Você está na página 1de 16

Há livros que nos fazem mal?

- PÚBLICO

20/02/2016 15:12

 41

 9403

Há livros que nos fazem
mal?
ISABEL LUCAS (texto) e RUI GAUDÊNCIO (fotografia)
07/02/2016 - 00:41

Há um movimento de estudantes universitários
norte-americanos a pedir que os protejam dos
conteúdos de alguns livros que consideram
https://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/ha-livros-que-nos-podem-fazer-mal-1722455

Page 1 sur 16

violência.publico. animais. chamando a atenção para o “perigo” para o “bem-estar mental” que representam os seus conteúdos. noutro país também do Ocidente. E m Lisístrata.pt/culturaipsilon/noticia/ha-livros-que-nos-podem-fazer-mal-1722455 Page 2 sur 16 . um grupo de estudantes universitários pede para que alguns clássicos da literatura. traição.PÚBLICO 20/02/2016 15:12 perigosos. Perigoso por propor uma alteração à norma de comportamento. e apresentando os mitos como essenciais na evolução humana. elementos convivem fantasiosamente em histórias de amor. é uma das obras que esses estudantes consideram conter “matéria perigosa”. as atenienses recusam ter sexo com os seus maridos. Muitos séculos depois. O poema dividido em 15 livros é tido como um dos livros mais influentes da cultura e civilização ocidentais e narra a transformação exercida pelo tempo no homem e na sua história. plantas. sem qualquer tipo de https://www. Em causa estão sobretudo clássicos da literatura grega e romana. sobretudo da antiguidade grega e romana. incesto. do poeta latino Ovídio. que fazem parte dos programas curriculares. Deuses. comédia do ano 411 a.C. homens.Há livros que nos fazem mal? . punição. A psiquiatra Manuela Correia fala em “infantilização” da sociedade. trauma ou angústia. morte. surjam com uma advertência na capa. cruzando ficção e realidade. O livro seria pouco depois proibido naquela que é uma das primeiras censuras literárias do Ocidente. redenção. potencialmente causadores de sofrimento. o dramaturgo grego Aristófanes põe na voz de uma mulher um apelo à paz: enquanto durar a guerra entre Atenas e Esparta. Metamorfoses..

desata a deusa a chamar. veio dos estudantes da Universidade de Columbia. com entusiasmo juvenil. e ia enchendo.” (Cotovia. pela mãe e as companheiras. E tal era a candura que presidia aos seus anos de menina. O problema. a túnica soltou-se e as flores colhidas caíram por terra. Rasgando a parte de cima do vestido. “em nome do bem-estar emocional.Há livros que nos fazem mal? . mas é simbólico em relação ao que se está a passar em muitas universidades nos Estados Unidos. diziam. estava na palavra “violação” (rape). uma das mais prestigiadas do país. “a ser desastroso para a educação e para a saúde mental”. cestas e o regaço. https://www. os estudantes universitários exigem uma protecção cada vez maior em relação a palavras e ideias de que não gostam”. sobretudo pela mãe. à compita com as amigas a ver quem colhia mais.publico. Aterrada. e foi rejeitado pela direcção.pt/culturaipsilon/noticia/ha-livros-que-nos-podem-fazer-mal-1722455 Page 3 sur 16 . escrevendo que. está a descrição do rapto de Prosérpina. quando Dite a viu e. que podia reacender o trauma em estudantes que pudessem ter sido vítimas desse tipo de abuso. Em Setembro do ano passado. Os estudantes de Direito de Harvard pediram que não fosse ensinada a lei sobre violação. 2007) O pedido aconteceu no início do Verão passado. se enamora e rapta-a: tão precipitado era o seu amor. com voz desolada. Entre estes “interditos. a revista Atlantic publicava um artigo com o título O afago da mente americana. que até também a perda das flores consternou a rapariga.PÚBLICO 20/02/2016 15:12 apreciação moral. mulher de Plutão e filha de Deméter. dizem os autores do texto. que Ovídio começa a narrar assim: “Um dia colhia violetas e brancos lírios. quase em simultâneo. E dão mais exemplos. em Nova Iorque. o que está.

de tal forma que — e lembra ainda o artigo da Atlantic — humoristas como Jerry Seinfeld estão a recusar dar espectáculos nas universidades. alegando que os estudantes “não são capazes de suportar uma piada”. de David Foster Wallace. mas moral ou mental.PÚBLICO 20/02/2016 15:12 Absurdo? Os pedidos de protecção “literária” sucedem-se (https://www. pior do que se possa imaginar porque há também a sensação de que é preciso fazer qualquer coisa de imediato para se deter aquilo mas não se sabe o que se deve fazer e de repente está a acontecer. não.publico. está prestes a acontecer e ao mesmo tempo está a acontecer. É mais horror que tristeza. É mais horror. É como se uma coisa horrorosa estivesse prestes a acontecer. por narrar os sintomas da depressão crónica experimentada pelo autor e que o levaria a suicidar-se em 2006. a Aeon publicava um ensaio. de Virginia Woolf. assim como A Piada Infinita. E define-a assim: “É como se não fosse capaz de encontrar nada fora dessa sensação e por isso não sei que nome lhe posso dar. 2012) Os campus universitários americanos parecem viver no pânico do trauma. na obsessão da linguagem politicamente correcta. Mrs Dalloway.publico.pt/culturaipsilon/noticia/oscensores-perdem-sempre-1633432).” (Quetzal. por poder levar ao suicídio. por estimular violência doméstica.Há livros que nos fazem mal? . O Grande Gatsby. https://www. Fala de uma sensação que “é o motivo pelo qual quero morrer”. dois anos após a publicação do livro. Pouco tempo depois. “Não se fala tanto de ‘perigo’ político. O romance de Chinua Achebe Quando Tudo se Desmorona (1958) está também entre os problemáticos por poder despertar instintos racistas ou reavivar o sofrimento de quem foi alvo de racismo. durante o tempo todo. partindo do facto de que a ideia de que os livros são perigosos é tão antiga como a literatura.pt/culturaipsilon/noticia/ha-livros-que-nos-podem-fazer-mal-1722455 Page 4 sur 16 . a coisa mais horrível que se possa imaginar.

psiquiatra. remetendo para um termo que vem da sociologia. e que no seu entender está a regressar: anomia social. O conceito desenvolvido por Émile Durkheim no final do século XIX no livro O Suicídio (1897) refere-se à ausência ou falta de normas ou regras numa estrutura ou grupo social. a prostituição. https://www.publico.publico. afirma Manuela Correia. diz. Conhece todas as obras aqui apontadas como “perigosas” e tenta responder a uma questão muito simples: há livros que nos fazem mal? Ou — recuperando a terminologia usada por quem pede protecção — há livros “perigosos”? E a outra pergunta que pode precisar de resposta mais complexa: o que é que este medo pode representar. os termos impróprios. o religioso (https://www.pt/culturaipsilon/noticia/codigo-davinci-na-lista-dos-livros-proibidos-pelo-vaticano-1218232) e o moral. “Foi criado numa altura em que por diminuição do impacto religioso e dos valores das sociedades conservadoras. mas para a sociedade que o alimenta e dele parece alimentar-se? “Pode falar-se em três categorias de interditos: o político. com um vasto trabalho e investigação desenvolvidos na área do suicídio na adolescência e juventude. E parece ser aqui que estamos neste momento”. com a pulverização de valores através do desenvolvimento de uma economia capitalista e da razão. a sexualidade.pt/culturaipsilon/noticia/ha-livros-que-nos-podem-fazer-mal-1722455 Page 5 sur 16 . E no moral está o uso de drogas. psicoterapeuta.PÚBLICO 20/02/2016 15:12 “Infantilização” da sociedade “E stamos perante uma excessiva psiquiatrização da sociedade”. o apelo à violência. e uma leitora voraz. o incesto.Há livros que nos fazem mal? . não apenas para quem dele padece.

Há livros que nos fazem mal? .pt/culturaipsilon/noticia/ha-livros-que-nos-podem-fazer-mal-1722455 Page 6 sur 16 . um sentido”.publico. Hoje. contextualiza. de Goethe. dá um fim.publico. bem ou mal. É um conceito que tem a ver com a perda da identidade nas sociedades e dos seus objectivos. Com A Paixão do Jovem Werther. como já aconteceu https://www. o poder político é mais transversal. Nunca ficou cientificamente provado que potenciasse esse efeito Manuela Correia (//imagens0.PÚBLICO 20/02/2016 15:12 houve um aumento dessa regulação. e aí. associou-se um livro à prática do suicídio. nas democracias.aspx/1029950?tp=UH&db=IMAGENS) “A psiquiatrização excessiva do comportamento humano é a forma que as sociedades capitalistas — porque formalmente são laicas — têm para controlar a tal anomia social. A religião.pt/imagens. Antes. Foi retirado em alguns países mas voltou. ela era controlada pela religião e por um poder político muito vertical. Houve uma anomia social.

de Goethe (1774. “se confunda muitas vezes uma criança irrequieta como hiperactiva” e lhe seja “medicada Ritalina”. arrebatam eles mesmos. nem são os adolescentes. por instinto. mas as crianças”. por exemplo. Uma das primeiras vezes em que se associou uma obra literária à prática do suicídio e isso deu lugar a uma investigação do tipo causa-efeito foi com A Paixão do Jovem Werther. obra do romantismo que faz parte do Plano Nacional de Leitura). “Para mim.publico. ou a temer-se que contos clássicos como os dos Irmãos Grimm ou de Andersen possam ser traumáticos. mas voltou.Há livros que nos fazem mal? . Sinto-me assim muitas vezes e gostaria de abrir uma veia que me desse a liberdade eterna…” Manuela Correia refere-a como iniciática no estudo da relação entre literatura e suicídio.PÚBLICO 20/02/2016 15:12 há uns anos. Ao longo do romance. A psiquiatria funcionava como polícia da sociedade. Fala-se de uma raça de cavalos nobres que. “Foi a partir daí que se começou a estudar o efeito de contaminação. “Ah!. É uma forma de controlar a sociedade. os casos mais graves. o desespero toma conta do protagonista nas cartas que faz chegar ao narrador. quando são terrivelmente perseguidos e encurralados. por mais de cem vezes já peguei uma faca para dar vazão a este coração amargurado. patologiza-se o comportamento e patologizase uma pessoa que saia da norma. Nunca ficou https://www. Leva a que. O movimento dos anos 1960 da antipsiquiatria tinha que ver com isso.pt/culturaipsilon/noticia/ha-livros-que-nos-podem-fazer-mal-1722455 Page 7 sur 16 . afirma. O livro foi retirado em alguns países. uma veia para facilitar a respiração.” Esse controlo pela psiquiatria está a voltar através de uma tentativa de normalizar os comportamentos.

antes de voltar a exemplos que podem determinar uma incapacidade de lidar com o real que vem da infância e de uma sobreprotecção ligada ao medo dos pais de que a criança sofra.PÚBLICO 20/02/2016 15:12 cientificamente provado que potenciasse esse efeito”. deprimidos. começam a ler livros e a ouvir músicas ligadas à temática da morte. ainda não há um código de valores. conclui. mudam os hábitos de vestuário. traumatizados a quem um livro ou uma palavra num livro pode desencadear a acção limite. esquizofrenia. um sofrimento mantido: depressão. “Ou se isolam.pt/culturaipsilon/noticia/ha-livros-que-nos-podem-fazer-mal-1722455 Page 8 sur 16 . podem cometer suicídio. mínimas em termos percentuais. mania. “É a fase da formação. mas há umas franjas. Não há nunca uma causa única”. “Nos adolescentes acontece muito mudarem de comportamento”. ou têm vários comportamentos de risco mantidos no tempo. E há um facto: esses jovens quando têm sofrimento psicológico. “Os livros em si não são perigosos. que passam pela alteração da relação com os pais. eles fazem parte de uma constelação de comportamentos”. enquanto chama a atenção para o perigo de se achar que toda a sociedade é potencialmente composta por suicidas. ou mudam de grupo. onde está também a identidade sexual. refere. https://www. Em 90% dos casos de suicídio. muito menos um livro. São sinais de alerta”.publico. Quem sou eu? O que quero ser? Qual o meu código de valores? A maior parte dos adolescentes são saudáveis. nomeadamente depressão. afirma. há doença psiquiátrica por detrás. com os pares e a aquisição de uma identidade. explica. Na adolescência temos várias tarefas. salientando que essa ideia de contaminação está directamente associada à adolescência.Há livros que nos fazem mal? .

Por exemplo. “Falam de temas que as pessoas acham que não se deve falar às crianças.publico. As sociedades sempre controlaram e é importante que o colectivo tenha um autocontrolo.publico. não deve passar pela restrição da leitura. de Lewis Carroll. Não faz mal que a criança chore e é bom que tenha medo.pt/culturaipsilon/noticia/ha-livros-que-nos-podem-fazer-mal-1722455 Page 9 sur 16 . mas é muito importante a aprendizagem do medo. e também em transgressões. naturalmente.pt/imagens. na China. Mas…” É neste “mas” que reside a resposta. Mas varia de cultura para cultura. Há nas crianças.aspx/1029951?tp=UH&db=IMAGENS) https://www. como a morte ou a bruxa má. muitos menos desses contos que. ensinam o medo. que.PÚBLICO 20/02/2016 15:12 Daí a preocupação de alguns educadores com os contos de Andersen ou do Grimm.Há livros que nos fazem mal? .” (//imagens1. entre outras coisas. porque os animais têm equiparação aos humanos. está proibido. no entender de Manuela Correia. Alice no Pais das Maravilhas. “Os pais têm medo que as crianças tenham medo. uma ideia de liberdade ligada à transgressão.

deixam lá os sinais. No bom tédio. e à noite. deitar. mas depois acontece qualquer coisa e a marca desaparece e eles ficam perdidos. pelo desconhecido. pequenoalmoço. despir. Segundo Manuela Correia. essas vivências eram acompanhadas pela família.” Estão ocupados. Têm o tédio de ‘não sei o que é que hei-de fazer’. aos smartphones. jantar. https://www. o bom ócio.Há livros que nos fazem mal? . Há muitos estudos sobre os contos infantis. uma hora. trabalhos de casa. uma pessoa pode estar sentada no jardim ou no sofá.publico.” Grupos como os dos universitários norte-americanos ou as associações de pais de muitas escolas surgem com este tipo de solicitação proteccionista em substituição de um papel que antes pertencia a um estado autoritário ou à religião. A criança chora.pt/culturaipsilon/noticia/ha-livros-que-nos-podem-fazer-mal-1722455 Page 10 sur 16 . banho. Não há tempo para isto. Antigamente. no Facebook. a cabeça a divagar. no entender de Manuela Correia. ir para a escola. “Os jovens hoje não têm tempo para ter tédio. O problema é quando a criança tem essa vivência sozinha. sem o contacto olho a olho. O bom tédio. Hoje a criança está muito sozinha. a sociedade que não consegue lidar com o medo ou com a pluralidade da linguagem. Não tem mal. Isto é o ócio. para elaborar. Os meninos que vão pelos caminhos à aventura.PÚBLICO 20/02/2016 15:12 O que é o medo? “O medo é qualquer coisa que está ligada ao desconhecido e ao perigo e quando aprendemos isso adquirimos capacidades de lidar com ele. Há um estilo de vida que põe as crianças em frente à televisão. é o contrário de outro essencial para o desenvolvimento: o ócio. Está com os pais de forma muito instrumental. o tédio. Este vocábulo. vestir. são o reflexo — no caso dos estudantes — e a origem — nos casos das gerações mais velhas (pais e avós) — de uma “infantilização” da sociedade.

Há livros que nos fazem mal? . Cândido.pt/ciencias/jornal//oslivros-cientificos-dos-seculos-xvi-e-xvii-ou-como-a- inquisicao-limpou-as-bibliotecas-26448333). a desagregação do tecido social. A partir do século XIX. na política. O que é que trata o James Joyce? Ou o Homero? Tratam a ideia de liberdade. E por que é que normalmente são os grandes clássicos que agora são questionados por estes estudantes? Porque são os grandes clássicos que tratam os grandes temas. contém o problema e a sua solução.publico. ou seja. E eram vistos como perigosos porque pensar é muito perigoso. como está a acontecer nos Estados Unidos. Mas o bom de tudo isto é que quando há muito movimento num sentido há tendência para haver um outro no sentido contrário para que essa anomia não seja excessiva e a sociedade possa estar autocontrolada. “A própria austeridade reforça a anomia social.PÚBLICO 20/02/2016 15:12 Mas há também factores económicos determinantes. reforça. de Voltaire. Porque a sociedade como um todo também se auto-regula. Mas nunca se assistiu.publico. os interditos deixam de ser tanto os cientistas e os filósofos — https://www. “Eram indivíduos de uma elite que tinha conhecimento. na filosofia. auto-regulada. e a liberdade é muito perigosa. Pensar dá poder. na ciência (https://www. quando surge o romance. Os “transgressores” A História tem casos de livros proscritos. O Bom Selvagem. ao pedido de protecção contra a liberdade de expressão por parte de uma comunidade de estudantes de elite. de Rousseau. os livrosameaça ao estipulado. são os temas da filosofia. defende.pt/culturaipsilon/noticia/ha-livros-que-nos-podem-fazer-mal-1722455 Page 11 sur 16 . É viva”.

E depois há a ideia de que as crianças não compreendem.publico.pt/culturaipsilon/noticia/ha-livros-que-nos-podem-fazer-mal-1722455 Page 12 sur 16 . de Machado de Assis. É a linguagem que ou ofende a religião ou o poder político. ou os costumes. Os adolescentes em todas as gerações têm códigos próprios e quando acaba a adolescência ficam com a linguagem de um adulto. sublinhando “que nem a intenção do Presidente Obama em repor o livro como básico escolar conseguiu mudar as coisas”. e se tivermos uma linguagem rica também pensamos melhor.Há livros que nos fazem mal? . que é uma prostituta.” Manuela Correia Um exemplo diferente é o que decorre do uso de linguagem considerada imprópria e um perigo em si mesma. de Darwin.PÚBLICO 20/02/2016 15:12 com excepções como a de Charles Darwin [contestado pelo Criacionismo que rejeita a ideia de o homem e o universo terem sido criados por uma entidade que não sobrenatural]. Por isso a questão da língua é muito importante. o que é perigoso porque a linguagem e o pensamento estão ligados. chegou a ser publicada uma versão light de O Alienista [1882]. Também aconteceu nos EUA. Desenvolvemos a linguagem se pensarmos. Ele fala da mulher da vida airada. foi retirado do programa oficial das escolas norte-americanas porque “a força do movimento Criacionista no país é muito grande”. Há livros que foram proibidos porque havia a palavra ‘puta’. A Origem das Espécies. “No Brasil. Mas https://www. Há um empobrecimento do vocabulário e um empobrecimento do pensamento. lembra a psiquiatra.

embora a moda da época contribuísse até certo ponto para o dissimular — estava a golpear uma cabeça de mouro suspensa das vigas do telhado”. “Todos os grandes autores pegam nas questões existenciais: o quem sou eu. de Fernando Pessoa.publico. uma grande amiga e uma grande paixão. “Agitam as mentes”. o diagnóstico não está bem definido. O Livro do Desassossego. interior e feito de vivências que expressava através da língua. Ulisses. de Tolstoi. que “tinha relações amorosas com a Vita Sackeville-West.Há livros que nos fazem mal? . Virginia Woolf está entre as escritoras mais visadas. como gostaria de me ver. romance de 1928 que “pode entrar na construção social do género”.PÚBLICO 20/02/2016 15:12 agora esses estereótipos estão a generalizar-se a todas as faixas etárias. se tivermos uma linguagem rica. Foster Wallace descreve a https://www. mas havia uma esquizofrenia. Por exemplo.pt/culturaipsilon/noticia/ha-livros-que-nos-podem-fazer-mal-1722455 Page 13 sur 16 . Há mais. ter um lugar. Há um empobrecimento do vocabulário e um empobrecimento do pensamento. Todas são apontadas como exemplos de conterem “elementos perturbantes”. Teve uma depressão grave. como é que eu gostaria de ser visto pelos outros. primeira frase de Orlando.” E há os livros “tabu” pela temática. as obras de Kafka. periodicamente mais ou menos sensíveis conforme a geografia e a sensibilidade da comunidade. Desenvolvemos a linguagem se pensarmos e. Anna Karenina. o que eu quero ser. o lugar de Fernando Pessoa era completamente conceptual. exemplifica a psiquiatra que vai à biografia da escritora. de James Joyce. comenta Manuela Correia. também pensamos melhor. porque às vezes ouvia vozes”. “Ele — pois não poderia haver dúvidas quanto ao seu sexo.

os valores. a valorização da ciência. E tenho de aceder aos cânones dessa cultura. se regem por um determinado código de ética e de valores. Desde o Homero. ir para o desconhecido. de forma crua. E. é infantilizar. Todos os livros canónicos são uma preparação para a vida. a relação com o outro.” https://www. que é a ideia de conhecer. da relação interpessoal e a ideia da viagem. A infantilização traz um grande perigo: o de haver outra vez sociedades concentracionárias e com um poder vertical. É fundamental. Impedir os livros da grande literatura. E depois os interditos: o suicídio. desde a Epopeia de Gilgamesh [poema da antiga Mesopotâmia. Porque somos isso tudo.PÚBLICO 20/02/2016 15:12 depressão tal como ela é. tenho de defender o acesso aos bens culturais.pt/culturaipsilon/noticia/ha-livros-que-nos-podem-fazer-mal-1722455 Page 14 sur 16 . a cultura humanista. estes livros nunca são perigosos.” A literatura “ajuda a construir a identidade.publico. desde a infância.Há livros que nos fazem mal? . actual Iraque] que trata da condição humana. Se eu pensar que a ideia de democracia. o incesto. dorida. se pudermos. ir para o medo. a sexualidade. ler os clássicos das várias culturas. Podem é fazer parte da tal constelação de comportamentos de um jovem já em sofrimento. do ponto de vista clínico. Mas. um direito na Declaração Universal dos Direitos do Homem.

na mente humana universal.publico.publico.Ljubljana.Há livros que nos fazem mal? . francamente.  José Milton Ferreira Acajutiba . É 09/02/2016 09:19 justamente fo proibido que gostam as multidoes curiosas. apalpar. há muito fesejado por uma elite que se julga senhora absoluta do conhecimento. O que se busca é a preguiça intelectuai com o objetivo fe um niilismo. viver? Lígia https://www. Como criticar algo se não o conheço? Se nao me deixaram.aspx/1030003?tp=UH&db=IMAGENS) COMENTÁRIOS  Hugo Char Bielefeld. é preciso ser retrogado .Acajutiba Infantilizar um sociedade é exatamente começar a bsurdos como este: proibir livros poque os tem como perigosos.pt/culturaipsilon/noticia/ha-livros-que-nos-podem-fazer-mal-1722455 Page 15 sur 16 .PÚBLICO 20/02/2016 15:12 (//imagens3. ver. da verdade e do se "direito" de impor.pt/imagens. cheirar. Slovenia até se pode compreender uma sociedade que proiba um livro por motivos politicos ou religiosos (no caso desses livros serem 10/02/2016 13:31 contrarios à doutrina q esse estado quer impor) agora proibir por "disturbios" da moral.. Germany . ler..

nas primeiras páginas da mesma. Independentemente da fonte ( religiosa ou política)." é algo infantil. a leitura da obra "O suicídio". Sugiro. Não nos responsabilizamos sobre sei conteúdo. ampliando sua visão do conteúdo. O conceito de anomia social está totalmente equivocado.Há livros que nos fazem mal? . juntamente com o "politicamente correcto" e doses massivas de senso comum.publico.  Rubens Rates de Albuquerque Penso da necessidade de parâmetros que a sociedade deve ter e sempre repensá-los. 08/02/2016 18:13  PSG Lisboa Do admirável novo mundo das sociedades de consumo de massas. 1 2 3 4 5 > https://www. A anomia social ocorre quando indivíduos não se identificam com a moral e os costumes impostos pela sociedade a qual pertencem.. Isso para dar ao leitor uma idéia..pt/culturaipsilon/noticia/ha-livros-que-nos-podem-fazer-mal-1722455 Page 16 sur 16 . ao autor.se à medida que os valores e a ética humanista vão perdendo terreno no tabuleiro das sociedades flageladas pelas assimetrias socioeconómicas. de 08/02/2016 18:30 Durkheim. Mas ao impôr certos preceitos sobre a possibilidade de livros serem perigosos estamos protegendo a 08/02/2016 17:44 ninguém. Vale a ressalva sobre uma avaliação literária da obra. legitimada (preferencialmente) ou não. e parecem fortalecer .PÚBLICO 20/02/2016 15:12 Por favor. o facto é que as correntes de auto-regulação (como sugeridas no texto) das estruturas dominantes estão aí para ficar. resulta que a anomia a que o texto volta uma e outra vez não é mais do que a causa e efeito do poder exercido pelas classes dirigentes sobre os que a ele se submetem. ao retrocesso civilizacional do islamismo salafista e do 08/02/2016 18:10 ultracoservadorismo do Tea Party. Fazer acusação: "Está obra é classificada como perigosa.   André Pereira David Foster Wallace morreu a 12 de Setembro de 2008. da próxima vez entrevistem também uma socióloga.