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Projeto

PERGUNTE
E
RESPONDEREMOS
ON-LIME

Apostolado Veritatis Spiendor


com autorizacáo de
Dom Estéváo Tavares Bettencourt, osb
(in memoriam)
APRESENTAQÁO
DA EDigÁO ON-LINE
Diz Sao Pedro que devemos
estar preparados para dar a razáo da
nossa esperanga a todo aquele que no-la
pedir {1 Pedro 3,15).

Esta necessidade de darmos


conta da nossa esperanga e da nossa fé
hoje é mais premente do que outrora,
visto que somos bombardeados por
numerosas correntes filosóficas e
religiosas contrarias á fé católica. Somos
assim incitados a procurar consolidar
nossa crenca católica mediante um
aprofundamento do nosso estudo.

Eis o que neste site Pergunte e


Responderemos propóe aos seus leitores:
aborda questóes da atualidade
controvertidas, elucidando-as do ponto de
vista cristáo a fim de que as dúvidas se
dissipem e a vivencia católica se fortaleca
no Brasil e no mundo. Queira Deus
abencoar este trabalho assim como a
equipe de Veritatis Splendor que se
encarrega do respectivo site.

Rio de Janeiro, 30 de julho de 2003.

Pe. Esteváo Bettencourt, OSB

NOTA DO APOSTOLADO VERITATIS SPLENDOR

Celebramos convenio com d. Esteváo Bettencourt e


passamos a disponibilizar nesta área, o excelente e sempre atual
conteúdo da revista teológico - filosófica "Pergunte e
Responderemos", que conta com mais de 40 anos de publicacáo.
A d. Esteváo Bettencourt agradecemos a confiaca
depositada em nosso trabalho, bem como pela generosidade e
zelo pastoral assim demonstrados.
ANO V

J U L H <

19 6:

•Sí!
ÍNDICE

I. CIENCIA E RELIGIAO

1) "Que é o chamado 'Modernismo', contra o qual a Igreja


prescreve um juramento aos clérigos e aos fiéis em determinadas
ocasióes da sua vida publica ?" 267

n. DOGMÁTICA

2) "A Igreja é intransigente e dura em certos pontos. Isto


escandaliza, pois estamos numa época em que ¿_ preciso remover
todo fanatismo e tornar-nos largos e compreensivos.
Será que a fé leva as pessoas a ser mesquinkas e intole
rantes?" Z7S
S) "Que há de verdadeiro na apregoada aparicáo de Nossa
Senhora em La Salette ?

E que pensar do famoso segrédo comunicado pela Virgem a


vidente. Melania ? O Santo Oficio chegou a proibir os discussóes
sobre o assunto, sob pena de excomunhño" 288

III. MORAL

í) "O católico terá o direito de negar esmola alegando que


a pessoa necessitada pertence a outra Religiño t
Em particular, quando se trata de urna obra de assisténcia^
(Hospital, Orfanato, Dispensario...) nao-católica, será lícito ao'
católico recusar eolaboraedo, mesmo que saiba que a esmolá dada
será honestamente transmitida aos pobres ?" 2SS

IV. HISTORIA DO CRISTIANISMO

5) "Desejaria um esclarccimento sobre a dita 'Igreja Cató


lica Apostólica Brasileira' (ICAB) fundada pelo ex-bispo de Mau
ra. Em particular, preciso de informagSes a respeito disse movt-
mento em Brasilia.
Nao há organisacóes semelkantes em outros países da Amé
rica Latina ?
Que autoriiliide tém esxas Igrejas Nacionais ?" -103

CORRESPONDENCIA MIÚDA 307

CÓM APROVAgAO ECLESIÁSTICA


«PERGUNTE E ¡RESPONDEREMOS»

Ano V — N? 55 — Julho de 1962

I. FILOSOFÍA E RELIGIÁO

RACIONALISTA (Campiñas) :

1) «Que é o chamado «Modernismo», contra o qual a


Igrcja prescreve um juramento aos clérigos c aos fiéis cm deter
minadas ocasioes da sua vida pública?»

«Modernismo» é, como «Liberalismo», vocábulo em si impreciso,


suscetível tanto de bom como de mau sentido. Na historia do Cristia
nismo, designa o movimento que, no fim do século passado e no inicio
do presente, tomou vulto, visando dar nova intérpretacáo aos ensina-
mentos do Catolicismo e acomodá-los á mentalidade moderna. Essa
tendencia ultrapassou os limites do que é lícito, equivalendo a verda-
deira diluicáo e corrupcao da mensagem do Evangelho em beneficio do
agnosticismo e do naturalismo.
A lim de proferir um juízo adequado sobre tal fenómeno, devere-
mos primeiramente focalizar a sua origem e o seu conteúdo doutri-
nário.

1. Origens do movimento modernista

É notorio que, a partir do séc. XVIII, ó pensamento mo


derno, sob o influxo do criticismo e das descobertas científicas,
se foi mais e mais modificando tanto no setor da filosofía como
no dos conhecimentos naturais. •

Na filosofia, tomaram voga crescente os principios langados por


Kant (t 1804), segundo os quais a razáo nao pode chegar a conhecer a
verdade em si, mas apenas afirmar seus conceitos subjetivos, como se
correspondessem á realidade objetiva; os homens perdiam assim a con-
fianca na inteligencia, ñas suas afirmacóes espontáneas e ñas suas con-
clusSes, para dar lugar a um indiferentismo doutrinário ora mais, ora
menos acentuado.
Doutro lado, as ciencias naturais se viram enriquecidas por múlti
plas conquistas de historia, arqueología, etnología, biología, etc., que
puseram em xeque teorías até entao tidas como indiscutíveis. O espi
rito critico se foi agucando; o homem moderno experimentou a tenden
cia a duvidar do que haviam sempre ensinado os antepassados; a idéia
de «evolucáo» (primeiramente aplicada por Darwin ao setor da biología)
tornou-se a idéia mestra das ciencias, despertando na mentalidade mo
derna urna atitude reservada perante os valores da cultura (a evolucáo
sendo tida como lei universal, parece que já nao há valores absolutos).

Ora nem tudo que essa revolugáo do pensamento afirmava,


era erróneo; sem dúvida, muitas das conquistas da ciencia mo-

— 267 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS> 54/1962, qu. 1

derna equivaliam a um verdadeiro progresso e exigem conside-


ragáo da parte de todos os pensadores, nao excetuados os teó
logos.

Em particular, a exegese bíblica pedia atualizacáo. Os resultados


da arqueología e da lingüistica modernas suscitavam problemas novos
referentes á autenticidade, á estrutura e a interpretacáo dos livros ins
pirados. As escavanes de monumentos do próximo e medio Oriente,
assim como os conhecimentos de religióes pagas, traziam a tona ana-
logias com o Cristianismo que, á primeira vista, surpreendiam, solici
tando urna palavra de explicado da parte dos teólogos e historiadores.

Tornava-se assim necessário aos intelectuais católicos levar


em conta os resultados recentes das ciencias humanas para
poder de maneira mais adequadá expor aos incrédulos a mensa-
gem do Cristianismo («de maneira mais adequadá» nao quer
dizer «em sentido oposto»).

Em conseqüéncia, por todo o decorrer do séc. XIX veriiicaram-se


tentativas de assimilar á doutrina religiosa católica os dados novos da
ciencia. Contudo, sendo esta urna tarefa difícil, prestou-se a exageros
e desvíos; nem todos os apologistas cristáos perceberam logo de inicio
o que a Igreja poderia adaptar sem trair a sua missáo, e o que Ela de-
veria guardar intato, sob pena de se desdizer e de renegar o Cristo.
Basta recordar, dentre as tentativas malogradas, o indiferentismo
de Lameríais, condenado pela Igreja em 1834; o racionalismo de G.
Hermes (1835), Guenther (1857) e Frohschammer (1862); o tradiciona
lismo ou fideísmo (reacao contra o racionalismo, só valorizava a fé)
de Bautain (1840) e Bonetty (1855); o ontologismo (o homem conhece
a Deus por intuicáo inata) de Rosmini (1861),... a lista de 80 erros
modernos catalogados no Silabo de Pió IX (1864).
Em 1870 o Concilio I do Vaticano considerou a problemática, pro
clamando a índole sobrenatural da fé e a sua harmonía com a razáo.
Contudo a agitacáo entre os pensadores católicos mesmos nao se dava
por acalmada. Muitos, movidos por amor á causa católica, desejavam
fazer urna apologética do Cristianismo que levasse em. conta as conclu-
soes mais recentes das ciencias profanas assim como os postulados e as
preferencias da mentalidade moderna; visavam destarte tornar mais
atraente a pregacáo crista.

Dentre ésses estudiosos, é que procedeu a corrente moder


nista; seus arautos.exageraram a tendencia a tornar o Cristia
nismo simpático ao homem moderno; «modernizaram», com de
trimento do patrimonio mésmo que éles queriam defender. Os
seus principáis representantes sao: E. Le Roy e Alfred Loisy,
na Franca; G. Tyrrell, na Inglaterra; R. Murri, S. Minocchi, G.
Semeria, Ernesto Buonaiuti, na Italia. A sua intencáo de tomar
a Cristandade mais penetrante na vida moderna era inegável-
mente boa; de modo nenhum pretendiam desligar-se da Igreja.
Daí o caráter fortemente sedutor do seu movimento; o protes
tante P. Sabatier julgava mesmo tratar-se de um «renascimento

— 268 —
QUE E O «MODERNISMO»?

católico» (cf. «Les Modemistes» pág. 41). Contudo a boa inten-


Cáo dos modernistas estava minada por um vicio radical: o reía*
tivismo doutrinário, ou seja, a arbitrariedade com que seus auto
res trataram as proposicóes dássicas do Cristianismo; sem dis
tinguir entre o essencial e o acidental, sem respeitar magisterio
ou autoridade da Igreja, entregaram-se desenfreadamente á
tarefa de adaptar, realizando assim urna obra de destruigáo tre
mendamente sorrateira e capciosa.

Tocou ao Papa Sao Pió X denunciar os erros em curso. Fé-lo primei-


ramente mediante o decreto «Lamentabili» do S. Oficio, datado de 3 de
julho de 1907. Éste documento reunia os desvíos do modernismo em 65
proposites, que reproduziam de perto os dizeres mesmos dos respecti
vos autores (em particular, de Loisy). A última dessas proposites .ex
prime muito bem o espirito do conjunto: «O Catolicismo atual nao se
pode adaptar á verdadeira ciencia, a menos que se transforme em um
Cristianismo nao dogmático, isto é, em um protestantismo largo e libe
ral» (cf. Den-zinger, Enchiridion 2065).
• Poucos meses depois, isto é, aos 8 de setembro de 1907, o mesmo
Pontífice publicava a encíclica «Pascendi Dominici gregis», que conca--
tenava em slntese lógica as diversas afirmacSes do modernismo e lhes
opunha urna critica muito perspicaz; nesse seu escrito, Pió X apresen-
tava o modernismo como o «rendez-vous» ou compendio de - todas as
heresias, pois, na verdade, nao impugnava urna ou outra proposigáo da
doutrina crista, como as heresias anteriores, mas afetáva os fundamen
tos mesmos da doutrina, como sejam as nogóes de fé, revelacáo, vera-
cidade da Biblia, etc.: «Nao é contra os ramos ou os rebentos que os
modernistas langarn o machado, mas é contra a raiz mesma, ou seja,
contra a fé e suas fibras mais profundas. Tentam fundir entre si o ra
cionalismo e o Catolicismo, usando de tao requintada habilidade que
fácilmente seduzem os espirites desprevenidos» (Pió X, ene. «Pas
cendi»).
Por último, a fim de evitar toda amblgüidadé no magisterio e ñas
atitudes práticas tanto dos clérigos como dos leigos, Pió X, a 1' de se
tembro de 1910, publicou o «Motu proprio» Sacrorum Antistitum, em
que prescrevia um juramento antimodernista até hoje em uso.
Nesse documento, o Pontífice primeiramente justificava a medida
tomada, lembrando que, embora condenado, o Modernismo persistía em
urna especie de «liga clandestina», cujos membros procuravam instilar
na sociedade crista o veneno das suas opinióes, «publicando livros e
jomáis anónimos ou munidos de pseudónimos». A seguir, o Papa dava
algumas normas para orientacáo dos bispos e, por fim, o texto do jura
mento. Éste professa aceitar, entre outras coisas, as provas racionáis
da existencia de Deus, a Instituigáo da Igreja por Jesús Cristo, a imu-
tabilidade dos dogmas, a harmonía entre a fé e a razáo, o respeito ao
magisterio e ás tradigoes da Igreja. Tal juramento era declarado obri-
gatório para todos os clérigos que estivessem para receber as ordens
sacras, assim como para os sacerdotes incumbidos da cura de almas,
para os dignitários eclesiásticos e superiores religiosos, ao entraren* no
exercicio de suas fungoes, e para todos os professóres que iniciassem o
magisterio.
O «Motu proprio» de. 1910 marca o inicio do declinio do Modernismo.
Alguns arautos do movimento ainda tentaram fazer valer as suas idéias

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«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 54/1962, qu. 1

publicando em sucessivas edicfies «D programma dei modernisti. Ris-


posta all'Enciclica» (Roma 1908), de autor anónimo. Em breve, porém, a
guerra de 1914/1918 desviou a atencáo dos pensadores para outros pro
blemas. Ao mesmo tempo, foi-se percebendo que a conciliagáo entre a
razáo e a fá se pode períeitamente obter sem que os cristáos desvir-
tuem o Credo...
Interessa-nos examinar mais precisamente

2. As principáis proposigoes do Modernismo

1. Os pioneiros do movimento evitavam expor de maneira


sistemática e íntegra a sua ideología. Isto se explica, em boa
parte, pelo fato de que o Modernismo, antes de ser própriamente
um corpo compacto de doutrinas, constituí um clima, urna ati-
tude geral de pensamento filosófico e religioso, que se inspira
na idéia básica de que há antagonismo entre o Cristianismo tra
dicional e a cultura contemporánea.

Além da proposicáo 65, citada á pág. 269, merecem referencia as


aíirmacóes abaixo, transcritas do decreto «Lamentabili» :

57. «A Igreja se mostra inimiga do progresso das ciencias naturais


e teológicas».

63. «A Igreja se mostra incapaz de defender a moral evangélica,


porque adere obstinadamente a doutrinas ditas imutáveis, que nao se
podem conciliar com o progresso moderno».

64. «O progrcsso das ciencias exige a reforma dos conceitos cris


táos concernen tes a Deus, a criacáo, a revelaeno, á pessoa do Verbo En
carnado e á Redencáo».

2. Para remover éste pretenso antagonismo, os modernis


tas puseram-se a «reformar» os conceitos fundamentáis da_dou-
trina crista : assim as nogóes mesmas de Verdade e Beligiao ■ •.

Verdade nao seria mais do que um sentimento pessoal ou


um modo de ver que cada um descobre e vai experimentando
dentro de si mesmo. Já que tal sentimento é variável de individuo
para individuo e de época para época, a própria nogáo de ver
dade torna-se algo de relativo.

Sao palavras de Loisy : «A verdade, na medida em que é um bem do


homem, nao é mais imutável do que o homem mesmo. A verdade evolui
com o homem, néle, por ele; isto nao impede que seja a verdade para
ele; alias, so existem verdades relativas» (Autour d'un petit livre 192).
Cf. prop. 58 do decreto «Lamentabili».

Conseqüentemente, Religiáo nao seria senáo ésse tipo de


sentimento aplicado ao «Divino» ou as coisas de Deus. — Tais
conceitos eram o fruto genuino da orientagáo geral dos estudos
do sáculo passado, que se achavam dominados pela idéia darwi-

— 270 —
QUE £ O «MODERNISMO»?

nista de «evolugáo». Vejamos de mais perto como estas nogóes


básicas se aplicaram aos dois principáis setores do pensamento
religioso :

a) Setor teológico.

Fé vem a ser a percepgáo de Deus que está presente no mais


íntimo do homem em virtude de urna lei de imanénda. Toda e
qualquer religiáo visa desenvolver essa percepgáo.
A percepgáo de Deus em nos necessita de se exprimir em
fórmulas, que sao comumente chamadas dogmas, mas que nada
tém de perene ou imutável; cada época apresenta «seus dogmas».
Entre os grandes vultos religiosos da humanidade, sobressai
Jesús de Nazaré, que gozou de experiencia particularmente
íntima de Deus. Comunicou-a a seus discípulos, sem, porém, pro-
por doutrinas precisas; apenas anunciava calorosamente a vinda
iminente do reino de Deus e convidava os homens á purificagáo
interior. Os dogmas do Cristianismo sao incrustagóes sobrepostas
á pregagáo de Jesús por ánimos férvidos, como o de Sao Paulo;
ficam estranhos ao conteúdo primitivo do Evangelho, devendo
sua origem principalmente á mentalidade helenista. A fusáo da
mensagem inicial de Jesús com os postulados da cultura grega
era necessária para que o Cristianismo pudesse sobreviver no
ambiente greco-romano dos primeiros sáculos.
Quanto as formas de culto ou aos ritos, sao, como os dogmas,
outras tantas expressóes da experiencia religiosa subjetiva dos
cristáos; nada tém de fixo ou imutável.
Vista dentro déste quadro, a Igreja nao passa de produto
da consciéncia religiosa coletiva; as autoridades eclesiásticas nao
cabe senáo o papel de exprimir os sentimentos religiosos dos indi
viduos. — Tudo, portante, é variável na historia do Cristia
nismo : doutrina, culto, organizacáo da Igreja...; apenas um
elemento é constante, garantindo a unidade básica dos fenóme
nos : é a experiencia religiosa latente em todos os discípulos de
Jesús (!). Essa experiencia religiosa também se chama Revela-
cao de Deus aos homens. Formas de culto e profissóes de fé só
tém o valor de meios que, de um lado, manifestam e, de outro
lado, favorecem o aprofundamento de tal experiencia ou revela-
gáo; oxalá com o tempo possam os homens dispensar ésses subsi
dios sensíveis, a fim de realizar umá religiáo reduzida exclusiva
mente ao setor do espirito!
Abragarido tais idéias de maneira elegante, os modernistas
evitavam combater explícitamente algum ponto do Credo da
Igreja; antes, pretendiam corroborar a pregagáo eclesiástica.

— 271 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 54/1962," qu. 1

No seu «Programma», os modernistas nio hesitavam em asseverar


que «tinham consciéncia de ser os roats beneméritos dentre os promo
tores do reino de Cristo no mundo», «os íilhos mais dedicados e ativos
da Igreja», os representantes «das mais puras tradigSes cristas»!
Palavras vazias, essas, pois o relativismo com que os modernistas
focalizavam as verdades religiosas, equivalía a um desvirtuamento das
mesmas e os alheava, por completo, á genuina mentalidade da Igreja.
Muito ligada ao relativismo é a atltude ambigua, camuflada, com
que os modernistas se apresentavam em público e dlsseminavam as
suas ídéias: além do pseudónimo e do anonimato, manejavam a sátira
com arte; infiltravam-se sorrateiramente ñas Universidades e nos Semi
narios, procurando atrair principalmente o jovem clero e os homens de
responsabilidade; quando atingidos por alguma censura eclesiástica,
mostravam-se solidarios entre si, constituindo como que urna onda
compacta de resistencia.
Assim, quando Pió X resolveu vedar o magisterio e as ordens sacras
aos adeptos do Modernismo, os pioneiros déste responderam no seu
«Programma» (pág. 128), comparando o Pontífice a Juliano o Apostata,
que removeu da cátedra os mestres cristáos !

b) Setor bíblico

Os livros da Escritura Sagrada nao seriam senáo a cristali-


zacáo de urna serie de experiencias «místicas» feitas através dos
sáculos do Antigo Testamento e no limiar da era crista. Seu
objetivo nao seria «ensinar a verdade», mas «purificar o senti-
• mentó religioso dos leitores» e levá-los a um teor de vida honesta.
Assim se éntende que a Biblia nao contém erro nem mentira.
Pode ser dita «inspirada por Deus» na medida em que os autores
sagrados escreveram sob a impressao de estar unidos ao Su
premo Senhor; por conseguinte, a inspiracáo do profeta Isaías
nao difere da de Platáo ou de Buda.
Sendo assim, nao é necessário, para os modernistas, admitir
a historicidade das narrativas do Antigo e do Novo Testamento,
nem mesmo a dos Evangelhos; estes exprimem o que as geracóes
cristas do séc. II pensavam a respeito de Cristo; foi a crenga dos
discípulos dessa época" que «inspirou» os Evangelhos, em vez de
ter sido o Evangelho a fonte de inspiracáo da crenca dos cristáos.
«Os Evangelhos íoram aumentados por acréscimos e corréeles con
tinuas, até a época em que 6 canon foi definitivamente estipulado;
donde se segué que nesses livros só ficou vestigio pálido e incerto do en-
sinamento de Cristo» (prop. 15 do decreto «Lamentabili»).
Em particular com referencia ás parábolas, Loisy, segulndo o crí
tico liberal Jüllcher, distinguía tres etapas na redacao das mesmas :

na primeira, os pregadores do Evangelho teráo referido as pará


bolas sem lhes acrescentar explicares, porque essas historias, tao sim
ples como eram, nao oíereciam dificuldade ao povo (assim se terá dado,
por exemplo, com a parábola do semeador; cf. Mt 13, 1-23);

— 272 —
QUE É O «MODERNISMO» ?

mais tarde, em urna segunda etapa, os pregadores, depois de narrar.


as parábolas, apresentavam os Apostólos a pedir a respectiva interpré-' "
tacáo a Jesús. Esta segunda fase era indicio de que os cristáos já nio '
entendiam o sentido primitivo das parábolas e nelas procuravam misté-
rios (na parábola do semeador, a explicacáo dada por Jesús já supoe
o exiguo sucesso da pregagáo do Evangelho entre os judeus e a super-
íicialidade de certas conversSes de gentíos; era a estes latos posteriores
que a explicacáo atendía, procurando elucidá-los por meio da parábola
do semeador : há diversos tipos de solo que recebe a sementé...);

na terceira etapa, os pregadores ainda intervieram mais profunda


mente no teor das parábolas, a íim de dar conta da obcecagáo e da
reprovagáo de Israel patenteada pela ruptura definitiva entre o Judais
mo e o Cristianismo.

A liberdade de redacáo assim usurpada pelos Evangelistas e expli


cada pela proposicáo modernista seguinte (n' 14 do decreto «Lamen-
tabilb) :

«Em muitas de suas narrativas, os Evangelistas nao referiram


tanto a verdade quanto aquilo que éles julgaram mais proveitoso aos leí-
tores, Í6sse mesmo a inverdade».

A própria Divindade de Cristo foi pelos modernistas inter


pretada em sentido liberal: o «Cristo da fé», tido como Deus,
dizem, difere do «Cristo da historia», que era mero homem. Nao
interessa ao exegeta examinar documentos para saber se Cristo
nasceu virginalmente, se fez os milagres que Lhe sao atribuidos,
se ressuscitou dentre os mortos, etc., porque estas proposigóes
carecem de base na realidade histórica, so tém consistencia para
quem possui fé.

Eis, extraídas do decreto «Lamentabili», algumas proposicóes que


formulam explícitamente tais idéias :

27. «A Divindade de Jesús Cristo nao se prova pelos Evangelhos,


mas é um dogma que a consciéncia crista deduziu da nogáo de Messias».

29. «Pode-se reconhecer que o Cristo, tal como nó-lo mostra a his
toria, é muito inferior ao Cristo, objeto da fé».

35. «Cristo nao -teve sempre consciéncia da sua dignidade messiá-


nica».

36. «A ressurreicáo do Salvador nao é própriamente um fato de


índole histórica, mas um fato de índole meramente sobrenatural, que
n«lo foi demonstrado nem pode ser demonstrado e que a consciéncia
crista deduziu lentamente dos outros (fatos da vida do Salvador)».

A conseqüéncia dessas premissas bíblicas é que o exegta


católico pode e deve proceder ao estudo da Sagrada Escritura
como ao estudo de qualquer outro livro, sem atender a norma
alguma de ordem sobrenatural:

— 273 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 54/1962, qu. 1

12. «O exegeta que se queira entregar aos estudos bíblicos com


proveito, deve, antes do mais, p6r de lado a crenca preconcebida na
origem sobrenatural da Escritura Sagrada, e nao a interpretar de modo
diverso do que conviria a documentos meramente humanos».

Haja vista outrossim a seguinte proposigáo, que exprime bem a


ambigüidade característica e intencionada dos modernistas:

24. «Nao se pode censurar o exegeta que afirma premissas das


quais se segué que os dogmas da Igreja sao históricamente falsos ou
duvidosos, contanto que nao negué diretamente ésses mesmos dogmas>.

Após esta breve explanado das principáis idéias dissemina


das pelo Modernismo, procuremos formular sobre as mesmas

3. Um juízo sereno

Sem dificuldades percebe-se que o Modernismo se coloca em oposi-


Cao frontal aos principios mesmos da mensagem crista.
Fixemos alguns pontos que parecem constituir os grandes desvíos
dessa ideología.

1) Agnosticismo ou relativismo. O modernista, como vi


mos, parte do principio de que só há «verdade para o individuo»;
a verdade nao é algo de absoluto e válido para todos os tempos,
todos os lugares e todos os individuos humanos. É ésse relativis
mo que permite ao modernista afirmar tudo aquilo que a Igreja
afirma, mas afirmar sem compromisso, ... afirmar negando um
consentimento interior total.

A posigáo é c&moda, porque, de um lado, tende a evitar polémica


e, de outro lado, nao obriga, sempre deixando margem para evasivas.
Em última análise, o Modernismo dá margem a cada um para fazer a
religiáo, ... a sua religiáo, em vez de «ser feito e dirigido pela Religiáo>.
O amor próprio e o orgulho do homem contemporáneo sSo destarte
bajulados; daí o poder de seducáo do Modernismo; é realmente o pseudo-
credo religioso que corresponde á mentalidade dos novos tempos. A reli
giáo entendida dentro desta perspectiva flea sendo, em aparéncla apenas,
religiáo; na verdade, torna-se mero rótulo que dá foros de piedade á
irreligiáo.
A respeito do orgulho que alimenta a posicao modernista, segue-se
aqui oportuna observagao:
«Ao ler as publicacSes dos modernistas, ficamos surpreendidos e
penalizados por encontrar ai táo freqüentemente o «Nao sou como os
demais homens» (do íariseu da parábola de Le 11,11). Os" modernistas
se apresentam como «os homens mais inteligentes e cultos>, «os mais
ardentemente sinceros, os mais desinteressados», «os mais profunda
mente religiosos e evangélicos», etc.
NSo estamos acostumados a encontrar tais expressOes nos labios
dos verdadeiros reformadores católicos, como Sao Bernardo, por exem-
plo, ou Sao Francisco de Assis. Mas algo que impressiona ainda mais do

— 274 —
QUE fe O «MODERNISMO» ?

que essas ladainhas um tanto simplórias é o espirito de casta, é a pre


ferencia dada ao modo de ver de um grupinho de intelectuais antes que
as decisóes da hierarquia e ao senso cristáo do povo fiel» (J. Lebreton,
Modernisme, em «Dictionnaire Apologétique de la Foi Catholique»
III 685).

.Que dizer do relativismo capcioso «libertador» dos Moder


nistas?
— O relativismo constituí verdadeiro atentado nao sómente
contra o Cristianismo, mas também contra a inteligencia e a
dignidade humanas. Ao homem nega-se assim a capacidade de
apreender a realidade como ela é. Ora ésse ceticismo é indicio de
decadencia do pensamento.
Ademáis, o relativismo restaura o principio dos sofistas gre-
gos: «O homem é a medida de todas as coisas» (cf. Platáo,
Teateto 152, fragm. B I); tal principio caracterizava precisa
mente a decrepitude da cultura grega. Na verdade, o homem
nao dá a medida á realidade que o cerca. Em outros termos : o
homem nao é o criterio para se definir o valor das demais cria
turas; ele foi feito, antes, para reconhecer os valores que exis-
tem independentemente da inteligencia humana; é neste reconhe-
cimento que justamente consiste a grandeza do homem. Muito
pobre seria o universo, se ele tivesse que ser medido pelas exi
guas capacidades humanas.
O relativismo, adaptável a todas as tendencias do sujeito, é
incapaz de dar estrutura nao so ao pensamento, mas á condute
de vida dos que o professam; um tal relativismo solapa a tenaci-
dade e a virilidade indispensáveis para que a personalidade hu
mana se forme.

De modo especial, no setor da Religiáo, qualquer forma de relati


vismo é contraditória e absurda, pois Religiáo significa tomada de posi-
cao do homem diante do Absoluto; ora nao toca ao homem, relativo e
contingente como é, «projetar» o Absoluto e configurar a seu bel-prazer
as relacfies com Ele; antes, compete-lhe recebar a mensagem do Abso
luto. A verdadeira religiáo nao pode ser aquela que o individuo con
cebe ou imagina em seu modo de ver subjetivo; ao contrario, ela é ne-
cessariamente transmitida e intimada ao homem por sinais objetivoB
que déem testemunho seguro de que Deus é quem se está manifestando.
Dizer, portanto, que a Religiáo pode variar segundo as épocas e as
mentalidades, equivale a desvirtuar e renegar o conceito mesrio dé
Religiáo.

2) Igreja e progresso dá civilizacáo. É váo o pressuposto


modernista segundo o qual a Igreja, ensinando verdades de fé,
seria contraria as conquistas da inteligencia humana.
A inteligencia mesma, raciocinando sobre a realidade que a
cerca, é levada a afirmar algo de transcendente e invisível, ou

— 275 —
«PERGUNTE E-RESPONDEREMOS» 54/1962, qu. 1

seja, o misterio de Deus, de que tratam a fé e a Religiáo: A fé


assim aparece como a coroa da sabedoria humana.
Consciente disto, a Igreja nao poderia deixar de estimular
as conquistas da inteligencia, tanto no setor especulativo como
no da técnica. Vem a propósito a segúinte declaragáo do Conci
lio I do Vaticano (1870) :

«Longe de por obstáculo ao cultivo das artes e das ciencias huma


nas, a Igreja as favorece e as promove de varias maneiras. Ela nao
ignora nem despreza as vantagens que daí resultam para a vida do
homem na térra; antes, ela reconhece que, provindo de Deus, o Mestre
das ciencias, as artes e as ciencias fazem voltar a Deus, com o auxilio
da grac.a, desde que sejam cultivadas como convém» (Denzinger,
Enchiridion 1799).
A Igreja, portanto, nao coibe a liberdade de pesquisa de seus íilhos.
Apresentando-lhes as verdades da íé, Ela apenas os preserva de cair em
erro, pois o que é certo nó plano da Religiáo há de ser certo também
no plano da ciencia (a verdade é urna só); por conseguinte, as verdades
da fé nao poderáo deixar de ser levadas em conta pelo dentista que
queira explicar o universo,... levadas em conta ao menos-como crite
rios negativos, ou seja, como termos que nao será lícito infringir sem
cair no erro.
Apraz ainda citar as palavras de Pió XII dirigidas a intelectuais
católicos em 1950 :
«Hoje os teólogos católicos devem poder contar com os nossos íilhos
dentistas ou técnicos, filósofos ou juristas, historiadores, sociólogos ou
médicos, para que estes fornegam aos trabalhos dos teólogos a base de
sólidos conhecimentos profanos. No seio da Igreja e em vossa qualidade
de intelectuais, tal 6 a vossa missáo privilegiada» (Mensagem a «Pax
Romana» de 6 de agosto de 1950).

Esta declaracáo póe em clara evidencia que a Igreja nada tem a


temer da parte das pesquisas científicas; estas só poderáo contribuir
para enriquecer, ao menos indiretamente, o patrimonio da teología. Na
verdade, nao há descoberta das ciencias naturais capaz de destruir os
conceitos de «ser» e «náo-ser» e os demais conceitos da Metafísica pelos
quais se exprime a Revelacáo crista. Em outros termos : a Metafísica
nao se abala quando a Física se abala; a Metafísica pertence a outro
plano que nao o da Física; ora foi em termos de Metafísica (para dizer
verdades transcendentes, e nao para dizer verdades de ordem física,
natural) que o Senhor Jesús se dirigiu aos homens.
A historia dos últimos decenios demonstra mesmo como o pro-
gresso das ciencias concorre para corroborar a veracidade das Escritu
ras Sagradas e da Revelacao crista.
Assim a existencia de Jesús já nao é posta em düvida pelos estudio
sos sinceros; a sua Divindade se tornou mais evidente depois que os
liberáis esgotaram todas as tentativas tle explicar Jesús como figura
mitológica ou como mero homem endeusado. Sim; tornou-se evidente
que se requer mais íé' para crer que vinte séculos de Cristianismo este-
jam baseados em mito, lenda, fraude, alucinacao, etc., do que para crer
no fato sobrenatural da EncarnagSo. O pedestal «mito» ou «engaño» nao
sustentaría vinte séculos de Cristianismo; deve ter havido realmente
na base deste algo de sobrenatural ou a descida de Deus a carne hu
mana, como sempre ensinou a Tradicáo crista. Tal é a conclusáo para a

— 276 —.
QUE £ O ¿MODERNISMO» ?

qual váo convergindo os mais ponderados dos críticos de nossos días


(cf. em particular J. Guitton no seu livro «JESÚS», ed. Itatiaia, Belo
Horizonte, do qual se trata em «P. R.» 7/1958, qu. 4).

3) Aspectos particulares do Modernismo. Já em números anterio


res de «P. R.» íoram estudados outros temas controvertidos pelos mo
dernistas. Por isto limitamo-nos aqui a indicar os respectivos fascículos.-
Sobre a possibilidade de Revelacáo Divina e seus criterios de auten-
ticidade, veja-se «P. R.» 11/1958, qu. 1.
A propósito da veracidade dos Evangelhos, cí. «P. R.» 7/1958, qu. 4.
A Divindade de Jesús Cristo já foi considerada em «P. R»
8/1957, qu. 1.

Sobre a cautela necessária na exegrese da S. Escritura c a autoridade


da Igreja neste setor, o próprio Loisy em 1892 proleriu palavras de
grande valor:
«A critica bíblica, fazendo nos tocar com o dedo os progressos lentos
e difíceis da educacao religiosa que Deus, em sua misericordia, quis dar
á humanidade, deve inspirar humildade de espirito, grande indulgencia
para com aqueles que erram involuntariamente, profunda gratidao
para com o Mestre Supremo que nao ñas quis deixar entregues aos
nossos próprios recursos e que colocou diante de nos, para nos guiar
através do deserto déste mundo, uma coluna de luz, isto é, o magisterio
sempre antigo e sempre novo da sua Igreja» (trecho de uma aula inau
gural reproduzida em «Etudes bibliques*, do mesmo autor, pág. 25,

É do lamentar, nao tonha o estudioso francés observado as normas


que ele mesmo assim propunha. Cf. «P. R.» 5/1958, qu. 5.

Em conclusao: passou-se a crise modernista. Os proble


mas que ela agitou, já hoje quase nao sao discutidos, porque o
próprio progresso das ciencias os foi resolvendo... Ficou, porém,
o clima modernista. O horhem contemporáneo ainda respira uma
atmosfera de relativismo religioso, tendendo a considerar-se
«medida de todas as coisas». Inegávelmente, essa atitude solapa
a grandeza dos cristáos. Quem tem consciéncia. déste mal, mais
fácilmente se desvencilha déle... O relativismo religioso é irre-
ligiáo «envernizada».

Apesar de tudo, o Modernismo teve suas conseqüéncias boas.


Despertou o interésse dos católicos para novo estudo das fontes
da fé; mostrou a necessidade de se aproveitarem os dados da
ciencia moderna para se penetrar o depósito da teologia sagrada.
O esvaziamento das palavras (Religiáo, fé, experiencia de
Deus...) empreendido pelos modernistas provocou entre os fiéis
a sede de as encher com um conteúdo mais puro e auténtico.
Assim de novo se verifica que Deus nao permitiría os males se
déles nao soubesse tirar ainda maiores bens (Sto. Agostinho).

— 277 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 54/1962, qu. 2

II. DOGMÁTICA

JOVEM ARDOROSO (Belo Horizonte) :

2) «A Igreja é intransigente e dora em cortos pontos. Isto


escandaliza, pois estamos numa época em que é preciso remover
todo fanatismo e tornar-nos largos e compreensivos.»

Inegávelmente, a Igreja sempre se mostrou, e continua a se mos


trar, intransigente ou inílexível em algumas de suas afirmativas.
Verdade é que nem todas as atitudes intolerantes e duras dos cató
licos no decorrer dos secutas (ou também em nossos dias) íoram ins
piradas pela autoridade oficial da Igreja; muitas mesmo eram contra
rias a mente e as instrucóes oficiáis da Esposa de Cristo. Esta nao as
aprova; antes, repudia-as na medida em que sao a expressáo de mesqui-
nhez e cegó individualismo (tenham-se em vista, por exemplo, o pro-
cesso de Sta. Joana d'Arc, a «noite de Sao Bartolomeu», certos quadros
da Inquisicáo...), de que tratamos respectivamente em «P. R.» 8/1958,
qu. 9; 1/1959, qu. 12; 8/1957, qu. 9.
Contudo a Igreja nao rejeita a censura de ser inílexivel em deter
minados pontos de doutrina e de Moral; Ela nao aceita qualquer pacto
ou conciliacáo nestes setores (assim, por exemplo, no tocante ao divor
cio, ao emprégo de métodos antlconcepcionistas, ao pecado original, ae
inferno...), embora a mentalidade moderna encare estas proposites
com ceticismo. Numa palavra : em tudo que é essencial dentro da men-
sagem de Cristo, a Igreja julga nao poder fazer concessao ás preferen
cias dos homens; em questóes, porém, acidentais (como sejam formas
de devocáo, uso do vernáculo na Liturgia, celibato, etc.), a Igreja pode
adaptar praxcs antigás aos postulados da vida moderna (Ela deseja
mesmo tais adaptacües, desde que nao afetem o dogma ou os principios
da Moral crista).
Muitos dos nossos contemporáneos se dáo por perplexos diante de
rigidez aparentemente táo odiosa. «Cristo nao seria mais conciliante?>,
perguntam. <A caridade nao nos enslna a esquecer os nossos pontos de
vista pessoais a fim de nao nos separáronos do próximo? Se a Igreja
nao o faz, como pode ser a verdadeira continuadora da obra de Jesús
Cristo?>
Assim enunciado o problema, vejamos como a Igreja justifica a
sua posicao. Está claro que Ela só faz questáo de defender a inflexibi-
lidade que Ela, oficialmente por sua hierarquia, proíessa em materia
de íé e de Moral; nao defende a intransigencia, ás vézes mal concebida,
de alguns de seus filhos.

1. Motivo de escándalo ou de admiracao?

1. Quem reflete serenamente sobre a propalada intransi


gencia da Igreja, verifica que, em vez de ser motivo de escán
dalo, deye antes ser tida qual motivo de admiragáo e apreco.
Com efeito : a firmeza da Igreja ao propor o que Ela julga ser
essencial na mensagem do Evangelho, é sinal de que Ela tem
consciéncia de estar com a verdade. É sonriente a verdade clara-

— 278 —
INTRANSIGENCIA DA IGREJA

mente percebida que solicita a adesáo da inteligencia, de maneira


absoluta, até a própria morte.' Se a Igreja nao fósse táo tenaz
nos temas essenciais da sua pregagáo, estaría implícitamente
confessando que sua mensagem nao se impóe com o fulgor da
verdade; o mundo estaña entáo dispensado de Lhe dar atengáo
e poderia burlar-se déla, pois contentar-se com posigóes duvido-
sas, com «meias-verdades» ou com relativismo doutrinário, é
atitude indigna da inteligencia humana. Esta possui tendencia
espontánea e inelutável a sondar a verdade e a abragá-la. com
todos os recursos postos ao seu alcance; querer que as inteligen
cias se saciem com doutrinas vagas é ofendé-Ias...

Haja vista o caso de quem diz: «Dois e dois sao quatro». Tal afir-
macáo se impSe com tanta pujanca á inteligencia que a esta é impossí-
vel aceitar qualquer outra tese («dois e dois sao tres» ou «dois e dois
sao cinco»); nem a cultura de urna época, nem as modas de urna civi-
lizacáo, nem sequer a simpatía ou a amizade dos homens podem fazer
que alguém se afaste sinceramente (ou com dignidade humana) dessa
proposicao. E — note-se bem — tal pessoa, embora irredutivel, sabe que
nao está sendo mesquinha nem fanática, pois-nao está defendendo um
produto subjetivo de sua mente ou um ponto de vista pessoal, mas, sim,
um patrimonio comum a todo o género humano, que é a VERDADE.
Aqueles que tem consclencla de ser portadores _désse patrimonio; nSo
gozam do direlto de o diluir (nem mesmo para ser simpáticos ou «bonzl-
nhos» para com outrem), porque isto redundarla em detrimento da
humanidade toda. A benevolencia para com o próximo, nesses casos,
consiste justamente em ser firme e tenaz na medida em que isto é
necessário para salvaguardar o patrimonio ou o bem comum.

2. A verdade recusa melas-solugSes... Esta proposicao se torna


de todo evidente desde que se levem em conta certas atitudes espontá
neas da personalidade humana. A éste propósito a Sagrada Escritura
apresenta um episodio que se tornou como que proverbial na literatura
do género humano e que muito bem ilustra as idéias ácima.
Nos tempos do rei Salomáo de Israel (séc. X a. C), duas mulheres
deram a luz no mesmo aposento, com o intervalo de tres dias urna da
outra. Aconteceu, porém, que urna délas, ao dormir, esmagou seu pró-
prio fllho; «mediatamente entao colocou a erianca morta no lelto da
companheira e tirou para si o filhinho vivo desta. Contudo a genitora
frustrada, ao verificar de manhá que a erianca morta nao era a sua,
pós-se a litigar com a vizinha insidiosa. Em conseqüéncia, foram ambas
ter com o rei Salomáo para pedir-lhe que lhes fizesse justica. O mo
narca, estranho como era ao caso, talvez fósse a pessoa menos habili
tada para identificar a verdadeira máe da crianca viva. Lembrou-se,
porém, da sabedoria contida na proposicao ácima e resolveu a ela re
correr... Como?
Já que as duas mulheres pretendiam afirmar a verdade, decidiu
optar por urna solucáo de conciliacáo ou urna meia-solucáo: a crianca
seria partida ao meio por urna espada e cada urna das duas mulheres
receberia a sua metade. Neste momento entao a verdade protestou pelos
labios da genuina máe... Esta suplicou ao rei que nao aplicasse a meia-
solucáo; seu auténtico amor materno levava-a a preferir que o menino
fósse entregue á sua rival, contanto que permanecesse inteiro e vivo.

— 279 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 54/1962. qu. 2

Ao contrario, a falsa genitora insistía na pretensa soluto conciliatoria.


— Diante da nova situacjio, o rei Salomáo já nao hesitou : mandou dar
a crianga á mulher que nao aceitava meia-solucáo, pois esta, assim
procedendo, Ihe parecía estar com a verdade; tal intransigencia era, de
íato, pedra de toque da genuinidade, ao passo que a aceitagáo do meío-
•termo por parte da rival vinha a ser a melhor prova de íalsidade tiesta
(cí. 3 Rs 7, 16-27).
Ora algo de semelhante se dá em se tratando de filosoíia e Reli-
giáo: quem professa a verdade, nao pode aceitar solugóes simplistas
que mutilem o patrimonio da inteligencia, ao passo que quem está no
erro estará sempre pronto a concüiacáo e pactos amorfos, ambiguos (o
que bem se entende, pois, mudando de posicjio doutrinária, a pessoa que
está no erro, nada tem a perder; pode mesmo ganhar, pois pode ser pro
movida á compreensáo da verdade).

P. Charles, em seu estilo característico, explícita estas idéias :


«Posso fazer concessoes a respeito de objetos que me pertencem,
abrindo máo de meus direitos; mas, quando se trata de coisas que nao
me pertencem é de direitos alheios, «pactuar* é desonesto ou mesmo
absurdo. O mais célebre professor de matemática, membro de todas as
Academias eruditas, nao pode conceder a minima mudanga na tabuada
de multiplicacáo nem na tabela de logaritmos, porque a verdade aritmé
tica nSo pertence a ele e porque toda a sua ciencia consiste precisa
mente em demonstrar o que se chama com rigor as «propriedades» dos
números. Poderei insistir pedindo-lhe que, por hoje e por excecáo, 7
vézes 7 valham 50, e nao 49. Poderei dizer-Ihe que minha felicidade,
minha vida e a de toda a minha familia dependem dessa concessáo-
zinha. Em vao, porém. O mesmo acontecería se pedissemos a um astró
nomo que retardasse por alguns minutos a hora de urna eclipse para
dar a Sua Santidade o Papa a ocasiao de a observar. Papa, Presidente,
doméstica, cocheiro... a hora da eclipse é a mesma para todos. Nao é
o astrónomo quem a decreta. Ele apenas a calcula e a anuncia. Nada
posso conceder no terreno da verdade. Ela nao me pertence. Qualquer
concessáo af vem a ser mentira» (L'Eglise, Sacrement du monde.
Desclée de Brouwer 1960, pág. 151).

Pois bem. A atitude do pensador que afirma «dois e dois sao


quatro» e que até o fim é coerente com esta afirmacáo, a Igreja
a assume no tocante as nogóes de Deus, do homem e do mundo.
E é precisamente esta firmeza que a deve impor ao respeito do
•público, em vez de Ihe merecer desprézo ou odio.

2. Um pouco de historia

1. Certamente nao sao interésses próprios ou mesquinhos


que Ievam a Igreja a ser «intransigente» em materia de dogma
ou de Moral. Basta considerar as afirmacóes dessa intransigen
cia no decorrer dos sáculos... : «custaram caro» á Esposa de
Cristo, que, em conseqüéncia, se sujeitou a perder favores e van-
tagens humanas.

— 280 —
INTRANSIGENCIA DA IGREJA

Haja vista o caso mais característico, que é o do divorcio pleiteado


pelo rei Henrique VIII da Inglaterra no séc. XVI. O Papa cometeu a
«loucura» de nao o conceder, asseverando que estava em jógo o ge
nuino conceito de matrimonio. O resultado desta atitude intransigente
foi o cisma anglicano, que arrebatou milhñes de fiéis a jurisdigáo da
Igreja; se Esta se tivesse acomodado ao monarca inglés, teria evitado
o golpe que, humanamente falando, equivalia a um prejuizo para o
prestigio da Igreja.
Semelhante intransigencia se registrou quando o rei Filipe Au
gusto da Franca em 1193 comecou a aborrecer sua esposa legítima, a
princesa dinamarquesa Ingeburga, pretendendo casar-se em novas
nupcias com urna jovem bávara, Inés de Meránia.
O Papa Inocencio III cscreveu entáo ao rei: «A Santa Sé nao pode
abandonar sem defesa as esposas perseguidas. De outro lado, a digni-
dade de um rei nao pode estar ácima dos deveres de um cristáo; por
conseguinte, neste setor fica-nos vedado fazer qualquer distingao entre
o monarca e os demais fiéis. Se, contra toda expectativa, o rei da
Franca desprezar nossa advertencia, estaremos, muito a contra-gósto,
obrigados a levantar contra ele a nossa mao apostólica. Nada no
mundo será capaz de Nos desviar desta firme resolugáo de justica e
de direito. Se Filipe Augusto recusar separar-se de Inés de Meránia e
retomar Ingeburga, todo o reino da Franca será submetido ao inter-
dlto, e, caso o monarca se obstine, ele e sua cúmplice serlo atingidos
por exconmunhao».
O litigio se protraiu por vinte anos, sem que a Santa Sé cedesse,
embora a inflexibilidade lhe acarretasse nao poucos dissabores.

2. Talvez á primeira vista nao se perceba todo o signifi


cado destas atitudes da Sta. Igreja. Ele se evidenciará plena
mente caso seja confrontado com o procedimento dos «Reforma
dores» da Igreja postos em circunstancias análogas.

Com efeito. O principe Filipe de Hesse, na Alemanha, grande pro-


tetor de Lutero, desde 1523 estava casado com Cristina da Saxónia, da
qual tinha sete filhos; desejava, porém, urna «segunda esposa legí
tima», Margarida von Saale, pedindo a Lutero e a seus teólogos que
lhe concedessem a autorizagáo para a esposar religiosamente. — Lu
tero, pelo que consta, nao raro dava tais licencas, mas por via mera
mente oral, á guisa de «conselho de confissao». Filipe, contudo, dese
java a licenga por escrito; finalmente Lutero lha concedeu aos 10 de
dezembro de 1539, o que deu lugar ao casamento «á moda turca»
(como se dizia popularmente) aos 4 de margo de 1540 em presenca de
Melancton, Bucer e Eberardo de Thann. A noticia de que Lutero con
sentirá em tal procedimento (dizia-se mesmo que havia recebido em
troca um barril de vinho!) nao tardou a se espalhar, com grande
alarde, entre o povo; a bigamia era proibida nao sómente pela cons-
ciencia crista, mas também por lei do Imperio alemáo. Lutero entáó
tranquilamente pós-se a ensinar que era necessário negar a existencia
da autorizagáo por ele dada, íazendo a seguinte observagao : «Que mal
há em que se proflra abertamente urna boa mentira, desde que se
tenha em vista um bem maior e a prosperidade da Igreja crista?»

Caso semelhante se verificou com Carlos Luis, eleitor palatino


(Alemanha). Em 1658 os teólogos protestantes lhe concederam a
licenga para vlver em bigamia no seu castelo de Heidelberg, tomando

— 281 —
<PERGU>TrE E RESPONDEREMOS» 54/1962, qu. 2

como segunda mulher Luisa de Dagenfeld, dama de honra de sua legi


tima esposa. Os Juristas protestantes justificavam a concessáo, ale
gando que ao principe civil compete a soberanía religiosa (ou a orga-
nizagáo do Cristianismo) no seu respectivo territorio; por conseguinte,
nao seria licito ás autoridades da Igreja querer impedir tais «solu>
c,5es» para casos diíiceis.

Um confronto entre a atitude «intolerante» da Igreja Cató


lica nos dois primeiros episodios apontados e a posicáo dos refor
madores «tolerantes» parece nao deixar dúvida a respeito da
decisáo a se tomar diante do dilema : transigencia ou intransi
gencia frente a questóes essenciais? — A tolerancia em tais
casos acarretou," e acarretará sempre, aviltamento da dignidade
humana (tenha-se ém vista que poligamia e divorcio contrariam
a própria lei natural, anteriormente mesmo la mensagem de
Cristo).
A tenacidade da Igreja para suportar, desde os seus primor
dios, tantos dissabores e lutas (que poderiam ser evitados, se
Ela se mostrasse mais flexível) nao será o testemunho, dado
pelo próprío Deus, de que a Igreja está realmente de posse da ver-
dade? Parece que só um dom do céu seria capaz de vivificar
dessa forma a Esposa de Cristo e suas atitudes; ora o Senhor
nao comunicaría ésse dom para que se implantasse o erro, e os
homens fóssem seduzidos; donde se concluí que o Senhor Deus
mesmo, dando a Igreja tal tenacidade, quis confirmar a veraci-
dade dos ensinamentos que Ela propSe com santa intolerancia;
vé-se assim que a convicgáo com a qual Ela se afirma no mundo,
nao é meramente subjetiva e ilusoria, mas corresponde a reali-
dade objetiva das coisas; é portante, auténtico sinal da verdade.

De resto, as credenciais da Igreja Católica para propor a verdade


em nome de Deus já foram estudadas em «P. R.» 39/1961, qu. 2.
Procuraremos agora ilustrar o que fica dito aqui sobre a necessi-
dade de atitudes coerentes, observando

3. O que se dá na própria natureza...

Entre outras muitas, parecem impor-se duas verificaeñes capazes


de iluminar a questao que estamos estudando.

1) Tanto entre os seres animados (viventes) como entre os


inanimados (náo-viventes), a ordem e a harmonía sao algo que
só se mantém á custa de Ieis precisas e severa disciplina.

a) Lancemos um ólhar primeiramente para o reino das


criaturas animadas ou viventes.

_ 282 —
INTRANSIGENCIA DA IGKEJA

Já se tem dito que a vida neste mundo constituí um cons


tante paradoxo e como que um desafio a todas as leis das proba
bilidades. .. De fato, o equilibrio dos elementos que entram na
constituigáo de um corpo vivo é algo de muito complexo e frágil;
está incessantemente comprometido e é incessantemente res
taurado.

Basta, por exemplo, a variacáo de cinco graus de temperatura


num organismo vivo para que éste se ache á belra da morte; a rup
tura de pequeño vaso sanguíneo na cabeca acarreta logo paralisia de
íuncSes do vívente. Sem precisar de acumular os exemplos (que neste
setor sao evidentissimos), concluimos que a vida, justamente por ser
muito delicada, só se conserva mediante estrita disciplina; as possibi-
lidades de oscilar em seu ritmo próprio sao assaz limitadas.

b) No reino dos inanimados, as intransigencias nao sao


menos impressionantes.

Tenham-se em vista, por exemplo,


o rigor do fotógrafo, que faz questáo de um décimo de milímetro
para conseguir imagem bem focalizada e nítida;
a intolerancia do farmacéutico, que por vézes dosa as suas porcSes
com a precisao de um quarto de miligrama, a fim de que o remedio
seja eficaz, em vez de redundar em veneno mortal;
o empenho do oficial de guerra, que calcula o lancamento de seus
íoguetes ou o tipo de seus canh6es até a última decimal, empenho
éste absolutamente necessário dará evitar hecatombes e catástrofes
desconcertantes.
A bagueta do regente de orquestra é ainda mais intolerante do
que o cácete do guarda policial; contudo ninguém se indigna contra o
regente; ao contrario, todos o adamam.
Um circulo ao qual quiséssemos dar raios de tamanho desigual,
de acordó com o «gósto da época», deixaria simplesmente de ser cír
culo.
S&bre as cédulas monetarias ainda em nossos dias se Ié por vézes
a ameaca intransigente: «Qualquer tentativa de falsificacáo será pu
nida pelas penas da lei» (as quais costumam ser rigorosas).
Essas afirmagSes de coeréncia entre os seres materiais vém a ser
indispensável condicao de subsistencia e prosperidade do mundo e do
género humano. Elas nos sugerem com eloqüéncia que no plano dos
valores da inteligencia, ou no plano dos conceitos, nao pode haver
menor rigor; admitir o relativismo da verdade é simplesmente negar
a esta.
Embora todo homem repudie espontáneamente o que lhe op5e
resistencia, nao há quem nao saiba que abolir as resistencias equivale
a abrir o caminho para a morte. Em linguagem «chestertoniana» dir-
^e-ia: ninguém podé galgar unía montanha de geléia, porque tal
massa gelatinosa nao resistiría á pressáo dos passos do herói; antes,
ela o tragaría vivo, ocasionando-lhe a ruina total. Urna régua de borra
cha deixa de ser urna medida... Ora assim também um Deus que a nin
guém «incomodasse», mas que fósse plasmável segundo o gósto de
cada um, nao passaria de ídolo váo; igualmente urna Igreja que renun-

— 283 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 54/1962, qu. 2

ciasse a ser intransigente na sua profissao de fé, nao poderla merecer


senáo o desprézo dos homens.
Para melhor compreender essa intransigencia da Igreja Católica,
analisaremos agora outro fenómeno «paradoxab ocorrente na na-
tureza.

2) Todo genuino amor é, em gran maior ou menor, intole


rante, e tanto mais intolerante quanto mais frágil é o seu objeto.

A máezinha que queira defender a saúde ou a honra de seus


filhos, torna-se agressiva justamente porque ama a prole. O mé
dico e a enfermeira que querem bem a seu pacientes (e justa
mente por lhes querer bem) nao dáo sempre ouvidos aos gemidos
e protestos déstes, mas impóem-ihes intolerantemente dietas,
medicamentos e outros cuidados violentos, na medida em que
isso é essencial para a cura.
Alias, merece atengáo o fato de que, no Evangelho mesmo,
Jesús, de um lado, manda amar todos os homens, até os inimi-
gos (cf. Mt 5,44); de outro lado, porém, afirma : «Nao vim tra-
zer a paz, mas a espada sobre a térra» (cf. Mt 10,34), ou tam-
bém : «Aquéle que ama seu pai, sua máe, seu filho ou sua filha,
mais do que a Mim, nao é digno de Mim» (cf. Mt 10,37). A apa
rente contradigáo se explica pelo fato de que o verdadeiro amor
tem que saber remover enérgicamente tudo que se opóe ao bem
do objeto amado; em caso contrario, nem sequer seria amor, mas
«diletantismo» egocéntrico.

Por isto todo amor verdadeiro, principalmente o amor que o cris-


táo dedica a Deus e aos homens, pode levar a urna, santa luta (sim
bolizada pela espada do Evangelho), luta esta que vem a ser por
vézes a necessária salvaguarda da vida e de valores e que se opóe a
qualquer paz decemitério (esta seria, em aparéncia, prazenteira, mas,
na realidade, «máscara» do vazio e da morte).
Tal luta, é claro, visará sempre as instituicoes más, ou o pecado,
nunca porém as pessoas que cometem o mal ou o pecado. Em favor
dessas pessoas também morreu Cristo; por isto, em toda e qualquer
hipótese, o cristáo as deverá amar, desejando-lhes o bem : «Que o
cristáo odeie o pecado, mas ame o pecador», exortava sabiamente
Sto. Agostinho.

«Todo verdadeiro amor é portador de armas e está disposto a


servir-se délas. Um amor neutro ou indiferente é tao contraditório
quanto urna sinfonía silenciosa ou urna ceia sem alimentos> (P. Char
les, ob. clt. 146).

A respeito do sentido de Mt 10, 37, veja «P. R.» 40/1961, qu. 4.

O paradoxo do Cristo que ama violentamente, se apresenta


outrossim na historia de Sta. Teresa de Ávila. Certa vez, por
ocasiáo de urna de suas viagens de Reformadora carmelita, a

_ 284"—
INTRANSIGENCIA DA IGREJA

santa sofreu um acídente que a contundiu seriamente. Exclamou


entáo com a espontaneidad^ de sua alma : «Ah, Senhor, quando
deixarás de disseminar tais dificuldades sobre os nossos eami-
nhos? — Nao te queixes, filha, respondeu-lhe o Divino Mestre;
é assim que trato os meus amigos. — Pois bem, Ssnhor; é por
isto também que tens táo poucos amigos!» (Histoire de Sainte
Thérése d'aprés les Bollandistes t. 2, 1888, pág. 362).

A cena supñe urna verdade básica para o cristáo : toda tribulacáo


implica em purificagáo e santificado (assemelha-se a um instrumento
que «raspa a ferrugem» da alma ou os resquicios do pecado). É, por
conseguinte, um valor; compreende-se entáo que, ésse valor, o Senhor
nao possa deixar de o destinar aos seus amigos.

As observacóes ácima levam a ver que a intransigencia da


Igreja há de ser entendida, em última análise, como intransigen
cia materna; é, sim, o sinaí do amor que a Igreja dedica á huma-
nidade :

«Para preencher o seu papel materno, a Igreja deve desenvolver


urna agao protetora. Ora ninguém protege coisa alguma pela inercia
da tolerancia... A Igreja é intolerante, porque a sua grande, a sua
única missáo de amor consiste em proteger, contra todas os perigos
que o ameacam destruir em nos e nos outros, o tesouro valioso que
somos nos mesmos e que muitas vézes nem suspeitamos ser. Nao nos
queixemos das suas atitudes rigorosas, mesmo quando nos incomodam
e mortificam» (P. Charles, ob. cit. 152).

Eis as duas observacóes que a natureza das coisas em sua


existencia cotidiana nos sugere a respeito do dilema «flexibili-
dade ou inflexibilidade?». Vé-se que querer escapar a certa infle-
xibilidade (ainda que seja apenas no plano da Religiáo) equivale
a destoar do testemunho comum das crianturas que cercam o
homem; pode equivaler a um suicidio da mente e da dignidade
humana.
Faca-se ouvir ainda ujna outra modalidade de testemunho.

3. O depoimento de nao-católicos

Táo obvia é a necessidade de urna santa intransigencia (in


transigencia esclarecida pelos principios ácima enunciados) que
alé mesmo escritores náo-católicos a reconhecem.
Eis, por exemplo, o testemunho do Professor evangélico
Hans Liermann, docente de Direito em Erlangen (Alemanha) :

«Nao se poderia exigir de alguma sociedade religiosa a tolerancia


dogmática, pois toda sociedade religiosa eré possuir em cada um dos
seus dogmas um tesouro inamissível de verdade. Se ela permitisss que

— 285 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 54/1962, qu. 2

tal tesouro íósse posto em xeque, ela renunciarla a ser o que deve ser.
Poderia entáo julgar nao possuir senáo urna verdade relativa; eis,
porém, que a verdade relativa, a qual propde com ceticismo... a velha
questáo de Pilatos («Que é a verdade?»), nao pode servir de base a
urna sociedade religiosa. Segundo as leis da sociologia religiosa, urna
Igreja que sofra de tal enfraqüecimento em sua estrutura dogmática,
está íadada a desaparecer cedo ou tarde... porque se terá tornado
infiel ao seu verdadeiro e supremo objetivo. Por isto faz-se mister con
tar com o fato de que toda Igreja deve ser intolerante do ponto de
vista dogmático» (Deutsche Beltraege zum Amsterdamer oekumeni-
schen Gespraech. Stuttgart 1948,191s).

Nao seria licito deduzir déste texto que toda e qualquer confissáo
religiosa (Catolicismo, Protestantismo, Islamismo...) tem igual di-
reito á inflexibilidade e que, por conseguinte, a verdade é relativa
(dependería da intuicáo subjetiva de cada individuo ou cada grupo,
e nao se impória a todos os homens). — Nao é éste o problema que
Liermann tem em vista; apenas lhe interessa definir urna nota carac
terística da Religiáo ou da sociedade religiosa como tal: desde que se
tale de Religiáo, quer ele dizer, fala-se de algo que professa firme
mente a verdade; se nao se aceita isto, nem sequer vale a pena falar
ou tratar de Religiáo, pois Religiáo relativista é contradicho ou cari
catura.

O relativismo religioso é explícitamente rejeitado por outro


vulto evangélico, o Prof. David Lerch, de Zuerich :

«Nao nos é possivel de modo algum dar o mesmo valor a duas


afirmacdes opostas entre si no plano da moral ou da Religiáo> (Das
Problem der Toleranz in thcologischer Sicht. Zuerich 1948, 10).

Outras vozes, ainda mais recentes, se tem feito ouvir em


sentido análogo, por ocasiáo dos preparativos do próximo Con
cilio Ecuménico : muitos evangélicos recusam qualquer tipo de
uniáo entre cristáos obtida com detrimento para a verdade.
Assim se exprime, por exemplo, a Federacáo Evangélica
Luterana da Alemanha em um dos seus comunicados :

«Sómente quando a situacáo aparecer clara e nítida, pederemos


conseguir verdadeiro progresso ñas relaeñes entre as diversas confis-
s8es cristas. Ora o reconhecimento claro da situacáo requer que, de
parte a parte, renunciemos a calar as divergencias, a fazer reticencias
levianas, a empregar de maneira simplória as palavras «caridades e
«uniáo»» (cf. K.N.A., Informat.-Dienst 21/1/61, pág. 6).

Asmussen, membro de notável movimento renovador pro


testante, observa :

«A grande possibilidade de que Roma e Wittemberg (Catolicismo


e Protestantismo) se encontxem pacificamente por ocasiao do Concilio,
nao deve ser destruida por concessOes facéis o ilícitos» (Ein hoher
Preis ist zu zahlen, em «Christ und Welt», 16 de abril de 1959, n. 10).

— 286 —
INTRANSIGENCIA DA IGREJA

Outro escritor evangélico, J.R. Nelson, acentúa que cari-


dade, verdade e unidade constituem urna só coisa ou sao valores
inseparáveis entre si (na revista anglicana «Unitas» 1960,
pág. 143).
A coragem que os irmáos separados tiverem para enfrentar
a verdade, será penhor de éxito ñas tentativas ecumenistas da
hora presente.

4. Conclusao

Á guisa de fecho de quanto expusemos, fique aqui consig


nado o lema antigo que o Papa Joáo XXIII apresentou de novo
em 1959 como norma áurea a ser observada por todos aqueles
que sinceramente desejam promover a uniáo dos cristáos entre
si: «Ñas coisas essenciais, haja unidade; ñas acidentais, liber-
dade; em tudo, porém, caridade».

Estes dizeres sugerem que, enquanto guarda inflexibilidade


ñas questóes essenciais de doutrina e Moral, o genuino cristáo
saberá ser largo e compreensivo frente aos mais diversos valores
humanos compatíveis com a verdade. É o que o mesmo Sto. Pa
dre Joáo XXIII recorda em urna alocugáo proferida a escritores
e artistas de raga negra, reunidos no seu II Congresso Mundial
em abril de 1959 :
«Em toda parte onde auténticos valores da arte e do pensamento
sao suscetíveis de enriquecer a familia humana, a Igreja está pronta
a favorecer ésse trabalho do espirito. Bem sabéis que Ela nao se iden
tifica com cultura alguma, nem mesmo com a cultura ocidental, a
qual todavía sua historia está Íntimamente ligada. Pois a sua missáo
é de outra Índole: visa a salvacáo religiosa do homem. A Igreja,
porém, cheia de juventude incessantemente renovada pelo sópro do
Espirito, permanece disposta a reconhecer, a acolher, e mesmo a amar
tudo que redunde em honra para a inteligencia e o coracáo humano
em outras plagas do mundo que nao esta bacia mediterránea, a qual
foi o bergo providencial do Cristianismo («Osservatore Romano»
3/IV/1959; «Documentation Catholique» 26 de abril de 1959, 525).

Donde se vé que, se a verdade repele qualquer «pacto» ou


desvirtuamento traigoeiro, ela nao rejeita com menos veeméncia
a posicáo contraria, ou seja, todo estreitamento desnecessário e
sufocador.

— 287
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 54/1962, qu. 3

ESTKANHADO (Rio de Janeiro) e SEBASTIAO (Cru


zeiro, SP) :

3) «Que há de verdadeiro na apregoada aparicao de Nóssa


Senhora em La Salette?
E que pensar do famoso segredo comunicado pela Virgem a
vidente Melania,? O Santo Oficio chegou a proibir as discussoes
sobre o assunto, sob pena de excomunhao».

O caso «La Salette» constituiu durante decenios objeto de arduas


controversias, em grande parte inspiradas pela fantasia ou a paixáo de
pessoas pouco criteriosas. Foi o que motivou solene intervengáo da
Santa Sé, desejosa de apaziguar os ánimos.
A íim de formular um juízo adequado sobre o assunlo, esbogare
mos em primeiro lugar o tramite dos episodios; a seguir, analisare-
mos o que diz respeito ao segrédo e a outras dificuldades debatidas em
torno de La Salette.

1. O episodio de La Salette

■ 1. Na tarde de 19 de setembro de 1846, por volta das tres


horas, dois pastorezinhos guardavam seus rebanhos na regiáo
montanhosa de La Salette, perto da aldeia de Corps, no Dau-
phiné (Franga); eram éles Maximino Giraud, de onze anos de
idade, e Melania Calvet, de quinze anos, ambos muito simples e
rudes (mal entendiam outra língua que nao o seu dialeto), retos
e candidos (embora nao se distinguissem por especial fervor reli
gioso). De repente viram grande claráo junto a urna fonte es
tancada (que desde entáo nao deixou mais de dar agua); em meio
á luz apareceu-lhes urna senhora sentada, que, com os cotovelos
sobre os joelhos e a cabega ñas máos, chorava amargamente.
As criangas encheram-se de pavor; a dama, porém, levan-
tou-se, tranqüilizou-as e pós-se a falar-lhes em tom materno.
A causa de sua tristeza, dizia ela, era a iniqüidade dos homens,
manifestada principalmente na violagáo do dia do Senhor ou
domingo (negligencia da S. Missa, realizagáo de obras servís),
ñas blasfemias, no desprézo do jejum e da oragáo, assim como
na generalizada depravacáo dos cóstumes : «Se meu povo nao se
quiser emendar, acrescentava ela, ver-me-ei obrigada a deixar
abater-se sobre ele o braco de meu Filho; está táo pesado e pre-
mente que já nao o posso deter». A seguir, previa duros castigos
para o caso de impeniténcia : colheitas prejudicadas, epidemias
ñas criangas e no gado, etc. Recomendava muito a oragáo e a
mudanga de vida; comunicou também um segrédo a cada um
dos dois videntes e cóncluiu, referindo-se as suas exortagóes :
«Transmitiréis isto (esta mensagem) a todo o meu povo». Dito
isto, desapareceu nos céus.

— 288 —
VISÓES E SEGRJÉiDO DE LA SALETTE

Urna das impressSes imediatamente colhidas pelas criancas era a


de que «parecia tratar-se de u'a máezinha espancada por seus filhós,
a qual tivesse procurado refugio ñas montanhas».
Nao sabendo como julgar táo estranha aventura, os dois pastare-
zinhos a narraram aos respectivos patrdes (Pedro Selme e Baptiste
Pra) quando voltaram á casa ao per do sol da mesma data. Logo no
día seguinte, por ordem de Baptiste Pra, íoram ter com o pároco e
com o prefeito de La Salette, aos quais de novo tudo contaram. A no
ticia se propagou com rapidez, naturalmente coirendo o perigo de
soírer alteracoes: em alguns ouvintes suscitava temor; em outros,
surprésa; em terceiros, alegría; em mais outros, zombarias; poucos
Ihe permaneciam indiferentes.

2. O bispo de Grenoble, sob cuja jurisdigáo estava La Sa


lette, era entáo um anciáo de oitenta e um anos : D. Filiberto
de Bruillard. Informado de quanto se ia propalando, mandou
logo proceder a um inquérito para investigar a possível realidade
dos episodios narrados. Foram entáo repetidas vézes interroga
dos os dois videntes, cada qual isoladamente. O teste mais rigo
roso foi-lhes imposto em fevereiro de 1947 pelo Pe. Francisco
Lagier, nativo de Corps, o qual usou do dialeto mesmo dos dois
pastorezinhos e, já que nao acreditava na propalada aparigáo,
nao poupou questóes sagazes a fim de colhér (se fósse o caso)
alguma resposta inverossímil ou contraditória dos labios das
criangas; nada conseguindo apurar nesta linha, o Pe. Lagier teve
que abandonar seu ceticismo frente aos episodios — o que calou
profundamente na opiniáo pública. A coerénda dos videntes con
sigo mesmos no decorrer dos interrogatorios reiterados durante
mais de um ano sob a diregáo dos mais diversos peritos era o ar
gumento que aliciava número crescente de adeptos da visáo' de
La Salette.
Em dezembro de 1847 estava encerrado o processo dioce
sano; o Sr. Bispo D. de Bruillard se achava pronto a se pronun
ciar em favor da autenticidade da aparigáo, quando resolveu re-
cuar em atengáo ao Arcebispo metropolitano de Liáo, o Cardéal
de Bonald, o qual Ihe fizera saber a sua opiniáo contraria aos
pretensos fatos. Em conseqüéncia, novos inquéritos foram leva
dos a efeito; os sinais de genuinidade foram-se acumulando
(eram principalmente conversóes religiosas e curas de doengas
obtidas em La Salette). Diante disto, aos 19 de setembro de
1851 (cinco anos após a aparigáo), Dom Filiberto de Bruillnrd,
contando com o apoio do Cardeal Lambruschini, Prefeito da
Congregagáo dos Ritos em Roma, resolveu dar em carta pastoral
sua aprovagáo ao relato dos videntes, declarando insuficiente
qualquer explicagáo dos fenómenos de La Salette que nao fósse
a de urna intervengáo sobrenatural da Virgem Ssma. (é claro
que esta aprovagáo nada tinha de dogmático e nao obrigava os
fiéis a dar o seu consentimento de fé).

— 289 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 54/1962, qu. 3

Aos 25 de maio de 1852, foi lancada a pedra fundamental do san


tuario de La Salette. Constltuiu-se por essa época a Congregacáo dos
Missionários destinados a atender as caravanas de peregrinos que, com
muito fervor e grande sacrificio, afluiam cada vez mais numerosos ao
local. A Virgem de La Salette foi sendo tributado o titulo de «Recon
ciliadora dos Pecadores».
O Bispo sucessor em Grenoble, Dom Ginoulhiac, em mais de urna
carta pastoral, coníirmou a declaracao de seu antecessor em favor da
aparicáo de La Salette. Ainda houve, até o fim do secuto passado, quem
se lhe opusesse, sendo que os dois mais ferrenhos adversarios, os sa
cerdotes Cartellier e Déléon, acabaram por reconhecé-la sem reservas,
respectivamente em 1855 e 1885. O próprio Cardeal de Bonald, cético
a principio, nao hésitou em modificar sua atitude com o decorrer dos
anos. Hoje em dia, é de uso comum a expressáo «O fato de La Sa
lette (Le fait de la Salette)», título de importante estudo critico publi
cado em 1955 por Lóuis Bassette (Éditions du Cerf).

Os Sumos Pontífices tém favorecido a devcgáo á Virgem


«Reconciliadora dos Pecadores», concedendo indulgencias e
outros favores espirituais aos fiéis que a invoquem ou que váo
a La Salette; em 1879 Leáo XIII elevava á dignidade de basí
lica menor o respectivo santuario e patrocinava a coroagáo da
estatua da Virgem lá existente; em 1927 era Pió XI quem enri
quecía com indulgencias a invocagáo de «Nossa Senhora de La
Salette, Reconciliadora dos pecadores». Em 1900 já se contavam
mais de mil santuarios no orbe católico dedicados a éste título
da Virgem Santíssima.
Nao se pode deixar de acentuar que estes pronunciamentos
nao constituem definigóes dogmáticas em prol da realidade da
aparigáo de La Salette. A autoridade da Igreja de modo nenhum
intenciona proferir algum juízo sobre éste aspecto da questáo;
apenas reconhece que a devogáo que nasceu e se desenvolve
junto ao santuario de La Salette tem dado frutos bons, fomen
tando sadiamente a piedade e as virtudes do povo cristáo; me
rece, pois, ser incentivada. Implícitamente, é claro, a Igreja
assim parece reconhecer a genuinidade da aparigáo, mas nao a
impóe á fé de seus filhos (as repetidas declaragóes de prelados e
teólogos católicos em favor de La Salette nao envolvem o magis
terio infalível da Igreja; cf. «P. R.» 19/1959, qu. 4).

* 3. Quanto ao posterior curriculo de vida dos videntes, sabe-se


que Melania, depois de varios ensaios de vida em convento, se retirou
para a Italia, onde morreu piedosamente. — Maximino teve existencia
muito instável: entrou num Seminario, onde verificou que nao tinha
capacidade para os estudos; voltou entao para o' mundo, dedicando-se
a diversos afazeres, até allstar-se na milicia dos zuavos (soldados)
pontificios; no fim de seus anos trabalhou em comercio de licores —
o que deu pretexto a que o acusassem de alccolismo; em váo, porém,...
pois levou conduta de vida irrepreensivel até a morte, a qual foi
piedosa, como a de Melania.

— 290 —
VISOES E SEGRSDO DE LA SALETTE

Faz-se mister considerar agora as principáis diíiculdades que a


historia de La Salette encontrou na sua propagacáo. Dentre todas
sobressai a que toca

2. Os segredos de La Salette

1. Consta dos relatos dos dois pastorezinhos, devidamente


crivados pela crítica, que a Virgem Santíssima no decorrer da
sua alocugáo confiou a cada qual um segrédo...

Maximino e Melania guardaram ciosamente estes dizeres


particulares da bela Dama até 1851. Aos 20 de junho déste ano,
o Cardeal de Bonald, usando de sua autoridade, mandava que os
dois jovens consignassem por escrito o respectivo segrédo, a fim
de serem comunicados ao Santo Padre. Os videntes obedeceram;
em dois envelopes lacrados os seus depoimentos foram levados
ao Santo Padre Pió IX por dois sacerdotes de Grenoble (PP.
Rousselot e Gerin), que os entregaram pessoalmente a S. Santi-
dade aos 18 de julho de 1851. O papa leu as duas missivas; deu-
-as a conhecer únicamente ao Cardeal Lambruschini, Prefeito da
S. Congregagáo dos Ritos, e a Mons. Frattini, Promotor da Fé e
«advogado do diabo» (encarregado de impugnar qualquer ponto
vulnerável do processo) referente a La Salette. A Santa Sé
jamáis publicou o texto de tais documentos; apenas fez saber
que continham a mensagem geralmente proposta pelas aparigóes
da Virgem Santíssima ou dos Santos: «Fazei oragáo e peni
tencia».

Os dois sacerdotes Rousselot e Gerin, portadores dos envelopes


lacrados a Pió IX, relatam o seguinte : «Sua Santidade abriu em nossa
presenca as cartas, leu-as, e, comentando a de Maximino, disse : «Aquí
se véem a simplicidade e a candura de urna crianga...». Depois de ter
lido a missiva de Melania, Sua Santidade nos falou : «É preciso que eu
releia esta carta com a cabeca mais repousada... Trata-se de flagelos
que ameagam a Franca. Esta nao é a única culpada. A Alemanha, a
Italia, a Europa Inteira o sao também e merecem castigos» (cf. Bas-
sette, ob. cit. pág. 227).
Alguns anos mais tarde, asseverava Pió IX ao Pe. Silvano Giraud,
da Congregado de La Salette: «Quer conhecer os segredos de La
Salette? Pois bem; ei-los: «Se nao fizerdes penitencia, pereceréis
todos»» (cf. Jaouen, La gráce de La Salette. París 1946, pág. 206).

2. Após haver assim comunicado a sua mensagem ao


Santo Padre, os dois videntes parecem ter continuado a observar
estrito silencio em torno do respectivo segrédo; nao consta de
outra revelacáo diretamente feita por éles. O fato, porém, é que
em 1879 veio a lume um opúsculo atribuido a Melania, opúsculo
no qual esta aparece manifestando, sem reservas, ao público o
segrédo que a Virgem lhe confiou... Tal opúsculo deu ocasiáo

— 291 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 54/1962. qu. 3

a ardua controversia, pois, ao lado dos que aceitavam a sua au-


tentícidade (entre os quais o famoso escritor francés Léon Bloy),
havia os que a negavam categóricamente. A posigáo negativa se
apoiava (e se apoia aínda hoje) ñas seguintes observares :

O estilo, o tom e a mentalidade que inspiram ésse opúsculo diíe-


rem notoriamente das características da alocucáo da Virgem referida
ñas anteriores narrativas da aparicáo de La Salette (parecer de um
dos mais recentes e abalizados estudiosos dos debates : Pe. Jaouen,
no livro «La grace de La Salette», ed. du Cerf. Paris 1946, pág. 210).
Em 1879 trinta e tres anos haviam decorrido desde o episodio
focalizado (1846); dir-se-ia que já entao era urna outra Melania quem
falava, atribuindo á Virgem Ssma. expressdes um tanto destoantes das
que lhc eram originariamente atribuidas. Os dizeres da nova «Melania»
estáo perpassados por urna tonalidade de critica,... critica apaixonada
dirigida ao clero e a certas instituicóes tanto da Igreja como da socie-
dade civil da época. «Importa absolutamente distinguir duas Mela
nias : a jovem vidente de 1846 e a visionaria de 1878» (cf. J. Verdunoy,
La Salette. Paris 1906, pág. 104).
Os adeptos da genuinidade da «revelacáo» costumam explicar a
mudanca de tom e estilo pelas leituras que Melania terá íeito no longo
intervalo de trinta anos : efetivamente, dizem, após a aparicáo, a don-
zela'estéve em diversas casas religiosas, tentando consagrar-se a Deus
na vida regular; deve entáo ter lido variadas obras de espiritualidade;
terá, a seguir, reproduzido o estilo e o vocabulario dessas obras, quan-
do empreondeu consignar por escrito o seu segrédo; assim estariam
justificados, na revclacüo do segrédo, os traeos do Apocalipse de Sao
Joáo, as fases de Sta. aCtarina de Sena, de Sao Grignion de Montfort,
até mesmo de Nostradamus..., tudo posto a servigo de um espirito de
critica exacerbada.

Os adversarios da revelacáo, porém, replicam com razáo :


«Cortos tópicos (no relato público do segrédo) sao manifesta-
mente fabricados segundo as receitas mais clássicas do género: des-
cricóes assustadoras de anos calamitosos ou previsóes idílicas de urna
idade de ouro conforme todos os modelos convencionais. Mesmo que
ésse documento esteja assinado por Melania, e apesar de toda a vene-
racáo que se possa ter para com ela, quem nao vé que ésse escrito foi
fabricado artificialmente?
Sao evidentes principalmente os empréstimos feitos ao Apocalipse
de Sao Joáo : assim as alusoes ao Anticristo, aos seus dez reis, a
Sao Miguel, a Enoque, a Elias,... ás pragas que se deveráo expandir
sobre a ierra,... aos sacerdotes que sao os candelabros da Igreja pres
tes a ser derrubados... Napoleáo III, em particular, é apresentado
como Anticristo e caracterizado com urna serie de epítetos que se ins
piram dos que Sao Joáo atribuí á bésta do Apocalipse» (Pierre Herbin,
Léon Bloy et La Salette, em «La Vie Spirituclle» 310 [19461 213).
Em apéndice encontrar-se-áo algumas das principáis passagens do
documento assim caracterizado.

3. Quanto a Léon Bloy, tornou-se, pela sua obra «Celle


qui pleure», o grande arauto do segrédo de La Salette «revelado»
em 1879. Com toda a veeméncia do seu estilo, o autor francés
desenvolveu as críticas e invectivas contidas no opúsculo atri-

— 292 —
VISÓES E SEGRÉDO DE LA SALETTE

buido a Melania; fé-Io, porém, com ánimo preconcebido, sem


exercer o necessário senso crítico, proferindo conseqüentemente
sentengas unilaterais e obcecadas :

«Bloy era realmente o homem mais destituido de senso crítico.


Nisso consiste o nó do problema. Tdda a tese de Bloy..., a razao
de ser do seu livro «Celle qui pleure» está em tentar provar a identi-
dade absoluta... da mensagem pública (colhida diretamente dos labios
de Melania) e do segrédo (manifestado no referido documento). Para
o conseguir, recorreu a interpretacSes estapafúrdias («tirées par les
cheveux) e a intuigoes «fulgurantes»» (P. Herbin, 1. c. 214).

Em conseqüéncia, julgam os historiadores e literatos que o


livro «Celle qui pleure», «apesar da beleza de certas páginas,
carece de propósito (livre manqué)» (cf. H. Engelmann, Péle-
rinages. París 1959, 77). Tem-se falado mesmo do «Melanismo»
de Léon Bloy, ou seja, do exagerado aprégo que éste escritor de-
dicou á Melania reveladora do segrédo (cf. Stanislas Fumet, Mis-
sion de Léon Bloy. París 1945). As melhores páginas de Bloy a
respeito de La Salette encontram-se em outro opúsculo do autor,
nao suficientemente conhecido: «Symbolisme de l'Apparition».
Ora verifica-se que muitos dos nossos contemporáneos só
conhecem o episodio de La Salette através de Léon Bloy e «Celle
qui pleure». A mensagem da Virgem torna-se para ésses leitores
o alimento de crítica unilateral ás instituigóes da Igreja e ao
clero, crítica tanto mais capciosa quanto mais elegante é o estilo
de Bloy e quanto mais puritano parece ser o pensamento do
autor.

4. Compreende-se que, diante da celeuma despertada pelo


opúsculo de 1879, a Santa Sé tenha julgado oportuno intervir
solenemente.
Com efeito, aos 21 de dezembro de 1915 o Santo Oficio pu-
blicava severo decreto sobre o assunto : lembrava, em primeiro
lugar, os anteriores e repetidos pronunciamentos da Santa Sé
contrarios ao opúsculo tido como revelador do «Secret de La
Salette». Verificando, porém, que tais declaragóes eram conti
nuamente violadas, o Santo Oficio «mandava a todos os fiéis, de
toda e qualquer nacionalidade, que se abstivessem de tratar ou
discutir o assunto, sob qualquer pretexto ou forma que fósse
(livros, opúsculos, artigos assinados ou anónimos, ou outro vei-
culo de publicidade)». Os transgressores desta proibigáo, «se
fóssem sacerdotes, perderiam qualquer título honorífico ou
dignitário que tivessem na Igreja, e seriam suspensos tanto da
celebracáo da S. Missa como do ministerio das confissóes; se fós
sem leigos, ficariam privados dos sacramentos até mudarém de

— 293 —
<PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 54/1962, qu. 3

conduta». Mais ainda: estariam todos sujeitos as sangóes pelo


Direito infligidas aos que editam livros religiosos sem legítima
licenga do Superior e aos que divulgam pretensas revelagóes sem
permissáo do Prelado diocesano. O decreto, porém, se encerrava
com importante cláusula : tais medidas nao proibiam a devogáo
á Virgem Ssma. invocada sob o título de «Reconciliadora de La
Salette».

Os «devotos» ainda se mostraram renitentes... Em 1922


editavam urna brochura que apresentava o texto do pretenso
segrédo de Melania acompanhado de «pegas justificativas» sob o
título : «L'apparition de la tres Sainte Vierge sur la sainte mon-
tagne de La Salette le samedi 19 septembre 1845. — Simple
réimpression du texte integral publié par Mélanie, etc. Société
Saint-Augustin. Paris-Rome-Bruges 1922». Esta obra foi colo
cada no índice dos livros proibidos aos 10 de maio de 1923.
Tais atitudes da Santa Sé se explicam bem pelo fato de que
o pretenso texto do segrédo de La Salette, em vez de produzir
edificagáo e virtude entre os fiéis, só contribuia para disseminar
animosidade e rixas (frutos da agáo do demonio, e nao de Deus).
Donde deduzia sabiamente o Pe. Jaouen : «A Igreja julga que o
mencionado segrédo é nocivo á piedade crista, e quer que seus
filhos se comportem em relagáo a ele como se nao existisse» (ob.
cit. 16).
Seja esta advertencia a conclusáo prática de quanto acaba
de ser exposto com referencia ao segrédo de La Salette. Nao
queiram os fiéis nutrir a sua devogáo em fontes espurias, apesar
da autoridade que a estas possa ter conferido o grande vulto de
Léon Bloy.

A controversia em torno do segrédo de Melania constituiu o


autenticidade da aparicao. Houve tempos, porém, em que o entrave
como acabamos de ver, hoje em día se dissipa sem detrimento para a
autenticidade da aparicao. Houve tempos, porém, em que o entrave
ainda foi aumentado por outros incidentes, de menor importancia, que
váo abaixo mencionados.

3. Outros incidentes

a) O episodio de Ars

Em Ars era pároco, na época da aparigáo de La Salette, o


santo sacerdote Joáo-Maria Vianney. Informado do que se rela-
tava, deu ¡mediatamente crédito á mensagem de La Salette. Eis,
porém, que aos 24 de setembro de 1850 um dos videntes, Maxi
mino, foi levado a Ars por homens curiosos, que desejavam

— 294 —
VLSOES E SEGRBDO DE LA SALETTE

conhecer o segrédo revelado ao jovem; no decorrer de'dois dias


passados nessa aldeia, Maximino teve duas breves conversas
com o santo cura, após as quais éste se mostrou repentinamente
incrédulo para com a narrativa de La Salette. As dúvidas do
santo se conservaran! até o outono de 1858 (menos de um ano
antes da sua morte), quando, tendo pedido e obtido sinais dó
céu, Vianney voltou a professar fé nos relatos de Maximino e
Melania. «Pode-se e deve-se crer em La Salette», dizia ele em
seus últimos meses (cf. Bassette, ob cit. 187).
Ora o ceticismo do cura d'Ars impressionou a opiniáo pú
blica, junto á qual o mencionado sacerdote gozava de inegável
autoridade; o Cardeal de Bonald, de Liáo, por exemplo, firmou-
-se ñas suas reservas por influencia do santo pároco.
Pergunta-se por conseguinte : que se terá dado entre Joáo-
-Maria Vianney e Maximino para motivar a descrenga do cura?

Julgam alguns críticos que Maximino se retratou, declarando sin


ceramente ao seu interlocutor que ele nada vira em La Salette: «Se
Maximino me disse a verdade, ele nao viü a Virgem Ssma.» (palavras
atribuidas a Vianney). Maximino, porém, submetido a novos interro
gatorios, asseverava com juramento que ele nada retratara. Melania,
por sua vez, informada da pretensa desdita de Maximino, exclan.ava:
«ó infeliz Maximino! Quanto a mim, sempre afirmare! que vi... !>.

Levando em conta os diversos elementos desta situagáo, os


melhores críticos julgam que houve apenas um equívoco entre
Maximino e o cura d'Ars. Éste, em sua espontaneidade, talvez
haja, logo na primeifa conversa, interrogado: «Entáo fóste tu
que viste a Ssma. Virgem?». A pergunta táo incisiva terá asso-
berbado o tímido pastor Maximino, o qual entáo haverá respon
dido (fazendo eco ao que propalavam os adversarios da apari-
gáo): «Nao disse que vi a Ssma. Virgem, mas, sim, urna bela
Senhora». Verificando a identidade desta resposta com o que
asseveravam os céticos, o cura d'Ars terá intimado a Maximino :
«Entáo é preciso que fagas a tua retratagáo...». E, désse mo
mento em diante, a opiniáo do sacerdote se terá fixado no des
crédito frente a La Salette.
Esta explicacáo, que apela para os matizes próprios da psi-
cologia de duas almas muito simples, nao carece de verosseme-
Ihanga.

Como quer que seja, os historiadores mais abalizados nao


creem que Maximino jamáis tenha tido a intengáo de negar a
visáo de La Salette. Um mal-entendido explica o incidente com o
cura d'Ars, incidente que, dentro do clima de incertezas a res-
peito de La Salette, tomou proporgóes extraordinarias.

— 295 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 54/1962. qu. 3

b)' A carta proveniente do céu...

Outro episodio — insignificante em si mesmo — foi o que se deu


em época relativamente recente. Com efeito, no seu número de feve-
reiro-abril de 1928, a revista «Recherches de Science Religieuse» pu-
blicou urna colctánea de artigos intitulada «Mélanges Grandmaison>;
entre outras coisas, esta, miscelánea editava o texto de um manuscrito
recém-descoberto, manuscrito que se apresentava como «carta calda
do céu». Comentando-o, o famoso historiador Delahaye o aproximava
da alocucáo da Senhora de La Salette, e concluía que a pretensa men-
sagem da Virgem a Maximino e Melania nao era senáo urna das for
mas de tal fantástica missiva «caída do céu»; a aparicáo de La Salette,
por conseguinte, carecería de todo fundamento histórico!
Táo estranha sentenca nao prevaleceu.
Nao foi dificil mostrar que a dita «carta celeste» evitava alusócs a
pormenores históricos controláveis, ao passo que o relato de La Salette
mencionava urna serie de acontecimentos reais, assim como um con
junto de pessoas ou testemunhas, que os historiadores haviam podido
interrogar devidamente. Ademáis sabe-se que a mensagem de La Sa
lette foi primeiramente proclamada por via meramente oral mediante
duas mancas que nao sabiam ler e que jamáis se haviam referido a
alguma «carta ditada pelo céu» (a primeira redacáo escrita da alo
cucáo da Virgem de La Salette se deve a Baptiste Pra, patráo de Me
lania, o qual só aos 20 de setembro de 1846, 24 h após o primeiro
relato oral, consignou por escrito o que a jovem vidente Ihe havia
narrado).
Estas observacóes, trazidas a' lume, bastaram para evidenciar
quáo vá era a hipótese de Delahaye; íicavam incólumes a originalidade
e a autenticidade da mensagem de La Salette.

Inútil seria demorar-nos aquí cm considcracdes sobre a fábula


«Lamerliére», que Déléon, em marco de 1853, tentou identificar com'
o episodio de Maximino e Melania. Desde 1854 o bispo de Grenoble,
Dom Ginoulhiac, refutava definitivamente a falsa hipótese.

Era nossos dias, o caso de La Salette já nao é objeto de dis-


cussáo por parte dos estudiosos. Prevalece na maioria déstes,
assim como no povo católico, a crenga (a qual, porém, nao cons-
titui dogma de fé) de que se trata de genuína aparigáo da Vir
gem. Esta, em termos sobrios e por permissáo do próprio Deus,
se terá assim dignado admoestar os homens á oragáo e á peni
tencia.

Apéndice

A fim de facilitar o juizo do leitor sobre os debates referidos, pu


blicamos abaixo algumas das principáis passagens do relato primitivo
de Maximino e Melania, assim como secc&es do pretenso texto do se-
grédo revelado por Melania.

a) Palavras da Ssma. Virgem extraídas do relato primitivo

Note-se a maneira simples, acomodada á compreensáo de criancas,


pela qual se exprime á Virgem.

— 296 —
VIS6ES E SEGR&DO DE LA SALETTE

«Se meu povo nao se quiser emendar, ver-me-ei obrigada a deixar


abater-se sdbre ele o braco de meu Filho. Está táo pesado e premente
que já nao o posso deter.

Desejosa de que meu Filho nao vos abandone, estou obrigada a


suplicá-Lo incessantemente; vos, porém, nao fazeis caso disto. Por
multo que oréis e vos esforcéis, jamáis podereis recompensar o empe-
nho que tenho para vos salvar...
Os carroceiros nao sabem jurar sem proferir (irreverentemente)
o nome de meu Filho...»
Pouco depois, a bela Senhora interrogou os dois pastores :
«Sois diligentes na oracüo, íilhos meus?
— Nao muito, Senhora .
— Ah, íilhos, é preciso rezar bem tanto á noite como de manhá,
aínda que, impedidos de rezar outra coisa, digáis apenas um «Pai-
Nosso» e urna «Ave María»... Se puderdes rezar mais do que isto,
rezai...

No veráo, apenas algumas mulheres idosas va o á Missa. As outras


pessoas trabalham no domingo durante todo o veráo; no invernó,
quando nao tém outra ocupacáo, váo á Missa, mas apenas para cas-
soar da Religiáo.
Na Quaresma, freqüentam o acougue como caes».
Depois de anunciar severos castigos para os impenitentes, a
Ssma. Virgem se despediu com as palavras :
«Pois bem, filhos; transmitiréis isto (esta mensagem) a todo o
meu povo».

Como se vé, o estilo déste relato é todo inspirado nos episodios da


vida campestre que Maximino e Melania levavam. Em contraste com
tal modo de falar está o que caracteriza

b) O segrédo publicado em 1879

Eis alguns trechos salientes :

«1. Melania, o que estou para te dizer nao ficará sempre oculto;
poderás divulgá-lo em 1858.

6. A sociedade está diante dos mais tremendos flagelos e dos


mais retumbantes acontecimentos; aguardem todos o diá em que seráo
governados por um cetro de ferro e beberáo o cálice da cólera de Deus.

12. Os livros maus se multiplicarlo sobre a térra, e os espíritos


de trevas provocarao por toda a parte urna indiferenca geral para
com tudo que diz respeito ao servico de Deus; gozaráo de grande
poder sobre a natureza; haverá igrejas para lhes prestar culto. Ésses
espiritos maus transportarlo de um lugar a outro certas pessoas, até
mesmo sacerdotes, porque nao se teráo comportado segundo o bom
espirito do Evangelio, que é espirito de humildade, de caridade e de

— 297 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS> 54/1962, qu. 4

zélo pela gloria de Deus. Mortos e justos seráo ressuscitados. Haverá


em toda parte prodigios extraordinarios, porque a verdadeira íé se
extinguiu e a falsa luz ilumina o mundo. Ai dos principes da Igreja
que só se tiverem empenhado por acumular riquezas, salvaguardar a
sua autoridade e dominar com orgulho!

14. A santa fé de Deus estando obliterada, cada individuo fará


questáo de se guiar a si mesmo e de ser superior aos seus semelhan-
tes. Os homens declararáo abolidos os poderes civis e eclesiásticos;
toda ordem e toda justiga seráo calcadas aos pés; nao se verao senáo
homicidios, facanhas de odio, inveja, mentira e discordia, falta de
amor á patria e á familia.

27. As estacóes do ano seráo transformadas, a térra só dará fru


tos maus, os astros se desviaráo das suas órbitas regulares, a lúa só
refletirá iraca luz avermelhada; a agua e o fogo imprimiráo ao globo
terrestre movimentos convulsivos e terriveis terremotos, que tragaráo
montanhas, cidades, eto (textos extraídos do livro de Léon Bloy Celle
qui pleure, 211. 213s. 218).

Descricóes táo pormenorizadas e táo próximas do fantástico dis-


pensam comentarios.

DI. MORAL

ARD. F. (Sao Paulo) :

4) «O católico terá o direito de negar esmola, alegando


que a pessoa necessitada pertence a outra Beligiáo?
Em particular, quando se trata de urna obra de assisténcia
(Hospital, Orfanato, Dispensario...) náo-católica, será licito
ao católico recusar colaboracáo, mesino que saiba que a esmola
dada será honestamente transmitida aos pobres?»

Os fiéis tém a obrigacáo de dar esmola, como repetidamente incu-


tem tanto o Senhor Jesús no Evangelho (cf. Mt 10,42; 25, 37-40; Le 6,
35...) como toda a Tradigáo crista.
É inegável, porém, que a esmola, para se tornar realmente bené
fica, deve ser praticada com inteligencia ou discernimento, e nao a
esmo, de maneira simplória e «bonachá»; em caso contrario, poderia
tornar-se fomento de males moráis e sociais, como sempre reconhece-
ram os filósofos e legisladores.
Também a Moral crista, por muito exigente que seja em materia
de caridade, nao deixa de inculcar discernimento na tarefa de socorrer
aos indigentes. Já os prlmeiros cristáos tinham consciéncia disto;
atribuiam, sim, ao Senhor as seguintes palavras: «Que a tua esmola
se torne quente em tuas maos, antes que saibas a quem a deves dar»

— 298 —
ESMOLA A INSTITUICOES NAO-CATÓLICAS

(«tornar-se quente» significa, no caso, o contrallo de qualquer preci-


pitacáo irrefletida; tais dizeres nño se encontram nos Evangelhos es
critos, mas, talvez proferidos por Jesús, podem ter íicado na tradicáo
oral; consigna-os o livro dito da «Didaqué» [Doutrina] c. 1, pequeño
compendio de preces e preceitos cristáos de fins do séc. I).
No Antigo Testamento, o sabio (Eclo 12,1-7), ao recomendar a
esmola, admoestava o discípulo a praticá-la de modo que nao víesse
a ser alimento para a maldade e os vicios (em Eclo 12,7, a advertencia
«NSo auxilies o pecador» quer apenas dizer: «Nao favorecas o pecado
ou a atuacáo pecaminosa dos maus mediante a tua esmola>).
Na base destas consideracóes, que nenhuma pessoa sensata eos-
turna por em dúvida, faz-se mister responder á questáo do cabecalho
déste artigo. Distinguiremos entre pessoas e instituicOes necessitadas.

1. Pessoas indigentes...

Tratando-se de pessoas necessitadas, nao é lícito estabelecer


discriminacáo religiosa, mas a todo católico incumbe o dever de
dar indistintamente aos indigentes de qualquer confissáo.reli
giosa ou, até mesmo, ateus.
Esta conclusáo decorre da consciéncia de que Cristo morreu
igualmente por todos os homens; qualquer ser humano, por con-
seguinte, vale o Sangue preciosíssimo do Redentor, aínda que
nao professe a fé em Cristo. «Odiar o erro, mas amar a pessoa
do irmáo que erra», eis a sabia norma a ser aplicada no caso.
Nao há necessidade de insistir sobre táo evidente propo-
sicáo.

2. Instituicoes de caridade nao-católicas...

Tratando-se de instituicóes de caridade nao-católicas que


pecam subvencáo ou esmola, faz-se mister distinguir entre ins
tituicóes confessionais (protestantes, espiritas...) e instituicóes
náo-confessionais (ditas «neutras» ou «leigas»).

1) Se a instituido é confessional (ou religiosa) náo-cató-


lica, os fiéis católicos devem abster-se de a auxiliar, seja com
esmolas, seja de qualquer outra maneira.

O motivo desta ressalva é o seguinte : dando á instituicáo


de caridade, os fiéis nao dáo diretamente aos indigentes... Quem
entra em contato ¡mediato e honesto (nao há dúvida) com estes,
é a instituicáo mediante seus representantes (assistentes sociais,
médicos, enfermeiras...); ora isto nao pode deixar de atrair a
simpatía do pobre e do público em geral para tal instituicáo e,
naturalmente, para o credo religioso que ela professa. Mesmo
que a instituicáo nao faca explícitamente propaganda religiosa,

— 299 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 54/1962, qu. 4

ela vai ganhando ascendencia e prestigio aos olhos dos seus clien
tes; estes se sentem devedores ou obrigados nao somente para
com as pessoas dos seus benfeitores, mas também para com as ■
idéias que estes representam. Destarte cria-se o perigo de confu-
sáo religiosa ou relativismo, com detrimento para a verdade.
E tal perigo é um mal que deve absolutamente ser evitado, como
se pode depreender da resposta n* 2 déste fascículo. Existe a ver
dade também no setor religioso, verdade que importa guardar
incólume mais ainda do que no setor das ciencias profanas (pois
é verdade que se refere ao Alfa e Omega da vida humana e que,
por conseguinte, toca os pontos capitais da conduta de cada um).
Em conseqüéncia, compreende-se que, como a esmola nao pode
servir de sustento ou alimento para o vicio moral, assim também
nao pode servir ao erro filosófico ou religioso.

Faz-se mister agora esclarecer alguns pormenores desta


atitude :
a) Note-se bem que, ao negar auxilio as instituicóes con-
fessionais náo-católicas, os filhos da Igreja nao o fazem
nem por motivo pessoal, partidario, ou por espirito de riva-
lidade -mesquinha. Tal posigáo seria hedionda aos olhos da pró-
pria consciéncia crista, pois ninguém tem o direito de sobrepor
interésses particulares, caprichosos, aos ditames do bem comum.
A única coisa que se visa com a reserva ácima, é que a esmola
nao redunde em obscurecimento para a verdade, pois esta é um
bem comum, e bem comum ainda mais importante do que o bem-
-estar dos corpos;
... nem por egoísmo ou comodismo... O que quer dizer :
os fiéis que negam esmola á obra religiosa náo-católica, nem por
isto tém o direito de guardar para si o dinheiro que podiam ter
dado. Deveráo distribui-lo, sem dúvida; apenas escolheráo outra
instituicáo ou iráo ter diretamente com os indigentes (católicos,
protestantes, espiritas, judeus, materialistas) que precisem de
auxilio (na escolha das pessoas necessitadas, como dissemos,
fica plena liberdade para o doador de esmola).

Inegávelmente, existem numerosissimas instituicoes de caridade ca


tólicas ou também náo-coníessionais que estáo continuamente a pre
cisar do auxilio do público. Por conseguinte, nüo faltam oportunidades
de dar esmola, sem que esta ocasione relativismo religioso. Por isto
n3o há motivo para assistir a urna obra de beneficencia nao-católica
em lugar de urna obra católica. Nem se pode dizer que os pobres
socorridos por tal hospital ou ambulatorio nao-católico sejam mais
necessitados do que os beneficiados por correspondente instituicáo ca
tólica; é certissimo que ñas obras assistenciais católicas se atingem
pessoas que sofrem extrema penuria e miseria.

— 300 —
ESMOLA A INSTITUICOES NAO-CATÓLICAS

b) Os moralistas observam que a mais nobre forma de


caridade nao é a que se pratica de maneira quase impessoal,
através de instituigóes, mas é a de quem vai procurar diretamente
a pessoa do indigente, estabelecendo um contato de alma a alma
entre o doador e o beneficiado. Ésse contato, de um
lado, honra e alegra o pobre; de outro lado, engrandece e digni
fica o benfeitor. O encontró de pessoa com pessoa ou de coragáo
com coracáo constitui um bem insubstituível, do qual a ninguém
é lícito eximir-se sob o pretexto de subvencionar instituigóes de
caridade. Estas sao necessárias e importantes, mas nao podem
extinguir a caridade praticada fraternalmente. É o que o Santo
Padre Pió XII lembrava em sua mensagem de Natal de 1952:
*A grande tentacáo, mesmo para os fiéis, de urna época que se diz
social — na qual, além da Igreja, o Estado, os municipios e as outras
entidades públicas se dedicam a tantos problemas sociais — é que,
quando o pobre bate á porta, as pessoas o mandem simplesmente as
instituicoes, aos burds e ás organizac5es. Tais pessoas poderiam julgar
que cumpriram suficientemente o seu dever pessoal, colaborando com
ésses organismos mediante o pagamento de taxa ou por meio de ofertas
voluntarias.
Sem dúvida, o necessitado receberá a vossa ajuda por essa via.
Muitas vézes, porém, ele conta também convosco, ao menos com a
vossa palavra de bondade e reconforto. A vossa caridade deve asseme-
lhar-se a de Deus, que veio pessoalmente trazer socorro. É éste o con-
leudo da mensagem de Belém» (cf. «Documentation Catholique» 50
[1953] col. 14).

Sabe-se que somonte a caridade pessoal é capaz de atingir o indi


gente envergonhado, que nao ousaria manifestar a sua situacao pe-
rante os administradores de urna instituicáo.

c) Pelos motivos indicados, compreende-se que, assim


como nao é lícito a um católico dar, assim também nao lhe é
permitido receber qualquer auxilio que acarrete compromisso
com o erro religioso. Os filhos de Deus confiaráo no Pai do Céu,
certos de que nao pode estar nos designios da Providencia auxi-
liá-los mediante traigáo á fé.

d) Nos casos em que evidentemente náohá perigo de con-


fusáo religiosa, já nao é ilícito, mas pode tornar-se louvável, para
um fiel católico, colaborar com instituigáo religiosa náo-católica.
É o que se tem dado nos últimos anos entre católicos e protes
tantes da Europa : há regióes, por exemplo, em que a populagáo
católica se tem cotizado para auxiliar as vitimas protestantes do
invernó, e vice-versa. Tais empreendimentos nao acarretam con-
taminagáo religiosa nem detrimento para a verdade; contudo,
para que se possam licitamente repetir, é preciso haja garantía
de preservagáo da fé — o que por vézes se torna muito duvidoso
ou difícil.

— 301 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 54/1962, qu. 4

A éste propósito aplicam-se algumas das normas já enunciadas


no tocante á participado de católicos em culto protestante, e vice
versa. Cf. «P. R.> 46/1961, qu. 4.

É com prazer que se lé o seguinte telegrama na imprensa:

FRANEKER, Holanda: «Os 200 dólares da coleta do dia de Sao


Martinho (11 de novembro de 1961) na paróquia de Franéker foram
entregues aos protestantes locáis para suas atividades beneíicentes.
O gesto dos católicos retribuí a generosidade dos protestantes, que
durante mais de um ano contribuiram para a construcSo de um novo
templo católico em Franeker>.

2) Ponha-se agora a hipótese de instituicóes de caridade


aconfessionais (ditas «leigas», «neutras> ou «estatais»)...

Os fiéis católicos poderáo colaborar com elas todas as vézes


que se propuserem objetivos dignos, sem perigo de diluicáo do
espirito religioso.
Há realmente casos numerosos em que as obras assisten-
ciais «leigas» fazem grande bem, sem mistura alguma de mal,
isto é, sem detrimento para a fé e a verdade. Principalmente nos
tempos atuais, em que se multiplicam as indigencias das popula-
Sóes, nao se poderia deixar de reconhecer a conveniencia de tais
instituigóes, que, em última análise, derivam o seu dinamismo do
exemplo de Cristo e dos grandes heróis cristáos.

Sao palavras de Pió XII proferidas a o II Congresso Mundial do


Apostolado dos Leigos em 1957 :

«Para terminar, damo-vos duas diretivas: em primeiro lugar, cola-


borai com os movimentos e organismos neutros e nao-católicos, desde
que, e na medida em que, desta forma sirváis ao bem comum e á causa
de Deus. Em segundo lugar, participa! mais aínda das organizagOes
internacionais» («Documentation Catholique» 54 [1957] col. 1426).
Dirigindo-se á Cruz Vermelha, Pió XII nao hesitava em reconhe
cer o «trabalho de caridade crista que ela desempenha> (cf. «Relations
humaines et société contemporaine» t. II 4124).

Apéndice

A fim de ilustrar como, de fato, a caridade crista se estende


a todos os indigentes, seguem-se aquí alguns traeos da atividade
benéfica do Vaticano no decorrer de 1960 :
(Temos consciéncia de que seria hediondo propor um rela-
tório déstes, se nao fósse a certeza de que se tornará útil a muitos
leitores).

A Comissáo de Auxilios da Santa Sé recebeu em 1960 um total


de 31.558 pedidos de ajuda provenientes de pessoas, familias e socie-

— 302 —
«IGKEJA CATÓLICA BRASILEIRA»

dades de todas as partes do mundo... Atendeu-lhes enviando ofertas


em dinheiro, pacotes de roupa e de víveres.
De maneira especial, a Santa Sé se interessou pelas populacóes
flageladas do ano, que váo aqui discriminadas por ordém alfabética:
Na Australia, onde o Estado da Tasmánia íoi vítima de enchentes.
No Brasil, cujó Nordeste sofreu inundacfies, merecendo parti
cular carinho os flagelados do Oros.
Na República de Costa Rica, onde a provincia de Guanacaste tam-
bém conheceu terrivel endiente.
Ñas Filipinas, devastadas pelo ciclone «Freda», que deixou 100.000
pessoas sem teto.
Ña Guatemala, onde urna Casa de Alienados íoi dolorosamente
destruida por incendio.
Ñas ilhas de Hawai, sacudidas por maremoto.
No Irá, onde a regiáo de Lar foi convulsionada por terremotos.
Na Italia, que sofreu pelo transbordamento do rio Garigliano,
assim como por sinistro desastre ferroviario em Monza.
No Japáo, cujas regióes de Sendai e Sapor sentiram as conseqüén-
cias de maremotos.
Ñas ilhas Mauricio, onde um ciclone destruiu 45.000 casas, ficando
dezenas de milhares de pessoas sem teto.
Na Nicaragua, vítima de tremenda tromba dágua na regifto de
León.
No Paquistáo oriental, devastado por ciclone e maremoto.
No Perú, flagelado por terremoto em Arequipa.
Na Polonia, que se ressentiu dolorosamente de inundaedes no
mes de agosto.
Na Uniao Sul-Africana, onde familias de trabalhadores se viram
destituidas de seus chefes sepultados vivos ñas minas de Coolbrok.
O «Circulo Sao Pedro» continuou a sua atividade mediante a
«Obra Pontificia das Cozinhas Económicas», a qual deu 730.928 refei-
c6es em doze postos-restaurantes e distribuiu 115.382 vales gratuitos
para se retiraron géneros ou alimentos nesses postos.
O Oficio de Esmolas do Vaticano («Elemosineria Apostólica»)
atendeu a numerosas familias, numa media de 110 pessoas por dia, a
quem procurou aliviar ñas miserias cotidianas. Ocupou-se com 800
casos de operarios desempregados, encaminhando-os para empresas ou
empreiteiros. Prestou subvencáo a seis escolas primarias, as quais
estavam anexas escolas maternas.
Possam estes póucos dados contribuir para dissipar alguns equí
vocos!

IV. HISTORIA DO CRISTIANISMO

F. R. (Novacap) :

5) «Desejaria um esclarecimento sobre a dita «Igroja Ca


tólica Apostólica Brasileira» (ICAB) fondada pelo ex-bispo de
Maura. Em particular, preciso de infonnacoes a respeito désse
movimento em Brasilia.
Nao há organizacoes semelhantes em ontros países da Amé
rica Latina?»

— 303 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 54/1962, qu. 5

O assunto focalizado nestas questdes tem algo de odioso, pois se


refere a certas pessoas e á sua conduta. Abordando-o apesar de tudo,
visamos únicamente íornecer informacQes serenas e seguras a Ieitores
que as solicitaran! a fim de orientar devidamente o seu modo de agir.
Proporemos primeiramente o que se refere á dita «Igreja Católica
Apostólica Brasileira*; depois, voltar-nos-emos em particular para o
que se dá em Brasilia e em alguns paises da América Latina.

1. Esbozo histórico e orientaba© da ICAB

A chamada «Igreja Católica Apostólica Brasileira» se deve


a D. Carlos Duarte Costa, ex-bispo de Maura.
Nasceu D. Carlos no Rio de Janeiro aos 21 de julho de-1888.
Fez parte de seus estudos eclesiásticos em Roma, vindo a ordé-
nar-se no Brasil a 1» de abril de 1911. Após desempenhar fun-
góes de responsabilidade no Rio de Janeiro, foi nomeado bispo de
Botucatu (Est. de S. Paulo) aos 4 de julho de 1924. Pouco feliz
decorreu o govérno do novo Prelado, que se viu envolvido em
questóes de mística desorientada, embates políticos e administra-
cáo financeira; pelo que, em 1937, foi destituido de sua diocese
e nomeado bispo titular de Maura (na Mauritania, África ociden-
tal), fixando residencia no Rio de Janeiro. Em breve, porém,
D. Carlos viu-se a bracos com novas hitas : em 1942 apelou pú
blicamente para o Presidente da República a fim de que inter-
viesse na Igreja e expulsasse bispos e sacerdotes «fascistas, na
zistas e falangistas»; acusou a Acáo Católica de espionagem em
favor do totalitarismo da direita; prefaciou elogiosamente o livro
«O Poder Soviético» de Hewlet Johnson e atacou por escrito as
Fórgas Armadas do Brasil. Em conseqUéncia foi preso como
comunista e enviado para urna cidade de Minas Gerais, onde per-
maneceu na qualidade de hospede.
Diante dos escándalos e rumores que se propagavam em
torno da pessoa de D. Carlos, as autoridades eclesiásticas, após
frustrados esforgos para apaziguar o Prelado, julgaram oportuno
suspendé-lo de ordens em 1944. Ficando vá, porém, esta medida,
D. Carlos foi excomungado aos 6 de julho de 1945, dia em que
resolveu fundar a dita «Igreja Católica Apostólica Brasileira»;
em vista de tal gesto, o Santo Oficio declarou D. Carlos excomun
gado «vitandus» (a ser evitado) aos 3 de julho de 1946 (a res-
peito de suspensáo e excomunháo, veja «P. R.» 54/1962, qu. 5).
Um dos primeiros atos públicos da ICAB foi a fundagáo do
«Partido Socialista Cristáo», sob a orientacáo de D. Carlos. Éste
chegou a apresentar um candidato á presidencia da República,
com o qual, porém, se desentendeu em breve, ficando fracassado
o novo partido.

— 304 —
«IGREJA CATÓLICA BRASILEIRA» '

Depois de excomungado, o fundador da ICAB apressou-se em


sagrar bispo o Rev. Salomáo Ferraz, que fdra pastor presbiteriano,
depois ministro episcopaliano. D. Salomáo, porém, nao permaneceu
com o seu novo Prelado, do qual se desligou em breve para organi
zar, por conta própria, a «Igreja Católica Livre» do Brasil (D. Salomáo
entrou finalmente na genulna e única Igreja Católica em 1960).

D. Carlos promoveu, direta ou indiretamente, a sagragáo de


21 bispos (entre os quais figura Anticuo Vargas, atualmente re
sidente em Lages, Sta. Catarina) e a ordenagáo de cérea de 150
sacerdotes domiciliados no Brasil. Muito precaria é a formagáo
intelectual e moral désses «ministros»; o candidato pode, em al-
guns casos, obter a ordenagáo sacerdotal dentro de oito dias.
Verifica-se, porém, que, assim como ésses membros fácilmente
apoiam a ICAB, assim fácilmente a desprestigian!, criando «cis
mas internos» ou abandonando por completo o movimento.
Assim da ICAB já procederam as seguintes ramificagóes :

Igreja Católica Livre ou Ordem de Santo André;


Igreja dos Velhos Católicos (seccao brasileira);
Igreja Ortodoxa Brasileira;
Igreja Ortodoxa Latina, além de outras mais, cuja existencia
produz lamentável confusáo religiosa e crescente relativismo entre
o povo.

A doutrína religiosa da ICAB tem-se caracterizado pelo


ecleticismo ou pela vacilacáo : pode alguém professar o budismo,
a teosofía, o espiritismo, a umbanda, o comunismo ou a macona-
ria e, nao obstante, pertencer á ICAB. O que esta requer, era
todo e qualquer caso, é que seus membros recusem obediencia
ao Papa. A revista dirigida por D. Carlos com o titulo «A Luta>
tem atacado nao sámente o Papado, mas também os votos reli
giosos, o celibato, a confissáo sacramental, além de outros pontos
doutririários da Sta. Igreja.

Urna das grandes fontes de renda do movimento é a celebracao


Inescrupulosa de cortos ritos (como pretensas «Missas» e «Crismas>,
casamentos de pessoas divorciadas ou desquitadas,...).
Asim, em dias de festa, já tem havido mais de 60 «Missas» cele
bradas por tres ou quatro «ministros» apenas no templo nacional de
Sant'Ana e Nossa Senhora Menina, da Penha (Rio de Janeiro); tra-
ta-se de celebrac.5es feitas «a seu modo», ou seja, mutiladas, até
mesmo ñas palavras da Consagracao.
De resto, os Estatutos da ICAB declaram que podem ser admiti
das nesta entidade todas as formas de culto, entendendo-se por culto
«qualquer manifestado regimentada filosófica ou temporal que vise
os dois postulados básicos das Igrejas Católicas Apostólicas Nacio-
nais : «Amai-vos uns aos outros» e «Nao fagáis, nem deixeis que facam,
ao próximo o que nao queréis que vos facam»» (cf. revista «Luta»
n* 1 [1947] pág. 20s).

— 305 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 54/1962, qu. 5

O ecleticismo de D. Carlos Duarte Costa lhe atraiu, por algum


tempo, a simpatía e o apoio de nao poucos oportunistas, entre os quais
una comunistas perspicazes, outros políticos desejosos de granjear
eleitores, até mesmo mediante subvencSes financeiras.

Em vista da confusáo provocada pelo uso de vestes sacer-


dotais e de cerimónias iguais 'as que se encontram na Igreja Ca
tólica, o Govérno Brasileiro aos 27 de setembro de 1949 proibiu
á ICAB o emprégo dos trajes eclesiásticos e dos ritos caracterís
ticos da Igreja Católica (parecer do Ministro Haroldo Teixeira
Valladáo, Consultor Geral da República, em resposta a urna con
sulta do Sr. Ministro da Justiga; texto publicado no «Diario Ofi
cial» de 25/IX/1948 e, em parte, transcrito na «Revista Eclesiás
tica Brasileira» 18 [1958] 565-570). Em conseqüéncia da ati-
tude do Govérno, D. Carlos prescreveu a seus ministros algumas
modificagSes na indumentaria (batina de cor cinza, por exem-
plo) e no exercício do culto, o que nao tem sido suficiente para
impedir dolorosos equívocos religiosos; apesar de toda a sua
aversáo á Igreja Católica Romana, D. Carlos e seus sequazes
sempre fizeram questáo de conservar certas costumes da Santa
Igreja. Em alguns Estados, a Policía tem-se empenhado pela
observancia da proibigáo governamental, vedando os atos públi
cos de culto dos movimentos cismáticos.

O. infeliz fundador da ICAB experimentou graves dissabores na


historia do seu empreendimento: assim viu a policia fechar o seu
Seminario no Rio por motivos de imoralidade e falsificado de di-
nhciro; viu também os seus bispos disputarem entre si a sucessáo na
chefia da ICAB; para apaziguar os ánimos, resolveu, pouco antes de
morrer, repartir os poderes entre D. Pedro dos Santos Silva (sacerdote
católico apóstata), o qual seria orientador geral da «Igreja» e bispo
do Estado do Rio de Janeiro, e D. José Aires Cruz (bancario, solteiro,
recém-sagrado), nomeado bispo do Estado da Guanabara.

Após existencia muito turbulenta e, sem dúvida, amargura-


da, veio D. Carlos a falecer aos 26 de margo de 1961 no Rio de
Janeiro, com a idade de 72 anos. Nao consta, haja dado sinais de
arrependimento; quando foi transferido para o Hospital na vés-
pera de sua morte, já se achava em estado inconsciente. Deus
o tenha em seu justo juízo!
Com o desenlacé do fundador, o movimento da ICAB per-
deu muitas das suas probabilidades de futuro. Contudo, embora
tenda a se diluir cada vez mais, vai exercendo agáo nefasta, pois
solapa a fé do povo brasileiro, fomentando um clima de relati
vismo e oportunismo em materia de religiáo (quem quer ter Re
ligiáo «a seu modo» encontra fácil cobertura na ICAB).
Problema especial é suscitado pelas sagracóes episcopais e
as ordenagóes sacerdotais que D. Carlos Duarte Costa efetuou :

— 306 —
«IGREJA CATÓLICA BRASILEIRA»

sendo verdadeiro bispo, éste Prelado fazia questáo de aplicar exa-


tamente o Ritual da Igreja Católica a fim de garantir a vali-
dade das ordens que conferia; terá entáo dado existencia a urna
serie de bispos e sacerdotes capazes de consagrar válidamente a
S. Eucaristía e celebrar a S. Missa, com os perigos de profana-
gáo daí decorrentes? — A éste respeito pronunciou-se oportuna
mente aos 12 de abril de 1958 o episcopado da Provincia de Belo
Horizonte, cuja declaragáo vai aqui transcrita :

«Nao faltam teólogos eminentes que póem em dúvida o valor das


ordenagoes da «Igreja Brasileira», o que, pelo menos, vem evitar a
profanagáo do augustíssimo Sacramento da Eucaristía, nao havendo
em suas missas consagracáo verdadeira (1)».

2. «Igrejas Católicas Nacionais»

Logo que rompeu com a Igreja Católica, tratou D. Carlos


de promover, a fundagáo de Igrejas Católicas «Nacionais», nao
só no Brasil mas também em outros países da América Latina.

Para auxiliá-lo nesta tárela, encontrou um sacerdote católico ve-


nezuelano, Luís Fernando Castillo Méndez, cuja situagáo eclesiástica
era complicada... Com efeito, o Pe. Méndez fóra ordenado sacerdote
em Barcelona (Espanha; portante lora da sua patria) mediante apre-
sentacáo de falsa carta comendaticia. Ao regressar & Venezuela, íoi
suspenso de ordens (2 de fevereiro de 1945). Retirou-se entáo para
urna fazenda no interior do país, a fim de evitar expulsáo da patria.
Aos 6 de julho de 1945, porém, tornou-se vitoriosa urna revolucao no
país, o que lhe possibilitou a realizagáo do seu desejo de fundar urna
Igreja Cismática Venezuelana. D. Carlos Costa, no Brasil, só podia
favorecer o intento, prontificando-se mesmo para sagrar «bispo primaz»
da nova Igreja o infeliz sacerdote. Contudo, já que os governos da Ve
nezuela e do Brasil nSo permitiam que os dois interessados se encon-
trassem em territorio venezuelano, foram ambos para o Panamá : assim
aos 3 de maio de 1948, na igreja «Unión» de Balboa (zona central do Pa
namá), D. Carlos sagrou bispo D. Luís Fernando Castillo Méndez, sendo
consagrantes salomáo Ferraz e Antídio Vargas, membros da ICAB.

(1) «O parecer désses teólogos se básela em que falta ao <Blspo de Maura»


e a seus adeptos a Intencao de fazer o que faz a Igreja. Apesar de o declararen)
com nalavras e com a lmttacfio servil dos ritos e das formulas, na reolldmle
éles nao querem fazer o que faz a Igreja, porque ordenam padres para vlverem
fora e contra a unldade da Igreja verdadeira, padres para enslnarem dogmas
diferentes e antagónicos aos que a Igreja enslna, padres para administraren!
sacramentos de cuja eficacia nao pensam mals como pensa a Igreja. Fazem
como a lercja faz, mas nüo fazcm o que a Igreja faz» (texto transcrito da
«Revista Eclesiástica Brasllelra» 18 [1958] 564).

Quem, na atimlnistracfio dos sacramentos, nao faz o qno a Isrreja faz, nao
faz o que Crista faz, pois Cristo prolonga a sua existencia e atuacao na Igreja;
nao há uniao com Cristo sem uniao com a Igreja e vice-versa. — Els o motivo
que leva a duvldar da valldade dos ritos sacramentáis conferidos pela ICAB.
A dúvida é multo plauslvel; nao há, porém, definlcao eclesiástica- percmptórla
sflbre o assunto. A Santa Sé, sem discutir a questao da validado, apenas declarou
que nao reconhece a legltlmldade das ordens conferidas pelo ex-bispo de Maura.

— 307 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 54/1962. qu. 5

O novo «primaz» comegou a exercer suas fungóes sagrando


bispos os sacerdotes Mons. Estéváo Corradi e Mons. Francisco
José Verde, que passaram a integrar a «Igreja Católica Vene-
zuelana».
Mons. Estéváo Corradi, por sua vez, sagrou Mons. Alberto
A. Steer, o qual se tornou bispo fundador da «Igreja Católica
Apostólica Panamense».
Quantq a D. Luís Fernando Castillo Méndez, foi depreen-
dido em atividades comunistas e exilado da Venezuela. Hospe-
dou-se entáo por breve tempo na Guatemala, onde deu inicio á
«Igreja Católica Apostólica Guatemalteca». A seguir, pediu a
protegáo de D. Carlos Costa, vindo para o Brasil, onde se en-
tregou a atividades pastorais em Uberlándia (Minas), no período
de 1950 a 1958; ao mesmo tempo lecionava espanhol no Colegio
Brasil Central da cidade, dirigido por magons. No Rio de Janeiro
(Santa Teresa), havia pequeño Seminario, sob a jurisdígáo de
D. Méndez, estabelecimento que foi fechado pela policía. Final
mente entrou em choque com o ex-bispo de Maura; veio para o
Rio de Janeiro, a fim de se desembaragar das crescentes dificul-
dades que encontrava para se impor em Minas e Goiás. Após o
desenlace de D. Carlos em 1961, aínda pretendeu tomar posse da
Arquidiocese da Guanabara, dentro da ICAB, mas nao o conse-
guiu, estrángeiro e turbulento como era. Transferiu-se entáo
para Brasilia, onde vai exercendo atividades...
Além das Igrejas Nacionais do Brasil, da Venezuela, do Pa
namá e da Guatemala, D. Carlos aspirava por ver aínda a do
México, esperando que suas relagóes com sacerdotes apóstatas
désse país dessem origem a mais um cisma.

3. Um juízo sobre o assunto

Como se compreende, absurda e contraditória é a idéia de


criar Igrejas Católicas «Nacionais». A Igreja de Cristo, justa
mente por ser católica (universal), paira ácima de qualquer
nacionalidades ela nao representa nem o patriotismo romano
nem o patriotismo brasileiro. Seu Chefe invisível é Jesús Cristo,
que quis ser representado na térra pelo apostólo Sao Pedro e
por seus sucessores (cf. Mt 16,16-18); ora, Pedro tendo sido
bispo e mártir em Boma, a Igreja de Cristo, que é também
Igreja petrina, é dita outrossim Igreja Romana. Éste atributo,
como se vé, nada tem que ver com nacionalismo; está longe, por-
tanto, de justificar a fundagáo de urna Igreja Católica «Brasi-
leira» ou «Venezuelana» ou «Panamense»:.. Cf. «P. R.»
13/1959, qu. 2.

— 308 —
«IGREJA CATÓLICA BRASILEIRA»

Alias, o cáfáter supra-nacional da Igreja de Cristo e o seu


govérno uno, centralizado (com sede em Roma) sao condigóes
de coesáo e grandeza da Santa Igreja. Os adversarios sempre
tiveram consciéncia disto, de modo que ainda hoje a tática dos
que desejam destruir o Cristianismo de maneira ainda mais efi
caz do que pela perseguigáo violenta, consiste justamente em
promover a fundagáo de Igrejas Nacionais autónomas; é o que
tém empreendido os governos comunistas na Europa Oriental e
na Asia... E foi infelizmente o que tentou realizar também
D. Carlos D. Costa, fazendo assim (sem o saber, talvez) causa
comum com os mais ferrenhos opositores do Cristianismo.
Como atenuante para a conduta do infeliz ex-bispo de
Maura, tem-se citado o seu temperamento extremamente nervoso
e vibrátil, que tocava mesmo as raias do patológico. Só Deus o
pode julgar devidamente.

Apéndice

A fim de ilustrar o histórico apresentado, segue-se um re


lato que o próprio D. Carlos, em forma de carta aberta, divulgou
a respeito das atividades de D. Luís Femando Castillo Méndez,
no intuito de esclarecer o público sobre as relagóes déste sacer
dote com a ICAB.

(Transcrito da revista «LUTA» de 23/III/1956, pág. 66s).

«Rio de Janeiro, 6 de Janeiro de 1956

Dom Luiz Fernando Castillo Méndez — Bispo Venezuelano — Ele


mento perigoso — Chantagista — Falsario.
Chegou ao Brasil, dizendo-se perseguido pelo seu Govérno por ter
sido o fundador da Igreja Católica Venezuelana.
Recebido crista e carinhosamente, visando suavizar seu exilio,
entreguei-o ao povo de Uberlándia, a quem muito prezo, desde os
tempos do saudoso Padre Pió, a quem meu tío, Dom Eduardo Duarte
Silva, muito estimava. Eram reminiscencias da minha mocidade, envol
vidas com a minha ordenacáo sacerdotal. Essa afinidade espiritual
íaz-se ter pelo Triangulo Mineiro um afago todo especial.
Um coracáo atribulado, como deveria estar o de Dom Luiz, encon
traría, como de fato encontrou, lenitivo para as chagas abertas em seu
espirito..
Povo libera], profundamente cristao, Uberlándia compreendeu o
meu gesto e foram abertas de par em par as portas dos lares.
Os dirigentes do Colegio Brasil Central deram-lhe cadeiras de en-
sino, para que nao lhe faltassem recursos, e foram muito além.
Sendo a Igreja Católica Apostólica Brasileira Nacional como Na
cional é a Igreja Católica Apostólica Venezuelana, e Nacionais seráo
todas as Igrejas a nascer do movimento libertador de 6 de julho de
1945 — isso, para que o Cristianismo volte aos tempos primitivos,
quando nacionais eram as Igrejas —, sem ferir ésse principio básico

— 309 —
«IGREJA CATÓLICA BRASILEIRA»

CORRESPONDENCIA MIÚDA

CARRERA e LEITORA ANÓNIMA (Rio de Janeiro) :


0 livro "Sexo ,e Amor" de Claudio de Araújo Lima deturpa o ideal
de sacerdotes e Religiosas recorrendo a exageros ou inverdades.
Haja vista o episodio da Papisa Joana, que o autor cita como se
fóra realidade histórica. Hoje. em dia nao há escritor serio que desco-
nheca o caráter lendário dessa narrativa ; nunca houve Papisa, muito
menos... a tal Papisa Joana ; veja-se a explica?áo do caso em "P. R."
3/1958, qu. 12. Nao obstante, Araújo Lima explora o episodio para
difamar as pessoas consagradas a Deus ; se o faz, está agindo por igno
rancia e incompetencia ou (o que seria pior) talvez por preconceitos de
má fé ; em qualquer caso, porém, o escritor, assim procedendo, se des
prestigia e perde autoridade ; desclassifica-se.
É a luz desta observacáo que se devem julgar os demais episodios
citados por Araújo Lima ; o autor' é unilateral.
Ninguém poderá negar a fraqueza humana de muitos membros da
Igreja (mesmo dos mais hierarquizados). Nao é honesto, porém, crer
simplóriamente em todo e qualquer caso escandaloso que se narre a tal
proposito ; a documentasáo apresentada é muitas yezes mal interpre?
tada ou até espuria. Ademáis, a miseria moral dos filhos da Igreja nao
contamina a santidade da Igreja, que é a Esposa de Cristo sem mancha
nem ruga, como diz S. Paulo (cf. Ef 5, 27); a própria Igreja é a pri-
meira a denunciar e condenar o pecado, onde quer que ele se encontré.
A prova de que a perfeic.áo da Igreja nao coincide com a de seus
filhos, mas a ultrapassa, é o fato de que Ela sempre tirou do seu intimo,
ou dos seus próprios recursos, os meios para renovar os cristáos e o
mundo, mesmo ñas épocas de maior depravagáo moral (assim na Re- .
nascen?a, por exemplo, & qual deu remedio o Concilio de Trento, séc.
XVI). A Igreja como tal nunca foi reformada (nem o poderá ser), mas
Ela reformou periódicamente (e continuará a reformar), com a sua vitan- .
dade, os seus setores necessitados de remodelacáo ou rejuvenescünento.-
Isto se explica pelo fato de que é Cristo quem vive na Igreja, fazendo
déla o seu Corpo Místico e garantindo-lhe urna atuac.áo segura e mfa-
lível, mesmo quando estes ou aqueles dos seus filhos falham.
Nao queira o observador identificar simplesmente a Igreja com a
face humana do clero ou dos cristáos ; Ela possui, além déste seu as
pecto sensível, urna realidade invisível, que é a vida do próprio Cristo
ou do próprio Deus nela latente. Contudo o Senhor nao nos dispensa
de procurar e aceitar a face humana da Igreja, porque é pelos homens
que Ele se quer dar aos homens.

SEMPER DUBITANS (Curitiba): Sobre a continencia em geral


e a possibilidade de a guardar antes do matrimonio, veja 'P. R.
35/1960, qu. 5 ; 36/1960, qu. 4.
Erróneo seria julgar que a observancia da pureza sexual é irreali-
zável ou contraria á saúde ; V. S. encontrará o depoimento de abaliza
dos médicos nos artigos citados. O que dificulta a prática da conti
nencia, é justamente a impressáo (táo divulgada hoje em dia atraves
de jomáis, cinema, radio e televisáo) de que ela é impossível ; quem
admite isto, está de antemáo semiderrotado na luta. Ao contrario, quem
se desembaraza déste preconceito, já vence'u grande parte das respecti
vas crises.
No que toca a "Moral sem pecado", veja "P. R." 7/1958, qu. 5 ;
5/1958, qu. 8.

— 311 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 54/1962, qu. 5

da Igreja Nacional Brasileira, estudei o meio de dar jurisdigáo a


Dom Luiz, nao podendo ele, como estrangeiro, ter súditos brasileiros,
chegando á conclusáo de imprimir validade a todos os seus atos, em-
prestando-lhe para ésse'fim a minha autoridade de tal maneira que os
atos praticados por ele fóssem tidos e havidos como praticados por
mim mesmo. Enquanto Dom Luiz se manteve dentro désses princi
pios, tudo correu bem. Sobrevieram porém as paixóes humanas que
ele nao soube conter e com elas o espirito de independencia. Dom Luiz
deixou de ser o exilado para se tornar um dos chefes'da Igreja Na
cional Brasileira. Comegou a agir por si próprio acumulando erros
sobre erros, terminando traindo-me e, comigo, a ICAB.
Para tanto, estabeleceu o reino da mentira e da indisciplina.
Comecou a ordenar sacerdotes indevidamente, trazendo-lhes dificulda-
des ao futuro. Por íim, fez-se bispo diocesano do Brasil Central; a
fim de conquistar a simpatía popular, usa e abusa do meu nome e
da ICAB.
Vai além: arranca dinheiro dos incautos, engaña as autoridades e
complica a situacáo de homens mercadores da fé pública. Falsifica
urna Ata e usa do meu nome, para que padres e civis a assinem, la-
zendo-lhes crer que está agindo de comum acordó comigo. Faz o tabe-
liáo reconhecer as firmas dos individuos que teriam assinado essa
suposta reuniáo que teria sido realizada numa suposta sede da ICAB
em Uberlándia. Promove disturbios em Goiás, que tiveram eco no
Parlamento Nacional. Jomáis e estacóes de radio publicam ésses acbn-
tecimentos, como realizados pela ICAB. Vou aos j ornáis e desminto a
participado da ICAB nesses disturbios. Foi quando procurei saber a
situacáo exata de Dom Luiz no Brasil, que é esta :
1) £ exilado; 2) Está autorizado a regressar ao seu país; 3)
O Govérno Venezuelano pagará a viagem de aviáo; 4) Nao poderá
se ocupar de assuntos religiosos; 5) Esta injungño íoi aceita, con
tanto que o Govérno da Venezuela lhe pague a importancia X, dos
bens imóveis da Igreja Católica Apostólica da Venezuela ou particula
res, seus e de sua familia; 6) Esta exigencia de Dom Luiz prova
quais sejam os bens da Igreja Católica Apostólica Venezuelana e quais
os seus particulares e de sua familia; 8) Os da Igreja Católica Apos
tólica Venezuelana, ele nao os poderá alienar, porque adquiridos pelo
povo, com o dinheiro do povo; 9) Colocada a questáo sob o ponto
de vista económico, íica provado que o IDEAL de Dom Luiz é o di
nheiro, e nao a libertacáo religiosa do povo da sua patria; 10) A solu-
cáo do caso fica afeta as autoridades competentes.
Fracassado em seu país e fracassado aqui, nao tem Dom Luiz
direito de perturbar a vida .de pacatas cidades do territorio goiano,
usando e abusando do nome meu e da ICAB. Contra ésse modo de pro
ceder de elemento estranho á ICAB, eu lango o meu protesto e, comigo,
protestam as circunscricdes eclesiásticas já existentes, que sao as de
Sta. Catarina e de Pernambuco, e todos os adeptos da Igreja Nacional
Brasileira, em todo o territorio Nacional.
As policías dos Estados de Minas Gerais e de Goiás examinem os
antecedentes de Dom Luiz. Verifiquem se os fatos sao verdadeiros ou
nao. Se Dom Luiz é ou nao um Elemento Perigoso, Chantagista e Fal
sario. Os disturbios provocados por Dom Luiz nao podem ficar sem
um corretivo, para o bem-estar da sociedade.
Agindo com sinceridade e lealdade, é o que me compete dizer aos
brasileiros dignos do Brasil.
(a) t Carlos Duarte Costa
Bispo do Rio de Janeiro, da ICAB»

— 310 —
. «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 54/1962

CÉT1CO : Sobre o valor da oracáo queira ver "P. R." 17/1959, qu. 2.
A oracáo nao pretende dobrar a santfssima Vontade de Deus (o
que seria infantilidade). Mas acontece que a soberana Vontade de Deus,
querendo conceder-nos as suas grabas, quer concede-las mediante a ora-
Sáo ; ela incluí a nossa prece nos seus designios de derramar beneficios,
a fim de que os recebamos conscientemente, e nao como os seres irra-
cionais, que nao pedem.
Se oramos com reta intenfáo, visando ácima de tudo a gloria de
Deus e a salva?áo das almas (como Jesús nos ensinou a pedir no "Pai
Nosso"), nunca é vá a oragáo, pois o Pai do céu, se por vézes nao dá
exatamcnte o que pedimos, dá entáo algo de equivalente, que corres
ponda ao nosso verdadeiro bem. Também acontece que file aterida, mas
nem sempre o manifesté. Nao deixemos, portante, de rezar, caro amigo,
com filial confianza, mesmo ñas mais desesperadas situac.6es.

EDUCADORA (Rio de Janeiro): A propósito do suicidio, sairá a


resposta em "P. R." 57/1962. — No que concerne o limbo, veja "P. R."
10/1958, qu. 5. O limbo nao constituí dogma de fé. Dado que exista
(como é sentenga comum entre os teólogos), nao é castigo nem sofri-
mento ; destina-se as crianzas mortas sem batismo (os adultos falecidoa
sem o sacramento seráo julgados segundo a sua consci&ncia e poderáo
gozar da bem-aventuranc,a celeste); o limbo perdurará mesmo após o
juízo final, pois as almas do limbo nao tém a graca sobrenatural -»ara
ver Deus face a face.

MARIANO LEITOR (San?Ana): Esperamos tratar de Prederico II


em um de nossos próximos números.

D. ESTÉVÁO BETTENCOURT OJSM.

A NOSSOS LECTORES E AMIGOS PEDIMOS ENCARECIDA


MENTE O FAVOR DE POR EM DÍA AS SUAS CONTAS COM «P. R.»,
A FEVI DE FACILITAR O NOSSO APOSTOLADO.

«PERGUNTE E RESPONDEREMOS»

■Assinatura anual de 1962 Cr$ 300,00


Assinatura anual de 1962 (via aérea) Cr$ 580,00
Número avulso de 1962 Cr$ 30,00
Número de ano atrasado Cr$ 35,00
Colecáo encadernada de 1957 Cr$ 400,00
Colefáo encadernada de 1958, 1959, 1960.. Cr$ 550,00 (cadaurna)
Colecáo encadernada de 1961 Cr$ 600,00

REDACAO ADMENISTRACAO
Caixa Postal 2666 R. Real Grandeza, 108 —Botafogo
Rio de Janeiro Tel. 26-1822 — Rio de Janeiro