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Calaram-se
francisco providência

Mário , Crespo, Jornalista

Cavaco Silva e Sócrates tinham o dever de ter reagido


com vigor à baixeza dos insultos que Angola dirigiu a
Mário Soares. Ao deixar passar em claro um acto de
tal hostilidade, presidente da República e
primeiro-ministro não cumpriram com o respeito pelos
valores nacionais a que constitucionalmente se
comprometeram.

O "Jornal de Angola" é porta--voz do MPLA. Ao


insultar um antigo presidente de Portugal, o MPLA não
está a fazer nenhuma réplica ao que Bob Geldof disse
sobre o Governo de Angola. Está deliberadamente a
tentar ofender Portugal, insultando alguém que os
portugueses escolheram para ser chefe de Estado em
dois mandatos consecutivos e que foi um dos pais
fundadores da democracia em que vivemos. Achei
excessivo e tendencioso aquilo que Geldof disse
sobre o Governo de Angola. Foi uma declaração feita
só para ser provocadora e bombástica. De facto, não
tem substância nenhuma. Na ignorância de
conjunturas e contextos muito complexos sobre os
quais Geldof obviamente não reflectiu o suficiente,
caiu naquilo a que o desconhecimento
invariavelmente leva a construção de sínteses muito
primárias e injustas.

Mas por infeliz e pouco adequada que tenha sido a


observação, foi dita em fórum privado por uma estrela
cadente do rock. Foi um clamoroso desaire de
relações públicas para a empresa que organizou a
conferência e devia ter-se ficado por aí. Pelo contrário,
o órgão de propaganda do MPLA, reflectindo a política
governamental, aproveitou ripostando com injúria
institucional e intencional, com ofensas dirigidas à
mais respeitável das nossas figuras públicas. Não
tenho mandato para terçar armas pelo dr. Mário
Soares. Mas Cavaco Silva e José Sócrates têm essa
obrigação por aquilo que Soares representou e
representa nesta nação. José Luís Zapatero e Juan
Carlos não toleraram que o desbragado presidente da
Venezuela insultasse um primeiro-ministro deposto e

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os dois, chefe de Estado e de Governo, reagiram de


imediato silenciando (literalmente) o impropério
ofensivo.

Em Portugal aconteceu o contrário. Dos dois órgãos


de soberania, a seguir à brutalidade da ofensa contra
um antigo chefe de Estado, veio o silêncio cúmplice e
atemorizado. Enquanto Espanha manda calar um
agressor incoerente, o Portugal de Cavaco e Sócrates
aceitou o desrespeito num mutismo embaraçado que
não marcou os limites a partir dos quais a afronta aos
valores do Estado Português não é tolerada.

O dr. Soares representa esses valores. Claro que há


mecanismos para manifestar o desagrado com
firmeza e sem grande alarde.

O Embaixador de Angola deveria ter sido chamado em


audiência devidamente publicitada, mas com agenda
reservada, para mostrar que a dignidade dos órgãos
de soberania em Portugal não toleram o
comportamento abusivo vindo de fontes oficiais de
outros estados, por muito petróleo que tenham. Isso
não foi feito e Portugal tem agora uma brecha aberta
na sua respeitabilidade. Confiemos que com o insulto
continue a entrar o petróleo barato e os contratos para
as construtoras. Resignemo-nos à desonra se é que
queremos o nível do gasóleo acima da reserva, foi a
mensagem que os ensurdecedores silêncios de Belém
e de São Bento nos trouxeram.

Há uma excepção importante. Manuel Alegre, que uns


milhões de portugueses acharam (e acham) que
deveria ser o chefe de Estado em Portugal, foi a única
entidade com dimensão nacional a insurgir-se contra
as ofensas do Governo de Angola a Mário Soares.
Foram ataques despropositados e injustos feitos em
termos inaceitáveis, disse o vice-presidente da
Assembleia da República, um dos portugueses que de
Nambuangongo a Lisboa mais combateram pela
independência de Angola. Confiemos que mais este
contributo seja pedagogicamente entendido por quem
governa em Luanda.

Mário Crespo escreve no JN, semanalmente, às


segundas-feiras

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