta pedra cinzenta em que me sento e descanso. que fossa através de tudo num perpetuo movimento. fuste. bastidor. caravela quinhentista. é espuma. Eles não sabem que o sonho é tela. base. Eles não sabem que o sonho é vinho. Infante. florete de espadachim. contraponto.é uma constante da vida tão concreta e definida como outra coisa qualquer. canela. . sinfonia. passo de dança. que é Cabo da Boa Esperança.

alto-forno. desembarque em foguetão na superfície lunar. radar. Da Lua viemos. cisão do átomo.nosso è o fogo passo a passo em rições guardado. ultra-som. locomotiva. E as matas .para ainda sobreviver. barco de proa festiva. nascemos . . Soletram . Que sempre que um homem sonha o mundo pula e avança como bola colorida entre as mãos duma criança. Eles não sabem.passarola voadora. para-raios. que o sonho comanda a vida. nem sonham.obrigado. um linguajar de setas envenenadas petras.e soletram: alfabeto de passos. Escorraçados da morte a terra nos levará à água? Sem mapas nem sentido do regresso . televisão." Escorraçados da Morte Autor: Zeto Cunha Gonçalvez Angola in "Vozes poéticas da lusofonia". geradora. Paizinho. Sintra 1999 Escorraçados da morte soletram a nómada caligrafia dos pássaros.

Vem.e canta Vem. Os Ombros Modulam o Vento Autor: Zeto Cunha Gonçalvez Angola in "Vozes poéticas da lusofonia". um linguajar de setas envenenadas pedras. Soletram . 1962 Estende teus dedos anelados sobre a minha carapinha derrama a tua inconsciente tranquilidade sobre a minha angústia submergida. Sintra 1999 Entristece a tua tristeza .e soletram: alfabeto de passos.e canta (os ombros modulam o vento modulam a noite a soberana voz dos horizontes) entristece a tua tristeza .Escorraçados da morte soletram a nómada caligrafia dos pássaros. Cacimbo Autor: Poetas angolanos. cacimbo eu quero ver os cafeeiros ao peso dos bagos vermelhos endireita os troncos vencidos dos bambus coroa os cumes altos das serras do Bailundo .

limpa a visão empoeirada dos comboios que descem para
Benguela
nimba poeticamente os horizontes dos camionistas de Angola.
Vem, cacimbo
debruça-te cuidadosamente sobre as plantas da madrugada,
destrói a angústia resignada das gentes da minha terra
abre-lhes os horizontes dos cantos de esperança.
Vem, cacimbo
Derrama a tua inquieta saciedade sobre a minha natureza
a esta hora empoeirada com o barulho das esquinas
com o cheiro a óleo sujo dos automóveis
e com a visão daquele nosso amigo
cujo ordenado são quinze escudos diários
irremediavelmente caido sobre a grama do jardim
O cacimbo
eu quero percorrer teus campos sossegados
orquestrados pela alegria do beija-flor.
VI. Por Uma Sereia de Treva
Autor: Francisco Xavier Guita Júnior (Guita Jr.)
no livro "O agora e o depois das coisas (1990-1992)", de
Guita Jr., edição da AEMO, colecção Início, No. 7.
Publicado em 1997, página16:
sem segredos melhor que nós
ninguém sabe a morte a dois
e como heróis subterrâneos que somos
procuramos a vida por entre as trevas
navegamos algas ao amanhecer
para encontrar um irmão pelas mãos
empresta-me a tua máscara quero saborear
esta melodia ter nos olhos a cor
e antes que o dilúvio se propague
nademos nas profundezas do asco

talvez surja uma sereia de treva
onde possamos pousar o coração
que em fragmentos se dissolve no iodo
da atmosfera que transportamos às costas
sem segredo melhor que nós
ninguém por entre a fresta da porta
da noite apalpa este enigma:
prestar contas ao silêncio dos olhos
e conter a náusea por um instante
ultrapassando o passado hóspede da masmorra
da presente folia ardente transeunte
Francisco Xavier Guita Júnior (Guita Jr.) nasceu em
Inhambane a 14 de Março de 1964. Professor de
Português, membro fundador e coordenador do
XIPHEFO, caderno literário que surgiu em 1987 em
Inhambane, onde foram publicados os primeiros
poemas de Guita Jr.
VIII. Psicoalteração do Rato
Autor: Guita Jr.
Do livro "O agora e o depois das coisas 1990-1992", página
18
rói o rato a roupa
na corda ao fim da rua
e arrota
num ror de razão o rato
rouba arroz ao porto do povo
e roto troca o troco
por trigo trancando-se atrás
do rasto raro e fica rico o rato
e por um triz não é trazido

de rastos pela rua a trote
mas chega ao trono e trás!
Rato sem roldana trás!... catrapuz!
Sem ruga roga a quem ri
rato rói rato até à raiz
mais radical a ratazana tradicional
num golpe de rins reluz ao raiar
de um enorme sol de luz
e ao farejar o rumorejar do país
corre pr'o Rand
pela ração sem retalhos
e quando regressa rola ruela
à risca e acende o rastilho
e não se rala por quem se roa
o rato resignado recolhe a rede
e rema rompendo as rugas
do mar sem rumo
e aí sem renitência reina
sem rusga nem ratoeira
e não se rala o rato roedor
rói até rédea
rato recto faz do rito revolução
XIV. No Jardim da Noite Com Estrelas de Verão
Autor: Guita Jr.
Do livro "O agora e o depois das coisas 1990-1992", página
26
para a Carla

agora órfão ou castrado
perdoadas estão as naus de da Gama
e contemplo só estrelas e flores onde tragava

a humilhação e o chicote do patrão?
vasculho as ruas da cidade
na procura do subterfúgio a nu
é inevitável o retorno
haverá fantasmas em meu redor
há micaias em meu corpo
que deflagram como minas
cansadas dos silêncios
quando sonho alegrias
acendo uma vela no peito
sobre o castiçal do coração
e volto a desaguar na escuridão
e apalpo e amarfanho a agonia
no dorso da noite
porém não tenho armas
para falar de amor
é esta a loucura da minha intenção
Carta Dum Contratado
Autor: António Jacinto
Luanda, 1924Eu queria escrever-te uma carta
Amor,
Uma carta que dissesse
Deste anseio
De te ver
Deste receio
De te perder
Deste mais que bem querer que sinto
Deste mal indefinido que me persegue
Desta saudade a que vivo todo entregue...

Eu queria escrever-te uma carta
Amor,
Uma carta de confidências íntimas,
Uma carta de lembranças de ti,
De ti
Dos teus lábios vermelhos como tacula
Dos teus cabelos negros como diloa
Dos teus olhos doces como macongue
Dos teus seios duros como maboque
Do teu andar de onça
E dos teus carinhos
Que maiores não encontrei por ai...
Eu queria escrever-te uma carta
Amor,
Que recordasse nossos dias na capopa
Nossas noites perdidas no capim
Que recordasse a sombra que nos caia dos jambos
O luar que se coava das palmeiras sem fim
Que recordasse a loucura
Da nossa paixão
E a amargura da nossa separação...
Eu queria escrever-te uma carta
Amor,
Que a não lesses sem suspirar
Que a escondesses de papai Bombo
Que a sonegasses a mamãe Kiesa
Que a relesses sem a frieza
Do esquecimento
Uma carta que em todo o Kilombo
Outra a ela não tivesse merecimento...
Eu queria escrever-te uma carta
Amor,

. por que é. 1961 Esse comboio malandro passa passa sempre com a forca dele ué ué ué hii hii hii te-quem-tem te-que-tem te-quem-tem o comboio malandro . eu não sei compreender Por que é. Mas. meu amor.Oh! Desespero! . meu bem Que tu não sabes ler E eu .Uma carta que ta levasse o vento que passa Uma carta que os cajus e cafeeiros Que as hienas e palancas que os jacarés e bagres Pudessem entender Para que se o vento a perdesse no caminho Os bichos e plantas Compadecidos de nosso pungente sofrer De canto em canto De lamento em lamento De farfalhar em farfalhar Te levassem puras e quentes As palavras ardentes As palavras magoadas da minha carta Que eu queria escrever-te amor Eu queria escrever-te uma carta.não sei escrever também! Castigo Pró Comboio Malandro Autor: António Jacinto Luanda. ah. por que é.. 1924Poemas.

muita gente como eu cheio de poeira gente triste como os bois gente que vai no contrato Tem bois que morre no viaje mas o preto não morre canta como é criança "Mulonde iá késsua uádibalé uádibalé uádibale.'" esse comboio malandro sòzinho na estrada de ferro passa passa sem respeito uéué ué com muito fumo na trás hii hii hii te-quem-tem te-quem-tem te-quem-tem .passa Nas janelas muita gente ai bo viaje adeujo homéé n'ganas bonitas quitandeiras de lenço encarnado levam cana no Luanda pra vender hii hii hii aquele vagon de grades tem bois múu múu múu tem outro igual como este de bois leva gente...

1924 Este poema do António Jacinto tem uma versão mais longa.. musicada e divulgada por Fausto: Esse comboio malandro passa passa sempre com a forca dele [.Deixa!UÉ ué ué Te-quem-tem te-quem-tem te-quem-tem . Se na lavra tem kiombos Eu tiro a espingarda de kimbundo E mato neles Mas se vai lá fogo do malandro ..] passa passa sem respeito uéué ué com muito fumo na trás hii hii hii te-quem-tem te-quem-tem te-quem-tem Comboio malandro O fogo que sai no corpo dele Vai no capim e queima Vai nas casas dos pretos e queima Esse comboio malandro Já queimou o meu milho Se na lavra do milho tem pacacas Eu faço armadilhas no chão.Castigo Pró Comboio Malandro Autor> António Jacinto Luanda.

tantas coisas comigo adentro do coração que só escrevendo as liberto destas grades sem limitação. como voam livremente num voar de desafio! Eu te escrevo. Muito fumo mesmo. Ei-lo que to apresento . correm as águas do rio! corram límpidos amores sem medo. Declaração Autor: António Jacinto Luanda 28/9/1924 1953 As aves. Tantas. Mas espera só Quando esse comboio malandro descarrilar E os brancos chamar os pretos p´ra empurrar Eu vou Mas não empurro . num escrever de libertação. meu amor.Nem com chicote Finjo só que faço forca Aka! Comboio malandro Você vai var só o castigo Vai dormir mesmo no meio do caminho.Só fica fumo. Que não se frustre o sentimento de o guardar em segredo como liones.

e rompa o fruto da Mãe-Terra fertilizante..a lumbramento de muito moço pegada por um pobre d'Ambaca fez passar muitas conversas andou na boca de donos e donas.puro e simples . escrevendo que nem nos livros! Teresa Mulata .relembrando-a a história de Teresa mulata Teresa Mulata! essa mulata Teresa tirada lá do sobrado por um preto d'Ambaca bem vestido.. Autor: António Jacinto Luanda. O meu escrever-te é realização de cada instante germine a semente. . ao sol que se coava da mulembeira por sobre a entrada da casa de chapa. bem falante. 1924Poemas. 1961 Vovo Bartolomé. enlanguescido em carcomida cadeira vivia . Era Uma Vez..o amor que vive e cresce ao momento em que fecunda cada flor..

O café vai ser torrado pisado. vai ficar negro.. 1924Poemas.. negro da cor do contratado.Quê da mulata Teresa? A história da Teresa mulata. Monangamba Autor: António Jacinto Luanda. 1961 Naquela roca grande não tem chuva é o suor do meu rosto que rega as plantações.. aos regatos de alegre serpentear e ao vento forte do sertão: Quem se levanta cedo? quem vai a tonga? Quem traz pela estrada longa . Hum... Naquela roca grande tem café maduro e aquele vermelho-cereja são gotas do meu sangue feitas seiva.. Negro da cor do contratado! Perguntem as aves que cantam. torturado. Vovo Bartolomé enlanguescido em carcomida cadeira adormeceu o sol coando das mulembeiras veio brincar com as moscas nos lábios ressequidos que sorriem Chiu! Vovo tá dormindo! O moço d'Ambaca sonhando.

. maruvo e esquecer diluído nas minhas bebedeiras . os regatos de alegre serpentear e o vento forte do sertão responderão: .Quem? Quem dá dinheiro para o patrão comprar maquinas. carros.."Monangambéée." Ah! Deixem-me ao menos subir ás palmeiras Deixem-me beber maruvo. panos ruins.'" Vadiagem Autor: António Jacinto Luanda. 1961 . peixe podre. senhoras e cabeças de pretos para os motores? Quem faz o branco prosperar.a tipoia ou o cacho de dendém? Quem capina e em paga recebe desdem fuba podre."Monangambééé.Quem? E as aves que cantam. cinquenta angolares "porrada se refilares"? Quem? Quem faz o milho crescer e os laranjais florescer ..ter dinheiro? . ter barriga grande . 1924Poemas..

a Maria.cheiro gravido de terra fértil as moças das ilhas sangue moço aquecendo a Bebiana. a Carminda. tudo caminho serenamente negro sangue fervendo cheiro bom a flor de mato a Maria a dançar (que bem que dança remexendo as ancas!) E eu a querer. a Teresa. a querer a Maria e ela sem se dar Vozes dolentes no ar a esconder os punhos cerrados alegria nas cordas da viola alegria nas cordas da garganta e os anseios libertados das cordas de nos amordaçar Lua morna a cantar com a gente as estrelas se namorando sem romantismo na praia da Boavista o mar ronronante a nos incitar . vieram também cheirando a flor de mato .Naquela hora já noite quando o vento nos traz mistérios a desvendar musseque em fora fui passear as loucuras com os rapazes das ilhas: Uma viola a tocar o Chico a cantar (que bem que canta o Chico!) e a noite quebrada na luz das nossas vozes Vieram também. Uma viola a tocar o Chico a cantar a vida aquecida com o sol esquecido a noite é caminho caminho. caminho.

no. elaborada após a sua morte. na África do Sul. quando morreu a 19 de Outubro de 1986. Foi primeiro. 8.Todos cantando certezas a Maria a bailar se aproximando sangue a pulsar sangue a pulsar mocidade correndo a vida peito com peito beijos e beijos as vozes cada vez mais bebadas de liberdade a Maria se chegando a Maria se entregando Uma viola a tocar e a noite quebrada na luz do nosso amor. colecção "timbila". Era adido de Imprensa na Presidência da República.. Moçambicanto 1 Autor:Gulamo Khan Gulamo Khan nasceu em Maputo a 11 de Maio de 1952.. Calane da Silva. José Craveirinha e Julio Navarro. jornalista. "céleres as águas zambezeiam pela memória das almadias do silêncio . em Mbuzini. O livro "Mocambicanto" é uma recolha dos seus textos. no acidente de aviação que vitimou também Samora Machel. mais tarde. por Albino Magaia. Uma edição da AEMO. locutor na Rádio Clube de Moçambique e.

nem o zumbido da cigarra me entontece nem o troar do tambor me ensurdece as vozes que são sulcos das nossas esperanças Oh pátria Moçambiquero-te neste alumbramento e amar-te devo-o à carne e ao nervo deglutidos em revolta. . Da enxada e do martelo é o verso escrito na palma da tua mão punho fechado que nas alavancas das horas faz refulgir o aço analfabetamente parido Cavador maldito pronto a decepar o tronco deste imbondeiro tão paria carcomido pelas talecuas sugadoras do seu sangue es o veneno da nhoca cuspideira queimando as migalhas bélicas postadas de cócoras no caminho dos simples assim altivo ergues o teu nome num pais ainda de nadas e famélicos desbravando os crápulas bem como os satanhocos.

aparecer e desaparecer...Bruno Capanema! Bru.os. Por outro lado. Edição do Autor.Aquele pateta inventou mais uma das suas! . pelo contrário... não chorava.no! uno! Bruno Ca. e enforquei-me. parti..Sei da Pátria o nome erguido a estrela tatuada no corpo do Indico uma timbila canção guerreira" Casa da Justiça Autor: Grandal Nkepe in "Casa da Justiça". é boa e gosta de mim. a minha cabeça não é uma batata! Sou um gajo . 1994 Página 48: " Corri para a cozinha à procura da Mariana e pedi-lhe para cozinhar depressa.nema!. para a frente e para trás. chorava e chamava: ." pagina 126: "Excelência.. escrevi numa folha . Sempre pensei que Mariana é como Nossa Senhora.pa. Os grandes pensam que os pequenos não sofrem e que eu não tenho coração só porque ontem fui buscar os óculos para ler os correios. pelo seu lado. mas como nunca mais morria.. porque sabia que eu estava na copa do cajueiro com a minha corda esticada de sisal. vim a correr e deixei-os cair no chão. não ando sempre a correr. escondi-me com a corda ao pescoço em cima da copa do cajueiro da aldeia e daí podia ver Mariana correr para a esquerda e para a direita..Vou-me enforcar. Henriqueta. é má e dizia: . Comecei a ter medo de voltar para baixo sem me enforcar. Assim.Basílio.

mas ficarei sempre. Não voltarei. um presunto no rio. como não se pode fazer crescer as árvores. ninguém é capaz de me conhecer. Acabei dois dias a rir. . Deixe-me apertar-lhe a mão. Estive vinte anos na guerra. Essa é boa! O resto talvez seja o mais importante. preservado apenas na exclusividade da memória . tinha de partir de manha sem tomar chá." Aeroporto Autor: Rui Knopfli in "O monhé das cobras" Página 56 É o fatídico mês de Março. um oficio em que posso dar à língua e que nada tem que ver com ratos nem canoas. O meu primeiro passo para ganhar a vida era ao frio. nos olhos: Não voltas mais? Digo-lhe só que não. por mais que eu o tratasse por senhor chefe. ao barulho.dizia o chefe. à poeira. mas estou armado em palhaço.de sorte. a correr o país de lés a lés. baixa a Nikon e olha-me. Eu sou um autentico homem da sociedade. tem-se de esperar que Deus todo poderoso as faca crescer. obliquamente. a salvo de todas as futurologias indiscretas. não voltam. estou no piso superior a contemplar o vazio. Eu sou um tipo afortunado.Mete-me esse malandro no calabouço! . é o que estou a dizer. nem que assobie por eles. Kok Nam. o fotógrafo. esses vinte anos. para receber uma lição de pesado fardo! Não me ralo nada. algures em pequenos sinais ilegíveis. embrulhado nas mulheres com palavreado. deixe-me viver à tripa forra para levar uma vida mais folgada.

" Matinés do Scala . Desmembrado. sabor acre da infância a canivete repartida no largo semicírculo da amizade. eu sobreviverei apenas no precário registo das palavras. Mangas Verdes Autor: Rui Knopfli. o sono do bronze na morte obscura das estátuas inúteis. ao meio da vida. Nunca se esquece.privada. na maré-baixa. Desmantela-se a estátua do Almirante. no minuto da suprema humilhação. o Almirante dorme no museu. Sabor lento. Desmantelado. Não quero lembrar-me de nada. alegria reconstituída no instante desprevenido. o quilómetro cem durando orgulhoso no cimo da palmeira esquiva. Sabor insinuante que retorna devagar ao palato amargo. tudo se lembra ocultamente. só me importa esquecer e esquecer o impossível de esquecer. peça a peça. à boca ardida. à crista do tempo. 1972 "Mangas verdes com sal Mangas verdes com sal sabor longiquo.

flexionando peito e músculo. Devolvida a senha de entrada. neste embuste. palominos amestrados completavam o circo. passeio raso. Na fila Z. sem que o sacana do chapéu de aba larga lhe caísse. sobranceiro à baía e à Catembe. O episódio da série. da pinha. Empinando. Miradouro Autor: Rui Knopfli in "O monhé das cobras". Hopalong Cassidy jogava à porrada. alguma vez.Rui Knopfli in "O monhé das cobras". Ao intervalo. idem. rente à pantalha. edição da Caminho. os desenhos animados e a coboiada. Pavoneavam-se as meninas e nós. a surtida ao Hazis para comprar scones e laranjada. enfunadas as crinas ondulantes. edição da Caminho. Enquanto a malta ia e vinha. recomeçava o espectáculo. até ser Marrocos. 1997. o único herói autêntico era. páginas 45-6 Entre a rampa e o caracol da barreira. gesticulante. Mas. o picadeiro ideal para o exibicionismo laurentino. página 43 Obrigatoriamente aos sábados à tarde. o Piricas regia a partitura. miradas discretas em redor. no comando das operações. o Piricas. ao fim da tarde. Rotina . 1997.

um cocone que. Naturalidade Autor: Rui Knopfli in "O País dos Outros". o Cagalhim era só o bobo daquela festa. a tossir e a resfolegar. até hoje percorre os matos em busca dos testículos perdidos. o Cagalhim exibe. faca em punho. De borco. Pior ainda. Pulsa-me o coração ao ritmo dolente .diária. Presumido herói. falhado o tiro.. para gáudio do pessoal.fora a de ter enfrentado. sempre cumprida sem atropelos. sua maior aventura rezava a lenda . com alarido. o teria capado. cansada das correrias da véspera. É certo. o terá colhido. me dizem. sob o holofote. espezinhado. Não sei se o que escrevo tem a raiz de algum pensamento europeu. que vexado. o boi-cavalo. a cavalo na sua desconjuntada carrinha Ford. arrancando-lhe da cara os óculos. Entretanto. Eivam-me de literatura e doutrina europeias e europeu me chamam.. Não. dizem que o Cagalhim. mas africano sou. É provável. no Miradouro. Caçador furtivo e nocturno. os que não tem. envergando os óculos do caçarreta. Mesmo com a ruidosa chegada do Cagalhim. 1959 "Naturalidade Europeu.

tensa. um negro e uma viola estalando. Trago no sangue uma amplidão de coordenadas geográficas e mar Indico. calo-me. caso-me mais à agrura das micaias e ao silêncio longo e roxo das tardes com gritos de aves estranhas. 1962 " A pedra no caminho" "Toma essa pedra em tua mão. acolá acerado. em sua coesão molecular. redondo aqui. todavia poderosa. na avenida . uma arma em tua mão. acolá acerado. Mas dentro de mim há savanas de aridez e planuras sem fim com longos rios langues e sinuosos. redondo aqui." Pedra no Caminho Autor: Rui Knopfli no livro Reino Submarino. Segura com força esse granito bruto.desta luz e deste quebranto. Uma coisa inócua. Chamais-me europeu? Pronto. Aperta em tua mão esse objecto frio. toma esse poliedro imperfeito. Rosas não me dizem nada. em suas linhas irregulares. uma fita de fumo vertical. Uma pedra. Ao meio-dia em ponto. duro e poeirento.

grossos como touros. Edição da Associação dos Escritores Mocambicanos. pode assim dizer-se. é o seu primeiro livro. É pela via da arte musical que se inicia na criação literária sob forma de composição poética para canção. De lá. Segurando-a com amor e raiva. naquele tempo. "Magoda". escrito em 1986.ensolarada. Adoravam os deuses das águas. o rei Mabogue para se prevenir da conspiração dos chefes das tribos vizinhas. tu és um homem um pouco diferente. Tem artigos publicados sobre temas culturais em suplementos literários. incógnito. emergiam numa noite de luar como monstros de . alimentavam-se de carne e leite azedo." "Mabogue ya M'bizwa" Autor: Hortencio Langa Capítulo I no livro "Magoda" Hortencio Langa nasceu a 23 de Marco em Manjacaze. assim o exigia a sua natureza. "Conta-se que. os seus feiticeiros eram consagrados no fundo dos rios onde permaneciam longo tempo dedicando-se ao estudo dos mistérios da vida e da morte. onde começou a interessarse pelas artes. Ao meio-dia na avenida tu és um homem segurando uma pedra. tanto em língua portuguesa como em língua tsonga. Viveu a sua infância e parte da adolescência no Chibuto. Ao fim de longos dias e longas noites de danças e preces. penetrou no "ninho das víboras". só saiam depois de prolongados rituais à beira das águas. 15. colecção Karingana. No. ele próprio se disfarçou e. Barbudos. principalmente pela musica e pintura. pois os N'Gongwe eram uma tribo aguerrida e de terrível ferocidade.

guinando numa travagem brusca para evitar um atropelamento fatal. expandindo-se à esplanada onde os miúdos que jogavam "matraquilhos" sacudiam-se em risos convulsivos. imundos e grotescos. quando certo dia um mecânico conhecido por Juca Mulato caiu de borco ao sair do banco onde estava sentado e para sua grande surpresa. para se precipitar sobre os miúdos. corais e corpúsculos aquáticos encrustados na sua pele exalando um cheiro a peixe. capítulo V. ainda sufocado pela sede de vingança. iam buscar coragem apondo as suas armas em riste na boca de perigosos felinos e eram vacinados por autenticas cobras mamba para alcançarem o poder da invulnerabilidade.lhe o passo. dirigiu-se resfolegando à mesa de "matraquilhos" e introduziu as bolas ainda por jogar baliza adentro. podia medir-se pela maneira como se desembaraçou das botas. Mas Mabogue ya M'bizwa também possuía o segredo da magia dos deuses da floresta sagrada onde os reis seus antepassados. páginas 30-31 "O espírito farrista e brincalhão dos seus novos amigos depressa se revelou. A raiva com que ficou Juca Mulato." Topas-ou-Viras Date: Sun.. descalçando-as. 27 Apr 1997 15:02:13 gmt+0200 From: Joaquim Falé Autor: Hortencio Langa in "Magoda". Quando o lodo escorria dos seus corpos reluziam então as escamas. em peregrinações. Mas imaginar o que teria acontecido se uma camioneta não tivesse estacionado entre ele e os miúdos em debandada. sob o olhar de protesto dos miúdos que ofegavam a salvo. No bar. é difícil senão mesmo impossível. Juca. tolhendo.matope. a gargalhada foi geral. já no chão. viu-se com os atacadores das botas atados um no outro." .. protegidos pela distância.

. tenebrosas langorosas.. Ha cantos de tunguruluas pelos ares!. das velhas pretas.. povoadas de fantasmas e de medos.... como o olhar cansado dos colonos. e sulcado de rugas. Noites africanas tenebrosas.. endoidadas... perdidas em mistérios.. povoadas das histórias de feiticeiros que as amas-secas pretas..Noite Autora: Alda Lara Angola Noites africanas langorosas. . contavam aos meninos brancos.. Por isso as noites são tristes. onde o barulhento frenesi das batucadas.. mas tristes....como o rosto gretado. Noites africanas endoidadas.. nas longas noites africanas. é que os meninos brancos.. E os meninos brancos cresceram... esqueceram as histórias.... com que as amas-secas pretas os adormeciam. esbatidas em luares.. poe tremores nas folhas dos cajueiros..... e esqueceram as histórias.. como a solidao das terras enormes mas desabitadas.

. Mãe-Negra não sabe nada... Nem buganvilias vermelhas. Tem voz de noite... nem vestidinhos de folhos.. nas suas mãos apertadas. desce com ela.... Que é feito desses meninos que ela ajudou a criar?. Só duas lágrimas grossas.Os meninos brancos. Mas ai de quem sabe tudo.. de mansinho.. Prelúdio Autor: Alda Lara Angola Pela estrada desce a noite.. nem brincadeiras de guisos. Quem ouve agora as histórias que costumava contar?. Que é feito desses meninos que gostava de embalar?.esqueceram!. voz de silêncio batendo nas folhas do cajueiro. Mãe-Negra....... como eu sei tudo . Mãe-Negra tem voz de vento. pela estrada. em duas faces cansadas.. descendo..

mãos cruzadas no regaço. A dos coqueiros... de cabeleiras verdes e corpos arrojados . desta saudade descendo.. ainda sou. bem calada. ainda sou a mesma! Livre e esguia.Mãe-Negra! Os teus meninos cresceram.. a Irmã-Mulher de tudo o que em ti vibra puro e incerto. Muitos partiram p'ra longe. de mansinho pela estrada.. é tua a voz deste vento. So tu ficaste esperando.. filha eterna de quanta rebeldia me sagrou. bem quieta. Angola E apesar de tudo. e esqueceram as histórias que customavas contar. Mãe-Africa! Mãe forte da floresta e do deserto. Presença Africana Autora: Alda Lara Benguela... quem sabe se hão-de voltar!.

.. ainda sou a mesma.sobre o azul. aquela longa história onconsequente. Ainda sou a que num canto novo . mordendo o chão das Ingombotas. nela..... A do sol bom.... eternamente. dos colios baloiçando.... dos dongos.. longas e floridas. Terra! Ainda sou a mesma. Minha.. pelos bairros imundos e dormentes (Rua 11!... A das acácias rubras.. A do dendem nascendo dos abraços das palmeiras. Minha terra... A do amor transbordando pelos carregadores do cais suados e confusos.. de tronco nu e musculoso. Terra das acácias. Sem dores nem alegrias. a raça escreve a prumo. Sim!. mansamente.Rua 11!. E eu revendo ainda.) pelos meninos de barriga inchada e olhos fundos. a força destes dias. e sempre.... salpicando de sangue as avenidas..

me levanto. com o tom da tua paisagem.. ANGOLA. Regressar.. Poder de novo respirar. Voltou. onde se formou em medicina.. numa alegria selvagem. Voltar. o meu canto ao Creador! Porque me deu. .pura e livre.. e faleceu em 1962.minha terra!. que se alongue sobre o mar.. para voltar. (oh!... Quando eu voltar. em Cambambe. quando a autora viveu alguns anos em Coimbra e Lisboa. Ver de novo baloicar a fronde magestosa das palmeiras que as derradeiras horas do dia..) aquele odor escaldante que o humus vivificante do teu solo encerra! Embriagar uma vez mais o olhar. na verdade... circundam de magia.. ao aceno do teu povo! Regresso Autora: Alda Lara Angolana Esta poesia foi escrita em 1948. vida e amor. que o sol..

Com que prazer hei-de esquecer . das calemas traiçoeiras. e o silêncio envolve tudo Sede. Não mais o pregão das varinas.. os meus sentidos anseiam pela paz das noites tropicais em que o ar parece mudo. Não mais o agitar fremente de uma cidade em convulsão.. igual. transforma num inferno de cor.. não ha nada que mo impeca. das cheias alucinadas. Hei-de ver outra vez as casuarinas a debruar o oceano.. soando pelos longes. todos os dias iguais..... noites fora!. nem o ar monotono.. de tons quasi irreais.. tenho de voltar.. Saudade... nem o crepitar mordente destes ruidos.Tenho saudade do horizonte sem barreiras.Tenho sede dos crepusculos africanos... Sim! Eu hei-de voltar.... do casario plano. Saudade das batucadas que eu nunca via mas pressentia em cada hora..... não mais esta visão. e sempre belos..a dardejar calor.

.toda esta luta insana. a sangrar numa verbena sem fim.. o sol ardente.... Nela. Rumo Autor: Alda Lara Angolana é tempo companheiro! Caminhemos... Hão-de as acacias rubras.. a Terra chama por nos... que em frente estah a terra angolana... ha-de gritar na apoteose do poente. a prometer o mundo a quem regressa.. Ah! quando eu voltar. o mesmo sol ardente nos queimou a mesma lua triste nos acariciou. o meu prazer sem lei. florir so para mim!. E o sol esplendoroso e quente.. A minha alegria enorme de poder enfim dizer: Voltei!. e se tu es negro. Longe. e ninguem resiste á voz da Terra. a mesma Terra nos gerou! .. e eu sou branca..

Vamos! que outro aceno nos inflama.Vamos companheiro! é tempo. Foi para Moçambique em 1949 aos 25 anos de idade. da região do Chimoio. o jornal dos Padres.. E é tempo companheiro! Caminhemos.. Depois passou por vários jornais de Moçambique. Canção da Angonia Autor: Gouvea Lemos Gouvea Lemos nasceu em Lamego. para o Diário de Moçambique da Beira. E o meu suor... tendo como um dos grandes feitos ser um dos fundadores do jornal semanal Tribuna.... Inicialmente começou a trabalhar na área contábil da Textafrica na Soalpo e começou ainda de lá a escrever as suas primeiras linhas como correspondente. Ouves? é a Terra que nos chama. Portugal.. um dos marcos do jornalismo independente . quando rasgarmos os trilhos de um mundo melhor. Que o meu coração se abra á magoa das tuas maguas e em prazer dos teus prazeres irmão: que as minhas mãos brancas se estendam para estreitar com amor as tuas longas mãos negras...

sem ver a minha terra. onde some o rio. Em 1972. trabalhar lá longe. viveram grandes momentos históricos do jornalismo moçambicano. Lemos Visto a camisa lavada e vou para o contrato. sem ver o meu boi.L. Vou para além da montanha. três meses após a sua chegada ao Brasil. já cansado da ditadura colonial e das pressões de orgãos como os da PIDE e da censura. quem de nos ira voltar? Vinte e quatro luas. juntos com G. no Rio de Janeiro. Rui Knopfli. Quem de nos. para lá do mato. José Craveirinha. Sei bem disso pois como filho convivi com muitas das suas aflições.de Moçambique colónia. . Já com problemas cardíacos e com a aflição de ter que deixar a sua Pátria adoptada. Quem de nos ira morrer? Visto a camisa lavada e vou para o contrato. Sei que G. Nos últimos anos de Moçambique foi o Director de Redacção do Noticias da Beira. José Paulo G. Fernando Couto (pai de Mia Couto) e muitos outros.L. veio a falecer. Quem de nos. nasceu em Portugal mas sei como ele sentia-se Moçambicano e como sofreu pelas injustiças dos tempos da ditadura colonialista. sem ver as mulheres. resolveu migrar para o Brasil.

Quem de nos. Quem de nos ira voltar? Quem de nos. Quem de nos ira voltar e ver as mulheres. e ver nossas terras e ver nossos bois? Quem de nos ira morrer? Quem de nos? Quem de nos? Menir Barroco Autor: Manuel Sousa Lobo Moçambique brilham trutas na brasa um corpo na pira arde ao ritmo de pés vísceras de uma virgem rodando Avoé Terra! ânfora escorre mel mãos azeite vão olear ombros no capim cerveja derramaram espuma Avoé Mandiceu! raça grega aroma de ramisco . no vagão. Quem de nos ira voltar? Quem de nos. e hora de ir ao contrato. irmão. quem de nos ira morrer? Quem de nos. vamos andar noite e dia.Quem de nos. Quem de nos ira morrer? Veste a camisa lavada. Entra.

ostras e olhos de anho em bandejas de prata o bode berra quer fugir da faca Avoé Baco! incendiou-se o colmo de um telhado a velha já não tece cavalos desfazem nuvens lábios sobram cinzas Avoé Gudrun! olhar para oriente chegaram de Damasco vinhos muito leves frutos muito secos Walada omíada princesa era ruiva e escrevia Avoé Profeta! rosado mármore açafrão café engrenagem que chia bustos capitéis o verbo a honra a espada roldanas degraus Avoé Cruz! 10 caravelas indo 100 brâmanes de cócoras 1000 índios sem orelhas 10000 negros em fila Avoé Esfera! deitada uiva a rainha o morto sai de um espelho Queluz tem labirintos castanholas o infante traz coelhos para a sala do trono Avoé Vazio! Arte Poética Autor: João Maimona Angola 1979 Que erosão no choque genésico das marés de encontro às pedras habitadas. . Cai areia na areia.

Os dias namoravam sob a barca do espelho. cadeiras. E da chuva de barcos chegavam colchões. E quando a mão dezlizar pela margem das cicatrizes que se afundam na noite saberás que a tua mão viaja para a . manadas de estradas perdidas onde cantavam soldados de capacetes por pintar no coração da meia-noite. Entre os dentes do mar acendiam-se braços. Havia uma chuva de barcos enquanto o dia tossia.Assim o gasto da palavra limando os duros conformismos libertando as verdades mais remotas tão necessárias ao fruir dos gestos. As Muralhas da Noite Autor: João Maimona Angola A mão ia para as costas da madrugada As mulheres estendiam as janelas da alegria nos ouvidos onde não se apagavam as alegrias. Memória Autor: João Maimona Angola Baloiçando nos escombros de teu itinerário saberás que os gados constroem estradas. Eram os barcos que guardavam as muralhas da noite que a mão ouvia nas costas da madrugada entre os dentes do mar. camas.

Anuviaste a linguagem de teus olhos diante da gramática da esperança escrita com as manchas de teus pés descalços ao percorrer o caminho das coisas. Fechaste os teus dois olhos aos ombros do corpo do caminho e apenas viste uma pedra no meio do caminho. Poema para Carlos Drummond de Andrade Autor: João Maimona Angola É útil redizer as coisas as coisas que tu não viste no caminho das coisas no meio do teu caminho. Fechaste os teus dois olhos ao bouquet das palavras que estava a arder na ponta do caminho o caminho que esplende os teus dois olhos. No caminho doloroso das coisas. Alto Como o Silêncio Autor: Maria Manuela Margarido Ilha do Príncipe 1925Alto Como o Silêncio.1957 .colina dos dias sem escombros e saberás que no berço da noite jaz a luz drogada e ouvida pela cruz sobre quem viajaste.

a tarde clara deste fim de Inverno! Só com horas azuis no fundo do casulo. Paisagem Autor: Maria Manuela Margarido S.. a linha bravia das rosas e a grande baba negra e mortal das cobras.. na porcelana azulada das ostras. capim nas costas do negro reluzente a caminho do terreiro. No fundo da sombra bebendo por conchas de vermelha espuma que mundos de gentes por entre cortinas espessas de dor.A ilha te fala de rosas bravias com pétalas de abandono e medo. Alto sonho. alto como o coqueiro na borda do mar . Tomé e Príncipe in "Poetas de S. Tomé e Príncipe" Entardecer. e agora a ilha. Oh. Papagaios cinzentos explodem na crista das palmeiras e entrecruzam-se no sonho da minha infância.

Os moleques sonham cazumbis nas lajes do secador. Serviçais Autor: Maria Manuela Margarido S.com os seus frutos dourados e duros como pedras oclusas oscilando no ventre do tornado. No céu perpassa a angústia austera da revolta com suas garras suas ânsias suas certezas. 1963 O aroma dos mamoeiros desde a grota. é chuva grossa empapando os campos de Cabo Verde a germinar o milho da certeza. sulcando o céu com o seu penacho doido. Tomé e Príncipe in "Poetas de S. a regressar a Angola. E uma figura de linhas agrestes se apodera do tempo e da palavra. Tomé e Príncipe". Trazem na pele tatuada a hierarquia das relíquias alimentando-se de um sangue . aos muxitos do Sul. a narrativa dos serviçais sentados no limiar da esperança é palanca negra a derrubar paliçadas e fronteiras. palanca a devorar a distância. Lenta.

Socopé Autor: Maria Manuela Margarido S. Monótona se arrasta até explodir na alta ânsia de liberdade. 1963 Os verdes longos da minha ilha são agora a sombra do ocâ. os pés-raizes-da-terra enquanto a voz do coro insiste na sua queixa (queixa ou protesto .tanto faz). Amanhã os clamores da resta acordarão as longas avenidas de braços viris e a terra do Sul será de novo funda e fresca e será de novo sabe a terra seca de Cabo Verde. café ou cacau .tanto faz). Tomé e Príncipe". nos dorsos dobrados sob a carga (copra. Tomé e Príncipe in "Poetas de S. Ouço os passos no ritmo calculado do socopé. névoa da vida.desprezado que elege os magistrados da morte. Vós Que Ocupais a Nossa Terra . livres enfim os homens e a terra dos homens.

o telhado de andala flamejando e o cheiro do fumo misturando-se ao cheiro do andu e ao cheiro da morte. apenas esvaziados fantasmas do homem? Vós que ocupais a nossa terra? Caminho Longe Autor: Gabriel Marianp Cabo Verbe in "12 poemas de circunstância". A tragédia já a conhecemos: a cubata incendiada. Derrubam as árvores fruta-pão para que passemos fome e vigiam as estradas receando a fuga do cacau. Tomé e Príncipe in "Poetas de S. tomamos chá do gabão. apenas desbotadas máscaras do homem. Tomé e Príncipe". 1965 Caminho caminho longe ladeira de São Tomé Não devia ter sangue . Nós nos conhecemos e sabemos. 1963 É preciso não perder de vista as crianças que brincam: a cobra preta passeia fardada à porta das nossas casas. arrancamos a casca do cajueiro. E vós.Autor: Maria Manuela Margarido S.

Única Dádiva Autor: Gabriel Mariano Cabo Verbe in "12 Poemas de Circunstância". Minerva. Caminho caminho longe ladeira de São Tomé Devia ser de regresso devia ser e não é. Longa è a ladeira que a fome alonga. 1965 Os engajadores levaram a nossa única dádiva e já ninguém devolve o que nos foi roubado. . Devia sorrir de outro modo o Cristo que vai de pé. Enquanto eu vivo as perguntas duram E eu vivo da fome interrogativamente. E as bocas reservam fechadas a dor para mais além Antigas vozes pressagas no mastro que vai e vem.Não devia. Longa è a ladeira que a fome alonga. Praia. mas tem. Parados os olhos se esfumam no fumo da chaminé.

essa unidade tridimensional do Universo Cósmico (24 horas antes do enterro da minha irmã) Imagino-te amanhã a olhares-me morta e a pores a malta toda a viajar contigo nas três dimensões vitais.No dia do enterro Não tenho que imaginar nada aqui estas sensível ao ser . Morte Autor: Filimone Meigos Angola in coluna "é verdade.. hoje e amanhã..Como podem ladrões rondar meus olhos se amor só meus olhos tem? Longa è a ladeira que a fome alonga terralonginquamente. É verdade a vida são três dias: ontem. tal é o mito UKEMELIDAS . II Onde morre um preto há sempre um feitiço a quem arranjar dono. jornal Savana Morte.".

Já não tenho duvidas fender é sempre receber buraco dá. Numa dimensão religiosa "da terra vieste e à terra retornaste". Mas como imaginar-te. urna de contrição. No meu coração qual acto. buraco leva tal é o destino de todos eles (isto é. No teu olhar mais uma pazada de dor. Pedro estas minha filha ao lado dos que já cá não estão pai nosso que estais no céu desgraça a minha nesta terra que se fendeu e recebeu minha Dina. III (choro de minha mãe) Sentada ao lado de S. tu minha irmã querida a seres comida por esses vermes sub-terraneos só por causa dum paraíso? Tempo espaço não sei se me refaço.desta ausência suprema tua presente inexistência. todos nos) Sobre os mortos OS MORTOS TAMBÉM AMAM ACASALAM-SE À TERRA E FAZEM-SE LENDA PARA QUE NOVAS GERAÇÕES .

tuas nádegas Dunas firmes dunas onde célere pulsa o sangue. Dunas Autor: João Melo Angola in "Vozes poéticas da lusofonia".. tuas nádegas suaves frescas e belas Exortação . O PONTO É QUE ENTRE A PIOR IMAGEM DA TUA VIDA E ESTA DO TEU ENCAIXILHO PREFIRO A VIVA REMADORA CONTRA A MARÉ QUE ERAS. Dunas doces dunas onde trémulo sucumbo ardendo.SE AMEM MAIS E MELHOR.. Sintra 1999 Dunas brancas dunas onde altivo brilha o sol. NO ENTANTO CUSTA-ME PRESENCIAR ENTERROS TAL É A AVERSÃO QUE OS EVITO EMBORA OS HAJA INEVITÁVEIS.

colecção O SOM E O SENTIDO.p. Descendo e deles herdei todos Os caracteres fundamentais E talvez herdasse alguns mais Da mestiçagem de outras raças Que fizeram guerras." História Autor: Orlando MendesBR>Moçambique Diz a História que descendo De celtas. combatendo Conquistaram e perderam praças. se tens exercícios de literatura escritos há mais de um mês. edição da Académica Lda. o sangue. Guarda-os todavia fiéis na memória. Mas não deixes de escrever.Autor: Orlando Mendes no seu livro "Adeus de Gutucumbui". para que possas transmiti-los a um amigo quando depois do venal acto de amor forem também vender a irresistível suspeita da tua voz trémula e dos teus outros actos. E admito pois que o tamanho. Peço-te que não. destrói-os. A fria razão e o instinto. Rasga-os ou queima-os de preferência (consta ser universalmente mais ortodoxo) e se a chama te chamuscar unhas e pele e as sujar a cinza. Diz a História e não tenho Do contrario uma prova séria Em testamento que a revele. palavra por palavra. mouros e visigodos. . Destrói-os. 25 "Jovem. a cor da pele. O rosto. não queixes a dor e lava-te.

Para ser a mão direita firme Que enche de palavras o papel.Adquiri em séculos de Ibéria Para ser o que penso e sinto O que mostro e o que oculto. Excitável carne e uma voz Memória de um país adulto Que se não cala por não trair-me No idioma de meus avós. Noiva Autor: Orlando Mendes . E por isso. E as datas festejo E retomo lutas que não venço E amo nas horas do desejo Com o mesmo requinte que deu Origem de mim à Criação E bebo o vinho e como o pão Da minha sede e da minha fome. deponho. de pão ou de infinito. Admito. Admito. Não própriamente o enredo Mas esta seiva elementar De África nos versos que digo E os homens a saibam cantar. nada herdei que dome A grandeza nova que transmito. Contudo. Desejo. fome e sonho De vinho. Perpétuo aprendiz que sou eu De velho oficio sem licença. posse e fecundidade Coragem forjada no segredo Medo que se chore ou se brade Guerra de amigo ou de inimigo. Não apenas sede.

Eu te daria se não fosses a noiva de todos fazendo bandeira com uma capulana garrida às nove da noite naquela rua de areia suburbana. 33 Eu te daria frescas flores de laranjeira para uma grinalda na carapinha desfrisada. Eu te daria um trevo de quatro folhas verdes para que te nascesse o primeiro filho varão." Para um Fabulário Fazei as medições convencionais Por esbatido que seja o horizonte Declarai que existe uma fronteira Onde a dor já não possa calar-se Guardai incontaminada a esperança Pelo desespero de um e outro lado Apagai na vossa terra bem amada Os vestígios de passos paralelos Deixai envelhecer nos rostos viris As rugas impregnadas de silêncio . um colar e um trevo que te darei talvez para usares quando não puderes ser noiva de todos fazendo bandeira às nove horas da noite naquela rua de areia. Uma rosa encarnada se desfolha na fonte do teu corpo em cada lua nova como se fosses a virgem noiva a quem eu daria flores de laranjeira.in "Adeus de Gutucumbui" p. Eu te daria um colar de missangas coloridas para uma cruz de outra carne a fogo marcada sobre o seio esquerdo ao rasgar da virgindade.

" De Asas Sob a Terra Autor: José Luís Mendonça Angola Ergue-te cidade malar vigília de pássaros estrangulados cheiras a crepúsculos e água. África Autor: David Mestre Angola 1972 .Escutai a noite que o vento possui Com a sedução das palavras matinais Escolhei um dia claro e fecundo De flores abertas. amor consumado E contai a todas as crianças. cidade onde o vinho abre o sexo ao gume dos astros ó tambor de sangue espuma de um tempo e metal à proa que mãos te alijam o som de asa sob a terra. contai Que se fundou o país das maravilhas.

é neste silêncio neste assalto do vento a navegar a floresta neste sol neste amor neste vegetal cobrir-me de verde e ser catana cerce a executar o ânimo afagar as mulheres no regresso da lavra fazer das mãos a festa sonora do sexo na cultivação do milho é neste grito rente ao corpo frágil das folhas que mais em ti me venço e moro nas grandes batalhas da vida no extenso vale das nossas angústias no duelo cíclico das nossas intenções Espera Autor: David Mestre Angola in "Crónica do ghetto". permaneço rente ao tiroteio dialecto das mulheres negras. pasmadas na superfície do medo que bate oblíquo no quimbo quebrado. aqui esqueço África. dois geógrafos vão assinalar a estranha posição dum poeta cruzado na esperança morosa das palavras africanas aguardarem acento. carapinha recordação áspera de monandengue. 1973 existo acento de palavra. mapa de conversas na visitação da lua. grávida luena sentada no verso da fome. num gabinete da Europa. O Sol Nasce a Oriente (de um quadro de Malangatana .

as palavras do medo os olhos falantes da mata quando a onça posta a sua arte nos fita. de ti canto o movimento teu nome. quissange em trança Do longo longe do tempo arde minha flecha. colecção Karingana Nº 18 da AEMO. canção feita de fronteiras lua nova. meu lamento minha bandeira de outro vento aurora urdida nos lábios de Zumbi De ti guardo o gesto as conversas leves das árvores a fala sabia das aves o dialecto novo do silêncio e as pedras. guardada em sua mágoa. sem a menor . 1948 Vive em Angola desde os oito meses de idade Povo. javite ou lança tua hora. Portugal. De ti amo a denuncia felina das tuas mãos quebradas ao presente a dança prometida do sol nascer um dia a Oriente Os Olhos da Cobra Verde Autor: Lila Momplé in "Os olhos da cobra verde". 1997 página 23 "Mulher e Cobra fitam-se longamente.Autor: David Mestre Loures.

brilhantes e verdes. isenta de veneno e de malícia. A mulher.Vicente. Por isso a observa com os seus olhinhos redondos.. Fantasmas De pescadores Contrabandistas Desaparecidos Em qualquer vaga Nem eu sei onde.. A Cobra reconhece-lhe essa íntima mansidão visto que também ela é uma cobra mansa..animosidade ou receio. Cabo Verde. de um verde mais claro. . já velha em anos e sofrimento." Barcos Autor: Yolanda Morazzo Mindelo. conserva no rosto a rara luminosidade de quem uma longa vida não conseguiu extinguir a inocência e a capacidade de encantamento próprios da infância. Canto e sorrio. 16/12/1928 "Nha terra é quel piquinino É São Vicente é que di meu" Nas praias Da minha infância Morrem barcos Desmantelados.. como duas esmeraldas incrustradas no corpo delgado e curto. Ilha de S. não obstante a postura derreada do corpo. E eu sou a mesma Tenho dez anos Brinco na areia Empunho os remos.

. edição do autor e Editora Escolar.. Dezembro 1994 "Cale-se a vergonha dos balazios leva-se o verbo ao escárnio e nos aos escombros Eis-me perante o rancor que emerge da merda das etiquetas oficiais.A embarcação: Para o mar! É para o mar!." A Noiva de Kebera Autor: Aldino Muianga in "A noiva de Kebera".. E o pobre barco O barco triste Cansado e frio Não se moveu. Vasculho num traço flutuante: as garras do tédio novamente charmosas e o labor perene das micaias nas franjas da alma. os pseudo discursos expendidos com nojo a tiracolo. Olho com fixidez. 1992 . Chão de Pátria Autor: Marcelo Mosse in revista "XIPHEFO"..

Página 13 Com a habilidade nascida da experiência. Maria com ele está a brincar comigo. Sanga-Kebera virou o ambiente frio e fúnebre que ameaçava viciar aquela noite de serão. ele é amante de Maria e entra aqui em casa já. tendo-se deixado contagiar e marcar pela vida agreste dos bairros pobres suburbanos. XITALAMATI é a sua estreia em livro. A própria tia Taba-Mayeba não conseguiu suster um calafrio que lhe sacudiu o corpo inteiro. Eu já sabe. eu não pode companhar Maria por caso dele. Cresceu e viveu nos arrabaldes alagadiços desta cidade. Uma edição da AEMO. p. Juro cinco chaga. . E apalpa o inseparável canivete de mola metido no bolso traseiro das calças. você vai saber qué nhé filho de Mutchatchane». Minh'Amor. colecção INÍCIO número 7 de 1987 «Eu disse há-de matar este home um dia. Narrou um arrepiante nkaringana que ouvira nos remotos tempos do avô Sa-Kebera. Este família não é bom família. Minh'Amor Autor: Aldino Muianga do conto Maria. 67 Aldino MUIANGA nasceu a 1 de Maio de 1950 em Maputo. Família sabe eu quer casar Maria. Maria. Tudos dia costuma ir levar Maria na letaria. mas porqué deixa esta gajo entrar aqui? Deixa cabar festa. com mortos e vivos a confraternizar em fantásticas orgias. É tal o dramatismo e o entusiasmo que põe na narração que as imagens dos personagens parecem suspender-se na atmosfera da palhota como seres reais e concretos. bebendo e vertendo cabaças de sangue sobre as cabeças uns dos outros.

Este é.. Não lhe dá importância e retorna à conversa com os da casa.» Faustino vai correspondendo distraidamente aos cumprimentos.Este é Jacobe. À sua frente. outros saem. Uns entram.Este é pai de Maria. distribui lugares pelas cadeiras e esteiras previamente preparadas para o efeito. «aquela gajo com olho de cão» estende-lhe a mão com confiança.Pelo canto do olho. todos mirando-o. senão eu mata vocês dois e depois morre também.. As pessoas vão-se sucedendo nos cumprimentos. Este é avô de Maria. Está ausente. curiosos. onde você estás? Juro que você estás lá fora esperar conversar com aquela tua amigo. . Faustino está à beira de um desmaio. Há um grupo de pessoas que se aglomera à porta. papá Fopence apercebe-se da brusca mudança de atitude do seu acompanhante. De queixo caído. Faustino não crê no que ouve. ordeiramente. «Oh Maria. Então porqué não vens? Maria. irmão de Maria. A mesma matrona que ali os introduzira adianta-se e. empertigado e exibindo no rosto um sorriso de triunfo. vaga nas nuvens montado em tenebrosos planos. varado de surpresa ouve a matrona apresentar-lhe: . E envolvem-se num abraço quente que dissipa para sempre a cortina de ciúme que Faustino erguera e deixam-se sacudir por . e invejando Maria pela aparente boa escolha que fizera. faz favor não faz poco de mim. Maria não está lá.

uma gargalhada convulsiva que é o presságio de uma amizade sólida e duradoira. colecção Timbila Nº 6 da AEMO. As conchas do mar também ficaram Com os meus segredos do anoitecer Tudo o que os meus avós me sussurraram Ainda estava por tecer. . Os estilhaços da minha infância Ficaram emulsionados na forca da água Os versos feitos em minhas mágoas Também ficaram em turbulência. O mar levou o meu amor A filha do gra-marinheiro Pois ela partiu primeiro Sem escutar o meu clamor." Ensaio de Lágrimas Autor: Hélder Muteia in "Verdades e Mitos". o Mar "As palavras que desenhei na areia O mar as levou em lembrança Os meus segredos de criança O mar os contou à sereia. 85 Se as nossas lágrimas apagassem o ódio que nos cerca e apagassem também o fogo que nos mata mãe eu pediria as lágrimas de todos sangrando as pupilas. Ai. p.

Mas temo, mãe
que nos afoguemos um dia
dentro das nossas lágrimas."
Reflexão
Autor: Hélder Muteia
Helder Muteia nasceu em Quelimane, Setembro de
1960, e "Verdade dos Mitos" foi o seu primeiro livro
publicado. Pela AEMO, colecção TIMBILA nº 6. O
autor foi secretario-geral da AEMO e é deputado na
Assembléia da República.
"E se fosse apenas
a dor matemática do chicote
sorria
e olhava-te nos olhos
e cuspia-te na cara
só!
E se fosse apenas
a dor física da inércia das lágrimas
bem, ai talvez fingisse
chorar a mulher amada
e cuspia-te somente à cara!
Mas de que nos adianta agora
discutir a matemática e a física?"
Antigamente Era
Autor: Agostinho Neto
Angola
1951
Antigamente era o eu-proscrito

Antigamente era a pele escura-noite do mundo
Antigamente era o canto rindo lamentos
Antigamente era o espírito simples e bom
Outrora tudo era tristeza
Antigamente era tudo sonho de criança
A pele o espírito o canto o choro
eram como a papaia refrescante
para aquele viajante
cujo nome vem nos livros para meninos
Mas dei um passo
ergui os olhos e soltei um grito
que foi ecoar nas mais distantes terras do mundo
Harlem
Pekim
Barcelona
Paris
Nas florestas escondidas do Novo Mundo
E a pele
o espírito
o canto
o choro
brilham como gumes prateados
Crescem
belos e irresistíveis
como o mais belo sol do mais belo dia da Vida.
Com os Olhos Secos
Adutor: Agostinho Neto
Angola

Com os olhos secos
- estrelas de brilho inevitável
através do corpo através do espírito
sobre os corpos inanimes dos mortos
sobre a solidão das vontades inertes
nós voltamos
Nós estamos regressando África
e todo o mundo estará presente
no super-batuque festivo
sob as sombras do Maiombe
no carnaval grandioso
pelo Bailundo pela Lunda
Com os olhos secos
contra este medo da nossa África
que herdámos dos massacres e mentiras
Nós voltamos África
estrelas de brilho irresistível
com a palavra escrita nos olhos secos
- LIBERDADE.
Confiança
Autor: Agostinho Neto
Angola
O oceano separou-me de mim
enquanto me fui esquecendo nos séculos
e eis-me presente
reunindo em mim o espaço
condensando o tempo
Na minha história
existe o paradoxo do homem disperso

Enquanto o sorriso brilhava
no canto de dor
e as mãos construiam mundos maravilhosos
John foi linchado
o irmão chicoteado nas costas nuas
a mulher amordaçada
e o filho continou ignorante
E do drama intenso
duma vida imensa e útil
resultou certeza
As minhas mãos colocaram pedras
nos alicerces do mundo
mereço o meu pedaço de pão.
Lá no Horizonte
Autor: Agostinho Neto
Angola
Poemas, 1961
Lá no horizonte
o fogo
e as silhuetas escuras dos imbondeiros
de braços erguidos
No ar o cheiro verde das palmeiras queimadas
Poesia africana
Na estrada
a fila de carregadores bailundos
gemendo sob o peso da crueira
No quarto
a mulatinha dos olhos meigos
retocando o rosto com rouge e pó de arroz

A mulher debaixo dos panos fartos remexe as ancas
Na cama
o homem insone pensando
em comprar garfos e facas para comer à mesa
No céu o reflexo
do fogo
e as silhuetas dos negros batucando
de braços erguidos
No ar a melodia quente das marimbas
Poesia africana
E na estrada os carregadores
no quarto a mulatinha
na cama o homem insone
Os braseiros consumindo
consumindo
a terra quente dos horizontes em fogo.
O Choro de África
Autor: Agostinho Neto
Angola
Poemas, 1961
O choro durante séculos
nos seus olhos traidores pela servidão dos homens
no desejo alimentado entre ambições de lufadas românticas
nos batuques choro de Africa
nos sorrisos choro de Africa
nos sarcasmos no trabalho choro de Africa
Sempre o choro mesmo na vossa alegria imortal
meu irmão Nguxi e amigo Mussunda
no circulo das violências

mesmo na magia poderosa da terra e da vida jorrante das fontes e de toda a parte e de todas as almas e das hemorragias dos ritmos das feridas de Africa e mesmo na morte do sangue ao contacto com o chão mesmo no florir aromatizado da floresta mesmo na folha no fruto na agilidade da zebra na secura do deserto na harmonia das correntes ou no sossego dos lagos mesmo na beleza do trabalho construtivo dos homens o choro de séculos inventado na servidão em histórias de dramas negros almas brancas preguiças e espíritos infantis de Africa as mentiras choros verdadeiros nas suas bocas o choro de séculos onde a verdade violentada se estiola no circulo de ferro da desonesta forca sacrificadora dos corpos cadaverizados inimiga da vida fechada em estreitos cérebros de maquinas de contar na violência na violência na violência O choro de Africa é um sintoma Nós temos em nossas mãos outras vidas e alegrias desmentidas nos lamentos falsos de suas bocas .por nós! E amor .

Poema à Mãe Angolana Autora: Eugénia Neto Portugal/Angola Avança Mãe Angolana E dá o melhor de ti própria Nesta luta de vida ou de morte Avança pelos rios perigosos Pelos pântanos lodosos Pela savanas sem fim. Avança com teus bracos feitos asas Abertas sobre o solo pátrio Para proteger os teus filhos... Avança Mãe Angolana Na terra ensopada de sangue Dor e lágrimas . Avança Mãe Angolana Que a tua coragem fará vacilar os soldados Os soldados que já foram meninos Os soldados A que o fascismo tolheu a vontade E que caminham sobre os cadáveres das crianças Com risos sarcásticos de vingança. Avança pelo incomensurável horror da guerra Entre a chuva de bombas que ilumina a terra Mas avança porque é necessário.e os olhos secos. Não te detenhas nos gemidos do vento Não prendas a forma das flores Sublima o amor neste momento.

vocação. é sentimento e nas parecencas de outras terras longe das disputas e das guerras encontro na distância esquecimento! Ilha de Moçambique Autor: Neves e Sousa Angola Ilha de oiro e angustia Feita de sol e de prata Marfim talhado em reliquias . é meu castigo Branco eu sou e pois já não consigo mudar jamais de cor ou condição. Angolano Autor : Neves e Sousa Pintor e Poeta Angolano Ser angolano é meu fado. será que tem cor o coração? Ser africano não é questao de cor é sentimento... talvez amor. Mas. de costumes ou maneiras.Causadas pela guerra.. A questao é de dentro.. Que ela florescerá Sustentada pelo teu querer E terás para os teus filhos O sol aberto nas pétalas E a serenidade dos heróis Depois de ganha a batalha. não é questao nem mesmo de bandeiras de lingua.

Instituto Superior de . Alem-portas de marfim Paredes meias com a História Dentro da fama e memória Para que nela sempre fique A Ilha de Moçambique. Fortaleza escancarada A memórias esquecidas. Sermões de S. A Coruja Autor: Malangatana Valente Ngwenya in "Vinte e quatro poemas".Cobre batido do vento Num moinho de saudades. encarnados E rostos cor da verdade De viver num monumento De prata. de oiro e de cobre Cobre batido do vento. Riquexos vagueando ão sol Brancas praias sonolentas Enfeitadas de saris e cofios Brancos.. Francisco Xavier Guardados nas rochas de coral. monumento.. Portico dos sonhos. momento de indias descobertas e vencidas Monumento. Senhora do Baluarte velando As brancas velas do Canal.. pretos... De memórias esquecidas..

. que canta. dança. teatro. Malangatana. faz poemas. O tambor foi tocado na noite densa do feitiço enquanto Kokwana* Muhlonga apitava o Kulungwana** mortal. 1996 Malangatana Valente NGWENYA nasceu a 6 de Junho de 1936 em Matalana. Moçambique." * kokwana = avó **kulungwana = ulular . é grande animador sócio-cultural e vê erguer-se presentemente o sonho de construção do Centro Cultural na sua aldeia natal. Eu lutando comigo só é impossível vencer as ondas que feiticeiramente me esboçam as corujas. Representado em inúmeros museus e colecções particulares em todo o mundo. Página 35 A coruja agoira-me e diz-me que nunca chegarei além onde o desejo me leva e assim evapora-se o sonho. Na noite sem estrelas dois gatos pretos iluminaram a cabana da Kokwana Hehlise que morreu depois dos gatos terem miado. cerâmica e escultura. Produziu uma vasta obra no campo da pintura e é hoje um dos mais notáveis artistas africanos.Psicologia Aplicada. gatos e tambores. Lisboa. artista multifacetado.

Vinte e quatro poemas". ISPA Instituto Superior de Psicologia Aplicada . verde. Quiz brindar as estrelas. verde ele é tão bom. 1996 Porque o amor não é sempre verde que bom quando verde é nem quero que mudes de cor oh amor verde. Meu fato mais bonito. Flor vermelha na lapela. bom Na cama quando passei a primeira noite senti-me feliz quando corria dentro dela a lágrima que nos fez amigos infinitos porque dela veio quem nos chama: Papá e Mamã o nosso primeiro filho. Arrasar a praça. Fazer oferendas á lua. lindo. 09.Amor Verde Autor: Malangatana Valente Ngwenya in "Malangatana .CRL. . Teu abraço me vestindo. Engomado e arejado. Enxugar minha jornada.06." Double Trouble Autor: Mutxhini Ngwenya Chimoio. Dançar uma valsa. bom. Guitarra acesa na mão. tão lindo. Lisboa. Minha arma de trova. Beber teus pomos.97 Quiz vestir esta lua.

Portugal. tantas vezes Fazer poema fresco.97 A Mamã Preocupada Autor: Malangatana Valente Ngwenya in "Vinte e quatro poemas". atirar para ontem. Quiz tantas. p. Não sabe ainda A cor de tua alegria. Saltar. Quebrá-la e branquear minha alma. Lançar sementes estrelas. Minha alma parra." Mutxhini Ngwenya Chimoio. 24 Nos teus braços eu fiquei quando me nasceste muito preocupada quem estava aflita naquela altura perigosa com o receio de que Deus me vai levar? Tudo em silêncio olhava para ver se o parto corria bem tudo lavava as mãos para poder receber quem vinha dos Cés . Lavá-la na enxurrada de beijos. Notícias flores ao mundo. e.. 09. Rosas ressequidas de espera.06. edição do ISPA..Quiz minha parra de barro. Dizer ás gaivotas e ao vento Que em suas asas levassem. Mas.

e toda a mulher quieta e aflita
Mas quando afastei-me
do lugar em que me guardaste durante longo tempo
dei logo o primeiro respiro
tu gritaste logo de alegria
o primeiro beijo foi o da Avó
Que levou-me logo para o lugar
que me guardaram e é secreto
tudo foi proibido a entrar no meu quarto
porque tudo cheirava mal
e eu todo fresco, fresco
respirava finalmente dentro das minhas fraldas
Mas a Avó que se supunha doida
estava sempre ao meu lado
ver-me e rever-me sempre
porque as moscas vinham ter comigo
e os mosquitos inquietavam-me
Deus que revia-me também
era o amigo da minha Avó velhinha
Malangatana Valente NGWENYA nasceu a 6 de
Junho de 1936 em Matalana, Moçambique. Produziu
uma vasta obra no campo da pintura e é hoje um dos
mais notáveis artistas africanos.
Representado em inúmeros museus e colecções
particulares em todo o mundo, Malangatana, artista
multifacetado, que canta, dança, faz poemas, teatro,
cerâmica e escultura, é grande animador sócio-cultural
e vê erguer-se presentemente o sonho de construção
do Centro Cultural na sua aldeia natal.
Pensar-Alto

Autor: Malangatana Valente Ngwenya
in catálogo da exposição retrospectiva e antológica de
Malangatana que teve lugar na Sociedade Nacional de
Belas Artes, Portugal, em 1986
Sim
às marrabentas
às danças rituais
que nas madrugadas
criam o frenesi
quando os tambores e as flautas entram a fanfarrar
fanfarrando até o vermelho da madrugada fazer o solo sangrar
em contraste com o verdurar das canções dos pássaros
sobre o já verduzido manto das mangueiras
dos cajueiros prenhes
para em Dezembro seus rebentos
dançarem como mulheres sensualíssimas
em cada ramo do cajual da minha terra
mas, sim ao orgasmo
das mafurreiras
repletas de chiricos
das rolas ciosas pela simbiose que só a natureza sabe oferecer
mas sim
ao som estridente do kulunguana
das donzelas no zig-zague dos ritos
quando as gazelas tão belas
não suportam mais quarenta graus à sombra dos canhueiros em
flor
enquanto as oleiras da aldeia, desta grande aldeia Moçambique
amassam o barro dos rios
para o pote feito ser o depositário

de todo o íntimo desse Povo que se não cala disputando
ecoosamente com os tambores do meu ontem antigo."
Nome de Pão
Autor: Oswaldo Osório
Cabo Verde
O Cântico do Habitante
ouso nosso pão e posso
ouso nosso pão e posso
ainda molecular a ideia
para dedos de haver esperança
ouso pensar
coragem e amar
e tanta coisa que é pão.
Cavalos de Silex
Autor: Oswaldo Osório
Cabo Verde
O Cântico do Habitante
1971
ainda estávamos em guerra quando fomos a lua
e tínhamos fome e feridas nos olhos de cegar
agarrávamos o futuro com a luz do laser
e as flores gelavam aqui donde partíamos com carbúnculos nos
braços
pássaros de pio futuro por onde andávamos
deixámos a terra grávida de salamandras esventradas
ganhávamos o pão nosso cada dia com medidas de suor
e um inverno de vómito estarrecia sob as raizes

as galáxias mediam-se por braçadas de legumes ou milho ou
arroz
que no-las distanciavam e as estrelas fugiam perseguidas
por cavalos de sílex
o sonho criava lodo cada manha
as palavras mal nasciam apodreciam em limo
nesta situação-limite os seios o sexo o sémen
convenceram os homens nas suas fábricas
de cavalos de sílex
tarde
peitos punhos pulsos resolvemos ousar nosso pão
Holanda
Autor: Oswaldo Osório
Cabo Verde
Holanda companheiros
chegámos
chegámos com barcos guildas nos olhos e desejo de vencer
chegámos intermináveis e actuais às docas
betão aço cargueiros e braços precisados
chegámos numa dimensão nova
(ah as roças de S.Tomé serviçal meu irmão)
e pusemos todo o nosso esforço
lubrificámos máquinas
alimentámos caldeiras
navegámos por oceanos de fogo e fiordes de gelo
mas foi nos mares da terra nova
no tempo em que de Boston a América mandava seus barcos

baleeiros
para nos contratar
que ganhámos o bronze da nossa pele
The Best Sailors of the World
sob bandeiras estrangeiras brigámos guerras que não eram
nossas
para agora amarmos ao ritmo de torno novo
e múltiplas bocas ao nos verem dizem
Let them get by
chegámos às docas companheiros
nas docas com barcos guildas nos olhos e nossa terra nos
nossos sonhos
chegámos intermináveis para o match
e pusemos todo o nosso esforço na luta
pusemos esperança na nossa força de trabalho
e quando nos vêem chegar dizem
Let them get by
aqui ou ali passaremos sempre porque chegámos
companheiros
a esperança transformada em actos nos nossos punhos
a seca o sol o sal o mar a morna a morte a luta o luto
ao nos verem passar dizem que ultrapassaremos os sonhos
e o match é em nossa terra que vai terminar
Manhã Inflor
Autor: Oswaldo Osório
S. Vicente, Cabo Verde, 1937

conto "A Lua e a Morte" .1971 as héveas murcharam desertas de folhas desertas de flores propositadamente nem só o sangue mas também a seiva nem só a criança mas também a pétala nem só o homem mas também a planta nem só a carne mas também a lenha propositadamente tudo o hamadricida flagelou a beleza da flor a inocência da criança a certeza dos campos o aconchego duma sombra mas nos covis a vida continuou e o apelo a luta redobrou as héveas murcharam e com as héveas a manhã inflor a terra nua mas ainda a vida nos covis continua A Lua e a Morte Autor: Marcelo Panguana in "As Vozes que Falam de Verdade".

A meia distância do espaço que o separava da Lindiwe." . apesar da propalada eficiência dos médicos e dos medicamentos ingeridos. O tempo passava e a criança ia minguando a olhos vistos. Não foi com pouca violência que a vassoura atirada deitou abaixo um bonito quadro que retratava um conhecido tema tradicional. Como a forca do vento na mudança das estações. filhos mais velhos. percorria o olhar um pouco por toda a parte. os fragmentos de duas chávenas de fabrico chinês e uma porcelana de barro. Dobrado sobre si mesmo à entrada da porta que dava acesso a sala comum. às voltas com umas dores de estômago que faziam questão de ser irremoviveis. ainda incapaz de adoptar uma atitude apaziguante." Milagre Obstrético Autor: Antonio Pinto de Abreu Moçambique in "Antologia da nova poesia moçambicana" As lampadas da cidade fundiram-se todas e numa das esquinas . Isto não pode continuar assim. O barulho provocado pela queda do quadro acentuara o choro da Isa. estava atónito. e ali. O corpo retesou-se e depois se fez o gesto. acrescentou. surgiam decididamente tempestuosas. a filha mais nova.Não. A mulher ficou espetada à sua frente ostentando aquela atitude exacta e decidida. assim se chamava o homem. Um pouco depois estalaram-se os nervos. Samo. O Beto e a Flavia. naquele confronto a dois. a mulher. aproximaram-se e a expectativa infantil ficou depois a envolver a conversa cada vez mais acesa entre marido e mulher. O homem observou-a e rapidamente concluiu que aquelas palavras tinham amadurecido anteriormente.

.da grande aldeia de cimento um latão urbanizado pariu um pirilampo. Contudo no velho latão urbanizado o pirilampo brinca e chora (como alguns meninos) luzindo com o satírico brilho da esvaziada lata de sardinhas da "ração de combate".. O jornal não deu a grande noticia . Cabo Verde.os fotografos tinham as maquinas aguardando o plano superior. Glória ao novo ser que nasceu ao anoitecer. Mané Fú Autor: Virgilio Pires Praia. 1935 Louco que povoou a minha infância Que contava histórias maravilhosas Histórias de Branca Flor De bruxas e de princesas Mané Fú Mané de Deus Que tinha o corpo todo preto Mas as palmas das mãos brancas Porque as sextas-feiras subia aos céus E ia banhar os anjos Mané Fú Mané de Deus Outras histórias me empolgam hoje .

1935 Quem não se lembra dos bailes da bola preta? ritmos brasileiros fox mazurcas E a morna a sublimar paixões Ao longe na Achada o roncar cadenciado Dos tambores da Tabanca No campo de futebol ali pertinho O Vitória sucumbia perante um Trovadores Em que o Chabali era o rei O mundo em guerra E na terra amaldiçoada Sem canhões sem Hitler O povo morria de olhos voltados para o céu Num gesto clamor secular Que o hábito tornou ritual Chuva! Fome! Chuva! Fome! Quem não se lembra dos bailes da bola preta? A sala decorada com bolas pretas Os ritmos brasileiros a transportar os pares Para o "Rio de Janeiro cidade maravilhosa" . Cabo Verde.Histórias de crianças famintas (Lembro-me do filho da Violante Que comia a cal das paredes) Histórias de velhos abandonados (Como aquele que morreu a chorar No Pavilhão de Alienados E não era doido) Histórias de prostitutas (Ah! humilhadas amigas) Histórias tristes nunca divulgadas Reminiscência Autor: Virgilio Pires Praia.

1973 rio estátua braço sem carne chuva no mar em terra seca sol na paisagem terra em desgraça fome nos lábios fome nos olhos ossadas brancas urubus em volta .Mazurcas com passos rigorosamente medidos E a morna morna no violino crioulo do Djédji Há muitos anos Os nazis perderam a guerra A Tabanca desapareceu Anatematizada como vergonhosa reminescência africana O Chabali morreu Surgiram outras guerras Outros tiranos outros ídolos outros ritmos E na terra amaldiçoada O ano passado hoje e sempre O povo continua com os olhos voltados para o céu Num gesto ritual Clamor súplice para outros homens e para Deus Chuva! Chuva! Chuva! Paisagem do Nordeste Autor: Jofre Rocha Cachimane. 1941Tempo de cicio. Angola.

Angola. 1963 . 1922 Clima. Cabo Verde.terra em brasa ar calcinado plantas com fome homens com fome fome nos olhos no ar morte Quando a Manhã Vier Autor: Jofre Rocha Cachimane. 1941Quando a manhã vier com um sol maduro ofertando beijos aos órfãos da ternura quando a manhã vier em apoteose de luz a semear no vento risos de alegria quando a manhã vier definitivamente em alvorecer roseo de paz e tranquilidade de mãos nas mãos saberemos chegado o nosso dia. Símbolo Autor: Luis Romano Ilha de Santo Antao.

o conjunto daquela harmonia sumindo-se na linha do mar.O formato daquele berço foi um símbolo O menino em miragens impossíveis dormia sonhando com navios de papel enquanto eu contemplava a cismar. o mistério. Cabo Verde. Navio-berço de menino crioulo navio-guia que ficou sem ir "navio idêntico ao navio da nossa derrota parada". Vida Autor: Luis Romano Ilha de Santo Antao. o perfume e os cantares . quando Ela falava ao pé de mim. erguendo no seu riso uma canção extraordinária. outros portos. 1963 A crioula que meus olhos beijaram a medo perdeu-se na confusão de um porto francês Ela sorria continuamente. a Vida separando Nós-Dois a confusão. os braços agitando-se e o vapor levando para outros mares. Não foi um romance de amor nem mesmo um pequeno segredo entre ambos. a graça. Depois. 1922 Clima. os ruidos. Somente. eu sentia: um aprazível devaneio pela maravilha escultural duma Mulher Perfeita.

Angola. Angola.da crioula que meus olhos beijaram a medo no tombadilho daquele vapor francês. Museu Autor: Manuel Rui Nova Lisboa. 1973 De meus antepassados não recordo mas invento em cada pedra colocada em praças por seus braços noutros braços . 1941A Onda. Que jogo é este o de chorar os destroços de um navio/que chegou a navegar ou as asas de uma gaivota apodrecida/que voou Sem me chorar Que jogo é este o de esperar um rebentar da onda sem me estender sem me estender pelos teus túneis. O Jogo Autor: Manuel Rui Nova Lisboa. 1941A Onda. 1973 Que jogo é este o de saber nos pés só a espuma de imensas madrugadas.

onde pombas poisam e turistas fazem souvenirs de sol e manuelinos E pátrias não conheço Assisto aos exercícios outonais da morte sem idade do cremar olhos na distância por noivas adiadas e mãos correndo terços de velhas esperando a morte simplesmente E deuses não conheço Não fui navegador embora me quisessem em vários continentes em que sempre estive e disse nunca para que naufragasse minha história com o peso das grilhetas amarrado aos oceanos E epitáfios não conheço O que ergueram meus braços não está em Africa a minha musica não está em Africa a minha estatuária não está em Africa idem para o meu marfim as minhas lanças os meus diamantes o meu ouro idem idem A Abóbora Menina Autor: Ana de Santana .

de segredos bem escondidos estende-se a distância procurando ser terra quem sabe possa acontecer o milagre folhinhas verdes flor amarela ventre redondo depois é só esperar nela desaguam todos os rapazes. 1983 Tão gentil de distante. Núpcias Autor: Ana de Santana Angola Penetro esse colchão de cristal e um lençol de mar me envolve tecendo o meu vestido raro.Angola Benguela. vem-me o mavioso murmurar das palmeiras pela brisa. tão macia aos olhos vacuda gordinha. espuma e sal. Interrompo estas núpcias com o coral. será que não aprovam? Rapariga .

. a tábua Eylekessa Filha de Tembo organizo o milho Trago nas pernas as pulseiras pesadas Dos dias que passaram.. . Odores & Sonho. Sou do clã do boi Dos meus ancestrais ficou-me a paciência O sono profundo do deserto a falta de limite.. A Mulemba Secou Autor: Aires de Almeida Santos Angola A mulemba secou.Autor: Ana de Santana Angola Sabores. Da mistura do boi e da árvore a efervescência o desejo a intranquilidade a proximidade do mar Filha de Huco Com a sua primeira esposa Uma vaca sagrada concedeu-me o favor das suas tetas úberes.. 1985 Cresce comigo o boi com que me vão trocar Amarraram-me já ás costas.

A ouvir. Secou tambem a alegria Da miudagem do bairro. siripipis Que o Chiquito da Mulemba Ia vender no Palacio Numa gaiola de bimba. Faziam roda. por toda a gente. coitado. Ficaram as folhas Secas. O Macuto da Ximinha Que cantava todo o dia já não canta. De noite. Espalhavam visgo nos ramos E apanhavam catituis.. Depois o vento as levou. Viuvas. Como as folhas da mulemba Foram-se os sonhos gaiatos Dos miudos do meu bairro. (De dia. sentados. de olhos esbugalhados A velha Jaja a contar Histórias de arrepiar Do feiticeiro Catimba. Pisadas. O Ze Camilo.) Mas a mulemba secou E com ela. .No barro da rua. amareladas A estalar sob os pes de quem passava..

. Quando passa por ali. já não quero Mais mentir..Passa o dia deitado A pensar em muitas coisas. Tantos abracos nos demos. Meu Amor da Rua Onze Autor : Aires de Almeida Santos Angola (Benguela) Tantas juras nos trocamos. So o velho Camalundo Sorri ao passar por la!. E o velhote Camalundo. já ninguem o arrelia. já não quero Mais fingir. Meu amor da Rua Onze. já faz a vida em sossego. Meu amor da Rua Onze.. Tantos beijos roubamos.. Como o meu bairro mudou. Meu amor da Rua Onze. Era tao grande e tao belo Nosso romance de amor . Como o meu bairro esta triste Porque a mulemba secou. já mais ninguem lhe assobia. Meu amor da Rua Onze. Tantas promessas fizemos.

A Vigília do Pescador . Quando te vejo passar Com o teu andar Senhoril. tao louca Qúinda me queimam a boca Os beijos que nos roubamos. Nossa maneira de amar era tao doida. Tanta loucura e doidice Tinha o nosso amor desfeito Que ainda sinto no peito Os abracos que nos demos.Que ainda sinto o calor Das juras que nos trocamos. E agora Tudo acabo. Sinto nascer E crescer Uma saudade infinita Do teu corpo gentil De escultura Cor de bronze. tao doce Nossa maneira de amar Que ainda pairam no ar As promessas que fizemos. Era tao bela. Meu amor da Rua Onze. Terminou Nosso romance.

O texto reproduzido foi publicado na Gazeta de Artes . holandês e italiano. checo. Membro fundador da Frelimo. Os seus trabalhos literários foram traduzidos em russo.Autor: Arnaldo Santos Angola Na praia o vulto do pescador é mais denso que a noite.1929 no Lumbo ..Nampula. E enquanto espera A sua ansia descobre os passos da mare na praia e o sono do borco das canoas. é um dos seus mais populares dirigentes. é manha e o pescador ainda espera e enquanto o mar não lhe devolve o seu corpo de sonhos Num lencol branco de escamas Um torpor de baixa-mar Denumcia algas nos seus ombros.5. nasceu a 20. E enquanto espera A sua ansia solidifica em concha E sonoriza os ventos livres do mar. Ódio Autor: Marcelino dos Santos Marcelino dos Santos.. com apelido de Lilinho Micaia Kalungano.

" Foi assim que tudo aconteceu senti uma dor aguda e o cão não ladrou o xirico não cantou a lua não estava a lua não estava Foi ali na estrada Ilha-Monapo era 14 de Marco Uma enorme gargalhada e tudo foi silêncio sem cor Cerrei os dentes O peito inchou duro Uma lágrima desce lenta pesada Uma só Anita caiu morreu Mamã onde está a minha arma" .e Letras. revista Tempo No 915.

16.1988 .xirico = pássaro Sonho de Mãe Negra Autor: Kalungano (Pseudonimo de Marcelino dos Santos) Moçambique Mãe negra Embala o seu filho E na sua cabeça negra Coberta de cabelos negros Ela guarda sonhos maravilhosos Mãe negra Embala o seu filho E esquece Que o milho já a terra secou Que o amendoim ontem acabou Ela sonha mundos maravilhosos Onde o seu filho iria à escola À escola onde estudam os homens Mãe negra Embala o seu filho E esquece Os seus irmãos construindo vilas e cidades Cimentando-as com o seu sangue Ela sonha mundos maravilhosos Onde o seu filho correria na estrada Na estrada onde passam os homens Mãe negra Embala o seu filho E escutando A voz que vem de longe .3.

Portugal. apresso a palavra e digo país: e o teu corpo se despenha vertical aqui entre as cordas desta febre. Nem a luz acanhada do candeeiro quando escrevo na obscuridade ao pulsar da mão emboscada . de que me servem dedos no contorno estéril da mão? A Pátria Dividida Autor: Nelson Saúte in "A pátria Dividida". digo espaço e as águas demoram. 1993 ao Rui Knopfli e ao Eugénio Lisboa Os mortos tombam no poema.Trazida pelos ventos Ela sonha mundos maravilhosos Mundos maravilhosos Onde o seu filho poderá viver. 1947 Mar ie mil. VEGA. Nada os ampara. 1974 tudo treme neste poiso de espanto breve. Colecção A Palavra Africana. Angola. Tudo Treme Autor: Monteiro dos Santos Cutato.

Caminha ao som de seus passos ombros recurvos mãos nos bolsos perseguindo a sua sombra. O cão que lhe roça a solidão . Lisboa. O algoz estilhaçou o coração frágil da criança aos gritos nas imagens do apocalipse na televisão.na metáfora que me conduz. 1993 Pagina 17: O poeta contempla o mar no agoniado tédio da tarde. Na ignomínia noticiada pelos jornais esta consentida memória dos mortos para sempre insepultos porque não existe vala comum para os gritos da mulher rasgada à baioneta numa manhã inocente. Não se enterram os sonhos dos mutilados em perfil no chão ultrajado desta pátria dividida. Vega. Na incerta madrugada diviso os rostos mutilados que vigiam os meus gestos e narram sonhos degolados." A Ignorância do Poeta Autor:Nelson Saute in "A Pátria Dividida".

Os namorados não o fitam. ... Matizes da selva. Aonde costuma rugir o leão. Vislumbro paisagens confusas. Anharas perdidas p'ra além do sertão.. Capim verdejante nas húmidas chanas.. Distingo legendas que os outros não lêem.não tolhe o verso escrito da memória... . Segredos da selva. caladas.. silêncio das noites sombrias." Canção do Silêncio Autor: M. De esguelha admira a inocência dos gestos amorosos. pacacas pastando... Lençol de esmeralda que o sol vai corando.. luar das savanas. Correia da Silva in " Cantares de Angola " Ouvindo o silêncio das coisas remotas.. murmúrios da aragem. O poeta ignora mas a direcção leva-o ao coração dos homens. remotas..Arroios cantando.Silhuetas de imagens que muitos não vêem!.. Mabecos fugindo. num som murmurante. Desvendo os mistérios da selva distante.. . À sombra de jacarandás percorre o trajecto sobre as folhas silenciadas.

.. fugindo.. do alto .. já dentro da noite..... São Vicente. em manadas.. gingando pra trás e pra frente. se a fome as aperta.Canção do silêncio da selva distante. Bem poucos entendem teu som de mistério! As Águas Autor: Onesimo Silveira Mindelo. . Regatos correndo por entre a folhagem. Cabo Verde. sachando os arimbos Depois que o som cavo do goma as desperta Chingufos ao longe . Latidos de hienas em torno dos quimbos.. 1962 A chuva regressou pela boca da noite Da sua grande caminhada Qual virgem prostituída Lançou-se desesperada Nos braços famintos Das árvores ressequidas! (Nos braços famintos das árvores Que eram os braços famintos dos homens.rufar permanente Chamando ao batuque de intensa folgança.) . 1935 in Hora Grande.-Holongos ligeiros. E os pretos.qual "hóstia boiante" Envolve o cenário num manto sidério. Agitam as ancas na febre da dança!. E a lua. Quimbundas alegres.

1962 Lá vem nho Cacai da ourela do mar Acenando a sua desilusão De todos os continentes! Ele traz o peito afogado em maresias E os olhos cansados da distância das horas. a pérfida estrela do céu Ate que ao olhar brando e calmo da manha Num aceno farto de promessas Ressurgiu a terra sarada Ressumando a fartura e a vida! Nos braços das árvores... a vagabunda. 10/2/1935 in Hora Grande.. Nos braços dos homens. Quadro Autor: Onesimo Silveira Mindelo.. Com histórias das farturas das Américas... Ilha de S.Derramou-se sobre as chagas da terra E pingou das frestas Do chapéu roto dos desalmados casebres das ilhas E escorreu do dorso descarnado dos montes! Desceu pela noite a serenar A louca. Os seus filhos acreditam nas Américas .... Cabo Verde. Lá vem nho Cacai Com a boca amarga de sal A boiar o seu corpo morto Na calmaria da tarde! Nho Cacai vem alimentar os seus filhos Com histórias de sereias. Vicente..

de Andrade e Francisco J...E sabem dormir com fome. Tenreiro: Poesia negra de expressão portuguesa. Cantos de Meu País Autor: Julião Soares Sousa Guiné-Bissau in Um Novo Amanhecer. 1953. 1996 Canto as mãos que foram escravas nas galés corpos acorrentados a chicote nas américas Canto cantos tristes do meu País cansado de esperar a chuva que tarde a chegar Canto a Pátria moribunda que abandonou a luta calou seus gritos mas não domou suas esperanças Canto as horas amargas de silêncio profundo cantos que vêm da raiz de outro mundo estes grilhões que ainda detêm a marcha do meu País Magaíça Autor: Noémia de Sousa Moçambique in M. Ed. dos Autores . Lisboa.

. arfando.. Ás costas . de sobretudo. e com ele. oh nhanisse. Não Me Lavem o Rosto Autor: Sukrato . as ilusões perdidas que brilharão como astros no decote de qualquer lady nas noites deslumbrantes de qualquer City. tecida de sonhos insatisfeitos do mamparra. magaíça atordoado acendeu o candeeiro. voltou.ah onde te ficou a trouxa de sonhos. magaíça. E na mão.A manhã azul e ouro dos folhetos de propaganda engoliu o mamparra. o comboio voltou. cachecol e meia listrada e um ser deslocado embrulhado em ridículo. A mocidade e a saúde. à cata das ilusões perdidas. magaíça? trazes as malas cheias do falso brilho do resto da falsa civilização do compound do Rand. entontecido todo pela algazarra incompreensível dos brancos da estação e pelo resfolegar trepidante dos comboios Tragou seus olhos redondos de pasmo.. seu coração apertado na angústia do desconhecido.. E um dia. da mocidade e da saúde que ficaram soterradas lá nas minas do Jone. arfando. sua trouxa de farrapos carregando a ânsia enorme.

não sei de pontes. por favor. Derrotados sob o adivinhado zelo do sol por quantos dias a ilha estremece ao temor da sede e da ruína. sentir. Por todo o meu corpo animais em deserção. para outro tão melodioso território. Não sei de barcos. Afeiçoados ficaram os olhos ao sonhado verde dos campos.. Cabo Verde. não me lavem os olhos! Curvo-me ao Obstinado Peso das Raízes Autor: José Luís Tavares Cabo Verde Curvo-me ao obstinado peso das raízes. .. bélicos murmúrios. desdenhada fortuna. Mais alto se erguem os morosos frutos da inquietude.. viver tudo em mim mas não me lavem os olhos! Deixai-me crer por mim aceitar a realidade mas não me barrem a caminhada não me lavem os olhos! Deixai-me sofrer realidade ao sonhar fraternidade mas.Boavista.. impendentes murmúrios. já disse não! Deixai-me ver. 1951 Não me lavem os olhos! Não.

diogo gomes. antónio da noli. eu vos saúdo desde esses picos de sede de onde a noite mais veloz se confunde com os desfraldados estandartes da alegria. feito o sinal da cruz. quando à vista das angras lágrimas e gritos se confundiram. velho cadamosto. E ficámos náufragos. E na hora terreal. irmãos dos chibos. Cerimónia de Passagem Autor: Paula Tavares Angola Luanda.Deram-lhe navegadores nome de santo. Pelos sinos da matriz avisando da inexorável aproximação dos corsários (um tempo de rapina subjaz ainda na memória desses anos) eu vos saúdo. um destino de penumbra ali se traçou. 1985 "a zebra feriu-se na pedra a pedra produziu lume" a rapariga provou o sangue o sangue deu fruto a mulher semeou o campo o campo amadureceu o vinho o homem bebeu o vinho o vinho cresceu o canto o velho começou o círculo . pela ocidental terra que o dia já desnuda. divisa de quem por tão longes terras os mandara navegar.

Ou antes ou talvez seja que desta vez vai haver guerra para que nasçam flores roxas de paz com fitas de veludo e caixões de pinho: Oh as longas páginas do jornal do mundo são folhas enegrecidas de macabro blue com mourarias de facas e guernicas de toureiros.o círculo fechou o princípio "a zebra feriu-se na pedra a pedra produziu lume" Coração em África Autor: Francisco José Tenreiro São Tomé 1967 Caminhos trilhados na Europa de coração em África Saudades longas de palmeiras vermelhas verdes amarelas tons fortes da paleta cubista que o sol sensual pintou na paisagem. Em três linhas (sentidas saudades de África) - . saudade sentida de coração em África ao atravessar estes campos de trigo sem bocas das ruas sem alegrias com casas cariadas pela metralha míope da Europa e da América da Europa trilhada por mim Negro de coração em África. De coração em África na simples leitura dominical dos periódicos cantando na voz ainda escaldante da tinta e com as dedadas de miséria dos ardinas das cities boulevards e baixas da Europa trilhada por mim Negro e por ti ardina cantando dizia eu em sua voz de letras as melancolias do orçamento que não equilibra do Benfica venceu o Sporting ou não.

De coração em África com o grito seiva bruta dos poemas de Guillen de coração em África com a impetuosidade viril de I too am America de coração em África com as árvores renascidas em todas estações nos belos poemas de Diop de coração em África nos rios antigos que o Negro conheceu e no mistério do Chaka-Senghor de coração em África contigo amigo Joaquim quando em versos incendiários cantaste a África distante do Congo da minha saudade do Congo de coração em África. Caminhos trilhados na Europa de coração em África.três linhas no jornal como um falso cartão de pêsames. de coração em África ao meio dia do dia de coração em África com o Sol sentado nas delícias do zénite reduzindo a pontos as sombras dos Negros amodorrando no próprio calor da reverberação os mosquitos da nocturna .Mac Gee cidadão da América e da democracia Mac Gee cidadão negro e da negritude Mac Gee cidadão Negro da América e do Mundo Negro Mac Gee fulminado pelo coração endurecido feito cadeira eléctrica (do cadáver queimado de Mac Gee do seu coração em África e sempre vivo floriram flores vermelhas flores vermelhas flores vermelhas e também azuis e também verdes e também amarelas na gama policroma da verdade do Negro da inocência de Mac Gee) .

De coração em África trilho estas ruas nevoentas da cidade de África no coração e um ritmo de be bop be nos lábios enquanto que à minha volta se sussurra olha o preto (que bom) olha um negro (óptimo). De coração em África em todas as poesias gregárias ou escolares que zombam e zumbem sob as folhas de couve da indiferença mas que tem a beleza das rodas de crianças com papagaios garridos e jogos de galinha branca vai até Franca que cantam as volutas dos seios e das coxas das negras e mulatas de olhos rubros como carvões verdes acesos. olha um mulato (tanto faz) olha um moreno (ridículo) e procuro no horizonte cerrado da beira-mar cheiro de maresias distantes e areias distantes com silhuetas de coqueiros conversando baixinho a brisa da tarde. de coração em África com as mãos e os pés trambolhos disformes e deformados como os quadros de Portinari dos estivadores do mar e dos meninos ranhosos viciados pelas olheiras fundas das fomes de Pomar vou cogitando na pretidão do mundo que ultrapassa a própria .picadela. De coração em África na mão deste Negro enrodilhado e sujo de beira-cais vendendo cautelas com a incisão do caminho da cubata perdida na carapinha alvinitente. De coração em África em noites de vigília escutando o olho mágico do rádio e a rouquidão sentimento das inarmonias de Armstrong.

na esperança de que as entranhas hiantes de um menino antípoda haja sempre uma túlipa de leite ou uma vaca de queijo que lhe mitigue a sede da existência. e chora fino na arritmia de um relojo cuja corda vai estalar soluça a indignação que fez os homens escravos dos homens mulheres escravas de homens crianças escravas de homens negros escravos dos homens e também aqueles de que ninguém fala e eu Negro não esqueço como os pueblos e os xavantes os esquimós os ainos eu sei lá que são tantos e todos escravos entre si. deixa-me acreditar que do desespero másculo de Picasso sairão pombas que como nuvens voarão os céus do mundo de coração em .cor da pele dos homens brancos amarelos negros ou as riscas e o coração entristece à beira-mar da Europa da Europa por mim trilhada de coração em África. Deixa-me coração louco deixa-me acreditar no grito de esperança lançado pela paleta viva de Rivera e pelos oceanos de ciclones frescos das odes de Neruda. Chora coração meu estala coração meu enternece-te meu coração de uma só vez (oh orgão feminino do homem) de uma só vez para que possa pensar contigo em Africa na esperança de que para o ano vem a monção torrencial que alagará os campos ressequidos pela amargura da metralha e adubados pela cal dos ossos de Taszlitzki na esperança de que o Sol há-de prenhar as espigas de trigo para os meninos viciados e levará milho as cabanas destelhadas do último rincão da Terra distribuirá o pão o vinho e o azeite pelos alíseos.

. 1942 Sam Marinha a que menina foi no norte chegou naquele navio à ilha. O monhé chegou na porta e limpou o suor . Braços pendentemente tristes só os olhinhos estão pulando para lá da fortaleza querendo ver a Europa!.. À hora do espalmadoiro os moços do comércio passaram de gravatas garridas.Africa. Romance de Sam Marinha Autor: Francisco José Tenreiro São Tomé Ilha de nome santo. O monhé chegou na porta e limpou o suor ao lenço de seda que importou do Japão! Ai! Aquela que chegou na ilha como uma risada branca está fechando a carinha à terra. Risadas brancas e goles de champagne! A hora do espalmadoiro os moços do comércio passaram de gravatas garridas.

Ouve a voz inefável das guitarras Tingindo de paixão a madrugada .. Coleccionador de Quimeras Autor: António Tomé Quando as minhas angústias começam a morder-me ponho-lhes a trela saio a rua a passeá-las e deixo-as ladrar ao tédio transeunte..ao lenço de seda que importou do Japão! Ai! Aquela que chegou na ilha como uma risada branca está fechando a carinha à terra. Nunca é Tarde Quando no cais só fica ancorada A indiferença e já não resta nada Senão as ilusões a que te agarras. Depois ponho-lhes asas e deixo-as voar como pássaros em busca de primaveras imprevisíveis. Braços pendentemente tristes só os olhinhos estão pulando para lá da fortaleza querendo ver a Europa!.

não tardes. Fim e reconhecimento. Tempo de mal cair e tempo de mal seguir. E é nessa maré viva que estremeço." Exemplo Geral Autor:João Vario (conhecido também como T. amamos tanto estar aqui com o tempo E sabendo que há nisso pouco passado. um dia. Fim de novo e reconhecimento de novo E tudo é crime. com eles indo. se por eles Ganhamos o tempo. e tempo de cair e tempo de seguir. Quando arriscamos a intensidade. Vicente. Oh amamos tanto. Criminosissimamente crime. ou crime sempre. Mas. e não sofrendo nada mais do que o tempo concede. Saberás então que há sempre um começo No profano rio em que a vida arde.No fim duma viagem povoada Do canto indecifrável das cigarras. ou cilício.Tiofe) S. pedimos a forma mais fácil De indagar que vamos morrer e. divididos Em dois por eles.T. comemorando. crime ou crime. Aumento e festa. Porque maiores que os desígnios da vida São os desígnios da medida e. Cabo Verde 1937 Exemplo Geral. que sem ti eu anoiteço. E não peças jamais ao rio que aguarde. se . ainda que saibas que nunca é tarde. 1966 (Fragmento) Há muito passado no estar aqui com o tempo.

esse provérbio sessouto. E então consta que amámos. a designação. junto da via férrea. os homens do país miravam-nos como se fôssemos nós e não eles os mortos desta terra. 1937 Exemplo Relativo. . depois faremos ou fará o tempo. Fragmento Autor: João Vario S. porque regressaremos. O julgamento nossa medida abandonem. homens do medo e do tempo da discórdia que trazem para o cimo das estradas a malícia que vai apodrecendo seus pés neste mundo e em terras de outrem. o homens. o chisto. Que fazeis do mundo e da sua chama imponderável. o delírio. Era em abril dois dias depois da neve e da cidade dos nevões. por sua vez. chamadas. Aquele blasfemissimo comentário. as oliveiras. e as colinas. entre a casa e o limiar? E evocamos. Depois. Dividida em duas por elas. Havemos de ser úteis como mortos há muito. hoje como ontem. de outros. e ganhando constância. Vicente. na verdade. a memória. perdidos que estais. Cabo Verde. E olhamos para os penhascos da beira-rio. mais uma vez. 1968 E então subimos aquele grande rio e as portas do Rodão. E.O tempo for deles e. a cevada as ervas de termo. na serra. E. Sem que a causa.

Com o título "Resumos. Eu presido a todos os enganos os do céu os da terra há tantos anos que nem o tempo os lembra Antes do mar fui voo Antes do sal fui mar e sede antes da água fresca Antes do verso eu fui a poesia Eu sou antes de Deus e do universo Estando antes eu nunca fui ontem e sendo a tudo preso nunca fui refém nem de mim mesmo porque a minha fome não tem distância horizonte não tem nome Sempre que me contam sou inumerável sempre que me caçam sou invulnerável Eu nunca estou no pé e nunca estou no passo a minha dimensão é outra sou o compasso cósmico a que palpitam todas as galáxias e a que se geram flores nos ramos das acácias Não fui planeado nem projecto Não sou vontade . o mesmo foi lançado pela AEMO (colecção Timbila No 16) em agosto de 1997. Alguns dias antes de falecer disse: "gostaria de ter publicado o meu livro". a este tema? Será que a morte nos ensinou a olhar para o homem com pavoroso êxtase? Canto do Verbo em Busca da Forma Autor: Teodomiro Alberto Azevedo Leite de Vasconcelos Moçambique Teodomiro Alberto Azevedo LEITE DE VASCONCELOS nasceu a 4 de Agosto de 1944. Faleceu no dia 29 de Janeiro de 1997.após tantos anos. numa cerimónia que juntou muitos amigos. vítima de prolongada doença. Insumos e dores emergentes".

AEMO/93. p. Ausentes dele qualquer abstracção. declaro por minha honra que deste corpo extraí o que pulsava e fazia cumprir suas funções quando funcionava. 101 Eu. abaixo assinado.Nas letras de prisão lêem-me liberdade não a minha a tua a deles ou a de todos Eu sou a liberdade do desejo Do desejo dos lodos e das aves dos rios dos homens e mulheres de todo o espaço de todas as coisas de todos os seres Por isso eu presido a todos os enganos os do céu os da terra há tantos anos que nem o tempo os lembra Sou a razão de todas as derrotas o coração da mágoa as mãos do desespero Eu sempre estou e permaneço e espero desde o cáos e canto o refazer do desejo na sua liberdade como lábios no beijo Em mim tudo recomeça grão a grão ponto a ponto peça a peça mão a mão sol a sol segundo a segundo porque comigo recomeça o mundo até que tudo seja o que não vejo até que o mundo seja o do desejo" Declaração Autor: Leite de Vasconcelos Moçambique in "Irmão do Universo. Mais declaro que nele não encontrei outro elemento além dos ditos e descritos nos comuns manuais de anatomia. . embalsamador de profissão.

revistas e antologias. Por minha fé ainda certifico a apropriada condição estéril do que remanesceu e expeço via aérea com garantia firme de ser reconhecido por quem o conheceu quando o corpo era inteiro e se reconhecia. 36 XXV Pela noite pela rua passamos gatos e cães somos as lendas raivosas do sangue das nossas mães Pela noite pela rua somos cavernas e vento temos a boca cansada do asfalto e do cimento Pela noite pela rua somos navalhas abertas . colecção Timbila no 12 da AEMO. extraído d' O Ciclo da cidade. "Irmão do Universo" foi o seu primeiro livro. sinais de medo ou discordância em relação à hora da paragem. desagrado. Tem trabalhos dispersos em jornais." Ladaínha Autor: Leite de Vasconcelos in "Irmão do Universo".sintomas de tristeza. p. 1993 Leite de Vasconcelos nasceu em 1944 e é predominantemente jornalista.

são a nossa maior tentação. do Balão. é Luanda uma flor. do Cruzeiro e da Se. uma beleza com perfume e encantos sem par. Como é sem favor.Vem ver ." Baião de Luanda Autor: Reis Ventura Angola Tão velhinha e tao linda. Polo Norte ou Mutamba. na Paris. . e tão presa nos mistérios das ondas do mar.já fomos estátuas mas tivemos canções e festas Pela noite pela rua vendemos a mocidade somos canções esquecidas parasitas da saudade Pela noite pela rua de braço em braço tocado tecemos o nosso tempo levamos a morte ao lado Pela noite pela rua já nem somos o pecado perdoou-nos o silêncio deste seio amarrotado. De S. meu amor! Luanda ao sol-por. divinal! Raparigas do Bungo e da Samba. Paulo à Marginal .

debruçada nas ondas do mar. gravando na areia estranhas grafias onde. Quem cá chega.Tudo isto é Luanda. nos batuques tão ricos de cor. é Luanda que dança e que salta. É Luanda sagaz. quem sabe ver.I Autor: Cândido da Velha Angola in As Idades de Pedra. 1969 É do mar que vêm estas vozes silabando a linguagem das marés. . Este permanente arfar marinho desperta a ressonância de oculto escuro de obscuros templos submersos onde o coração. Tão velhinha e tão bela e fagueira. Pelos bailes selectos da Alta.. cá quer ficar! As Idades da Pedra . cidade e quitanda ao luar. numa festa de vida e amor. desvenda o rumo no sobressalto das ondas. feiticeira.Nesta terra onde eu nasci eu quero casar e ter o meu lar e rir e chorar só por ti.. Samba e Sambizanga ou Portas do Mar . Bungo.

toda a claridade da hora aprofundada no ventre generoso e farto.II Autor: Cândido da Velha Angola in As Idades de Pedra. os olhos da paisagem insular. adormecidos peixes sobre a areia. na babugem das águas. se perturba na iminência do segredo revelado. Idades da Pedra . simples. justificação de sermos outra vez humanos. de olhos vítreos. oculta no tempo. atrai as pegadas para a líquida planura pela saudade de verde glauco que estira o corpo na fronteira do mar. apresentaste o peito à concha do ouvido para que ouvisse . tudo nas pálidas palmas das mãos quando. teu corpo conspirando com a noite. desperta nossa cólera e angústia de malograda fuga e de nos vermos. neste marulhar à concha dos ouvidos. (beijo africano de húmidas pressões).descompassadamente. A viagem regressiva aos ancestrais: O reencontro para lá da linha quebrada. Cheiros de primeira pâtria. materna. nesta urgência de sal em nossos membros. Reminiscência da primeira voz. 1969 As pálidas luas das tuas mãos negras.

errando como sonambulas . em tom de guerra. Dia de Chuva no Mato Autor: Geraldo Bessa Vitor Angola "Chove.o rumor da noite longinqua e permitiste ao sono que viesse. amável. na grande verdade a nosso respeito. ora brando. o vento é o cazumbi dos cazumbis -o deus do mar. em tragicómica festa. espiritos do mal lancam da Altura para incendiar a Terra. e em toda aquela aurora sem mentira arborizando o corpo quebrantado ansiávamos o dia para celebrarmos o cacimbo matinal em nosso olhar no fresco odor da casa de madeira. quais almas do outro mundo. E a trovoada é um batuque incessante. O vento Ora violento. uma estranha batucada. o seu coro de mil vozes. Os raios sao setas de fogo que mesteriosamente. os seus bailados febris. do ria e da florestaque vai cantando e dancando. As nuvens negras sao virgens tontas.

é o pranto (parece eterno) dos deuses negros que a Morte sacrificou no Inferno. Cantaram o feitiço do teu corpo. cantaram o feitiço do teu corpo. constante e forte. e depois embalada pelo amor. olhando o cais.. Que esperas tu ainda? já sabes a tua sina: o branco que partiu não volta mais! E tu.pelo ceu negro e profundo. nessa noite sensual em que tiveste por lencol nupcial uma folha de palma. menina negra linda. Habituada ao balouco da canoa nas margens do rio Dande. oceano não é rio. menina negra. ves o teu lindo sonho que já finda. sonhaste viajar num enorme vapor que navega no mar grande e vai para Lisboa! Ouve. mas não sabias nem soubeste que o branco tem feitiço na alma.. menina negra: mato não é cidade.. E a chuva. dongo não é navio . Não Venhas Mais ao Cais Autor: Geraldo Bessa Victor Angola não venhas mais ao cais..

.. O menino negro não entrou na roda. cantando seus hinos. logo fez reparo.. bailaram seus vôos..as crianças brancas que brincavam todas numa roda viva de canções festivas . . as canções e danças das brutais procelas. que o branco não volta mais! O Menino Negro Não Entrou na Roda Autor : Geraldo Bessa Victor Angola O menino negro não entrou na roda das crianças brancas .e bailou com elas e cantou com elas as canções e danças das suaves brisas. em bando. não venhas mais ao cais. Pássaros.disse um dos meninos com seu ar feliz.e o sonho que sonhaste não é sonho. O menino negro não entrou na roda. A mamã. venha cá brincar" . o menino negro não entrou na roda... o menino branco já não quiz.. é saudade. E chegou o vento junto das crianças .. gargalhadas francas. zelosa. voaram chilreando sobre as cabecinhas lindas dos meninos e pousaram todos em redor. Por fim. "Venha cá. pretinho. não quiz. menino negro não entrou na roda.

. tocam e dancam. povoando a noite calma. absorto. o ritmo do batuque no meu sangue. sinto em mim o batuque penetrando . O batuque ressoa-se nos ossos. em riso e pranto. ficou só. Desolado. agitando meus impetos carnais. parado com olhar cego. é a voz da marimba e do quissange..e já sou possuido de magia! . ressuscitam. calado com voz de morto. e negras bailarinas. cantando. que o vento vai cantando. que vibra e plange dentro de minhàlma. quanto o batuque avanca desflorando o silêncio de virgens madrugadas. Tenho na minha voz ardente o grito desses gritos febris das batucadas. já destrocos. E meus versos sao feitos desse canto. fibra a fibra. colossos. nas noites em que o fogo das queimadas parece caminhar para o infinito. .O menino negro não entrou na roda das crianças brancas. sensuais.e meus sonhos. ficou só. vibra-me nas entranhas. Músicos negros. já mortos. O Feitiço do Batuque Autor : Geraldo Bessa Victor Angola Sinto o som do batuque nos meus ossos. seu ritmo louco no meu sangue vibra.

O batuque de dor e de alegria. o camaleão decidiu firmemente nunca dar um único passo sem se ter certificado da ausência de fogo e doutros perigos. 2 " O desgraçado tinha-se enganado de todo. E. A sua sorte foi passarem por ali. uns viandantes que. colecção " a palavra ao lado". nem mesmo alem do Ceu e alem do Inferno! Capítulo 15. Uma vez curado.. Afinal. onde ficou internado durante muito tempo. Uma vez.A batucada tem feitiço eterno. a 10 de Junho de 1927... nunca mais tera fim. o tiraram do fogo e o levaram a um .. recebendo tratamento que o salvou da morte. naquele mesmo instante. acorrendo em seu socorro. os pés e todo o corpo gravemente queimados. É professor sendo este o seu primeiro livro publicado. província do Niassa. O Camaleão Autor: Alberto Viegas Angola in " O que nos dizem certos animais" (contos e fábulas) Alberto Viegas nasceu em Kharau. queimei-me!. Edição da Associação Moçambicana de Escritores.. vai cumprindo até hoje:. distrito de Cuamba.Uma vez.. que sinto no meu ser. ficando apenas com dois dedos em cada mão e em cada pé. queimei- . Ficou com as mãos. as cinzas não estavam frias como ele pensava e escondiam perigosa e traiçoeiramente um fogo vivo. n. dentro de mim.

mas num estar que é viagem. deixar adormecer o pensamento. Esboroar-me na terra humilde e fria Sem o suor negro da melancolia A orlar-me a testa. . existir sem sofrimento. Existir. 29/1/1941 Isto! E perguntam-nos: .me!. Buscar na placidez o alimento.animais de capoeira. Estar.sois homens? Respondemos: . Iluminar o sol.diz o camaleão de cada vez que levanta e poisa a mão ou pé nalgum sítio. Poeta que não sou. esporear o vento. no seu passo vacilante. Não haver marcas da minha passagem." Nirvana Autor: Jorge Viegas Moçambique in "Vozes Poéticas da Lusofonia". Isto é Que Fazem de Nós Autor: Armenio Vieira Ilha de Santiago. vida que não tive Permiti que o sono que em mim vive Se torne o mais humilde dos meus servos. Sintra 1999 Ser como uma arvore na paisagem. Tornar menos pesada a minha imagem. Cabo Verde. a inundar-me os nervos.

bom dia. Santiago.estais vivos? E em nós as galinhas respondem: . Cabo Verde 19411962 Mar! Mar! Mar! Mar! Quem sentiu mar? Não o mar azul de caravelas ao largo e marinheiros valentes Não o mar de todos os ruídos de ondas que estalam na praia Não o mar salgado dos pássaros marinhos de conchas areias e algas do mar Mar! . Poema Autor: Arménio Vieira Praia...dormimos. Pensamos: lá fora.Dizem-nos: . Isto é que fazem de nós quando nos inquirem: .

Éd. Vieira Guinéu-Bissau in "Um Cabaz de Amores". Ivry-sur-Seine.Raiva-angústia de revolta contida Mar! Siléncio-espuma de lábios sangrados e dentes partidos Mar! do não-repartido e do sonho afrontado Mar! Quem sentiu mar? Sofrimentos Autor> Carlos-Edmilson M. 1998 A dor que em mim mora não é o mal no meu corpo carne destinada à terra húmida última guardiã do sofrimento pois esse já fiz oferenda ao mais Homem de todos os Homens mumificado pela injustiça humana que estrangula o nosso ser a dor que em mim mora é a que vi em Bissau . Nouvelles du Sud.

porque tudo é passageiro. Mas tudo acaba e o tempo tudo anda a destruir. Oh pincelada verde na cidade. na rua do Carmo um coqueiro ficou abandonado quando destruiram a casa velha a que deu sombra.. como filho nos maternos bracos ali ficou. Talvez para saudar alguem que muito sofreu e amou. . nesse pedaco de Luanda antiga agora modernizada. quando se vive a mentir.é a que viveram na travessia para Dakar é a que viveram na travessia para Cabo Verde é a que vejo no corpo dos outros MESMO Coqueiro Autor: Tomaz Vieira da Cruz Angola Ali. E o coqueiro ligado ah terra. ruina e gotica coluna .. E onde um par enamorado teve sonhos de Amor. tombado na direcção da Rua da Pedreira.

porque tudo. Ou. coqueiro morre. E perdoa. . saudavel. laranja. Morre. tao maus.. E a quintandeira passou. na vida. graciosa.. Antes que os homens. será melhor dar-me um veneno qualquer porque eu ando perturbado e o meu sonho anda queimado por uns olhos de mulher! . mas sofre como um homem. fresquinho.. cometam a crueldade de te expulsar e matar. caju.. Morre de pura saudade. com uma flor desfolhada no seu sorriso escarlate. é triste quando se matam almas. Fruta Autor: Tomaz Vieira da Cruz Angol Quitanda de fruta verde. viva. limao. da-me um gomo de laranja para matar a sede. então...de marmore verde. ananas ou abacate!. afinal... coqueiro das verdes palmas.Minha senhora.

N'gola .Saudade Negra Autor: Tomaz Vieira da Cruz Angola não sei.. quase finda! Neta dum soba que acabou chorando.Flor de Bronze Autor : Tomaz Vieira da Cruz Angola Filha de branco que morreu na guerra e de uma preta linda do Libolo..E no ar um som de musica ficou e um perfume de fruta que não matou minha sede Oh agri-doce quitanda da fruta verde!. o que me encanta. por estas noites tropicais. filha de branco que morreu lutando e duma preta tristemente linda! Quissange . a tua dor na terra! Oh flor estranha do febril Capolo neta dum soba que perdeu a guerra! Estatua ardente em bronzeadas chamas que tentação e perdição derramas por sobre a história negra.. .. o teu olhar ate de noite encerra todo o luar das lendas do Catolo! Oh flor estranha! já não tem consolo a tua magoa.

. a tua voz "luena". Que é o destino selvagem duma canção em que tange. e chorando a nostalgia do sertão. já mal escuto a tua voz dolente. Quissange. aqui neste sertão de música dolorosa qual é a voz que chora e chega ao coração. Quissange. Dolente. cantando o sol e o luar.. negra saudade do teu olhar diamantino. Indo mares fora.. já mal a escuto. fatalidade deste meu triste destino. não sei. . por entre a floresta virgem o meu saudoso "Quissange". lá do distante Moxico. por andar ausente... Qual o som que aflora dos lábios da noite misteriosa! Sei apenas. mares bravos. por sobre o mar. que a tua voz. não sei. Quissange.Se é o luar que canta ou a floresta aos ais.. e isso é que importa... dolente e quase morta. que disponho e crucifico nesta amargura morena. lira gentia.

. a queimar minha desdita nas chamas do teu sorriso. meus nervos encandecidos vibram por ti. Por isso vou ah rebita. morrei! Mas deixa a vida que tange.. vou dancar. -Se és tu.. assim.em noite primaveril acompanhando os escravos que morreram no Brasil. tocar o quissange do gentio. longe. não sei. triste. neste verão infinito. exaltando as amarguras. E. não sei. vou dancar e vou beber o vinho do teu olhar. sem ter calma. quase triste e indeciso. oh morte. que me faz entontecer. e as mais tristes desventuras do meu amado Quissange! Rebita Autor: Tomaz Vieira da Cruz Angola Mulata da minha alma batuque dos meus sentidos. a razão de tanto grito. Ouvindo.

..que vive...adormeceu sonhando placidamente sorrindo.. Um dongo flutua na baia.. 1942 Coqueiros esguios .. com que o céu a está vestindo. alem no palmar. onde quero...... Por isso vou ah rebita.. onde corre o verde rio! E depois adormecer na tua esteira de prata......... a queimar minha desdita nas chamas do teu sorriso. morrer..Poesia d'Africa. batuque dos meus sentidos.. Romance de Luanda Autor: Tomas Vieira da Cruz (1900/1960) radicado em Angola desde 1924 in Tatuagem .. quase triste e indeciso.... ... oh minha linda mulata..leques ao vento abanando a Ilha... a negra maravilha condecorada com reflexos de prata com que o céu a está beijando.. E ela.. enfim... ...... Mulata da minha alma.. ..

caem pétalas de sangue. jovem pescador e um brutal Cupido.é o Deus do Amor em bronze reproduzido! Nas águas verdes da baia calma. . Um dongo flutua na baia.Xé mana Rosa peixeira responde? . Vai rompendo a madrugada! Canção Para Luanda Autor: Luandino Vieira Angola A pergunta no ar no mar na boca de todos nos: . caem pétalas vermelhas de uma linda flor de ónix! E o timoneiro.. um preto atleta. duma flor já desfolhada.Luanda onde esta? silêncio nas ruas silêncio nas bocas silêncio nos olhos ..Nas águas verdes da baia calma.

saltando os pes percorrendo caminhos vermelhos de todos os dias? "maboque. ola almocoeee matona calapau ji ferrera ji ferrereee" . .E voce mana Maria quintandeira vendendo maboques os seios-maboque gritando. m'boquinha boa doce docinha" .Mano não pode responder o tempo é pequeno para vender! Zefa mulata o corpo vendido baton nos labios os brincos de lata sorri abrindo o seu corpo .-Mano não pode responder tem de vender correr a cidade se quer comer! "Ola almoco.seu corpo cubata! Seu corpo vendido viajado de noite e de dia.

Luanda onde esta? Mana Zefa mulata o corpo cubata os brincos de lata vai-se deitar com quem lhe pagar .Luanda onde esta? Sorrindo as quindas no chão laranjas e peixe maboque docinho a esperanca nos olhos a certeza nas mãos .Manos Rosa peixeira quitandeira Maria voce tambem Zefa mulata dos brincos de lata .Mano dos jornais Luanda onde esta? As casa antigas o barro vermelho as nossas cantigas tractor derrubou? Meninos das ruas cacambulas quigosas brincadeiras minhas e tuas asfalto matou? ..precisa comer! .

caidos mostraram o coração: . Que importa hoje se o recuso: o ngoma é o som adivinhado! Cançao para Joana Maluca Autor: Joao Maria Vilanova Angola Para eles eras unicamente a suja a piolhosa colhendo beatas á porta do Nacional .os panos pintados garridos. Chorei fado.mana Rosa peixeira quitandeira Maria Zefa mulata .Luanda esta aqui! Sons Autor: Luandino Vieira Angola 1963 A guitarra é som antepassado. Partiram-se as cordas esticadas pela vida.

. Joana eles sabiam tua mao e a temiam (tua mao espinho-de-piteira tua mao ngana-acusadora-mesmo ah! kikata kikata muene) ate quando estendida tua mao pedia. Na escudela da noite entre cassuneiras e muxixis uma pobre escura flor adormecia.E lestos enquanto o sol brincava no ombro alcantilado das encostas seus rafeiros te lancavam de dentro dos quintais. Canção na morte de nga-Caxombo Autor: Joao Maria Vilanova Angola Olho nga-Caxombo ali na esteira deitado morto a todo comprimento Vejo-o caminhar sem descanso do Amboim ao Seles do Seles ao quipeio outra vez ao Seles rotas sem rota mato longe quem que sabia? ..

atrapalhou-se a outra.. Fez parte do movimento CHARRUA e "Terra no Alambique" é o seu primeiro livro.Lei do Passe Autor: Tomas Vimaro Moçambique in "Terra do Alambique". . ". 15 . o qual foi escrito entre 1979 e 1984.. V Capítulo Tomas Vieira Mario. de seu verdadeiro nome.É que não tem mesmo tampa. Olho-o pela vez ultima na luz rasante desse dez de Julho a barba ah monangamba cavada sua negra face morto deitado morto a todo o comprimento..Tipoia o ombro pesava que pesava duramente Zua e voz de Kalandu voz serena do sertao ele a escutava atraves do fogo atraves da agua o geito sem raizes de amar o coração das coisas. Mas minha senhora deve .Ai tem pequeno problema . É jornalista e tem publicações dispersas por jornais moçambicanos e portugueses. . nasceu em Inhambane a 6/5/1959..

. gelatinosa. na atrapalhice das pressas. e a Ancia aproveitou para rir também.Mas. para a questão da tampa . o que é que pensa?! Se os chefes até são os primeiros no roubo! .ter em sua casa panelas do mesmo tamanho. minha senhora. é que não deu tempo.. Publicações da Casa de Cabo Verde Irei na rota branca da rosa de espuma na hora madrugada promissora da brisa. dessa maneira. .E.Então. A sorte.divertida com a história.. como não tem tampa?! . Rota longa rota longa ... para apanhar as tampas.Minha senhora. a Ancia outra vez de mãos nas ancas. não? Então acontece que no mesmo dia que apanhei estas panelas. 1973.. admirada. na fabrica. as tampas quem roubou o chefe!.. o corpo lhe dançava. para mais tarde lá voltar buscar então as panelas. ela mesmo dizia isto rindo as gargalhadas. . Lisboa. por causa dos vigilâncias populares... na gargalhada.apressou-se a considerar. São coisas que a gente tira lá mesmo na hora do despego. o chefe da secção. é que eu cheguei lá a tempo e então carreguei logo as panelas. no seu espanto. está a ver. naquela pressa toda. . tinha chegado primeiro e ficado com as tampas..Minha senhora. ." Rota Longa Autor: Teobaldo Virgínio Cabo Verde in "Viagem Para Lá da Fronteira".

edição AEMO 1989 O peso da vida! . Eduardo White colecção Timbila no 10. Rota longa rota longa Rota longa de espuma vou irei espalhar minhas pétalas ressequidas na hora madrugada das correntes desatadas. Rota longa rota longa Vou irei na hora alta desta vigília e a manhã clara acontecerá. O País em Mim Autor: Eduardo White Moçambique Do livro "O País de Mim".Irei com a pétala ressequida da tórrida paisagem para além das distâncias secas. Rota longa rota longa Vou irei sem detença para além das distâncias secas em busca do abraço ancorado na outra margem da curva líquida. Rota longa rota longa Vou irei contra todas as cadeias protestantes do meu rumo em cada protesto que embarco na ondulação que se desatraca.

1992 Página 17 . mas. não queria somente rasgar-te a ferida. repete-o quantas vezes for preciso até dentro dele tudo durar e ter sentido Deixa nele crescer o sol até tarde.Gostava de senti-lo à tua maneira e ouvi-la crescer dentro de mim. só nunca deixes que sobre para não ser memória. não queria apenas esta vocação paciente do lavrador. Lisboa. Caminho. também. repete-o até a perfeição. a casa da concórdia. a da terra e que é a tua 2. Poemas da Ciência de Voar Autor: Eduardo White Moçambique do livro: "Poemas da Ciência de Voar e da Engenharia de Ser Ave". Assume o amor como um oficio onde tens que te esmerar. em carne viva. deixa-o ser a asa da imaginação.

"Uma mão relampeja na casa da escrita.
Faísca
Troveja.
Procura um claro instante para a aparição.
Pode-se ve-la correr pelo dorso do papel,
deitada do seu lado ou do seu modo rastejante,
pode-se ve-la provando o ruminante delírio das
palavras,
a sua rasante arrumação,
e leva vozes aquela mão em cada delicada passagem,
rítmica, latejante
ou um nervo animal que faz lembrar
a textura pedestre do papel.
Mas a mão voa, explosiva,
e não cai nem agoniza no espaço vibrante onde se
comunica.
Voar é um fervoroso recolhimento.
E no que é quase a medida elementar do esquecimento
a escrita navega
num estuário de silêncio.
Escrever é uma droga antiga,
uma bebedeira que queima com lentidão
a cabeça,
traz as luzes desde as vísceras,
o sangue a ferver nas vias tubulantes,
traz a natureza estimulante das paisagens
que temos dentro."
Página 28
"Ocorre-me agora

a pupila minúscula de uma criança.
A sua engenharia
desde o corpo na guerreira pequenez
ao dedo provador da boca.
Ocorre-me esta criança
este monge da franqueza em seu templo de inocência.
Amo-a. Vivo-a.
Voar é poder amar uma criança.
Sonhar-lhe o peso no colo, as mãos acariciantes
sobre a palma da alma.
Voar é tardar a boca
na rosa do rosto de uma criança.
Pronunciar-lhe a ternura,
a seda fresca e pura
da sua infância.
Voar é adormecer o homem
na mão sonhadora
de uma criança."
Sorrisos Mutilados
Autor: Carlos Zimba
Moçambique
na revista "XIPHEFO", Dezembro 1994
"No meu país
a (in)competência doentia
mutila-nos o sorriso
e nós teimosamente
arranjamos muletas e sorrimos
deitados à sombra da esperancà
esculpida pela nossa paciência
Coragem, gente

pois galopa celere o instante
em que sorriremos sem muletas!"
Os Molwenes
Autor: Isaac Zita
Moçambique
no livro "Os Molwenes"
Com a mão estendida e bem aberta, a cega está
sentada no chão de cimento e move sem descanso as
pálpebras desprovidas de pestanas, pondo a
descoberto, deliberadamente, as cicatrizes vermelhas
que figuram no lugar dos olhos.
Um homem idoso pára à frente dela, olha para as
horríveis orbitas e mete uma mão no bolso de onde
extrai uma moeda de prata.
A seguir, fica alguns instantes a contemplá-la,
indeciso, talvez pensando na alegria que com os seis
bolos comprados com aquela moeda, poderia
proporcionar aos netos quando chegasse a casa.
Uma voz interior segreda-lhe que deve dar a moeda de
prata porque é uma boa acção e lá no Céu, DeusTodo-Poderoso, além de aumentar os seus dias de
vida, irá perdoar todos os pecados que cometeu, até
mesmo aqueles que já tinha esquecido; outra voz,
entretanto, diz-lhe que o melhor será comprar os bolos
e fazer essa surpresa aos netos, que por essas e por
outras, cada vez o adorarão mais.
Por fim, evitando olhar para os olhos da cega, estende
a mão e entrega-lhe uma moeda que ela,
sofregamente, se apressa a guardar na capulana rota e
suja, com uma rapidez inesperada numa invisual.

Fascinado, o homem de idade permanece de mão
estendida e agora vazia, comovendo-se quando a ouve
balbuciar um doce "Obrigado", ecoando como o som
cristalino da água a deslizar num regato celestial.
Quando o homem se refaz do encantamento, já a cega
estende de novo a mão e diz um novo - "Bom dia",
continuando sempre a bater com as pálpebras sem
pestanejar.
O homem idoso recomeça a caminhar, pressentindo
uma lágrima de emoção a querer soltar-se dos olhos e
a voz de Deus-Todo-Poderoso a confirmar que os seus
pecados já tinham sido absolvidos e prometendo, se
ele continuasse a ser assim bonzinho, enviar mais
cedo ou mais tarde, uma pomba direita ao seu coração.
...
...
...
- Avô - consegui interromper eu, finalmente - Porque
é que Deus é sempre branco e Satanás, sempre negro?
É assim que o padreca ensina...
O avô mostrou-se pela primeira vez perturbado e
limitou-se talvez por isso, a olhar alternadamente para
a pele negra que cobria os nossos rostos e mãos.
Depois, levantando-se ruidosamente, apenas disse:
Já vai alta a noite. Vamos dormir, meu filho...
Morte em Dois Actos
Autor: Mauro Pindula

in Jornal Savana, 6/06/1997, Página Juvenil
"Estacionou o carro junto à calçada. Saltou e com dois
passos ágeis entrou no edifício do jornal
"NOTÍCIAS". Dirigiu-se ao sector de publicidade e
preencheu o formulário que encontrou no balcão. Era
um texto necrológico. Humedeceu os lábios e disse:
- É para dois dias.
- Traz a foto? - perguntou o balconista. Era grisalho e
baixinho. O homem que queria anunciar mexeu na
sacola preta de couro e tirou de lá uma foto nítida.
Arrastou a foto pelo balcão e o grisalho recebeu-a.
Não pôde deixar de abrir os olhos: era a foto do
próprio homem.
Entrou silenciosamente e inspirou o cheiro a sândalo.
Era reconfortante. Atirou a sacola preta de couro para
o chão da sala. Foi buscar café à máquina, sentou-se
no sofá e ligou a televisão. Deixou o café a meio e
trocou-o por um uísque.
Entretanto soou o telefone. Levantou o auscultador e
ouviu uma voz rouca e feminina. Já sabia que não
precisaria de cerimónias:
- Jantas comigo?
- Não sei...
A voz do outro lado calou-se.
- Sinto-me algo desestruturado, sabes..."
Stress
Autor: Lilia Momplé

in "Lua Nova". repete ela. recostado na cadeira de napa meio encardida. dadas as suas dimensões. a atenção centrada no copo e no Xirico. procura escamotear de si própria o motivo real da sua indignação. "Bêbado". E. a cor branca das paredes e a ampla porta envidraçada que comunica com a varanda. na enorme sala comum que poderia ser alegre e arejada. um local sombrio. tal a profusão de mobiliário de precioso e escuríssimo jambire. com estas palavras. O homem vai beberricando a cerveja com uma sofreguidão mal contida. 30 . Por um instante. p. a amante do major-general vem até à varanda que dá para a rua. É domingo. maples de veludo e pesados cortinados. 7 A amante do major-general crava os olhos no homem que está sentado na varanda do 2o andar mesmo em frente e sibila. como sempre. e como acontece todos os domingos a esta hora. Xirico na mesinha ao lado. inteiramente preenchido pelo Xirico e pelo copo de cerveja. copo de cerveja na mão. É. a amante do major-general supõe que ele dá pela sua presença mas logo se apercebe que. alcatifas. ansiosa por se libertar de tamanha ostentação. abril/junho 1997. Almoçou sózinha. Consegue vê-lo perfeitamente. aquele olhar resvalante a exclui do seu campo de visão. bibelots de metal. pórem. nº 3. órgão da AEMO. sem desviar os olhos do homem "toda a tarde vai beber". Até mesmo a poeira parece circular na sala agitadamente. indignada: "bêbado". Autor: Simeão Mazuze in "Calças Molhadas". p.

. notou por cima daquela porta estava pintado o No. Não é aqui a cela do senhor Mussava? . Surpreso por não ver o amigo apesar de ainda em paralelo se encontrar outra cama nas mesmas condições. restos duma embalagem de acondicionamento de chá. lia-se num dos cantos a mercadoria que transportara. senão saberia que o Mussava se não está na cela dele o No. 0990. timidamente balbuciou. Empurrando a porta assomou para o interior da cela e abarcou a imagem de um homem deitado sobre um catre de ferro sem colchão coberto com retalhos de cartão. 090 a vermelho. só queria saber onde encontrá-lo. .. Relanceando o olhar em volta. "Five Roses Tea".Obrigado senhor. senhor.Uma voz rouca e baixa convidou-o a entrar. . . Picasso . . Não queria incomodar.redarguiu. desapareça....Já viram isto! Um gajo está a descansar nesta merda fedorenta. Tinha-se enganado.Já disse. a curtir uma de "jell" e aparece um estupor de preso para incomodar e ainda diz que não queria incomodar! O Tomás boquiaberto retirou a cabeça e respirando fundo fechou a porta. está na cela 0303 a conversar com os amigos dele.Boas tardes.Você bateu para perguntar isso? Donde vem você? Não é deste pavilhão concerteza.

É um génio. Não lhe escapou um único pormenor." O Macaco e o Cágado Do livro "Contos Macuas"..repetiu. Só coisas reais.. 1992. meu amigo! . Pinta como se fotografasse.. gostei muito. Uma cabeça que avança no espaço e de cima de um camião. o outro três cabeças. Associação dos Amigos da Ilha de Moçambique . a coisa passava-se em Portugal.. . fielmente pintado. Certo dia. e eu não tenho senão a cabeça falta-me o corpo. . É o retrato do nosso camião.. exacto como uma foto. E só agora começo a perceber. 1996. edição do autor.Parecidíssimo. Tu. Quando vi pela primeira vez este quadro. mas não compreendi o que ele queria representar..Picasso fez o teu retrato. Três homens que ocupam o mesmo lugar no espaço ao mesmo tempo. Era o quadro do nosso camião.O quê? Não oiço nada..O teu retrato . tu tens a voz. tal como estás agora no camião. .O meu retrato? Perguntou Roberto. o . o qual é mais conhecido como cantor Página 8 ".. Um tem cinco pernas.Autor: Simeão Mazuze (Salimo Mahomed) in "Calças molhadas".coordenação de Elisa Fuchs -ilustrações de Malangatana "O macaco e o cágado fizeram-se amigos. mas não tens a boca. Tenho os ouvidos tapados.

respondeu o cágado. O cágado respondeu: . Tem cuidado para não as pores no chão quando voltares.Ah. Quando lá chegou. tentou.Quando é que vais a minha casa? .macaco disse: . Tentou subir. O macaco foi ao poço com a sua mulher. fizeram echima. Lavou as .pensou o cágado. fez echima. Quando lá chegou. mas antes pediu ao macaco: . o macaco matou um galo. . pô-la na mesa e disse: .Está bem . O cágado saiu e foi a casa do seu amigo. o macaco foi a casa do amigo. vem a minha casa.disse o macaco. mataram um galo.Amigo.Hei-de ir na próxima semana . Na semana seguinte. vamos lá comer a echima. o meu amigo pôs a echima na mesa sabendo que eu não consigo subir? .Não há água. perguntou ao macaco: . O cágado deitou fora a água das panelas e disse para o amigo: . Quando estava para sair.Amigo. mas podes lavar as mãos no poço. mas não conseguiu comer a echima! Por fim resolveu ir para casa. dá-me as minhas ferramentas para me ir embora.Está bem. .Amigo.

Foi com a sua mulher despedir-se e pedir as suas ferramentas.Depende. o macaco não aguentou mais e pôs as mãos no chão ficando com elas todas sujas.Pode não ser mau.mãos e começou a andar só com duas patas.Brasil/Livraria Universal. Teve que voltar ao poço para as lavar de novo.refiro-me ao caso de a mulher não ter marido ." echima . O adulto soergueu-se.disse a criança .Mas pode não ser mau? . . . Fez isto tantas vezes que acabou por desistir. Global. Quase ao chegar. apoiado no mesmo braço. in "Contos Moçambicanos".Bem . A partir daí o macaco e o cágado nunca mais voltaram a ser amigos.disse a criança. 1990.Ser mulher e ter um amante é mau? Para ganhar tempo o homem sentou-se. Maputo ".farinha de milho cozida A Guerra dos Cem Anos Autor: Carneiro Gonçalves. remexeu na areia.Ouve . . O cágado tinha queimado todo o capim à volta da casa e havia muita cinza. .

.Mas de qual gosta mais? . Eu é que quero saber.Depende de que?? .De muitas coisas. . E logo a seguir: .insistiu a criança." António CARNEIRO GONCALVES apresentava-se assim: "Tenho trinta e um .disse o homem. .Bem.Parece.me que tens razão. .Não tenho duvidas.Assim como . .Sim. percebes? Isto não tem nada a ver com a minha mãe. vais beber uma laranjada comigo.repetiu o adulto.voltou a criança..Vai à merda. .Olharam-se bem nos olhos. . . e foi então que rompeu a chorar. . . gosta muito dos dois .Estou cheio de sede. vamos ficar amigos. Pergunto para saber. Tenho dez escudos. És um tipo simpático. .Talvez não entendas.disse o adulto .Depende .Desculpa. .De certeza? .Gosta-se sempre mais dos filhos..Calha bem . .

" Não alcançaria o Zambeze. 29-30. ela disse que sim. Com os contos que tenho poderia pelo menos publicar 2 livros. Depois veio aquela coisa difícil. vi a luz do dia em Braga. encontrei-a depois no futebol de quinta-feira. outro domingo. roçava-se nas nossas pernas.. isso não". Faço questão de conhecer o Zambeze. A Lua do Advogado Autor: António Carneiro Gonçalves in "Contos e Lendas". A gazela olhava os nossos abraços.anos.. aquele momento chato de que nenhum homem gosta. publicado a seguir à sua morte em 1974. com força.. que eu tinha a impetuosidade dos rios. com 33 anos. engasguei-me ao princípio. Ri como um perdido. Mais uma saída. não voltaria ao romance nem assistiu ao lançamento do seu livro "Contos e Lendas". No quintal havia uma árvore e uma gazela. Uma vez ela até confundiu o roçar da gazela com uma caricia minha e disse "isso não. mas nasci em Tête. Só costumávamos dar beijos à noitinha. Ensaiei 1 romance que reescrevi várias vezes. Morreu num acidente de viação. Lá falei aos pais . assim a modos de paixão. Depois comparou-me ainda a um rio (isto mais tarde). Instituto Nacional do Livro e do Disco.p. como costumam os homens gostar das mulheres.. que eu devia ser franco como um rochedo. 1980 Eu conhecia Noémia há muito tempo. Vi-a pela primeira vez à saída da igreja e comecei logo a gostar dela. Ontem ia mesmo na primeira pagina. Lá virá o dia. quando viajava para o Zambeze.

mordi-lhe os ouvidos (devagarinho.. O resto.. que sim senhor. seguidinhas. A lua já tinha nascido. p. os senhores sabem como é. Ah! carago.. a nossa mesinha de cabeceira. Faltava um mes para o casamento. isso não" como tinha acontecido da outra vez. Merda para as amigas. Recordo. a tal talhada de que falava o advogado. Formando enormes bichas . Eu disse-lhe não sei quantas coisas. que eu era honesto e bom rapaz. respondia. Noemia ia jantar a casa duma amiga. Ela disse apenas "aqui não". a Luisa. eu ouvia. 44 "Estes foram no momento imediatamente anterior às eleições.). Era sábado.a alegre. disse-lhe muitas vezes que a felicidade de um homem está no verdadeiro amor. a boda". rapariga que eu conheço bem. posso dizer sem mentir que me comoviam os trapos que ela comprava todos os dias e me mostrava sempre. já se vê. capítulo "Candongas e Açambarcamentos na RDA". Autor: Hilário Manuel Eugénio Matusse jornalista e escritor nascido a 22 de Junho de 1956 em Maputo in "Ecos da RDA". fiz-lhe aquela festa que costumava fazer a gazela. à tardinha.. Eu estava aturdido. Nos sábados. Abraçamo-nos. Organização Nacional de Jornalistas. àquela hora em que nos costumávamos dar beijos. Ela disse "aqui não". segundo se comenta. horas a fio. eu gostava dela a valer. ela esperava-me cá fora. no quintal. Uma vez. eu fui franco como o rochedo e impetuoso como o rio. protagonistas de um fenómeno de açambarcamento nunca visto por ali.dela. a festa. que ela não disse "isso não. quando calhava. ela "tenho mais uma renda. lembro-me bem.

mobílias e também produtos alimentares. o quarto do madala Adalfredo costuma não aguentar muito calor. como desta vez.nos maiores estabelecimentos comerciais. optara em comprar bebidas no candongueiro. além de se derreter no zinco que protege a mesinha de cabeceira. mas porque quisera apressar a inauguração da casa. . trata-se de se precaver da união monetária e suas consequências. deixado por um zinco que sempre faltou." A Viagem de Adalfredo Autor: Mapfuxa-tô-tala in "Oásis" . O sol do meio-dia. penetra também por um enorme vazio. São os casos de televisores a cores e vídeos. após as eleições.nº 1. E tudo isso era comprado em grandes quantidades. eles adquiriam tudo o que é caro e raro. pois adquirindo esses artigos todos guarda-se o dinheiro.. de forma a reinvesti-lo em momentos mais adequados e quando as coisas já estiverem claras. Adalfredo Faz de Tudo. de seu nome completo. chegara a ter o dinheiro para comprar aquele zinco. produtos que habitualmente ninguém olhava para eles. os subsídios aos preços desses produtos. 9 .Jovens pela literatura . alcatifas. Pelo que se pode depreender das informações que então correram..publicação regional propriedade da AEMO e financiada pela Cooperação Francesa Toda a vez que chega o Verão. No que se refere aos móveis e a outros artigos valiosos. p. há duas razões para este fenómeno: para os géneros alimentícios o problema está ligado a rumores de que o Governo vai retirar proximamente. electrodomésticos dos mais variados tipos e até de carácter supérfluo.

aquelas tetas ainda verdes que saltavam a corda. e parece-se com ele quando encurvado com a bengala. mais adiante. Perdeuse na noite em que Macuácua. Para tal tive que pedir uma ajuda divina fazendo uma oração. . aquele stapor. que Adalfredo estende-se horas e horas na sombra da bananeira. a localidade mais próxima era Inchope e situava-se a cerca de 180 km. a sua vista mergulhou-o na escuridão. aqueles rapoios de fazer inveja. Como que há-de sentir? Os olhos roubaram a mente e foram ficar lá. havia duas grandes elevações (subidas). retomei a caminhada. O calor aperta o passo. Lembra de tudo.Ele é desempregado! Viagem em Bicicleta em Moçambique Autor: Emídio Mabunda Moçambique in "Viagem em Bicicleta em Moçambique". Lembra do dia do lobolo que ficou com dívida de duas capulanas de chita. bastava Das Dores andar depressa. onde ele vendia dobrada. É por causa desse sol do meio-dia. E a mente começou a levá-lo para viajar na boleia dos tempos em que a sua careca ainda curtia na juventude. a sombra abandona-lhe. 9 Do local onde estava. Lembra da Maria Das Dores. a única mulher que já adorou de verdade. Cansado de ficar distante. com braçadeira castanha-amarela e nariz impinado.Agora a casa sofre de dores de coluna. p. Maria Das Dores perdeu-se no tempo. arrombou a sua porta e indicou-o aos milícias: . Mas. no infinito. desde o dia que viu Das Dores passar pela esquina do Muchina. mas Adalfredo não sente a careca a transpirar. nas quais tive dúvidas em as ultrapassar.

aprendi a desmontar arma e a montar. Tornaram-me a perguntar dos amigos do meu pai e eu repeti a dizer que não sabia. que mataram. Treinei lá na base.Quase a atingir a metade da primeira subida senti nas costelas algo de estranho. Galgados estes dois monstros o vento que fazia sentir sobre mim parou. investigaram-me até . Assim mesmo cheguei num quartel e apresentei aos soldados. Era em Sinhavuro. soprava um vento quente que me empurrava deixando assim de pedalar. cheguei a Inchope onde hospedei na Administração. Logo aqueles soldados disseram para eu ir mostrar onde era. O meu pai era um miliciano que os bandidos mataram quando chegaram a minha casa. abandonei a lata e fugi. mas esperei um ano até ficar bom. Encontramos só uma pessoa. no ano a seguir fui raptado pelos bandidos. Consegui curar com remédios tradicionais. Agora a minha missão era andar a procura de água e de lenha. Então os soldados levaram aquelas coisas da base e eu fui levado para Inhambane. Deixaram-me assim mesmo a sangrar e foram embora. Não sabia onde ia. Quando me pegaram começaram a perguntar de onde eu vinha. só andava de qualquer maneira. Eu aproveitei. província de Inhambane. Tenho 14 anos e sou natural de Massinga. Depois de matarem o meu pai me exigiram para mostrar os amigos dele. Um dia desses mandaram. Vozes do Sangue "Eu sou José Zefanias Machava. Eu disse que não sabia quem eram nem onde estavam. Investigaram-me.me procurar a agura. Eu disse que estava a fugir dos bandidos. a bicicleta ia sempre subindo. Fui lá com a tropa. Então eles cortaram-me um dedo para eu falar. Acabaram-me quatro dedos e eu a dizer que não sabia. Depois de acabar esse ano. assim continuei pedalando todo espantado pelo milagre feito por Deus. Ai zangaram mesmo e cortaram-me uma orelha.

Ilha de Moçambique "Eu. Já estou a estudar na 2ª classe. Fundo das Nações Unidas para a Infância. 1981 1. Edição do Inst. Maputo.enviarem. Maria.Cancioneiro . fui lavar os pés lá no rio onde mora o jacaré Paro e vejo: quem vem dançar? É mamã que traz o Tomé p'ra tocar Toca. Crianças in "Vamos Cantar. ao pé do jardim Eu vi uma árvore tão triste . Crianças" . Nacional do Livro e do Disco. primo Tomé Quero ver como dança o jacaré Ah! o bicho a água engoliu deu a volta. Vivo bem aqui. e UNICEF. saltou e logo tossiu Ei! Já chega meu primo Tomé Acabei de lavar agora o meu pé" 2. Edição Tempografica. Ilha de Moçambique "Queres mesmo saber quem eu vi chorar? Foi ali.Vol.me aqui para o Centro de Lhanguene. toca bem.1. Autoridade Sueca para o Desenvolvimento Internacional. Vamos Cantar. Recolha e tratamento de texto de Eduardo White e Helder Muteia. A árvore que eu vi chorar. A dança do jacaré." O livro "Vozes do Sangue" reúne depoimentos de crianças que foram vitimas de atrocidades da guerra em Moçambique. financiamento da ASDI.

Maria Alegria . sem mais fim Só não sei quem a fez chorar Como a vi posso recordar Tinha um largo tronco.(Tête) "Ouçam o que eu vou contar ouçam o meu cantar Saia todo o dia a levar o gado para pastar via também Maria que logo cedo ia machambar Enquanto o boi mugia eu via Maria com atenção .(Cabo Delgado) "O elefante o elefante passeia o passarinho que lhe tira todos os bichinhos A palapala a palapala passeia o passarinho que lhe tira todos os bichinhos O crocodilo o crocodilo passeia o passarinho que lhe tira todos os bichinhos O passarinho o passarinho voa bem baixinho come muito e volta para o seu ninho" 4. O passarinho e os outros animais . folhas verdes e uma sombra grande uma sombra assim sem mais fim" 3.Porque chorava tanto chorava assim.

pentalido. 18 "Se não estou em erro. nº 4. Este livro é uma merda que não devias publicar agora. Lixem-se. porque consegui singrar ao lado desses filhos da mãe que se acham donos de literatura. relido. Tens inveja de mim. E ficas a saber: o meu livro é um sucesso. treslido. não hei-de o conseguir ler. é que podias ter a ousadia de o mandar publicar. Merecia a gaveta por cinco a dez anos. e mesmo que venha a fazer esforço a mais. cheio de copos na cabeça. E tu. Stefan. Quem quer leia. E tu com a mania de que és amigo desses cágados. e só depois de lido. não consegui ler CASA DE JUSTIÇA.Caguei para ti. tetralido.cara: . p. mandaste-me à fava e: . por ti próprio. .e só queria Maria Alegria morando em meu coração Mais uma vez o galo cantou bem cedo p'ra me acordar mas eu não vi Maria que com João fora se casar Não vou chorar sim vou cantar Não vou chorar sim vou cantar" Um Epidécio ao Escritor Maconde Autor: Stefan Florana Dick texto escrito após o assassínio de Grandal Nkepe numa das barracas de Maputo in revista Lua Nova. fui um dos mais corajosos que te disse cara-a. que não leia. quem não quer. vens a mando deles denegrir a minha escrita.Nkepe.

." Filhos da Miséria Autor: Joaquim Falé Moçambique Pedaços de fundo vagabundo buscando no lixo um mundo perdido fugindo de tudo sábios esquecidos nunca arrependidos Vinde ó ilustres da miséria a nossa hora está chegando recompensa merecida estamos num canto fechados vingando o passado somos o lixo por este ou aquele motivo Levantemo-nos Irmãos! Derrotemos a Razão vão-se desviar de nos vão escutar bem alto a nossa voz rosto aberto de encontro aos mascarados somos flores do Inferno crescemos num deserto açoitados pelo vento noite e dia enfeitiçados pela morte desejados somos cinzas somos restos despojos amordaçados corremos mesmo parados não fujimos quando somos olhados Esquecidos pela esperança vagueamos na escuridão almas desertas abraços de solidão entre as pedras adormecemos companheiros na ilusão somos pássaros da noite artistas com vida de cão . quer queiram.. os outros escritores que achavam que a tua literatura era de dó menor. hão-de ler os teus livros. Os vivos. os alunos que se riam do teu ar boémio nas escolas onde eras professor part-time. como tu próprio tinhas essa certeza.. Morreste. e serão obrigados a admirar-te pela coragem que tiveste em publicar aquilo que te ia na alma e no pensamento. Morreste. Já não tens maçada de aturar professores chatos que te faziam vida negra na Universidade. E lá no subsolo ou no céu. quer não. descansas em paz.

Não temos capas de vergonha não disfarçamos o medo sentimos o desespero não trocamos de lugar não nos podem dominar já mortos nos hão-de lembrar enquanto vivos vão-nos evitar Está-nos reservado o fel sabemos porque pagamos o preço da liberdade fugindo do tempo não temos idade amantes sedentos conquistamos cidades Brincamos como crianças num jardim de terceira idade fingimos ser apenas uma flor no paraíso vingamo-nos da memória bolsas vazias perdidas no Infinito Vestimo-nos no escuro de amor e desespero saímos noite adentro buscando alimento .

08. voltou a Portugal em 1984. o qual viria a retirar da sua biografia. Professor e jornalista. 1962. "Estrangeiros de Nós Próprios" é o seu terceiro livro publicado.1951 na Beira. Portugal. nasceu em Braga. João ARMANDO ARTUR Nasceu na Zambézia. José CRAVEIRINHA José João Craveirinha nasceu a 28. Carlos CARDOSO Nasceu a 10. é actualmente biólogo e um dos escritores moçambicanos mais conhecidos no exterior. Mia COUTO Pseudónimo de Antonio Emilio Leite Couto. publicou Poesias em 1965. Prêmio de jornalismo investigador em 1987.Dados Biográficos Sebastião ALBA Pseudónimo de Dinis Albano Carneiro Goncalves. Jornalista e analista político. Publicou Direito ao Assunto em 1985.1955 na cidade da Beira. escritor. Continua activo como jornalista. O Ritmo do Presságio em 1974 e A Noite Dividida em 1982.07. nascido a 5. Foi jornalista com funções de chefia no diário "noticias" e Agência de Informação de Moçambique. com livros traduzidos em diversas linguas. Os anteriores: "Espelho dos Dias" (1986) e "O Hábito das Manhas" (1990).05. atleta e . Moçambique. Moçambique. Jornalista com o pseudónimo Mario Vieira.03. Radicado em Moçambique a partir de 1950. a 28 de Dez.1922 em Maputo. a 11.1940.

1932 e fez os seus estudos na Africa do Sul. entre outras actividades. Deixou Moçambique em 1975. Orlando MENDES Orlando Marques de Almeida Mendes nasceu na Ilha de Moçambique a 4. e altura em que se estreou na literatura. Foi preso pela PIDE/DGS de 1965 a 1969 por fazer parte da Frelimo. É de nacionalidade portuguesa com alma assumidamente africana. tem numerosas obras publicadas e recebeu alguns prêmios literários. Tem colaboração dispersa por varios jornais e revistas e publicou alguns livros. da qual foi assistente. Licenciado em Ciências Biológicas pela Universidade de Coimbra. Desempenhou (é possivel que ainda assim seja) funções na Embaixada Portuguesa em Londres. Colabodor de jornais e revistas de diversos países. província de Cabo Delgado.cronista. crítico literário e de cinema.08. editado em 1994. colaborou em várias revistas e jornais moçambicanos e portugueses. jornalista. foi um dos elementos mais activos da então Lourenco Marques. Rui KNOPFLI Rui Manuel Correia Knopfli nasceu a 10. Nangololo. Malangatana NGWENYA Malangatana Valente NGWENYA nasceu a 6 de Junho de .08.1916. teve que sobreviver.Poeta. Poeta. "Casa da Justiça" foi o seu primeiro livro. Depois de uma adolescência bastante vagabunda. romancista e dramaturgo com numerosas obras publicadas. Com diversas participações na imprensa escrita moçambicana. Rafael KNEPE Rafael André Luis Grandal Nkepe nasceu a 10 de Maio de 1958 em Muidumbe.

teatro. faz poemas.1983. Publicou Os Molwenes. 8ª e 9ª classe quando morreu. Moçambique. cerâmica e escultura. Professor durante 2 anos.07.1961. Malangatana. com apenas 22 anos. dança. Representado em inúmeros museus e colecções particulares em todo o mundo. que canta.1936 em Matalana. Produziu uma vasta obra no campo da pintura e é hoje um dos mais notáveis artistas africanos. artista multifacetado.02. a 17. é grande animador sócio-cultural e vê erguer-se presentemente o sonho de construção do Centro Cultural na sua aldeia natal. . Isaac ZITA Isaac Mario Manuel Zita nasceu em Maputo a 2. freqüentava o curso de Professores de Português para as 7ª.

ch ] que você está cordialmente convidado a visitar.org — Maio 2008 . todos os créditos identificados.ebooksbrasil.org].Esta RocketEdition® é de inteira responsabilidade e iniciativa de ebooks@TeoCom [http://www.com *** pdf: eBooksBrasil. editorado para RocketEdition e.org/ebooks] e Teotonio Simões [teotonio@teotonio.teotonio.Do Rovuma ao Maputo" [http://nicewww.Pinto-Pereira@cern. Autorizado o uso e reprodução apenas para fins educacionais. Foi preparada a partir de texto público localizado em "Autores Africanos . RocketEdition® setembro de 1999 www.cern. Todos os direitos de versão para RocketEdition® renunciados. mencionados e explicitados.ch/~pintopc/www/africa/africa]mantida por [Carlos. Todo conteúdo original foi preservado.

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