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Sérgio Ricardo da Mata, Helena Miranda Mollo e Flávia Florentino Varella (orgs.). Anais do 3º. Seminário Nacional de História da Historiografia: aprender com a história? Ouro Preto: Edufop, 2009. ISBN: 978-85-288-0061-6

TEORIZANDO O CANGAÇO: O “REI LAMPIÃO” E A QUESTÃO DO BANDITISMO SOCIAL

Wescley Rodrigues Dutra *

O bandido assim como o herói se fazem cada vez mais presentes no cotidiano dos indivíduos. Muitos desses passam de uma existência real para uma ficcional – ou vice-versa - já que subjetivamente os sujeitos vão atribuindo a esses toda uma gama de narrativas e sobre essas suas “histórias reais” são criadas narrativas exóticas, heróicas, covardes, misteriosas, tentando assim, legitimar o lado bom ou mal do bandido, o heróico ou o cruel. Fato é que o herói e o bandido são faces de uma mesma moeda e a maior parte deles são admirados no Ocidente. Quem nos seus tempos de criança não se viu encantado ou boquiaberto assistindo no cinema ou na televisão aqueles filmes de faroeste americano, onde os trajes típicos dos “mal-feitores” e do Xerife fascinavam em meio aquele ambiente desértico? A ousadia dos assaltos, o linguajar típico, os constantes roubos de comboios e de “mocinhas inocentes” nos deixavam atônitos nas poltronas, enquanto na tela entre tiros - às vezes certeiros outros não – aqueles “camaradas” que roubavam por longo tempo nossa atenção iam embora montados nos seus cavalos deixando para trás somente a poeira que levantava quando eles rompiam rapidamente os caminhos íngremes. Bestificados ficávamos admirando aqueles “fora-da-lei” e no nosso cotidiano íamos gradativamente alimentando esta admiração sem sabermos o porquê, muitas vezes querendo transportar das telas uma figura fictícia para a vida real, quem sabe para que eles pudessem vir a fazer a justiça que tanto almejamos. Mas nem só de figuras do cinema Hollywoodiano vive o homem! A maior parte das vezes a ficção parte da vida real, de sujeitos que viveram em uma temporalidade específica, bandidos que no seu tempo foram amados e odiados ao extremo. Muitos se tornaram posteriormente mitos, servindo de exemplo de luta para aqueles que querem ver uma sociedade melhor e contestam a força despótica do Estado,

* Wescley Rodrigues Dutra: Graduado em História pela Universidade Federal de Campina Grande, Especialista em Geopolítica e História e Mestrando em História e Cultura Histórica pelo Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal da Paraíba. Bolsista da CAPES.

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esses se apropriam da história desses bandidos elevando-os a uma nova categoria, ressignificando-os e usando-os como bandeira de luta. Outras vezes o bandido temido torna-se o santo milagroso, aquele que ouve o clamor dos sofredores e intercede ao Sagrado em favor dos “miseráveis mortais”. Esses tornam-se santos extremamente populares – sem serem beatificados oficialmente – por serem identificados pelo “povo sofredor” como alguém que viveu as auguras e incertezas que cercam a vida humana; que tiveram uma vida sofrida e mesmo que em vida tenham trilhado um caminho errante mereceram o perdão, perdão alcançado muitas vezes devido a crueldade da morte que lhes foi imposta, a morte seria assim um meio de purgar todos os pecados e erros desses. No presente trabalho nos propomos a fazermos uma análise da obra “Bandidos”, do inglês Eric Hobsbawm, apresentando suas idéias centrais e tentando identificar as peculiaridades dessa produção relacionando-as com a vida do cangaceiro nordestino Virgolino Ferreira da Silva, conhecido como Lampião. Teremos ainda como eixo central a tentativa de compreender até que ponto esse cangaceiro pode se enquadrar nesse modelo de Bandido Social pensado por Hobsbawm.

Nas Malhas do Banditismo Social

O historiador Eric Hobsbawm tendo como referencial os novos estudos da História Social Inglesa, elaborará o conceito de Banditismo Social, tentando entender como é que se dá a formação do bandido social, o que eles reivindicam, o por quê da admiração popular em torno destes e por que a grande massa excluída do poder oficial se identifica com esses bandidos e muitos dos seus discursos tentam legitimá-lo. É claro que essa admiração não acontece de maneira generalizada nem unânime, pois há inúmeros sujeitos que por vários motivos contestam os atos dos chamados “fora-da-lei” e o combatem com veemência. Para Hobsbawm os Bandidos Sociais são heróis de baladas, de histórias e mitos característicos que se mesclam simultaneamente com homens de carne e osso, que vivem em um estreito relacionamento com a imagem que deles fazem o povo. O bandido é assim uma figura presente em todos os tempos e possivelmente em quase todas as regiões do mundo. No Nordeste brasileiro, o autor irá identificar Lampião e os

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seus “cabras” como um tipo peculiar de bandido social, vendo o movimento por ele encabeçado como Movimento Social Pré-Político, já que na sua concepção esses movimentos estão longe de ser marginais, pois eles estão na origem e na própria raiz das grandes reviravoltas revolucionária do século XX. O cangaço foi um movimento que esteve presente em quase todos os períodos da formação histórica do “Nordeste sertanejo” 1 brasileiro, tendo o seu momento de apogeu e declínio entre os anos de 1900 a 1940. Inúmeros homens e mulheres se destacaram nas malhas do cangaceirismo, mas a figura de maior notoriedade foi Virgolino Ferreira da Silva, conhecido como Lampião, que tornou-se “Governador do sertão” 2 como se proclamou no ano de 1926, sendo esse um “governador as avessas”, já que era um “fora-da-lei” que se contraporá ao sistema político e social instituído. O interessante na história de Lampião são as contradições que cercam a sua história. Em 1950 o mesmo bandido que é perseguido e eliminado em 1938, será oficialmente considerado “Rei do Cangaço” e símbolo da nacionalidade quando o jornalista paraibano Assis Chateaubriand, que era proprietário dos Diários Associados, instituiu a ‘Ordem do Cangaço”. Em uma espécie de concurso seriam escolhidos e premiados os brasileiros que tivessem dado em vida e através dos seus feitos provas cabais de amor à pátria. Nesse mesmo processo seletivo também seriam eleitos os estrangeiros que demonstraram seu devotamento e respeito ao Brasil. É nessa segunda metade do século XX que se disseminará nas artes a utilização do tema Cangaço como também esse ganhará visibilidade no mundo acadêmico, onde toda a discussão buscará enquadrar os cangaceiros no modelo de Bandido Social lapidado, como dissemos anteriormente, por Eric Hobsbawm. Ancorando-se nos novos estudos da História Social Inglesa, Eric Hobsbawm será um nome de extrema importância para a construção dos estudos sobre o cangaço, pois os seus dois livros: “Rebeldes Primitivos” e “Bandidos” serviram de pilares de

1 Trabalho com a concepção de que há vários tipos de “Nordestes”, não havendo uma homogeneidade da região. Para aprofundamento da discussão recomendamos as obras: ALBUQUERQUE JÚNIOR, Durval Muniz. A Invenção do Nordeste e Outras Artes. 3. ed. São Paulo: Cortez, 2006. FREYRE, Gilberto. Nordeste. 7. ed. São Paulo: Global, 2004. MENEZES, Djacir. O Outro Nordeste. 3. ed. Fortaleza:

Universidade Federal do Ceará/Programa Editorial, 1995. 2 Em dezembro de 1926, Lampião envia ao então governador do Pernambuco Júlio de Melo, que estava repassando o cargo a Estácio Coimbra, uma carta propondo a divisão do Estado em duas partes, onde Júlio ficaria dominando a porção do litoral e Lampião o sertão. Por isso o uso do termo “governador do sertão”, que os jornais locais já estavam lhe conferindo há algum tempo antes da efetuação da proposta.

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sustentação para as produções posteriores a eles. Ele construiu um espaço acadêmico

para se estudar o cangaço enquanto movimento social. Assim, ele trabalhou o cangaço a partir de novos conceitos como “Movimentos Sociais Pré-Políticos” e “Banditismo Social”. Esse foi o momento onde a História Social estava se redefinindo.

A obra “Bandidos” foi publicada em 1969 3 , nela Hobsbawm teve como principal

objetivo analisar os feitos dos bandidos sociais, partindo da lenda de Robin Hood e

passando por inúmeros outros bandidos de várias partes do mundo, entre esses outros encontramos referências ao cangaceiro brasileiro Lampião e seu bando.

O autor deixa claro que há distinções e categorias dentro do próprio mundo dos

bandidos, sendo essas as responsáveis por uns terem maior visibilidade que outros, pois há aqueles que são conhecidos somente na sua remota região, tendo seu campo de ação bastante restrito a pequenos espaços; e aqueles que ganham visibilidade a nível nacional, cuja fama rompe as barreiras do localismo onde atuou e vai entrando na vida e no imaginário de outros sujeitos a nível nacional. No entanto, ele salienta uma característica comum de ambos os bandidos: eles prejudicaram o sistema social local vigente, rompendo à aparente “paz” estabelecida. Um exemplo desse “bandido estrela”, na concepção hobsbawniana teria sido o próprio Lampião. Frente a todas as contradições que cercam a vida dos bandidos, Hobsbawm nessa obra especificamente, busca responder aos questionamentos: Quem eram eles? Que espécie de pessoas aderiram ao banditismo social? Que papel representaram com suas armas, munições e moedas de ouro, como defensores da justiça social, como justiceiros, como batalhadores primitivos em prol da liberdade? Como se situavam

dentro do contexto econômico e da política de fronteira e de regiões remotas? Eram eles revolucionários sociais?

o banditismo social

constituiu um fenômeno de notável uniformidade, em todas as épocas e Continentes” (HOBSBAWM, 1976: 07-08), assim ele busca mostrar que alguns chefes de bandos tinham uma espécie de consciência sociopolítica embrionária, mas não era ainda uma consciência de classe e de opressão no sentido moderno que usamos. Seria oportuno perguntarmo-nos o que seria o bandido na sua etimologia cotidiana? Todo aquele que assalta, rouba, comete atrocidades e mata é bandido? Há

A idéia central que norteará o livro será a de que “[

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3 A primeira edição brasileira data do ano de 1975.

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categorias distintivas desses? Qual seria a diferença cabal entre o bandido literal no sentido do termo e o bandido social que até o presente momento discutimos? Em linhas gerais, na óptica da lei, o indivíduo que arranca do outro de forma violenta o que não lhe pertence, comete assaltos, se organiza em grupos rebeldes ou guerrilheiros sendo esses oficialmente não reconhecidos, são tarjados todos de fora-da-lei e indivíduos que são contra a ordem estabelecida, contra os bons costumes da sociedade os quais se inserem e não podem continuar vivendo no mesmo ciclo social que os cidadãos “honestos”. Se seguirmos esse viés de análise esse artigo perderia aqui o seu sentido de ser, porque etimologicamente já teríamos definido e enquadrado conceitualmente os que são colocados à margem da sociedade e pegam em armas para reivindicar algo. No entanto, não podemos de forma alguma enquanto cientistas sociais nos basearmos nessa concepção simplista. Para Hobsbawm há distinções categóricas sobre a figura dos bandidos, e na sua obra ele se volta a uma análise das rebeliões individuais ou minoritárias nas sociedades camponesas, pois esses “fora-da-lei” em sua maioria ganharam da opinião pública outra conceitualização, não sendo considerados como criminosos comuns. Vejamos a diferença cabal entre a concepção de bandido: para o Estado e o grande senhor de terra local esses bandidos sociais são encarados como criminosos, para isso baseiam-se na definição da lei, mas em contrapartida, para a sua gente, a sua sociedade camponesa de onde ele não rompe com as raízes apesar de ser um “fora-da- lei”, fazendo desse espaço seu “forte de segurança”, eles são considerados como heróis, vingadores dos pobres, paladinos da justiça (justiça que se almeja quase que de forma utópica, vale salientar) e às vezes são encarados até mesmo como líderes da libertação, porta-voz das massas. Segundo o “seu povo” esses homens devem ser admirados, ajudados e sempre que possível apoiados. Assim, “é essa ligação entre o camponês comum e o rebelde, o proscrito e o ladrão que torna o banditismo social interessante e significativo” (HOBSBAWM, 1976: 11). Em síntese, a obra de Hobsbawm estará voltada para o bandido rural, deixando ele de lado os citadinos, já na sua concepção só há bandido social no campo. Precisamos fazer uma distinção importante. Não se pode confundir o bandido social com os outros dois tipos de criminosos rurais: que seriam os grupos originários

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do “submundo profissional” ou simplesmente os pilhadores (“ladrões comuns”); e aqueles cujo roubo faz parte da vida normal da comunidade, como por exemplo, os

beduínos. O primeiro tipo assalta e rouba como se aquilo fosse uma espécie de profissão

e o objetivo imediato é sair no lucro sem nenhum desejo de promover alguma mudança

na vida cotidiana dos sujeitos; já os segundo tipo tem o roubo como parte de sua cultura

e como mecanismo de sobrevivência. Dessa maneira, tanto as vítimas e os assaltantes são inimigos e estranhos, não havendo uma identificação entre ambos, estaríamos aqui de forma alegórica diante de uma presa e de um caçador, sendo que as vítimas encaram esses bandidos como criminosos por não haver essa identificação e admiração mútua como há na relação entre os camponeses para com o bandido social, pois esses lutam por interesses comuns, não atentando contra a integridade daqueles que habitam o seu território e são pobres, agem contra o senhor que é visto como um dos causadores da opressão que flagela a todos.

Esse bandido social é um produto das sociedades que se encontram na fase evolucionária da organização tribal ou de clã e a moderna sociedade capitalista e industrial; mas também esta incluirá as fases das sociedades consangüíneas que se encontram em desintegração e em transição para o capitalismo agrário. Nas sociedades

tribais ou sanguíneas eles conhecem a pilhagem, no entanto, faltam-lhes a estratificação interna que é uma das responsáveis por criar o bandido enquanto uma figura de rebelião

e protesto social. A partir do momento que essas sociedades começam a desenvolver

sistemas de diferenciação de classe – mesmo que de forma arcaica - ou quando se deixam absorver por sistemas econômicos maiores, que dão gênese a conflitos de classe, pode-se surgir aí um grande número de bandidos sociais. Já os modernos sistemas agrários, sejam eles capitalistas ou pós-capitalista não são os mesmos da sociedade camponesa tradicional que produziu outrora os bandidos sociais, pois a lógica capitalista, o desejo de acumular capital e lucrar desenfreadamente já impregnou-se no meio rural acabando com o sentido e a razão de ser do nosso bandido social. Aqueles princípios básicos que faziam com que se lutasse por um retorno as tradições esfacelou-se completamente, a lógica agora será pensar não no sentido coletivo e de melhoria coletiva, mas sim um isolar-se no individualismo, um acumular o máximo possível para si.

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A modernização será a grande responsável pelo fim do bandido social, pois ela

privará o meio social das condições básicas para o seu florescimento. Os bandidos

sociais surgiram, então, da insatisfação camponesa frente ao sistema que os oprimia, sendo que o banditismo tinha seu momento de pleno florescimento em épocas de pauperismo ou de crise econômica. No Nordeste brasileiro apesar de se ter registros de cagaceirismo desde o período colonial, o banditismo alcançará sua fase epidêmica após 1870, período que será marcado por constantes calamidades e instabilidade política. Mas o apogeu mesmo será de 1900 a 1940, onde é extinto completamente esse movimento social com a morte de Corisco.

O banditismo social é fruto das sociedades que se baseiam na agricultura, sendo

os bandidos em sua maioria camponeses e trabalhadores sem-terras que se vêem sob o julgo da dominação, da opressão e da exploração por seus senhores. Nesse espaço, segundo Hobsbawm, podemos encontrar três tipos de bandidos, cada um bem distinto entre si: o Ladrão Nobre, que seria uma espécie de Robin Hood que tira dos ricos e

distribui com os menos favorecidos; os combatestes primitivos pela resistência ou a unidade de guerrilha, que ele chamará de haiduks, os quais se unem para tentar barrar o desenvolvimento do sistema, esses em sua grande maioria não se preocupam diretamente com os pobres como o Ladrão Nobre que distribui os produtos dos furtos; e por último teremos o vingador que por algum motivo de ordem pessoal semeiam o terror tendo sede de sangue.

O interessante é que além do arcaísmo uma outra característica necessária para o

desenvolvimento do banditismo será a fraqueza e a falta de pulso das autoridades em administrar a região, sendo que a ação dos bandidos ficava bem mais facilitada quando aqueles responsáveis por exercer a autoridade são cidadãos naturais do lugarejo, tendo esses o alcance do seu poder extremamente limitado pelo localismo e pelas fronteiras que deviam ser respeitadas e não poderiam ser transpostas em uma terra onde o código de ética local não permitia se exercer poder em território alheio. Para Hobsbawm, o grande responsável pelo fim do banditismo social foi a modernização das regiões rurais, pois a transição de uma economia pré-capitalista para uma economia capitalista agiu na psicologia social dos indivíduos rurais induzindo estes a buscarem de forma desenfreada o lucro, assim, essa transformação social veio a

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destruir completamente o tipo de sociedade agrária que gestava os bandidos. Categoricamente o autor afirma: “De modo geral, entretanto, o banditismo social é um fenômeno do passado, embora, às vezes, de um passado bastante recente. O mundo moderno o matou, substituindo-o por suas próprias formas de rebelião primitiva e de crime” (HOBSBAWM, 1976: 18).

O Papel Social dos Bandidos

Seria oportuno perguntarmos qual papel esses bandidos exercem dentro das lutas de transformação da sociedade. Enquanto sujeitos individuais eles se configuram como camponeses que se recusam à submissão, por tomarem tal postura eles acabam por se destacarem entre os companheiros do seu ciclo social. Outras vezes eles são gestados dentro de meios sociais rurais os quais são excluídos da profissão habitual de seus pares e não encontram espaço de trabalho naquele ambiente, sentindo-se obrigados a se lançarem na “marginalidade” e no “crime”. No entanto, não podemos qualificá-los enquanto rebeldes políticos ou sociais, ou ainda como revolucionários, pois eles apresentam peculiaridades distintas do rebelde político e do revolucionário, já que os bandidos sociais:

Tomados em conjunto, representam pouco mais do que sintomas de crise e tensão na sociedade em que vivem – de fome, peste, guerra ou qualquer outra coisa que abale essa sociedade. Portanto, o banditismo, em sim, não constitui um programa para a sociedade camponesa, e sim uma forma de auto-ajuda, visando a escapar dela, em dadas circunstâncias. Exceção feita à sua disposição ou capacidade de rejeitar a submissão individual, os bandidos não têm outras idéias senão as do campesinato (ou da parte do campesinato) de que fazem parte. São ativistas, e não ideólogos ou profetas dos quais se deve esperar novas visões ou novos planos de organização política. São líderes, na medida em que homens vigorosos e dotados de autoconfiança, tendem a desempenhar tal papel; mesmo enquanto líderes, porém, cabe-lhes abrir caminho a facão, e não descobrir a trilha mais conveniente.

(HOBSBAWM, 1976: 18-19).

Assim, não podemos esperar do bandido social um projeto político, uma consciência de classe, planos bem arquitetados para promover uma revolução social. Na

realidade o que eles almejam com veemência é um retorno as tradições, é restaurar todo aquele

conjunto simbólico de vida que eles idealizam como o melhor – seja um passado real ou mítico

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– uma tradição que vai aos poucos sendo esquecida abrindo a sociedade a novos modelos onde os pobres se vêem cada vez mais explorados e subjugados.

Especificamente no cangaço podemos identificar pelo menos três tipos de cangaceiros: o meio de vida, o refúgio e o vingança. O primeiro tipo seria aquele que assume a vida de bandoleiro por não conseguir vislumbrar no meio em que se insere outra forma de conseguir recursos para sobreviver, vendo no cangaço a única solução possível. Em segundo lugar temos aqueles indivíduos os quais por terem cometido algum crime, deflorado moças, entrado em divergência com a autoridade local, acaba se tornando perseguido, assim, por não ter como enfrentar a situação sozinho e nem meios para tal se agrega aos cangaceiros, pois tem consciência que inserindo-se nesse meio ele terá a proteção dos seus pares. E por último temos o vingança, aquele que adere a essa vida porque uma pressão maior se abateu sobre ele como por exemplo, assassinato dos pais, irmãos, desmoralização pública, expulsão das suas terras, despotismo exacerbado do chefe político local, etc.; por não ter a lei ao seu lado já que essa nesse período sempre defendia os interesses da elite, ele resolve fazer vingança com as próprias mãos, sendo as suas armas seus advogados e juízes. Qualquer dos cangaceiros tinha uma dessas características, no entanto, Lampião congregava as três: entra na vida do banditismo para se vingar da morte dos pais; aos poucos vai se identificando com aquele cotidiano passando gradativamente a encarar o cangaço como um meio de vida, e quando cogitou a idéia de abandonar essa vida já era tarde porque a perseguição a ele já tinha tomado proporções acima do esperado, assim, ele não conseguiria mais alcançar a paz almejada, tornando-se o cangaço um refúgio. Quando a obra “Bandidos” é traduzida para o português na segunda metade do século XX, período onde estava começando a engatinhar os estudos do cangaço no Brasil, entre os vários tipos de bandidos apresentado pelo autor, Lampião tentará ser enquadrado por boa parte dos receptores brasileiros na categoria do “Ladrão Nobre”. O interessante que parte desses indivíduos que elevarão o “Rei do Cangaço” a essa categoria não estarão institucionalmente vinculado ao mundo acadêmico, escrevendo seus livros sobre o assunto baseando-se em relatos memorialísticos sem necessariamente terem a preocupação com o rigor do método historiográfico. Entre essas vozes que são contra essa concepção, podemos fazer referência a Maria Isaura

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Pereira de Queiroz, 4 autora que Hobsbawm se baseou quando foi fazer referência no corpus do seu livro ao movimento do cangaço.

Considerações Finais

A obra de Hobsbawm apresenta-se como um marco elementar nos estudos do banditismo e conseqüentemente do cangaço, pois ela contribuirá para a criação de um espaço acadêmico de estudo pra tal temática. A recepção do seu trabalho no Brasil se dará em um momento onde os estudiosos e a academia começavam a voltar o seu olhar para o cangaço e onde a concepção conceitual de Movimento Social estava sendo redefinida e colocada em pauta nas discussões. Quase todas as obras posteriores sobre o cangaço farão referência a Hobsbawm, seja para concordar com as idéias que ele apresenta ou para discordar da sua concepção de bandido social. A obra permitirá discursos calorosos, contestações veementes, artigos inflamados. Assim, toda a historiografia sobre o cangaço andará sobre a constante “corda bamba” do banditismo social. Há vozes discordantes que não pudemos explorar nesse artigo porque assim estaríamos fugindo do objetivo inicial do mesmo, que era apresentar a concepção do bandido social segundo a visão hobsbawniana, tentando fazer relação com a vida do bandoleiro nordestino Virgolino Ferreira da Silva – Lampião. Ficaria então o questionamento: seria Lampião um bandido social? Acreditamos que responder essa pergunta seria o mesmo que decretar uma verdade absoluta sobre a vida desse cangaceiro e que tal concepção não congregaria toda a complexidade da discussão, pois assim como sua vida é uma contradição o conceito também é contraditório em seu todo. Realmente muitas das características apresentadas pelo autor se enquadram perfeitamente na vida do nosso objeto, mas há momentos específicos onde o “Rei do Cangaço” fugirá do que se espera de um bandido social Não é fácil dizer se esse indivíduo com surtos de crueldade quase que colérica, com ações monstruosas, mas por outro lado gestos humanitários seria uma espécie de variedade especial de bandido social. Enquadrando-o no seu contexto social e no seu universo ético ele congrega no seu bojo tanto os valores do “ladrão nobre”, o tão

4 Ver: QUEIROZ, Maria Isaura Pereira de. História do Cangaço. 5. ed. São Paulo: Global, 1997. Os Cangaceiros. São Paulo: Duas Cidades, 1977.

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sonhado Robin Hood; como também está presente de forma vívida a figura do monstro,

ambos cabem e são justificados no mesmo sistema social e no mesmo espaço.

A história caberia enquadrar esse bandido naquela categoria que ela acredita

mais correta e que o explicaria, mas a massa popular ainda permanece com a sua cultura

histórica dual, admirando-o, criando imagens, forjando histórias. O bandido e o herói

tornam-se faces da mesma moeda chegando ao ponto de não se conseguir distinguir um

do outros.

Amado, odiado, temido, respeitado, sua coragem sendo cantada em trova e em

verso, e sua figura fazendo-se cada vez mais viva no imaginário e na constituição

identitária dos sujeitos que vivem no mesmo território onde esses “seres contraditórios”

agiram. O bandido torna-se assim um símbolo.

Referências Bibliográficas

ALBUQUERQUE JÚNIOR, Durval Muniz. A Invenção do Nordeste e Outras Artes. 3. ed. São Paulo: Cortez, 2006. FREYRE, Gilberto. Nordeste. 7. ed. São Paulo: Global, 2004. HOBSBAWM, E. J. Bandidos. 2 ed. Rio de Janeiro: Forense-Universitária, 1976. Rebeldes Primitivos. 2 ed. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1978.

MENEZES, Djacir. O Outro Nordeste. 3. ed. Fortaleza: Universidade Federal do Ceará/Programa Editorial, 1995.

QUEIROZ, Maria Isaura Pereira de. História do Cangaço. 5. ed. São Paulo: Global,

1997.

Os Cangaceiros. São Paulo: Duas Cidades, 1977.

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