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Trabalho e Sociedade

O que é trabalho?
O trabalho é um assunto sobre o qual sempre há muitas perguntas a fazer. Para que
ele existe? Quem o inventou? Seu significado é semelhante nas diferentes
sociedades?
Na linguagem cotidiana, a palavra trabalho adquiriu diferentes significações. Embora
pareça simples compreender esse termo como a mais elementar ação humana, suas
formas variaram muito de acordo com a época e
com as circunstâncias sociais. Enfim, poderíamos
dizer que o trabalho existe para satisfazer as
necessidades humanas, desde as mais simples,
como as de alimento, vestimenta e abrigo, até as
mais complexas, como as de lazer, crença e
fantasia. E, se o trabalho existe para satisfazer
nossas necessidades, fomos nós que o
inventamos.
Desenvolvendo melhor o conceito, trabalho é a
operação humana de transformação da matéria
natural em objeto de cultura; é o homem em ação para sobreviver e realizar-se,
criando instrumentos e, com estes, todo um novo universo. Ou seja, é uma atividade
por meio da qual os homens transformam o meio, a si mesmos (desenvolvendo suas
habilidades, capacidades e potencialidades), humanizam a natureza (desnaturalização
e criação de um meio cultural) e desenvolvem as relações sociais (divisão social do
trabalho; o trabalho como ato coletivo) com o objetivo de produzirem a sua própria
sobrevivência.
Charles Chaplin em “Tempos
Modernos”. Disponível em
www.brasilescola.com

Ainda, trabalho, pode significar a aplicação consciente (racional) das forças e
faculdades humanas para alcançar determinado fim; atividade coordenada de caráter
físico ou intelectual, necessária a qualquer tarefa, serviço ou empreendimento
(trabalho como protoforma social – o que dá forma; origem do meio social e do mundo
material/cultural). Portanto, trabalho é a ação de esforço aplicado à produção de
utilidades (coisas socialmente úteis – coisas com valor de uso – qualquer produção
humana que atenda a alguma necessidade).
Nas palavras de Marx:
“Antes de tudo, o trabalho é um processo de que participam o
homem e a natureza, processo em que o ser humano com
sua própria ação impulsiona, regula e controla seu
intercâmbio material com a natureza. Defronta-se com a
natureza como uma de suas forças. Põe em movimento as
forças naturais de seu corpo, braços e pernas, cabeça e
mãos, a fim de apropriar-se dos recursos da natureza,
imprimindo-lhes forma útil à vida humana.”
MARX. Karl. O capital: crítica da economia política. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001, livro I, v. 1, p. 211

apenas o ser humano produz conscientemente (racionalmente) sua existência. Disponível em www. No fim do processo de trabalho aparece um resultado que já existia antes idealmente na imaginação do trabalhador. sistemas de parentesco.. não possuem uma opinião . etc). é capaz de estabelecer um projeto mental de seu trabalho. MARX. mas podese dizer. festividades. crenças. A sociedade antiga apresentava o trabalho como algo destinado a seres inferiores ou a animais.. é pela capacidade de produzir. o único capaz de executar a ação trabalho. aplicar. ou seja. De elemento que aprisionava o indivíduo a uma vida privada. logo. não possuem uma concepção particular sobre o trabalho.O processo de interação com a natureza. essa atividade humana nem sempre teve o mesmo significado. No entanto. Dessa forma. ele passa. Nessas comunidades. executado pelo ser humano a fim de obter o seu próprio sustento. Em que medida o contato do homem com a natureza impõe formatos sociais diferentes ao trabalho humano? A produção nas sociedades tribais As sociedades tribais diferenciam-se umas das outras em muitos aspectos.. acumular e repassar saberes que ele é o único ser cultural e. # Para refletir. também é praticado pelos animais. Assim. como desvinculadas das demais atividades sociais existentes (rituais. Cit. a mesma organização e o mesmo valor. Karl. O trabalho é uma atividade exclusivamente humana! No entanto. que não são estruturadas pela atividade que em nossa sociedade denominamos trabalho..me [. o ser humano imprime mudanças à natureza e a si mesmo desenvolvendo suas capacidades de adaptar-se ao meio em que vive e às suas necessidades. Op. Tais homens não enxergam o trabalho como uma atividade particular à parte das outras tarefas que realizam e. sob o capitalismo.jogodedamas. enquanto na sociedade capitalista essa caracterização se inverteu totalmente. ou seja. as atividades produtivas (trabalho) desenvolvidas pelos homens não são vistas. em termos gerais. a elemento que patrocina ao indivíduo uma vida socializada. por isso mesmo.] o que distingue o pior arquiteto da melhor abelha é que ele figura na mente a sua construção antes de transformá-la em realidade. pelos mesmos. baseadas no coletivismo e na ausência da propriedade privada dos meios de produção.

integradas ao meio ambiente e a todas as demais atividades. De um modo geral. pois. morrerá.socioambiental. Os Yanomamis da Amazônia. classificaram essas comunidades como primitivas ou de economia de subsistência e de técnica rudimentar. Assim. as sociedades tribais organizam o trabalho na divisão sexual e etária do trabalho. Essa descrição do ritual de nomeação dos Yanomami revela claramente como as esferas social. o pai sai a caçar. Nem ele nem ela podem comer a carne. em parte porque a criança receberá do animal. por exemplo. ou seja. pois é misticamente sobrecarregada de perigos. Portanto. durante muito tempo. isto é. O animal que ele matar será o epônimo da criança. Disponível em: foram aculturados. passando a ideia de que elas viveriam em estado de pobreza ou atraso.org/pt/povo/yan contato com o “mundo civilizado”. muitos analistas. os parentes consangüíneos de sua mulher. É claro que essa situação relatada e de tantos outros povos indígenas se refere a um contexto de não contato com o dito . o nome de seu filho (ou filha) recém-nascido. ter uma vida de privações. antropólogo estadunidense. mais propriamente. não há um “mundo do trabalho” nas sociedades tribais. dedicavam pouco mais de três horas diárias às tarefas relacionadas à produção. alguns dias depois que nasce uma criança fisicamente normal e em condições sociais também normais.específica sobre o “trabalho” ou as atividades produtivas. por exemplo. O fato de dedicar menos tempo às suas tarefas não significava. Em outras palavras. a criança viverá. tempo livre para o descanso e lazer. Seus equipamentos e instrumentos. evitar ao máximo manusear o animal abatido. sob pena de porém em risco a vida da criança. as tarefas relacionadas à produção não compõem uma esfera específica da vida. chama essas sociedades de “sociedades da abundância” ou “sociedades do lazer”. ou seja. dominados ou tiveram http://pib. carrega-o para a aldeia pendurado em cipó e passa-o imediatamente para os seus afins. não pensam que o trabalho seja um castigo ou uma benção – simplesmente não pensam sobre o trabalho como uma atividade destacada das demais existentes e com um valor próprio. destacando que seus membros dedicavam um mínimo de horas diárias ao que chamamos de trabalho. esta será chamada pelo nome dado à espécie da caça morta. religiosa e política estão interligadas. O pai deve. comumente vistos pelo olhar estrangeiro como muito simples e rudimentares. no entanto. o pai vai caçar. Nessas sociedades tribais em que são mantidas suas tradições e/ou ainda não Yanomamis. além do nome. Marshall Sahlins. São esses afins do caçador que irão consumir a carne e dar o veredicto: se a carne for de boa qualidade. também certo espírito que se instala em seu corpo. econômica. literalmente. assim como também contam com um tempo livre para dedicação a outros afazeres de cunho não econômico ou. Guiados por um olhar etnocêntrico. Para os Yanomami. são eficazes para realizar suas tarefas. senão. seus omami/ membros possuem condições plenas de satisfazer suas necessidades materiais e sociais. Essa caçada se reveste de grandes cuidados.

O exemplo mais claro dessa atividade é o cultivo da terra. A antiguidade é marcada pela classificação social entre indivíduos inferiores e superiores de acordo com o ofício de cada um. alugado. em função dessa relação. pode-se verificar que os gregos do período clássico distinguiam a atividade braçal. na época clássica. . mesmo que isso não lhes desse a condição de cidadãos. a atividade manual e a atividade intelectual/política. servidão e as bases do trabalho na sociedade moderna O termo trabalho pode ter nascido do vocábulo tripallium que significa “instrumento de tortura”. mas todos da família e todos Escola de Atenas. quando os poetas cômicos qualificavam um homem por seu ofício (Eucrates. Labor é o esforço físico voltado para a sobrevivência do corpo. no entanto. e por muito tempo esteve associado à ideia de atividade penosa e torturante. A práxis é aquela atividade que tem a palavra como seu principal instrumento. como o clima e as estações. portanto.“homem branco”. difíceis condições de vida. Disponível em: os bens que porventura tivesse.org/wiki/Escola_de_A maioria dos escravos. uma atividade passiva e submissa ao ritmo da natureza. a finalidade de suas vidas era tornar-se livres. exceto a de discutir os assuntos da cidade e o bem-estar dos cidadãos. Hoje. Nas sociedades grega e romana era a mão de obra escrava que garantia a produção suficiente para suprir as necessidades da população. podia ser vendido. de criar alguma coisa ou produto através do uso de algum instrumento ou mesmo das próprias mãos. descreve que em Atenas. já que havia uma classe de ricos e notáveis que viviam de renda e não tinham obrigações de qualquer natureza. doado. trocado. Rafael. pois depende de forças que o ser humano não pode controla. Existiam outros trabalhadores além de escravos (artesãos. Escravidão. É o espaço da política. sendo. da vida pública. em sua obra “Trabalho e Ócio”. portanto. por exemplo). e não só ele.wikipedia. com exceção de compromisso com os assuntos da cidade e com os cidadãos. De acordo com a filósofa alemã Hannah Arendt. Estes eram desobrigados de qualquer atividade. em geral. os gregos utilizavam os temos labor. que utiliza o discurso como um meio para encontrar soluções voltadas para o bem-estar dos cidadãos. o escravo era propriedade de seu senhor e. Em poiesis a ênfase recai sobre o ato de fabricar. Assim. Paul Veyne. mesmo os trabalhadores livres eram explorados e oprimidos pelos senhores e proprietários. poiesis e práxis para expressar suas três concepções para a ideia de trabalho. camponeses. muitas comunidades tribais dispõem de áreas estritas e enfrentam. Nessas sociedades. Para a http://pt. O trabalho do artesão ou do escultor se enquadraria nessa concepção. isto é. A escravidão era fundamental nessas sociedades.

como no mundo greco-romano. fez-se necessária uma nova concepção de trabalho. Inclui-se aqui o auxílio da polícia. por exemplo. dizia-se que só assim todos sairiam beneficiados. o comerciante de carneiros). diversos setores colaboraram para essa mudança: As escolas passaram às crianças a ideia de que o trabalho era fundamental para a sociedade. quer dizer. Disponível em: http://contandohistorias. Lisicles. no qual não gozavam de plena liberdade. escravos. não era precisamente para honrá-los. da história da Cigarra e da Formiga ou da dos Três Porquinhos? Quem não trabalhava "levava sempre a pior". ao mesmo tempo próspera e cheia de nobreza. Com o desenvolvimento do capitalismo e o surgimento da burguesia (período moderno / XV – XVIII). inclusive entre muitos filósofos como Platão e Aristóteles. como um fim em si mesmo. por exemplo. Esse conceito era ensinado. Muitos trabalhavam em regime de servidão. mas também não eram escravos. O trabalho era visto como castigo.o comerciante de estopa. Quem não se lembra.com Os governantes passaram a criar uma série de leis e decretos que penalizavam quem não trabalhasse. só era homem por inteiro quem vivia no ócio. Isso aconteceu porque. os homens que viviam no ócio. Fábula da Cigarra e da formiga. foi preciso convencer as pessoas de que trabalhar para os outros era bom. de um homem de qualidade. camponeses e negociantes não poderiam ter uma vida "feliz". Este passou a ser visto de forma positiva. Para Platão. Para mudar a concepção de trabalho. Nas sociedades feudais. A terra era o principal meio de produção. Essa ideia era amplamente aceita. Os desempregados eram considerados vagabundos e podiam ir para a prisão. uma cidade benfeita seria aquela na qual os cidadãos fossem alimentados pelo trabalho rural de seus escravos e deixassem os ofícios para a gentalha. ou seja. não sendo mais possível contar com o serviço compulsório. corresponderiam moralmente ao ideal humano e mereceriam ser cidadãos por inteiro. e os trabalhadores tinham o direito a seu usufruto e ocupação. . havia aqueles que trabalhavam – os servos. uma punição com a qual Deus punira os homens por causa do pecado original. Para Aristóteles. nas tarefas e lições e também por meio dos contos infantis. Somente aqueles que tinham meios de organizar a própria existência e fixar para si mesmos um objetivo ideal. deveria ser "ociosa". mas nunca à propriedade. os camponeses livres e os aldeões – e aqueles que viviam do trabalho dos outros – os senhores feudais e os membros do clero. Tratava-se de uma concepção negativa e ideológica defendida pela Igreja Católica. a partir da qual a nobreza justificava a servidão a que os camponeses estavam submetidos. A vida "virtuosa". Prevalecia um sistema de deveres do servo para com o senhor e deste para com aquele. encarregada de prender esses "vagabundos".

lucro e alienação conforme vamos estudar em Karl Marx no estudo da sociedade capitalista. mas trabalhava mais horas do que antes. mais especificamente na Reforma Protestante do século XVI. Isso Disponível em: http://fnac. historiadores. A burguesia nascente conseguiu criar uma mentalidade favorável ao trabalho e voltada para a valorização da produtividade – objetivo maior da sociedade capitalista: a produção de mercadoria apoiada na existência da propriedade privada dos meios de produção. com essa obra. Sua obra não examina o capitalismo propriamente dito. # Para refletir. principalmente com horários de entrada e saída dos estabelecimentos.Os empresários desenvolveram uma disciplina rígida no trabalho. quer dizer.. mas sim o “espírito” por trás dele. A partir daí. parte de dados estatísticos que lhe mostraram a proeminência de adeptos da Reforma Protestante entre os grandes homens de negócios. empresários bem-sucedidos e trabalhadores qualificados. O trabalhador estava livre. Com essa publicação provocou diversos debates entre teólogos. Weber. a partir da pesquisa histórica baseada na coleta de documentos. filósofos. a história era bem outra. Não trabalhar (ter preguiça) passou a ser pecado. As igrejas procuraram passar a idéia de que o trabalho era um bem divino e quem não trabalhasse não seria abençoado. não era mais escravo nem servo. Você concorda com a afirmação de que o “trabalho enobrece o homem”? O capitalismo sob a visão de Max Weber O desenvolvimento do capitalismo ocidental foi alvo da análise weberiana na obra “A ética protestante e o espírito do capitalismo” (1904). sociólogos. Na vida real. mas apreender e explicar as concepções éticas e religiosas que promoveram o capitalismo moderno ocidental dos séculos XVII e XVIII. caminhava em um terreno novo comparadas às análises até então existentes principalmente as de cunho marxista. na transição feudo-capitalista. Essa efervescência intelectual se devia porque Weber. por conta de seu método compreensivo que se apóia na ideia de que a realidade é complexa e construída historicamente. diversos setores da sociedade colaboraram para uma nova concepção de trabalho e de sociedade.pt significa que o desenvolvimento do capitalismo ocidental foi resultado de diversas forças sociais. psicólogos. Sua proposta não é efetuar uma análise econômica desse sistema (tal como Marx). Como já foi relatado anteriormente. procura estabelecer conexões causais entre a . exploração de classe (mais-valia). Weber trabalhará com um recorte na dimensão religiosa.. No entanto.

TOMAZI. a poupança. O motivo que mobiliza internamente os indivíduos é consciente. de renúncia aos prazeres mundanos e carnais). propiciaram um espírito novo. Entretanto. o dever. como Marx. seus efeitos no comportamento dos indivíduos e sobre o desenvolvimento capitalista. o protestante puritano se adapta facilmente ao mercado de trabalho. Weber mostra a formação de uma nova mentalidade. em especial os calvinistas – como a vida ascética (consagração a exercícios espirituais de autodisciplina.ed. No seio das famílias protestantes. em flagrante oposição à atitude contemplativa do catolicismo. a propensão ao trabalho e o uso racional dos recursos e do tempo dedicados ao trabalho – atuavam de maneira decisiva sobre os indivíduos. pode-se compreender. os filhos eram criados para o ensino especializado e para o trabalho fabril. preferindo o cálculo e os estudos técnicos ao estudo humanístico. Weber não abordou. Cristina. # Para refletir. Assim. Max Weber. um ethos – conjunto de valores e crenças – propício ao capitalismo.. Sociologia para o Ensino Médio. Weber concluiu a existência de relações causais entre o estilo de vida baseado na calculabilidade /no planejamento e o que ele chamou de “burocratização da vida” e “desencantamento do mundo”. É esta a questão que o interessa em a A ética protestante e o espírito do capitalismo. os atos individuais vão além das metas/objetivos propostas e aceitas por eles. acumula capital e reinveste produtivamente apresentando uma tendência ao racionalismo econômico. voltada para a oração. Será que a religião ainda possui alguma influência no comportamento capitalista de alguns indivíduos Referências: COSTA. Weber descobre que os valores do protestantismo. base da ação capitalista. São Paulo: Saraiva.blogspo Por consequência da racionalidade de vida pregada pela Ética Protestante. sacrifício e renúncia da vida prática. a austeridade. 3 ed. 2010 . Buscando sair-se bem na profissão. Sua atitude científica consistiu em reconhecer que o capitalismo é um fenômeno histórico. Em suma. a noção de capitalismo como um sistema econômico responsável pela exploração e alienação dos homens e dos produtos do trabalho. Disponível em: http://sociologia. que a relação entre a religião e a sociedade não se dá por meios institucionais.. mostrando sua própria virtude e vocação e renunciando aos prazeres materiais.doutrina e a pregação protestante. 2005. que possui uma origem e que é indiscutível que historicamente ele tenha nascido em certos meios religiosos que. uma mentalidade nova que favoreceu a eclosão do capitalismo moderno. Nelson Dácio. mas por intermédio de valores introjetados nos indivíduos e transformados em motivos da ação social. por preconizarem uma conduta ética racional. 2. a vocação. Sociologia: Introdução à ciência da sociedade.São Paulo: Moderna. optando sempre por atividades mais adequadas à obtenção do lucro.