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TEMPO PASCAL. QUINTA SEMANA.

QUARTA-FEIRA

78. A VIDE E OS SARMENTOS


– Jesus Cristo é a verdadeira vide. A vida divina na alma.

– “Jesus nos poda para que demos mais fruto”. Sentido da dor e da mortificação.

– União com Cristo. O apostolado, “superabundância da vida interior”. O ramo seco.

I. EU SOU A VIDEIRA, vós os ramos. Quem permanece em mim, e eu


nele, esse dá muito fruto, lemos no Evangelho da Missa1.

Pela sua ingratidão, o Povo eleito havia sido comparado com frequência a
uma vinha; assim, fala-se da ruína e restauração da vinha arrancada do
Egipto e plantada em outra terra2; e Isaías manifesta a queixa do Senhor
porque a sua vinha, depois de inúmeros cuidados, contando que lhe daria
uma colheita de uvas, deu agraço, uvas amargas3. Jesus também utilizou a
imagem da vinha para significar a rejeição do Messias por parte dos judeus e
a chamada dirigida aos gentios4.

Mas aqui o Senhor emprega a imagem da videira e dos ramos num sentido
totalmente novo. Cristo é a verdadeira videira, que comunica a sua própria
vida aos ramos. É a vida da graça que flui de Cristo e se comunica a todos os
membros do seu Corpo, que é a Igreja: sem essa seiva nova, esses membros
não produzem fruto algum, pois estão secos, mortos.

É uma vida de valor tão alto que Jesus derramou até a última gota do seu
sangue para que pudéssemos recebê-la. Todas as suas palavras, acções e
milagres nos introduzem progressivamente nessa vida, ensinando-nos como
nasce e cresce em nós, como morre e como nos é restituída se a perdemos 5.
Eu vim, diz-nos Ele, para que tenham vida e a tenham em abundância6.
Permanecei em mim e eu permanecerei em vós7.

O Senhor nos faz participar da própria vida divina! Quando é baptizado, o


homem transforma-se no mais profundo do seu ser, de tal modo que é como
se nascesse de novo: torna-se filho de Deus, irmão de Cristo e membro do
seu Corpo que é a Igreja. Esta vida é eterna, se não a perdemos pelo pecado
mortal. A morte já não tem verdadeiro poder sobre aquele que a possui, pois
esse jamais morrerá, mas apenas mudará de casa8, para ir morar
definitivamente no Céu.

Jesus Cristo quer que os seus irmãos participem dessa vida que Ele tem
em plenitude. “A vida que da adorável Trindade se derramou sobre a santa
Humanidade do Senhor transborda novamente, estende-se e propaga-se. Da
cabeça desce aos membros [...]. O tronco e os ramos formam um único ser,
nutrem-se e actuam conjuntamente, produzindo os mesmos frutos porque são
alimentados pela mesma seiva”9.
Eu vos escrevo isto, diz-nos São João depois de nos ter narrado inúmeras
maravilhas, para que saibais que tendes a vida eterna 10. Esta vida nova
chega até nós ou se fortalece especialmente pelos sacramentos, que o
Senhor quis instituir para que a Redenção pudesse chegar a todos os homens
de uma maneira simples e acessível. Nesses sete sinais eficazes da graça
encontramos Cristo, o manancial de todas as graças. “Neles o Senhor fala
connosco, perdoa-nos, conforta-nos; neles nos santifica, neles nos dá o
ósculo da reconciliação e da amizade; neles nos comunica os seus próprios
méritos e o seu próprio poder; neles se nos dá Ele mesmo”11.

II. TODO O RAMO que não der fruto em mim, ele o cortará; e todo aquele
que der fruto, ele o podará para que dê mais fruto12.

O cristão que inutiliza os canais pelos quais lhe chega a graça – a oração e
os sacramentos – fica sem alimento para a sua alma, e “esta morre às mãos
do pecado mortal, porque as suas reservas se esgotaram e chega um
momento em que nem sequer é necessária uma forte tentação para que caia:
cai por si própria, porque já não tem forças para manter-se de pé. Morre
porque a sua vida acabou. E se os canais da graça não estiverem bem
desimpedidos, porque uma montanha de apatias, negligências, preguiças,
comodismos, respeitos humanos, influências do ambiente, pressas e outros
afazeres [...] os obstrui, então a vida da alma vai elanguescendo e agoniza
até que acaba por morrer. E, naturalmente, a sua esterilidade é total, pois não
dá nenhum fruto”13.

A vontade do Senhor, no entanto, é que demos fruto e o demos


abundantemente14. É por isso que Ele poda o sarmento. É interessante
observar que o Senhor utiliza o mesmo verbo para falar da poda dos ramos e,
logo a seguir, da limpeza dos seus discípulos: Vós já estais limpos pela
palavra que vos tenho anunciado15. Ao pé da letra, a tradução teria que ser
esta: “E todo aquele que der fruto, ele o limpará para que dê mais fruto”16.

Temos que dizer sinceramente ao Senhor que estamos dispostos a deixar


que Ele arranque tudo o que em nós for obstáculo à sua acção: defeitos do
carácter, apegos ao nosso critério ou aos bens materiais, respeitos humanos,
pequenos pontos de comodismo ou de sensualidade...; que estamos
decididos, ainda que nos custe, a deixar-nos limpar de todo esse peso morto,
porque queremos dar mais frutos de santidade e de apostolado.

O Senhor nos limpa e purifica de muitas maneiras, por vezes permitindo


fracassos, doenças, difamações... “Não ouviste dos lábios do Mestre a
parábola da videira e das varas? – Consola-te. Ele exige muito de ti porque és
vara que dá fruto... E te poda, «ut fructum plus afferas» – para que dês mais
fruto. – É claro!: dói esse cortar, esse arrancar. Mas, depois, que louçania nos
frutos, que maturidade nas obras!”17

III. ASSIM COMO O RAMO não pode dar fruto por si mesmo, se não
permanecer na videira, assim também vós, se não permanecerdes em mim18.

“Portanto – comenta Santo Agostinho –, todos nós, unidos a Cristo, nossa


Cabeça, somos fortes, mas, separados da nossa Cabeça, não valemos nada
[...]. Porque, unidos à nossa cabeça, somos vide; sem a nossa cabeça [...],
somos ramos cortados, destinados não ao uso dos agricultores, mas ao fogo.
Por isso Cristo diz no Evangelho: Sem mim não podeis fazer nada. Ó Senhor!
Sem ti, nada; contigo, tudo [...]. Sem nós, Ele pode muito ou, melhor, tudo;
nós sem Ele, nada”19.

Os frutos que o Senhor espera de nós são muito diversos, mas tudo seria
inútil – como se tentássemos colher bons cachos de uvas de um ramo que se
desprendeu da cepa – se não tivéssemos vida de oração, se não
estivéssemos unidos ao Senhor. “Olhemos para esses sarmentos, repletos
por participarem da seiva do tronco: só assim aqueles minúsculos rebentos de
alguns meses atrás puderam converter-se em polpa doce e madura, que
cumulará de alegria a vista e o coração (cfr. Ps CIII, 15). No chão talvez
tenham ficado alguns gravetos soltos, meio enterrados. Eram sarmentos
também, mas secos, crestados. São o símbolo mais expressivo da
esterilidade”20.

A vida de união com o Senhor ultrapassa o âmbito pessoal e manifesta-se


no modo de trabalhar, no convívio com os colegas, nas atenções para com a
família..., em tudo. Dessa unidade com o Senhor brota a riqueza apostólica,
pois “o apostolado, seja qual for, é uma superabundância da vida interior”21.
Uma vez que Cristo é “a fonte e origem de todo o apostolado da Igreja, torna-
se evidente que a fecundidade do apostolado dos leigos depende da sua
união vital com Cristo. Pois é o Senhor quem diz: Quem permanece em mim
e eu nele, esse dá muito fruto, porque sem mim nada podeis fazer (Jo 15, 5).
Esta vida de união íntima com Cristo na Igreja alimenta-se de auxílios
espirituais comuns a todos os fiéis... Os leigos devem servir-se de tal sorte
desses auxílios que, enquanto cumprem com esmero as suas obrigações no
meio do mundo, nas condições ordinárias da vida, não separem a união com
Cristo da sua vida privada, mas cresçam intensamente nessa união,
realizando as suas tarefas segundo a vontade de Deus”22.

Em todos as facetas da vida acontece a mesma coisa: ninguém dá o que


não tem. Só da árvore boa se podem colher bons frutos. “Os ramos da videira
são desprezíveis quando não estão unidos ao tronco; e nobres quando estão
[...]. Se se cortam, não servem para nada, não interessam nem ao agricultor
nem ao carpinteiro. Para os ramos, de duas uma: ou a videira ou o fogo; para
não irem para o fogo, que estejam unidos à videira”23.

Estamos dando os frutos que o Senhor espera de nós? Os nossos amigos


têm-se aproximado de Deus, por nosso intermédio? Damos frutos de paz e de
alegria no meio daqueles com quem mais convivemos? São perguntas que
poderiam ajudar-nos a concretizar algum propósito antes de terminarmos a
nossa oração. E fazemo-lo junto de Maria, que nos diz: Cresci como vinha de
agradável odor, e minhas flores deram frutos de glória e abundância24. Pois
quem me acha encontra a vida e alcança o favor do Senhor25. Ela é o
caminho mais curto para chegarmos a Jesus, que nos cumula de vida divina.

(1) Jo 15, 1-8; (2) cfr. Sl 79; (3) cfr. Is 5, 1-5; (4) cfr. Mt 21, 33-34; (5) cfr. P. M. de la Croix,
Testimonio espiritual del Evangelio de San Juan, Rialp, Madrid, 1966, pág. 141; (6) Jo 10, 10;
(7) Jo 15, 4; (8) cfr. Missal Romano, Prefácio dos defuntos I; (9) M. V. Bernadot, Da Eucaristia
à Trindade; (10) 1 Jo 5, 13; (11) E. Boylan, Amor Sublime; (12) Jo 15, 2; (13) F. Suarez, La
vid y los sarmientos, 2ª ed., Rialp, Madrid, 1980, págs. 41-42; (14) cfr. Jo 15, 8; (15) Jo 15, 3;
(16) cfr. nota a Jo 15, 2, em Santos Evangelhos; (17) São Josemaría Escrivá, Caminho, n.
701; (18) Jo 15, 4-6; (19) Santo Agostinho, Comentário ao Salmo 30, II, 1, 4; (20) São
Josemaría Escrivá, Amigos de Deus, n. 254; (21) ib., n. 239; (22) Conc. Vat. II, Decr.
Apostolicam actuositatem, 4; (23) Santo Agostinho, Trat. Evangelho de São João, 81, 3; (24)
Eclo 24, 23; (25) Prov 8, 35.

(Fonte: Website de Francisco Fernández Carvajal AQUI)