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Do Rovuma ao Maputo
Antologia de Autores Africanos
Organizada por
Carlos Pinto Pereira

Introdução a esta edição
Entre Brasil e os países africanos de língua portuguesa,
"apenas um mar nos separa"...e isto é muito pouco nos dias de
hoje. O leitor desta RocketEdition TM da eBooksBrasil vai
notar, pelos escritos de seus poetas e escritores, que a língua, o
coração e a história nos une.
Resultado da correspondência entre amigos, infelizmente este
exemplar não pode reproduzir a correspondência entre eles,
que se trata de literatura epistolar...e das boas.
Ela, entretanto, está disponível em "Autores Africanos - Do
Rovuma ao
Maputo" [http://nicewww.cern.ch/~pintopc/www/africa/africa]
coordenado por Carlos Pinto Pereira [Carlos.PintoPereira@cern.ch], obra que mantém em conjunto, entre outros,
com Mario Vaz [mario.vaz@sympatico.ca], Joaquim Fale
[Joaquim Fale: joaquim@joafal.uem.mz], Vicenzo Barca
[Vincenzo Barca: mc8717@mclink.it], Abdul Cadre
[abdulcadre@mail.telepac.pt], Eduardo M.L. Paes Mamede
[e.p.mamede@mail.telepac.pt], Paulo Lemos:
[lemoszp@super.com.br], Margarida: [guidasc@ldc.com.br].
Ao corresponder-me com ele sobre esta edição, recebi este email que, por si só, vale por uma apresentação, e por isso aqui
vai transcrito:
Viva Teotonio
Aqui estou a responder-lhe como prometi ontem.
Como deve imaginar não tenho quaisquer direitos de
autor sobre os poemas publicado na WEB e faço-o
(fazemo-lo) pois achamos que é uma maneira de os
fazer conhecer.

Se o seu objectivo é o mesmo então ficaremos muito
gratos que lhe dêem ainda mais possibilidades de se
fazerem conhecer.
Um abraço para si também.
Carlos
Sim, leitor, queremos que você os conheça. Por isso, sem
mais, a eles.

ÍNDICE
A-B-C-D-E-F-G-J-K-L-M-N-O-P-R-S-T
-V-W-Z
-AABRANCHES, Henrique (Ago)
Ao Bater da Chuva
ALBA, Sebastião(Moz)
A Pomba para o Cheina
ALCÂNTARA, Adriamo (Moz)
A Utopia dos Olhos Escancarados
ALCÂNTARA, Oswaldo (Cpv)
Filho
ANAHORY, Terêncio (Cpv)
Nha Codê
ANDRADE, Costa (Ago)
Contratados
ANTÓNIO, Mário (Ago)
Uma Negra Convertida
Rua da Maianga
ARTUR, J.Armando (Moz)
Arte de Viver
Divagações
AZEVEDO, Lícinio (Moz)
O Comboio de Sal e Açúcar
AZEVEDO, Pedro Corsino (Cpv)
Conquista
Galinha Branca
Terra Longe
-BBARBEITOS, Arlindo (Ago)
Em Teus Dentes

Fernando (Moz) . Conto Amor de Baoba CHIZIANE. Ruy Duarte de (Ago) Chagas de Salitre Dias Claros Diogo Cão às Portas do Zaire Novembrina Solene Venho de um Sul CASSAMO. Jorge (Cpv) Canção de Embalar Prelúdio BARCA. Carlos (Moz) Cidade 1985 CARVALHO. Paulina (Moz) Balada de Amor ao Vento COUTO.Vamos Cantar. Alberto da (Moz) Um Cão em Maputo BUCUANE. Juvena (Moz) O Húmus do Homem Novo -CCACHAMBA. António (Ago) Árvore de Frutos Um dia CARDOSO. Simeão (Moz) Xikalamidade Xirico CANCIONEIRO . Suleiman (Moz) Nyeleti. Crianças Cantos 1-4 CARDOSO.Esperança Mão Frágil Saudade Vem Ver BARBOSA.

Mia (Moz) A Adivinha A Confissão de Nhonhoso A Multiplicação dos Filhos Estréia nos Viventes Cartas dos Primos Ladrões Governado Pelos Mortos Mar Me Quer Nas Águas do Tempo Venho Aqui Brincar no Português CRAVEIRINHA. Alexandre (Ago) A Sombra das Galeras Carta .Feições Para um Retrato COUTO. José (Moz) A Nossa Casa Aldeia Queimada Barbearia A Boca Cela 1 Depoimento Autobiográfico Eles Foram Lá Fábula Gente a Trouxe-Mouxe Gula Outra Beleza Reza Maria Sementeira Terra de Canaã CRUZ. Viriato (Ago) Makèzú Namoro Serão de Menino -DDÁSKALOS.

Manuel Meigos (Moz) Arremessos FILIPE.. -FFALÉ. Elisa (coord) O Macaco e o Cágado -GGEDEÃO. António (Prt) A Pedra Filosofal . Mário (Cpv) Viagem na Noite Longa FORTES.Morna FONSECA..Manhã No Temporal da Revolução O Meu Amor Poesias Porto E Agora Só Me Restam DICK. Corsino (Cpv) De Boca a Barlavento Girassol Pecado Original FUCHS. Alda (Stp) Em Torno da Minha Baia Onde Estão os Homens. Joaquim Filhos da Miséria FEIJOÓ. Stefan Florana Um Epidécio ao Escritor Maconde -EESPÍRITO SANTO. Lopito (Ago) Meditando FILIMONE. Daniel (Cpv) A Ilha e a Solidão .

Rui (Prt) Aeroporto Mangas Verdes com Sal Matinés do Scala Miradouro Naturalidade A Pedra no Caminho . Henrique (Ago) Vem. Gulamo (Moz) Moçambicanto I KNEPE. António . Grandal (Moz) Casa da Justiça KNOPFLI. (Ago) Por uma Sereia de Treva Psicoalteração do Rato No Jardim da Noite com Estrelas -JJACINTO. Cacimbo GUITA Jr. Carneiro A Guerra dos 100 Anos A Lua do Advogado GONÇALVES.(Ago) Carta Dum Contratado Castigo Pró Comboio Malandro Declaração Era Uma Vez Monangamba Vadiagem -KKHAN.GONÇALVES. Zeto Cunha (Ago) Escorraçados da Morte Os Ombros Modulam o Vento GUERRA.

Gabriel (Cpv) Caminho Longe Única Dádiva MATUSSE. E.-LLANGA. Gouvea (Moz) Canção da Angonia LOBO. Hilário M. Emído Moçambique Vozes do Sangue MAIMONA. João (Ago) Arte Poética As Muralhas da Noite Memória Poema para Carlos Drummond de Andrade MARGARIDO. Manuel Sousa (Moz) Menir Barroco -MMABUNDA. Hortencio (Moz) Mabogue ya M'bizwa Topas-ou-viras LARA. Candongas . Alda (Ago) Noite Prelúdio Presença Africana Regresso Rumo LEMOS. Maria Manuela (Stp) Alto Como o Silêncio Paisagem Serviçais Socopé Vós Que Ocupais a Nossa Terra MARIANO.

A Viagem do Adalfredo MAZUZE. Yolanda (Cpv) Barcos MOSSE. David (Ago) África Espera O Sol Nasce a Oriente MOMPLÉ. João (Ago) Dunas MENDES. Marcelo (Moz) Chão de Pátria MUIANGA. José Luís (Ago) De Asas Sob a Terra MESTRE. Minh'amor MUTEIA. Filimone (Ago) Morte MELO. Orlando (Moz) Exortação História Noiva Para um Fabulário MENDONÇA. Helder (Moz) Ai o Mar Ensaio de Lágrimas Reflexão -N- . Líla Os Olhos da Cobra Verde Stress MORAZZO. Simeão Calças Molhadas Picasso MEIGOS. Aldino (Ago) A Noiva de Kebera Maria.

Marcelo (Moz) A Lua e a Morte PINDULA.(Cpv) Mané Fú Reminiscência . Eugénia (Prt/Ago) Poema à Mãe Angolana NEVES e SOUSA (Ago) Angolano Ilha de Moçambique NGWENYA Malagatana Valente e N.NETO. Agostinho (Ago) Antigamente Era Com os Olhos Secos Confiança Lá no Horizonte ou 'Poesia Africana' O Choro de África NETO. Virgilio . Mauro Morte em Dois Actos PINTO DE ABREU. António (Moz) Milagre Obstéctrico PIRES. Mutxhini (Moz) A Coruja Amor Verde Double Trouble Mamã Preocupada Pensar Alto -OOSÓRIO. Oswaldo (Cpv) O Cântico do Habitante Cavalos de Silex Holanda Manhã Inflor -PPANGUANA.

Luis (Cpv) Símbolo Vida RUI. Jofre (Ago) Paisagem do Nordeste Quando a Manhã Vier ROMANO. Arnaldo (Ago) A Vigília do Pescador SANTOS. Ana de (Ago) A Abóbora Menina Núpcias Rapariga SANTOS. Aires de Almeida (Ago) Mulemba Meu Amor da Rua Onze SANTOS. M. Onesimo (Cpv) As Águas Quadro . Correia da (Ago) Canção do Silêncio SILVEIRA.-RROCHA. Marcelino ou Lilinho Micaia Kalungano (Moz) Ódio Sonho de Mãe Negra SANTOS. Monteiro (Ago) Tudo Treme SAUTE. Manuel (Ago) O Jogo Museu -SSANTANA. Nelson A Pátria Dividida Ignorância SILVA.

Julião Soares (Gwb) Cantos de Meu País SOUSA. Noémia (Moz) Magaíça SUKRATO (Cpv) Não me Lavem o Rosto -TTAVARES. João (Cpv) Exemplo Fragmento VASCONCELOS. Cândido da (Ago) As Idades da Pedra VICTOR. António (Moz) O Coleccionador de Quimeras Nunca é Tarde -VVARIO. José Luís (Cpv) Curvo-me TAVARES. Leite (Moz) Canto do Verbo em Busca da Forma Declaração Ladaínha VENTURA.SOUSA. Paula (Ago) Cerimónia de Passagem TENREIRO. Reis (Ago) Baião de Luanda VELHA. Geraldo Bessa (Ago) Chove Não Venhas Mais ao Cais O Menino Negro Não Entrou na Roda . Francisco José (Stp) Coração em África Romance de San Martinho TOMÉ.

(Gwb) Sofrimento VIEIRA da CRUZ. Armério (Cpv) Isto é Que Fazem de Nós Mar VIEIRA. Jorge (Moz) Nirvana VIEIRA. Tomáz (Ago) Coqueiro Fruta N'gola Quissange . Teobaldo (Cpv) Rota Longa -WWHITE. João Maria (Ago) Canção para Joana Maluca Canção na Morte de Nga-Caxombo VIMARO.Saudade Negra Rebita Romance de Luanda VIEIRA. Alberto (Ago) Camaleão VIEGAS. Luandino (Ago) Canção para Luanda Sons VILANOVA. Eduardo (Moz) O país de Mim Poemas da Ciência de Voar -ZZIMBA. Carlos-Edmilson M. Tomas (Moz) Lei do Passe VIRGÍNIO. Carlos (Moz) .O Feitiço do Batuque VIEGAS.

Isaac (Moz) Os Molwenes Alguns Dados Biográficos Esta edição .Sorrisos Mutilados ZITA.

que agudiza o bater da chuva. A humanidade é fria. As mulheres já choraram tudo . são a descontinuidade do tempo interrompido dentro da casa que arrombaram ontem.. Os homens dizem de quando em quando um nome obstinado. A chuva cai em bátegas doces.Ao Bater da Chuva Autor: Henrique Abranches (Angola) A porta fechada é uma obsessão. As vozes caladas em torno de nós. as pausas alongadas em silêncios de uma angústia nova. Como ela nos lembra o som odiado que dia após dia nos sobressalta! . no coração da aldeia do Mazozo. e soa. A chuva matraqueia ainda e sempre na porta fechada como uma obsessão. a chuva bate o capim molhado.A Mãe Gonga comandou o coro. Chamava-se Infeliz aquele rapaz que levaram ontem do coração da aldeia. Esvaem-se agora em surdina muda..

que dia após dia desce o morro da Calomboloca e bate naquela porta fechada.Como ela recorda o som da metralha. E ninguém sabe do Infeliz. Lisboa 1981 Pontos de vista entrecruzam as balas e nós ensaiamos a pomba desenhando-a encurvando-lhe o dorso antes do voo largando-a no prisma puro dos olhares da multidão Logo uma estrela fugaz se lhe cola ao bico Rodopiará no céu entre colunas colossais de cogumelos e sóis que a inflectem mas bem aninhada no oco habitáculo de penas . então.Foram fuzilados. em sobressalto. A Pomba Para o Cheina Autor: Sebastião Alba Moçambique Do livro "A noite Dividida".... silencia a aldeia. Edições 70. Quando ela vem. aquele rapaz que levaram ontem. o povo diz: .. obsecada de protecção! A gente conhece o som da metralha quando ela vem no fim do dia.

A Utopia dos Olhos Escancarados Autor: Adriano Alcântara Nos Cadernos "Diálogo" alguns autores desconhecidos do grande público tiveram a oportunidade de ver trabalhos seus publicados. .ridícula como o poeta a dizia uma simples carta de amor cuja verdade ofereça fogosa o seu pudor sinceros significados tão prementes que a ouro fiquem bordados no seio nu das palavras inexistentes. imune farás tombar do muro os pecados com que este presente impune procura sarcástico esconder-nos o futuro. É o caso de Adriano Alcântara. arrepia caminho e não ouses.Joaquim Falé Se num momento de loucura acaso arriscares acima do tédio e afoito sozinho dobrares a agreste solidão da esquina dos dias. Nunca ouses monstro malfadado . Se depois com ardor escreveres . Se porém impossível te for a sangria das palavras a sério e ao cansaço sem outra saída com fúria não conseguires opor a beleza dum punho bem apertado. poderás então entrever por entre as brumas do tempo a imensa multidão e o verde prazer das tuas mais urgentes utopias.com a chave em nossa mão.

Nicolau. Porque só o amor mata a hipocrisia e reconhece os homens iguais porque para além deste dia só de olhos escancarados se sonha a utopia. . Quando acordares a jornada será mais longa. entra. Onde estiveste. o fantasma ficou lá longe. Nicolau. menino. roça.dobrar a esquina deste tempo de cobardias prenhe e silêncios cheio. Filho Autor: Oswaldo Alcântara (Cabo Verde) Nicolau. Nicolau. menino. Porão. Dorme sem medo. Vem dizer-me onde foi que tu estiveste e a estrela fugiu das tuas mãos. medos imediatos. que trazes a arrastar o teu brinquedo morto? Nicolau. Tens comigo o teu catre de lona velha. Deita-te. menino. onde foi que deixaste o corpo que te conheci? Deus há-de querer que o sono te venha depressa no meu catre. entra. tudo ficou lá longe.

noite de qualquer dia. Roubaram o teu riso e encheram de gargalhadas de luz e de música as suas reuniões frustradas..Nha Codê Autor: Terêncio Anahory (Cabo Verde) in "Caminho longe".... E em mim essa saudade de nha Codê! Contratados . 1962 Tiraram o lume dos teus olhos e fizeram braseiro para aquecer a noite fria.) Nha Codê vive na evocação de um mundo distante no riso e no choro das ervas rasteiras na solidão dos campos nas pândegas de marinheiros na vida que nasce e morre em cada dia que passa! . Da tua pele fizeram tambor para nos ajuntar no terreiro! Dondê nha Codê? Não não mataram o meu filho que eu sei que o meu filho não morre. (Se choro são saudades de nha Codê.

longe. renasce em cada braço a força de um secreto entendimento. da cor do carvão. de panos escuros. . Uma Negra Convertida Autor: Mário Antonio (Angola) Minha avó negra..... Andas de luto. Canções que os velhos cantam murmurando. e nos homens cansados de lembrar a distância vai calando mágoas. Minha avó negra de panos escuros que nunca mais deixou.Autor:Costa Andrade (Angola) (1959) A hora do sol posto as rolas traçam desenhos de feitiços sinuosos caminhos sob a calma das mulembas e abraços de segredos e silêncios.muito longe um risco brando acorda os ecos dos quissanjes vermelho como o fogo das queimadas com imagens de mucuisses e luar. .....

Avózinha.. quitabas e quifufutilas . dos quimbandas... tuas mãos. ora tranquilas. dos sonhos de alambamento que supunhas merecer... E penso que. Tuas mãos de dedos encarquilhados. talvez revivesses as velhas tradições! Rua da Maianga Autor: Mário Antonio Angola Rua da Maianga que traz o nome de um qualquer missionário mas para nós somente .toda és tristeza.. ouço vozes que te segredam saudades da tua velha sanzala. se pudesses.. desfilam as contas gastas de um rosário já velho.. no óbito. e da tua mocidade só te ficou a saudade e um colar de missangas. rompeste com a velha tradição dos cazumbis. das algazarras dos óbitos. Não xinguilas. tuas mãos que preparam mimos da Nossa Terra. Teus olhos perderam o brilho. da cubata onde nasceste.. das tentadoras mentiras do quimbanda.. tuas mãos calosas da enxada... Heroína de idéias.. às vezes.

a rua da Maianga Rua da Maianga às duas horas da tarde lembrança das minhas idas para a escola e depois para o liceu Rua da Maianga dos meus surdos rancores que sentiste os meus passos alterados e os ardores da minha mocidade e a ânsia dos meus choros desabalados! Rua da Maiaga às seis horas e meia apito do comboio estremecendo os muros Rua antiga de pedra incerta que feriu meus pezitos de criança e onde depois o alcatrão veio lembrar velocidades aos carros e foi luto na minha infância passada! (Nene foi levado pró hospital meus olhos encontraram Nene morto meu companheiro de infância de olhos vivos seu corpo morto numa pedra fria!) Rua da Maianga a qualquer hora do dia as mesmas caras nos muros (As caras da minha infância nos muros inacabados!) as moças nas janelas fingindo costurar a velha gorda faladeira e a pequena moeda na mão do menino e a goiaba chamando dos cestos à porta das casas! (Tão parecido comigo esse menino!) Rua da Maianga a qualquer hora o liso alcatrão e as suas casas .

..as eternas moças de muro Rua da Maianga me lembrando meu passado inutilmente belo inutilmente cheio de saudade! A Arte de Viver Autor: Armando Artur Moçambique Habito no halo dos meus versos onde incansavelmente rimo palavras sem rima e seco lágrimas sem pranto é a arte de viver. como lacrar a vida e o amor sem cantar? como vencer o tédio e o temor sem bailar? eis a razão porque sonho sem sono porque voo sem asas porque vivo sem vida no avesso dos versos escondo o tesouro da minha contrariedade o mistério da minha enfermidade e o feitiço da minha eternidade Divagações Autor: Armando Artur Moçambique .

Capítulo de "Estrangeiros de Nós Próprios" Publicado pela AEMO. Omar não se intimida. aqui onde o tempo pára e as coisas mudam. velhote .diz Omar. acocorados. editado em 1997 ". No próximo combate. nº 15 da colecção Timbila (outubro de 1996) Pelo dever de resistir e caminhar pelos destroços da nossa utopia. Os soldados espantam-se. não podem tocar na carga ." O Comboio de Sal e Açúcar Autor: Licínio de Azevedo Moçambique Trechos do livro "O comboio de sal e açúcar". com gravidade. . Este sempre será O nosso amanhecer. a primeira bala é para ti. no tear da nossa existência. Associação dos Escritores Moçambicanos. eis-nos aqui de novo. eis-nos aqui de novo.Vocês não podem fazer isto! . E para que o nosso sonho renasça com a levitação do vento e do grão. . E a nossa perseverança é como a da erva daninha que lentamente desponta na pedra nua.diz um dos soldados.Cuidado.Eu conheço os regulamentos militares. Vocês estão aqui para defender o comboio e o que ele transporta. . passivos como os espelhos.afirma.

levando os companheiros consigo. . Ela resiste. . ameaçando Omar com a mão fechada. mas não há nada à venda.Não vou . junto à estação. aperta os lábios e bate com o pé direito no chão. mas gente de cidade. Elas continuam abertas apenas por formalidade. Informados de que vão ficar ali até o dia seguinte. como se agarrasse um pau. temos que escrever a verdade.defende o primeiro...Eu sou o condutor coordenador destes três comboios.diz outro soldado." . há muito que não são abastecidas..Vamos dar-te chamboco . grande e bonita.Este velho é maluco. determinada a não ceder.. vestida com modéstia.Um tiro.Saiam daqui! O que querem? Ele agarra a jovem por um braço e começa a arrastá-la para o "ferro" onde está o barco. . Não vou cozinhar para si .. . nos nossos. esteiras e mantas que nem todos têm. com uma atitude agressiva. . . As pessoas que estão por perto fingem nada ver ou ouvir e afastam-se. Salomão lhes grita: .fala o soldado que parece liderar os outros e se afasta. A tentativa de saque obriga Omar a permanecer no seu furgão. os viajantes instalam-se nos arredores dos comboios. Vocês põem nos vossos relatórios que o vagão foi assaltado mas nós.diz a jovem. quer confusão com a tropa.. pois respondemos pela carga perante os CFM. com atenção redobrada aos vagões de carga.Eu dou-te um tiro . é melhor não se envolver em assuntos de militar com mulher. . indiferente aos olhares das pessoas que circulam por ali.Não digas que não te avisámos.. o alferes Salomão está parado diante de uma jovem de pouco mais de vinte anos.ameaça Salomão. com as suas cozinhas improvisadas. Basta um tiro . mas as suas forças são insuficientes contra os músculos bem . com firmeza. Surge logo um pequeno mercado de lenha. "No 1103. Muitos "passageiros" percorrem as cantinas. Mesmo assim.Não sou sua mulher...ela grita. velhote .

.treinados e a habilidade do corpo seco do alferes.Quer ajuda. completamente perdida. Para isto precisa de mais do que a sua força física e leva a mão ao coldre. . Surpreendido. .Aqui a conversa é de homem para homem e quem manda no meu comboio sou eu .Esta gaja tem que levar porrada . . no entanto. exaltado. que acredita estar.Largue-me! Largue-me! Soldados que assistem à cena sorriem. com dignidade.Não me provoques.Ganhei a minha patente a combater. o alferes olha para Taiar sem sacar a pistola nem largar a jovem.Largue-a! . Dez anos! Tenho direito à mulher que quero! Ao responder ao tenente. Os civis demonstram agora que vêem e ouvem. como se alguém tivesse tocado na corda adormecida da sua coragem.diz Taiar.Taiar ordena. agora. mansamente. param de sorrir e observam a cena.declara Salomão. todos eles da escolta de Salomão. ninguém me dá ordens a respeito de mulher . com manifesta antipatia pelo tenente. Taiar permanece calmo. Dois soldados do alferes aproximam-se. querendo intimidar Taiar com as suas AKM. mas não consegue fazê-la subir. Ela não pára de gritar. .O alferes vai dar-lhe porrada é na esteira .comenta um deles. . parando ao seu lado. . e fica a assistir ao desfecho do confronto.pergunta o tenente Taiar. como se fosse algo tão natural como marido bater em mulher que não obedece. Sem lhes dar atenção. Salomão? . enfrentando em silêncio o olhar ameaçador de Salomão. .Tenente.diz um outro. capitão.continua o alferes. ele larga o braço da jovem que se afasta uns metros. seguro de si. indiferente à . Os soldados mais próximos. Vai pilar esta gaja! Salomão arrasta a jovem para junto do "ferro". A sua ordem espalha electricidade no ar. . Salomão . sem erguer a voz.

Rosa percorre a composição e decide-se. sem se deter. como quem pronuncia uma condenação: . o tenente segue em direcção ao seu comboio. sem nenhum motivo especial. para dormir um pouco. . pois aqui já não me sinto segura. Conquista Autor: Pedro Corsino Azevedo (Cabo Verde) in "Claridade". 1947 Trás!. testemunha do ocorrido com Rosa." Licínio de Azevedo é um cineasta brasileiro radicado em Moçambique. n°5.. Sou enfermeira. no "ferro" em que está Mariamu. De agora em diante. Explodiu a Verdade. procura também mudar-se para o 1101. duas sacolas de tamanho médio e um estojo branco com uma cruz vermelha. posso. Um casal que viaja no 1103. pega nela e vai atrás dele.diz Taiar. Ela corre até o "ferro" onde tem a sua bagagem.expressão de desprezo de Salomão.. A jovem segue atrás dele e emparelha com a sua marcha. cada um tem lugar marcado. Salomão impede-o. O meu nome é Rosa. gostaria de ir para o seu comboio.Faça o que quiser . mal olhando para ela. Sem voltar a olhar para ela. andando com dificuldade devido ao peso. por ficar no meio dela. Taiar dirige-se ao furgão do 1101. .. Agora sou capaz De tudo .Ninguém muda de comboio durante a viagem..Obrigada por me ter ajudado.

. cristal. Nem pinga de água. Montes nus...Indiferente e quedo e mudo Deixarei escangalhar o brinquedo Que temi na Infância. A agonia Da gente pobre . julho 1964 Sol de Agosto. Meio-dia. Galinha Branca Autor: Pedro Corsino Azevedo (Cabo Verde) in "Mensagem". Ricos Fanicos Que recolhi na mão. Casa dos Estudantes do Império. Desilusão! Cristal. O céu plasmando infernos. Litoral ardente. cristal! E eu a namorar o mal. Nem dá gosto Viver. Rasgou-se o céu em mil fatias lindas. ano XVI. Na valsa doida do vento leste. Raios a prumo. n°6. Pó vermelho..

O olhar mudo Que sufoca gritos Que não partem.Não!. E mais: É mim É bô É Carlos É Valério É Fêdo.. todos.. E mais.... Catando Grão De milho Em anos de crise. Depois da ceia. Brincam crianças Ao canto da varanda: Galinha Branca Que anda Por casa De gente Catando Grão De milho. Mas: Noite de luar. . . Somos todos.Pobre de tudo -. Vento amainado.

A única esperança. Galinha branca O espectro da morte A sorte De todos.Canivetinho Canivetão Vá Té França. Terra-Longe . França lendária Terra longínqua De onde os meninos Costumam vir em cestos E para onde Em anos de crise Num cesto de pau (Mácabra nau!) Canivetinho Canivetão Coitadinhos Vão!.. Canivetinho Canivetão Vá Té França... .. Olha pra mim! Assim.

gritam: vai! Mas a voz da minha mãe.1947 Aqui.. gente-gentio come gente" A doce toada meu sono caía de manso da boca de minha mãe: "Cala. pequenino. não montes tal cavalinho. Terra-longe! terra-longe!. terra-longe tem gente gentio gente-gentio come gente". perdido. tantas saudades!. eu. com eles. aconselha ao filho amado: "Terra-longe tem gente-gentio. Hoje. cansado pela febre do mais-além. "Ai.Oh mãe que me embalaste . cala. terra-longe tem gente-gentio.. lá no fundo. zangado pelo sonho que não vinha. a gemer de mansinho cantigas da minha infância. tal cavalinho vai terra-longe.Autor: Pedro Corsino Azevedo (1905-1942) (Cabo Verde) in Claridade. gente-gentio come gente". distante das realidades que apenas sonhei.. e. suponho minha mãe a embalar-me. meu menino. Depois vieram os anos.. .

angolê. Sintra 1999 Por entre as margens da esperança /e da morte meteste a tua mão .Oh meu querer bipartido! Em Teus Dentes Autor: Arlindo Barbeitos Angola Em teus dentes o sol é diamante de fantasia a lua caco-de-garrafa e a mentira verdade vagabunda errando de cágado em torno da lagoa dos olhos da noite na treva aveludada de tua pele os dedos curiosos são estrelas de marfim à busca de um dia caprichoso despontando de miragem por detrás das corcundas de elefantes adormecidos (Angola. angolêma) Esperança Autor: Arlindo Barbeitos Angola in "Vozes poéticas da lusofonia"..

e eu vi alongados nas águas os dedos que me agarram em lagoa de um sonho corpo de jacaré é soturna jangada de palavras /secas por entre as margens da esperança /e da morte Mão Frágil Autor: Arlindo Barbeitos Angola em mão frágil de amarelo se quebra o galho de gajajeira pela tardinha vermelha em flor sussurrar de vento não é voz de capim crescendo é murmúrio impaciente de gentes no azul de parte alguma em mão frágil de amarelo se quebra o galho da gajajeira pela tardinha vermelha em flor (Angola. angolêma) Saudade Autor: Arlindo Barbeitos Angola. 1940 saudade é o tempo de pacassas pardas . angolê.

Angolêma) Vem Ver Autor: Arlindo Barbeitos Angola escuras núvens grossas de outros céus vindas entrançando-se por entre asas de pássaros canibais e chuva de feiticeiro em sopro de arco-íris dependurada irmão vem vem escuras núvens grossas temem o sol de nossos olhos todos pássaros canibais a garra de nossas mãos todas e chuva de feiticeiro se perde no ar de nossos copos todos irmão . Angolê.e macacos sem rabo servindo de administradores quando o calor ia derretendo o céu e a chuva se vendia na farmácia do comerciante de cabelos de fio saudade é o tempo de patos bravos e macacos sem rabo servindo de padres quando o medo ia gelando a terra e o pranto se dava de beber aos porcos do comerciante de cabelos de fio (Angola.

.... O homem branco talvez que lá vai de vez enquando. Mas nhô Chico Polícia há dias contava: "Ti Lobo não tem..... Não fala de mamãe. Apaga-se a luz. Ao lado no chão dormindo também o naviozinho de lata que fez com suas mãos. Maninho acorda depois por causa da voz falando baixinho segredando no meio escuro. 1941 "Dorme Maninho pra não vir Ti Lobo." Essa voz nocturna segredando...vem vem (Angola.. Ti Lobo talvez.. ." Maninho volta-se e dorme no colchão de saco vazio sobre a terra batida.. Angolê.. Angolêma) Canção de Embalar Autor: Jorge Barbosa Cabo Verde in "Ambiente"...

.. Havia somente as aves de rapina de garras afiadas as aves marítimas de voo largo as aves canoras assobiando inéditas melodias. Prelúdio Autor: Jorge Barbosa Cabo Verde "Cadernos de um ilhéu".."Dorme Maninho pra não vir Ti Lobo.. Amanhã cedo vai correr o naviozinho de lata nas poças da Praia Negra. 1956 Quando o descobridor chegou à primeira ilha nem homens nus nem mulheres nuas espreitando inocentes e medrosos detrás da vegetação... Nem setas venenosas vindas no ar nem gritos de alarme e de guerra ecoando pelos montes." Volta-se e torna a dormir. . E a vegetação cuja sementes vieram presas nas asas dos pássaros ao serem arrastadas para cá pelas fúrias dos temporais.

Editora Escolar. Com efeito. Esvaziou cinco garrafas.Quando o descobridor chegou e saltou da proa do escaler varado na praia enterrando o pé direito na areia molhada e se persignou receoso ainda e surpreso pensando n'El-Rei nessa hora então nessa hora inicial começou a cumprir-se este destino ainda de todos nós. pois não tolera que lhe interrompam o sono em nenhuma circunstância. Langa acordou. Procurou sim pelo dono . Leão sentou-se quieto olhando faminto para o Langa. Um Cão em Maputo Autor: Alberto da Barca Trecho do livro "Um cão em Maputo". Encontrou-o a ressonar. Não procurou pelas panelas. entrou casa adentro.pelo Langa. Um sono bêbado. interrompido de quando em quando por soluços e arrotos causados pela muita cerveja que bebera ao almoço. Assim. indisposto. 1990 "Leão apercebeu-se de que ninguém lhe ligava importância. O sono era profundo. Este. era um cão! Um cão indesejado desde o primeiro . Tinha os olhos vermelhos e um ar aborrecido. Não deu pela presença do cão. e lamentou o facto de o "sócio" só lhe ter arranjado tão pouca quantidade para uma refeição de Domingo. continuou o seu sono pesado e imperturbável. normalmente mais regada com o referido líquido. E neste caso. O cão faminto latiu. enquanto fazia a sesta.

meu filho Não quero que vejas nem sintas . atingiu o focinho do Leão em cheio. colecção Início nº 2. "A RAIZ E O CANTO" foi o seu primeiro livro publicado.a da sapatada no focinho. Virou-se para o lado. chorou de tristeza. para o quintal." ALBERTO DA BARCA nasceu na cidade da Beira no dia 21 de Junho de 1954. Enquanto isso. Assim. Langa pegou no sapato que descalçara. com o rabo entre as pernas e o focinho descaído. e. A Cláudio. bem como o ressonar aos soluços. Pensou no amigo Silva. 1984 Juvenal BUCUANE nasceu no Xai-Xai a 23 de Outubro de 1951. em Dezembro de 1984 pela AEMO. Não tardou a recuperar o sono interrompido. Langa murmurava: "o sacana nem deixa um gajo descansar. O bicho latiu de dor. e uma lágrima grossa escapou-lhe do olho esquerdo. desapertou as calças e derramou a barriga saliente no leito. colecção Início No 2.dia. sofrendo agora mais uma dor . O Húmus do Homem Novo Autor: Juvenal Bucuane Trecho do livro "A Raiz e o Canto". e com força e velocidade. tenho a certeza de que não me chateia mais!" Langa voltou a deitar-se. Como é que eu posso aturá-lo? O raio do cão até dormia na cama com o patrão e agora quer fazer isso comigo! Comigo isso não pega! Com esta sapatada que o gajo levou no focinho. desandou para fora. de fome e também de raiva. Deitou-se à sombra da laranjeira. AEMO.

Este penar é o resgate da esperança que em ti alço! Este penar é a certeza do amanhã que vislumbro na tua ainda incipiente idade! Não quero que vejas nem sintas o meu tormento ele é o húmus do Homem Novo.As Palavras Amadurecem Se um dia me viste a vagar as ruas da cidade (qual molweni atribulado na sua vagabundagem) o corpo constelado de remendos." Juvenal BUCUANE nasceu no Xai-Xai a 23 de Outubro de 1951. Não quero que vejas nem virtas as lágrimas do meu pranto.. Xikalamidade Autor: Simeão Cachamba in Cadernos "Diálogo" . quase seminu . deixa que eu deambule.. deixa que eu pise a calidez do chão desta terra e o regue até com o meu suor. Deixa que eu chore as mágoas e as desilusões. deixa que me toste sob este sol inóspito que me dardeja o lombo sempre arqueado.a dor que me amargura.

todavia por todos poros respirando dignidade hás-de me ver hoje envolto em nova embalagem caso cruze denovamente a mesma esquina com tu Não me pergunte o raio por que deixava eu esta indumentária envelhecer lá bem no fundo do baú Um pouco de bom-senso e apenas dois dedos de testa e saberás que ninguém grama de andar com o corpo nu Se antes de minhas foram alguém que eu desconheço estas «jeans» coçadas que ao meu corpo se ajustam bem como se feitas por encomenda. e que neste são comercializadas MOLWENI: rapaz da rua Xirico Autor: Simeão Cachamba in Cadernos "Diálogo" .As Palavras Amadurecem domesticadas asas estrebucham o ancestral sonho sitiado que a exiguidade geométrica da gaiola calca enquanto ouvimos rádio na sala de estar dura um instante infinitesimal a pausa do locutor e nesse vazio breve oportuno subversivo o pássaro entoa as cores do arco-íris os sons fluem em cascata através dos arames e estacam na sala . com as medidas que eu meço é porque em estado natural sempre iguais são os homens polana/85 XIPAMANINE: mercado onde se vende grande quantidade de CALAMIDADE: roupas doadas para os países do terceiro mundo.

Amor. enchem-me o cerebro de fogo incontido. és o sonho feito carne do meu bairro antigo do musseque! Um Dia Autor: Antônio Cardoso Angola in Poemas de Circunstância. há sabor a manga a escorrer-te na boca e dureza de maboque a saltar-te nos seios. No teu corpo sons antigos dos batuques ah minha porta. 1961 ao António Jacinto Um dia eu vou fazer um romance com as histórias da minha rua ..vá tu saber se o bicho está triste ou alegre" XIRICO: pássaro e marca de transístor muito popular Árvore de Frutos Autor: Antonio Cardoso Angola Cheiras ao caju da minha infância e tens a cor do barro vermelho molhado de antigamente. Misturo-te com a terra vermelha e com as noites de histórias antigas ouvidas há muito. com que me provocas.

o sô Floriano do talho com muita mistura de amor e muito suor de trabalho. acendo um sol de Fevereiro. semeio algumas esperanças e parto com o meu veleiro a dar uma volta ao Mundo! Cidade 1985 Carlos Cardoso Maputo. De manhã quando acordo em Maputo o jantar é uma incerteza . 1985 De manhã quando acordo em Maputo o almoço é uma esperança. a Joana Maluca da garotada. e mesmo no fim da história. Vou meter as cabras e os cães vadios da velha Espanhola os batuques da Cidrália e dos Invejados. os batalhões do "Treze" e do "Setenta e Quatro".antes de se chamar Silva Porto e os pretos irem embora. o bêbado Rebocho. Vai entrar a lua e meninos sem cor a Domingas quitata. lixeiras. capim e piteiras. cajueiros. o velho Salambió. cubatas. Mãe tenho fome marido tenho bicha e mil malárias me disputando a vontade. quando os homens estão desesperados e as fardas passam em fila.

o serviço uma militância política do outro lado do sono incompleto e o chapa-cem* um regulado impiedoso no quatro barra oitenta sem contra-argumento. ó Mataca. De manhã quando me percorro em Maputo enfio ominosamente o cérebro numa competentíssima paciência desembainho felinamente mais uma mentira diplomática e aguardo a lucidez companheira me leia nas acácias em sangue nos jacarandas estalando sob a sola epidérmica do povo que este é ainda o eco estridente do Chai . De manhã quando acordo em Maputo o vizinho já candongou o que me roubou a estomatologia não tem anestesia a chuva abriu dialecticamente mais um buraco na estrada e o conselho executivo continua desdentado de iniciativas. De manhã quando acordo em Maputo Porra para a vizinha que estoirou a torneira do rés-do-chão Porra para o guarda que não ligou a bomba quando veio a água Porra para as cem gramas de carne apodrecidos no silêncio desenergetico de Komatipoort mais as ó eme sed de efes e o soldado que ainda não ouviu dizer que os passeios são lugares públicos e os fulanizados exploradores de outrora que se preparam para cuspir na tua campa. as ordens de um Mouzinho boer.

com a raiva intacta resgatada à dor danço no coração um xigubo guerreiro e clandestinamente soletro a utopia invicta. que é manso e afaga ainda a mesma velha costa erosionada.até que Botha seja farmeiro e Mandela Presidente. dos fortes roidos pelo vegetar da urina e do suor a carne virgem mandada cavar glórias e grandeza do outro lado do mar. Portugal. 1941in Chão de Oferta. À noite quando me deito em Maputo não preciso de rezar. a ingénua tolerância aproveitada em carne. Já sou herói. Então. Olha-me as brutas construções quadradas: . 1972 Olha-me este país a esboroar-se em chagas de salitre e os muros. negros. Olha-me a história de um país perdido: marés vazantes de gente amordaçada. Pergunta ao mar. Chagas de Salitre Autor: Ruy Duarte de Carvalho Radicado em Angola Santarém.

Olha-me a noite herdada. os rios turvos de espesso deslizar dos braços e das mãos do meu país. ando a ganhar noções de translação e a medir. nestes olhos de um povo condenado a amassar-te o pão. atenta podes ver uma história de pedra a construir-se sobre uma história morta a esboroar-se em chagas de salitre. Portugal. depósitos de gente. 1972 para o António Eu tenho os dias claros de sucessivas luas de Setembro e a noite que me impõe sinalizar as direcções cruzadas das mensagens verticais. Olha-me as igrejas restauradas sobre ruínas de propalada fé: paredes brancas de um urgente brio escondendo ferros de educar gentio. Eu Tenho os Dias Claros Autor: Ruy Duarte de Carvalho Radicado em Angola Santarém. Eu entardeço. Olha-me os rios renovados de cadáveres. pouco atento ao vento .embarcadouros. pra meu governo. a cor do sol. Eu estou parado no meio do terreiro pastado dos meus passos e da minha gente. 1941in Chão de Oferta. Olha-me amor. sobretudo.

Faço-me ao Sul porque pertenço ao Norte e a costa só me serve p'ra cumprir tarefas de abandono. Do mar sabemos nós e aos capitães a fama da conquista. ir mais além. eu estou aqui sentado e nu a procurar não ir além da bárbara carícia de um olhar sem tacto e que nem uma lágrima machuque a capa muito fina da lembrança que tenho para dar-te. quando muito. Portugal. Meu fim é circular. furtivamente. 1941in Chão de Oferta. 1972 Deste lado da história o rio morre aqui. Eu finjo que não sei de elásticas tensões da claridade e a cada passo meu faço estalar membranas frias que a tarde debruou em rente azul. Permito. Diogo Cão às Portas do Zaire Autor: Ruy Duarte de Carvalho Radicado em Angola desde 1963 Santarém. Por isso eu sei de estrelas . molhos já secos de memória fêmea. companheiro.que não devo perturbar na sua rota alheia. Entendes. que me sinta o cheiro e deixo-o desfazer.

Cumpro tarefas. sim. empreendi que mora aqui no mar. 1972 Seu Zuzé. . Assim nasci sabendo o que me aguarda após a descoberta. as tuas vacas como estão? Longe daqui subimos os morros Fomos procurar a água que resta do ano que passa. porque viajo. De Deus. noutras distâncias. Fronteiras só conheço as do meu lar e sei amá-lo. Ao Rei e a Vós apenas dou noticias do rumo horizontal. só. porque sou eu quem lhe constrói a face.direcções e nada sei de fruto que se projecta e espera. 1941in Chão de Oferta. Portugal. Pois que sabeis da vertical sagueza? Novembrina Solene Autor: Ruy Duarte de Carvalho Radicado em Angola desde 1963 Santarém.

Que é do leite pra lhe dar a carne pra lhe engordar? E os filhos? Estão magrinhos doentados vão ficar igual com o pai Que é da escola pra lhes dar . Chimutengue.Senhora Luna a farinha? Está secar Tarda a chuva seca o milho A lavra não vai medrar. Imigrante Silva. meu vizinho então por cá? Pois que vim te visitar te avisar que o meu gado vai passar aqui por perto Tarda a chuva e é preciso procurar o que lhe dar de comer o que lhe dar de beber O capim está ficar negro está na hora de mudar. a tua mulher? Está mal.

Portugal.sapatos pra lhes calçar oficio pra lhe ensinar? Dunduma amigo companheiro Chipa Zeca. Calembera. 1941in Chão de Oferta. olhai pelo gado. 1972 Vim do leste dimensionar a noite em gestos largos que inventei no sul pastoreando mulolas e anharas claras como coxas recordadas em Maio. Venho de um sul medido claramente em transparência de água fresca de amanhã. Olhai pela vida das fêmeas e pela saúde dos machos. Ernesto. De um tempo circular liberto de estações. De uma nação de corpos transumantes confundidos na cor da crosta acúlea de um negro chão elaborado em brasa. Venho de um Sul Autor: Ruy Duarte de Carvalho Radicado em Angola desde 1963 Santarém. . Protegei os pastos.

Bebia-se sumo de melancia. bisbilhotava-se. a mesma terra que dava forca aos seus músculos. para o fundo da mata. havia cruzado o rio . afinal. 1998 Introdução: "Que da leitura destes contos vos fique um leve. no espeto. traziam as noites e vinham. morreu de amor. para as figueiras. cada um o recomeço do anterior. levissimo sabor a terra. voltariam no amadurecer das espigas. junto dos bichos. a lembrar grandes pepitas de ouro. Também as rãs acolhiam as noites com rezas. há o acontecer de massinguita: Malatana reapareceu. Partiram para longe as rolas. palito. a macaroca nascia filas de dentes e deitava cabelo loiro." " Lamentava. do xuaxualhar das chanfutas. esse peixe que conserva a dignidade do seu bigode. de madrugada. Mas ao nascer-morrer igual dos dias. porque o amor negado envenena. Errara por terras e terras. construiu uma cabana. diante da brasa. Edição da Ndjira. ressoando na membrana das lagoas. Chocariam os ovos. E os dias iam. o rapaz que. do rumorejar dos regatos. gordas e doiradas. O sabor da nossa terra. Nas machambas. Chegou como só chegam os fantasmas. Longe do mundo. Nas lagoas crescia o peixe-preto. a mandioca rasgava a terra. mesmo com o sal e o piripiri esperando de lado. em cacofonia.Nyeleti Autor: Suleiman Cassamo in "Amor de Baoba" (crónicas). as abóboras jaziam. dois pirilampos no lugar dos olhos e a barba grande de Jesus Cristo.

eu já arranjei um namorado. lá onde o mundo acaba e recomeça. De volta. pulei para cima do baú.Maputo. Malatana trouxe nos bolsos rotos o feitiço que viraria o coração da Nyeleti. a pouco e pouco. ó Eco. diz ainda Eco. Edição da Ndjira. rebola." Amor de Baoba Autor: Suleiman Cassamo in "Amor de Baoba" (crónicas). que isso se confirma no episódio com que fecho este texto? Naquela noite fatídica.Os meus parabéns. então.Sarnau. e. chegara a Mamanga. . pareciam elefantes embalsamados. Será. Balada do Amor ao Vento Autor: Paulina Chiziane do livro "Balada de Amor ao Vento" Capítulo 1 ". a regressar. Olha. entrei de rompante na sala e anunciei: . ainda marcialmente. 1998 página 24: Mas. Sabe-se lá se da Europa. Em vez de estar ali a chocalhar. amiga! .A avó morreu! Nem deram pela minha presença. e que janota. Pulei em frente. a televisão também estupidifica.E tu o que esperas? Aposto que estavas a olhar para esse . tinha visto Xivimbatlelo. Presos ao ecrã. derrubei o maldito aparelho com um golpe de karaté. e proclamei como que em teatro: .A a-vó mo-rre-u!!! Só então começaram. para as moscas perseguirem as tuas curvas. menina. ginga. se das Américas. ponha-te à vista. hoje é o dia de arranjar namorado.

Braços negros erguem-se no ar.. todos se viraram contra mim... Fiquei furiosa. .ranhoso filho do Rungo. de prata sim. .se do filho herdeiro. Nem curva no peito.negro não. Coloquei as mãos nas ancas e vomitei todo um palavreado provocador.. mergulhando os dedos enfileirados no prateado leitoso que embacia o céu. é o Mwando. enquanto esta. . estás a perder tempo. não vale a pena tanta fanfarra. Tenho um vestido novo que não me apetece machucar.. Mulher é que não.Wê. Sarnau. Todo o bando me rodeou e trocou.. wâ! Fiquei zangada. aquele está a estudar para padre.cumpria o ritual da lua nova que se realizava na lua cheia por tratar.. é estaca de eucalipto. Como se chama? Ah.Kenguelekeze!.... de olhar trocista.Mas vocês ainda não viram? A Sarnau é pau de carapau. página 73: "... partindo do coração da Lua. Hoje é dia de festa e não estou para guerrinhas. Finalmente os marotos deixaram-me em paz e pude à vontade contemplar o meu ídolo e preparar planos de abordagem. A malta incitava-nos para a luta.Kenguelekezeee!.. Pois digo-te menina. sim senhor. porque a Lua cheia pintava o rosto angélico." . na intenção de aborrecer a adversaria. Aquele Mwando interessava-me. Capítulo 11. nem curva no rabo.Kenguelekeze! Eis aqui uma vida nova! Majestosa Lua: .. mas ao ver que o espectáculo estava perdido pois a Eni não se desfazia. limitava-se apenas a murmurar: .... wâ. cobrindo-o com o seu manto de prata ...... Eis aqui o herdeiro da coroa! O menino negro .... wâ... A Eni fora ao encontro dos meus pensamentos e ferira-me a forma como se referira àquele jovem tão distinto...

Fechou os olhos. Paulina Chiziane nasceu a 4 de Junho 1955 em Manjacaze. Dá-lhe a bênção. Com o menino erguido no ar. quando encheres e quando morreres. 1971 "Na agreste paisagem de dunas expira a vastidão da savana. tendo crescido nos subúrbios de Maputo. A seguir administraram fumos e drogas purificantes para afugentar feitiços e maus-olhados. doenças nervosas. Poupa-a das diarreias. ataques. soltando gritos de protesto. Na orla do tempo. e lançou um jacto de urina molhando a cabeça de uma delas.. onde estudou. suspenso nos braços erguidos das madrinhas. "Balada de Amor ao Vento" foi o seu primeiro livro. esfregou-os. esta gota de água que veio ao mundo para ser feliz.recebe esta criatura. Prepararam-lhe vacinas e amuletos. colecção Karingana No 12 da AEMO. quando nasceres. colares de pele de leão para ter a coragem e a audácia do rei da selva. No areal se sepulta o choro do mar em seu clamor e seu soluço e a fúria do vento largo veste de saliva os arbustos sobreviventes. Iniciou a sua actividade literária em 1984.. Mangal de raizes nuas doí-me o desespero dos teus dedos ainda longos e cravados à terra. esperneou. as madrinhas dançavam à volta da fogueira sagrada. kenguelekezeee!. com contos publicados na imprensa moçambicana. Feições Para um Retrato Autor: Fernando Couto trecho do livro "Feições Para um Retrato. província de Gaza. O menino nu tremia de frio. as aves marinhas contemplam os despojos com olhos tranquilos .

por isso. E assim. só nos vemos a delgada fímbria do encontro da morte e da vida e conturbamo-nos. E. A menina devia era evitar os risos. a menina. Os pais de Mimirosa assim julgavam. nada sabia desses acertos. no calor da família. poeira e chão. avivamos o traço esguio e sinuoso dessa fímbria de encontro de morte e da vida". A senhora se convertera em parceira de infância. as coisas sem consequência. tudo em tamanho não aparado: os senhores em infância. novos de fora. Acreditava ser tudo simples como o molhado e água. disciplinar arrebatamentos. Mimirosa. em primeiro lugar. sabia-se. Passava a idade e Mimirosa demorava a aprender o regime da realidade. Há o bomem.e nos conturbamo-nos à vista dos despojos e do jeito dos pássaros. ancorada em irresponsabilidade. em redondezas de carinho. A vida descostura. Ermelinda. E o ser é apenas o que resta. A Adivinha Autor: Mia Couto Tudo é um jogo. isso é facto. desprezava a escola. Que há deveres. A avó. Aqui. Quem estragava esse madurecimento da miúda era sua avó. Custa é haver o humano. A escola. brincriável. Mimirosa estava. Não queriam nem . o homem passa a linha. Seus país se preocupavam. Que se aprende mais é fora dela. Em meia palavra: era companhia de se evitar. a corrigir os panos do tempo. Noves fora. e as contas do ter e do haver. amando-nos. proibida de frequentar a companhia de Ermelinda.

Conforme os olhos distraídos da velha ela ajudava.Isso é coisa que não pode. E voltavam às lides. Podia um rio assim? Ou já se viu a estrada correr sem o amparo de duas ambas bermas? . . pairada. Mas existe uma sombra que é da terra toda inteira. Porque ela. mal se soltava das vistas. ali. A pergunta labirintava na cabeça de Mimirosa. onde já não poderia desviar a direcção. coisas de calcular o futuro: quando fores grande já escolheste o que vais ser? Simplesmente. Até que. O jardim da casa parecia obra de inventar.. Voltada a casa.Qual é um rio que não tem senão uma margem? .que fosse vista junto. avó! E do outro lado fica o quê? .Mas há o prémio de verdade? . perto do caminho da avó. ela não sabia . Prémio que haveria era só o serem as duas. o mundo vai ficar tão admirado que até o tempo há-de parar. parada.Pense. se internava no atalhozito que dava na casa da avó.. chegava o jogo da adivinhação. avozinha?. Uma só arbustozinho nele cabia. no escondido. . se ensine. até às imediações escolares.Vês a sombra? Essa sombra é pequena. A velha deixava o mistério durar. berlindavam-se os olhos dela. perguntas sem mistério.Se você‚ adivinhar esse mistério. A menina era conduzida. Ali gazetava dos deveres. . a menina era inquirida pelos pais.Jure. inevitável. de mão acompanhada. Já sabe que o prémio que há-de haver. sem obrigação de nada. entretida nos nenhuns afazeres da velha senhora. rectificando um aqui no além ela. Imaginava-se.

veio o alvoroço. . . enquanto seu olhar fingia percorrer o caderninho. somaram-se os dias. deixou a escola. aqueles dois. . vaticinava a mãe. voltou escola. urna tarde. . ninguém suspeitava que se anichara.Tudo serás filha.Lembra a adivinha. Mas não a deixaram entrar na velha casinha. Como deviam ser infelizes. sua ausência na resposta. assim. Mimirosa. nesses dias. nem uma ruga se alterou. a menina suspulou da carteira e se flechou porta afora. seus pais. na cabeceira da moribunda avó.Avó. Ninguém a viu penetrar na penumbra da casa. A velha Ermelinda se sentira mal. obrigada e vigiada. ofegante. E. A senhora não reconhecia ninguém. Um dia. Parecia que Ermelinda já cruzara aquele risco feito na água. Até que. fronteira entre a vida e a morte. preferia o pai.Ela vai ser doutora hospitalar. Mimirosa. o peito dela se amarrotara. . mas não queremos que sejas como nós. vó? Aquela do rio de um lado só? . sei a adivinha! No rosto da senhora nenhum sinal. E.querer ser grande.Ou dessas que faz as contas e faz crescer dinheiro. cuidadosamente desarrumadinha. A menina se admirava: aqueles não gostavam de si mesmos? Por que razão eles queriam que ela lhes fosse diferente? Só a avó gostava de ser como era. ela se convertera em fundo escuro. assim. A sombra do morcego se desenha no tecto? Pois o pensamento da neta n o saía do mesmo assunto: saudade de sua avó. Nenhuma luz a trazia à superfície de si mesma. Escapou da escola e correu pelos campos.

E se cborou! O caderninho órfão. se levantou e. Os dois brigamos. Mas teve medo.Não está ver? Estou cortar essa árvore. Domingos Mourão. caraça de tu! . Até que os braços do pai a puxaram. mais suas criaturas profundas. sentida sozinha no grande mundo. cegos. Depois. Mas depois esgueirou-se. Já se retiravam daquele luto. acariciaram o azul da imagem. não me chateia. Nhonhoso da merda. desafeitos. E caderno começou a pingar. desvitaminados o pé e o soco.Sua? Suca mulungo.É o mar. . em suas mãos. o nosso Xidimingo. . e depositou o caderninho escolar no leito da água. A Confissão de Nhonhoso Autor: Mia Couto do livro "A Varanda do Frangipani Sétimo capítulo . todos mais Mimirosa quando os dedos da avó tactearam o ar e.Que estas a fazer. como se o papel não mais contivesse aquela água.E os olhos da menina se atabalhoaram de água. Primeiro ela cedeu.A confissão de Nhonhoso ". se atirou contra mim. Estava aberto numa figurinha do oceano. essa árvore é minha. Esse cujo rio.Para com isso. A mão dela ainda arriscou tocar no braço da avó. Os dois nos sacudimos. aos tropeços. parecia transtornado em juízo de bicho. sofria a catarata das lágrimas. Mas a luta logo se desgraçou. . Só os nossos respiros se farfalhavam nos peitos cansados. é o mar. O branco me solavanqueou. avó. convergindo violências. E a voz da menina tombada com um derradeiro lenço: . por um instante. Nunca tínhamos falado assim. chegaram até no caderno.

Mourão? .Para me dar um murro você precisa descansar um século. a mim. em acordo.. Ficou um tempo imóvel. .Você é que apanhou maningue. ficam cabelos no pente enquanto a você ficam pentes no cabelo.Você sempre quer mandar em mim.Os brancos são como o piri-piri: a gente sabe que comeu porque fica a arder a garganta.Não quero mandar em ninguém.." A Multiplicação dos Filhos . Batemos as mãos. se ocupou em ajeitar o corpo..Como não quer? Eu nos brancos não confio. . ambos desatamos a rir. . Então. O velho branco riu-se sozinho.A diferença entre mim e você é que.E vocês. De repente. Você é um arrota-peidos..Charra! Eu quase ia morrer sem bater um branco. Lhe doía a garganta como um torcicolo em pescoço de girafa. Nos olhamos sérios.Cala. lhe disse: . pretos.Deixa-me descansar um pouco e já lhe despacho uma boa murraça.. . Parecia desmaiado. . Xidimingo. Branco é como camaleão. Depois. estou-lhe a agradecer bastante.. Aquilo havia sido briga de disputar gafanhoto.é pá. bicho sem fruto nem carne. Sabe uma coisa: colonialismo já fechou! .Porquê? .. vocês falam mal dos brancos mas a única coisa que querem é ser como eles. . chapamos as palmas. .. nunca desenrola todo o rabo. Xidimingo. .Ouve Nhonhoso: quer apanhar mais outra vez? .Você está respirar. olhos semicerrados. seu velho branco.. .

comeram. E outros apontaram mais outros. sempre fugidias. E o pai seguiu a prestar visitas a seus outros descendentes. O filho varão se admirou da visita. contar. Foi um tempo de transbordar a alma. Beberam. Mulando se orgulhava de ter as linhas da mão em inacabado estado. Lhe pareceu ver que elas tinham mudado de desenho. . Já cansado de tanta visitação. ele avaliasse a única eternidade que nos é certa: continuarmo-nos em nossos filhos. entornaram as primeiras gotas no chão dos antepassados. Riu-se de suas façanhas. O pai se hospedou por uns dias. Aqui e além foi encontrando mais uns. decidiu dedicar todo o tempo que lhe restava em paternais visitas.Autor: Mia Couto do livro "A Varanda do Frangipani Certa vez. Mulando sentou-se a contemplar as linhas da palma da mão. Na despedida. Como fossem muitos. Alguma suspeita o fez ficar de coração atrás: porquê tão tardia visita? Mas ele esmerou em simpatia. como flor que morre na imortalidade da semente. Que revelaram outros. o filho mais velho disse que havia uns tantos irmãos espalhados pelos lugares. Até que Mulando descobriu que eram muitos. Mas agora uma nova vaidade se sobrepunha: o ser tanto pai. Já visitara mais de duas dúzias e ainda havia mais prole. Chegaria ao ponto de não ter tempo de terminar sua peregrinação? Contou as linhas das mãos e lembrou o desafio do seu tio materno perante as estrelas: contar. Mulando sentiu vontade de ver os seus filhos. Como se.bem para além dos muitos que ele imaginava. em final da existência. Queria saber das outras vidas de sua vida. Festejaram esse milagre de haver pai e filho. Começou pelo mais velho.

são nossos filhos. por momentos. minha filha.Gostava de saber. Ele cruzou os braços sobre ela.Então.Você também? E Mulando riu-se. neste mundo. até quase perder a voz: . Ela demorou a ajeitar-se no vivo assento. .É que. . Escapou do colo de Mulando e se encrispou toda. no fundo. A prostituta o afastou com firmeza. Havia um bar e ele passou por lá. triste. sente-se aqui no meu colo. lhe perguntou: . cabeça tombada para trás. E ele desistia como o dedo do tio desmaiando perante as tantas estrelas.Você também é minha filha? A prostituta sorriu-se. repetindo com ante-sabidas intenções: . faz conta estreasse o sentimento de ter um pai. todos. isenta de maus olhados. Um longo braço da preguiça amoleceu a sua vontade de prosseguir. a ganhar fôlego e estendeu as pernas: . E lhe segredou que ela. uma garrafa. Uma mulher sem pecado. . passou por um copo. em subtil prisão. A seu lado. fizesse de conta que era outra. Mulando olhou para as mãos. A moça.Esses todos seus filhos: sabe o que é? .Crime é um pai não cuidar dos filhos. uma mulher de ninguém escutou a sua missão.contar até chegar a um ponto em que já não há número. uma neblina. estranhamente.

calor adentro. Mulando lançou o jornal para se resguardar da luz e encerrou-se para balanço. Ele dava o assunto na bandeja. a cabeça lhe descaíra para trás.Não sou seu filho! . Em redor. da prostituta nem sobrara o perfume. daqui vou para mais adiante. as formas ainda se acertavam.. Mulher que não queria o seu colo deixava de existir. o clima não estava para disputas. Pela primeira vez. Se as vistas eram sombras.Venho lhe matar! Nem lhe veio discernimento para a devida resposta. o nublado era um céu dentro da cabeça dele. E a voz do outro lhe chegou. as linhas da mão de Mulando se moldaram em desenho fixo. mortais. quatro chambocadas. os sons pareciam bem mais nítidos. sem demais. A manhã se adiantara. Uma. Insustentável. O bar estava deserto. em bom recorte: .Não é? Mas você me parece.Meu filho: eu vou seguindo. E naquele esbotar de contornos ele sentiu alguém se postar diante. Além disso. E ditas as três palavrinhas desfechou uma matraca sobre o outro. As suficientes. quando Mulando despertou. Então você é o quê? . Um mais filho? Daquela idade? . Mulando já não usava o pescoço. . duas. Isso é um crime sem perdão. olhos escancarados perante o sol. Tentou focar o rosto do outro e notou que ele a si se semelhava.Isso é verdade. O outro fez regressar a matraca em sua bolsa e falou nos .Sou seu pai.

visitando-o na sua última mudança de residência. Estréia nos Viventes Autor: Mia Couto Segundo Capítulo do livro "A Varanda do Frangipani "Este homem que estou ocupando é um tal Izidine Naita. inspector da Policia. é lá que estou enterrado. sou eu. vou nele. Neste momento. um mulato que foi responsável pelo asilo de velhos de São Nicolau. faceando o mar se vê a velha fortaleza colonial. Meu hospedeiro anda esgravatando verdades sobre quem matou Vasto Excelencio.seguintes termos para o chão: . Estavam lá os filhos todos. Nesse momento. Sonho quem ele sonha. estou viajando num helicóptero. Sua profissão é avizinhada aos cães: fareja culpas onde cai sangue. a promessa de visitar toda a sua descendência. agora. Porque este Izidine. por cima das vertigens. Vou com ele. em missão enviada pela Nação. Espreito das nuvens. A Fortaleza de São Nicolau é uma pequenita mancha que cabe num pedacito de mundo. o homem cumpria. Mulando acrediou presenciar no cemitério a inteira humanidade. Tem graça que eu tenha saído directamente das profundezas para as nuvens. Falo com quem ele fala. Estou num canto de sua alma. Em sua nova maneira de ver. Lá em baixo. de uma só vez.Sou seu pai e você nunca me veio visitar. Dizem assim: o funeral de Mulando nunca se viu tristeza mais repleta. Desejo quem ele deseja. Minha campa. Olho da janela. Com ele eu emigrava no penumbroso território de vultos. espreito-lhe com cuidado para não atrapalhar os dentros dele. É lá que fica o asilo. vou ele. por exemplo. enganos e mentiras. essa nem se distingue. . Izidine iria percorrer labirintos e embaraços.

Se notam os escombros como costelas descaindo sobre o barranco. Sabe o que faz a população? Pega no ladrão.. isto é.Como está meu irmão. Aqui afogam é o boi. andam com medo da população. estamos numa boa. Se demorar a sair agora até há bons advogados que aparecem logo a defender-nos. caro primo! Aqui eu o enquadrarei. Primo urbano . frente à praia rochosa. no campo. Minhas madeirinhas. Que venha. . Até já escrevemos para a Alice Mabote..Vista do alto. a concorrência com ladrões de fora. a fortaleza é. Primo urbano . Se for preso sai logo no dia seguinte." "Cartas dos Primos Ladrões" Autor: Mia Couto Excertos da crónica "Imaginadâncias" no jornal "Domingo" .. Esse mesmo monumento que os colonos queriam eternizar em belezas estava agora definhando. essa senhora que Liga para os Direitos Humanos. é o contrario. Aqui está bem acompanhado-filhos de gente grande e alguns próprios grandões.. antes. Não é que tudo seja bom.. isso está feio por ai. Vocês. caro primo: venha para a cidade. aos maus. primo. isto é.Lhe digo e redigo meu primo-irmão: junte-se aos bons. aquelas que eu ajeitara. meu primo? Eu estou mal aqui na aldeia Julius Nyerere. . uma fraqueleza. eles afogam o ladrão que roubou o boi. Por exemplo.. Nós. as coisas tornaram-se muito difíceis para os ladrões de gado. Primo rural . pobres criminosos. agoniavam podres.é pá.. Aqui. sem remédio contra o tempo e a maresia. Eu lhe dou um conselho. Ai. os ladrões urbanos. em Maputo. mete num saco e afoga-lhe no rio Limpopo! Estamos cheios de medo.

.Já tomei decisão . é pá! Então onde está a protecção do empresariado nacional? Então isto é assim . p. Primo urbano ..Os mortos perderam acesso a Deus.Nós ainda ontem vimos flamingos. sul-africanos. E têm medo de admitir isso. Governado Pelos Mortos (fala com um descamponês) Autor: Mia Couto in Revista Lua Nova.. Cá lhe espero. tanzanianos.evite vir de chapa. É a única coisa que um ladrão pode temer nesta bela cidade moderna! Rouba uma boa viatura e venha. Começam a aparecer criminosos nigerianos. ainda há aqui bichos ? .vou para Maputo.E estes campos. malawianos. foram-vos retirados? . Só para poderem pedir a alguém. . . .Isso não está correcto.Agora somos descamponeses. .Foram. juntar-me a si. .Optimo. .E bichos. empurra. no mato. 20 ".Esses se inflamam no crespúculo: são os inflamingos. tradicionalmente vossos. . é que ainda abundam.E agora ? . Nós só ficamos com o descampado." CHAPA: transportes semi-colectivos de Maputo. aqui. Entrar enquanto houver lugar. se não houver lugar.nigerianos da droga já tem lojas e empreendimentos em Maputo. Querem voltar a ser vivos. Só lhe dou um conselho . só há inorganismos. Dão licença sem nos contactarem a nós? Primo rural .. nº 4.Agora. Só mais lá. até já falamos às autoridades policiais. Porque eles mesmo se tornaram deuses.

. a avestruz pousava em árvore..." Mar Me Quer Autor: Mia Couto Trechos do livro "Mar Me Quer".Caso do beija-flor. É um nome que deveria ser consertado. Agora. . Se chamava de arvorestruz.Antes de haver deserto. E se espalhou um murmúrio de que Agualberto tinha os olhos de tubarão.. Aquela manhã acordou com vontade de esquentar e eu me . toda a hora sentado na praia contemplando o horizonte. A flor é que levaria o título de beija-pássaros.E outras aves da região. Passavam gentes vindas de longe para espreitar de longe o preto de olhos da cor do mar. Porque o sol só finge nascer. de transparência marinha.. tal iguais aos grandes e dentilhados bichos. há nomes que eu acho que estão desencostados. Quarto capítulo. . Ele ficara muitíssimo demasiado tempo debaixo do mar. tapando os olhos. A partir desse dia meu pai se adentrou em si mesmo. Foi quando ela gritou. Pode falar delas ? . edição da Ndjira páginas 37-38: Seus olhos subiram do chão até se fixarem no rosto dele. Porque aqueles olhos dele estavam da mesma cor do mar: azuis. os olhos de Agualberto não eram os mesmos. Sua humanidade estava lavada a modos de peixe. Os restantes se aproximaram de meu pai e um rumor se espalhou como nuvem fria.. páginas 43-44 O dia começa sempre de mentira.Os olhos dele! Sim. voava de galho em flor. Ninguém conseguia olhar meu pai de frente.

Emendei minha malandrice. pescando entre roupa e corpo.Entrar onde ? . pastando nessas gorduras dela. De repente. . Minhas mãos fingiram ser caracóis. fui-me achegando perto da vizinha. com o devido respeito. E explicou: havia uns certos caracóis que lhe lambiam as pernas. parecia um navio repousando em desenho de criança. Quem me aquece são caracóis.Susto.Não recebo quentura da água. E salvo seja.Dá licença eu entrar ? . a mulata não me repeliu.decidi passear pela praia. lesmas babadoiras lavrando nas coxas de Luarmina. Foi quando encontrei Luarmina mergulhada numa poça de água. Eram peixes mortos boiando. Dona! O que foi ? Luarmina apontou qualquer coisa sobre as águas. Os bichos desqualificavam viscosas salivas sobre a vizinha e eu só pensava: mal empregadas as minhas próprias babas. porém. ela soltou um grito. Entrei. mãos atrás das costas. Aproximei e lhe perguntei a razão daqueles banhos. Espreitei pela esquina dos olhos: a gorda Luarmina estava flutuando.A água está quentinha ? . Estava vestida e as roupas colavam-se no corpo. cumprindo seu dever.Nessa água onde a senhora está ser banhada. . Para meu espanto. .. Nas Águas do Tempo Autor: Mia Couto in Estórias Abensonhadas . embenvencida. Ela respondeu que queria aquecer as pernas. Me entornei na toalha da água e fechei os olhos igual como ela. Meus dedos prosseguiram.

Antes de partir. E eu lhe imitava. um passo à frente de mim. ele me segurava a mã e me puxava para a margem. A maneira como me apertava era a de um cego desbengalado. Garantido era que. me levava rio abaixo. Vovô era dos que se calam por saber e conversam mesmo sem nada falarem. A canoa solavanqueava. todo ele musculíneo. enfilado em seu pequeno concho. . nele. Entrávamos no barquinho. Depois viajávamos até ao grande lago onde nosso pequeno rio desaguava. eram um artigo indefinido. Aquele era o lugar das interditas criaturas. Porque a rede ficava amolecendo o assento. O barquito cabecinhava. O avô era um homem em flagrante infância. ensonada. No entanto. nesses dias. respondia. o dia já crepusculando. era ele quem me conduzia. onda cá. Nã se pode contrariar os espíritos que fluem. nunca esqueça! Era sua advertência. nossos pés pareciam bater na barriga de um tambor.Voltamos antes de um agorinha. Tirar água no sentido contrário ao da corrente pode trazer desgraça. Ele remava.Meu avô. somente raspando o remo na correnteza.Sempre em favor da água. devagaroso. Peixe nã era. O velho sorria. chegada a incerta hora. parecendo ir mais sozinho que um tronco desabandonado. onda lá. . Eu me admirava da sua magreza direita. . . Nem eu sabia o que ele perseguia. Os dentes. sempre arrebatado pela novidade de viver.Mas vocês vão aonde? Era a afliçã de minha mãe. o velho se debruçava sobre um dos lados e recolhia uma aguinha com sua mã em concha.

sonecando no suave embalo. Nã queria que fôssemos para o lago. E muito me proibia. a dançar-se? Para mim havia era a completa neblina e os receáveis aléns. temia as ameaças que ali moravam. . É lááá. Pois. como em reza. Mas depois. O avô. sobre as águas nenufarfalhudas. O velho. ela ensaiava a brincadeira: . De repente. Com o balanço quase o barco nos deitava fora. se zangava com o avô. já amolecida pela nossa chegada. se inventava de existir. quieto. Meu velho. perdia a miragem e se recolhia. acenava. tã quietos que parecia-mos perfeitos. sombras feitas da própria luz. Nunca. Primeiro. depois. naquele lugar se perdia a fronteira entre água e terra. Nã vê o pano branco. Tudo em volta mergulhava em cacimbações. Em casa. nos próximos futuros. Mas o avô acenava seu pano.Ao menos vissem o namwetxo moha! Ainda ganhávamos . excitado. viajando sem companhia de palavra.Você nã vê lá. Ficávamos assim. . nós éramos os únicos que preponderávamos. Nosso barquito ficava ali. nem por pinte. Tirava seu pano vermelho e agitava-o com decisã. meu avô se erguia no concho. A quem acenava ele? Talvez era a ninguém. afinal. encolhido no seu silêncio. Mas ele insistia. desabotoando os nervos. vislumbrei por ali alma deste ou de outro mundo. Aquelas inquietas calmarias. calado. E regressávamos. espiava as longínquas margens. fosse ali a manhã eternamente ensonada. minha mãe nos recebia com azedura. na margem? por trás do cacimbo? Eu nã via. desconfiando dos seus nã-propósitos.Nã é lá. onde o horizonte se perde.Tudo o que ali se exibia.

o barco virou e fomos dar com as costas posteriores na água. Acontece que. O namwetxo moha era o fantasma que surgia à noite. Dizem: o primeiro homem nasceu de uma dessas canas. O primeiro homem? Para mim nã podia haver homem mais antigo que meu avô.Neste lugar não há pedacitos. miudagens.. Mas a força que me sugava era maior que o nosso esforço. me apeteceu espreitar os pântanos. O velho acorreu-me e me puxou. a partir daqui. Desculpei-me: que estava descendo do barco mas era só um pedacito de tempo. eu e vovô aguardávamos o habitual surgimento dos ditos panos. Invençã dele. nem nos passava desejo de duvidar. Nós éramos miúdos e saíamos. colocar pé em terra nã-firme. Mas nunca nos foi visto tal monstro. feito só de metades: um olho.Nunca! Nunca faça isso! O ar dele era de maiores gravidades. procurando o fundo lodoso da margem. avisava minha mãe. se tinha entrevisto com o tal semifulano. Meu avô nos apoucava. ainda em juventude. Dizia ele que. procurando o moha. dessa vez. Todo o tempo. Queria subir à margem. aventurosos. Sucedeu-me entã que não encontrei nenhum fundo. Mas a nós.. Ficámos assim. agarrados às abas da canoa. lutando dentro do lago. Certa vez. minha perna descia engolida pelo abismo. são eternidades. meu . Eu jamais assistira a um semblante tã bravio em meu velho. um braço. no lago proibido. Decidi me equilibrar. Mas ele ripostou: .vantagem de uma boa sorte. busquei chã para assentar o pé. Eu tinha um pé meio-fora do barco. aflautinados. De repente. uma perna. Com a agitaçã. . Estávamos na margem onde os verdes se encaniçam.

ele interrompeu o nada: . ouviu? Nessa noite. . ele falou assim: nós temos olhos que se abrem para dentro.Não conte nada o que se passou.Fique aqui! . Meus ouvidos se arregalavam para lhe decifrar a voz rouca. Eu levo-lhe lá nos pântanos para que você aprenda a ver. bem o avô não via mais que a enevoada solidão dos pântanos. deu-se o espantável: subitamente. Chegados à beira do poente ele ficou a espreitar. Então. havia menos que ninguém. O remoinho que nos abismava se desfez em imediata calmaria. ele me explicou suas escondidas razões. O que acontece. Ao amarrar o barco. erguido na proa do barco. você! Olhei a margem e não vi ninguém. o avô me levou uma vez mais ao lago. deixámos de ser puxados para o fundo. Voltámos ao barco e respirámos os alívios gerais. dividimos o trabalho do regresso. deixaram de ver esses outros que nos visitam.Cumprimenta também. E assim lhes causamos uma total tristeza. Mas obedeci ao avô. O avô se inquietava. acenando sem convicções. Desta vez. Os outros? Sim. meu filho. o velho me pediu: . é que quase todos estão cegos. esses que usamos para ver os sonhos.Me entende? Menti que sim. Nem a ninguém. Na tarde seguinte.avô retirou o seu pano do barco e começou a agitá-lo sobre a cabeça. Do outro lado. palma da mão apurando as vistas. Não posso ser o último a ser visitado pelos panos. esses que nos acenam da outra margem. . Em silêncio. Mas o tempo passou em desabitual demora. De súbito. No mais ou menos. Nem tudo entendi.

. em desequilibrismo com meu peso ímpar.. me roubando o peito no susto. Presenciei o velho a alonjar-se com a discrição de uma nuvem. E eu acabava de descobrir em mim um rio que não haveria nunca de morrer. tremendo de um frio arrepioso. entre a neblina. Fiquei indeciso. Foi então que deparei na margem. A canoa ficou balançando. fazendo sangrar todo o firmamento. lentamente. barafundido. do outro lado do mundo. nascidos do mesmo ventre. Venho Aqui Brincar no Português Autor: Mia Couto in Estórias Abensonhadas 11/04/1997 "Venho brincar aqui no Português. em desmaio de cor. E vi: o vermelho do pano dele se branqueando. eu coincidia com meu avô na visão do pano. Me recordo de ver uma garça de enorme brancura atravessar o céu. Parecia uma seta trespassando os flancos da tarde. Meus olhos se neblinaram até que se poentaram as visões. frente ao meu espanto. com muito espanto. ele seguia em passo sabido. o aceno do pano vermelho do meu avô.Mia Couto .a língua nossa. lhe ensinando vislumbrar os brancos panos da outra margem. Até que. A esse rio volto agora a conduzir meu filho. moçambicanos. Então. Enquanto remava um demorado regresso. ele se declinou em sonho. Pela primeira vez.. mesmo ao lado da aparição. Fiquei ali. na margem da miragem. O avô pisava os interditos territórios? Sim. essa que dá gosto a gente namorar e que nos faz a nós. ficarmos mais Moçambique" . Enquanto ainda me duvidava foi surgindo.E saltou para a margem. me vinham à lembrança as velhas palavras de meu velho avô: a água e o tempo são irmãs gémeos. tirei a camisa e agitei-a nos ares. o pano branco.

Mas a língua nossa. Que outros pretendam cavalgar o assunto para fins de cadeira e poleiro pouco me acarreta. excepto a de irmos ajeitando o pé a um novo chão. Ou estaremos convidando o chão ao molde do pé? Questões que dariam para muita conferência. Uns nos acalentam: que nós estamos a sustentar maiores territórios da lusofonia. defendemos o direito de não saber. papelosas comunicações. Meu anjo da guarda. Nós estamos simplesmente ocupados a sermos. vamos criando uma língua apta para o futuro. que dança todas as brisas sem deslocar seu chão. aqui na mais meridional esquina do Sul. O que me apronta é o simples gosto da palavra. Mas nós. Nos falta domínio. Entretanto. neste sulburbio. Outros nos acusam: nós estamos a desgastar a língua. veloz como a palmeira. o gosto de saborear ignorâncias. Língua artesanal. Nós estamos deitando molho sobre pouca farinha a ver se o milagre dos pães se repete na periferia do mundo. plástica. Não aquela que outros embandeiram. moçambicanos. carecemos de técnica. A língua que eu quero é essa que perde função e se torna carícia. a língua. embarco nesse gozo de ver como a escrita e o mundo mutuamente se desobedecem. . essa que dá gosto a gente namorar e que nos faz a nós.Perguntas à Língua Portuguesa Venho brincar aqui no Português. nunca me guardou. Ora qual é a nossa elegância? Nenhuma. colocando nela as quantas dimensões da Vida. estamos exercendo é a ciência de sobreviver. E quantas são? Se a Vida tem. ficarmos mais Moçambique. Meu desejo é desalisar a linguagem. o mesmo que a asa sente aquando o vôo. felizmente. No enquanto. é idimensões? Assim.

amando o indomesticável. procurando os outros tempos deste tempo. Precisamos. alguém sabe as certezas delas? Ponho as minhas irreticências. um pensamento nosso. das leis da língua. em anterior vida. Pois se ele. num sumário exemplo. sim. aderindo ao invisível. Veja-se. o que é senão o ovo das galinhas de ouro? Estamos. beneficiou de chifre o que está ocorrendo não é uma reencornação? O elefante que nunca viu mar. afinal. Recriamos a língua na medida em que somos capazes de produzir um pensamento novo. Pois. sempre vivendo no rio: devia . sim.fugidia a gramáticas. O idioma. perguntas que se podem colocar à língua: Se pode dizer de um careca que tenha couro cabeludo? No caso de alguém dormir com homem de raça branca é então que se aplica a expressão: passar a noite em branco? A diferença entre um às no volante ou um asno volante é apenas de ordem fonética? O mato desconhecido é que é o anonimato? O pequeno viaduto é um abreviaduto? Como é que o mecânico faz amor? Mecanicamente? Quem vive numa encruzilhada é um encruzilheu? Se diz do brado de bicho que não dispõe de vértebras: o invertebrado? Tristeza do boi vem dele não se lembrar que bicho foi na última reencarnação. de senso incomum. Esta obra de reinvenção não é operação exclusiva dos escritores e linguistas.

afinal.o nosso português . tipo barril. Lembro a camponesa da Zambézia. trabalho de todos nós. E é coisa que não se termina.ter marfim ou riofim? Onde se esgotou a água se deve dizer: "aquabou"? Não tendo sucedido em Maio mas em Março o que ele teve foi um desmaio ou um desmarço? Quando a paisagem é de admirar constrói-se um admiradouro? Mulher desdentada pode usar fio dental? A cascavel a quem saiu a casca fica só uma vel? As reservas de dinheiro são sempre finas. isso que ela fazia é. Sim. Colocamos essoutro português .na travessia dos matos. Será daí que vem o nome: "finanças"? Um tufão pequeno: um tufinho? O cavalo duplamente linchado é aquele que relincha? Em águas doces alguém se pode salpicar? Adulto pratica adultério. brincriações. Devolvemos . é um barrilgudo? Borboleta que insiste em ser ninfa: é ela a tal ninfomaníaca? Brincadeiras. fizemos que ele se descalçasse pelos atalhos da savana. Nesse caminho lhe fomos somando colorações. dizia. E um menor: será que pratica minoritério? Um viciado no jogo de bilhar pode contrair bilharziose? Um gordo. Eu falo português cortamato.

Talhão 71883. Fachada pintada a cal. somar-lhe o volume da superstição e a graça da dança. Caminho. Devolver a estrela ao planeta dormente. Sonho realizado. Tudo sito no derradeiro bairrismo que é morar no bairro de Lhanguene. É urgente recuperar brilhos antigos. Classica arquitectura rectangular.cores que dela haviam sido desbotadas . Uma via asfaltada com um único sentido. Parece que está por pouco. Na lista onde eu consto É injusto que tarde estarmos juntos. Aldeia Queimada . 1998 Ambição minha e da Maria foi termos uma casa nossa onde nos contarmos os cabelos brancos. Casa definitiva já temos.o racionalismo trabalha que nem lixívia. O resto na altura mais propícia surgirá por si. Pelo menos envelhecer já não é problema. Lote 42. A Nossa Casa Autor: José Craveirinha Moçambique in "Maria". Urge ainda adicionar-lhe músicas e enfeites.

Barbearia Autor: José Craveirinha Moçambique in "Babalaze das Hienas". Maputo 1997 Mas nas noites desparasitadas de estrelas é que as hienas actuam. Os barbeiros do Chaúque deixaram em toalhas de folhas secas congruentes nódoas roxas. Maputo 1997 Na barbearia às escuras Júlio Chaúque foi barbeado quando voltava da machamba de milho. A Boca Autor: José Craveirinha Moçambique in "Babalaze das Hienas". Maputo 1997 . Os que viram dizem que Júlio foi escanhoado até às carótidas do colarinho em requintes de gilete dos facões de mato.Autor: José Craveirinha Moçambique in "Babalaze das Hienas". É de cinzas o vestígio das palhotas.

Como chora um homem! Aforismo . Eu julgava-me um homem.Jucunda boca deslabiada a ferozes júbilos de lâmina afiada. Exotismo de povo flagelado esse atroz formato da fala. Um Homem Nunca Chora Autor: José Craveirinha Moçambique Do livro "Cela 1". Na adolescência meus filmes de aventuras punham-me muito longe de ser cobarde na arrogante criancice do herói de ferro. poemas escritos aquando da sua passagem pelas masmorras da PIDE em Moçambique Acreditava naquela história do homem que nunca chora. E agora choro. Como um homem treme. Agora tremo. Alva dentadura antónima do riso às escâncaras desde a cilada.

Estávamos iguais com duas diferenças: Não era interrogada e por descuido podiam pisa-la. Depoimento Autobiográfico Janeiro de 1977 José João Craveirinha nasceu em 28 de Maio 1922 em Maputo. Porque se me chamas negro encolho os meus elásticos ombros e com pena de ti sorrio. Iniciou a sua carreira como jornalista no "O Brado Africano". Mas aos dois intencionalmente podiam por-nos de rastos mas não podiam ajoelhar-nos. (1968) Pena Zangado acreditas no insulto e chamas-me negro.Havia uma formiga compartilhando comigo o isolamento e comendo juntos. . Assim não te odeio. e colaborou/trabalhou com diversos orgãos de informação em Moçambique. Mas não me chames negro.

Bairros de quem? Bairros de pobres. . Pela parte da minha mãe. muito cedo. não tendo sido incluída nos livros que publicou até à data. Ou antes: principalmente da Pátria. Chamaram-me Sontinho. . Mesmo da Pátria. claro. mais agnóstico do que ateu. entre outros. Esforço. Grande parte da sua poesia ainda se mantém dispersa na imprensa. Quando a minha mãe foi de vez. a terra natal em termos de Pátria e de opção. Talvez por causa do meu pai. Nasci a segunda vez quando me fizeram descobrir que era mulato. A seguir fui nascendo à medida das circunstâncias impostas pelos outros. Muito desporto marcou-me o corpo e o espírito. Aonde? Na Av.Teve um papel importante na vida da Associação Africana a partir dos anos 50. do Zichacha entre o Alto Maé e como quem vai para o Xipamanine. tive outro pai: o seu irmão. na celebre Cela 1 com Malangatana e Rui Nogar. encontrando no Amor a sublimação de tudo. de 1965 a 1969. competição.Joaquim Falé "Nasci a primeira vez em 28 de Maio de 1922. Outra parte permanece inédita. Talvez por causa do meu pai. sacrifício até à exaustão. vitória e derrota. Quando o meu pai foi de vez. E a partir de cada nascimento eu tinha a felicidade de ver um problema a menos e um dilema a mais. diminutivo de Sonto. Tem muitas obras publicadas. Por isso. outra mãe: Moçambique. Esteve preso pela Pide. A opção por causa do meu pai branco e da minha mãe negra. No mesmo em que também nasceram Rui de Noronha e Noemia de Sousa. Isto num domingo. sendo considerado um dos grandes poetas de Africa e da Língua Portuguesa. Por parte do meu pai fiquei José. Temperado por tudo isso. Nasci ainda mais uma vez no jornal "O Brado Africano". Por causa da minha mãe só resignação.

o meu país também. Mas casado quando quis. o meu refúgio. Autodidacta. Escrever poemas.Uma luta incessante comigo próprio. os horrores cometidos durante a guerra civil que devastou o país. dia das FADM e comemoração do inicio da luta armada contra o regime colonial português. Ontem eles foram lá deram maningue tiros partiram tudo. Uma necessidade angustiosa e urgente de ser cidadão desse país. muitas vezes altas horas da noite. tudo mataram doentes mutilaram o senhor enfermeiro e violaram a senhora parteira. Uma edição da AEMO com o apoio do Instituto Camões." Eles Foram Lá Neste dia 25 de Setembro. recentemente lançado em Maputo e da autoria de José Craveirinha. Outros doentes privilegiados . Este "incómodo" livro de Craveirinha lembra algo de que já não se fala muito em Moçambique. nada mais "adequado" que um excerto do livro "Babalaze das Hienas". Minha grande aventura: ser pai. E como quis. Joaquim Falé página 19: Vovó amanhã não precisa ir ao hospital. Depois eu casado.

." Fábula "Menino gordo comprou um balão e assoprou assoprou com força o balão amarelo.foram carregar na cabeça farinha açucar e arroz da cooperativa . Sobra este prosaico odor da sintomática machimbombesca fotocópia de esquife. Foram.. Lá para o quilómetro 20 a oeste da Gorongosa chaparia e respectivo tejadilho ficaram fuliginoso similar de frigideira fritando várias doses de torresmos derivantes fósseis de passageiros interrompidos antes da terminal. O impaciente estardalhaço dos tiros ainda por cima esfrangalhou o original. Menino gordo assoprou assoprou assoprou ." página 50: TORRESMOS À MACHIMBOMBO QUEIMADO À partida o machimbombo parecia um ónibus lotado de gente em viagem.

.o balão inchou inchou e rebentou! Meninos magros apanharam os restos e fizeram balõezinhos. Gente que gastronomiza desapetitosos bifes de cascas guisados de raízes ao natural e sobremesas de capim seco. Povo armado de maternitude e velhice . Gente dessedentando martírios nos charcos se chover. Chusmas de rajadas acertam sempre. A castiça folia." Gente a Trouxe-Mouxe No livro "Babalaze das Hienas". . Das minas.. página 11: Gente a trouxe-mouxe da má sorte calcorreia a pátria asilando-se onde não cheira a bafo de bazucadas. de José Craveirinha. ou a pé descalço dançando. página 28 CARREIRA DE GAZA Escusado fazer pontaria.

Gula Autor: José Craveirinha In "Babalaze das Hienas". Outra Beleza Autor: José Craveirinha In "Babalaze das Hienas". Rituais de tão escabrosa gulodice que até nos esfomeados aldeões da tragédia a gula das quizumbas se baba nas beiças das catanas. dos machados. Maputo. 1997 Uns exibem insólitos perfis de outra beleza maquilhada . AEM. Maputo. A mãe que dava o peito ao bebé de três meses foi removida assim mesmo. Objectivo estratégico de maternitude machibombo da carreira de Gaza atingido em cheio calcinou. 1997 Uivam as suas maldições as insidiosas hienas própria sanha. AEM.esgota a lotação das carreiras de Gaza rumo à saudade de onde saiu.

no mato. são homens e os velhos. ou do viés ou de frente perfeitos modelos de caveira desfilam sem nariz. Maria! Crias morrem á míngua de pão vermes na rua estendem a mão a caridade e nem crias nem vermes são mas aleijados meninos sem casa. Maria! Feras matam velhos. Maria Autor: José Craveirinha 1ª versão Suam no trabalho as curvadas bestas e não são bestas são homens. Maria! Corre-se a pontapés os cães na fome dos ossos e não são cães são seres humanos. as mulheres e as crianças são os nossos pais nossas irmãs e nossos filhos. mulheres e crianças e não são feras. Maria! Do ódio e da guerra dos homens das mães e das filhas violadas das crianças mortas de anemia e de todos os que apodrecem nos calabouços cresce no mundo o girassol da esperança . Reza.

Cresce a semente que a povoação plantou curvada e a estrada passa ao lado macadamizada quente e comprida e a semente germina lentamente no matope imperceptível como um caju em maturação. 1955 "Cresce a semente lentamente debaixo da terra escura. Cresce a semente enquanto a vida se curva no chicomo e o grande sol de Africa vem amadurecer tudo com o seu calor enorme de revelação. E a vida curva as suas milhentas mãos geme e chora na sina de plantar nosso suor branco enquanto a estrada passa ao lado aberta e poeirenta até Gaza e mais além .Ah! Maria põe as mãos e reza. Pelos homens todos e negros de toda a parte põe as mãos e reza. Maria! Sementeira Autor: José Craveirinha 1ª versão.

Depois de tanga e capulana a vida espera espiando no céu os agoiros que vão rebentar sobre as campinas de Africa a povoação toda junta no eucalipto grande nos corações a mamba da ansiedade. Inútil procurares nos incêndios de Beirute e nos inocentes corpos mutilados pelos estilhaços ardentes as belas palavras do Cântico dos Cânticos. Desce velozmente mais baixo no teu caça-bombardeiro.1982 Não. Desce ainda mais baixo piloto hebreu. Voa até ao fundo dos ascos. piloto Israelita. Desce até Eichman. Oh! Dia de colheita vai começar na terra ardente do algodão!" Terra de Canaã Autor: José Craveirinha 10. E voa mais baixo.8. Foi para este holocausto que sobreviveste ao teu genocídio nos tempos da Nazilandia? Achas que é esta a tua ambicionada Terra de Canaã? Tu achas que assim ganhas a paz na Terra Prometida?" Makezú Autor: Viriato da Cruz . Acelera até os motores e as bombas de fósforo contigo oscularem sofregamente o chão sagrado. Voa mais baixo.camionizada e comprida.

.... Mas de manhã.."Mas tá passá gente perto.. Hoje os tempo tá mudado... . O pregão da avó Ximinha É mesmo como os seus panos. nem pedreiros Nem alegres lavadeiras Dessa nova geração Das "venidas de alcatrão" Ouvem o fraco pregão Da velhinha quitandeira." . hoje nada?" ..... 1961 ..... véia.......Angola Poemas.......... Já não tem a cor berrante Que tinha nos outros anos...."Antão....."Kuakiè!!!.." .... manhazinha... Lá vai para um cajueiro Que se levanta altaneiro No cruzeiro dos caminhos Das gentes que vão pà Baixa. Makèzú."Nada... Avó Xima está velhinha........ Nem criados. Makèzú. Como é aqui tás fazendo isso?" . Pede licença ao reumâtico E num passo nada prático Rasga estradinhas na areia."Kuakiè....." .. mano Filisberto... Makèzú....... Makèzú...

mbundo kène muxima. da cor do jambo.como o maboque." Namoro Autor: Viriato da Cruz Angola Poemas. ."Eles não sabe o que diz.. E diz ainda pru cima (Hum. laranjas ."Não sabe?! Todo esse povo Pegó um costume novo Qui diz qué civrização: Come só pão com chouriço Ou toma café com pão.."É pruquê nossas raiz Tem força do makèzu!. Sua pele macia.. Pru qué qui vivi filiz E tem cem ano eu e tu?" ...laranjas do Loje .era sumaúma.... Seus seios. cheirando a rosas sua pele macia guardava as doçuras do corpo rijo tão rijo e tão doce . 1961 Mandei-lhe uma carta em papel perfumado e com letra bonita eu disse ela tinha um sorrir luminoso tão quente e gaiato como o sol de Novembro brincando de artista nas acácias floridas espalhando diamantes na fímbria do mar e dando calor ao sumo das mangas Sua pele macia ...) Qui o nosso bom makèzú É pra veios como tu"......

. paguei-lhe doces na calcada da Missão. e ela disse que não.seus dentes.. E ela disse que não...marfim... pela Santa Ifigenia.. Procuraram por mim "-Não viu.NÃO E ela o canto do NÃO dobrou Mandei-lhe um recado pela Zefa do Sete pedindo... não viu. ofertei-lhe um colar e um anel e um broche. Levei á Avo Chica.. como um mona-ngamba. ficamos num banco do largo da Estátua. rogando de joelhos no chão pela Senhora do Cabo.. noutro canto .SIM. E o feitiço falhou. Esperei-a de tarde. afaguei-lhe as mãos... quimbanda de fama a areia da marca que o seu pé deixou para que fizesse um feitiço forte e seguro que nela nascesse um amor como o meu.(ai.?) não viu Benjamim?" E perdido me deram no morro da Samba. . falei-lhe de amor... Para me distrair . Andei barbudo. á porta da fabrica.. me desse a ventura do seu namoro. sujo e descalço. Mandei-lhe essa carta e ela disse que não. Mandei-lhe um cartão que o amigo Maninho tipografou: "Por ti sofre o meu coração" Num canto .

..Matreiro. .... meninos se encantam de contos bantus.. quais fogareus..... enquanto na vasta sanzala do ceu..dancei com ela e num passo maluco voamos na sala qual uma estrela riscando o céu! E a malta gritou: "Aí Benjamim !" Olhei-a nos olhos ... escura de breu.sorriu para mim pedi-lhe um beijo .... de volta das estrelas...e ela disse que sim.tuc. Tocaram uma rumba ........ . ao quente da voz de suas avós. "Era uma vez uma corça dona de cabra sem macho. Serão Menino Autor: Viriato da Cruz Angola Na noite morna.. na noite de breu.foi entrando para o conselho animal..... o cágado lento tuc.... os anjos escutam parábolas de santos.... ("não tarde que ele chegou!") Abriu a boca e falou - ........levaram-me ao baile do Sô Januario mas ela lá estava num canto a rir contando o meu caso as mocas mais lindas do Bairro Operário.........

essa outra voz de cazumbi essa outra voz . E a gente grande bem perto dali feijão descascando para o quitende a gente grande com gosto ri." Mas quando lá fora o vento irado nas frestas chora e ramos xuxualha de altas mulembas e portas bambas batem em massembas os meninos se apertam de olhos abertos: . em negra noite.Eué ..... Sangrentos os pés. aos mais seres busca. 1961 Ah! Angola. A Sombra das Galera Autor: Alexandre Dáskalos Angola Poesia. Angola.deu a sentença final: "-não tenham medo da força! Se o leão o alheio retém -luta ao Mal! Vitória ao Bem! tire-se ao leão . porque ela diz que o cazumbi males só faz a quem não tem amor.. os teus filhos escravos nas galeras correram as rotas do Mundo.É cazumbi. por pedregosos trilhos .Felicidade. Com gosto ri.dê-se à corça..

. o suplício de arrastar dessas correias.vinham do sertão. a sede. ardendo no teu corpo que de tão sentido. Chegavam às praias de areias argênteas que se dão ao Sol ao abraço do mar. . outros rumos. lá bem do fundo vergados ao peso das cargas enormes. Na praia. presente como na floresta à noite.. tudo tão presente...... a terra. já não sente. A vida. ao longe. De tão distante. a febre. lá do sertão. a morte. a morte. o lar. a fome. Escravo! Escravo! O mar irado. apenas pestanejam as estrelas. a ânsia de ali descansar Ah! As galeras! As galeras! Espreitam o teu sono tão pesado prostrado do torpor em que mal te arqueias.. o brilho duma fogueira acesa. Que longa noite se perde na distância! As cargas enormes os corpos disformes. Angola vais na sede da conquista... Depois.. Depois outros destinos dos homens. E onde vão seus rumos? Onde vão seus passos? . tudo distante. A América é bem teu filho arrancado à força do teu ventre. Hoje no entrechoque das civilizações antigas essa figura primitiva se levanta simples e altiva. O seu cãntico vem de longe e canta ausências tristes de gerações passadas e cativas....

Angola.. é livre enfim! Liberto.. porque esperas? Ah! Mata..Guarda.. vem numa força hercúlea gritar para os espaços como os dardos do Sol ao Sol da vida no vigor que em ti próprio reverberas: . liberto. 1924 . 1961 Jesus Cristo Jesus Cristo Jesus Cristo.Ah! Vem. vivo. Portugal. meu irmão Sou fio dos pais da terra Tenho corpo p'ra sofrer Boca para gritar E comer o que comer Os meus pés que vão No chão Minhas mãos são de trabalho Em coisas que eu não sei E não tenho nem apalpo Trabalho que fica feito Para o branco me dizer "Obra de preto sem jeito" E minha cubata ficou Aberta à chuva e ao vento . Mais.Não sou cativo! A minha alma é livre. mata no teu sangue o presságio da sombra das galeras! Carta Autor: Alexandre Dáskalos Angola Nova Lisboa.

.. Limos na pasta dos cabelos escondem o mistério dos olhos olhando a curva do seu ventre. Flutuando entre sombras e reflexos . 1961 Erguida do fundo das águas plácidas dum lago surge Mulher.Vivo ali tão nu e pobre Magrinho como o pirão Meus fios saltam na rua Joga o rapa sai ladrão Preto ladrão sem imposto Leva porrada nas mãos Vai na rusga trabalhar Se é da terra vai para o mar Larga a lavra deixa os bois Morre os bois. Jesus Cristo Jesus Cristo Jesus Cristo meu irmão Sou fio dos pais da terra Um pouco de coração De coração e perdão Jesus Cristo meu irmão... Manhã Autor: Alexandre Dáskalos Angola Poesia. e depois? Se é caçador de palanca Se é caçador de leão Isso não faz mal nenhum Lança as redes no mar Não sai leão sai atum.

desesperos e cansaços. só no lago o corpo erguido. abrindo nas sombras o seu perfil que nasce o seu perfil de Mãe dos Homens do futuro. Em volta. a forma dos braços ganha o mais e mais fundo das águas. Os seios erguidos apontam ao longe a aurora que vem. Maria Autor: Alexandre Dáskalos Angola Do Tempo suspenso. musgos. 1998 No temporal da revolução os baús de enxovais preciosos das raparigas casadoiras . líquens. algas. Em plantas aquáticas. chegam-lhe da floresta lutas de homens. E tudo esquecido ou ignorado.duma luz longínqua. em fosforescências arbóreas de constelações que lembram os recessos da vida. marítimas. feras e povos divididos. jovem. misturados confundidos para a sua criação.

E. Angola. Poesias Autor: Alexandre Dáskalos Angola Poesias. . perdi meu enxoval. Quero as ânsias do mar quero beber a espuma branca duma onda a quebrar e vogar. no entanto. Onde está a almofada dos bilros? Já provaste os dendêns com açucar? Não reduzas a valsa a um cheese-burguer num pub desconhecido! Ele disse-me . 1961 Quando eu morrer não me dêem rosas mas ventos. 1924-Guarda. MARIA Autor: Alexandre Dáskalos Angola (Nova Lisba.naufragaram.não canses os olhos nos bilros. Portugal 1962) O meu amor está triste e enche-me de cuidados. O meu amor está triste e enche-me de cuidados. Ainda hoje me consolo com as leituras de Marx.

Calados. Oh mar. de lábios colados no silêncio os braços cruzados como quem deseja mas de braços cruzados. E a vida. mudos. Onda sobre onda infinita como o mar como o mar inquieto num jeito de nunca mais parar. Por isso eu quero o mar.Ah. Para ter a ilusão de nunca mais parar. Os navios chegavam ao porto e partiam. . Morrer. A gente do mar dos que ficam em terra. a rosa dos ventos a correrem na ponta dos meus dedos a correrem. ficar quieto. a correrem sem parar. E eu e o mundo. Porto Autor: Alexandre Dáskalos Angola Poesais. não. 1961 Havia nos olhos postos o sentido de não vencerem distâncias. o meu coração fica para ti. sentir sempre no peito o tumulto do mundo da vida e de mim. Os carregadores falavam da gente do mar. Oh.

1999 e agora só me restam os poetas gregos. Os ventos. Os navios chegavam ao porto e partiam.As mercadorias seguiam. O silêncio diz . Sentada à beira do cais da minha baía do cais simbólico.esquece. Tomé e Príncipe 1963 Aqui. Segredavam-se em noites e dias a todos os homens em todos os mares e em todos os portos num destino comum. E Agora Só Me Restam Autor: Maria Alexandre Dáskalos Angola in "Vozes poéticas da lusofonia".. traziam as novas das terras longínquas. na areia. Sintra. E o espinho da rosa enterrado no peito é meu.. das malas e da chuva caindo em torrente . Em Torno da Minha Baía Autor: Alda do Espírito Santo S. dispersos na alma do tempo. Os deuses não assistiram a isto. dos fardos.

caindo. à roda de mim. abrigados por um toldo movediço uma legião de cabecinhas pequenas. nesta hora morna do entardecer no mormaço tropical desta terra de África à beira do cais a desfazer-se em ruinas. Onde Estão os Homens Caçados Neste Vento de Loucura Autor: Alda do Espírito Santo S. dos homens tombados na arena imensa do cais. Fernão Dias para sempre na história da Ilha Verde. num voo magistral em torno do mundo desenhando na areia a senda de todos os destinos pintando na grande tela da vida uma história bela para os homens de todas as terras ciciando em coro. caindo em ruinas eu queria ver à volta de mim.sobre o cais desmantelado.. canções melodiosas numa toada universal num cortejo gigante de humana poesia na mais bela de todas as lições HUMANIDADE.. Tomé e Príncipe 1958 O sangue caindo em gotas na terra homens morrendo no mato e o sangue caindo. . rubra de sangue.

. os homens. Aí. Zé Mulato. os grilhões. o sangue. Os corpos tombados no mato.. . as vias queimadas. dos uivos de dor dos homens que não são homens.Nós estamos de pé Nossos olhos se viram para ti. .. a soarem caindo no silêncio das vidas tombadas dos gritos. Zé Mulato. a soarem. na história do cais baleando homens no silêncio do tombar dos corpos. o mar de Fernão Dias engolindo vidas humanas está rubro de sangue. as casas dos homens destruídas na voragem do fogo incendiário.. as casas. . na mão dos verdugos sem nome. Nossas vidas enterradas nos campos da morte.Aí o cais. erguem o coro insólito de justiça clamando vingança. Zé Mulato. As vítimas clamam vingança O mar. mortos sem ar e sem água levantam-se todos da vala comum e de pé no coro de justiça clamam vingança. os golpes das pancadas a soarem. os homens do cinco de Fevereiro os homens caídos na estufa da morte clamando piedade gritando p'la vida.

.. o perdão não tem nome. Um a um. carrascos.Que fizeste do meu povo?. E o sangue das vidas caídas nos matos da morte ensopando a terra num silêncio de arrepios vai fecundar a terra. todos em fila. Meditando Autor: Lopito Feijoó Angola ..Onde está o meu povo?..... .E vós todos carrascos e vós todos algozes sentados nos bancos dos réus: .Que respondeis? .. E eu respondo no silêncio das vozes erguidas clamando justiça. clamando justiça.. É a chamada da humanidade cantando a esperança num mundo sem peias onde a liberdade é a pátria dos homens.. Para vós. A justiça vai soar.engoli dum espinheiro um grande raminho & da tese concebida ao prefácio por escrever teço toc toc enquanto toco levemente o provir .

mangungu d'ontem maningue chatos.. De facto. É verdade irrefutável que. Foi professor secundário. só porque se u$a? Ou seremos nos. basta o ruminar e bolsar sobre. mais do que a vermelha e a clássica são estes bolsares viscerais. No ponto a mesma musica: os fúnebres encontros para chorarmos um entre comuns: os irmãos foram-se de largada. a minha geração dar-se-á ao desplante de reescreve-la. estão os dias que nos transportam es-cru-GULOSA-mente (m) (por via erudita). que o xibalo e a palhota sirvam para nos nacionalizarem. nossa fúria cosmopolita mas agora falemos de ortodoxias. sobram-nos os mesmos filhos que vamos sendo dos nossos pais. me ti cu lo sa mente(m)! " Manuel Meigos Filimone nasceu na Beira a 4 de Marco de 1960. há caso. mero cidadãos do ocaso? Mas por criar. barrete e folhoso são o vai-vem obvioimplícito. É verdade que o que somos tem sempre segmentos do que fomos. secretario de governador. e a despropósito das overdoses do born in.d'outra gestão daí a cor do sangue escasso caro irmão protestante que tão bem partes os passeios que passeio assim que passo passo a passo me ditando! Arremessos Autor: Filimone Meigos no livro "Poema & Kalash in love" "A despeito de questiúnculas. sempre e sempre o futuro. Será verdade. Exaustos de exaurir cifrões. se a história está a ser mal escrita. Para os ruminantes. jornalista e oficial das Forcas Armadas de . também.

Morna Autor: Daniel Filipe Cabo Verde A Ilha e a Solidão E já saudade a vela. os pares deslizam embrulhados de sonhos em dobras inefáveis. deixo correr o sal e o pranto . Membro activo da AEMO.Moçambique. colecção timbila No 14 da Associação dos Escritores Mocambicanos em 1995. então. Cabo Verde.subtil e magoado encanto que o rosto núbil me envelhece. Viagem na Noite Longa Autor: Mário Fonseca Praia. "Poema & Kalash in Love" é o seu primeiro publicado. além. Ilha de Santiago. É editor cultural do semanário Savana. (Ó deuses lúbricos. ousáveis erguer. 1939 . baça. tem colaboração espalhada por vários orgãos de informação. na tarde morta a eterna ronda de pecados que ia bater de porta em porta!) E ao ritmo túmido do canto na solidão rubra da messe. onde a tristeza se contém. a música esvoaça na tarde calma. Serena. plúmbea.

S. E o infinito se detém em mim Na noite longa uma remotíssima nostalgia afunda minha alma E eu choro marítimas lágrimas Enquanto meu desejo heróico de engolir os céus se alarga e é já céu Tenho então a sensação esparsamente longa de vogar no absoluto.Selô.Vicente. 1933 Pão & fonema.1962 Na noite longa minha alma chora sua fome de séculos Meus olhos crescem e choram famintos de eternidade até serem duas estrelas brilhantes no céu imenso. Cabo Verde. 1974 I Esta a minha mão de milho & marulho . De Boca a Barlavento Autor: Corsino Fortes Mindelo.

Este o sol a gema E não o esboroar do osso na bigorna E embora O deserto abocanhe a minha carne de homem E caranguejos devorem esta mão de semear Há sempre Pela artéria do meu sangue que g o t e j a De comarca em comarca A árvore E o arbusto Que arrastam As vogais e os ditongos para dentro das violas II Poeta! todo o poema: geometria de sangue & fonema Escuto Escuta Um pilão fala árvores de fruto ao meio do dia E tambores erguem na colina Um coração de terra batida E lon longe Do marulho á viola fria .

Reconheço o bemol Da mão domestica Que solfeja Mar & monção mar & matrimónio Pão pedra palmo de terra Pão & património Girassol Autor: Corsino Fortes in "Claridade". 1960 Girassol Rasga a tua indecisão E liberta-te. Amanheceu! Orça o teu leme E entra em mim . Navios sem mares Sem rumos De velas rotas. Vem colar O teu destino Ao suspiro Deste hirto jasmim Que foge ao vento Como Pensamento perdido. n°9. Aderido Aos teus flancos Singram navios.

. Só charcos imundos Atestam no solo As pegadas do meu pisar E fica sempre rubro vermelho Todo o rio por onde me lavo.. 1960 Passo pelos dias E deixo-os negros Mais negros Do que a noute brumosa. Olho para as coisas E torno-as velhas Tão velhas A cair de carunchos. A Pedra Filosofal Autor: António Gedeão " Eles nã sabem que o sonho .Antes que o Sol Te desoriente Girassol! Pecado Original Autor: Corsino Fortes Cabo Verde in "Claridade". E não poder fugir Não poder fugir nunca A este destino De dinamitar rochas Dentro do peito.

passo de dança. capitel. . como esta pedra cinzenta em que me sento e descanso. Eles não sabem que o sonho é tela.é uma constante da vida tão concreta e definida como outra coisa qualquer. caravela quinhentista. fuste. vitral. de focinho pontiagudo. ouro. rosa-dos-ventos. canela. é pincel. Eles não sabem que o sonho é vinho. contraponto. que é Cabo da Boa Esperança. como estas aves que gritam em bebedeiras de azul. marfim. é espuma. base. bastidor. florete de espadachim. máscara grega. bichinho álacre e sedento. como este ribeiro manso em serenos sobressaltos. como estes pinheiros altos que em verde e oiro se agitam. sinfonia. magia. é cor. Infante. mapa do mundo distante. pináculo de catedral. arco em ogiva. Colombina e Arlequim. que é retorta de alquimista. que fossa através de tudo num perpetuo movimento. é fermento.

Eles não sabem. Paizinho.para ainda sobreviver. nascemos . desembarque em foguetão na superfície lunar. televisão." Escorraçados da Morte Autor: Zeto Cunha Gonçalvez Angola in "Vozes poéticas da lusofonia".nosso è o fogo passo a passo em rições guardado. para-raios. radar. alto-forno. um linguajar de setas envenenadas petras.e soletram: alfabeto de passos. geradora.obrigado. que o sonho comanda a vida. cisão do átomo. locomotiva. Que sempre que um homem sonha o mundo pula e avança como bola colorida entre as mãos duma criança. Soletram . ultra-som. E as matas . .passarola voadora. Da Lua viemos. Escorraçados da morte a terra nos levará à água? Sem mapas nem sentido do regresso . barco de proa festiva. nem sonham. Sintra 1999 Escorraçados da morte soletram a nómada caligrafia dos pássaros.

Cacimbo Autor: Poetas angolanos.e soletram: alfabeto de passos. cacimbo eu quero ver os cafeeiros ao peso dos bagos vermelhos endireita os troncos vencidos dos bambus coroa os cumes altos das serras do Bailundo . 1962 Estende teus dedos anelados sobre a minha carapinha derrama a tua inconsciente tranquilidade sobre a minha angústia submergida. Soletram . um linguajar de setas envenenadas pedras. Os Ombros Modulam o Vento Autor: Zeto Cunha Gonçalvez Angola in "Vozes poéticas da lusofonia".e canta Vem.Escorraçados da morte soletram a nómada caligrafia dos pássaros. Vem. Sintra 1999 Entristece a tua tristeza .e canta (os ombros modulam o vento modulam a noite a soberana voz dos horizontes) entristece a tua tristeza .

limpa a visão empoeirada dos comboios que descem para
Benguela
nimba poeticamente os horizontes dos camionistas de Angola.
Vem, cacimbo
debruça-te cuidadosamente sobre as plantas da madrugada,
destrói a angústia resignada das gentes da minha terra
abre-lhes os horizontes dos cantos de esperança.
Vem, cacimbo
Derrama a tua inquieta saciedade sobre a minha natureza
a esta hora empoeirada com o barulho das esquinas
com o cheiro a óleo sujo dos automóveis
e com a visão daquele nosso amigo
cujo ordenado são quinze escudos diários
irremediavelmente caido sobre a grama do jardim
O cacimbo
eu quero percorrer teus campos sossegados
orquestrados pela alegria do beija-flor.
VI. Por Uma Sereia de Treva
Autor: Francisco Xavier Guita Júnior (Guita Jr.)
no livro "O agora e o depois das coisas (1990-1992)", de
Guita Jr., edição da AEMO, colecção Início, No. 7.
Publicado em 1997, página16:
sem segredos melhor que nós
ninguém sabe a morte a dois
e como heróis subterrâneos que somos
procuramos a vida por entre as trevas
navegamos algas ao amanhecer
para encontrar um irmão pelas mãos
empresta-me a tua máscara quero saborear
esta melodia ter nos olhos a cor
e antes que o dilúvio se propague
nademos nas profundezas do asco

talvez surja uma sereia de treva
onde possamos pousar o coração
que em fragmentos se dissolve no iodo
da atmosfera que transportamos às costas
sem segredo melhor que nós
ninguém por entre a fresta da porta
da noite apalpa este enigma:
prestar contas ao silêncio dos olhos
e conter a náusea por um instante
ultrapassando o passado hóspede da masmorra
da presente folia ardente transeunte
Francisco Xavier Guita Júnior (Guita Jr.) nasceu em
Inhambane a 14 de Março de 1964. Professor de
Português, membro fundador e coordenador do
XIPHEFO, caderno literário que surgiu em 1987 em
Inhambane, onde foram publicados os primeiros
poemas de Guita Jr.
VIII. Psicoalteração do Rato
Autor: Guita Jr.
Do livro "O agora e o depois das coisas 1990-1992", página
18
rói o rato a roupa
na corda ao fim da rua
e arrota
num ror de razão o rato
rouba arroz ao porto do povo
e roto troca o troco
por trigo trancando-se atrás
do rasto raro e fica rico o rato
e por um triz não é trazido

de rastos pela rua a trote
mas chega ao trono e trás!
Rato sem roldana trás!... catrapuz!
Sem ruga roga a quem ri
rato rói rato até à raiz
mais radical a ratazana tradicional
num golpe de rins reluz ao raiar
de um enorme sol de luz
e ao farejar o rumorejar do país
corre pr'o Rand
pela ração sem retalhos
e quando regressa rola ruela
à risca e acende o rastilho
e não se rala por quem se roa
o rato resignado recolhe a rede
e rema rompendo as rugas
do mar sem rumo
e aí sem renitência reina
sem rusga nem ratoeira
e não se rala o rato roedor
rói até rédea
rato recto faz do rito revolução
XIV. No Jardim da Noite Com Estrelas de Verão
Autor: Guita Jr.
Do livro "O agora e o depois das coisas 1990-1992", página
26
para a Carla

agora órfão ou castrado
perdoadas estão as naus de da Gama
e contemplo só estrelas e flores onde tragava

a humilhação e o chicote do patrão?
vasculho as ruas da cidade
na procura do subterfúgio a nu
é inevitável o retorno
haverá fantasmas em meu redor
há micaias em meu corpo
que deflagram como minas
cansadas dos silêncios
quando sonho alegrias
acendo uma vela no peito
sobre o castiçal do coração
e volto a desaguar na escuridão
e apalpo e amarfanho a agonia
no dorso da noite
porém não tenho armas
para falar de amor
é esta a loucura da minha intenção
Carta Dum Contratado
Autor: António Jacinto
Luanda, 1924Eu queria escrever-te uma carta
Amor,
Uma carta que dissesse
Deste anseio
De te ver
Deste receio
De te perder
Deste mais que bem querer que sinto
Deste mal indefinido que me persegue
Desta saudade a que vivo todo entregue...

Eu queria escrever-te uma carta
Amor,
Uma carta de confidências íntimas,
Uma carta de lembranças de ti,
De ti
Dos teus lábios vermelhos como tacula
Dos teus cabelos negros como diloa
Dos teus olhos doces como macongue
Dos teus seios duros como maboque
Do teu andar de onça
E dos teus carinhos
Que maiores não encontrei por ai...
Eu queria escrever-te uma carta
Amor,
Que recordasse nossos dias na capopa
Nossas noites perdidas no capim
Que recordasse a sombra que nos caia dos jambos
O luar que se coava das palmeiras sem fim
Que recordasse a loucura
Da nossa paixão
E a amargura da nossa separação...
Eu queria escrever-te uma carta
Amor,
Que a não lesses sem suspirar
Que a escondesses de papai Bombo
Que a sonegasses a mamãe Kiesa
Que a relesses sem a frieza
Do esquecimento
Uma carta que em todo o Kilombo
Outra a ela não tivesse merecimento...
Eu queria escrever-te uma carta
Amor,

meu bem Que tu não sabes ler E eu .. Mas. 1961 Esse comboio malandro passa passa sempre com a forca dele ué ué ué hii hii hii te-quem-tem te-que-tem te-quem-tem o comboio malandro . meu amor. eu não sei compreender Por que é. ah.Uma carta que ta levasse o vento que passa Uma carta que os cajus e cafeeiros Que as hienas e palancas que os jacarés e bagres Pudessem entender Para que se o vento a perdesse no caminho Os bichos e plantas Compadecidos de nosso pungente sofrer De canto em canto De lamento em lamento De farfalhar em farfalhar Te levassem puras e quentes As palavras ardentes As palavras magoadas da minha carta Que eu queria escrever-te amor Eu queria escrever-te uma carta.não sei escrever também! Castigo Pró Comboio Malandro Autor: António Jacinto Luanda. 1924Poemas.Oh! Desespero! . por que é.. por que é.

muita gente como eu cheio de poeira gente triste como os bois gente que vai no contrato Tem bois que morre no viaje mas o preto não morre canta como é criança "Mulonde iá késsua uádibalé uádibalé uádibale...passa Nas janelas muita gente ai bo viaje adeujo homéé n'ganas bonitas quitandeiras de lenço encarnado levam cana no Luanda pra vender hii hii hii aquele vagon de grades tem bois múu múu múu tem outro igual como este de bois leva gente.'" esse comboio malandro sòzinho na estrada de ferro passa passa sem respeito uéué ué com muito fumo na trás hii hii hii te-quem-tem te-quem-tem te-quem-tem .

musicada e divulgada por Fausto: Esse comboio malandro passa passa sempre com a forca dele [.Deixa!UÉ ué ué Te-quem-tem te-quem-tem te-quem-tem . 1924 Este poema do António Jacinto tem uma versão mais longa.] passa passa sem respeito uéué ué com muito fumo na trás hii hii hii te-quem-tem te-quem-tem te-quem-tem Comboio malandro O fogo que sai no corpo dele Vai no capim e queima Vai nas casas dos pretos e queima Esse comboio malandro Já queimou o meu milho Se na lavra do milho tem pacacas Eu faço armadilhas no chão. Se na lavra tem kiombos Eu tiro a espingarda de kimbundo E mato neles Mas se vai lá fogo do malandro ..Castigo Pró Comboio Malandro Autor> António Jacinto Luanda..

num escrever de libertação. Que não se frustre o sentimento de o guardar em segredo como liones. Declaração Autor: António Jacinto Luanda 28/9/1924 1953 As aves. Tantas.Nem com chicote Finjo só que faço forca Aka! Comboio malandro Você vai var só o castigo Vai dormir mesmo no meio do caminho. Mas espera só Quando esse comboio malandro descarrilar E os brancos chamar os pretos p´ra empurrar Eu vou Mas não empurro . tantas coisas comigo adentro do coração que só escrevendo as liberto destas grades sem limitação. Muito fumo mesmo. Ei-lo que to apresento . correm as águas do rio! corram límpidos amores sem medo.Só fica fumo. meu amor. como voam livremente num voar de desafio! Eu te escrevo.

.o amor que vive e cresce ao momento em que fecunda cada flor.. e rompa o fruto da Mãe-Terra fertilizante. ao sol que se coava da mulembeira por sobre a entrada da casa de chapa. escrevendo que nem nos livros! Teresa Mulata . enlanguescido em carcomida cadeira vivia . 1961 Vovo Bartolomé. O meu escrever-te é realização de cada instante germine a semente.puro e simples ..relembrando-a a história de Teresa mulata Teresa Mulata! essa mulata Teresa tirada lá do sobrado por um preto d'Ambaca bem vestido. 1924Poemas. Autor: António Jacinto Luanda.a lumbramento de muito moço pegada por um pobre d'Ambaca fez passar muitas conversas andou na boca de donos e donas. Era Uma Vez. .. bem falante.

Hum. Negro da cor do contratado! Perguntem as aves que cantam... vai ficar negro. Vovo Bartolomé enlanguescido em carcomida cadeira adormeceu o sol coando das mulembeiras veio brincar com as moscas nos lábios ressequidos que sorriem Chiu! Vovo tá dormindo! O moço d'Ambaca sonhando. Monangamba Autor: António Jacinto Luanda. O café vai ser torrado pisado.. 1961 Naquela roca grande não tem chuva é o suor do meu rosto que rega as plantações.Quê da mulata Teresa? A história da Teresa mulata. 1924Poemas. negro da cor do contratado. Naquela roca grande tem café maduro e aquele vermelho-cereja são gotas do meu sangue feitas seiva. aos regatos de alegre serpentear e ao vento forte do sertão: Quem se levanta cedo? quem vai a tonga? Quem traz pela estrada longa ... torturado..

. maruvo e esquecer diluído nas minhas bebedeiras ."Monangambéée.'" Vadiagem Autor: António Jacinto Luanda.."Monangambééé." Ah! Deixem-me ao menos subir ás palmeiras Deixem-me beber maruvo.ter dinheiro? . cinquenta angolares "porrada se refilares"? Quem? Quem faz o milho crescer e os laranjais florescer . peixe podre.Quem? Quem dá dinheiro para o patrão comprar maquinas. ter barriga grande . carros..Quem? E as aves que cantam. senhoras e cabeças de pretos para os motores? Quem faz o branco prosperar. panos ruins.. 1961 .a tipoia ou o cacho de dendém? Quem capina e em paga recebe desdem fuba podre. 1924Poemas. os regatos de alegre serpentear e o vento forte do sertão responderão: .

a Teresa. a querer a Maria e ela sem se dar Vozes dolentes no ar a esconder os punhos cerrados alegria nas cordas da viola alegria nas cordas da garganta e os anseios libertados das cordas de nos amordaçar Lua morna a cantar com a gente as estrelas se namorando sem romantismo na praia da Boavista o mar ronronante a nos incitar . tudo caminho serenamente negro sangue fervendo cheiro bom a flor de mato a Maria a dançar (que bem que dança remexendo as ancas!) E eu a querer. caminho. a Maria.Naquela hora já noite quando o vento nos traz mistérios a desvendar musseque em fora fui passear as loucuras com os rapazes das ilhas: Uma viola a tocar o Chico a cantar (que bem que canta o Chico!) e a noite quebrada na luz das nossas vozes Vieram também. Uma viola a tocar o Chico a cantar a vida aquecida com o sol esquecido a noite é caminho caminho.cheiro gravido de terra fértil as moças das ilhas sangue moço aquecendo a Bebiana. vieram também cheirando a flor de mato . a Carminda.

O livro "Mocambicanto" é uma recolha dos seus textos. quando morreu a 19 de Outubro de 1986. na África do Sul. em Mbuzini. mais tarde. por Albino Magaia. Calane da Silva.Todos cantando certezas a Maria a bailar se aproximando sangue a pulsar sangue a pulsar mocidade correndo a vida peito com peito beijos e beijos as vozes cada vez mais bebadas de liberdade a Maria se chegando a Maria se entregando Uma viola a tocar e a noite quebrada na luz do nosso amor. elaborada após a sua morte. José Craveirinha e Julio Navarro. no. "céleres as águas zambezeiam pela memória das almadias do silêncio . Uma edição da AEMO. 8. Foi primeiro. jornalista. colecção "timbila". Moçambicanto 1 Autor:Gulamo Khan Gulamo Khan nasceu em Maputo a 11 de Maio de 1952. no acidente de aviação que vitimou também Samora Machel.. Era adido de Imprensa na Presidência da República.. locutor na Rádio Clube de Moçambique e.

nem o zumbido da cigarra me entontece nem o troar do tambor me ensurdece as vozes que são sulcos das nossas esperanças Oh pátria Moçambiquero-te neste alumbramento e amar-te devo-o à carne e ao nervo deglutidos em revolta. Da enxada e do martelo é o verso escrito na palma da tua mão punho fechado que nas alavancas das horas faz refulgir o aço analfabetamente parido Cavador maldito pronto a decepar o tronco deste imbondeiro tão paria carcomido pelas talecuas sugadoras do seu sangue es o veneno da nhoca cuspideira queimando as migalhas bélicas postadas de cócoras no caminho dos simples assim altivo ergues o teu nome num pais ainda de nadas e famélicos desbravando os crápulas bem como os satanhocos. .

. Comecei a ter medo de voltar para baixo sem me enforcar.Vou-me enforcar. Por outro lado. não ando sempre a correr.Aquele pateta inventou mais uma das suas! . é má e dizia: .. e enforquei-me. escondi-me com a corda ao pescoço em cima da copa do cajueiro da aldeia e daí podia ver Mariana correr para a esquerda e para a direita." pagina 126: "Excelência.Sei da Pátria o nome erguido a estrela tatuada no corpo do Indico uma timbila canção guerreira" Casa da Justiça Autor: Grandal Nkepe in "Casa da Justiça"... Assim.no! uno! Bruno Ca. escrevi numa folha .. pelo contrário. Os grandes pensam que os pequenos não sofrem e que eu não tenho coração só porque ontem fui buscar os óculos para ler os correios. aparecer e desaparecer. pelo seu lado.nema!. 1994 Página 48: " Corri para a cozinha à procura da Mariana e pedi-lhe para cozinhar depressa. vim a correr e deixei-os cair no chão. é boa e gosta de mim. chorava e chamava: . mas como nunca mais morria.Bruno Capanema! Bru...os. Henriqueta.pa. parti. a minha cabeça não é uma batata! Sou um gajo . não chorava.Basílio. Sempre pensei que Mariana é como Nossa Senhora. Edição do Autor. para a frente e para trás. porque sabia que eu estava na copa do cajueiro com a minha corda esticada de sisal..

Eu sou um tipo afortunado. por mais que eu o tratasse por senhor chefe. . mas estou armado em palhaço. um presunto no rio. O meu primeiro passo para ganhar a vida era ao frio. Eu sou um autentico homem da sociedade. deixe-me viver à tripa forra para levar uma vida mais folgada.de sorte. Kok Nam. para receber uma lição de pesado fardo! Não me ralo nada. esses vinte anos. obliquamente. a correr o país de lés a lés. Não voltarei. nos olhos: Não voltas mais? Digo-lhe só que não. Deixe-me apertar-lhe a mão. mas ficarei sempre. estou no piso superior a contemplar o vazio. a salvo de todas as futurologias indiscretas. preservado apenas na exclusividade da memória . um oficio em que posso dar à língua e que nada tem que ver com ratos nem canoas. tinha de partir de manha sem tomar chá. Acabei dois dias a rir. à poeira. tem-se de esperar que Deus todo poderoso as faca crescer. baixa a Nikon e olha-me." Aeroporto Autor: Rui Knopfli in "O monhé das cobras" Página 56 É o fatídico mês de Março. Essa é boa! O resto talvez seja o mais importante. embrulhado nas mulheres com palavreado. algures em pequenos sinais ilegíveis.dizia o chefe. o fotógrafo. nem que assobie por eles. Estive vinte anos na guerra. como não se pode fazer crescer as árvores. não voltam. é o que estou a dizer. ao barulho.Mete-me esse malandro no calabouço! . ninguém é capaz de me conhecer.

1972 "Mangas verdes com sal Mangas verdes com sal sabor longiquo. à crista do tempo. o quilómetro cem durando orgulhoso no cimo da palmeira esquiva. Mangas Verdes Autor: Rui Knopfli. no minuto da suprema humilhação. ao meio da vida. Não quero lembrar-me de nada. à boca ardida. Desmantela-se a estátua do Almirante. Desmembrado. sabor acre da infância a canivete repartida no largo semicírculo da amizade.privada. Desmantelado. peça a peça. Sabor insinuante que retorna devagar ao palato amargo. na maré-baixa." Matinés do Scala . Nunca se esquece. Sabor lento. alegria reconstituída no instante desprevenido. o sono do bronze na morte obscura das estátuas inúteis. o Almirante dorme no museu. só me importa esquecer e esquecer o impossível de esquecer. eu sobreviverei apenas no precário registo das palavras. tudo se lembra ocultamente.

miradas discretas em redor. o Piricas regia a partitura. enfunadas as crinas ondulantes. o único herói autêntico era. idem. 1997. Devolvida a senha de entrada. o Piricas. sobranceiro à baía e à Catembe. Ao intervalo. páginas 45-6 Entre a rampa e o caracol da barreira. edição da Caminho. no comando das operações. Mas. Na fila Z. a surtida ao Hazis para comprar scones e laranjada.Rui Knopfli in "O monhé das cobras". neste embuste. sem que o sacana do chapéu de aba larga lhe caísse. flexionando peito e músculo. os desenhos animados e a coboiada. Hopalong Cassidy jogava à porrada. Empinando. 1997. O episódio da série. ao fim da tarde. página 43 Obrigatoriamente aos sábados à tarde. Pavoneavam-se as meninas e nós. até ser Marrocos. gesticulante. alguma vez. rente à pantalha. Miradouro Autor: Rui Knopfli in "O monhé das cobras". recomeçava o espectáculo. Enquanto a malta ia e vinha. Rotina . edição da Caminho. palominos amestrados completavam o circo. o picadeiro ideal para o exibicionismo laurentino. da pinha. passeio raso.

diária. até hoje percorre os matos em busca dos testículos perdidos. o Cagalhim era só o bobo daquela festa. 1959 "Naturalidade Europeu. Entretanto. com alarido. dizem que o Cagalhim. mas africano sou. Pulsa-me o coração ao ritmo dolente . Caçador furtivo e nocturno. a tossir e a resfolegar. Mesmo com a ruidosa chegada do Cagalhim. É provável. um cocone que. que vexado. envergando os óculos do caçarreta. o teria capado. De borco. Naturalidade Autor: Rui Knopfli in "O País dos Outros". sempre cumprida sem atropelos. faca em punho. me dizem. cansada das correrias da véspera. no Miradouro. sob o holofote. Não sei se o que escrevo tem a raiz de algum pensamento europeu. a cavalo na sua desconjuntada carrinha Ford. o boi-cavalo. o Cagalhim exibe. Presumido herói. Pior ainda. Não. o terá colhido. falhado o tiro. É certo. os que não tem. Eivam-me de literatura e doutrina europeias e europeu me chamam.fora a de ter enfrentado.. sua maior aventura rezava a lenda . arrancando-lhe da cara os óculos. espezinhado.. para gáudio do pessoal.

Mas dentro de mim há savanas de aridez e planuras sem fim com longos rios langues e sinuosos.desta luz e deste quebranto. Aperta em tua mão esse objecto frio. duro e poeirento. em sua coesão molecular. redondo aqui. Chamais-me europeu? Pronto. uma arma em tua mão. toma esse poliedro imperfeito. Uma pedra. Segura com força esse granito bruto. todavia poderosa. acolá acerado. Uma coisa inócua." Pedra no Caminho Autor: Rui Knopfli no livro Reino Submarino. uma fita de fumo vertical. na avenida . Trago no sangue uma amplidão de coordenadas geográficas e mar Indico. caso-me mais à agrura das micaias e ao silêncio longo e roxo das tardes com gritos de aves estranhas. redondo aqui. Ao meio-dia em ponto. em suas linhas irregulares. 1962 " A pedra no caminho" "Toma essa pedra em tua mão. tensa. Rosas não me dizem nada. acolá acerado. calo-me. um negro e uma viola estalando.

Adoravam os deuses das águas. pode assim dizer-se. Ao meio-dia na avenida tu és um homem segurando uma pedra. Ao fim de longos dias e longas noites de danças e preces. Tem artigos publicados sobre temas culturais em suplementos literários. naquele tempo. alimentavam-se de carne e leite azedo. principalmente pela musica e pintura. tu és um homem um pouco diferente. É pela via da arte musical que se inicia na criação literária sob forma de composição poética para canção. pois os N'Gongwe eram uma tribo aguerrida e de terrível ferocidade. Segurando-a com amor e raiva. onde começou a interessarse pelas artes. penetrou no "ninho das víboras". só saiam depois de prolongados rituais à beira das águas. é o seu primeiro livro. De lá. emergiam numa noite de luar como monstros de . assim o exigia a sua natureza. os seus feiticeiros eram consagrados no fundo dos rios onde permaneciam longo tempo dedicando-se ao estudo dos mistérios da vida e da morte.ensolarada." "Mabogue ya M'bizwa" Autor: Hortencio Langa Capítulo I no livro "Magoda" Hortencio Langa nasceu a 23 de Marco em Manjacaze. escrito em 1986. ele próprio se disfarçou e. Edição da Associação dos Escritores Mocambicanos. Barbudos. colecção Karingana. incógnito. No. Viveu a sua infância e parte da adolescência no Chibuto. 15. grossos como touros. "Conta-se que. "Magoda". tanto em língua portuguesa como em língua tsonga. o rei Mabogue para se prevenir da conspiração dos chefes das tribos vizinhas.

Mas Mabogue ya M'bizwa também possuía o segredo da magia dos deuses da floresta sagrada onde os reis seus antepassados. ainda sufocado pela sede de vingança. quando certo dia um mecânico conhecido por Juca Mulato caiu de borco ao sair do banco onde estava sentado e para sua grande surpresa. descalçando-as. A raiva com que ficou Juca Mulato. Juca. 27 Apr 1997 15:02:13 gmt+0200 From: Joaquim Falé Autor: Hortencio Langa in "Magoda". é difícil senão mesmo impossível. a gargalhada foi geral. imundos e grotescos. para se precipitar sobre os miúdos. guinando numa travagem brusca para evitar um atropelamento fatal. corais e corpúsculos aquáticos encrustados na sua pele exalando um cheiro a peixe." . sob o olhar de protesto dos miúdos que ofegavam a salvo. Mas imaginar o que teria acontecido se uma camioneta não tivesse estacionado entre ele e os miúdos em debandada. páginas 30-31 "O espírito farrista e brincalhão dos seus novos amigos depressa se revelou.. podia medir-se pela maneira como se desembaraçou das botas. já no chão.lhe o passo. tolhendo.. capítulo V. viu-se com os atacadores das botas atados um no outro.matope. No bar. dirigiu-se resfolegando à mesa de "matraquilhos" e introduziu as bolas ainda por jogar baliza adentro. em peregrinações. Quando o lodo escorria dos seus corpos reluziam então as escamas. expandindo-se à esplanada onde os miúdos que jogavam "matraquilhos" sacudiam-se em risos convulsivos." Topas-ou-Viras Date: Sun. protegidos pela distância. iam buscar coragem apondo as suas armas em riste na boca de perigosos felinos e eram vacinados por autenticas cobras mamba para alcançarem o poder da invulnerabilidade.

.. Noites africanas tenebrosas.. e sulcado de rugas. esqueceram as histórias. poe tremores nas folhas dos cajueiros..... nas longas noites africanas. como a solidao das terras enormes mas desabitadas. mas tristes..... povoadas de fantasmas e de medos. .... tenebrosas langorosas.como o rosto gretado.. esbatidas em luares. onde o barulhento frenesi das batucadas..Noite Autora: Alda Lara Angola Noites africanas langorosas... Por isso as noites são tristes... e esqueceram as histórias.. perdidas em mistérios. Noites africanas endoidadas. endoidadas... povoadas das histórias de feiticeiros que as amas-secas pretas.. é que os meninos brancos.. Ha cantos de tunguruluas pelos ares!... como o olhar cansado dos colonos. E os meninos brancos cresceram.. contavam aos meninos brancos. das velhas pretas. com que as amas-secas pretas os adormeciam..

. em duas faces cansadas. Mãe-Negra.. como eu sei tudo .. desce com ela. Mãe-Negra tem voz de vento. nas suas mãos apertadas.esqueceram!.. Que é feito desses meninos que gostava de embalar?.. voz de silêncio batendo nas folhas do cajueiro. nem brincadeiras de guisos. descendo. Que é feito desses meninos que ela ajudou a criar?. Mas ai de quem sabe tudo. Prelúdio Autor: Alda Lara Angola Pela estrada desce a noite. Tem voz de noite... pela estrada......Os meninos brancos. Quem ouve agora as histórias que costumava contar?.. Mãe-Negra não sabe nada.. nem vestidinhos de folhos. Nem buganvilias vermelhas. Só duas lágrimas grossas.. de mansinho......

Mãe-Africa! Mãe forte da floresta e do deserto. a Irmã-Mulher de tudo o que em ti vibra puro e incerto. So tu ficaste esperando. ainda sou.... quem sabe se hão-de voltar!. filha eterna de quanta rebeldia me sagrou. é tua a voz deste vento.Mãe-Negra! Os teus meninos cresceram. desta saudade descendo. mãos cruzadas no regaço.. A dos coqueiros.. Angola E apesar de tudo. bem quieta. Presença Africana Autora: Alda Lara Benguela.... de cabeleiras verdes e corpos arrojados . de mansinho pela estrada. bem calada. ainda sou a mesma! Livre e esguia. Muitos partiram p'ra longe. e esqueceram as histórias que customavas contar.

pelos bairros imundos e dormentes (Rua 11!. Sem dores nem alegrias. A do sol bom.. aquela longa história onconsequente. Minha. ainda sou a mesma... de tronco nu e musculoso. a força destes dias... A das acácias rubras... eternamente... A do amor transbordando pelos carregadores do cais suados e confusos.. Terra! Ainda sou a mesma. longas e floridas.sobre o azul...) pelos meninos de barriga inchada e olhos fundos.. salpicando de sangue as avenidas.. Sim!. e sempre. Minha terra.. mordendo o chão das Ingombotas. mansamente. a raça escreve a prumo. Ainda sou a que num canto novo ....Rua 11!. dos colios baloiçando.. Terra das acácias... nela.. dos dongos... E eu revendo ainda. A do dendem nascendo dos abraços das palmeiras.

e faleceu em 1962.. numa alegria selvagem. na verdade. que se alongue sobre o mar. Regressar..... Voltar. Poder de novo respirar. com o tom da tua paisagem.. Quando eu voltar.. circundam de magia..) aquele odor escaldante que o humus vivificante do teu solo encerra! Embriagar uma vez mais o olhar. ao aceno do teu povo! Regresso Autora: Alda Lara Angolana Esta poesia foi escrita em 1948. onde se formou em medicina.. . vida e amor.. ANGOLA. (oh!. quando a autora viveu alguns anos em Coimbra e Lisboa.. Voltou.minha terra!. que o sol. para voltar. Ver de novo baloicar a fronde magestosa das palmeiras que as derradeiras horas do dia. o meu canto ao Creador! Porque me deu. em Cambambe.pura e livre.. me levanto.

.. os meus sentidos anseiam pela paz das noites tropicais em que o ar parece mudo..Tenho saudade do horizonte sem barreiras.. igual.. das calemas traiçoeiras.... Não mais o pregão das varinas. todos os dias iguais.. Saudade. Saudade das batucadas que eu nunca via mas pressentia em cada hora.....a dardejar calor.. Não mais o agitar fremente de uma cidade em convulsão.. não mais esta visão. Sim! Eu hei-de voltar.. nem o crepitar mordente destes ruidos...Tenho sede dos crepusculos africanos... de tons quasi irreais. soando pelos longes. Com que prazer hei-de esquecer . nem o ar monotono. tenho de voltar. e sempre belos... Hei-de ver outra vez as casuarinas a debruar o oceano.. do casario plano. noites fora!. e o silêncio envolve tudo Sede. não ha nada que mo impeca. transforma num inferno de cor. das cheias alucinadas.

.. que em frente estah a terra angolana. o meu prazer sem lei... a mesma Terra nos gerou! .. e ninguem resiste á voz da Terra. a sangrar numa verbena sem fim. Hão-de as acacias rubras. a prometer o mundo a quem regressa. a Terra chama por nos.. Nela. florir so para mim!. e se tu es negro. Longe... A minha alegria enorme de poder enfim dizer: Voltei!... o sol ardente.toda esta luta insana... Rumo Autor: Alda Lara Angolana é tempo companheiro! Caminhemos. Ah! quando eu voltar.... e eu sou branca.. ha-de gritar na apoteose do poente. E o sol esplendoroso e quente. o mesmo sol ardente nos queimou a mesma lua triste nos acariciou.

. para o Diário de Moçambique da Beira.. Portugal... Canção da Angonia Autor: Gouvea Lemos Gouvea Lemos nasceu em Lamego. da região do Chimoio. Foi para Moçambique em 1949 aos 25 anos de idade.. E o meu suor. um dos marcos do jornalismo independente . Inicialmente começou a trabalhar na área contábil da Textafrica na Soalpo e começou ainda de lá a escrever as suas primeiras linhas como correspondente.. Vamos! que outro aceno nos inflama.. o jornal dos Padres. quando rasgarmos os trilhos de um mundo melhor. E é tempo companheiro! Caminhemos.. Ouves? é a Terra que nos chama. Depois passou por vários jornais de Moçambique. tendo como um dos grandes feitos ser um dos fundadores do jornal semanal Tribuna.. Que o meu coração se abra á magoa das tuas maguas e em prazer dos teus prazeres irmão: que as minhas mãos brancas se estendam para estreitar com amor as tuas longas mãos negras..Vamos companheiro! é tempo.

Sei bem disso pois como filho convivi com muitas das suas aflições. quem de nos ira voltar? Vinte e quatro luas. juntos com G. sem ver a minha terra. três meses após a sua chegada ao Brasil. José Craveirinha. Lemos Visto a camisa lavada e vou para o contrato.L. para lá do mato. Fernando Couto (pai de Mia Couto) e muitos outros. Quem de nos. Nos últimos anos de Moçambique foi o Director de Redacção do Noticias da Beira. Quem de nos ira morrer? Visto a camisa lavada e vou para o contrato.L. nasceu em Portugal mas sei como ele sentia-se Moçambicano e como sofreu pelas injustiças dos tempos da ditadura colonialista. viveram grandes momentos históricos do jornalismo moçambicano. já cansado da ditadura colonial e das pressões de orgãos como os da PIDE e da censura. sem ver o meu boi. José Paulo G. sem ver as mulheres. . Vou para além da montanha. Em 1972. trabalhar lá longe. onde some o rio.de Moçambique colónia. Já com problemas cardíacos e com a aflição de ter que deixar a sua Pátria adoptada. Sei que G. no Rio de Janeiro. resolveu migrar para o Brasil. veio a falecer. Quem de nos. Rui Knopfli.

irmão. Quem de nos ira voltar? Quem de nos. vamos andar noite e dia. no vagão. Quem de nos ira voltar? Quem de nos. Quem de nos.Quem de nos. e hora de ir ao contrato. Quem de nos ira morrer? Veste a camisa lavada. quem de nos ira morrer? Quem de nos. Entra. e ver nossas terras e ver nossos bois? Quem de nos ira morrer? Quem de nos? Quem de nos? Menir Barroco Autor: Manuel Sousa Lobo Moçambique brilham trutas na brasa um corpo na pira arde ao ritmo de pés vísceras de uma virgem rodando Avoé Terra! ânfora escorre mel mãos azeite vão olear ombros no capim cerveja derramaram espuma Avoé Mandiceu! raça grega aroma de ramisco . Quem de nos ira voltar e ver as mulheres.

ostras e olhos de anho em bandejas de prata o bode berra quer fugir da faca Avoé Baco! incendiou-se o colmo de um telhado a velha já não tece cavalos desfazem nuvens lábios sobram cinzas Avoé Gudrun! olhar para oriente chegaram de Damasco vinhos muito leves frutos muito secos Walada omíada princesa era ruiva e escrevia Avoé Profeta! rosado mármore açafrão café engrenagem que chia bustos capitéis o verbo a honra a espada roldanas degraus Avoé Cruz! 10 caravelas indo 100 brâmanes de cócoras 1000 índios sem orelhas 10000 negros em fila Avoé Esfera! deitada uiva a rainha o morto sai de um espelho Queluz tem labirintos castanholas o infante traz coelhos para a sala do trono Avoé Vazio! Arte Poética Autor: João Maimona Angola 1979 Que erosão no choque genésico das marés de encontro às pedras habitadas. . Cai areia na areia.

Entre os dentes do mar acendiam-se braços. Eram os barcos que guardavam as muralhas da noite que a mão ouvia nas costas da madrugada entre os dentes do mar. E da chuva de barcos chegavam colchões. manadas de estradas perdidas onde cantavam soldados de capacetes por pintar no coração da meia-noite. camas. E quando a mão dezlizar pela margem das cicatrizes que se afundam na noite saberás que a tua mão viaja para a . Os dias namoravam sob a barca do espelho.Assim o gasto da palavra limando os duros conformismos libertando as verdades mais remotas tão necessárias ao fruir dos gestos. Memória Autor: João Maimona Angola Baloiçando nos escombros de teu itinerário saberás que os gados constroem estradas. cadeiras. As Muralhas da Noite Autor: João Maimona Angola A mão ia para as costas da madrugada As mulheres estendiam as janelas da alegria nos ouvidos onde não se apagavam as alegrias. Havia uma chuva de barcos enquanto o dia tossia.

Anuviaste a linguagem de teus olhos diante da gramática da esperança escrita com as manchas de teus pés descalços ao percorrer o caminho das coisas. No caminho doloroso das coisas. Fechaste os teus dois olhos ao bouquet das palavras que estava a arder na ponta do caminho o caminho que esplende os teus dois olhos. Poema para Carlos Drummond de Andrade Autor: João Maimona Angola É útil redizer as coisas as coisas que tu não viste no caminho das coisas no meio do teu caminho.1957 . Alto Como o Silêncio Autor: Maria Manuela Margarido Ilha do Príncipe 1925Alto Como o Silêncio. Fechaste os teus dois olhos aos ombros do corpo do caminho e apenas viste uma pedra no meio do caminho.colina dos dias sem escombros e saberás que no berço da noite jaz a luz drogada e ouvida pela cruz sobre quem viajaste.

Tomé e Príncipe" Entardecer. capim nas costas do negro reluzente a caminho do terreiro. a linha bravia das rosas e a grande baba negra e mortal das cobras. No fundo da sombra bebendo por conchas de vermelha espuma que mundos de gentes por entre cortinas espessas de dor. a tarde clara deste fim de Inverno! Só com horas azuis no fundo do casulo. Alto sonho. Oh. Paisagem Autor: Maria Manuela Margarido S. Papagaios cinzentos explodem na crista das palmeiras e entrecruzam-se no sonho da minha infância.. Tomé e Príncipe in "Poetas de S. alto como o coqueiro na borda do mar . e agora a ilha.A ilha te fala de rosas bravias com pétalas de abandono e medo. na porcelana azulada das ostras..

1963 O aroma dos mamoeiros desde a grota. Os moleques sonham cazumbis nas lajes do secador. palanca a devorar a distância. Lenta. a narrativa dos serviçais sentados no limiar da esperança é palanca negra a derrubar paliçadas e fronteiras.com os seus frutos dourados e duros como pedras oclusas oscilando no ventre do tornado. Tomé e Príncipe". Tomé e Príncipe in "Poetas de S. a regressar a Angola. E uma figura de linhas agrestes se apodera do tempo e da palavra. Trazem na pele tatuada a hierarquia das relíquias alimentando-se de um sangue . No céu perpassa a angústia austera da revolta com suas garras suas ânsias suas certezas. aos muxitos do Sul. Serviçais Autor: Maria Manuela Margarido S. sulcando o céu com o seu penacho doido. é chuva grossa empapando os campos de Cabo Verde a germinar o milho da certeza.

Monótona se arrasta até explodir na alta ânsia de liberdade. Tomé e Príncipe". livres enfim os homens e a terra dos homens. os pés-raizes-da-terra enquanto a voz do coro insiste na sua queixa (queixa ou protesto . Ouço os passos no ritmo calculado do socopé. Amanhã os clamores da resta acordarão as longas avenidas de braços viris e a terra do Sul será de novo funda e fresca e será de novo sabe a terra seca de Cabo Verde.tanto faz). Socopé Autor: Maria Manuela Margarido S. névoa da vida. Vós Que Ocupais a Nossa Terra . 1963 Os verdes longos da minha ilha são agora a sombra do ocâ.tanto faz). café ou cacau . Tomé e Príncipe in "Poetas de S. nos dorsos dobrados sob a carga (copra.desprezado que elege os magistrados da morte.

tomamos chá do gabão. apenas desbotadas máscaras do homem. arrancamos a casca do cajueiro. Derrubam as árvores fruta-pão para que passemos fome e vigiam as estradas receando a fuga do cacau. Tomé e Príncipe".Autor: Maria Manuela Margarido S. apenas esvaziados fantasmas do homem? Vós que ocupais a nossa terra? Caminho Longe Autor: Gabriel Marianp Cabo Verbe in "12 poemas de circunstância". A tragédia já a conhecemos: a cubata incendiada. E vós. Tomé e Príncipe in "Poetas de S. o telhado de andala flamejando e o cheiro do fumo misturando-se ao cheiro do andu e ao cheiro da morte. 1963 É preciso não perder de vista as crianças que brincam: a cobra preta passeia fardada à porta das nossas casas. 1965 Caminho caminho longe ladeira de São Tomé Não devia ter sangue . Nós nos conhecemos e sabemos.

Longa è a ladeira que a fome alonga. Praia. Parados os olhos se esfumam no fumo da chaminé. Devia sorrir de outro modo o Cristo que vai de pé. Minerva. Enquanto eu vivo as perguntas duram E eu vivo da fome interrogativamente. E as bocas reservam fechadas a dor para mais além Antigas vozes pressagas no mastro que vai e vem.Não devia. Longa è a ladeira que a fome alonga. Caminho caminho longe ladeira de São Tomé Devia ser de regresso devia ser e não é. mas tem. Única Dádiva Autor: Gabriel Mariano Cabo Verbe in "12 Poemas de Circunstância". . 1965 Os engajadores levaram a nossa única dádiva e já ninguém devolve o que nos foi roubado.

"..No dia do enterro Não tenho que imaginar nada aqui estas sensível ao ser . tal é o mito UKEMELIDAS .. É verdade a vida são três dias: ontem. Morte Autor: Filimone Meigos Angola in coluna "é verdade. hoje e amanhã.Como podem ladrões rondar meus olhos se amor só meus olhos tem? Longa è a ladeira que a fome alonga terralonginquamente. essa unidade tridimensional do Universo Cósmico (24 horas antes do enterro da minha irmã) Imagino-te amanhã a olhares-me morta e a pores a malta toda a viajar contigo nas três dimensões vitais. II Onde morre um preto há sempre um feitiço a quem arranjar dono. jornal Savana Morte.

tu minha irmã querida a seres comida por esses vermes sub-terraneos só por causa dum paraíso? Tempo espaço não sei se me refaço. buraco leva tal é o destino de todos eles (isto é. Pedro estas minha filha ao lado dos que já cá não estão pai nosso que estais no céu desgraça a minha nesta terra que se fendeu e recebeu minha Dina.desta ausência suprema tua presente inexistência. No teu olhar mais uma pazada de dor. urna de contrição. Mas como imaginar-te. todos nos) Sobre os mortos OS MORTOS TAMBÉM AMAM ACASALAM-SE À TERRA E FAZEM-SE LENDA PARA QUE NOVAS GERAÇÕES . III (choro de minha mãe) Sentada ao lado de S. Numa dimensão religiosa "da terra vieste e à terra retornaste". No meu coração qual acto. Já não tenho duvidas fender é sempre receber buraco dá.

. O PONTO É QUE ENTRE A PIOR IMAGEM DA TUA VIDA E ESTA DO TEU ENCAIXILHO PREFIRO A VIVA REMADORA CONTRA A MARÉ QUE ERAS.SE AMEM MAIS E MELHOR. NO ENTANTO CUSTA-ME PRESENCIAR ENTERROS TAL É A AVERSÃO QUE OS EVITO EMBORA OS HAJA INEVITÁVEIS. tuas nádegas suaves frescas e belas Exortação . Dunas Autor: João Melo Angola in "Vozes poéticas da lusofonia".. Sintra 1999 Dunas brancas dunas onde altivo brilha o sol. tuas nádegas Dunas firmes dunas onde célere pulsa o sangue. Dunas doces dunas onde trémulo sucumbo ardendo.

Destrói-os. se tens exercícios de literatura escritos há mais de um mês. para que possas transmiti-los a um amigo quando depois do venal acto de amor forem também vender a irresistível suspeita da tua voz trémula e dos teus outros actos.Autor: Orlando Mendes no seu livro "Adeus de Gutucumbui". Descendo e deles herdei todos Os caracteres fundamentais E talvez herdasse alguns mais Da mestiçagem de outras raças Que fizeram guerras. a cor da pele. edição da Académica Lda. E admito pois que o tamanho. combatendo Conquistaram e perderam praças. Mas não deixes de escrever. A fria razão e o instinto. Guarda-os todavia fiéis na memória. Rasga-os ou queima-os de preferência (consta ser universalmente mais ortodoxo) e se a chama te chamuscar unhas e pele e as sujar a cinza. mouros e visigodos. colecção O SOM E O SENTIDO. Peço-te que não.p. Diz a História e não tenho Do contrario uma prova séria Em testamento que a revele. o sangue. não queixes a dor e lava-te. O rosto." História Autor: Orlando MendesBR>Moçambique Diz a História que descendo De celtas. . destrói-os. 25 "Jovem. palavra por palavra.

deponho. de pão ou de infinito. posse e fecundidade Coragem forjada no segredo Medo que se chore ou se brade Guerra de amigo ou de inimigo. Excitável carne e uma voz Memória de um país adulto Que se não cala por não trair-me No idioma de meus avós. Desejo. E por isso. Contudo. Não própriamente o enredo Mas esta seiva elementar De África nos versos que digo E os homens a saibam cantar. Admito. Perpétuo aprendiz que sou eu De velho oficio sem licença. Para ser a mão direita firme Que enche de palavras o papel. nada herdei que dome A grandeza nova que transmito. Admito. fome e sonho De vinho. E as datas festejo E retomo lutas que não venço E amo nas horas do desejo Com o mesmo requinte que deu Origem de mim à Criação E bebo o vinho e como o pão Da minha sede e da minha fome. Noiva Autor: Orlando Mendes .Adquiri em séculos de Ibéria Para ser o que penso e sinto O que mostro e o que oculto. Não apenas sede.

in "Adeus de Gutucumbui" p. 33 Eu te daria frescas flores de laranjeira para uma grinalda na carapinha desfrisada. um colar e um trevo que te darei talvez para usares quando não puderes ser noiva de todos fazendo bandeira às nove horas da noite naquela rua de areia. Eu te daria um trevo de quatro folhas verdes para que te nascesse o primeiro filho varão. Eu te daria um colar de missangas coloridas para uma cruz de outra carne a fogo marcada sobre o seio esquerdo ao rasgar da virgindade. Eu te daria se não fosses a noiva de todos fazendo bandeira com uma capulana garrida às nove da noite naquela rua de areia suburbana. Uma rosa encarnada se desfolha na fonte do teu corpo em cada lua nova como se fosses a virgem noiva a quem eu daria flores de laranjeira." Para um Fabulário Fazei as medições convencionais Por esbatido que seja o horizonte Declarai que existe uma fronteira Onde a dor já não possa calar-se Guardai incontaminada a esperança Pelo desespero de um e outro lado Apagai na vossa terra bem amada Os vestígios de passos paralelos Deixai envelhecer nos rostos viris As rugas impregnadas de silêncio .

cidade onde o vinho abre o sexo ao gume dos astros ó tambor de sangue espuma de um tempo e metal à proa que mãos te alijam o som de asa sob a terra. amor consumado E contai a todas as crianças. África Autor: David Mestre Angola 1972 ." De Asas Sob a Terra Autor: José Luís Mendonça Angola Ergue-te cidade malar vigília de pássaros estrangulados cheiras a crepúsculos e água.Escutai a noite que o vento possui Com a sedução das palavras matinais Escolhei um dia claro e fecundo De flores abertas. contai Que se fundou o país das maravilhas.

grávida luena sentada no verso da fome. num gabinete da Europa. dois geógrafos vão assinalar a estranha posição dum poeta cruzado na esperança morosa das palavras africanas aguardarem acento. 1973 existo acento de palavra. aqui esqueço África. pasmadas na superfície do medo que bate oblíquo no quimbo quebrado. mapa de conversas na visitação da lua.é neste silêncio neste assalto do vento a navegar a floresta neste sol neste amor neste vegetal cobrir-me de verde e ser catana cerce a executar o ânimo afagar as mulheres no regresso da lavra fazer das mãos a festa sonora do sexo na cultivação do milho é neste grito rente ao corpo frágil das folhas que mais em ti me venço e moro nas grandes batalhas da vida no extenso vale das nossas angústias no duelo cíclico das nossas intenções Espera Autor: David Mestre Angola in "Crónica do ghetto". carapinha recordação áspera de monandengue. O Sol Nasce a Oriente (de um quadro de Malangatana . permaneço rente ao tiroteio dialecto das mulheres negras.

javite ou lança tua hora. Portugal. de ti canto o movimento teu nome. 1948 Vive em Angola desde os oito meses de idade Povo. quissange em trança Do longo longe do tempo arde minha flecha. colecção Karingana Nº 18 da AEMO. as palavras do medo os olhos falantes da mata quando a onça posta a sua arte nos fita. 1997 página 23 "Mulher e Cobra fitam-se longamente. guardada em sua mágoa. De ti amo a denuncia felina das tuas mãos quebradas ao presente a dança prometida do sol nascer um dia a Oriente Os Olhos da Cobra Verde Autor: Lila Momplé in "Os olhos da cobra verde".Autor: David Mestre Loures. sem a menor . canção feita de fronteiras lua nova. meu lamento minha bandeira de outro vento aurora urdida nos lábios de Zumbi De ti guardo o gesto as conversas leves das árvores a fala sabia das aves o dialecto novo do silêncio e as pedras.

Ilha de S.animosidade ou receio. A Cobra reconhece-lhe essa íntima mansidão visto que também ela é uma cobra mansa. brilhantes e verdes.." Barcos Autor: Yolanda Morazzo Mindelo. de um verde mais claro. já velha em anos e sofrimento. como duas esmeraldas incrustradas no corpo delgado e curto. Fantasmas De pescadores Contrabandistas Desaparecidos Em qualquer vaga Nem eu sei onde.Vicente. A mulher. Canto e sorrio. Cabo Verde.. 16/12/1928 "Nha terra é quel piquinino É São Vicente é que di meu" Nas praias Da minha infância Morrem barcos Desmantelados.. E eu sou a mesma Tenho dez anos Brinco na areia Empunho os remos. não obstante a postura derreada do corpo. . conserva no rosto a rara luminosidade de quem uma longa vida não conseguiu extinguir a inocência e a capacidade de encantamento próprios da infância.. Por isso a observa com os seus olhinhos redondos. isenta de veneno e de malícia.

. Chão de Pátria Autor: Marcelo Mosse in revista "XIPHEFO". Vasculho num traço flutuante: as garras do tédio novamente charmosas e o labor perene das micaias nas franjas da alma. Dezembro 1994 "Cale-se a vergonha dos balazios leva-se o verbo ao escárnio e nos aos escombros Eis-me perante o rancor que emerge da merda das etiquetas oficiais.." A Noiva de Kebera Autor: Aldino Muianga in "A noiva de Kebera".. E o pobre barco O barco triste Cansado e frio Não se moveu. 1992 . Olho com fixidez.A embarcação: Para o mar! É para o mar!. os pseudo discursos expendidos com nojo a tiracolo.. edição do autor e Editora Escolar.

colecção INÍCIO número 7 de 1987 «Eu disse há-de matar este home um dia. eu não pode companhar Maria por caso dele. Maria. Maria com ele está a brincar comigo. . XITALAMATI é a sua estreia em livro.Página 13 Com a habilidade nascida da experiência. Sanga-Kebera virou o ambiente frio e fúnebre que ameaçava viciar aquela noite de serão. tendo-se deixado contagiar e marcar pela vida agreste dos bairros pobres suburbanos. você vai saber qué nhé filho de Mutchatchane». bebendo e vertendo cabaças de sangue sobre as cabeças uns dos outros. com mortos e vivos a confraternizar em fantásticas orgias. Juro cinco chaga. Tudos dia costuma ir levar Maria na letaria. Minh'Amor. E apalpa o inseparável canivete de mola metido no bolso traseiro das calças. Eu já sabe. Cresceu e viveu nos arrabaldes alagadiços desta cidade. Minh'Amor Autor: Aldino Muianga do conto Maria. É tal o dramatismo e o entusiasmo que põe na narração que as imagens dos personagens parecem suspender-se na atmosfera da palhota como seres reais e concretos. mas porqué deixa esta gajo entrar aqui? Deixa cabar festa. p. A própria tia Taba-Mayeba não conseguiu suster um calafrio que lhe sacudiu o corpo inteiro. Narrou um arrepiante nkaringana que ouvira nos remotos tempos do avô Sa-Kebera. Este família não é bom família. 67 Aldino MUIANGA nasceu a 1 de Maio de 1950 em Maputo. ele é amante de Maria e entra aqui em casa já. Família sabe eu quer casar Maria. Uma edição da AEMO.

Pelo canto do olho. senão eu mata vocês dois e depois morre também. e invejando Maria pela aparente boa escolha que fizera.. varado de surpresa ouve a matrona apresentar-lhe: . Maria não está lá. faz favor não faz poco de mim. Não lhe dá importância e retorna à conversa com os da casa. A mesma matrona que ali os introduzira adianta-se e. «aquela gajo com olho de cão» estende-lhe a mão com confiança. Está ausente. Uns entram. empertigado e exibindo no rosto um sorriso de triunfo. todos mirando-o. Este é. E envolvem-se num abraço quente que dissipa para sempre a cortina de ciúme que Faustino erguera e deixam-se sacudir por . .. onde você estás? Juro que você estás lá fora esperar conversar com aquela tua amigo. curiosos. distribui lugares pelas cadeiras e esteiras previamente preparadas para o efeito. Há um grupo de pessoas que se aglomera à porta. outros saem. «Oh Maria. papá Fopence apercebe-se da brusca mudança de atitude do seu acompanhante. Então porqué não vens? Maria.» Faustino vai correspondendo distraidamente aos cumprimentos. vaga nas nuvens montado em tenebrosos planos. De queixo caído. Faustino não crê no que ouve.Este é pai de Maria. irmão de Maria. Faustino está à beira de um desmaio. À sua frente. Este é avô de Maria. ordeiramente. As pessoas vão-se sucedendo nos cumprimentos.Este é Jacobe.

O mar levou o meu amor A filha do gra-marinheiro Pois ela partiu primeiro Sem escutar o meu clamor. Ai. Os estilhaços da minha infância Ficaram emulsionados na forca da água Os versos feitos em minhas mágoas Também ficaram em turbulência. p. ." Ensaio de Lágrimas Autor: Hélder Muteia in "Verdades e Mitos".uma gargalhada convulsiva que é o presságio de uma amizade sólida e duradoira. 85 Se as nossas lágrimas apagassem o ódio que nos cerca e apagassem também o fogo que nos mata mãe eu pediria as lágrimas de todos sangrando as pupilas. As conchas do mar também ficaram Com os meus segredos do anoitecer Tudo o que os meus avós me sussurraram Ainda estava por tecer. o Mar "As palavras que desenhei na areia O mar as levou em lembrança Os meus segredos de criança O mar os contou à sereia. colecção Timbila Nº 6 da AEMO.

Mas temo, mãe
que nos afoguemos um dia
dentro das nossas lágrimas."
Reflexão
Autor: Hélder Muteia
Helder Muteia nasceu em Quelimane, Setembro de
1960, e "Verdade dos Mitos" foi o seu primeiro livro
publicado. Pela AEMO, colecção TIMBILA nº 6. O
autor foi secretario-geral da AEMO e é deputado na
Assembléia da República.
"E se fosse apenas
a dor matemática do chicote
sorria
e olhava-te nos olhos
e cuspia-te na cara
só!
E se fosse apenas
a dor física da inércia das lágrimas
bem, ai talvez fingisse
chorar a mulher amada
e cuspia-te somente à cara!
Mas de que nos adianta agora
discutir a matemática e a física?"
Antigamente Era
Autor: Agostinho Neto
Angola
1951
Antigamente era o eu-proscrito

Antigamente era a pele escura-noite do mundo
Antigamente era o canto rindo lamentos
Antigamente era o espírito simples e bom
Outrora tudo era tristeza
Antigamente era tudo sonho de criança
A pele o espírito o canto o choro
eram como a papaia refrescante
para aquele viajante
cujo nome vem nos livros para meninos
Mas dei um passo
ergui os olhos e soltei um grito
que foi ecoar nas mais distantes terras do mundo
Harlem
Pekim
Barcelona
Paris
Nas florestas escondidas do Novo Mundo
E a pele
o espírito
o canto
o choro
brilham como gumes prateados
Crescem
belos e irresistíveis
como o mais belo sol do mais belo dia da Vida.
Com os Olhos Secos
Adutor: Agostinho Neto
Angola

Com os olhos secos
- estrelas de brilho inevitável
através do corpo através do espírito
sobre os corpos inanimes dos mortos
sobre a solidão das vontades inertes
nós voltamos
Nós estamos regressando África
e todo o mundo estará presente
no super-batuque festivo
sob as sombras do Maiombe
no carnaval grandioso
pelo Bailundo pela Lunda
Com os olhos secos
contra este medo da nossa África
que herdámos dos massacres e mentiras
Nós voltamos África
estrelas de brilho irresistível
com a palavra escrita nos olhos secos
- LIBERDADE.
Confiança
Autor: Agostinho Neto
Angola
O oceano separou-me de mim
enquanto me fui esquecendo nos séculos
e eis-me presente
reunindo em mim o espaço
condensando o tempo
Na minha história
existe o paradoxo do homem disperso

Enquanto o sorriso brilhava
no canto de dor
e as mãos construiam mundos maravilhosos
John foi linchado
o irmão chicoteado nas costas nuas
a mulher amordaçada
e o filho continou ignorante
E do drama intenso
duma vida imensa e útil
resultou certeza
As minhas mãos colocaram pedras
nos alicerces do mundo
mereço o meu pedaço de pão.
Lá no Horizonte
Autor: Agostinho Neto
Angola
Poemas, 1961
Lá no horizonte
o fogo
e as silhuetas escuras dos imbondeiros
de braços erguidos
No ar o cheiro verde das palmeiras queimadas
Poesia africana
Na estrada
a fila de carregadores bailundos
gemendo sob o peso da crueira
No quarto
a mulatinha dos olhos meigos
retocando o rosto com rouge e pó de arroz

A mulher debaixo dos panos fartos remexe as ancas
Na cama
o homem insone pensando
em comprar garfos e facas para comer à mesa
No céu o reflexo
do fogo
e as silhuetas dos negros batucando
de braços erguidos
No ar a melodia quente das marimbas
Poesia africana
E na estrada os carregadores
no quarto a mulatinha
na cama o homem insone
Os braseiros consumindo
consumindo
a terra quente dos horizontes em fogo.
O Choro de África
Autor: Agostinho Neto
Angola
Poemas, 1961
O choro durante séculos
nos seus olhos traidores pela servidão dos homens
no desejo alimentado entre ambições de lufadas românticas
nos batuques choro de Africa
nos sorrisos choro de Africa
nos sarcasmos no trabalho choro de Africa
Sempre o choro mesmo na vossa alegria imortal
meu irmão Nguxi e amigo Mussunda
no circulo das violências

por nós! E amor .mesmo na magia poderosa da terra e da vida jorrante das fontes e de toda a parte e de todas as almas e das hemorragias dos ritmos das feridas de Africa e mesmo na morte do sangue ao contacto com o chão mesmo no florir aromatizado da floresta mesmo na folha no fruto na agilidade da zebra na secura do deserto na harmonia das correntes ou no sossego dos lagos mesmo na beleza do trabalho construtivo dos homens o choro de séculos inventado na servidão em histórias de dramas negros almas brancas preguiças e espíritos infantis de Africa as mentiras choros verdadeiros nas suas bocas o choro de séculos onde a verdade violentada se estiola no circulo de ferro da desonesta forca sacrificadora dos corpos cadaverizados inimiga da vida fechada em estreitos cérebros de maquinas de contar na violência na violência na violência O choro de Africa é um sintoma Nós temos em nossas mãos outras vidas e alegrias desmentidas nos lamentos falsos de suas bocas .

Avança Mãe Angolana Na terra ensopada de sangue Dor e lágrimas ..e os olhos secos.. Poema à Mãe Angolana Autora: Eugénia Neto Portugal/Angola Avança Mãe Angolana E dá o melhor de ti própria Nesta luta de vida ou de morte Avança pelos rios perigosos Pelos pântanos lodosos Pela savanas sem fim. Avança com teus bracos feitos asas Abertas sobre o solo pátrio Para proteger os teus filhos. Avança pelo incomensurável horror da guerra Entre a chuva de bombas que ilumina a terra Mas avança porque é necessário. Não te detenhas nos gemidos do vento Não prendas a forma das flores Sublima o amor neste momento. Avança Mãe Angolana Que a tua coragem fará vacilar os soldados Os soldados que já foram meninos Os soldados A que o fascismo tolheu a vontade E que caminham sobre os cadáveres das crianças Com risos sarcásticos de vingança.

. vocação. Angolano Autor : Neves e Sousa Pintor e Poeta Angolano Ser angolano é meu fado. Mas. é meu castigo Branco eu sou e pois já não consigo mudar jamais de cor ou condição..Causadas pela guerra. de costumes ou maneiras. talvez amor. será que tem cor o coração? Ser africano não é questao de cor é sentimento. é sentimento e nas parecencas de outras terras longe das disputas e das guerras encontro na distância esquecimento! Ilha de Moçambique Autor: Neves e Sousa Angola Ilha de oiro e angustia Feita de sol e de prata Marfim talhado em reliquias . Que ela florescerá Sustentada pelo teu querer E terás para os teus filhos O sol aberto nas pétalas E a serenidade dos heróis Depois de ganha a batalha.. A questao é de dentro.. não é questao nem mesmo de bandeiras de lingua.

Cobre batido do vento Num moinho de saudades. De memórias esquecidas. encarnados E rostos cor da verdade De viver num monumento De prata. A Coruja Autor: Malangatana Valente Ngwenya in "Vinte e quatro poemas".. Portico dos sonhos. de oiro e de cobre Cobre batido do vento. momento de indias descobertas e vencidas Monumento. pretos.. Francisco Xavier Guardados nas rochas de coral. Riquexos vagueando ão sol Brancas praias sonolentas Enfeitadas de saris e cofios Brancos. Alem-portas de marfim Paredes meias com a História Dentro da fama e memória Para que nela sempre fique A Ilha de Moçambique. Instituto Superior de .... Fortaleza escancarada A memórias esquecidas. Sermões de S. Senhora do Baluarte velando As brancas velas do Canal. monumento..

. Página 35 A coruja agoira-me e diz-me que nunca chegarei além onde o desejo me leva e assim evapora-se o sonho. Moçambique. 1996 Malangatana Valente NGWENYA nasceu a 6 de Junho de 1936 em Matalana. dança. artista multifacetado. gatos e tambores. Produziu uma vasta obra no campo da pintura e é hoje um dos mais notáveis artistas africanos. Na noite sem estrelas dois gatos pretos iluminaram a cabana da Kokwana Hehlise que morreu depois dos gatos terem miado. teatro. faz poemas. Eu lutando comigo só é impossível vencer as ondas que feiticeiramente me esboçam as corujas." * kokwana = avó **kulungwana = ulular . O tambor foi tocado na noite densa do feitiço enquanto Kokwana* Muhlonga apitava o Kulungwana** mortal. Representado em inúmeros museus e colecções particulares em todo o mundo. cerâmica e escultura. que canta. Malangatana.Psicologia Aplicada. Lisboa. é grande animador sócio-cultural e vê erguer-se presentemente o sonho de construção do Centro Cultural na sua aldeia natal.

Beber teus pomos. Meu fato mais bonito. Teu abraço me vestindo. Flor vermelha na lapela.06. bom Na cama quando passei a primeira noite senti-me feliz quando corria dentro dela a lágrima que nos fez amigos infinitos porque dela veio quem nos chama: Papá e Mamã o nosso primeiro filho.CRL. Guitarra acesa na mão. verde. Minha arma de trova. Dançar uma valsa. Fazer oferendas á lua. verde ele é tão bom. Enxugar minha jornada. lindo. 1996 Porque o amor não é sempre verde que bom quando verde é nem quero que mudes de cor oh amor verde." Double Trouble Autor: Mutxhini Ngwenya Chimoio. Engomado e arejado. Quiz brindar as estrelas. .97 Quiz vestir esta lua.Vinte e quatro poemas". bom. 09. Arrasar a praça. tão lindo.Amor Verde Autor: Malangatana Valente Ngwenya in "Malangatana . Lisboa. ISPA Instituto Superior de Psicologia Aplicada .

Quebrá-la e branquear minha alma. Portugal. 24 Nos teus braços eu fiquei quando me nasceste muito preocupada quem estava aflita naquela altura perigosa com o receio de que Deus me vai levar? Tudo em silêncio olhava para ver se o parto corria bem tudo lavava as mãos para poder receber quem vinha dos Cés .Quiz minha parra de barro.06. atirar para ontem. e. Não sabe ainda A cor de tua alegria. Minha alma parra. Notícias flores ao mundo." Mutxhini Ngwenya Chimoio. Lançar sementes estrelas. tantas vezes Fazer poema fresco. Quiz tantas. Mas... Lavá-la na enxurrada de beijos. 09. p. Dizer ás gaivotas e ao vento Que em suas asas levassem. Rosas ressequidas de espera. Saltar. edição do ISPA.97 A Mamã Preocupada Autor: Malangatana Valente Ngwenya in "Vinte e quatro poemas".

e toda a mulher quieta e aflita
Mas quando afastei-me
do lugar em que me guardaste durante longo tempo
dei logo o primeiro respiro
tu gritaste logo de alegria
o primeiro beijo foi o da Avó
Que levou-me logo para o lugar
que me guardaram e é secreto
tudo foi proibido a entrar no meu quarto
porque tudo cheirava mal
e eu todo fresco, fresco
respirava finalmente dentro das minhas fraldas
Mas a Avó que se supunha doida
estava sempre ao meu lado
ver-me e rever-me sempre
porque as moscas vinham ter comigo
e os mosquitos inquietavam-me
Deus que revia-me também
era o amigo da minha Avó velhinha
Malangatana Valente NGWENYA nasceu a 6 de
Junho de 1936 em Matalana, Moçambique. Produziu
uma vasta obra no campo da pintura e é hoje um dos
mais notáveis artistas africanos.
Representado em inúmeros museus e colecções
particulares em todo o mundo, Malangatana, artista
multifacetado, que canta, dança, faz poemas, teatro,
cerâmica e escultura, é grande animador sócio-cultural
e vê erguer-se presentemente o sonho de construção
do Centro Cultural na sua aldeia natal.
Pensar-Alto

Autor: Malangatana Valente Ngwenya
in catálogo da exposição retrospectiva e antológica de
Malangatana que teve lugar na Sociedade Nacional de
Belas Artes, Portugal, em 1986
Sim
às marrabentas
às danças rituais
que nas madrugadas
criam o frenesi
quando os tambores e as flautas entram a fanfarrar
fanfarrando até o vermelho da madrugada fazer o solo sangrar
em contraste com o verdurar das canções dos pássaros
sobre o já verduzido manto das mangueiras
dos cajueiros prenhes
para em Dezembro seus rebentos
dançarem como mulheres sensualíssimas
em cada ramo do cajual da minha terra
mas, sim ao orgasmo
das mafurreiras
repletas de chiricos
das rolas ciosas pela simbiose que só a natureza sabe oferecer
mas sim
ao som estridente do kulunguana
das donzelas no zig-zague dos ritos
quando as gazelas tão belas
não suportam mais quarenta graus à sombra dos canhueiros em
flor
enquanto as oleiras da aldeia, desta grande aldeia Moçambique
amassam o barro dos rios
para o pote feito ser o depositário

de todo o íntimo desse Povo que se não cala disputando
ecoosamente com os tambores do meu ontem antigo."
Nome de Pão
Autor: Oswaldo Osório
Cabo Verde
O Cântico do Habitante
ouso nosso pão e posso
ouso nosso pão e posso
ainda molecular a ideia
para dedos de haver esperança
ouso pensar
coragem e amar
e tanta coisa que é pão.
Cavalos de Silex
Autor: Oswaldo Osório
Cabo Verde
O Cântico do Habitante
1971
ainda estávamos em guerra quando fomos a lua
e tínhamos fome e feridas nos olhos de cegar
agarrávamos o futuro com a luz do laser
e as flores gelavam aqui donde partíamos com carbúnculos nos
braços
pássaros de pio futuro por onde andávamos
deixámos a terra grávida de salamandras esventradas
ganhávamos o pão nosso cada dia com medidas de suor
e um inverno de vómito estarrecia sob as raizes

as galáxias mediam-se por braçadas de legumes ou milho ou
arroz
que no-las distanciavam e as estrelas fugiam perseguidas
por cavalos de sílex
o sonho criava lodo cada manha
as palavras mal nasciam apodreciam em limo
nesta situação-limite os seios o sexo o sémen
convenceram os homens nas suas fábricas
de cavalos de sílex
tarde
peitos punhos pulsos resolvemos ousar nosso pão
Holanda
Autor: Oswaldo Osório
Cabo Verde
Holanda companheiros
chegámos
chegámos com barcos guildas nos olhos e desejo de vencer
chegámos intermináveis e actuais às docas
betão aço cargueiros e braços precisados
chegámos numa dimensão nova
(ah as roças de S.Tomé serviçal meu irmão)
e pusemos todo o nosso esforço
lubrificámos máquinas
alimentámos caldeiras
navegámos por oceanos de fogo e fiordes de gelo
mas foi nos mares da terra nova
no tempo em que de Boston a América mandava seus barcos

baleeiros
para nos contratar
que ganhámos o bronze da nossa pele
The Best Sailors of the World
sob bandeiras estrangeiras brigámos guerras que não eram
nossas
para agora amarmos ao ritmo de torno novo
e múltiplas bocas ao nos verem dizem
Let them get by
chegámos às docas companheiros
nas docas com barcos guildas nos olhos e nossa terra nos
nossos sonhos
chegámos intermináveis para o match
e pusemos todo o nosso esforço na luta
pusemos esperança na nossa força de trabalho
e quando nos vêem chegar dizem
Let them get by
aqui ou ali passaremos sempre porque chegámos
companheiros
a esperança transformada em actos nos nossos punhos
a seca o sol o sal o mar a morna a morte a luta o luto
ao nos verem passar dizem que ultrapassaremos os sonhos
e o match é em nossa terra que vai terminar
Manhã Inflor
Autor: Oswaldo Osório
S. Vicente, Cabo Verde, 1937

1971 as héveas murcharam desertas de folhas desertas de flores propositadamente nem só o sangue mas também a seiva nem só a criança mas também a pétala nem só o homem mas também a planta nem só a carne mas também a lenha propositadamente tudo o hamadricida flagelou a beleza da flor a inocência da criança a certeza dos campos o aconchego duma sombra mas nos covis a vida continuou e o apelo a luta redobrou as héveas murcharam e com as héveas a manhã inflor a terra nua mas ainda a vida nos covis continua A Lua e a Morte Autor: Marcelo Panguana in "As Vozes que Falam de Verdade". conto "A Lua e a Morte" .

estava atónito. O Beto e a Flavia. e ali. Um pouco depois estalaram-se os nervos." . a filha mais nova. A mulher ficou espetada à sua frente ostentando aquela atitude exacta e decidida. O tempo passava e a criança ia minguando a olhos vistos. aproximaram-se e a expectativa infantil ficou depois a envolver a conversa cada vez mais acesa entre marido e mulher. A meia distância do espaço que o separava da Lindiwe. filhos mais velhos. Dobrado sobre si mesmo à entrada da porta que dava acesso a sala comum." Milagre Obstrético Autor: Antonio Pinto de Abreu Moçambique in "Antologia da nova poesia moçambicana" As lampadas da cidade fundiram-se todas e numa das esquinas . O homem observou-a e rapidamente concluiu que aquelas palavras tinham amadurecido anteriormente. O barulho provocado pela queda do quadro acentuara o choro da Isa. naquele confronto a dois. Como a forca do vento na mudança das estações. surgiam decididamente tempestuosas. Samo. apesar da propalada eficiência dos médicos e dos medicamentos ingeridos. ainda incapaz de adoptar uma atitude apaziguante. às voltas com umas dores de estômago que faziam questão de ser irremoviveis. assim se chamava o homem. a mulher. O corpo retesou-se e depois se fez o gesto. acrescentou. os fragmentos de duas chávenas de fabrico chinês e uma porcelana de barro. Não foi com pouca violência que a vassoura atirada deitou abaixo um bonito quadro que retratava um conhecido tema tradicional. Isto não pode continuar assim. percorria o olhar um pouco por toda a parte.Não.

O jornal não deu a grande noticia . Glória ao novo ser que nasceu ao anoitecer.da grande aldeia de cimento um latão urbanizado pariu um pirilampo.os fotografos tinham as maquinas aguardando o plano superior... Cabo Verde. 1935 Louco que povoou a minha infância Que contava histórias maravilhosas Histórias de Branca Flor De bruxas e de princesas Mané Fú Mané de Deus Que tinha o corpo todo preto Mas as palmas das mãos brancas Porque as sextas-feiras subia aos céus E ia banhar os anjos Mané Fú Mané de Deus Outras histórias me empolgam hoje . Mané Fú Autor: Virgilio Pires Praia. Contudo no velho latão urbanizado o pirilampo brinca e chora (como alguns meninos) luzindo com o satírico brilho da esvaziada lata de sardinhas da "ração de combate".

Cabo Verde. 1935 Quem não se lembra dos bailes da bola preta? ritmos brasileiros fox mazurcas E a morna a sublimar paixões Ao longe na Achada o roncar cadenciado Dos tambores da Tabanca No campo de futebol ali pertinho O Vitória sucumbia perante um Trovadores Em que o Chabali era o rei O mundo em guerra E na terra amaldiçoada Sem canhões sem Hitler O povo morria de olhos voltados para o céu Num gesto clamor secular Que o hábito tornou ritual Chuva! Fome! Chuva! Fome! Quem não se lembra dos bailes da bola preta? A sala decorada com bolas pretas Os ritmos brasileiros a transportar os pares Para o "Rio de Janeiro cidade maravilhosa" .Histórias de crianças famintas (Lembro-me do filho da Violante Que comia a cal das paredes) Histórias de velhos abandonados (Como aquele que morreu a chorar No Pavilhão de Alienados E não era doido) Histórias de prostitutas (Ah! humilhadas amigas) Histórias tristes nunca divulgadas Reminiscência Autor: Virgilio Pires Praia.

1941Tempo de cicio. Angola.Mazurcas com passos rigorosamente medidos E a morna morna no violino crioulo do Djédji Há muitos anos Os nazis perderam a guerra A Tabanca desapareceu Anatematizada como vergonhosa reminescência africana O Chabali morreu Surgiram outras guerras Outros tiranos outros ídolos outros ritmos E na terra amaldiçoada O ano passado hoje e sempre O povo continua com os olhos voltados para o céu Num gesto ritual Clamor súplice para outros homens e para Deus Chuva! Chuva! Chuva! Paisagem do Nordeste Autor: Jofre Rocha Cachimane. 1973 rio estátua braço sem carne chuva no mar em terra seca sol na paisagem terra em desgraça fome nos lábios fome nos olhos ossadas brancas urubus em volta .

Símbolo Autor: Luis Romano Ilha de Santo Antao. Angola.terra em brasa ar calcinado plantas com fome homens com fome fome nos olhos no ar morte Quando a Manhã Vier Autor: Jofre Rocha Cachimane. 1922 Clima. 1941Quando a manhã vier com um sol maduro ofertando beijos aos órfãos da ternura quando a manhã vier em apoteose de luz a semear no vento risos de alegria quando a manhã vier definitivamente em alvorecer roseo de paz e tranquilidade de mãos nas mãos saberemos chegado o nosso dia. 1963 . Cabo Verde.

Navio-berço de menino crioulo navio-guia que ficou sem ir "navio idêntico ao navio da nossa derrota parada". o mistério. o conjunto daquela harmonia sumindo-se na linha do mar. Não foi um romance de amor nem mesmo um pequeno segredo entre ambos. quando Ela falava ao pé de mim. 1922 Clima. Somente. Vida Autor: Luis Romano Ilha de Santo Antao. a Vida separando Nós-Dois a confusão. os ruidos. os braços agitando-se e o vapor levando para outros mares. o perfume e os cantares . eu sentia: um aprazível devaneio pela maravilha escultural duma Mulher Perfeita.O formato daquele berço foi um símbolo O menino em miragens impossíveis dormia sonhando com navios de papel enquanto eu contemplava a cismar. a graça. outros portos. Depois. 1963 A crioula que meus olhos beijaram a medo perdeu-se na confusão de um porto francês Ela sorria continuamente. erguendo no seu riso uma canção extraordinária. Cabo Verde.

1973 De meus antepassados não recordo mas invento em cada pedra colocada em praças por seus braços noutros braços . O Jogo Autor: Manuel Rui Nova Lisboa.da crioula que meus olhos beijaram a medo no tombadilho daquele vapor francês. Que jogo é este o de chorar os destroços de um navio/que chegou a navegar ou as asas de uma gaivota apodrecida/que voou Sem me chorar Que jogo é este o de esperar um rebentar da onda sem me estender sem me estender pelos teus túneis. 1941A Onda. Museu Autor: Manuel Rui Nova Lisboa. 1941A Onda. Angola. 1973 Que jogo é este o de saber nos pés só a espuma de imensas madrugadas. Angola.

onde pombas poisam e turistas fazem souvenirs de sol e manuelinos E pátrias não conheço Assisto aos exercícios outonais da morte sem idade do cremar olhos na distância por noivas adiadas e mãos correndo terços de velhas esperando a morte simplesmente E deuses não conheço Não fui navegador embora me quisessem em vários continentes em que sempre estive e disse nunca para que naufragasse minha história com o peso das grilhetas amarrado aos oceanos E epitáfios não conheço O que ergueram meus braços não está em Africa a minha musica não está em Africa a minha estatuária não está em Africa idem para o meu marfim as minhas lanças os meus diamantes o meu ouro idem idem A Abóbora Menina Autor: Ana de Santana .

Núpcias Autor: Ana de Santana Angola Penetro esse colchão de cristal e um lençol de mar me envolve tecendo o meu vestido raro. de segredos bem escondidos estende-se a distância procurando ser terra quem sabe possa acontecer o milagre folhinhas verdes flor amarela ventre redondo depois é só esperar nela desaguam todos os rapazes. será que não aprovam? Rapariga . vem-me o mavioso murmurar das palmeiras pela brisa. tão macia aos olhos vacuda gordinha. 1983 Tão gentil de distante. espuma e sal.Angola Benguela. Interrompo estas núpcias com o coral.

Da mistura do boi e da árvore a efervescência o desejo a intranquilidade a proximidade do mar Filha de Huco Com a sua primeira esposa Uma vaca sagrada concedeu-me o favor das suas tetas úberes. Odores & Sonho. A Mulemba Secou Autor: Aires de Almeida Santos Angola A mulemba secou.. Sou do clã do boi Dos meus ancestrais ficou-me a paciência O sono profundo do deserto a falta de limite.. .. 1985 Cresce comigo o boi com que me vão trocar Amarraram-me já ás costas. a tábua Eylekessa Filha de Tembo organizo o milho Trago nas pernas as pulseiras pesadas Dos dias que passaram.Autor: Ana de Santana Angola Sabores..

O Macuto da Ximinha Que cantava todo o dia já não canta. Ficaram as folhas Secas. Secou tambem a alegria Da miudagem do bairro. Depois o vento as levou. amareladas A estalar sob os pes de quem passava. Viuvas. O Ze Camilo. . Espalhavam visgo nos ramos E apanhavam catituis.. A ouvir. Como as folhas da mulemba Foram-se os sonhos gaiatos Dos miudos do meu bairro..) Mas a mulemba secou E com ela. por toda a gente. de olhos esbugalhados A velha Jaja a contar Histórias de arrepiar Do feiticeiro Catimba.No barro da rua. Faziam roda. De noite. siripipis Que o Chiquito da Mulemba Ia vender no Palacio Numa gaiola de bimba. (De dia. Pisadas. coitado. sentados.

já ninguem o arrelia.. Tantos beijos roubamos. Meu Amor da Rua Onze Autor : Aires de Almeida Santos Angola (Benguela) Tantas juras nos trocamos. Meu amor da Rua Onze. Meu amor da Rua Onze. já faz a vida em sossego.. já mais ninguem lhe assobia. Meu amor da Rua Onze. Era tao grande e tao belo Nosso romance de amor . Como o meu bairro mudou.Passa o dia deitado A pensar em muitas coisas. já não quero Mais fingir.. já não quero Mais mentir. Tantas promessas fizemos. E o velhote Camalundo. Como o meu bairro esta triste Porque a mulemba secou. Meu amor da Rua Onze. Tantos abracos nos demos. So o velho Camalundo Sorri ao passar por la!.. Quando passa por ali.

Terminou Nosso romance. Tanta loucura e doidice Tinha o nosso amor desfeito Que ainda sinto no peito Os abracos que nos demos. tao doce Nossa maneira de amar Que ainda pairam no ar As promessas que fizemos. Quando te vejo passar Com o teu andar Senhoril.Que ainda sinto o calor Das juras que nos trocamos. Era tao bela. Sinto nascer E crescer Uma saudade infinita Do teu corpo gentil De escultura Cor de bronze. E agora Tudo acabo. Nossa maneira de amar era tao doida. Meu amor da Rua Onze. A Vigília do Pescador . tao louca Qúinda me queimam a boca Os beijos que nos roubamos.

nasceu a 20.Autor: Arnaldo Santos Angola Na praia o vulto do pescador é mais denso que a noite. E enquanto espera A sua ansia solidifica em concha E sonoriza os ventos livres do mar. E enquanto espera A sua ansia descobre os passos da mare na praia e o sono do borco das canoas. com apelido de Lilinho Micaia Kalungano...1929 no Lumbo . é um dos seus mais populares dirigentes. Membro fundador da Frelimo. Os seus trabalhos literários foram traduzidos em russo.Nampula. checo.5. O texto reproduzido foi publicado na Gazeta de Artes . holandês e italiano. é manha e o pescador ainda espera e enquanto o mar não lhe devolve o seu corpo de sonhos Num lencol branco de escamas Um torpor de baixa-mar Denumcia algas nos seus ombros. Ódio Autor: Marcelino dos Santos Marcelino dos Santos.

e Letras. revista Tempo No 915. " Foi assim que tudo aconteceu senti uma dor aguda e o cão não ladrou o xirico não cantou a lua não estava a lua não estava Foi ali na estrada Ilha-Monapo era 14 de Marco Uma enorme gargalhada e tudo foi silêncio sem cor Cerrei os dentes O peito inchou duro Uma lágrima desce lenta pesada Uma só Anita caiu morreu Mamã onde está a minha arma" .

3.1988 .16.xirico = pássaro Sonho de Mãe Negra Autor: Kalungano (Pseudonimo de Marcelino dos Santos) Moçambique Mãe negra Embala o seu filho E na sua cabeça negra Coberta de cabelos negros Ela guarda sonhos maravilhosos Mãe negra Embala o seu filho E esquece Que o milho já a terra secou Que o amendoim ontem acabou Ela sonha mundos maravilhosos Onde o seu filho iria à escola À escola onde estudam os homens Mãe negra Embala o seu filho E esquece Os seus irmãos construindo vilas e cidades Cimentando-as com o seu sangue Ela sonha mundos maravilhosos Onde o seu filho correria na estrada Na estrada onde passam os homens Mãe negra Embala o seu filho E escutando A voz que vem de longe .

Nada os ampara. Angola. apresso a palavra e digo país: e o teu corpo se despenha vertical aqui entre as cordas desta febre.Trazida pelos ventos Ela sonha mundos maravilhosos Mundos maravilhosos Onde o seu filho poderá viver. de que me servem dedos no contorno estéril da mão? A Pátria Dividida Autor: Nelson Saúte in "A pátria Dividida". digo espaço e as águas demoram.Portugal. 1974 tudo treme neste poiso de espanto breve. 1993 ao Rui Knopfli e ao Eugénio Lisboa Os mortos tombam no poema. Nem a luz acanhada do candeeiro quando escrevo na obscuridade ao pulsar da mão emboscada . 1947 Mar ie mil. Colecção A Palavra Africana. Tudo Treme Autor: Monteiro dos Santos Cutato. VEGA.

1993 Pagina 17: O poeta contempla o mar no agoniado tédio da tarde. O cão que lhe roça a solidão . Na incerta madrugada diviso os rostos mutilados que vigiam os meus gestos e narram sonhos degolados. Vega." A Ignorância do Poeta Autor:Nelson Saute in "A Pátria Dividida".na metáfora que me conduz. Na ignomínia noticiada pelos jornais esta consentida memória dos mortos para sempre insepultos porque não existe vala comum para os gritos da mulher rasgada à baioneta numa manhã inocente. Não se enterram os sonhos dos mutilados em perfil no chão ultrajado desta pátria dividida. Lisboa. O algoz estilhaçou o coração frágil da criança aos gritos nas imagens do apocalipse na televisão. Caminha ao som de seus passos ombros recurvos mãos nos bolsos perseguindo a sua sombra.

Correia da Silva in " Cantares de Angola " Ouvindo o silêncio das coisas remotas. silêncio das noites sombrias. Matizes da selva. Anharas perdidas p'ra além do sertão. Mabecos fugindo. . Lençol de esmeralda que o sol vai corando.não tolhe o verso escrito da memória. Vislumbro paisagens confusas. luar das savanas.Arroios cantando.. Capim verdejante nas húmidas chanas. caladas.. O poeta ignora mas a direcção leva-o ao coração dos homens." Canção do Silêncio Autor: M. num som murmurante. pacacas pastando... ... murmúrios da aragem.. Desvendo os mistérios da selva distante. Segredos da selva. remotas.... Os namorados não o fitam.. À sombra de jacarandás percorre o trajecto sobre as folhas silenciadas.. De esguelha admira a inocência dos gestos amorosos. .. Distingo legendas que os outros não lêem. Aonde costuma rugir o leão.Silhuetas de imagens que muitos não vêem!..

fugindo. gingando pra trás e pra frente. já dentro da noite. Latidos de hienas em torno dos quimbos. Bem poucos entendem teu som de mistério! As Águas Autor: Onesimo Silveira Mindelo. 1962 A chuva regressou pela boca da noite Da sua grande caminhada Qual virgem prostituída Lançou-se desesperada Nos braços famintos Das árvores ressequidas! (Nos braços famintos das árvores Que eram os braços famintos dos homens.Canção do silêncio da selva distante.rufar permanente Chamando ao batuque de intensa folgança. E os pretos.... Quimbundas alegres.. Agitam as ancas na febre da dança!.qual "hóstia boiante" Envolve o cenário num manto sidério.) . sachando os arimbos Depois que o som cavo do goma as desperta Chingufos ao longe . Cabo Verde.-Holongos ligeiros. E a lua.. 1935 in Hora Grande.... do alto . .. Regatos correndo por entre a folhagem. se a fome as aperta. São Vicente. em manadas..

. 1962 Lá vem nho Cacai da ourela do mar Acenando a sua desilusão De todos os continentes! Ele traz o peito afogado em maresias E os olhos cansados da distância das horas. Lá vem nho Cacai Com a boca amarga de sal A boiar o seu corpo morto Na calmaria da tarde! Nho Cacai vem alimentar os seus filhos Com histórias de sereias. Os seus filhos acreditam nas Américas .. Cabo Verde..Derramou-se sobre as chagas da terra E pingou das frestas Do chapéu roto dos desalmados casebres das ilhas E escorreu do dorso descarnado dos montes! Desceu pela noite a serenar A louca. a vagabunda... Ilha de S.. Com histórias das farturas das Américas. 10/2/1935 in Hora Grande. a pérfida estrela do céu Ate que ao olhar brando e calmo da manha Num aceno farto de promessas Ressurgiu a terra sarada Ressumando a fartura e a vida! Nos braços das árvores.... Nos braços dos homens. Vicente.. Quadro Autor: Onesimo Silveira Mindelo.

Lisboa. 1953.E sabem dormir com fome. Cantos de Meu País Autor: Julião Soares Sousa Guiné-Bissau in Um Novo Amanhecer. 1996 Canto as mãos que foram escravas nas galés corpos acorrentados a chicote nas américas Canto cantos tristes do meu País cansado de esperar a chuva que tarde a chegar Canto a Pátria moribunda que abandonou a luta calou seus gritos mas não domou suas esperanças Canto as horas amargas de silêncio profundo cantos que vêm da raiz de outro mundo estes grilhões que ainda detêm a marcha do meu País Magaíça Autor: Noémia de Sousa Moçambique in M.. de Andrade e Francisco J. Ed.. Tenreiro: Poesia negra de expressão portuguesa. dos Autores .

A manhã azul e ouro dos folhetos de propaganda engoliu o mamparra. à cata das ilusões perdidas. E na mão.ah onde te ficou a trouxa de sonhos.. de sobretudo. magaíça? trazes as malas cheias do falso brilho do resto da falsa civilização do compound do Rand. entontecido todo pela algazarra incompreensível dos brancos da estação e pelo resfolegar trepidante dos comboios Tragou seus olhos redondos de pasmo. sua trouxa de farrapos carregando a ânsia enorme.. o comboio voltou. voltou. arfando. tecida de sonhos insatisfeitos do mamparra.. Não Me Lavem o Rosto Autor: Sukrato . arfando. oh nhanisse. magaíça. cachecol e meia listrada e um ser deslocado embrulhado em ridículo. e com ele. magaíça atordoado acendeu o candeeiro. da mocidade e da saúde que ficaram soterradas lá nas minas do Jone.. as ilusões perdidas que brilharão como astros no decote de qualquer lady nas noites deslumbrantes de qualquer City. A mocidade e a saúde. seu coração apertado na angústia do desconhecido. Ás costas . E um dia.

para outro tão melodioso território. por favor. 1951 Não me lavem os olhos! Não. impendentes murmúrios. viver tudo em mim mas não me lavem os olhos! Deixai-me crer por mim aceitar a realidade mas não me barrem a caminhada não me lavem os olhos! Deixai-me sofrer realidade ao sonhar fraternidade mas. bélicos murmúrios. Mais alto se erguem os morosos frutos da inquietude.. Derrotados sob o adivinhado zelo do sol por quantos dias a ilha estremece ao temor da sede e da ruína.. Cabo Verde. Não sei de barcos. já disse não! Deixai-me ver. sentir. Afeiçoados ficaram os olhos ao sonhado verde dos campos. .. Por todo o meu corpo animais em deserção.. não sei de pontes. não me lavem os olhos! Curvo-me ao Obstinado Peso das Raízes Autor: José Luís Tavares Cabo Verde Curvo-me ao obstinado peso das raízes. desdenhada fortuna.Boavista.

Cerimónia de Passagem Autor: Paula Tavares Angola Luanda. E ficámos náufragos. antónio da noli. Pelos sinos da matriz avisando da inexorável aproximação dos corsários (um tempo de rapina subjaz ainda na memória desses anos) eu vos saúdo. E na hora terreal.Deram-lhe navegadores nome de santo. feito o sinal da cruz. eu vos saúdo desde esses picos de sede de onde a noite mais veloz se confunde com os desfraldados estandartes da alegria. um destino de penumbra ali se traçou. velho cadamosto. irmãos dos chibos. pela ocidental terra que o dia já desnuda. diogo gomes. quando à vista das angras lágrimas e gritos se confundiram. divisa de quem por tão longes terras os mandara navegar. 1985 "a zebra feriu-se na pedra a pedra produziu lume" a rapariga provou o sangue o sangue deu fruto a mulher semeou o campo o campo amadureceu o vinho o homem bebeu o vinho o vinho cresceu o canto o velho começou o círculo .

o círculo fechou o princípio "a zebra feriu-se na pedra a pedra produziu lume" Coração em África Autor: Francisco José Tenreiro São Tomé 1967 Caminhos trilhados na Europa de coração em África Saudades longas de palmeiras vermelhas verdes amarelas tons fortes da paleta cubista que o sol sensual pintou na paisagem. De coração em África na simples leitura dominical dos periódicos cantando na voz ainda escaldante da tinta e com as dedadas de miséria dos ardinas das cities boulevards e baixas da Europa trilhada por mim Negro e por ti ardina cantando dizia eu em sua voz de letras as melancolias do orçamento que não equilibra do Benfica venceu o Sporting ou não. Ou antes ou talvez seja que desta vez vai haver guerra para que nasçam flores roxas de paz com fitas de veludo e caixões de pinho: Oh as longas páginas do jornal do mundo são folhas enegrecidas de macabro blue com mourarias de facas e guernicas de toureiros. saudade sentida de coração em África ao atravessar estes campos de trigo sem bocas das ruas sem alegrias com casas cariadas pela metralha míope da Europa e da América da Europa trilhada por mim Negro de coração em África. Em três linhas (sentidas saudades de África) - .

Caminhos trilhados na Europa de coração em África. De coração em África com o grito seiva bruta dos poemas de Guillen de coração em África com a impetuosidade viril de I too am America de coração em África com as árvores renascidas em todas estações nos belos poemas de Diop de coração em África nos rios antigos que o Negro conheceu e no mistério do Chaka-Senghor de coração em África contigo amigo Joaquim quando em versos incendiários cantaste a África distante do Congo da minha saudade do Congo de coração em África.três linhas no jornal como um falso cartão de pêsames.Mac Gee cidadão da América e da democracia Mac Gee cidadão negro e da negritude Mac Gee cidadão Negro da América e do Mundo Negro Mac Gee fulminado pelo coração endurecido feito cadeira eléctrica (do cadáver queimado de Mac Gee do seu coração em África e sempre vivo floriram flores vermelhas flores vermelhas flores vermelhas e também azuis e também verdes e também amarelas na gama policroma da verdade do Negro da inocência de Mac Gee) . de coração em África ao meio dia do dia de coração em África com o Sol sentado nas delícias do zénite reduzindo a pontos as sombras dos Negros amodorrando no próprio calor da reverberação os mosquitos da nocturna .

De coração em África na mão deste Negro enrodilhado e sujo de beira-cais vendendo cautelas com a incisão do caminho da cubata perdida na carapinha alvinitente. De coração em África em noites de vigília escutando o olho mágico do rádio e a rouquidão sentimento das inarmonias de Armstrong.picadela. De coração em África trilho estas ruas nevoentas da cidade de África no coração e um ritmo de be bop be nos lábios enquanto que à minha volta se sussurra olha o preto (que bom) olha um negro (óptimo). olha um mulato (tanto faz) olha um moreno (ridículo) e procuro no horizonte cerrado da beira-mar cheiro de maresias distantes e areias distantes com silhuetas de coqueiros conversando baixinho a brisa da tarde. de coração em África com as mãos e os pés trambolhos disformes e deformados como os quadros de Portinari dos estivadores do mar e dos meninos ranhosos viciados pelas olheiras fundas das fomes de Pomar vou cogitando na pretidão do mundo que ultrapassa a própria . De coração em África em todas as poesias gregárias ou escolares que zombam e zumbem sob as folhas de couve da indiferença mas que tem a beleza das rodas de crianças com papagaios garridos e jogos de galinha branca vai até Franca que cantam as volutas dos seios e das coxas das negras e mulatas de olhos rubros como carvões verdes acesos.

Chora coração meu estala coração meu enternece-te meu coração de uma só vez (oh orgão feminino do homem) de uma só vez para que possa pensar contigo em Africa na esperança de que para o ano vem a monção torrencial que alagará os campos ressequidos pela amargura da metralha e adubados pela cal dos ossos de Taszlitzki na esperança de que o Sol há-de prenhar as espigas de trigo para os meninos viciados e levará milho as cabanas destelhadas do último rincão da Terra distribuirá o pão o vinho e o azeite pelos alíseos. e chora fino na arritmia de um relojo cuja corda vai estalar soluça a indignação que fez os homens escravos dos homens mulheres escravas de homens crianças escravas de homens negros escravos dos homens e também aqueles de que ninguém fala e eu Negro não esqueço como os pueblos e os xavantes os esquimós os ainos eu sei lá que são tantos e todos escravos entre si. Deixa-me coração louco deixa-me acreditar no grito de esperança lançado pela paleta viva de Rivera e pelos oceanos de ciclones frescos das odes de Neruda.cor da pele dos homens brancos amarelos negros ou as riscas e o coração entristece à beira-mar da Europa da Europa por mim trilhada de coração em África. na esperança de que as entranhas hiantes de um menino antípoda haja sempre uma túlipa de leite ou uma vaca de queijo que lhe mitigue a sede da existência. deixa-me acreditar que do desespero másculo de Picasso sairão pombas que como nuvens voarão os céus do mundo de coração em .

Risadas brancas e goles de champagne! A hora do espalmadoiro os moços do comércio passaram de gravatas garridas. À hora do espalmadoiro os moços do comércio passaram de gravatas garridas. O monhé chegou na porta e limpou o suor . O monhé chegou na porta e limpou o suor ao lenço de seda que importou do Japão! Ai! Aquela que chegou na ilha como uma risada branca está fechando a carinha à terra..Africa. Braços pendentemente tristes só os olhinhos estão pulando para lá da fortaleza querendo ver a Europa!. 1942 Sam Marinha a que menina foi no norte chegou naquele navio à ilha. Romance de Sam Marinha Autor: Francisco José Tenreiro São Tomé Ilha de nome santo..

Depois ponho-lhes asas e deixo-as voar como pássaros em busca de primaveras imprevisíveis.ao lenço de seda que importou do Japão! Ai! Aquela que chegou na ilha como uma risada branca está fechando a carinha à terra. Ouve a voz inefável das guitarras Tingindo de paixão a madrugada .. Braços pendentemente tristes só os olhinhos estão pulando para lá da fortaleza querendo ver a Europa!.. Nunca é Tarde Quando no cais só fica ancorada A indiferença e já não resta nada Senão as ilusões a que te agarras. Coleccionador de Quimeras Autor: António Tomé Quando as minhas angústias começam a morder-me ponho-lhes a trela saio a rua a passeá-las e deixo-as ladrar ao tédio transeunte.

divididos Em dois por eles. E não peças jamais ao rio que aguarde. E é nessa maré viva que estremeço. Criminosissimamente crime. com eles indo. ou crime sempre.T. Cabo Verde 1937 Exemplo Geral. Quando arriscamos a intensidade. se . se por eles Ganhamos o tempo. ainda que saibas que nunca é tarde. que sem ti eu anoiteço.No fim duma viagem povoada Do canto indecifrável das cigarras.Tiofe) S. Saberás então que há sempre um começo No profano rio em que a vida arde. Porque maiores que os desígnios da vida São os desígnios da medida e. Aumento e festa. pedimos a forma mais fácil De indagar que vamos morrer e. amamos tanto estar aqui com o tempo E sabendo que há nisso pouco passado. Mas. ou cilício. e não sofrendo nada mais do que o tempo concede. crime ou crime. Tempo de mal cair e tempo de mal seguir. comemorando. não tardes. Oh amamos tanto. e tempo de cair e tempo de seguir." Exemplo Geral Autor:João Vario (conhecido também como T. Vicente. Fim de novo e reconhecimento de novo E tudo é crime. um dia. 1966 (Fragmento) Há muito passado no estar aqui com o tempo. Fim e reconhecimento.

o chisto. Que fazeis do mundo e da sua chama imponderável. E então consta que amámos. Cabo Verde. e ganhando constância. mais uma vez. o homens. Depois.O tempo for deles e. E. Sem que a causa. Havemos de ser úteis como mortos há muito. na verdade. Aquele blasfemissimo comentário. Dividida em duas por elas. hoje como ontem. a designação. junto da via férrea. por sua vez. E olhamos para os penhascos da beira-rio. os homens do país miravam-nos como se fôssemos nós e não eles os mortos desta terra. Era em abril dois dias depois da neve e da cidade dos nevões. O julgamento nossa medida abandonem. perdidos que estais. as oliveiras. a cevada as ervas de termo. porque regressaremos. . depois faremos ou fará o tempo. o delírio. esse provérbio sessouto. de outros. na serra. e as colinas. 1968 E então subimos aquele grande rio e as portas do Rodão. homens do medo e do tempo da discórdia que trazem para o cimo das estradas a malícia que vai apodrecendo seus pés neste mundo e em terras de outrem. a memória. E. Vicente. chamadas. entre a casa e o limiar? E evocamos. 1937 Exemplo Relativo. Fragmento Autor: João Vario S.

após tantos anos. Com o título "Resumos. o mesmo foi lançado pela AEMO (colecção Timbila No 16) em agosto de 1997. a este tema? Será que a morte nos ensinou a olhar para o homem com pavoroso êxtase? Canto do Verbo em Busca da Forma Autor: Teodomiro Alberto Azevedo Leite de Vasconcelos Moçambique Teodomiro Alberto Azevedo LEITE DE VASCONCELOS nasceu a 4 de Agosto de 1944. Faleceu no dia 29 de Janeiro de 1997. Alguns dias antes de falecer disse: "gostaria de ter publicado o meu livro". Eu presido a todos os enganos os do céu os da terra há tantos anos que nem o tempo os lembra Antes do mar fui voo Antes do sal fui mar e sede antes da água fresca Antes do verso eu fui a poesia Eu sou antes de Deus e do universo Estando antes eu nunca fui ontem e sendo a tudo preso nunca fui refém nem de mim mesmo porque a minha fome não tem distância horizonte não tem nome Sempre que me contam sou inumerável sempre que me caçam sou invulnerável Eu nunca estou no pé e nunca estou no passo a minha dimensão é outra sou o compasso cósmico a que palpitam todas as galáxias e a que se geram flores nos ramos das acácias Não fui planeado nem projecto Não sou vontade . numa cerimónia que juntou muitos amigos. vítima de prolongada doença. Insumos e dores emergentes".

abaixo assinado. p. AEMO/93. declaro por minha honra que deste corpo extraí o que pulsava e fazia cumprir suas funções quando funcionava. 101 Eu. Ausentes dele qualquer abstracção. Mais declaro que nele não encontrei outro elemento além dos ditos e descritos nos comuns manuais de anatomia. .Nas letras de prisão lêem-me liberdade não a minha a tua a deles ou a de todos Eu sou a liberdade do desejo Do desejo dos lodos e das aves dos rios dos homens e mulheres de todo o espaço de todas as coisas de todos os seres Por isso eu presido a todos os enganos os do céu os da terra há tantos anos que nem o tempo os lembra Sou a razão de todas as derrotas o coração da mágoa as mãos do desespero Eu sempre estou e permaneço e espero desde o cáos e canto o refazer do desejo na sua liberdade como lábios no beijo Em mim tudo recomeça grão a grão ponto a ponto peça a peça mão a mão sol a sol segundo a segundo porque comigo recomeça o mundo até que tudo seja o que não vejo até que o mundo seja o do desejo" Declaração Autor: Leite de Vasconcelos Moçambique in "Irmão do Universo. embalsamador de profissão.

sinais de medo ou discordância em relação à hora da paragem. revistas e antologias. 1993 Leite de Vasconcelos nasceu em 1944 e é predominantemente jornalista. "Irmão do Universo" foi o seu primeiro livro. 36 XXV Pela noite pela rua passamos gatos e cães somos as lendas raivosas do sangue das nossas mães Pela noite pela rua somos cavernas e vento temos a boca cansada do asfalto e do cimento Pela noite pela rua somos navalhas abertas ." Ladaínha Autor: Leite de Vasconcelos in "Irmão do Universo". extraído d' O Ciclo da cidade. Tem trabalhos dispersos em jornais.sintomas de tristeza. Por minha fé ainda certifico a apropriada condição estéril do que remanesceu e expeço via aérea com garantia firme de ser reconhecido por quem o conheceu quando o corpo era inteiro e se reconhecia. p. desagrado. colecção Timbila no 12 da AEMO.

é Luanda uma flor. na Paris. uma beleza com perfume e encantos sem par. do Balão. e tão presa nos mistérios das ondas do mar. divinal! Raparigas do Bungo e da Samba. De S. Como é sem favor. Paulo à Marginal . do Cruzeiro e da Se. . são a nossa maior tentação.Vem ver .já fomos estátuas mas tivemos canções e festas Pela noite pela rua vendemos a mocidade somos canções esquecidas parasitas da saudade Pela noite pela rua de braço em braço tocado tecemos o nosso tempo levamos a morte ao lado Pela noite pela rua já nem somos o pecado perdoou-nos o silêncio deste seio amarrotado. Polo Norte ou Mutamba." Baião de Luanda Autor: Reis Ventura Angola Tão velhinha e tao linda. meu amor! Luanda ao sol-por.

cá quer ficar! As Idades da Pedra . . cidade e quitanda ao luar.. Bungo. quem sabe ver.Tudo isto é Luanda. Samba e Sambizanga ou Portas do Mar . debruçada nas ondas do mar. numa festa de vida e amor.I Autor: Cândido da Velha Angola in As Idades de Pedra. Tão velhinha e tão bela e fagueira. gravando na areia estranhas grafias onde. Pelos bailes selectos da Alta. feiticeira. Este permanente arfar marinho desperta a ressonância de oculto escuro de obscuros templos submersos onde o coração. 1969 É do mar que vêm estas vozes silabando a linguagem das marés. Quem cá chega. nos batuques tão ricos de cor. é Luanda que dança e que salta. desvenda o rumo no sobressalto das ondas.. É Luanda sagaz.Nesta terra onde eu nasci eu quero casar e ter o meu lar e rir e chorar só por ti.

Reminiscência da primeira voz. teu corpo conspirando com a noite. (beijo africano de húmidas pressões). toda a claridade da hora aprofundada no ventre generoso e farto. nesta urgência de sal em nossos membros. materna. atrai as pegadas para a líquida planura pela saudade de verde glauco que estira o corpo na fronteira do mar. se perturba na iminência do segredo revelado. Cheiros de primeira pâtria. adormecidos peixes sobre a areia. desperta nossa cólera e angústia de malograda fuga e de nos vermos. Idades da Pedra . justificação de sermos outra vez humanos. apresentaste o peito à concha do ouvido para que ouvisse . simples. os olhos da paisagem insular. tudo nas pálidas palmas das mãos quando. na babugem das águas. oculta no tempo. A viagem regressiva aos ancestrais: O reencontro para lá da linha quebrada. neste marulhar à concha dos ouvidos. de olhos vítreos.II Autor: Cândido da Velha Angola in As Idades de Pedra. 1969 As pálidas luas das tuas mãos negras.descompassadamente.

na grande verdade a nosso respeito. o vento é o cazumbi dos cazumbis -o deus do mar. uma estranha batucada. Dia de Chuva no Mato Autor: Geraldo Bessa Vitor Angola "Chove. os seus bailados febris. espiritos do mal lancam da Altura para incendiar a Terra. amável. em tragicómica festa. em tom de guerra. e em toda aquela aurora sem mentira arborizando o corpo quebrantado ansiávamos o dia para celebrarmos o cacimbo matinal em nosso olhar no fresco odor da casa de madeira. O vento Ora violento.o rumor da noite longinqua e permitiste ao sono que viesse. do ria e da florestaque vai cantando e dancando. E a trovoada é um batuque incessante. errando como sonambulas . Os raios sao setas de fogo que mesteriosamente. o seu coro de mil vozes. As nuvens negras sao virgens tontas. quais almas do outro mundo. ora brando.

Cantaram o feitiço do teu corpo. menina negra linda. ves o teu lindo sonho que já finda.. é o pranto (parece eterno) dos deuses negros que a Morte sacrificou no Inferno. cantaram o feitiço do teu corpo. menina negra: mato não é cidade. oceano não é rio.. olhando o cais. Habituada ao balouco da canoa nas margens do rio Dande. E a chuva. sonhaste viajar num enorme vapor que navega no mar grande e vai para Lisboa! Ouve. mas não sabias nem soubeste que o branco tem feitiço na alma.pelo ceu negro e profundo. Que esperas tu ainda? já sabes a tua sina: o branco que partiu não volta mais! E tu. nessa noite sensual em que tiveste por lencol nupcial uma folha de palma. constante e forte.. e depois embalada pelo amor. dongo não é navio .. menina negra. Não Venhas Mais ao Cais Autor: Geraldo Bessa Victor Angola não venhas mais ao cais.

o menino negro não entrou na roda.. que o branco não volta mais! O Menino Negro Não Entrou na Roda Autor : Geraldo Bessa Victor Angola O menino negro não entrou na roda das crianças brancas . venha cá brincar" . cantando seus hinos. gargalhadas francas. voaram chilreando sobre as cabecinhas lindas dos meninos e pousaram todos em redor. O menino negro não entrou na roda.. A mamã. menino negro não entrou na roda. bailaram seus vôos. E chegou o vento junto das crianças .e bailou com elas e cantou com elas as canções e danças das suaves brisas. logo fez reparo. não venhas mais ao cais.as crianças brancas que brincavam todas numa roda viva de canções festivas . O menino negro não entrou na roda. o menino branco já não quiz. as canções e danças das brutais procelas..e o sonho que sonhaste não é sonho. . em bando.. pretinho.. Por fim. Pássaros. "Venha cá.disse um dos meninos com seu ar feliz.. zelosa. não quiz.. é saudade..

ficou só.e já sou possuido de magia! .O menino negro não entrou na roda das crianças brancas. calado com voz de morto. colossos. vibra-me nas entranhas. e negras bailarinas. já destrocos.. . quanto o batuque avanca desflorando o silêncio de virgens madrugadas. ressuscitam. que o vento vai cantando. Desolado.. sinto em mim o batuque penetrando . E meus versos sao feitos desse canto. fibra a fibra. Tenho na minha voz ardente o grito desses gritos febris das batucadas. que vibra e plange dentro de minhàlma. nas noites em que o fogo das queimadas parece caminhar para o infinito. O batuque ressoa-se nos ossos. tocam e dancam. povoando a noite calma. agitando meus impetos carnais. já mortos. O Feitiço do Batuque Autor : Geraldo Bessa Victor Angola Sinto o som do batuque nos meus ossos. o ritmo do batuque no meu sangue.e meus sonhos. é a voz da marimba e do quissange. sensuais. em riso e pranto. Músicos negros. seu ritmo louco no meu sangue vibra. absorto. ficou só. parado com olhar cego. cantando.

É professor sendo este o seu primeiro livro publicado. que sinto no meu ser. onde ficou internado durante muito tempo.. naquele mesmo instante. uns viandantes que. O batuque de dor e de alegria. 2 " O desgraçado tinha-se enganado de todo... acorrendo em seu socorro. A sua sorte foi passarem por ali. Uma vez. O Camaleão Autor: Alberto Viegas Angola in " O que nos dizem certos animais" (contos e fábulas) Alberto Viegas nasceu em Kharau. dentro de mim. n.. o tiraram do fogo e o levaram a um . nunca mais tera fim.A batucada tem feitiço eterno. vai cumprindo até hoje:. a 10 de Junho de 1927. província do Niassa. Ficou com as mãos. os pés e todo o corpo gravemente queimados. as cinzas não estavam frias como ele pensava e escondiam perigosa e traiçoeiramente um fogo vivo. recebendo tratamento que o salvou da morte. Uma vez curado. E. Afinal. distrito de Cuamba.. o camaleão decidiu firmemente nunca dar um único passo sem se ter certificado da ausência de fogo e doutros perigos. queimei- . queimei-me!. Edição da Associação Moçambicana de Escritores. ficando apenas com dois dedos em cada mão e em cada pé. nem mesmo alem do Ceu e alem do Inferno! Capítulo 15. colecção " a palavra ao lado"..Uma vez.

Buscar na placidez o alimento. Iluminar o sol. 29/1/1941 Isto! E perguntam-nos: . mas num estar que é viagem. . vida que não tive Permiti que o sono que em mim vive Se torne o mais humilde dos meus servos. deixar adormecer o pensamento. Isto é Que Fazem de Nós Autor: Armenio Vieira Ilha de Santiago." Nirvana Autor: Jorge Viegas Moçambique in "Vozes Poéticas da Lusofonia".me!. Estar. Esboroar-me na terra humilde e fria Sem o suor negro da melancolia A orlar-me a testa. Não haver marcas da minha passagem. a inundar-me os nervos. Sintra 1999 Ser como uma arvore na paisagem.sois homens? Respondemos: . Poeta que não sou. existir sem sofrimento. Existir. esporear o vento.animais de capoeira. Cabo Verde. no seu passo vacilante. Tornar menos pesada a minha imagem.diz o camaleão de cada vez que levanta e poisa a mão ou pé nalgum sítio.

.estais vivos? E em nós as galinhas respondem: .Dizem-nos: . Pensamos: lá fora. Isto é que fazem de nós quando nos inquirem: .dormimos.bom dia.. Cabo Verde 19411962 Mar! Mar! Mar! Mar! Quem sentiu mar? Não o mar azul de caravelas ao largo e marinheiros valentes Não o mar de todos os ruídos de ondas que estalam na praia Não o mar salgado dos pássaros marinhos de conchas areias e algas do mar Mar! . Poema Autor: Arménio Vieira Praia. Santiago.

Nouvelles du Sud. 1998 A dor que em mim mora não é o mal no meu corpo carne destinada à terra húmida última guardiã do sofrimento pois esse já fiz oferenda ao mais Homem de todos os Homens mumificado pela injustiça humana que estrangula o nosso ser a dor que em mim mora é a que vi em Bissau .Raiva-angústia de revolta contida Mar! Siléncio-espuma de lábios sangrados e dentes partidos Mar! do não-repartido e do sonho afrontado Mar! Quem sentiu mar? Sofrimentos Autor> Carlos-Edmilson M. Éd. Vieira Guinéu-Bissau in "Um Cabaz de Amores". Ivry-sur-Seine.

porque tudo é passageiro. . Oh pincelada verde na cidade. tombado na direcção da Rua da Pedreira. como filho nos maternos bracos ali ficou.. ruina e gotica coluna . E o coqueiro ligado ah terra. E onde um par enamorado teve sonhos de Amor. Talvez para saudar alguem que muito sofreu e amou. nesse pedaco de Luanda antiga agora modernizada. quando se vive a mentir.é a que viveram na travessia para Dakar é a que viveram na travessia para Cabo Verde é a que vejo no corpo dos outros MESMO Coqueiro Autor: Tomaz Vieira da Cruz Angola Ali. na rua do Carmo um coqueiro ficou abandonado quando destruiram a casa velha a que deu sombra. Mas tudo acaba e o tempo tudo anda a destruir..

Ou. fresquinho... cometam a crueldade de te expulsar e matar. E a quintandeira passou. será melhor dar-me um veneno qualquer porque eu ando perturbado e o meu sonho anda queimado por uns olhos de mulher! . é triste quando se matam almas. na vida. coqueiro morre. viva. mas sofre como um homem. Fruta Autor: Tomaz Vieira da Cruz Angol Quitanda de fruta verde. Morre de pura saudade... ananas ou abacate!. com uma flor desfolhada no seu sorriso escarlate. E perdoa. Antes que os homens. laranja. limao. saudavel. Morre. . porque tudo. da-me um gomo de laranja para matar a sede. tao maus. afinal. graciosa. caju. coqueiro das verdes palmas..de marmore verde....Minha senhora. então.

filha de branco que morreu lutando e duma preta tristemente linda! Quissange . o teu olhar ate de noite encerra todo o luar das lendas do Catolo! Oh flor estranha! já não tem consolo a tua magoa. N'gola . quase finda! Neta dum soba que acabou chorando. o que me encanta. a tua dor na terra! Oh flor estranha do febril Capolo neta dum soba que perdeu a guerra! Estatua ardente em bronzeadas chamas que tentação e perdição derramas por sobre a história negra...Saudade Negra Autor: Tomaz Vieira da Cruz Angola não sei. por estas noites tropicais.Flor de Bronze Autor : Tomaz Vieira da Cruz Angola Filha de branco que morreu na guerra e de uma preta linda do Libolo..E no ar um som de musica ficou e um perfume de fruta que não matou minha sede Oh agri-doce quitanda da fruta verde!.. .

. não sei.. Qual o som que aflora dos lábios da noite misteriosa! Sei apenas. e isso é que importa. Indo mares fora.. . aqui neste sertão de música dolorosa qual é a voz que chora e chega ao coração. por andar ausente.. Que é o destino selvagem duma canção em que tange. por entre a floresta virgem o meu saudoso "Quissange". negra saudade do teu olhar diamantino... mares bravos.Se é o luar que canta ou a floresta aos ais. que a tua voz. que disponho e crucifico nesta amargura morena. cantando o sol e o luar. já mal escuto a tua voz dolente. já mal a escuto. e chorando a nostalgia do sertão.. Quissange. Quissange. a tua voz "luena".. não sei. fatalidade deste meu triste destino. Quissange. lá do distante Moxico. por sobre o mar. Dolente. lira gentia. dolente e quase morta.

não sei.. e as mais tristes desventuras do meu amado Quissange! Rebita Autor: Tomaz Vieira da Cruz Angola Mulata da minha alma batuque dos meus sentidos. sem ter calma. vou dancar. assim. Por isso vou ah rebita. neste verão infinito..em noite primaveril acompanhando os escravos que morreram no Brasil. que me faz entontecer. triste. quase triste e indeciso. longe. tocar o quissange do gentio. morrei! Mas deixa a vida que tange. Ouvindo. . não sei. E. a razão de tanto grito. a queimar minha desdita nas chamas do teu sorriso. meus nervos encandecidos vibram por ti. exaltando as amarguras. oh morte. -Se és tu. vou dancar e vou beber o vinho do teu olhar.

.Poesia d'Africa.leques ao vento abanando a Ilha. onde corre o verde rio! E depois adormecer na tua esteira de prata... batuque dos meus sentidos....que vive... 1942 Coqueiros esguios .... a queimar minha desdita nas chamas do teu sorriso........ ... Um dongo flutua na baia.. Mulata da minha alma. Por isso vou ah rebita. enfim.. .. onde quero... Romance de Luanda Autor: Tomas Vieira da Cruz (1900/1960) radicado em Angola desde 1924 in Tatuagem ..... quase triste e indeciso. com que o céu a está vestindo..adormeceu sonhando placidamente sorrindo.. E ela. a negra maravilha condecorada com reflexos de prata com que o céu a está beijando....... alem no palmar.... oh minha linda mulata... morrer.. .

duma flor já desfolhada. Vai rompendo a madrugada! Canção Para Luanda Autor: Luandino Vieira Angola A pergunta no ar no mar na boca de todos nos: . .Nas águas verdes da baia calma. caem pétalas de sangue..Xé mana Rosa peixeira responde? . um preto atleta.Luanda onde esta? silêncio nas ruas silêncio nas bocas silêncio nos olhos . jovem pescador e um brutal Cupido.é o Deus do Amor em bronze reproduzido! Nas águas verdes da baia calma. caem pétalas vermelhas de uma linda flor de ónix! E o timoneiro.. Um dongo flutua na baia.

seu corpo cubata! Seu corpo vendido viajado de noite e de dia. m'boquinha boa doce docinha" .Mano não pode responder o tempo é pequeno para vender! Zefa mulata o corpo vendido baton nos labios os brincos de lata sorri abrindo o seu corpo .-Mano não pode responder tem de vender correr a cidade se quer comer! "Ola almoco. . ola almocoeee matona calapau ji ferrera ji ferrereee" .E voce mana Maria quintandeira vendendo maboques os seios-maboque gritando. saltando os pes percorrendo caminhos vermelhos de todos os dias? "maboque.

.precisa comer! .Luanda onde esta? Sorrindo as quindas no chão laranjas e peixe maboque docinho a esperanca nos olhos a certeza nas mãos .Mano dos jornais Luanda onde esta? As casa antigas o barro vermelho as nossas cantigas tractor derrubou? Meninos das ruas cacambulas quigosas brincadeiras minhas e tuas asfalto matou? .Luanda onde esta? Mana Zefa mulata o corpo cubata os brincos de lata vai-se deitar com quem lhe pagar .Manos Rosa peixeira quitandeira Maria voce tambem Zefa mulata dos brincos de lata .

Partiram-se as cordas esticadas pela vida.mana Rosa peixeira quitandeira Maria Zefa mulata . caidos mostraram o coração: . Chorei fado.os panos pintados garridos.Luanda esta aqui! Sons Autor: Luandino Vieira Angola 1963 A guitarra é som antepassado. Que importa hoje se o recuso: o ngoma é o som adivinhado! Cançao para Joana Maluca Autor: Joao Maria Vilanova Angola Para eles eras unicamente a suja a piolhosa colhendo beatas á porta do Nacional .

Canção na morte de nga-Caxombo Autor: Joao Maria Vilanova Angola Olho nga-Caxombo ali na esteira deitado morto a todo comprimento Vejo-o caminhar sem descanso do Amboim ao Seles do Seles ao quipeio outra vez ao Seles rotas sem rota mato longe quem que sabia? ... Joana eles sabiam tua mao e a temiam (tua mao espinho-de-piteira tua mao ngana-acusadora-mesmo ah! kikata kikata muene) ate quando estendida tua mao pedia. Na escudela da noite entre cassuneiras e muxixis uma pobre escura flor adormecia.E lestos enquanto o sol brincava no ombro alcantilado das encostas seus rafeiros te lancavam de dentro dos quintais.

Fez parte do movimento CHARRUA e "Terra no Alambique" é o seu primeiro livro. de seu verdadeiro nome.atrapalhou-se a outra.Lei do Passe Autor: Tomas Vimaro Moçambique in "Terra do Alambique". Olho-o pela vez ultima na luz rasante desse dez de Julho a barba ah monangamba cavada sua negra face morto deitado morto a todo o comprimento.. . ". 15 .Ai tem pequeno problema .. o qual foi escrito entre 1979 e 1984. nasceu em Inhambane a 6/5/1959. Mas minha senhora deve . . V Capítulo Tomas Vieira Mario.. É jornalista e tem publicações dispersas por jornais moçambicanos e portugueses.É que não tem mesmo tampa.Tipoia o ombro pesava que pesava duramente Zua e voz de Kalandu voz serena do sertao ele a escutava atraves do fogo atraves da agua o geito sem raizes de amar o coração das coisas..

tinha chegado primeiro e ficado com as tampas. . a Ancia outra vez de mãos nas ancas. como não tem tampa?! .. . naquela pressa toda. gelatinosa. Rota longa rota longa . 1973. para mais tarde lá voltar buscar então as panelas.ter em sua casa panelas do mesmo tamanho. as tampas quem roubou o chefe!. para a questão da tampa . e a Ancia aproveitou para rir também..." Rota Longa Autor: Teobaldo Virgínio Cabo Verde in "Viagem Para Lá da Fronteira". São coisas que a gente tira lá mesmo na hora do despego.. é que não deu tempo. na atrapalhice das pressas.. está a ver.. A sorte.E.apressou-se a considerar. na fabrica. por causa dos vigilâncias populares. ela mesmo dizia isto rindo as gargalhadas.Mas.. Publicações da Casa de Cabo Verde Irei na rota branca da rosa de espuma na hora madrugada promissora da brisa. dessa maneira. na gargalhada. é que eu cheguei lá a tempo e então carreguei logo as panelas. o corpo lhe dançava. Lisboa.. para apanhar as tampas. minha senhora. admirada.Então. o que é que pensa?! Se os chefes até são os primeiros no roubo! .. .divertida com a história. o chefe da secção.Minha senhora.. . não? Então acontece que no mesmo dia que apanhei estas panelas.Minha senhora. no seu espanto.

O País em Mim Autor: Eduardo White Moçambique Do livro "O País de Mim". Rota longa rota longa Vou irei sem detença para além das distâncias secas em busca do abraço ancorado na outra margem da curva líquida. Rota longa rota longa Vou irei contra todas as cadeias protestantes do meu rumo em cada protesto que embarco na ondulação que se desatraca. Rota longa rota longa Rota longa de espuma vou irei espalhar minhas pétalas ressequidas na hora madrugada das correntes desatadas. edição AEMO 1989 O peso da vida! .Irei com a pétala ressequida da tórrida paisagem para além das distâncias secas. Rota longa rota longa Vou irei na hora alta desta vigília e a manhã clara acontecerá. Eduardo White colecção Timbila no 10.

Caminho. não queria somente rasgar-te a ferida. deixa-o ser a asa da imaginação. Assume o amor como um oficio onde tens que te esmerar. repete-o quantas vezes for preciso até dentro dele tudo durar e ter sentido Deixa nele crescer o sol até tarde. em carne viva.Gostava de senti-lo à tua maneira e ouvi-la crescer dentro de mim. só nunca deixes que sobre para não ser memória. não queria apenas esta vocação paciente do lavrador. também. repete-o até a perfeição. 1992 Página 17 . Poemas da Ciência de Voar Autor: Eduardo White Moçambique do livro: "Poemas da Ciência de Voar e da Engenharia de Ser Ave". a da terra e que é a tua 2. mas. Lisboa. a casa da concórdia.

"Uma mão relampeja na casa da escrita.
Faísca
Troveja.
Procura um claro instante para a aparição.
Pode-se ve-la correr pelo dorso do papel,
deitada do seu lado ou do seu modo rastejante,
pode-se ve-la provando o ruminante delírio das
palavras,
a sua rasante arrumação,
e leva vozes aquela mão em cada delicada passagem,
rítmica, latejante
ou um nervo animal que faz lembrar
a textura pedestre do papel.
Mas a mão voa, explosiva,
e não cai nem agoniza no espaço vibrante onde se
comunica.
Voar é um fervoroso recolhimento.
E no que é quase a medida elementar do esquecimento
a escrita navega
num estuário de silêncio.
Escrever é uma droga antiga,
uma bebedeira que queima com lentidão
a cabeça,
traz as luzes desde as vísceras,
o sangue a ferver nas vias tubulantes,
traz a natureza estimulante das paisagens
que temos dentro."
Página 28
"Ocorre-me agora

a pupila minúscula de uma criança.
A sua engenharia
desde o corpo na guerreira pequenez
ao dedo provador da boca.
Ocorre-me esta criança
este monge da franqueza em seu templo de inocência.
Amo-a. Vivo-a.
Voar é poder amar uma criança.
Sonhar-lhe o peso no colo, as mãos acariciantes
sobre a palma da alma.
Voar é tardar a boca
na rosa do rosto de uma criança.
Pronunciar-lhe a ternura,
a seda fresca e pura
da sua infância.
Voar é adormecer o homem
na mão sonhadora
de uma criança."
Sorrisos Mutilados
Autor: Carlos Zimba
Moçambique
na revista "XIPHEFO", Dezembro 1994
"No meu país
a (in)competência doentia
mutila-nos o sorriso
e nós teimosamente
arranjamos muletas e sorrimos
deitados à sombra da esperancà
esculpida pela nossa paciência
Coragem, gente

pois galopa celere o instante
em que sorriremos sem muletas!"
Os Molwenes
Autor: Isaac Zita
Moçambique
no livro "Os Molwenes"
Com a mão estendida e bem aberta, a cega está
sentada no chão de cimento e move sem descanso as
pálpebras desprovidas de pestanas, pondo a
descoberto, deliberadamente, as cicatrizes vermelhas
que figuram no lugar dos olhos.
Um homem idoso pára à frente dela, olha para as
horríveis orbitas e mete uma mão no bolso de onde
extrai uma moeda de prata.
A seguir, fica alguns instantes a contemplá-la,
indeciso, talvez pensando na alegria que com os seis
bolos comprados com aquela moeda, poderia
proporcionar aos netos quando chegasse a casa.
Uma voz interior segreda-lhe que deve dar a moeda de
prata porque é uma boa acção e lá no Céu, DeusTodo-Poderoso, além de aumentar os seus dias de
vida, irá perdoar todos os pecados que cometeu, até
mesmo aqueles que já tinha esquecido; outra voz,
entretanto, diz-lhe que o melhor será comprar os bolos
e fazer essa surpresa aos netos, que por essas e por
outras, cada vez o adorarão mais.
Por fim, evitando olhar para os olhos da cega, estende
a mão e entrega-lhe uma moeda que ela,
sofregamente, se apressa a guardar na capulana rota e
suja, com uma rapidez inesperada numa invisual.

Fascinado, o homem de idade permanece de mão
estendida e agora vazia, comovendo-se quando a ouve
balbuciar um doce "Obrigado", ecoando como o som
cristalino da água a deslizar num regato celestial.
Quando o homem se refaz do encantamento, já a cega
estende de novo a mão e diz um novo - "Bom dia",
continuando sempre a bater com as pálpebras sem
pestanejar.
O homem idoso recomeça a caminhar, pressentindo
uma lágrima de emoção a querer soltar-se dos olhos e
a voz de Deus-Todo-Poderoso a confirmar que os seus
pecados já tinham sido absolvidos e prometendo, se
ele continuasse a ser assim bonzinho, enviar mais
cedo ou mais tarde, uma pomba direita ao seu coração.
...
...
...
- Avô - consegui interromper eu, finalmente - Porque
é que Deus é sempre branco e Satanás, sempre negro?
É assim que o padreca ensina...
O avô mostrou-se pela primeira vez perturbado e
limitou-se talvez por isso, a olhar alternadamente para
a pele negra que cobria os nossos rostos e mãos.
Depois, levantando-se ruidosamente, apenas disse:
Já vai alta a noite. Vamos dormir, meu filho...
Morte em Dois Actos
Autor: Mauro Pindula

in Jornal Savana, 6/06/1997, Página Juvenil
"Estacionou o carro junto à calçada. Saltou e com dois
passos ágeis entrou no edifício do jornal
"NOTÍCIAS". Dirigiu-se ao sector de publicidade e
preencheu o formulário que encontrou no balcão. Era
um texto necrológico. Humedeceu os lábios e disse:
- É para dois dias.
- Traz a foto? - perguntou o balconista. Era grisalho e
baixinho. O homem que queria anunciar mexeu na
sacola preta de couro e tirou de lá uma foto nítida.
Arrastou a foto pelo balcão e o grisalho recebeu-a.
Não pôde deixar de abrir os olhos: era a foto do
próprio homem.
Entrou silenciosamente e inspirou o cheiro a sândalo.
Era reconfortante. Atirou a sacola preta de couro para
o chão da sala. Foi buscar café à máquina, sentou-se
no sofá e ligou a televisão. Deixou o café a meio e
trocou-o por um uísque.
Entretanto soou o telefone. Levantou o auscultador e
ouviu uma voz rouca e feminina. Já sabia que não
precisaria de cerimónias:
- Jantas comigo?
- Não sei...
A voz do outro lado calou-se.
- Sinto-me algo desestruturado, sabes..."
Stress
Autor: Lilia Momplé

Por um instante. procura escamotear de si própria o motivo real da sua indignação. maples de veludo e pesados cortinados. a atenção centrada no copo e no Xirico. "Bêbado". com estas palavras. 30 . tal a profusão de mobiliário de precioso e escuríssimo jambire. como sempre. E. É. Almoçou sózinha. e como acontece todos os domingos a esta hora. O homem vai beberricando a cerveja com uma sofreguidão mal contida. pórem. indignada: "bêbado". repete ela. um local sombrio. recostado na cadeira de napa meio encardida. p. ansiosa por se libertar de tamanha ostentação. Consegue vê-lo perfeitamente. dadas as suas dimensões. copo de cerveja na mão. inteiramente preenchido pelo Xirico e pelo copo de cerveja. p. nº 3. Xirico na mesinha ao lado. 7 A amante do major-general crava os olhos no homem que está sentado na varanda do 2o andar mesmo em frente e sibila. abril/junho 1997. a amante do major-general supõe que ele dá pela sua presença mas logo se apercebe que. na enorme sala comum que poderia ser alegre e arejada. órgão da AEMO. sem desviar os olhos do homem "toda a tarde vai beber". bibelots de metal. alcatifas.in "Lua Nova". Até mesmo a poeira parece circular na sala agitadamente. É domingo. a cor branca das paredes e a ampla porta envidraçada que comunica com a varanda. Autor: Simeão Mazuze in "Calças Molhadas". aquele olhar resvalante a exclui do seu campo de visão. a amante do major-general vem até à varanda que dá para a rua.

. senão saberia que o Mussava se não está na cela dele o No. . só queria saber onde encontrá-lo. desapareça. 0990. timidamente balbuciou..Uma voz rouca e baixa convidou-o a entrar. "Five Roses Tea".. está na cela 0303 a conversar com os amigos dele.redarguiu.Obrigado senhor.Já disse. restos duma embalagem de acondicionamento de chá. 090 a vermelho. Picasso . senhor. Não é aqui a cela do senhor Mussava? . notou por cima daquela porta estava pintado o No. . a curtir uma de "jell" e aparece um estupor de preso para incomodar e ainda diz que não queria incomodar! O Tomás boquiaberto retirou a cabeça e respirando fundo fechou a porta.Boas tardes. Empurrando a porta assomou para o interior da cela e abarcou a imagem de um homem deitado sobre um catre de ferro sem colchão coberto com retalhos de cartão.Você bateu para perguntar isso? Donde vem você? Não é deste pavilhão concerteza. Relanceando o olhar em volta.. lia-se num dos cantos a mercadoria que transportara. . Tinha-se enganado. Não queria incomodar. .. Surpreso por não ver o amigo apesar de ainda em paralelo se encontrar outra cama nas mesmas condições.Já viram isto! Um gajo está a descansar nesta merda fedorenta.

mas não tens a boca. exacto como uma foto. Associação dos Amigos da Ilha de Moçambique . E só agora começo a perceber. Tu. Um tem cinco pernas.O quê? Não oiço nada. o . Só coisas reais. Três homens que ocupam o mesmo lugar no espaço ao mesmo tempo. tu tens a voz. fielmente pintado. É o retrato do nosso camião. meu amigo! . Era o quadro do nosso camião. . É um génio.Parecidíssimo.O meu retrato? Perguntou Roberto. e eu não tenho senão a cabeça falta-me o corpo.. ." O Macaco e o Cágado Do livro "Contos Macuas". a coisa passava-se em Portugal. Pinta como se fotografasse. o outro três cabeças. Tenho os ouvidos tapados. edição do autor. 1996.repetiu. mas não compreendi o que ele queria representar.Picasso fez o teu retrato. ...Autor: Simeão Mazuze (Salimo Mahomed) in "Calças molhadas". Uma cabeça que avança no espaço e de cima de um camião.. Não lhe escapou um único pormenor. Certo dia. Quando vi pela primeira vez este quadro. o qual é mais conhecido como cantor Página 8 ". gostei muito. 1992.. tal como estás agora no camião..coordenação de Elisa Fuchs -ilustrações de Malangatana "O macaco e o cágado fizeram-se amigos...O teu retrato .

Está bem .Amigo.Amigo. pô-la na mesa e disse: . mataram um galo. mas podes lavar as mãos no poço. o macaco foi a casa do amigo.disse o macaco.Amigo. O macaco foi ao poço com a sua mulher.respondeu o cágado. Tentou subir.Não há água. fez echima. o macaco matou um galo.Ah.pensou o cágado. . O cágado respondeu: . vem a minha casa. dá-me as minhas ferramentas para me ir embora.Hei-de ir na próxima semana . perguntou ao macaco: . . Quando estava para sair. Quando lá chegou. O cágado deitou fora a água das panelas e disse para o amigo: . mas antes pediu ao macaco: . Quando lá chegou. Na semana seguinte. o meu amigo pôs a echima na mesa sabendo que eu não consigo subir? . Tem cuidado para não as pores no chão quando voltares.Quando é que vais a minha casa? . fizeram echima. tentou. Lavou as . O cágado saiu e foi a casa do seu amigo.macaco disse: . vamos lá comer a echima.Está bem. mas não conseguiu comer a echima! Por fim resolveu ir para casa.

O adulto soergueu-se. Global.Mas pode não ser mau? .refiro-me ao caso de a mulher não ter marido . Fez isto tantas vezes que acabou por desistir.disse a criança.farinha de milho cozida A Guerra dos Cem Anos Autor: Carneiro Gonçalves.Ser mulher e ter um amante é mau? Para ganhar tempo o homem sentou-se.Depende.Pode não ser mau.Ouve . A partir daí o macaco e o cágado nunca mais voltaram a ser amigos.mãos e começou a andar só com duas patas. . O cágado tinha queimado todo o capim à volta da casa e havia muita cinza. . Maputo ". 1990. ." echima . Foi com a sua mulher despedir-se e pedir as suas ferramentas.Brasil/Livraria Universal.disse a criança . . o macaco não aguentou mais e pôs as mãos no chão ficando com elas todas sujas. Quase ao chegar.Bem . Teve que voltar ao poço para as lavar de novo. in "Contos Moçambicanos". remexeu na areia. apoiado no mesmo braço.

disse o adulto .me que tens razão. .Não tenho duvidas. . . . .Olharam-se bem nos olhos.Depende de que?? .Depende . .Parece. . . percebes? Isto não tem nada a ver com a minha mãe. .Mas de qual gosta mais? .Calha bem .insistiu a criança.De muitas coisas. vamos ficar amigos. vais beber uma laranjada comigo. gosta muito dos dois ." António CARNEIRO GONCALVES apresentava-se assim: "Tenho trinta e um . . Tenho dez escudos. És um tipo simpático. ..repetiu o adulto. .Estou cheio de sede. Eu é que quero saber.Talvez não entendas. .disse o homem.Gosta-se sempre mais dos filhos.Bem.Sim.De certeza? . e foi então que rompeu a chorar. E logo a seguir: . Pergunto para saber.Vai à merda.Assim como ..Desculpa.voltou a criança.

29-30.. assim a modos de paixão. não voltaria ao romance nem assistiu ao lançamento do seu livro "Contos e Lendas". vi a luz do dia em Braga. quando viajava para o Zambeze..." Não alcançaria o Zambeze. que eu tinha a impetuosidade dos rios. Ontem ia mesmo na primeira pagina. A Lua do Advogado Autor: António Carneiro Gonçalves in "Contos e Lendas". engasguei-me ao princípio. aquele momento chato de que nenhum homem gosta. Uma vez ela até confundiu o roçar da gazela com uma caricia minha e disse "isso não. Faço questão de conhecer o Zambeze. isso não". Lá virá o dia.p. Depois comparou-me ainda a um rio (isto mais tarde). Morreu num acidente de viação. outro domingo. Ri como um perdido. Mais uma saída. roçava-se nas nossas pernas. como costumam os homens gostar das mulheres. 1980 Eu conhecia Noémia há muito tempo. com força. mas nasci em Tête. Ensaiei 1 romance que reescrevi várias vezes. A gazela olhava os nossos abraços. Vi-a pela primeira vez à saída da igreja e comecei logo a gostar dela.. publicado a seguir à sua morte em 1974. Instituto Nacional do Livro e do Disco. Lá falei aos pais . No quintal havia uma árvore e uma gazela. que eu devia ser franco como um rochedo.anos. ela disse que sim. encontrei-a depois no futebol de quinta-feira. com 33 anos. Depois veio aquela coisa difícil. Com os contos que tenho poderia pelo menos publicar 2 livros. Só costumávamos dar beijos à noitinha.

quando calhava. eu gostava dela a valer.. A lua já tinha nascido. protagonistas de um fenómeno de açambarcamento nunca visto por ali. Ela disse apenas "aqui não". lembro-me bem. a Luisa. capítulo "Candongas e Açambarcamentos na RDA". Ela disse "aqui não". Uma vez. eu ouvia..a alegre. Merda para as amigas. que eu era honesto e bom rapaz. Organização Nacional de Jornalistas. Ah! carago. Recordo. Faltava um mes para o casamento. Nos sábados. já se vê. os senhores sabem como é. 44 "Estes foram no momento imediatamente anterior às eleições. mordi-lhe os ouvidos (devagarinho. que sim senhor. isso não" como tinha acontecido da outra vez. p. segundo se comenta. que ela não disse "isso não. respondia. Autor: Hilário Manuel Eugénio Matusse jornalista e escritor nascido a 22 de Junho de 1956 em Maputo in "Ecos da RDA". à tardinha.. Abraçamo-nos.. Eu estava aturdido. posso dizer sem mentir que me comoviam os trapos que ela comprava todos os dias e me mostrava sempre. ela "tenho mais uma renda. a tal talhada de que falava o advogado. Formando enormes bichas . a nossa mesinha de cabeceira.dela. a festa.). a boda". ela esperava-me cá fora. Era sábado. rapariga que eu conheço bem. seguidinhas. disse-lhe muitas vezes que a felicidade de um homem está no verdadeiro amor. eu fui franco como o rochedo e impetuoso como o rio. O resto. no quintal. Noemia ia jantar a casa duma amiga. Eu disse-lhe não sei quantas coisas. horas a fio. fiz-lhe aquela festa que costumava fazer a gazela. àquela hora em que nos costumávamos dar beijos.

O sol do meio-dia. mas porque quisera apressar a inauguração da casa. eles adquiriam tudo o que é caro e raro.nos maiores estabelecimentos comerciais. optara em comprar bebidas no candongueiro. electrodomésticos dos mais variados tipos e até de carácter supérfluo. No que se refere aos móveis e a outros artigos valiosos. p.. mobílias e também produtos alimentares. 9 . São os casos de televisores a cores e vídeos. deixado por um zinco que sempre faltou. após as eleições.. há duas razões para este fenómeno: para os géneros alimentícios o problema está ligado a rumores de que o Governo vai retirar proximamente. penetra também por um enorme vazio.Jovens pela literatura .publicação regional propriedade da AEMO e financiada pela Cooperação Francesa Toda a vez que chega o Verão. pois adquirindo esses artigos todos guarda-se o dinheiro. o quarto do madala Adalfredo costuma não aguentar muito calor. Pelo que se pode depreender das informações que então correram. Adalfredo Faz de Tudo. de seu nome completo." A Viagem de Adalfredo Autor: Mapfuxa-tô-tala in "Oásis" . como desta vez. trata-se de se precaver da união monetária e suas consequências. E tudo isso era comprado em grandes quantidades. alcatifas. . produtos que habitualmente ninguém olhava para eles. além de se derreter no zinco que protege a mesinha de cabeceira. os subsídios aos preços desses produtos. chegara a ter o dinheiro para comprar aquele zinco.nº 1. de forma a reinvesti-lo em momentos mais adequados e quando as coisas já estiverem claras.

Lembra do dia do lobolo que ficou com dívida de duas capulanas de chita. com braçadeira castanha-amarela e nariz impinado. aquele stapor. a sombra abandona-lhe. E a mente começou a levá-lo para viajar na boleia dos tempos em que a sua careca ainda curtia na juventude. Lembra de tudo. havia duas grandes elevações (subidas). Mas. a sua vista mergulhou-o na escuridão. mais adiante. É por causa desse sol do meio-dia. 9 Do local onde estava. Maria Das Dores perdeu-se no tempo. onde ele vendia dobrada. Perdeuse na noite em que Macuácua. aquelas tetas ainda verdes que saltavam a corda. Cansado de ficar distante. O calor aperta o passo.Agora a casa sofre de dores de coluna. Lembra da Maria Das Dores. desde o dia que viu Das Dores passar pela esquina do Muchina. . a única mulher que já adorou de verdade. p. arrombou a sua porta e indicou-o aos milícias: . nas quais tive dúvidas em as ultrapassar. a localidade mais próxima era Inchope e situava-se a cerca de 180 km. retomei a caminhada. bastava Das Dores andar depressa. Para tal tive que pedir uma ajuda divina fazendo uma oração. mas Adalfredo não sente a careca a transpirar. que Adalfredo estende-se horas e horas na sombra da bananeira.Ele é desempregado! Viagem em Bicicleta em Moçambique Autor: Emídio Mabunda Moçambique in "Viagem em Bicicleta em Moçambique". Como que há-de sentir? Os olhos roubaram a mente e foram ficar lá. e parece-se com ele quando encurvado com a bengala. no infinito. aqueles rapoios de fazer inveja.

Agora a minha missão era andar a procura de água e de lenha. Depois de matarem o meu pai me exigiram para mostrar os amigos dele. Quando me pegaram começaram a perguntar de onde eu vinha.Quase a atingir a metade da primeira subida senti nas costelas algo de estranho. Galgados estes dois monstros o vento que fazia sentir sobre mim parou. Eu disse que não sabia quem eram nem onde estavam. Treinei lá na base. Então os soldados levaram aquelas coisas da base e eu fui levado para Inhambane. Deixaram-me assim mesmo a sangrar e foram embora. Eu disse que estava a fugir dos bandidos. Encontramos só uma pessoa. Tornaram-me a perguntar dos amigos do meu pai e eu repeti a dizer que não sabia.me procurar a agura. Logo aqueles soldados disseram para eu ir mostrar onde era. Tenho 14 anos e sou natural de Massinga. Consegui curar com remédios tradicionais. Eu aproveitei. abandonei a lata e fugi. província de Inhambane. Um dia desses mandaram. cheguei a Inchope onde hospedei na Administração. Fui lá com a tropa. Assim mesmo cheguei num quartel e apresentei aos soldados. assim continuei pedalando todo espantado pelo milagre feito por Deus. Então eles cortaram-me um dedo para eu falar. mas esperei um ano até ficar bom. Não sabia onde ia. O meu pai era um miliciano que os bandidos mataram quando chegaram a minha casa. soprava um vento quente que me empurrava deixando assim de pedalar. Depois de acabar esse ano. a bicicleta ia sempre subindo. Acabaram-me quatro dedos e eu a dizer que não sabia. Ai zangaram mesmo e cortaram-me uma orelha. Investigaram-me. que mataram. Era em Sinhavuro. investigaram-me até . no ano a seguir fui raptado pelos bandidos. aprendi a desmontar arma e a montar. só andava de qualquer maneira. Vozes do Sangue "Eu sou José Zefanias Machava.

Edição Tempografica.enviarem. Já estou a estudar na 2ª classe. financiamento da ASDI. Ilha de Moçambique "Eu. Crianças" . Ilha de Moçambique "Queres mesmo saber quem eu vi chorar? Foi ali. primo Tomé Quero ver como dança o jacaré Ah! o bicho a água engoliu deu a volta. Recolha e tratamento de texto de Eduardo White e Helder Muteia. Crianças in "Vamos Cantar. A árvore que eu vi chorar.Vol. saltou e logo tossiu Ei! Já chega meu primo Tomé Acabei de lavar agora o meu pé" 2. 1981 1.1. e UNICEF. A dança do jacaré. fui lavar os pés lá no rio onde mora o jacaré Paro e vejo: quem vem dançar? É mamã que traz o Tomé p'ra tocar Toca.me aqui para o Centro de Lhanguene.Cancioneiro . toca bem. Maria. Vivo bem aqui. Nacional do Livro e do Disco. Autoridade Sueca para o Desenvolvimento Internacional. ao pé do jardim Eu vi uma árvore tão triste . Fundo das Nações Unidas para a Infância. Maputo. Vamos Cantar. Edição do Inst." O livro "Vozes do Sangue" reúne depoimentos de crianças que foram vitimas de atrocidades da guerra em Moçambique.

Porque chorava tanto chorava assim. Maria Alegria . sem mais fim Só não sei quem a fez chorar Como a vi posso recordar Tinha um largo tronco.(Cabo Delgado) "O elefante o elefante passeia o passarinho que lhe tira todos os bichinhos A palapala a palapala passeia o passarinho que lhe tira todos os bichinhos O crocodilo o crocodilo passeia o passarinho que lhe tira todos os bichinhos O passarinho o passarinho voa bem baixinho come muito e volta para o seu ninho" 4. O passarinho e os outros animais .(Tête) "Ouçam o que eu vou contar ouçam o meu cantar Saia todo o dia a levar o gado para pastar via também Maria que logo cedo ia machambar Enquanto o boi mugia eu via Maria com atenção . folhas verdes e uma sombra grande uma sombra assim sem mais fim" 3.

E tu. é que podias ter a ousadia de o mandar publicar. não hei-de o conseguir ler. Tens inveja de mim. . porque consegui singrar ao lado desses filhos da mãe que se acham donos de literatura. Este livro é uma merda que não devias publicar agora. mandaste-me à fava e: .cara: . Lixem-se. Stefan. não consegui ler CASA DE JUSTIÇA.e só queria Maria Alegria morando em meu coração Mais uma vez o galo cantou bem cedo p'ra me acordar mas eu não vi Maria que com João fora se casar Não vou chorar sim vou cantar Não vou chorar sim vou cantar" Um Epidécio ao Escritor Maconde Autor: Stefan Florana Dick texto escrito após o assassínio de Grandal Nkepe numa das barracas de Maputo in revista Lua Nova. relido. tetralido. Merecia a gaveta por cinco a dez anos. 18 "Se não estou em erro. Quem quer leia. e só depois de lido. E tu com a mania de que és amigo desses cágados. e mesmo que venha a fazer esforço a mais. pentalido. que não leia. cheio de copos na cabeça. treslido. fui um dos mais corajosos que te disse cara-a. por ti próprio. nº 4. E ficas a saber: o meu livro é um sucesso. quem não quer. p.Caguei para ti. vens a mando deles denegrir a minha escrita.Nkepe.

e serão obrigados a admirar-te pela coragem que tiveste em publicar aquilo que te ia na alma e no pensamento. quer queiram. Morreste. Já não tens maçada de aturar professores chatos que te faziam vida negra na Universidade... E lá no subsolo ou no céu. os outros escritores que achavam que a tua literatura era de dó menor. quer não. como tu próprio tinhas essa certeza.. descansas em paz. Morreste. Os vivos. hão-de ler os teus livros." Filhos da Miséria Autor: Joaquim Falé Moçambique Pedaços de fundo vagabundo buscando no lixo um mundo perdido fugindo de tudo sábios esquecidos nunca arrependidos Vinde ó ilustres da miséria a nossa hora está chegando recompensa merecida estamos num canto fechados vingando o passado somos o lixo por este ou aquele motivo Levantemo-nos Irmãos! Derrotemos a Razão vão-se desviar de nos vão escutar bem alto a nossa voz rosto aberto de encontro aos mascarados somos flores do Inferno crescemos num deserto açoitados pelo vento noite e dia enfeitiçados pela morte desejados somos cinzas somos restos despojos amordaçados corremos mesmo parados não fujimos quando somos olhados Esquecidos pela esperança vagueamos na escuridão almas desertas abraços de solidão entre as pedras adormecemos companheiros na ilusão somos pássaros da noite artistas com vida de cão . os alunos que se riam do teu ar boémio nas escolas onde eras professor part-time.

Não temos capas de vergonha não disfarçamos o medo sentimos o desespero não trocamos de lugar não nos podem dominar já mortos nos hão-de lembrar enquanto vivos vão-nos evitar Está-nos reservado o fel sabemos porque pagamos o preço da liberdade fugindo do tempo não temos idade amantes sedentos conquistamos cidades Brincamos como crianças num jardim de terceira idade fingimos ser apenas uma flor no paraíso vingamo-nos da memória bolsas vazias perdidas no Infinito Vestimo-nos no escuro de amor e desespero saímos noite adentro buscando alimento .

Radicado em Moçambique a partir de 1950.07. 1962. Carlos CARDOSO Nasceu a 10. Jornalista com o pseudónimo Mario Vieira. Professor e jornalista.05. o qual viria a retirar da sua biografia. Portugal. com livros traduzidos em diversas linguas. Foi jornalista com funções de chefia no diário "noticias" e Agência de Informação de Moçambique.Dados Biográficos Sebastião ALBA Pseudónimo de Dinis Albano Carneiro Goncalves. voltou a Portugal em 1984.03. Prêmio de jornalismo investigador em 1987. Moçambique. Continua activo como jornalista. "Estrangeiros de Nós Próprios" é o seu terceiro livro publicado. João ARMANDO ARTUR Nasceu na Zambézia.1940. a 11. Mia COUTO Pseudónimo de Antonio Emilio Leite Couto.1951 na Beira. nascido a 5. atleta e .1955 na cidade da Beira.08.1922 em Maputo. O Ritmo do Presságio em 1974 e A Noite Dividida em 1982. Moçambique. nasceu em Braga. a 28 de Dez. Jornalista e analista político. escritor. publicou Poesias em 1965. é actualmente biólogo e um dos escritores moçambicanos mais conhecidos no exterior. Os anteriores: "Espelho dos Dias" (1986) e "O Hábito das Manhas" (1990). José CRAVEIRINHA José João Craveirinha nasceu a 28. Publicou Direito ao Assunto em 1985.

Com diversas participações na imprensa escrita moçambicana. Poeta. Orlando MENDES Orlando Marques de Almeida Mendes nasceu na Ilha de Moçambique a 4. Tem colaboração dispersa por varios jornais e revistas e publicou alguns livros. teve que sobreviver. crítico literário e de cinema. editado em 1994. jornalista. É de nacionalidade portuguesa com alma assumidamente africana.08.1916. Rafael KNEPE Rafael André Luis Grandal Nkepe nasceu a 10 de Maio de 1958 em Muidumbe. Rui KNOPFLI Rui Manuel Correia Knopfli nasceu a 10. entre outras actividades. província de Cabo Delgado. e altura em que se estreou na literatura. Deixou Moçambique em 1975. tem numerosas obras publicadas e recebeu alguns prêmios literários. Desempenhou (é possivel que ainda assim seja) funções na Embaixada Portuguesa em Londres. Foi preso pela PIDE/DGS de 1965 a 1969 por fazer parte da Frelimo. colaborou em várias revistas e jornais moçambicanos e portugueses. da qual foi assistente.cronista. Nangololo. romancista e dramaturgo com numerosas obras publicadas.08. foi um dos elementos mais activos da então Lourenco Marques. Depois de uma adolescência bastante vagabunda. Malangatana NGWENYA Malangatana Valente NGWENYA nasceu a 6 de Junho de .Poeta.1932 e fez os seus estudos na Africa do Sul. "Casa da Justiça" foi o seu primeiro livro. Colabodor de jornais e revistas de diversos países. Licenciado em Ciências Biológicas pela Universidade de Coimbra.

faz poemas.1961. Representado em inúmeros museus e colecções particulares em todo o mundo. dança. cerâmica e escultura.1983.02. Moçambique. . a 17.07. 8ª e 9ª classe quando morreu. Produziu uma vasta obra no campo da pintura e é hoje um dos mais notáveis artistas africanos. com apenas 22 anos. Isaac ZITA Isaac Mario Manuel Zita nasceu em Maputo a 2.1936 em Matalana. Professor durante 2 anos. que canta. Publicou Os Molwenes. freqüentava o curso de Professores de Português para as 7ª. teatro. é grande animador sócio-cultural e vê erguer-se presentemente o sonho de construção do Centro Cultural na sua aldeia natal. artista multifacetado. Malangatana.

Foi preparada a partir de texto público localizado em "Autores Africanos .Esta RocketEdition® é de inteira responsabilidade e iniciativa de ebooks@TeoCom [http://www.Do Rovuma ao Maputo" [http://nicewww. mencionados e explicitados. Todo conteúdo original foi preservado.cern. todos os créditos identificados. Autorizado o uso e reprodução apenas para fins educacionais.com *** pdf: eBooksBrasil.teotonio.ch ] que você está cordialmente convidado a visitar. editorado para RocketEdition e.ch/~pintopc/www/africa/africa]mantida por [Carlos.org/ebooks] e Teotonio Simões [teotonio@teotonio.org]. RocketEdition® setembro de 1999 www.ebooksbrasil.Pinto-Pereira@cern.org — Maio 2008 . Todos os direitos de versão para RocketEdition® renunciados.

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