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Projeto

PERGUNTE
E
RESPONDEREMOS
ON-LINE

Apostolado Veritatis Spiendor


com autorizagáo de
Dom Estéváo Tavares Bettencourt, osb
(in memoriam)
APRESEISTTAQÁO
DA EDigÁO ON-LINE
Diz Sao Pedro que devemos
estar preparados para dar a razáo da
nossa esperanca a todo aquele que no-la
pedir (1 Pedro 3,15).

Esta necessidade de darmos


conta da nossa esperanga e da nossa fé
hoje é mais premente do que outrora,
visto que somos bombardeados por
numerosas correntes filosóficas e
religiosas contrarias á fé católica. Somos
assim incitados a procurar consolidar
nossa crenca católica mediante um
aprofundamento do nosso estudo.

Eis o que neste site Pergunte e


Responderemos propóe aos seus leitores:
aborda questóes da atualidade
controvertidas, elucidando-as do ponto de
vista cristáo a fim de que as dúvidas se
dissipem e a vivencia católica se fortaleca
no Brasil e no mundo. Queira Deus
abencoar este trabalho assim como a
equipe de Veritatis Splendor que se
encarrega do respectivo site.

Rio de Janeiro, 30 de julho de 2003.

Pe. Esteváo Bettencourt, OSB

NOTA DO APOSTOLADO VERITATIS SPLENDOR

Celebramos convenio com d. Esteváo Bettencourt e


passamos a disponibilizar nesta área, o excelente e sempre atual
conteúdo da revista teológico - filosófica "Pergunte e
Responderemos", que conta com mais de 40 anos de publicacao.
A d. Esteváo Bettencourt agradecemos a confiaca
depositada em nosso trabalho, bem como pela generosidade e
zelo pastoral assim demonstrados.
JU NH O
7958"

ERGUNTE

Responderemos

ANO I
Índice

I. CIENCIA E BELIGIAO
Páginas
1) "Pode haver milagres fora da Igreja Católica ?" 223

II. DOGMÁTICA
2) "Como se entende que a Missa neja o sacrificio mesmo da
Cruz ? Cristo sofreu tima xó vez ou continua a sofrer ein cada
S. Missa ?" 226'
■i) "Na epístola aos Hebreus c. 9, vv. 12.25.26.28 e c. 10
vr\ 10,12.14 está escrito que o sacrificio redentor de Cristo se
realizou unía só vez, em oposicáo aos sacrificios da Lei mosaica.
Sendo axs'nu, como se pode, nmintir que a Mtssa é o mesmo sacri
ficio da Cruz renovado diariamente sobre, os altares ? ¡hrnde. se
infere a necessidade de tal renovacáo da imolagiio de Cristo ?" .. 226

4) "A Igreja Católica nao se afastou da doutrina da Sa


grada Escritura pela mía praxe batismal ?
a) Baliza, as criancas, que nao parecem precisar disto nem
sao capazes de receber instrugño previa ;
b) batiza por infusño, e nao por imersáo" 229
5) "O Diabo existe realmente ou é mero símbolo da mal-
dade e do odio ?
Caso exista, será mesmo Adversario de Deus ?
O Diabo teria possibilidade de se reabilitar no fhn dos sé-
culos ?" ..: 235

III. SAGRADA ESCRITURA

II) "J'or i/na é que. u Pai Nosso rezado pelos cnlálicox nao
incluí a fórmula final: 'Porque leu é o reino e o poder e a gloria
para sempre. Amém', fórmula encontrada na Biblia dos protes
tantes (cf. Mt G, 13) ?
Tambétn quisera saber por que os católicos interpelam a
Deus na segunda pessoa do plural (Vos), guando Jestis no Pai
Nosso usoti a segunda pessoa do singular (Tu)? Nao se distan-
ciam da Biblia ?" 239
7) "Como ^e explica a sobriedade com que os Apostólos e
Evangelistas se Ireferem a María ? O seu nome nao ocorre urna
i'Cz sequer ñas epístolas de Stlo Paulo 241
S) "E como se pode entender a aparente descortesía de
Jesús para com María nos Evangelhos ?" 2&1

IV. MORAL
9) "Que pensa a Igreja a respeito de'empréstimos a juros
e sobre a usura ? Nao foram condenados petos teólogos antigás
e medievais ?
E que sao os Monti di pietá fundados por um franciscano?
Podem-se justificar ?" 247
10) "Que é o chamado Ecumenismo ?" 252
11) "Queta fox Nostradamus e qual a autoridade de suas
profecías ?" seo
CORRESPONDENCIA MIÜDA 263

COM APROVACAO ECLESIÁSTICA


«PERGÚNTE E RESPONDEREMOS

Ano I — N" 6 — Junho de 1958

I. CIENCIA E RELIGIÁO

S.O.S. (Kio de Janeiro) :


1) «Pode haver milagres fora da Igreja Católica?»

Em vista da clareza de doutrina distinga-se entre milagre


propriamente dito (ou milagre na linguagem técnica dos teó
logos) e milagre em sentido largo.
»

1. O milagre propriamente dito é um fenómeno estranho


ao curso natural das coisas, fenómeno que Deus produz como
smal da sua presenca e acáo neste mundo. A fungáo de sinal é
merente ao conceito de milagre propriamente dito Éste por con-
seguinte, é sempre um testemunho que o Todo-Poderoso dá em
favor de urna verdade ou de urna pessoa : a Divindade de Cristo
a autenticidade de sua Igreja, a santidade de urna alma, a efica
cia da oracáo, etc. — Em conseqüencia, escapam á qualificacáo
de «milagre» certos fatos que, embora sejam admiráveis ou es-
tranhos (algumas curas repentinas, visóes destituidas de con-
teúdo doutrinário, um ou outro caso de estigmatizacáo), nao tém
significado religioso, nao elevam a Deus, mas, ao contrario, só
servem para satisfazer ao capricho ou á vaidade de alguém.
Quando Deus efetua prodigios, nunca o faz por capricho ou os-
tentaqáo de sua Onipotóncia, mas sempre a fim de chamar a
atengáo do homem para&lgum dos atributos divinos.
Pois bem; os teólogos nao hesitam em afirmar que o mila
gre propriamente dito pode ocorrer tanto dentro da Igreja (entre
os fiéis católicos) como fora desta (entre náo-católicos : herejes,
cismáticos, pagaos). Éste último caso.certamente é raro; quando,
porém, o milagre é produzido fora da Igreja Católica (é sempre
Deus quem o produz), o seu testemunho é tal que nao redunda
em abono dos erros do paganismo ou da heresia, mas em favor
da verdade, verdade que em plenitude é possuída pela Igreja
Católica; o milagre produzido fora desta adquire assim um valor
construtivo, é sinal da auténtica revelagáo e tende a levar a
única Igreja de Cristo.

— 223 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS* 6/1958,

Sao Tomaz (De potentia 6,5 ad 5), por exemplo, ensina que
Deus pode realizar um milagre para confirmar simplesmente
urna verdade da religiáo natural (ou seja, urna verdade religiosa
que o homem por sua inteligencia natural reconhece) ou para
atestar o valor da virtude praticada sinceramente por quem de
boa fé vive fora do Catolicismo; e cita o caso, narrado por
S. Agostinho (De civ. Dei 10,26), conforme o qual urna vestal
de Roma (virgem consagrada ao servigo da Divindade), para
comprovar a conservagáo de sua pureza, havia conseguido carre-
gar agua do Tibre num vaso perfurado... Sao Tomaz assim
comenta tal noticia :

«Nao está excluido que, para exaltar a castidade, o Deus verdadeiro,


por meio de seus anjos, tenha realizado o milagre de deter as aguas;
pois, se íloresceu- alguma virtude entre os gentíos, floresceu por dom
de Deus».

O que quer dizer : quem fora da Igreja procura sincera


mente a Deus, seguindo a sua consciéncia 'com toda a boa fé,
encontra a Deus, o único Deus da Revelagáo crista. Éste entáo,
caso julgue oportuno, pode, por meio de um milagre, dar tes-
temunho público das sinceras disposigóes de tal servo seu.

2. O milagro- em sentido largo é (como sugerc a palavra


latina correspondente, niiruculuin) ludo que suscita a admiragáo
dos homens por depender de causas que os espectadores ignoram.

a) Essas causas podem ser fórgas latentes na alma, pode


res naturais ainda pouco conhecidos e explorados pela Psicolo
gía; tém-se entáo fenómenos chamados paranormais (= ao lado
dos normáisJ.^como sao a telepatía, a radiestesia, a transmissáo
de pensamento, a clarividencia do passado e do presente, as
curas por sugestáo... Ás vézes estes fenómenos sao tidos como
milagres e atribuidos a mensageiros do Além; erróneamente,
porém. Com os estudos modernos de Psicología, que mais e mais
penetram no sub-consciente e no inconsciente, os .fenómenos
paranormais váo sendo elucidados e reduzidos progressivamente
á categoría do normal; a maioria dos psicólogos julga que, com o
tempo, o paranormal será totalmente claro e considerado como
normal.

b) As causas ocultas aos espectadores, ácima menciona


das, também podem estar fora do homem; seriam almas de
defuntos, anjos ou demonios (quando é o próprio Deus, tem-se
um milagre própriamente dito, de que tratamos ácima).

— 224 —
MILAGRES FORA DA IGREJA

No caso da intervengáo de almas de defuntos, anjos ou de


monios (intervencáo que só se verifica por especial permissáo de
Deus e nunca pode ser foreada ou extorquida pelos homens), os
fenómenos sao chamados preternaturais (= além dos naturais),
por serem fenómenos que ultrapassam os poderes do homem na
térra, mas nao os de outra natureza criada, dotada de faculdades
superiores as do homem. Fenómenos preternaturais sao, por
exemplo, a descrigáo de acontecimentos futuros previsíveis por
quem conhece bem suas causas atuais, a indicagáo de fórmulas
farmacéuticas o terapéuticas que excedem os conhecimentos da
precaria ciencia humana, a transposigáo de objetos e pessoas de
um lugar para outro... Tais efeitos estáo certamente ao alcance
dos anjos bons e maus, que, possuindo inteligencia superior á do
homem, podem, melhor do que nos, penetrar nos segredos da na
tureza; possuem também raio de agáo mais ampio que o do
homem (quanto ás almas dos defuntos, podem por concessáo de
Deus gozar de maior liberdade de agáo do que quando unidas
aos corpos).

Os fenómenos preternaturais podem-se verificar, por per-


missño do Scnhor, tanto dentro como fora da Igrcja Católica.
Nao há dúvida, ocorrem em alguns processos do espiritismo;
ocorrem também em formas de curandeirismo, que invoca explí
citamente os espíritos maus e usa da magia negra. Jesús mesmo
predisse que «surgiriam falsos Cristos e falsos profetas, os quais
fariam grandes sinais e prodigios, de modo a seduzir, se fósse
possível, até os eleitos» (cf. Mt 24,24); Sao Paulo atribuí seme-
íhantes poderes ao Homem Iníquo por excelencia, que se mani
festará no fim dos tempos (cf. 2 Tes 2,8-10). Note-se que em
geral nao sao ás almas dos defuntos evocados que intervém ñas
sessóes espiritas; na maioria dos casos, dá-se um dos fenómenos
paranormais ácima enunciados (telepatía, clarividencia, trans-
missáo de pensamento...).

Deve-se observar ainda que, se Deus permite a realizagáo


de portentos (nao milagres no sentido estrito) por parte dos
anjos maus ou demonios, Ele a permite para comprovar e puri
ficar a fé dos homens. Contudo nao deixa de fornecer indicios
para discernirmos as maravilhas que Deus faz por Si ou por
meio dos anjos bons, das maravilhas que o demonio, por con
cessáo do Onipotente, efetua; Deus, que é justo, nunca poderia
permitir que o homem seja, por obra dos espíritos maus, inven-

— 225 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 6/1958, qu. 2 e 3

civelmente levado ao erro no tocante á religiáo e á salvagáo


eterna. Entre os principáis criterios de discernimento, enume-
ram-se os seguintes : os prodigios realizados pelo demonio sao
geralmente cercados de ritos, práticas supersticiosas (ou seja,
recurso a causas ineptas para obter efeitos de ordem superior),
fórmulas e receitas evocadoras; o conteúdo das respectivas men-
sagens nao leva a Deus e a Cristo (as vézes, é verdade, os oragos
espiritas mandam seus clientes freqüentar a igreja ou corrigir
um vicio; fazem-no, porém, a fim de suscitar maior confusáo,
recorrendo a um pouco de verdade para encobrir grande dose de
erro; nao visam gerar integralmente a fé e a moral católicas no
paciente); a procura de tais portentos deixa geralmcnlc a pcssoa
perturbada, inquieta, tendente a um estado psicopático. Ao con
trario, os prodigios realizados por Deus e pelos anjos bons sao
geralmente imprevistos; acontecem sem evocagáo nem provoca-
cáo alguma, sem ostentacáo aparatosa (tenham-se em vista os
milagres de Fátima, Lourdes, La Salette etc.); sao fatores de
paz e alegría profundas, nao afetadas pelas contradigóes huma
nas; corroboram a virtude, principalmente a humildade e a obe
diencia ou renuncia á vontade própria perante a autoridade legí
tima (criterios importantíssimos). É, sem dúvida, pelos frutos
que se conhece a árvore!
A respeito da existencia do demonio, pressuposta ñas linhas
ácima, veja-se a resposta n? 4 déste fascículo.

II. DOGMÁTICA

E. S. T. (Rio de Janeiro) :

2) «Como se cntendc que a Missa scja o sacrificio mcsmo


da Cruz? Cristo sofreu urna só vez ou continua a sofrer cm cada
Missa?»

PAULO (Recife) :

3) «Na epístola aos Hebreus c. 9, w. 12.15. 26. 28 e c. 10,


w. 10. 12. 14 está escrito que o sacrificio redentor de Cristo se
realizou urna só vez, em oposicao aos sacrificios da Lei mosaica.
Sendo assim, como se pode ensinar que a Missa é o mcsmo sacri
ficio da Cruz renovado diariamente sobre os altares? Donde se
infere a necessidade de tal renovacáo da imolacao de Cristo?»

— 226 —
A MISSA E O SACRIFICIO DA CRUZ

1. Nao há dúvida, a epístola aos Hebreus inculca solene-


mente a unicidade do sacrificio de Cristo oferecido outrora no
Calvario : nesse documento Cristo aparece como o Sacerdote
Único (cf. 4,14; 6,20; 7,21. 23s) a se oferecer como Vítimá
Üniea e Perfeita (cf. 7,28) mima oblacáo definitiva (cf. 9,11-14'.
25-28; 10,10.14). O Senhor Jesús nao precisa de se oferecer
muitas vézes, mas sua oblagáo foi feita, urna vez por todas, por
que, á diferenga do que se dava com os sacrificios de animáis
irracionais do Antigo Testamento, a oferta de Cristo possui valor
infinito, capaz de expiar todos os pecados, passados, presentes e
futuros, do género humano; cf. 4,14; 7,27; Í),12.25s28; J0,12.14.

2. Junto, porém, com a epístola aos Hebreus, devem-se


considerar os textos do Novo Testamento que referem a última
ceia do Senhor. Nesta, dois tragos chamam a nossa atengáo :

a) Jesús se apresentou na última ceia como Sacerdote e


Vítima. Deve-se mesmo dizer : colocou-se em estado de Vítima
que se oferecia ao Pai pelos pecados do mundo;

b) mandou aos discípulos reiterassem tal rito.


Com efeito. Jesús, ao dar aos Apostólos o pao e o vinho
consagrados, apresentava-lhes o seu corpo entregue (didóiiKMion,
em giego; cf. Le 22,19) e o seu sangue derramado, ckchunnóme-
non, pela remissao dos pecados (cf. Mt 26,28: Me 14,24;
Le 22,20). Ora no estilo bíblico as duas expressóes «entregar,
dar o corpo (ou a alma)» e «derramar o sangue (pelos peca
dos)» indicam a imolagáo de um sacrificio propiciamente dito.
Quanto a «dar o corpo, a alma», veja-se Is 53,12; Mt 20,20;
Rom 8,32; Gal 1,4; 2,20; Ef 5,25; 1 Tim 2,6; Tit 2,14; Hebr 10,10.
0 sentido sacrifical e expiatorio de «derramar o .sangue (pelos
pecados)» depreende-se de Rom 3,25; 5,9; Ef 1,7; Hebr 9,7;
1 Pdr 1,19; 1 Jo 1,7.

Merece atengáo o fato de que na última ceia o Senhor nao


ofereceu apenas o seu corpo e o seu sangue aos discípulos como
alimento, mas ofereceu-os pelos discípulos, em favor déstes
(hyper hymoon), o que incute o caráter sacrifical do rito
(cf. Le 22,19s). Mais aínda : ao falar do sangue da Nova Alian-
ga na ceia, Jesús aludía a Éx 24,8, texto em que Moisés apre-
senta o sangue da Antiga Alianga («Éste é o sangue da alianga
que Javé pactuou convosco»); Cristo assim se oferecia como
Vítima para selar a definitiva Alianga, em lugar da vítima irra-

— 227 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 6/1958, qu. 2 e 3

cional cujo sangue selara a primeira alianca no Sinai; Jesús


assim opunha sangue a sangue, sacrificio a sacrificio, imolacáo
realizada na última ceia a imolacáo realizada outrora no deserto.
A última ceia destarte aparece como a Nova Páscoa, a qual, me
diante o sangue do Verdadeiro Cordeiro imolado pelos pecados
do mundo (cf. Jo 1,29), faz cessar os numerosos e imperfeitos
sacrificios do Antigo Testamento.

Nao seria plausível replicar que Jesús apresentava «seu


corpo e seu sangue imolados» na quinta-feira sania quais sím
bolos vazios de conteúdo e meramente figurativos daquilo que na
realidade devia acontecer na sexta-feira seguinte. Nao; as pala-
vras do Senhor sao simples e claras; Jesús nao teria empregado
termos ambiguos e metafóricos em circunstancias táo solenes,
acarretando insolúvel confusáo na mente dos discípulos. Por con-
seguinte, repitamo-lo, sobre a mesa (que se transformava em
altar) Jesús se colocava em estado de Vítima, realizando urna
agáo sacrifical. Quem ainda concebesse dúvidas sobre o sentido
do texto evangélico, poderia resolvé-las considerando a praxe e
o ensinamento das geragóes cristas, que, desde os inicios da
Igreja, tomaram as palavras de Cristo no seu significado próprio
e natural.

Leve-se agora em conta que Cristo mandou aos Apostólos,


reiterassem o rito da última ceia, última ceia a qual Jesús atri
buía o significado ácima exposto; cf. 22,19; 1 Cor 11,24. Desta
ordem concluíram os Apostólos e as geragóes subseqüentes que,
todas as vézes que renovavam a ceia do Senhor (também cha
mada Eucaristía), realizavam a oblacáo de urna Vitima (Cristo)
ou de um sacrificio. Éste, porém, nao podia (nem pode) ser a
repetigáo do sacrificio da Cruz, pois Jesús se imolou urna vez por
todas, conforme a epístola aos Hebreus. A ceia, por conseguinte,
nao poderá ser senáo o ato de «tornar presente» (sem multipli
car) através dos tempos, e de maneira incruenta, o único sacri
ficio do Calvario oferecido cruentamente há vinte sáculos atrás.
Concluir-se-á, portante :

a) na quinta-feira santa Jesús perante os discípulos tor-


nou presente de modo real, mas incruento, o sacrificio que Ele
no dia seguinte devia realizar cruentamente na Cruz; tornou-o
antecipadamente presente;

b) atualmente em cada S. Missa Jesús torna presente de


modo rea!, mas incruento, ésse mesmo e único sacrificio que Ele
já realizou cruentamente na cruz.

— 228 —
BATISMO DE CR1ANCAS

Justamente éste «tornar presente» a todos os tempos, sem


implicar repetigáo nem multiplicagáo, constitui o «misterio da
fé», título dado por excelencia a S. Eucaristía. Para facilitar a
acéitagáo déste misterio, pode-se recordar que a oblagáo de
Cristo passou para o plano da eternidade, plano no qual passado,
presente e futuro coincidem numa única realidade ou simples-
lóente nao existem como tais.

Brevemente o Concilio de Trento (1545-1563) define as re-


lacóes do rito eucaristico com o sacrificio da cruz nos seguintes
termos :

«Há (em ambos) urna so e mesma Hostia, um mesmo Sacerdote,,


que se oferece agora pelo ministerio dos presbíteros depois de se ter
oferecido file mesmo outrora sobre a cruz; apenas a maneira de ofere-
cer é diferente» (sess. 22, c. 2).

Em conseqüéncia, vé-se que impropria é a expressáo : «A


Missa renova o sacrificio da Cruz». Preferir-se-á a seguinte ter
minología :

A Missa torna presente sobre os altares, (sem o multipli


car) o único sacrificio da Cruz.
A Missa, porém, renova e repete a última ceia de Cristo.

Quanto ao ministerio dos presbíteros, de que o Senhor


agora se serve para oferecer o seu sacrificio, nao implica mul-
tiplicagáo do sacerdocio. Cristo fica sendo o único Sacerdote
que santifica os fiéis por meio dos presbíteros, seus instrumen
tos; nenhum déstes se coloca ao lado de Cristo; ao contrario é
mediante especial incorporagáo a Cristo que cada presbítero
se torna participante das atribuigóes do único Sacerdote.

A razáo por que o Senhor instituiu o rito da Missa é que


Ele quena que seus membros se unissem á Cabega (partici
pando das qualidades de Cristo, Sacerdote e Hostia), na oblacao
do sacrificio de nossa Redencáo.

J. B. (Dores do Indaiá) :

4) «A Igreja Católica nao se afastou da doutrina da Sa


grada Escritura pela sua praxe batismal?
_ a) Batiza as enancas, que nao parecem precisar disto nem
sao capazes de receber instrucáo previa;
b) Batiza por infusáo, © nao por imersao».

— 229 —
S1 6/1958, qu, 4

1. No tocante ao primeiro ponto

a) deve-se dizer que na antiga Igreja o batismo era fre-


qüentemente administrado a adultos — o que se entende pelo
rato de que o Cristianismo se recrutava em urna sociedade pre-
ponderantemente paga, após a pregagáo do Evangelho feita a
adultos. Nao era, porém, excluido o batismo de criancas; admite-
-se que se tenha verificado, por oxemplo, nos casos referidos
pela Sagrada Escritura em que uma familia inteira era batizada :
foi que so don com Lidia, a vendedora de púrpura de Tiatira, e
todos os sous (cf. At 16,15); com o guarda do oáivorc de FiJipes
e toda a sua casa (cf. At 16,33); com Crispo, o Clicfe da sina
goga de Corinto, e toda a sua famülia (cf. At 18,8); com Estefa-
naz e todos os seus (cf. 1 Cor 1,16).

Na literatura crista, testemunhos muito antigos referem o


batismo de criangas : S. Irineu, por exemplo, (y cérea de 202)
afirma que Nosso Senhor veio salvar «todos os que por Ele re-
nascem para Deus : criancas, pequeninos e meninos (infantes,
párvulos et puorus)» (Adv. haer. II 22,4). Orígenes (\ 254/55)
atesta que «segundo a praxe da Igreja o batismo é dado também
aos pequeninos» (In Lev h. 8,3) e nota que «a Igreja recebeu dos
Apostólos a tradigáo de conferir o batismo mesmo as criancas,
pois éles sabiam que em todos (os filhos de Adáo) há auténticas
manchas de pecado, que devem ser canceladas pela agua e polo
Espirito» (In Rom 5,9). S. Cipriano (v 258) repetía éste racio
cinio (ep. 59,3s); o sínodo de Cartago, presidido pelo mesmo
S. Cipriano em 252, mandou que em caso de necessidade as
criangas fóssem batizadas antes mesmo de completarem o seu
oitavo dia (ep. 59,2). S. Ambrosio (f 397), no livro De Abra-
ham II11, S. Jerónimo (f 420), no Diálogo contra os Felagianos
III 18, atestairTpor sua vez o costume de batizar as criancas;
S. Agostinho (f 430), na controversia com os Pelagianos, faziá
desta praxe um dos principáis argumentos da existencia do pe
cado original em todos os descendentes de Adáo (De civ. Dei 21,
14,16; In lo tr. 41,5; 80,3); julgava tratar-se de praxe dos Apos
tólos (ep. 166,23).

b) O costume se conservou ininterruptamente até hoje na


Igreja, sendo que os Papas e Concilios recomendaran! freqüente-
mente a urgencia da administracáo do batismo aos pequeninos.
A razáo desta teso é assaz clara : «Deus quer que todos os ho-
mens sejam salvos» (1 Tim 2,4), mesmo as criancinhas. Ora
entre os meios de salvacáo o Senhor incluiu explícita e categó
ricamente o batismo : «Quem nao renascer da agua e do Espirito

— 230 —
BATISMO DE CRIANCAS

Santo, nao poderá entrar no reino de Deus» (Jo 3,5), ou :


«Quem crer e fór batizado, será salvo; quem nao crer, será con
denado» (Me 16,16). Sendo assim, visto que as criancas podem
morrer a qualquer momento, procura-se-lhes administrar o ba-
tismo sem demora alguma.

Verdade é que os pequeninos nao sao capazes de conceber


a fé ou crer. Isto, porém, nao impede que sejam capazes de re-
ceber o batismo. Com efeito, a fé é mera disposicáo, ao passo que
a ac/io purificadora e santificante se eleve ao s;i<Tain<<nlo; ésío,
porlanlo, pode ser conferido sem aqucia a sujeilos ineapazes de
conceber a fé. Assim como sem cooperacáo de sua parte as crian-
gas sao afetadas pelo pecado original, assim sem cooperacáo sao
libertadas do pecado e revestidas da graca do Salvador. Há
mesmo nelas a exigencia interpretativa do batismo, isto é,
supóe-se que, se tivessem conhecimento de causa, pediriam deci
didamente o batismo, pois é éste que lhes outorga o inicio da vida
eterna ou da bem-aventuranga celeste. Sem o batismo, as crian-
cas nao sao condenadas ao inferno (o que nao seria justo da
parte de Deus), mas, afetadas pelo pecado original, carecentes
da graga santificante, nao gozam da filiacáo divina, ficando por
isto excluidas da bem-aventuranga celeste, heranca dos filhos de
Deus; julga-se que (a menos que Deus queira empreender a sal-
vacáo das criancas por vias a nos desconhecidas) váo para o
limbo, onde gozam de felicidade meramente natural, premio éste
inferior áquele que o Senhor destina a todos os justos (a visáo
de Deus face a face).

Quanto á fé, a Igreja, no caso dos pequeninos, a supre; sao ba


lizados «por extensáo da fé da Igreja», como explica S. Tomaz,
repetindo palavras de S. Agostinho (ep. 98,5):

«As criancas sao levadas a receber a graca do Espirito nao tanto


por aqueles cujas maos as carregam (embora por ésses, caso sejam
bons e fiéis), quanto pela sociedade inteira dos santos e dos fiéis...
A le de ura cristño, antes, a íé da Igreja toda, ó útil a ci ¡anca por obra
do Espirito Santo, que faz a uniáo da Igreja e comunica <i uns os bens
de outros» (S. Teol. III 68, 9 ad 3).

Quando a crianga atinge a idade da razáo, dá-se-lhe a ins-


trxiQáo religiosa, a fim de que conceba a reta fé e a professe de-
vidamente; ela entáo renova as promessas do batismo, que em
seu nome fizeram os respectivos padrinhos. Naturalmente deve-
-se desejar que a catequese dos adolescentes batizados seja efi-

— 231 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 6/1958, qu. 4

dente, apta a formar bons cristáos, de modo que o germen da


graga santificante, depositado previamente na alma pelo batis-
mo, nao venha a ser frustrado. É éste desejo que leva a Igreja a
nao batizar criancas a revelia dos respectivos pais ou sem que
haja esperanga de se dar posteriormente instrugáo católica aos
jovens batizados (excetuam-se apenas os casos de morte, pois
entáo prevalece o direito da crianga á salvagáo eterna).

Dir-se-á talvez que ó injusto batizar as criangas sem o seu


consentimento, impondo-se-lhes, sem consulta previa, os graves
deveres religiosos decorrentes do sacramento (Erasmo de Rot
terdam, t 1536, por exemplo, admitía o batismo dos pequeninos,
mas quería que o ratificassem ao chegarem á idade adulta; caso
nao o quisessem, deveriam ser considerados isentos das respecti
vas obrigagóes).

Em resposta, observar-se-á que o dever de renunciar a


Satanaz e observar a Lei de Deus nao depende estritamente de
alguma lei positiva, mas é ditado pela própria lei natural, lei que
fala dentro de todo individuo antes que peca e receba o batismo;
assim como todo homem por lei é obrigado a aderir a Deus
(ao Deus Único, que se revelou por Cristo) e a se esforgar por
conseguir sua salvagáo eterna, assim também é conseqüente-
mente obrigado por loi natural a receber o batismo (caso éste
se lhe torne acessível). Donde se vé que nao se faz injuria á
crianga, conferindo-se-lhe o batismo quando ainda nao pode
dispor de si; ao contrario, presta-se-lhe grande favor, pois lhe é
destarte possibilitada á entrada no reino dos céus; é-lhe mesmo
assegurada a salvagáo para os anos anteriores ao uso da razáo;
quanto aos deveres, nao se lhe impóe nenhum ao qual o peque-
nino nao esteja, por sua natureza mesma, obrigado de maneira
¡mediata ou mediata. Caso o cristáo batizado, chegando á idade
do discernimento, rejeite os encargos do seu batismo, incorre
em um mal menor do que a perda da visáo beatífica (a qual seria
de prever, caso morresse sem o sacramento).

c) Nao se pode negar que, no decorrer da historia da


Igreja, se fizeram ouvir vozes e escolas contrarias ao batismo
das criahgas. Contudo sempre foram consideradas erróneas ou
heréticas. Poder-se-ia tragar a seguinte lista :

nos séc. III/IV varios cristáos queriam diferir o batismo


até a idade de se casarem ou até que se acalmasse o fogo das
paixóes da adolescencia; temiam manchar a inocencia batismal
(cf. Tertuliano, De baptismo 18). A motivagáo era, sem dúvida,

— 232 —
BATISMO DE CRIANCAS

fraca; o cristáo deve ter a santa ousadia de aceitar os donj de


Deus, sabendo que o Senhor sempre concede a graga necessária
para se evitar o pecado. Os bispos e teólogos desaprovaram cate
góricamente tal tendencia a adiar o batismo, pois equivalía a
tentar a Deus, expondo a pessoa temerariamente a perder a sal-
vagáo eterna;

no séc. m a seita dos Hieracitas, propugnando exagerada


mente a mortificagáo da carne, julgava que o batismo de nada
serve as criangas, pois estas aínda nao podem praticar a ascese
(cf. S. Agostinho, Haer. 48). Já atrás demonstramos em que
termos os pequeninos sao capacitados para o batismo;
no séc. V a escola dos Pelagianos negava o pecado original
e, por conseguinte, a necessidade do sacramento para as crian-
gas. Já vimos como S. Agostinho, exprimindo a doutrina comum
da cristandade, se insurgiu contra tais opinióes;
no séc. XII Pedro de Bruys, fundador da seita dos Valden-
ses, nao admitía o batismo dos pequeninos, por nao poderem
estes conceber a fé; julgava mesmo serem as criangas incapazes
dése salvar (!);

no séc. XVI, oposigáo forte surgiu por parte dos Anaba-


tistas (= Rebatizadores), encabegados por Tomaz Münzer
e os «profetas» de Zvvickau, em 1523-1525; rebatizavam todos
os que a éles aderiam após haverem sido batizados em idade
infantil. Calvino os desaprovava (Institution de la religión chré-
tienne, ed. Pannier in. París 1938, 224s); também os reprovavam
os luteranos da «Confissáo Augustana» (cf. art. 9). De resto,
Lutero, Calvino e Zwingli, os chefes do movimento protestante,
conservaram o uso tradicional de conferir o batismo as
criangas;

por fim, no séc. XVII os Batistas, seguindo John Smyth


(cf. «Pergunte e Responderemos» 7/1957, qu. 17), fizeram do
batismo conferido exclusivamente a adultos e por via de imer-
sáo urna das instituigóes fundamentáis de sua denominagáo reli
giosa. Admitem que as criangas mortas sem tal rito se salvem,
o que lógicamente deveria implicar em negagáo do pecado ori
ginal. A posigáo dos Batistas só se sustenta se se considera o
batismo como mero rito exterior ou ato de agregagáo jurídica á
comunidade. Os Batistas do séc. XVII e seus continuadores con
temporáneos nao podem dizer que formam urna só «Igreja» com
os diversos tipos de «Batistas» mencionados na lista ácima; o
trago que os assemelha a ésses é meramente acidental; a teología
dos Batistas modernos, que se baseia toda na tese da justificagáo
nominal, devida á fé e inamissível, é inspirada pelos principios

— 233 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 6/1958, qu. 4

de Lutero e Calvino, e difere incontestávelmente das ideologías


aos herejes antigos e medievais; nao há continuidade doutriná-
na entre uns e outros.

2. Quanto ao batismo por imersáo, era geralmente prati-


cado na Igreja antiga, por simbolizar muito vivamente os con-
ceitos, essenciais a éste sacramento, de morte (descida na agua)
e ressurreigáo (ascensáo da agua) com Cristo. A imersáo
porem, nao era o único rito em uso; seria difícil crer que os tres
mil convertidos no dia solene de Pentecostés em Jerusalém (ci-
dadc em que a agua ora oseassa; cf. 4 Rs 20,20) hajam sido
balizados por imersao (cf. At 2,41); muito monos so concobo
que o carcereiro balizado com toda a sua familia na prisáo de
Fihpes tenha sido mergulhado na agua (cf. At 16,33); o mesmo
se deve taivez dizer do sacramento administrado por Sao Pedro
na casa do centuriáo Cornélio (cf. At 10,47s).

Em favor do batismo por imersáo costuma-se citar a etimo


logía da palavra batismo : esta, dizem, vem do grego baptizein,
verbo que significava primitivamente sepultar. Sabe-se, porém,
que na linguagem grega posterior, principalmente na do Novo
Testamento (assim como na tradugáo do Antigo Testamento
dita dos LXX), baptizein tem o significado de lavar, purificar, as
vézes mesmo em sentido meramente figurado. Assim é que Jesús
designa a descida ou infusáo do Espirito Santo sobre os Apos
tólos como um balismo (cf. At 1,5) : lambém aprésenla sua
Paixao como um batismo (cf. Le 12,50). É váo, portanto, o ar
gumento etimológico.

No fim do séc. I, o pequeño ritual intitulado «Didaqué»


atesta que, em caso de necessidade, o batismo podia ser válida
mente administrado também por infusáo, ou seja, por tríplice
derramamenterde agua sobre a cabeca do neófito (cf. c. 7). É de
crer que o batismo nao pudesse ser conferido aos doentes ou
«clínicos» senáo por infusáo ou aspersáo, ritos estes que S. Ci
priano explícitamente assevera válidos (cf. ep. 69,12).

Entre os cristaos do Ocidente, foi prevalecendo, por motivos


de ordem prática (tratava-se de forma acidental da administra-
cáo do sacramento), o rito de infusáo ou derramamento de agua
suficiente para exprimir a idéia de locáo ou purificacáo espiri
tual, que é essencial ao sacramento do batismo; desde que a
agua toque o corpo e sobre éste escorra, tem-se o simbolismo
sacramental, tornando-se entáo acidentais a quantidade de agua
e ulteriores modalidades do contato (imersáo, infusáo ou as
persáo). A Igreja Católica nao tem dificuldade em reconhecer
a validade do batismo de imersáo, o qual continua em uso entre

— 234 —
O DEMONIO EXISTE?

os orientáis unidos a Roma. Como, porém, aplicar tal dito a doen-


tes, encarcerados, enancas recém-nascidas ou ainda existentes
no seio materno ou a neófitos dos desertes e das regioes polares?
Nao há dúvida, forcoso entáo é recorrer á infusáo ou á aspersáo
Donde se infere que a validade do sacramento nao está necessá-
namente ligada a um ou outro désses ritos.

Note-se que até 1653 os Arminianos ou Batistas Gerais in


gleses administravam o batismo por infusáo. Ainda hoje algumas
igrejas batistas, tanto na Inglaterra como nos Estados Unidos
da América (naja vista a «Northern Baptist Convention of
U.S. A.»), recusum-sc a considerar o rito de imersáo como con-
digáo essencial para a agregacáo á Igreja.

A título de complemento, vai aqui citada a última instrucáo da


Santa Se referente ao batismo das crianeas :
«Implantou-se em certos lugares o costume de retardar a adminis-
tracao do batismo por pretensas razóes de comodidade ou de caráter
litúrgico. Tendem a favorecer ésse adiamento algumas oPini6es, inteira-
mente destituidas de fundamento sólido, relativas ao destino eterno das
cnangas mortas sem o batismo.

Por ésse motivo esta Sagrada Congregagáo (do Santo Oficio), com
a aprovagao do Soberano Pontifice, adverte aos fiéis que as crianeas
devem ser batizadas o mais cedo possivel, conforme prescreve o canon
770. Exorta igualmente os párocos e pregadores a impelirem ao cumpri-
mento desta obngagáo. "•!«»

Dad° om Roma, na Sede do Santo Oficio, no dia 18 de fevereiro de


a.) Artur de Jorio, Secretario».

J. F. F. (Lorena) e A. M. (Nilópolis) :

5) «O Diabo existe realmente ou é mero símbolo da mal-


(lade e do odio?

Caso exista, será mesmo Adversario de Deus?


O Diabo teña possibilidade de se reabilitar no fim dos
seculos?»

Examinemos sucessivamente os tres quesitos.


1. A questáo da existencia do demonio é de certo modo
intrigante para quem observe o mundo presente. Verificam-se
no pensamento contemporáneo duas tendencias antagónicas
entre si:

de um lado, forte racionalismo, positivismo, que leva seus


adeptos a negar a existencia de qualquer ser espiritual ou invisí-
vel. Dizem que os demonios da tradicáo crista nao sao senáo

— 235 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 6/1958, qu. 5

figuras literarias ou personificacóes poéticas dos vicios ou deri


vados fabulosos da mitología paga;
de outro lado, registra-se fascinante crenga no demonio,
manifestada por culto religioso ao mesmo, pactos com o Ma
ligno, etc., mesmo entre pessoas de elevada cultura.
A coexistencia de táo desencontradas opinióes diante da
mesma questáo é assaz estranha. Para uns, o demonio existe
soberanamente e por certo néles domina; para outros, nao existe
mas na realidade nao domina menos entre éles, pois já se tem
dito (e com toda a rnzfio) que a mais requintada armadilha do
Maligno nos nossos tempos é fazer crer aos homens que ele nao
existe. Cf. «P. R.» 37/1961, qu. 4.

Na verdade, o demonio existe, sim. É o que já de certo modo


insinúa a malicia, esmerada, comumente dita diabólica, que cam-
peia pelo mundo contemporáneo. É também o que se deduz de
fontes diversas :

a) A Filosofía e a Teología ensinam que os seres se dis-


poem em hierarquia de perfeicóes gradativas, que sobe do reino
mineral ao vegetal, ao sensitivo e ao intelectivo. O homem, cria
tura intelectiva, se compoe de corpo e espirito; ácima déle cer-
tamente está Deus, que nao tem corpo (pois todo corpo significa
limitacáo, imperfeigño), mas é Espirito infinitamente perfeito.
Sendo assim, a razáo percebe a conveniencia de existir entre o
espirito humano (associado á materia) e o Espirito Divino um
tipo de seres espirituais que estejam ácima do homem e abaixo
de Deus : puros espiritos, criados por Deus para subsistir inde-
pendentemente da materia; seriam os anjos, dos quais muitos se
conservaram fiéis ao Criador, outros se perverteram por seu
livre arbitrio (demonios).
Tal raciocinio nao v estritamente apodictico, pois a razáo
humana jamáis poderia pretender ditar normas á acáo criadora
de Deus; o argumento, porém, leva a urna conclusáo provável.
b) A probabilidade se transforma em certeza dentro da
Revelagao crista: a Sagrada Escritura afirma freqüentemente
a existencia de espiritos maus, contrarios aos designios de Deus
e ao bem dos homens; nao sao independentes de Deus, mas cria
turas que abusaram e (na medida em que Deus o permite)
ST d"1ÍVre arbítrÍ0; Cf> Sab 2)24; APC 12'7-9; Mt 12>
iv jC) Fora da RevelaCáo judaico-cristá, estéve muito espa-
Jnada entre os povos antigos a consciéncia de que existe um
antagonista invisível, superior aos homens e inferior a Deus,

— 236 —
O DEMONIO EXISTE?

que desencadeou a desgrana neste mundo. Éste testemunho co-


mum nao é o fundamento da crenga crista, mas a ilustra.

Eis alguns dos muitos relatos dos primitivos que, através de traeos
simples e populares, manifestam tal consciéncia :
Os Mordvinos, tribo da Sibéria, contam que Tscham-Pas, o Criador,
íormou o corpo humano a partir do barro e o coníiou á guarda de um
cao, que, recém-plasmado, estava sem pelo. Tendo-se ido Tscham-Pas
sobreveio Chaitan, o Adversario do Ser Supremo, e excitou um frió
tremendo, que ameagou de morte o cao; éste entao lhe entregou o corpo
humano em troca de urna coberta. Chnitan, de posse do homem, pós-se
a cuspir sobre todos os seus poros, dando ongem as rloom.-as do orga
nismo; iiiüiiflou-lho lambém as tendencias para o mal c o vicio. Tschain-
•Pas, ao voltar, repeliu o Adversario e, a fim de curar o homem, voltou
para dentro a parte externa do corpo manchada pelos escarros do Ini-
migo; insuflou-lhe também urna alma boa. As doencas, porém, per-
maneceram e permanecem na vltima, assim como as inclinacoes para o
vicio, de sorte que o homem se vé entregue á luta consigo, porque á
obra do Criador se quis opor o Adversario mau.
Éste Adversario, conforme a mentalidade dos antigos, apesar de tdda
a sua influencia, nao é absoluto, mas iníerior ao Autor do mundo. É o
que exprimem narrativas como as seguintes: os Ahinus, aborígenes do
norte do Japáo, referem que o Criador, após haver formado o mundo,
jogou fora os machados de pedra que usara; estes apodreceram na
térra, dando origen) aos espíritos maus, os quais sao numerosís-
simos e lém um chefe supremo. Os Coríacos, tribo da Sibéria seten-
trional, referem que o Grande Corvo é oriundo da poeira que costurna
cair do céu sobre a térra, quando o Ser Supremo afia o seu facáo de
pedra.
Mais ampia documentagao se encontra no livro de E. Bettencourt,
Ciencia e Fé na historia dos primordios, 34 edicáo. AGIR 1958, 181-84.

Estas historias nao sejam entendidas ao pé da letra; antes,


háo de ser interpretadas como a forma popular pela qual se
exprimem algumas verdades perenes, pertencentes ao patrimo
nio ideológico do género humano. Éste, desde remotas épocas,
professa a existencia do demonio. Tal profissáo deve correspon
der 'k realidade das coisas.

2. A respeito da natureza e da sorte do demonio, a fé


crista ensina o seguinte :

Os anjos foram criados bons e, como todo ser espiritual,


dotados de livre arbitrio. Deus, porém, nao Ihes quis dar a bem-
-aventuranca consumada sem que colaborassem livremente na
configuragáo da sua sorte eterna. Por conseguinte, submeteu-os
a urna prova, a fim de que optassem conscientemente pelo Bem
verdadeiro. Parte dos anjos aderiu realmente ao Sumo Bem e
foi definitivamente confirmada na graga e na amizade de Deus.
Outra parte, porém, abusando do livre arbitrio, mostrou-se
infiel; pecou, e sofre as conseqüéncias disto, vivendo avéssa ao
Criador e infeliz (quem poderia ser feliz, longe do único

— 237 —
O DEMONIO EXISTE ?

Bem Indeficiente?). Cf. Apc 12, 7.9; 2 Pdr 2,4; Jud 6;


Jo 8,44.

Pode-se afirmar que o pecado dos anjos consisliu em soberba (u£. 1


Tim 3,6; Eclo 10,15; Tob 4,14). Sao Tomaz julga que quiseram atingir a
sua bem-aventuranca final rejeitando todo auxilio divino. Suarez (t 1617)
propós urna tese que se propagou assáz: os anjos pecaram por invejar
os homons; do modo especial, invejaram a uniáo da natureza humana
com i) Filho (U- Dtws no misterio da Knearnacáo, uniáo que élos teriam
desojado para a na tu reza aiiKólirü. Tal nontcnca ó moramente eonjelu-
ral, embora plausivel.

Após o pecado, os anjos maus estáo excluidos da visáo de


Deus face a face, para a qual o Criador os destinou. É. esta a
sua pena máxima, a qual acarreta tremenda dilaceracáo de
seu intimo ser; nos demonios a natureza permanece espontá
neamente voltada para Deus, que a criou; nao pode deixar de
tender veementemente para o seu Senhor, mas se vé violentada
pela vontade livre do respectivo sujeito que se alheou de Deus.
Tal estado é definitivo. Deus, a rigor, poderia restaurar os demo
nios na amizade com o Criador; mas, para o fazer, teria que
intervir na livre vontade destas criaturas, violentando-a. A opgáo
a que foram sujoitos os anjos no inicio de sua existencia, devia
ter caráter definitivo (a diferenga do que se deu e da com o ho-
mem, que na térra vai aos poucos concebendo o bem o optando
por ele, estando sempre sujeito a reformar suas decisóes na me
dida em que mais claramente apreende o que ó o bem); os anjos
tém inteligencia muito mais penetrante que a dos hornens; por
isto,logo no inicio de sua existencia, com urna só intuicáo pude-
ram claramente^ ver o programa que deviam abracar; nada lhes
ficava obscuro ou oculto. Sua primeira decisáo, por conseguinte,
baseada em pleno conhecimento de causa e tomada com todo o
empenho de sua personalidade, devia por isto ser definitiva (em
caso contrario, a dignidade dos anjos seria vilipendiada; ser-lhes-
-ia denegada a responsabilidade de seu ato). Urna vez tomada
essa decisáo, quer para o bem, quer para o mal, Deus a respeitou
e respeita; nao mutila a liberdade de arbitrio que Ele concedeu,
permitindo, em conseqüéncia, que cada criatura goze da sorte
definitiva que ela mesma escolheu.

Em outros termos: sempre que o anjo quer alguma coisa,


ele a quer de maneira irrevogável; por isto os anjos maus ou
demonios após o pecado nao se querem em absoluto converter
para Deus, embora sintam dolorosamente as conseqüéncias de
sua aversáo. Já que o Criador, da sua parte, nao os quer violen
tar, compreende-se que a sorte dos demonios seja definitiva;

_ 938
O «PAI NOSSO» DOS CATÓLICOS E DOS PROTESTANTES

para éles nao há conversáo (nao se julgue, porém, que Deus


negué o perdáo a quem Iho pega sinceramente).

Verdade é que os origenistas (discípulos de Orígenes) nos


séc. V/VI e outros escritores cristáos, entre os quais recente-
mente Giovanni Papini, defenderam a reabilitacáo final dos
anjos maus; sua tese, porém, errónea como era, nao prevale-
ceu. Papini submeteu-se finalmente á doutrina da fé e morreu
em santa paz com a Igreja.

Enquanto dura a historia déstc mundo, os anjos maus pro-


curam arraslar os liomens para a sua dc.sgrac.si (é!c\s nao quoien.
ser nossos irmáos); todas as suas volicóes sao más, pois sua von-
tade foi totalmente viciada pelo erro inicial. Tentam o homem
de múltiplas maneiras (cf. Jo 12, 2.27; At 5,3; 1 Pdr 5, 8), dis
pondo dos recursos de urna inteligencia muito mais perspicaz
do que a nossa; em conseqüéncia, produzem fenómenos maravi-
Ihosos (preternaturais) aos olhos do espectador humano e po-
dem até proporcionar aos homens vantagens materiais para me-
Ihor os seduzir.

Sua atividade, porém, está sujeita as soberanas disposicóes


da Providencia, que só lhes permite agir limitadamente, ou seja,
em vista de purificar e consolidar as virtudes dos homens, em
particular a humildade; toda tentacáo ó assirn providencial, e
acompanhada dn grac.ii necessária para que a criatura nao su
cumba.

III. SAGRADA ESCRITURA

0. H. (Ijiií) :

6) «Por que é í¡ue o Pai Nosso rezado pelos católicos nao


incluí a fórmula final: 'Porque teu é o reino e o noder c a gloria
para sempre. Amém', fórmula encontrada na Biblia dos protes
tantes (cf. Mt 6,13) ?

Também quisera saber por que os catóiicos interpelara a


Deus na segunda pessoa do plural (Vos), quamlo Jesús no Pai
Nosso usou a segunda pessoa do singular (Tu) ? Nao se dislan-
ciam da Biblia?»

1. Em primeiro lugar, deve-se observar que a fórmula


«Porque teu é o reino e o poder e a gloria para sempre. Amém»
evidentemente nao pertence ao teor original de Mt 6,13 ou do
Santo Evangelho, mas é acréscimo que os copistas fizeram ao
texto sagrado. Tal conclusáo se deduz do exame dos códices e

— 239 —
E RESPONDEREMOS» 6/1958, qu. 6

manuscritos mais antigos dos Santos Evangelhos : os testemu-


nhos mais fidedignos nao contém a citada fórmula. Em conse-
qüéncia, os exegetas contemporáneos, tanto católicos como pro
testantes, sao unánimes em nao a admitir ñas edigóes gregas
do texto de Sao Mateus; para nao citar outros nomes, lembra-
mos aqui a edicáo do autor protestante Eberhard Nestle
(«Novum testamentum graece et latine». Stuttgart, Privile-
gierte Wuerttembergische Bibelanstalt), edicáo grega geral-
mente reproduzida pela «British and Foreign Society» de Lon
dres; neste tcxto-padráo, verifica-se que é deixada de parte a
cláusula lióli koii ostin lie basüéia kai lie dynumis kai he d«xa
eis tous aiodnas, amen. A (raducáo portuguesa de Ferreira rio
Almeida ainda hoje reproduz a fórmula ácima, pois, tendo Al-
meida trabalhado no séc. XVII, quando os recursos de critica
do texto ainda eram assaz exiguos, o tradutor julgava simples-
mente que tais palavras faziam parte do texto sagrado; hoje
Ferreira de Almeida, desejoso como era de reproduzir fielmente
os dizeres do texto original, já nao incluiría a cláusula na sua
tradugáo.

O acréscimo se explica pelo uso da oragáo dominical na


Liturgia: as preces públicas costumavam (e ainda costumam)
terminar por urna doxologia ou fórmula de louvor, á seme-
lhanga do que se vé no epistolario de Sao Paulo, (por exemplo
em Ef 3,20s; Rom 9,5; 11, 33-36; 2 Cor 9,15); também as ho-
milias e os sermóes dos bispos e presbíteros na antigüidade se
encerravam geralmente mediante tais fórmulas. O acréscimo
era plenamente justificado na Liturgia, pois inculcava a finali-
dade suprema do culto sagrado, que é dar gloria a Deus (ainda
hoje todos os salmos da oragáo oficial da Igreja se terminam por
um «Gloria ao Pai»). O uso litúrgico, porém, induziu (errónea
mente) alguns copistas a inserir no próprio texto da Biblia a
fórmula de doxologia.

Tendo-se em vista estes precedentes, nao se hesitará em


cancelar das edigóes, tanto gregas como vernáculas, do Novo
Testamento a mencionada cláusula.

2. Quanto ao tratamento atribuido ao Pai do céu na ora


gáo dominical, observar-se-á o seguinte : o texto grego dessa
prece usa a segunda pessoa do singular, porque tal era a única
fórmula para interpelar alguém (mesmo a Divindade) na lin-
guagem grega. Em portugués a situagáo é outra : há escolha
entre Tu e Vos, sendo que o pronome Tu significa tratamento
familiar, muito íntimo, enquanto Vos representa tratamento

— 240 —
MARÍA SSMA. NO NOVO TESTAMENTO

mais solene e majestoso. Pois bem; a tradicáo crista entre nos


(ao menos no Pai Nosso.) habituou-se a interpelar a Deus me
diante o Vos, entendendo com isso exprimir em grau máximo o
respeito e a dedicagáo devidos ao Pai do céu, respeito e dedica-
gao que o Tu grego expressava claramente, mas que o Tu portu
gués talvez desfigurasse um pouco. Ao lado desta razáo em favor
de Vos, poder-se-ia também indicar urna justificativa para o
tratamento Tu : seria o desejo de professar, com toda a nitidez
mtimidade e sentimentos filiáis para com o Pai do Céu, senti-
mentos filiáis que o Tu melhor reproduz do que o Vos.

Em última análise, vc-se que urna e oulra fórmula sao ple


namente legítimas; pelo que os católicos nao teriam dificuldade
em dizer Tu a Deus onde hoje se costuma dizer Vos, desde que a
mudanga se tornasse conveniente.

TERCEIRO FRANCISCANO (Londrina) :

7) «Como se explica a sobriedade com que os Apostólos


e Evangelistas se refcrem a María? O seu nomo nao ocorre urna
vez scquer ñas epístolas do Sao Paulo».

APOSTÓLO (Sorocaba) :

8) «E como se pode entender a aparente descortesía de


Jesús para com María nos Evangelhos?»

1. A sobriedade dos Evangelistas ao se referirem a María


Santíssima se explica muito bem, vista a finalidade que se pro-
punham ao escrever: jamáis tencionaram transmitir por es
crito urna síntese completa da vida de Cristo ou da Dogmática
crista, mas apenas alguns aspectos mais importantes para a
catequese. Os Evangelhos sao justamente pequeños compendios
dos ditos e feitos principáis de Jesús? entende-se, por isto, que
seus autores chamem a atengáo do leitor exclusivamente (Me e
Jo) ou quase exclusivamente (Mt e Le) para a vida pública do
Senhor, apresentando-nos nesta os ensinamentos fundamentáis
e os testemunhos da Divindade e Messianidade do Mestre; assim
fazendo, nao tínham ocasiáo para divagar muito sobre a figura
de María Santíssima, que certamente nao estava em primeiro
plano durante os anos de ministerio de Jesús (julgam que Maria
acompanhou seu Divino Filho juntamente com as santas mulhe-

— 241 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 6/1958, qu. 7 e 8

res que Lhe serviam conforme Le 8,1-3). Sao Mateus e Sao Lu


cas, que antepuseram ao esquema habitual da catequese (do
batismo de Joáo até a Ascensáo; cf. At 1,22; 10, 37-42) algumas
noticias sobre a.infancia de Jesús, nao hesitaram em realcar
nestes quadros o papel de Maria; é o que se verifica principal
mente em Sao Lucas, do qual os dois primeiros capítulos apare-
cem profundamente marcados pela agáo de Maria; nada dizem
sobre o nascimento, a infancia e as nupcias da Virgem, porque a
personalidade de Maria é, aos seus olhos, toda absorvida pela
sua missáo de Mae do Jesús. Por ocasiáo da Paixáo, reaparece
heroica a figura de Maria nos quatro Evangclhos.

É preciso, porém, saber ler os Evangelhos : na sua sobrie-


dade de estilo, exprimem com delicadeza e gósto literario ver
dades profundas, mesmo a respeito de Maria. Haja vista, por
exemplo, a noticia sobre o nascimento de Cristo : Sao Lucas
refere que Maria mesma prestou ao seu Divino Filho os cuidados
de que necessitava imediatamente depois de nascer : «Deu á luz
seu filho primogénito, envolveu-0 em panos c recIinou-0 nu'a
mangwloura» (Le 2,7). Com isto insinúa respetosamente, mas
coni suficiente clareza, algo que as posteriores geracóes cristas
explicitaram : Maria deu a luz sem dores nem fadigas, isto é,
virginalmente. — Compare-so atíora éste trecho de Sao Lucas
com o apócrifo «Proto-evangelho de Tiago» c. 19s: o pseudo-
-Evangelho professa também o parto virginal de Maria, mas,
para dar realce a esta verdade, enquadra-a dentro de tragos evi
dentemente fáhtasistas, mostrando-se com isto um tanto ridi
culo : narra que, estando Maria para dar á luz numa gruta perto
de Belém, Sáq^José foi procurar urna parteira; quando esta se
aproximava com o esposo de Maria, a gruta lhes apareceu reco-
berta por urna nuvem, a qual repentinamente se esvaneceu,
dando lugar a luz de extraordinario fulgor; o brilho desta se foi
empalidecendo aos poucos, até o momento em que urna crianga
apareceu e tocou o seio de Maria, sua Máe. Entáo exclamou a
parteira : «Grande é éste dia para mim, pois assisti a extraordi
naria maravilha!». Saindo da gruta, a parteira encontrou Sa
lomé, máe de Sao Joáo Evangelista, a quem disse : «Salomé,
Salomé, tenho extraordinaria maravilha para te contar: urna
virgem deu á luz, contrariamente á natureza». Salomé respon-
deu : «Assim como Deus é vivo, se nao colocar meu dedo e
sondar a natureza de Maria, nao acreditarei que urna virgem
tenha dado á luz!». Salomé entáo entrou na gruta, examinou
Maria e por finí exclamou : «Desgraca a minha impiedade e in-

— 242 —
MARÍA SSMA. NO NOVO TESTAMENTO

credulidade! Tentei o Deus vivo! E eis que minha máo, como que
ressequida pelo fogo, se vai separando de mim!». A seguir, tendo
orado, Salomé foi visitada por um anjo, que Ihe mandou tomasse
o menino em seus bracos; feito isto, foi curada e, justificada,
saiu da gruta, enquanto urna voz Ihe dizia : «Salomé, Salomé,
nao des a conhecer tais prodigios antes que a crianca tenha
entrado em Jerusalém».

Como se vé, esta descricáo é táo cheia de pormenores, e


pormenores maravilhosos, que já se mostra um lanío burlesca
ou pouco digna de Deus; por nao guardar a sobricdade com que
a tradicáo referia o parto virginal de Maria, o autor do apó
crifo cedeu á imaginacáo, tornando-se quase grotesco. O con
fronto déste trecho com o do Evangelho de Sao Lucas leva a
admirar o texto bíblico e reconhecer que a brevidade de estilo
do autor sagrado (a qual se explica pelo fato de que os Evan
gelistas nao intencionavam focalizar diretamente Maria) é alta
mente eloqüente e digna, desde que lida no contexto da tradicáo.
É muito mais preciosa e apta para suscitar a fé do que a loqua-
cidade dos apócrifos.

2. Analisemos agora as principáis passagens do Santo


Evannelho em que Josus poderia parecer descortés rom sua Máe
Santissima.

a) Le 2,49 : Jesús, após tres dias de ausencia, foi de novo


encontrado no Templo por Maria e José, que, aflitos, Lhe pergun-
taram por que os havia deixado momentáneamente. O Senhor
respondeu : «Por que me procuraveis? Nao sabieis que devia
estar em meio as coisas de meu Pai (ou junto ao mmi Pai) ?»

Estas palavras significam que Jesús na térra vivia conti


nuamente voltado para o Pai Celeste, devotando-Lhe como holo
causto toda a sua vida na carne. Esta atitude do Senhor em
nada derrogava ao afeto filial que Ele nutria para com Sua Máe
Santissima; até o fim, e ainda na última hora de sua existencia
terrestre, pregado a Cruz, Ele haveria de testemunhar a Maria a
sua piedade filial, confiando-a ao discípulo bem-amado. Contudo
Jesús, como homem, observava a devida hierarquia em seus afe-
tos; os lacos de familia néle nao eram extintos nem atenuados
pelo fato de serem subordinados ao amor do Pai Celeste; ao con
trario, é éste, e éste só, que pode conferir valor e solidez autén
ticos a todo e qualquer afeto humano. Sao Lucas, ao referir a

— 243 —
«PERPUNTE E RESPONDEREMOS» 6/1958, qu. 7 e 8

resposta de Jesús a Maña no Templo, nao quis senáo incutir


esta verdade (fica fora da perspectiva do Evangelista a descri-
gáo completa da atitude de Jesús para com sua Máe no caso).

b) Jo 2,1-11 (as bodas de Cana). Muito importante é o


fato de María ter estado presente e haver interferido no acon-
tecimento que Sao Joáo chama explícitamente «o primeiro sinal»
do ministerio público de Jesús : o Divino Mestre quis que sua
Máe Lhe desse ocasiáo para manifestar pela primeira vez a sua
gloria, associando intimamente a intercessáo de Maria á sua
obra de Messias. A resposta dada por Jesús em Jo 2,4 merece
atengáo detida. Ao pé da letra soa : «Que há para Mim e para
ti (no caso) ? — Ti emoí kai soi?». Trata-se de construgáo típi
camente semítica, ■ ocorrente erri outras passagens da Sagrada
Escritura, como Jz 11,12; 2 Sam 16,10; 19,23; 3 Rs 17,18;
4 Rs 3,13; Mt 8,29; Me 1,24; 5,7; Le 4,34; 8,28. Significa atitude
reservada por parte de quem fala; consultando-se a melhor
fonte de exegese no caso, isto é, os textos da filología rabínica
(colecionados por Strack-Billerbeck, Kommentar II 401), veri-
fica-se que em Jo 2 a expressáo equivale a dizer: «Porque tal
pedido? Porque nos imiscuirmos em tal coisa? Tu e eu, que po
demos fazer nessa siluacüo?». Jesús logo indica a razáo dessa
restricáo : nao chegou sua hora. A «hora de Jesús», conforme
Sao Joáo, é o momento da glorificacáo final de Cristo ou de
sua ascensáo á direita do Pai; o Evangelista, no decorrer do
Evangelho, nota sucessivamente a aproximagáo dessa hora (cf.
7,30; 8,20; 12,23.27; 13,1; 17,1); está claro que, de antemáo
fixada pelo Pai,*náo poderia ser antecipada. Nao obstante, de-
pois de fazer observar isto, Jesús realizou o milagre desejado
por Maria, nao antecipando a sua hora, mas dando com este
milagre (manifestagáo de sua gloria, como diz Sao Joáo em
2,11) um prenuncio ou anuncio simbólico de sua glorificagáo de
finitiva. Jesús, por sua resposta aparentemente restritiva, quería
apenas indicar a sua Máe que ela Lhe pedia algo de muito
grande, ou seja, um prodigio que, por assim dizer, equivalía á
antecipacáo de um designio do Pai; mas que, nao obstante, Ele
atendería á sua prece. Maria deve ter compreendido,. pelo tom
de voz e os gestos de seu Filho, que Éste estava disposto a aten-
dé-la (tudo se passou numa atmosfera muito familiar, em que a
Máe Santíssima sabia discernir fielmente as palavras e atitudes
de seu Divino Filho); por isto recomendou que executassem tudo

— 244 —
MARÍA SSMA. NO NOVO TESTAMENTO

que ela sabia que seu Filho estava para mandar. — Em última
análise, pois, a atitude de Jesús para com Maria em Cana, longe
de derrogar á dignidade de Maria, é auténtico testemunho de
quanto o Filho apreciava sua Máe.

Quanto ao tratamento «Mulher» usado pelo Senhor, nada


tem de irreverente; é outro aramaísmo equivalente desta vez a
um apelativo solene : «Dama» (sitt, em aramaico); implicava
ternura muito nobre, pelo que foi repetido por Jesús em cutra
ocasiáo solene, ou seja, quando, pendendo do alto da Cruz,
quis prover finalmente ao amparo de sua Máe : «Mulher, eis
teu Filho», disse o Senhor, indicando Joáo como futuro arrimo
de Maria. — Além disto, observa-se que o tratamento «Mulher»,
no contexto de Jo 19 (contexto que alude repetidamente a pro
fecías do Antigo Testamento; cf. 19,24.28.36s), faz ecoar as
promessas de Gen 3,15.20: «mulher» é nestes dois versículos
o título portador da esperanga do mundo; é, sim, pela mulher
e pela prole da mulher que Deus promete restaurar a harmo
nía violada; Jesús terá, pois, do alto da Cruz nao sómente pro
videnciado ao amparo de Maria, mas também apresentado sua
Máe qüal nova Eva, máe espiritual de todos os viventes, a come-
car por Sao Joáo.

c) Mt 12,46-49; Me 3,31-35; Le 8,19. Informado de que sua


Máe e seus irmáos (em boa tradugáo do aramaico, diríamos:
primos) O procuravam, Jesús certa vez respondeu : «Quem é
minha máe e quem sao meus irmáos?». E, estendendo a máo
sobre os seus discípulos, disse : «Eis minha máe e meus irmáos.
Todo aquéle que fizer a vontade de meu Pai Celeste, ésse é meu
irmáo, minha irmá, minha máe» (Mt 12,47-49).

Tal resposta, longe de significar indelicadeza da parte de


Jesús, quer apenas indicar que, ácima do parentesco carnal, o
Senhor estimava um novo tipo de parentesco, o parentesco
espiritual, o qual se baseia nao nos lagos do sangue, mas na
fidelidade á Palavra e a Vontade de Deus. Naturalmente, esta
nao se opóe aos vínculos e ao amor da familia, mas subordina-
-os a si. Se nao houvesse fidelidade á Vontade de Deus nos con
sanguíneos de Jesús, de nada lhes adiantaria o parentesco de
sangue com Cristo. Ora Maria nutriu desde cedo o amor aos
designios do Pai Celeste, como ela mesma atesta ao anjo : «Eis
a serva do Senhor; faca-se em mim segundo a tua palavra»

— 245 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS^j/iggS, qu. 7 e 8

(Le 1,38). Donde se segué que Jesús com sua resposta em Mt


12,50 só fez confirmar sua grande ternura para com María
Santissima, dando, porém, simultáneamente a ver qual o título
que mais encarecía María ao seu coragáo de Filho : ela sempre
fóra (e foi) fiel á Vontade do Pai.

d) Muito semelhante é o significado de Le ll,27s : u'a


mulher tendo exaltado a grande felicidade da Máe de Jesús
por haver gerado táo nobre Filho, o Senhor a admoesta a que
cnlenda o verdadeiro titulo por que alguém mcrega ser fe
licitado : o título de cumpridor da Palavra do Deus; com efeito,
diz Jesús : «Bem-aventurados, antes, os que ouvem a palavra
de Deus e a póem em prática!» (Le 11,28). Ora tal motivo de
exaltagáo se aplicava eminentemente a María Santissima, que,
sem dúvida, recebeu a graca de se tornar Máe do Verbo En
carnado porque primeiramente se mostrou em tudo a fiel serva
do Senhor; diz Sto. Agostinho : «Mais feliz é Maria por ter
vivido inteiramente na fé do Messias do que por ter conce
bido a carne do Messias» (ed. Migne lat. 40,398). Á luz déste
principio, entendam-se as palavras de Cristo : o Senhor quer
erguer a estima a Maria sobre o aspecto mais digno e rico que
a Máe de Deus possa apresentar á nossa consideragáo.

3. O fato de que Sao Paulo se refere urna só vez a Maria,


afirmando em Gal 4,4 que o Filho de Deus «nasceu de u'a mu
lher», deve-se ao caráter esporádico das suas cartas : ao escre-
ver, o Apostólo visava apenas esclarecer problemas ou solu
cionar casos recém-originados entre os fiéis. Ora é de crer que
a Virgem Santissima, provávelmente ainda viva quando Sao
Paulo escreviarnáo devia causar problemas aos primeiros cris-
táos. — Ademáis a expressáo «mulher» que Sao Paulo (se-
guindo o modo de falar de Jesús em Jo) aplica a Maria, é, no
conjunto da Revelacáo crista, grandiosa e alvissareira, como está
ácima notado.

Em 1 Tim 2,14 o Apostólo diz que a mulher, primeiramente


seduzida pelo demonio no paraíso, se salva pela teknogonia. Esta
palavra grega, composta como é, torna-se suscetível de dupla
interpretacáo : «geragáo do filho ou de filhos». No primeiro
caso (tornado bem provável pelo emprégo do artigo definido),
Paulo aludiría ao parto de Maria (geragáo do Filho por exce
lencia) e apresentaria a Máe de Cristo em perspectiva grandiosa,
como iniciadora da reabilitagáo da mulher.

— 243 —
JUROS E USURA

IV. MORAL

A. M. (Nilópolis) :

9) «Que pensa a Igreja a respeito de empréstimos a juros


c sobre a usura? Nao foram condenados pelos teólogos anligos
e medievais?

E que sao os Monti di pietá fundados por ura franciscano?


Pode-m-.sc justificar?»

1. No tocante aos juros e á usura, convém antes do mais


propor um esbógo histórico da questáo.

Desde que a moeda entrou no uso dos povos, surgiu a ten


dencia a emprestá-la com juros ou com emolumentos resultan
tes do próprio empréstimo. Os legisladores e filósofos antigos,
em conseqüéncia, tiveram que estabelecer principios e tornar
medidas que impedissem toda ganancia neste setor.

Os gregos parecem ter praticado comumente os emprés


timos a juros; Platño e Aristóteles, porém, nos scc. V e IV a. C.
os impiignnvnm, sondo que os argumentos de Aristóteles se
tornaram clássicos na Idade Media (cf. Platáo, Leis V 741;
Aristóteles, Política I 10). Em Roma a usura era praticada,
dando, porém, lugar a graves abusos, que as leis procuravam
coibir amentando severas penas para os transgressores (cf.
Tácito, Annales VI 16). A legislacáo do Imperador bizantino
Justiniano (f 565), embora declarasse imoral a usura, limitou-se
a restringir as concessóes feitas por leis precedentes (13 C. 4,32;
1C. 7,46).

No povo de Deus, a Lei de Moisés recomendava (sem ja


máis o impor formalmente) o empréstimo gratuito entre israeli
tas (cf. Lev 25,35-37; Éx 22,24; Ez 18,8; 22,12). O salmista enu-
merava, entre as condicóes para se ter acesso ao santuario de
Javé, a abstengáo de usura (cf. SI 14, 1-5). Em se tratando,
porém, de um devedor estrangeiro, a Lei facultava ao israelita
a cobranca de juros (cf. Dt 28,19s).

No Evangelho Jesús nao toca diretamente o problema do


empréstimo a juros, mas recomenda de maneira geral a prá-
tica desinteressada da caridade, mesmo para com os inimigos :
«Se emprestáis aqueles de quem esperáis receber, que mérito

— 247 —
. «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 6/1958, qu. 9

tereis?... Amai vossos inimigos, praticai o bem e emprestai


sem esperar coisa alguma de volta» (Le 6,34s).

Desenvolvendo estas idéias, os escritores cristáos, os dou-


tores da Igreja e os concilios, em termos assaz claros e fortes,
tomaram posicáo contraria aos juros.

Na Idade Media S. Tomaz (t 1274) num estudo minucioso


condenava os juros, baseando-se na tese de que pelos juros se
vende duas vézes o mesmo objeto (cf. Suma Teol. II/II 78, 1-4).
A legislacáo da Igreja medieval corroborava tal sentenga; te-
nham-se em vista as Decretáis dos Papas Alexandre III
(1159-81) e Urbano II (1185-87), assim como os cánones dos
concilios ecuménicos do Latráo iTI (1179) e de Liáo II (1274).
O concilio universal de Viena (Franca) em 1311 chegou a equi
parar a um hereje quem ousasse negar que o empréstimo a juros
é pecado (cf. Denzinger, Enchiridion 479).

Nao se poderia, poróm, deixar de notar que essas conde-


nagoes pressupunham ser a praxe dos juros extorsiva e aca-
brunhadora para os pobres. Nao visavam circunstancias espe
ciáis, que pudessem legitimar a cobranca de moderada taxa
suplementar.

As primeiras vozes a se insurgir peremptóriamente contra


o ponto de vista negativo foram as de Calvino (f 1564) e Car
los du Moulin (f 1566), enquanto Lutero reprovava os juros.
O primeiro, negando que o dinheiro seja um bem impi'odutivo,
comparava-o a um campo ou urna casa, bens férteis para o seu
proprietário; daí deduzia que, assim como nao é pecado alugar
urna casa, também nao será iníquo emprestar dinheiro a juros;
só se poderia falar de pecado em casos de taxas exageradas.

Um século mais tarde, C. Saumaise (f 1653) reforgou a posi-


gáo de Calvino, afirmando dois principios : o uso do dinheiro
pode ser vendido; o prego désse uso deve ser determinado pela
vontade livre dos interessados. A nova tese foi angariando
adeptos cada vez mais numerosos entre católicos e protestantes,
que apelavam para novos costumes comerciáis e novas moda
lidades de contratos da era moderna. O papa Inocencio XI em
1679 ainda condenou sentengas diretamente favoráveis aos juros
(cf. Denzinger, Ench. 1190s). Nos decenios seguintes foram-se
sucedendo as opinióes antagónicas sobre o assunto, com vanta-

— 248 —
JUROS E USURA

gem, porém, para a tese da liceidade, que se ia tornando cada


vez mais comum. O estado de coisas provocou nova intervengáo
pontificia : a cidade de Verona fizera um empréstimo a juros de
4%; o fato foi referido em memorial ao Papa Bento XTV por
um de seus amigos; o Pontífice entáo, que era grande jurista,
resolveu empreender estudo aprofundado da questáo e, após
madura deliberagáo, escreveu a encíclica «Vix pervenit» de 1* de
novembro de 1745 : acentuou mais uma vez as razóes contrarias
aos juros; reconhecia, porém, que, caso alguém sofresse conse-
qüéncias penosas do empréstimo de dinheiro, poderia a éste
título exigir justa compensagáo. Contudo a controversia nao
cessou, e a praxe dos juros se foi alastrando cada vez mais, até .
que, a partir do século passado, o problema tomou nova confi-
guragáo e conseqüentemente mereceu nova solugáo, a solugáo
vigente em nossos dias.

Note-se ainda que no fim do séc. XVIII a Assembléia Cons-


tituinte Francesa introduziu na linguagem oficial dos juristas
a distingáo entre juros (intéréts, Zins) e usura (usure, Wucher),
distincáo hoje comumente adotada; fala-se de juros quando se
cobra taxa legal (reconhecida pelo Estado), ao passo que a
usura significa extorsáo.

2. Examinemos agora os principios a ser aplicados na


solugáo do problema.

Observe-se, antes do mais, a distingáo entre bens férteis e


bens esteréis. Os primeiros acarretam vantagens para quem
os usa, sem que por isso se destruam; tais sao os campos, os
animáis de carga, as árvores frutíferas, os instrumentos de tra-
balho, etc. Os bens esteréis, ao contrario, sao os que só implicam
emolumento para quem os emprega, mediante destruigio de si
mesmos; consomem-se, quando utilizados; tenham-se em vista,
por exemplo, os alimentos, o carváo, o óleo para a ilumina-
gáo, etc.

Feita essa distingáo, note-se o seguinte : em se tratando


de bens esteréis, praticamente nao tem cabimento a distingáo
entre a substancia e o uso dos mesmos; o seu uso nao pode ser
objeto de uma avaliagáo ou de um prego independente do prego
da respectiva substancia; quem empresta um bem estéril, con-
cedendo a outrem o uso désse bem, concede-lhe também o direito
de destruir; por conseguinte, quem recebe um bem estéril em
prestado, é obrigado a devolver o equivalente em quantidade e

— 249 —
-iPKRGUNTE E RESPONDEREMOS» 6/1958, qu. 9

qualidade. Quem exigisse mais do que isto, violaría a justiga


comutativa, porque práticamente vendería o objeto duas vezes.
— Pode acontecer, porém, que quem empresta um bem estéril,
venha com isso a sofrer algum prejuízo : ou deixa de auferir um
lucro que lhe tocaría caso nao emprestasse, ou padece real di-
minuigáo do valor de seu capital ou corre serio risco de perder
o objeto emprestado. Em tais casos, quem empresta tem o direito
de exigir urna compensagáo; esta, porém, lhe será dada nao por
efeito do empréstimo como tal, mas por motivos extrínsecos ao
mesmo.

Quanto aos bens férteis, pode-se separar da sua substan


cia' o uso dos mesmos. Éste, portante, pode-se tornar objeto
de estimagáo e contrato próprios, de sorte que quem os toma
de empréstimo seja obrigado nao sómente a restituir o objeto
como tal, mas também a pagar urna quantia correspondente á
utilizágáo do objeto.

Trata-se agora de saber em qual das duas categorías se


coloca o dinheiro.

Os antigos e medievais o classificavam entre os bens este


réis; por isto tinham por ilícita a exigencia de alguma taxa
correspondente ao uso do dinheiro emprestado. No máximo,
admitiriam a compensacáo esporádica, motivada por elemen
tos' contingentes e extrínsecos ao objeto emprestado. A aplica-
cáo dos principios fazia-se, pois, segundo rigorosa lógica.

Nos tempos modernos, os principios conservam seu pleno


vigor. Os moralistas, porém, sao obligados a reconhecer que
o andamento da economía vigente é muito diverso do dos sé-
culos passados, de sorte que, a partir do scc. XIX, já se pode
dizer que o dinheiro se tornou um bem fértil, nao podendo
mais ser considerado bem improdutivo como -na Idade Media;
quem tem dinheiro em máos, tem sempre, na vida moderna,
a possibilidade de o fazer render; múltiplas empresas lucrati
vas se lhe oferecem, onde o dinheiro pode ser vantajosamente
colocado; quando mais nao seja, quem tem dinheiro em máos,
tem crédito para desenvolver seus negocios. Ao passo que na
antigüidade nao havia razáo para dar valor económico a. posse
atual do dinheiro, hoje tal valor nao pode ser denegado. Ade
máis a desvalorizagáo crescente do dinheiro na era moderna
faz que a mesma quantia nao represente o mesmo valor tem
pos após o empréstimo; a justiga, pois, exige que quem em
presta receba um pouco mais do que emprestou, para nao ser

— 250 —
JUROS E USURA

tesado. Sao estes fatóres que atualmente dáo fundamento ao


direito a juros ou a urna compensagáo financeira correspon
dente ao fato mesmo de alguém se privar provisoriamente do
uso do seu dinheiro. Atendendo a estas circunstancias novas,
a Igreja, sem derrogar aos principios expostos, nao condena a
praxe dos juros, mas, ao contrario, a tem por justa.

A partir do século passado, as Congregagoes do Santo Oficio


e da S. Penitenciaria tém explícitamente reconhccido a lcgiti-
midade dos juros moderados.

3. Monti di pietá eram institutos fundados na Idade Me


dia para emprestar dinheiro em troca de objetos penhorados,
cobrando urna taxa mínima correspondente as despesas de ma-
nutengáo dos ditos institutos. Visavam defender os indigentes
contra a extoi'sáo dos usurarios.

O primeiro Monte di pietá teve origem na cidade de Fio-


renga (Italia) em 1358, por obra do franciscano Francesco da
Empoli; faliu, porém, em breve; por falta de experiencia admi
nistrativa. A maioria dos Monti di pietá foi fundada na se
gunda metade do séc. XV : notorio é o de Perúsia, estabelecido
em 1642 com o dinheiro proveniente de esmolas recolhidas por
Frei Barnabó de Terni (o que bem demonstra que os Monü di
pietá. foram a principio concebidos como instituigóes de cari-
dade). Os Papas do séc. XV aprovaram repetidamente tais obras,
pois tinham finalidade evidentemente altruista.

Alguns teólogos da época, porém, desaprovavam a cobranga


da exigua taxa destinada a cobrir as despesas da manutencáo
dos Monti di pietá (era preciso remunerar os funcionarios que
trabalhavam nessas casas). Tinham-na na conta de juros.
O agostiniano N. Bariano publicou mesmo o opúsculo «De monte
impietatis» (Cremona 1496), em que julgava a praxe escan
dalosa. Um Capítulo Geral dos Franciscanos Observantes reu
nido em Florenga no fim do séc. XV aprovou após varios de
bates a cobranga da pequeña contribuigáo; o concilio ecumé
nico do Latráo V em 1512-17 ratificou o uso.

Os Monti di pietá, a partir de 1572, foram sendo fundados


fora da Italia. Aos poucos, porém, perderam seu caráter (inegá-
vel, durante muito tempo) de obras estritamente caridosa; de
tal modo ampliaram suas atividades que se converteram em
auténticas casas de crédito, sujeitas as vicissitudes da especula-
gáo e dos negocios.

— 251 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 6/1958, qu. 10

V. HISTORIA DO CRISTIANISMO

SILVIO E S. O. S. (Rio de Janeiro) :

10) «Que é o chamado Ecumenismo?»

Denomina-se Ecumenismo (= Universalismo) um movi-


mento moderno, de origem protestante, que tende a unir as
diversas confissóes cristas entre si. Os seus mentores supóem
nao existir atualmente a auténtica Igreja de Cristo; a Igreja
Una, desejada pelo Senhor na sua última ceia, ainda se de-
voria realizar mediante a fusüo das parcelas de verdade e de
bem contidas em cada confissáo crista.

Examinaremos sucessivamente o histórico e o estado atual


do Ecumenismo (§ 1), a posicáo da Igreja Católica perante o
mesmo (§2).

§ 1. Histórico e estado atual do Ecumenismo

O Protestantismo, baseado no principio do livre exame da


Biblia, tendeu desde os seus inicios a so desagregar cm cres-
cente número de seitas (cada urna devida ás intuigóes indivi
duáis de seu fundador), de sorte que em 1949 se contavam,
na África do Sul apenas, algumas centenas dessas seitas. Nao
faltaram, porém, no decorrer dos séculos vozes unionistas entre
os Protestantes, tais como as de Hugo Grotius (1642), R. Baxter
(1680), S. Werenfels (1720); registraram-se também tentativas
de uniáo parcial, por exemplo, entre calvinistas e zwinglianos
(1546), entre anglicanos e orientáis (1716-25), e de uniáo total
entre protestantes e católicos (1661-1679). O Rei da Prússia em
1817 chegou a impor a uniáo a luteranos e calvinistas do seu
reino. *~

Tais tentativas tomaram nova importancia no inicio do


século XX.

Em 1910 numa reuniáo da Conferencia Universal das Mis-


sóes Protestantes realizada em Edimburgo (Escocia) foi posta
em relevo a desagradável impressáo que aos pagaos causava
a pregacáo do Evangelho por parte de missionários que se con-
tradiziam e excluiam uns aos outros. A vista disso, o bispo epis
copal Brent resolveu organizar urna sociedade em que todas
as confissóes se encontrarían! para confrontar suas posicóes;
esperava com isto atingir a uniáo da cristandade dividida. O mo-
vimento assim concebido tomaría o nome de «Faith and Order»
(Fé e Disciplina), pois visaría questóes tanto de fé como de dis-

— 252 —
ECUMENISMO

f.í Igr?í?' AP°S os ávidos preparativos, entravados por


dificuldades vanas, a nova entidade se constituiu definitivamente
numa assembléia reunida em Lausanne (Suíca) no ano de 192?
Entrementes o bispo luterano da Suécia Nata Soederblom
estimulado pelas calamidades da guerra de 1914-18 deuiS'
WoS
S ™aC°ÍmA
work» (VidaC°Ím * m°VÍment°
e Acao), a^10^'
a^1que recebeu
movimento toUtS^
toUtS^SS
seus
definitivos em 1925 : como diz o no!, a w <£?££££
L™ • f C-1Sta°S "° terreno da a<*° caridosa e social ta-
ternacional, nao se ocupando muito com divergencias na fé
na liturgia 0 na organizagáo da Igreja : o cristianismo era as
sim concebido como fator de progresso social cS resposta
as aspiracoes pacifistas dos homens. resposta

«Fp p ni¿?nJ tiveramr}?&r um Congresso Internacional de


SorH S 1f em Ed!mJburg° e °«tro de «Vida e Agáo» em
Oxford, ambos bem sucedidos, pois seus participantes manifes-
ÍSSSiST80
moralzador mas «um ^^
outroIgreja
mundo,ná°todo
é apenas um Cimento
suspenso á receocáo
da Palavra de Deus pela fé,. Dadas estas boas disposSE de
seus adeptos, os dois movimentos «Fé e Disciplina/e «Vida e
^gw*,^fUndlram no «Conselho Ecuménico das Igrejas!
(«World Council of Churches»), o qual recebeu sua o|an£-
cao provisoria em Utrecht (Holanda) no ano de 1938; foi-lhe
vnrif ?t t fmo,Presidente ° arcebispo William Temple, de
York (Inglaterra), um dos homens mais dinámicos de sua
geragao, e, como Secretario Geral, o Sr. W. A. Wisser't Hooft,
protestante holandés de tendencia barthiana (calvinista) Á
finahdade da nova organizagáo era encontrar a Igreja (a «Una
Sancta») entre as Igrejas, ou seja, estipular, dentre todas as
doutnnas professadas pelas Igrejas convocadas, aquelas que
naveriarn de constituir o Credo da «Una Sancta». A primeira
S^Sf gefal- d° C.onselho Ecuménico devia efetuar-se em
1941 dada porem, a irrupgao da guerra mundial em 1939, o
Conselho ate 1948 teve que limitar suas atividades a prestar
socorro material e espiritual -as vítimas da conflagragáo.

«.o ^P<^ °S- devidos Preparativos, finalmente realizou-se o


grande Convenio ecuménico de Amsterdam no periodo de 22
Si^fn ° ar4- de ?etf"lbro de 1948. Déle tomaram parte 400
delegados oficiáis de 150 igrejas (1) cristas autónomas, a pro-

— 253 —
*PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 6/1958, qu. 10

fessar um total de aproximadamente 30 Credos diversos (o


mesmo Credo pode ser professado por dois ou mais grupos in-
dependentes). Eram estas as Igrejas representadas oficialmente:
15 anglicanas, 19 luteranas, 27 reformadas (calvinistas) 23
metodistas, 7 batistas, 8 congregacionalistas, 7 «Igrejas de
Cristo», 2 comunidades menonitas, 4 sociedades de «Quakers»,
10 Igrejas unidas (do Canadá, da India, a «Evangelische Kir-
che in Deutschland», etc.), 7 Igrejas ortodoxas, 4 de «Velhos
católicos»; as igrejas etíope, copta, ortodoxa, siria, valdesa da
Italia, armenia, Igreja da Morávia, o Exército da Salvagáo, etc.
Alóm dos delegados oficiáis, 3000 outras pessoas comparcce-
ram ao Concilio (funcionarios da nssombléia, observadores
das denominacóes que nao estavam oficialmente representadas,
intérpretes, agentes da imprensa, convidados interessados no
movimento, etc.). Estavam ausentes as seitas antitrinitárias
(como a dos Testemunhas de Jeová), explícitamente excluidas,
e alguns grupos importantes, como os batistas do Sul dos EE.UU.
da América, os luteranos do Missouri...; a Igreja Russa recu-
sou-se oficialmente a participar do certame; a Igreja Católica
se absteve por completo.

Como condicáo indispcnsável para pertcncer ao Conso-


lho Ecuménico, era exigida a fé em «Cristo Deus e Salvador»;
ora nao poucos membros das diversas confissóes se haviam
pronunciado contrariamente a esta fórmula, julgando-a estreita
dcmais, incapaz de satisfazer aos irmáos que nutrem dúvidas
sobre a Divindade de Cristo; preferiam a profissáo de fé em
«Cristo Senhor e Salvador» (omitida a mengáo da Divindade);
tal sugestáo, porém, náó encontrou aceitacáo por parte da as-
sembléia de Amsterdam.

O tema geral do Concilio foi «Desordem do homem e De


signio de Deas», ampia materia dividida em quatro pontos
principáis a ser estudados cada qual por uma comissáo :

1) a Igreja universal no designio de Duus;


2) o designio de Deus e o testemunho do homem;
3> a Igreja e a desordem da sociedade;
4) a Igreja e as questóes inlernacionais.

Foram apresentados estudos serios e profundos sobre ésses


temas, alguns mesmo assaz favoráveis á Igreja Católica (como
os de K. E. Skydsgaard e F. H. Villain). Sobre o quarto ponto
dissertou o Sr. John Forster Dulles, p qual se manifestou con
trario ao comunismo, posicáo esta que a imprensa explorou
exageradamente. Digna de todo encomio foi a atitude do Pro-
fessor G. Flórovsky, ortodoxo oriental, que combateu qualquer
ECUMENISMO

tentativa de uniáo na base de um «mínimo denominador co-


mum» de doutrina, «mínimo denominador» arranjado para se
conseguir uma frente comum de agáo das cónfissóes cristas.
Propugnava uma uniáo muito mais sólida, baseada na concordia
sobre os pontos de doutrina essenciais da. Revelacáo crista.

Ñas suas conclusoes a assembléia de Amsterdam verificou


os pontos de divergencia que separavam as confissóes cristas
representadas. No encerramento nao foi possivel celebrar, como
tanto se desejava, uma única ceia de Cristo que consolidasse
num só corpo os que participassem do mesmo pao. Cinco foram
os ilens oí» que os congrcssislus averiguuram sua discordia
mutua; désscs deslacam-se os tres últimos, particularmente
significativos :

3. «Nao estamos de acordó sobre o modo de conceber a autoridade


da Tradicáo ao lado da Escritura... Para uns (n. b.: entre os próprios
irmáos separados), a tradicáo é essencial, porque o desenvolvimento que
a Igreja tomou sob a acáo do Espirito Santo, é decisivo para a natureza
e a configuracáo da Igreja. Para outros, o que nao está ñas Escrituras
canónicas carece de autoridade permanente.
4. Nao estamos de acordó sobre a funcao da autoridade no interior
das comunidades cristas e entre estas. Alguns de nos créem que cada
comunidade ó autónoma sob a autoridade de Cristo e nao está sujeita a
alguma orientacáo eclesiástica proveniente de fora da comunidade.
Outros estáo convencidos de que é preciso haver um govérno autorita-
tivo ácima das comunidades particulares se se quer que o bem comum
.soja atingido ñas conclkücs humanas habituáis...

5. Por íim, nao estamos de acordó sobre o conceito de continuidade


da Igreja. Esta divergencia afeta conseqüentemente o nosso conceito de
sacerdocio e de sacramentos. Alguns estáo firmemente persuadidos de
que a única vía pela qual se mántém auténtica unidade é a ligacüo hori
zontal direta com os doze Apostólos que Cristo escolheu; onde falta essa
continuidade, falta algo de essencial ñas características da Igreja.
— Outros, ao contrario, afirmam, com nao menor ardor, que a via de
continuidade auténtica se pode estabelecer por uma ligacilo vertical com
o Senhor da Igreja. Onde quer que esta ligacao se dé, ai se encontra a
Igreja de Cristo. Nenhuma succssüo de agentes humanos tem importan
cia, quando comparada com esta ligacao dircta com Aquéle que prome-
teu estar em toda a parte onde dois ou tres estivessem reunidos em seu
nome. Por ora, esta parece ser a diferenc.a mais tenaz, pois de ambas
as partes homens sinceros julgam que a posigáo contraria nao garante
a uniáo com Cristo».

Como se vé, no tocante aos tres pontos ácima há irmáos


separados que sustentam o ponto de vista católico, aceitando a
Tradicáo, o govérno uno e central da Igreja e a necessidade da
sucessáo apostólica; é principalmente esta última que, dando-
-nos o contato com Cristo e os Apostólos através dos tempos,
nos preserva das arbitrariedades de qualquer novo Iniciador
ou «Descubridor» do Cristianismo.

— 255 —
tPERGUNTE E RESPONDEREMOS» 6/1958, qu. 10

Os resultados obtidos em Amsterdam, embora mostrassem


as dificuldades da uniáo, pelo fato de proporcionarem uma seria
tomada de consciéncia da realidade, constituíram uma possível
etapa para a auténtica solucáo do problema.

Foi em demanda desta que se prosseguiram os trabalhos


do Conselho Ecuménico até a sua segunda Assembléia geral,
realizada em Evanston (U.S. A.) de 15 a 31 de agosto de 1954.
Esta contou com a presenga de 1298 membros participantes,
dos quais 502 eram delegados, 499 visitantes acreditados, 241
consultores, 31 «delegados fratcrnais» e 25 observadores. Os
delegados própriamente ditos provinham de 162 Igrejas disse
minadas em 42 paises. Foi lamentada a ausencia das Igrejas
da China (presentes em Amsterdam), assim como a do sinodo
luterano de Missouri, a dos batistas do Sul dos EE.UU. da Amé
rica, a do Patriarcado de Moscou e a da Igreja Católica.

O tema central adotado em Evanston tinha por título


«Cristo, Esperanca do mundo», título apto a satisfazer aos que
duvidavam da Divindade do Senhor. Ao lado déste, seis temas
secundarios foram estudados : uniáo e desuniáo dos cristáos,
evangelizacáo do mundo, as questóes sociais, os problemas in-
ternacionais, as questóes raciais, o laicato. Outros assuntos
de índole prática mcreceram igualmente a atengíio dos con-
gressistas : assisténcia aos refugiados, propaganda e informa-
gáo, etc. Nos debates teológicos notaram-se dois pontos de vista
bem distintos : ao passo que o bloco protestante afirmava a ne-
cessidade de se estabelecer um Credo capaz de conciliar entre
si as diversas confissóes cristas, os delegados ortodoxos orien
táis salientaram que o depósito da fé é uno e indivisivel; o
Credo capaz de fundamentar genuína uniáo entre os discípulos
de Cristo já esta redigido : coincide com a fé tradicional da
Igreja, que há de ser professada sem distingáo arbitraria entro
os diversos artigos. Eis alguns dos trechos mais importantes da
declaragáo dos orientáis :

«2. A concepgao ortodoxa da Igreja implica uma dupla aíirmacáo :

a) Toda a fé crista deve ser considerada como indivisivel unidade.


Nao basta aceitar apenas algumas doutrinas particulares, por mais iun-
damentais que sejam, como, por exemplo, «Cristo é Deus e Salvador».
Faz-se mister aceitar todas as doutrinas formuladas pelos concilios
ecuménicos, assim como por todo o magisterio da antiga e indivisa.
Igreja... Nao podemos admitir dlstingao rígida entre doutrinas essen-
ciáis e náo-essenclais; nao há lugar para adaptacOes na fé.

Doutro lado, a Igreja Ortodoxa nao pode aceitar a idéia de que o


Espirito Santo só nos fala na Biblia. O Espirito Santo reside e dá teste-
munho na totalidade da vida e da experiencia da Igreja. A Biblia nos-

— 256 —
ECUMENISMO

foi dada no contexto da Tradigáo apostólica, na qual também possuí-


mos a interpretacáo e a expücagáo auténticas da Palavra de Deus. A íi-
delidade á Tradigáo apostólica salvaguarda a realidade e a continuidade
da unidade da Igreja.
b) É pelo ministerio apostólico que o misterio de Pentecostés se
perpetua na Igreja. A sucessao episcopal a partir dos Apostólos cons
tituí urna realidade histórica na vida e na estrutura da Igreja, e é um
dos pressupostos da sua unidade através dos tempos. A unidade da
Igreja é preservada pela unidade do episcopado...
3. Por isto, quando consideramos o problema da unidade da Igreja,
só podemos pensar na restauracáo completa da lé total e da estrutura
episcopal total da Ifjrcja, que é essencial á vida sacramental da Igreja.
Nao queremos julgar os que perlcncom a comunhoos separadas, ft,
porém, nossa conviecáo que essas comunhdes carecem de elementos que
constituem a realidade da plenitude de Igreja. Cremos que sómente a
volta dessas comunhdes á fé da Igreja antiga, una e indivisivel, dos
sete concilios ecuménicos, isto é, a heranca pura, náo-alterada e comum
dos antepassados de todos os cristáos divididos, produzirá a reuniáo
desejada por todos os cristáos separados...
5. O relatório da seceáo («Uniáo e desuniSo dos cristáos») sugere
que a via que a Igreja deve seguir para restaurar a unidade é a do
arrependimento. Reconhecemos que houve e há imperfeicoes e faltas na
vida e no testemunho dos fiéis cristáos; rejeitamos, porém, a idéia de
que a própria Igreja, que é o Corpo de Cristo e a depositaría da verdade
revelada..., possa ser atingida pelo pecado do homem. Nao podemos,
partanto, falar de arrependimento da Igreja, que é intrínsecamente
santa e isenta de erro. Pois «Cristo amou a Igreja e se entregou por ela,
afim de a santificar e lavar na agua e na palavra, para que a pudesse
apresontnr a Si mosmo como Igreja gloriosa, sem mancha nem ruga,
ncm fallía ncm alf»o do semelhante, para que- ela seja pura o sem íalta>
(Ef 5,26s)...
A santidade da Igreja nao é viciada pelos pecados e pelas faltas de
seus membros; estes nao podem de modo algum diminuir ou esgotar a
santidade inexaurível da vida divina que da Cabeca da Igreja se pro
paga através de todo o Corpo» (texto transcrito de «Documentation
Catholique» n' 1184, 17/X/1954, col. 1330-1332).

Tal documento é profundamente significativo por inculcar


que o problema ecuménico nao consiste em auscultar as novas
correntes cristas oriundas da Ps.-Reforma luterana e procurar
alguma fórmula dogmática apta a satisfazer a todas, nem con
siste em procurar nova organizacáo para a Igreja, mas está
únicamente em aceitar os moldes doutrinários e constitucionais
da Igreja que Cristo e os Apostólos nos transmitiram; é preciso
simplesmente voltar ao Credo e á estrutura eclesiástica con
servados pela Tradigáo ou pela sucessao apostólica. É o que,
com toda a razáo, ensinam os ortodoxos orientáis. Acontece,
porém, que, tendo-se separado da comunháo de seus irmáos em
1054, os orientáis julgam que de entáo para cá nao há magis
terio do Espirito Santo na Igreja; esta lhes parece esfacelada
(nao se lembram de que numa das partes do Corpo dilacerado
deve estar a Cabeca, que garante a continuidade de vida dos

— 257 —
«PERGUNTE K RESPONDEREMOS» 6/1958, gu. 10

membros a ela anexos), de sorte que só admitem as definigóes


dogmáticas e jurídicas proferidas antes da ruptura, ou seja, por
ocasiáo dos sete primeiros concilios ecuménicos. É na base de
tais defínicóes que os ortodoxos propóem aos protestantes re
constituir a uniáo dos cristáos. Diante desta tese, os católicos
(que nao estavam representados na assembléia de Evanston)
lembrariam que, nao há dúvida, a fórmula de uniáo já está feita,
mas que a voz do Espirito Santo nao silenciou (nem podia ter
silenciado) na Tradigáo crista; ela continua viva onde está Pedro,
a Rocha sobre a qual Cristo quis edificar a sua Igreja; é na
Igreja Católica, pois, tal como ela existe em nossos dias, que se
encontram o depósito da Revelacáo incontaminado e as institui-
cóes aptas a unir os cristáos separados no único e auténtico
,Corpo Místico de Cristo.

A Conferencia de Evanston, por conseguinte, também ter-


minou com urna verificagáo nítida das diferentes posicóes dog
máticas dos congressistas. Muitos déstes, entre os quais se dis-
tinguiu o bispo luterano Eivind Berggrav, desejavam ardente-
mente realizar no encerramento da mesma o que nao fóra
possível em Amsterdam, isto é, urna só ceia de Cristo; apesar
dos calorosos apelos dirigidos aos delegados das diversas con-
fissóes para que fizessem cair qualquer barreira, a aspiragáo
foi frustrada, pois se celebraram cinco ceias eucarísticas : a
dos anglicanos, a dos metodistas e a das Ifirejas da india Meri
dional, ceias em que a comunháo era distribuida a todo e qual
quer cristáo batizado; a dos luteranos, que só davam a comu
nháo a quem professasse a real presenga de Cristo no pao e
no vinho (Lutero professava a «empanacáo», nao a transubs-
tanciagáo); a dos ortodoxos, que celebraram um rito reservado
aos seus irmáos na fé. O bispo luterano Berggrav, outrora Pre
sidente do Conselho Ecuménico, absteve-se entáo de participar
de culto luterano.

Os comentarios á Assembléia de Evanston publicados pos


teriormente pela imprensa protestante foram pouco animado
res : varios dos congressistas manifestaram a impressáo de
que a reuniáo nada de novo produzira; cérea de seiscentos jor-
nalistas e fotógrafos os assediavam, observando todas as suas
atitudes, sorrisos e decepgóes — o que nao podia deixar de criar
urna atmosfera pesada na assembléia; além do mais, o programa
de trabalho parece ter estado sobrecarregado de sessóes e con
ferencias, impedí ndo a reflexáo calma e a visáo de conjunto dos
acontecimentos.

— 258 —
ECUMENISMO

A próxima reuniáo foi marcada para o ano de 1960, deven


do ter lugar provávelmente no Japáo, térra de missóes, onde
mais imperiosas seráo as responsabilidades dos congressistas,
mais premente a necessidade de realizar e mostrar ao público
a unidade dos cristáos.

§2. A posicáo da Igreja Católica perante o Ecumenismo

A Igreja Católica tem declarado repetidamente nao tomar


parte no movimento ecumenista, embora muito se interesse
por élc. A razáo da sua atitude é a seguinte: a Igreja Católica
tem conscicncm de possuir a doutrina de Cristo transmitida
ininterruptamente a partir do Senhor e dos Apostólos; nela
vive e fala Cristo por Pedro. Ela nunca se apartou da doutrina
e da unidade constituidas pelo seu Divino Fundador e pelos
primeiros arautos do Evangelho. Por conseguinte, ela possui
aquilo que os ecumenistas procuram e julgam dever realizar
no futuro. A única atitude, pois, que lhe compete, é a de abrir
os bracos e convidar os irmáos que se separaram do tronco tra
dicional, a voltar ao seio da unidade; a Igreja «Una Sancta» já
existe. Compreende-se destarte que os católicos nao possam
aderir a um movimcnto que ainda se propóe delibera)- sobre a
fórmula e as condigóes da unidade; tais deliberares íhes háo
de parecer vas. Vé-se que a posigáo da Igreja Católica, por mui
to rígida que parcha, nada lem que ver com intransigencia ar
bitraria, mas é o simples corolario da consciéncia que Roma
tem de possuir, por graga de Deus, a verdade incontaminada.

A Igreja Católica acompanha com carinho o Ecumenismo.


Quando os pioneiros do movimento foram convidar o Papa
Bento XV para a sua primeira conferencia, o Pontífice os rece-
beu amávelmente; a seguir, mandou-lhes responder :

«Sua Santidade nao quer de modo algum desaprovar o planejado


Congresso, oportuno para aqueles que nao estao unidos á Cátedra de
Pedro; deseja ardentemente e pede ao Senhor que, se se realizar a as-
sembléia, possam os congressistas, por graca de Deus, ver a luz e se
reunir ao Cheíe vislvel da Igreja, que os receberá de bracos abertos»
(citado em «A History of the Ecumenical Movement». London 1956).

Em dezembro de 1949, o Santo Oficio publicou urna Ins-


trucáo, em que atribuía á agáo do Espirito Santo o desejo de
unidade manifestado pelo Ecumenismo. No mesmo documento
facultava aos bispos permitir, ñas suas dioceses, encontros e
diálogos teológicos entre católicos e protestantes. Aos cató-

— 259 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 6/1958, qu. 11

lieos era concedido rezar com os irmáos separados o «Pai Nosso»


ou qualquer outra oragáo aprovada pela Igreja (cf. A. A. S.
XVHI [1950] 142-147).

Periódicos e revistas católicas («Istina, Unitas, Ireni-


kon...») tém procurado facilitar de diversos modos a realiza-
cáo do grande ideal da volta dos irmáos separados á unidade.

P. I. B. (Rio de Janeiro) :

11) «Quein foi Nostradamus c qual a autoridade de suas


profecias?»

1. A Personalidade do profeta se delineia nos seguintes


termos :

Miguel Nostradamus nasceu em Saint-Remy (Provenga,


Franga) no ano de 1503, de urna familia de Judeus, sabios fa
mosos em medicina e matemática. Seus ancestrais se haviam
tornado cristáos, por efeito de um decreto do rei Luís XI, que
ameagava os judeus náo-batizados de confiscagáo dos bens;
em conseqüéncia tomaram o nome cristáo de Notre-Dame, que
em latim vulgar deu Nostradamus.

De acordó com as tradigóes da familia, o jovem Miguel


foi iniciado na medicina, na farmacéutica e também na mate
mática profunda, que naquela época era inseparável da astro-
logia (ou da adivinhagáo mediante consultas aos astros).

Tendo terminado os estudos na Universidade de Montpel-


lier, Miguel instalou-se em Salon-de-Crau, e pós-se a praticar
a medicina juntamente com a astrologia; desde remota anti-
güidade os médicos, para fazer seus diagnósticos e receitar os
devidos medicamentos, recorriam freqüentemente a esta arte
de adivinhagáo. Em sua residencia, pois, Nostradamus tinha um
observatorio, donde contemplava oportunamente as estrilas;
destarte granjeou para si a fama de curandeiro maravilhoso
e hábil médico (dois títulos que o povo da época fácilmente asso-
ciava entre si).

Em breve Nostradamus comegou a redigir certas profecias


«inspiradas» pela contemplagáo das estrélas e referentes á his
toria do reino de Franga. Daí se originaram as suas «Centu
rias», obra editada, nao sem receio da censura da opiniáo
pública, pela primeira vez em 1555. Com isto, porém, Nostra-

— 260 —
QUEMFOI NOSTRADAMUS ?

damus só ganhou maior renome. Naquele tempo reinava em


Franga urna rainha extremamente inteligente, mas também
muito supersticiosa: Catarina de Mediéis; chamou á corte o
profeta, a fim de o consultar sobre os próximos acontecimen-
tos da historia; em alguns casos, Nostradamus pronunciou
oráculos verídicos; enganou-se, porém, ao profetizar que o
filho de Catarina, o jovem rei Carlos IX, o qual com dez anos
de idade subiu ao trono em 1560, chegaria a grandeza igual
á do Imperador Carlos Magno (na verdade, o monarca morreu
de desgósto e horror devidos ás guerras civis de Franga). Em
1564 Carlos IX (declarado maior de idade em 1563) nomeou
Nostradamus seu conselheiro e médico ordinario; éste era tido
como o mais sabio astrólogo do século e cercado de honras ex-
cepcionais.

Finalmente o herói faleceu aos 2 de julho de 1566 em Sa


lón, minado por fraqueza e doenga. Durante muito tempo, o
povo se recusou a crer que de fato morrera; corría, antes, o
rumor de que estava assentado no túmulo, iluminado por sua
lámpada noturna, rodeado por seu astrolábio, seus papéis e
livros, continuando a redagño de suas «Centurias».

Tal era a fama de que gozava Nostradamus que, após a sua


morte, muitas lendas se foram acumulando em torno de sua
pessoa, a fim de mais o aureolar. Entre outras, é particular
mente interessante a seguinte : Catarina de Mediéis perma-
neceu estéril durante onze anos após o casamento com Henri-
que de Orléans, o que lhe causava enorme pesar, fazendo-lhe
temer o repudio por parte do marido; Nostradamus teña posto
termo a essa situagáo angustiosa, receitando para a rainha o
remedio apto a combater a esterilidade : «Urina de carneiro
misturada com sangue de lebre; pata esquerda de doninha
temperada com vinagre forte; chifrc de veado pulverizado e
misturado com estéreo de vaca é leite de jumento». Por efeito
desta medicagáo, Catarina teria tido dez filhos! — Acontece,
porém, que neste relato há evidente anacronismo, que depóe
contra a sua veracidade : Catarina casou-se com Henrique em
1533 e teve seu primeiro filho, o futuro rei Francisco II, em
1544. Ora nesta data Nostradamus ainda nao era conhecido
nem se instalara em Salón. Ademáis é pouco verossemelhante
que o médico tenha dado a conhecer a receita salvifica, pois o
segrédo profissional outrora era rigorosissimo em todas as ati-
vidades que dependiam simultáneamente do saber e da adivi-
nhagáo.

__ 261 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 6/1958, qu. 11

2. Quanto as profecías de Nostradamus, estendem-se,


segundo os dizeres do autor, até o ano 3797 depois de Cristo.
Dos relatos do próprio profeta depreende-se que recebia suas
«inspiragóes» em meio a urna verdadeira liturgia astrológica,
em parte já discriminada ñas obras do filósofo neo-platónico
Jamblico (f 306) : Nostradamus se colocava, com urna vara
na máo, no meio de um círculo mágico, chamado limbo, junto
a urna bacia de agua; falava-lhe entáo a voz de Branco, filho de
Apolo, que aparecía em meio ao fogo. Antes desta cerimónia,
porém, consultava os astros para saber se estava numa «hora
de eleicíio»; em caso afirmativo, esvaziava o espirito de toda
preocupucáo c entravu em paz.

As idéias pressupostas por éste ritual sao evidentemente


erróneas : nao há em absoluto influencia dos astros irresistível,
nem destino ou determinismo rígido do qual o homem nao
possa escapar. Parece, porém, que Nostradamus nao via o erro
doutrinário implicado em suas práticas; enganava-se de boa
fé. Eis, por exemplo, como se exprimía no «Prefacio a seu filho
César».

«Condenamos a magia, mais do que execrável, outrora reprovada


pelas Escrituras Sagradas e pelos divinos cánones».

No inicio da oitava «Centuria» declarava :

«... protestando diante de Deus e seus santos que nao pretendo na


presente epístola cscrever coisa alguma que contrarié a verdadeira fé
católica».

Diz também o seu biógrafo e contemporáneo Chavigny :

«Era muito fiel as cerimónias da Igrcja Romana e seguia a fé e a


religiáo católica, fora da qual afirmava nao haver salvacüo. Repreendia
severamente os que, tendo-se afastado do gremio da Igreja, se deixavam
enredar por doutrinas estranhas e condenáveis, assegurando que seu
fim lhes seria mau e pernicioso. Nao me quero esquecer de dizer que
praticava de bom ánimo jejuns, oragóes, esmolas e a paciencia».

O conteúdo dos oráculos captados por Nostradamus é


extremamente obscuro; redigidas em versos, com muitas me
táforas, suas profecías tém sido aplicadas aos reinados subse-
qüentes de Henrique IV, Luís XIV, Luís XV, Luis XVI, Napo-
leáo, reinados para os quais prevéem guerras, tumultos, escán
dalos de corte, etc. — Contudo os comentadores, para conse
guir aplicar as «profecías» a historia real, tém que fazer trans-

— 262 —
QUEM FOI NOSTRADAMUS?
posigóes e combinagóes de versos, tém que interpretar de ma-
neira mais ou menos arbitraria certas figuras de linguagem;
explicam o obscuro pelo mais obscuro de sorte que nem todos
os críticos reconhecem o valor de tais profecías. Se em alguns
casos Nostradamus parece realmente ter predito o futuro, ex-
plica-se isto pelo conhecimento exato que o «profeta» tinha da
historia antiga, principalmente de Roma; ciente do que se dera
ñas grandes monarquías do passado, nao lhe era difícil prever
a repetigáo, no futuro, de certos casos típicos da historia.
Em conseqüéncia, julgam os estudiosos que a obra de Nos
tradamus ó urna noite muito densa com pouquíssimas estré-
las e que, se Nostradamus voltassc á térra, ele mesmo se admi
raría de tudo quanto os pósteros lhe fizeram e fazem dizer,
confessando que nunca pensou outrora em tais coisas.
Bibliografía:
L. Crltlanl, Nostradamus, Malache et Ce. üditions du Centurión 1955.
Ecclesia, ns. 78 e 79, setembro e outubro de 1955, págs. 30-40 e 109-118.
CORRESPONDENCIA MIÚDA
HESITANTE (fíio de Janeiro) : Pergunta como se tleve entender
que Nussa Si-nhora upa roca com tantos nomes diferentes ; quantas
"Nossas Senhoras" há ?
Há urna só Virgem Santíssima, Máe de Deus e Senhora Nossa.
Os fiéis católicos costumam dcsigná-la por títulos especiáis que póem
em realce
ou alguma das prerrogativas da graca de Maria Santíssima : Nossa
Senhora da Conceicáo (Imaculada Conceicáo), Nossa Senhora da Gloria
(Assuncáo aos céus), Nossa Senhora das Dores (participacáo muito
íntima na Paixáo de Cristo) ...
ou alguma de suas grandes intervencóes na historia dos cristáos :
Nossa Senhora do Rosario (vitória obtida mediante a recitacáo do Ro
sario em 1710 sobre invasáo bélica perigosa para a fé) ; Nossa Se
nhora das Neves (milagre realizado no séc. IV para indicar o local
da futura basílica de Santa Maria Maior em Roma) ; Nossa Senhora
de Lourdes, de Fátima, da Salette, da Penha, etc
ou a tutela que a Virgem exerce sobre determinada classe de fiéis:
Nossa Senhora dos Navegantes; Nossa Senhora de Loreto, padroeira
dos aviadores (porque terá certa vez favorecido um vóo de Nazaré para
Loreto na Italia)...
Esses diversos títulos apenas designam facetas da figura extraor
dinariamente rica da Virgem Santíssima, facetas que a piedade dos
fiéis se compraz em contemplar mais detidamente.
— 263 —
3-PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 6/1958

MARÍNHO (Silo Paulo): Ás suas perguntas intencionamos dar res-


postas nos'próximos fascículos. Por ora podemos adiantar-lhe o seguinte:

a) o texto de 1 Tes 4,lGs é tido justamente como testemunho de


que, conforme Sao Paulo, nem todos os homens morreráo; f.ícaráo i sen-
tos desta pena aqueles que estiverem vivos neste mundo por ocasiáo
da segunda vinda de Cristo ; serao logo transformados ,(revestidos de
corpo glorioso ou tenebroso) sem passar pela morte. O mesmo se deduz
de 1 Cor 15,15s ; 2 Cor 5,2-4.

b) A expressáo "céus novos e térra nova" de 2 Pedr 3,13 é enten


dida no sentido seguinte: o mesmo mundo material que hoje acompanha
o homcm nu sim sortc de criatura huinilhada pelo pecado c suas con
secuencias (há desordena c flafielos nu imturuzíi), será uní diu rontiui-
rado em ordem e harmonía perfeitas, tornando-se o cenár.io condigno dos
coi-pos humanos ressuscitados e glorificados.

Ulteriores esclarecimentos enconti-am-se no livro "A vida que comesa


com a morte" de.E. Bettencourt, 2" edi?áo AGIR 1958.

M. P. (Belo Horizonte) : Em Mt 24,15 o Evangelista interrompe


a citacáo das palavras de Jesús a finí de chamar a aten;áo do leitor
pata o sentido novo que o Senhor atribuí ás profecías de Dan 9,27; 11,31;
12,11. Daniel, ao falar de abominacáo desoladora instalada no santuario",
tinha cm vista urna estatua paga que Antíoco Epifancs colocou no Tem
plo de Jerusalém em 1C8 a.C. (cf. 1 Mac 1,54). Pois bem ; Jesús ser-
viu-se désses mesmos textos de Daniel, para aludir á profanado do
Templo que teve lugar quando os romanos tomaram Jerusalém no ano
70 d.C. No estilo profético, a profanac.áo anterior (sob Antíoco) 6 a
figura da posterior (sob o general romano Tito); daí a trasladado de
textos. A resposta a questáo das greves fai incluida no fascículo de julho.

A. C. V. (Belo Horizonte): Sobre a fé, há urna resposta em "P. e R."


5/1957, qu. 2. Procuraremos desenvolvé-la.

D. ESTÉVAO BETTENCOURT O.S.B.

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