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TEMPO PASCAL. QUINTA SEMANA.

SEXTA-FEIRA

80. O VALOR DA AMIZADE


– Jesus, “o amigo que nunca atraiçoa”. N’Ele aprendemos o verdadeiro valor da amizade.

– A amizade é um grande bem humano que podemos sobrenaturalizar. Qualidade da


verdadeira amizade.

– Apostolado com os amigos.

I. NINGUÉM TEM MAIOR AMOR do que aquele que dá a vida pelos seus
amigos. Vós sois meus amigos [...]. Já não vos chamo servos [...], mas
chamei-vos amigos1, diz-nos o Senhor no Evangelho da Missa.

Jesus é o nosso Amigo. N’Ele os Apóstolos encontraram a sua melhor


amizade. Era alguém que os amava, a quem podiam comunicar as suas
penas e alegrias, a quem podiam fazer perguntas com toda a confiança.
Sabiam bem o que Ele desejava exprimir quando lhes dizia: Amai-vos uns
aos outros... como eu vos amei2. As irmãs de Lázaro não encontraram melhor
título que o da amizade para solicitarem a sua presença: o teu amigo está
doente3, mandam dizer-lhe, cheias de confiança.

Jesus procurou a amizade de todos os que encontrou pelos caminhos da


Palestina. Aproveitava sempre o diálogo para chegar ao fundo das almas e
cumulá-las de amor. E, além do seu infinito amor por todos os homens,
ofereceu a sua amizade a pessoas bem determinadas: aos Apóstolos, a José
de Arimateia, a Nicodemos, a Lázaro e à sua família... Não negou ao próprio
Judas o honroso título de amigo, precisamente no momento em que este o
entregava às mãos dos seus inimigos. Estimava muito a amizade dos seus
amigos; depois da tríplice negação, perguntará a Pedro: Amas-me?4, és meu
amigo?, posso confiar em ti? E entrega-lhe a Igreja: Apascenta os meus
cordeiros..., apascenta as minha ovelhas.

“Cristo, Cristo ressuscitado, é o companheiro, o Amigo. Um companheiro


que se deixa ver apenas entre sombras, mas cuja realidade inunda toda a
nossa vida e nos faz desejar a sua companhia definitiva” 5. Ele, que
compartilhou a nossa natureza, quer compartilhar também os nossos fardos:
Eu vos aliviarei6, diz a todos. É o mesmo que deseja ardentemente que
partilhemos da sua glória por toda a eternidade.

Jesus Cristo é o Amigo que nunca atraiçoa7; quando vamos vê-lo, falar-lhe,
está sempre disponível, dá-nos as boas-vindas sempre com o mesmo calor,
ainda que nos veja frios ou distraídos. Ele ajuda sempre, anima sempre,
consola em qualquer ocasião.

II. A AMIZADE COM O SENHOR, que nasce e cresce pela oração e pela
digna recepção dos sacramentos, faz-nos entender melhor o significado da
amizade humana, que a Sagrada Escritura qualifica como um tesouro: Um
amigo fiel é uma protecção poderosa; quem o achou descobriu um tesouro.
Nada é comparável a um amigo fiel; seu preço é incalculável8.

Compreende-se bem que o trato diário e a amizade com Jesus Cristo nos
aumentem a capacidade de ter amigos, pois fomentam em nós uma atitude
aberta: a oração afina a alma e torna-a especialmente apta para compreender
os outros, aumenta a generosidade, o optimismo, a cordialidade na
convivência, a gratidão..., e essas virtudes facilitam ao cristão o caminho da
amizade.

A verdadeira amizade é sempre desinteressada, pois consiste mais em dar


do que em receber; não procura o proveito próprio, mas o do amigo: “O amigo
verdadeiro não pode ter duas caras para o seu amigo; a amizade, se deve ser
leal e sincera, exige renúncia, rectidão, troca de favores, de serviços nobres e
lícitos. O amigo é forte e sincero na medida em que, de acordo com a
prudência sobrenatural, pensa generosamente nos outros, com sacrifício
pessoal. Do amigo espera-se correspondência ao clima de confiança que se
estabelece na verdadeira amizade; espera-se o reconhecimento do que
somos e, quando necessário, a defesa clara e sem paliativos”9.

Para que haja uma amizade verdadeira, é necessário que o afecto e a


benevolência sejam mútuos10. E então tenderá sempre a tornar-se mais forte:
não se deixará corromper pela inveja, não arrefecerá pelas suspeitas,
crescerá na dificuldade11, “até fazer sentir o amigo como outro eu. Por isso diz
Santo Agostinho: Retratou bem o seu amigo aquele que o chamou metade da
sua alma”12. Então compartilham-se com naturalidade as alegrias e as penas.

A amizade é um bem humano e, ao mesmo tempo, ocasião de desenvolver


muitas virtudes humanas, porque cria “uma harmonia de sentimentos e gostos
que prescinde do amor dos sentidos, desenvolvendo, por outro lado, até
graus muito elevados, e mesmo até o heroísmo, a dedicação do amigo ao
amigo. Pensamos – ensinava Paulo VI – que os encontros [...] são uma
oportunidade para que as almas nobres e virtuosas gozem desta relação
humana e cristã que se chama amizade. Ela pressupõe e desenvolve a
generosidade, o desinteresse, a simpatia, a solidariedade e, especialmente, a
possibilidade de sacrifícios mútuos”13.

O bom amigo não desaparece nas dificuldades, não atraiçoa; nunca fala
mal do amigo nem permite que, quando ausente, seja criticado, porque toma
a sua defesa. Amizade é sinceridade, confiança, compartilhar penas e
alegrias, animar, consolar, ajudar com o exemplo.

III. AO LONGO DOS SÉCULOS, a amizade foi um caminho pelo qual


muitos homens e mulheres se aproximaram de Deus e alcançaram o Céu. É
um caminho natural e simples, que elimina muitos obstáculos e dificuldades.
O Senhor conta com frequência com esse meio para se dar a conhecer. Os
primeiros que o conheceram foram comunicar a boa notícia àqueles que
amavam. André trouxe Pedro, seu irmão; Filipe trouxe o seu amigo Natanael;
e foi João com certeza quem levou ao Senhor o seu irmão Tiago...

Assim se difundiu a fé em Cristo na primitiva cristandade: através dos


irmãos, de pais para filhos, de filhos para pais, do servo para o seu amo e
vice-versa, de amigo para amigo. A amizade é uma base excepcional para
dar a conhecer Cristo, porque é o meio natural de comunicar sentimentos, de
partilhar confidências com os que estão junto de nós por razões de família,
trabalho, inclinações...

É próprio da amizade dar ao amigo o melhor que se possui. O nosso valor


mais alto, sem comparação possível, é termos encontrado o Senhor. Não
teríamos verdadeira amizade pelos nossos amigos se não lhes
comunicássemos o imenso dom que é a nossa fé cristã. Em cada um de nós,
cristãos que queremos seguir o Senhor de perto, os nossos amigos devem
encontrar apoio, fortaleza e um sentido sobrenatural para as suas vidas. A
certeza de encontrarem em nós compreensão, interesse, atenção, animá-los-
á a abrir o coração confiadamente, cientes de que são estimados, de que
estamos dispostos a ajudá-los. E isto enquanto realizamos as nossas tarefas
diárias, procurando ser exemplares na profissão ou no estudo, permanecendo
abertos ao convívio com todos, movidos pela caridade.

A amizade leva-nos a iniciar os nossos amigos numa verdadeira vida cristã,


se estão longe da Igreja, ou a fazê-los retomar o caminho que um dia
abandonaram, se deixaram de praticar a fé que receberam. Com paciência e
constância, sem pressas, sem pausas, irão aproximando-se do Senhor, que
os espera. Haverá ocasiões em que poderemos fazer juntamente com eles
uns minutos de oração, praticar juntos uma obra de misericórdia visitando um
doente ou uma pessoa necessitada; pedir-lhes que nos acompanhem numa
breve visita a Jesus sacramentado... Quando for oportuno, falar-lhes-emos do
sacramento da misericórdia divina, a Confissão, e os ajudaremos a preparar-
se para recebê-lo.

Quantas confidências ao abrigo da amizade são caminhos abertos pelo


Espírito Santo para um apostolado fecundo! “Essas palavras que tão a tempo
deixas cair ao ouvido do amigo que vacila; a conversa orientadora que
soubeste provocar oportunamente; e o conselho profissional que melhora o
seu trabalho universitário; e a discreta indiscrição que te faz sugerir-lhe
imprevistos horizontes de zelo... Tudo isso é «apostolado da confidência»”14.

O Senhor deseja que tenhamos muitos amigos porque o seu amor pelos
homens é infinito e a nossa amizade é um instrumento para chegar a eles.
Quantas pessoas com quem estamos em contacto todos os dias esperam,
mesmo sem o perceberem, que lhes chegue a luz de Cristo! Que alegria de
cada vez que um amigo nosso se torna amigo do Amigo!

Jesus, que passou fazendo o bem15 e conquistou o coração de tantas


pessoas, é o nosso Modelo. Assim devemos nós passar pela família, pelo
trabalho, pelos vizinhos, pelos amigos. Hoje é um dia oportuno para que nos
perguntemos se as pessoas das nossas relações se sentem animadas pelo
nosso exemplo e pela nossa palavra a aproximar-se do Senhor; se nos
preocupamos pelas suas almas, se se pode dizer de verdade que, como
Jesus, estamos passando pelas suas vidas fazendo o bem.

(1) Jo 15, 13-15; (2) Jo 13, 14; (3) Jo 11, 3; (4) Jo 21, 16; (5) São Josemaría Escrivá, É Cristo
que passa, n. 116; (6) Mt 11, 28; (7) cfr. São Josemaría Escrivá, Caminho, n. 88; (8) Eclo 6,
14; (9) Josemaría Escrivá, Carta, 11-III-1940, citado por J. Cardona, em Gran Enciclopedia,
Rialp, voz Amistad II; (10) cfr. São Tomás, Suma Teológica, 2-2, q. 23, a. 1; (11) cfr. Beato
Elredo, Trat. sobre la amistad espiritual, 3; (12) São Tomás, Suma Teológica, 2-2, q. 28, a. 1;
(13) Paulo VI, Alocução, 26-VII-1978; (14) São Josemaría Escrivá, Caminho, n. 973; (15) At
10, 38.

(Fonte: Website de Francisco Fernández Carvajal AQUI)

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