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Digitalização: Nathalia Enes de Campos

A luz da Grécia

Título original: “Light of the Gods”


CopyrightBarbara Cartland 1984

Tradução: Ercília Magalhães Costa

Copyright para língua portuguesa: 1985


Abril A.A. Cultural – São Paulo
Capítulo I
1860

Sacha estava arrumando as flores na sala de estar quando ouviu o barulho de uma
carruagem que parava a frente de sua casa.
Como Nanny, que cuidava dela e do pai, estava fora, Sacha largou as flores que
estava segurando, alisou o vestido com as mãos e olhou-se rapidamente no espelho que
havia sobre a cornija da lareira, para ver se seu cabelo estava em ordem.
Ela estivera ocupada a manhã toda com tarefas da casa, e não se preocupara com sua
aparência. Provavelmente a visita deveria ser para seu pai; o reverendo. De qualquer forma,
ela esperava que não fosse ninguém de cerimônia. Mas havia pouca gente na paróquia que
podia andar de carruagem.
Os fazendeiros possuíam grandes carroças, e o médico andava sempre em seu trole
de capota de couro, que o protegia do sol do verão, da chuva e dos rigores do inverno.
Alguém bateu com a aldrava na porta, e Sacha correu para atender. Foi com grande
admiração que viu surgir à sua frente, como se fosse uma visão, uma jovem maravilhosa,
toda vestida de rosa-pálido.
─ Deirdre! ─ exclamou.
─ Bom dia, Sacha! ─ respondeu sua prima, lady Deirdre Lang. ─ Vejo que está
surpresa em ver-me!
─ Muito surpresa! Pensei que estivesse em Londres.
─ Estava. Voltei para casa anteontem à noite.
Deirdre entrou na sala de estar, olhou ao redor com ar de desdém e disse:
─ Feche a porta. Quero conversar com você.
Sacha olhou para ela com olhar indagativo.
Deirdre era sua prima em primeiro grau, e ambas eram quase da mesma idade, mas,
depois de crescidas, haviam perdido a intimidade que tinham na infância. E agora, sempre
que a prima vinha vê-la, embora suas visitas fossem raras, Sacha percebia que Deirdre a
considerava a “prima pobre”. Olhava-a com altivez, e tanto ela como seus pais
desprezavam o pai de Sacha.
Quando a mãe de Sacha era viva, tudo era bem diferente, mas ela morrera havia três
anos. Desde então, a moça percebera que, por ser filha do pobre pastor de Little
Langsworth, passara à categoria das pessoas sem importância, apesar de ser sobrinha do
marquês de Langsworth.
Quando lady Margaret Lang, a única filha do segundo marquês, insistira em se casar
com o reverendo Mervyn Waverley, contra a vontade dos pais, todos os parentes haviam,
metaforicamente, “lavado as mãos”, afastando-se dela.
─ Como é que uma moça linda e de posição, como Margaret, pode renunciar a tudo,
para se casar com um simples pastor? ─ perguntavam os parentes.
Não compreendiam que ela estava loucamente apaixonada pelo “mais belo, mais
encantador e mais charmoso homem” que já encontrara em toda sua vida.
A incompreensão dos parentes era justificável, pois lady Margaret tivera inúmeros
pretendentes. Naquela ocasião seu pai estava pretendendo casá-la com um par do reino ou
com um baronete cuja fortuna pessoal e propriedades eram superiores às suas.
Porém, lady Margaret havia dito aos pais que, se eles não consentissem em seu
casamento com o homem que amava, ela fugiria de casa, o que seria um escândalo.
Após meses de discussões, rogos e lágrimas, o marquês capitulara.
Eles se casaram numa cerimônia simples, sem festas e com poucos convidados. Foi
com grande alegria que o jovem casal se viu fora dos grandes portões que cercavam o
parque no qual se achava a Mansão de Langsworth, indo morar na pequena casa paroquial,
que ficava nas terras do marquês.
Como o antigo pastor havia falecido, o marquês arranjou para que o genro tomasse
conta da pequena paróquia. Era o mínimo que podia fazer pela filha. Ali eles teriam uma
casa para morar, um meio de subsistência. Não era grande generosidade de sua parte, dada
sua grande fortuna, mas os dois jovens estavam tão felizes, que não se preocupavam com
outra coisa que não fosse o amor que nutriam um pelo outro.
Foi só bem mais tarde que lady Margaret compreendeu que estava privando sua
filha, Sacha, das muitas regalias que, por direito, deveria ter. Assim, quando seu irmão se
tornara terceiro marquês de Langsworth, a filha dele, Deirdre, e a sobrinha, Sacha, tiveram
as mesma educação, com as melhores preceptoras e governantas. Sacha pôde, portanto, ter
todo o conforto e a formação de uma aristocrata.
Na casa do tio ela partilhava tudo o que havia na antiga mansão em estilo georgiano.
Além de todo o luxo, podia brincar no parque e nos belos jardins. Tinha à sua disposição a
imensa biblioteca, e podia cavalgar a vontade. Diariamente, montava os mais belos animais
e passeava com a prima pela propriedade.
A tia de Sacha, a marquesa, considerava lady Margaret uma tola por ter abandonado
todo aquele luxo para se casar com o reverendo, e não perdia oportunidade de demonstrá-
lo.
Muitas vezes o reverendo teve vontade de pedir uma transferência, mas a esposa o
dissuadia de fazê-lo, para não privar a filha de todas as vantagens que tinha, morando tão
perto dos tios. Lady Margaret sabia que ela e o marido jamais poderiam dar à filha aquele
tipo de vida, o que, aliás, era um direito seu.
Das duas garotas, a que mais se aplicava e aproveitava as lições era Sacha. As aulas
de música e de dança, por exemplo, eram dadas no salão de baile do castelo. O marquês
fazia questão de que a filha se desembaraçasse e adquirisse a graça que, por natureza, não
tinha. Queria que, mesmo que a poder de muito treino, Deirdre soubesse danar muito bem,
para mais tarde brilhar nos mais elegantes salões de Londres. Sacha, ao contrário, era a
graça em pessoa, e aproveitava as lições ao máximo. Também freqüentava muita a
biblioteca, e estava sempre lendo um bom livro.
Quando estava com quinze anos, disse ao pai:
─ Papai, o sr. Cornwall, que administra a biblioteca, disse que fui a única pessoa
que já leu os livros da estante de cultura e história da Grécia. Há inúmeros livros que o
senhor não tem em casa e sei que gostaria de ler.
O reverendo ficou muito interessado, e comentou:
─ Talvez eles sejam preciosos para as traduções que estou fazendo.
─ Vou escrever os títulos dos livros para o senhor ver ─ disse Sacha ─ Não, tenho
uma idéia melhor: vou trazer uns para casa, para que o senhor possa lê-los.
O reverendo ficou pensativo e, depois de uma pausa, respondeu:
─ Não acho que você deva trazer livros da biblioteca sem o consentimento de seu
tio. Na verdade, não estou, no momento, nada inclinado a lhe pedir favores.
Sacha sabia que o pai e o tio estavam tendo desentendimentos por causa de algumas
casas que havia na propriedade, em que moravam velhos pensionistas já aposentados, ex-
empregados do marquês. Essas casas estavam em péssimas condições, e o marquês na tinha
o menor desejo de consertá-las, apesar de toda a sua riqueza.
─ Mas, papai, o sr. Cornwall está tão entusiasmado por ver que, como ele, eu
aprecio os livros, que não hesitará em emprestar-me alguns. Tenho certeza de que poderei
escolher os que quiser.
Sem dar atenção aos protestos do reverendo, Sacha trouxe para casa os livros que,
segundo seu parecer, interessariam ao pai, ajudando-o em seus estudos e seu trabalho.
Nos últimos cinco anos, o reverendo se dedicara a escrever livros e a fazer traduções
do grego. Desse modo, obteria recursos extras para poder dar à família um pouco de
conforto. Seus trabalhos despertavam o interesse de estudiosos e homens eruditos, e eram
vendidos também às bibliotecas das universidades.
A renda que auferia dessas vendas não era grande, mas ajudava bem. E tanto lady
Margaret como Sacha tinham o maior orgulho em saber que o reverendo era considerado a
maior autoridade no que se referia à Grécia antiga.
Na casa do marquês, entretanto, o que mais motivava o interesse de todos era a vida
social, os bailes e as festas. Deirdre já havia debutado, e brilhava nos salões. Além de linda,
usava os vestidos mais maravilhosos e mais caros, feitos pelas melhores casas de Londres.
A mansão dos Langsworth em Londres, em Berlesley Square, vibrava com festas
deslumbrantes, onde Deirdre era cortejada e aclamada como a beldade da temporada.
Para Sacha, a ida dos tios e da prima a Londres, para a temporada, significava a
interrupção das aulas de músicas e de dança. Também não podia mais passear pelos campos
nos cavalos magníficos. Mas o que mais lhe fazia falta eram suas idas à biblioteca, agora
cada vez mais raras.
A marquesa agora fazia questão de manter Sacha distante de Deirdre, é deixada bem
claro que seu lugar era na vila, ao passo que Deirdre deveria freqüentar os melhores salões
da nobreza.

Com o tempo, Sacha acostunou-se à monotonia da vida longe da Mansão


Langsworth. Felizmente, havia muito o que fazer em sua casa, e ela também ajudava o pai
nas traduções.
Com a morte de lady Margaret, a vida de Sacha e do pai tornou-se mais difícil, pois
o marquês cortou toda e qualquer ajuda ao cunhado e à sobrinha. Nanny estava
envelhecendo, e tudo o que ela não podia fazer ficava sob responsabilidade de Sacha.
Entretanto, ela estava sempre alegre, e passava horas conversando com o pai sobre
assuntos históricos, que terminavam sempre recaindo sobre a Grécia.
O conhecimento do reverendo sobre a Grécia antiga, seus deuses e deusas era tão
grande, que Sacha não se cansava de ouvir o pai discorrer sobre eles.
Embora o trabalho de tradução também lhe intressasse bastante, ela sentia-se muito
isolada. Tinha então dezoito anos, e era muito bonita e meiga.
Nanny não se conformava em ver a pobre moça sempre presa dentro de casa. Certo
dia comentou:
─ Perdoe-me, reverendo, mas é lamentável que Sua Senhoria, o marquês, ignore a
sobrinha e não faça nada mais por ela. Afinal, a senhorita Sacha e lady Deirdre eram tão
íntimas quando crianças!
O reverendo olhava-a de modo distante e meio distraído:
─ O que você quer dizer com “fazer alguma coisa por ela”, Nanny?
─ Quero dizer, senhor, que a srta. Sacha deveria ser convidada pelo menos para
algum baile. Assim, poderia conhecer alguns cavalheiros e ser admirada por eles. Afinal,
não há diferença entre ela e Deirdre. Elas parecem gêmeas!
─ De fato, são bem parecidas ─ o reverendo concordou.
─ A única diferença ─ continuou Nanny ─ são essas roupas simples que ela usa. Se
tivesse um vestido decente para usar, seria tão linda quanto a prima!
O reverendo suspirou.
─ Você sabe que não podemos gastar dinheiro em roupas caras, Nanny.
─ Sim, sei. Mas mesmo que o senhor pudesse comprar para sua filha um lindo
vestido na Bond Street, onde ela iria usá-lo? Ela só vai à igreja aos domingos, onde
encontra os caipiras e ignorantes da vila.
Como o reverendo nada respondesse, Nanny continuou:
─ É uma judiação ver a nossa linda menina esfalfar-se nos trabalhos caseiros, como
se fosse uma escrava, sem nunca reclamar! Ela jamais pede para ir a lugar algum. Poderia
muito bem, pelo menos de vez em quando, freqüentar as festas na casa do tio, o marquês.
Tenho certeza de que, se lady Margaret fosse viva, tudo seria diferente!
Acabando de dizer o que sentia, Nanny afastou-se da saleta de estudos, fechando a
porta atrás de si.
O reverendo sabia que tudo o que a boa Nanny dissera era verdade, mas não havia
nada que pudesse fazer. Ele não iria pedir ao cunhado que convidasse a filha para as festas
que dava regularmente na mansão. Os habitantes da vila e das terras do marquês chamavam
a mansão de “Casa Grande”. Quanto à possibilidade de Deirdre convidar a prima para
participar de pelo menos alguns dos bailes da temporada, o reverendo sabia que não havia a
menor chance de isso acontecer.
Ele olhou para a fotografia de sua esposa, que estava sobre a escrivaninha, e disse:
─ Que posso fazer, querida? Esta é uma das razões por que sinto tanta a sua falta.
Mesmo sabendo que encontraria a esposa na outra vida, ele a queria junto de si
naquele momento.
Quando Nanny repetiu a Sacha o que dissera ao reverendo, a moça não pôde evitar o
riso, dizendo:
─ Poderia imaginar Deirdre convidando-me para festas? Você sabe tão bem quanto
eu que ela se envergonha de mim! Afinal, sou tão pouco importante!
─ Ela tem, mais provavelmente ciúmes da senhorita.
─ Querida Nanny, você sabe muito bem que Deirdre não tem de que sentir ciúmes.
Porém, Sacha sabia que não estava dizendo realmente a verdade. Deirdre sempre
fora ciumenta. Ela detestava a filha do juiz supremo do condado, apenas porque a moça
estava sempre acompanhada de um rapaz muito bonito, que a adorava, ia sempre com elas
às caçadas e só dançava com elas nos bailes.
Sacha lembrava-se também da última vez em que fora a um baile com a prima.
Nesse dia, estava muito bonita e bem vestida, e teve muito sucesso com os cavalheiros.
Desde essa vez, Deirdre jamais a levara a festa alguma. Durante o caminho de volta à
mansão, dissera à prima:
─ Acho que você se exibiu demais, querida. Com certeza deve ter abertamente
persuadido os cavalheiros a lhe conceer muitas danças no cotillion.
─ Não, Deirdre ─ disse sacha, tentando alegrar a prima. ─ Você é a mais querida de
todas as moças do condado, e também a mais bonita! Todos os cavalheiros dançaria só com
você, se pudessem.
─ É. Considerando-se que eu era a mais bem-vestida, devia ter mesmo todos eles a
meus pés.
A marquesa também elogiou a filha:
─ É verdade, querida. Você era a mais linda do baile! E terá outro vestido ainda
mais encantador, feito por madame Ivonne, apesar de os vestidos feitos por ela serem os
mais caros de Londres.
Como estava determinada a fazer pouco da sobrinha, a marquesa voltou-se para ela,
dizendo:
─ Você deve pedir à sua mãe que lhe mande fazer um vestido novo, também. Esse
que está usando já está batido. Além disso, está muito apertado e, na minha opinião, curto
demais.
─ Direi a mamãe, tia Alice ─ disse Sacha meigamente.
Ela sabia que seu vestido era muito bonito, apesar de haver sido costurado por ela e
por Nanny. Sabia também que a tia estava sendo desagradável apenas porque a filha tinha
ciúmes dela.
Agora, Sacha se perguntava qual seria a razão da visita da prima. Já fazia um ano
que não a via, e só sabia dela pelo que ouvia do pessoal da vila. Os criados da Casa Grande
sempre faziam comentários sobre o sucesso que Deirdre fazia entre a nobreza. Não que
Sacha ficasse fazendo perguntas, mas era difícil ignorar ou deixar de ouvir as notícias que
corriam de boca em boca. Sacha sabia que inúmeros nobres haviam proposto casamento à
prima. Sabia também que a rainha fora gentil com ela quando fora apresentada no Palácio
de Buckingham. Havia ainda rumores de que Deirdre tinha um pretendente muito
importante e rico, com quem em breve se casaria.
Sacha achava aquilo tudo fascinante, mas desejava, sinceramente, ver a prima e
saber de sua própria boca tudo o que estava vivendo. Não tinha a mínima inveja de Deirdre,
e imaginava como devia ser maravilhosa e excitante a Viana grande capital, as festas
incríveis nos palácios, entre toda aquela gente encantadora e fina.
Agora, quando menos esperava, tinha a grande surpresa de ver a prima, em pessoa,
ali em sua casa. Geralmente Deirdre a chamava à Casa Grande quando queria vê-la. Sem se
conter, Sacha disse, impulsivamente:
─ Você está maravilhosa, Deirdre! Como lhe fica bem esse tom de rosa!
─ É o que todos dizem ─ Deirdre respondeu, de uma maneira complacente. ─ Mas
acho que o azul me assenta melhor.
Ela caminhou até a lareira e olhou-se no espelho. Depois disse:
─ Fui ao baile no Palácio de Buckingham com um vestido verde-pálido, e soube
depois que o príncipe-consorte disse que eu era a mais linda e mais bem vestida do salão.
─ Oh, Deirdre, que maravilha! Você dançou muito?
─ Claro! Não parei um minuto! E muitos cavalheiros ficaram aborrecidos quando
viram que meu programa estava completo e eles não poderiam dançar ao menos uma vez
comigo!
─ Tenho certeza de que você é sempre a mais linda em todas as festas a que
comparece!
─ Claro que sou! ─ Deirdre afastou-se do espelho. ─ Sacha, quero lhe contar um
segredo. Mas você vai prometer-me que não dirá uma palavra a ninguém.
─ Você sabe que pode confiar em mim, Deirdre.
Sacha estava excitada de curiosidade. Lembrou-se de que, quando crianças, ela e a
prima sempre haviam sido confidentes.
─ Por favor, sente-se querida ─ disse, indicando o sofá. ─ Tenho tido tantas
saudades suas! Mais do que posso expressar com palavras.
Por uns instantes, Deirdre foi simpática e pareceu embaraçada. Então disse:
─ Tenho estado tão ocupada, Sacha! Ainda ontem disse a mamãe que não tenho
tempo nem para mim mesma.
─ Compreendo, querida. Mas qual é o segredo que tem para dizer-me?
Deirdre baixou a voz:
─ O segredo é que eu vou ficar noiva do duque de Silchester!
Sacha olhou para ela de olhos arregalados.
─ Como isso é maravilhoso, Deirdre! Alegro-me por você! E o você o ama?
─ Estou encantada em tornar-me duquesa de Silchester! Pense nisso, Sacha! Nas
recepções, terei uma posição superior à da mamãe.
─ Conte-me sobre o duque! ─ pediu Sacha.
─ Ele é um homem muito bonito, e um dos mais importantes duques da Inglaterra.
Provavelmente você já ouviu falar nele. Tem os melhores cavalos de corrida, e mora numa
mansão maravilhosa, em Buckinghamshire.
─ Você merece tudo isso! ─ Sacha disse, radiante. ─ Quando será o casamento?
Depois de uma pequena pausa, Deirdre respondeu:
─ Papai está cuidando de tudo. Primeiro vamos dar uma recepção para anunciar
nosso noivado. Vai ser uma festa, todos os parentes e pessoas importantes serão
convidados.
─ Quando vai ser, Deirdre?
─ Dentro de algumas semanas. Papai não quer que ninguém saiba que já estamos
noivos, para não estragar a surpresa.
─ Fico muito contente por você ter-me contado. Rezarei para que sejam muito,
muito felizes.
Deirdre ficou calada por uns momentos, e Sacha perguntou:
─ Há alguma coisa errada?
─ Não. Só precisava de... seu auxílio...
─ Meu auxílio?
─ Sim. E você tem que me ajudar!
─ Claro que farei o que puder, você sabe disso!
─ Sabia que diria isso. Agora ouça com atenção, pois é muito importante!
Sacha sentou-se ao lado da prima, e esta disse:
─ Papai soube, anteontem, que o duque sofreu um acidente.
─ Um acidente? Ele está ferido?
Deirdre fez que sim coma cabeça.
─ Ele está na Escócia com a avó. Foi apanhado em uma armadilha para animais
predadores.
─ Oh, não! Que horror!
Sacha sabia que essas armadilhas eram perigosas, e eram também uma crueldade
com os pobres animais. Seu pai lhe explicara que ainda eram usadas no norte da Inglaterra
na Escócia, mas não mais no sul. Os caçadores e fazendeiros as usavam para apanhar
raposas e gatos selvagens, que costumavam atacar as aves nas fazendas. Colocavam
geralmente um coelho ou um outro pequeno animal vivo para atrair o predador que
quisessem apanhar. Quando uma raposa ou um gato selvagem ouvia os gritos do
animalzinho preso e se aproximava da armadilha, esta explodia, causando ferimentos
graves ou a morte.
─ Você deve ter ficado muito aborrecida com o que aconteceu ao duque, não? ─
disse Sacha, penalizada.
─ Sinto muito por ele, mas, ao mesmo tempo, não pretendo ir à Escócia.
─ Ele lhe pediu que fosse até lá?
─ A avó dele escreveu a papai, dizendo que o duque estava muito aborrecido por ter
que ficar preso a uma cama, pois teve que se submeter a uma cirurgia para remover os
estilhaços do corpo, resultantes da explosão. Ela acha que o neto ficaria muito feliz ao meu
lado, e convidou-me para passar uns dias em seu castelo.
─ Sei que é uma viagem longa, mas estou certa de que apreciará bastante poder
estar ao lado de seu noivo.
Deirdre ficou um instante em silêncio, depois disse:
─ É esse o ponto, Sacha. Eu não quero ir à Escócia. Além disso, não posso fazê-lo
agora.
─ Por quê?
─ Porque lorde Gerard já havia me convidado para uma festa em minha homenagem
que vai ar em sua casa, a uns cinqüenta quilômetros daqui. Como já aceitei o convite, não
pretendo desapontá-lo.
─ Mas, Deirdre, se você vai mesmo se casar com o duque, não deseja ficar ao lado
dele num momento tão difícil, em que ele necessita tanto de você?
─ É que... lorde Gerard é um amigo muito... íntimo, e essa festa foi planejada há
bastante tempo. Vai haver um baile, e só haverá pessoas amigas. Além disso, durante o dia
haverá coisas interessantíssimas para fazer. Sabe, Sacha... eu pretendo ir... tenho que ir!
Sacha percebeu o que Deirdre queria dizer.
─ Estarei errada em pensar que lorde Gerard significa... algo muito especial para
você, querida?
Por um momento Deirdre desejou negar, mas disse:
─ Gosto muito dele, e quero ir à sua festa.
Sacha, que observava atentamente a prima, exclamou:
─ Deirdre, você o ama! Por que não se casa com ele?
─ Como posso fazê-lo se o duque me pediu em casamento? Papai e mamãe estão
exultantes com a idéia de eu vir a ser duquesa! Pense na posição que terei na corte, no
castelo do duque e em todas as suas propriedades! Oh, e as jóias! Os diamantes Silchester
são famosos e valiosíssimos! Há uma tiara que parece uma coroa!
─ Mas você ama lorde Gerard!
─ Não adianta você me dizer isso! ─ Deirdre, irritada. ─ Mesmo amando lorde
Gerard, eu seria uma grande tola e deixaria meus pais furiosos, se recusasse o duque. Tenho
a firme intenção de desposá-lo, mas vou à festa de lorde Gerard, porque é a última vez que
pretendo estar com ele, antes de me casar.
Deirdre estava quase chorando ao dizer essas palavras, e Sacha carinhosamente
segurou-lhe as mãos, dizendo:
─ Querida, você acha realmente que poderá ser feliz com o duque, apesar de todo o
sucesso que esse casamento lhe proporcionar, amando outro homem? Será que não irá se
lamentar de ter desistido do amor de lorde Gerard?
─ Lorde Gerard pouco pode oferecer-me. Essa é a verdade! Sua propriedade é
pequena, e sei que ele tem muitas dívidas. E eu quero ser muito, muito rica. Quero ser
duquesa!
Sacha teve vontade de dizer que sua mãe se casara com um homem pobre e nunca o
lamentara. Sabia porém que Deirdre não acreditaria que se pudesse ser feliz sem dinheiro.
Lembrava-se de que Deirdre em dia se referira a lady Margaret como uma tola pro haver
trocado a opulenta mansão de seus pais por aquela humilde casa paroquial, numa vilazinha
insignificante, em meio àquela gente atrasada e caipira. Sacha dissera a Deirdre que seus
pais eram muitos felizes, mas a prima respondera que não acreditava que a tia não sentisse
falta dos belos vestidos, muitos criados, carruagens, belos cavalos, festas, muitas festas e,
claro, de estar no meio de gente muito importante e de seu nível.
─ É verdade que tenho meu dinheiro ─ Deirdre continuou ─, mas não quero gastá-
lo. Quero um marido que gaste seu dinheiro comigo, ao invés de empregar o meu dinheiro
para pagar dívidas de quem quer que seja.
─ Quando se casar, sue dinheiro será de seu marido. Essa é a lei.
─ Mas se eu me casar com o duque, vou ter muito mais, juntando nossas fortunas. E
você sabe que eu preciso de muito para manter o padrão de vida que levo. Como duquesa,
vou querer mais ainda.
─ Oh, Deirdre, seja sensata! Quero que seja feliz. Sempre temi que você talvez
pudesse, um dia, ser forçada a se casar sem amor. Siga seu coração, e ponha em primeiro
lugar o amor, não o dinheiro.
─ Deixe de ser tola, Sacha! Vou casar-me com o duque e pode crer que terei uma
vida maravilhosa e jamais me arrependerei de havê-lo escolhido para marido. Porém, não
desistirei de ir à festa de lorde Gerard, e é aí que preciso de sua ajuda.
─ Como? ─ Sacha não podia entender aonde a prima queria chegar.
─ Você vai a Escócia em meu lugar! Fará companhia ao duque, enquanto que ele se
restabelece.
─ Isso é ridículo! O duque quer a sua companhia, não a minha.
─ Mas ele vai pensar que sou eu quem estará ao lado dele.
─ Como? Não comprendo...
─ Deixe de ser boba, Sacha! É muito simples. Você vai à Escócia em meu lugar, e
eu vou à casa de Harry Gerard. Você ficará no castelo da avó do duque, e fará tudo para
que ele se sinta bem.
─ Acho que é você quem está ficando doida. Está pensando que o duque acreditará
que eu seja você?
─ Ah, esqueci-me de dizer-lhe que o duque está cego, no momento.
─ Cego?!
─ Sim. Na explosão da armadilha, ele foi ferido nos olhos também. A avó dele disse
que os médicos esperam que seja uma cegueira temporária, pois a cirurgia parace ter sido
bem sucedida. Porém, só terão certeza de que ele ficará totalmente curado depois de
removerem as bandagens.
─ Que horror! Mal posso acreditar!
─ É verdade. Por isso é que tenho certeza de que o duque vai acreditar que você seja
Deirdre. Enquanto você o distrai, eu estarei me divertindo de maneira bem diferente.
─ E você acredita mesmo que possa enganá-lo?
─ Por que não?
─ Haverá outras pessoas no castelo que não estão cegas... A avó... Os empregados...
─ Ninguém me conhece. Além disso, você sabe que somos muito parecidas. Há
pessoas que dizem que parecemos irmãs gêmeas.
─ Que é isso, Deidre! Imagine! Você é muito mais bonita que eu.
─ Mas se você se vestir como eu e se arrumar seu cabelo de acordo com a moda,
tenho certeza de que poderá passar por mim.
─ Não acredito...
─ Escute ─ disse Deirdre, quase perdendo a paciência ─ Pare de fazer observações
tolas. Papai e mamãe estarão em Windsor, com a rainha, em uma exposição agrícola ou
coisa parecida. Partirão amanhã bem cedo. Depois que eles de forem, nós iremos para a
estação, acompanhadas do secretário de papai, o sr. Webster. Tomaremos o mesmo trem,
mas eu descerei na primeira parada, onde Harry estará esperando por mim.
Sacha ouvia tudo atentamente, mas na maior das aflições. Jamais gostara de
mentiras, e aquilo tudo parecia o maior dos absurdos. Então, perguntou:
─ E se alguém reconhecer você?
─ Como poderão? “Eu” estarei no trem que vai para Londres, não se esqueça.
─ Ah, é muito complicado! Não sei se serei capaz...
─ Vamos! Planejei tudo cuidadosamente. Não esqueci um detalhe. A única coisa
que tem a fazer é seguir as instruções.
─ Mas que farei quando chegar a Londres?
─ O sr. Evans vai encontrá-la. É um dos empregados de papai em Londres. Ele já
me viu algumas vezes, mas só de longe, e jamais conversou comigo. Ele já terá reservado
um compartimento todo para você, no Expresso Escocês, e a acompanhará até o trem.
Naturalmente, você não viajará sozinha. Emily irá com você. Ela não é muito inteligente,
mas é obediente e devotada, e fará tudo o que lhe ordenarem. Lavarei Hanna comigo, pois
preciso dela para cuidar de mim. Quero estar maravilhosa na festa de Harry!
─ Mas você acha que os criados manterão segredo?
─ Hanna é muito fiel a mim, e fará tudo o que eu pedir, e quanto a Emily, fará tudo
conforme Hanna mandar. Ela morre de medo de contrariar Hanna. Por falar em Hanna, ela
está, neste momento, separando uma porção de vestidos meus para lhe trazer. São vestidos
bons, mas eu quero dá-los a você, pois vou reformar todo o meu guarda-roupa para o
enxoval.
Deirdre deu um longo suspiro e depois continuou:
─ Ah, Sacha, você precisa ver que lindos modelos escolhi para levar em meu
enxoval! Qualquer mulher que os vir ficará morrendo de inveja!
Sacha criou coragem e disse:
─Deirdre... Nós não podemos levar esse plano avante... Sinto desapontá-la, mas...
você jamais me perdoaria se eu falhasse. Então é melhor nem...
─ Que é isso, Sacha? Você não vai falhar, nem meu plano! Ninguém vai ao menos
suspeitar que você não seja... Deirdre.
De repente, ela começou a rir e disse:
─ Você se lembra daquela professora que freqüentemente nos confundia?
─ Mas é diferente, Deirdre...
─ Não me venha com “mais”, Sacha. Jamais pensei que depois de tantos anos sendo
sua amiga, fosse negar-me um favor. Você não vê que estou quase lhe implorando, Sacha?
Havia mesmo um forte apelo na voz de Deirdre, ao qual Sacha não podia
permanecer insensível.
─ O duque está mesmo... cego? ─ A voz de Sacha era muito meiga ao dizer isso./
─ Não haveria razão para a avó dele dizer isso se não fosse verdade. Sei que ela está
muito contrariada e muito preocupada com o que aconteceu ao neto.
─ Mas se descobrir que você o enganou, o duque jamais a perdoará, e a avó ficará
ainda mais contrariada, Deirdre... o duque ama você bastante, não?
─ Claro que me ama! Ele me disse que sou a mais linda moça que já conheceu.
Além isso, já tem quase trinta anos, e quer um herdeiro o mais depressa possível.
─ Eu o imagino como um homem tão austero!
─ Não é nada disso. É claro que Talbot ─ é esse o nome dele ─ é um homem
consciente de sua importância, e quer, naturalmente desposar uma mulher à sua altura. Ele
não encontrará outra moça mais bonita para admirar, nem para usar com graça os diamantes
Silchester! Mas paremos com essas conversar, e responda-me logo que vai aceitar ajudar-
me a seguir meus planos. Temos muita coisa para fazer.
─ Você sabe que eu nunca viajei para muito longe... ─ disse Sacha, revelando o
medo que sentia.
─ Sei disso. Mas a única coisa que tem a fazer, depois que o Sr. Evans a puser no
trem, é sentar-se e esperar que ele chegue a seu destino.
Sacha suspirou. Depois deu um grito.
─ E meu pai?
─ É fácil resolver isso. Já pensei no que diremos ao reverendo. Vou pedir-lhe que a
deixe ir comigo até a Escócia. Tenho certeza que ele compreenderá que necessito de sua
companhia para fazer uma viagem tão longa, ainda mais sabendo que é para o bem-estar de
meu futuro marido.
─ É... acho que papai não se oporá.
─ Então, está tudo combinado. E agora, quero que venha comigo até minha casa ver
as roupas que separei para você. Depois, é só se preparar para a viagem. Passarei para
apanhá-la amanhã bem cedo.
Sacha respirou fundo e disse:
─ Mal posso acreditar! Custa-me pensar que isto esteja realmente acontecendo.
─ Pois para mim tudo é bem real. Estou decidida a encontrar-me com Harry, o que
será bem mais agradável do que ficar sentada diante de um homem que está não somente
doente, mas... cego!
─ Você certamente se compadece muito do duque, não?
─Sim. Mas a avó dele não devia permitir esse tipo de armadilhas em sua
propriedade, e o duque deveria ser mais cuidadoso e não cair numa delas!
─ Espero que não seja isso o que você deseja que eu diga a ela ─ disse Sacha em
tom brincalhão.
─ Claro que não! E sei que você vai ser um anjo, dizendo-lhe somente coisas
maravilhosas e ajudando-o a se restabelecer o mais depressa possível. E deixe que ele fale
também. Os homens gostam de mulheres tímidas e frágeis, que os façam sentir-se viris e
protetores. Muitos homens consideram as mulheres umas tolas e gostam delas assim, para
que não percebam como eles são presunçosos e convencidos.
Sacha lembrava-se do tempo em que estudava com a prima e achava que ela não era
muito inteligente, pois não fazia as lições e jamais se interessara por leitura mais sérias ou
por coisas que exigissem raciocínio. Porém, agora via que Deirdre, apesar de não se
interessar por conhecimentos acadêmicos, sabia tirar proveito das coisas, sempre
procurando o próprio benefício. O plano que ela arquitetara só para passar uns dias com
Harry era um exemplo de como se empenhava em conseguir o que queria.
Deirdre interrompeu-lhe os pensamentos.
─ Acho melhor nos apressarmos. Não temos tempo a perder.
Felizmente Nanny vinha chegando, e Sacha correu para seu quarto, para pôr o
chapéu. Quando descia as escadas, apressada, Deirdre lhe disse:
─ Avise à criada que você almoça conosco. Quando eu vier trazê-la de volta,
conversarei com seu pai. Não demore, pois a carruagem esta à nossa espera.
Enquanto voltava da cozinha, depois de ter falado com Nanny, Sacha pensou em sua
mãe, e achou que ala não gostaria nada daquela farsa. Mas não tivera escolha senão aceitar
os planos da prima. Agora, secretamente, rezava para a mãe ajudá-la: “Por favor, mamãe,
sei que não aprova... Mas por favor, faça com que ninguém descubra que sou uma
impostora...”.

Capítulo II

Quando Deirdre desceu na primeira estação, mal teve tempo de se despedir de


Sacha. Esta observou, rapidamente, o elegante e belo cavalheiro que havia ido encontrar-se
com a prima.
O trem partiu novamente, e Sacha mal podia acreditar que estava a caminho daquilo
que considerava uma louca aventura.
Desde o momento em que Deirdre a forçara a aceitar seu plano, Sacha sentia-se
como se estivesse sonhando e fosse acordar a qualquer instante.
Lembrava-se da excitação da véspera. Quando fora à casa dos tios e vira o enorme
baú de fino couro, cheio de roupas maravilhosas que Hanna separara para ela, mal pôde
acreditar que iria usar artigos tão finos, dignos de ser exibidos nos mais elegantes salões.
─ Você não pode dar-me tudo isso, Deirdre! ─ ela exclamara.
─ Não vou usá-los mais, e Hanna vive reclamando que não há mais espaço nos
guarda-roupas ─ dissera Deirdre.
─ Isso é bem verdade, milady ─ dissera Hanna, olhando para as roupas simples que
Sacha estava usando ─ Estou certa de que a srta. Sacha fará bom uso deles!
─ Agora, Hanna, temos que decidir o que ela usará na viagem. Já lhe disse que a
primeira impressão é muito importante.
Hanna apertou os lábios, e Sacha percebeu , pela expressão da criada, que ela não
estava nada satisfeita com os planos da patroa. Ficou contente ao notar que Hanna era uma
pessoa sensata, e pensava, como ela, que aquele plano absurdo poderia ter conseqüências
desastrosas.
Depois de muito discutirem, Deirdre e Hanna decidiram que Sacha vestiria um traje
de viagem azul-jacinto. Uma capa da mesma cor do vestido, provida de um capuz, formava
o conjunto.
Depois de vestida, Sacha transformou-se numa linda aristocrata. Nem de longe
parecia a simples moça de horas atrás. A armação da saia era tão grande, que Sacha tinha
medo de se atrapalhar ao andar com ela. Naquela época, as armações que sustentavam a
crinolina, de acordo com a moda, deviam ser bem amplas. Havia até divertidas ilustrações
em jornais e revistas sobre as saias-balão usadas pelas mulheres.
Os complementos para o fino traje eram luvas, uma bolsa e um par de sapatos
combinando, e ainda um lindo chapéu com pluma de avestruz. Felizmente, tudo serviu, pois
as duas primas tinham o mesmo manequim. Deirdre tinha apenas a cintura um pouco mais
grossa, mas a costureira que morava na Casa Grande foi chamada imediatamente para fazer
os ajustes necessários.
As roupas que Sacha não fosse levar na viagem seriam mandadas para sua casa.
Com certeza Nanny e o reverendo iriam estranhar a súbita generosidade de Deirdre.
Realmente, quando a carruagem da Casa Grande chegara com um enorme baú de
couro e quatro caixas de chapéu, Nanny, vendo tudo aquilo, exclamara:
─ Que será que lady Deirdre está pretendendo, tornando-se tão pródiga assim
repentinamente?
Sacha sabia que aquele era um assunto perigoso, e disse:
─ Não sei por que você pode pensar que Deirdre tenha segundas intenções. Não
esqueça que ela sempre repartia suas coisas comigo quando éramos crianças.
─ Mas isso foi há bastante tempo! Desde que lady Deirdre foi para Londres e
passou a fazer sucesso nas festas no palácio, parece que não quis mais saber da prima... ─
Nanny replicou.
Sacha resolveu não responder, para não deixar Nanny ainda mais intrigada.
Quanto ao pai, como Sacha e Deirdre esperavam, achou muito gentil e cristão da
parte da sobrinha querer visitar o futuro marido em momento tão difícil. Também achou
que realmente não ficava bem uma mocinha ir visitar o noivo sozinha. Além de tudo isso, o
reverendo admirava o duque. Já ouvira falar dele e lera muito a seu respeito. Foi uma
surpresa para Sacha ouvir o pai referir-se a ele.
─ Senti muito saber que o duque de Silchester sofreu esse acidente! Ele é um grande
esportista, um homem de caráter e muito generoso! ─ disse o reverendo.
─ nunca ouvi o senhor falar no duque, papai!
O pastor sorriu:
─ Estou mais interessado em ler sobre a Grécia antiga, mas não esqueça que
também leio jornais. Além disso, os cavalos do duque têm feito sucesso. Um deles ganhou
o Derby, no ano passado, e fiquei muito gratificado, pois a coleta do domingo aumentou
consideravelmente...
Sacha não pôde deixar de sorrir.
─ Mas não foi só o dinheiro que eles ganharam que me deixou feliz. Acontece que,
se eles tivesse tido azar, iriam culpar os céus por não atenderem a suas preces. Jamais
entenderiam que, afinal, jogo é jogo, e é estupidez misturar a fé com tudo isso.
Deirdre assegurou ao reverendo que a filha ficaria ausente durante uma semana.
Depois, as duas combinaram os detalhes da volta. Ficaram de se encontrar na mesma
estação em que Deirdre iria descer.
Na noite anterior, Sacha não pudera dormir, preocupada com a responsabilidade que
assumira, aceitando aquela farsa toda. Porém, naquela hora, ali no trem, acompanhada
apenas da boa e calada Emily, sentia-se entusiasmada. Como não podia voltar atrás, o
melhor era aproveitar ao máximo aquela viagem maravilhosa, confortável e excitante.
O compartimento particular daquele trem mais parecia uma casa. Sacha admirava a
linda paisagem através da janela. Ela tentara conversar um pouco com Emily, mas esta só
respondia como monossílabos. Pela poucas palavras que dissera e pela expressão de seu
rosto, Sacha sabia que a boa criada estava apavorada de andar de trem e que esperava a
qualquer hora um acidente. Assim, deixou-a sossegada, com seu aspecto respeitável,
vestida de preto, com um xale aos ombros e usando luvas de algodão.
A viagem que tinham pela frente era longa. Só chegariam ao castelo no dia seguinte
à tarde. Os mais diversos pensamentos vinham à cabeça de sacha.
Ela lembrava-se de como Deirdre estava radiante ao encontrar-se com lorde Gerard.
O que não podia compreender era por que a prima não tinha coragem suficiente para casar
com o homem por quem estava apaixonada. Afinal, ele era um lorde também, e, pelo que
pudera ver, um homem adorável. Ele devia estar muito apaixonado por Deirdre para aceitar
o plano dela. Sacha reconhecia, porém, que era impossível um homem conhecer Deirdre e
não se apaixonar por ela.
Tinha que admitir também que a prima não era como lady Margaret, que aceitara a
pobreza por amor a um homem. Sabia que Deirdre era egoísta, jamais abandonaria o luxo
em que vivia e jamais aceitaria não ser admirada e cortejada.
De repente, teve uma saudade imensa da mãe. Sua casa era alegre, e lady Margaret
era a alma de tudo. Seu amor e seu riso eram contagiantes. Ela era sempre útil e prestativa,
e não tinha rancor contra qualquer pessoa.
Quando morrera, os paroquianos choraram tanto por ela que parecia que haviam
perdido um parente. Quase todos os presentes ao funeral falavam sobre as diversas
maneiras como lady Margaret os havia ajudado e confortado. Como ela era irmã do
marquês de Langsworth, muitas famílias nobres se fizeram representar, mas Sacha sabia
que os mais pobres eram de fato os mais sinceros ao lamentar a partida tão prematura da
bondosa senhora.
Sacha sabia que, se Deirdre se tornasse duquesa de Silchester, só seria amável e
gentil com os da sua posição social, e jamais se preocuparia com o pessoal mais pobre que
trabalhava nas imensas propriedades do duque.
O reverendo sempre ensinara à filha que a maior doação era doar-se a si mesmo. E
ela pensava que, se viesse a se casar um dia com um homem de quem muita gente
dependesse, seria a primeira a se preocupar com que tivessem uma vida digna e sem
privações.
Até aquele momento Sacha seguira o exemplo de seus pais, e não tinha de que se
envergonhar nem por que sentir-se omissa.
Já se aproximavam de Londres, e ela estava excitada, pensando que, ao mudar de
trem, estaria indo para lugares que nunca imaginara poder chegar a conhecer.
Pouco antes das onze, o trem parou na estação de Paddington. Por uns instantes o
barulho e o grande número de pessoas nas plataformas fizeram com que Sacha ficasse
aflita. Pensava no sr. Evans, temendo qualquer desencontro, quando a porta do vagão onde
ela e Emily estavam se abriu e um senhor magro, usando óculos, cumprimentou-a. Era o sr.
Evans.
─ Bom dia, milady. O trem chegou exatamente na hora ─ ele disse.
Sacha estendeu a mão, dizendo:
─ Obrigada por ter vindo encontrar-me.
O sr. Evans pareceu um pouco surpreso, e Sacha pensou que, naturalmente, Deirdre
não teria agido daquela forma. Talvez ela devesse ter sido mais formal ao se dirigir-se a ele.
Um carregador viera apanhar a bagagem, inclusive sua luxuosa frasqueira.
Ao ganhá-la, Sacha dissera:
─ Oh, não, Deirdre! Você não pode dar-me essa frasqueira! Empreste-me apenas, e
eu a devolverei quando voltar.
Mas a prima dissera, altiva:
─ Não a uso mais, sacha. As escovas, pentes e estojo que há nela têm acabamento
de prata, mas papai deu-me uma nova, no Natal, cujos objetos de toucador têm acabamento
de ouro.
Sacha não pôde deixar de pensar que um objeto como o que Deirdre acabara de
mencionar deveria custar tão caro, que talvez, com o dinheiro que custara, ela e seu pai
pagariam as despesas de um ano, e ainda com um certo luxo.
Então arrependeu-se de estar fazendo comparações. Devia estar agradecida, pois
Deirdre parecia uma fada madrinha, cumulando-a de presentes, como se fossem produtos
de uma varinha de condão. E Sacha jamais sonhara em ter aquilo tudo, nem em seus sonhos
mais extravagantes.
Os vestidos, luvas, chapéus, sapatos e chinelos que ganhara eram tantos e tão bons,
que ela tinha certeza de que, mesmo vivendo muitos anos, não os gastaria.
─ Há duas carruagens esperando milady ─ disse o sr. Evans ─ A senhorita e sua
ama irão na primeira carruagem, e eu as seguirei na outra, com as bagagens.
─ Está bem ─ disse Sacha.
As carruagens eram luxuosas e traziam o brasão de seu tio. Ao entrar, Sacha ficou
receosa de que o cocheiro a estranhasse, mas ele apenas a cumprimentou com um aceno e
não lhe dirigiu o olhar novamente.
Eles atravessaram Londres, dirigindo-se à estação de Kings Cross, para tomar o
Expresso Escocês, que partiria ao meio-dia e meia.
Em Kings Cross era grande o alvoroço e a confusão. Havia muitos trens parados nas
diversas plataformas, muita gente, montanhas de bagagensm guardas que apitavam e
agitavam suas bandeirinhas, locomotivas soltando vapor e espirais de fumaça preta.
O sr. Evans havia reservado todo um compartimento de primeira classe para ela e
Emily. As refeições seriam servidas ali, para maior comodidade de ambos. Como iriam
passar a noite viajando, tinham também mantas e travesseiros. Além disso, ele entregou a
Sacha uma lista com os nomes de todos os lugares onde o trem pararia, com os respectivos
horários das paradas. Depois, ausentou-se um pouco. Não tardou a aparecer com uma pilha
de revistas e jornais.
─ É uma longa viagem, milady. Espero que se distraia com um pouco de leitura.
─ É muita bondade sua ─ disse Sacha, achando novamente que se comportava como
Sacha, e não como Deirdre.
De repente lembrou-se de que gostaria de ler alguma coisa sobre corridas de
cavalos, e pediu:
─ O senhor poderia comprar-me algum jornal com notícias esportivas? Gostaria de
ler sobre as corridas de Epsom.
Sem dizer nada, o sr. Evans afastou-se, e, pela expressão de seu rosto, Sacha notou
que ele devia estar informado do noivado de Deirdre com o duque de Silchester.
Logo depois ele voltou com três jornais que Sacha jamais vira em sua vida.
Ela agradeceu e despediu-se dele, pois o trem já ia partir.
Ele se curvou respeitosamente, e Sacha acenou-lhe com a mão. Mesmo que aquelo
gesto não fosse próprio de Deirdre, ela notou que agradara ao sr. Evans.
Agora só iriam se preocupar em desembarcar na Escócia. Para sua surpresa, Sacha
estava adorando a viagem e seus temores pareciam ter-se dissipado.
Elas foram servidas com finas iguarias várias vezes, tudo estava muito gostoso.
Sacha comia pouco, mas Emily não se fazia de rogada. Só desceram em Crewe, porque
Sacha queria conhecer a estação. Emily a acompanhou, mas ficou agitada o tempo todo,
com medo de o trem partir sem elas.
Passaram uma noite agradável, e mesmo Emily conseguiu dormir, depois que Sacha
lhe assegurou que o trem não sairia dos trilhos nem iria acontecer nenhum acidente. Ela
deixou de pensar no que teria pela frente e se entregou a um sono sem sonhos.

No dia seguinte, mais ou menos ao meio-dia, passaram a fronteira com a Escócia.


Sacha sentiu-se emocionada.
─ Sempre quis conhecer a Escócia, Emily. Pense que estamos na terra os pantanais,
das urzes, na terra onde os cavalheiros caçam perdizes, galos-silvestres e faisões, onde os
rios são piscosos e a pesca de salmão é abundante.
─ Ah, senhorita, parece muito solitária.
Sacha continuou, como se não tivesse ouvido:
─ A Escócia foi o berço de grandes estadistas, exploradores e pioneiros. Estes
últimos viajaram por todas as partes do mundo. E, é claro, temos de citar também Robert
Bruce, Wallace e o príncipe Carlos Eduardo.
Emily pouco entendia o que Sacha estava dizendo. Mas esta se sentia romântica, e
gostaria de poder vir à Escócia mais tarde, na época do ano em que as urzes se cobrem de
flores roxas e os pássaros silvestres enchem e vida e se sons o pantanal e os vales.
Mesmo assim, a paisagem era encantadora, com seus lagos, florestas, vales, colinas
e montanhas. Era como Sacha supunha que fosse, pelo que já lera a respeito.
Consultando a tabela de horários que o sr. Evan lhe dera, verificou que chegariam a
uma pequena estação às três horas, e dali iriam para o Castelo de Strathconna. Mas o trem
estava um pouco atrasado. Elas seriam esperadas por um criado vestido com traje escocês.
Quando finalmente chegaram, Sacha logo reconheceu o criado que as conduziria ao
castelo. Emily estranhou aquele modo de vestir, e disse:
─ Imagine um homem desses, usando saia!
Sacha riu e em seguida a porta abriu-se.
O criado, usando kilt, a tradicional saia escocesa estava acompanhado de outro
senhor, que usava chapéu coco. Devia ser um criado de posição superior. Este ajudou Sacha
a descer, deu-lhe as boas vindas e a escoltou até até as carruagens, cada uma delas puxada
por quatro cavalos magníficos.
Sacha foi sozinha na primeira carruagem, e Emily e os dois criados foram na
segunda, com a bagagem.
Durante a viagem, ela ia admirando os bosques de pinheiros, os campos, as colinas.
Só depois de uma hora avistaram o castelo, que ficava em uma colina, erguendo-se,
imponente, tendo como pano de fundo o azul do céu. Ao sopé da colina passava um rio de
águas cristalinas, com muitas pedras no leito, que produzia um agradável murmúrio. Sacha
pensou que devia haver muito salmão naquele rio.
De repente, pensou no duque. Não se podia caçar, pois era época de reprodução. O
duque se ferira, naturalmente, numa armadilha montada para prender gatos selvagens que
eram o terror os fazendeiros e caçadores, pois devoravam umas vinte e cinco aves
domésticas ou silvestres por dia. Com o acidente do duque, Sacha esperava que pelo menos
na vizinhança, o uso dessas armadilhas fosse proibido ou desestimulado.
Quando chegaram ao castelo, ela fitou embevecida, admirando as árvores que o
circundavam. Olhou pra cima, vendo a bandeira agitada pelo vento, na torre mais alta,
esquecida, por uns instantes do que a esperava.
A carruagem atravessou os portões, e só então Sacha começou a ficar com medo.
Pensou que podiam reconhecê-la como impostora, mandando-a de volta no primeiro
trem, coberta de vergonha. Pior que isso seria ter que agüentar toda a fúria que Deirdre iria
descarregar sobre ela.
“Por favor, meu Deus, faça com que todos pensem que sou Deirdre!”, orou
mentalmente, com todo fervor.
Então a carruagem parou.
Dois criados, também usando traje escocês, estavam esperando em frente à enorme
e pesada porta e madeira, com gonzos, ferrolhos e grandes tachas de bronze.
─ Bem vinda ao Castelo de Strathconna, milady!
O coração de Sacha disparou e ela conseguiu dizer meio tímida:
─ Estou muito feliz em estar aqui.
O criado que devia ser o mordomo, foi à frente dela. Passaram por um enorme
salão, com cabeças de vários animais empalhadas nas paredes. Depois subiram por uma
escada muito larga, que dava para o primeiro andar. Sacha lembrou-se de que sue pai lhe
havia dito que castelos escoceses costumavam ter as principais salas no primeiro andar, mas
não conseguiu lembrar a razão disso. Entraram num hall, onde havia outro criado, também
vestindo traje típico, que anunciou:
─ Lady Deirdre Lang, Alteza!
Sacha entrou numa sala ampla e viu uma senhora idosa, de cabelos brancos, erguer-
se de uma poltrona. Sai silhueta esguia banhou-se no sol a tarde, que penetrava pelas
grandes janelas. Era a duquesa, a avó do duque de Silchester.
Apesar da idade, ainda era bonita, e Sacha imaginou que deveria ter sidol linda
quando jovem.
Fez uma reverência para a duquesa. Seu coração estava aos saltos, mas, quando viu
a idosa senhora, acalmou-se, pois notou que ela parecia muito bondosa, fazendo-a lembrar-
se de sua mãe.
A duquesa foi muito suave e gentil ao dizer:
─ Fico muito feliz por você ter vindo, minha querida! É para mim a maior felicidade
tê-la conosco, e sei que Talbot ficará emocionado exultante com sua companhia.
─ Foi muito amável de sua parte convidar-me. Farei tudo o que estiver ao meu
alcance para minorar o sofrimento do duque. E... como está... Sua Alteza?
Sacha pensou que seria a maneira mais correta de se referir ao duque, uma vez que o
noivado eles não era oficial.
─ Tenho muito a lhe contar, minha querida, mas primeiro acho que você vai querer
lavar-se e tomar um chá. Talvez depois queria trocar essa roupa. Sei que essa viagem é
muito cansativa.
─ Achei a viagem muito interessante. Tudo foi novidade para mim, pois jamais
estive no norte da Inglaterra, nem na Escócia.
Ao dizer isso, Sacha pensou se não estaria cometendo algum engano. Mas se
Deirdre tivesse feito essas viagens antes, ela teria sido avisada, com toda certeza.
─ Essa experiência será repetida muitas vezes, tenho certeza, pois Talbot vem para
o castelo todos os anos, não só para visitar-me, como também para pesca do salmão.
A duquesa acompanhou Sacha até seus aposentos. Passaram por um longo corredor,
cujo assoalho era recoberto, em vez de por um tapete comum, por um grosso tecido de lã
escocesa, feito artesanalmente.
Os aposentos de Sacha também ficavam no primeiro andar.
No quarto havia uma cama grande, com quatro colunas altas e uma lareira, que, para
sua surpresa, estava acesa.
─ Mandei acender a lareira ─ disse a duquesa ─, porque quem vem do sul sempre
estranha o frio aqui no norte.
─ Foi muita bondade sua ─ Sacha exclamou ─ E que lindo quarto!
Enquanto falava, aproximou-se da janela e viu a bonita paisagem. A vegetação se
estendia até se perder no horizonte distante, e ao lado do castelo havia um grande lago.
─ Esse lago que está vendo é o lago Conna ─ disse a duquesa ─ Depois quero
contar-lhe algumas lendas sobre ele. Tenho certeza de que as achará interessantes.
─ Gostaria muito, Alteza.
─ Esta aqui é sra. Macdonald, a governanta, que cuidará de você. Enquanto
tomamos nosso chá, trarão sua bagagem para cima. Depois então, poderá se trocar, e em
seguida iremos ver Talbot.

Sacha estava maravilhada com o chá à escocesa. Havia ali comida para um
regimento. Ela se deliciava com tudo. Havia bolos e biscoitos de aveia, rocamboles,
bolachas, biscoitos, vários tipos de pão e um bolo de gengibre que a duquesa disse ser o
favorito do duque. Ela provou o mel, bem mais escuro e que, segundo a explicação da
duquesa, era feito no outono, quando as urzes estavam em flor. Era delas que as abelhas
sugavam o néctar.
─ Se eu comer sempre assim, estarei muito gorda quando deixar o castelo ─ disse
Sacha.
A duquesa sorriu e disse:
─ Nós, do norte, nos orgulhamos de ter a melhor comida do reino.
─ Vossa Alteza é escocesa, não?
─ Sim. Tenho muito orgulho disso. Nasci aqui. Casei-me com o segundo duque, que
era inglês, e vivemos na Inglaterra. Quando meu marido morreu, voltei para cá, pois sabia
que seria muito mais feliz vivendo m minha terra do que entre os saxões.
─ E mora aqui sozinha o ano todo?
─ Tenho muitos parentes e amigos que moram perto e sempre me visitam. Aqui na
Escócia ninguém acha difícil viajar. Sei que na Inglaterra não é assim. Aqui, todos acham
muito natural um convidado viajar dez milhas para uma festa e é muito freqüente passar a
noite na casa do anfitrião.
─ É mesmo maravilhoso esse relacionamento entre vizinhos.
─ Também tenho orgulho da hospitalidade escocesa. E agora, querida, se quiser,
poderemos ir ao encontro de Talbot, que deve estar ansioso para agradecer-lhe por ter
vindo.
Como a duquesa não s levantasse da mesa, Sacha esperou, sentindo que ela ainda
queria dizer alguma coisa importante.
─ Quis que você viesse ─ a duquesa começou a falar, de maneira pausada ─ porque
Talbot tem estado tão deprimido... Você sabe... os olhos dele... Está tão preocupado! Sei
que você irá animá-lo. Conto muito com seu apoio.
─ O que posso fazer para... ajudar?
─ Os médicos estão muito otimistas, mas não sei...
─ Há perigo de o duque ficar permanentemente cego? ─ Sacha perguntou, ansiosa.
─ Sei que é isso que o tem deixado deprimido. Quero que você o convença a confiar
nos médicos e na boa sorte já que teve o azar de cair naquela armadilha quando foi pescar.
─ Sempre achei esse tipo de armadilha uma crueldade! ─ disse Sacha aquilo com
tanta veemência, que talvez soasse um tanto rude.
─ Estou convencida de que está certa ─ a duquesa concordou. ─ Nas minha
propriedades, ninguém poderá usá-las. Estão terminantemente proibidas.
─ Estou feliz em ouvir isso. Mas qual a gravidade do ferimento de Sua Alteza?
─ Tiraram muitos estilhaços de seu corpo, mas ele teve que se submeter a auma
nova cirurgia para remover um pedaço de metal maior, que, devido à posição, preocupa os
médicos. Eles exigem também que Talbot fique o mais imóvel possível, para não
comprometer a visão.
─ Compreendo.
─ Quero que convença meu neto a seguir à risca o conselho dos médicos e a não se
exasperar.
─ Tentarei ─ disse Sacha com simplicidade.
A duquesa levantou-se.
─ Enquanto você vai mudar o vestido, esperarei na saleta.
Como Sacha não queria fazê-la esperar muito, trocou-se o mais rapidamente que
pôde, ajudada por Emily e pela sra. Macdonald. Duas outras criadas estavam acabando de
tirar os vestidos do baú de couro e de pendurá-los no guarda-roupa. Agora ela podia ver
melhor como eram lindos! Havia-os nas mais variadas cores e tecidos. Como fora Hanna
que os separara, Sacha não sabia ao certo o que viera em sua bagagem. Ela se sentia feliz e
entusiasmada, porque pela primeira vez vestia as mais finas roupas que se podia comprar na
Bond Street.
Naquele castelo de contos de fadas, naquele país tão lindo e excitante, Sacha sentia-
se como uma princesa das histórias que lia quando criança.
O traje que estava usando era azul-claro, enfeitado com rendas no decote e nas
mangas. Emily arrumou seu cabelo muito bem, no mesmo estilo que Deirdre usava.
Quando se olhou no espelho, teve a sensação de que não era sua imagm que via refletida, e
sim a da prima.
Terminando de se arrumar, foi depressa para a sala onde a duquesa a esperava.
─ Você se trocou muito depressa, querida! E está linda! Talbot disse-me que você
era a pessoas mais maravilhosa que já conhecera, e vejo que não exagerou.
─ É muita bondade de sua parte, Alteza ─ disse Sacha timidamente.
─ Só estou triste porque Talbot não vai poder vê-la com essa roupa tão bonita. Mas
estou certa de que ele logo voltará ao que era antes. Como você deve saber, os escoceses
acreditam em clarividência e profecias. Estou certa de que o que acabei de afirmar sobre
meu neto vai logo tornar-se realidade.
─ Tenho certeza que sim.
Já estavam diante da porta do quarto o duque, e o medo tomou conta de Sacha
novamente. Ela sentia o estômago enjoado, e parecia que sua voz sumira.
A porta grande e alta se abriu e um homenzinho magro disse respeitosamnte:
─ Boa tarde, Alteza! Boa tarde, milady!
─ Como está seu paciente, Tomkins? ─ perguntou a duquesa.
─ Penso que Sua Alteza está melhor.
A duquesa voltou-se para Sacha.
─ Tomkins tem estado com meu neto desde que era rapazinho. Ele não só é um
ótimo camareiro, como também enfermeiro excelente.
Tomkins sorriu e foi abrir uma outra porta. Eles estavam em um vestíbulo, e, depois
de aberta a segunda porta entraram num quarto bem amplo, onde Sacha pôde ver um
homem de venda nos olhos, deitado numa cama enorme, toda entalhada e com quatro
colunas altas.
─ Estão aqui Sua Alteza e lady Deirdre, Alteza.
Sacha prendeu a respiração e a duquesa aproximou-se do neto, dizendo:
─ Deirdre chegou, Talbot. Fez essa viagem tão longa para vê-lo, e estou felicíssima
em tê-la conosco. É mesmo uma pessoa encantadora!
─ Deirdre! Onde está?
A voz do duque era grave e profunda.
─ Eu... Estou aqui!
Sacha aproximou-se da cama e pôs a mão nas de Talbot que as estendera.
─ Que bom que você veio! Mas sua mão está fria!
─ Já mandei acender a lareira nos aposentos dela. Aqui no norte é bem mais frio,
Talbot.
Sacha não conseguia dizer nada. Ficou uns instantes ao lado de Talbot, com a mão
entre as dele, sentindo-se melhor, como se dele emanasse uma força inexplicável.
A duquesa, achando que a moça estava constrangida com sua presença, achou
melhor sair. Então disse:
─ Bem, vou deixá-los a sós, pois devem ter muito que conversar. Mas receio que
não possa ficar por muito tempo, Deirdre, querida, pois você é a primeira visita que Talbot
recebe, e ele não deve s cansar. Depois que sair, repouse um pouco antes do jantar.
Saiu sem esperar resposta.
─Estou tão surpreso com sua visita! ─ disse o duque.
─ Surpreso?
─ Vovó disse-me que lhe havia escrito, mas não supus que viesse.
─ Fiquei tão triste ao saber de seu... acidente!
─ ficou realmente aborrecida?
─ Claro! Foi tão... horrível!
O duque soltou-lhe a mão, e ela sentou-se numa poltrona que havia ao lado da cama.
Agora podia olhar melhor para ele. Era e fato um homem extremamente bonito.
Sua testa era larga, os cabelos escuros estavam bem penteados e puxados para trás, o
nariz era reto e aristocrático, o queixo, quadrado e a boca, firma e decidida.
Ela não podia ver-lhe os olhos, mas supunha que fossem profundos.
A voz de Talbot desviou-a de sua análise.
─ A quantos bailes e festas teve que renunciar para vir visitar-me?
Sacha notou o tom zombeteiro e disse com simplicidade:
─ Não m preocupei com nada disso, pois estava aborrecida com o que lhe
acontecera.
─ Estou não só honrado, mas também muito vaidoso! Mas, para ser sincero,
apostaria cem contra um como você iria arranjar uma boa desculpa para não vir à escócia.
Sei que realmente não gosta deste país.
─ Como poderia alguém deixar de gostar e um lugar como este? É tudo muito
bonito, e o castelo é encantador.
Como ele não respondesse, Sacha continuou:
─ assim que entrei na Escócia, senti-me como se estivesse voltando ao passado.
Pensei nos escoceses reunidos nos vales, em seus primeiros clãs, e imaginei-os escondendo-
se quando os vikings vieram pelo mar do Norte saquear as vilas. E não poderia deixar de
pensar em Bonnie Prince Charlie e em sua lealdade e amor pelo país, embora sua luta
terminasse de maneira tão desastrosa.
A voz de Sacha revelava a emoção que estava sentindo. Ela sempre se emocionava
com a história triste de jovem príncipe.
─ Estou surpreso, Deirdre, porque jamais pensei que você pudesse sentir tudo isso
por este país. Eu também sinto exatamente a mesma coisa quando estou na Escócia.
─ Você pensa no passado quando está pescando?
─ Às vezes. Mas geralmente estou bem concentrado num salmão, e procurando
fisgá-lo no momento exato.
─ Deve ser fascinante!
─ Quer dizer que gostaria de aprender a pescar?
─ Adoraria! ─ Sacha disse com entusiasmo.
Ao dizer isso, lembrou-se de que jamais iria pescar com o duque, porque jamais
voltaria àquele maravilhoso castelo.
─ Isso faz-me pensar que é melhor tratar de ficar o mais depressa possível.
─ Você sabe que isso é realmente necessário. E se estiver acreditando seriamente
nisso, seu desejo tornar-se realidade. Podemos conseguir tudo o que quisermos, se
realmente o desejarmos.
─ É essa a sua filosofia?
─ Diria que é um tipo de concentração do poder da vontade e da determinação, da
meditação. Pode chamar até mesmo de fé ou de poder da oração.
─ Você tem orado por mim, Deirdre?
─ Claro que sim!
Ao dizer isso, Sacha lembrou-se de que deveria ter dito que rezara também para ele
não descobrir que ela era outra pessoa...

Capítulo III

Sacha acordou e por uns instantes não conseguiu lembrar onde estava. O sol que se
infiltrava através as cortinas iluminava o quarto, de teto muito alto. Olhando ao redor, viu a
lareira já apagada, a cama com as quatro imponentes colunas, uma poltrona e as outras
peças que havia no lindo quarto. Estava na Escócia!
Então, tudo lhe veio à mente. Quando deixara os aposentos do duque e viera para os
seus, encontrara Emily esperando por ela. A criada lhe disse:
─ Enquanto preparo seu banho, por que não descansa um pouco? Tenho certeza de
que está muito cansada. Posso chamá-la daqui a meia hora.
Emily ajudou-a a tirar o vestido e a colocar uma camisola. Sacha aceitou a ajuda,
mas sentia-se meio inútil com todos aqueles cuidados.
Pouco depois de repousar a cabeça no travesseiro, ela caiu num sono profundo, e só
àquela hora percebia que não se havia levantado para o jantar. Dormira direto até a manhã
seguinte.
Estava muito cansada, não só devido à longa viagem, mas também porque vivera as
últimas horas sob tensão.
Agora, porém, estava feliz porque passara no primeiro teste brilhantemente. Sentia-
se disposta e queria viver intensamente aqueles dias, naquele mundo completamente novo
para ela.
Sentou-se na cama, e seu primeiro impulso foi saltar dali e abrir as cortinas. Mas
sabia que, como uma lady, deveria chamar a criada e esperar que tudo estivesse preparado
para sua toilete matinal.
─ Acordou, milady! ─ exclamou Emily, entrando no quarto, toa eufórica ─ Parece
que teve uma ótima noite!
─ Sinto ter deixado de comparecer ao jantar com Sua Alteza! Isso não foi delicado
de minha parte.
Enquanto Emily caminhava até as janelas para abrir as cortinas, foi dizendo:
─ Ontem à noite a Sra. Macdonald veio até aqui para ver se tudo estava bem, e
quando viu que estava dormindo, milady, não quis acordá-la. Foi então até a duquesa, e esta
deu ordens expressas para que ninguém lhe perturbasse o sono. Sua Alteza disse que a
senhorita merecia descansar, depois de uma viagem tão longa.
─ Estava cansada, realmente, mas achei a viagem muito confortável. E você, o que
achou, Emily?
─ Não foi tão horrível como achei que seria. Mas, para falar com franqueza, detesto
trens!
Sacha sorriu.
Emily trouxe água quente e preparou-lhe o banho. Depois, ela vestiu mais simples,
ficou linda, usando um traje que a deixava muito elegante. Nem de longe parecia a pobre
mocinha que vivia na casa paroquial.
Enquanto pensava nisso, andava com graça pelo longo corredor, para ir ao encontro
da duquesa.
─ Por favor, perdoe-me, Alteza, por ser indelicada a ponto de deixar de vir jantar
em sua companhia. Deitei-me para repousar um pouco e só acordei há uma hora atrás.
─ Achei que foi a coisa mais sensata que poderia ter feito. E agora, estou certa de
que está ansiosa para ver Talbot. Depois daremos uma volta, para conhecer o castelo. Está
um lindo dia. Sei que vai adorar o jardim.
─ Gostarei imensamente de conhecer tôo o castelo. Parece que estou vivendo em
um conto de fadas ─ disse Sacha, entusiasmada.
A duquesa disse, sorrindo:
─ E com certeza vai se casar com o príncipe encantado! Esse é o fim de todo conto
de fadas.
Aquelas palavras fizeram Sacha pensar que seu conto de fadas iria terminar quando
ela voltasse à sua casa humilde, e que jamais voltaria a ver o duque. Seria muito arriscado.
Isso significava que, sempre que houvesse festas na Casa Grande, ela não poderia
comparecer, e talvez nem fosse convidada para as bodas de Deirdre e do duque.
Enquanto estava representando o papel de Cinderela, devia fazê-lo o melhor
possível. Ganhara da fada-madrinha as belas roupas, tinha lindas carruagens à sua
disposição não teria que sair correndo quando soasse a meia-noite nem deixar para trás o
sapatinho de cristal.
Chegaram aos aposentos do duque, e Tomkins abriu-lhes a porta.
─ Como está Sua Alteza esta manhã? ─ perguntou a duquesa.
Tomkins respondeu em voz baixa:
─ Sua Alteza teve uma noite péssima, e receio que esteja muito triste esta manhã.
─ Oh, meu Deus! Acho melhor deixá-lo com lady Deirdre. Ele precisa mais dela do
que de mim.
Ela voltou-se para Sacha, dizendo:
─ Anime-o querida! Não podemos deixá-lo deprimido. Ele precisa de toda a força e
confiança antes da cirurgia.
Depois que a duquesa se afastou, Tomkins abriu a porta do quarto do duque e
anunciou:
─ Lady Deirdre Lang veio visitá-lo, Alteza.
Um tanto nervosa, Sacha aproximou-se da cama e notou que o duque estava com os
lábios comprimidos e parecia angustiado.
Ela disse, tentando animá-lo:
─ Está um dia lindo! Parece que me dá as boas-vindas à Escócia. Quer que lhe
descreva a manhã?
O duque ficou um momento em silêncio, depois disse, com uma nota triste na voz:
─ Pode descrevê-la, se quiser. Enquanto ouço, o que eu posso fazer é pensar, com
tristeza, que é bem provável que jamais volte a ver a luz do dia.
Sacha foi até a janela e começou a dizer:
─ A paisagem é maravilhosa. O pantanal está, como numa pintura, matizado de tons
diversos. O lago ao longe está banhado pelo sol, que produz reflexos dourados na água, e o
céu está muito azul...
─ Muito poético ─ observou o duque, num tom levemente sarcástico ─, mas, uma
vez que tenho que confiar em suas descrições, fico feliz m saber que se expressa tão bem!
─ Está realmente convencido de que não irá recuperar a visão? Que tolice! ─ disse
Sacha com ternura.
─ Não quero falar nisso. Já é ruim demais estar aqui suportando esta cegueira. Falar
sobre esse assunto é duplamente doloroso.
─ É muita tolice sua pensar assim! ─ A voz de Sacha era firme desta vez. ─ É isso
mesmo que deseja que aconteça?
─ Como assim?
─ Devemos saber que somos produto daquilo que pensamos. Se nossos
pensamentos são otimistas, seremos bem-sucedidos, e se foram pessimistas, tenderemos a
fracassar.
─ Isso é bobagem!
─ Há fatos reais de pessoas que se curaram porque acreditaram que poderiam fazê-
lo. Há muitos livros sobre o assunto.
─ Está falando de milagres?
─ Os milagres são os exemplos mais extraordinários de curas ou acontecimentos
aceitos pela Igreja como uma intercessão divina. Mas falo de pequenos milagres que
acontecem diariamente a milhares de pessoas e que nem sempre se comenta. Pode ter
certeza de que eles são o resultado de pensamentos corretos, cheios de confiança, e
esperança ou de fé, se preferir assim.
O duque demorou a responder, como se refletisse sobre o que ela dissera. Depois,
disse, quase que de maneira agressiva, como se estivesse querendo discutir.
─ Não posso acreditar que sem remédios se chega a uma cura. Essas histórias d
curas miraculosas são exploradas por fanáticos de todas as religiões. Eles se apegam ao
sobrenatural porque são fracos ou ignorantes.
─ A religião e a fé são coisas maravilhosas, e podem trazer benefícios. Pense nos
grandes centros religiosos do mundo, como Meca e as cidades da Índia, e na longa lista de
santos que abalaram o mundo, fazendo grandes milagres que acontecem com pessoas
simples, até sem instrução, só porque creram. Gostaria que pensasse, bem no fundo de seu
coração e com toda a força de sua mente, que irá recuperar-se, e estou certa de que assim
será. Ficará mais calmo e ajudará seu organismo jovem e forte a reagir.
─ Você fala como se tivesse experiência. Quando esteve em contato com gente
simples, Deirdre?
Sacha sabia que Deirdre jamais tivera o tipo de experiência que ela descrevera, e
então disse:
─ Meu tio é pastor a paróquia de Little Langsworth. Ele sempre fala sobre fatos
dessa natureza. Sua esposa, lady Margaret, ajudava o povo a paróquia, ensionando-os a
alimentar-se adequadamente, e a fazer remédios caseiros e a conhecer ervas medicinais.
Com esses ensinamentos, conseguia ajudar os pobres, fazendo-os restabelecer-se de várias
doenças.
─ Então acha que eu também me recuperarei se comer o que for adequado para meu
caso?
Pelo tom de voz do duque, Sacha notava que ele estava zombando dela. Depois de
pensar um pouco, disse:
─ Talvez seja muita pretensão de minha parte querer dar-lhe alguma sugestão sobre
o que seria interessante fazer ou... evitar, mas vou externar meu modo de pensar. Primeiro,
deve evitar pensamentos negativos, que só trazem angústia e retardam o processo e cura.
Segundo, deve ter uma alimentação adequada, com muita verdura, principalmente crua.
─ Simples assim?
─ Não só simples, mas também sensato e lógico! Uma boa leitura sempre ajuda a
nos distrair e a fugir e pensamentos ruins. Se gostar, poderei ler-lhe alguma coisa
interessante. Além disso, poderemos falar sobre os pontos que forem dignos de
comentários.
─ Acho uma idéia excelente, se não achar muito aborrecido fazer isso para este
pobre cego.
─ Adoro ler! Vou apanhar um livro que, espero, aprecie.
Dizendo isso, Sacha levantou-se, pediu licença e foi até o seu quarto. Pegou um dos
livros que seu pai escrevera e que sempre levava consigo aonde quer que fosse. Não ficava
uma noite sem pelos menos ler um trecho dele.
Voltando para perto o duque, notou que ele estava mais calmo e parecia mais
interessado.
Folheou o livro rapidamente até achar a passagem que queria. Então disse:
─ O trecho que vou ler fala sobre o sol. Pense na luz que lê nos dá, como os gregos
antigos pensavam. Para eles, a luz do sol era a própria vida.
Ela começou a ler pausadamente:
─ “ Ao amanhecer, o corpo todo de Apolo iluminou o céu. Intensamente viril,
lançou milhares de centelhas de luz, curando tudo o que tocava, fazendo germinar as
sementes e desafiando o poder das trevas”.
Fez uma pausa, pensando que talvez o duque quisesse fazer algum comentário.
Como lê permanecesse quieto, ela continuou:
─ “Ele não era o sol apenas, era a lua, os planetas, via-láctea e as mais pálidas
estrelas. Era o brilho das ondas, a luz do olhar, a alegria radiosa de um rosto de criança. Era
também o mágico raio de luz nos campos, nas noites mais escuras, e, sempre que a
primavera se anunciava no alto de um monte, ele estava presente, pois naquele momento
participava ao mundo um novo nascer”.
Deixando o livro nos joelhos, Sacha disse:
─ A luz tem poder curativo! Imagine que tem dentro de si uma luz que não se
apaga. Ela está presente em tudo o que nos cerca, e é essa centelha que nos anima!
O duque continuou calado. Sacha ergueu-se e foi até a janela.
Olhava os tons dourados, arroxeados e verdes da vegetação, que resplandeciam à luz
do sol, e via também o brilho do lago e das rochas, associando tudo aquilo ao trecho que
acabara de ler. Era maravilhoso poder ver! O duque haveria de ter m breve a luz de seus
olhos de volta!
Ele a chamou:
─ Deirdre, onde está você?
─ Estou aqui, perto da janela. Não sei se o que li lhe fez bem... Talvez o tenha
aborrecido...
─ Não me aborreceu, de modo algum! Estou apenas surpreso! Nunca pensei que
gostasse desse tipo de leitura. Isso é novidade para mim.
─ Estudei grego e a história da Grécia antiga. Você também deve ter estudado.
─ Isso foi há muito tempo. Mas prometo que vou pensar sobre o que leu e sobre
tudo o que me disse. Pode ficar orgulhosa por ter conseguido animar-me. Estou até mais
confiante! Vou também seguir seu conselho sobre a alimentação. Vovó vai ficar exultante.
Seria ótimo se pudesse comer salmão fresco e aves silvestres.
─ Nesta época do ano não caçamos.
─ Sim, eu sei. Quando cheguei à Escócia, pensei que, se tivesse vindo mais tarde,
veria as urzes florescendo, e muito mais bonitas do que estão agora.
─ É muito fácil ─ disse o duque. ─ Voltaremos aqui em agosto. Não acha uma idéia
excelente?
Sacha sentiu uma pontada no peito, pois era mais do que certo que jamais poderia
voltar àquele castelo. Então disse procurando ser o mais natural possível.
─ Imagino como tudo estará ainda mais maravilhoso no verão!
─ E quanto à alimentação mágica para minha recuperação?
Sacha resolveu ignorar seu sarcasmo. Sabia que poderia ajudá-lo, como sua mãe
tantas vezes fizera com as pessoas da vila. Então disse, delicadamente:
─ Se achar que sua avó não ficará ofendida, gostaria de pedir à cozinheira que lhe
preparasse suco de cenoura e também muita salada d verduras cruas em cada refeição.
─ Quer dizer que confia mais nessa dieta do que nas pílulas e comprimidos que os
médicos me receitarem?
─ Não quero comparar uma coisa com a outra. Mas tenho certeza de que uma
alimentação saudável e natural faz maravilhas! Ela vem o solo que Deus nos deu, e não de
fábricas.
─ Onde é que a minha queria Deirdre andou aprendendo tudo isso? Realmente,
estou surpreso em saber que tenho a noiva mais perfeita com a qual um homem pode
sonhar. Ou... estará apenas querendo tirar-me da depressão e... acenando-me com falsas
esperanças?
─ Já que não pode ver pela minha expressão se estou mentindo, use seu instinto e
sinta se sou ou não sincera quando lhe falo dessas coisas. Usar nosso instinto, ou uma
espécie de sexto sentido, é algo que sempre negligenciamos.
─ Você acredita que possamos usar esse tipo de percepção para julgar as pessoas?
Acreditaria que poderia saber mesmo se está me enganando ou não?
─ Isso mesmo. Se treinarmos nossa percepção e formos observadores, pelo tom de
voz, ou, mais importante ainda, pelo que sentirmos quando estivermos conversando com
uma pessoa que estiver perto de nós, poderemos saber se a pessoa é sincera ou falsa.
─ Sei de um modo melhor que esse ─ disse o duque ─ Deixe-me tocá-la. Para mim
será quase que o equivalente a vê-la. Espere só e saberei se está dizendo a verdade ou não.
Por um momento, Sacha hesitou. Temia apenas que ele descobrisse que ela não era
Deirdre. Mais do que nunca, sentiu-se tola por ter-se envolvido em tão confusa situação.
Mas Deus sabia como ela era honesta e só queria o bem daquele homem, que já prendera a
querer bem e a quem talvez pudesse ajudar.
Como o duque estava com a mão estendida, ela inclinou-se, pôs a mão na dele e
deixou-o tocar sue rosto com a outra mão. Seu medo transformou-se numa sensação
agradável àquele toque. Sentiu como se uma vibração forte viesse das mãos ele,
transmitindo-lhe um inexplicável bem-estar. Sentia que Talbot era um homem de
personalidade surpreendente.
─ Meu instinto diz-me que posso acreditar em você.
─ Fico muito feliz em ouvir isso. Teria ficado aborrecida se, por um instante sequer,
tivesse duvidado de mim.
─ Acredito que seria muito difícil para você ter que mentir a quem quer que fosse.
─ O duque apertou a mão dela carinhosamente, e continuou: ─ Quando se quer muito bem
a uma pessoa, até o silêncio é significativo.
Sacha prendeu a respiração, e ele perguntou:
─ Já esteve... apaixonada?
─ Não... nunca! Isto é, estamos falando do passado...
─ Sim, claro. Fico feliz em saber que não esteve apaixonada, a não ser por mim!
Aquele era um terreno perigoso, e Sacha desejava mudar de assunto. Tirou a mão da
dele, dizendo:
─ Vai pôr minhas idéias em prática?
─ Se isso lhe agrada tanto, farei tudo com prazer. Estou disposto a seguir suas idéias
nada ortodoxas. E se der tudo certo, o mérito será todo seu!
─ Fico contente, pois estou certa de que só lhe fará bem.
─ Agora, fale-me mais a respeito de seus estudos sobre a Grécia antiga.
─ Acho que os gregos ensinaram o mundo a pensar. Os filósofos gregos ensinaram
os homens a acreditar em si próprios. Sócrates estabeleceu as bases da cultura ocidental, e
dirigiu seu pensamento filosófico à análise do caráter e da conduta da vida humana, que ele
determinou em termos de uma teoria original da alma.
Terminando de falar, percebeu que o duque estava atento, mas devia estar
estranhando sua atitude. Deirdre jamais falaria sobre aquilo. Resolveu não continuar,
embora o assunto a apaixonasse. Fazendo um esforço, disse:
─ Por que continuar esse assunto, se tenho algo excitante para lhe dizer?
─ E o que é?
─ Seu cavalo ganhou a terceira corrida em Newmarket na segunda-feira.
─ Como sabe disso? ─ o duque perguntou, surpreso. ─ Não fui informado sobre
isso!
─ Suponho que os jornais ainda não tenham chegado aqui. Ou então, não pediu a
ninguém que lhe lesse sobre as corridas. A informação estava no Notícias Esportivas que li
no trem, ontem. Fui uma tola em deixar o jornal no trem.
─ Agora que penso no assunto, vejo que ninguém tem me falado sobre os jornais
desde meu acidente. É uma forma de me manterem quieto. Toque a sineta e mandarei que
me tragamos jornais imediatamente!
─ Acalme-se, ou eu me arrependerei de ter tocado no assunto, deixando-o tão
excitado.
─ Estou calmo. Não se preocupe.
─ Toda essa excitação não vai fazer-lhe bem. Lembre-se das ordens médicas.
─Você é um médico de agora em diante. Assuma essa posição!
Sacha deu uma risada breve, dizendo:
─ Por favor, não me assuste! Se ficar falando desse jeito, sua avó vai ficar zangada e
comigo e me mandará de volta no primeiro trem.
O duque sorriu e ela ficou contente por ver que todo aquele aspecto sombrio de
poucos instantes atrás havia desaparecido. Ele parecia outro homem. Disse alegremente:
─ Está aí uma coisa que teremos que evitar a todo custo! Devo confessar-lhe que
estou adorando sua companhia. Estou fascinado e... intrigado... Você é mais maravilhosa do
que pensei que fosse.
─ Por que disse “intrigado”?
─ Estou intrigado por descobrir novos aspectos e seu caráter que não conhecia.
Pensei que gostasse apenas de festas e da vida social de Londres. Mas foi tolice de minha
parte. Perdoe-me. É que, sendo tão linda, deve mesmo é estar sempre brilhando nos salões.
Sacha respondeu suavemente:
─ Já que não teremos bailes no castelo, acho que seria uma boa idéia para ambos
falarmos sobre nossos interesses e nos conhecermos melhor. E um interesse comum são
seus cavalos.
─ Pensei que não estivesse muito interessada em cavalos. A não ser nas corridas de
Ascot, claro!
─ Não é bem assim. Estou sempre ocupada com tantas coisas... Quanto a você, sei
que sempre gostou de cavalgar bastante pela manhã.
─ É um hábito que sempre cultivei. E agora, se eu prometer ficar bm calmo, poderia
fazer o favor de tocar a sineta para pedir o jornal e depois lê-lo para mim?
─Farei tudo o que desejar. Mas, por favor, lembre-se de que muita movimentação,
irritação, raiva e pessimismo devem ser evitados a todo custo.
─ Nunca poderia imaginar ─ disse o duque sorrindo ─ que a moça mais linda que já
conheci fosse também uma feiticeira. Sim, é isso mesmo que você é! Se vivesse na Escócia
há um século atrás, seria queimada viva, numa fogueira.
Sacha notou que ele estava sempre procurando um novo assunto. Será que estaria
querendo testá-la, desconfiado de que ela não fosse Deirdre? Resolveu ser mais prudente e
disse com simplicidade.
─ Já li sobre isso. Era uma crueldade. Mas não falemos nisso.
─ Já vi que gosta d varrer tudo o que é desagradável para debaixo do tapete. Que
modo nada prático de enfrentar o mundo!
Sacha sorriu.
─ Acho melhor tocar a sineta, se quiser mesmo que leia os jornais para você.
Acabando de dizer isso, ouviu um barulho. Era Tomkins, que vinha carregando uma
grande bandeja.
─ Trouxe alguma coisa para Vossa Alteza.
─ Que é isso?
─ A cozinheira preparou este caldo, que é muito nutritivo, Alteza.
─ Se é o mesmo caldo de ontem, pode jogar fora.
─ Tenho uma idéia ─ interrompeu Sacha. ─ Por favor, peça à cozinheira para tirar o
suco de algumas cenouras e de um pouco de aipo, pôr um pouco de sal e mandar para Sua
Alteza.
─ Sim, milady.
─ Por favor, Tomkins. Sua Alteza sta querendo experimentar esse suco. Tenho
certeza de que lhe fará muito bem.
─ Vá, Tomkins! ─ disse o duque. ─ Faça o que lady Deirdre lhe pediu.
Depois que Tomkins saiu, Sacha disse:
─ É capaz de o pessoal da cozinha estranhar um pouco. Sei que em geral não
gostam de inovações.
─ Podem estranhar, mas farão tudo o que julgarem que é para meu bem-estar.
Quanto a mim, sei que tudo o que é para “o bem” de quem quer que seja sempre tem um
gosto horrível.
─ Está muito intolerante. Parece um menino mimado demais.
Logo Tomkins voltou com o copo de suco em uma salva de prata, dizendo:
─ A cozinheira disse que esse tipo de bebida é bem estranho, mas que o faz com
prazer para Vossa Alteza.
─ Estamos revolucionando a cozinha escocesa ─ disse Sacha.
─ Vou experimentar, mas se tiver o gosto que suspeito que tenha, dar-me-ei por
satisfeito tomando uns dois goles.
O duque começou a beber devagar, e continuou, sem reclamar. Quando havia
bebido metade do líquido, disse:
─ Devo confessar que é melhor o que pensei.
─ Não posso acreditar que não queira ser justo o bastante para admitir que gostou
do suco ─ disse Sacha.
─ Está bem, gostei!
Ela bateu palmas de contentamento. Voltou-se então para Tomkins, dizendo:
─ Por favor, Tomkins, providencie para que Sua Altza tome três copos de suco,
desse tamanho diariamente. Um copo de manhã, um depois do almoço e um à noite.
No caminho de volta, Tomkins pensava que, quando um homem não pode tomar um
bom uísque escocês, tudo devia ser horrível.
Sacha e o duque sorriam, felizes. Sentiam que não havia necessidade de palavras.

Capítulo IV

Sacha demorou muito para resolver que vestido iria usar naquela noite.
Toda vez que abria o guarda-roupa de seu quarto e via o número excessivo de
roupas que a prima lhe havia dado, custava a acreditar que aquilo tudo fosse realmente seu.
Depois de passar anos seguidos usando os vestidos simples de algodão feitos pela
bondosa Nanny e pensando em como era difícil comprar até mesmo as fitas para enfeitá-
los, sentia-se como uma princesa saída de um conto de fadas.
Entretanto, pensava consigo mesma, estava vivendo uma fantasia. Tudo aquilo era
um sonho que, ao despertar, já de volta a sua casa, queria conservar na memória e no
coração, como o período mais encantador e sua via. Só sentia não poder ver o duque
novamente e jamais poder falar a ninguém sobre aquela experiência maravilhosa, nem ao
pai, seu maior confidente e amigo.
Olhando os vestidos enfileirados, naquele verdadeiro arco-íris de cores, Sacha
pensou no duque. Na noite anterior ele estava alegre, parecia ter esquecido os problemas.
Entusiasmado, pediu que ela lhe descrevesse o que estava vestindo e quis tocar o
tecido e os enfeites, parecendo visualizá-la através da bandagem.
Sacha dissera então:
─ Agora, use a sua percepção e imagine a cor do vestido.
─ Não duvide de minha capacidade, senhora professora. Com seus ensinamentos,
estou ficando muito esperto. Percebo tudo que acontece! Muito mais do que imagina!
Sacha estremeceu.
─ Como? Que quer dizer?
─ Quando um sentido está prejudicado, os outros ficam mais alerta. Você ajudou-
me bastante a ser mais observador. Não duvide: posso até adivinhar seus pensamentos...
─ Acho que os pensamentos de uma pessoa só pertencem... a ela mesma ─
respondeu ela, pouco à vontade.
─ Por que diz isso? Que está querendo esconder de mim? De acordo com sua
filosofia de vida, o que se pensa com firmeza torna-se realidade. Assim, o pensamento é
muito importante, porque o que se pensa hoje será realidade amanhã.
Sacha sorriu e disse:
─ Está repetindo o que me ouviu ler para você.
─ E por que não? Ouvi com atenção e tenho pensado sobre o assunto. Cheguei à
conclusão de que tem sentido.
Novamente, aquela sensação de estar pisando sobre uma camada de gelo fino
invadiu Sacha. O livro em que havia sido escrito por seu pai, e aquele assunto era um de
seus preferidos. Além disso, sempre trocara muitas idéias com o pai. Naturalmente, ela
jamais se expressaria como Deirdre. Era melhor sair dali o quanto antes. Então disse, com
delicadeza:
─ Estou certa de que deverei deixá-lo agora. Tenho que trocar-me para o jantar.
Seria indelicado de minha parte fazer Sua Alteza esperar por mim.
─ Há bastante tempo ainda! Não sei por quê, mas tenho a impressão e que está
querendo fugir de mim.
Ela decidiu parecer vaidosa, bem ao estilo de Deirdre, e disse:
─ Demoro um pouco para me arrumar. Talvez mais do que imagina... E Emily é
muito cuidadosa e exigente...
O duque não teve outro remédio senão render-se.
Na manhã daquele dia Sacha prometera a si mesma que conversaria com ele só
sobre o que achasse interessante nos jornais e sobre as corridas de cavalos.
Mas mesmo aqueles assuntos fizeram-na ficar confusa. O duque era muito
observador, e a certa altura da conversa, perguntara-lhe:
─ Como pode não só se interessar como estar tão bem informada sobre os outros
cavalos de meus colegas do Jockey Clube?
─ Tenho que me interessar. É importante para papai se eles ganham ou perdem.
Ao mencionar aquilo, ela pensava no pobre pastor, e não no rico marquês.
─ Não posso acreditar que seu pai, um homem rico, possa ficar com as finanças
alteradas pelo fato de um cavalo ganhar ou perder.
Só então Sacha compreendeu a tolice que cometera. Estava sendo difícil para ela
manter-se vigilante e evitar cair em contradições. Afinal, jamais gostara de mentiras.
Sempre quisera ser apenas ela mesma. Com esforço, pensou numa saída e disse, meio
insegura:
─ Não é por causa de apostas, ou de dinheiro... Acontece que não conheço pessoa
alguma que não... queira sempre vencer.
─ Isso é verdade ─ admitiu o duque. ─ Mas, do modo como falou, pareceu-me que
o resultado o Derby ou do Grande Prêmio Nacional de Stteple-Chase tinha conseqüências
em sua vida.
Para desviar-lhe a atenção, Sacha disse depressa:
─ Gostaria muito de ver o Grande Prêmio e Stteple-Chase. Só não gostaria de ver
um cavalo cair ao saltar uma cerca, machucando-se.
─ Por que se importa tanto com cavalos?
─ Gosto deles. Acho que não há nada mais excitante do que montar um belo cavalo
de raça e sentir-se como que levada nas asas do vento.
Ela pensava então nas lições de equitação que tivera na casa o tio e em como
adorava poder escolher os melhores cavalos e percorrer toda a propriedade, cavalgando.
─ Bem quando nos casarmos, você terá os melhores cavalos que existirem na face
da Terra.
─ Minha felicidade é tamanha que não encontro palavras para agradecer-lhe.
Ao dizer isso ela pensou que tudo o que se desejava ardentemente acabaria
acontecendo. Imaginava-se, então, cavalgando pelos campos, com os cabelos ao vento,
tendo o duque ao seu lado. Mas sabia que só mesmo um milagre a faria viver realmente
aquele sonho. A voz dele interrompeu seus pensamentos:
─ Quando nos conhecemos em Londres e nos primeiros encontros que tivemos,
pensei que gostasse mesmo era de bailes, não de cavalgar.
─ Acho ambos... igualmente... muito agradáveis.
─ Claro! Mas estou muito interessado em vê-la cavalgar. Deve ser uma excelente
amazona.
Ela ficou novamente aflita por ter-se enlevado demais. Sabia que Deirdre não
gostava de cavalgar e jamais saltara um obstáculo, pois morria de medo. Uma vez ela
dissera a Sacha:
─ E se eu cair e machucar o rosto? Não! Prefiro não me arriscar.
Sacha pensava se Deirdre havia comentado com o duque sobre seu medo d cavalgar.
Mas não devia ter tocado no assunto; ela não se exporia a tanto, sabendo que ele era um
excelente cavaleiro. Além disso, haviam estado muito pouco tempo juntos. Tinham se
encontrado só em festas e bailes, e ele ficara encantado com a beleza de sua prima. Com
certeza só haviam conversado sobre amenidades, e ele só quisera ser galante.
─ Logo farei trinta anos ─ disse o duque ─, e minha família insiste em que me case
logo.
─ E isso não lhe agrada?
─ Para ser franco, jamais gostei da idéia. Mas se eu não tiver filhos, o título de
duque irá para um primo que já tem mais de sessenta anos e só tem filhas.
Sacha pensou em como era aborrecido ter que ser casar só para ter um herdeiro. Ela
via como seu tio sempre ficara preocupado por não ter um herdeiro. Já seus pais estavam
muitos felizes com ela. Para eles, não fazia diferença alguma terem um filho ou uma filha.
─ Você está muito quieta. Posso saber em que está pensando?
─ Estava pensando que esses casamentos arranjados são uma coisa horrível e nada
natural.
─ Mas isso ocorre em todas as famílias nobres, no mundo todo!
─ Sei disso, mas não acho certo.
─ Então posso sentir-me não só orgulhoso, mas também muito feliz, pois estou
percebendo que você se casaria comigo mesmo que eu fosse um simples sr. Silchester, e
não um duque.
Sacha pensou em Deirdre. A prima ia renunciar ao seu amor por lorde Gerard para
casar-se com o duque, só por causa do título e da fortuna.
─ É verdade ou não? ─ insistiu ele.
─ Sim... é verdade... claro!
O duque pôs a pequena mão de Sacha entre as suas e a apertou ternamente.
─ Do modo como respondeu, parece que não me ama, como acreditei que o fizesse.
Terá mudado de opinião?
─ Não! Claro que não! ─ ela disse, depressa. ─ Não quero que pense nisso agora.
Deve pensar em outras coisas... amenidades... Lembre-se do que os médicos lhe
recomendaram.
─ Isso não me aborrece. Só queria que conformasse o que me disse em Londres,
lembra-se? Naquele baile você disse que gostava de mim pelo que eu era e não estava
interessada em meu título de nobreza, ou em minhas propriedades.
─ Não posso imaginar o que o teria levado a pensar que eu não sinta a mesma coisa
aqui a seu lado, na Escócia.
─ Na verdade, não conversamos muito em Londres. E agora que estamos os dois a
sós, gostaria de saber o que sente sobre o amor e, lógico, o que sente a meu respeito.
Sacha sorriu e disse:
─ Sempre achei que as mulheres é que gostam de ouvir declarações de amor.
─ Não se trata declaração de amor. Quero que me diga o que acha de mim como...
homem.
─ Quer saber mesmo a verdade?
─ Que pergunta tola! Só quero a verdade!
O duque segurava a mão de Sacha com firmeza, e ela sentia-se ligada a ele,
captando toda a sua energia. Naquele momento, nem se preocupou em parecer Deirdre.
Disse com toda a sinceridade:
─ Vou dizer tudo o que sinto. A verdade! Acho-o um homem extremamente
atraente, um esportista sem igual e um líder entre seus amigos. Mas penso também que
poderia se aprimorar m muitos outros aspectos, e parece-me negligente nesse sentido.
─ Gostaria de saber que aspectos são esses.
─ Tem que descobrir por si mesmo.
─ Não aceito isso como resposta. Jamais alguém me desafiou como você o fez. Tem
que explicar-me. Onde é que há essa falha?
─ Não disse isso...
─ Mas deu a entender.
─ Bem... talvez me ache impertinente, mas... perdoe-me. Compreenda-me...
─ Agora já foi longe demais, Não a deixarei enquanto não explicar direitinho o que
quis dizer há pouco.
─ Está certo. Pelas conversas que temos tido, vejo que é muito vivo e inteligente, e
no entanto, como acontece com a maioria das pessoas, usa apenas um décimo de seu
cérebro. E mesmo essa pequena parte é usada apenas em coisas materiais e agradáveis, que
não colaboram para o desenvolvimento de seu potencial.
O duque soltara sua mão, e ela imaginou que ele devia estar atônito, pois acreditava
que jamais alguém lhe falara daquela forma. Talvez ele estivesse zangado, e Sacha disse:
─ Sinto muito se... disse o que não devia.
─ Por que diz isso? Pedi a verdade, e estou feliz em saber que é sincera. Gostei
muito de ouvir o que disse. Estou apenas... surpreso, até mesmo pasmado. Não sei como
pode dizer isso. Só ouvi coisas desse tipo em Oxford, nos meus tempos de colégio. Estou
começando a acreditar que a minha querida Deirdre é, além de uma linda jovem, uma
pessoa que tem cérebro, e acima de tudo, uma feiticeira!
─ Só posso pedir-lhe desculpas... Perdoe-me, não devia ter tocado nesse assunto, se
não sou... entendida...
─ Agora não está sendo sincera, nem verdadeira! Sei que notou que tudo o que me
disse foi muito bom para minha mente e meu espírito, mas não para o meu ego.
─ Jamais poderia ter dito essas coisas. Não devia tê-lo preocupado. Por favor...
esqueça tudo isso...
─ Estou achando ótimo, pois abriu-me novos horizontes. Você está certa! Tenho a
desagradável sensação de que desperdicei muito de meu tempo e de minhas capacidades em
coisas tolas. Só sinto dizer que não sei muito bem o que deva fazer ou em que deva ocupar-
me.
─ A resposta está em si mesmo. Medite no assunto. Pense nos que o cercam, nas
pessoas que dependem de você. Pense em seu espírito de liderança.
Novamente Sacha achou que era melhor sair dali, deixando-o entregue aos seus
pensamentos. Então ergueu-se, dizendo:
─ Preciso ir agora. Devo tomar chá com a duquesa.
Apesar da insistência do duque para que ficasse mais um pouco, ela saiu do quarto
bem depressa.
Enquanto caminhava pelo longo corredor, pensava em como fora tola em se deixar
envolver numa conversa daquele tipo. Temia pelo seu relacionamento com o duque durante
os próximos dias, e receava também haver causado dificuldades futuras para Deirdre.
Ao mesmo tempo descobrira, em cada momento que estivera com ele, que era um
homem maravilhoso, de alma nobre, embora exteriormente aparentasse estar interessado
somente em esportes e em acontecimentos sociais. Pela educação que ela tivera, sentiu que,
apesar e tudo, sua consciência estava em paz. Toda pessoa deveria usar sua inteligência e os
meios de que dispunha para fins mais altruístas, e não só para o próprio conforto. Sim, ela
estava certa de que havia uma força que se irradiava do duque. Ele tinha uma grandeza
interior que não lhe passara despercebida. Ela não queria mudá-lo, mas, porque o admirava
muito, queria que ele tivesse ideais mais elevados, que usasse seus dons, despertando-os e
desenvolvendo-os. Queria para ele um grande destino, e correspondente à grandeza de seu
caráter e coração.
Em seu quarto, Sacha ajeitou rapidamente os cabelos, olhou-se no espelho e, vendo
que estava em ordem, foi encontrar-se com a duquesa.
Encontrou-a na grande sala de estar, entretida com seu bordado. Ela deixou o
trabalho de lado e levantou-se, dizendo:
─ Estava mesmo pensando em você, e imaginava se viria tomar chá comigo. Não
queria, naturalmente, interromper você e Talbot.
─ Receio que ele já esteja achando a minha companhia um tanto excessiva.
A duquesa sorriu.
─ Estou certa de que isso não é verdade. Talbot transformou-se desde que você
chegou. Está radiante. E isso aumenta as chances de um completo restabelecimento.
─ Sinceramente, espero que sim!
─ Tomkins já me disse que notou como o duque está feliz desde sua vinda, Deirdre!
Diz que você tem sido o melhor dos remédios para Sua Alteza. E, segundo ele, até aquele
estranho suco tem feito muito bem ao meu neto.
Sacha sorriu e disse:
─ Ele e a cozinheira estavam um tanto céticos quanto ao benefício que um simples
suco pode fazer aos olhos e à saúde em geral. Sei que Sua Alteza ficará completamente
recuperado.
─ É isso que peço em minhas preces.
Encaminharam-se para a sala ao lado, onde o chá seria servido.
Depois do chá, foram aos aposentos do duque. Depois que a duquesa os deixou a
sós, Sacha ficou só mais um pouco com ele. Ele lhe pediu que voltasse mais tarde, porque
precisavam conversar.
Sacha escolheu um vestido lindo, e desejou que ele pudesse ver como estava bonita.
Ao mesmo tempo, pensou, seria desastroso se ele a visse. Lembrou-se então de que, quando
os médicos removessem as bandagens, ela no castelo.
Ela não lhe havia dito quando partiria, mas só tinha dois dias para ficar junto dele.
Depois teria que ir embora, deixando-o para sempre. Sentia-se como se fosse Cinderela,
esperando pelo soar das doze badaladas, que anunciariam o fim de todo um sonho e de todo
aquele mundo maravilhoso de fantasia, junto a pessoas bondosas, a quem já estava
querendo tão bem. Desse sonho restariam apenas as roupas e os objetos que Deirdre lhe
dera, mas que pouco significariam na vila simples onde morava.
Sentiu uma dor no peito. Aproximou-se da janela e viu que o sol ponte tingia a
paisagem com esses raios agonizantes e uma névoa cinzenta erguia-se do pântano e do
lago.
Aquilo tudo era tão lindo! Ela não podia ser ingrata. Então, lembrou-se de agradecer
a Deus a oportunidade que tivera de vir à Escócia e de haver vivido ali dias tão
maravilhosos e excitantes. Além de todas as atenções, de todo o luxo e conforto, apreciara
muito as conversas que tivera com o duque. E, não podia negá-lo, ele fora o homem mais
interessante que já encontrara em toda a vida. O medo que sentira a princípio transformara-
se em encantamento, e sempre que se separava do duque, ficava contando as horas e os
minutos para voltar a vê-lo.
Já perto da partida, queria também passear por todo o castelo, pelos jardins
maravilhosos, admirar a vegetação, o lago e guardar para sempre na memória aquele
mundo encantado.
Precisava também agradecer a Deus por ninguém haver suspeitado que ela era uma
impostora.
Não poderia esquecer, ao voltar para casa, de contar a Deirdre sobre o que ela e o
duque haviam conversado. Ao pensar nisso, estremeceu, pois sabia que a prima ia ficar
furiosa com ela, pois achava suas idéias e pontos de vista utópicos e excêntricos. Deirdre
sempre lhe dizia:
─ Sou prática e quero ter sucesso. Quero que reconheçam louvem minha beleza.
Quero ser feliz aqui e agora. Não me interesso pelo que possa acontecer num outro mundo,
se nem sei ao menos se ele existe. E hei de casar-me com um homem muito rico e
importante.
Sacha sabia que Deirdre havia conseguido tudo o que ambicionara. Tinha, porém,
certeza de que um coisa lhe faltava. Era algo que se sentia, uma espécie e êxtase, algo que
nos toca e que nos transporta. Sentia isso quando via um quadro bonito, quando ouvia uma
música e também quando rezava. Era maravilhoso sentir aquele enlevo, aquele
arrebatamento, que poderia chamar, talvez, e “amor”.
─ Está linda com esse traje, milady! ─ Emily exclamou, interrompendo seus
pensamentos.
Ela olhava-se no espelho, enquanto Emily abotoava seu vestido. Perguntou, então:
─ Por que diz isso, Emily?
─ Sempre achei esse vestido o mais lindo do guarda-roupa de lady Deirdre. Não sei
por que ela não gostava dele. Só usou uma vez.
─ Por que será?
Ela achava impossível alguém não admirar um vestido lindo como aquele, feito de
seda branca, com um amplo decote e em volta deste uma renda larga que caía sobre os
ombros, toda rebordada em prata e pérolas. Até a ampla crinolina era arrematada com a
mesma renda do decote.
─ Acho que lady Deirdre não gostava do vestido, milady, porque queria que fosse
bordado com outro tipo de pedras, dessas que brilham como diamantes. Ela sempre gostou
de pedras brilhantes.
─ Acho lindo assim como está, e fico feliz em ter ganho um vestido lindo e
finíssimo como este.
Se Deirdre usara o vestido apenas uma vez, o mesmo iria acontecer com ela. Afinal,
onde poderia usar um traje daqueles? Certamente não seria para jantar em casa com o pai.
Antes de sair de seus aposentos para ir jantar, aproximou-se da janela. A lua ia
surgindo, iluminando tudo e emprestando um toque de magia à paisagem. Sacha sentia que
também ela estava envolta naquele encantamento.
Depois, foi caminhando graciosamente pelo longo corredor, vendo por vezes sua
imagem refletida nos espelhos altos e de molduras douradas que estavam dependurados nas
paredes. Sentia-se perfeitamente integrada ao ambiente refinado do castelo, com sua rica
mobília e as valiosas peças que o enfeitavam.
Ao entrar na sala de estar, a duquesa, que estava vestindo um elegante traje de seda
lilás, disse:
─ Como está linda, querida filha! Parece uma noiva! Gostaria de convidar amigos e
parentes para conhecê-la. Tenho certeza de que ficariam encantados com você, querida!
Mas Talbot pediu-me para manter o compromisso de vocês em segredo.
─ Oh, por favor, nem pense nisso. Estou muito contente com a companhia de Vossa
Alteza e do duque. Estou certa de que é melhor para o descanso de Sua Alteza ninguém
ficar sabendo que ele se feriu.
─ Tem razão. Talbot detestaria qualquer publicidade nos jornais, o que certamente
aconteceria.
O mordomo anunciou o jantar. Depois de terminada a deliciosa refeição, ouviram
um pouco e gaita de foles, tocada por um dos empregados da duquesa, que era músico.
Sacha achou muito excitante ouvir o tocador de gaita. Preferia ouvir música a
conversar com pessoas que não conhecia.
A duquesa retirou-se para seus aposentos mais cedo, pois estava com dor de cabeça.
Ao sair, disse:
─ Querida, dê boa noite a Talbot por mim. E faça-lhe mais um pouco de companhia,
pois precisam conhecer-se melhor. Talvez sua mãe não gostasse de saber que fui uma
companhia um tanto negligente, mas não vamos dizer-lhe nada sobre isso. É um segredinho
nosso. Agora vá, minha filha.
A duquesa beijou-a e Sacha foi aos aposentos do duque.
Tomkins deixou-a entrar, recomendando:
─ Receio ter que dizer-lhe, milady, que Sua Alteza está muito cansado e deve
repousar bastante, tendo em vista a nova cirurgia.
─ Sei disso, Tomkins, e fico contente por todo o seu cuidado. Mas só vim dizer boa-
noite e Sua Alteza.
Tomkins abriu a segunda porta para ela.
Ao entrar, viu que as cortinas estavam abertas. Ao lado da cama havia dois
candelabros com as velas todas acesas. O duque estava sentado, encostado nos enormes
travesseiros. Ao ouvir seus passos, perguntou:
─ Deirdre?
─ Sim.
─ Estava esperando por você. Por que demorou tanto?
─ Acabamos de jantar há poucos minutos. Ouvimos um pouco de gaita de foles.
Achei simplesmente excitante!
─ Gostou mesmo? Ou está dizendo isso para agradar-me? Sei que a maioria os
saxões acha horrível o som da gaita de foles.
─ Agora está me ofendendo! ─ disse Sacha.─ Acho que a música tocada pela gaita
de foles é tão bonita como a própria Escócia. Ambas são estimulantes e inspiradoras.
─ Acho que está me adulando ─ disse o duque, sorrindo.
─ Não, não. Estou sendo sincera.
─ As gaitas de foles a inspiram e estimulam! E você faz o mesmo comigo!
─ Esse é um elogio que me envaidece muito.
─ Pensei que gostasse de ouvir elogios à sua beleza, como toda mulher. Linda como
sei que é, deve receber muitos galanteios.
Sacha não respondeu, e o duque estendeu a mão dizendo:
─ Chegue perto de mim. Quero tocá-la novamente. Quero sentir o que está usando.
Enquanto ele passava as mãos pelo vestido, perguntou:
─ De que cor é?
─ Branco, bordado com fios de prata e pérolas.
─ Parece maravilhoso! Gostaria de poder vê-la.
─ Tenho certeza de que logo poderá ─ assegurou Sacha.
Ele tocou o decote e o babado que caía sobre os ombros, dizendo:
─ Sinto a renda e o bordado, os fios de prata, as pequenas pérolas.
Suas mãos continuaram tateando e tocaram o pescoço e o rosto de Sacha.
─ Sua pele é mais lisa e mais macia do que as pérolas do bordado. E tem muito mais
calor.
Sacha estremeceu ao sentir seus dedos roçarem-lhe a pele.
Mal podia respirar.
Então ele a puxou para junto de si e disse:
─ Não lhe dei um beijo desde que chegou aqui, porque achei que com essa
bandagem você me sentiria repulsivo. Mas agora desejo beijá-la como jamais beijei uma
mulher, e sinto que também quer isso.
Sacha estava sem forças, e a voz sumira-lhe da garganta.
Seus lábios se tocaram e se uniram num longo e apaixonado beijo.
O luar que penetrava pela janela era testemunha silenciosa do arrebatamento que os
invadia. Sacha se entregara aos beijos e abraços cada vez mais insistentes e calorosos
daquele homem encantador e viril. Seus braços fortes e o calor aqueles beijos
enlouquecedores a transportavam com ele ao paraíso. O duque a estreitara tanto em seus
braços, que podia ouvir as batidas descontroladas de seu coração.
O que Sacha sentia naquele momento era o que estivera tentando definir durante a
tarde. Sim, aquilo era amor, o sentimento mais belo que poderia haver no mundo.
Por uns momentos ainda ficaram abraçados, e depois o duque disse
─ Agora precisa ir, minha querida.
Sacha parecia ter acordado de um sonho. Ergueu-se, sentindo o corpo todo tremer
com a excitação que os beijos e as carícias do duque lhe haviam provocado.
Ele tateou, procurando sua mão. Pegando-a, beijou-a e disse:
─ Sonhe comigo. Não deixarei de pensar em você um só instante.
Sacha quis dizer alguma coisa, mas não conseguiu.
Como se estivesse em êxtase, encaminhou-se até a porta. Passou por Tomkins sem
dizer nada e só quando chegou a seu quarto encostou-se à porta, pôs a mão no peito e
conseguiu respirar bem. Ali, naquele momento, compreendeu que seu mundo havia
mudado.
Jamais em seus sonhos mais loucos sentira-se daquele jeito. Estava flutuando nas
nuvens. O enlevo que sentia não podia ser descrito com palavras.
Aquilo era amor! Amor tão lindo e tão perfeito, que vinha de Deus e que, contudo,
estava centralizado na terra, em um homem. E esse homem ia casar-se com sua prima
Deirdre!

Capítulo V

Sacha despertou. Sabia que havia não somente sonhado com o duque, como também
pensado nele por muito tempo antes de adormecer.
Todo o seu corpo estava desperto e vibrava, lembrando-se de seus beijos cálidos e
apaixonados. Agora que descobrira o que era o amor realmente, achava que era algo muito
mais maravilhoso e extasiante do que havia imaginado. Sentia-se nas nuvens e, embora
soubesse que seu amor por ele era impossível, entregara-lhe seu coração e sua alma.
“Como posso ser tão absurdamente tola, sabendo que ele pertence a Deirdre?”,
pensava consigo mesma.
Agoniada, lembrou-se de que, para a prima, Talbot era apenas o duque, e não o
homem que amava. Assim, temia que eles não fossem felizes.
Saltou da cama, correu as cortinas e deixou o sol inundar o quarto. Olhou pela
janela e viu que o dia estava maravilhoso. A luz do sol banhava o lago, que parecia um
espelho, e a vegetação tinha reflexos dourados. Sacha estava embevecida, dominada pelo
encanto da paisagem e sentindo o peito inundado de amor.
Emily entrou no quarto e ficou surpresa ao vê-la já de pé.
─ Acordou cedo, milady! Todos lá embaixo comentavam como estava linda com
aquele vestido, ontem a noite!
Aquelas palavras fizeram-na lembrar-se do duque tocando seu vestido e depois seus
ombros e o rosto. Estremeceu àquela simples lembrança e um doce sentimento a invadiu,
como se ainda estivesse sentindo as ternas carícias de Talbot.
Vestiu-se então com vagar, para que o resultado ficasse perfeito.
Ao entrar na sala de jantar para tomar café da manhã, viu que a duquesa não estava
lá, como de costume.
O mordomo esperava por ela e começou a servi-la, dizendo que a duquesa tomaria o
desjejum em seus aposentos.
Sacha comparava mentalmente a fartura daquela mesa posta com esmero com a
pobreza de sua casa. A refeição era composta de trutas, pescadas nos ribeirões ali perto,
bolinhos de salmão, ovos com cogumelos e presunto defumado, preparado no próprio
castelo e ela achava uma delícia. Havia também sucos, chá, vários tipos e pães e mingau.
Sacha desceu e foi até o jardim. Andou por ali, sentindo a gostosa brisa da manhã.
Cada flor que via sugeria-lhe os diferentes sentimentos que nutria pelo duque: os mais
delicados ─ ternura, carinho e amor ─ e os mais exuberantes ─ paixão, arrebatamento e
êxtase.

Passada uma hora, que mais lhe pareceu um século, voltou ao castelo, desejando
ardentemente que ele estivesse pronto para recebê-la.
Ao entrar no castelo, a duquesa, que estava esperando por ela, disse:
─ Bom dia, querida. Desculpe-me por não tomar o café da manhã com você. Tenho
uma coisa muito importante para lhe dizer.
O modo como ela falava fez Sacha ficar apreensiva. Entraram numa sala que tinha
imensas janelas ando para o jardim. Sobre a cornija da lareira havia um enorme quadro
pintado a óleo, um retrato da duquesa quando era jovem. Era uma pintura lindíssima.
Depois de se sentarem, a duquesa disse:
─ Soube esta manhã , por intermédio do médico da nossa família, que dois
especialistas chegarão amanhã para ver Talbot.
Sacha ficou tensa e perguntou:
─ Dois especialistas?
─ Sim, querida. Um deles é o cirurgião que vai operar Talbot para remover o último
estilhaço de seu corpo, e o outro é o oftalmologista.
─ Quer dizer que irão tirar as bandagens... amanhã?
─ Sim, e espero que nossas preces tenham sido atendidas e meu neto volte a
enxergar novamente.
Ao ver a consternação estampada no rosto de Sacha, a duquesa afirmou:
─ Não fique preocupada! Já lhe disse que, como escocesa que sou, pressinto as
coisas. Estou certa de que Talbot, forte como é e tendo sido tratado com todo o nosso
carinho, ficará bom. Ah, estou muito contente, porque logo vocês poderão anunciar o
noivado! Felizmente você parece gostar muito da Escócia. Tinha muito medo de que meu
neto se casasse com uma dessas jovens da sociedade londrina que não querem sair da
capital. É um alívio para mim saber que estarão sempre vindo visitar-me aqui no castelo.
Talbot morreria se tivesse que se afastar por muito tempo daqui.
Foi fácil para Sacha dizer-lhe que encontrava muito mais prazer na vida do campos
do que em Londres, pois era o que realmente ocorria.
A duquesa, radiante, continuou:
─ Vou dizer-lhe um segredo que ainda não contei nem a meu neto: deixo, em meu
testamento, o castelo e todas as outras propriedades que possuo para Talbot. Ele é meu neto
favorito, e sei que vai passar a maior parte do ano aqui depois que se casar. Sei também que
vai cuidar do meu povo como se fosse escocês como eu.
─ Tenho certeza de que irá. E ficará emocionado ao ver a confiança que deposita
nele.
Para Sacha era um tormento conversar sobre aquele assunto, sabendo que em breve
partiria para nunca mais voltar e que nem ao menos teria a alegria de aprender a pescar
salmão com o duque, conforme ele lhe prometera.
O que mais a magoava, porém, era saber que Deirdre não o acompanharia à Escócia
e não seria uma boa companheira para ele. Oh, como ela desejava que aquele homem, tão
belo de corpo e alma, fosse feliz!
─ Muitas jovens tentaram conquistar Talbot! ─ continuou a duquesa ─, o que não é
de admirar, pois ele é um belo homem. Mas foi por você e sua beleza que ele ficou
realmente enfeitiçado. Confesso que, quando soube que estava enamorado de uma beldade
da sociedade londrina, fiquei aborrecida, pois queria para meu neto não apenas uma mulher
bonita. Sabia que ele só seria feliz tendo a seu lado uma mulher bondosa, sábia e prudente,
que o estimulasse a ajudar outras pessoas. Mas desde que a conheci, percebi que não
poderia ter havido melhor escolha. Você reúne todas as qualidades que eu desejava para a
esposa de meu neto. Desde que veio para cá, notei que até o modo de Talbot pensar e de
encarar a vida mudou.
─ Como? Em que sentido? ─ perguntou Sacha, pois sabia que tudo o que havia
acontecido com o duque ficara entre eles apenas.
A duquesa sorriu e disse:
─ Acho que soube por instinto. Porém, quando notei que lia para Talbot trechos
daquele livro maravilhoso chamado À luz da Grécia, soube que você era uma pessoa
diferente, uma vez que se interessava por esse tipo de leitura. Tenho esse livro. Considero-o
não só muito bem escrito, como profundo, construtivo e cheio de lições de otimismo.
Sacha ficou radiante com os elogios feitos ao livro, mas não podia dizer que o autor
era seu pai. Ao mesmo tempo, pensou em outra discrepância entre ela e Deirdre, que
detestava qualquer livro mais profundo.
A duquesa continou:
─ Sempre tive vontade de conhecer o reverendo Marvyn Waverley, e cheguei
mesmo a pensar em escrever-lhe, mas achei que talvez fosse impertinência de minha parte
incomodar um escritor como ele.
─ Creio que todo escritor ficaria muito orgulhoso em saber que... Vossa Alteza se
interessou por um livro de sua autoria ─ disse Sacha com cuidado, escolhendo as palavras.
─ Tenho outro livro desse mesmo autor. E talvez algum dia escreva a ele dizendo
como aprecio seus livros. Espero que continue escrevendo.
Sacha sorria para a duquesa, mas preferiu não dizer nada, para não se traia. A
duquesa continuou:
─ Eu devia ter dado À luz da Grécia a Talbot para que o lesse. Falhei nisso. Mas,
acredite, é um livro que tenho sempre comigo e em que sempre encontro um ensinamento
novo e uma bela lição de vida. Sinceramente, achei que as pessoas mais jovens talvez não
se interessassem por este tipo de literatura.
─ Como vê, sou jovem, e sinto a mesma coisa quando o leio. Trago-o sempre
comigo.
─ Vejo que temos duas coisas em comum, minha filha: o grande amor por meu
querido neto e os mesmos interesses literários. E agora, gostaria de dizer-lhe que, como
estou muito velha, sei que logo não estarei mais entre vocês. Quero que saiba que sua vinda
a este castelo foi para mim a maior das alegrias! E,como tive a felicidade de conhecê-la, sei
que posso partir tranqüila, pois meu neto estará nas mãos de uma pessoa maravilhosa! Se eu
tivesse que escolher a esposa certa para Talbot, pode crer que escolheria uma jovem como
você.
Sacha estava emocionadíssima. O modo como a duquesa falou e seu sentimento de
culpa fizeram vir lágrimas a seus olhos. Sentiu uma forte dor no peito e a garganta apertaa.
Afastou-se um pouco e foi até a janela, mas não conseguia ver nada à sua frente, a não ser
um futuro sombrio e desolador sem o duque.
Então, voltou-se para a duquesa e disse com a voz débil:
─ Suponha que eu... desaponte o duque?
A velha senhora sorriu.
─ Toda pessoa que está apaixonada acha que não é suficientemente boa para aquele
a quem entregou o coração. Sei que não desapontará Talbot, nem ele a você. Vejo
claramente que foram feitos um para o outro. O futuro de ambos será radioso!
Sacha teve vontade de gritar-lhe que estava enganada, mas disse apenas:
─ Agradeço muito as bondosas palavras que Vossa Alteza dirigiu a mim, e também
toa a confiança que me dedica. Só posso dizer-lhe que... jamais me esquecerei de sua
bondade.
A voz de Sacha saiu entrecortada pela emoção, e a duquesa consolou-a, dizendo:
─ Querida criança, sei que está preocupada com Talbot! Não fique assim! Tem que
acreditar que tudo ficará bem. Ambas sabemos que, em toda dificuldade, o importante é o
desejo de vencer.
─ Sim... farei o melhor que puder.

Meia hora mais tarde, Sacha foi avisada que o duque esperava por ela.
Em alguns minutos estava diante de Tomkins, que, antes de anunciá-la, disse em
voz baixa:
─ Sua Alteza já sabe que os médicos estarão aqui amanhã, e não está nada
entusiasmado com a notícia.
─ Posso compreender o motivo... Mas eu sei que ele voltará a enxergar.
─ Tente animá-lo, milady. Estou com Sua Alteza há anos, e inclusive o acompanhei
na guerra. Sei que é corajoso e forte como um leão, mas a cegueira é uma coisa
completamente diferente!
─ Compreendo. Fique certo de que ajudarei em tudo o que puder. Ele será muito
bem sucedido.
─ Diga-lhe, milady, que não se importa se ele enxergar ou não, e que o amará de
qualquer forma.
Sacha sentiu a lealdade do bom Tomkins, e sabia que ele sofria pelo duque e faria
tudo o que pudesse para deixá-lo feliz. Então, tranqüilizou-o:
─ Prometo que ajudarei o duque e acalmarei todos seus temores.
Ao entrar no quarto, viu Talbot sentado na cama, e, apesar das bandagens, ele
pareceu-lhe mais bonito do que nunca. Assim que aproximou-se da cama, ele disse:
─ Já sabe que os médicos virão amanhã, não?
─ Sim, sua avó contou-me. Espero que tenha ficado contente. Não há nada pior do
que... ficar esperando e se preocupando.
─ Não estou me preocupando! ─ disse ele, nervoso.
Sacha aproximou-se mais, e ele segurou-lhe a mão apertando-a com tanta firmeza,
que chegou a doer. Então, com uma voz que nem parecia a dele, disse:
─ Estou com medo!
─ Não, não deve sentir-se assim, meu querido! A operação será muito bm sucedida!
Não há o que temer!
─ Não tenho medo da dor, nem da operação. Tenho medo de perdê-la!
Sacha prendeu a respiração. Um tremor que não pôde evitar a invadiu. Controlando-
se, respondeu:
─ Não me perderá! Sei, bem no fundo do meu coração, que... haveremos de estar
sempre juntos... mesmo que não volte a enxergar... Para mim não fará diferença!
─ Tem certeza de que me aceita, mesmo se, desgraçadamente, eu ficar... cego?
─ Sempre o amarei! Pode ter certeza disso.
Ela estava dizendo a verdade, mas sabia que Deirdre jamais se casaria com o duque
se ele não recobrasse a visão.
Como se adivinhasse seus pensamentos, ele continuou:
─ Jura que se casará comigo se, ao tirarem as bandagens, eu estiver cego? Você se
sujeitaria a guiar-me como um cão, pelo resto de sua vida?
Sua voz tinha um tom tão doloroso, que deixou Sacha consternada. Ela disse bem
depressa:
─ Juro que não o abandonarei. Juro que, mesmo que fique cego, eu o desposarei e
continuarei amando-o. Sempre cuidarei de você com muito carinho.
O duque suspirou. Depois disse:
─ Se é isso mesmo que sente por mim e se está realmente disposta a me aceitar
como marido, qualquer que seja o resultado depois de removidas as bandagens, tenho uma
sugestão a fazer-lhe.
─ E... qual é?
─ Pensei nisso depois que nos separamos ontem à noite. Mas, na verdade, estou
receoso de lhe falar a esse respeito.
─ Não há o que recear...
─ Acredito que me ame, realmente. Por isso, quero perguntar-lhe se aceita casar-se
comigo antes de eu ser operado amanhã e antes de as bandagens serem removidas.
Os olhos dela se arregalaram. Olhou-o com espanto e pôde apenas articular:
─ Casar... antes da... operação?
Ele sorriu e explicou:
─ Aqui na Escócia, há um modo muito fácil de se realizar legalmente um
casamento, em segredo.
─ Em... segredo?
─ Sente-se aqui na cama, ao meu lado. Vou explicar-lhe. Depois que ficar a par de
meu plano, dirá se concorda com ele ou não.
Antes de começar, levou as mãos de Sacha aos lábios. Ela sentia-se novamente
vivendo um sonho, do qual não queria acordar jamais.
─ Agora sei que me ama realmente ─ disse o duque. ─ Quero ardentemente que
aceite meu plano, porque, se eu morrer na mesa de operações...
─ Que horror! ─ Sacha gritou. ─ Não diga isso!
─ Nunca se sabe, querida. O pedaço de metal que deve ser removido está perto do
coração. Por isso é que preciso ficar em repouso. A região estava muito inflamada também.
─ Meu Deus! Por que não me disse antes?
─ Não quis preocupá-la. Agora vou falar sobre meu plano. Já fiz meu testamento,
deixando minhas posses pessoais, menos as propriedades e terras que devo legar ao
próximo duque, para minha esposa.
─ Esqueça isso, por Deus! Como poderia querer receber algum benefício se...
estivesse... morto?
─ Sabia que diria isso. Mas mesmo que eu morra, o que espero, resta a possibilidade
de ficar cego. E você sabe, eu só suportaria essa desventura com você a meu lado, dando-
me apoio e conforto, sendo a luz dos meus olhos.
─ Você sabe que não o deixarei. Sabe que o amo... muito!
─ Quero ter certeza absoluta. Por isso quero que se case comigo secretamente, sob
as leis escocesas, e ninguém jamais ficará sabendo disso, a menos que eu morra.
─ Não compreendo ─ disse sacha novamente.
─ Vou explicar. Pedi a um amigo que venha aqui esta tarde. Trata-se do juiz
supremo do condado. Quando ele chegar, a única coisa que terá a dizer-lhe é que aceita
casar-se comigo, e diante dele, como autoridade, estaremos casados. Na Escócia, esse tipo
de casamento chama-se “casamento por consentimento” ou “casamento irregular”, mas é
perfeitamente válido e legal.
Sacha ouviu tudo com a maior atenção, mas parecia que sua cabeça estava oca, e só
de pensar na palavra “casamento”, não conseguia raciocinar direto.
O duque conclui sua explicação:
─ Isso quer dizer, minha querida, que, aconteça o que acontecer, amanhã você será
minha esposa.
Sacha estava atônita, e não conseguia articular uma palavra.
Casar-se com o duque era a coisa mais maravilhosa que lhe poderia acontecer. Mas,
ali, ela não era Sacha! Para todos, era Deirdre! Como explicar a ele? Ao mesmo tempo,
como poderia recusar o pedido de casamento?
Talbot estranhou aquele silêncio prolongado e perguntou, ansioso:
─ Estou pedindo demais? Como já lhe disse, será um casamento sigiloso. Ninguém
ficará sabendo. Depois nos casaremos na igreja. Convidaremos então os parentes e amigos,
você se vestirá de noiva, terá uma dúzia de damas de honra, haverá música e canto coral e a
cerimônia será realizada pelo reverendo. Que acha então, minha querida?
Sacha sabia que precisava dizer alguma coisa, e perguntou, quase sem voz:
─ Tem certeza de que será um casamento... secreto?
─ Só o juiz, você e eu saberemos disso. Sei que está pensando nos que seus pais
diriam. Mas se eu... ficar bom, irei para o sul, oficializaremos nosso noivado e nos
casaremos logo em seguida, com toda pompa que desejar.
─ Não penso nisso. Mas talvez... é que... talvez seja errado nos casarmos assim...
secretamente.
─ Só poderá ser errado se você não me amar o suficiente. Se me ama, mesmo
sabendo que ficarei cego, isso será uma prova de amor. Mas, se está insegura de seus
sentimentos, ou talvez arrependida do que me disse antes, deixo-a livre.
A amargura que havia na voz dele fez Sacha ficar penalizada. Então ela gritou:
─ Não! Não é isso! Sabe que amo você com toda a minha alma! É que é um grande
passo... Talvez eu esteja assustada. Tudo isso parece mais uma...aventura.
─ Está assustada? Considera isso uma aventura? Não acredito que possa pensar
assim. Até agora tem-se revelado uma pessoa firme, de pensamento claro e objetivo. Uma
pessoa que me ensinou tanto sobre a vida não pode estar assustada com algo tão simples.
Estou usando minha intuição e minha inteligência para não vir a... perdê-la.
Perdê-la era mais do que inevitável, pensou Sacha, angustiada.
De repente, como se sua cabeça se desanuviasse, deixando-a perfeitamente dona de
suas emoções, Sacha teve a certeza de que não poderia desapontar o duque. Amava-o
demais e precisava deixá-lo tranqüilo, e, mais que isso, feliz. Agora que conseguia
raciocinar com mais clareza, não havia o que temer. Ela contaria tudo a Deirdre, e depois
que o duque estivesse bom, celebrariam o casamento com todo o luxo e ostentação, de
acordo com o gosto de Deirdre.
Como se estivesse saltando de um alto rochedo para o mar, Sacha disse:
─ Se é isso o que quer de mim... aceito casar-me com você.
─ É realmente o que quer?
─ Sim! É o que eu quero!
─ Tinha certeza de que me amava. Quando nos beijamos a noite passada, isso ficou
claro para mim. Juro, minha querida, que jamais irá arrepender-se. Farei de você a mulher
mais feliz do mundo!
Dizendo isso, abraçou-a e beijou-a com ardor. Ela sentiu-se novamente transportada
para um muno etéreo, feito de sonho e encantamento. Ficaram elevados um com o outro,
naquela doce entrega que só os verdadeiros amantes podem experimentar.
Uma batida à porta tirou os dois enamorados do êxtase em que se achavam e fê-los
voltar à realidade.
─ Entre! ─ disse o duque.
Era Tomkins, que disse:
─ Sinto interromper Vossa Alteza. Trouxe os jornais.
─ Pode deixá-los nessa mesinha. Obrigado.
─ E também quero anunciar o dr. Macpherson, que acaba de chegar.
Sacha levantou-se para sair.
─ Vou deixá-lo a sós com o médico.
─ Volte às quatro. O juiz estará aqui ─ disse o duque em voz baixa ─ Espero que
não mude de idéia...
─ Pode ter certeza de que estarei às quatro.
Assim que Sacha saiu, entrou o dr. Macpherson. No hall, o médico disse.
─ A senhorita deve ser lady Deirdre Lang. A duquesa disse-me que sua presença
aqui foi o melhor remédio para o restabelecimento de nosso paciente.
─ Obrigada ─ disse ela simplesmente. ─ A cirurgia de amanhã será muito
arriscada?
─ Estou muito confiante. Creio que correrá tudo muito bem, dada as excelentes
condições físicas e o entusiasmo de Sua Alteza.
─ E quanto.. aos olhos?
─ Não posso adiantar nada sobre o assunto. Não é minha especialidade. Logo
teremos o oftalmologista conosco. Trata-se de sir Colin Knowles, que é a maior autoridade
do país em sua especialidade.
─ As bandagens serão removidas depois da operação?
─ Sim. Mas os dois médicos estarão juntos. Pode ficar tranqüila. Estamos todos
otimistas.
─ Obrigada por dizer tudo isso. Posso ficar mais confiante.
Sacha saiu dali, rezando para não encontrar a duquesa. Queria ir para seu quarto e
pôr as idéias em ordem. Nunca pensara que seu mundo, até então sem grandes perspectivas,
fosse transformar-se tão de repente. Era tudo tão confuso para ela... Como poderia casar-se
com o duque? Ela era uma impostora, e ia assumir um compromisso legal, diante de um
juiz.
Sua cabeça doía, e durante o ia ela ficou calada, tentando não demonstrar à duquesa
como estava transtornada. Felizmente a velha senhora também estava silenciosa durante o
almoço e deve tr compreendido a tensão e Sacha, atribuindo-a à operação.
As horas se passavam, impecáveis, e logo chegaria o momento em que Sacha
compareceria diante do juiz. O que mais a atormentava era o fato de ter que mentir, fazendo
do casamento, que considerava sagrado, uma farsa.
Entretanto, sabia que, quando afirmasse ao juiz que aceitava o duque como marido,
iria dizê-lo com muita veemência, pois amava-o com todas as forças de seu coração.

Pouco antes das quatro, Sacha foi aos aposentos do duque. Embora não pudesse ser
vista por ele, vestiu-se com tôo o cuidado, e Emily deixou seus cabelos um primor.
Olhando-se ao espelho, viu que não poderia estar melhor. Estava mesmo elegante e linda,
como convinha a uma noiva.
Aproximou-se da cama dele e disse suavemente.
─ Aqui estou.
Tomando-lhe a mão e levando-a aos lábios, ele disse:
─ Estive esse tempo todo ansioso para que chegasse este momento. Ainda me ama,
querida?
─ Mais que tudo na vida.
Percebendo que Sacha estava trêmula, ele tentou acalmá-la:
─ Parece que está assustada, meu amor! Não há razão para isso. Este será um
segredo só nosso, e, aconteça o que acontecer no futuro sempre a amarei e protegerei. De
hoje em diante, será só minha, e jamais nos separaremos.
Antes que ela pudesse dizer qualquer coisa, Tomkins bateu à porta e, depois e
entrar, anunciou:
─ O juiz supremo do condado veio fazer-lhe uma visita, Alteza.
Sacha viu um homem alto e bonito com as têmporas já grisalhas, aproximar-se
deles. ─ Que andou fazendo, Talbot, meu bom amigo? A duquesa disse-me que sofreu um
acidente! Por que não me avisaram antes?
─ Ninguém gosta de espalhar pelos quatro cantos as tolices que comete! ─ disse
Talbot, sorrindo. ─ Já sabe como foi o acidente, não?
─ Sim. A duquesa me contou. Saiba que sinto muito, realmente.
─ Quero que conheça minha futura esposa. Já falei a ela a seu respeito.
─ Estou encantado em conhecê-la, lady Deirdre, ─ disse o juiz, estendendo-lhe a
mão. ─ A duquesa estava me dizendo que tem contribuído para o restabelecimento do
duque.
Antes que Sacha pudesse responder, Talbot disse:
─ Agora ouça, Ian. Quero que me ajude. Primeiro quero que testemunhe que a
assinatura deste testamento que ditei para a secretária de vovó é correta e legal. Depois
quero que nos uma em matrimônio. Minha noiva e eu queremos nos casar secretamente,
perante você, segundo permite a lei escocesa.
─ Quer dizer “casamento por consentimento”?
─ Exatamente. Se alguma coisa acontecer comigo amanhã, ao ser operado, quero
que faça cumprir meu testamento da maneira usual.
─ Não resta dúvida que farei como me pede. Só estou surpreso.
─ Sei que está pensando que sou saxão. Mas não se esqueça de que, pelo lado de
vovó, tenho um quarto de sangue escocês. E é esse lado escocês que pede a um amigo
inteiramente escocês que faça o que lhe peço.
O juiz sorriu, dizendo:
─ Só posso concordar.
─ Muito bem ─ disse o duque.
Tirou seu anel de sinete, segurou a mão trêmula de Sacha e pôs o anel no seu dedo
médio. Depois disse, com voz solene:
─ Desejo apresentar-lhe, Ian Gordon, como juiz supremo deste condado, minha
esposa, a duquesa de Silchester!
O juiz olhou para Sacha, e ela disse:
─ Desejo apresentar-lhe, como juiz supremo deste condado, meu marido, o duque
de Silchester!
O juiz cobriu as mãos dos noivos com a sua e disse:
─ De acordo com as leis da Escócia, eu os declaro marido e mulher. Que Deus
abençoe e os conserve unidos para sempre!
Embora a cerimônia fosse muito simples, Sacha e Talbot acharam-na comovente.
Delicadamente, o duque beijou a jovem esposa.
Depois, voltou-se para o amigo e disse:
─ Muito obrigado, Ian. Agora, minha esposa vai deixar-nos a sós para que possamos
tratar o testamento, então falaremos sobre a próxima temporada de caça e de pesca...
Sacha deixou os aposentos do duque, muito feliz, pois notou pela voz dele que
estava muito alegre.
─ Sua esposa é maravilhosa, Talbot! Nunca vi uma jovem tão linda quanto ela. Não
admira que queira prendê-la.
Ele só pôde rir com o cumprimento do amigo.
Enquanto ia andando pelo corredor, Sacha sentia o rosto ardendo. Pensava que
talvez mulher alguma jamais tivesse sentido o que ela estava sentindo naquele momento:
dois sentimentos opostos ao mesmo tempo ─ a alegria de ter provado seu amor por Talbot e
ser considerada sua esposa, apesar de ser apenas por breves momentos, e a tristeza de saber
que estava prestes a perdê-lo para sempre!

Capítulo VI

O juiz ficou com o duque até a hora do jantar.


Enquanto Talbot se preparava para o jantar, Sacha pensava se veria Talbot naquela
noite. Desejava muito fazê-lo, pois ele seria operado na manhã seguinte.
Ela nem sabia o que deveria dizer-lhe, mas achava que poderia confortá-lo e
infundir nele o otimismo necessário para aceitar com calma o que teria, forçosamente, que
enfrentar.
Todos os sentimentos descontrolados que tivera horas antes haviam desaparecido, e
ela sentia-se calma e feliz.
“Eu amo Talbot!”, pensou Sacha. Ao mesmo tempo imaginava o que seu pai diria se
soubesse que havia se casado com o duque secretamente e que enganara a todos, fazendo-se
passar por Deirdre. Naturalmente, ele ficaria muito chocado e desaprovaria seu
comportamento.
De repente, Sacha viu-se conversando mentalmente com sua mãe, pois sabia que ela
a compreenderia.
“Não poderia comprometer a operação e Talbot, mamãe! Tenho certeza de que o
tirei do estado depressivo em que se encontrava. Fiz isso por amor a ele, mamãe, e não
espero nada em troca. Só desejo que ele seja feliz!”
─ Que deseja vestir, milady? ─ perguntou Emily.
─ Pode escolher o que achar mais bonito, Emily. Todos os vestidos são lindos!
Sacha afastou-se do guarda-roupa, pois naquele momento pensava que Talbot
jamais a veria em um daqueles vestidos, e que, na próxima vez em que ele e sua esposa
estivessem juntos, eles estariam inexoravelmente afastados um do outro.
Com uma pontada no coração, imaginou Deirdre e o duque dançando num salão
maravilhoso, sob candelabros de cristal, enquanto ele se deslumbrava com a beleza da
prima, como tantos homens já haviam feito.
Por uns instantes, Sacha sentiu inveja de Deirdre. Mas logo lembrou-se de que tinha
que ficar-lhe agradecida por proporcionar-lhe dias tão maravilhosos na Escócia e por ter
conhecido o homem mais encantador da face da Terra, que só pensara existir em sonhos.
Havia sido beijada por ele! Ah, o que sentiu quando ele a beijara! Havia aquelas emoções e
estremecia de felicidade e de gozo.
“Fui muito feliz! Estes momentos com Talbot foram tão estonteamente exultantes
que não posso pedir mais, meu Deus!” seu corpo, entretanto, ansiava pelas carícias de
Talbot e por seus beijos apaixonados.
─ Eis aqui, milady ─ disse Emily. ─ Use este vestido. Vai ficar linda como a brisa
da primavera.
Sacha voltou à pequenez daquelas coisas fúteis e vãs.
─ Está poética, Emily ─ observou ela.
Para sua surpresa, a criada corou e disse:
─ Estou pensando em meu namorado, milady.
─ Então está namorando? Pretendem casar-se logo?
─ Não sabemos ainda. Estamos economizando. Meu namorado sempre escreve
poemas, milady. Considero-os muito bonitos.
─ Desejo que sejam muito felizes, Emily.
─ Obrigado. Mas tenho que ser muito cuidadosa, porque, na Casa Grande, Hanna
me vigia o tempo todo e não me deixa sair para namorar.
─ Convém ser cautelosa mesmo. Mas quando puderem se casar, tenho certeza de
que meu tio dará seu consentimento. Fico muito contente em saber que tem alguém que a
ama e que se preocupa com você.
─ Quando a gente ama, tudo é diferente, milady.
Ah, como Sacha sabia que o amor transforma a vida!
O juiz havia partido, e quando sacha entrou na sala de estar, a duquesa estava
sozinha. Conversaram sobre a operação de Talbot, que seria feita no próprio castelo. Um
dos dormitórios havia sido preparado para esse fim.
Todo o equipamento cirúrgico viera de Edimburgo. Tomkins auxiliaria os médicos,
como enfermeiro.
─ É uma pena que eu tenha que partir depois de amanhã ─ disse Sacha.
─ Tem mesmo que ir tão depressa, minha filha? ─ perguntou a duquesa, triste.
─ Está tudo arranjado para alguém ir esperar-me em Londres e levar-me para a
outra estação, a fim de tomar o trem para casa. É que eu não sabia desta outra operação
quando vim para cá.
─ Compreendo ─ disse a duquesa. ─ Seus pais a esperam. Mas, ao mesmo tempo,
sei que Talbot ficará aborrecido.
─ Ainda não lhe disse que vou partir. Acho que não seria conveniente preocupá-lo
antes da cirurgia.
─ Não, não! Além de fazê-lo sofrer, poderia ser perigoso.
Enquanto se dirigiam ao quarto do duque, a duquesa manteve-se calada. Sacha sabia
que ela estava desapontada, mas nada podia fazer. Se dependesse dela, ficaria no castelo
para sempre.
Ao entrarem nos aposentos de Talbot, Tomkins, muito cuidadoso com seu paciente,
como sempre, disse:
─ Alteza, devo lembrá-la de que o duque deve repousar muito e não dormir tarde.
─ Obrigada, Tomkins, mas só viemos dar boa-noite a meu neto. Não nos
demoraremos.
Ele abriu a porta do quarto e as duas entraram.
O duque parecia estar de ótimo humor e muito feliz. Seu rosto estava calmo e ele
sorria.
─ Como está se sentindo, meu menino? ─ perguntou a duquesa.
─ Muito feliz!
─ Estou contente em vê-lo assim. Viemos apenas dar-lhe boa-noite; Tomkins insiste
em que deve dormir cedo.
─ Tomkins tem razão, vovó.
Ela beijou o neto no rosto, dizendo:
─ Boa noite e Deus o abençoe! Quando o juiz saiu, disse-me que espera que fique
bom logo, para irem pescar salmão.
─ Já fizemos até uma aposta para ver quem pega mais peixes.
─ Acho que está querendo lesar Ian Gordon. Nunca soube que ele levasse vantagem
sobre você, em se tratando de pescar salmão ─ disse a duquesa, sorrindo.
─ Sempre há uma primeira vez...
Ela saiu, e da porta, disse a Sacha:
─ Só tem dois minutos, Deirdre! Não deixemos Tomkins zangado.
Quando a porta se fechou, Talbot disse:
─ Ouça, querida, sei que vovó e Tomkins fariam o maior barulho se ficasse comigo
agora. Mas tenho muitas coisas para lhe dizer. Ponha sua roupa de dormir e venha ver-me
daqui a uma hora e meia, quando tudo estiver quieto.
─ Há alguma coisa que quer que... eu faça... para você?
─ Se estiver como medo, irei até seu quarto!
─ Claro que não! Está louco? Pode machucar-se!
Sacha viu que ele estava rindo, e só dissera aquilo para ela se decidir rapidamente.
─ Então, virá? ─ insistiu.
─ Se quer assim... Mas... e Tomkins? E sua avó?
─ Se for cuidadosa, ninguém saberá. O quarto de vovó é longe do meu, e ela se
recolhe cedo. Tomkins, apesar e dormir no quarto ao lado, não vai querer me pertubar
pensando que peguei no sono.
─ Está bem... Virei. ─ A voz de Sacha era trêmula.
Talbot beijou-lhe a mão.
─ Não me deixe esperando muito tempo. Sabe que não fará bem à minha saúde.
─ Está fazendo chantagem!
─ Estou mesmo precisando falar muito com você. E não estou brincando ao dizer
que, se não vier, ficarei aborrecido e serei mesmo forçado a ir ao seu encontro.
─ Vejo que não está nada comportado esta noite. Mas virei por uns instantes apenas,
se isso vai fazê-lo feliz!
─ Era isso o que eu queria ouvi-la dizer.
Sacha saiu do quarto e encontrou Tomkins esperando-a no hall.
─ Pode ir descansada, milady, o duque terá uma noite muito tranqüila.
─ Tenho certeza disso. Sei que ele não poderia estar em melhores mãos, e sou-lhe
muito grata.
Ao chegar em seus aposentos, Sacha trocou de roupa, ajudada por Emily.
─ Você está lembrada de que partiremos depois de amanhã, não? ─ disse Sacha.
─ Claro, milady! Amanhã arrumarei a bagagem, não se preocupe. Gostei muito de
vir conhecer a Escócia, milady, mas estou feliz em voltar para casa.
─ E feliz porque vai ver o namorado, suponho.
─ Devo dizer que foi com muito gosto que cuidei da senhorita. Mas, chegando em
casa, terei que enfrentar a srta. Hanna, que me faz correr o dia inteiro como seu fosse uma
lebre, e lady Deridre, que não é bondosa como a senhorita, não.
Sacha não quis falar nada sobre a prima, pois não seria delicada e disse apenas:
─ É bom mesmo voltar para casa, não importa como tenham sido agradáveis os dias
passados fora.
Vestiu uma linda camisola e um negligê de seda azul, enfeitados com fina renda.
Enquanto escovava vigorosamente os cabelos, pensava que a vida em sua pequena casa, na
vila, não mais seria a mesma, pois seu coração ficaria na Escócia, com Talbot.
Depois que Emily saiu, ela ajoelhou-se para fazer as orações da noite. Pediu a Deus
pela saúde do duque e agradeceu por havê-lo conhecido.
Sobre a cornija da lareira havia um grande relógio. Sacha ficou olhando para ele,
achando que o tempo estava passando muito devagar. Pensava que aquela seria a última vez
em que veria seu querido Talbot, e ansiava pelos beijos que, com certeza, lhe daria.
Quando achou que estava na hora de ir ao quarto delem saiu, muito devagar e com
todo o cuidado, pelo corredor. O castelo todo estava em silêncio. Sacha pôde enxergar o
caminho, porque ainda havia algumas velas ardendo nas arandelas.
A portado hall, nos aposentos do duque, estava apenas encostada e ela foi entrando,
tateando. Abriu a outra porta e, afinal, encontrou-se no quarto. Viu Talbot sentado na cama,
pois havia duas velas acesas no castiçal no criado-mudo.
─ Você veio! ─ disse lê com sua voz profunda.
─ Estou aqui... ─ respondeu ela, baixinho.
Seu coração batia descompassado.
─ Abra as cortinas e descreva-me como está o céu.
Sacha fez o que ele lhe pediu e disse:
─ O céu está todo estrelado e a lua ilumina toda a paisagem com seus raios de prata.
Oh, Talbot! Está tudo tão lindo!
─ Então apague as velas. Deixemos só a luz do luar iluminar o quarto.
Assim que ela se aproximou da cama para apagar as velas, Talbot segurou-a pelos
ombros e disse:
─ Quero saber o que está usando.
─ Creio que a duquesa ficaria... chocada se soubesse... mas estou usando uma
camisola de seda azul, e um negligê, que forma o conjunto.
Ela sentiu as mãos do duque acariciando seu pescoço e depois descendo pelo colo,
até encontrar os pequenos botões de pérola que fechavam o lindo negligê. Então, começou
a desabotoá-los um a um.
Sacha sentiu as vibrações e o magnetismo que vinham dele, deixando-a ao mesmo
tempo trêmula e extasiada.
Lentamente ele tirou o negligê de Sacha e o atirou no soalho, e ela apenas emitiu um
débil som de surpresa, pos ele já a abraçava e beijava ardentemente.
─ Minha adorada, você é minha esposa, e quero tê-la em meus braços, como já a
tenho em meu coração!
Ali abraçados, na enorme cama, apenas o tênue raio de luar era testemunha do
êxtase em que os dois se encontravam.
Sentindo a rijeza do corpo do duque contra o seu, Sacha conseguiu dizer apenas:
─ Por favor... nós... não...
Novamente ele sufocava suas palavras com beijos.
─ Você é minha, e me ama como eu te amo! Oh, como eu te quero!
Sacha entregou-se à magia e ao magnetismo que vinham daquele homem viril e
encantador, por quem estava loucamente apaixonada. Ela não era mais um simples ser
mortal. Naquele momento era um raio de luz suave e diáfano, e não estava na terra, mas
entre os deuses.
─ Só agora compreendo o que é o amor! ─ disse o duque. ─ Sempre o busquei com
ansiedade e obstinação, e só me decepcionei. Mas agora o encontrei, querida! Você deu um
sentido novo à minha vida, amada do meu coração!
─ Também te amo muito! Senti que lhe pertencia desde a primeira vez em que o vi.
Ele começou a beijar-lhe a testa, os olhos, o nariz, os pescoço, e Sacha sentia-se
dominada por sensações indescritíveis.
─ Eu te amo e te desejo! ─ disse ele com voz rouca. ─ Minha adorada, não nos
importaremos com o que possa acontecer amanhã. Temos esta noite só para nós dois.
Mais apaixonadamente, ele continuou a beijar Sacha e a acariciar seu corpo, que
vibrava.
O quarto parecia muito mais iluminado, pois ao raio de luar se juntava um
resplendor que irradiava os corpos dos amantes ─ a luz o verdadeiro amor!
E essa chama os incendiou e, em êxtase sentiram-se renascer, em outras paragens,
não terrenas, onde flutuavam e onde só havia beleza e amor. Sim, aquele era o paraíso!

Muito mais tarde, Talbot disse, com sua voz profunda e quente:
─ Como pode uma pessoa ser tão maravilhosa? Querida, quero que saiba que não
queria que isso acontecesse assim, esta noite.
─ Eu te amos... demais! Mas não sabia que amar era... assim.
─ Como se sente?
─ Penso que não conseguirei descrever com palavras ─ disse Sacha com ternura. ─
Havia música no ar, e senti que éramos transportados em êxtase para o paraíso.
Talbot beijou-lhe a testa.
─ Minha adorada esposa, era assim mesmo que esperava que se sentisse.
─ E... você?
─ Como você encontrei a perfeição do amor, que sempre busquei e já pensava não
existir. Essa perfeição é uma coisa tão grande, que penso nela como parte de algo divino.
Sacha exultava.
─ É isso! Foi assim que me senti também! Se sentimentos tão puros nos invadiram,
não poderíamos estar fazendo nada... errado.
─ Claro que não há nada errado! Você é minha adorada esposa, e durante toda a
minha vida irei amá-la, adorá-la e deixá-la feliz, como esta noite!
Com um estremecimento, Sacha lembrou-se d que “a vida toda juntos” terminaria
naquela noite. Não iria, porém, pensar naquilo. O momento era glorioso devia prolongá-lo.
─ Eu te amo muito, querido! ─ sussurrou-lhe ao ouvido.
─ Adoro ouvi-la dizer isso. Mas já provou seu amor por mim, como jamais outra
mulher talvez o fizesse.
Dizendo isso, ele começou a beijar cada parte do seu corpo tão ternamente como se
fosse algo muito infinitamente precioso.
─ Como pode ser tão perfeita, querida? Você reúne tudo o que eu sonhei encontrar
em uma mulher, para então torná-la minha esposa. Aliado à beleza, você tem o caráter mais
magnânimo que jamais encontrei em outra pessoa.
Mais uma vez se abraçaram e se entregaram um ao outro apaixonadamente,
enquanto o luar banhava seus corpos ardentes.

Muito tempo depois Sacha abriu os olhos. Percebeu que dormira um pouco. Sua
cabeça estava deitada sobre o peito do duque, que ainda estava adormecido. Seu sono
plácido a fazia saber que ele estava tão feliz quanto ela.
À luz do luar, Sacha podia ver-lhe as feições. Parecia impossível que, depois e
haverem alcançado o mais elevado êxtase, ainda estivessem na terra.
Ela queria beijá-lo e afastar-se dali, pois já se excedera demais. Achava que todas as
emoções que ele vivera nas últimas horas não podiam prejudicá-lo, pois a felicidade e o
gozo só podem trazer força, alegria e vontade de viver. Sim! Ela estava mais confiante do
que nunca de que iria correr muito melhor do que todos esperavam.
Então, beijando ternamente o homem por quem estava perdidamente apaixonada,
deixou o quarto de mansinho.
Ao fechar a segunda porta, sentiu que deixava o paraíso atrás de si. Pensou então se
não seria mais honesto contar ao duque que não era Deirdre. Sabia que ele amava Sacha e
não Deirdre. Sabia que a prima jamais o faria feliz. Imediatamente, lembrou-se de que,
como cavalheiro, ele não iria romper um compromisso, mesmo não sendo oficial. E, o que
é pior, talvez viesse a detestá-la, sabendo que não passava de uma impostora.
“Não há nada que eu possa fazer. Só me resta amar Talbot secretamente, da mesma
forma que estou unida a ele em segredo. Mas pertencerei a ele durante toda a minha vida.
Chegando a seu quarto, Sacha deitou-se e, afundando a cabeça no travesseiro,
chorou muito. Sentia que a separação iminente ia ser uma tortura insuportável, e temia não
encontrar forças para suportar o que imaginava seria sua crucifixão.

Na manhã seguinte Emily acordou, dizendo:


─ Já levaram Sua Alteza para o quarto onde vai ser operado, milady. O sr. Tomkins
está em tal estado, que parece que é ele que vai ser todo cortado.
─ Ele quer muito bem ao duque. Mas... por que tão cedo?
─ Não é tão cedo. Quando entrei no quarto, horas atrás, estava dormindo, e não quis
despertá-la.
─ Emily, eu tinha que tomar desjejum com a duquesa! Deveria ter-me chamado!
─ Pois foi Sua Alteza mesma que pediu para não chamar a senhorita. Ela achou que
não devia ter dormido bem, de tanta preocupação. Mas, como agora já são onze horas,
achei melhor vir acordá-la, milady, para que não ficasse brava comigo.
De fato, Sacha quase não dormira. Lembrava-se de que ainda estava acordada aos
primeiros clarões da aurora que se filtravam através das cortinas. Devia ter dormido logo
depois.
Sua cabeça estava pesada, e seus olhos, inchados. Lavou o rosto com água bem fria,
esperando que ninguém notasse que estivera chorando. Mas tranqüilizou-se, pois, se a
duquesa observasse seu abatimento naquela manhã, iria, naturalmente, pensar que ela
estava preocupada com a operação de Talbot.
Quando terminou de vestir-se, aproximou-se da janela, como a encontrar forças,
como a emprestar do sol a vida, o calor, os dons com que por muitos milênios ele vinha
presenteando, dadivoso, a Terra e todos os seres viventes.
Ao encontrar a duquesa, Sacha pediu desculpas pelo atraso, mas a bondosa senhira
lhe disse, meigamente:
─ Não se desculpe, minha querida. Sei que não deve ter dormido bem. Tenho,
porém, uma boa notícia para lhe dar. Tomkins disse-me que Talbot estava muito animado
pela manhã, e foi para o quarto onde ia ser operado contando piadas e rindo
descontraidamente. Parecia até que ia a uma festa.
─ Fico muito feliz com essa ótima notícia!
Ela sabia que Talbot devia estar mesmo muito feliz. Só temia que talvez a emoção e
a excitação da véspera tivessem sido fortes demais para ele. Isso confirmava seu ponto e
vista de que felicidade e amor sempre fazem bem, sempre estimulam e fortalecem.
As horas pareciam não passar naquela sala de visitas. Havia pouco a conversar.
Depois de algum tempo, o médico que havia operado o duque entrou na sala.
─ Boas notícias, sir Lindsay? ─ perguntou a duquesa.
─ Ótimas notícias. Foi uma cirurgia simples, visto as excelentes condições físicas de
seu neto. Depois de uns dias de repouso, ele estará como antes.
A velha senhora juntou as mãos, dizendo:
─ Graças a Deus! E, claro, à sua habilidade de cirurgião, sir Lindsay!
Lembrando-se que Deirdre não conhecia o médico, apresentou-os:
─ Quero que conheça sir Lindsay Hardwick, um renomado médico e cirurgião, que
é também o médico do príncipe-consorte.
Ao cumprimentá-la, sir Lindsay disse:
─ Fico muito feliz em conhecê-la pessoalmente. Já soube como contribuiu
grandemente para o bem-estar de Sua Alteza, antes de minha chegada. Assim, fico feliz em
ter tão boas notícias para lhe dar sobre a operação de meu paciente.
─ É com muito prazer que as recebo ─ disse Sacha com os olhos rasos de lágrimas.
─ Sir Colin também tem notícias, mas ele mesmo virá daqui a pouco trazê-las ─
acrescentou sir Lindsay.
─ Os olhos de meu neto estão bem?
─ Sir Colin acha que sim. Ele não fez um exame completo, porém, enquanto Sua
Alteza estava inconsciente, examinou os olhos dele e acredita que está tudo bem.
A duquesa respirou aliviada, dizendo:
─ Deus certamente ouviu minhas preces.
─ Agora Sua Alteza vai ser levado para seus aposentos, devendo dormir vinte e
quatro horas seguidas. Creio que dentro de pouco tempo estará em perfeita forma.
─ Todas essa boas notícias deram-me novo alento! ─ disse a duquesa. ─ E agora,
esperemos o almoço, que logo será servido. E, se estiverem dispostos, poderão chegar até o
rio para pescar uns salmões.
Sir Lindsay sorriu.
─ É um convite irrecusável. Como sabia que, certamente, ia fazê-lo, sir Colin e eu
prudentemente reservamos nossas passagens de volta para depois de amanhã.
─ Se quisessem ir antes, eu ficaria muito aborrecida!
Sir Lindsay e a duquesa continuaram conversando animadamente, e Sacha chegou
até a janela, procurando conter as lágrimas, num sentimento que era um misto de exultação
e infortúnio. Exultação em saber que seu amado estava bem. Infortúnio porque sabia que
não poderia falar com Talbot, nem ao menos para lhe dizer adeus.
A simples idéia de não mais voltar a vê-lo, atravessava-lhe o peito como uma espaa.
“Este é o fim! A Cinderela volta para seus farrapos e para as cinzas de onde veio,
tendo como consolo apenas as lembranças dos doces momentos que viveu com o belo
príncipe que havia capturado seu coração”, pensava Sacha.
As lágrimas corriam-lhe pela face, sem que ela pudesse evitá-lo.
Sir Colin juntara-se à duquesa e a sir Lindsay. Enxugando as lágrimas
discretamente, Sacha aproximou-se dos três, ao mesmo tempo em que era anunciado o
almoço.
Depois do almoço, a moça foi para seus aposentos. Ao entrar no quarto, Emily já
estava atarefada fazendo as malas, o que a deixou mais arrasada ainda.
Se ao menos pudesse ver Talbot, talvez tivesse mais forças. Sabia, porém, que
Tomkins passaria a noite toda ao lado dele, como uma galinha choca que não deixa seus
pintinhos.
Sacha precisava desabafar com alguém, e disse a Emily:
─ Vamos partir amanhã, e nem vou poder despedir-me de Sua Alteza.
Emily, que estava pondo vestidos e mais vestidos no grande baú de couro, voltou-se
para ela e, vendo a tristeza estampada em seu rosto, disse:
─ Não sou boba, milady, nem surda. Se me permite dizer, acho que o lugar do
duque é aqui na Escócia. E lá na Casa Grande, achamos que lady Deirdre deve ser casar
com lorde Gerard. Mas um duque é um duque... e um lorde... é um lorde.
Emily parou subitamente, como se achasse que estivera falando além da conta.
Sacha apenas lhe pediu:
─ Você terá muito cuidado em não comentar que estive aqui, não? Pense em como
lady Deirdre ficaria furiosa!
─ E a srta. Hanna! Deus me livre de desobedecer à srta. Hanna! Jamais me
arriscaria!
─ Você foi atenciosa comigo, e sua ajuda foi inestimável! Tenho certeza de que
ambas vão ficar muito contentes com você!
─ Tenho minhas dúvidas! Mas, se eu puder, gostaria de voltar a vê-la. Talvez possa
ir até sua casa.
─ Mas é claro, Emily! Sabe que será sempre bem-vinda. Poderá levar seu namorado
para eu conhecer. Assim, terei a oportunidade de dizer-lhe que é um homem feliz por
encontrar uma pessoa bondosa como você.
Os olhos de Emily brilharam.
─ É muito bondade sua! Todo mundo diz que a senhorita é bondosa como lady
Margaret.
Sacha ficou contente, pois não poderia receber maior elogio.
A tarde transcorreu sem novidades, e ela sentia as horas passarem, ligeiras, para
aumentar sua aflição. Quando a noite chegou, não conseguiu dormir. A lua e as estrelas,
que na noite anterior haviam testemunhado sua total entrega a Talbot e haviam enfeitado de
luz e encantamento aquela noite inesquecível, agora testemunhavam seu sofrimento.
Chorando baixinho, ela revivia os momentos de êxtase que vivera com Talbot, e
pensava que, a poucos metros dali, ele talvez estivesse sonhando com ela.

CAPÍTULO VII

No trem que a levava para o sul, Sacha sentia-se como se fosse Perséfone, deixando
o sol da primavera, sendo arrebatada por Hades e levada para a escuridão do mundo
subterrâneo.
Enquanto seu corpo todo a fazia lembrar-se de Talbot, seu cérebro lhe assegurava
que tudo chegara ao fim e que viveria só da lembrança daquele amor impossível.
Tentava consolar-se, pensando que, quando Talbot a fizera sua mulher, a emoção
que sentira fora tão sublime, que valia por uma vida, e talvez bem poucas pessoas tivessem
tido tal emoção. Queria guardar com muito carinho a lembrança daquela noite em que,
banhados pelo luar e inundados pela luz do amor, haviam se tornado marido e mulher.
Dentro de poucos dias o duque viria para o sul encontrar-se com Deirdre, e ela
voltaria à sua vida humilde, cuidando dos afazeres da paróquia e ajudando o pai.
Sentiu uma grande vontade de chorar, mas controlou-se o mais que pôde, não só por
causa de Emily, mas também por estar num trem.
Antes de deixar o castelo, Sacha escreveu uma carta para a duquesa, pois haviam
saio muito cedo, antes do horário habitual de ela levantar-se.
Na carta, havia uma parte que dizia:

“Jamais me esquecerei sua bondade e atenção. Conservarei para sempre, em minha


memória, a beleza do pantanal, com sua profusão de cores e luzes, o encanto e sue jardim e
o lago banhado pelo luar”.

Essas imagens jamais se apagariam se sua memória, aliados à figura magnetizante


de Talbot.
Sacha havia pensado em deixar uma carta para o duque também. Porém, seria
arriscado, porque ele poderia comparar sua letra à de Deirdre. Então, escreveu apenas, em
letra de forma:

“EU TE AMO DE TODO O CORAÇÃO!”

Pois então o papel onde escrevera essa pequena mensagem num envelope
endereçado ao duque e deixou-o sobre a escrivaninha.
O trem em que viajavam era um expresso, e logo estavam atravessando a fronteira
da Inglaterra. Deixavam para trás o pantanal, as montanhas cobertas de pinheiros, os vales,
os rios cristalinos e encachoeirados, os lagos imensos.
O trem chegou atrasado a Londres.
O sr. Evans, com muita presteza, encarregou-se da bagagem, e, sem perda de tempo,
foram para a estação de Paddington pegar outro trem, que as levaria para casa.
Encontrariam Deirdre no caminho.
Sacha estava muito calma, pois agora, que perdera Talbot, perder o trem não tinha a
menor importância. Emily, no entanto, estava agitada.
Só ao ver Deirdre na pequena estação é que Sacha sentiu um pouco de medo de
contar-lhe o que se passara.
Talvez ela não gostasse de alguma coisa, ou achasse que a prima havia cometido
algum engano.
Deirdre estava linda. Seu chapéu era enfeitado de rosas, e ela carregava um buquê
de rosas nas mãos. Lorde Gerard a acompanhava.
Quando Deidre e o lorde se despediram, Sacha notou, pela expressam de ambos,
que estavam apaixonados um pelo outro.
Ah, como ela exultaria se Deirdre desmanchasse o noivado com Talbot, já que não o
amava!
Quando o trem começou a se movimentar novamente, Deirdre disse, zangada:
─ Você está atrasada!
─ O expresso chegou atrasado, e por um triz não perdemos este trem, que também
atrasou um pouco.
─ Bem, estão aqui. É isso que importa. Esta parte do plano deu certo... E... o que
tem para contar-me? Correu tudo bem?
Dizendo isso, Deirdre pôs as rosas na poltrona ao seu lado e sentou-se.
─ Tudo certo ─ disse Sacha.
─ Ninguém suspeitou que você não era eu?
Sacha estranhou que ela não perguntasse antes pela saúde do noivo, mas respondeu:
─ Não tiveram a mais leve desconfiança. O duque foi operado ontem, e hoje iam
tirar as bandagens se seus olhos.
─ Então foi bom mesmo você ter vindo, ou então ele a veria. Ah, Sacha, você nem
imagina como nos divertimos! Havia tantas atividades interessantes, e tantas festas, que eu
me deitava tarde todas as noites. Devo estar abatida e com olheiras.
─ Você está linda, Deirdre! ─ disse Sacha com sinceridade.
─ Harry também me disse isso. Mas quando chegar em casa, vou descansar. Não há
coisa que mais prejudique a beleza do que dormir pouco.
Deirdre tirou um pequenino espelho da bolsa e mirou-se nele. Depois continuou:
─ Foi tudo maravilhoso! Nunca passei dias mais alegres e mais excitantes em minha
vida. Nunca fui tão admirada! Harry está doido por mim!
─ Tem razão de estar! Que homem não ficaria?
Realmente, Sacha estava achando a prima lindíssima, e tinha certeza de que, se
Talbot as visse lado a lado, saberia quem era Deirdre sem hesitar. E era Deirdre que ele
amava. Era com ela que se casaria...
Então imaginou o duque abraçando Deirdre e dizendo-lhe as mesmas doces palavras
que lhe havia dito naquela noite de sonhos. Sentiu como se uma espada a transpassasse.
Suspirou e pôs a mão no peito.
Deirdre olhou para prima e disse, com indiferença:
─ Vestida assim, devo dizer-lhe que também está muito mais bonita que de
costume.
─ Foi bondade sua dar-me roupas tão lindas. Estou muito grata.
─ Tinha que lhe dar essas roupas. Como poderia fingir que era eu, usando aqueles
farrapos que costuma usar? A propósito, como é a duquesa?
─ Encantadora! Ela disse que Talbot é seu neto preferido, e que vai deixar-lhe o
castelo, quando morrer.
─ Pelo visto, Talbot logo herdará esse castelo, pois sei que a duquesa é bem velha.
Mas se há um lugar onde não quero morar é na Escócia.
─ Deirdre... Receio ter que dizer-lhe isso... Mas não pude deixar de dizer ao duque
e à duquesa que... adorava a Escócia... que achava aquele país... maravilhoso! E é mesmo,
Deirdre, é lindo!
─ Pois disse uma grande tolice! Você sabe muito bem que detesto a vida no campos,
seja na Escócia ou na Inglaterra... ou em qualquer outra parte, Sacha!
─ Precisamos ter uma conversa bem detalhada sobre minha viagem ─ disse sacha,
ignorando a raiva súbita da prima.
─ Há muita coisa muito séria que preciso lhe dizer antes de voltar a ver o duque.
Infelizmente, não posso conversar sobre isso aqui, nem agora.
─ Já vi que fez uma porção e bobagens que só vão complicar minha vida ─ disse
Deirdre rispidamente ─ Mas acho que não há pressa, uma vez que Talbot só poderá vir para
o sul daqui a uns dez dias.
Sacha insistiu:
─ É muito importante! Preciso lhe dizer o quanto antes.
─ Está bem, não se preocupe. Posso ir à sua casa, ou mandar buscá-la. Vou resolver,
e mando um criado avisá-la.
Sacha queria falar sobre o casamento secreto, mas Deirdre não parecia nada
interessada, e já começara a falar sobre seu enxoval.
─ Quando chegar em casa, mamãe deverá ter feito um horário para mim. Estarei
atarefadíssima nestas duas semanas. Devo ir a Londres depois e amanhã, fazer umas
compras para o enxoval. Vamos também providenciar o vetsido de noiva, que vai ser o
mais maravilhoso que possa existir.
Sacha estava ficando nervosa com a falta e interesse a prima pelas coisas mais
sérias. Quando chegaram à estação onde iriam descer, deu graças a Deus, pois começava a
ter dor de cabeça.
Duas carruagens esperavam por elas. A primeira pessoa que desceu do trem foi
Hanna, que já começou a dar ordens sobre a bagagem, deixando Emily atarantada.
Finalmente, tudo foi levado para uma das carruagens. Sacha e Deirdre se
acomodaram no da frente.
Ao se despedir de Emily, Sacha disse:
─ Muito obrigada por tudo, Emily, você cuidou muito bem de mim. Hanna pode
sentir-se orgulhosa de sua discípula.
Depois ela se dirigiu a Hanna, dizendo:
─ Emily foi maravilhosa, Hanna. Não sei como teria me arranjado sem ela.
─ Fico contente em saber disso, srta. Waverley.
Sacha achou que Hanna não se impressionara com o que ela havia dito sobre Emily.
Quando a carruagem começou a andar, Deirdre disse:
─ Você não vai comentar nada com seu pai, não, Sacha?
─ Fiz-lhe uma promessa, Deirdre! É claro que não vou quebrá-la.
─ Tenho uma coisa para dizer-lhe, Sacha.
─ Pode dizer, Deirdre.
─ Harry acha que seria... arriscado você ir à minha festa de noivado e à do
casamento. Não é por causa do duque, que não viu o seu rosto, mas por causa da duquesa,
que poderá reconhecê-la. Acredito também que o duque trará seu camareiro.
─ Sim, claro. ─ Sacha pensou nos olhos observadores de Tomkins, que facilmente
notaria a diferença entre ela e Deirdre.
─ E, como Harry sugeriu, você receberá o convite e prometerá vir, só que na última
hora inventará uma doença qualquer.
─ Você não acha que o pessoal da vila estranhará isso?
─ O que o pessoal da vila possa pensar não importa. Quem vai se preocupar com
esse povo?
Sacha não respondeu.
Deirdre se despediu da prima, dizendo:
─ Muito obrigada por ter-me ajudado.
─ Prometa que não vai se esquecer de que precisamos nos encontrar para
conversarmos sobre outras coisas... a respeito do duque.
Naquele momento Sacha pensou que teria que dar o anel de Talbot a Deirdre.
Perderia, assim, o único sinal de sua união com ele.
─ Não me esquecerei. Mas há muito tempo ─ respondeu a prima.
Os criados de libré abriram a porta e ajudaram Sacha a descer.
A porta e sua casa e abriu e Nanny veio correndo ao seu encontro, enquanto a
carruagem seguia em frente.
Enquanto ela e Nanny se abraçavam, a outra carruagem que trazia a bagagem
chegou.
Hanna cumprimentou Nanny com frieza, e os dois criados deixaram o pesado baú e
as diversas caixas de chapéus no hall.
Nanny foi fechar a porta e voltou, perguntando, eufórica:
─ Oh, que saudae, srta. Sacha! Fez boa viagem?
─ Esteve tudo ótimo, Nanny. Também senti muito sua falta e a de papai.
As duas subiram, e quando Sacha estava tirando o chapéu e a capa de viagem,
lembrou-se de que ainda tinha cinco soberanos de ouro, que haviam sobrado do dinheiro
que Deirdre lhe dera. Separou-os, para não esquecer de devolvê-los à prima.
O que tinha para dizer a Deirdre era muito importante, e ela estava preocupada com
o desinteresse da prima.
Estava pensando em escrever-lhe um bilhete, insistindo em que Deirdre a
procurasse logo que voltasse de Londres. Então ouviu seu pai chamando-a. Desceu as
escadas correndo e atirou-se em seus braços.

Sacha saiu da igreja pela porta lateral e cumprimentou alegremente várias pessoas
idosas que também haviam assistido à cerimônia religiosa.
Era domingo, e ela gostava de ir à igreja bem cedo, por haver menos gente, e por ser
uma cerimônia mais simples, sem o coro. Sentia-se mais recolhida, e gostava de ver o alto-
mor iluminado pelo sol da manhã. Parecia transportada ao céu, e uma grande paz a invadia.
O altar, que ela mesma havia arrumado e enfeitado com lírios brancos, estava lindo,
banhado pela luz do sol. Dos lírios vinha um suave perfume. A pequena igreja era o
símbolo da pureza e do amor. Ela lembrara-se muito do duque e rezara com fervor para que
fosse muito feliz.
Sacha atravessou o pequeno cemitério ao lado da igreja, depois entrou no jardim
bem-cuidado de sua casa.
Naquela manhã, queria tomar um pouco de sol. Desamarrou as fitas do chapéu e
tirou-o.
Como era domingo, estava usando um dos vestidos que Deirdre lhe dera.
Enquanto andava pelo jardim, a ampla crinolina movimentava-se graciosamente.
Ela pensava no duque, e imaginava que ainda devia estar na Escócia. Talvez já estivesse
bem disposto e completamente recuperado.
Fazia exatamente oito dias que o havia deixado. A festa de noivado se daria na
semana seguinte. Ela e o pai já haviam recebido o convite. Sacha pensou em ir à festa só
para ver Talbot. Ficaria escondida e evitaria encontrá-lo. Poderia vê-lo sem ser vista.
Mas o bom senso fê-la tirar imediatamente essa idéia maluca da cabeça. Além se ser
arriscado, ela não estaria sendo honesta com a prima.
Sempre que a saudade de Talbot apertava, ela pegava o anel que lhe dera, beijava-o
e chorava muito.
Para aumentar suas preocupações, Deirdre não havia voltado de Londres, e ela ainda
não pudera contar a prima sobre o casamento secreto. Talvez ela chegasse no dia seguinte,
e Sacha com certeza seria chamada à Casa Grande.
Ouviu Nanny entrar na cozinha e perguntou-lhe se precisava de alguma ajuda.
─ Não há muito o que fazer, senhorita ─ respondeu Nanny. ─ Vou fazer apenas chá,
um ovo para o reverendo e torradas.
─ Está ótimo, Nanny ─ disse Sacha.
Comparava a magra refeição que costumava fazer com o magnífico desjejum do
castelo. Naturalmente, pensava que jamais voltaria a fazer refeições como aquelas.
Foi para a sala de estar e pousou o chapéu numa cadeira, ao passar pelo hall. Depois
abriu as cortinas para deixar o sol entrar, ajeitou as almofadas sobre as poltronas. Sobre a
pequena mesa estava o último manuscrito de seu pai. Ele estivera lendo-o na noite anterior,
e deixara-o sobre a mesinha. Sacha juntou as folhas cuidadosamente e colocou-as numa
pasta. Gostaria de poder ler para o duque o que o pai havia escrito.
Ela já conhecia aquele novo trabalho, e achava que, além de bem-escrito, era
poético e muito comovente. Tinha certeza de que Talbot iria apreciá-lo.
Lembrando-se de que a duquesa elogiara os livros de seu pai, Sacha pensou que
talvez esse novo livro vendesse bem. Além de a venda dos livros ajudá-los a se manter,
Sacha gostaria que mais pessoas apreciassem toda a beleza e a profundidade que eles
continham.
Acabando de guardar o manuscrito na secretária, ouviu passos. Alguém vinha
entrando na sala. Sacha virou-se dizendo:
─ Papai, eu...
As palavras morreram-lhe nos lábios.
Quem estava de pé, ali à sua frente, não era seu pai mas um homem alto,
maravilhoso, elegantemente vestido, que ela julgou ser uma aparição. Era o duque de
Silchester!
Então seus olhos escuros encontraram os dela, e Sacha sentiu que tudo girava ao seu
redor. Olhou para o duque e viu que ele a mirava fixamente.
Por um momento sacha ficou imóvel, como se fosse feita de pedra.
O duque fechou a porta atrás de si e Sacha conseguiu dizer, numa voz que nem
parecia ser a sua:
─ Deve haver um engano... Aqui é a casa do pastor... Deve estar procurando... a
Mansão Langstone.
─ Sei que esta casa é a casa do reverendo Waverley.
A voz do duque era profunda, e ele continuou a olhá-la fixamente. Sacha pensou
que ele ainda não a havia reconhecido.
O coração dela estava aos altos, sua boca, seca. Sem olhar para o duque, disse,
gaguejando:
─ Acho que está procurando... lady Deirdre Lang.
─ Estou procurando a srta. Sacha Waverley, pois tenho algo para entregar.
─ Para... entregar-lhe?
─ Estou com algo que lhe pertence e do qual deve sentir muita falta.
Sem as bandagens, o duque parecia um pouco intimidante e autoritário. Mas Sacha
achou seus olhos lindos. Seu porte era tão altivo, ele era tão elegante, tão maravilhoso, que
parecia dominar toda a sala.
O duque não tirava os olhos de Sacha, e ela, apesar de tímida e encabulada, ficou
mais confiante, achando que Talbot não sabia nada sobre ela.
Outro pensamento lhe passou como um raio pela cabeça: talvez Deirdre lhe tivesse
contado tudo, e ele estivesse ali para dizer-lhe que sabia do plano da noiva. Sacha ficaria
humilhada e morrendo de vergonha.
─ O que tenho para lhe devolver, srta. Waverley, é seu livro À luz da Grécia. ─ A
voz do duque era muito formal. ─ Trata-se de um livro escrito por seu pai; tem seu nome e
uma dedicatória.
Quase desfalecendo, Sacha lembrou-se de que deveria ter esquecido o livro no
quarto do duque. Até aquele momento não dera pela sua falta, pois não queria relembrar os
doces momentos em que lera para ele, nem os comentários que haviam feito.
Rememorou a dedicatória do pai:

“À Sacha, minha caríssima e amada filha, cujo auxílio foi inestimável quando
escrevi este livro, pois busca, como eu, espargir um pouco da luz que a Grécia deu ao
mundo”.

─ Agora ─ disse o duque, num tom de voz bem diferente ─, gostaria de saber como
um livro pertencente à senhorita foi parar em meu quarto.
Devagar, Sacha estendeu a mão e pegou o livro, enquanto pensava numa explicação
plausível.
Já ia dizer que havia emprestado o livro a Deirdre, quando o duque lhe perguntou,
olhando para ela com infinita ternura:
─ Sentiu muitas saudades minhas?
─ Sim... muitas!
─ Como pôde ser tão cruel em sair sem nem me dizer adeus e sem me contar a
verdade sobre aquela ridícula farsa?
Ele parecia muito zangado, e Sacha deu-lhe razão. Trêmula, consegui dizer apenas:
─ Como conseguiu... saber?... Deirdre contou-lhe?
─ Penso que quem deve fazer perguntas sou eu!
─ Está... muito zangado?
─ Muito! Muito zangado!
─ Sinto muito!
─ Dizer isso não basta! Não basta mesmo!
─ Que mais... posso fazer?
─ há muita coisa que tem que me explicar! Não somente mentiu para mim,
enganou-me, como também quase me tornou um bígamo!
Sacha segurou o livro com força e o apertou contra o peito, como se pudesse
esconder ou acalmar o tumulto que havia em seu interior.
─ Eu não quis fazer isso... Sinceramente, só pensava em sua saúde... Tinha medo de
que, se não concordasse, a operação não fosse... bem sucedida.
─ Foi isso que pensei. Mas devia ter coragem suficiente para dizer-me toda a
verdade, depois que viu que a operação fora bem sucedida e eu não corria mais perigo.
─ Ah, como tive vontade de... fazer isso! Mas eu havia dado minha palavra a
Deirdre... Vocês vão se casar...
─ Então pensa realmente que eu seria capaz de fazer uma coisa dessas? Como
poderia casar-me novamente, se já estou casado pela lei escocesa? Além de tudo isso, o fato
muitíssimo mais importante é que a mulher que eu amo e você, Sacha!
O modo como ele falou fez todo o corpo de Sacha estremcer.
Seu coração parecia querer saltar fora do peito, e uma sensação maravilhosa a
invadiu. Ela murmurou:
─ Você... me ama? É verdade? Você me ama?
─ Amo! ─ exclamou o duque com firmeza. ─ E, como sei que também me ama, vim
até aqui para perguntar o que pretende fazer a respeito de nosso casamento.
─ O que poderia fazer?
Pela primeira vez o duque deu um sorriso.
─ Deve obedecer-me... Você é minha mulher!
Assim que acabou de falar, puxou-a para si e beijou-a apaixonadamente. Foi um
beijo demorado, e ficaram tanto tempo embevecidos que se esqueceram de tudo. Seus
corações batiam em uníssono. A única coisa que importava era que estavam juntos, e juntos
se sentiam levados para outra dimensão, toda feita e sonhos e beleza.
Sacha estava tão feliz, que sentia as lágrimas rolando pela face.
─ Como pôde fugir de mim, abandonar-me, como o fez? ─ disse o duque. ─ Você é
minha esposa! Como pôde ter esquecido que naquela noite em que fizemos amor nosso
casamento se consumou realmente? Você é minha para sempre!
A ternura com que a olhava enquanto lhe dizia tudo aquilo fez Sacha sentir-se
flutuando, levada para o paraíso, nas asas prateadas do amor.
─ Eu te amo! Eu te amo, Sacha, minha adorada! ─ repetiu o duque.
─ Mas você é noivo de Deirdre!
Ele ergueu o rosto de Sacha, molhado e lágrimas, dizendo:
─ Então pensa que, porque eu estava cego, não podia notar a diferença entre vocês
duas?
─ Como soube que... não era Deirdre... quem estava a seu lado?
─ Admito que no princípio fiquei confuso. Mas notei, primeiro, que sua voz não era
nada parecida com a de Deirdre. Era muito mais suave, e eu percebia que você estava
realmente se preocupando comigo. Acho também que foi o instinto que me disse que as
vibrações de sua personalidade eram muito diferentes. Alguma coisa extraordinária
acontecia comigo, e eu não sabia exatamente o que era.
─ Pensei que... o estivesse enganando... tão bem...
─ Como atriz, sua atuação foi lamentável. Entretanto, quando leu para mim e
conversamos sobre a Grécia, você me cativou de um modo como mulher alguma jamais
conseguiu fazer.
─ Fico muito contente em ouvir isso. Mas... foi um erro meu fazer tal coisa.
─ Acredito que foi o destino, minha querida. As palavras de seu pai, tão tocantes,
tão cheias de beleza e verdade, tiveram o poder de fazer com que nos apaixonássemos um
pelo outro. Confesso que, ao perceber que a amava mais que a tudo neste mundo, fiquei
aterrorizado, com medo de perdê-la.
─ Foi por isso que... se casou comigo?
─ Exatamente. Não pense que fui tolo a ponto de não perceber que alguém viera no
lugar de Deirdre, para ficar ao meu lado durante minha convalescença. Conhecendo
Deirdre, sabia que ela não iria querer perder tempo ao lado de um homem cego, que não
podia estar sempre elogiando sua beleza... Tive medo de que fugisse de mim antes que eu
pudesse descobrir quem era, e temia nunca voltar a vê-la.
─ Foi esse mesmo... o plano.
─ Nunca pensei que, havendo aceitado casar-se comigo, ousasse continuar sua farsa
e, como disse antes, fazer-me correr o risco de ser acusado de bigamia.
─ Pensei que... se você não soubesse que eu era outra pessoa, isso não ...
importasse.
─ Mas você sabia! Jamais poderia deixar-me casar com Deirdre!
─ Eu não tenho nenhuma importância...
O duque olhou para ela com um sorriso terno:
─ Para mim, é a pessoa mais importante do mundo! E também é a duquesa de
Silchester.
─ Oh, eu te amo demais! Mas... o que poderia fazer? Você ia se casar com Deirdre!
Não queria forçá-lo a... faltar com sua palavra.
O duque não respondeu. Abraçou-a e beijou-a. Sacha não pensava em mais nada. Só
sabia que pertencia a ele.
Depois de uns instantes, ele disse:
─ O tempo está passando e temos muita coisa a fazer, minha adorada. Sei que seu
maior prazer seria que seu pai celebrasse nosso casamento religioso. Ele nos espera para
fazer isso, antes de partirmos.
─ Meu pai?!
─ Já lhe expliquei tudo, e ele compreendeu.
─ Você... contou-lhe que eu... me fiz passar por... Deirdre?
O duque meneou a cabeça.
─ Não. Isso iria aborrecê-lo. Disse-lhe apenas que nos conhecemos na Escócia e que
me apaixonei por você. Expliquei também que estava livre.
Sacha respirou, aliviada. Depois perguntou:
─ Livre? Mas... e Deirdre?
Talbot sorriu.
─ Sua prima recusou-se a casar comigo e rompeu nosso noivado.
─ Rompeu... o noivado? Por quê?
─Assim que você partiu, percebi o que havia acontecido. Ditei imediatamente uma
carta para a secretária de vovó e mandei-a ao pai de Deirdre, explicando que, de acordo
com os médicos, havia alguma chance de eu ficar cego. Assim, ela estaria desobrigada de
manter sua promessa de noivado, se quisesse.
─ E... Deirdre...
─ Imediatamente rompeu o noivado. Não suportaria a idéia de se casar com um
homem que não a pudesse ver e admirar.
─ Mas isso era uma mentira!
─ Uma pequena mentira... Sabia que ela não estava apaixonada por mim. Além
disso, salvei seu orgulho. Ela não se sentirá preterida. Dei-lhe a oportunidade de recusar-
me. Seria difícil para ela aceitar que eu me casasse com alguém não só mais bonita que ela,
mas também muito mais agradável e bondosa. Sacha, minha querida, perfeita como você,
só a deusa Afrodite!
─ Isso também é... mentira...
─ É a pura verdade! Sua prima é linda, mas só tem a beleza física. Em você,
querida, a beleza vem da alma, do coração. Você irradia beleza tão pura como jamais vi em
outra mulher.
Talbot dizia aquelas palavras com tanta sinceridade que Sacha ficou emocionada.
Apoiou a cabeça no peito dele.
─ Tenho muito mais coisas para lhe dizer. Mas seu pai está esperando. E... quero
pedir-lhe uma coisa.
─ Que é?
─ Quero que vista aquele vestido branco bordado de fios de prata e pérolas. Você o
usava na primeira noite em que a beijei. É assim que quero vê-la como minha noiva.
─ Sim...
─ Então vamos, querida. Tomkins está esperando lá fora. Vou pedir a ele que entre
e pegue sua bagagem, que sua criada já deve estar arrumando.
Antes de ir para o quarto, Sacha puxou uma fita que tinha ao redor do pescoço,
desamarrou-a e tirou o anel de sinete que trazia sempre junto ao seio. Então, entregou o
anel, ainda quente pelo contato com seu corpo, ao duque. Em seguida, subiu as escadas
correndo, corada pela excitação.
Foi fácil para Nanny arrumar as roupas da moça, pois o baú e as caixas que havia
trazido da Escócia estavam quase que intatos. Sacha não sentira vontade de mexer nos
vestidos, nem de tirá-los do baú. Logo Nanny subiu para ajudá-la a vestir-se.
─ Não estou entendendo bem o que está acontecendo, senhorita, só sei que Sua
Alteza é o homem mais belo que já vi em toda a minha vida. É também um cavalheiro
muito gentil.
─ Eu o amo, Nanny!
─ Sua mãe iria gostar muito dele. Do céu, onde certamente está, ela os abençoa,
srta. Sacha ─ disse Nanny, enquanto duas lágrimas lhe rolavam pela face.
Nanny tirou de uma caixa véu e a grinalda de flores de laranjeira que lady Margaret
usara em seu casamento, e acabou de ajudar Sacha a arrumar-se.
Quando estava pronta e ia descendo as escadas, ela pensou, medrosa, que talvez
estivesse sonhando e que, quando chegasse à sala, Talbot teria desaparecido, como se fosse
uma visão.
Mas ele estava lá, olhando-a tão ternamente, que seu olhar dizia mais que as
palavras.
O duque ofereceu o braço a Sacha e pôs a mão sobre a dela.
─ Agora podemos caminhar juntos ao encontro da luz que sempre iluminará nossas
vidas. Será seu pai que, em nome de Deus, nos dará essa luz verdadeira, quando nos
ajoelharmos diante ele.
Sacha estava muito comovida. Inclinou a cabeça e apoiou-a no ombro de Talbot.
─ Eu te amo tanto! Tanto!
A igreja parecia estar inundada por uma luz ofuscante.
Os noivos ajoelharam-se, e o reverendo Waverley celebrou a cerimônia simples,
mas tocante. Quando o duque pôs a aliança de ouro no dedo de Sacha, os dois sentiram-se
dominados por uma forte emoção. Foi como se uma luz divina os envolvesse, abençoando-
os e unindo-os para todo o sempre.

Quando voltaram da igreja, tudo o que Sacha teve a fazer foi trocar o vestido branco
por um traje de viajem.
Ao beijar o pai, ela disse, feliz:
─ Papai, quando se acredita com fervor, até contos de fadas podem tornar-se
realidade.
─ A fé faz milagres, minha filha!
─ Não se esqueça, querida ─ disse Talbot ─, que me fez acreditar em milagres. E
pode estar certa de que nossa vida juntos será mesmo como um conto e fadas.
Acabando de dizer isso, dirigiu-se ao reverendo, dizendo:
─ Quando voltarmos de nossa lua-de-mel, gostaria que fosse trabalhar como pastor
em uma das minhas propriedades, em Kent. A paróquia é muito grande, mas terá outros
auxiliares. Poderá, assim, dedicar-se mais a seus livros.
─ Oh, papai ─ disse Sacha alegremente ─, que ótimo!
─ Parece que estou sonhando!
─ Bem, acho que poderemos partir, não, querida?
─ Sim, porém, gostaria que dissesse a papai onde vamos passar nossa lua-de-mel.
─ Esta noite descansaremos numa casa que tenho aqui perto ─ respondeu o duque.
─ Amanhã tomaremos o trem para Southampton. De lá embarcaremos em meu iate e
iremos para Grécia. Sim, a Grécia, que o senhor tão bem descreveu em seus livros,
reverendo, e de onde veio a luz dos ensinamentos que iluminaram o mundo e que Sacha me
ensinou a sempre buscar. Quero levar à Grécia a mais linda mulher, que, com sua beleza,
ofuscará as deusas que habitam o Olimpo.
A felicidade iluminou o semblante do rverendo Waverley.
Todos se despediram, e o jovem casal partiu feliz para sua lua-de-mel.
Nanny chorava de felicidade.

Naquela noite, nos braços de Talbot, Sacha disse:


─ Estar com você significa alegria e êxtase. Sei que não poderia viver sem seu
amor.
─ Nunca lhe passou pela cabeça, minha tolinha, que poderia ter tido um... bebê?
Como se arranjaria, se tivesse esse filho... longe de mim?
Um rubor subiu ai rosto de Sacha.
─ Pode achar-me ignorante, mas... antes de fazermos amor... não sabia muito bem
como as pessoas tinham bebês.
Talbot a beijou com ternura, dizendo:
─ Quando a beijei pela primeira vez, percebi que era mesmo inocente e bem
diferente de sua prima. Quando, naquela noite, a fiz minha esposa, o que senti foi algo
indescritível, muito mais excitante e arrebatador do que tudo o que já havia sentido em toda
a minha vida. Desde então soube que era só minha, e que jamais poderia amar outra
mulher.
─ Também me senti assim. Se você se casasse com Deirdre, jamais me casaria.
Respeitaria nosso casamento secreto e seria sua esposa até morrer!
Eles estavam tão juntinhos que Talbot sentia seu coração e o de Sacha baterem
aceleradamente, como se fosse um só. Os dois amantes estremeceram, trocando beijos
ardentes e apaixonados.
Os momentos que se seguiram foram de êxtase. Os dois corpos unidos
experimentaram sensações inexprimíveis, como se fosse arrebatados para o mais alto dos
céus, onde brilhavam, como os astros.

FIM

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